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Fichamento: Letramento Literário, teoria e pratica

Cosson, Rildo

Letramento literário: teoria e prática\ Rildo Cosson.-2.ed.,2ª


reimpressão.-São Paulo: Contexto, 2012.

A introdução desse livro se inicia de uma forma bem interessante,


com a fábula do imperador chinês, é uma leitura prazerosa e de fácil
entendimento, que relaciona questões de aprendizagem da literatura
vivenciada diariamente pelos professores, onde muitos tratam a literatura
como uma coisa do passado que não tem nenhuma importância para os
dias atuais. Nota-se essa postura com relação ao saber literário pela
sobreposição a simples leitura no ensino fundamental, e a mesma
acontece no ensino médio com apenas uma aula por semana. Sendo
tratada dessa forma a literatura é vista por muitos como apenas historias
antigas, ou como um mistério, cuja interpretação esta fora do alcance do
leitor.

Na introdução também vem tratar o letramento, essa palavra que


tem uso recente na língua portuguesa, traduzida do inglês literacy, o
letramento.

Como explica Magda Becker Soares em Letramento: um tema em três


gêneros (1998) dá visibilidade a um fenômeno que os altos índices de
analfabetismo não nos deixavam perceber. Trata-se não da aquisição da
habilidade de ler e escrever, como concebemos usualmente a
alfabetização, mas sim da apropriação da escrita e das práticas sociais que
estão a elas relacionadas. Pag.11 (letramento literário de Rildo Cosson).

Existe, portanto vários níveis de letramento, onde alguém pode ser


doutor em determinada área ou assunto, pode saber falar muito bem se
expressar muito bem, porem pode ter apenas o conhecimento superficial
sobre outros determinado assunto, enquanto isso alguém sem nenhuma
escolaridade tenha o domínio sobre determinado assunto, sem nunca
sequer ter colocado os pés numa escola, isso porque a cultura e o meio
social que o individuo vive lhe proporcionou isso.

O letramento literário se diferencia por possuir uma configuração


especial. Ele compreende não apenas o uso social da escrita na sua
dimensão, mas ele assegura seu efetivo domínio, daí sua importância, em
qualquer processo de letramento, seja dentro das escolas, na cultura ou
na sociedade.

A literatura e o mundo

Trata-se do primeiro capitulo, que une a ideia do autor que diz que,
o corpo do ser humano é a soma de vários outros corpos, corpo físico,
corpo linguagem, corpo sentimento, corpo imaginário, um corpo
profissão... E assim por diante. E é essa mistura que faz o ser humano ser
o que é. A diferença de cada um, esta apenas no modo como exercitamos
cada corpo. Da mesma forma como o corpo físico tem a tendência a
atrofiar, os outros corpos se não exercitados também podem ser
atrofiados.

Neste sentido o nosso corpo linguagem funciona de uma forma


especial. Todos os seres humanos exercitam a linguagem de vários modos
ao longo da vida, pois ela é o que a linguagem permite dizer. O mundo gira
em torno da linguagem que a conduz nesse vasto sistema de divergentes
palavras, onde a fôrma por si só não fala, pois necessita das palavras para
defini-la.

O nosso corpo linguagem é formado das palavras que usamos, se


ele exercita e aprendem novas palavras com frequência maior ele será. As
palavras que o nosso corpo linguagem usa vem da sociedade em que ele
faz parte, sabendo que as palavras não tem um dono especifico, quando o
corpo linguagem faz uso dela ele se torna o dele como de qualquer pessoa
que assim o fizer, é por esse uso simultâneo e coletivo que as palavras se
modificam se dividem e se multiplicam.
A possibilidade do exercício do corpo linguagem nessa sociedade
letrada que temos, é grande, principalmente da escrita. Praticamente
todas as transações dessa sociedade letrada passam de alguma maneira
pela escrita, como os jogos que mesmo contendo imagens, mas não
dispensa as instruções escritas, os jornais, o locutor de radio que precisa
da escrita para falar os acontecimentos. Isto porque a escrita nos ajuda a
organizar nossas ideias e saberes levando-os por séculos, e é um dos
instrumentos mais poderosos de libertação das limitações física do ser
humano.

Comentario:

A sociedade é formada por uma vasta gama de saberes, de dizeres


popular, de pessoas que estão em diferentes níveis econômico e social. O
homem de classe media alta, o de classe baixa, o de classe alta. E no meio
de toda essa massa de saberes, encontramos a escrita, como a
transmissora ou tradutora dos sentimentos e símbolos que só podem ser
entendidos e ditos através dela.

