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CORREIO BRAZILIENSE,

OU

ARMAZÉM LITERÁRIO.

VOL. XXV.

LONDRES:

IMPRESSO POR R. GREENLAW, 36, HOLBORN.

1820.
CORREIO BRAZILIENSE

OU

ARMAZÉM LITERÁRIO

JULHO DEZEMBRO, 1820


Xll
Hipólito chama a atenção para o fato de não ouvir falar na
convocação de deputados do Brasil. Se estes não forem convoca-
dos, diz ele. "ei rei será o soberano de ambos os reinos, mas eles
serão os reinos desunidos de Portugal e do Brasil. [...] a diversi-
dade de instituições políticas, principalmente as essenciais, não
pode deixar de ocasionar diversidade de caráter, de interesses e
de máximas; e dois povos, ainda que sujeitos ao mesmo sobera-
no, colocados em tais circunstâncias, é impossível que continu-
em unidos por longo tempo".
Mais adiante, diz considerar inútil a proposta do imperador rus-
so, no sentido de que as Cortes européias exijam do governo espa-
nhol uma desaprovação formal do modo pelo qual a Constituição
de 1812 fora restabelecida. "Grande parte das instituições políti-
cas da Europa, derivadas do sistema feudal, são de todo incompa-
tíveis com os costumes e idéias do nosso século; e portanto não
podem subsistir. Assim, ou os governos as hão de alterar por si
mesmos, ou convulsões violentas, seja das tropas seja do povo, as
derribarão, sempre que a ocasião se apresente." Tal não ocorreria
se os governos se antecipassem, adaptando as instituições políti-
cas às mudanças dos costumes nas nações. Como ele mesmo lem-
bra no início do volume, "nossa intenção sempre tem sido, traçar a
linha de limites, entre a correção dos abusos, e a total subversão
da ordem e s t a b e l e c i d a ; ainda que t e n h a m o s contra nós os
partidistas de ambos os extremos"
No noticiário internacional, Hipólito ressalta a correspondên-
cia entre o governo de Buenos Aires e a França em torno do projeto
de se criar na América espanhola uma monarquia encabeçada pelo
príncipe de Luca, então com 18 anos e da família dos Bourbons.
Por trás desse projeto estava o apetite do governo francês pelas
províncias do Prata, o desejo dos aliados na Europa de sufocar as
idéias republicanas da América e a necessidade de se opor aos
interesses da Inglaterra na região.
Dentre as novas publicações em Inglaterra, Hipólito mencio-
na a ironia da edição da Arte de Furtar do padre Antônio Vieira,
dedicada a Targini, o tesoureiro de d. João VI. Também registra o
lançamento das \otas sobre o Rio de Janeiro, de John Luccock, e
da Mitologia Egípcia, de James Cowles Prichard. Anuncia ainda
o aparecimento em Londres do jornal The Catholic Advocate, com
o objetivo de "defender os interesses dos católicos na Inglaterra
e Irlanda; no sentido de uma tolerância geral, a qual não tem
sido até aqui atendida"
CORREIO BRAZILIENSE

OU

ARMAZÉM LITERÁRIO.

VOL. X X V .

LONDRES:

IMPRESSO POR R. GREENLAW, 36, HOLBORN.

1820.
CORREIO BRAZILIENSE
DE JULHO 1820.

Na quarta parte nova os campos ara ;


E se mais mundo houvera là chegara.
CAMOF.N8, C. V I I . O 1 4 .

POLÍTICA.

R E Y N O US1DO D E PORTUGAL, BRAZIL, E ALGARVES.

Decreto de perdaõ aos desertores no Brazil.

Constando na minha Real Presença pelas repetidas re-


presentaçoens dos Governadores e Capitães Generaes, e
participaçoens dos Chefes dos corpos, as muitas de6er-
çoens que se commettem, esquecendo-se os soldados da
honra e brio militar, e encontrando facilidade na passa-
gem de umas para outras provincias, e azylo em alguns
districtos, sem que os Commandantes delles, e officiaes
de ordenanças, e milícias cumpram com a obrigação que
tem de OB prender, e remetter aos seus respectivos cor-
pos : hei por bem que em todas as Provincias do Brazil
e observe exactamente a ley de seis de Abril de mil
V o t . XXV. N°. 146 B
4 Política.
settecentos sessenta e cinco; ficando sugeitos á condem»
naçaõ dos vinte mil réis, e perda do posto os Capitães
de ordenanças, quando forem também Commandantes
do districto, ou qualquer outro official seja de ordenan-
ças, seja de milícias, que esteja exercitando o referido
Commando do districto, aonde for encontrado, ou de-
clarar que esteve acolhido, qualquer desertor, No caso
porém que o Commandante tenha dado parte ao Gover-
nador da Provincia, dos desertores que estão no seu dis-
tricto, por lhe ser necessário maior força para os pren-
der, nesse caso se deverá attender â escusa, como ella
merecer, para o relevar da imposição das referidas pe-
nas : e quanto aos receptadores, se observará o que foi
determinado por ordem minha na Portaria de onze de
Julho de mil oitocentos e dezoito: e ordeno que esta de-
terminação principie a ter vigor três mezes depois que
for publicada no Quartel General de cada Provincia; e
durante este tempo concedo perdaõ da pena a todos os
desertores que se apresentarem, os quaes voltarão a ser-
vir nos seus corpos; e aquelles que tiverem deserção an-
tiga, ou alguma justa causa de isenção, se me dará
parte: Findo porém o referido prazo, se procederá na
fôrma das sobredictas leys, impondo-se as penas estabe-
lecidas na ordenança de nove de Abril de mil oitocentos
e cinco aos desertores da tropa de linha, e aos das milí-
cias as penas estabelecidas no parrafo duzentos e cinco
do Regimento de vinte de Fevereiro de mil settecentos e
oito. O Conselho Supremo militar o tenha assim enten-
dido, e o faça executar, expedindo as ordens necessá-
rias. Palácio do Rio-de-Janeiro, em dezenove de Janeiro
de mil oitocentos e vinte.

Com a Rubrica de Sua Majestade.


Política. 5

Decreto para os repairos das fortalezas.


Sendo-me presente o grande trabalho, e despeza com
que se tem reparado, e municiado as fortalezas ; e sendo
necessário dar providencias sobre a sua conservação:
addicionando os parrafos sessenta e cinco, sessenta e seis,
sessenta e sette, e sessenta e oito do Regimento do Exer-
cito de vinte de Fevereiro de mil settecentos e oito, sou
servido determinar: que os Governadores ou quasquer
Officiaes Commandantes de praças, fortalezas ou batarias,
sejam obrigados a fazer conservar em bom estado a ar-
tilheria, reparos, e palamenta pertencente á sua praça.
Quando aconteça qualquer ruína nas muralhrs, quartéis,
armazéns, estacadas, e semelhantes, que poderem logo
fazer concertar pelos soldados artífices, ou por faxina, o
deverão mandar fazer; e quando forem obras maiores,
pedirão ao Governador da Provincia as ordens, e os
meios para as mandarem apromptar, com a avaliação da
despeza que for necessária. Todos os seis mezes faraõ
pintar com composição as peças de ferro, e mais ferra-
gens, que fôr preciso resguardar do tempo; e pintar a
oíeo, ou aicatroar todos os reparos, e madeiramentos,
que se costumam assim resguasdar: e mandarão fazer a
folha da despeza, que, sendo approvada pelo General,
será paga pelas Junctas da Fazenda. Aonde for necessá-
rio fazer construir armazéns, ou telheiros ao pé das bata-
rias, para estarem em resguardo as peças, que naõ fo-
rem precisas nas mesmas batarias, mando que se con-
ertruaõ, no lugar que o Governador da Provincia destinar
como mais próprio, e o commandante ficará obrigado á
conservação, e ao resguardo das peças na forma declarada.
O commandante, que for achado em culpa, ou omissão
a este respeito, será removido do commando, e conforme
o caso, terá a pena ao meu Real arbítrio. Nas fortalezas
g Política.
aonde, ou por necessidade, ou por utilidade houver bata-
rias fluctuantes, ou barcas artilherias seraõ reputadas per-
tencerem ás mesmas fortalezas ; e o commandante será
responsável pela sua conservação e resguardo, e se faraõ
os telheiros necessários para esse fim. O que com tudo
naõ impedirá a inspecçaõ, que a esse respeito deve haver
pela repartição da Marinha. Para que sejaõ effectivas
estas Providencias, hei por bem crear no Conselho
Supremo Militar desta Corte uma Commissaõ Geral das
fortalezas e postos de Guerra, que será exercitada por
um dos conselheiros que eu nomear, o qual deverá ter a
seu cargo a Inspecçaõ Geraldo Reyno do Brazil, ficando
sempre em seu vigor a determinação do parrafo cento e
sette do sobredicto Regimento, e mandará fazer pelos Of-
ficiaes, que proporá no Conselho; cada um dos quaes
irá á Provincia, ou Districto que lhe fòr determinado,
para fazer a inspecçaõ, e dará conta ao Conselheiro Com-
missario, o qual sem perda de tempo a fará presente no
Conselho, e este me consultará com as observaçoens,
que merecer, tanto para eu providenciar o que for neces-
sário, como para eu louvar ou punir os Commandantes.
No Districto da Corte está inspecçaõ se fará todos os
seis mezes, e na Provincia do Rio-de-Janeiro todos os
annos. Nas mais províncias a inspecçaõ se fará pelo
Commissario Geral todos os três annos, entretanto os
Governadores das Provincias faraõ a que lhes pertence,
pelo sobredicto parrafo cento e sette, cada seis mezes no
Districto da respectiva Capital; e todos os annos na
Provincia. Poderão ser nomeados quaesquer officiaes, e
de qualquer Arma, attendendo-se somente, pararecahir a
escolha, ao merecimento, intelligencia, e mais qualida-
des necessárias para o bom desempenho da Commissaõ,
um ou mais para a mesma Provincia; sendo temporária
a Commissüõ, e amovivel, como parecer ao Conselheiro
Política. [7]
Commissario, e approvar o Conselho. Os Officiaes man-
dados pelo Commissario Geral teraõ os vencimentos no
tempo de sua Commissaõ, que tem os officiaes Engenhei-
ros em commissaõ activa, e o Conselheiro Commisario
vencerá uma gratificação de sessenta mil reis por mez, em
quanto eu naõ mandar o contrario. O Conselho Supremo
Militar o tenha assim entendido, e faça executar, expe-'
dindo para esse effeito os despachos necessários. Pala-
lacio do Rio-de-Janeiro, em vinte e dois de Janeiro de
mil oitocentos e vinte.
Com a Rubrica de Sua Majestade.

Decreto creando dous Escrivaens na Ouvidoria do Pará.

Constando na Minha Real Presença que os negócios


da ouvidoria Geral da comarca do Pará naõ tem o ne-
cessário e prompto expediente, que convém ao interesse
publico, e particular dos meus fieis Vassallos habitantes
daquella comarca, por haver um um só Escrivão para
todas as dependências da referida ouvidoria, que sendo
muitas, complicadas e laboriosas naõ pode bastar para as
expedir, retardando-se por estes motivos os processos e
mais negócios, que tem crescido com o augmento da
povoaçaõ e riqueza: e convindo atalhar e prover de re-
médio estes inconvenientes, e estorvos do bem do meu
Real Serviço, e proveito das partes: hei por bem crear
mais dous officiaes de escrivão da mencionada Ouvidoria
Geral do Pará ; e ordenar que entre os três se repartam
por distribuição regular na fôrma da Ley do Reyno todos
os processos eiveis e crimes e cartas de seguro; ficando
privativos doprimieiro, os negócios da Policia, Juncta de
Justiça e degradados; do segundo tudo que pertencer ao
Juizo dos feitos da Coroa, Fazenda, e Fisco Real; e ao
rg] Política.
terceiro a décima do bairro da Campina, e carta de
usanças com os processos respectivos. A Meza do De-
sembargo do Paço o tenha assim entendido e faça exe-
cutar com os despachos necessários.
Palácio do Rio-de-Janeiro, em quatro de Janeiro de mil
oitocentos e vinte.
Com a rubrica d* El Rey nosso Senhor.

Decreto por que se estabelece uma Alfândega na cidade


do Natal.
Tendo pelo meu Decreto da data deste mandado es-
tabelecer uma alfândega na cidade do Natal, capital da
Provincia do Rio Grande do Norte, para que os habi-
tantes delia, gozando da franqueza do commercio, que
tenho concedido a este Reyno, possam directamente com-
commerciar com todos os povos, meus vassallos, ou es-
trangeiros: e convindo dar providencias para que pela
má fé, e dólo de alguns se naõ perca a reputação da boa
qualidade do Algodão, da mesma Provincia, e se naõ
diminua consequentemente a sua extracçaõ: hei por
bem crear na mesma cidade uma casa de inspecçaõ para
o exame do Algodão, que for exportado do Porto da
mesma Cidade, a qual se regulará pela de Pernambuco, e
observará o que for determinado para a regulação desta.
A Real Juncta do Commercio, Agricultura Fabricas,
e Navegação deste Reyno, e Dominios Ultramarinos
o tenha assim entendido, e faça executar com os despa-
chos necessários.
Palácio do Rio-de-Janeiro, em três de Fevereiro de
mil oitocentos e vinte.
Com a Rubrica d' El Rey Nosso Senhor.
Política.

Decreto sobre as pessoas, que podem ser cadetes.

" Tomando em consideração os repetidos requerimen-


tos, que tem subido á Minha Real Presença, a pedirem
o ser reconhecidos Cadetes pessoas, que ainda que mere-
cem a Minha Real Attençaõ, naõ se acham com tudo nas
circumstancias da ley : sou servido, que os filhos de offi-
ciaes de patente das tropas de linha do exercito do
Brazil, ou de pessoas condecoradas com o habito de al-
guma das ordens, possaõ ser admittidos como segundos
Cadetes; e os de outras pessoas, que tiverem alguma con-
sideração civil, ou pelos seus empregos, ou pelos seus
cabedaes, se possam admittir nos Corpos de linha como
soldados particulares. E hei outrosim por bem que nos
Corpos de milícias possam também haver praças de sol-
dados particulares para aquellas pessoas que pelos seus
bens, ou por outros respeitos mereçam essa consideração.
O Conselho Supremo Militar o tenha assim entendido, e
o faça executar, expedindo para esse effeito os depachos
necessários. Palácio do Rio-de-Janeiro em quatro de
Fevereiro de mil oitocentos e vinte.

Com a Rubrica de Sua Majestade."

VOL. XXV. N°. 1 4 5 .


jo Política.

BUENOS-AYRES.

Processo original justificativo, contra os réos accusados


de Alta Traição no Congresso e Directorio, mandados
julgar pelo artigo scptimo do Tractado de Paz, assig-
nado por este Governo com os Chefes das Forças Fede-
raes de Sancta Fé e Banda Oriental, em 23 de Feve-
reiro do corrente anno de 1820.
Buenos-Ayres, na Imprensa de Alvares.
Nota.
Este processo comprehende somente o que he relativo
ao delicto de alta traição, de que he accusado o Con-
gresso e Directorio. Por peças separadas se daraõ os
que devem formar-se particularmente sobre a ultima re-
belião, roubos públicos, e queixas particulares, que oc-
currêram.

O Governo ao Povo.
Cidadãos!—Nada teríamos adiantado como glorioso
golpe, que se acaba de dar aos traidores assassinos do
paiz e de seus filhos, se o novo Governo marchasse pe-
las mesmas sanguinárias pizadas de sua tyrannia. Longe
de nós esses dias de sangue, e de lucto para tantas famí-
lias beneméritas, em que a vida, a honra e a segurança
dos mais recommendaveis cidadãos, se viram sugeitas á
mais espantosa espionagem de delatores assalariados, e
ao despejo e vingança de traidores e assassinos, que ti-
nham jurado, em seus conselhos secretos, inutilizar o
sangue derramado em dez annos de uma lucta tam glori-
osa á liberdade, sacrificando junctamente com seus de-
fenores todas as mais desgraçadas geraçoens, que tem
Política. U
compromettidas, aos pérfidos proveitos de sua baixa
ambição.
O Governo se vio desgraçadamente obrigado a descar-
regar sobre estes criminosos os primeiros inevitáveis
golpes de seu poder: e ainda que a magnitude e publici-
dade de seus crimes parece que o authorizávam a come-
çar por seu castigo e acabar pelo processo que o justifi-
casse, he necessário que o nosso comportamento para
com elles, se deve causar a amargura de suas infelizes
famílias, de que elles mesmos se esqueceram quando os
comettêram, possa pelo menos inspirar a todos os habi-
tantes uma absoluta segurança e confiança no império
das leys, que foi até agora desconhecido, e suífocado
pelo poder arbitrário destes desnaturalizados.
Para este fim, cidadãos, ordenou o Governo que os
accusados se puzessem ante a ley, para que respondam
por ella aos povos de suas confianças. Naõ se pôde o
mesmo Governo dispensar de prover á sua segurauça,
nem permittir que se illudisse a justiça, com descrédito
da authoridade. Brevemente se apresentará à vossa vista
o tribunal respeitável, que deve conhecer deste delicado
negocio. Mas entretanto está ja aberto o juizo publico,
sobre que deve recair sua decisaõ; e o Governo quer que
seja tam publico e conspicuo, como o foram os delictos,
que condiga com a magnitude dos crimes que se julgam,
com o character dos delinqüentes, com o interesse e dig-
nidade dos povos aggravados e com a justificada impar-
cialidade com que se propoz marcar seus procedimentos.
A justiça naõ necessita reserva alguma; e a sua pu-
blicidade naõ se consulta, publicando uma sentença, que
se desse sobre processos misteriosos einquisitoriaes, com
que tantas vezes se tem sacrificado a innocencia. Os
réos seraõ accusados publicamente, com os documentos
justificativos de seus crimes: estes teraõ toda a authenti-
12 Política.
cidade prescripta pela mais escrupulosa legislação: suas
excepçoens e defezas se copiarão com fidelidade; cada
cidadão será informado diariamente, pela imprensa, de
todos os passos da causa; e cada um, com o processo
na maõ, pronunciará em sua casa, com liberdade e co-
nhecimento, antes que os juizes dem sua sentença. En-
tretanto o Governo, com todos estes documentos, redu-
zirá a sua política a dizer ás naçoens do universo, que
nos observam—Vede e julgai.
Os amigos, os parentes, os subalternos, os honrados
partidistas da liberdade, que tantas vezes ouviram jurar
estes homens por uma honra que naõ tinham, e pelo
mais sagrado da terra, que naõ havia tractado existente
com a Corte do Brazil ^ Como éra fácil penetrar a cap-
ciosidade desta linguagem ? { como creria alguém, que
eram tam impudentes ? <; nem que complicidade se lhes
pôde arguir em tam pérfidos desígnios ? Deseancai, cida-
dãos, nestas justas consideraçoens de um Governo libe-
ral : e estai certos de que o rayo da justiça só ameaça e
só cairá sobre os authores de vossos males. Buenos-
Ayres 14 de Março de 1820.
M A N U E L DE SARHATEA.

Auto de Cabeça de Processo.


D. Manuel de Sarratea, Governador desta Provincia
de Buenos-Ayres.
Por quanto, pelo artigo septimo do Tractado de Paz e
Aliiança, concluído entre este Governo e os de Sancta-Fé
e Entre Rios, aos 23 de Fevereiro ultimo, se estipulou,
entre outras cousas, sugeitar a um juizo publico todos os
indivíduos da precedente Administração, no qual, julga-
dos solemnemente pelos excessos de que se acc usara, fi-
Política. 13
cassem justificados os poderosos motivos, com que os
povos procederam a depôllos e condignaniente satisfeita
a vingança publica e particular dos cidadãos, feitos vic-
timas, com todo o Estado, das depredaçoens e tyrannia
interior, com que o tinham arruinado, conduzindo-o a
uma impotência e degraduaçaõ, que facilitasse por fim o
cumprimento dos tractados secretos, iniciados com cor-
tes estrangeiras, naõ para o reconhecimento da indepen-
dência e liberdade proclamada sobre as bazes da consti-
tuição, mas sim tornando a submettèllo a um principe
da Casa de Bourbon, com tudo o mais de que por esta
ordem se accusa o Congresso e Directorio dissolvido.
Por tanto, e para que este acordo, em que se interessa a
honra e a dignidade das provincias atraiçoadas, tenha o
deu devido cumprimento, e sejam os delinqueutes postos
ante a ley, disse S. S. que devia mandar e mandava.
l.° Que por cabeça de todo o procedimento em conti-
nuação deste acto, se ajuncte testemunho devidamente
authorizado das actas secretas, relativas, que se acharam
nos livros do Congresso, escrupulosamente examinados
para este fim ; cujo testemunho para maior authentici-
dade seja cotejado e legalizado por todos os escrivaens
públicos do Ayuntamicnto.
2.° Que» devendo intervir um accusador fiscal, para sus-
tentação do juizo, e o qual seja encarregado das acçoens
publicas dos povos aggravados ; nomeava para este offi-
cio ao Dr. D. Joaõ Bautista Villegas, que deverá prestar
o juramento de seu cargo em devida forma, na sua pre-
sença ante o escrivão do Governo, como autuario da
causa.
3.° Que naõ tomando este Governo mais parte na causa
do que substancialla até a pôr em estado de sentença,
pela mesma gravidade delia, conforme o concordado com
a honoravel Juncta de Representantes, deixandoaos povos
14 Política.
o juizo ultimo sobre o que resultar dos autos; para pro-
nunciar esta sentença se convidem as provincias interes-
sadas, livres do inimigo, para que cada uma nomeie um
juiz de sua parte, que deverá apresentar-se nesta cidade,
no dia 20 de Abril próximo futuro, sendo-lhe pagas as
despezas de qualquer fundo que tiver a provincia, com a
cláusula de ser reimbolçada e abonada á custa dos culpa-
dos : ou, de outra maneira, se este modo lhes nao agra-
dar, se remetta a cada uma seu deputado ou deputados
com o processo concluído, para que o julgue por si
mesma.
4.° Que para o primeiro caso, o Governo se encarrega
de tomar todas as medidas opportunas, a fim de facilitar
tudo quanto for necessário para a reunião deste tribunal,
e commodidadee publicidade do juizo.
5.° Que para que todos os cidadãos, povos e provinci-
as do território da Confederação se informem a funda-
mento de uma causa, que tam immediatamente lhes toca,
naõ menos do que para dar-lhe toda a publicidade que
convém, ante as naçoens, que nos observam, se dessem
diariamente ao publico pela imprensa todos os autos das
assentadas literalmente, de sorte que seja fácil a cada
um o ter em seu poder o processo todo interio até á sua
conclusão, cujas copias se encarregará de passarão Edic-
tora da Gazeta o Escrivão da Causa, para os dictos fins.
E por este seu acto cabeça de processo, assim o pro-
videnciou, mandou e assignou S. S.—Em Buenos-Ayres,
aos 14 de Março de 1820. Ante mim, de que dou fé.
MANOEL DE SARRATEA.
D. JOSÉ RAMON DE BASAVILBASO,
Política. 15

Communicaçaõ do Supremo Director ao Congresso.

Secretíssimo.
Soberano Senhor!—Ha alguns dias que se recebeo a
annexa communicaçaõ do Enviado Extraordinário em
França, D. José Varentin Gomez.
Chegou ao mesmo tempo o Americano D. Mariauo
Gutierrez Moreno, e se annunciou que conduzia offici-
os para o Governo de Chile de seu Duputado naquella
Corte, D José Yrisarri, com as mesmas proposiçoens,
e com especial encargo de manifestar a este Governo o
objecto de sua commissaõ. Suspendi por esta causa o
transmittir a Vossa Soberania a communicaçaõ do En-
viado Gomez, para o fazer com outros conhecimentos,
segundo o que resultasse da entrevista com Gutierrez Mo-
reno. Havida esta aos 23 do corrente, he com effeito
certa a sua commissaõ, e assegura outro sim, que os De-
putados Ribadavia e Gomez o encarregaram, com o maior
encarecimento,fazer presente a este Governo que naõ deixe
escapar occasiaõ tam favorável, e de tam conhecidas van-«
tagens ao paiz. Com estes dados remétto a Vossa Sobe-
rania a Nota, lembrando, para a resolução, o triste estado,
emque se acham as Provincias, e a sorte que se lhes depara,
supplicando ao mesmo tempo se sirva Vossa Soberania
tomar em consideração este assumpto, com preferencia
a qualquer outro; pelo grande interesse que envolve;
porque ha occasiaõ próxima de instruir sobre a maté-
ria o Enviado do Gomez; e, segundo a resolução que se
adoptar, poderá suspender de todo a expedição Hespa-
nhola, projectada contra esta parte da America; e por
que o commissionado Gutierrez Moreno, para continuar
em sua viagem para Chile, só espera a decisaõ de Vossa
Soberania. Deus guarde a V. Soberania muitos annos.
16 Política.
Buenos-Ayres, 26 de Outubrode 1819- Soberano Senhor.
—JOSÉ RONDEAU.—Soberano Congresso Nacional das
Provincias Unidas da America do Sul.

Communicaçaõ do Enviado em Paris, D. José Valen-


tia Gomez, ao Secretario de Estado na Repartição de
Governo.

E m officio de l ò do passado avisei a Vossa Senhoria,


que estava convidado a uma conferência por S. Ex a . o
Ministro dos Negócios Estrangeiros. Vários accidentes
a retardaram ate o 1.° do corrente. Ainda que tinha re-
flectido profundamente sobre o objecto, a que poderia
dirigir-se, naõ pude j a mais prever o que na realidade
teve, e passo a levar à consideração de V. S.
Depois de S. E x a . me haver feito um longo arrazoado,
sobre os grandes desejos do Ministério, pelo feliz resulta-
do da gloriosa empreza, em que se achavam empenhadas
essas provincias, e ao mesmo tempo sobre os considerá-
veis embaraços, que o impediam adoptar uma marcha de-
terminada, aetiva e manifesta para as proteger, passou a
dizer-me, que, oecupando-se de seus verdadeiros interes-
ses tinha chegado a convencer-se, de que estes se
achavam intimamente ligados com a forma de Go-
verno que lhe dessem, debaixo de cujo influxo pu-
dessem gozar tranquillos dos benefícios da paz, e que
elle cria que naõ devia ser outra senaõ a de uma mo-
narchia constitucional, fixando-se em um Principe da Eu-
ropa, cujas relaçoens acereseentassem ao Estado nova
respeitabilidade, e facilitassem o reconhecimento de sua
independência nacional. Que, penetrado destas ideas, ti-
nha chegado a oceurrer-lhe um pensamento, que conside-
rava feliz; e Ia a expòllo com a maior sinceridade propon-
Política. 17
do-me um Principe, cujas circumstancias particulares
eram as mais oportunas para que sealhanassem todos os
obstáculos, com que poderia tropeçar um projecto simi-
lhante, attendidos os differentes interesesses das princi-
paes naçoens da Europa e a variedade das vistas políti-
cas de seus respectivos gabinetes. Que esteéra o Duque
de Luca, antigo herdeiro do Reyno de Etruria, e paren-
te pela linha materna da augusta dynastia dos Bourbons.
Que considerava que a sua eleição naõ infundiria zelos
nas cortes priucipaes, antes encontraria o melhor acolhi-
mento em seus Soberanos, principalmente nos Imperado-
res de Áustria e Rússia, abertamente decididos por
sua pessoa, e em maior gráo pelos interesses geraes
do continente. Que a Inglaterra naõ encontraria mo-
tivo justo, e descente para resitir a isso. Que Sua
Majestade Catholica naõ olharia com desagrado que um
sobrinho seu se assentasse no throno de umas provincias,
que haviam sido de seu domínio, de quem poderia
esperar algumas consideraçoens ao commercio da Penín-
sula, ao menos as que fossem compatíveis com a indepen-
dência absoluta da nova naçaõ, e política de seu Gover-
no. Porém que particularmente S. M. Chiistianissima,
cujos sentimentos lhe eram conhecidos, a olharia com
especial complacência, e empregaria a seu favor seus al-
tos respeitos, e sua poderosa influencia com os outros
Soberanos, sem poupar ao mesmo tempo quantos meios
estivessem em seu alcance para a proteger: ja com os
auxílios de toda a classe, que se fizessem necessários, ja
pelo arbítrio de convencer a S. M. Catholica a que desis-
tisse da guerra, em que se achava empenhado com essas
provincias.
S. Ex a . dcm orou-se em varias outras observaçoens, que
seria difficil referir por menor; mas particulamente nas
do character pessoal de Sua Alteza o Duque de Luca,
VOL. XXV. N°. 146. c
18 Política.
recommendando-me os princípios de sua educação, aná-
loga â illustraçaõ actual da Europa, e á liberalidade de
suas ideas, inteiramente contrarias ás que dominam o
animo de S. M. Catholica, com bem notável extravio da
política adoptada pelos demais soberanos, para o gover-
no dos povos de sua dominação.
Devo confessar sinceramente, que fiquei interiormente
surprendido, ouvindo a indicação de um Principe, sem
repeitabilidade, sem poder, e sem forças para presidir
aos destinos de uns povos, que se tem feito dignos da
expectaçaõ da Europa, e que tem comprado a sua liber-
dade com o caro preço de tantos e tam extraordinários
sacrifícios; porém em quanto S. Ex». se alargava em suas
longas reílexoens, eu me preparava para dar tal resposta,
que, sem ferir directamente seu amor próprio, deixassse a
cuberto seus sagrados interesses, e posto em punctual
execução o artigo septimo de minhas instrucçoens.
Disse pois a S. Ex*. que por desgraça naõ me achava
competentemente authorizado para o determinado nego-
cio, que acabava de propor-me, e que além disto estava
persuadido de qne naõ seria bem aceita do Governo das
Provincias Unidas qualquer proposição, que naõ invol-
vesse como bazes essenciaes a cessação da guerra com a
Hespanha, a integridade do território do antigo Vice-
reynato, incluindo-se particularmente a Banda Oriental,
e, se fosse possivel, os auxílios necessários para fazer mais
respeitável a situação actual do Estado. Que nada disto
se poderia prudentemente esperar da eleição de S. Alteza
o Duque de Luca, que outro sim tinha a desfavorável cir-
cumstancia de achar-se solteiro, e por conseqüência sem
succesaÕ, por cujo motivo ficariam essas Provincias ex-
postas a um interregno, sempre perigoso, e regularmente
funesto.
Lisongeava-me de ter destruído inteiramente o projec-
Política. ig
to por este meio indirecto, e a favor de umas razoens
tam respeitáveis por si mesmas, cuja força devia pezar
no juizo do Ministro; porém ainda naõ tinha bem aca-
bado a minha resposta, quando S. Ex». se apressou a
dizer-me, que, longe de lhe haver eu apresentado o me-
nor inconveniente em minhas justas reílexoens, tinha
com ellas chamado sua attençaõ, para indicar-me mais'
por extenso suas consideráveis vantagens. Accreseentou
que seria do particular cuidado de Sua Majestade Chris-
tianissima, obter de Sua Majestade Catholica a termi-
nação da guerra, e o reconhecimento da independência
dessas provincias. Que o Principe de Luca poderia con-
trahir matrimônio com uma das Princezas do Brazil,
debaixo da condição expressa de evacuar a Banda Ori-
ental, renunciando a toda a solicitude de iudemnizaçaõ
da parte desse Governo, por cujo meio se asseguraria
também a successaõ á coroa. Que Sua Majestade Chris-
tianissima contribuiria com auxílios de toda a espécie,
os mesmos que teria proporcionado em igual caso, para
um Principe do sangue, e que sobre tudo (tomou a repe-
tir-me) se empregariam todos os meios possíveis para
fazer com que se realizasse o projecto, e com elle a pros-
peridade desses povos.
Ouvidas estas novas expressoens, cri dever responder
outra vez, a Sua Excellencia, que naõ me achava com-
pletamente authorizado para deliberar por mim mesmo ;
e que daria conta circumstanciada a meu Governo, pe-
dindo as instrucçoens necessárias. O Ministro conveio
nisto facilmente, repetindo-me, que, em quanto eu naõ
recebia as ordens competentes, elle moveria a negocia-
ção, até a pôr no melhor estado possivel, lisongeando-se
do melhor resultado, pelo que respeita os gabinetes que
deviam intervir neste negocio. Acompanho esta a V-
Senhoria, com uma memória, que, com allusaõ ao mes-
20 Política.
mo objecto me foi entregue posteriormente por um par-
ticular, como contendo as ideas do Baraõ de Reneval,
considerado nesta Corte, como ja disse a V. S. em outra
occasiaõ, chefe da diplomacia Franceza.
Tenho referido a V. S. com a prodigalidade, que me
foi possivel, os pontos principaes desta conferência.
Naõ he da minha competência expressar opinião, sobre
as vantagens ou desvantagens, que pôde prometter este
projecto às Provincias Unidas da America Meredional.
As primeiras authoridades, encarregadas de seus desti-
nos e de sua prosperidade, o pezaraõ com a sabedoria e
madnreza, que characterizam suas deliberaçoens, e quan-
do estas me sejam conhecidas, será do meu dever prestar-
lhes a minha punctual obediência, e empregar todos os
meios, que se acharem ao meu alcance, para levâllas â
sua devida execução. Sem embargo, naõ deixarei de
fazer algumas observaçoens, sobre a tendência, que pôde
ter esta novidade inesperada, e o gráo de sinceridade,
com que pôde ter sido concebida.
Tinha j a dicto a V. Senhoria na minha nota official de
28 de Abril, que nos planos adoptados na Sancta Aliian-
ça, para conservação dos thronos, entrou como uma de
suas bazes a diminuição dos governos republicanos; em
virtude do que foram extinctos no Congresso de Vienna,
os de Hollanda, Veneza e Gênova, ao mesmo tempo que
se tinha afTectado, que iam a ser restabelecidos todos
os Estados da Europa á condição, que tinham antes da
revolução da França.
Disse também entaõ, que me parecia, que, entre os
Soberanos do Congresso de Aix-la-Chapelle, havia u m a
convenção secreta de conduzir os povos da America a
essa mesma deliberação, para quando se observasse, que
a Hespanha tinha tocado o seu desengano, e renunciado
o seu projecto de reconquista, e que El Rey de Portugal
Política. 21
promovia este pensamento, por meio de seus ministros,
com particular interesse.
Accrescentei, que cria impossível, para este caso,
toda a combinação a respeito de um Principe das dynas-
tias das cinco grandes potências, pela divergência de seus
interesses, e ciúmes de seus respectivos poderes, e que
temia que viessem a fixar em algum outro das naçoens
de segunda ou terceira ordem, e aquém poderiam pro-
metter auxílios especiaes, para fazer effectiva a idéa.
Assim pensava eu, quando apenas lançava minhas pri-
meiras vistas sobre os gabinetes da Europa, e começava
a observar suas marchas políticas. Parece-me, que co-
meço a ver realizadas aquellas ideas no actual comporta-
mento do Ministério Francez, e que a sua proposta naõ
be mais do que uma anticipaçaõ, para o momento que
se vê aproximar-se do ultimo triumpho de nossas Pro-
vincias, e da desesperaçaõ da Hespanha, que, na expe-
dição, que prepara, esgota todos os seus recursos, e deve
renunciar até à esperança de outra empreza, que possa
ser digna deste nome.
O Primeiro Ministro me fez a proposição que deixo
indicada, sem manifestar, a meu modo de pensar, aquel-
la exigência, que geralmente acompanha os negócios, que
se agitam por grandes interesses do momento: e, quando
lhe indiquei, que naõ me achava completamente authori-
zado, prestou prompta e fácil acquiescencia, para que se
esperasse, e deixasse correr todo o tempo necessário, até
receber ordens sobre este particular: tempo este, que,
disse S. Ex a ., empregaria elle lentameute, em preparar
a negociação com os de mais gabinetes, que deviam in-
tervir nella.
Parecia natural, que, alistando-se uma expedição em
Cadiz contra essas Provincias, fosse o primeiro passo
convencer a S. M. Catholica a que lhe dera outra direc-
22 Política.
çaõ. Naõ deixou de significar-me o Ministro, que se
practicaria esta diligencia; porém até o presente naõ se
me tem dado a menor idéa de seu resultado, nem parece
fácil que possa ser convencido o Rey Fernando. He
certo que os navios saíram para o mar Pacifico, e o
aprésto da esquadra continua com o mesmo ardor, que
d antes.
A marcha, que até o presente tem seguido o Governo
Francez, também naõ parece de accordo com estes sen-
timentos pela liberdade das Provincias da America Me-
redional, que tantas vezes me tem protestado S. Ex a .
Em Bordeaux se construíram vasos de guerra, e se freta-
ram transportes para a expedição, a pezar das reclama-
çoens da Câmara de Commercio. No Senegal se acha
detido o valor de uma preza, com sua carga, de um de
nossos corsários, sem que tenham bastado as reclama-
çoens feitas pelo Cavalheiro Ribadavia, e repetidas por
mim para sua entrega. Naõ foram suficientes todos os
arbítrios, que se tem lembrado, para determinar o Minis-
tério á nomeação de um Cônsul nessa Capital, ou ao me-
nos a confirmação official do que desempenha provisio-
nalmente as funcçoens de Agente do Commercio, Mais
de uma vez se tem repellido os esforços da Câmara dos
Deputados, que tem querido reclamar do Ministério um
comportamento mais decidido, a favor das Provincias do
Rio-da-Prata, e mais protector do commercio Francez.
Tudo isto se procura cohonestar com a posição deli-
cada da França. Porém ^ que sabemos, se no Rey
obram os interesses de Familia, e no gabinete os de uma
perfeita intelligencia com a Hespanha, para afastálla da
influencia da Inglaterra, que he o objecto dos cuidados
de todos os Governos do Continente, e particularmente
da França ? Naõ obstante; tanto estas suspeitas tem de
acionaveis ; porque recaem sobre o projecto original nas
Política. 23
presentes circumstancias; quanto será evidente a since-
ridade, com que se promoverá, quando comecem a fra-
quejar as emprezas de Hespanha; porque entaõ vaõ a
obrar de continuo motivos da maior gravidade. Interessa
a todos os Estados do Continente, que nas Provincias do
Rio-da-Prata se levante um throno, sobre o qual se assen-
te um monarcha, independente da influencia da Ingla-
terra, ja para contrabalançar, com o tempo, seu poder
colossal no mar, ja para diminuir nellas a introducçaõ
de seus effeitos, pela livre entrada dos das outras naço-
ens. A França, particularmente, quererá dar essa saída
ás suas manufacturas, disputando a preferencia aos In-
glezes. El Rey Christianissimo se lisongeariadas conside-
raçoens, que eram de esperar de um Principe de sua
dynastia, elevado ao throno por sua influencia, e a favor
dos grandes auxílios, que promette. Talvez está nas
vistas de Sua Majestade brindar o Imperador Francisco
com o Estado de Luca, em que pedería ser accommoda-
do o Duque Carlos Francisco, filho dos Ex-Imperadores
Nepoleaõ e Maria Luiza. El Rey Christianissimo fica-
ria tranquillo nesse caso, vendo fixados os destinos de seu
rival, e compromettido por um tractado o Imperador de
Áustria.
A cessaõ das Floridas aos Americanos do Norte, foi
bem aceita por todos os Governos da Europa, se se ex-
ceptua o da Inglaterra, e talvez negociada pelo Ministro
de Rússia na Corte de Madrid. Pelos mesmos princípios
seria de sua geral approvaçaõ o enthronizar na America
do Sul um Principe das dynastias do Continente. Esta
me parece ser a tendência, que tem o projecto do Pri-
meiro Ministro, e que tenho tido a honra, de refirir por
menor a V. Senhoria; e pois se podem aproximar esses
momentos, em que se terá de deliberar mais seriamente
sobre a sorte futura desses povos, faz-se indispensável
24 Política.

que V. S. se sirva anticipar-me as suas instrucçoens. Cri


que a proposta de um Principe, nas circumstancias sobre-
dictas, exceptua de algum modo o artigo Septimo das
que recebi; e ainda naõ tenho perdido de vista o seu
cumprimento, julguei mais prudeute uma resistência in-
directa, que se podia conciliar com as delicadas circum-
stancias do momento, e com as ordens de qualquer natu-
reza, que se me possam communicar a este respeito ; es-
pero que V. S. se dignará pôr na alta consideração de S.
E x a . o Director Supremo o meu comportamento nesta
parte, e significar-me se foi digno de sua approvaçaõ.
Deus guarde a V. S. muitos annos. Paris 10 de Junho
de 1819.
V A L E N T I N GOMEZ.
Senhor Secretario de Estado do Governo
e Negócios Estrangeiros.

Memória a que se refere o officio do Enviado.

Senhor!—O Governo Francez toma o mais vivo inte-


resse na situação em que se acha Buenos-Ayres, e está
disposto a esforçar-se de todos os modos possíveis, para
facilitar os meios de erigir-se em uma Monarchia Con-
stitucional; pois he esta a única forma de Governo,
que pode convir a seus interesses recíprocos, e afian-
çar a Buenos-Ayres para o futuro, todas as garantias
necessárias; tanto para com as potências da Europa,
como para com as vizinhas ao Rio-da-Prata.
O Governo Francez^ obrigado por circumstancias po-
líticas a obrar com a maior circumspecçaõ, a fim de
evitar os obstáculos, que se possam apresentar, princi-
palmente da parte da Inglaterra, no progresso de tam
importante negociação, naõ manifestará immediatamente
Política. 25
por modo notável o desejo de formar relaçoens com o Go-
verno de Buenos-Ayres; porém naõ omittirá occasiaõ
alguma favorável de dar provas convincentes do inte-
resse, com que olha para elle.
Por conseqüência, e para chegar ao objecto, que tanto
desejam os Americanos do Sul, isto he, a sua independên-
cia da coroa de Hespanha, e fundar a bazes de sua con-
stituição de maneira solida e invariável, e que os ponha
em condição de tractar com todas as potências, o Go-
verno Francez propõem dar os passos necessários, para
obter o consentimento de todas as Cortes Europeas, para
por sobre o throno da America Meredional o Prin-
cipe de Luca e Etruria, a quem se dará o necessário
auxilio, tanto em forças marítimas, como em tropas ex-
pedicionárias ; de maneira que elle naõ somente se possa
fazer respeitar, mas também soster-se, em caso necesario,
contra toda a potência, que se quizer oppôr à sua ele-
vação.
Este Principe, de dezoito annos de idade, he da famí-
lia dos Bourbons ; e, ainda que ligado com a de Hespa-
nha, naõ ha temor de que seus princípios sejam con-
trários aos interesses dos Americanos do Sul, cuja causa
elle sem duvida abraçará com enthusiasmo. Possue qua-
lidades tam eminentes quanto se podem desejar, tanto no
moral, como na sua educação militar, que se tem con-
duzido como maior cuidado, e pôde offerecer em todos
os respeitos a mais lisongeira perspectiva. Para segurar
e consolidar a sua dynastia, se propõem, que, se o Prin-
cipe convier ás Provincias Unidas, se solicite para elle
uma aliiança com uma Princeza do Brazil: o que apre-
sentaria incalculáveis vantagens a ambos os Governos, os
quaes, unidos pelos laços do sangue, os estreitariam ainda
mais entre si. Outra vantagem, e naõ de menor conside-
V O L . XXV. N°. 146 D
26 Política.
raçaõ, seria obrigar o Brazil a renunciar a posse da Banda»
Oriental, sem requerer compensaçoens; e a formar entre
ambos, um tractado de aliiança offensivae defensiva. Pelo
que respeita os Estados-Unidos, como elles nada tem mais
a temer do que a Inglaterra, e como he de seu interesse
viver em boa intelligencia com a America Meredional, he
evidente, que os obstáculos, que elles poderão apresen-
tar ao estabelicimento de um Governo Monarchico, se-
riam sem grande difficuldade vencidos. Por outra parte
o Governo Francez se encarregará das negociaçoens di-
plomáticas a este respeito, e promette dar ao Prin-
cipe de Luca todo o apoio, auxilio e protecçaõ, que da-
ria a um Principe Francez. Rogo a V. que apresente
a seu Governo estas proposiçoens, que creio lhe saõ
vantajosas, e porque nenhum outra forma lhe pôde con-
vir melhor. Assegura-se que um partido poderoso deseja
O estabelicimento de uma republica nas Provincias Uni-
das. Rogo á V. que me permitta sobre isto uma observa-
ção, que creio nao ser fora de propósito, nas circumstan-
cias presentes. Naõ entrarei nas particularidades, sobre a
differença de possessoens, em que se acham em todos os
respeitos os Estados-Unidos da America Septentrional e a
America Meredional. Vos mui bem o sabeis, naõ he ne-
cessário por conseqüência que eu empregue muita Lógica .
em convencer-vos disto: vos sabeis mui bem, que ne-
nhum Estado se pôde organizar em Republica senaõ he
mui limitada sua èxtençaõ, seus custumes puros, sua
civilização geral. O que constitue a força de uma repu-
blica, e o que assegura a sua duração, he a harmonia
de todas as classes, e o sincero desejo em cada particu-
lar de contribuir para o bem geral: em uma palavra he
necessário, que possua virtudes mui raras no nosso século.
Assim pois, a America Meredional, isto he o paiz de
Buenos-Ayres e Chili, carece da maior parte dos elemen-
Política. 27
tos necessários para este fim; a sua extençaõ he mui
grande; a civilização está ainda na sua infância, e bem
longe de ter chegado a seu desejado termo, as paixoens
e o espirito de partido estaõ em continua lucta; em uma
palavra, a anarchia tem chegado a seu cumulo, em muitos
pontos, que deviam estar sugeitos a Buenos-Ayres, como
he evidente pela situação da Banda-Oriental, que por
causa de sua posição naõ pôde estar separada sem oc-
casionar guerras inextinguiveis. Neste estado de cousas
naõ vejo outro caminho; para segurar a felicidade do paiz,
e pôr fim á contenda de poderes, que paralyzam
em grande parte os meios do Governo, e para unir e
ligar entre si todos os partidos na mesma causa; que ha
nove annos a esta parte tem custado ja tam grandes sa-
crifícios; naõ vejo, digo,outro meio,senaõ ode uma mo-
narchia constitucional e liberal, que, garantindo a felici-
dade do povo, e os seus direitos em geral, o traga a
contrahir relaçoens amigáveis com todas as potências da
Europa; cousa que naõ pode desattender-se, em virtude do
commercio. Sendo isto assim, teria o paiz um governo ao
mesmo tempo bem consti tu ido e reconhecido pelas outras
potências. A agricultura, de que carece, chegaria aquelle
estado, de ser uma das fontes de riqeza e de abundância.
As artes e as sciencias floreceriam: o resíduo da população
Europeaaugmentaria aquella, que hoje em dia he insufi-
ciente para esses immensos territórios, que presentemente
saõ desertos, e naõ apresentam á vista do viajante obser-
vador senaõ esterilidade, mas que se podem converter
nas mais férteis terras. Os thesouros que as minas con-
tém podiam igualmente ser lavrados, e trazidos â luz
algum dia, naõ somente com incalculável vantagem das
rendas, mas contribuindo também para a felicidade de
outros muitos povos.
Penso que todas estas consideraçoens, saõ mais que
28 Política.
sufficientes, para determinar vosso Governo a adoptar o
plano proposto; porque alcançar á sua pátria uma sorte
feliz, he adquirir direito â sua gratidão, e á immortali-
dade; títulos estes os mais gloriosos, e os únicos que pôde
desejar a ambição de homens virtuosos.
Eu sei, também, que ha nas Provincias Unidas con-
siderável partido inclinado aos Inglezes, e permitti-nic,
que faça algumas observaçoens e supposiçoens a este
respeito. Supponhamos que a Inglaterra colocava um
principe de sua família no throno da America Meredio-
nal; e que pela ascendência, que tem adquirido na Eu-
ropa, em conseqüência das dilatadas guerras, que sempre
tem pago, e que convinham a seus interesses, para naõ
succumbir ella mesma aos golpes, que a esmagavam, pu-
desse proteger o paiz contra novas guerras, e dar-lhe uma
força phisica, que lhe assegurasse o seu poder <jCrer-se-
hia por isto que o povo seria mais feliz? <j Em que con-
siste a felicidade de um povo, tal como o das Provincias
Unidas, que portam longo tempo tem trabalhado para
obter aquella independência, que deve constituir a sua
gloria, e assegurar-lhe uma felicidade, a que tem direito
de aspirar, depois de seus grandes sacrifícios ?
I o . N o estabelicimento dos direitos que a natureza
requer e naõ reprova.
2 o No livre exercieio da religião que professa, e cujas
verdades sane reconhecer e apreciar.
3.° No character nacional, que constitue o bom espi-
rito social, que distingue ja os habitantes da America
Meredional de muitas outras naçoens; que naõ tem
ainda adquirido aquelle gráo de civilização, em que con-
siste a felicidade geral das naçoens.
,3 Que pode esperar, em qualquer destes artigos, da Ing-
laterra, ou de um Principe imbuído, até o ponto de fana-
tismo, dos princípios de sua naçaõ ? Haveria para te-
Política. 29
mer, senaõ a ruina da religião Catholica, dominante no
paiz, pelo menos o seu envilicimento; ou talvez guerras
civis por causa da religião, accompanhadasde calamida-
des do povo. Alem disso o character nacional, formal-
mente opposto ao dos Americanos civilizadados, occasi-
naria actos contrários a felicidade social; e fazendo-se
odioso aos do paiz irritaria do seu amor próprio, im-
pellindo-os por vingança, senaõ a destruir a naçaõ, que
os occasionasse; ao menos a enfraquecêlla por tal manei-
ra que poderiam manejar as rendas sem obstáculo.
Por esta pintura, que infelizmente naõ he senaõ mui
verdadeira, vedes que, bem longe de ter estabelecido
sobre bazes sólidas o edifício, que tam bom principio
teve, se destruiriam seus alicerces, e um povo, que indu-
bitavelmente merece melhor sorte, cairia outra vez na
escravidão.
E m recapitulaçaõ, eu diria, que se consultardes a fe-
licidade de vosso paiz, naõ o entregareis nas maõs da-
quelles, que o reduzirão á escrivadaõ, e destruirão a sua
prosperidade nascente, comprada â custa de tantos sa-
crifícios. Por outra parte, recebendo para soberano um
Principe, que a França propõem, naõ haverá razaõ para
temer o abatimento da religião. Pôde confiar-se em achar
nelle o mais solido apoio, izento daquelle fanatismo, tam
nocivo a todas as religioens; aquelle espirito liberal, livre
da licenciodade, tam contraria aos interesses de todo o es-
tado civilizado; todas as qualidades, que podem assegu-
rar á America Meredional completa prosperidade: e, em
uma palavra, um Príncipe, que, vindo a ser um Ameri-
cano nem terá nem pôde ter outro objecto mais do que
fazer florecer a agricultura, as artes, as sciencias, e o
commercio, e por este meio assegurar-se da affeiçaõ de
seus subditos.
Penso, pois, que, nestas circumstancias, he necessa-
30 Política.
rio que vosso Governo tome promptamente uma resolu-
ção, a fim de naõ deixar escapar uma occasiaõ mais favo-
rável do que outra qualquer que se possa apresentar,
para sua felicidade, e augmento de seu commercio.

Extractos das Instrucçoens Secretas, dadas a Mr.


Yrigoyen, a fim de negociar um tractado com o General
Lecor, Commandante das tropas do Brazil em Monte-
Vedio ; e determinadas na sessaõ secreta do Congresso
de Buenos-Ayres, aos 4 de Septembro, 1816.

Secretíssimo.

Para o interessante fim de ser informado a fundamento


das vistas políticas do gabinete do Brazil, e segurar por
este meio o feliz êxito desta missaõ, o Enviado se porá
em communicaçaõ com D. Nicolas Herrera ; isto feito
lhe manifestará os seus plenos poderes para tractar com
o Commandante em chefe da Expedição Portugueza, o
Tenente General D. Frederico Lecor, obrando com toda
a franqueza, que requer a importância do negocio, no
qual se deve mostrar boa fé, animada por um interesse
pela paz e felicidade do povo deste paiz.
Logo que se estabelecerem estas communicaçoens, tra-
balhará o Commissario por informar Herrera, assim
como o General Lecor, do verdadeiro estado deste paiz,
obliterando de seus espíritos as exaggeradas ideas, que
possam entreter, sobre o estado de desordem, em que
elles suppoem que nós estamos, dando-lhes a entender,
que, depois da inauguração do Congresso, nomeação
do Supremo Director, organização dos Exércitos com
Política. 31
officiaes de honra, e outras varias reformas, tem a anar-
chia quasi inteiramente cessado. Como o povo em ge-
ral, os seus chefes, e mais especialmente os generaes dos
exércitos, estaõ penetrados da mais profunda obediência
e submissão á Soberania, e que, se, em algumas partes
restam ainda algumas desordens, saõ estas as ultimas fa-
iscas de uma chama, que se acaba agora de suffocar, e
que, longe de ameaçar algum perigo, faraõ com que se
extingua de todo.
Notar-lhe-ha, que o povo deste paiz, temendo as vistas
que o Gabinete Portuguez pode ter sobre este lado do rio,
está por isso inquieto, e esta inquietação lhes faz expressar
o desejo de auxiliar o General Artigas, por cuja razaõ o
Governo destas Provincias deseja anxiosamente receber
provas da sinceridade e favoráveis sentimentos do dicto
Gabinete, taes que possam tranqüilizar o espirito dos ha-
bitantes ; e com estas vistas somente se manda um official,
com uma bandeira de tregoas, a requerer do General Le-
cor explicaçoens, a respeito de sua expedição militar a
este rio, e ao território da Banda-Oriental, naõ obstante
as profissoens de amizade que o Congresso tem recebido
de S. M Fidelissima. Para este fim o Commissario lhe
deve dar a entender, que, se o objecto do Gabinete Por-
tuguez he somente reduzir á ordem a margem Oriental,
de nenhum modo lhe será permettido tomar posse de
Entre-Rios; porque este território pertence a Buenos-
Ayres, e o Governo nunca o renunciou, nem cedeo â
margem Oriental.
Explicar-lhe-ha, também, a grande popularidade do
Congresso nestas provincias, e a confiança, que o povo
põem nas deliberaçoens do mesmo Congresso; e que
naõ obstante as ideas ultra-democraticas, que se tem ma-
nifestado em toda a revolução, o Congresso, assim como
32 Política.
a parte solida e illuminada do povo, e na verdade a ge-
neralidade deste, estaõ dispostos a favor de um systema
constitucional ou monarchia moderada, sobre as bazes da
constituição Britannica, adaptada ao estado e circum-
stancias do paiz ; de tal maneira que assegure a tranquil-
lidade e ordem do interior, e ligue mais estreitamente,
suas relaçoens e interssses com os do Brazil de sorte
que os identifique do melhor modo possivel.
Procurará convencêllo do interesse e vantagens, que
resultam destas idéas a favor do Brazil, declarando-se
este o protector da liberdade e independência destas pro-
vincias, restabelecendo a família dos antigos Incas, e li-
gando-a com a de Bragança, sobre o principio de que,
por uma parte estando unidos ambos os Estados, o Con-
tinente Americano augmentará muito sua importância e,
de maneira que poderá contrabalançar o antigo mundo,
e cortar os laços, que retardam os passos da política, e
impedem o seu natural progresso para seus altos desti-
nos; e por outra parte, a obstinada revolução deste paiz,
determinada a existir em nenhum outro character senaõ
como naçaõ, apresenta obstáculos difficultosos e insupe-
ráveis á sua sugeiçaõ, assim como as grandes, e quasi de-
sertas distancias, em que as cidades se acham situadas,
impedem o transporte de exércitos de umas para outras,
os meios exclusivos de continuar a guerra de partidári-
os contra qualquer inimigo; gênero este de guerra, que
tendo arruinado os exércitos do paiz, e impedido a mar-
cha do que occupava o Peru, naõ obstante o seu peculi-
ar conhecimento do paiz destruirá por fim todos os exér-
citos estrangeiros, por maiores que sejam suas forças: a
antipathia, que presentemente existe entre os habitantes
destas Provincias e os do Brazil, geralmente produzida
entre paizes vizinhos, que tem differentes Governos e
Política. 33

linguagem, e fomentada entre nós peos Hespanhoes


assim como a diversidade de character, custumes, hábi-
tos e ideas, derivados das differentes leys, que nos tem
governado desde a conquista, e a revolução, que temos
experimentado.
Se, depois dos maiores esforços, que o Commissario
deve fazer, para obter a acquiescencia na primeira propo-
sição, ella for regeitada, proporá a coroaçaõ de um dos
Infantes do Brazil nestas provincias, ou a de qualquer
outro Infante estrangeiro, com a condição que naõ seja
de Hespanha, o qual, formando connexaõ com uma das
Infantas do Brazil, possa governar este paiz, debaixo
de uma Constituição representativa em Congresso. No
caso que o Governo Portuguez aceite alguma das propo-
siçoens offerecidas, deverá emprehender o remover todas
as difficuldades, que se levantem da parte da Hespanha,

VOL. XXV. N° 146.


34

COMMERCIO E ARTES,

Edictal da Juncta do Commercio em Lisboa,annunciando


os direitos sobre as Laas na Suécia.

Com Avizo da Secretaria de Estado dos Negócios Es-


trangeiros Guerra e Marinha, de 30 de Maio próximo
passado, baixou k Real Juncta do Commercio Agricul-
tura Fabricas e Navegação a copia de um edictal publi-
cado pelo Conselho Real do Commercio do Reyno de
Suécia, e transmittido pelo nosso Cônsul Geral em
Stockholmo, cujo theor he o seguinte:—" Nós Presiden-
te e Membros do Conselho Real do Commercio, fazemos
saber, que Sua Majestade, por carta de 23 de Fevereiro
ultimo annunciou ao Conselho Real, que houvera por
bem de ordenar, que os direitos de Alfândega sobre as
laãs importadas no Reyno, e vindas de Hespanha e Por-
tugal assim como também sobre a laã fina de Saxonia
seraõ pagos daqui em diante á razaõ de 40 schcllings de
Banco d'Hamburgo por cada schipound. O que fazemos
publico pelo presente em conformidade da ordem do Rey.
para que assim se cumpra por todas as pessoas a quem
pertencer. Stockholmo 13 de Março 1820.—Assignados
A. N. Edelcrantz. A. B. Van Sydow."
Commercio e Artes. 35

E para que chegue a noticia de todos se mandou aífi-


aar e publicar o presente em Lisboa, a 12 de Junho de
1820.
J O Z E A C U R S I O DAS N E V E S .

Mappa das exportaçoens e importaçoens do porto de


Bristol nos mezes de Janeiro, Fevereiro, e Março deste
anno para os portos de Portugal e Ilhas.
Gêneros exportados de Bristol.
Para Lisboa. Porto. Madeira. Total.
Sal alcalico Quintaes H li
Pedra hume 52 52
Arcos de Ferro 120 120
Cascas d'arvore 24 24
Folhas de cobre 15$ 15*
Estanho 12 12
Cobre manufacturado 34| 10 45
Garrafas de vidro 468| 105 663|
Chumbo em barra 479| 100 579|
Chumbo de munição 522 200 722
Tintas 310 310
Pregos de ferro 120 120
Ferro manufacturado 434£ 5 4931
Arenques Barris 153 153
Carne 20 20
Manteiga 66 66
Tripas 1 1
Cerveja 2 2
Âncoras de ferrq 12 12
Cadêas 15 15
Gigos de louça 10 10
Dúzias de Pelles 50 50
Pedras de amolar 2 2
Gegngivre arraiei;: 4
36 Commercio e Ai •tes.

Aguardente gallões 514 514


Folhas de lata 20400 20400
dúzias 300 300 000
Luvas 347 347
Folies 2 2
Cavallos 4 4
Peças de pannos dei laâ 724 724

Gêneros importados para Bristol dos seguinte portos.


De Lisboa, 367 caixas de laranja.
Do Porto, 111 pipas de Vinho, 52l£ caixas de laranja,
14 caixas de fruta seca, e 1 caixa de cebollas.
De Faro, 37 toneladas de cortiça.
Da I. da Madeira, 99 pipas de vinho.
Das I. dos Açores, 5500 caixas de laranja.
Total—210 pipas de vinho, 6388-§ caixas de laranjas,
14 de fructas secas, e 1 de cebollas, e 37 toneladas de
cortiça.
í 37 )
Preços Correntes dos principaes Productos do Brazil.
L O N D R E S , 25 de Julho, de 1820

Gêneros. Qualidade. Preços. Direitos.

Bahia por lb . | l s . 2$p. a i s . 3p


í Capitania. . .
1 Ceará l s . 4p. a l s . 5p. 8s. 7p. por 00 II».
Alrodam . .J Maranham ... l s . 24p. a l s . 3p. em navio Po rtugitez
1 Minas novas . l s . Op. a 1». 2p. ou Inglez.
f Pará l s . Op. a l s . 2 P .
^•Pernambuco • 1». 4Jp. a ls. 5p.
Anil Rio 5 por lb.
Redondo. . . 43s. a 48a.

Arroz
J Batido
Mascavado . .
Bra /.i 1
49>. a Ms.
318. a 38*. Livre de direitos po r
exportação.
Cacáo Pará 55s. 65s
CaHe Rio 118s. 126t.
Çebn Rio da Prata 3s. 2p. por 1121b.
Chifres. Rio (lande por 123 48*. 52s. 5s. por 1121b,
(A 8ip.
Rio da Preta, pilha < B 7p. 7|P-
'C 5p.
Í BA 10 p. por coaro
i Rio Grande -]
<C
Pernambnco, salgados
Rio Grande de cã vai Io
Ipecacuanha Brazil por lb. 14». Op. à 15s. 6p, 4s.
Óleo de cupaiba I por 1121b.
l s . 2p. a l s . 4p, 2s.
Orucu 4s. Op.
Páo Amarelo. Brazil I20s, a 130s. i direitos pagoa pelo
Páo Brazil . . . . Pernambuco 5 comprador.
Salsa Parrilba. Pará . . . l s . 9p, 2s. , direitos pagos pelo
( em rolo.. > comprador,livre por
Tabaco I em folha. * exportação
Tapioca.......Brazil.. 18p. 6£ porlb.

Câmbios com as seguintes praças.


Rio d« Janeiro 54 l i a m li in MO 37 6
Lisboa 50 Cadiz 34$
Porto 49| Gibraltar 30
Paris 25 80 Gênova 433
Amsterdain 12 Malta 45

Espécie Seguros.
Ouro cm barra £ 3 17 10J Brazil. Ilida 25s. Volta 3Us
Peças de 6400 reis Lisboa 15s. 9 . 20a
Dobroens Hespa- Porto 20s
nhoes por Madeira 15s. 9 20s
P e z o s . . . . dictos onça. Açores 20s.
Prata em barra 0 $ Rio da Prata 42». 42»
Bengala tio» 62»
LITERATURA E SCIENCIAS

NOVAS PUBLICAÇOENS EM INGLATERRA.

Tcchnical Memory ; preço l i . 6d. Litihas Históricas,


para a Memória Teclinica de Grey; com varias addicço-
cns, principalmente no que saõ applicaveis á Historia
Moderna. Este opusculo se pode considerar como in-
troducçaõ k obra do Dr. Grey.

Galiffe^ Italy and its Inhabitants, 2 vol. 8.vo preço


A Itália e seus habitantes, nos annos de 1816
e 1S17; com unia vista de suas maneiras, custumes, the-
atros, literatura, artes polidas; e alguma noticia de seus
dialectos. Por Jaimes A. GalifFe, de Genebra.

Chronicle of the Times. 18." preço, com mappa, lòs.


Clironologia dos últimos cincoenta annos , desde 1770 ai.é
18-20; precedida da mais ampla chronologia conhecida
desde os mais antigos registros, atè 1770.

Gatitrcss^s Short-hand, 12.mo preço 5s. Introducçaõ


practica ;< Sc.encia de escrevei abreviado (shorl-hand,)
Literatura e Sciencias. 39
sobre os princípios do ingenhoso Dr. Byron. PorGui.
Hierme Gautress.

Hortas Cantabrigensts. 8.vo preço 10*. 6d. Cathalogo


das plantas digenas, e exótica», cultivadas no Jardim
Botânico de Cambridge. Por James Donn. Curator da
Universidade, Sócio das Sociedades Linneana e de Horti-
cultura. Nova Edicçaõ mui accrescentada, por Frede-
rico Pursh.

Bristed's America and Her Resources. 8.T0 preço 14J.


Resenha da capacidade e character do Povo dos Estados-
Unidos, na Agricultura, Commercio, Literatura, Mo-
ral, e Religião, Por JoaõBristed, Conselheiro em Nova
York.

Millers Modem History. 8.vo preço 2 4 Í . Liçoens


sobre a Philosophia da Historia Moderna, explicadas na
Universidade de Dublin. Por George Miller, D. D.

Tytler's Considerations on íwdia. 8.™ preço 18í


Consideraçoens sobre o presente estado politico da índia,
comprehendendo observaçoens sobre o character dos
indígenas, tribunaes civis e criminaes, administração da
justiça, estado das propriedades de terras, condição dos
camponezes, policia interior, &c. Por Alexandre Fra-
zer Tytler.
40 Liíerativra e Scie«c?os.

PORTUGAL.

Saio a luz: Grammatica da Língua Portugueza, que


tendo por bazes os princípios da Grammatica Geral, ser-
virá de introducçaõ âs outras línguas, com pouco mais
«Io que a substituição de vocábulos estrangeiros a voca
bulos Portuguezes: ordenada por Sebastião José Guedes
Albuquerque. Preço 250 reis.

Agricultura das vinhas, c tuuo que pertence a ellas,


até ao perfeito recolhimento do vinho, e relação das suas
virtudes e da cepa, vides, folhas, e borras: composto
por Vicencio Alarte, Agricultor; tirado tudo dos Autho-
res, que escreveram sobre a Agricultura, e das experi-
ências, que pôde colher.

Máximas Politico-Moraes. Preço 240 reis.

Verificação do Baixo de Manuel Luiz em frente do Ma-


ranhão.

Carta dirigida a Sua Excellencia Ministro da Mari-


nha e das Colônias de França, por Mr. Roussin, Capi-
tão de Mar e Guerra.
A bordo da Fragata Ia Bayadere, em
Cayenna, a 15 de Fevereiro de 1820.
Excellentissimo Senhor:—Pelas minhas ultimas cartas
te rã Vossa Excellencia visto os resultados da minha na-
vegação desde o Cabo de S. Roque atê o Maranhão, e o
apontamento do que me restava fazer para terminar os
trabalhos hydrograficos de que estava incumbido,
Literatura e Sciencias. 41

Tinha eu feito entrar nestas ultimas operaçoens a in-


vestigação do Baixo de Manoel Luiz, indicado pelas
cartas na proximidade do Maranhão, mas de que naõ
ha conhecimento algum exncto no paiz. A natureza
deste perigo, a absoluta incerteza em que se estava sobre
a sua situação no surgidourode um porto mui freqüenta-
do, os numerosos naufrágios que oceasiona, e que, se-
gundo as minhas indagaçoens nos livros de chancellaria
de diversos consulados, sobem a 4 por anno, de 1814
para c á ; tudo excitou o mni desejo de o achar, e am-
bicionei livrar o Maranhão de tam formidável inimigo, e
coroar com este successo o útil e generoso trabalho em.
prehendido pela França nas costas do Brazil, a bem de
todos os navegantes.
Naõ podia porém eu dissiinular-me as difficuldades
desta empreza; as correntes saõ violentas nesta paragem,
e naõ sabia em que sentido teria a corigir as minhas der-
rotas, e até que distancia poderiam sobre ellas influir as
marés, que reynam perto de terra. Além disto, naõ se
podia tirar inducçaõ alguma razoável de todos quantos
indícios eu recolhia; naõ se me apontavam latitudes nem
longitudes senaõ de três ou quatro léguas de difFerença ;
naõ havia concordância nem sobre a situação, nem sobre
a distancia, nem sobre a extensão do perigo; só um
homem, actualmente primeiro Piloto do Maranhão, me
disse o vira ha 32 annos ; mas éra em idade em que naõ
se fazem observaçoens. ü que me parece quasi certo
he que o baixo naõ sobresaia á flor d'agua, e que éra
precizo estar mui perto delle para o perceber.
Participei ao Capitão General do Maranhão o meu pro-
jecto, e Sua Excellencia se mostrou penetrado do servi-
ço que eu queria fazer á sua Provincia.
Bem regulados os nossos relojos, e determinado o pla-
no do nosso ancoradouro no Maranhão, parti a 16 de
V O L . XXV. N» 146. *
42 Literatura e Sciencias.
Janeiro; sò me restavam duas âncoras nos turcos: esperei
que isto me bastaria.
Dirigi-me succesivamente, com as precauçoens que o
caso requeria, pelos diversos parallellos que se me tinham
indicado; só chegava a elles gradualmente e de dia, re-
tirando-me â noite aos pontos em que me persuadia ter
mais probabilidade de segurança; mas fácil he conhecer
que as correntes podiam lançar grandes incertezas nestas
derrotas de noite, necessariamente afastadas das observa-
çoens, e que naõ havia momento em que naõ houvesse
razaõ para as mais vivas inquietaçoens. Dez dias se
passarão em investigaçoen3 infructuosas; só tinha chega-
do a conhecer, e poder apreciar, tudo quanto podia alte-
rar as minhas derrotas. A 27, ja eu tinha exhaurido
quasi todas as probabilidades nos pontos designados pelas
informaçoens e pelas cartas, quando pelas duas horas da
manhaã, saltando a sonda de 25 a 12 braças, fundiei logo
para esperar o dia, Desaferrei ao nascer do Sol a 28:
cobri de sondas um espaço de duas milhas quadradas ao
redor de nós; as alviçaras que eu tinha promettido aos
primeiros que descobrissem o baixo excitaram o zelo,
entretanto nada vimos.
Começava por tanto a afastar-me para tornar a seguir
o curso ordinário das minhas pesquizas, quando um dos
vigias gritou que via pela popa um baixo: era na diiec-
çaõ d'onde nós vínhamos. Virei immediatemente, mas
custou-nos muito a verificar o dicto do vigia: passaram-
se quasi vinte minutos sem tornar a apparecer o baixo;
por fim o devisei, e fundiei a 400 toezas delle em 15 bra-
ças d'agua. Eraõ dez horas da manhaã, expedi duas
lanchas; um quarto de hora depois da sua partida esta-
vam ancoradas em cinco pés d'agua naõ tendo achado
senaõ doze logo a um tiro de pistola avante do Navio
Literatura e Sciencias. 43
Tive assim a viva satisfacçaõ de ter finalmente achado o
baixo de Manoel Luiz.
O ternpo, que esteve todo o dia bom, favoreceo todas
as nossas operaçoens; as de Latitude deram-na com diffe-
rença de menos de vinte segundos. Obtivemos a Longi-
tude com igual exactidaõ, de tarde, por meio de 20 se-
ries de observaçoens de ângulos horários, feitas por Mrs.
Depéronne, Givy, e por mim, com três círculos diffe-
rentes. As lanchas bordejaram até a tardinha sobre o baixo,
para se conhecer a sua forma, natureza, extensão, e ex-
tremidades ou cabeços,
Este escolho he da natureza mais perigosa que se po-
de encontrar no mar. He um banco de pedras agudas
e quasi tônicas entremeadas de arêa; tem três milhas
de comprimento de Leste quarta de Sueste a Oeste quar-
ta de Noroeste, e meia milha do norte ao Sul. Estas
rochas ou pedras estaõ separadas por intervallos maiores
ou menores ; nos quaes se achaÕde 8 a 12 braças de fundo,
ao passo que os cocorutos dos penedos estaõ ao lume
d'agua. Naõ pode por tanto o Navio que nelles bate
ter tempo de soccorrer-se, e deve logo ir ao fundo ; um
dos de que eu tenho a relação, a Galera Ingleza Venus,
naufragada em 21 de Maio de 1814, desappareceo em
menos de doze minutos, e apenas teve a equipagem
tempo de desatracar as lanchas, e de se meter nellas.
Este parcel naõ rebenta senaõ instantaneamente, e só na
baixa mar, e assim mesmo os cachoens saõ mui pequenos,
assemelhaõ-se ao remoinho que faz uma baleia. Durante
toda a enchente da maré naõ vimos alli o menor signal
de fundo alto, a pezar de estarmos só a 400 toezas do
baixo; todo Navio que navegar por cima daquelle sitio
sem sondar de continuo infallivelmenre se ha de perder.
A lancha, que eu tive alli ancorada todo o dia, achou que
o mar subia alli 12 pés, a preiamar foi pelas três horas e
44 Literatura e Sciencias.

meia e faltavam dous dias para a Lua cheia ; por tanto


he a maré de cinco horas. A enchente levava seis décimos
de milha por hora ao sudoeste; a vasante caminhava
para o nordeste com a mesma ligeireza.
Segundo as nossas observaçoens, que podemos afiançar,
a Latitude deste Baixo he de 0 o 52' 27" Sul, e si Lon-
gitude 0 o 1' 30" Leste do Meridiano do Forte de Santo
Antônio do Maranhão* ; isto he, com mui pouca diffe-
rença, a vinte e seis léguas ao Norte do ponto de parti-
da que tomaõ todos os navios que saem do Maranhão
a três léguas a Leste do pequeno monte Itacolumi; a
declinaçaõ da Agulha achou-se ser O 0 57' N . E.
Comparando esta situação com a que indica a Carta
d* Arrowsmith, o erro he de cinco léguas na Latitude e
sette na Longitude ; relativamente ao roteiro Francez, o
erro na Latitude he o mesmo. Similhante differença
naõ só explica as numerosas desgraças de que este peri-
go ha sido causa, mas pode fazer julgar incrível que naõ
tenham acontecido muitos mais.
Sem outro motivo mais que o de uma rotina consagra-
da pelo tempo, os navios saem do Maranhão para a
Europa fazem-se Norte $ de Noroeste largando a terra;
os que tem escapado fizeram esta derrota; mas todos os
que se tem perdido, e cujos processos-verbaes tenho visto,
asseguram que também a fizeram. Por conseguinte as
correntes tem salvado uns, e perdido os outros; e a in-
certeza sobre a posição do perigo obsta a que se mude
uma derrota, que assim mesmo funesta como tem sido a
alguns, sáe bem com tudo ao maior numero. Dever-se-
ha à França uma illustraçaõ que tanto se desejava; e o
Maranhão por certo lhe será por isto muito obrigado.
Rogo a Vossa Excellencia desculpe as miudezas em

* Longitude ao Oeste do Merediano de Paris 46" 36' 14".


Literatura e Sciencias. 45
que entrei; podem parecer deslocadas em uma carta,
mas a sua importância me pareceo (exigia fossem sabi-
das quanto antes; e naõ posso por outra via permittir-me
o fazellas publicas.
Accetai, e t c —
(Assignada) ROUSSIN.

ECONOMIA POLÍTICA DE SIMONOE.

CAPITULO VII.
Das Colônias.
(Continuado de Vol. XXIV. p. 852)
Desde 1625, epocha da primeira fundação das colônias
nas Antilhas, até 1664, os colonos Francezes foram qua-
si abandonados pela Metrópole; e he talvez em parte a
este abandono, e á absoluta liberdade de commercio,
conseqüência desse abandono, que elles deveram a sua
primeira prosperidade. Os Hollandezes faziam entaõ
quâsi todo o commercio das ilhas Francezas, as cidades
de Flessinguen e de Middlebourg enviavam ali naquella
epocha mais de cem vasos.
Porém o mesmo ciúme, que tem constantemente dic-
tado todos os monopólios, levou Luiz XIV a crear, em
1664, para expulsar os Hollandezes daquellas paiagens,
uma Companhia Real nas índias Occidentaes, á qual
concedeo, em toda propriedade, o Canada; as Antilhas,
a Acadia, as ilhas de Terra Nova, a ilha de Cayenna, a
Terra Firme da America Meredional, desde o Marignon
até o Orinoco; e as costas do Senegal e de Guiné, com
o privilegio exclusivo de negociar em todas estas para-
gens, tanto directamente da Europa para a America,
46 Literatura e Sciencias.

como no trafico da escravatura dos negros de África para


a America.*
Desde entaõ naõ puderam mais negociar os colonos
Francezes, nem com seus antigos conrespondentes, os
Hollandezes, nem com todo o resto de seus compatrio-
tas Francezes, ã excepçaõ dos vasos da Companhia.
Esta emprehendeo um commercio tam vasto, com qua-
renta e cinco navios, e bem depressa foi em declinaçaõ.
Temos visto que os Hollandezes enviavam cem, só para
as Antilhas; pode-se comprehender quanto a Compa-
nhia se aproveitou pela diminuição da concurrencia para
augmentar o preço relativo de todas as mercadorias, que
vendia, e diminuir o de todas as que comprava; isto he,
augmentar as despezas, e diminuir as rendas da colônia,
Mas este mal, por mais prodigioso que fosse, naõ éra
comparável com o que occasionava a privação absoluta
de saida, para as mercadorias coloniaes, e de importa-
ção para aquellas, que a America necessitava. Cem va-
sos naõ bastavam para este duplicado transporte na in-
fância das colônias; dos quarenta e cinco da companhia,
provavelmente naõ havia vinte que tocassem nas ilhas,
na epocha em que adquiriam vigor. Felizmente foi esta
companhia dissolvida no fim de nove annos; aliás naõ
pôde duvidar-se que teria arruinado absolutamente os
nossos estabelicimentos noGolpho do Mexico.f

* Vêjam-se as cartas patentes de 11 de Julho de 1664.


f Irumediatamente antes da Revolução, entravam annual-
mente no porto de Cape-Françaís, 160 vasos, sornmando em
seu porte de 150 até 4000 e 5000 toneladas ; entravam outros
tantos nos outros portos de S. Domiogos: 200 tocavam cada
anuo em Martinica, &c, de sorte que o commercio total das ilhas
Francezas occupava cerca de 700 ou 800 vasos. Dict. de le
Geog. comm. de J. Peuchef.
Literatura e Sciencias. 47
O Commercio com as ilhas ficou livre para todos os
Francezes em Dezembro de 1674. A França que se re-
cobrava entaõ do esgotamento que lhe tinham causado
suas guerras civis, dava passos rápidos para a riqueza, e
se achava nesta epocha em estado de abraçar o commer-
cio á que era chamada: quarenta annos mais adiante
fazia ja o das antilhas com 200 vasos. Com tudo a ex-
clusão dos estrangeiros diminuía consideravelmente a
troca das mercadorias entre a America e a Europa, com
grande prejuízo de uma e outra. Quanto á America, re-
duzindo o numero dos compradores, se restringia certa-
mente a sua producçaõ, e se punha obstáculo ao rom-
pimento de novos terrenos, ás novas plantaçoens, e á
multiplicação dos colonos. Quanto à Europa, priváva-
se de uma parte de seus gozos, e se lhe fazia pagar a
outra parte muito mais caro.
Uma colônia nova he dotada de tam grande vigor, que
se eleva muitas vezes a pezar dos erros daquelles, que
lhe dam as leys; ella pode quasi sempre pagar impostos
mui consideráveis, sem que estes absorvam a totalidade
do excedente de suas rendas a suas despezas, ou suas
poupanças annuaes. Entre tanto naõ se cobraram das
colônias senaõ impostos mui moderados em proveito do
Fisco*; porém cobraram-se impostos exorbitantes em

* A colônia de S. Domingos pagava de contri-


bui çoens £. 5:000.000
A de Martinica 800.000
A de Guadaloupe 800.000
Total £. 6:600.000
Cayenna, Sancta Luzia, as Ilhas de França, e de Bourbon,
naO pagavam contribuição alguma. (Neck. Adm. des Fin. T.
L Ch. 13.) Porém a carestiaoccasionada pelo regimen exclusivo
48 Literatura e Sciencias.
proveito dos negociantes, dando a estes o duplo monopó-
lio do consumo da colônia, e da compra de seus produc-
tos. Por longo tempo, e até 1722, pelo menos, o com-
mercio das colônias Francezas na America dava um
lucro de cem por cento, e ainda mais. Savary, author
do Diccionario de Commercio, o mais judicioso e o
mais exacto escriptor, que a França tem nestas matéri-
as, assegura que, no seu tempo havia 400 por cento a
ganhar nas fitas e modas, que se levavam a Quebec*
Ora, as colônias Francezas nao eram assas remotas, para
que a distancia pudesse legitimar um lucro tam prodigi-
oso, Se o negocio houvesse sido absolutamente livre
provavelmente haveria decahido de 20 a 25 por cento.
N a õ creio que o lucro que fazem os Inglezes no seu
commercio do Canada chega a mais de 20 por cento.
U m imposto sobre o consumo, que se eleva ao triplo do
valor do artigo importado, he sem duvida o maisexhor-
bitante, que jamais se pagou: e pois os consumadores o
podiam supportar sem se arruinarem, he mui mal que o
naõ pagassem ao fisco, antes do que a mercadores, que
naõ tinham nenhum direito para o receber.
As colônias do continente da America, podem suppor-
tar os lucros exorbitantes do monopolista Europeo; por
que em muitos respeitos podem passar sem elles : quasi
tudo o que he necessário á vida se colhe no Continente,

das mercadorias importadas para o consumo das colônias, che-


gava, pelo menos, a 25 por cento do seu valor, uma parte do
qual somente cedia em proveito do negociante, o resto se perdia
em inúteis despezas de transportes. Os plantadores, por outra
parte, experimentavam, por causa do mesmo regimen, uma
perca considerável nas mercadorias coloniaes, que vendiam.
* Dicc. do Comm. T. IV. p. 1016.
Literatura e Sciencias. AQ
e quanto aos objectos de luxo, os habitantes só fazem
delles moderado consumo; ainda dado que se causasse
damno mui considerável a estas colônias, quer excluindo
do seu commercio todas as outras naçoens, quer submet-
tendo o Canada, a Louisiana e a Cayenna ao monopólio
ainda mais oppressivo de uma Companhia, o primeiro
destes três paizes naõ dixava de prosperar, e os outros
dous naõ succumbiam debaixo deste regimen destructor.
Naõ teria sido o mesmo se se lhe tivessem submettido
por longo tempo as Antilhas e S. Domingos: estas ilhas
tirando da Europa os objsctos de primeira necessidade, e
lendo precisão de um commercio maritimo muito mais
activo, pagavam também muito mais freqüentemente
o lucro do monopolista, proporcionalmente á sua ri-
queza.
O monopólio do commercio da America fazia igual-
mente mal â naçaõ, que o tinha arrogado a si, porque,
assegurando a um commercio distante cem por cento de
lucro, por meio do monopólio, attrahia para este muito
mais capital, que sem isto houvera admittido; tirava-se
pois às manufacturas, á agricultura e ao commercio in-
terior ; uma parte dos fundos que lhe davam vigor: mu-
dava-se o lucro legitimo que faziam estes capitães, em
uma extorsão arrancada a Francezes: em fim impelliam-
se para uma via, em que a circulação éra muito mais
lenta, e em que, em igualdade de sommas, elles man-
tinham muito menos trabalho productivo.
Quando o commercio entre a metrópole e as colônias
se exercitava com a maior actividade, por meio de um
capital circulante de mais de 150 milhoens; ainda quea
perca resultantedo monopólio fosse entaõ mais considerá-
vel âs colônias, doque o seria hoje em dia, que a sua pro-
ducçaõ e o seu consumo se acham tam prodigiosamente
diminuídas, com tudo poder-se-hia hesitar em dar o con-
V O L . XXV. N° 146.
50 Literatura e Sciencias.
selho de renunciar a esse commercio, pelo temor de
paralyzar, ao menos momentaneamente, as numerosas fa-
bricas, que trabalhavam para as colônias; e que taivez
naõ poderiam supportar a rivalidade livre dos estrangei-
ros. Porém hoje em dia, ja as nossas fabricas naõ tra-
balham para as ilhas; uma longa guerra tem suspendido
as suas relaçoens ; e quando este mercado se naõ tornasse
a abrir senaõ para as mercadorias Francezas, que só po-
dem vender a um preço relativo livre, nenhum artista
perderia com isso o seu paõ de cada dia; nenhuma loge
se fecharia, somente se naõ abririam outras de novo sem
necessidade; a França naõ tomará sobre si a pezada obri-
gação de fazer aquillo para que ella naõ pôde bastar,
e naõ tirará às artes e â agricultura os capitães, que ellas
empregam mais utilmente, e que naõ bastam para as ne-
cessidades actuaes das fabricas, que ja trabalham.
Ainda quando o commercio fosse perfeitamente livre,
nos venderíamos sempre ás colônias os nossos vinhos, e
nossas águas ardentes, os panos daquelles de nossos de-
partamentos, que trabalham mais barato do que a Ingla-
terra, as nossas modas, as nossas sedas, nossos relógios,
muitas outras mercadorias, em que levamos vantagens
aos estrangeiros. Por outra parte, os colonos tirarão o
trigo de que nesessitam, e ogado directamente daAmeri-
ca, e em vasos Americanos, e continuarão a comprar
aos Inglezes muitas mercadorias, que acham na Inglater-
ra a melhor mercado doque entre nós.
Se considerarmos a posição de cada uma das nossas
colônias, veremos que a política nos aconselha o renunciar
com ellas o systema exclusivo. He preciso usar certo ma-
nejo com a Martinica, a única que escapou ás convulsoens
revolucionárias, e ficou rica : de outro modo ella terá de
sentir o ter voltado para a dominação Franceza, e os mais
ricos plantadores sairão dali, para seguir os Inglezes, de
Literatura e Sciencias. 51
baixo de cujo governo prosperaram. A Guadoupe e S.
Domingos, arruinadas pelas conseqüências de uma eman-
cipação, executada com tanta demência, que até houve
a barbaridade de ajunctar os escravos, que ella libertava,
naõ teraõ por longo tempo consumadores ricos; mas es-
tas ilhas seraõ felizes, se formarem relaçoens de commer-
cio com os estrangeiros, e se nelles acharem os capitães
necessários, para curar as feridas.que lhes causou a guer-
ra. A constância dos Francezes das ilhas da Reunião
merece o reconhecimento nacional; he provêllos a elles
e prover ao mesmo tempo aos interesses da Republica
nos mares da índia o fazer florecer a sua navegação cos-
teira. O meio mais seguro de achar ali corsários, em
alguma nova guerra, he deixallos exercer livremente o
commmercio durante a paz.
Portanto, se se quizer que as nossas colônias tornem
a recobrar-se rapidamente dos desastres, que lhe causou
a guerra civil, que a sua população cresça, e que ellas
augmentem realmente a força e a riqueza da França,
deve-se fazer livre o commercio em todos os seus por-
tos, e admittir nelles os vasos de todas as naçoens; mas
pode-se, sem o temor de ser oppressivo, fazer pagar um
considerável direito de entrada ás mercadorias, que ali se
introduzirem, em quaesquer vasos que forem ; esta taxa
naõ fará tanto mal á industria, como lhe faria o monopó-
lio nacional, e será muito mais proveitosa.
Além do monopólio, que se assegura aos negociantes
nacionaes contra os colonos, se tem pretendido a demais
regular o seu commercio de maneira desvantajosa; he
assim que se tem muitas vezes prohibido aos vasos do
trafico da escravatura trazer em retorno mercadorias para
a Europa; e que se tem estudado, em muitasoccasioens,
prohibir aos negociantes o commercio de uma colônia
com outra, obrigando-os desta maneira a voltar com suas
52 Literatura e Sciencias.
náos vasias, depois de terem desembarcado suas merca-
dorias, o que obriga a pagar dobrado frete, o de ida e de
volta, e he para elle um augmento de despeza, que naõ
serve de proveito a ninguém, nem ao mercador, que naõ
exige senaõ o reembolço dos seus gastos de duas viagens,
nem ao dos marinheiros, que naõ recebem suas soldadas,
senaõ em razaõ do trabalho inútil, que tem feito, e naõ
gratuitamente.
Até se tem desanimado, quanto se tem podido, o esta-
belicimentode fabricas nas colônias, e até mesmo ficariam
mui alegres se pudessem haver impedido que produzis-
sem trigo ou vinho, a fim de as ter em uma absoluta de-
pendência da metrópole, e augmentar o numero dos ob-
jectos, que estes dous paizes poderiam trocar entre si
como se qualquer paiz naõ offerecesse tantas mais occa-
sioens de trocas, quanto he mais rico e mais povoado, e
como se a colônia deS. Domingos, por exemplo, devesse
fazer menor commercio com a França, quando houvesse
chegado ao ponto de prosperidade, a que he chamada pela
extençaõ e fertilidade de suas terras, do que faz hoje em
dia. Por fim, ainda quando isto devessesucceder, como
S. Domingos faz parte da Republica Franceza, he para
desejar que seus habitantes se multipliquem e se enri-
queçam ; e por esta mesma razaõ, que naõ obtenham de
paizes distantes o que podem ter mais perto, e a melhor
mercado; como também, que naõ procurem fazer dentro
em si, o que podem obter de fora a melhor mercado. O
systema de economia política deve extender-se ás colôni-
as, assim como â metrópole, a inteira liberdade do com-
mercio, para que o vendedor se contente com o preço
relativo livre, o comprador com o preço intrínseco, e
que ambos achem nisso sua vantagem: o primeiro fazen-
do entrar no preço um lucro, que faz parte das rendas
nacionaes: e o segundo, poupando neste preço uma des-
Literatura e Sciencias. 53
peza, que faz parte da despeza nacional. Mas he, par-
tindo destes mesmos princípios, que se conhece a neces-
sidade de modificar, segundo as circumstancias, as leys
fiscaes. As colônias podem supportar impostos, mais
consideráveis talvez do que a metrópole ; mas os que se
impõem sobre o consumo, naõ podem ser os mesmos
que assentam bem no nosso caso; visto que os objectos
que entre nós saõ susceptíveis de alfândega, naõ saõ
muitas vezes nas colônias susceptíveis senaõ de excisa
e vice versa: sendo o que o seu clima produz, justamente
o que falta no nosso. Conviria, logo, que a Assemblea
de cada colônia indicasse os objectos mais susceptíveis
de serem taxados na sua importação, e que â custa disso
comprasse uma liberdade absoluta para o commercio.
O abandono do systema exclusivo procuraria ás colô-
nias Francezas outra vantagem ; ellas estaõ perfeitamente
ao capto de fazerem o commercio de contrabando com
as colônias Hespanbolas, um dos mais ricos e maislucro-
sos do Universo. Regioens immensas, de admirável fer-
tilidade, e que, a pezar de serem menos prosperas que as
outras colônias do Novo Mundo, saõ com tudo povoadas
de ricos habitantes, pertencem na America á coroa de
Hespanha, esta mantém o seu monopólio com mais seve-
ridade, que nenhum outro Governo da Europa, e no en-
tanto nem o capital, nem a industria de Hespanha saõ de
modo algum proporcionados ao commercio, que ella se
quer arrogar exclusivamente. Todas as trocas deste Im-
pério immenso com o Oriente e Phillippinas, se tem por
longo tempo feito com dous galeoens somente, que par-
tem cada anno de Acapulco para Manilha: quasi todos
os de México e Peru se faziam com um só galleaõ, que
partia de Acapulco para Lima: em fim o commercio en-
tre a Europa e a America Hespanhola, se fazia com oito
galeoens, e doze até dezeseis navios mercantes ou de re-
54 Literatura e Sciencias.
gistro, que partiam de Cadiz para o Peru, e quatro ga-
leoens com doze ou quinze vasos; mercantes, que par-
tiam anriualmente de Cadiz para o México. Se o com-
mercio fosse livre, apenas bastariam dous mil vasos,
para fazer todas as trocas destas vastas e ricas regioens.
Temos visto, que se podiam achar sophismas para justi-
ficar todos os outros monopólios, e que os Governos po-
diam ser conduzidos ao erro, por meio de raciocínios
capciosos, sobre uma matéria que elles naõ entendem, e
que de sua natureza he abstracta: mas a politica de Hes-
panha, que por três séculos se tem obstinado em esma-
gar o commercio, e arruinar seus subditos em ambos os
hemispherios, sem proveito, nem do fisco, nem de ne-
nhuma classe de particulares, he uma cousa absolutamen-
te inexplicável.
Foi em 1778, que se concedeo ás colônias continen-
taes de Hespanha a liberdade do commercio. Porto-Ri-
co começou a gozar delle desde 1765 e as outras poses-
soens Hespanholas, em differentes epochas, todas poste-
riores a esta. Esta liberdade naõ he outra cousa, senaõ
a suppressaõ dos entrávez, que se puzéram, em tempo
de PhillipelL, ao commercio entre a metrópole e suas
colônias ; a communicaçaõ destas ultimas com todos os
outros Estados, naõ he interdicto menos severo; o que
fornece o mais vasto e mais rico mercado do Universo,
daõ deixa de ser por isso o povo mais destituído de capi-
tães, de manufacturas, ede actividade, que ha na Euro-
pa : de sorte que he absolutamente impossível, que o seu
commercio seja de forma alguma proporcionado á exten-
çaõ de seus Estados, que devia vivificar.
Resulta desta desproporção entre as necessidades do
commercio, e seu estado actual, que todas as mercadorias
da America destinadas á Europa, o ouro, a prata, as pé-
rolas, o cacáo, o annil, a cochinilha, &c. saõ infinitamente
Literatura e Sciencias. 55

abaixo de seu preço nos estabelicimentos Hespanhoes;


que todas as da Europa, de que os consummadores Ame-
ricanos tem necessidade, se vendem por muito mais do
que valem; e q u e os vasos de contrabando, que fazem o
commercio furtivo entre as naçoens da Europa e os co-
lonos Hespanhoes, ganham cem e duzentos por cento.
He verdade que o seu trafico se torna perigoso, pela vi-
gilância dos guarda-costas, ou dispendioso pela necessi-
dade de os peitar, assim como aos Governadores dos
portos de mar; mas em toda a occasiaõ he sempre o con-
sumidor quem paga o seguro do contrabando, assim, a
naçaõ, que arroga a si o monopólio, concede por esta im-
prudência lucros ainda mais consideráveis aos commer-
ciantes das naçoens rivaes, do que reserva para os seus
próprios.
A mudança, introduzida em 1778 no regimen das co-
lônias Hespanholas, naõ deixou de lhes ser extremamente
favorável e de lhes augmentar muito sua prosperidade,
no curto espaço de tempo, que decorreo, deste entaõ até
á guerra marítima. Tanto quanto se pôde crer nos re-
gistros pomposos das importaçoens e exportaçoens, e nes-
tes cálculos de secretarias, que se dam como factos inne-
gaveis, a differença entre o anno de 1778, e de 1788, he
a seguinte*

Exportação da Hespanha para a America


em 1778. Moeda de França £. 19.000.000
Ideml788 • • • 76:000.000
Retornos da America para a Hespanha em
1778 . . . 18:000.000

* De Pradt, Trois ages des colonies Vol. 1. p, 219.


56 Literatura e Sciencias

Idem em 1788* . . 201:000.000


Direitos de entrada e saída em 1778 2:000.000
Idem em 1788 . . 15:000.000

* Tam grande desproporção entre o valor das importaçoens e


o das exportaçoens da America Hespanhola pôde ser facilmente
explicado. Primeiramente he preciso notar, que se compre-
Iiendem entre os retornos para a Hespanha, 50 milhoens pela
somma das contribuiçoens, que o Rey cobra dos seus dominios
do ultrarmir, e outra somma talvez igual, que he devida annual-
mente a grande numero de proprietários de terras, de senhores
e de pequenos príncipes, todos domiciliados em Hespanha, e
cujas possessoens iminensas estaõ situadas na America. De-
pois, como ja temos visto, Liv. 1. cap. 7., produzindo todo o
commercio vantagem aos dous paizes que commercêam entre si,
e comprehendendo-se os gastos dos portos e das alfândegas, e os
lucros dos negociantes no preço das mercadorias importadas em
retorno, todas as vezes que se avaliam os objectos trocados se-
gundo o seu preço no lugar aonde saõ carregados, acha-se que
a importação excede muito a exportação. A carregação que
se faz em Cadiz para a America, vale naquella cidade 76 mi-
lhoens ; mas se a isto se accrescentar o lucro mercantil, aug-
mentado pelo monopólio, os gastos de porto e da alfândega Hes-
panhola, cuja pauta lie mui subida, e até monta, em alguns
artigos, a 70 por cento no valor ; ver-se-ha, que as mercadorias
vendidas nos portos da America valem, pelo menos, uma por ou-
tra, 50 por cento mais ; demos-lhes 114 milhoens, com os
quaes comprará um retorno para a Europa, que, quando for
vendido, valerá também 50 por cento mais: grande parte deste
retorno será em moeda, cujo augmento de valor se naõ pôde ex-
primir em números, e deve achar-se inteiramente na primeira
operação, ou na cessaõ a um preço menos elevado nas mercado-
rias com que se faz a compra.
Por fim, os cálculos das secretarias, bem como as outras ba-
zes numéricas da arithmetica política, saõ sugeitos a tantos
erros e inexactidoens, que he preciso considerállos antes como
hypotheses do que como factos.
Literatura e Sciencias. 57
Como as mesmas causas de inexactidaõ e de erro de-
vem ter influído n'um e n'outro calculo; como, pelo
menos, o do producto das alfândegas, deve ser fundado
em factos positivos; esta comparação, sem nos dar a me-
dida do commercio da Hespanha, nos dâ uma aproxima-
ção da influencia, que teve sobre sua prosperidade, a li-
berdade que se lhe concedeo, por mais circumscripta
que fosse. O augmento, que lhe daria a plena liberdade
do commercio, seria ainda mais considerável, naõ so-
mente em razaõ da pouca actividade da marinha Hespa-
nhola, e da pouquidade dos capitães, de que esta naçaõ
pôde dispor porém mais ainda em razaõ do character
vagaroso e desleixado, que o Governo e a Religião lhe
tem imprimido, tanto nas colônias como na metrópole,
e que se naõ pôde destruir senaõ pela sua mixíura com
outras naçoens, ou pela actividade dos negociantes aven-
tureiros, que correm por esses vastos paizes, para descu-
brir os thesouros, que estes encerram e chamar seus ha-
bitantes, pela offerta de gozos e de riquezas, a lavrallos
em serviço do universo. O gênio dos lnglezas e dos Hol-
landezes levado ao Peru e ao México faria mais a favor
destes dous paizes, do que os capitães mercantis destes
dous povos opulentos.
A naçaõ, que mais poderia ganhar na libertação do
commercio de suas colônias, he a Hespanhola. Se ella
substituísse direitos de entrada moderados, â prohibiçaõ
que se esforça em manter, tiraria de seus estados do
novo mundo uma renda tam considerável, que ella só
bastaria para dar todo o seu vigor a este Governo ja ha
tanto tempo exhausto. Mas a Hespanha tem um prodi-
gioso caminho que andar, antes de regular a sua econo-
mia política, pelos princípios da razaõ.
(Continuar-se-ha.)
VOL. XXV. N*. 146. H
58 Literatura e Sciencias.
Esprit des Institutions Judiciaires de V Europe par Mr.
Meyer.

(Continuado de Vol. XXIV. p. 590.)