Podemos perceber quão grande é o valor da escrita em nossa


sociedade letrada, através da multiplicidade de palavras diferentes para
apenas um significado, no qual se difere apenas de regiões e cidades,
torna-se ainda mais interessante e abrangente dentro do contexto de
corpo linguagem.

Visando como um instrumento de libertação das limitações física do


ser humano, através da escrita, a historia de toda a humanidade é
transmitida através dos séculos para posteriormente ser conhecida,
estudada e aperfeiçoada. Uma gama de informações que nem mesmo o
tempo poderia conter. Isso abrange também o mundo daqueles que por
alguma deficiência, não pode ter contato visual com a escrita comum, pois
até a estes não foi incumbido de saber os acontecimentos em geral,
devido ao Braille, que é um sistema de escrita tátil utilizada por pessoas
com deficiência visual ou de baixa visão.

Sendo assim, a escrita esta ao alcance de toda sociedade, na cidade,


no campo, ate em algumas aldeias, onde é permitido a sua introdução.
Cada tempo que passa um número maior de pessoas está usufruindo os
benefícios da escrita e sendo letrada pedagogicamente falando.

A literatura escolarizada

O autor deste livro relata uma de suas experiências na sala de aula,


ele como professor de letras que sempre procurou interligar a literatura
com a educação estava vivendo vários questionamentos sobre relações
possíveis entre esses dois campos. Durante uma aula ele foi questionado
por um aluno de pedagogia, sobre a presença da literatura no ensino
médio, dizendo que os professores ensinavam as características dos
períodos literários, coisas que poderiam facilmente ser ministradas em
aulas de historia. Em outra ocasião uma aluna que era professora no
ensino fundamental relatou que antigamente usava os textos literários
para ensinar os alunos a ler, mas que agora ela usa jornais, pois eles são
mais fácil de serem adquiridos e lidos pelas crianças. Em outro encontro
com alunos e pesquisadores, ouvi comentários de que hoje as imagens são
muito mais importantes que as palavras e a literatura com seus romances
e poemas, opinou-se que eles deveriam ser substituídos como objeto de
estudo por filmes, telenovelas e outros artefatos mais significativos
culturalmente.

Todos esses questionamentos mostram que a relação entre


literatura e educação esta longe de ser pacífica. Comentam que o lugar da
literatura na escola parece enfrentar um de seus momentos mais difíceis.
Para muitos estudiosos e professores, a literatura só se mantem na escola
por tradição e pelo currículo, uma vez que a educação literária é um
produto do século XIX e não tem se encaixa no século XXI. A literatura vem
tendo uma recusa na escola atual devido a multiplicidades dos textos, das
imagens, a variedades das manifestações culturais, entre tantas outras
características da sociedade contemporânea. Para se compreender
melhor como se chegou a esses questionamentos e a essa recusa da
literatura é preciso verificar como se constituiu a escolarização da
literatura.
O uso da literatura como matéria educativa tem longa historia, a
qual antecede a existência formal da escola, como nos lembra Regina
Zilberman, em Sim, a literatura educa (1990), as tragédias gregas tinham o
principio básico de educar moral e social o povo. Do mesmo modo é bem
conhecida a formula horaciana que reúne na literatura o útil e o
agradável. Essa tradição cristaliza-se no ensino da língua nas escolas com
um duplo pressuposto: a literatura serve tanto para ensinar a ler e a
escrever quanto para formar culturalmente um individuo. Foi assim no
latim e no grego antigo, cujo ensino se apoiava nos textos da Era Clássica,
para o aprendizado dessas línguas de uso restrito e para o conhecimento
produzido nelas. Bem assim tem sido com o ensino de literatura nas
escolas, que no ensino fundamental tem a função de sustentar a formação
do leitor e, no ensino médio, integra esse leitor a cultura literária
brasileira.

Comentario:

A literatura tem o poder de transportar e orientar o leitor, por


diversas áreas da vivencia, do intelecto e da fantasia. Zilberman
(2008,p.23) diz:

“Dúbia, a literatura provoca no leitor um efeito duplo: aciona sua


fantasia, colocando frente a frente dois imaginários e dois tipos de
vivencia interior; mas suscita um posicionamento intelectual, uma vez que
o mundo representado no texto, mesmo afastado no tempo ou
diferenciado enquanto invenção produz uma modalidade de
reconhecimento em quem lê”.

Considerando que, a literatura, interage em todos os âmbitos


internos e externos do leitor, fazendo com que este seja, um profundo
conhecedor de testos, analista de histórias, ajuda a aperfeiçoa a
gramatica, ensina a interpretar bem um texto, e ainda ensina questões de
ética e sociedade, chegando a incitar o ser humano em um ser bem mais
pensante, em vista desses atributos, as escolas deveriam enxergar melhor
e considerar todos os valores que a literatura, pode trazer para seus
alunos e toda sociedade num âmbito geral.
Sabendo do valor da importância da leitura literária, o ensino da
literatura deve-se priorizar nas escolas, sem fazer mutações na sua
essência, para que ela possa ser explorada na sua mais profunda nata de
sentido, que só a literatura pode proporcionar através da leitura, assim
como afirma Martins (1999,p.25) “a leitura seria a ponte para o processo
educacional eficiente, proporcionando a formação integral do individuo”.
Sendo assim, a leitura abre dimensões que somente um leitor ativo
poderia ter, neste âmbito social, que obriga o homem a acompanhar se
não andar no mesmo ritmo de transformações que acontecem ao
derredor, a leitura é a ferramenta na qual o homem pode usar para
interagir e sobreviver nesta sociedade baseado na escrita.

Aula de literatura: O prazer sob controle?

O professor ao receber os alunos de letras na disciplina teoria da


literatura, costumava fazer um teste sobre as expectativas dos alunos com
relação a literatura. O teste trazia a seguinte situação: um calouro de
matemática cumprimentava seu colega de letras dizendo que gostaria de
ter a boa vida do colega, as respostas foram bastante diversificadas de
acordo com o conhecimento prévio sobre literatura como disciplina
escolar, de um modo geral buscavam defender que estudar literatura era
tão complexo como estudar operações matemáticas. Depois de uma
dessas aulas, o professor foi chamado por um aluno que perguntou,
“professor, por que não podemos apenas ler os testos literários?” Esta
pergunta já era conhecida do professor e se repetiu de muitas formas e
em muitas situações diferentes.

O autor diz que na verdade, apenas ler é a face mais visível de


resistência ao processo de letramento literário na escola. É preciso ir além
da simples leitura do texto literário, quando se deseja promover o
letramento. Existem pressuposições sobre leitura e literatura que
pertencem ao senso comum, uma delas é que os livros, como os fatos,
jamais falam por si mesmos ao leitor. O que os fazem falar são os
mecanismos de interpretação que usamos. É necessário que no ambiente
escolar ensine ao aluno explorar de maneira adequada a leitura literária,
sabendo que ela é um lócus de conhecimento.

Outro equivoco é tratar a leitura literária como uma atividade


individual que não poderia ser compartilhada, mas é justamente ao
contrario. O efeito de proximidade que o texto literário trás é produto de
sua inserção profunda em uma sociedade, é resultado do diálogo que ele
nos permite manter com o mundo e com os outros. É importante citar
que a unicidade reside mais no que levamos ao texto do que no que ele
nos oferece. É por essa razão que lemos o mesmo livro de maneira
diferente em diferentes etapas de nossas vidas. Tudo isso fica ainda mais
evidente quando percebemos que o que expressamos ao final da leitura
de um livro não são sentimentos, mas sim os sentidos do texto, e é esse
compartilhamento que faz a leitura literária ser tão significativa em uma
comunidade de leitores.

Comentario:

A leitura literária é um lugar de conhecimento, não apenas no


ambiente escolar, mas sim em todos os âmbitos, mas para alcançar este
êxito, é preciso desde cedo, o leitor ser apresentado e inserido no
cotidiano didático das escolas. A respeito dessa reflexão, Dinorah fala
baseada em estatísticas, (1995, p.18)

“Forma-se o leitor mais ou menos até os quatorze anos de idade,


num processo que deveria ter raízes no lar, onde a criança, desde os
primeiros meses, tivesse chance de conviver com a magia das histórias,
lendas e poesias, narradas pelos pais, e com livros adequados a esta fase”.