N o capitulo 16.° tracta o A. daquella parte da juris-
dicçaõ dos Parlamentos, exercitada pelo que se chama
Arrets de regf.em.ent,r(o que conresponde ao que se pôde
chamar em Portuguez casos julgados, ou " Assentos da
Casa da Supplicaçaõ.") e Enregistrement des bois, que
naõ podemos explicar por termo análogo, na legislação
Portugueza.
Os Parlamentos da França, porém, naõ se limitavam,
nos seus Arrets de reglement, a interpetrar authentica-
mente as leys, como succede em Portugal com os assen-
tos da Casa da Supplicaçaõ, mas constituíam também di-
reito novo. Esta attribuiçaõ parece derivar-se da pri-
meira formação dos Parlamentos, que eram, como te-
mos visto, assembleas legislativas ; e, ainda depois de al-
terada a sua natureza, ficaram exercitando este poder,
sem que os reys lho disputassem, posto que os mesmos
reys pudessem depois confirmar ou derogar o direito
assim constituído.
O A. conclue, que esta perogativa dos Parlamentos
lhes provinha de sua instituição originaria; por isso que
as outras authoridades judiciaes, ainda superiores, naõ
tinham esta faculdade de fazer arrets de reglement.
Quanto ao direito de registrar as leys, assim se explica
o A. a p. 171-

" As leys emanadas do Soberano eram registradas nas notas


de todos os tribunaes, e publicadas nas suas audiências; mas
éra isto ainda um dos privilégios das Cortes do Parlamento, que
as leys se naõ reputavam obrigatórias, senaõ desde o momento em
Literatura e Sciencias. 59

que eram registradas nestas Cortes; e esta observação he essen-


cial para characterizar a natureza particular da jurisdicçaõ dos
Parlamentos Os Parlamentos tinham entendido o direito
de registrar, naõ somente verificando a forma e authenticidade
dos edictos e ordenaçoens, mas até mesmo a examinar o seu
contheudo; e assim apresentavam aos Reys representaçoens,
sobre o que julgavam naõ convir á situação das provincias; pu-
nham restricçoens e modificacoens ao registro ; exercitavam de
facto uma censura sobre o poder legislativo, e heisto o que se fará
mais conspicuo, quando nos occuparmos do Parlamento de Paris,
de suas pretençoens com os pares, contra a authoridade Real, e
com os Reys, contra os pares,

Como tam extensa authoridade se naõ pôde deduzir


somente do desejo, que tivessem os Reys e Gram Senho-
res de conservar as leys registradas nos seus respectivos
Parlamentos, o A. faz nascer do tempo em que as assem-
bleas senhoriaes se dividiram em duas secçoens; uma,
que continuou as funcçoens legislativas com o nome de
Estados; e outra com o nome de Parlamento, para as
funcçoens judiciaes mas a quem se reservou o cuidado
de aconselhar ao Rey os meios mais convenientes de exe-
cutar as ordenaçoens Reaes, nas diversas provincias. E
allegando povas desta opinião, regeita também outras,
que attribuem este direito dos Parlamentos á guarda dos
archivos, a necessidade do consentimento dos Altos-Ba-
roens, e á deliberação dos antigos Parlamentos.
No cap. 11. expõem o A. a matéria do Parlamento de
Paris; da Corte dos Pares; e das Remontrances ou Re-
presentaçoens.
De todas as cortes soberanas, que instituio Phillipe
Bello, o Parlamento de Paris foi quem teve mais exten-
sa jurisdicçaõ; porque estava na Capital e mais próximo
para dar a El Rey os conselhos que precisasse, sem de
60 Literatura e Sciencias.
mora. Alem disto o Parlamento de Paris éra continua-
ção daquelle que os Capetos tinham no seu Ducado de-
França. Mas nem por isto convém o A., como querem
alguns, que deste Parlamento de Paris emanassem as ou-
tras cortes soberanas de todo o Reyno; por que o A. in-
siste em que os Parlamentos das provincias dimanáram
da mesma fonte e tiveram a mesma authoridade separa-
damente que o de Paris, pois todos foram uma secçaõ
da assemblea suprema, que em cada provincia existia
com o nome de Parlamento ou de Estados e com o exer-
cício das funcçoens legislativas e judiciaes.
Quanto á Corte dos Pares, quando os sette grandes vas-
sallos da coroa elegeram d'entre si um para Rey, em
lugar dos descendentes de Carlos Magno, os outros seis
senhores se formaram em uma espécie de Conselho Pri-
vado do Rey ; e assumiram depois o nome de Pares de
França. Os Reys,para diminuirá sua influencia, uniram-
lhes mais seis pares ecclesiasticos, e estes doze pares
compunham entaõ de direito a Corte, que o Rey ajunc-
tava para consultar, tanto sobre a administração do Rey-
no, como para julgar as causas, que eram reservadas
à sua Corte.
Pouco a pouco foram os reys augmentando a um nu-
mero indefinito os Pares, e os doze antigos naõ vieram
a ter senaõ um titulo nominal, nas ceremonias da Co-
roaçaõ. Mas a comparação desta alterçaõ na França,
com a correlativa em Inglaterra, he tam interessante,
que a daremos nas mesmas palavras do A. a p. 197»

" Havia uma differença considerável, entre os Pares France-


zes e os da Gram Bretanha, a qual devia sua origem á direcçaõ
que tomara, relativamente aos subvassallos, a marcha dos negó-
cios administrativos do Reyno. Na Inglaterra, os subvassallos
Literatura e Sciencias. 61

dos grandes feudos naõ participavam no Governo, senaõ pelo


intermédio do Alto-Baraõ, que tiuha assento na Câmara Alta do
Parlamento : os do dominio Real, a que se uniram depois todos
estes grandes feudos, faziam parte das associaçoens ou villas
a que os communs foram admittidos em epochas mais recentes ;
formavam a Câmara Baixa do Parlamento: pertencendo á naçaõ;
cessavam de fazer parte do seu grande feudo, e ficava dissolvido
o grande laço do systema feudal: tinham assento, ao menos por
seus representantes, no Grande Conselho da Naçaõ, mas aban-
donaram as assembleas dos Conselhos do Feudo: uma reunião
dos Estados Geraes da Naçaõ substituía os Estados das provin-
cias, e os subvassallos, cedendo aos Altos Baroens as vantagens
de ser Par, confundiam-se com o Terceiro Estado. Em França
os Pares formavam o Gram Conselho administrativo e judicial
do Rey ; cada um convocava no seu feudo os Estados, isto he, a
sua Corte senhoria!, a que chamava todos os seus vassallos : os
vassallos immediatos da Coroa, que naõ tinham assas poder,
para hombrear com os pares, naõ entravam no Conselho, mas
naõ podiam ser excluídos das convocaçoens dos Estados Geraes,
quando se desejava que elles consentissem em sacrifícios extra-
ordinários : abatidos ao nível dos subvassallos, e naõ podendo,
como na Inglaterra, serem representados, por terem associa-
çoens entre si, vinham ein pessoa aos Estados Geraes, como os
subvassallos do dominio, com quem os tinham confundido; e os
Estados Geraes da França, em vez de serem compostos de Câ-
maras, como o Parlamento Inglez, foram compostos de Ordens.
O Clero havia-se, ja muito d'antes, constituído em ordem separa-
da, e a razaõ era evidente: naõ tinha podido adquirir em
França o poder, que alcançara na Inglaterra e na Alemanha,
aonde os ecclesiasticos tinham grandes feudos da coroa; para
terem alguma influencia éra preciso que se reunissem; os Pares
Ecclesiasticos, que só tinham essa dignidade de Pares da von-
tade dos Reys, e naõ, como em outros paizes, em conseqüência
de suas possessoens, reuniram-se antes a esta ordem que á ou-
tra dos Pares: e esta divisão natural entre os mesmos Pares os
impedio de reunir-se contra os subvassallos. Na Gram Bi«ta-
62 Literatura e Sciencias.

nha, os Pares, tanto ecclesiasticos como leigos, formavam uma


authoridade formidável, e mantinha a balança entre os subvas-
sallos e as communs: em França naõ eram senaõ os principaes
membros da ordem do clero e da nobreza ; conjunctamente com
os ecclesiasticos naõ Pares e subvassallos, eram oppostos ao
Terceiro Estado."

Desta maneira a Corte dos Pares se achou isolada nesta


revolução geral, tendo os tribunaes permanentes o co-
nhecimento de todos os negócios judiciaes. A ignorância
dos Pares, em matérias de ley, fazia que fosse necessário
ajunctarem-se-lhe letrados, quando tinham de julgar casos
importantes; estes adjunetos eram os membros do Parla-
mento de Paris, como os mais próximos. Foi assim que
pouco a pouco o Parlamento de Paris se identificou com
a Corte dos Pares.
O Parlamento de Paris pretendeo mais, posto que
sem razaõ, que representava os Estados geraes em todo o
sentido: os Reys conviéram de algum modo nisto; por-
que sendo os membros do Parlamento creaturas suas,
podiam os reys nelle manejar muitos negócios, melhor
do que nos Estados Geraes; e a naçaõ também naõ se
oppunha a isto, vendo que a opposiçaõ das três ordens
umas ás outras, nos estados geraes, causava sempre confu-
são na marcha dos negócios.
No cap. 12. expõem o A. os meios de que se serviram
os soberanos de França para conter os mesmos parlamen-
tos a quem tinham dado grandes poderes. Para isso se
inventaram as hltres de jussion ou ordens especiaes
d' El Rey; lettres de cachet, ou mandados de prizaõ e
desterro; com que os membros individuaesdo Parlamen-
to se continham sempre em terror e intimidados. Mas
alem disto havia outras medidas, que se dirigiam contra
toda a corporação do Parlamento,
Literatura e Sciencias. 63
Quando El Rey ajunctava os Pares e Altos Baroens, ap-
parecia com grande fausto, e sentava-se em um throno,
que se chamou lit ; e daqui veio charmar-se esta sessaõ
lit de justice. Nestes lits de justice, pois, faziam os Reys
registrar as suas ordenaçoens, a que o Parlamento se ti-
vesse opposto; e supposto que o mesmo parlamento appa-
recesse na Corte dos Pares, éra ali admittido mera-
mente para aconselhar os Pares nas matérias de ley.
Os Reys substituíram depois a esta Corte dos Pares
o Conselho Privado, cujos membros eram eleitos por El
Rey, sem attençaõ â dignidade de Par, ou a outra qual-
quer ; e entaõ claramente o Parlamento de Paris, naõ ti-
nha superioridade alguma, nem de graduação nem de
jurisdição, aos outros Parlamentos do Reyno.
No cap. 13. explica o A. as classes dos Parlamentos
e o Parlamento de Meaupeou. Da exposição do A. se
vê, que, naõ obstante o cuidado, que tinham os reys, em
fazer sentir aos Parlamentos a inferioridade de sua situa-
ção, sempre elles oppunham alguma barreira ao poder
arbitrário dos monarchas; e como pareciam ser uma po-
tência intermediária entre o Soberano, e o povo, ganha-
ram muita ascendência na opinião publica: tanto mais
que, depois de se porem em desuso os Estados Geraes,
eram os Parlamentos os únicos corpos, que se attrevíam
a fazer representaçoens a El Rey, contra a suas ordena-
çoens, que pareciam injustas ou inconvenientes.
Luiz XIV., picado do que fizera o Parlamento, du-
rante sua minoridade, logo que assumio o Governo trac-
tou o Parlamento com o mais estudado desprezo, até o
ponto de Ir assistir nelle de botas, e com chicote na maõ;
por fim ordenou, que o Parlamento naõ pudesse fazer-
lhe representaçoens contra algum de seus edictos, senaõ
oito dias depois de lhe haver dado execução.
O descrédito em que cato Luiz XIV. pelos fins do seu
64 Literatura e Sciencias.
reynado, augmentou muito o respeito do Parlamento na
opinião publica; assim,logo que morreoLuiz XIV., mos-
trou o parlamento grande energia, que apoiada pela Na-
çaõ lhe permittio que annulasse o testamento do defunc-
toRey, ea Regência do Reyno foi conferida, por uma re-
solução do Parlamento; o qual também declarou inva-
lida a ordenança de Luiz XIV., que tinha prohibido as
representaçoens contra seus edictos.
Durante a ruinoiidade de Luiz XV., o Parlamento
naõ só reassumio todas as suas antigas attribuiçoens, mas
os Parlamentos todos se uniram distribuindo-se em
classes, de que éra a primeira o Parlamento de Paris; e
fizeram assim a mais decidida opposiçaõ ás medidas do
Ministério.
Esta uniaõ, se fosse bem seguida, teria sem duvida mu-
dado o Governo da França de Monarchico para Aristocrá-
tico. Porém os Parlamentos, soberbos com a ascendência
que haviam adquirido, começaram a faltar â justiça;
daqui se originaram queixas nos povos, e os homens
instruídos indagaram os defeitos dos procedimentes judi-
ciaes, e publicaram suas ideas a este respeito, a pezar da
falta de liberdade de imprensa.
Perdida assim a força moral dos Parlamentos, pôde
o Ministério crear Conselhos Superiores, independentes
dos Parlamentos, para conhecer em ultima instância de
causas judiciaes, com menos despezas dos litigantes, e
menos demoras. O povo approvou este melhoramento; e a
favor desta sancçaõ publica pôde o Ministério supprimir
muitos Parlamentos das Provincias, e por fim o mesmo
de Paris, sem encontrar esta medida difficuldade no-
tável.
Mas a pezar disto, faltava aos novos corpos de magis-
tratura, aquelle respeito, que a antigüidade tinha gran-
geado aos Parlamentos, o povo chamou por escarneo ao
Miscellanea. 55

tribunal de justiça, que substituio o Parlamento de Paris,


Parlamento de Meaupeou, nome do Chanceller, que
conduzira esta inovação. Luiz XVI., abolio estes Con-
selhos, e tornou a reviver os Parlamentos, modificando,
lhe porém a authoridade, que foi extincta de todo pela
revolução.
(Continuar-se-ha.)

MISCELLANEA.

G U E R R A DO R I O - D A - P K A T A .

Officios de vários Commandantes nas margens do Uru-


guay.
IllustrissLmo e Excellentissimo Senhor.—Tenho a hon-
ra de transmittir a Vossa Excellencia o officio, que me
dirigio o Brigadeiro José de Abreu ; por meio delle co-
nhecerá Vossa Excellencia os felizes resultados, que se se-
guiram â derrota, que soffreo Artigas da batalha de Ta-
quarembó; aquelle golpe de mão desorganizou inteira-
mente os planos formados na ultima desesperaçaõ, em
que se achava aquelle rebelde, por motivo de encontrar
sempre obstadas as tentativas por um punhado de fieis
Portuguezes, que neste período, mais que nunca, tem sus-
tentado ajusta causa, que os impelle a grandes emprezas.
Pelos dados, que offerece a referida participação, ha
V O L . XXV. N° 146. 1
66 Miscellanea.
toda a probabilidade que Fructuoso Ribeiro, desprezan-
do o chamamento de Artigas, e destituindo-se da maior
parte das suas tropas, retrogradou com 100 homens, com
a idéa sem duvida de ir appresentar-se a alguma das au-
thoridades do exercito, que opera na Capitania de Monte
Video ; porque, se as suas vistas ainda fossem hostis, naõ
desmembraria a sua Pátria, e pelo contrario procuraria
antes reforçala mais, a reunir-se a Artigas da maneira
que este intentava.
Neste momento acabo de receber, pelo conducto do
Brigadeiro José de Abreu, a copia da participação, que
ao Tenente General Curado dirigio o Sargento Mór Bento
Manoel Ribeiro, em resulta da commissaõ, de que foi en-
carregado: tenho a honra de a dirigira Vossa Excellen-
cia, a fim de que possa conhecer mais individualmente os
detalhes daquella operação, e também para Vossa Excel-
lencia ficar mais certo de que he com todo o fundamento
a supposiçaõ, que formo, da apresentação de Fructuoso.
Quanto aos Charruas, que naõ quizeram seguir a Artigas
para além do Uruguay, he esse um arreigado custume,
que tem elles de jamais passarem para aquelle lado;
porque domiciliados, como estaõ, ha tantos annos, nos
campos desta parte, nunca particaram transferirem-se
para outros.
Deos guarde a Vossa Excellencia Quartel General na
Capella d' Alegrete, 17 de Fevereiro de 1820. Illustrissi-
mo e Excellentissimo Senhor Thomas Antônio de Villa-
nova Portugal.
C O N D E DA F I G U E I R A .
IHustrissimo e Excellentissimo Senhor. Tenho a ho-
ma de participar a Vossa Excellencia que neste instante
chega a este campo um Miliciano, irmaõ do Major Bento
Manoel Ribeiro, com um vaquiano mandado pelo dicto
Major, e conta o seguinte. Que logo se soube naquella
Miscellanea. <57
columna da derota de Artigas em Taquarembó por uns
insurgentes agarrados. Em conseqüência desta noticia
mandou o Tenente General Curado sair o mesmo Major
Bento Manoel com quinhentos homens a atacar Fructuoso
Ribeiro, ao qual naõ encontrou, e sabendo que o dicto
Fructuoso tinha o seu trem em Daimam com grande gu-
arniçaõ ; caminhou a atacar e tomar o dicto trem; o qual
já naõ achou. Constando-lhe porém que Artigas tinha
mandado chamar a Fructuoso, para passar com elle para
o outro lado, e que naõ querendo este obdecer, enviara
uma partida ao Daimam, que levou para o salto o trem
de Fructuoso, e agente, Bento Manoel seguio, e alcançou
o trem no dicto salto, eo tomou ; e havendo já deste lado
pouca gente, porque a maior parte havia passado com
Artigas; dispersou os que havia, matando uns, e pas-
sando outros a nado para o outro lado, e Fructuoso Ri-
beiro voltou para a campanha com cem homens unica-
mente. Determinou em conseqüência o Major Bento
Manoel mandar a divisão para a columna, e elle com ou-
tros cento e tantos homens seguir Fructuoso, e atacallo
no caso que elle se naõ fosse apresentar, como todos sup-
punham. Na marcha de Bento Manoel para Daimam,
tendo feitohalto no arroio deMolhas, vieram também pas-
sar bem perto as partidas de Lopes Xico, e Ramos, que
vinham de retirada a passar o Uruguay; e Bento Manoel
de manhaã marchou a atacallos, e elles fugiram, e se der-
ramaram de sorte, que só poderam os nossos apanhar um, e
matar outro, e os mais seguiram a passar o Uruguay por
onde poderam, e naõ consta que haja mais inimigos deste
lado do Uruguay, senaõ Fructuoso com cem homens, e o
resto dos Charruas, que já naõ vem a ser cousa alguma, de
maneira quea derota que Vossa Excellencia fez a Ar-
tigas os afugentou a todos. Também diz o dicto Milici-
ano, que o Major Bento Manoel tinha ordem para se re-
68 Miscellanea.
colher logo, e que se dizia que era para marchar toda a
Cavallaria da columna do Tenente General Curado para
a barrado RioGy, a reunir-se com a Cavallaria de Monte
Vídeo para limpar a campanha do Rio Negro para Ia.
He quanto tenho que pôr na respeitável presença de
Vossa Excellencia, que Deos guarde por muitos annos.
Acampamento noCatalã 15 de Fevereiro de 1620.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conde da Fi-
gueira Governador e Capitão General,—O Brigadeiro
José de Abreu.

Copia da Parte, que dá o Maior Bento Manoel ao Vx-


cellentissimo General Curado.

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor. Participo a


Vossa Excellencia, que naõ encontrei o Commandante
Castro em Queguay, porque, contra a ordem de Fructuo-
so, marchou a reunir-se com Artigas. Fructuoso se achava
nas pontas do Queguay com cem homens Botanlis. Em
Queguay Xico surprehendi o Capitão Ibanhez com uma
guarda, que escoltava as bagagens do Major Duarte.
Tomaram-se-lhe carretas, algum fardamento e armamento,
e tudo que se naõ pôde levar, mandei inutilizar e quei-
mar. Constou-me que Lopes Xico, e Ramos se achavam
muito immediatos, procurando reunir-se a Artigas: man-
dei atacallos; fugiram, e dispersaram-se, e em guerilhas
foi morto um Official de Ramos, por nome Narcizo da
Costa; tomaram-se algumas cavalhadas e carretas de
Ramos, que mandei queimar. Por um próprio que apa-
nhei, vindo naquelle mesmo dia de Artigas, soube que se
achava em Carumbi, reunindo tudo quanto podia para
passar ao outro lado do Uruguay; e me pareceo que naõ
Miscellanea. 69
devia perder um momento em sequillo, e o fui alcançar
no Uruguay, no passo entre os dois saltos. Já tinha to-
da a tropa da outra banda, mas sempre tomei 2.000 caval-
los, mais ou menos, e 10 carretas de Fructuoso, que le-
vavam uma grande ferraria, e muitas famílias,as quaes,
a pezar de terem ordem de Fructuoso para voltarem, A r-
tigas havia mandado que seguissem por força. Apre-
sentaram-se-me dous soldadados da Divisaõde voluntários
Reaes, e outra de guerilhas de Coritiba, que tinham sido
prisioneiros pelo inimigo, assim como um Soldado de in-
fanteira da Legiaõ de S. Paulo, que tinha sido disperso
em Queguay. Lopes Xico j á se reunio a Artigas, e
passou também. Ramos com alguma pouca gente tam-
bém procura passar. OsCharruas em numero de 80 com
famílias e cavallos se retiram dos lados do Arunrunguá.
Fructuoso se reúne com Duarte pelas pontas do Que-
guay, em numero de 150 homens: ha todos os indícios
de que elle se apresenta. Faço seguir o Capitão José
Rodrigues com .'{50 homens, conduzindo 28 prisoneiros,
entre estes o Capitão Ibanhez, cavalhadas, carretas, e fa-
mílias para o acampamento, pelo caminho, que levou da-
qui a columna; eeu com 200 homens sigo as pontas de
Queguay a decidir Fructuoso a apresentar-se, ou a ba-
têllo. Nestes 8 até 10 dias hei de estar no acampa-
mento. H e quanto tenho a honra de levar á respeitá-
vel presença de Vossa Excellencia, que Deos guarde.

Campo em Daimam 13 de Fevereiro de 1820.

BENTO MANOEL RIBEIRO


70 Miscellanea.

Refiexoens sobre as novidades deste mez.


HEYNO UNIDO DE PORTUGAL BRAZIL E ALGARVES.

Estado actual de Portugal.


Occupamos-nos no N.° passado, em discutir a questão agita-
da, sobre o futuro destino, que convém a Portugal; e como as
opinioens oppostas ás nossas parecem ter tido alguns advogados
entre os estrangeiros, naõ será inútil, que, voltando á matéria,
examinemos alguns argumentos, que se tem produzido de novo
sobre o mesmo assumpto.
Antes de passar a diante declaramos, pela centésima vez; que,
expondo os males de revoluçoens súbitas, naõ approvamos, nem
ainda desculpamos as faltas, e os erros de administração, que pre-
cisam de remédio e reforma ; a nossa intenção sempre tem sido,
traçar a linha de limites, entre a correcçaõ dos abusos, e a total
subversão da ordem estabelecida ; e ainda que tenhamos contra
nós os partidistas de ambos os extremos ; uns, que naõ querem
reforma ou alteração alguma, outros, que se naõ contentam com
menos do que a total annihilaçaõ de todas as formas actualmente
em uso ; desejamos, com tudo, que nossas opinioens sejam defi-
nidas ; para que a contraríedade, que encontrarmos, pelo me-
nos naõ seja fundada em falta de intelligencia de nossos princí-
pios.
Que alguns ralhadores, ou políticos de botequim, se enfadem,
por nós havermos dicto, que a Corte do Rio-de-Janeiro deve
adoptara Política Americana, he erro desculpavel, em quem naõ
alcança a mais ; porque julgam que entendemos por Política
Americana e Ministério Braziliense, o serem os Ministros nas-
cidos no Brazil, ou talvez no Rio-de-Janeiro ; se he que naõ li-
mitam seu pensamento a que os Ministros, que formassem aquel-
le Gabinete nascessem juncto á fonte do Carioca.
Mas se de boa vontade deixamos o desabafo de fallar á tóa a
essa gente, que, andando ás apalpadelas, só por accaso poderi-
am atinar com as opinioens, que Estadistas pronunciam, naõ
Miscellanea. 71
podemos consentir que passe da mesma sorte o que dizem ho-
mens de reputação, que, sendo bons juizes da matéria, falha-
ram por fundarem seus raciocínios em factos, de que só tive-
ram erradas informaçoens. Desta classe he sem duvida Mr. De
Pradt; e como seu dictame he de considerável pezo no mundo
politico, convém examinar o que elle disse sobre a nossa ques-
tão.
Mr. De Pradt, pois, em um opuscuto, que recentemente pu-
blicou, sobre " a actual revolução de Hespanha e suas conse-
qüências," traz uma passagem que vamos examinar, porque
parece muito ter favorecido a opinião daquelles Portuguezes,
que recommendam a separação de Portugal do Brazil : e diz
assim :—
*' Naõ he por uma conquista material, que a Hespanha pôde
influir sobre Portugal, mas sim por uma conquista moral. Pa-
rece que o espirito de im providencia tem até agora governado
Portugal, e que tem preparado seus destinos, assim como os de
outros paizes. El Rey está ausente, e deixou de ser Portuguez
para ser Braziliano. Ja naõ pôde voltar á Europa, sob pena
de perder o Brazil. Consequentemente Portugal está ja para
sempre abandonado por seu Soberano ; e, como tal, condemnado
a soflrer uma regência eterna. Todo o dinheiro de Portugal vai
agora para o Brazil, quando d'antes do Brazil vinha a Portugal
Todos os seus negócios saõ agora decididos no Bra-
zil ; isto he, a uma distancia immensa ; e os recrutas de Lisboa,
Coimbra e Porto estaõ condemnados a ir morrer a Pernambuco
e Monte-Vedio. E para que nada faltasse ao systema, nomeou-
se para o commando do exercito Portuguez um General Inglez,
o Marechal Beresford; porém naõ lhe deram um exercito Inglez
para o sustentar. Ja em 1817 houve militares Portuguezes,
que intentaram expulsállo, e dar á sua pátria um Governo na-
cional. E pergunto agora ; < éra possivel combinar, ou accu-
mular, para assim dizer, mais razoens, para que Portugal quei-
ra seguir o exemplo de Hespanha ? Com tudo, Portugal nunca
será conquistado pela Hespanha ; porque ha incompatibilidade
entre os dous povos. Além de que, como sempre toda a causa
72 Miscellanea.
grande produz seu prompto effeito, deve inferir-se, que os
acontecimentos de Hespanha, excitando fortemente a attençaõ
de Portugal, naõ tardarão muito em induzíllo a acabar por uma
vez com este estado amictivo, em que se acha. Procurará ter
um rey, que resida no paiz, e que seja independente do Brazil;
e porá o novo throno ao nível dos mais thronos constitucionaes,
que se vaõ levantando na Europa. Naõ nos causaria admiração,
que este movimento fosse feito pelo exercito, visto o exemplo
que lhe deo o exercito Hespanhol. O exercito Portuguez naõ
tem mais vontade de ir ao Brazil, do que o Exercito Hespanhol
tinha de ser transplantado á America. Ha além disto em Por-
tugal um motivo mais, que naõ havia em Hespanha ; e he o
haver ali um General estrangeiro ; cousa sempre odiosa e insul-
tante aos olhos de qualquer naçaõ "
Se Mr. De Pradt houvera consultado a Historia Portugueza,
naõ attribuíra á residência d'El Rey no Brazil queixas, que
nenhuma connexaõ tem com essa residência.
Começa Mr. De Pradt dizendo, que El Rey deixou de ser
Portuguez, para se fazer Braziliano.
Saõ isto vozes vagas, a que mal se pôde fixar determinado
sentido; porque, se nisto considera somente o lugar da residên-
cia d'El Rey, esta residência naõ determina o character d'El
Rey, em ser Portuguez ou Braziliano, nem também essa resi-
dência, só de por si, decide do character de suas medidas.
Nós temos sustentado, em outros N° s ., que o Ministério da
Corte do Rio-de-Janeiro deve adoptar uma Política Americana;
e se El Rey se mudasse á manhaã para Lisboa, insistiríamos
ainda, que o Ministério da Corte de Lisboa deveria adoptar a
mesma Política Americana, que recommendamos. Logo a re-
sidência d'El Rey, no Rio-de-Janeiro ou em Lisboa, naõ deve,
segundo nós, characterizar El Rey ou suas medidas de Brazili-
ano ou de Portuguez, (pondo estes nomes em contraposição um
do outro.)
A razaõ porque assim recommendamos a Política Americana,
resida El Rey aonde residir, he porque julgamos que naõ se de-
vero considerar Portugal e Brazil como dous Estados separados,
Miscellanea. 73

mas como partes da mesma Monarchia; e, suppondo esses


Estados assim constituídos, a razaõ, porque recommendamos a
Política Americana, he, que, nas circumstancias actuaes do
Mundo Politico, a maior consideração da Monarchia deve re-
sultar de sua influencia nos negócios Americanos, e naõ de
suas ligaçoens com o systema Européo. O Brazil, na Ameri-
ca, pôde ser o primeiro Estado em grandeza, entre seus vizi-
nhos : Portugal, na Europa, nunca será senaõ uma potência
mínima, na contemplação dos mais Estados Europeos. Daqui
concluímos, que a Política geral, que deve adoptar o Governo do
Reyno Unido, deve ser aquella, que dictar a parte mais influen-
te da Monarchia, e de que mais bem possa resultar ao todo.
Donde se segue, que, seja aonde for a residência d'El Rey, a
Politica que deve seguir-se, para os interesses da Monarcliia
toda, deve sempre ser a mesma.
Quando de Pradt diz, que El Rey, por isso que reside agora
no Rio-de-Janeiro deixou de ser Portuguez, se expõem a que
lhe retorquamos, que se El Rey voltar a residir em Lisboa, seja
temporária, seja constantemente, deixará de ser Braziliano;
principio, que naõ se pôde admittir, unia vez que se admitta a
unidade da Monarchia ; e que toda ella seja regida pela mesma
política, e pelos mesmos princípios de administração. Do con-
trario teríamos de ver mudado o syctemu de governo da naçaõ,
todas as vezes que as circuinsíancias exigissem a passagem
d'El Rey de uma província para outra.
Segue, depois, Mr. De Pradt com a queixa de que o dinhei-
ro de Portugal vai agora para o Brazil, quando outrora vinha do
Brazil para Portugal. Naõ sabemos quaes foram os cálculos esta-
tísticos, em que Mr. De Pradt fundamentou esta asserçaõ; mas,
racionando pelos principies geraes de economia política, a
salda do dinheiro de Portugal paia o Brazil, ou do Brazil para
Portugal, naõ deve depender do lugar aonde El Rey reside,
mas sim da natureza das transacçoens mercantis entre aquelles
dous Estados.
Por vários annos, antes da mudança d'El Rey para o biaaif,
V O L . X X V . N° 140. K
74 Miscellanea.
ia o dinheiro de Portugal para Pernambuco, para ali comprar
algudaõ. A razaõ disto naõ éra o lugar da residência d'El Rey,
pois elle residia entaõ em Lisboa; mas succedia assim ; porque
as exportaçoens de Pernambuco paia Portugal eram mais impor-
tantes do que as importaçoens de Portugal em Pernambuco, o
que necessitava o pagamento do balanço em dinheiro.
Se os productos, que de Portugal se levarem ao Brazil, impor-
tarem em mais do que os productos que em retorno vierem do
Brazil a Portugal, por força ha de vir dinheiro para pagar o ba-
lanço : mas, se os productos do Brazil forem mais importantes
que os de Portugal, na sua troca, he também forçoso, que vá
de Portugal o dinheiro para pagar o balanço; e os princípios
de economia política mostram, que assim deve succeder, resida
El Rey aonde residir.
Agora, se a queixa fosse, que o Governo naõ busca os me-
ios de favorecer esse commercio de Portugal, e que essa falta
no balanço commercial dos dous paizes se podia remediar sem
detrimento de nenhum delles ; tal queixa seria attendivel; e nós
mesmo a temos por mais de uma vez produzido; mas attribuir
a balança desfavorável do commercio em Portugal á residência
d'El Rey no Brazil, he desconhecer o verdadeiro estado do com-
mercio entre os dous paizes, e as causas, que operam para a
sua presente situação relativa.
Tem-se allegado, que os fidalgos, que acompanhavam a Cor-
te, tirando para o Rio-de-Janeiro as rendas, que tem em Por-
tugal, fazem com isso uma fonte por que se esgota e passa o
numerário de Portugal para o Brazil; ora isto he attribuivel á
residência d'El Rey no Rio-de-Janeiro.
A este argumento respondemos; 1.° que as rendas desses pou-
cos fidalgos, he cousa mui insignificante, comparada com o
commercio do Brazil, para que pudesse influir no seu balanço.
2." Que nem mesmo essas poucas rendas dos fidalgos iriam em
numerário para o Brazil, se a balança do commercio fosse van-
tajosa a Portugal; porque nesse caso fazia mais conta aos mes-
mos fidalgos e seus agentes o fazerem as remessas em gêneros
do que em numerário. Logo aqui mesmo se enganam os que
produzem este argumento; porque tomam o effeito pela causa.
Miscellanea. 75
Vai o dinheiro porque o balanço he desfavorável; e naõhe oba-
lanço desfavorável porque vai o dinheiro.
A terceira allegaçaõ de Mr. De Pradt he, que os negócios
de Portugal se vaõ decidir ao Brazil, e que as recrutas de Lis-
boa, Coimbra e Porto vaõ servir no Brazil.
Se Mr. De Pradt consultasse a historia Portugueza, acharia
a cada pagina, que a circumstancia de irem tropas de Portugal
ao Brazil naõ resulta da residência d'El Rey ali. De Portugal
foram sempre tropas para a índia, residindo El Rey em Lisboa.
De Portugal foram constantemente tropas para o Brazil, e ainda
agora existem ali os regimentos de Bragança, Moura, e Chi-
chorro, que de Portugal foram para o Brazil, ha mais de 30 an-
nos, e entaõ residia El Rey em Lisboa: se essa, pois, foi sem-
pre a practica (* como se pôde attribuir agora á estada d'El Rey
no Brazil, a saída das tropas de Portugal para a America ?
O mesmo dizemos, a respeito de ser um general estrangeiro,
quem commanda o exercito de Portugal. Repare Mr. De Pradt
na historia de Portugal, e achará os nomes de Schomberg, Lipe,
Goltz, e outros, que todos foram generaes estrangeiros, que
commandáram o exercito de Portugal, estando El Rey em
Lisboa. Condemne-se a practica como m á ; ou argumente-se
contra a existência de causas, que a tem feito necessária; mas
succedendo isso sempre, quando El Rey estava em Lisboa, naõ
se attribúa agora uma practica antiga á residência d'El Rey no
Brazil.
De Pradt, julgando incompatível com o gênio das naçoens
Hespanhola e Portugueza a sua uniaõ em um só estado, decide-
se por que Portugal estabeleça o seu Governo independente. Os
do partido Hespanhol, que saõ pela uniaõ, querem que essa
antipathia das duas naçoens esteja extincta, e que os interesses
mútuos devem levar ambos os povos a formarem uma só naçaõ.
Deixamos por óra esta hypothese, para seguirmos com a de Mr.
De Pradt.
Se suppozermos Portugal uma Potência separada do Brazil, e
deixada inteiramente a seus recursos, he impracticavel que pos-
»a obter meios com que resista á ambição de Hespanha. He
76 Miscellanea.

absurda a idea de que em uma guerra, entre duas potências


tam desiguaes, possa Portugal manter-se em similhante con-
tenda.
Se argumentarem, que alguma potência estrangeira protege-
rá Portugal, para impedir que a sua accessaõ á Hespanha nua-
mente demasiado o poder desta ; entaõ essa potência auxiliadora
será de facto a que governe Portugal, posto que este seja no
nome independente.
A demais, quando algumas potências da Europa se oppuzé-
ram á uniaõ de Portugal com Hespanha, éra em tempo em que
ambos os reynos possuíam importantes colônias, cuja reunião
debaixo de um só sceptro causava justo zelo ás demais naçoens
Europeas j mas suppondo Portugal sem Brazil, e a Hespanha,
como se acha, privada de grande parte de suas antigas colônias,
j á naõ he da mesma importância o impedir que Portugal se uma
á Hespanha ; e assim mui precário seria o apoio estrangeiro,
com que os Portuguezes quizessem contar,sobre este fundamen-
to, para se oppôrem á ambição e poder dos Hespanhoes.
Mas ainda mantida a independência de Portugal, debaixo da
protecçaõ de algum estrangeiro, os Portuguezes fariam na Eu-
ropa a mais triste figura, emparelhando na Soberania com Es-
tados vizinhos ou aluados, a quem naõ poderiam sequer arreme-
dar na grandeza.
Outra, porem, e mui diversa he a prospectiva, quando se
considera Portugal unido com o Brazil, e este mantendo no no-
vo mundo a graduação e influencia que lhe competem. Entaõ
os interesses políticos e commerciaes da America faraõ um con-
trapezo aos da Europa; e tendo nisso o Brazil sua devida parte,
Portugal gozará igualmente dessa vantagem.
Se o Brazil ganhar na America aquella ascendência, que sua
posição e recursos lhe dam direito a esperar, Portugal partici-
pará da mesma consideração no Mundo, como parte integran-
te da Monarchia, e se ambição de Hespanha naõ achasse obstá-
culo na pequenhez e fraqueza de Portugal, teria com tudo de
hesitar, antes que provocasse a inimizade do Brazil, apoiado,
Miscellanea. 77

na nossa hypothese, pelas combinaçoens políticas do resto da


America.

Relaçoens do Brazil com a America Hespanhola.

Pela manifestação dos documentos, sobre a proposta negocia-


ção entre França e Buenos-Ayres, de que fallaremos ao depois,
he claro, que se aproxima a passos largos a epocha, em que naõ
será indiflerente ás potências Europeas a sorte da America Hes-
panhola.
Do papel, que copiamos a p . 30, e que contém as instruc-
çoens dadas pelo Governo de Buenos-Ayres ao Commissario,
que enviara a tractar com o General do Brazil em Monte-Vedio,
tiramos alguns factos, que induzem a mui sérias reílexoens,
Primeiramente, manifesta-se, o que nós ja tínhamos avançado
em outros N 08 - de que ha um poderoso partido nas Provincas
de La Plata, que deseja estreitar suas ligaçoens politicas com o
Brazil. O plano ali proposto éra o estabelicimento de uma Mo-
narchia, e o casamento do Monarcha com uma Princeza do Brazil.
Achamos mais, que o Governo de Buenos-Ayres naõ olhava
com ciutne, o apoderar-se o exercito do Brazil da margem Ori-
ental do Rio-da-Prata; provavelmente porque os mesmos de
Buenos-Ayres estaõ persuadidos de que a occupaçaõ daquelle
território éra essencial á segurança e tranquillidade das frontei-
ras do Brazil. E a prova de sua sinceridade está, em que o Go-
verno de Buenos-Ayres recommendava a seu Commissario, que
insistisse na circumstancia de naõ passar o exercito do Brazil ao
território de Entre-Rios. Com isto se contentavam.
Julgamos que o Gabinete do Rio-de-Janeiro naõ attendeo a
estas proposiçoens; porque naõ vimos nenhum resultado practi-
co dellas ; mas de certo se abi io uma porta a negociaçoens, de
que na Europa se devia ter mui pouca idea, quando as Potên-
cias Aluadas apresentaram a sua celebre nota contra a occupa-
çaõ de Monte-Video : porque, se soubessem da opinião que en-
trelinham os de Buenos-Ayres, longe de accusar de ambição a
S. M. Fidelissima, teriam muito louvado sua moderação.
78 Miscellanea.

He natural, que as Potências Europeas se tenham mais ou


menos desenganado, de que a posse de Monte-Vídeo he de abso-
luta necessidade para abrigar o Brazil, contra os effeitos da anar-
chia, que reyna entre seus vizinhos : assim o julgamos; porque
naõ ouvimos mais fallar das conseqüências da tal Nota, e as tro-
pas do Brazil tem continuado na posse da Banda-Oriental.
Mas essa moderação d'El Rey, em naõ querer influir nos ne-
gócios de Buenos-Ayres, e contentar-se unicamente com a pos-
se militar dos territórios, que cobrem suas fronteiras, cessará
daqui em diante de ir de acordo com a política, quando se des-
cobre que a França meditava projectos de estabelecer uma Mo-
narchia em Buenos-Ayres, debaixo dos auspícios Francezes, pa-
ra neutralizar os interesses Inglezes, e sem communicar suas
vistas ao Gabinete do Rio-de-Janeiro; posto que fizesse parte
do plano o casamento do Monarcha de La Plata, com uma Prin-
ceza do Brazil.
Nestas circumstancias, dizemos, que janaõ pôde S. M. Fide-
lissima deixar de tomar uma parte activa nos negócios de Bue-
nos-Ayres, porque, se naçoens estrangeiras estaõ promptas a re-
conhecer a independência de Buenos-Ayres, com tanto que se
admittam os planos, que essas naçoens suggerem, naõ vemos
porque o Brazil, que he o mais vizinho, e o mais interessado
em que cesse a guerra, e se estabeleça algum systema de Gover-
no permanente na America Hespanhola, uaô tenha direito de
tentar as mesmas ou similhantes vias de negociaçoens.
Deve ser matéria de profunda meditação para com o Gabinete
do Rio-de-Janeiro, que a França, assignando em Março de
1817, a Nota contra a occupaçaõ de Monte-Vedio, em Junho
de 1819, estava fazendo planos para reconhecer a independência
de Buenos-Ayres. Observe-se a differença; o Brazil occupava
Monte-Vedio, como medida indispensável, para cubrir e prote-
ger suas fronteiras ; e isto até sem ciúme do único Governo re-
gular estabelecido na vizinhança, que éra o de Buenos-Ayres :
a França propunha-se a reconhecer a independência de La-Plata,
contra a Hespanha, sem que pudesse allegar para isso outro in-
teresse seu, senaõ aquelle mui remoto de pdr obstáculos aos pro-
Miscellanea. 79

gressos da influencia Ingleza na America. E esta mesma


França, que assim intenta gratuitamente arrancar á Hespanha
a sua colônia de Buenos-Ayres, he a que ha pouco tinha preten-
dido pugnar pela integridade da Hespanha, formalizando-se com
as demais potências aluadas, contra a occupaçaõ necessária de
Monte-Vedio, da parte do Brazil.
Se o Brazil, portanto, naõ tivesse sobejas razoens, para to-
mar a dianteira no reconhecimento dos Governos independentes
da America Hespanhola, a França lhe fornece agora argumento
assas convincentes, para fazer adoptar esta linha de comporta-
mento.

Pelo ultimo paquete vindo do Brazil sabemos, que Lord B-


resford chegara ao Rio-de-Janeiro aos 3 de Maio, na fragata
Spartan, havendo feito sua viagem desde Lisboa no curto espaço
de vinte dias.

AMERICA HESPANHOLA.

Pelas noticias ultimamente recebidas do Rio-da-Prata, sou -


bemos mais particularmente das causas e effeitos da revolução
acontecida no Governo de Buenos-Ayres.
O partido, que depôz o Supremo Director Rondeau, e colocou
em seu lugar Sarratea, apenas estava em posse da Governança
por dez dias, quando o General Balcarce pôde em seu turno
derribar aqueile partido dominante : Sarratea porém tornou a su-
bir em breve tempo ; e para se justificar das medidas que tinha
adoptado contra seus predecessores, recorreo á publicação de do-
cumentos, em que sedescubriram factos da maior importância,
e que aâectara naõ só o passado Governo de Buenos-Ayres, mas
também outras potências estrangeiras.
Foram estas circumstancias publicadas, por ordem do Cover-
no de Buenos-Ayres, em um quaderno, que contém. 1." Uma
proclamaçaõ ao Povo assignada pelo Governador da Pro-
So Miscellanea.
vincia, Sarratea : 2.° Uma communicaçaõ do Supremo Director,
que foi, ao Congresso: 3." Um oflticio do Enviado em Paris Gomez
ao dicto Supremo Director; conimunicando-lhe a conferência,
que teve com o Ministro Francez, em que este lhe propoz o pro-
jecto de estabelecer uma monarchia nas Provincias de La Plata,
e para Rey o Principe de Luca : 3.* Uma memória do Baraõ de
Reneval, em que se desenvolve o mesmo projecto: 5.° As minu-
tas da sessaõ secreta do Congresso, em que se descutio esta
matéria: 6.° As minutas de outra sessaõ secreta do mesmo
Congresso, em que se resolveo e decidio a final sobre o nego-
cio.
Publicamos de p. 10 em diante os quatro primeiros documen-
tos, reservando para o N.° futuro os três últimos; mas accres-
centamos a p. 30 outra peça, que também recebemos de Bue-
nos-Ayres, que saõ as insttncçoens dadas pelo Supremo Director
Pueyrredon ao Commissario que mandou a Monte-Vedio, para
tractar com o Governo do Brazil, pelo intermédio do General
Commandante das forças Brazilienses na margem oriental do
Rio-da-Prata.
Dos documentes, pois, que deixamos apontados, se fez o
corpo de delicto, para instituir um processo criminal contra a
Administração, e a historia do crime de que he aceus ada, se
resume ao seguinte.
Em Junho de 1819, Gomes, o Enviado de Buenos-Ayres em
Paris, foi convidado para uma conferência com o Ministro Frau-
cez dos Negócios Estrangeiros, e o mesmo Ministro communi-
cou ao Enviado de Buenos-Ayres um projecto para a consolida-
ção do Governo de La Plata.
A memória, em que este projecto se continha, he a qne deixa-
mos copiada a p. 2 4 ; e seguramente ainda se naõ publicou
um dodumento de igual importância para a America Hespanho-
la, e consequentemente para o Brazil; quer se considerem os
motivos do projecto, quer o seu objecto e conseqüências.
A proposição éra o estabelicimento de uma monarchia consti-
tucional nas provincias de La Plata ; e para Monarcha o Duque
de Luca, ex-Rey ou Principe Real de Etruria. Os motivos ai-
Miscellanea. 81
legados eram a favorável inclinação do Governo Francez pelas
provincias de La Plata; o desejo dos Aluados na Europa, de
accabar com as ideas republicanas da America; e a necessidade
deseoppór aos interesses da Inglaterra naquella parte do Mundo.
Estas proposiçoens chegaram a Buenos-Ayres aos 26 de Ou-
tubro passado; e Roudeau, que entaõ éra o Supremo Director, as
submetteo ao Congresso, em uma secçaõ Secreta. Aos 3 de
Novembro o Congresso discutio a matéria, e o resultado foi re-
solver-se que se naõ podia dar uma decisaõ final, sem aj unc-
tamento das duas Câmaras; e éra grande objecçaõ a este plano
ser o Monarcea proposto parente tam próximo da família reynan-
le em Hespanha. Suggerio-se ao mesmo tempo, que se devia
communicar o projecto ao Governo Inglez.
Destes documentos, com que o actual Governo de Buenos-
Ayres pretende criminai- o Governo que lhe precedeo, naõ po-
demos tirar cousa alguma, que se construa em crime da parte
de Rondeau. Este Director Supremo recebêo proposiçoens da
Fiança, para o reconhecimento da independência das Províncias
de La Plata, com a condição de se estabelecer ali um Governo
Monarchico. Rondeau commetteo estas proposiçoens á delibe-
ração e decisaõ da única authoridade existente, que podia to-
mar conhecimento e resolver uma questão, que incluía a forma
de Governo do paiz. Até aqui, o que apparece dos documentos
publicados; e se naõ ha mais do que isto naõ vemos que Ron-
deau pudesse obrar de maneira mais legal nem mais conforme a
seus deveres.
O grande objecto, que os povos daquelles paizes tem em vis-
ta nesta guerra, como consta de seus manifestos, he a indepen-
dência do poder da Hespanha. A França offerecia reconhecer
e apoiar essa independência, mas com a condição, de que se
adoptasse tal e tal forma de Governo. O Supremo Ditector, co-
mo mero executivo, naõ se achou authorizado a aceitar uma con-
dição, que, decidindo da forma de Governo, éra além das facul-
dades do Poder Executivo; e remetteo por tanto a proposição ao
Congresso. Aonde está nisto a culpa naõ o vemos; antes nos
VOL. X X V . N° 14(5 L
82 Miscellanea.

parece isto um comportamento mui coherente da parte de Ron-


deau.
Agora, se o Congresso resolveo ou naõ como devia he outra
questão á parte. Mas tomemos a hypothese de que o Congresso
decidio mal i Qual he a authoridade que pôde processar um
Congresso nacional ? A nosso entender nenhuma; um Congresso
nacional posterior, pôde devrogar o que tiver feito outro anteri-
or, mas naõ pôde formar-lhe crime por qualquer de suas deciso-
ens.
Como o Congresso representa a naçaõ, dizer, que um Cou-
gresso he responsável a outro por suas decisoens, he o mesmo
que dizer, que a maioridade de uma naçaõ convocada em assem-
blea geral, pôde accusar de criminosas as decisoens dessa mesma
naçaõ, convocada em outra assemblea anterior. O que seria
uma naçaõ julgando-se e castigando-se a si mesma.
Deixando porém estas theorias do direito; o facto he, que
Sarratea, para assegurar o seu partido, e fazer odioso o partido
de Putyrredon, que he o mesmo de Rondeau, publicou os docu-
mentos, de que indubitavelmente se prova certa disposição nas
pessoas influentes em Buenos-Ayres ; para organizar um Gover-
no, que se aproxime mais ao Monarchico, do que aquelles em
que até aqui se tem pensado; as fallas de Bolívar, e os procedi-
mentos do Governo de Chile dam a conhecer, queestes sentimen-
tos a favor da Monarchia naõ se limitam unicamente a Buenos-
Ayres : a questão porém he qual seja o gráo de generalidade,
que esta opinião tenha, nas differentes secçoens da America Hes-
panhola independente.
Da publicação destes documeutos tiramos também, que a
idea de formar uma Mouarchia nas Provincias de La Plata,
como se acha suggerida no opusculo, que ha alguns mezes pu-
blicamos, intitulado " As Provincias de La Plata erigidas em
Monarchia;" naõ éra idea tam absurda como alguns quizéram
persuadir; pois vemos agora provado authenticamente, naõ só
que havia em Buenos-Ayres pessoas de consideração, que se in-
clinavam ao estabelicimento de uma monarchia naquelle paiz»
Miscellanea. 83
mas que o Governo Francez se offerecia a apoiar essas ideas, e
propunha para Rey um Principe da família dos Bourbon*.
Depois disto, se a França achava que éra justo e politico re-
conhecer a independência das Provincias de La Plata, naõ pode-
rá agora oppór-se a essa iudependencia, quando outras potên-
cias instem por ella ; porque naõ será razaõ bastante, para se
arredar de seus princípios, o recahir a escolha ou no Principe
que os Ministros Francezes propunham, ou em outro qualquer.
A descuberta destas negociaçoens da França, e principal-
mente a suggestaõ de que a escolha do Duque de Luca levava
em vista n diminuir a influencia da Inglaterra, deve despertar o
Governo Inglez, que achará neste projecto novo motivo para se
ingerir na marcha dos negócios da America Hespanhola. E se
com effeito concordarem na independência, e os do paiz convie-
rem no estabelicimento de uma Monarchia, as mesmas razoens,
que allegava a França para propor o Duque de Luca, devem
induzir a Inglaterra a oppôr-se a essa eleição. Neste caso,
tam longe está de ser absurda a idea do Author acima citado;
que o Infante D. Sebastião he o único Principe, que parece es-
tar izento das objecçoens, que contra os outros se produzem.
Que a Inglaterra se naõ descuidará daqui em diante deste ne-
gocio, se conhece, de que o Commandante da esquadra Ingleza
no Rio-da-Prata, logo que se publicaram em Buenos-Ayres os
documentos de que se tracta, julgou-os de assas importância
para mandar um navio expresso, que os trouxesse ao Governo
Inglez : e a memória do Governo Francez, que publicamos a
p. 24, e que se diz ser escripta por Mr. de Reneval, ou antes
os seus sentimentos, causou na Inglaterra assas sensação, para
ser objecto de discussoens no Parlamento.
O Dr. Lushington, membro do Parlamento Inglez, fez uma
moçaõ para que os Ministros apresentassem as informaçoens
que tivessem, a respeito do que se passara em Buenos-Ayres.
A moçaõ foi regeitada, mas no decurso do debate se fizeram al-
gumas asserçoens, que he importante notar.
Mr. Makintosh pareceo dará entender, que, tendo a Hespa-
84 Miscellanea.

nha agora um governo constitucional, mudava a questão entre


ella e as colônias revoltadas.
Mr. Canning, um dos Ministros, respondendo a Mr. Makin-
tosh, observou, que a opposiçaõ deste membro provinha mais
de ódio á Hespanha do que de amor pela America. Que elle,
Mi- Canning, inimigo de piophetizar, naõ prognosticaria que
effeito teriam as medidas da assemblea popular em Hespanha,
sobre as provincias Hespanholas ; porém olhando para a histo-
ria, elle (Mr. Canning) podia asseverar que, quaes quer que
fossem os benefícios, que um districto metropolitano pudesse
tirar de uma assemblea popular, o estado das provincias, sob
tal assemblea, sempre foi estado de soffrimento. Se portanto
elle (Mr. Canning) estivesse animado por ardente solicitude pela
causada America Meredional, longe de retractar opinião algu-
ma, que tivesse formado sobre esta matéria durante a existência
do passado Governo da Hespanha, a mudança daquelle Governo o
induziria a aftirmar-se na mesma opinião com decupla vehemen-
cia.
Aqui achamos, pois, nos sentimentos de ura Ministro Inglez,
e cuja habilidade ninguém disputa, a mesma opinião, que, por
varias vezes, e ainda no nosso N.° passado, temos expressado,
de que as formas de Governo livre na Metrópole, naõ melhora-
rão o estado de servidão das Colônias. E, como Mr. Canning
notou, a historia prova esta proposição ; e nós allegamos ja
com o exemplo dos Hollandezes, dos Romanos e de outras na-
çoens.
O Committé, porém, da Camaia dos Pares, na Inglaterra, a
quem se referio o exame do estado do commercio estrangeiro,
dirige sua attençaõ ás fabcidades, que tem offerecido varias sec-
çoens da Amerida Hespanhola, para o commercio Inglez; e
dizem que vários negociantes de cabedal, interessados naquelle
trafico, tem jasido examinados perante o dicto Committé.
Aos 15 de Abril Sarratea continuava á frente do Governo,
mas os negócios estavam em termos mui precários. Alvear,
que ha alguns annos atras teve o Supremo commando, e depois
de ser dimittido residio no Rio-de-Janeiro e em Monte-Vedio,
Miscellanea. 85

formou planos para derribar seus iivaes e foi ter a Buenos-Ay-


res, aonde houve entaõ outro conflicto de partidos. Sarratea
pôde manter-se no seu lugar, e continuou os procedimentos cri-
minaes contra os da Administração passada. Carrera formava
um partido, para causar uma reacçaõ em Chili, aonde tem mui-
tos amigos.
Sarratea graugeava o favor dos Inglezes, que o consideram,
ou affectam considerar, como o único homem capaz de resta-
belecer a ordem, e conduzir os negócios do paiz com regulari-
dade.
De tudo isto concluímos, que está mui próxima a epocha, em
que a independência da America Hespanhola deve ser reconhecida
pelas Potências Europeas: qual será a forma de Governo, deve
depender da opinião daquelles povos, dos planos das pessoas
mais influentes, e principalmente do estado relativo dos partidos
políticos no paiz,
Pelo que respeita o Brazil, o seu interesse na pacificação da
America Hespanhola he tam evidente, que pôde Sua Majestade
Fidelissima, sem o menor temor de ser accusado de ambição im-
própria, obrar como primeiro mediador, e propor de sua parte
os planos, que julgar convenientes, e pedir para elles a concur-
rencia das demais potências.
Em um officio do general Montillo, commandante da expedi-
ção de Margarita, datado de 4 de Junho, a bordo da esquadra
de Brion ; depois haver referido a acçaõ, em que 700 de sua
gente repulsaram dous mil Hespanhoes, diz o seguinte:—
" Esta vantagem me deo as maiores esperanças de poder avan-
çar contra Sancta Martha, e cooperar com a divisão de Urdaneta,
na conquista daquella praça; porém as minhas tropas, que por
longo tempo haviam estado descontentes, pelas privaçoens que
soflriam, e particularmente pela falta de pagamento, que eu
absolutamente lhe naõ podia dar, recusaram marchar um só pas-
so adiante, sem que eu lhe satisfizesse tudo quanto se lhes devia.
Eu representei-lhes a difficuldade de cumprir com o que deseja-
vam, e instei que marchassem para Sancta Martha, empenhan-
do-me em dar-lhes tudo quanto se tomasse naquella praça. Isto
86 Miscellanea.
naõ produzio effeito, e ameaçaram queimar e saquear La Hache,
e desertar para os Hespanhoes, aonde estavam seguros, que se-
riam liberalmente pagos. Os Hespanhoes, porém, se haviam
retirado para tam longe, depois da sua derrota, que naõ éra
possivel alcançállos. Representei-lhes entaõ a sua situação,
que èra impossível, que ficassem ali, ou que saíssem do lugar,
sem a cooperação da esquadra, e propuz-lhes, que, como a
marcha por terra para Sancta Martha éra impracticavel, fossem
ali ter por mar. Consentiram nisto, mas naõ antes de incendia-
rem parte da povoaçaõ, e roubarem os miseráveis habitantes de
Rio-de-la-Hache. Eu tinha anticipidamente posto um embargo
em todos os vasos no porto, a cujo bordo levara as tropas em
botes ; e tendo concertado d'antemão a matéria com o Almirante
Brion, cada partida, que vinha para bordo, éra separadamente
desarmada, e mettida em prizaõ. Quando todos estavam em-
barcados, mandei-os informar, de que eu me negava a toda a
communicaçaõ com tropas, que tinham por tal maneira abando-
nado as regras de disciplina, que pediam seu pagamento em um
momento, que sabiam ser impossível satisfazer a seu requirimen-
to, e que ameaçavam queimar e destruir as casas e roubar seus
amigos e aluados, como vingança da negativa. Elles ficavam
em liberdade, disse-lhe eu, de ir para onde quizessem, que as
suas armas estavam seguramenre depositadas em terra, e que a
Republica ja naõ precisava de seu serviço. Todos foram para
a Jamaica.