Dessa forma percebe-se que se a leitura literária fosse inserida


desde cedo na vida das crianças, a exploração da literatura se tornaria
mais fácil e prazerosa, pelo habito de ter contato com ela desde a infância,
a começar de dentro de sua casa, pelos seus pais, com livros de literatura
infantil.
Sabe-se que na maioria das escolas publicas, o inicio do contato
com a leitura literária só acontece no ensino médio, o que na maioria das
vezes, problematiza a aceitação da literatura, surgindo então, uma certa
antipatia a esse tipo de leitura, onde surge os questionamentos, de achar
que a literatura é composta por histórias canônicas que não servem pra
nada, que poderiam ser ministradas facilmente nas aulas de historia, e
que não conseguem entender os textos literários por serem difícil de
interpretar, tornando-se assim um livro chato e de mau interpretação.

Leitura literária: a seleção dos textos

Quando queremos ler uma obra literária podemos ir a vários


lugares, como, uma biblioteca ou uma livraria e escolher o titulo, o autor e
o assunto que mais nos interessar, e é desse modo que os catálogos da
biblioteca são organizados, pelas identificações e temas, como ficção
policial, como geográfico-cultural, como literatura brasileira e literatura
colonial. Dessa forma ainda que surja alguma duvida sobre o livro
escolhido, podemos consultar as resenhas das revistas e jornais, podemos
checar a propaganda do mesmo, ver a lista de mais vendidos e falar com
amigos que já leram o livro. E é desta forma que a literatura é selecionada
tendo como ponto de partida o leitor, esta serie de fatores que chamam a
atenção do leitor que vão desde a forma como os livros são organizados
nas estantes, até ao mecanismo de incentivo ao consumo comum a
maioria dos produtos, é a chamada livre escolha que, nunca é
inteiramente livre.

Na escola quatro fatores são acrescidos a seleção da literatura. O


primeiro diz respeito aos programas que fazem seleção aos textos de
acordo com os fins educacionais, que podem ser a simples fluência da
leitura, como acontece lá nas series iniciais. O segundo fator trás a
questão da legibilidade dos textos, que separam os leitores segundo a
faixa etária ou serie escolar, determinando assim um tipo diferente de
linguagem. O terceiro fator esta relacionado às condições oferecidas para
a leitura literária na escola. Infelizmente na maioria das escolas brasileiras,
a biblioteca, quando existe, é sinônima de sala de livro didático, não tem
funcionário preparado para incentivar a leitura, e apresentam coleções
muito reduzidas e antigas, lembrando que a escola privada não esta fora
disto. O quarto fator é o mais determinante de todos aqui listados, o
professor é o intermediário entre o livro e o aluno. Vai depender muito do
conhecimento que ele trás consigo, pois desta forma ele tem condições de
fazer indicações de livros que outrora foi lido por ele, isso explica, por
exemplo, a permanência de vários livros no repertorio escolar por
décadas, é que tendo lido naquela serie ou naquela idade aquele livro, o
professor tende a indica-lo para os seus alunos, e assim sucessivamente,
do professor para o aluno que se fez professor.

Em síntese seria uma boa proposta combinar esses fatores de


seleção de textos, fazendo-os agir de forma simultânea no letramento
literário, lembrando sempre do cânone, pois é nele que encontrará a
herança cultural de sua comunidade, da mesma forma que também não
se pode apoiar apenas na contemporaneidade dos textos, mas sim na sua
atualidade.

Comentário:

O ato de ler é uma atividade de compreensão e interação, por isso o


leitor deve fazer uma boa escolha do livro, uma vez que, os sentidos que
estão embutidos nas entrelinhas do texto, irão proporcionar longas
reflexões para o individuo crescer como leitor critico e social, como fala
Geraldi e Lajolo.

“ A literatura é o resultado de uma série de convenções que uma


comunidade estabelece para a comunicação entre seus membros e fora
dela. Aprender a ler e ser leitor são práticas sociais que medeiam e
transformam as relações humanas [...], a leitura deve ser pensada como
um processo linear (LAJOLO apud GERALDI, 2004, p. 91)”

No que diz respeito a interpretação da leitura literária, ela não esta


apenas embasada em livros literários, mas também é preciso obter um
conhecimento em outros livros que englobam temas variados, para que o
conhecimento de mundo do leitor possa estar inteirado de diversos ramos
socioculturais e assim consequentemente será mais fácil e prazeroso a sua
interação com a leitura literária e o mundo, semelhante ao que Rossi diz;
“As perguntas que emergem são sempre as oportunas, para cada
pessoa, em cada momento da vida, pois a compreensão é diferente do
conhecimento da verdade, pois esta é uma coisa que estar certa ou
errada; é sim ou não. Mas interpretar é significar. E o significado surge a
partir do mundo do leitor, pois não existe interpretação desconectada do
mundo em que vive ( ROSSI, 2009, p. 19)”

A prática da leitura é fundamental, como também é fundamental a


participação do professor juntamente com a escola para que este
processo ocorra com sucesso. É importante que o docente atue de
maneira direta neste espaço educacional onde as praticas de leitura
devem acontecer e serem praticadas em todas as modalidades escolares,
sendo o professor o primeiro a despertar no aluno, o interesse e o prazer
pela leitura desde os primeiros anos escolares.

“A mediação do professor é fundamental, portanto, para formar o


leitor proficiente. Isso significa que, para o leitor ainda em formação, é
preciso que os objetivos de leitura sejam estabelecidos pelo professor, o
que implica, em primeiro lugar, a escolha adequada dos textos a serem
lidos em sala de aula. Se essa escolha não é feita pelo livro didático, mas
pelos professores, este passa a ocupar então o papel principal na
mediação entre o leitor e o texto (DEPIETRI, 2009, P. 53)”

Sendo assim o professor se torna o elemento de grande importância


nesta evolução de leitura e escrita do aluno, pois é dentro do ambiente
escolar que é preciso acontecer o despertar do alunado para o meio
social e cultural, e essa viajem cheia de aventuras precisa ter a sua grande
evolução dentro da escola, elaborando atividades que tenham
consonância com a vida social do aluno, tornando-a mais significativa, de
acordo com Martins e silva :

“ As primeiras experiências de leitura ocorrem no ambiente escolar,


mediadas pelo livro didático, pela metodologia de leitura desenvolvida
pelo professor\a , baseada na leitura em voz alta, nas perguntas e nas
respostas relacionadas na interpretação dos textos (MARTINS e SILVA,
2010, p. 26)
O processo de leitura

Certa professora dava aula numa escola particular em um bairro de


classe media alta, na escola havia uma biblioteca com um bom acervo de
livros e um bom programa de incentivo a leitura; Os alunos em suas casas
tinham pais leitores e o manuseio de livros era uma realidade desde antes
da entrada na escola. Eram alunos saudáveis, bem alimentados e
conectados com o mundo que conhecem via internet e pessoalmente em
suas viagens de férias. Enfim apresentam todas as condições que se
mostram propicias para o desenvolvimento da leitura, ou seja, não havia
neste caso, estudantes de escolas publicas, desnutridos, de baixa renda,
com pais não leitores, sem acesso a livros em casa e na escola. A despeito
disso, a professora que trabalha com alunos do quarto ano, não se mostra
satisfeita com o desempenho de um grupo de seus alunos. Eles leem em
voz alta com fluência, tomam livros emprestados da biblioteca, e
costumam realizar as atividades pedidas, mas mesmo assim eles não
conseguem interpretar o texto lido.

O professor levou a preocupação da sua aluna professora para casa


e sala de aula, para tentar buscar alguma solução. Qual foi sua surpresa
quando em diálogos com outros professores obteve uma resposta que lhe
deixou surpreso; a questão é que, o problema não era a interpretação,
mas sim a decifração.

Os alunos não sabem decifrar a escrita, não dominam as letras, são


praticamente analfabetos. Estas situações chamam a atenção para uma
reflexão sobre a leitura e o que sabemos sobre ela. Alberto Manguel, em
Uma historia da leitura (1996), chama a atenção para o fato da leitura não
esta restrita as letras impressas em uma pagina de papel. Os astrólogos
leem as estrelas para prever o futuro dos homens. O musico lê as
partituras para executar a sonata. A mãe lê no rosto do bebê a dor ou o
prazer. O agricultor lê o céu para prevenir-se da chuva. O amante lê nos
olhos da amada a traição. Em todos estes gestos esta a leitura, ou como
diz o autor, “todos eles compartilham com os leitores de livros a arte de
decifrar e traduzir signos”. De modo didático, tomando-se a leitura como
um fenômeno simultaneamente cognitivo e social, reuniram-se diferentes
teorias sobre a leitura em três grandes grupos, de acordo com Vilson J.
Leffa, em Perspectivas no estudo da leitura: texto, leitura e interação
social (1999). O primeiro grupo esta centrado no texto. Neste caso ler é
um processo de extração de sentido que esta no texto. E esta extração
passa por dois níveis, o nível das letras e palavras, que estão na superfície
do texto, e o nível do significado, que é o conteúdo do texto. Quando
consegue fazer essa extração, fez-se a leitura.