ALEMANHA.

Na sessaõ décima terceira da Dieta Germânica expôz o Presi-


dente, que S. M. o Imperador da Áustria, coincidindo inteira-
mente com o sentimentos, que haviam ultimamente expressado
os Plenipotenciarios junetos em Vienna, a respeito da necessi-
dade de facilitar a communicaçaõ commercial eutre os differen-
tes Estados da Confederação, lhe ordenava instar com a Dieta,
para que se remeltessem sem demora instrucçoens completas,
Miscellanea. 87
contendo todas as particularidades. S. M. pensa que dos pon-
tos que se devem tractar, sobre um accordo permanente e soli-
do entre todos os membros da Confederação he o estabelicimen-
to de um commercio livre em toda a sorte de graõ e gado, se-
gundo os ja expressos desejos da Dieta. Todos os membros
foram unanimes em resolver, que se informassem suas respecti-
vas Cortes da proposição do Presidente, e que se lhes requeres-
seui promptas instrucçoens sobre esta matéria.

ARGEL.

Os Argelinos saíram ao mar com uma esquadra de duas chalu-


pas de guerra, dous brigues, uma escuna e uma galé, e parece
se destinam a hostilidades contra Toscana. Diziam alguns,
que este preparativo éra dirigido contra Tuues, com quem os
Argelinos estaõ em guerra; mas outros pensam, que he um cor-
so contra todas as potências, principalmente Italianas, que naõ
tem feito tractados de paz com Argel.

ESTADOS-UNIDOS.

O Contracto, para um imprestimo publico de dous milhoens de


dollars, foi effectuado pelo Banco dos Estados-Unidos ; porque
este offereceo os termos mais favoráveis; posto que a somma
total offerecida por diversos montasse a mais de seis milhoens.
A fragata Constellation foi esquipada e preparada, para cru-
zar no Mar Pacifico por três annos, e proteger ali o commercio
dos Estados-Unidos.
Faziam-se os preparativos necessários para fazer o Census da
população, que segundo a Constituição se deve alistar todos
os dez annos; e o ultimo Censo, foi feito em 1810.
88 Miscellanea.

FRANÇA.

A Camaia dos Pares aprovou a ley das eleiçoens, como lhe


viera da Câmara dos Deputados, por uma maioridade de 141 vo-
tos, contra 50.
Mr. Canilh, Relator da Commissaõ de Finanças, communicou
á Câmara dos Deputados, que as rendas da França excediam
agora ás que se cobravam em 1789, em 300:000.000 de francos;
melhoramento este, que o Relator attribuia á igualdade com que
eram distribuídos os impostos ; porque, antes da Revolução,
grande porçaõ da propriedade éra, em todo ou em parte, izenta
de tributos.
Os fundos para as pensoens, que recebem os membros da Le-
giaõ de Honi a, parece que vaõ a soffrer alguma alteração, se-
gundo um projecto, que apresentou á Câmara dos Deputados Mr.
Beugnot. Segundo isto cada um dos soldados recebera somente
metade da sua pensaõ, que dantes éra 250 francos. Os offi-
ciaes teraõ 1.000 francos, os Commandantes 2.000; os Gram
Officiaes 5.000 : e os Gram Cruzes 5.000; ou pensaõ especial.
Mr. Hyde de Neuville, Embaixador da França nos Estados-
Unidos, chegou inesperadamente a Paris, havendo saído de Wash-
ington com toda a Legaçaõ Franceza. Como naõ se declarou a
causa desta importante medida, que em casos ordinários annun-
cia a ruptura entre duas naçoens, o rumor tentou logo dar-lhe
explicação. Conjecturou-se, que o Ministro Francez se dava
por offendido, em conseqüência de ter o Congresso dos Estados-
Unidos passado um Acto, pelo qual se impunha um direito de
18 dollars por tonelada, a todos os navios Francezes, que entras-
sem nos portos dos Estados-Unidos; julgando-se, ao tempo em
que o tal Acto se passou, que tal imposição montava a uma
prohibiçaõ commerciol. Mas esta medida naõ se originou nos
Estados-Unidos, que esta providencia somente adoptáram em
expediente de reciprocidade ; declarando, ao mesmo tempo,
que o alterariam, logo que a França adoptasse regulamentos
mais favoráveis aos Estados-Unidos do que os presentes. He
Miscellanea. 89
logo improvável, que estes arranjos commerciaes fossem julga-
dos motivo bastante, para se despedir abruptamente o Embai-
xador Francez.
Por uma decisaõ da Còrte-Real de Paris, de 8 de Julho, se
declarou valido o casamento de uma mulher estrangeira com um
Francez, no serviço militar da França ; bavendo-se tentado an-
nular taes cazamentos, por naõ haverem sido solemnizados com
as formalidades, que requer o Código, a respeito do estado civil
dos Francezes, no serviço militar da França, em paizes entran-
geiros.

A sessaõ da Câmaras fechou os seus trabalhos aos 22 de


Julho, por um Decreto Real, apresentado pelo Ministro do In-
terior, depois de cuja leitura se separaram os Membros immedi-
atameute.

HESPANHA,

As Cortes fizeram aos 20 de Julho o seu ajunctamento preli-


minar, em Madrid, para arranjar o seu modo de proceder.
Como naõ existia a Deputaçaõ permanente, que requer a Consti-
tuição, o Ministro do Interior fez as suas vezes, lendo a lista dos
Deputados. Depois se elegeo o Presidente e Vice-Presidentes.
A assemblea passou depois a verificar os procedimentos das
Junctas Electoraes. Leo-se também a representação, que fez
um Hespanhol Americano, contra a validade da nomeação de
Deputados Provisionaes, para representarem as provincias ul-
tramarinas.
No domingo 9 de Julho abrio El Rey as cortes, cujo ceremo-
nial copiamos do seguinte :

VOL. XXV. N». 146. M


09 [90] Miscellanea.

Extracto da Gazeta Extraordinária de Madrtd, de 10


de Julho, contendo a cerimonia da abertura das Cortes.
" Chegou a memorável epocha, em qne se deviam preencher
os desejos da naçaõ Hespanhola: o feliz dia, em que um povo.
determinado a preservar a liberdade, e a dignidade do throno,
vio seu adorado Rey dar outra decisiva e irrefragavel prova de
suas vistas paternaes, do amor, que tem a seus subditos, e do
sério desejo que o anima de concurrer, de concerto com as Cor-
tes, em fundar e consolidar a felicidade publica por meio de
uma constituição essencialmente dirigida ao bem de todos : a
feliz hora, em que Fernando VII, unindo os seus sentimentos
com os do povo Hespanhol, se apresentou ante o augusto Con-
gresso nacional, no acto solemne de jurar a Constituição da mo-
narchia. Havendo-se feito previamente todos os arranjamentos
necessários, para a celebração desta solemne cerimonia; El Rey
fixou as 10 horas da manhaã de hontem, Domingo 9 de Julho,
para ir ter á salla das Cortes. S. M. saio de seu palácio acom-
panhado de sua augusta esposa e dos Infantes, seguido por sua
corte em carruagens de estado. Quando chegou á salla das Cor-
tes foi recebido por duas grandes deputaçoens dos representan-
tes nacionaes. Consistia uma de 22 membros, a qual acompa-
nhou a Raynha para a tribuna, que lhe estava preparada, para
que pudesse, em companhia dos Infantes, gozar do espectacu-
lo de tam solemne cerimonia. A outra deputaçaõ, composta
de 32 membros, incluindo dous Secretários, foi nomeada pa-
ra acompanhar El Rey. Quando Sua Majestade entrou puzéram-
se de pé todos os membros ; assim como o corpo diplomático,
na tribuna á direita do throno. Os Conselheiros de Estado, os
Generaes, e Magistrados occupavam as outras tribunas : a im-
mensa multidão, que enchia as galerias, nao se pôde conter
que naõ bradasse os vivas em altas vozes. El Rey tomou o seu
assento sobre um magnífico throno, a cujos lados estavam as
insígnias Reaes. Logo que El Rey se assentou, se sentaram tam-
bém os Infantes, o Presidente das Cortes, e todos os Deputados.
Miscellanea. 91
Depois de uma breve pauza se levantou o Presidente, e, com os
Secretários, foi receber o juramento d' El Rey, que foi prestado
da maneira prescripta pela constituição. D. José Espiga, Arce-
bispo Eleito de Sevilha, como Presidente das Cortes ; se dirigio
a El Rey por uma falia (que publicaremos no N°. seguinte.)
Immediatamente depois lêo El Rey a sua falia, em vos clara e
intelligivel, e com toda a dignidade própria a seu character:
(publicaremos também esta falia no N°. seguinte.)
O Presidente fez a sua replica; e concluindo assim as cere-
monias desta augusta solemnidade, Suas Majestades e os Infan-
tes se retiraram das Cortes com o mesmo séquito, com que tinham
entrado, resoando as aclamaçoens de viva El Rey e as Cortes.
As ruas por que passou a procissão estavam alinhadas pelos
diversos corpos da guarniçaõ de Madrid, e milícias nacionaes,
tanto de infanteria como de cavallaria. A presença de Suas Ma-
jestades e Infantes, o esplendor do cortejo, o brilhantismo das
equipages, o gosto da tapeçaria, com que estavam ornadas as
janelas, o numeroso concurso do povo, que quasi impedia o pro-
gresso da procissão; os repetidos applausos de todas as classes
de pessoas, que exclamavam enthusiasticamente Viva El Rey,
viva a Constituição, viva o Rey Constitucional, &c. e sobre
tudo a lembrança do objecto da magnífica ceremonia; tudo con-
curreo a fazer este dia ornais glorioso da naçaõ Hespanhola, e
appresentar um espectaculo, que será objecto da eterna admira-
ção dos séculos vindouros.
A sessaõ das Cortes continou, depois da partida de Sua Ma-
jestade ; e por moçaõ do Deputado Conde de Toreno, se nomeou
uma commissaõ, para minutar uma memória em resposta á falia
de sua Majestade. Para este fim foram escolhidos os Deputados
Conde de Toreno, Torrero, Martinez de Ia Rosa, Tapia, Temes,
e General Quiroga. Com estes actos solemnes, se abriram as
Cortes."

Na sessaõ de 10 e 12 de Julho resolveram os Cortes a repli-


ca á falia d' El R'ey; e depois o Conde Munoz Torrero fez uma
92 Miscellanea.
proposição para revogar o Decreto das Cortes de Março 1812,
pelo se qual excluio da successaõ ao throno o Infante D. Fran-
cisco de Paula, e a Infanta D. Maria Luiza, Ex-Raynha da
Etruria, Palanea propoz também que accrescentasse uma
cláusula, pela qual ficasse excluída da successsõ a Archidu-
queza Maria Luiza; a fim de que a progenie de Bonaparte naõ
pudesse reynar em Hespanha.
Por noticias de Madrid, de 29 de Junho, consta, que se pren-
deram em Burgos dous indivíduos, D. Balthasar Casqueiro, e
D. Francisco Ramires, os quaes viajavam pelas provincias, e
annunciávam, que Madrid se achava em grande agitação; que
El Rey havia fugido, e que os habitantes se declararam contra
a guarniçaõ. Na bagagem destes indivíduos se acharam alguns
cartuchos de pólvora ; 24 folhas de circulares, e uma " guia de
estrangeiros." Diz-se mais, que a casa, em que se alojaram,
tinha a reputação de naõ ser affecta ao novo systema de cousas.
Em Madrid mesmo correo a noticia, de que se preparava uma
contra revolução, que arrebentaria naquella cidade aos 28, ha-
vendo geral matança, (á imitação das Vésperas Sicilianas) e ti-
rando El Rey para Burgos, aonde se ajunctariamas antigas Cor-
tes: o plano, porém, se dizia também fora descuberto, e por
isso frustrado. He certo que este rumor do que se pretendia fa-
zer em Madrid, quadra bem com o que os dous prezos em Bur-
gos annunciávam como ja executado. A proclamaçaõ do Tenen-
te General Velasco, Governador de Madrid, e Commandante em
chefe da Milícia Nacional, publicada no diário de 2 de Julho,
parece fortalecer muito este rumor; porque acaba com estas pala-
vras.
" Aventuro-me a assegurar, ao povo desta heróica cidade, e
o augusto Congresso, que está ao ponto de confirmar os altos
destinos da Hespanha, que nem a liberdade daquelle, nem a se-
gurança deste seraõ compromettidas, em quanto se occupar nas
deliberaçoens, que requer a Constituição da Monarchia, a que
temos jurado fidelidade, a qual saberemos manter a todo a risco,
sendo a nossa divjza a Constituição, um Rey Constitucional ou
a Morte.
Miscellanea. 93

Os Hespanhoes entretem ainda lisongeiras esperanças de que


suas colônias revoltadas se lhes tornem a submetter; como se vê
da seguinte noticia:—
" Madrid 23 de Junho. Recebemos as mais agradáveis noti-
cias de nossas provincias transmarinas : o partido republicano
de Venezuela mandou deputados aos Generaes Realistas, para
representarem, que logo que se jurar em Caracas a Constituição
de 1812, estaõ promptos a depor as armas, e submetter-se ás
authoridades constitucionaes. Foi o Congresso de Venezuela,
que está em Angostura, quem mandou estes deputados. O Ge-
neral Bolívar e suas tropas estaõ animados pelo mesmo espirito
de conciliação. Em Buenos-Ayres, também, os principaes ca-
beças tem mostrado a sua convicção da necessidade de uma mo-
narchia constitucional."
He apenas necessário dizer, que esta noticia se naõ estriba em
facto algum conhecido.
A expedição destinada ás colônias, e que fora aparelhada em
Cadiz ; consiste em uma fragata, e doze vasos menores de guer-
ra ; e leva a bordo Commissarios paia os Governos de Terra-
Firme, Lima, México, e Buenos-Ayres. A maior parte saõ
Capitaens de Marinha, encarregados de importantes communica-
çoens, segundo se diz, do Governo Hespanhol para os insur-
gentes.

NÁPOLES.

Os Napolitanos acabam de representar uma scena, similhante


á de Hespanha, no principio deste anuo ; e por isso que he a
segunda, tal vez mais importante do que a primeira, em suas
conseqüências para toda a Itália, e para o resto da Europa.
Além de documentos authenticos, referiremos aqui este acon-
tecimento em resumo, segundo as noticias, que nos pareceram
mais bem averiguadas.
Havia no Reyno de Nápoles grande descontentamento, pelo
pouco que se animava a industria e o commercio: e este descon-
94 Miscellanea.
tentamento se fez mais patente, por causa do imposto chamado
Fundaria. Fosse para prevenir os eflèitos desta desafeiçaõ ma-
nifesta do povo, fosse para outros fins (alguns querem que fosse
para preparar um exrrcito que se mandasse á Hespanha a favo-
recer El Rey contra as Cortes) o certo he que se organizou um
campo militar em Sessa. Aqui as tropas concertaram suas me-
didas, naõ para apoiar as vislas do Governo, mas para favore-
cer os sentimentos do povo. 0 plano para a explosão foi tam
bem arranjado, e occultado com tal segredo, que, por uma car-
ta de um official de primeira graduação, que vimos, nos consta,
que este mesmo official contava coma mais cega obediência, e
indisputável firmeza destas tropas.
Com tudo, um corpo de Cavallaria, postado em Nola, em nu-
mero de 150 homens, repentinamente largou o seu [tosto, e mar-
chou para as montanhas de Avellino : marcharam logo a unir-se-
Ihe vários destacamentos de infanteria, eseguiram o seu exem-
plo todos os paizanos, que puderam obter uma espingarda, ou
outra qualquer arma ; sem que se pudesse saber se este movi-
mento éra effeito de arranjo prévio, se mera conseqüência do ex-
emplo. Como quer quer fosse, toda esta gente assim misturada
tomaram posse dos passos da Apulia: acharam ali uma caixa mi-
litar, que continha 22.000 ducados, tomárara-a, e deram ao th» -
soureiro que a linha um recibo em forma.
Chegou logo a Nápoles a noticia desta rebelião, e o Rey man-
dou um General, que fosse ter com os amotinados, e averiguasse
delles suas vistas. Convocou-se Conselho de Estado, para deli-
berar, sobre o melhor modo de proceder naquelle aperto: mas
em quanto assim deliberava o Conselho, na tarde de 5 de Julho,
dous regimentos, um de infanteria outro de diagoens, aquartela-
dos fora da cidade a uma milha de distancia, desfilaram com
suas armas e bagagem, e na mais perfeita ordem de marcha,
para se unirem aos insurgentes.
El Rey recebeo uma intimaçaõ do Quartel-General dos revol-
tosos, informando-o de que desejavam ter uma Constituição li-
vre, similhante á que se tinha adoptado na Hespanha. Fizeram-
se preparativos para suffocar a rebelião, mas, sondando-se o es-
Miscellanea. 95
pirito das demais tropas, achou o Governo, que todas estavam
imbuídas do mesmo espirito, e que naõ pelejariam contra seus
camaradas. O Rey, sendo informado disto, cedeo ás circum-
stancias, e declarou que consentiria na proposição.
Mandáram-se estaõ correios, (na manhaã de 6) a todas as tro-
pas, aununciando-lhe a resolução d' El Rey, e se affixáram
edictaes pela cidade, declarando a intenção do Soberano, de
publicar dentro em oito dias uma Constituição ou forma de Go-
livre, pela seguinte :—

Proclamaçaõ.

" Tendo-se manifestado o desejo geral do Reyno das Duas


Sicilas, por um Governo Constitucional, consentimos nisto, de
nossa plena e interior vontade; e promettemos publicar as bazes
no espaço do oito dias."
" Até a publicação da Constituição, continuarão em vigor as
leys existentes."
" Tendo assim satisfeito á vontade publica, ordenamos ás
tropas, que voltem para seus corpos, e todos os indivíduos para
as suas occupaçoens ordinárias."
(Assignado) FERNANDO.
O Secretario de Estado, Ministro, Chanceller
(Assignado) MARQUEZ TOMMASI.
Nápoles6 de Julho de 1820.

A primeira conseqüência desta resolução de S. M. foi a de-


missão dos Ministros, que se naõ podiam suppôr favoráveis á
mudança; e formação de outro Ministério pelo seguinte :

Decreto.

Fernando, &
Temos resolvido decretar e decretamos o seguinte :—
Art. I o . Nomeamos Secretario de Estado Ministro dos Ne-
gócios Estrangeiros, o Duque de Campo Chiaro.
2. Nomeamos Secretario de Estado, Ministro de Graça e Jus-
96 Miscellanea.

tíça e dos negócios Ecclesiasticos, o Conde de Carmadoli, D.


Francisco Riccardi, e durante a sua ausência temporária, o Con-
selheiro de Chancellaria, Baraõ D . Francisco Magliano, será en-
carregado da pasta.
3. Nomeamos Secretario de Estado, Ministro das Finan ças
o Marquez D. Felice Amati.
4. Nomeamos Secretario de Estado, Ministro Chanceller, o
Marquez D. Guacchino Forreri: e na sua ausência, seraõ as
suas funcçoens desempenhadas pelo Regente mais antigo do Su-
premo Conselho da Chancellaria.
5. Nomeamos em lugar do Capitão General, Nugent, o Te-
nente General Baraõ D. Miguel Carascosa.
6. Em quanto se naõ nomea Secretario de Estado, Ministro
do Interior, o Duque de Campo Chiaro executará suas func-
çoens.
7. Todos os Ministros Secretários de Estado, saõ encarrega-
dos da execução do presente decreto.
(Assignado) FERNANDO.
O Secretario de Estado, Ministro, Chanceller,
(Assignado) MARQUEZ TOMMASI.

Parece que a mudança total do Ministério naõ bastou para


tranquillizar o publico espirito, e El Rey mesmo resiguon, naõ
a coroa, mas o Governo, ao Principe Herdeiro, pelo seguinte :—

Acto de cessão d'El Rey ao Duque de Calábria.


Fernando, &c. 8cc.
Meu muito charo e amado Filho, Francisco, Duque de Calá-
bria.
Em conseqüência de indisposição, e por conselho de meus
Ministros, vendo-me obrigado a abster-me de toda a applica-
çaõ séria, julguei que faltaria ao meu dever, e seria culpado
diante de Deus, se, nestas circumstancias, naõ providenciasse
Miscellanea. 97
ao governo do Reyno de tal maneira, que os mais importantes
negócios pudessem seguir seu curso, e que a minha indisposição
naõ fosse nociva á causa publica. Tendo determinado, por estes
motivos transferir o encargo do governo, até o momento em que
Deus for servido restituir-me ao Estado de saúde, necessário pa-
ra o supportar, naõ posso melhor fazer do que confiar-vos, meu
charo e amado filho, o Governo; tanto porque sois o meu legiti-
mo successor, como pelo conhecimento que tenho de vosso es-
pirito e capacidade.
Em conseqüência, de minha plena e inteira vontade vos faço
e constituo meu Tenente-General, no meu Reyno das Duas Si-
cilias, como ja fostes no território de Nápoles, e no outro além
de Pharos, e vos transmitto e concedo com a illimitada cláusula
de Alter Egot o exercício de todos os direitos, prerogativas,
preeminencias e faculdedes, da mesma maneira que seriam exe-
cutadas por mim mesmo em pessoa. E, em ordem a que minha
vontade seja universalmente sabida e executada, ordenei, que
este papel, assignado por meu punho, e sellado com meu Real
sêllo, se guarde e registre pelo nosso Secretario de Estado, Mi-
nistro, Chanceller, e que vos façais transmittir uma copia delle
a todos os Conselheiros e Secretários de Estado, a fim de que
conste a quem pertencer.
(Assignado) FERNANDO.
Nápoles 6 de Julho 1820.
Depois deste Decreto publicou El Rey a seguinte proclamaçaõ
uotando o que entendia pela Constituição, que desejava adop-
tar, em conformidade dos desejos da naçaõ.
Proclamaçaõ.
Fernando, &c,
Havendo concedido a nosso amado Filho todas as faculdades
necessárias para prover ao Governo de nosso Reyno, declarando-o
nosso Tenente General com o Alter Ego ; tem elle j a arranja-
do as bazes da Constituição que promettemos, tomando por mo-
delo, a que adoptou o Reyno de Hespanha em 1812, que foi
sauccionada por S. M. Catholica, no mez de Março proxime
VOL XXV N.° 146 N
98 Miscellanea

passado, salvo as modificacoens, que os Representantes nacio-


naes, constitucionalmente convocados, julgarem conveniente
propor, a fim de a adaptar ás circumstancias particulares do
nossos Estados. Confirmamos este acto de nosso amado filho, e
promettemos observar a Constituição, ejurállade maneira so-
lemne, na presença da Juncta Provisional, que, conforme ao
que se estabeleceo em Hespanha, será nomeada por nosso amado
Filho e Tenente General, e ao depois na presença do Parlamento
Geral, logo que estiver legalmente juncto.
Ratificamos, também, pelas presentes, todos os actos subse-
quentes, qne fizer nosso amado filho, para a execução da Con-
stituição, e em conseqüência das faculdades e plenos poderes,
que lhes temos confiado. Declaramos, que tudo que assim for
feito será olhado por nós, como se nós mesmos o fizéssemos de
nosso próprio motu.
(Assignado) FERNANDO.
Nápoles 7 de Julho, 1820.
Desta proclamaçaõ deduzimos, que havia ja em Nápoles,
quem tivesse preparado d' antemão uma Constituição ; porque
he impossível que o Principe pudesse arranjar tal cousa em 24
horas; nem ainda ter tempo de meditar nas suas bazes, que an-
nnnciou na seguinte :—

Proclamaçaõ do Duque de Calábria.

Fernando &c.
Nós Francisco, Duque de Calábria Tenente-General do Rey-
no, com Alter Ego.
Em virtude do acto, datado de hontem, por que Sua Majes-
tade, nosso Augusto Pay, nos transmittio com a clausura illimi-
tada de Alter Ego, o exercício de todos os direitos, perogativas,
preeminencias e faculdades, da mesma maneira, que podem ser
exercitadas por Sua Majestade.
Em conseqüência da decisaõ de S. M. de dar uma Constitui-
ção ao Estado, desejando manifestar os nossos sentimentos a
todos os seus subditos, e seguir ao mesmo tempo seus ananimes
Miscellanea. oo
desejos; temos resolvido decretar e decretamos o seguin-
te:—
Art. 1." A constituição do Reyno das Duas Sicilas será a
mesma, que foi adoptada para o Reyno da Hespanha em 1812,
e sanccionada por S. M. Catholica, em Março de 1820, salvas
as modificacoens, que a representação nacional, convocada con-
stitucionalmente, considerar conveniente e próprio propor, a
fim de a adaptar ás circumstancias particulares dos Estados de
S. M.
2. Reser-va-mos para nós adoptar e fazer saber todos os ar-
ranjamentos, que forem necessários, para facilitar e accelerar
a execução do presente decreto.
3. Todos os nossos Ministros Secretários de Estado saõ en-
carregados da execução do presente decreto. Nápoles 7 de Ju-
lho de 1820.
(Assignado) FRANCISCO.

Decreto para a formação de uma Juncta Provisional de


Governo.
Fernando, &c. &c.
Nos Francisco, Principe Hereditário e Tenente-General
Reyno, em virtude da authoridade, que nos foi concedida por
nosso Augusto Pay e Soberano.
Tendo no nosso acto de 6 do corrente proclamado para nossos
Estados, e promettido jurar a constituição, formada em 1812
para a Hespanha. Desejando solemnemente cumprir nossa pro-
messa, e convocar, com a menor demora possível, o Parlamen-
to nacional do nosso Reyno, segundo as formas da sobrdicta
Constituição. Desejando que todos os actos, que houverem de
preceder a convoçaõ do Parlamento, emanem de Pessoas honradas
com a confiança publica. Temos resolvido decretar e decre-
tamos o seguinte•:—
Art. 1°. Haverá uma Juncta Provisional, composta de quinze
membros, perante a qual, e perante todos os Príncipes da nossa
Família, prestaremos juramento á nova Constituição da Mo-
100 Miscellanea.

narchia ; e este juramento será repetido ante o Parlamento Na-


cional, depois de sua legitima convoçaõ.
Até a inauguração do Parlamento Nacional, consultaremos a
Juncta Provisional sobre todos os negócios do Governo, e pu-
blicaremos todos os actos, concordados com a Juncta.
3. Em ordem a que a escolha dos que haõ de compor a Juncta
recaia.em pessoas as mais elegiveis por seus merecimentos, e
mais capazes de satisfazer nossos desejos, e os da naçaõ, no-
meamos o Tn. General D. Giuseppe Parisi, o Cavalheiro D.
Malchior Delfico, Tn. General D. Floristano Pepe, o Baraõ D.
Davide Winspeare, e o Cavelheiio D. Giaciuti Martucci, os
quaes junctos em Committé nos apresentarão uma lista de 20
pessoas, das quaes escolheremos dez, e estes, unidos áos acima
nomeados, formarão a juncta encarregada das funcçoens sobre-
dictas.
O Nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros he encarregado
de execução dopresente decreto. Nápoles 9 de Julho, de 1820.

O General Pepe entrou em Nápoles aos 9 de Julho, com parte


do seu exercito, a que se chamou exercito constitucional, e a-
doptaram o tope tricolor, (vermelho, preto e azul) e também se
arvorou a bandeira das mesmas cores, que o Principe mandou
usar a todo o exercito.
Com tudo parece que naõ ha temor de que se perturbe a tran-
quillidade publica, ou commettam actos de violência.

Além deste successo de Nápoles, prevalesce o rumor de que


outros Estados da Itália estaõ em grande agitação. Dizem que
da Lombardia se fizeram propostas ao Governo Francez, pedin-
do-lhe um auxilo de 4.000 homens, que seraõ pagos pelo paiz ;
grandes famílias de Veneza, e outras partes de Itália, entram
nestes planos, que naõ saõ de submetter-se aos Francezes, mas
de estabelecer a completa independência da Itália. Dizem mais
que Lyons he o foco destas negociaçoens, mas o Imperador da
Áustria, deve necessariamente oppor tudo quanto possa, a com-
binaçoens, que ameaçam seus Estados Italianos,
Miscellanea. \o\

RÚSSIA.

O Conselho, que tem a seu cargo superintender os estabelici -


mentos do credito publico, teve uma cessaõ aos 29 do passado,
que se abrio com uma falia do Ministro de Finanças, Conde
Gourieff. Este referi o, que os Estabelicimentos do credito pu-
blico continuaram seus trabalhos durante o anno de 1819, com a
mesma actividade e zelo, que nos dous annos precedentes, co-
mo se mostraria pelo exame das contas. Porém, dando conta
succinta das transacçoens do anno passado, apresentou um re-
sumo das contas, que naõ tivemos lugar de copiar neste Nu-
mero.

TURQUIA.

A revolta do Ali Pacha, a quem Parga fora cedida, causa as


maiores inquietaçoens ao Gram Senhor. O Pacha de Scutari
marcha contra o rebelde, com um exercito de 20.000 homens,
e dizem que ja tomara ao rebelde Pacha de Janina as praças de
Tirana, Eurozo, e Cavaglia ; por lhas entregarem os Governa-
dores ; mas a questão naõ se decidirá em quanto os dous exerci-
tos naõ vierem a contacto.

SUÉCIA.

Cartas de Stockholmo de 16 de Junho annunciam, que se pu-


blicara naquella cidade um Decreto Real, com data de 17 de
Maio, pennittindo o trafico em casca de carvalho, que até ali
se limitava aos curtidores, e mais obreiros em couros, a todos
os habitantes do Reyno, sem excepçaõ.
Expedio-se também outro decreto Real, para se estabelecer
uma alfândega na ilha de Gronso, em frente de Sodertelge;
aonde, desde o primeiro de Septembro próximo futuro, se exa-
minarão todos os vasos, que vierem de paizes estrangeiros,
antes que se lhes permitia proceder para Stockholmo.
El Rey de Suécia intentava visitar a cidade de Bergen, pela
primeira vez, depois da uniaõ da Norwerga á Suécia.
( 102 )

CORRESPONDÊNCIA.
Carta de Um Portuguez Velho ao Redactor, sobre os
Negócios de Portugal.
Senhor Redactor do Correio Braziliense!
Naõ ha desgraça maior para um Soberano, e para uma Naçaõ,
do que entregar os seus interesses e destinos a uma roda falta de
senso commum. Apparecêo, como sabe, um certo opusculo,
com o titulo de Piéces Politiques, em que vinha uma carta,
em extracto, datada de Lisboa 20 de Abril passado. Esta carta
continha absurdos, e inconsequencias, que ja mais homem pu-
blico se deveria metter a decifrar; por quanto, ou tinham fun-
damento as asserçoens avançadas ou naõ : Se tinhaõ; seria mais
prudente ao supposto cúmplice naõ mexer em tal, antes comprar
toda a ediçaõ, como ja se diz fizera a outra, para se naõ desen-
volverem mais cousas ; e no segundo caso, seria melhor deixar o
absurdo a si mesmo, e naõ o querer fazer recommendavel. Poi-
quanto havia e ha muita gente, que naõ sabia nem sonhava, que
em Portugal houvesse uma familia tam gigantesca e voraz, que
pudesse engulir e fazer desapparecer os direitos indisputáveis de
unia Familia Real tam numerosa, como he a que hoje reyna em
Portugal.
Porém o que he mais extraordinário he, que éra preciso que
ainda um Braziliano estabelecido ein Londres se naô tivesse
desgrudado do seu estabelicimento, para se metter nesta transac-
çaõ, do modo como sempre custuma fazer em tudo aonde entra,
e sair como sala o cavalleiro da triste figura. Apparecêo a dieta
carta a 16 de Maio; e o Braziliano estabelecido cuidou em des-
perdiçar naõ menos de algumas 30 moedas, com uma carta, que
dirigio ao seu favorito jornal Inglez, Times, em que se mette
logo a dizer ao povo Inglez (que nem de tal sabia, nem tal lhe
importava) que se ia por uma acçaõ em Paris ao author da carta
publicada nas Pieces Politiques. Isto ou porque
ou porque queria ser um campeão obrigado. O certo he que
expedio conselhos ou ordens para a Legaçaõ de Paris. E que
taes se poderão esperar quando estiver senhor do protocóllo:
Conrespondencia. 103
Começando em fazer expor o M. a transacçoens risonhas ; e a
mais algumas cousas. Chegaram as ordens de Londres ; e co-
meçou-se a fazer um espalha lato nos jomaes, dizendo-se que o
Embaixador tinha denunciado o tal opusculo das Pieces Politi-
ques, em conseqüência das calumnias, que continha contra seu
Soberano, e contra elle mesmo Embaixador! No meu ver, naõ
acho calumnias contra o Soberano, acho sim falta de considera-
ção, e delicadeza. O author da carta, quanto a mim, agente
embuçado do Rocio, dá como unia grande noticia, que os legí-
timos e immediatos herdeiros do throno Portuguez, na falta dos
descendentes da Casa de Bragança, saõ a Família do Cadaval;
que o mesmo que dizer, que segundo as Cortes de Lamégo,* o
Duque de Cadaval succederá na falta de successaõ da Família
Reynante, assim como um Senhor Portuguez succederá na falta
de successaõ deste, ou mesmo o Juiz da Vintena,f na falta de
Senhor Portuguez (no caso que se verificasse outra invazaõ.de
Portugal, e que todos os Senhores fossem para a França com o
Exercito, ou na Deputaçaõ) conforme as leys fundameutaes do
Reyno. Vindo a estar assim o Duque de Cadaval hoje na mesma
probabilidade de reynar, em que estaria iToulro tempo á falta de
fidalgos o Juiz da Vintena ! Portanto, depois do que o Author
aqui confessa, o resto saõ inconsequencias e naõ libellos: libel-
lo se poderia sim chamar contra o Secretario do Governo de Por-
tugal, e os suppostos sócios. Porém assim he tudo ! Principi-
am por tirar a carpuça, e querer pólla aonde naõ cabe, nem
para onde foi feita.
O certo he, que se começaram a dar passos bem infelizes, e
em mal calculados. Fez-se dar busca á Casa de um Portuguez,
em todos os seus papeis: estabeleceo o Embaixador ; naõ sei

* Isto naõ be exacto; porque, segundo as Cortes de Lamégo, fartando


filhos ao Rey succedia o irmaõ, mas naõ o filho do irmaõ. Redactor.
\ Para que alguém nos naõ aceuse de que os nossos Conrespondentes
•urprendem a nossa religião, declaramos, que cremos em nossa consciên-
cia, que o Juiz da Vintena de que aqui se tracta para Rey, no caso que
os Fidalgos todos vam para França, naõ he o Jniz da Vintena das Águas
Livres, o qual, ao que parece por sua Catholica doutrina, he homem hon-
rado; posto que algumas vezes, por sua mesma confissão, tenha ja dado
noticias erradas, e marrado coutra um carneiro, que de certo naõ conhe-
ceo ; por que o tal Juiz andava entaõ fora de casa em noite muito escura,
e sem lenterna ou archote, falta esta, que he bem contra a sua dignidade
como Senhor Juiz que he.
104 Conrespondencía.

ainda com que authoridade, uma meza ou tribunal de inquisição,


em casa do Cônsul, em que elle éra o Presidente, e o Promotor
o Buchelier attaché, que vendia água ardente no Exercito !
Chamáram-se alguns Portuguezes, porém destes protestos ver-
baes naõ resultou que riso, e escarneo; e alguns depoimentos
que de certo naõ haõ de apparecer.
Fóraõ ter com o impressor, a ver se podia denunciar quem
lhe tinha dado o manuscripto; respondeo fora o edictor res-
ponsável, que se achava na Hollanda. Mas naõ obstante, co-
mo na falta deste he o impressor o que responde, ja este foi ci-
tado, ainda que muitos julgam que haverá arranjo eaccommoda-
mento, visto que principiou a exhalar máo cheiro a excavaçaS do
novo Herculaneo, aonde se principiaram a descubrir raridades,
mas todas fétidas. No entanto descubriram-se cousas raras.
Ora aqui tem como he tudo, em que se mette o Brazileiro
Estabelecido. Dá por páos e por pedras, como fazia D. Qui-
xote; e o gigante a quem queria cortar a cabeça, naõ era
que um ódie de vinho ! Ha uma carta datada de Lisboa,
quero que seja supposta; o curso ordinário, em qualquer
paiz, he, no caso que a publicação seja libello, perseguir
o edictor. Porém naõ : como aqui entrou o Cavalleiro da Triste
Figura, éra preciso que se seguisse a sua marcha. Começa-se
por atacar o fantoma e desperdiçar o vinho, e deixa-se a reali-
dade. O fantoma he a impossibilidade de poder provar aonde
foi feita a carta. No entanto a torto e a direito, e sem a menor
reflexão, vaõ-se perseguir aquelles, que naõ constituem senaõ
suspeitas, por isso que saõ Portugezes e nada affeiçoados ao
Embaixador. Quando porém apparecem ataques e libellos diri-
gidos direitamente contra El Rey, calla-se ; ou conta historias.
Porém isto he pela razaõ ja dieta por um seu Conrespondente ;
que, quando se falia mal de El Rey, naõ lhes importa muito;
quando porém lhe chegam ao vivo, ou faliam do proprietário da
casa aonde vam ser recebidos, dizem entaõ, halto lá! que isso
he fallar contra El Rey e sua Soberania ; ergo todo oespalhafa-
to, e toda a metralha da judicatura; e o mais he, paga á custa
d'El Rey.
Sou seu muito ven., &c.
HUM PORTUGUEZ V E I H O .
CORREIO BRAZILIENSE
DE A G O S T O 1820

Na quarta parte nova oa campos ara;


E ae mais mundo houvera lâ chegara.
C A M O E N 9 , (J. t l l . C 14.

POLÍTICA.

REYNO UNIDO DE PORTUGAL, BRAZIL, E ALGARVES,

Resolução Regia, pelo Conselho da Fazenda em Lisboa,


sobre os processos contra os Contrabandistas.
Sua Majestade El Rey Nosso Senhor,pela sua immedi-
ata resolução de vinte quatro de Fevereiro do corrente
anno, tomada em consulta do Conselho da Fazenda de
dezoito de Junho de mil oitocentos e dezoito, foi servido
declarar, além de outras providencias recommendando a
maior vigilância, e vigor para cohibir contrabandos, e
para castigar Contrabandistas, que o Administrador Ge-
ral da Alfândega Grande do assucar, e o Provedor da
Casa da índia, assim como o Superintendente Geral dos
Contrabandos, podem, e devem mandar proceder as bus-
VOL. XXV. N.° 147. o
106 Política.

cas, varejos, e apprehensoens de mercadorias nestes Rey-


nos defezas, ou descaminhadas aos Reaes direitos, como
os foraes, e regimentos respectivos lhes permittem, e que
feitos os Autos competentes, sejam elles remettidos à Su-
perintendência Geral dos Contrabandos, e descaminhos
dos Reaes direitos, para os ulteriores procedimentos le-
gaes, que no dicto juizo devem continuar até final senten-
ça.
E para que assim conste geralmente, se manda a so-
bredicta Real resolução fazer publica por esta fôrma.
Lisboa quatorze de Junho de mil oitocentos e vinte.
D. M I G U E L A N T Ô N I O D E M E L L O .
JOAQUIM Jozé DE SOUZA.

Resolução Regia, pelo Conselho da Fazenda, em Lisboa,


sobre as Franquias.

Sua Majestade El Rey Nosso Senhor por sua immedi-


ata resolução de vinte quatro de Fevereiro do corrente
anno, tomada em consulta do Conselho da Fazenda de
dezoito de Junho de mil oitocentos e dezoito, foi servido,
além de outras providencias, ampliar as que jà antes se
achavam dadas pelo Alvará de tieze de Novembro de
mil oitocentos e seis» a respeito de concessão de Franqui-
as, permittindo que o prazo dellas, depois de concedidas,
possa ser prorogado por mais um termo, o que se deverá
entender precedendo verificação, e conhecimento de
causa justa, como j á tinha sido declarado no decreto de
nove de Septembro de mil settecentos quarenta e sette.
E para constar geralmente, se manda fazer publica a
sobredicta Real resolução por esta fôrma. Lisboa qua-
torze de Junho de mil oitocentos e vinte.
D. M I G U E L A N T Ô N I O D E M E L L O .
J O A Q U I M JOZE DE SOUZA.
Política. 107

HESPANHA.

Falia do Presidente das Cortes a El Rey, na abertura


da sessaõ, dos 9 de Julho de 1820.

As Cortes, em período menos illuminado, mas de


grandes e sublimes virtudes, preservaram as leys funda-
mentaesdo Reyno, a gloria e o esplendor do throno, e a
prosperidade nacional: porém aquella sabia constituição,
que unia o Reyno e a naçaõ por grandes e nobres senti-
mentos de affeiçaõ e lealdade, declinou gradualmente, e
caio por fim em esquecimento e a naçaõ veio a ser o
theatro da ambição, e o Rey o instrumento de más pai-
xoens. Porém o dia do nascimento de Vossa Majestade
foi a aurora do restabelecimento de Hespanha, e mais
de vinte milhoens de habitantes vêm no seu joven Prin-
cipe o digno suecessor de S Fernando. Elles se davam
a si mesmos os parabéns, por estas lisongeiras esperan-
ças, quando, ao mesmo tempo que se concebeo no seio
da naçaõ o sacrilego projecto de extinguir vossos sagra-
dos direitos, um vil impostor introduzio perfidamente
suas legioens, e tirou dos braços dos fieis Hespanhoes
seu amado monarcha, no momento em que elle acabava
de ser colocado sobre o throno de seus gloriosos pro-
genitores. Despertou entaõ o leaõ Hespanhol, e um
grito geral e uniforme deo espirito e vigor aos valorosos
filhos de Pelayo; e em quanto os bravqs guerrilheiros
avançavam com seus peitos de bronze, e expeliram as
hostes do tyranno de seu paiz natal, os pays da pátria, a
quem a vos geral das provincias tinha chamado, restabe-
leceram a Constituição da Monarchia Hespanhola, que,
declarando solemnemente a pessoa do Rey sagrada e in-
violável, tem mais firmemente fixado a coroa na Real
cabeça de Vossa Majestade, tem-vos assegurado contra
108 Política.
os artifícios de qualquer valido, e habilitado assim Vossa
Majestade a obrar mais livremente em beneficio de
vosso povo e a bem do Estado.
Os beneméritos filhos da pátria conceberam, que naõ
podiam melhor conresponder â confiança, com que as
provincias os tinham honrado, nem offerecer ao seu Rey
tributo mais bem aceito, do que consolidar um throno
vacilante, colocando-o sobre a solida baze de uma ley
fundamental, que, sendo a herança deixada por nossos
antepassados, e a expressão da sabedoria, justiça e von-
tade publica, fechava as portas igualmente a toda a vil
lisonja, e injusta aggressaõ. Segurava a administração
da justiça, estabelecia um justo systema de economia
publica, e sanccionava o respeito, obediência e venera-
ção, devidos ás leyse á authoridade Real. Assim senti-
ram os Representantes da Naçaõ em Cadiz. Eu os vi,
Senhor, dirigindo ao Céo seus profundos gemidos, pelo
cruel captiveiro de seu Rey: eu os vi, como orphaõs,
derramando lagrimas de dor e angustia, e humilhados
ante o Cordeiro de Deus, rogando pela volta de tam amá-
vel pay, para sua numerosa e desconsolada familia. Eu
os vi, cubertos de alegria e deleite desabafar seus oppri-
midos coraçoens, quando souberam que o Todo Podero-
so tinha ouvido suas ferventes supplicas, e que o anjo
tutelar da Hespanha tinha descido a quebrar as cadêas
impostas pela tyrannia. Taes eram seus generosos senti-
mentos, quando o sórdido interesse, a ambição cavilcsa,
a calumnia atroz e a vingança insaciável, depois de me-
ditar na obscuridade suas detestáveis conspiraçoens, se
atreveram a aproximar-se ao throno, e a prophanar sa-
crilegamente o sanetuano da majestade. Porém, Senhor,
lancemos um véo sobre estas lugubres provas da fraque-
za humana.
Chegou em fim o feliz dia, em que se levantou no ho-
Política. 109
rizonte Hespanhol uma brilhante estrèlla, que dissipou
as densas nuvens, formadas pela intriga e malevolencia,
e a sagrada verdade resplandeceo com tal brilhantíssimo,
que excitou a admiração de uns, e o respeito de outros,
a confusão de muitos, e a convicção de todos. A feliz
Hespanha vê outra vez junctas aquellas cortes, que fize-
ram tam gloriosos os reynados de seus Alfonsos e de seus
Fernandos; e a mais virtuosa das naçoens, esquecendo
arfrontas, perdoando injurias, se emprega somente em
restabelecer o governo constitucional, em dar testemu-
nhos de gratidão e veneração a seu Rey, sentado agora em
seu augusto throno, no meio do congresso nacional, de-
pois de haver prestado o juramento solemne, pelo qual
se fez maior do que o filho de Phillippe, pela conquista
dos reynos Orientaes.
Magnânimo Rey! Os nobres a leaes Hespanhoes saõ
sensíveis aos numerosos males de que vós os salvastes por
este generoso acto, pelo qual se esmagou ogeniodo mal,
preparado a accender a tocha da discórdia entre nós.
Tudo faz esperar, que se extinguira o germen pernicioso,
e que em seu lugar criará raízes uma eterna paz e concór-
dia. Desapparêçam para sempre os temores, os ciúmes,
as desconfianças, que almas criminosas tem excitado no
coração do melhor dos reys ; e únam-se todos em roda
do throno com aquella fraternal aliiança, que segura a
ordem, produz a abundância, mantém a justiça e preserva
a paz. E permitti-me, Senhor, como fiel orgaõ deste
Congresso, e da NaçaÕ que elle representa, offerecer-vos
a devida homenagem de sua fidelidade, e dos honrados
sentimentos que a animam.
Assim como nossos illustres antepassados sempre foram
o mais firme apoio do throno e do monarcha, assim a
mesma Hespanha, sempre prompta a dar brilhantes tes-
temunhos de lealdade e amor a seus reys, solemnemente
110 Política.
vos promette que seus filhos, que mostraram, na guerra
sanguinária, exemplos de fidelidade desconhecidos das
geraçoens passadas, faraõ sacrifícios dignos de heroes
Hespanhoes, e da admiração das idades futuras.

Resposta de Sua Majestade.

Aceito as expressoens e os sentimentos de amor e leal-


dade, que as cortes manifestam para comigo, por meio
do orgaõ de seu Presidente, e espero com seu auxilio,
ver livre e feliz, a naçaõ, que tenho a gloria de governar.

Falia de S. M. ás Cortes.

Senhores Deputados!
Chegou por fim o dia, objecto de meus ardentes dese-
jos, em que me vejo rodeado, pelos representantes da
heróica e generosa naçaõ Hespanhola, e em que um jura-
mento solemne tem completamente identificado os meus
interesses e os de minha familia, com os interesses de
meu povo.
Quando o excesso dos males produzto a clara manifes-
tação da vóz da naçaõ, antes disso obscurecida por la-
mentáveis circumstancias, que devem ser riscadas de
nossa lembrança, determinei immediatamente abraçar o
desejado systema, e prestar o juramento â constituição
política da monarchia. sanccionada pelas Cortes geraes
e extraordinárias no anno de 1812. Entaõ recebeo a
coroa, assim como a naçaõ, seus legítimos direitos,
sendo a minha resolução naõ menos espontânea e livre do
que conforme aos meus interesses e aos do povo Hespa-
nhol, cuja felicidade nunca cessou de ser objecto de
Política. 111
meus sinceros desejos. Unido assim indissoluvelmente
o meu coração, com os coraçoens de meus subditos, que
saõ também meus filhos, o futuro somente me apresenta
imagens agradáveis de confiança, amor e prosperidade.
Com que satisfacçaõ se contemplará o grande especta-
culo, até aqui sem exemplo na historia de uma naçaõ
magnânima, que tem passado de um estado politico para
outro, sem convulsão nem violência, sugeitando seu in-
thusiasmo á guia da razaõ, em circumstancias, que tem
cuberto de lucto, e inundado de lagrimss outros paizes
menos afortunados.
Dirige-se agora a attençaõ geral da Europa para os
procedimentos do Congresso, que representa esta tam
favorecida naçaõ. Delle se espera prudente indulgência
pelo passado, e illuminada firmeza para o futuro, e que
ao momento, que confirma a felicidade da presente gera-
ção e das futuras, sepultarão no esquecimento os erros
da epocha precedente. Espêra-se também, que se ex-
hibiraõ exemplos de justiça, beneficência e generosidade,
virtudes estas, que sempre distinguiram os Hespanhoes,
que a constituição recommenda, e que tendo sido religio-
samente observadas durante a aífervescencia do povo,
devem ser ainda mais estrictamente practicadas no Con-
gresso de seus representantes, revestidos com o carac-
ter circumspecto e tranquillo de Legisladores.
He tempo agora de emprehender o exame do estado
da naçaõ; e de começar aquelles trabalhos, indispensáveis
para a applicaçaõ dos remédios convenientes aos males,
produzidos por antigas causas, e augmentados tanto pela
invasão do inimigo como pelo errôneo systema do perío-
do seguinte
As contas das rendas publicas, que o Secretario de
Estado, a quem pertence esta repartição, vôs ha de apre-
sentar, excitarão o zelo das Cortes, em procurar e esco-
112 Política.
lher, entre os recursos, que a naçaõ ainda possue, os que
forem mais adaptados para occurrer ás obrigaçoens e in-
dispensáveis encargos do Estado. Esta indagação servi-
rá para confirmar cada vez mais a opinião, de que he es-
sencial e urgente estabelecer o credito publico, sobre as
immutaveis bazes da justiça e da bôa fé, e a escrupulosa
observância do preenchimento de todas as obrigaçoens, o
que dará satisfacçaõ e socego aos credores e capitalistas,
nacionaes e estrangeiros, e ao mesmo tempo alivio ao the-
souro. Eu cumpro com um dos mais sagrados deveres,
que me impõem a dignidade Real, e o amor do meu po-
vo, recommendandoencarecidamente este importante ob-
jecto á séria consideração das Cortes.
A administração da justiça, sem o que nenhuma so-
ciedade pôde existir, tem até aqui dependido quasi ex-
clusivamente da honra e probidade dos juizes: porém,
sendo agora sugeita a princípios conhecidos e estabe-
lecidos, presta aos cidadãos novos e mais fortes funda-
mentos de segurança; e he de esperar ainda maiores
melhoramentos, quando nossos códigos, cuidadosamente
corrigidos, obtiverem aquella simplicidade e perfeição,
que os conhecimentos e experiência do século, em que
vivemos, saõ capazes de dar-lhe.
Na administração interior se experimentam difficul-
dades, que procedem de abusos velhos, aggravados du-
rante estes últimos tempos. A constante applicaçaõ do
Governo, e o zelo com que seus agentes, e as authorida-
des provinciaes trabalham, para estabelecer o simples e
benéfico systema adoptado pela Constituição, vam dimi-
nuindo os obstáculos, e com o tempo aperfeiçoarão uma
repartição do Estado, que tem tam essencial influencia no
bem e prosperidade publica.
O exercito e a marinha pedem mais particularmente a
minha attençaõ e solicitude. Será um de meus primeiros
Política. 113
cuidados, promover a sua organização e estabelecêlla da
maneira mais conveniente para a naçaõ, combinando,
quanto possivel for, as vantagens de forças tam impor-
tantes, com aquella economia, que he indispensável, e
descançando no patriotismo c boa vontade do povo, e na
sabedoria de seus representantes, a quem sempre recor-
rerei com inteira confiança.
He de esperar, que o restabelicimento do systema con-
stitucional, e a lisongeira perspectiva, que este aconteci-
mento offerece para o futuro, removendo os pretextos de
que a maligninidade tem podido tirar vantagem nas pro-
vincias ultramarinas, alhane o caminho para a pacifica-
ção daquellas, que estaõ em estado de agitação ou dis-
túrbio, e faça desnecessário o emprego de outros quaes-
quer meios. Os exemplos de moderação, e o amor da
ordem, que mostra a Hespanha Peninsular, o justo orgu-
lho, que pertence a tam digna e generosa naçaõ, e as sa-
bias leys, que se promulgam conforme a Constituição,
contribuirão pera este fim, e para o esquecimento de ma-
les passados, e uniraõ mais todos os Hespanhoes ao re-
dor de meu throno, sacrificando ao amor de sua pátria
commum todas as lembranças, que possam romper ou en-
fraquecer aquelles laços fraternaes, por que devem estar
unidos.
Nas nossas relaçoens com as naçoens estrangeiras pre-
valece, em geral, a mais perfeita harmonia, á excepçaõ
de algumas poucas diíferenças, que, ainda que naõ te-
nham perturbado actualmente a paz, tem dado occasiaõ a
discussoens, que se naõ podem terminar, sem a concur-
rencia e intervenção das Cortes do Reyno. Taes saõ as
difíerenças pendentes com os Estados-Unidos da Ameri-
ca, a respeito das Floridas, e a designação dos limites
da Louisiana. Existem também disputas, occasionadas
V O L . XXV. N« 147. P
114 Política.
pela occupaçaõ de Monte-Vedio, e outras possessoens
Hespanholas. na margem esquerda do Rio-da-Prata;
porém, ainda que uma complicação de varias circum-
stancias tem atê aqui prevenido o ajuste destas differen-
ças, espero que a moderação e justiça dos principios,
que dirigem nossas operaçoens diplomáticas, produzirão
um resultado conveniente á naçaõ, e conforme ao syste-
ma pacifico, cuja conservação he agora a geral e decidida
máxima da política Europea. A Regência de Argel tem
indicado o desejo de renovar seu antigo systema inquieto
de aggressoens. Para evitar as conseqüências, que po-
dem resultar desta falta de respeito ás estipulaçoens ex-
istentes, o tractado defensivo negociado em 1616 com o
Rey dos Paizes Baixos providenciou a uniaõ das respec-
tivas forças marítimas no Mediterrâneo, destinadas a
manter e segurar a liberdade da navegação e commercio.
Portanto, como he do dever das Cortes consolidar a
felicidade geral, por meio de sabias e justas leys, e com
isso proteger a religião, os direitos da coroa, e os dos
cidadãos; assim também pertence a meu officio vigiar
na execução e cumprimento dessas leys, e especialmente
das leys fundamentaes da Monarchia, em que se concen-
tram as esperanças e desejos do povo Hespanhol. Este
será meu mais grato e constante dever. O poder que a
Constituição outorga a authoridade Real, será empregado
no estabelicimento e inviolável preservação dessa Consti-
tuição, e nisso consistirá o meu dever, o meu deleite, e
a minha gloria. Para acabar e aperfeiçoar esta grande e
saudável empreza, depois de implorar humildemente o
auxilio e guia do Author de todo o bem, requeiro a ac-
tiva cooperação das Cortes, cujo zelo, intelligencia, pa-
triotismo e amor à minha Real pessoa, me levam a espe-
rar, que concurreraõ em todas as medidas necessárias,
Política. 115
para alcançar tam importantes fins, justificando assim a
confiança da heróica naçaõ, por quem foram eleitos.

Replica do Presidente.
As Cortes ouviram com singular satísfacçaõ a sabia
falia, em que Vossa Majestade expressou seus nobres e
generosos sentimentos, e descreveo o estado da naçaõ.
As Cortes apresentam a Vossa Majestade seus mais res-
peituosos agradecimentos, pelo ardente zelo com que V.
M. promove a prosperidade geral, e promettem cooperar
com a intelligencia de V. M., e contribuir, por todos os
meios possíveis, para o alcance dos importantes objectos
para que foram convocadas.

BUENOS-AYRES.

Continuação dos documentos publicados pelo Governo,


para o processo dos réos por alta traição.

Primeira sessaõ secreta do Congresso, em Quarta feira


27 de Outubro de 1819.

Reunidos os Senhores Deputados na salla das sessoens


as dez da manhaã deste dia, e feito signal pelo Senhor
Presidente, se abrio e lêo uma nota, com a qualidade de
secretíssima, do Supremo Director do Estado, datada
do dia anterior, incluindo uma communicaçaõ dirigida
de Paris pelo Enviado Fxtraordinario, juncto ás Potên-
cias Europeas, D. Jozé Valentin Gomez, datada em 18
116 Política.
de Julho próximo passado, ao Secretario de Estado nas
repartiçoens de Governo e Relaçoens Estrangeiras. Con-
cluída a leitura da dieta Nota, se procedeo á do dicto
Deputado. Nella, depois de expor, que tinha sido con-
vidado a uma conferência pelo Ministro dos Negócios
Estrangeiros de S. M. Christianissima, e tendo-a no dia
1.° do mez, em que data a sua communicaçaõ, manifesta
a proposta, que lhe fizera o dicto Ministro, de estabelecer
nestas Provincias uma monarchia constitucional, collo-
cando nella o Duque de Luca, antigo herdeiro do Reyno
de Etruria, e parente por parte materna da dynastia dos
Bourbons: contando com que esta eleição encontraria o
melhor acolhimento nos Soberanos das Cortes principaes,
e particularmente nos Imperadores de Áustria e de Rús-
sia, abertamente decididos pela pessoa do Duque, e em
maior gráo pelos interesses geraes daquelle Continente; e
com que a olharia S. M. Christianissima com especial
complacência, e empregaria a seu favor seus altos respei-
tos e sua poderosa influencia com os demais Soberanos,
sem poupar ao mesmo tempo quantos meios estivessem a
seu alcance para protegêlla, ja fosse com auxílios de toda
a qualidade, que se fizessem necessários, ja pelo arbítrio de
convencer a S. M. Catholica a que desistisse da guerra,
em que se achava empenhado com estas Provincias. Ma-
nifesta depois o reparo que oppuzéra, de que se nao acha-
va competentemente authorizado para este negocio, e a
demais, que naõ seria bem aceita deste Governo toda a
proposição, que naõ envolvesse como bazes essenciaes a
cessação da guerra com Hespanha, a integridade do ter-
ritório do antigo Vice-reynato, incluindo-se particular-
mente a Banda Oriental, e os auxílios necessários para
fazer mais respeitável a situação actual do Estado; o
que se naõ poderia prudentemente esperar da eleição do
Duque de Luca; que, outro sim, tinha a desfavorável
Política. llf
circumstancia de achar-se solteiro, e por conseqüência
sem successaõ. Que, tendo-lhe opposto estes reparos, o
Ministro accrescentou, que seria do particular cuidado
de S. M. Christianissima alcançar de S. M. Catholica a
terminação da guerra, e o reconhecimento da indepen-
dência destas Provincias; que o Principe de Luca pode-
ria contrahir seu enlace matrimonial com uma das Prin-
cezas do Brazil, com a expressa condição de que este
Governo evacuasse a Banda Oriental, renunciando de sua
parte a toda a preterição a indemnizaçaõ : por cujo meio
se asseguraria também a successaõ â coroa: que S. M.
Christianissima contribuiria com auxilíos de toda a espé-
cie, e os mesmos que teria proporcionado em igual caso
para um Principe do sangue: e que, sobre tudo, se em-
pregariam todos os meios possíveis para fazer que se rea-
lizasse o projecto, e com elle a prosperidade destes po-
vos. Conclue o Deputado Gomez, com que tendo ouvi-
do estas novas ex posiçoens, respondeo ao Ministro pela
segunda vez, que naõ se achava completamente authori-
zado para deliberar por si mesmo, e que daria conta ao
Governo, exigindo as instrucçoens necessárias, com a
qual proposta se conformou aquelle facilmente, offere-
cendo entretanto mover por sua parte esta negociação,
até pôlla no melhor estado possivel. Faz, depois, algu-
mas observaçoens sobre este importante e delicado as-
sumpto, e acompanha uma memória, em que se apoia o
mesmo pensamento, a qual assegura ter-lhe sido entregue
posteriormente, por um particular, como que continha
as ideas do Baraõ de Reneval, considerado naquella
corte como chefe da diplomacia Franceza. Concluída a
leitura de ambos os documentos, e a fim de proporcio-
nar-se o tempo necessário para meditar sobre este delica-
díssimo negocio, a salla resolveo, que se suspendesse seu
exame até o sabbado immediato, cltando-se os Senhores
116 Política.
Deputados, que naõ tinham concurrido na presente ses-
saõ.
Neste estado se leo outra nota secreta do Supremo Di-
rector, da mesma data da anterior, acompanhando 09
N.o* de um até quatro, de communicaçoens que se lhe
pediram do General San Martin, edo Governo de Chilet
relativas ás causas porque se suspendeo a expedição pro-
jectada contra Lima, e passaram em commissaõ aos Se-
nhores Deputados Funes e Saeuz, para que informassem
a salla. Com o que terminou a sessaõ.—Pedro Francisco
de Uriarte, Vice-Presidente.
A margem: Senhores Presidente e Vice-Presidente—
Gallo.—Saenz.—Guzman.—Malavia.—Bustamante.—Zu-
danez.— Pacheco. —Funes.—Carrasco.— Lascano.—Via-
niont.—Rivera.—Dias Velez.—Chorroarin.—Azevedo.

Segunda.

Sessaõ secreta de Quarta Feira 3 de Nobembro de 1819.

Reunidos os Senhores Deputados na salla das sessoens


á hora do custume, se tornou a tomar em consideração o
ossumpto, que fitou pendente nas duas anteriores, sobre
a proposta do Ministro das Relaçoens Estrangeiras da
Corte de Paris, feita ao Enviado Extraordinário deste
Governo, juncto ás potências Europeas, o Dr. D. José
Valentin Gomez, para o estabelicimento de uma monar-
chia constituí ional nestas Provincias, sob a direcçaõ do
Principe de Luca, segundo se expressou mais largamente
na acta secreta de 26 de Outubro anterior. Occupado
seriamente o Congresso da gravidade, delicadeza, e tran-
scendência deste negocio, sem esquecer os termos em
que o propõem o Supremo Poder Executivo, na sua nota
Política. HO
official de 26 do mesmo Outubro, se apresentou logo á
sua consideração, por uma parte, a incompatibilidade,
que envolve a proposta com a forma da constituição po-
lítica do Estado, que está ja sanecionada e publicada,
aceita pelos povos sem contradicçaõ, e que o Congresso
e elles tem jurado solemnemente sustentar e observar; e
por outra a falta de faculdades para variálla, naõ sendo
debaixo das formas, que ella mesma prescreve, para con-
sultar melhor sua estabilidade e permanência. Mas, no
conceito de que a dieta proposta do Ministro de Estado
da França naõ sáe da esphera de um simples projecto de
negociação, que seguramente virá a ser encontrado pela
Gram Breranha, a quem naõ pôde convir, que uma po-
tência continental e da primeira ordem, como a França
sua antiga rival, cujos interesses políticos e mercantis
combinados com os da Áustria, Prússia e Rússia conspi-
ram de um modo bem perceptível a contrabalançar a pre-
ponderância do poder Britannico, adquira um ascenden-
te decisivo sobre estas Provincias, pelo estabelicimento de
um Principe, que apresentando-se-nos, ou dando-se-nos
esperança de que será mantido por aquellas potências, he
Í6SO somente, em quanto parece, destinado a conciliar, ou
mais propriamente a subordinar os interesses da America
á influencia da política continental Europea: naõ foi dif-
ficil responder, que naõ se tractando hoje em dia de ap-
provar nem de ratificar um tractado, pelo qual se varie
e transtorne a constituição adoptada, mas unicamente
um mero projecto de negociação, o interesse do paiz, a
política, e as mesmas extraordinárias criticas circum-
stancias, de que nos achamos rodeados, sem recursos
para concluir uma guerra tam desastrosa e prolongada,
estando, no meio disto, ameaçadas com as formidáveis
forças, que prepara o obstinado e implacável orgulho Hes-
panhol, nos impõem o dever de tirar daquella pi opôs-
120 Política.
ta o melhor partido possivel, a beneficio da independên-
cia política do paiz: ja interessando por este motivo a
Corte de Paris, para que empregue sua poderosa influen-
cia com o o gabinete de Madrid, a fim de que se suspen
dam os preparativos da grande expedição, destinada à
subjugaçaõ destas Provincias, em que insiste com tena-
cidade El Rey Catholico; ja inclinando o Ministro de
França a que por este interesse comece a tractar com
nosso Governo, se vá pouco a pouco acustumando a reco-
nhecèllo, e acabe por fim de vencer a repugnância, que
sempre tem os ministros de testas coroadas, a entreter
relaçoens com os Enviados de republicas nascentes, a
quem por todo favor apenas se consideram existentes de
acto, quando por sua proposição nos suppoem ja o Mi,
«isterio de Paris, ao menos tacitamente, em aptidão e
com direito para dispor de nossa sorte e da das Provín-
cias, por meio de um tractado; ja podendo lançar maõ
do arbítrio de fazer deixar ver, destra e occultamente a
proposta da França ao Ministro da Gram Bretanha, a fim
de o decidir ao reconhecimento de nossa independência
absoluta, e para que nos ajude a sustentai Ia, e ultima-
mente ganhando tempo (ao menos em quanto por meio
da negociação se alcança entreter ou suspender a expedi-
ção ou armada Hespanhola) para regular o nosso interior,
preparar nossa defeza, estabelecer nosso credito no exte-
rior, e pôr-nos em um pé de respeitabilidade, que pro-
porcione maiores vantagens, neste ou n'outro qualquer
tractado; cujo resultado em ultima analyzc virá sempre
a ficai sugeito à approvaçaõ do Senado, com duas terças
partes dos votos, conforme a Constituição; a qual tam-
pouco pode ser variada em nenhum de seus artigos, e
muito menos na forma essencial do Governo, senaõ pelo
consentimento das duas Câmaras, expressado pelo modo
e forma, que prescreve a mesma constituição : sobre éa-
Política. 1£1
fcas c outras sérias e mui detidas observaçoens, dirigida s
todas a consultar o bem do paiz, sustentar a Constitui-
ção, e deixar illesas as faculdades da próxima Legislatu-
ra, para que obre neste gravíssimo negocio do modo que
mais convier a fixar a sorte das Provincias, e affiançar a
sua solida e permanente felicidade, classificada em primei-
ra ordem, se pôz a votos a proposição seguinte <j Se se
admitte o projecto (de que se tracta) condicionalmente,
ou naõ? Verificada a qualificação, resultou approvada a
affirmativa. Salvaram seus votos os Senhores Zudaflez e
Villegas, ordenando a salla, que se pedissem os seus aos
Senhores Dias Velez, Azevedo, e Lazcano que naõ ti-
nham assistido á sessaõ.
Ao depois se procedeo a nomear uma commissaõ, que
apresente em projecto as condiçoens, debaixo das quaes
se ha de admittir aquelle, e designado o numero de três
Senhores Deputados para a Commissaõ, resultaram elei-
tos os Doutores Bustamante, Funes e Saenz. Com o
que terminou a sessaõ, A margem. Senhores Presiden-
te, Vice-Presidente.—Charroarin.—Carrasco—Pacheco.
Uriarte.—Soiilla. —Viamont—Guzman.— Rivera.—Zu-
dadez,—Bustamante.—Funes.—Saenz.—Galla.
Em sessaõ de 3 de Novembro do presente anno de
oitocentos e dezeuove, em que se ventilou e decidio a
proposta feita pelo Ministério Francez, de admittir para
Rey destas Provincias Unidas o Principe de Luca, o
meu voto foi o seguinte.
Naõ estando nas minhas faculdades contrariar a von-
tade expressa de minha Provincia pelo Governo Republi-
cano, manifestado nas instrucçoens a seus Deputados
para a Assemblea Geral Constituinte; nem variarem seu
principio fundamental a Constituição do Estado; meop-
ponho á proposta, feita pelo Ministério Francez, de ad-
mittir o Duque de Luca para Rey das Provincias Uni-
VOL. XXV N ' 147. Q
122 Política.
das. E sem embargo de estar persuadido, que este
projecto humilhante e prejudicial á felicidade nacional
ha de abortar no seio mesmo da França: considerando
as vantagens que pôde proporcionar-nos a sua communi-
caçaõ, com copia da memória do Baraõ de Reneval, ao
Gabinete da Gram Bretanha e aos Estados Unidos da
America Septentrional, opino, que, sem perda de um
momento, se lhes participe, assim como os motivos em
que se funda, e suas conseqüências. Que os Encarrega-
dos de Negócios Gomez e Ribadavia, para ganhar tempo,
entretenham o Ministério Fiancez, quanto seja possivel,
antes de o desenganar; porém que sendo apertados a com-
municar-lhe o ultimatum do soberano Congresso, passem â
Inglaterra (naçaõ mais formidável para a America, que
todas as do Continente Europeo) a pôr em movimento
os preciosos recursos, que lhes tem apresentado, este
negocio. E que o Deputado mandado ao Governo de
Chile, por seu Enviado em Paris, com officios relativos
a este mesmo assumpto, continue sua viagem, sem que
seja necessário communicar-lhe o resolvido. Salvo meu
voto ao pé da letra.—Jaime de Zudafíez.
Na mesma sesaaõ o Senhor Deputado D. Alexo Ville-
gas votou do modo seguinte: Sem entrar por agora no
exame das vantagens ou inconvenientes do projecto, sou
de parecer; que, sendo a sua admissão diametralmente
contraria á constituição, que se acaba de jurar, naõ ha
authoridade no Congresso para o adoptar, e até creio, que
se o projecto he vantajoso ao paiz, pôde abortar pelo
mero facto de o Congresso Soberano o adoptar, sem ob-
servar as regras prescriptas pela Constituição no capitu-
lo que tracta de suas reformas; e muito mais estando
tam immediata a reunião da Legislatura Constitucio-
nal.
Na mesma sessaõ, e pelo mesmo assumpto foi o meu
Po/itica. 123
voto, que se admittisse o projecto constitucionalmente,
debaixo das instrucçoens, que se derem aos Enviados;
sendo o meu voto pela affirmativa, com absoluta refe-
rencia ás condiçoens, que julguei por minha parte esse-
cialissimas, as quaes, se naõ saõ approvadas pela sanc-
çaõ geral, estou pela negativa, e tenho resalvado meu
voto.—Dor. José Miguel Dias Velez.

Terceira sessaõ secreta aos 12 de Novembro, 1819.


Estando os Deputados junctos na sua salla das sessoens
á hora do custume, os membros do committé encarrega-
do de minutar o projecto das condiçoens, com que se
havia de admittir a proposição feita pelo Ministro dos
Negócios Estrangeiros, na Corte de Paris, com as vistas
de estabelecer nas Provincias-Unidas uma Monarchia
Constitucional, matéria plena e deliberadamente d icuti-
da nas três sessoens precedentes, e sua admissão condi-
cional, resolvida na ultima; informaram a Salla, de
que estavam promptos a apresentar o relatório dos traba-
lhos do Committé. O projecto foi apresentado por es-
cripto, e sendo lido três vezes, fizéram-se algumas obser-
vaçoens geraes, e ao depois se procedeo a examinar sepa-
radamente cada uma das condiçoens, que nelle se con-
tinham.
Fazendo-se isto a respeito da primeira, a qual dizia;
" Que S. M. Christianissima emprehenderia obter o con-
sentimento das cinco potências alliadas da Europa, e
também o da mesma Hespanha:" foi approvado com a
addiçaõ de que se requeresse especialmente o consenti-
mento da Grani Bretanha. Os Senhores Zudanez, Dias
Velez, Rivera e Uriarle deram os seus votos nos termos
entrados nos jornaes.
124 Política.

Sendo examinada a segunda condição, que diz; " Que


vencidas estas diffículdades S. M. Christianissima em-
prehenderá também facilitar a aliiança matrimonial do
Duque de Luca com uma princeza do Brazil, tendo esta
aliiança por baze a renuncia, da parte de S. M. Fidelissis-
sima, de todas as suas pretençoens, aos territórios possuí-
dos por Hespanha, conforme as ultimas linhas de demar-
cação concordadas; assim como ás indemnizaçoens,
que possa ter de requerer, por causa das despezas, que
tem incorrido nesta empreza, contra os habitantes da
margem oriental do Rio-da-Prata; " approvou-se com a
qualificação de que, em lugar de margem septentrional
se inserisse margem oriental; e na ultima parte as pala-
vras " Rio-da-Prata" fossem supprimidas.
A terceira e quarta condiçoens foram entaõ examina-
das, em devida ordem, e approvadas nos seguintes ter-
mos.
Terceira; que a Erança se obrigará a fornecer ao Du-
que de Luca, todo o auxilio que elle possa requerer, para
estabelecer uma monarchia nestas provincias, e fazella
respeitar; e nella se deve comprehender, pelo menos,
todo o território contido nos antigos limites do Vice-rey-
nato do Rio-da-Prata, incluindo as provincias de Monte-
Vedio, com toda a Margem Oriental, Entre-Rios, Cor-
rientes, e Paraguay.
Quarta; Que estas provincias reconhecerão por seu
Monarcha o Duque deLuca, sob a constituição política,
que tem adoptado, á excepçaõ daquelles artigos, naõ
adaptados à forma de um governo monarchico hereditá-
rio, que será reformado da maneira constitucional ali
prescripta.
O Quinto, que diz; " Que havendo concordado as po-
tências da Europa na coroaçaõ do Duque de Luca, isto
se realizará, ainda que a Hespanha persista em sua deter-
Política. 125

minaçaõ de tornar a conquistar estas províncias" ; foi da


mesina-soite approvado, qualiíicando o seu votoo Depu-
tado Zudanez.
A sexta condição; " Que no caso sobredicto a França
auxiliará a vinda do Duque de Luca, com toda a força
que a em preza requer, ou porá este Governo em estado
de se oppôr aos esforços de Hespanha, ajudando-o com
tropas, armas, vasos de guerra, e um imprestimo de três ou
quatro milhoens de pezos fortes, pagaveis na terminação
da guerra, e restabelicimento da tranquillidade no paiz,"
foi approvada com a qualificação, de que em lugarde três
ou quatro milhoens, se inserissem três mais, e o Deputa-
do Dias Velez qualificou seu votou.
Immediatamente depois se procedeo a examinar, em
devida ordem, a septinia, oitava e nona condiçoens,
que foram approvadas nos seguintes termos-
Septima, que por nenhum principio se dará effeito ao
projecto, se houver razaõ paia recear, que a Inglaterra,
olhando com deprazer para a elevação do Duque de
Luca, estiver disposta a oppôllo, ou frustrallo pela força.
Oitava, que o tractado, que deve effectuar o Ministro
dos Negócios Estrangeiros da França com o nosso Envia-
do em Paris, será ratificado no termo fixo para este fim,
por S. M. Christianissima, e pelo Supremo Director des-
te Estado, com o prévio consentimento do Senado, se-
gundo as formas constitucionaes.
Nona, que com estas vistas o nosso Enviado estipula-
rá o tempo necessário, em ordem a que este negocio de
tam alta importância, se possa devidamente concluir; e
conduzirá o mesmo com toda a circumspecçaõ, reserva,
e precaução, que pede sua delicada natureza; assim
como lambem em ordem a prevenir que o projecto
aborte, e guardar-se contra as fatais conseqüências, que
teriam lugar, se transpirasse prematuramente; por causa
126 Política.
das malignas observaçoens e interpretaçoens, que os ini-
migos da felicidade do nosoo paiz naõ deixariam de
fazer sobre elle.
Havendo-se requerido os votos daquelles membros,
que naõ assistiram na sessaõ precedente, quando a pro-
posição "se se devia ou nao admittir condicionalmente
o projecto de que se tracta," foi decidido; communica-
rem-se estes, assim como que o Senhor Dias Velez tinha
qualificado o seu voto. Depois do que se fechou a ses-
saõ. Assignâram á margem os senhores Presidente,
Gallo, Funes, Lazcano, Zudanez, Sorilla, Uríarte, Pacheco
Bustamante, Azevedo, Guzman, Carrasco, Chorroarin,
Rivera, Dias Velez, Saenz.
O acima he conforme com as actas secretas, transcriptas
nos jornaes do Congresso Soberano, desde paginas 128 até'
134 contidas em um grande livro de folio, encadernado
em Morocco amarello: e ainda que ha algumas cousas
riscadas e alteradas na pagina 141, saõ ellas devidamen-
te authorizadas, e tudo certificado na margem: que os
três votos qualificados, ali inseridos, saõ os mesmos que
se contém no verso da folha 11 e 12 de um livro distinc-
to posto no fim, e temos também contrasignado o do Dr.
Alexo Villegas, que parece naõ ter sido assignado. E
em obediência das ordens do Governador da Provincia
contidas no seu decreto de 14 do presente mez authoriza-
mos e assignamos o mesmo, em Buenos-Ayres em 19 de
Março,de 1820.
(Assignado) D. J O L E R A M O N DE BASAVILBASO.
Principal Notar io do Governo.
D. JOAÕ J O Z E R O C H A . Notario Publico.
M A R I A N O G A R C I A DE ECHABUZ,Notario
Publico,
T H O M A Z JOSÉ B O I S O , Notario Publico.
N A R C I S O DE Y R A N Z U A G A , Notario Publico.
Política. 127

O Procurador Geral ao Governador.

O Procurador Geral, nomeado para proceder na accu-


saçaõ da presente causa, participa, que a fim de realizar
os justos desejos proclamados pelo Governo, e em ordem
a que se ponham em execução: debaixo das mais escru-
pulosas formas legaes, e que o publico seja informado
de todos os termos do processo, como nem uma nem ou-
tra cousa se possa fazer com propriedade; sem publicar
e annexar a este auto, naõ somente as instrucçoens, que
levou para França o Enviado D. Jozé Valentin Gomez,
juncta mente com as que lhe foram ao depois transmitti-
das pelos poderes Executivo e Legislativo, em virtude
de um acto deste de 12 de Novembro proxime passado;
mas também o tractados com a Corte do Brazil, a que
allude a proclamaçaõ de 14 do corrente; assim como os
actos que se lavraram a este respeito, os poderes e instruc-
çoens conferidas a D. Mauuel Garcia, Enviado juncto á
mesma Corte, junctamente com todas as mais communi-
caçoens, que lhe dizem respeito; V. Ex», he portanto
requerido a ordenar, que os dictos documentos se forne-
çam, alem de outros quaesquer que o Procurador Geral
possa ao depois julgar ncessarios. Buenos-Ayres 23 de
Março de 1820.
D. JOAÕ BAUTISTA VILLEGAS.
(O sobredicto foi approvado pelo Governador, o os do-
cumentos mandados entregar.)

Sessaõ Secreta de 4 de Septembro de 1816.


Tendo-se ajunctado os Deputados do Congresso na sal-
la de suas sessoens, ás nove horas e meia ma manhaã de
12S Política.
hoje (estando presentes os membros, cujos nomes vaõ
notados na margem) mandando o Presidente guardar si-
lencio, discutiram-se primeiramente os objectos mencio-
nados nos jornaes, o Secretario leo entaõ o piojeclo de
instrucçoens, minutado pelo eoniinitté encaregado de as
organizar, e que as tinha apresentado alguns dias antes,
mas naõ se tinham podido examinar até agora. Haven-
se tomado em consideração o seu conthcudo, com toda a
deliberada circumspecçaõ requerida pela natureza de um
negocio, provavelmente o mais importante que se podia
apresentar aos soberanos representantes do povo da Ame-
rica Meredional, e concordando-se unanimemente em
duas addiçoens, cada um dos membros presentes expres-
sou a sua opinião a respeito das cláusulas, que restavam
no dicto projecto, de suas instrucçoens, por meio de um
voto, cujo resultado final foi, que se sanecionou em todas
as suas partes, e nos termos em que foi concebido, com
duas addiçoens acima mencionadas, e com uniaestipula-
çaõ de se lhe acerescentarem outros quaesquer artigos,
que ao depois se julgassem necessários, assim como para
reformar ou revogar qualquer cláusula ou cláusulas, con-
forme a exigência das circumstancias; tudo o que se de-
terminou por uma maioridade de vinte e dous votos, e o
theor das dietas instrucçoens he os seguinte :—*
Secretíssimo.
Para o interessante fim de ser fundamentalmente in-
formado das vistas políticas do Gabinete do Brazil e se-
gurar por este meio o feliz êxito de sua missaõ, o Envia-
do se porá em communicaçaõ com D. Nicholao Herrera;
leito isto, mostrará seus plenos poderes para tractar com
o coininamlaiite cm chefe da Expedição Portuguc/a, o

* Estas instrucçoens foram ja copiadas, mas naõ por extenso,


tio X". precedente a p. 30.
Política. 129
Tenente General D. Frederico Lecor, obrando com toda
a franqueza, que requer a importância do negocio, em que
deve patentear a boa fé, animada pelo interesse da paz e
felicidade do povo deste paiz.
A baze principal de toda a negociação deve ser a liber-
dade e independência deste paiz, representado em Con-
gresso, que este tem solemnemente proclamado, e as
provincias tem jurado defender, a todo o sacrifício.
Debaixo do principio que, no fim de mais de seis an-
nos de revolução e sacrificios, será impossível separar
qualquer parte do paiz, o Commissario trabalhará por ob-
ter de D. Nicholao Herrera as mais exactas informaço-
ens, sobre tudo quanto diz respeito ao objecto de sua
missão, e particularmente sobre o meio de se chegar e
tractar com o General Lecor, de quem exigirá os arran-
jamentos, que fez Garcia com o Governo do Brazil: os
quaes, por segura via, transmittirá ao Supremo Director
do Estado, com toda a brevidade possivel, ajunctando
uma conta das observaçoens, que tiver feito, sobre o es-
pirito, propriedade ou impropriedade do mesmo; e se o
General Lecor lhos naõ der, porque talvez os naõ tenha em
seu poder, o Commissario obterá delle as informaçoens
ou idéas, que elle disso possa ter, e as transmittirá ao
Supremo Director, com a conta acima indicada.
Logo que estabelecer as suas communicaçoens, o Com-
missario trabalhará por informar Herrera, e o General
Lecor, do verdadeiro estado deste paiz, obliterando de
seus espiritos as exaggeradas idéas, que possam ter do
estado de desordem, em que nos suppoem ; dando-lhes a
entender, que, depois da inauguração do Congresso, da
nomeação do Supremo Director, da organização dos ex-
ércitos, e varias outras reformas, a anarchia tem quasi
cessado de todo; porque o povo em geral, seus chefes, e
VOL. XXV. N°. 147
130 Política.
mais especialmente os generaes dos exércitos, estaõ pene-
trados da mais profunda obediência e submissão á Sobe-
rania, e que, se, em algumas partes, restam algumas pe-
quenas desordens, saõ ellas as ultimas faíscas de um in-
cêndio recentemente apagado, e que, longe de ameaçar
algum perigo, faraõ com que seja de todo extincto.
Manifestar-lhe-ha o respeitável pé em que se acham
nossos exércitos, os esforços das provincias, que os aug-
mentam diariamente; e, debaixo da direcçaõ do Soberano
Congresso, as bem fundadas esperanças, que temos, de
fazer progressos em Chili, cujos habitantes, enthusiastas
e cheios de desesperaçaõ contra o inimigo, que os oppri-
me, esperam anxiosamente o nosso exercito, superior ao
de Lima em subordinação e disciplina, e de nenhuma
maneira inferior em numero, e que bem cedo emprehen-
dera recobrar aquelle paiz ; também os nossos meios de
expulsar do alto Peru as legioens, que o occupam, naõ
saõ menores, porque os delles se diminuem continua-
mente, pela constante guerra de partidários, que os natu-
raes do paiz lhe fazem, ajudados por varias divisoens do
nosso exercito, commandado por officiaes de credito,
bem informados do paiz, e que chamam a attençaõ do
inimigo para todos os lados, surprendendo-o continua-
mente com seus destacamentos, e impedindo-lhe descer
para esta parte, naõ obstante as desgraças de Vilcapugioi
Ayouma, e àipesipe; de tudo o que resulta, que o exer-
cito de Sancta Cruz, e as outras divisoens apontadas,
augmentam tam consideravelmente, que he possivel que
ellas, só de por si, bastarão para destruir o inimigo, e
obrigàllo a desistir de sua empreza de sustentar-se no
Peru.
Notar-lhe-ha, que o povo deste paiz, temeroso das
vistas do Gabinete Portuguez, nesta parte do rio, está
inquieto, e esta inquietação lhes causa o expresso desejo
Política. 131
de auxiliar o General Artigas; por cuja razaõ o Governo
destas provincias deseja anxiosamente receber provas da
sinceridade do dicto Gabinete, e taes que possam tran-
qüilizar os espíritos dos habitantes, com estas vistas so-
mente, se manda um official com uma bandeira de tre-
goas, para pedir ao General Lecor explicaçoens, a respe-
ito de sua expedição militar a este rio, e contra o terri-
tório da Banda Oriental, naõ obstante as profissoens de
amizade, que o Congresso tem recebido de Sua Majes-
tade Fidelissima.
Para este fim o Commissario lhe deve dará entender,
que, se o objecto do Gabinete Portuguez |he somente re-
duzir á ordem a margem oriental, de nenhum modo se
lhe permittirá tomar posse de Entre-Rios ; pois este ter-
ritório pertence á Provincia de Buenos-Ayres, e nunca
o Governo o renunciou, nem cedeo a margem oriental.
Explicar-lhe-ha também a grande popularidade do
Congresso nestas províncias, ea confiança, que põem em
suas deliberaçoens ; e que, naõ obstante as ideas ultra"
democráticas, que se tem manifestado por toda a revolu-
ção, o Congresso, assim como a parte solida e illuminada
do povo, e na verdade a generalidade deste, estaõ dis-
postos a favor de um systema de monarchia moderada e
constitucional, adaptada ao estado e circumstancias do
paiz, de tal maneira, que possa assegurar a tranquillidade
e ordem do interior, e estreitar mais suas relaçoens e in-
teresses com os do Brazil, de maneira que os identifique
do melhor modo possivel,
Procurará convencêllos do interesse e vantagens, que
resultam destas ideas, a favor do Brazil, declarando-se
este o protector da liberdade e independência destas pro-
vincias, restabelecendo a Familia dos antigos Incas, e li-
gando-a com a de Bragança, sobre o principio, que, sen-
do ambos os Estados unidos, por uma parte, o continente
132 Política.
Americano augmentará muito em conseqüência, e de
maneira que poderá contrabalançar o Mundo Antigo, e
cortar os laços, que retardam os passos da política, e
impedem o seu natural progresso para seus altos desti-
nos ; epor outra parte, a obstinada revolução deste paiz,
determinado a naõ e.xistir de outra maneira que naõ seja
no character de naçaõ, apresenta obstáculos difficliltosos
e insuperáveis á sua subjugaçaõ; tanto pelas grandes e
quasi desertas distancias, que medêam entre as cidades,
o que impede o transporte de exércitos, de umas para
outras; como pelos meios exclusivos que possuem, de
conduzir contra qualquer inimigo uma guerra de partidá-
rios; gênero este de guerra, que, tendo arruinado os ex-
ércitos, que estavam no paiz, e impedido a marcha do
que occupava o Peru, naõ obstante o seu particular co-
nhecimento do paiz, virá por fim a destruir todo o exer-
cito estrangeiro, por maiores que sejam suas forças: a
antipathia, que existe presentemente entre os habitantes
destas províncias e os do Brazil, produzida geralmente
entre paizes vizinhos, que tem differentes governos e lin-
guagem, e animada entre nôs pelos Hespanhoes; assim
como a diversidade de character, custumes e hábitos, e
idéas, derivadas das diflerentes leys, que nos tem gover-
nado desde a conquista, e as rf voluçoens, que temos ex-
perimentado.
Se depois dos mais afincados esforços, que o Commissa-
rio deve fazer, para obter á acquiescencia na primeira
proposição, ella for regeitada; proporá entaõ a coroaçaõ
de um dos Infantes do Brazil nestas províncias, ou a de
qualquer outro Infante estrangeiro, o qual, formando
uma connexaõ com uma das Infantas do Brazil, possa
governar estas províncias debaixo de uma Constituição,
que o Congresso ha de apresentar. No caso em que o
Goveruo Portuguez aceite alguma das proposiçoens, esse
Política. 133
mesmo Governo emprehendcrá remover todas as difficul-
dades, que se possam levantar da parte da Hespanha.
Se nenhuma das precedentes proposiçoens for admitti-
da, o Commissario se esforçará, pelas razoens apontadas
nestas instrucçoens, em os convencer da impossibilidade
de que este paiz adopte outro qualquer plano, e o Com-
missario deve lembrar vigorosamente ao Governo do Bra-
zil, os males, que resultarão de uma empreza, que nun-
ca se poderá ter como honrada aos olhos da justiça e das
naçoens civilizadas, e que trará sobre si o ódio e execra-
ção deste paiz, assim como do Continente da Europa; e
de tudo dará parte ao Soberano Congresso, por meio do
Supremo Director.
Se, durante o curso destas negociaçoens, se fizer al-
guma queixa, a respeito do auxilio que o Governo des-
tas provincias presta ao General Artigas, o Commissario
dará disso tatisfacçaõ, respondendo, que o Governo senaõ
tem podido dispensar disso, em razaõ de naõ haver garan-
tia publica do Governo Portuguez, que assegure este paiz,
das justas, pacificas, e desinteressadas vistas do Brazil; e
assim, por um comportamento contrario, Buenos-Ayres
ficaria em perigo de excitar a desconfiança do povo, o
qual, entrando em uma convulsão geral, frustraria as vis-
tas de ambos os Governos, dirigidas a colocar estas pro-
vincias em um estado de paz, e fixar as bazes de sua
eterna felicidade, estreitando mais as relaçoens entre am-
bos, ou identificando seus interesses da maneira mais
conforme a suas respectivas circumtsancias.
Pelo que respeita os outros incidentes, que se podem
originar desta negociação, e naõ saõ expressos nestas in-
strucçoens, o Commissario regulará o seu comportamento
pelos princípios e espirito dellas, assim como pelas ou-
tras informaçoens, que se lhe deram, obrando com toda
a prudência e circumspecçaõ, quea importânciae delica-
deza deste negocio requer, e tendo sempre em lembrança,
134 Política.
que qualquer ponto da Commissaõ, que lhe he confiada,
sobre que se possam fazer convênios, naõ pode ser posto
em execução plena, senaõ depois das deliberaçoens do
Congresso, segundo o que elle se julgará obrigado a apre-
sentar ante a Soberania, por meio do Supremo Director,
qualquer tractado ou convênio que emprehender, em
ordem a obter a sua sancçaõ.
Tucuman, 4 de Septembro de 1816.

Aimda mais secreto.


Como o Commissario deve obrar com toda a informação
conducente ao objecto de sua missaõ, elle terá uniforme-
mente em lembrança as communicaçoens officiaes, que
se lhe fizeram, assim como as confidenciaes, que Garcia
passou aos ex-directores Alvarez e Balcarce, e as deste ao
primeiro, sobre as relaçoens do Governo destas Provinci-
as com o do Brazil, e de que o Supremo Director lhe
dará copias por extenso.
Naõ obstante a franqueza que o Commissario deve
mostrar para com Herrera, trabalhará com toda a devida
prudência, circumspecçaõ e segredo, por se informar de
pessoas de veracidade, sobre o comportamento publico
de Garcia e Herrera no Brazil, e das intençoens e senti-
mentos, que possam mostrar para com esta Corte, e para
com a de Hespanha, e dará disso a devida informação
ao Congresso, por meio do Supremo Director expres-
sando os fundamentos das opinioens, que formar sobre
este objecto. Pela mesma razaõ, e até que esteja perfei-
tamente covencido dos sentimentos e bòa fé de Herrera,
naõ fará uso de mais franqueza para com elle, do que
julgar essencialmente necessário.
Trabalhará cautamente por descubrir, se ha alguns
tractados e convençoens entre os gabinetes do Brazil)
Política. 135
Hespanha e Inglaterra, para a subjugaçaõ da America,
ou deste território, ou para outro qualquer intento, e
quaes saõ as vistas destes gabinetes, e de tudo fará rela-
ção ao Soberano Congresso, pelo canal acima indicado.
Se se requerer do Commissario, que estas provincias
se incorporem com o Brazil, elle se opporá abertamente
a isso; manifestando, que suas instrucçoens se naõ ex ten-
dem a um caso deste gênero; e produzirá as razoens
que lhe occurerem, a fim de provar a impossibilidade da
medida, e os males, que dahi resultariam ao Brazil. Se,
porém, depois de haver exhaurido toda a sorte de argu-
mentos, insistirem sobre este ponto, observar-lhes-ha,
como de si mesmo, e como sendo o mais a que estas pro-
vincias poderiam vir a consentir, que, formando-se em
um Estado distincto do Brazil, reconheceriam como seu
Monarcha a S. M. Fidelissima, em quanto elle conservar
a sua corte neste continente, porém isto debaixo de uma
constituição, que o Congresso lhe apresente: e em apoio
destas ideas, se alargará em todas as razoens apontadas
nas instrucçoens separadas, que lhe saõ dadas, e n'outras
que se possam oíferecer; porém, qualquer que for o re-
sultado desta discussão, deve communicállo immediata-
mente ao Congresso, por meio do Supremo Director.
Desde que o Commissario se puzerem communicaçaõ
Com D. Nicholâo Herrera, procurará com grande segre-
do informar-se das forças Portuguezas e das de Artigas,
observará os movimentos e progressos de ambos, e se-
gundo o que puder deduzir de suas observaçoens, verá
se he prudente accelerar ou retardar as negociaçoens, no
entanto que estas provincias se habilitam a augmentar
suas forças, e melhorar sua situação, ganhando vantagens
do lado do Peru e Chili; porém se as armas Portuguezas
avançarem rapidamente, trabalhará por concluir os tracta-
dos, seja restabelecendo a familia dos Incas, connexa
136 Política.
com a de Bragança, seja coroando nestas provincias um
Infante do Brazil, ou qualquer outro estrangeiro, excepto
um Hespanhol, conforme as qualificaçoens requeridas
nas instrucçoens separadas, que se lhe ministram na data
desta.
Se observar, que o General Lecor procura ganhar tempo,
por um comportamento ambíguo, boas palavras, propo-
siçoens inadmissíveis, até que tenha obtido vantagens so-
bre o povo da Banda Oriental, e pôr-seem estado dedic-
tar-nos a ley, mandará immediatamente avizo ao Congres-
so, pelo canal sobre dicto, assim como a Garcia, a fim
de que este possa obrar, com taes informaçoens, de ma-
neira conveniente, a respeito do gabinete do Brazil.
Finalmente, como pôde acontecer, que o Commissario
tenha de fazer algumas communicaçoens extremanente
particulares, que se naõ devam expor aos perigos com-
muns; ordena-se-lhe, que, neste caso, use da cyfra, que
lhe dará o Supremo Director do Estado. Tucumam
4 de Septembro de 1816.
(Seguiam-se as qualificaçoens dos votos de alguns
membros, e as assignaturas necessárias para legalizar o
acto, copiadas dosjornaes do Congresso.

Sessaõ secreta de 27 de Outubro, 1816.