O segundo grupo toma o leitor como centro da leitura. Estas são


teorias de abordagens que a definem como o ato de atribuir sentido ao
texto. Sendo assim ler depende mais do leitor do que do texto, é o leitor
que elabora e testa hipóteses sobre o que esta no texto. E terceiro, as
teorias consideradas conciliatórias. Para elas o leitor é tão importante
quanto o texto, sendo a leitura o resultado de uma interação. Trata-se de
um dialogo entre autor e leitor mediado pelo texto, que é construído por
ambos nesse processo de interação.

Comentários:

Pode-se dizer que, a leitura é um processo de interação do leitor


com o livro, na medida em que, o leitor vai se aprofundando no ato de ler,
ele estará abrindo para si novos horizontes e um novo mundo, dessa
forma então podendo chegar a compressão do texto, que é um processo
de conhecimento que o leitor adquiri durante toda a sua vida. Segundo
Kleyman (2002)

“O conjunto de noções de conceitos sobre o texto que chamaremos


de conhecimento textual, faz parte do conhecimento prévio e
desempenha um papel importante na compreensão do texto”.

Observa-se que a leitura não é apenas um processo de


decodificação de sentidos e símbolos linguísticos, mas sim de interação do
leitor com a obra. Para que a leitura se torne prazerosa e solida é
importante que o leitor jovem ou criança compreenda a função da leitura.
Segundo Kleyman, (2002), “Muitos fatores envolvidos na dificuldade que
um principiante encontra para chegar a ler é que os textos são muito
difíceis para eles”.
Alguns fatores podem dificultar na compreensão do que estar
lendo, um deles é a falta de compreensão do léxico , outro pode ser a má
elaboração do texto ou a falta de conhecimento prévio do assunto
discorrido no texto.

Existe um sentido chamado sensorial da leitura que tem inicio bem


cedo, este acompanhara ao leitor por toda a vida, independente do tipo
de leitura que o leitor possa fazer. Este tem ligação com os sentidos do
corpo humano, como a visão, o tato, o olfato, paladar, e também podem
ter ligação com os aspectos lúdicos, como imagens e sons etc., este
sentido irá trazer para o leitor os sentidos que lhe agrada ou não numa
leitura. No processo de leitura o leitor poderá trazer sentido ao texto ou
não, de acordo com seu histórico de leitura que ele tem visto durante o
percurso de sua trajetória.

Estratégias para o ensino da literatura: a sistematização


necessária

Em outra pesquisa realizada pelo professor sobre, o ensino de


literatura em certa cidade por nome pelotas, teve como objetivo analisar a
partir da perspectiva dos professores, o funcionamento dessa matéria no
ensino médio. Foram usados como instrumentos questionários e
entrevistas com quase totalidade dos professores de literatura da cidade.
Um dos tópicos abordados foi a descrição das atividades realizadas como
parte da aula de literatura. De um modo geral os professores adotavam
como pratica das aulas a exposição e critica oral do texto lido pelos
alunos, desde os debates como temas da obra até dramatizações de
trechos e o júri simulado de personagens. Havia também a exigência da
leitura compreensiva, verificada pelos comentários sobre o texto,
relatórios e fichas de leituras, ao lado de atividades voltadas para a
identificação das características do autor e das personagens, para a
ligação temática entre a obra e o presente do aluno e a atualidade social
do país, além de seminários que abordam algum aspecto da obra lida ou
faziam comparações entre diferentes textos.

As varias pesquisas indicam que existe varias semelhanças nas


atividades realizadas nas aulas de literatura. Desse modo quando o
professor determina a leitura de obra literária, sua primeira ação parecer
ser a de comprovação da leitura, ou seja, conferir se aluno leu
efetivamente o texto. Depois ele busca ampliar essa primeira leitura para
outras abordagens que envolvem a crítica literária e outras relações entre
o texto, o aluno e a sociedade. Esses dois movimentos estão
instintivamente corretos, mas precisam ser organizados. É necessário que
sejam sistematizados em um todo que permita ao professor e ao aluno
fazer da leitura literária uma pratica significativa para eles e para a
comunidade em que esta inserida, uma pratica que tenha como
sustentação a própria força da literatura, sua capacidade de nos ajudar a
dizer ao mundo e a nós dizer a nos mesmos.