Tendo-se ajunctado extraordinariamente na salla das


sessoens do Congresso, os Deputados nomeados á mar-
gem, depois do Presidente fazer signal de silencio, o
committé encarregado de minutar as respostas ao Supre-
mo Director, sobre as relaçoens estrangeiras, fez o relató-
rio de seus trabalhos, consistindo em dous officios a Sua
Excellencia, e um diploma para o Commissario D. Mi-
guel Yrigoyen. No primeiro destes officios, se determi-
Política. 137
na que o Supremo Director faça as seguintes variaçoens
nas instrucçoens secretas, que aos 4 de Septembro se
passaram, para servir de guia ao Agente Secreto.
Que no sexto artigo das instrucçoens secretas, que co-
meça.—" Dar-lhes-ha a entender, que o povo," &c. e
conclue com " os amigáveis desejos de Sua Majestade
Fidelissima," em vez da cláusula que diz, " para o fim
somente de os tranqüilizar, se substitua o seguinte:"
pois com as vistas de os tranqüilizar manda o Governo a
D. Miguel Yrigoyen, para juncto da pessoa do General
Lecor, a pedir-lhe explicaçoens, a respeito da expedição
Portugueza, em ordem a que com esta capa possa me-
lhor cubrir o principal objecto de sua commissaõ parti-
cular."
Que no septimo artigo, que principia assim ; " Com
estas vistas," e acaba, " naquella margem»" em lugar
do verbo " tomar posse" se substitua o termo " estenden-
der-se ali."
Que no segundo artigo das instrucçoens ainda mais
secretas, que diz assim : " se se requerer do Commissa-
rio" e acaba, " por meio do Supremo Director se supri-
mirá a passagem, que diz " Se porem depois," &c. atê
"o resto para se tomar em consideração :" e o acima foi
uniformemente approvado.
No segundo officio, lido pelo secretario, se compre-
hendiam as resoluçoens do Congresso, determinadas em
vários votos, relativamente ás ultimas communicaçoens
de D. Manuel Garcia, ao que o Committé accrescentou
no 4.° artigo, que o dicto Garcia requeresse do Ministério
do Brazil uma declaração por escripto, asseverando, que
o Governo do Brazil naõ cooperará nem auxiliará directa
ou indirectamente o Governo Hespanhol, na subjugaçaõ
destas provincias, manifestando-lhe as apprehensoens e
VOL. XXV. N.o 147. s
138 Política.
desconfiança, criadas pelo dèscanço e falta de queixas,
da parte do Ministro Hespanhol, relativamente aos pre-
parativos de Sua Majestade Fidelissima, destinados á in-
vasão destas provincias, e ao mesmo tempo as ordens
dadas pelo gabinete de Madrid, para o acantonamento de
tropas dentro do território do Brazil, esperando achar ali
apoio e recursos, sem a protecçaõ daquelle governo.
O quinto artigo, naõ obstante o que se determinava
previamente, foi lançado nas seguintes palavras. " Quin-
to, que Garcia igualmente recebesse instrucçoens, para
que Vossa Excellencia fosse informado do resultado das
medidas, que se mandam seguir nos artigos precedentes:
que, depois de manifestar tudo a Yrigoyen, se lhe entre-
guem na forma original, guardando copias, a fim de que
o dicto Yrigoyen possa remetter os originaes a Vossa
Excellencia.
(Seguiam-se as assignaturas, e reconhecimento do No-
tario Publico.)

NÁPOLES.

Decreto, instituindo um Committé de Segurança pu-


blica.
Era virtude da authoridade, que nos foi transferida
por El Rey nosso Augusto Pay e Soberano; considerando
que a mantença da ordem he o uniforme desejo do povo,
e a baze principal daquella uniaõ, sem a qual naõ pôde
existir nem opinião publica nem força publica ; desejan-
do adoptar as mais efficazes medidas, para executar a
nova constituição, proclamada por El Rey, nosso Augus-
to Pay, e por nós; Temos decretado e decretamos o se-
guinte:—
Artigo !.• Nomear-se-ha, para a nossa fiel cidade de
Política 139
Nápoles, e para a sua provincia somente, um Committé
temporário de Segurança Publica. Este Committé será
composto das pessoas abaixo nomeadas; a saber;—
O Inspector Geral e Commandante da Guarda de Segu-
rança; os Conselheiros da Corte Suprema de Justiça,
Nicoláo Lebetta; Joseph Laghezza; Paschal Borrelli;
Gregorio Muscari; Donato Colleta; e Pedro Antônio
Reggiero.
2. Os poderes do Committé saõ:—
(a) Determinar segundo as circumstancias o serviço da
Guarda da Segurança Interna.
(b) Dirigir o emprego dos actuaes agentes de Policia,
para a mantença da tranquillidade publica, até que se
forme um regulamento deffinitivo para a prevenção e re-
pressão dos crimes.
Em todos os procedimentos, relativos aos poderes as-
sim concedidos, o Committé será apoiado pela Guarda de
Segurança Interna, Gens cVArmerie, e Fuzileiros Reaes.
A nenhum destes corpos se permittirâ, que faltem á obe-
diência do que lhes prescrever o Committé.
3. Todos os nossos Ministros Secretários de Estado,
cada uma na sua repartição, saõ encarregados da execu-
ção do presente decreto.
Nápoles 7 de Julho.
(Assignado.) FRANCISCO. Vigario-Geral,

Proclamaçaõ do Vigario-Geral do Reyno, sobre a revolta


de Sicilia.

Fernando I. pela Graça de Deus e a Constituição da


Monarchia, Rey do Reyno das Duas Sicilias, Rey de
Jerusalém, Infante de Hespanha, &c. &c.
140 Politica-
Francisco, Duque de Calábria, Principe Hereditário e
Vigario-Geral.
Palermitanos!—Vos, a quem eu chamo meus filhos,
sois os primeiros a submergir-vos na sediçaõ e desordem,
contra os nobres princípios, que sempre distinguiram
vossa naçaõ. Em um momento esquecestes os deveres
de homens e de cidadãos. Tendes obrado em opposiçaõ
a vossos interesses, e à causa publica. A mais penosa
reflexão para mim he, que, ao momento em que me se-
parei de vós, e antes que se pudesse experimentar o effei-
to de minhas medidas para a diminuição de vossos car-
regos e melhoramento de vossa condição, vos esqueces-
tes de minha constante affeiçaõ, e dos sacrifícios, que
tenho feito por vos. Antes do que acreditar, que me en-
ganava nos signaes de amor e fidelidade, que sempre rne
tendes mostrado, desejo considerar vossos erros como
obra de instigadores. Porém o mal naõ he daquelles, que
naõ tem remédio. Voltai á ordem, ao respeito pelas
leys, e obediência a El Rey. A profunda dor, que tem
afiligido e meu coração, he de algum modo aleviada of-
ferecendo-vos perdaõ. Guardai-vos de persistir nos hor-
rores de revolução; considerai que esses horrores podem
cenduzir-vos aonde naõ desejais ir. Se pensais que algu-
ma cousa he preciso para vossa felicidade, confiai em
mim, que nunca deixei de merecer vossa confiança.
Imitai o exemplo de vossos irmaõs de Nápoles. Elles
vos poderão dizer se as intençoens d'El Rey e as minhas
naõ tem conrespondido com seus desejos. Tenho a
maior anxiedade por averiguar o quehe mais conveniente
â vossa condição, e á segurança e felicidade da naçaõ.
Mas naõ posso dirigir a minha attençaõ para os vossos
interesses, a menos que desterreis de vós as desgraçadas
formas de sediçaõ, que tendes assumido. Deponde as
armas, e naõ me obrigueis a recorrer a medidas, que se-
Política. 141
riam penosas a meus sentimentos. Submettei-vos ás leys
e aos magistrados. Convencei-me de que sois capazes de
apagar completamente vosso crime. Eu vos promêtto
solemnemente, que perdoarei a todos, e naõ inquirirei
nem a causa da revolta, nem os instigadores, se agora pres-
táreis ouvidos â minha vóz, e sentireis remorsos por ha-
vereis retribuído tam mal â minha affeiçaõ.
Nápoles 20 de Julho, 1820.
FRANCISCO. Vigario-Geral.

RÚSSIA.

Nota do Ministério Imperial Russiano, ao Ministro Hes-


panhol Residente.
Petersburgo 20 de Abril, 1820.
A nota, que o Cavalheiro de Zea Bermudez dirigio ao
Ministério de Rússia, em data de 19 de Abril, foi apre-
sentada ao Imperador.
Constantemente animado pelo desejo de ver que se
mantém e florecem junctamente na Hespanha, a prospe-
ridade do Estado e a gloria do Soberano; Sua Majestade
o Imperador naõ pôde ouvir sem profunda afflicçaõ os
acontecimentos, que deram occasiaõ á nota official do
Cavalheiro Zea.
Ainda que estes acontecimentos fossem considerados
somente, como deploráveis conseqüências de erros, que,
desde o aano de 1814, pareciam pressagiar uma catastro-
phe na Península, com tudo nada podia justificar as ag-
gressoens, que entregam os destinos de qualquer paiz a
criais violentas. Demasiadas vezes tem similhantes de-
sordens annunciado dias de lucto aos impérios.
O futuro da Hespanha apparece outra vez debaixo de
142 Política.

lugubre e perturbado estado. Em toda a Europa deve


despertar-se uma bem fundada desinquietaçaõ; porém,
quanto mais sérias saõ estas circumstancias, e quanto
mais capazes saõ de serem fatacs á tranquillidade geral,
de que o mundo apenas tem provado os primeiros fructos,
menos pertence ás potências, que garantem aquelle benefi-
cio universal, o pronunciar separadamente, com precipi-
tação, e segundo vistas limitadas ou exclusivas, um juizo
definitivo, sobre as transacçoena, que marcaram o princi-
pio do mez de Março, em Hespanha.
Naõ duvidando que o Gabinetede Madrid dirigio com-
municaçoens similhantes a todas as Cortes Alliadas, Sua
Majestade Imperial crè facilmente, que toda a Europa
está a ponto de fallar, em voz unanime, ao Governo Hes-
panhol a linguagem da verdade; e consequentemente a
linguagem da amizade, igualmente franca ebem intencio-
nada
No entanto, o ministério Russiano naõ pôde dispensar-
se de ajunctar algumas consideraçoens, sobre os factos,
anteriores ao que o Cavalheiro Zea de Bermudez referlo
em sua nota. Como elle, o Gabinete Imperial invocará
o testemunho daquelles factos; e, citando-os, lhe fará
saber os princípios, que o Imperador se propõem seguir,
em suas relaçoens com S. M. Catholica.
Sacudindo o jugo estrangeiro, que a revolução France-
za lhe tinha imposto, a Hespanha adquirio indelével
titulo á estimação e gratidão de todas as potências Euro-
peas.
A Rússia lhe pagou o tributo destes sentimentos, no
tractado de 8 (20) de Julho, 1312.
Depois da pacificação geral tem a Rússia, de concei-
to com seus aluados, dado mais de uma prova do inte-
resse que toma para com a Hespanha. A conresponden-
cia, que teve lugar entre as diversas Cortes da Europa,
Política. 143
attesta os desejos, que o Imperador sempre formou, de
que a authoridade do Rey se consolidasse em ambos os
hemispherios, pelo meio de puros e generosos princípios,
e com apoio de vigorosas instituiçoens, tornadas ainda
mais vigorosas, pelo modo regular de seu estabelicimen-
to. As instituiçoens, que emanam dos thronos saõ cort-
servativas; mas se nascem entre as perturbaçoens, so-
mente produzem novocháos. Declarando a sua convic-
ção neste ponto, o Imperador somente falia segundo as
liçocns da experiência. Se olhamos para o passado,
grandes exemplos se apresentam á meditação das naçoens
e dos soberanos.
S. M. persiste na sua opinião; os seus desejos naõ tem
mudado; disto dá elle aqui a mais formal segurança.
Pertence agora ao Governo da Península o julgar, se
instituiçoens impostas por um destes actos violentos, fa-
tal patrimônio da revolução, contra que a Hespanha luc-
tou com tanta honra, podem realizar os benefícios , que
ambos os mundos esperam da sabedoria de S. M. Catho-
lica e do patriotismo de seus conselhos.
O caminho, que a Hespanha escolher, para buscar este
importante objecto, as medidas por que procurar destruir
a impressão produzida na Europa pelo acontecimento
do mez de Março, devem determinar a natureza das
relaçoens, que S. M. Imperial conservará com o Gover-
no Hespanhol, e a confiança, que elle sempre desejará
mostrar-lhe.

Memória dirigida a todos os Ministros da Rússia, so-


bre os negócios da Hespanha.

OCavalleiro de Zea Bermudez apresentou ao Gabinete


144 Política.
Imperial anota annexa, relativa aos acontecimentos,que
acabam de succeder na Península, e de que ja estávamos
informados, pelos officios de nossos agentes nas Cortes
Estrangeiras.
Mr. de Zea, neste documento, se limita a informar-
nos, que a Constituição, promulgada pelas Cortes no an-
no de 1812, foi aceita por El Rey, e expressa o desejo
de saber como o Imperador olha para esta mudança de
Governo.
Se se considerar a distancia, que nos separa da Hespa-
nha, e dos listados, que melhor podem pezar com madu-
reza a natureza dos desastres, que a ameaçam, prompta-
mente se reconhecerá, que a posição do Ministério Im-
perial, a respeito do representante da naçaõ Hespanhola,
he difficultosa e delicada.
A revolução da Península fixa a attençaõ dos dous he-
mispherios; os interesses, que vai a dedidir, saõ os inte-
resses do Universo; e se jamais o Imperador desejou,
que as opinioens de seus aluados regulassem a sua delle,
certamente foi na occasiaõ, em que a nota do Cavalhei-
ro de Zea impo/. aS. M. Imperial a obrigação de pronun-
ciar sobre um acontecimento, que involve, talvez, o futu-
ro destino de todas as naçoens civilizadas. Existia, po-
rém, esta obrigação ; porque, hoje em dia, toda a maté-
ria duvidosa vem a ser instrumento da melevolencia.
Portanto, a necessidade de responder a Mr. Zea éra
evidente; mas nesta importante conjunetura parecêo na-
tural, que, antes de pronunciar uma opinião, o Impera-
dor considerasse o objecto a que se propuzéram as Po-
tências Aluadas, nas suas relaçoens com Hespanha; que
consultasse ae vista», que ellas tinham expressado á mes-
ma Potência; e que tomasse por sua guia os princípios
da política Europea. Isto éra o que S. M. Imperial éra
obrigado a fazer; isto he o que se fez.
Política. 145
Desde o anno de 1812, mais de um documento diplo-
mático attesta a generosa solicitude, que as diversas
Cortes da Europa tem constantemente manifestado a fa-
vor da Hespanha. Ellas applaudlram a nobre perseve-
rança, com que seu intrépido povoresistio o jugo estran-
geiro. Fizeram honra a sua sabedoria, quando os Hes-
panhoes se bandeáram com um throno constitucional,
para os mais charos interesses de sua pátria; que eram
os interesses de sua independência. Finalmente, desde
o período em que a Providencia restaurou Fernando VII
ao seu throno povo, nunca deixaram de reconhecer, que
instituiçoens sólidas eram somente quem podia segurar
em suas bazes a antiga monarchia Hespanhola.
Os soberanos Alliados fizeram mais. No decurso de
longas conferências, relativas ás Hifferenças no Rio-da-
Prata, e á pacificação das colônias, fizeram com que
fosse suficientemente entendido, que estas instituiçoens
deixariam de ser um meio de obter paz e felicidade, se,
em vez de serem outorgadas pela bondade como conces-
são voluntária, fossem adoptadas pela fraqueza, como
único recurso para a salvação.
Examinemos, por outra parte, as grandes transacço-
ens, que estabeleceram a Aliiança Europea. Qual he o
objecto dos ajustes, que se renovaram aos (3) 15 de No-
vembro, de 1818?
Os Monarchas Alliados acabavam de obliterar os últi-
mos traços da revolução da Fiança; mas aquella revolu-
ção parecia prestes a produzir novas calamidades.
Portanto a obrigação dos monarchas éra, e foi o seu
desígnio, prevenir que a mesma tormenta arrebentasse do
mesmo horizonte pela terceira vez, e dessolassea Europa.
Com tudo como se naõ fossem sufflcientes os receios,
que entaõ excitava e ainda excita o estado da França,
V o i . XXV. N.« 147. T
146 Política.

como se os governos e naçoens só entretivessem leves


duvidas somente a respeito de sua futura condição, foi
necessário que o gênio máo escolhesse novo theatro, e
que a Hespanha, em seu turno, fosse offerecida como ter-
rível sacrifício. A revolução, portanto, mudou o seu
terreno, mas os deveres dos monarchas naõ podem ter mu-
dado a sua natureza: e o poder da insurrecçaõ naõ he
menos formidável, nem menos perigoso, do que teria sido
em França.
Em uniformidade, por tanto, com seus alliados, S.
M. naõ pôde deixar de desejar ver, que se conceda á Pe-
nínsula, assim como a suas provincias transmarinas, um
governo, que o Imperador considera, como o único que
pôde justificar alguma esperança, neste século de cala-
midades. Mas em virtude de seus ajustes de (3) 15 de
Novembro 1818, Sua Majestade he obrigado a marcar,
com a mais estrenua reprovação, as medidas revolucio-
nárias, postas em acçaõ, para dar novas instituiçoens
à Hespanha. Tal he a duplicada idéa, que se acha desen-
volvida na resposta annexa, que o gabinete de Rússia
dêo ao Cavalheiro Zea, por ordem de Sua Majestade Im-
perial. O Imperador naõ duvida, que seus augustos al-
liados approvarão o seu contheudo, e talvez tenham ja
dirigido sentimentos análogos á Corte de Madrid. De
facto os mesmos desejos tem talvez inspirado a mesma
linguagem: e convencidos, como Sua Majestade, de
que o crime deve sempre produzir fructos perniciosos,
sem duvida tem elles deplorado, como o Imperador, o
ultragem que recentemente manchou os annaes da Hes-
panha. Repetimos; este ultragem he deplorável. He
deplorável para a Península; he deplorável para a Euro-
pa; e a naçaõ Hespanhola deve agora dar o exemplo de
um facto expiatório, ao povo dos dous hemispherios.
Em quanto isto se naõ fizer, o infeliz objecto de sua des-
Política. 147
inquietação somente os pode fazer temer o contagio de
suas calamidades. E com tudo, no meio destes elemen-
tos de desastre, e quando tantos motivos se combinam
para aíiligir os amigos reaes do bem das naçoens, ainda
se pôde olhar para melhor futuro. ,; Haverá alguma
medida sabia e redemptora, cujo effeito seja recon-
ciliar a Hespanha com sigo mesma, e com as outras po-
tências da Europa ?
Naõ nos attrevemos a affirmallo; porque a experiência
nos tem ensinado a considerar quasi sempre como illu-
saõ, a esperança de um feliz acontecimento. Mas, se
podemos confiamos cálculos, que o interesse pessoal pa-
rece indicar; se nos he permettido presumir, que as
Cortes consultarão o interesse de sua própria conservação,
pode-se crer, que ellas se apressarão a extirpar, por uma
medida solemne, tudo quanto he culpavel, nas circum-
stancias, que acompanharam a mudança de administra-
ção na Hespanha. Nisto se identificam os interesses
das Cortes com os interesses da Europa. O soldado des-
encaminhado, que os protegeo, pôde amanhaã atacàl-
los: e o seu primeiro dever para com seu monarcha, pa-
ra com sua pátria, e para com sigo mesmos parece ser,
provar que nunca consentirão em legalizara insurreição.
Estas esperanças naõ saõ destituídas de algum funda-
mento. O Imperador, porém, está bem longe de as
nutrir; e se admitte a possibilidade de um resultado tam
útil, o faria depender da unanimidade, que se manifestar
na opinião das principaes potências da Europa, quanto
ao acto por que os representantes do povo Hespanhol
devem assignalar a abertura de suas*deliberaçoens. Esta
unanimidade, sempre poderosa, quando toma o charac-
ter de um acto irrevogável, talvez leve com sigo a con-
vicção aos espíritos dos mais eminentes membros do go-
verno de Sua Majestade Catholica; e as Cortes aluadas
148 Política.
parece que teriam fáceis meios de imprimir em sua lin-
guagem tam respeitável uniformidade.
Os seus ministros na França, tem até aqui tractado,
em seu nome, com um plenipotenciario da Corte de Ma-
drid. <;Naõ podem elles agora representar-lhes em com-
mum, observaçoens, cujo resumo fosse o seguinte, e que
lembrasse ao Governo Hespanhol o comportamento as-
sim como os princípios políticos dos Monarchas Allia-
dos?
" Os Monarchas," diriam os cinco Ministros, " nunca
cessaram de desejar a prosperidade da Hespanha. Sem-
pre a desejarão. Tem desejado, que, na Europa assim
como na America, instituiçoens conformes aos progres-
sos da civilização, e ás necessidade do século, procurem
a todos os Hespanhoes longos annos de paz e de felicida-
de. Desejam o mesmo neste momento. Tem desejado
que todas estas instituiçoens sejam uma bençaõ real, pe-
la maneira legal com que forem introduzidas. Agora
desejam o mesmo.
" Esta ultima consideração dará a conhecer aos Minis-
tros de Sua Majestade Catholica, com que sentimentos
de afflicçaõ e dôr os dictos Monarchas souberam dos
acontecimentos de 8 de Março e dos que o precederam.
Na opinião dos Monarchas Alliados, a salvação da Hes-
panha, assim como a felicidade da Europa, requerem
que este crime seja desapprovado, esta mancha apagada,
este máo exemplo exterminado. A honra de tal repara-
ção, parece que depende das Cortes. Deplorem, pois,
reprovem estrenuamente os meios empregados para esta-
belecer o novo modo de Governo no seu paiz; e conso-
lidando uma administração, sabiamente constitucional, ad-
optem as mais rigorosas leys contra a sediçaõ e a revolta."
" Entaõ, e só entaõ, poderão os Gabinetes Alliados
manter relaçoens amigáveis com a Hespanha."
Política. 149
Estas observaçoens, urgidas em commum pelos repre-
sentantes das cinco Cortes demonstrarão daqui em dian-
te ao Ministério Hespanhol, o comportamento que os
Governos Alliados observarão, no caso em que as conse-
qüências do 8 de Março perpetuem na Hespanha a per-
turbação e a anarchia. Se estes saudáveis conselhos fo-
rem ouvidos; se as Cortes offerecerem a seu Rey, em
nome da naçaõ, um penhor de obediência; se alcança-
rem estabelecer, sobre bazes duráveis, a tranquillidade
da Hespanha, e a paz da America Meredional, a revolu-
ção será desfeita, no momento em que julgava ter obtido
um triumpho.
Se, pelo contrario, se realizarem receios, talvez dema-
siadamente racionaveis, ao menos haverão as cinco Cor-
tes desempenhado um dever sagrado: ao menos uma
nova occurrencia terá desenvolvido os princípios, indica-
do o objecto, e manifestado o fim da aliiança Europea.
O Imperador espera as respostas das Cortes de Vienna,
Londres, Berlin e Paris, ás communicaçoens, que seus
ministros lhes tem dirigido sobre esta matéria. Elle as
informa de que a presente Memória he a instrucçaõ, que
mandou expedir a todos os seus ministros sobre os negó-
cios da Hespanha.
( 148 ) [150]

COMMERCIO E ARTES,

PORTUGAL.

Edictal da Juncta do Commercio em Lisboa, sobre os di-


reitos dos navios Portuguezes na Inglaterra.

Constando na Real Juncta do Commercio.Agricultura,


Fabricas, e Navegação, por officio do cônsul desta naçaõ
Portugueza em Bristol, Antônio Baraõ de Mascaranhas,
datado em três de Abril ultimo, que desde a convenção
de 1.812 entre o nosso Governo, e o Britannico até 1818,
tem os navios Portuguezes pago ali os direitos de porto,
como os estrangeiros, estando por isso o Governo Britan-
nico na obrigação de pagar as difierenças, e ficarem os
navios Portuguezes no mesmo pé que os Navios Britan-
nicos: manda o referido tribunal participar aos proprie-
tários de navios, que estiverem nas dietas circumstan-
cias, que podem mandar receber as quantias que lhes
competirem, dirigindo-se para isso ao mencionado cônsul,
que por serviço da naçaõ se offerece gratuitamente a en-
carregar-se dos documentos dos interessados, e procurar-
lhes o seu embolço.
E para que chegue á noticia de todos, se affixou o pre-
sente. Lisboa 27 de Junho de 1820.

(Assignado) J O Z E A C C U R S I O DAS NEVES.


Commercio e Artes. 151

Edictal, pela Juncta de Commercio em Lisboa, sobre as


indemnizaçoens lnglezas, pelos navios Caveira, e Se-
nhor da Cana-Verde.

A Real Juncta do Commercio, Agricultura, Fabricas, e


Navegação, em conseqüência do Aviso Regio de 17 do
corrente mez, expedido pela Secretaria d'Estado dos Ne-
gócios Estrangeiros, e da guerra, manda annunciar aos
proprietários, e carregadores do Brigue Caveira, tomado
pela Fragata Ingleza Inconstante, na sua viagem da Bahia
para o Cabo Lopo Gonçalves; como também aos propri-
etários, e carregadores do Navio Senhor da Cana Verde,
tomado pela Fragata Ulysses na sua viagem de Pernam-
buco para S. Thomaz, que na commissaõ mixta estabele-
cida na Corte de Londres, em conseqüência do Artigo
IX da Convenção addicional ao tractado de 22 de Janei-
ro de 1815, se julgaram illegaes as prezas dos referidos
Navios, adjudicando-se aos donos do primeiro a somma
de 12:277 lib. est. 15 s. 3 d. por perdas, damnos, e juros
até 31 de Maio do corrente anno, e aos do segundo a
somma de 5:708 lib. 13 s. 1 d. para sua indemnizaçaõ;
de cujas quantias poderão ser embolsados naquella Corte,
dirigindo-se a seus procuradores, ou correspondentes.
Epara que os interessados possam ter conhecimento do
referido se afixa o presente. Lisboa 21 de Junho de
1820.
JOZE A C C U R S I O DAS N E V E S .

Edictal, pela Juncta do Commercio em Lisboa, sobre as


indemnizaçoens Francezas.

Todos os Portuguezes, vassallos destes Reynos, que


forem interessados nos Navios e cargas destruídos e quei-
152 Commercio e Artes.
mados nos mezes de Julho, Agosto, e Septembro de
1805 pela esquadra Franceza do Vice-Almiraute d'Alle-
mand, devendo authorizar uma pessoa da sua confiança
na Corte de Paris, a fim de receber o que lhes tocar, no
rateio dos juros do Capital, applicado para o pagamento
das duas reclamaçoens admittidas pela convenção de
25 de Abril de 1818, podem dirigir-se á Secretaria da
Real Juncta do Commercio, Agricultura, Fabricas, e Na-
vegação onde se lhe faraõ as competentes participaçoens a
este respeito, em conseqüência das ordens de Sua Majes-
tade. Os referidos Navios queimados e destruidos saõ
os seguintes: Pastorinha, Capitão Joaquim da Rocha
Marques; Correio do Mar, Capitão Euzebio de Aguiar;
S. Joaõ Baptista, Capitão Jozé Gomes; Hercules, Capi-
tão Luiz Franco; Potsdam, Cap. Idolkerts Gerts; Wel-
vaarem, Capitão G. Éden; Diana, Capitão Ulrieh Jan-
sen; Freundechaft, Capitão Joaquim Christ Wodruk;
Jeune Marcus, Capitão H. Eleven; íris, Capitão Pedro
Thanssen ; N. Senhora do Campo, Capitão Jozé de Cam-
pos; Hrohn Princessin Maria, Capitão Lars Grenager.
E para que chegue á noticia de todos se mandou affi-
xar o presente edictal. Lisboa 19 de Junho de 1820.
JOZE ACCURSIO DAS NEVES.
( 153 )
Preços Correntes dos principaes Productos do Brazil.
LONDRES, 25 de Agosto, de 1820

Qualidade Direitos.
Gêneros.

.Bahia por lb
í Capitania
I ceara . . . . . . 8s. 7p. por 100 l b .
Algodam . . < Maranham . . . em navio Portuguez
1 Minas novas . ou Inglez.
f Para
^" Pernambuco •
Anil.... . . . . R i o 5 por lb.
Redondo . . .
Assucar .
Í Batido
Mascavado . Livre de direitos por
exportação.
Arroz Brazil
Cac&o Pará
Caffe Rio
Cebo Rio da Prata 3s. 2p. por 1121b.
Chifres. Rio Gande por 123 5s. por 1121b.
,A
Rio da Prata, pilha < B
t c
10 p. por couro
9 i Rio Grande ] B
O
O
Pernambuco, salgados
• Rio Grande de cavallo
Ipecacuanba Brazil por lb. 4B.
2s.
I por 1121b.
Óleo de cupaiba
Orucu
P&o Amarelo. Brazil-. } direitos pagos pelo
Pão Brazil . . . . Pernambuco J comprador.
Salsa Parrilha. Pará } direitos pagos pelo
_ (em rolo.... f comprador,livre por
Ta co
l em folha... ' exportação
apioca . . . . . . . B r a z i l . . . . 6* porlb.

Câmbios com as seguintes praças.


Rio de Janeiro 54 Hamburgo 37 6
Lisboa 49 Cadiz
Porto 493 Gibraltar 30
Paris . 25 70 Gênova 43J
A ms ter dam 12 6 Malta 45

Espécie Segu ros.


Ouro em barra £ 3 17 10* Brazil. Hida 25s. Volta 30s
Peças de 6400 reis 3 14 6 Lisboa 15s. 20s
Dobroens Hespa- Porto 20s
nhoes por Madeira 15s. 20s
Pezos.. ..dictos onça. Açores 20s.
Prata em barra Rio da Prata 42s. 42s
Bengala 60s 62s

VOL. XXV. N°. 147


{ 154 )

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artes mechanicas e manufacturas. Por W. A. CadelI,
Esc. F. R. S.
156 Literatura e Sciencias.

PORTUGAL.

Saio á luz: Historia de Portugal. Neste Epitome,


que merece a estima do publico, diz o Edictor da Gaze-
ta, se descreve concisa, mas elegantemente, tudo o me-
morável, que os Portuguezes tem obrado na Europa,
África, Ásia e America, desde a entrada dos Carthagine-
zes na Península, 547 annos antes do nascimento de
Christo até o reynado do Senhor D. Joaõ VI. Em 1 vol.
em 8 ro . preço 480 reis.

Lisboa 2 de Julho.
No dia 24 de Junho celebrou a Academia Real das Sci-
encias uma sessaõ publica, a que assistio um grande e lu-
zido concurso. Abrio a sesssaõ o Illustrissimo e Excel-
lentissimo Marquez de Borba,- Vice-Presidente, com um
breve discurso, a que se seguio outro do Secretario, Sebas-
tião Francisco de Mendo Trigozo, dando conta das trans-
acçoens e trabalhos acadêmicos no anno decorrido. Se-
guiram-se as leituras das seguintes memórias:—" sobre o
encanamento do Rio Vouga e suas utilidades," pelo cor-
respondente Joaquim Baptista;—" sobre a mina de fer-
ro novamente descoberta em Ytaubira do Campo na Ca-
pitania de Minas-Geraes," pelo correspondente Roque
Schuch;—" sobre a resolução das equaçoens de grãos
superiores ao quarto," pelo sócio Francisco Simõens
Margiocho ;—*« sobre a vida e escriptos de Fr. Bernardo
de Britto," pelo correspondente Fr. Fortunato de S. Boa-
ventura: " memórias acerca da vida do Cardeal D. Jorge
da Costa, pelo sócio Francisco Nunes Franklin.—Seguio-
se um discurso histórico, em que o actual Secretario da
Instituição Vaccinica, Jozé Maria Soares, deo conta dos
Literatura e Sciencias. 157
trabalhos da mesma Instituição no anno próximo passa-
do; e rematou a sessaõ com a abertura do bilhete, que
acompanhava a memória premiada, sobre os Apparelhos
distilatorios, que se achou ser do sócio Antônio de Araú-
jo Travassos, e com a leitura e distribuição do novo pro-
gramma para 1822.
Publicou a Academia no decurso deste anno as obras se-
guintes :—Elementos de Geometria^ por Francisco Ville-
la Barbosa, 2." ediçaõ 1. V. em 8.°—Elementos de Hygi-
ene, por Francisco de Mello Franco; 2." ediçaõ, 1. V. em
4.°—Dissertaçoens Chronologicas e criticas sobre a Histo-
ria e Jurisprudência de Portugal, por Joaõ Pedro Ribeiro,
tomo IV., parte l.a em 4.°—Indece Chronologico remis-
sivo da Legislação Portugueza, pelo mesmo; tomo VI.
parte 1.*, em 4.°—Tractado de Trignometria rectilinea e
esférica, por Mattheus Valente do Couto, em 4.°—Efe-
mérides Náuticas para 1821, calculadas por Antônio Di-
niz do Couto Valente, 1. V. em 4.°—Princípios de Musi-
ca, por Rodrigo Ferreira da Costa; parte 1.*, 1. V. em
4.°—Historia e Memórias da Academia Real das Scien-
cias, Volume 6.", parte 2.*, em folio.

DESCUBERTA DO CONTINENTE ANTÁRTICO.

Extracto das gazetas lnglezas.


Esta importante descuberta, que deve produzir incal-
culáveis vantagens para o nosso commercio no mar do
Sul, foi feita o anno passado por Mr. Smith, Mestre do
navio William, de Bligth, em Northumberland. Os nos-
sos traficantes no mar do Sul, que durante as hostilida-
des entre este paiz e a Hespanha, se achavam sugeitos ás
maiores difficuldades e privaçoens, ficarão agora indepen-
158 Literatura e Sciencias.
dentes da Hespanha ou outra qualquer potência, que pos-
sua a America Meredional. Mr. Smith correo por 200
ôu 300 milhas ao longo deste continente, que forma gran-
des bahias, cheias de baleias de espermacette. As cartas
e sondas, que o descubridor fez, estaõ nas maõs de nos-
so Governo. A seguinte breve conta da descuberta, foi
aqui publicada.
Mr. Smith, Mestre do William, de Blighth, em
Northumberland, e traficante entre o Rio-da-Prata e
Chile, trabalhando por facilitar a sua passagem em torno
do Cabo de'Horne, o anno passado, correo a maior latitude
do que he usual em taes viagens; e na latitude 62." 30'. e
Long. Oeste 60, descubrio terra. Como as circumstan-
cias naõ admittiam exame circumstanciado, elle defferio
isto até á sua volta de Buenos-Ayres; e entaõ fez outras
observaçoens, que o convenceram da importância desta
descuberta. Fazendo saber isto em Buenos-Ayres, des-
pertou-se a especulação, e os Americanos-Unidos, que
se achavam naquelle lugar, anxiosamente desejaram ob-
ter todas as informaçoens necessárias, para se aproveita-
rem da descuberta, que viram ser própria a dar vastas
vantagens a um povo commercial. O Capitão Smith,
porém, éra demasiado Inglez, para apoiar suas especula-
çoens, dando-lhes a conhecer de todo o seu segredo, que
tanto lhes convinha possuir; e determinou-se a quea sua
pátria somente gozasse as vantagens de sua descuberta;
e voltando para Valparaiso, em Fevereiro proxime passa-
do, empregou em averiguar a descuberta o mais tempo,
que foi compatível com o seu objecto principal, que éra
uma viagem a salvamento, e bem suecedida. Correo em
rumo de Oeste ao longo de costas, que ou eram um con-
tinente, ou numerosas ilhas, por 200 ou 300 milhas, for-
mando grandes bahias, abundantes de baleias de esper-
macette, e outros animaesmarinhos. Tomou muitas son-
Literatura e Sciencias. 159
das, e rumos, cartas, e pespectivas das costas; e, em
uma palavra, fez tudo quanto o mais experimentado na-
vegante, despachado de propósito para fazer a descrip-
çaõ das costas, poderia fazer. Chegou a desembarcar, e
da maneira usual tomou posse da terra para seu Sobera-
no, e deo á sua acquisiçaõ o nome de New-South-Shet-
land. O clima éra temperado, a costa montanhosa, ap-
parentemente deserta, porém naõ destituída de vegeta-
ção: porque em muitos lugares se viam faias e pinheiros:
em uma palavra, o paiz tinha as mesmas apparencias da
terra nas costas de Norwega. Depois de se ter satisfeito
de todas as particularidades, que o tempo e circumstan-
cias lhe permittiam examinar, deo á vela para o Norte,
em seguimento de sua viagem. Chegando a Valparaiso,
communicou a sua descuberta ao Capitão Shireff, do na-
vio de S. M. Andromache, que ali se achava. O Capitão
Shireff, conheceo immediatamente a importância da com-
municaçaõ, e naõ perdeo tempo em fazer os arranjamen-
tos necessários, para proseguir a descuberta; e despa-
chou incontenente o William, com ofFiciaes da Andro-
mache, e neste ponto deixou a expedição a ultima carta
recebida de Chile; aonde havia as maiores esperanças
das vantagens, que daqui resultariam ; e se a nossa infor-
mação he exacta, o Governo recebeo uma narrativa cir-
cumstanciada deste acontecimento. Tomando uma
apressada vista das chartas do oceano Atlântico e Pacifi-
co, se verá que, posto que o Capitão Cook penetrou a
latitude muito mais alta, e consequentemente tirou a sua
conclusão de naõ haver observando mais nada do que
grandes massas de gelo, ver-se-ha também, que o seu
merediano éra 46 gráos mais a Oeste de New-South-
Shetland; deixando vasto espaço por explorar, no paral-
lelo de 62; entre este e a terra de Sandwich, na longitude
de cerca 28 Oeste. Outra vez chegou a 67, ou cerca dis-
160 Literatura e Sciencias.
so; porém na longitude de 137, a 147 Oeste. Perouse
naõ subio a mais do que 60.° 30. ; Van Couver a cerca de
55.°; outros navegantes passando o estreito de Magalha-
ens e de Le Maire; e a maior parte delles passando o
mais juncto que podiam do Cabo de Horne, a fim de,
como suppunham, abreviar a passagem para o mar Paci-
fico; estas circumstancias explicam razoavelmente, como
esta importante descuberta se demorou para tam tarde.

ECONOMIA POLÍTICA DE SIMONDE

(Continuada de p. 57)
CAPITULO XIII
Dos tractados de commercio.

Desde que por infelicidade do commercio e da indus-


tria, assim como do consumidor, todos os Governos da
Europa entraram na mania de querer favorecer os nego-
ciantes; cessando o principal estudo dos Estadistas de se
dirigir para os meios d* augmentar a força da naçaõ e a
felicidade dos cidadãos, limitou-se a achar os meios de
comprar barato e vender caro. Emprehendêram-se guerras
de commercio para alcançar por meio dellas tractados
de commercio; prodigalizou-se o sangue eosthesouros
das naçoens, para que alguns particulares achassem mais
lucro em suas especulaçoens ; tem-se visto grandes per-
sonagens, Embaixadores respeitáveis, representar tal pa-
pel, que os bons negociantes olhariam como muito abaixo
de si; isto he, requestar seus frequezes para os indu-
zir a comprar de sua naçaõ ; e por uma conseqüência
deste mesmo espirito do nosso século, que aspira sempre
ao que he extraordinário, achou-se naõ sei que grandeza
Literatura e Sciencias. 161
na attençaõ minuciosa, que os Governos prestavam a ba-
gatelas.
Naõ quero com isto dizer, que a legislação commer-
cial d' uma naçaõ naõ possa vir a ser prejudicial a seus
vizinhos; principalmente quando estes tem chegado a um
gráo de opulencia, em que se pudessem entregar ao
commercio exterior. Como o commercio livre he vanta-
joso a ambas as pessoas, que contractam, todas as vezes
que se lhes impede contractar, se faz mal a uma e a ou-
tra; todos os regulamentos das naçoens Europeas, que
saõ desvantajosos a seus subditos, o saõ também pela
reacçaõ, aos que negociam com elles. Por exemplo
quando os Hespanhoes excluíram as naçoens Europeas
de suas colônias na America, naõ somente fizeram mal
a seus colonos e a si mesmos; fizéram-o também aos
fabricantes estrangeiros, que haveriam trabalhado para
elles com mais actividade, e por sommas mais conside-
ráveis do que o fazem hoje em dia.
Este lucro, que se lhe tira, naõ he compensado pelo lu-
cro superior, que fazem os contrabandistas, no seu com-
mercio furtivo. Mas, além de que se pôde duvidar, se
estes inconvenientes saõ iguaes aos que traz com sigo uma
guerra de commercio, naõ he para sustentar uma preten-
çaõ tam racionavel, como he a liberdade do commercio
que se tem dado batalhas, ou negociado tractados ; he
para extorquir de outros povos vantagens desarrazoadas,
e muitas vezes onerosas ao que as concede, eao mesmo
tempo inúteis aos que as obtém.
Os negociadores, que concluíram tractados de com-
mercio, naõ se propuzéram todos ao mesmo fim: uns
procuraram a seus negociantes um monopólio, no paiz
com quem traficam; outros, sem considerar tanto os
interesses dos negociantes, quizêram assegurar-se da fre-
VOL. XXV. No. 147 x
162 Literatura e Sciencias.
quezia dos paizes, com quem se suppunha favorável a
balança do commercio ; outros em fim mais racionaveis
naõ se propuzéram a outra cousa mais do que abrir às
producçoens de seu paiz um mercado livre e extenso, em
um paiz vizinho, para multiplicar as trocas e animar a
industria. Examinemos o effeito destas três sortes de
tractados.
Para obter aos negociantes nacionaes o monopólio de
um paiz estrangeiro, naõ se adiantará até o ponto de
exigir que a naçaõ, com quem se tracta, exclua de seus
mercados todo o outro negociante: mas tem-se obtido, e
pôde ainda obter-se alguma izençaõ dos primeiros direi-
tos, que pagam todas as outras naçoens, ou que sobre-
carreguem as outras naçoens de direitos superiores aos
que paga a mais favorecida. He assim que os negocian-
tes Suissos obtiveram desde o anno de 1571, pelo tracta-
do do Corpo Helvetico com Carlos IX, serem izentos de
todos os direitos da alfândega do Rey em todas ou quasi
todas as mercadorias com que commerceiam: he também
assim que os Portuguezes obtiveram pelo seu tractado
de 1703 com Inglaterra, que examinaremos depois em
outro sentido, que os vinhos de França pagariam sempre
na sua entrada em Inglaterra, um terço mais que os vi*
nhos de Portugal.
Tal estipulaçaõ desarranja o equilíbrio do commercio,
e estabelece uma espécie de monopólio; tira a uns o que
dá de lucro a outros; etudo considerado causa mais perda
que proveito.
Se a naçaõ favorecida he absolutamente libertada do
imposto que pagam as outras, como succedia aos Suis-
sos por sua capitulação com a França, o fisco perde to-
dos impostos, que pudera ter recebido do commercio
desta naçaõ; o preço das mercadorias Suissas se acham
por isso menos subidos, que os preços dessas mesmas
Literatura e Sciencias. 163
mercadorias importadas pelos Alemaens ou outros estra-
geiros; podendo os primeiros cedellas ao consumidor
a melhor mercado; naõ porque abaixassem o seu preço
intrínseco ; porque nem o seu numeio, nem seus capitães
eram proporcionados ao numero dos consumidores, e as-
sim naõ podiam elles sós bastar a servillos. Obrigavam
portanto os outros negociantes a abater alguma cousa de
seu preço, ao mesmo tempo que elles se elevavam ao
seu nível: tudo quanto faziam pagar de mais do preço
intrínseco, aos Francezes, pelas mercadorias que lhes
vendiam, éra para estes uma perda; porque éra um lu-
cro para o monopolista, de que se aproveitavam os nego-
ciantes Suissos, em vez de ir para o Fisco.
Naõ ha duvida que os negociantes Suissos ganhavam
com uma izençaõ, que augmentava seus lucros; mas para
saber se a sua naçaõ tinha nisso alguma vantagem, he
preciso conhecer qual éra nessa epocha o estado de seus
capitães, e estar seguro de que ja entaõ ella tivesse su-
perabundantes para a sua circulação interior; de outra
maneira tirando para um commercio estrangeiro mais
fundos doque teria feito sem este favor, podia-se fazer
maior mal á naçaõ em geral, doque se faria bem a alguns
particulares; porque se podia fazer com que as fabricas
e definhassem, e se arruinasse a agricultura do paiz,
aonde o capital Suisso naõ mantinha senaõ obreiros Suis-
sos, para pôr em actividade, por uma circulação mais
lenta, menor numero de obreiros, ametade Suissos ame-
tade Francezes.
A vantagem, que o tractado, negociado por Mr. Me-
theuen, deo aos Portuguezes sobre os Inglezes, he de
outra natureza. Naõ sao os mercadores Portuguezes que
saõ mais favorecidos, mas sim as mercadorias de seu
paiz; de maneira que, em vez de attrahir os seus capitães
para fora de Portugal, fixam-se nelle em maior numero,
164 Literatura e Sciencias.

favorecendo ali a cultura da vinha. O ódio dos Inglezes


contra os Francezes lhes tem feito passar além da promes-
sa, que tinham feito a Portugal.; porque, reunindo todas as
imposiçoens sobre os vinhos, o de Portugal, que entra no
porto de Londres em um navio Inglez, apenas ali paga me-
tade do que paga o vinho Francez; e estes impostos saõ tam
exorbitantes, que ja naõ deixam escolha ao consumidor,
entre os vinhos dos dous paizes: o imposto somente he
tam superior ao preço da compra e aos gastos do porto
de ume outro vinho, que estas ultimas circumstancias saõ
as que menos influem na venda. Os Inglezes, para favorecer
Portugal, se obrigai am a pagar a preço mais subido, um
vinho que, em geral, estimam menos, e a transportallo
para sua terra coin maiores despezas; antes do que ad-
mittir os que lá se lhe levam. Toda a perca, que a In-
glaterra faz a este respeito, naõ cede em proveito de Por-
tugal ; a única vantagem real, que a este resulta do trac-
tado, he que, fazendo a necessidade da Inglaterra levan-
tar o preço intrínseco, os seus negociantes tiram dos
Inglezes o lucro do monopolista; e acham, ou pelo me-
nos podem achar, maior lucro na cultura das vinhas, do
que na desenvoluçaõ de outro qualquer ramo de indus-
tria.
Com tudo, este tractado, que Mç. Methuen concluio
com Portugal, em 1703, he considerado por algumas pes-
soas comofructo da mais admirável política, da parte da
Inglaterra, a qual obteve nesta occasiaõ, que se revogasse
a prohibiçaõ de seus panos, e que fossem admittidos em
Portugal, no mesmo pé que os das outras naçoens. Os
que assim julgam, naõ apreciam no commercio, senaõ a
vantagem de tractar com naçoens, que paguem em ouro
ou prata, e cujo balanço he, a seus olhos, sempre favorá-
vel; tal he Portugal, que naõ tem por principal mercado-
ria senaõ os metaes preciosos que tira do Brazil. Seja
Literatura e Sciencias. 165
qual for o preço porque se obtenha tam boa frequezia,
julgou-se que se naõ devia regatear com ella.
Entretanto, de todas as vantagens, que se podem pro-
curar ao commercio,a mais futil ea mais vaã, he a de
vender a uma naçaõ, que paga em numerário, e naõ com
outras mercadorias. Creio ter sufficientemente demon-
strado, no primeiro livro desta obra, que o ouro naõ éra
o que constituía a riqueza real d'uma naçaõ ; mas que éra
somente o signal desta riqueza; signal por meio do qual
se transportava de uma maõ para outra, e se punha em
actividade ; que se se pudesse amontuar em um só paiz
todo o numerário do Universo, e impedir que dali saisse,
este numerário o naõ faria mais rico; que se, para o ob-
ter, se tivesse trocado pela riqueza real, ou pelos objec-
tos, que servem ao consumo dos homens, o paiz se em-
pobreceria muito com similhante troca, pois o valor do
numerário se naõ proporciona nem a seu pezo, nem a
sua quantidade; mas ao valor da riqueza mobiliária, que
faz circular; que umanaçaõ, que fosse privada da rique-
za real, naõ teria senaõ o seu signal, se naõ pudesse tro-
car este signal nas naçoens vizinhas, veria cessar a sua
industria e os seus meios de existir ; que, em fim, o nu-
merário naõ tinha valor, senaõ em quanto se dispunha
delle; pois naõ se pôde guardar sem perda, nem empre-
gar em seu devido uso.
Temos visto igualmente, que por uma conseqüência
necessária da avidez de toda a pessoa que detém o nume-
rário, para o naõ deixar estar ocioso em suas maõs, nun-
ca havia em paiz algum mais numerário do quea quanti-
dade necessária para facilitar a circulação de sua riqueza,
tanto mais que esta quantidade naõ muda senaõ imper-
ceptivelmente; ainda qnando a riqueza total muda mui-
to, deve tornar a sair todos os annos de cada paiz, pouco
mais ou menos, tanto numerário quanto entrar; de sorte
166 Literatura e Sciencias

que se naõ se tracta senaõ do numerário na balança do


commercio, ella deve sempre ser igual, exportando cada
paiz, com mui pouca differença, tanto quanto importa;
donde resulta, que, se se importa muito de certo paiz, ge
exportará muito para os outros. Se, por exemplo, a In-
glaterra recebe, como se tem pretendido, 50.000 libras
esterlinas cada semana, em ouro, pelo paquete de Lis-
boa, deve exportar cada semana 50.000 libras esterli-
nas para ás índias, America, Levante, Alemanha, Itália
e França. Com effeito, como se tem dado o nome de ba-
lança favorável ao resultado de um commercio, que pro-
duz o retorno em numerário, e de balança desfavorável,
a do commercio, que occasiona a exportação de espécie,
os que se tem occupado com este futil calculo constante-
mente declararam na Inglaterra, que a balança de seu
commercio com Portugal éra favorável, e a do commer-
cio com todas as outras naçoens, desfavorável.* Notare-
mos de passagem, que estes cálculos saõ tam inexactos
como inúteis : os Inglezes tem sempre crido, que a ba-
lança éra contra elles no seu commercio com a Fiança, e
os Francezes naõ viram com melhores olhos o seu com-
mercio com a Inglaterra. Segundo os princípios do sys-
tema mercantil, porém, he impossível, que ambas estas
naçoens perdessem ; segundo a razaõ, naõ se pôde duvi-
dar, que ambas ellas ganhassem.
O ouro, que os Inglezes exportam de Lisboa, naõ he
tanto uni lucro, que elles tirem de Portugal, he uma mer-
cadoria, que tem comprado, e tam bem paga, como
qualquer outra, que o commercio possa obter em troca :
elles certamente naõ deram menos de seus estofos, ou de
suas quincalharias, para ter mil livras esterlinas em ouro,
do que para ter o seu valor, no mesmo lugar, em vinhos,
laranjas, ou outras mercadorias do crescimento de Portu-
gal : o seu lucro na venda he precisamente o mesmo.
Literatura e Sciencias. 167
Mas» no retorno para Inglaterra, obtém um lucro na ven-
da dos vinhos, que trazem, convém pois que também
tenham algum lucro no numerário, quando com elle for-
mam a sua carregação; de outro modo perderiam carre-
gando este retorno em vez de qualquer outro. Com effei-
to, o ouro obtido em Portugal da primeira maõ, vale ali
menos que nas outras partes; e se faz um lucro na sua
exportação, que se proporciona exactamente ao lucro,
que se poderia fazer na exportação de outra qualquer
mercadoria do paiz. Deixar-se-hia de fazer tal commer-
cio, se este lúcio naõ fosse igual ao que produz outra
carregação; naõ se faria outra exportação senaõ esta, se
este lucro fosse mais considerável que os outros. Desde o
momento em que que se achassem meios de impedira re-
exportaçaõ do ouro, que vem aos Inglezes de Lisboa, ces-
saria logo a sua importação; porque em vez de haver
lucro em tal commercio, só haveria perda.
(Continuar-se-ha)

Esprit des Institutions Judiciaires de V Europe,par Mr.


Meyer.
(Continuado de p. 65)

No cap. 14 passa o nosso A. a tractar a matéria curiosa


dos Processos secretos, sua origem, e sua iufluenciaem
França.
Temos visto pelo discurso desta obra, que os procedi-
mentos judiciaes, em todas as naçoens descendentes dos
antigos Germanos, eram públicos; ao principio quando
eram feitos por todo o povo em suas assembleas; de-
pois quando as deliberaçoens se faziam nos placita, por
deputados escolhidos pelo mesmo povo; dahi quando
a estas assembleaes só asssistiram classes privilegiadas ;
168 Literatura e Sciencias.
logo os processos secretos devem ter uma origem diversa
das instituiçoens primitivas e consecutivas destas naçoens,
que muito importa averiguar.
O segredo nos processos também naõ se podia dedu-
zir dos Romanos; porque a publicidade éra recommen-
dada em suas leys por tal maneira, que a sentença naõ
pronunciada em publico éra nulla e ninguém éra obriga-
do a obedecer-lhe (L. 6. Cod. de sententiis.). O direito
Canonico he também expresso sobre a publicidade dos
processos (cap. 31. X, de Simonia; Cap. 24. X, de accu-
sationibus.
O A. pois attribue a introducçaõ dos processos secre-
tos ao estabelicimento da Inquisição, que, como he bem
sabido, tevê lugar êm França no Condado de Toulouse;
e ainda assim naõ foi logo de seu principio, que os In-
quisidores recorreram a esta medida, verdadeiramente
diabólica, dos processos secretos. Eis aqui o que diz o
A. a p. 244.

" Foi o Papa Bonifácio VIII., que, sob pretexto do perigo,


que podiam incorrer os accusadores ou as testemunhas contra um
hereje poderoso, permittio aos Inquisidores proceder sem forma
de processo, e sem publicar os nomes das testemunhas ou dos
accusadores, em casos graves : deixou-se somente aos Bispos
Diocesanos ou aos Inquisidores o julgar da necessidade de re-
commeudar o segredo: ao mesmo tempo que, em todos os casos
lhes deviam assistir alguns jurísconsultos. O perigo das teste-
munhas éra somente um pretexto desta disposição tam estranha,
mas bem depressa tiraram a mascara, e uma constituição do
Papa Inocencio VI. declarou, que a presumpçaõ no perigo exis-
tia de direito, de sorte quê o processo secreto veio a ser geral em
matérias de heresia."

Se os juizes nos processos houvessem continuado a ser


Literatura e Sciencias. 1Q0.
tirados, como nas epochas precedentes, de varias classes
do povo, e mudando-se nos diversos casos, naõ seria este
procedimento tam perigoso como agora, que os tribunaes
eram compostos de membros permanentes ; porque estes
guardavam melhor o segredo, tiuhain mais interesse em
preservar aos abusos, de que lhe resultava influencia e po-
der; e, substituindo suas vontades particulares á do le--
gislador, e suas interpretaçoens cerebrinas á expressa
determinação da ley, formavam assim uma classe do esta-
do, independente, oppressora, e ingovernável.
O A. nota, com razaõ, que, por um accaso singular, a
epocha da primeira origem destes processos secretos coin-
cidio com o estabelicimento dos tribunaes permanentes
em França. Estes tribunaes foram destinados por Phil-
lippe Bello para se oppôr ás usurpaçoens do Papa Boni-
fácio VIII., mas naõ só tinham esses tribunaes membros
ecclesiasticos, mas imitaram os procedimentos secretos
dos Inquisidores ; e os Reys apoiaram estas atrozes ino-
vaçoens: primeiro; porque assim excluíam melhor os
vassallos e subvassallos, de exercitarem alguma influencia
nos julgados; e segundo; porque como auxilio destes
processos oceultos podiam acabrunhar, com apparencias
de justiça, aquelles de quem se queriam desfazer.
Uma vez admittida esta forma de processo, nos tribu-
naes superiores, e conhecido quam favorável éra á autho-
ridade judicial, os Parlamentos á transmittíram aos justi-
ças interiores, que também agora ja naõ eram bailios e
senescaes leigos, mas sim legistas interessados no aug-
mento da authoridade e influencia de sua classe.
Mas a mesma razaõ, que induzia os letrados a favorecer
os processos secretos, persuadia também os nobres a fa-
zer-lhes opposiçaÕ, porque se viam privados do direito
de julgadores, que haviam gozado; os homens livres, e os
VOL. XXV. N.» 147. Y
170 Literatura e Sciencias.
membros das communs resentíam-se, vendo-se sentencia-
dos por juizes, que olhavam como illegaes, por isso que
ja naõ eram de teus pares. Logo ao principio se fizeram
patentes abusos terríveis, em conseqüência do segredo
tam favorável a elles, e assim tardou muito tempo, antes
que se admittisse geralmeute em França.
Ainda que o processo secreto fosse admittido pelos
Parlamentos, logo ao principio de sua instituição, com
tudo as justas causas de opposiçaõ impediiam, que esta
forma se recebesse em muitas provincias, aonde os pro-
cessos continuaram públicos; até que em 1539, depois
de uma lucta de quasi dous séculos se fez geral em toda
a França; notando o A. a p. 249 ; que o Chanceller Po-
yet, aquém se attribuio esta ordenança, foi o primeiro
victima delia.
As conseqüências do processo secreto foram com effei-
to taes, que perverteram, naõ somente a ordem judicial,
mas até os princípios da jurisprudência criminal; e esta
matéria he de tam transcendente importância, que dare-
mos por extenso o que diz o A. de p. 250 em diante."

" A introducçaõ do processo secreto, trouxe com sigo gran-


des mudanças na administração de justiça: a prohibiçaõ de ex-
por aos accusados as testemunhas, que depunham contra elles,
ou pelo menos restricçoens de os sugeitar ao acariamento, fazia
impossível o debate ou discussão, que he o melhor modo, senaõ
o único, de conhecer a verdade entre duas declaraçoens oppostas;
os juizes, obrigados a dar as sentenças segundo as deposiçoens,
separadas da contrarie dade do accusado; sobre os interrogatóri-
os feitos na ausência das testemunhas, e de combinar jade me-
mória, ja em feitos escriptos, os elementos de sua convicção,
se achavam sem meios de formar uma convicção intima, naõ po-
dendo firmar sua sentença na consciência, e deposiçoens, que
lhes eram submet tidas, naõ tendo direito de abrir as discussoens
necessárias para imprimir no espirito uma certeza moral, viam-
Literatura e Sciencias. 171

se obrigados a recorrer a uni expediente digno das subtilezas


casuisticas. Começaram por interpretar mal uma passagem du
Escriptura, que " a verdade está na boca de duas testemunhas,"
para deduzir daqui, que o testemunho de duas pessoas consti-
tuía uma prova completa; como se a grande probabilidade, que
substitue a certeza, em tudo que naõ he susceptível de demon-
stração mathematica, pudesse ser adquirida da mesina maneira
em todos os casos : applicou-se o espirito de calculo ás provas
judiciaes, e como duasr testemunhas formavam prova plena, con-
cluíram que uma só testemunha fazia semi prova : quízeram re-
duzir a um valor numérico todas as provas, os iudicios, as pre-
suropçoens; como se todos os números imagináveis fossem bas-
tantes, para exprimir as combinaçoens possíveis: em fim, naõ
podendo satisfazer a consciência moral do juiz, forjaram uma
chimera, uma consciência jurídica, que se submettêo ás re-
gras de direito, e aos cálculos de probabilidade. Assim se pre-
tendeo illudir a gente, e disfarçar os defeitos dos processos, que
impediam a convicção intima, submettendc-se a um corpo de
doutrina falsa, que podia prestar-se ás conclusoens mais absur-
das e mais arbitrarias."
" Quanto mais grave éra a matéria do processo, e quanto me-
nos satisfeitos estavam os juizes da convicção jurídica, que sub-
stituía a convicção moral, e que snbmergida em um montaõ de
regras, muitas vezes contradictorias, sempre absurdas, suffoca-
varu a voz da razaõ, e o grito da consciência ; em matérias cri-
minaes, principalmente quando se tractava da pena de morte, ou
d'outro castigo rigoroso, desconfiavam de raciocínios, que se di-
rigiam ao espirito, sem tocar o coração. A prohibiçaõ da pu-
blicidade, dava lugar ás suspeitas d'arbitrariedade, demasiada-
mente bem fundadas, mas que se queriam sempre prevenir,e que
devia ser insuportáveis aquelle, que se sentia superior a este vi-
cio; foi logo necessário imaginar um meio que assegurasse o
publico da justiça das condemnaçoens. Fôraro, pois, estas
consideraçoens, que deram origem ao principio de que ninguém
podia ser condemnado a qualquer pena que fosse, oa ordinária
ou de morte, senaõ depois de ter confessado o seu crime ; e este
172 Literatura e Sciencias.

principio foi admittido, com differentes modificacoens, em to-


dos os paizes aonde se recebêo o procedimento secreto, Naõ se
embaraçavam com os motivos, que houvessem occasionado essa
confissão; esqueciam-se de que a confissão naõ he senaõ uma
das espécies de prova, e que o crime do que nega obstinada-
mente, pôde ainda assim ser constante e reconhecido: naõ se
buscava senaõ o meio de acalmar a consciência, e de tubi ir a
responsabilidade do juiz aos olhos do publico."
" Desde o momento em que a confissão do accusado se julgou
necessária para a sua pena ou condemnaçaõ, foi preciso segu-
rar-se dos meios de obter esta confissão, todas as vezes que ha-
via suspeitas contra o accusado, ou que elle éra designado por
suspeitas, carregado de presumpçoens, ou mesmo accumulado
de provas, e persistia em negar o facto: estes meios foram os
tormentos preparatórios, em todas as suas variedades. Basta no-
mear uma instituição tam atroz, para despertar todo o horror,
que lhe he annexo: em todos os paizes da Europa se tem abolido
de nome, se exceptuarmos alguns pequenos Estados, aonde uma
marcha retrograda de ideas os tornou a restabelecer ha pouco
tempo, para vergonha do gênero humano, do século presente, e
dos que puderam suggeiir similhantes ideas. Ainda quando se
tivesse einprehendido a tarefa de reproduzir tudo que éra antigo
i para que éra parar em um modo de processo, novo em si mes-
mo, em comparação do que haviasubstituido, e que senaõ acha
nos tempos mais remotos ? Os tormentos preparatórios, em tanto
quanto consistiam na tortura phisica, foram abolidos em França
por uma declaração de 24 de Agosto de 1780; e assim o foi ao
depois quasi em toda a parte; mas naõ se extirpou senaõ uma
parte domai : a tortura moral, os soffrimentos de toda a espécie,
que sotTre um accusado, a separação total da sociedade, até que
confessasse seu crime, continuou em toda a parte."
" Ha longo tempo que se tem dicto tudo sobre a tortura, tanto
sobre o seu uso como preparatório, procurando obter pela força
dos tormentos a confissão do accusado, como em prefacio, com
o fim de extorquir do condemnado a indicação de seus com-
plices: a incerteza das leys, a este respeito, e a sua inconse-
Literatura e Sciencias. 173

quencia, deviam mostrar seus defeitos : umas vezes a tortura éra


applicada com reserva das provas ; isto he que, o accusado podia
ser condemnado, a pezar de sua negativa: outras vezes classifi-
cava-se no numero das penas as mais graves. Muitas vezes re-
presentava-se a tortura como um meio de achar o que se tinha
feito; outras vezes como castigo imposto ao accusado por sua
obstinação em negar factos provados, ou verosimeis, como ob-
servaremos depois."
" Disse-se tudo, em epocha mais recente, sobre o modo de
extorquir uma confissão sem violência directa; os escriptores
mais eloqüentes se tem levantado contra o segredo das prizoens,
contra as privaçoens de toda a espécie, contra os vexames mo-
raes de que se cercam aquelles, que naõ querem confessar o
crime de que saõ accusados; mas o que principalmente impor-
ta observar he, que, sem tribunal permanente, naõ ha doutrina
sobre a quota de provas; e sem processo secreto naõ ha tortura
preparatória, nem phisica nem moral; pelo contrario, a perma-
nência do tribunal traz com sigo as questoens, sobre a força das
provas; o procedimento secreto he inseperavel da tortura. Os
processos por jurados preservaram a Inglaterra da falaz doutrina
do calculo das provas, a publicidade excluio sempre a idea da
tortura, da qual nunca se tractou senaõ no Conselho Privado,
que, constituindo-se em corpo judicial, se ingerio nos processos
criminaes. Rigorosamente fallando, poderíamos dispensar-nos
de ponderar o gráo de crença, que se deve dar a cada argumento,
ainda ante um tribunal permanente ; porém desde o momento
em que se admitte o processo secreto, a tortura preparatória he
de direito: teremos lugar ao depois de ver porque maneira, em
muitas partes da Alemanha e dos Paizes-Baixos, houve precisão
de supprir a falta, que a suppressaõ nominal desta tortura cau-
sava no systema do processo criminal; veremos que, na França
moderna, aonde somente he publica uma parte da instrucçaõ,
v
eio a ser indispensável uma espécie de tortura moral, naquella
parte da instrucçaõ, que precede a discussão publica."

O A. concluo este capitulo, dando a razaõ porque abra-


174 Literatura e Sciencias.
çando-se na França o processo secreto nas causas crimes,
naõ succedeo o mesmo nas causas civis. Explica o A.
isto dizendo, que os Reys tinham nas causas crimes um
interesse directo em influir no castigo de muitos indi-
víduos ; e por isso protegeram a introducçaõ do processo
secreto, contra toda a opposiçaõ, que se lhe fez: mas
esta opposiçaõ venceo nos processos civis; porque nestes
mais raras vezes importava a El Rey o êxito da decisaõ,
e assim se contentavam de que nesses processos fossem
os juizes pessoas de sua nomeação, como eram os juizes
permanentes.
(Continuar-se-ha.)

MISCELLANEA.

Decreto a favor de Álvaro Xavier Botelho ex-Conde de


S. Miguel.

Attendendo a ter sido Álvaro Xavier Botelho senten-


ciado em um momento de nunca vista perturbação,e em
circumstancias extremamente difnceis, e de geral descon-
fiança, Bem que por isso pudesse entaõ comparecer, para
ser ouvido em sua defeza, como he de Direito Natural,
que sempre tenho guardado a meus vassallos: hey po-
Miscellanea. 175
bem declarar supensos os effeitos da Sentença, em que
fora julgado, dispensando o lapso do tempo permittir que
que solto seja admittido a justificar-se, no mesmo pro-
cesso e juizo. Os Governadores do Reyno de Portugal
e dos Algarves o tenham assim entendido, e façam exe-
cutar. Palácio do Rio-de-Janeiro, 28 de Fevereiro de
1820.
(Com a Rubrica d' El Rey N. S.)

Portaria dos Governadores de Portugal.

Sendo presente a El Rey Nosso Senhor a conta do


Desembargador do Paço Juiz da Inconfidência, o Doutor
Antônio Gomes Ribeiro, sobre a impossibilidade, que
occuria, para se executar o Decreto de 28 de Fevereiro
do corrente anno, em que o mesmo Senhor houve por
bem declarar suspensos os eflèitos da sentença em que
fora julgado Álvaro Xavier Botelho, dispensado no lapso,
e permittindo que solto seja admittido a juslificar-se no
mesmo processo e juizo; consistindo aquella imposibi-
lidade na falta deste Processo, que com todos os mais
papeis do Juizo da Inconfidência, e outros, foram con-
sumidos no incêndio acontecido na casa de sua resi-
dência, na noite do dia 30 de Agosto de 1814. Manda
Sua Majestade, que o sobredicto processo seja reforma-
do pelo modo que for possivel; e por quanto lhe foi igual-
mente presente na sobredicta conta a necessidade de
novos ministros, por serem falecidos os desembargadores
Nicolau de Miranda Silva e Alarcaõ, José do Casal Ri-
beiro, Bento Joze Saraiva do Amaral, e Miguel Pereira
de Barros, que foram adjunetos para a mencionada sen-
176 Literatura e Sciencias.
tença: He servido nomear, em lugar destes, os Doutores
Jozé Antônio de Oliveira Leite de Barros, Desembarga-
dor do Paço ; Luiz Dias Pereira, Deputado da Meza da
Consciência e Ordens; e os Desembargadores dos Ag-
gravos da Casa da Suplicaçaõ, Joaõ Manuel Guerreiro
d'Amorim, e Joaõ de Carvalho Martins da Silva Ferrão.
O mesmo Desembargador do Paço Juiz da Inconfidência
o tenha assim entendido e faça executar. Palácio do
Governo, em 10 de Julho de 1820.
(Com as Rubricas dos Governadores do Reyno.)

Petição ao Governo, para que se publique o decreto


acima na Gazeta de Lisboa.
Senhor! Álvaro Xavier Botelho naõ pôde deixar, por
segunda vez, de dirigir a Vossa Majestade as suas sup-
plicas, para que se mande por na gazeta de Lisboa o Real
Decreto de 28 de Fevereiro do corrente anno, que Sua
Majestade expedio a seu favor, para que os Senhores Go-
vernadores deste Reyno o fizessem cumprir e executar.
Quando por algum motivo naõ se deva publicar na gaze-
ta o sobredicto Decreto, parece ao que supplica, que ao
menos se deverá sempre fazer na gazeta algum annuncio
do que Sua Majestade determina no mesmo Decreto.
Tem mais aindaontra razaõ para esta supplica, que dirige
a Vossa Majestade, vendo que o Desembargador Pedro-
sa, Juiz do Fisco, continua a encher as esquinas das ruas
desta capital com annuncios para arremataçoens de bens
da casado banido ex-Conde de S Miguel; estes annuncios
j a posteriores, naõ só ao Real Decreto, mas mesmo á che-
gado doSupplicante a esta capital ; por todos estes moti-
vos he que o que supplica—Pede a Vossa Majestade, e
espera que deífirira á sua supplica, com a justiça que
custuma. E receberá mercê.
Miscellanea. 177

Refiexoens, sobre as novidades deste mez.

REYNO UNIDO DE PORTUGAL BRAZIL E ALGARVES.

Guerra do Rio-da-Prata.

As desordens de Buenos-Ayres, que mencionamos no nosso


N.° passado, e de que daremos ao depois, neste N.° mais algu-
mas noticias, porad no mais claro ponto de vista possivel, a ne-
cessidade que tinha e tem a Corte do Brazil, de cubrír suas f ron-
teirrs, com a occupaçaõ militar da Banda Oriental.
He principio indubitavel, que todo o Governo tem obrigação
de garantir a seus vizinhos, contra as hostilidades dos indiví-
duos subditos desse Governo, e quando o naõ queira, ou naõ
possa fazer, fica sugeito ás conseqüências ; isto he, a que o vi-
zinho use da força para se garantir a si mesmo, e proteger-se
contra as hostilidades.
A Hespanha naõ tem podido reprimir as hostilidades, que Ar-
tigas e outros, que chamava seus subditos, na margem oriental
do Rio-da-Prata commettiam nas fronteiras do Brazil, logo a
Corte do Rio-de-Janeiro naõ tinha outro recurso senaõ usar de
suas armas, para rebater os aggressores.
A natureza daquellas fronteiras, que se designam por uma
linha imaginaria, tirada por campinas abertas e de vastíssima
extençaõ, fazia impossível, que se cubrisse o território do Bra-
zil, sem que as suas tropas se adiantassem a occupar todo o ter-
reno, até os rios da Prata e Uruguay, aonde podiam impedir os
passos aos invasores.
Parece-nos logo, que aquella occupaçaõ militar, se fez neces-
sária, pela culpa, negligencia ou impotência da Hespanha, a
qual em todo o direito está obrigada a pagar naõ só os damnos
que causararam ao Brazil, esses que o Governo Hespanhol re-
clama como seus subditos, mas as despezas incurridas para re-
V O L . XXV. N.» 147. z
178 Miscellanea.
pii mir esses males ; sem o que naõ pode demandar a restituição
daquelle território, que o Governo do Brazil occupa.
A anarchia, que reyna presentemente nas provincias de La
Plata, justifica, em noss omodo de julgar, a continuação daquella
posse militar; porque só quem naõ conhece a posição geogra-
phica do paiz poderá suppôr, que o Goveruo do Brazil abando-
naria aquelle território, sem expor de todo os seus subditos nas
fronteiras do Rio-Grande.
Que o passado governo de Fernando VII formasse tam injustas
pretençoeus, naõ lie de admirar; mas que o presente Ministé-
rio, que se characteriza de liberal, faça ainda do comportamento
do Brazil motivo de queixas, he o que mal se comporta coiu as
máxima , que agora proclama a naçaõ Hespanhola.
Daremos, no nosso N.° futuro, o resumo da convenção provi-
sional. que se fez entre a Corte do Rio-de-Janeiro e o Governo
de Buenos-Ayres, tal qual publicou Sarratea ; e entaõ faremos
sobre isto as observaçoens, que lhe dizem respeito.
No entanto, diremos de avanço, que por aquella mesma con-
venção se prova, que o Gabinete do Brazil naõ tinha em vista
fazer couquistns de terras, que naõ precisa, mas simplesmente
cubrir as suas fronteiras, contra as irrupçorns de um povo vi-
zinho, que vivia e vive sugeito a todas as desordens da anarchia:
e a acquieucia da parte de Buenos-Ayres, naquella convenção,
prova lambem, que o Governo das províncias de La Plata estava
convencido das siucerasiiitençoeiis do Gabinete Braziliense.
Naõ só seria injusto, mas até ridículo, pretender a Hespanha,
que, uaõ havendo ella impedido as desordens de Monte-Vedio,
com o que tanto sofTria o Brazil, fosse a Corte do Rio-de-Janeiro
obrigada a empregar um exercito para socegar aquella província,
e depois entregalla ja tranquillizada á Hespanha, sem mais ceri-
monia do que uma ordem da Corte de Madrid.
Quauto ás ameaças de Hespanha, naõ vemos porque o Brazil
deva fazer caso algum disso; e com tudo, naõ he pela insigniA-
cancia do poder Hespanhol, nas circumstancias actuaes, que o
Brazil deve seguira linha de compoi lamento, que recommtnda-
Miscellanea. 179

mos, mas sim porque a justiça do caso isso pede. como provam
as consideraçoens apontadas, e que por mais de uma vez lemos
expendido neste Periódico.

Degradados de Nápoles para o Brazil.

Pelas ultimas noticias do Rio-de-Janeiro tivemos uma expli-


cação circumstauciada sobre o destino dos Degradados de Ná-
poles, que se disse e publicou por toda a Europa eram destina-
dos a augmentar a população do paiz.
Foi esta circumstancia motivo de se ridicularizar o Governo
Braziliense; daqui se tiraram amargos sarcasmos contra a gen-
te do Brazil; e nisto se fundaram novas calumnias contra El
Rey.
i Que fizeram, neste caso, os Diplomatas, representantes d*
El Rey na Europa ? Negaram redondamente o facto; disseram,
que naõ havia tal ajuste entre as Cortes do Rio-de-Janeiro e
Nápoles ; e que taes degradados nunca sairiam de Nápoles para
os dominios Portuguezes.
Eis senaõ quando ficam desmentidos, por chegarem actual-
mente a Lisboa os taes degradados, e á face de todo o mundo
continuarem sua viagem para o Brazil.
Eis novas rizadas, contra agente do Brazil, eis novas calumi-
nias contra El Rey ; e mettendo-nosa nós em frota sem bandei-
ra, novas apoupadas ao Correio Braziliense, porque também
éra Braziliense, e reduzido a collega desses calcêtas de Nápoles.
E o Braziliano em Londres callado como nabo em sacco ; e
os mais Diplomatas Fortuguezes na Europa, deixando lavrar o
effeito dessas injurias e apodos.
Mas <• qual éra o facto? Os taes degradados de Nápoles,
eram criminosos, condemnados a gales, por certos periodos, e
pelos ajustes das duas Cortes, passados para angmentar os pre-
sídios e povoaçoens da costa d' Affrica, para onde sempre se
mandaram os malfeitores Portugueezs.
E : naõ éra racionavel esperar, que os Representantes da na-
180 Miscellanea.

çaõ Portugueza explicassem este facto, para desfazer a idéa


com que se insultou a El Rey e ao Brazil, de que este paiz
ia a ser povoado com os malfeitores de Nápoles ?
i Naõ deveriam esses Diplomatas, em vez de negar o facto ín
totó,como fizeram, a principio, ou calar-se, quando os Degradados
chegaram a Lisboa, dizer a verdade, e mostrar que os degrada-
dos de Napoies na costa d' Afinca podem ser ali tam úteis, co-
mo os degradados Inglezes em Sierra Leoa, ou em Botany
Bay?
< Naõ deveriam expor, que he mais útil á humanidade, e
ao mundo em geral, que os malfeitores de certa classe vaõ me-
lhorar a população Africana, e povoar aquelles paizes, do que
aprodecerem nas prizoens de Napoies ?
Como quer que seja ; os Degradados de Napoies naõ saõ
destinados a augtnentar a população do Brazil. Eis aqui o
facto : e recolham outra vez os seus sarcasmos, os seus dictéri-
os, as seus investivas os senhores, que tanto se gloriaram em
atirar-nos com ellas. Quanto a nós, temos verdadeiro prazer
em ver verificada a nossa primeira opinião, que por mais que
• eprovemos muitas medidas do Ministério do Brazil, nunca o
julgamos capaz de fazer tal affronta aquelle paiz. E nos
contentamos com dizer isto.

Estado actual de Portugal.

Quando uma naçaõ delibera para adoptar qual quer medida


publica, naõ somente deve considerar se tem direito de fazer o
que intenta, mas também se lhe convém ou naõ obrar em conse-
qüência desse direito.
Ha um partido, que abertamente advoga a separação de Por-
gal do Brazil; e esse partido subdivide-se depois em dous ra-
mos ; um que deseja que Portugal faça para si um Governo á
parte ; outro que inculca a sua uniaõ com Hespanha. Posto que
ja tenhamos tocado neste assumpto, he elle de tanta importân-
cia, que a repetição naõ se faz escusada.
Os que sustentam a idéa de que Portugal forme para si um
Miscellanea. 181
governo separado e independente, ainda se naõ fizeram cargo
de considerar as difficuldades, que se opporiam a tal projecto.
Primeiro; o poder e forças d' El Rey, que por mais pequenas,
que se supponhatn, e na verdade saõ mui inferiores ao que po-
diam ser, graças a seus ministros, nenhum dos do partido da in-
dependência dirá, que saõ de todo nullas : óra essas forças ne-
cessariamente ha de empregar El Rey em reprimir, o que, pelas
leys actuaes, terá nesse caso o direito de chamar uma rebe-
lião.
Segue-se, depois, o partido, que El Rey deve ter mesmo
dentro em Portugal; porque os taes independentes naõ se devem
cegar ao ponto de naõ ver, que o partido que seguiria a causa
d' El Rey, em umalucta desta natureza, naõ pôde ser objecto
insignificante.
Depois vem a consideração dos Alliados, e principalmente da
Inglatena; a qual, com duas fragatas, bloqueando o porto de
Lisboa, e interceptando a entrada dos mantimentos, poria todo
o Reyno ao ponto de morrer de fome.
O outro plano, da uniaõ de Portugal com Hespanha, além de
estar sugeito ás mesmas difficuldades, terá contra si a bem co-
nhecida antipathia dos Portuguezes contra os Hespanhoes. Esta
circumstancia semearia de espinhos e abrolhos a marcha de um
exercito Hespanhol, que se dirigisse a subjugar Portugal.
Contra isto ainda naõ apparecêo argumento ; mas esperamos,
que se nos diga, que Portugal sofTre grande penúria, que a sua
agricultura, seu commercio, sua industria estaõ arruinados; e
que nenhum remédio dá a isso o Ministério, seja por ignorância,
seja por desleixameiito ; e que o povo naõ deve continuar nesse
estado de miséria e sotíiiraento.
Seja isso assim ; e com effeito assim o he em grande parte :
mas o que nós dizemos he, que essa mesma miséria de Portugal
he um universal obstáculo, para que se possa fazer indepen-
dente ; e que o emprehender uma guerra, em tal estado, em com
taes difficuldades, naõ pode ser o meio de recobrar gráo algum
de prosperidade.
E nlaõ, nos retorquiraõ, naõ ha remédio senaõ padecer e sof-
182 Miscellanea.

frei até que morramos todos á míngua. Bem longe disso: gr


naõ houvesse meios de remediar os males, até nem nos occupa-
riamos em considerar os meios, que se devem seguir, nem as
objecçoens ás ideas indicadas por asses partidos. Em termos de
desesperaçaô naõ ha philosophia.- mas naõ estamos nesse caso.
Ainda aquelles, que mais se inflammara contra a administra-
ção actual, e queuos seus defeitos fundamentam as idéas da in-
dependência de Portugal, convém nas boas qualidades pessoaej
d* El Rey, e no seu desejo de fazer a seus subditos o maior
bem possivel. Tomando pois isto por um facto geralmente re-
conhecido ; que impedimento pode haver, para que o povo de
Portugal cogite, proponha, e requeira aquellas medidas, que
julgar, que saõ conducentes para o melhoramento de sua si-
tuação.
Se El Rey tem a bondade, que geralmente nelle se reconhece,
uma vez que se lhe demonstre a vontade da naçaõ, e os meios
practicos de annuir a ella, toda a opposiçaõ de Ministros igno-
rantes ou conrompidos, naõ poderia impedir a sua adopçaõ.
Dos Governadores do Reyno, e seus actuaes Secretários, nada
esperamos ; porém nenhuma ley, nenhuma ordem do Soberano
impede, que o Senado de Lisboa, que as Câmaras das cidades e
Villas, que os Conselhos, que as corporaçoens dos negociantes
e outras, em fim que os mesmos indivíduos, façam petiçoens a
El Rey, que lhe indiquem os males que soffrem, as causas
desses males, e os remédios, que suppoem adaptados, para os
curar ou alleviar.
Só os fautores da anarchia poderão asseverar, que o primeiro
remédio, que se deve tentar nos males públicos, he a força e re-
sistência aberta á authoridade consistuida. Se tal fosse o prin-
cipio de direito publico, nenhuma sociedade civil poderia existir
tranquilla.
Mas, para o povo da Portugal saber o que deve pedir, e o que
lhe convém propor, he preciso que indague as causas dos inales,
que soffre; porque só assim poderá atinar com o remédio ade-
quado. Consideienios, por exemplo, a diminuição do com-
mercio.
Miscellanea. 183
Os lucros, que os commerciantes de Portugal tiravam do
monopólio do commercio, que exercitavam no Brazil, fez cora
que se empregassem nesse commercio os fundos, que aliás de-
veriam alimentar a agricultura e as fabricas. A abertura dos
portos do Brazil ás naçoens estrangeiras, privou Portugal desse
monopólio, e, perdendo esse lucro, se achou sem agricultura
nem fabricas ; conseqüência funesta de seu mesmo antigo mo-
roonopolio. < Ora como se remedea este mal, pela separação de
Portugal do Brazil ?
Saõ estes os pontos, que desejamos ver discutidos desapaixo-
nadamente pelas pessoas intelligentes, e expostos ao publico
sem dtclamaçoens ; porque estamos certos, que, quando estas
matérias se puzerem em sua verdadeira luz, entaõ se lhe atina-
rá com o remédio ; do contrario, um erro traz apóz de si outro
erro, e nada bom se pôde esperar.
Tem-se divulgado, que S. M., em sua anxiedade para pro-
mover o bem de Portugal, medita mandar extinguir a Inqui-
sição, reformar muitos tribunaes, e instituir o Governo do
Reyno em uma personagem Real, ajudada por um Conselho.
Apenas isto está' em rumor somente, quando ja se grita con-
tra a inefficãcia de tam parcial rememedio; e ao mesmo tem-
po naõ ouvimos senaõ murmúrios confusos, sem que o povo
ou alguma parte conspicua delle ponha suas queixas, em for-
ma distincta e intelligivel.
Nós convimos, em que a abolição da Inquisição naõ he favor
ao povo ; porque a sua existência, principalmente depois de s e
ter o tribunal dissolvido em Goa, e reconhecido inadmissível no
Brazil, he um borraõ, uma vergonha ao Governo; portanto
a extincçaõ da Inquisição he um bem, que o Governo faz a si
mesmo, livrando-se do mais negro feirete, que pôde manchar
a memória de um Soberano. O mundo todo tem ja decidido
esta questão.
Mas a reformaçaõ do Governo, tendo 4 frente uma persona-
gem Real, pôde ser principio de grandes vantagens a Portugal,
se o Conselho for composto de pessoas idôneas : porque a serem
184 Miscellanea..

os Conselheiros os actuaes Governadores, ou outros que taes,


naõ pôde delles provir reforma que útil seja.
Se a administração da justiça forma em Portugal graude
fundamento de queixa, a residência da Corte no Brazil nada tem
com isso ; e senaõ, perguntem os Portuguezes aos Brazilienses,
que tal lhes vai por lá a administração da justiça, residindo
El Rey no Rio-de-Janeiro; e a resposta os convencerá de que
a melhoria na administração da justiça requer reformas mais
essenciaes, do que as que se fizeram no rey nado de D. Sebas-
tião ; e que sem essa reforma, resida El Rey aonde residir, as
cousas naõ tomarão diverso caminho.
Mas sobre tudo, o ponto; que mais aperta, he a penúria de
Portugal; e como ninguém contenderá, que, se El Rey voltas-
se agora para Lisboa, seria possivel tornar a conceder a Portugal
o monopólio do commercio do Brazil, a volta d' £1 Rey naõ re-
mediaria o mal, se naõ se adoptassem outras medidas, que saõ
igualmente factíveis estando S. M. no Rio-de-Janeiro. Nisto he
em que devem insistir os homens amantes de sua pátria; enaõ
pensar em medidas de aberta rebelliaõ, que por mais justifi-
cada que fosse, seria sempre desastrosa em seu êxito.
Temos neste artigo evitado dar uma opinião, sobre a justifi-
cação da medida, a que ee allude, da separação de Portugal;
porque só nos propuzemos tractar da conveniência ou discon-
vencia de taes ideas. com os verdadeiros interesses dos Portu-
guezes, mas nem por isso deixaremos desde ja de declurar aber-
tamente o nosso sentimento, sobre a comparação, que se tem
feito, entre a situação actual de Portugal e da Hespanha.
Naõ seguiremos aquelles, que, tendo accumulado Fernando
VIL de todas as injurias atrozes, que a língua podia expressar,
se desfazem presentemente em panegiricos de suas virtudes, em
que afiectam agora acreditar; como se fora possivel, que um
homem tam infame meu te perverso, iam radicalmente execrável,
como elles o pintavam, se tornasse era vinte quatro horas um
anjo entre os mortaes.
Reprovando, como sempre reprovamos, o Governo passado de
Fernando VIL, nunca julgamos que fosse preciso para explicar
Miscellanea. 185
os males desse Governo, recorrer somente á perversidade do co-
ração do Soberano; assim também naõ julgamos que seja agora
de razaõ attribuir a elle unicamente os melhoramentos, que se
observam na Hespanha; antes dizemos (sem que seja preciso
usar das descomposturas, que lemos em vários escriptos; que
hoje em dia louvam Fernando VIL), que, se este monarcha se
tornar a achar nas mesmas circumstancias, rodeado dos mesmos
conselheiros, e servido pelos mesmos ministros, que entaõ tinha,
tornará a obrar da mesma maneira.
Ora i que comparação se pôde fazer entre o Soberano de. Por-
tugal, e Fernando VII ? ^ Dissolveo El Rey de Portugal algumas
Cortes, que existissem, e mandou prender seus membros mais
patriotas ? < Reviveo uma Inquisição, que a naçaõ tivesse abo-
lido ? i Regeitou as petiçoens ou representaçoens de alguns de
seus subditos, ou mandou-os encarcerar, por haverem feito taes
representaçoens ?
Mas os partidistas da separação de Portugal do Brazil, e sua
uniaõ com Hespanha, querendo que nos esqueçamos absoluta-
mente de tudo quanto antigamente fez Fernando VII, nos faliam
somente das Cortes, como quem nos atira com poeira aos olhos.
Quaesquer que sejam os benefícios, que a Hespanha espere
de suas Cortes, se ellas governarem um paiz alheio, debaixo
de qualquer forma que possa ser, nós lhe applicaremos o dicto
de Homero, em toda a sua extençaõ. " Naõ me apiaz o rey de
muitas cabeças." E naõ seria a circumstancia de haverem nas
Cortes de Hespanha meia dúzia de Deputados Portuguezes,
quem faria com que os Hespanhoes, nesse rey de muitas cabe-
ças, naõ olhassem para Portugal como um paiz estrangeiro, ou
perdessem a lembrança da sugeiçaõ de GO annos, e de que delia
se libertaram uma vez os Portuguezes.

Processo em Paris, sobre as Pieces Politiques.

Segundo o razoamento, que levamos acima, que he conforme


princípios, que temos sempre seguido; éra natural que des-^
Vnr YYV \r»li|ií
186 Miscellanea.
approvassemos, como fizemos, os sentimentos, que se conti-
nham na carta, inserida no folheto intitulado Pieces Politiques,
de que por varias vezes se tem feito mençaõ neste jornal; ja em
observaçoens nossas ; ja em communicaçoens de nossos conres-
pondentes.
Mas porque desapprovamos o contheúdo da tal publicação,
naõ nos julgamos necessitados-a louvar os procedimentos, que
houveram em Paris a este respeito; e que achamos noticiados
no seguinte paragrapho das gazetas Francezas :—
" A corte das Assizas, na sua sessaõ de 27, sentenceou Mr.
Bosquet Descham ps, o qual deixou a causa á revelia, a três
annos de prizaõ, e muleta de 5.000 francos, por um libello in-
famatorio contra El Rey de Portugal, e contra o Embaixador
de Sua Majestade, na Corte de Frarfça, contido em um folheto
intitulado Pieces Politiques, de que o réo se aceusou serauthor.
Correard, o publicador, que também foi processado a instâncias
do Embaixador Portuguez, foi absolvido pelo jurado, pela pre-
sumpçaõ de que poderia compor e publicar as passagens crimi-
nosas, sem entender o sentido das iniciaes, que constituíam o
libello."
O Braziliano Estabelecido em Londres havia ja annunciado,
na carta que dirigio ao Edictor do Times, e que nós traslada-
mos a p. 591 do Vol. XXIV, que se instituiriam em Paris pro-
cedimentos judiciaes contra o Author daquella producçaõ. 0
nosso Conrespondente, na carta que publicamos, a p. 102
deste Volume, diz, que os taes procedimentos em Paris se in-
stituíram por ordem ou a instigaçaõ do tal Braziliano estabele-
cido em Londres; e refere alguns dos procedimentos prelimi-
nares ao do tribunal, em Paris.
Seja ou naõ correcto o nosso conrespondente: naõ entramos
nisso : elle que sé justifique, se tal jnstificaçaõ lhe convém.
Mas assumimos que he correcto o facto da publicação do tal
folheto " Pieces Politiques, porque o lemos e temos, tal qual
nos veio de Paris : e também assumimos que he correcto o facto
do processo judicial, que se annuncia, no extracto das gazetai
Francezas, que copiamos acima. Advertindo, porém, que a sen-
Miscellanea. IS7

tença naõ declarou, que a publicação éra libello contra S. M.


Fidelissima, e dizem-nos que a condemnaçaõ só foi segundo a
ley, por naõ comparecer o accusado.
Isto posto, dizemos, que ninguém poderia lêr a tal carta das
Pieces Politiques, e decidir que he um libello contra El Rey de
Portugal, senaõ um tribunal Francez, na epocha presente; e
ainda assim isso se naõ fez ; por outra parte, ninguém podia
intentar uma acçaõ de libello contra o edictor, ou supposto au-
thor, senaõ os Godoyanos de Portugal, debaixo do fundamento
de que éra um libello contra Sua Majestade Fidelissima.
O tal folheto accusava certas pessoas em Portugal, de tramarem
uma conspiração contra o Soberano: esta he a summa da carta,
seu fim, sua pontaria. Ora < contra quem he este libello, con-
tra as pessoas que saõ accusadas de fazerem a conspiração con-
tra El Rey ? ou contra El Rey ?
Claro está, que, se ha libello, he contra as pessoas a quem se
imputa um crime, e naõ contra El Rey, a quem sé naõ imputa
cousa alguma.
Agora o Braziliano ou Italiano estabelecido em Londres, leva
as cousas pelo lado que lhe faz conta; o outro em Paris diz
Amen; e resolvem vingar-se de quem lhe descubrisse podres
fossem falsos fossem verdadeiros; e na forma antiga, ja appro-
vada dos Godoyanos, cobrem-se com a capa d'El Rey, que em
tudo isto nada mais tem do que pagar as despexas.
Mas concedamos de barato á fraqueza humana, que estes Il-
lustres senhores, inocentemente usaram desta porta travessa (á
Italiana) para se vingarem do homem que os calumniou. Mas
quando naõ puderam colher ás maõs o verdadeiro author,de quem
se queriam vingar, fazer recair a perseguição contra o tal Des-
champs (que naõ sabemos quem seja) que elles mesmos estaõ
persuadidos nada tem com a tal producçaõ, e nem se quer a te-
nha lido ; he vingança tam inútil como a do caõ d'Alciato, que
mordia as pedras com que lhe atiravam ; e he acçaõ digna, naõ
da antiga nobreza e cavallaria de Portugal; mas daquella, que
assignou uma petição a Napoleaõ, para que lhe desse um Rey a
Portugal,
188 Miscellanea.
Bem, Senhores Godayauos, querem vingar-se de seu inimigo,
yalhám-se do nome d'El Rey, valham-se do dinheiro de S. M.
para proseguir sua vingança ; ja aqui em Londres também se
gaitou o dinheiro d'El Rey em taes emprezas; concede-se-lhe
tudo isso; mas, uma vez que naõ puderam agarrar o objecto
de sua vingança, descarregarem o golpe contra o outro, que
naõ éra mais do que o testa de ferro, perdoem-me Vossas Excel-
lencias, mas naõ posso dispensar-me de lhe dizer, que isto he
vingança mui baixa, e mui vil.
Mas olhando para a parte seria da questão : e fora da zomba-
ria, que sempre nos excita a lembrança de certos indivíduos, de
quem nós fazemos menos caso do que elles fazem de nós: a ver-
dade he, que ainda que a tal producçaõ das Pieces Politiques,
fosse um libelo contra El Rey, naõ éra preciso fazer a bulba
judicial que se fez. Naõ só o Correio Braziliense mas outros
escriptos, e o mesmo Braziliano em Londres, refutaram o es-
cripto de que se tracta, e sobejamente desfizeram o effeito, que
as Pieces Politiques poderiam ter produzido na opinião publi-
ca.
Taes procedimentos contra a imprensa, sempre saõ desvanta-
josos, principalmente quando todos vêm, que naõ he EI Rey,
mas os indivíduos, quem tem de defender-se, e que o nome do
Soberauo só serve de capa para uma vingança inútil.

Ex-Conde de S. Miguel.

Publicamos, a p. 174, um decreto de graça especial ao ex-


Conde de S. Miguel, pelo qual se mandam suspender os effeitos
da sentença contra elle proferida, pelo crime de alta traição, aos
21 de Novembro, 1811; e que solto seja admittido a justificar-
se.
Naõ mencionamos este facto, para accusarmos de impróprio,
Miscellanea. 189
um acto de clemência d'El Rey ; porque o direito de perdoar he
a mais bella, e, na nossa opinião, a mais grata prerogativa do
Soberano. Ninguém usa desta prerogativa com mais liberali-
dade do que S. M. Fidelissima ; ninguém o iguala no exercício
do poder applicado á beneficência.
Menos podíamos achar que reprovar, neste caso especial ;
porque a graça naõ se extende a perdaõ absoluto, mas á permis-
são de ser admittido a justificar-se ; o que (suppondo o ex-Con-
de innoceute) naõ he mais do que uma graciosa dispensa nas
formalidades das leys.
Mas naõ podemos deixar de brigar, contra o modo por que os
Ministros d'El Rey, põem em execução as benéficas intençoens
de seu Soberano, como se fosse fadário, que até as cousas boas
sejam feitas com máo modo.
Primeiramente, quanto ao Decreto. Allega-se, como razaõ
da graça, " que a sentença fora dada em momento de nunca
vista perturbação, em circumstancias extremamente difficeis,
&c."
Ora se esta he a razaõ da graça, concedida a Álvaro Xavier
Botelho, he uma razaõ tam genérica, que abrange a todos os
condemnados, que naquella epocha foram processados ou punidos.
Outra cousa porém seria, se quem lavrou o Decreto attribu-
isse este acto, ou á clemência d'El Rey, que tem a prerogativa
de conceder o perdaõ aos crimes que lhe aprouver, e naõ a to-
dos ; ou a circumstancias especiaes, que se lhe allegassem nes-
te caso particular.
Este motivo seria tanto mais plausível, quanto he notório»
que entre os Portuguezes, que naquella epocha se passaram ao
partido Francez, ha alguns, que naõ só fizeram a guerra a sua
pátria, mas que fizeram fogo contra os seus nacionaes, e coro-
mettêram crimes de atroz traição; quando outros desses mesmos
Portuguezes naõ foram mais do que victimas passivas de cir-
cumstancias, que naõ podiam remediar.
Mas esta generalidade em escusar todos os criminosos, se faz
ainda mais escandalosa, pelo notório facto de que alguns desses
190 Miscellanea.
mais perversos até estaõ gozando de pensoens do Governo, ob-
tidas pelos empenhes dos mesmos embaixadores d'El Rey na
Europa, que eram os que mais deviam punir pela honra de seu
amo, e que com estes factos apparecem no mundo, com geral
desgosto dos vassallos fieis, na luz de padrinhos de malfei-
tores.
Além disto, a allegaçaõ de que as sentenças se devem annti-
lar; porque foram dadas em momento de perturbação, lança
uma geral suspeita na administração da justiça ; suspeita, que,
por mais bem fundada que seja, mui mal convém o achar-se
lançada em um Decreto, que deve ser assignado pelo Sobe-
rano.
Quanto á execução, começa por duvidar-se em Lisboa, so-
bre o modo de dar effeito ao Decreto ; porque se queimaram os
autos, com outros papeis de importância em casa do Juiz da
Inconfidência, s E he assim que os Governadores de Portugal
tem cuidado de papeis de tam alta ponderação; que se deixam
expostos a taes perigos na casa de um particular ?
Depois disto, vem na petição do sentenceado, que publica-
mos a p. 176, o facto de que, naõ obstante o Decreto, por que
El Rey manda suspender os effeitos da sentença, o Juiz do Fis-
co continua a expor á venda os bens do sentenceado. < E he
assim, que os Governadores de Portugal executam um Decreto
de seu Soberano, pelo qual se lhes ordena a suspençaõ dos effei-
tos da sentença ?
Por ultimo, e naõ era menos conta, vem a repugnância do
Gazeteiro de Lisboa, em publicar o Decreto, que de sua natu-
reza he um documento publico, e quede facto se tinha já annun-
ciado, por um edictal do Juiz da Inconfidência.
Se a insignificante gazeta de Lisboa só pôde publicar os De-
cretos do Soberano, que permittirem os Governadores de Por-
tugal ; bem se pôde dizer a que gazeta de papel pardo está
agigantadamente elevada, a par das authoridades superiores, que
se julgam com direito de glosar as ordens d ' El Rey.
Bem se pôde aqui, naõ somente applicar, mas até ampliar o
dicto de ou trem, que assim escrevia ao Secretario de Estado.
Miscellanea. 191
" Sou verdeiramente grato a El Rey, pela liberal merece, que
Sua Majestade me fez, pelas mesquinhas maõs de Vossa Excel-
lencia."

AMERICA HESPANHOLA.

A confusão de La Plata, naõ cessou pelas medidas adoptadas


por Sarratea. Este chefe de partido caio, e tornou-se a levan-
tar três vezes, durante breve periodo de tempo, e quando par-
tiram as ultimas noticias, que temos do Rio-da-Prata, havia
elle fugido, e occupava o Governo de Buenos-Ayres D. Ilde-
fonso Ramos, que apenas tinha forças physicas ou moraes, com
que pudesse manter-se.
Sarratea commetteo os maiores erros, quando se apoderou do
Governo; porque, perseguindo tam violentamente seus predeces-
sores, irritou por tal maneira os ódios dos partidos, que tornou
mui dificultoso o restabelicimento da tranquillidade interna do
paiz. Tentando processar os membros do Congresso passado,
pelas transacçoens, que se contém nos documentos, que publi-
camos no nosso N°. passado e concluímos neste de p. 115 em di-
ante, atacou a inviolabilidade, de que esses membros se achavam
revestidos, e destruio o respeito, que convinha aquella assem-
blea, para ser obedecida de boa vontade pelo povo. Publi-
cando as negociaçoens e actas secretas, excitou desconfianças,
tanto no paiz, como nos Governos estrangeiros, que seraõ in-
curáveis, sem os mais extraordinários remédios.
Os membros do passado Governo, que Sarratea tinha prezo,
foram soltos ; alguns, dos que tinham fugido para Monte-Vedio,
regressaram. Alvear e Carrera capitaneam, por óra, os do par-
tido vencedor em Buenos Ayres ; a facçaõ de Sarratea, no inte-
rior, fortifica-se com tropas de linha, e milicias, Eis aqui ele-
mentos mais que bastantes, para a ruína de todas aquellas pro-
víncias.
Pelo meado de Abril se descubrio em Chili uma conspira-
ção, machinada por numerosos partidistas de Carrera, contra o
Governo actual do paiz. Em conseqüência da descuberta, fô-
192 Miscellanea.
Tam muitas pessoas banidas para a ilha de Juan-Fernandes e
para Valdivia, lugares usualmente escolhidos para este fim:
entre outros foi Ramirez, rico proprietário de Chile. Ainda an-
sim naõ ficou extincto o espirito de partido: e parece, que o
motivo immediato da irritação foi o impor o Governo algumas
contribuiçoens, para occurrer ás despezas da expedição, que
preparava contra o Peru.
Segundo as mesmas noticias de Chile, parece que, naõ ob-
stante as commoçoens internas nas provincias de La Plata, o
Governo Chileno tornava a reviver a ameaça de invadir o Peru ;
e para este fim o General San Martin ajunctava as tropas em
Rancagua. Contra este projecto, porém, estava a falta de di-
nheiro, e a grande damnificaçaõ da esquadra, em conseqüência
das perdas na tomada de Valdivia.

ALEMANHA.