Comentário:

Das atividades realizadas nas aulas de literatura, destaca-se a leitura


literária que após a leitura, é feita a comprovação de leitura pela
professora. Esse acontecimento é muito comum em algumas escolas, mas
para que haja o crescimento intelectual, social, cultural e literário do
leitor, essas práticas precisam ter um movimento continuo das sequencias
de leitura, ou seja, partir das leituras mais fáceis para as mais difíceis, do
conhecido para o desconhecido, das simples para as complexas, com o
objetivo de proporcionar ao leitor um repertorio cultural complexo e
sociocultural, esse ato continuode leitura tambem irá proporcionar ao
aluno o habito de já estar familializado com o tipo de leitura literaria,
como diz Martins ;

(… ) aprender a ler significa também aprender a ler o


mundo, dar sentido a ele e a nós próprios, o que, mal ou bem,
fazemos mesmo sem ser ensinados. A função do educador
não seria precisamente a de ensinar a ler, a de criar condiçoes
para o educando realizae a sua propria aprendizagem,
conforme seus proprios interesses, necessidades, fantasias,
segundo a dúvida e exigências que a realidade lhe apresenta
(p.34)

A frequência básica

A sequência básica do letramento na escola, é constituída por


quatro passos: motivação, introdução, leitura e interpretação.

Motivação:

Ao denominar motivação a esse primeiro passo da sequência básica


do letramento literário, indicamos que seu núcleo consiste exatamente
em preparar o aluno para entrar no texto, pois o sucesso inicial do
encontro do leitor com a obra depende de uma boa motivação.

Nesse sentido, observa-se que as bem-sucedidas práticas de


motivação são aquelas que estabelecem laços estreitos com o texto que
se vai ler. A construção de uma situação em que os alunos devem
responder a uma questão ou posicionar-se diante de um tema é uma das
maneiras usuais de construção da motivação. Um exemplo é a motivação
realizada para leitura do conto “O herói”, de Domingo Pellegrini ( tempo
de menino, 1991), que trata do súbito e doloroso amadurecimento de um
garoto perante a morte de seu cachorro. Tomando como base o núcleo
dramático da historia, a motivação, que chamamos de rito de passagem,
consiste em conversar com os alunos sobre as diferenças entre o mundo
dos adultos e das crianças. Em seguida, solicita-se que anotem o que
consideram comportamento adulto. As definições devem ser lidas para a
turma e discutida de maneira breve. Em um segundo momento, o
professor solicita que os alunos escrevam o que acham necessário para se
chegar a maturidade. O texto produzido nessa motivação pode ser
utilizado para introduzir a interpretação no final da sequencia básica.

Introdução
Chamamos de introdução à apresentação do autor e da obra.
Apesar de parecer uma atividade relativamente simples, requer alguns
cuidados do professor. Um primeiro é que a apresentação do autor não se
transforme em longa e expositiva aula sobre a vida do escritor, com
detalhes biográficos que interessam a pesquisadores, mas não são
importantes para quem vai ler um de seus textos.

Outro cuidado que se deve ter é na apresentação da obra. Muitas


vezes achamos que aquela obra é tão interessante que basta trazê-las
para os alunos, ela vai falar por si só. De fato ela fala e pode até prescindir
da intervenção do professor, mas quando se estar em um processo
pedagógico o melhor é assegurar a direção para quem caminha com você.
Por isso cabe ao professor falar da obra e da sua importância naquele
momento, justificando assim sua escolha. Nessa justificativa, usualmente
evita-se fazer uma síntese da historia pela razão obvia de que, assim, se
elimina o prazer da descoberta. Em alguns casos, entretanto, essa
estratégia pode ser usada justamente para despertar no leitor a
curiosidade não sobre o fato, mas sim sobre como aconteceu.
Independente da estratégia usada para introduzir a obra, o professor não
pode deixar de apresenta-la fisicamente aos alunos.

A apresentação física da obra é também o momento em que o


professor chama a atenção do aluno para a leitura da capa, da orelha e de
outros elementos paratextuais que introduzem uma obra. As apreciações
criticas presentes nas orelhas ou na contracapa são instrumentos
facilitadores da introdução e muitas vezes trazem informações
importantes para a interpretação. O professor pode aproveitar o tom
positivo desses textos para explicitar aos alunos as qualidades que
levaram a selecionar tal obra. Eles também podem, ser usados para
mostrar os caminhos de leitura previsto pelo autor\editor. Se deve porem
ter cuidado de não toma-los como a direção de leitura da obra, mas sim
como uma leitura entre outras. Também tem relevância os prefácios que
possuem lugar especial na introdução. Eles são em geral objetos de
atividades especificas de confronto de expectativas do leitor e fornecem
elementos para debates e outras atividades que se desenvolverão antes
e\ ou depois da leitura. Mesmo que a exploração detalhada do prefacio
esteja programada para ser realizada apenas ao final da leitura, é
pertinente que a existência dessa peça introdutória seja sinalizada pelo
professor já na introdução.

Leitura

O acompanhamento de leitura é considerado essencial nesta etapa


de letramento literário. Usualmente o professor solicita que o aluno leia
um texto e, durante o tempo dedicado aquela leitura, nada mais faz. Se
for a leitura de pequeno texto a ser feita em sala de aula, de fato a pouco
o que se fazer a não ser esperar que o aluno termine a tarefa. Todavia,
quando tratamos de livros inteiros, esse procedimento já não é adequado.
A leitura escolar precisa de acompanhamento porque tem uma direção,
um objetivo a cumprir, e esse objetivo não deve ser perdido de vista. Não
se pode confundir, contudo, acompanhamento com policiamento. O
professor não deve vigiar o aluno para saber se ele esta lendo o livro, mas
sim acompanhar o processo de leitura para auxilia-lo em suas dificuldades,
inclusive aquelas relativas ao ritmo da leitura.

Nesse sentido, quando o texto é extenso, o ideal é que a leitura seja


feita fora da sala de aula, seja na casa do aluno ou em um ambiente
próprio, como a sala de leitura ou a biblioteca por determinado período.
Durante esse tempo, cabe ao professor convidar aos alunos a apresentar
os resultados de sua leitura no que chamamos de intervalos. Isso pode ser
feito por meio de uma simples conversa com turma sobre o andamento da
historia ou de atividades mais especificas.
Interpretação

Iremos pensar na interpretação em dois momentos: um interior e


outro exterior. O momento interior, é aquele que acompanha a
decifração, palavra por palavra, página por página, capítulo por capítulo, e
tem seu ápice na apreensão global da obra que realizamos logo após
terminar a leitura. É o que gostamos de chamar de encontro do leitor com
a obra. Esse encontro é de caráter individual e compõe o núcleo da
experiência da leitura literária. Ele não pode ser substituído por nenhum
mecanismo pedagógico, a exemplo da leitura do resumo, nem
compensado por algum artificio de intermediação, como o ver o filme ou
assistir a minissérie na televisão em lugar de ler o livro.

O momento externo é a concretização, a materialização da


interpretação como o ato de construção de sentido em uma determinada
comunidade. É aqui que o letramento literário feito na escola se distingue
com clareza da leitura literária que fazemos independentemente dela.
Quando interpretamos uma obra, ou seja, quando terminamos a leitura
de livro e nos sentimos tocados pela verdade do mundo que ele nos
revela, podemos conversar sobre isso com um amigo, dizer no trabalho
como aquele livro nos afetou e até aconselhar a leitura dele a um colega
ou guardar o mundo feito de palavras em nossa memória.

Na escola, entretanto, é preciso compartilhar a interpretação e


ampliar os sentidos construídos individualmente. A razão disso é que, por
meio do compartilhamento de suas interpretações, os leitores ganham
consciência de que são membros de uma coletividade e de que essa
coletividade fortalece e amplia seus horizontes de leitura. Trata-se pois da
construção de uma comunidade de leitores que tem nessa ultima etapa
seu ponto mais alto. Esse trabalho requer uma condução organizada, mas
sem imposição. Não cabe, por exemplo, supor que existe uma única
interpretação ou que toda interpretação vale a pena.

As atividades de interpretação devem ter como principio a


externalização da leitura, isto é, seu registro. Esse registro vai variar de
acordo com o tipo de texto, a idade do aluno e a serie escolar, entre
outros aspectos. Para se realizar o registro da interpretação, nem sempre
é necessário um grande evento, o importante é que o aluno tenha a
oportunidade de fazer uma reflexão sobre a obra lida e externalizar essa
reflexão de uma forma explicita, permitindo o estabelecimento do dialogo
entre dois leitores da comunidade escolar. Nesse sentido uma pratica que
tem sido adotada por varias escolas é a resenha. Ao concluírem a leitura
de uma obra, os alunos são convidados a elaborar um texto em que
registram suas impressão sobre o texto lido em temos apreciativos e
podem recomendar ou não a leitura para outros colegas.