O Governo Austríaco dirigio aos Gabinetes da Confederação


Germânica uma nota confidencial, relativa á revolução de Ná-
poles. O Observador Austríaco, mencionando isto, diz ; " Este
interessante documento he concebido no espirito de patriotismo,
e lavrado em linguagem enérgica, bem calculada a aquietar a
anxiedade, que sentio pela tranqüilidade da Itália.
O Principe Cariati, Ministro do novo Governo Napolitano
juncto ao Imperador de Áustria, teve uma audiência particular
do Secretario de Estado, Principe de Metternich, mas naõ foi ad-
mittido em seu character publico, dando-se em razaõ, que El
Rey de Napoies e sua familia se suppunham estar em constran-
gimento; e assim se diz, que o principe Cariati fora mandado
sair de Vienna.
O Imperador marcha para a Itália 32 batalhoens de infanteria
Hungra, formando uma força effectiva de cerca de 30,000 ho-
mens de infanteria e 30 esquadroens de cavallaria.
O Baraõ de Borstett, Ministro dos Negócios Estrangeiros de
Miscellanea. 193
Baden,dirigio, por ordem do Eleitor, uma nota ao Principe de
Metternich, immediatamente depois da conclusão das conferên-
cias em Vienna, a fim de solicitar daquelle Ministro uma expli-
ca aõ da opinião do Gabinete Austríaco, a respeito da linha
de comportamento, que os outros Estados da Alemanha devem
seguir para com seus vasallos Alemaens. A respecta do
Principe de Metternich contém a plena exposição das vistas do
Imperador.
Neste documento, o Principe, depois de fazer justiça ás leaes
eilluminadas intençoens do Eleitor, se alarga sobre as prodigi-
osas vantagens, que tem resultado á Europa do Congresso de
Carlsbad, e das conferências de Vienna; diz que estas, posto que
naõ tam conspicuas, naõ seraõ menos benéficas em seus resul-
tados ; e se naõ se tem adoptado medidas mais decisivas, esta
circumstancia se compensa pela unanimidade, que de outra ma-
neira se naõ teria obtido. Mas o Ministro insiste mais particular-
mente (e de facto todo o teor da communicaçaõ he para este ef-
feito) que os Soberanos da Alemanha naõ devem perder de vista
a necessidade de preservar intactas as instituiçoens existentes
tanto antigas como modernas: de naõ admittirem melhora-
mentos especulativos, e de se opporem firmemente á mais
leve inovação a menos que sua necessidade seja rigoro-
samente demonstrada, e que a vontade do Soberano seja per-
feitamente sem restricçaõ, e livre de toda a influencia exterior.
" Preserva o que existe," diz o texto deste documento, " naõ
somente he a política mais solida para o presente, mas o meio
mais judicioso e provável de recobrar o que se tem perdido."
O Principe desapprova a facilidade, com que alguns dos Estados
Meridionaes da Alemanha tem concedido constituiçoens ; e ob-
serva, que, aonde se tem feito as maiores concessoens, os que
se chamam a si mesmos Liberaes, saõ os mais descontentes, e
o Governo exposto ás mais immoderadas pretençoens. O Prín-
cipe expressa, em termos vigorosos, a sua convicção dos males
que a desenfreada licenciosidade da imprensa tem produzido; po-
rém considera que a segurança da Europa nos imminentes peri-
BB
VOL. X X V . N M 4 7 .
194 Miscellanea.

gos do século presente, ainda se pôde manter, pela inviolável


uniaõ das grandes potências, a quem naõ tem ameaçado a me-
nor nuvem, e que naõ parecem capazes de deterioramento. Este
facto, que he irrefragavel, pode ainda intimidar os facciosos, e, em
todo o caso, desfará suas machinaçoens. O Principe faz entaõ
rerapitulaçaõ destas consideraçoens, que declara terem a plena
concurrencia do Imperador; e accrescenta, que, qualquer potên-
cia, que adoptar este systema politico, terá o indubitavel direito
de pedir o auxilio da Confederação, em caso de necessidade, e
o da Áustria lhe será cordealmente concedido.

FRANÇA.

Uma Ordenança Real, de 26 de Julho, impõem o direito de


90 francos por tonelada, em todos os vasos dos Estados-Unidos,
que entrarem nos portos Francezes da Europa, além da décima
addicional. Exceptuam-se porém os vasos, que tiverem saldo
dos Estados-Unidos, antes dos 15 de Maio. E este direito ces-
sará, logo que se annulle o Acto do Congresso de 15 de Maio.
Por outra Ordenança se determina, que, desde os 15 de Ou-
tubro próximo futuro, ate os 21 de Março 1821, se conceda um
prêmio de 10 francos, por cada cem kilogramas, aos algudoens
de ambas as Américas, importados era França, em quaesquer
vasos, excepto os dos Estados-Unidos.
A questão política, que se agita agora em França com maior
ardor he sobre o modo de pôr em execução a nova ley das elei-
çoens; e copiaremos sobre isto o seguinte artigo do Conititution-
nel.
" Em todas as companhias se ventila, a conjectura de se dis-
solverem ou naõ as Câmaras ; e se o systema electoral, creado
nesta ultima sessaõ, será applicado em toda a «ua extençaô.
A questão se tem tornado matéria de partidos, e de todos os
lados se acham argumentos pró e contra. Naõ he da nossa com-
petência examinar o que fará o Ministro, nesta occasiaõ; «\
além disto, o que nós dissermos provavelmente naõ pezará mui-1
Miscellanea. IP»

to nas suas deliberaçoens ; mas naõ será inútil o offerecer a nos-


sos leitores o estado das opinioens nesta matéria."
" As três divisoens, que existem nas Câmaras, existem tam-
bém em todas as assembleas particulares, aonde se discutem
questoens políticas. Somente as maioridades saõ differentes.
O Centro, que he tam numeroso no Palácio Bourbon, he quasi
imperceptível em muitas companhias. O lado direito, está em
sua maior força no Faubourg St. Germain ; e o esquerdo he mui
considerável na Chaussée d^Antin, e no bairro influído pelo com-
mercio. Destas três divisoens, a do meio pronuncia a favor de
uma renovação parcial dos membros da Câmara. A ley a favor
de que votaram naõ lhes parece assas segura, para que se arris-
que immediatamente a sua total execução. Temem haver sido
enganados, e muitos delles pensam, que o presente momento
naõ he favorável para um experimento deste gênero."
" O lado direito, tendo maior confiança no que chama a sua
força, e suas doutrinas, naõ participa nestes temores. Naõ he
isto porque naõ veja a tendência do espirito publico, mas por-
que conta sempre sobre certos planos de compressão, que lhe
parecem appropriados para segurar o triumpho das doutrinas da
unidade. Somente pedem Realistas para presidir nos collegios,
e sentem-se assas inclinados a experimentar sua fortuna. Os
sette indivíduos de Mr. Chateaubriand se lhes apresentam í
vista, tomo remédio para o espirito liberal, que se move, e,
com aquelle apoio, se entregam ás aventuras dos antigos Caval-
leiros."
" O lado esquerdo parece ser de opinião, em alguns respeitos
differente, em outros respeitos similhante a esta. Os deste lado
consentiriam de boa vontade na renovação integral da Câmara,
mesmo com Presidentes Realistas ; porém repugnam á idea de
outro qualquer meio de influencia, se naõ os que resultam da
natureza das cousas, e que saõ conformes aos princípios de li-
berdade. O lado esquerdo se distingue por uma inteira confian-
ça na França. Os deste lado naõ faliam de compressão de opi-
nioens, de castigar doutrinas, de interceptar a manifestação do
espirito publico. Incessantemente repetem, deixem ir as cousas
igfj Miscellanea.

por si mesmas; deixem que a naçaõ obre em liberdade. Em


todos os tempos, quando se tracta de consultar a vontade da na-
çaõ, solicitam a mais ampla latitude de exprtssaõ. Naõ repug-
nam, por tanto, ao grande experimento de que se tracta. E
com tudo, muito se tem trabalhado para os privar de sua influ-
encia, pela nova ley ; elles confiam assas na naçaõ, para dese-
jarem sua inteira execução ; ainda que se adoptassem os dous
estados da eleição, elles haveriam usado a mesma linguagem.
A sua política nem he obscura nem complicada. Somente
exigem, como Ajax, contender á luz do dia. Se podemos accres-
Ceutar uma opinião, parece-nos, que, na situação em que se acha
o Governo, he altamente importante, que elle saiba se o novo
systema be approvado pela maioridade. Se tem as bazes sobre
área, ou sobre rocha."
No meio destas agitaçoens políticas se tramou uma conspira-
ção nas tropas de Paris, cujo fundamento e ramificaçoens naõ
saõ ainda conhecidos, no entanto daremos o seguinte extracto
do Moniteur, em que esta conspiração se annuncía.
" Pari* 20 de Agosto. Ha algum tempo que o Governo tinha
informaçoens, de que se empregavam artifícios para seduzir as
tropas a uma revolta. O Governo estava satisfeito de que o
bom espirito, que anima os soldados Francezes, destruiria pro-
jectos formados por certos homens, sempre promptos a sacri-
ficar sua honra e o socego de sua pátria a seu orgulho e cubi-
ça: o Governo vigiava seus procedimentos. Estes loucos cre-
ram, que eram sufficientemente poderosos para derribar o throno e
as instituiçoens protectoras, que a França deve a seu Rey. Cer-
to numero de officiaes de patente e inferiores dos corpos da
guarniçaõ de Paris, foram seduzidos. Até alguns da Guarda
Real se deixaram levar paia a conspiração. Hontem á noite,
concordaram estes officiaes, entre si, ajunctar-se nos quartéis,
formar os soldados e marchar contra o palácio de nossos Reys, e
proclamar como Soberano algum membro de familia de Bona-
parte ; porém muitos dos que elles haviam tentado seduzir, com
suas pérfidas proposiçoens, naô hesitaram em ir ter immediata-
menle com seus chefes, e descubrir-Hies a conspiração, que
Miscellanea. 197

estava ao ponto de arrebentar. O Governo naõ pode delongar


mais. Os que haviam tomado parte nesta criminosa conjura-
ção, foram presos pela Gens d'armerie. Parece que uma parle
do plano dos conspiradores éra tomar posse do castello Vincenes,
Um incêndio, que em breve tempo se apagou, arrebentou ali ás
três horas da tarde. He racionavel suppôr, que isto se destina-
va a crear desordens, e favorecer o ataque. A França tem direi-
to de esperar, que tal attentado será punido de maneira, que inti-
mide todos os que, esquecendo-se de seus deveres e de seus jura-
mentos, queiram voltar contra a ordem social aquellas armas, que
se lhes confiaram para sua defensa. Nada se deve negligenciar,
que possa assegurar os authores e cúmplices de uma conspiração,
que, dirigida contra o Throno e contra a Charta, atacava ao mes-
mo tempo todos os membros do Estado, em seus mais charos
sentimentos e melhores direitos. O mais elevado tribunal, o que
a Charta, com saudável previdência, encarregou de previu ir as
tentativas contia a segurança do Estado, sem duvida será cha-
mado a julgar o maior crime, que a ley tem de castigar. Abri-
gado contra toda a influencia, superior a toda a guggestaõ sinis-
tra, aquelle augusto tribunal, melhor do que nenhum outro, re-
conhecerá a innocencia, despedirá suspeitas mal fundadas, ao
mesmo tempo que descubrirá os culpados, quem quer que elles
sejam. A cidade de Paris goza da mais perfeita tranquillidade.
Os cidadãos souberam, ao mesmo instante, a existência da con-
spiração, e a prizaõ de seus authores."
Gazetas posteriores de Paris asseveram, que o numero dos
officiaes culpados naõ passa de vinte cinco, e nenhum acima da
graduação de capitão. He porém notável, que só 25 homens se
attrevessem a pór em practica uma conspiração, para a total sub-
versão da Monarchia.
El Rey publicou uma ordenança convocando a Câmara dos
Pares, para sem demora, como Corte de Justiça, processar os
prezos accusados pela recente conspiração.
l
98 Miscellanea.

HESPANHA.

A proposição para reintegrar em seu direito de successaõ i


Coroa, o Infante D. Francisco de Paula e a tx-Raynha de Etru-
ria, foi adoptada unanimemente; mas o decreto naõ faz men-
ção da ex-Imperatriz de França Maria Luiza.
Nomeou-se um tribunal extraordinário de 30 membros, para
processar os 69 membros das Cortes, que aconselharam a Fer-
nando VIL, o destruir a constituição em 1814.
Na sessaõ das Cortes de 11 de Julho, se fez uma proposição,
para augmentar o numero dos Deputados das provincias ultra-
marinas, segundo as contas mais authenticas da população das
colônias.
Fez-se nas Cortes, no dia 23 de Julho, uma proposição, para
impedir a fundação de novos conventos, permittir a seculariza-
çaõ dos religiosos, que a desejarem, e declarar a propriedade
ecclesiastica, propriedade nacional. Esta proposição, feita por
D. fullano Sancho, ficou reservada para futura discussão. 0
mais he que, na sessaõ de 27, se apresentou uma petição de
certos frades de Baeza, pedindo que se extendesse á sua ordem a
secularizaçaõ do clero regular.
A Commissaõ, nomeada pelas Cortes, para indagar e fazer o
seu relatório, sobre os negócios ecclesiasticos, propoz o se-
guinte :
1. Que para o anno que vem, se cobrassem os dízimos pelas
municipalidades, debaixo da direcçaõ de deputaçoens provin-
ciaes, sem a intervenção do clero.
2. Que as municipalidades pagassem, desde o anno de 1821
em diante, somente a metade do que até aqui pagavam.
3. Que do producto dos dízimos se pagassem em cada pro-
vincia as despezas das igrejas, segundo um regulamento, que
para isso se deve fazer.
4. Que do remanescente se sustentem os estabelicimeBtos de
instrucçaõ publica, de beneficência e de charidade.
5. Que as sobras se ponham á disposição do Governo, e for-
mem um dos artigos da receita publica.
Miscellanea. 199
6. Que a commissaõ de Finanças proponha os meios para a
subsistência do clero regular.
O seguinte he um resumo do relatório, que fizeram os diffe-
rentes Ministros, sobre a situação actual du Hespanha, em suas
diversas repartiçoens ; e como seria incompativel com os nossos
limites dar por extenso os relatórios, contentamo-nos com este
abstracto copiado das gazetas Francezas.
Repartição do Estrangeiro. O Ministro dos Negócios Es-
trangeiros annunciou, que as relaçoens da naçaõ, com as potên-
cias estrangeiras, eram perfeitamente pacificas e amigáveis, ex-
cepto a respeito dos Estados-Unidos, e da Corte de Portugal.
Com esta, observou o Ministro, existiam algumas differenças,
sobre a tomada de Monte-Vídeo; e cora os Estados-Unidos sobre
o tractado das Floridas : mas os princípios de moderação e justi-
ça, que dirigem as nosas operaçoens diplomáticas, nos dam razaõ
para esperar, que estas differenças se ajustarão de maneira ho-
norífica para a Hespanha, e que naõ alterarão nem ainda leve-
mente o systema de paz estabelecido na Europa.
Interior. O Ministro do Interior referio por menor todos os
ramos da administração publica, connexos com esta repartição,
e especificou os meios adoptados para seu melhoramento. Esta
repartição do Governo requererá mais longo tempo em sua orga-
nização ; porque tudo deve eer regenerado, na conformidade do
relatório sobre a economia política, e administração civil do
Reyno, em ordem a dar novo estimulo á agricultura, commer-
cio, fabricas, e artes ; e para promover a prosperidade geral da
naçaõ.
Colônias. O Ministro das Colônias em seu relatório, sobre
a situação da America, referio miudamente entre outras cousas,
as medidas adoptadas por El Rey, para reconciliar as differenças
existentes, e para a reunião das colônias com a metrópole. Ne-
gou que fossem verdadeiros os rumores, de se contemplar uma
expedição para a Ameiica, e explicou o que tinha dado lugar a
estes falsos rumores.
Justiça. O relatório do Ministro de Justiça abraçou somente
o período subsequente aos 9 de Março, deste anno. Deo conta
200 Miscellanea.

dos decretos assignados por El Rey, para consolidar o systema


constitucional, e fazer observar as leys ; expôz o estado dos tri-
bunaes da Corte e outras partes do Reyno: e referio o que ja se
tinha feito para o estabelicimento de Juizes de Primeira Instân-
cia, conforme a divisão de districtos, adoptada pelas Cortes.
Disse, que se tinha disposto de alguns benefícios ecclesiasticos,
para remunerar certos indivíduos nomeados, que haviam soffrido
perseguiçoens, por causa de sua adhesaõ ao systema constitu-
cional. Demoróu-se muito sobre as medidas adoptadas a res-
peito do clero regular, que representou como igualmente vanta-
josas aquella classe e ao corpo total da naçaõ ; e referio os ar-
ranjamentos ja feitos, para prevenir o augmento dos conventos
los Jezuitas, permittindo somente um nas cidades em que ha-
via mais de um, e tirando de suas maõs a instrucçaõ publica.
Finalmente o Ministro defendeo as medidas, que se havl.ini
idoptado para segurar-se das pessoas dos deputados, que assig-
nâram a representação, no anno de 1814, e a respeito dos quaes
ficou reservado ás Cortes o pronunciar a sentença.
Guerra. O relatório do Ministro da Guerra produziu a mais
lolorosa impressão. Parece, que esta repartição se acha na
nais deplorável condição ; que he indispensavelmente necessário
íffectuar immediatamente uma reforma no exercito, e mudar a
sua organização: que a í o r ç a militar existente, comprehenden-
lo todas as armas, he de cerca de 53.705 homens, exclusivo du
Guarda Real, e 7.083 de cavallaria; que, naõ obstante a re-
Jucçaõ de 10.000 officiaes, o numero, que ainda ficou, éra além
:le toda a proporção para o exercito; que se tinham diminuído
eonsideravelmedte os corpos da Guarda Real; e que a falta de
linheiro, e distribuição parcial do soldo, tinha reduzido os offi-
:iaes á maior penúria; que a maior parte delles havia estado por
annos a meio soldo, ainda que em serviço activo, que o exercito
está em estado de vergonhosa nudez; que na cavallaria somente
ipiinze regimentos tem os seus fardamentos e petrechos em tole-
rável condição; que o fardamento e armamento da infanteria
laõ eram uniformes, e geralmente máos; que tinham somente
57.000 espingardas, 6.000 das quaes ja se naõ podiam usar-
Miscellanea. 201
que a cavallaria tinha 10.000 carabinas, e que nas pistolas e
espadas naõ havia uniformidade ; e que os arreios somente eram
tegulares em sette regimentos.
Decreveo depois o Ministro o deplorável estado da artilheria;
que se achava absolutamente desprovida de todo o material; e o
supprimento de muniçoens, que tinha, éra apenas sufficiente
para um só dia de serviço em batalha. Os corpos de milícia,
levantados em 1818, apresentam uma força de 33'809 homens,
commandados por 140 chefes ; a guarniçoens, castellos, &c. es-
taõ no mais miservavel estado; e o mesmo acontece ás forta-
lezas nas costas. A educação militar naõ tem tido mudança; e
a repartição de instrucçaõ theoretiea e practica dos militares,
naõ precisa de reforma. As baixas e reformas, que se tem con-
cedido a officiaes tem poupado algumas somtnas ; e o numero dos
inválidos he de 7.838 homens.
Recapitlou entaõ toda a força da Península ; a da infanteria,
incluindo milícias, disse que consistia em 87.779 homens: ca-
vallaria em 6.338; e a despeza de todo o exercito avaliou em
352:007.000 reales.
Entrou depois nas particularidades dos estabelicimentos colo-
niaes. As ilhas de Porto Rico, S. Dominigos e Cuba gozam
de profunda tranquillidade. No México existem somente al-
guns bandos de insurgentes, que naõ causam apprehensoens;
mas lie necessário manter aquelle paiz em pé de guerra. A
devastação, que tem produzido as revoluçoens, sente-se mui
severamente na America Meredional, que experimenta os effei-
tos de uma guerra excitada pela ambição de estrangeiros. Ainda
que he impossível dar idea exacta das forças mitares naquelles
paizes, o ministro auniniciou, que desde 1815, naõ menos do
que 42.177 homens de todas as armas, se transportaram para ali,
5.000 dos quaes furam de Porto-Rico.
As forças na Ilha de Cuba, incluindo a milícia, montam a
10.995 homens, e 977 cavallos •• as da America Septentrional,
chegam a 41.036 de infanteria e cavallaria, que occupam uma
extensão de 82.142 milhas quadradas. Ultimamente, ajunctando
V O L . XXV. N°. 147. c c
202 Miscellanea.
as tropas que estaõ nos outros postos da America Septrional
consistindo em cerca de 10.178 homens, que formam a guar-
niçaõ das Phillipinas, se achará que o exercito nas colônias
monta a 96.578 homens, e 8.419 cavallos. As guarniçoens na
America estaõ no peior estado possivel.
Marinha. O Ministro da Marinha, no seu relatório, expôz
a miserável condição, a que se acha reduzida esta Repartição,
insistio afincadamente na necessidade de reger este importan-
tíssimo ramo, e de o augmentar ao maior ponto possivel, con-
struindo o maior numero de navios, que as finanças permittirem.
Referio-se a uma proposição, que se fez nas Cortes passadas,
de augmentar a esquadra até 23 navios de linha, 20 fragatas,
18 corvetas, 26 brigantins, e 18 chalupas de guerra.
Finanças. O Ministro da Fazenda entrou era longo e com-
plicado discurso. Deo conta do estado do Thesouro aos 9 de
Março; explicou quaes eram os recursos disponíveis, e notou
os modos practicaveis de supprir as faltas. Propoz algumas
modificacoens nas dotaçoens da Familia Real, e solicitou a ap-
provaçaõ das Cortes para um imprestimo de 40:000.000, que El
Hey abriria, e para o qual só se tinham assignado 5:000.000.
Descreveo o miserável estado das Finanças, indicou o modo de
melhoiar o systema, e as difficuldades, que se oppunham á re-
forma. Especificou os abusos; e um dos principaes éramos
impostos meramente temporários, e que na Hespanha nunca se
tornavam a tirar. Daqui a necessidade de consultar as opinio-
ens e habilidades de differentes pessoas, antes que se submet-
tesse novo plano de contribuiçoens. Explicou as causas, que
se oppunham ao estabelicimento de contribuiçoens directas, e
mencionou a indisposição do clero, da nobreza, e das pessoas
em empregos públicos, em contribuir as suas porçoens, como
um dos principaes impedimentos. Demonstrou a necessidade
de uma refoima, e de dar publicidade a tudo quanto respeita as
Finanças. O Ministio concluio o seu relatório notando a inexac-
tidaõ e inutilidade das leys sobre as alfândegas ; a perniciosa e
má tendência da repartição dos correios, e das leysprohibitivas:
propoz a uniaõ das repartiçoens dos Correios e da Fazenda; e
Miscellanea. 203
reprovou o absurdo das leys penaes, a respeito do systema das
Finanças
Finanças.

Total das rendas. Despezas em Producto


ordenados,&c. liquido.
Reaes de Vell. M. R. Vn. M. R. Vn. M.

Alfândegas 107:256.279-18 10:616.324- 5 96:841.710-32


Direito da laS 17:671.698-32 953.359.30 16:718.339- 2
D* Provinciaes 141:87501117 23:143.906-11 118:729.105- 6
Catastro,Equi-
valenteeTalla 57:471.543, 9 1:511.514-12 55:960.028-31
Tercias Reales 3:699.978-31 166.241- 7 3:533.737-24
Tabaco 72.100.915-10 26:683.763-33 45:556.417-11
Sal 64:821.957- 8 27:448.069- 4 37:755.385-19
Chumbo 4:647.053- 4 1:114.675- 1 3:532.378- 3
Pólvora 3:696.348-33 294.322-32 3:402.026- 1
Rentillas 243.865- 5 128.123-18 858.603-21
Sêllo 11:103.479- 0 364.767- 0 10:738.612- 0
Barracamento 17:356.328-19 504.419-18 17:305.909- 1
Noveno 24:657.671- O 24:657.671- 0
Escusado 19:022.480-0 19:022.480-0
Das Canárias 3:463.801- 0 3:463.801- O

Total 549.786.411-16 92:475.487- 1 458:056.205-15


Incidentes 21:326.048- O
Total em Reales de Vellon 479:382.253-15

A estas rendas se accrescentam as seguintes :—


I o . Patrimônio Real. Naõ se sabe ainda a somma.
2. Direitos para pagar os juros da divida publica, igual a
um terço dos direitos de alfândega. Desde o anno de 1808, se
suspendeo o pagamento dos juros, e estas rendas entraram no
thesouro.
204 Miscellanea.
3 . Dízimos, recebidos pelo clero. Naõ se sabe a somma.
4. Cáes e direitos commerciaes, recebidos pela Juncta do
Commercio, applicados a exigências locaes.
Total das rendas . . 549:786.411-16
Despezas e sallarios . . 92:475.487- 1

Producto liquido . . 479:382.253-15


Despeza publica sem incluir os juros da divida 946:273.843- O

Déficit . . 466:891.590-

Daqui se vê que a despeza tem sido quasi o dobro da receita


annualmente.
Da exposição dos Ministros, nas differentes repartiçoens he
manifesto, qual deve ser a tarefa de reduzir a ordem o chãos, em
que se achava a Hespanha; e com tudo, os Hespanhoes parecem
indefatigaveis em seus trabalhos, e o Governo assim como as
Cortes em adquirirem por sua assiduidade a confiança da naçaõ-
As gazetas Francezas noticiaram um formidável movimento
de contra-revoluçaõ na Galliza; cujo foco tinha sido nas frontei-
ras de Portugal; e tendo por cabeças o Medico Barcia, e o Ca-
pitão Cicero Blanco, alcançaram armar em seu favor grande nu-
mero de camponezes : diziam riiais, que o Duque dei Infantado,
que se refugiara em Portugal, e residia em Valença do Minho,
estando em combinação com o Arcebispo e clero de S. Tiago
de Compostélla, tramara estra contra-revoluçaõ para deitara
baixo o partido das Cortes. O Governo, que se estabeleceo
para organizar esta contra-revoluçaõ, intitulou-se a Juncta
Apostólica.
Qualquer que fosse a extençaõ desta revolta, em breve se dis-
sipou, mandando o Chefe Politico de Galliza algumas tropas,
que dispersaram os insurgentes, a ínaior parte dos quaes se re-
fugiou em Portugal. Isto consta de um officio do Chefe Politico
de Galliza, datado de Corunha aos 17 de Julho, e recebido em
Madrid aos 2 1 , pelo Ministro do Interior, a quem éra dirigido.
Miscellanea. 205

NÁPOLES.

A revolução Napolitana, parece que tem encontrado alguma


opposiçaõ; e a maior pi ova disso he, que se julgou necessário
instituir uma Commissaõ extraordinária de Policia, com o nome
de Committé de Segurança Publica, como se vê pelo decreto,
que deixamos publicado a p. 138. Este nome, fazendo-nos
lembrar a sua origem na revolução Franceza, naõ nos dá agouro
agradável.
O Committé, logo que começou suas funcçoens, expressou ao
Principe, Vigario-Geral do Reyno, que o povo necessitava da
Constituição; e em conseqüência nomeou S. A. R. uma commis-
saõ, para traduzir do Hespanhol para o Italiano, a constituição
de Hespanha de 1812.
O Principe Vigario-Geral publicou um decreto para a convo-
cação do Parlamento, no I o . de Outubro. Como os princípios,
sobre que esta assemblea se he da organizar, saõ os da constitui-
ção Hespanhola, he escusado referir as particularidades. O
numero dos Deputados para o Reyno Unido se calcula segundo
a hypothese de que aSicilia continuará unida ; e se toma em
o numero de 9 8 : 74 para representar a população Napolitana,
que chega a 5:052.361 almas ; e os outros 24 o povo da Sicilia,
que consiste em 1:681.873 almas. Assim a população de todo
o Reyno dá o resultado de 6:734.234 habitantes.
A proclamaçaõ, que acompanha este decreto, convida todos
os cidadãos a esquecer-se do espirito de partido; a considerar a
importância de suas funcçoeus, como eleitores; e. visto que o
futuro Parlamento será revestido do poder de fazer aquellas mu-
danças na constituição, que forem necessárias para a adaptar ás
necessidades e situação da Monarchia, o decreto ordena, que
os eleitores só nomeiem homens probos e virtuosos.
No dia seguinte ao em que El Rey, o Principe Hereditário, e
o Principe Leopoldo juraram a constituição; cousa de 300 ho-
wens do reçirnento Farneze, que tinham ordem de ir guarnecer a
206 Miscellanea.
fortaleza de Gaeta, recusaram marchar; foram porém tomados
por alguma tropa de cavallaria mandada contra elles, mas naõ se
fez isto sem haverem algumas mortes.
Este distúrbio em Napoies foi cousa de pouco momento, mas
em Palermo, capital da Sicilia, houve outro mui sério como se
se veda seguinte narrativa, tirada das mesmas gazetas Napoli-
tanas.
Logo que se soube na Sicilia da revolução de Napoies, se arvo-
rou em Palermo a bandeira tricolor Napolitana, o Vice-Rey e
mais authoridades reconheceram a nova ordem de cousas, e toda a
cidade naõ apresentou mais do que uma scena de alegria e festivi-
dades. No dia seguinte 15 de Julho, lembráram-se os Sicilianos
de sua antipathia nacional, contra os Napolitanos, e aj une taram
á bandeira tricolor uma tira amarela, que he a côr de Sicilia. O
General Church,um official Inglez no serviço de Napoies, rasgou
este signal de independência, e com seu indiscreto zelo de tal
modo irritou o povo, que este incidente foi causa de sérias des-
graças. A populaça atacou a casa do General Church, a guarda
fez fogo ao povo. A multidão soltou os facinorosos das cadeas:
e seguio-se geral saque, roubos e mortes, dizendo-se que o seu
numero chegou a 2.000, alem de 3.000 feridos. Nomeou-se
uma guarda cívica para acalmar a sediçaõ ; mas esta medida naõ
produzio effeito. A populaça armada tomou as fortalezas, apos-
sou-se dos armazéns e muniçoens ; e por fim elegeo-se uma junc-
ta provisional de governo, como único meio de parar aanarchia.
As poucas tropas, que esta Juncta pôde encorporar, para man-
ter sua uthoridade, naõ foram capazes de resistir ao furor po-
pular.
Nestes termos o Principe Vigario-Geral do Reyno expedio a
proclamaçaõ, que publicamos a p. 189, e despachou navios com
algumas tropas, para sustentar a Juncta Provisória, que também
confirmou, por entanto, no Governo da Sicilia. Estas e outras
medidas se esperava que produzissem o restabelicimento de
tranquillidade.
A nova constituição foi proclamada em Messina, no meio das
acclamaçoens dos habitantes. Em Palermo a scena he bem dif-
Miscellanea. 207
ferente, aos 19 de Julho ainda se combatiam os partidos conten-
dentes. O resto das tropas, que tinham ganhado posse do Cas-
teliamare, aos 17, foram dali expulsadas aos 18, depois de vio-
lenta canhonada, e retiráram-se para um outeiro, d'onde faziam
fogo contra os insurgentes. No interior da ilha havia também
dous partidos, um que deseja formar a Sicilia em Estado inde-
pendente, outro que contende pela continuação da dynastia Na-
politana, com a constituição de 1812.
As cartas de Sicilia de 26 de Julho, dizem, que aos 20 se
achava restabelecida a tranquillidade em Palermo, nas outras
partes da ilha naõ tinha havido commoçoens. Alguns nobres,
que tinham recusado admittir a constituição de Napoies presta-
ram a ella juramento, e a demais se entregaram como reféns, e
se acham no Castello de Sant-Elmo.

ROMA.

Os sentimentos políticos, que excitaram a revolução de Ná-


poles, parece que se extendem a outras partes da Itália; e pri-
meiramente se sentiram seus effeitos nos Estados Ecclesiasti-
cos. Em Benevente arrebentou uma sediçaõ, que sem duvida
éra apoiada pelos Napolitamos, como se deduz do seguinte edic-
to do Principe Vigário Geral de Napoies.

Fernando 1. &c. Nos Francisco, Principe Hereditário, Vi-


gário Geral do Reyno.
Tendo recebido informação de um movimento, que houve na
cidade de Benevento; e desejando evitar, com o maior cui-
dado possível, tudo quanto possa de qualquer maneira pertur-
bar a boa intelligencia com Sua Sanctidade, e prevenir que
qualquer habitante deste Reyno se intrometia nos negócios do
Estado de Benevento, fazemos saber a todo o nosso amado
povo, que, para preservar a sua independência, he necessário
208 Miscellanea.
respeitar a independência dos outros Governos, e evitar religio-
samente tudo quanto possa comprometter a boa intelligencia
com a Corte Pontifícia. Ordenamos, em conseqüência, que
nenhum habitante deste Reyno se attreva a introduzir gente
armada nos Estados Vizinhos, nem a ingerir-se de qualquer
maneira nos seus negócios. Os que obrarem em contravenção
desta ordem, seraõ castigados com todo o rigor das leys,
segundo o artigo 117 e seguintes do Código Penal.

Napoies, 12 de Julho, 1820.

(Assignado) FRANCISCO. Vigário Geral.

Contrassignado pelo Secretario de Estado, Ministro de


Justiça.
RICCIARDI.

Uma carta de Napoies do I o . de Agosto diz, que os dous


principados de Benevento e Pontecorvo, entraram em uma ne-
gociação com a Corte de Roma, pela mediação de Napoies, pe-
dindo concessoens e novas instituiçoens, antes de voltar á su-
geiçaõ do Papa ; mas o Governo Pontifio exigio, que seentregas-
sem sem condiçoens, e o resultado foi, que ambos os Estados
se declararam Governos independentes.
Por uma carta de Roma, de 20 de Julho, se sabe que em
Ponte Corvo houvera aos 4 do mesmo mez uma commoçaõ
popular similhante á de Benevento ; e com o auxilio de algu-
mas milicas Napolitamas, que lhe ficaram vizinhas, expulsa-
ram o Governador.
Pela natureza do Governo Pontifício nos parece evidente, que
a Corte de Roma naõ tem forças bastantes, para supprimir com-
moçoens, que tudo indica um progresso de se fazerem geraes:
mas, por outra parte, esta mesma circumstancia será o melhor
pretexto, para o Imperador de Áustria se ingerir na disputa,
enviando tropas em auxilio do Papa ; e nesse caso a indepen-
Miscellanea. 209
dencia de toda a Itália deve ficar mais precária do que nunca
Com effeito ja se diz, que parte das tropas Austríacas, que
marcham para a Itália, se destinam a tomar posse de Ancona.
Pôde porem duvidar-se, até que ponto as outras potências da
Europa consentirão, nesta influencia exclusiva do Imperador de
Áustria na Itália.

RÚSSIA.

Copiamos a p. 141 a resposta do Imperador de Rússia, ao


Ministro Hespanhol, o Cavalheiro Zea; e a circular do Gabi-
nete Russiano ás outras Cortes Aluadas. Estes documentos tem
feito grande bulha no mundo, e tem servido de fundamento
para vários ataques contra o charaeter e ideas liberaes do Impe-
rador de Rússia. Naõ podemos deixar de dizer, que taes cri-
ticismos nos tem parecido demasiado severos.
Diz o Imperador, e confessa, que o Governo Representativo he o
único, que dá esperanças de introduzir na Hespanha a prospe-
ridade e a tranqüilidade. Ate aqui naõ teraõ de que se queixar
os partidistas das ideas liberaes, e nem nos, que também os se-
guimos.
Mas declara-se o Imperador contra a idéa, de que taes refor-
mas se devessem fazer pelas tropas : aqui se dividem as opinio-
ens. Os que tem atacado o Imperador de Rússia, julgam este
sentimento contrario ao liberalismo do nosso século; nós po-
rem julgamos mui natural, e mui razoável a objecçaõ do Im-
perador; e mui bem fundados os temores, que elle exprime,
sobre as conseqüências funestas de tal exemplo. Se os soldados
saõ os que haõ de dictar a forma de Governo, he impossive
esperar regularidade nem deliberação na formação das leys ; e
ninguém, que conhece a historia Romana, ou a practica dos Ja-
VOL. X X V . N.° 147. DD
210 Mizcellanea.
nizaros,póde duvidar dos horrores que se seguiram á eleição
dos Imperadores Romanos, pelas cohortes Pretorianas. nem a
anarchia, que tam repetidas vezes promovem os Janisaros de
Constantinopla, sempre que se intromettem a decidir, quem
deveoccupar o throno do gram Sultaõ.
Agora quanto ao remédio, que o Imperador de Rússia pro-
põem, contra o máo exemplo do que succedeo em Hespanha,
naõ vamos do accordo coin o Gabinete Russiano; e menos ainda
nos agrada o passar-se por alto nestes documentos, a causa
porque a introducçaõ dessas instituiçoens na Hespanha foi
effectuada pelas tropas.
Se as instituiçoens, a que o Imperador allude, eram o único
meio de segurar a tranquillidade e prosperidade da Hespanha,
éra do dever do Rey o têllas effectuado; e, naõ fazendo isso,
expoz a sua naçaõ a que as tropas ou o povo o fizessem de um
modo tumultuario, perigoso, e sempre accompanhado de funes-
tissiinos males; os quaes, se, por uma excepçaõ rara, naõ ac-
contecéram na Hespanha, eram tanto de temer, que mui culpado
devemos suppôr El Rey, por se ter exposto ao quasi certo peri-
go, que succedessem.
Quanto ao plano do Gabinete Russiano, de convidar as mais
Cortes Europeas, a que exijam do presente Governo Hespanhol
uma desapprovaçaõ formal do modo por que a constituição de
1812 foi restabelecida, parece-nos de todo inútil.
Grande parte das instituiçoens políticas da Europa, derivadas
do systema feudal, saõ de todo incompatíveis com os custumes
e ideas do nosso século ; e por tanto naõ podem subsistir. As-
sim, ou os Governos as haõ de alterar por si mesmos, ou convul-
soens violentas, seja das tropas seja do povo, as derribaraõ,
sempre que a occasiaõ se apresente.
Se, no furor das commoçoens, se substituirem a essas institui-
çoens antigas, de que falíamos, outras naõ adaptadas ás idéas
e custumes actuaes, por mais bellas, por mais perfeitas que se-
jam na theoria, nunca se poderão por em practica : exemplo a
França, que durante esta revolução tem feito innumeraveis ex-
Miscellanea. 211

perimentos, e constantemente se tem visto obrigada a dar passos


retrogados.
Observamos, que os melhoramentos nas instituiçoens políticas
de Rússia, desde o tempo de Pedro Grande, tem sido progressi-
vos e daptados ao adiantamento de sua civilização, e por isso
duradoiros: assim desejaríamos que o actual Imperador, quan-
do exprime aquella verdade, a que de tam boamente subscreve-
mos, que " estas instituiçoens deixarão de ser um meio de ob-
ter a paz e felicidade, se em vez de serem outorgadas pela bon-
dade como concessão forem adoptadas pela fraqueza como único
recurso para a salvação ; " o dicto Imperador ao mesmo tempo in-
sistisse na necessidade de que essas instituiçoens se outorgassem
a tempo de prevenir o serem depois adoptadas pela fraqueza; o
que todo o Governo prudente pôde alcançar, fazendo que as in-
stituiçoens politicas, sigam a passo as mudanças dos custumes
nas naçoens.
CORREIO RRAZILIENSE
DE SEPTEMBRO 1820.

Na quarta parte nova os campos ára;


E se mais mundo houvera lá chegara.
CAMOENS. c . v i l . e 14.

POLÍTICA.

REYNO UNIDO DE PORTUGAL, BRAZIL, E ALGARVES*

Alvará ampliando o de 25 de Abril ISIS; a favor da in-


dustria dos Povos.
Eu El Rey faço saber aos que este Alvará com força
de ley virem, que, tendo-me representado os Governa-
dores do Reyno de Portugal, e outras pessoas do meu
Conselho, e zelosas do meu serviço, e dos interesses re-
cíprocos do Reyno Unido, ser muito convenient ampli-
ar as disposiçoens do Alvará de vinte e cinco de Abril
de mil oitocentos e dezoito, tanto para occorrer a algum
abuso, que se possa introduzir, como para favorecer,
quanto he compatível com as outras urgências do Estado,
o progresso da cultura e industria dos povos; e confor-
mando-mecom o seu parecer: sou servido determinar:
Voi. XXV. V. 148. EE
214 Política.
1.° Que todo o vinho estrangeiro pague por entrada nos
Portos do Brazil, além dos direitos estabelecidos pela>
Tarifa ordenada no sobredicto Alvará, um direito addi-
cional da quantia de oito mil réis por pipa de cento e oi-
tenta medidas. Este direito será applicado para as des-
pezas militares, e de estabelecimentos públicos: será co-
brado pela alfândega, e remettido ao erário, do qual irá
entrando no banco do Brazil, para eu o mandar destinar
como melhor convier.
2.° E porque se tem observado abuso no favor da quar-
ta parte dos direitos do vinho, agoa-ardente, e azeite
Estrangeiro, vindo em embarcaçoens Portuguezas, por
se deixar a producçaõ Nacional, para se transportar a
Estrangeira: hei por bem mandallo suspender, ficando
nesta parte reformada a Tarifa do sobredicto Alvará.
3.° Hei outro sim por bem determinar, declarando, e
Tevogando o privilegio concedido à Companhia da agri-
cultura das vinhas do Alto Douro, pela mudança que
tem havido de circumstancias; que o privilegio, que tinha
para algum dos portos do Brazil, se fique entendendo, e
observe a respeito do vinho legal, e de embarque, e cora-
prehenda a todos os Portos do Brazil; o qual somente a
Companhia poderá transporter directamente, ou por es-
calla para qualquer dos portos, e o poderá vender enva-
silhado, ou engarrafado, à convenção das partes, sem su-
geiçaõ a taixa. E que o vinho chamado de ramo fique
permittido a qualquer Lavrador, ou negociante Portu-
guez o remettéllo e vendei Io nos Portos do Brazil, como
lhe convier, e por quaesquer consignatarios, pagando os
direitos estabelecidos.
4.o Determino que o trigo Estrangeiro, assim como o
milho, cevada, senteio, e farinha Estrangeira, que en-
trar pela fóz nos Portos de Portugal e algarve, pague,
como direito de entrada, a dizima em espécie. A arre-
Política. 215
cadaçaõ se fará pelo Terreiro de Lisboa, e nas outras
partes pela alfândega; e naõ se entenderá comprehendida
a vendagem do Terreiro de Lisboa, de vinte réis por al-
queire de farinha, destinada à manutenção daquelle esta-
belecimento. E este direito da dizima em espécie, ou o
seu preço, quando estiver em contracto, terá a mesma na-
tureza e applicaçaõ, que tem a décima; por ser justo nao
somente que a este subsidio, que se acha diminuto, a o
cresça algum outro rendimento; mas também que o seja
por este gênero, que se achava isento do direito geral da
dizima por entrada, com oppressaõ dos Lavradores do
Reyno, que pagam dízimos dos seus fructos. Permitto po-
rém que nos annos de carestia possa hever convençoens
sobre a quantidade deste deireito com os importadores
dos sobredictos gêneros.
&°. Ordeno que o Sal da producçaõ de Portugal e Al-
garve pague metade dos direitos por entrada nos portos
do Brazil. O mais Sal Portuguez continuará a pagar o
mesmo direito de oitenta réis por alqueire, medida do
Rio-de-Janeiro, que actualmente paga. E o Sal Estran-
geiro pagará direito dobrado. E por esta disposição se
naõ entenderão alteradas as diversas contribuiçoens, que
tiver em alguns lugares.
0°. Ordeno outro sim, que o Atum, Sardinha, ou outro
qualquer Peixe da Pescaria de Portugal, ou Algarve,
seja livre de direitos de entrada nos portos do Brazil, e
dominios Portuguezes. Assim como também o pano de
Linho, Linhas, e Burel, e a Saragoça fabricados em Por-
tugal : apresentando as competentes attestaçoens do Ma-
gistrado do lugar, ou da Alfândega por onde se expor-
ta te m.
7°. E por quanto he também necessário que as rendas
do Estado se naõ desfalque m pela urgência das despezas,
a que ellas saõ destinadas, quando também convém di-
216 Política.
rninuir as que fazem mais gravame: hei por bem de-
terminar: que a agua-ardinte dei consumo nas Cidades,
Villas, e Povoaçoens do Brazil pague mais um direito
de oito mil réis por pipa de cento e oitenta medidas,
além dos direitos, que actualmente paga. Naõ se en-
tenderá por este motivo abolida a prohibiçaõ, que em
alguns districtos ha, ou possa haver das vendas daAgoa-
ardente por miúdo, em razaõ da desordem, que occasio-
na entre os escravos. E exceptuo desta imposição as
Provicias do Rio Grande de Saõ Pedro, Santa Catharina,
Saõ Paulo, e Matto Grosso.
8. Hei outro sim por bem abolir a imposição chamada
Subsidio Militar, de seis centos e quarenta réis por ca-
beça de Gado Vacum, que se pagava nas Provincias do
Ceara, Rio Grande do Norte, Parahyba, e Pernambuco;
pois que pelas outras rendas do Estado tenho mandado
occorrer ás despezas da tropa, e milícias.
9. Para evitar alguns inconvenientes, que tem occorido
na observância do parágrafo treze do sobredicto Alvará
de vinte e cinco de Abril de mil oitocentos e dezoito, de-
termino, que para serem admittidos nos portos Portu-
guezes os navios de qualquer naçaõ Amiga ou Alliada,
deverão appresentar o Passaporte, ou documento legal,
segundo o uso estabelicido em cada uma dellas, que le-
galize a Naçaõ, a que pertence, é o destino da sua via-
gem : e manifesto das alfândegas, ou declaração authen-
tica de toda a carga, que trazem a seu bordo; e este
virá reconhecido, e certificado pelos Cônsules ou Vice-
Cônsules Portuguezes do porto donde sahirem; e onde
naõ houver Cônsules, ou Vice-Consules, viraõ authen-
ticados por aquella Authoridade Civil, ou Commercial,
que poder tenha para o fazer; sem o que naõ seraõ ad-
mittidos, e seraõ mandados sahir. E os Navios Portu-
guezes, que sahirem para algum porto, deverão igual-
Política. 217
mente levar o manifesto da carga, reconhecido, e certifi-
cado pelo Cônsul ou Vice-Consul da Naçaõ,aquém per-
tencer o Porto para onde se destinam. Pelo que porém
pertence aos Navios Inglezes, se continuará a observar o
que se acha convencionado.
10°. E as sobredictas determinaçoens principaraõ a ob-
servar-se do primeiro de Janeiro do futuro anno de mil
oitocentos e vinte e um em diante.
Este se cumprirá como nelle se contém: pelo que
mando â Meza do Desembargo do Paço, Presidente do
meu Real Erário, Regedor das Justiças, Conselho da
minha Real Fazenda, Governador da Relação e Casa do
Porto, e a todos os Tribunaes, Ministros de Justiça, e
mais pessoas, a quem pertencer o cumprimento deste
Alvará, o cumpram, e guardem sem embargo de quaes-
quer leys, ou disposiçoens em contrario, que todas hei
por derrogadas, como se de cada uma fizesse expressa
mençaõ. E valerá como carta passada pela Chancellaria,
posto que por ella naõ ha de passar, e que o seu effeito
haja de durar mais de um anno, naõ obstante a Ley em
contrario. Dado no Palácio do Rio-de-Janeiro em trinta
de Maio de mil oitocentos e vinte.
REY.
Thomaz Antônio de Villa-Nova Portugal.

Provisão, pelo Conselho da Fazenda no Brazil, sobre a


franquias dos nayios.

Dom Joaõ Por Graça de Deos, Rey do Reyno Unido


de Portugal, e do Brazil, e Algarves, d'aquem, e d'alem
Mar em África, Senhor de Guiné, etc. Faço saber aos
que a presente provisão virem: que, sendo-me presente o
methodo irregular, com que em algumas alfândegas des-
te Reyno, e domínios, se procede nos despachos dos na-
vios que tocamos respectivos portos por franquia: fui
218 Política.

servido ordenar ao Conselho da minha Real Fazenda, que


expedisse as ordens necessárias a todas as sobredictas
alfândegas, para que nos casos de entrada de navios
quaesquer por franquia, que descarreguem alguma carga
epertendam com o resto seguir também por franquia para
outro porto, ou cm ultima derrota, se observe a regra de
dar ao Mestre do Navio o manifesto original, e uma lista
da carga que despachar, em carta de officio, dirigida pelo
Juiz da Alfândega donde for assim despachado o Navio
para o Juiz da Alfândega do porto a que se destinar; a
fim de que por estes documentos authenticos alli se pos-
sam fazer as combinaçoens a final necessárias; evitando-
se o extravio, e desagradáveis contestaçoens, que do con-
trario podem ter lugar. E para que esta minha Real
determinação tenha o seu devido effeito no expediente
das sobredictas alfândegas, a mandei fazer publica por
meio desta. El Rey Nosso Senhor o mandou por seu
especial mandado, pelos Ministros abaixo assignados, do
seu Conselho, e do de sua Real Fazenda. Manoel Jozé
de Souza França a fez no Rio-de-Janeiro, aos treze de
Março de mil oitocentos e vinte. Antônio Feliciano
Serpa a fez escrever.
L u i z B A R B A A L A R D O DE MENEZES.
D O U T O R PRANCISCO X A V I E R DA SILVA CABRAL.
Por Aviso do Ministro e Secretario de Estado Thomaz
Antônio de Villanova Portugal de 28 de Fevereiro de
1820; e despacho c> Conselho do 1.° de Março do dicto
anno.

Avizo ao Conselho da Fazenda em Lisboa, sobre o des-


pacho das mercadorias Inglesas, na Alfândega.

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor.—Pertendendo


os negociantes Inglezes, que se despachassem nas Alfan*
Política. o\g

degas Portuguezas todas as mercadorias Britannicas, pelo


valor que apresentassem seus donos, ainda que o tivessem
na pauta, e que se naõ observasse a practica de separar-
se de uma caixa, ou fardo, suspeito de fraude, só aquel-
la mercadoria; que pela sua qualidade agradasse aos offi-
ciaes das alfândegas, por ter prompta venda, e ganho
certo, deixando as mais, que naõ estaõ nessas circunstan-
cias, e serviaõ de surtimento: El Rey Nosso Senhor
houve por bem mandar, que, na conformidade do trac-
tado de commercio de 1810, naõ só se continuasse a re-
gular o despacho das dietas mercadorias pelas pautas ex-
istentes, quando riellas tem valor designado, e por factu-
ras juradas nos casos em que o naõ tem, mas igualmente
se observasse a practica de tomarem os officiaes das alfân-
degas as fazendas a que o despachante designa valor, quan-
do elles o consideram lesivo, deixando na mesma caixa
ou fardo outras, em que naõ acham a mesma lesaõ, pois
de outra sorte se estabeleceria um meio certo de fraudar-
se a regra, tornando nullo o seu effeito. Mandou outro
sim, a pezar das conhecidas difficuldades que ha de se
fazerem boas, e que prehencham convenientemente o fim
a que se destinam, as pautas que se devem fazer, dar as
suas Reaes ordens ao Juiz d'Alfândega do Rio-de-Janeiio
para dispor, e arranjar previamente tudo quanto seja ne-
cessário para este trabalho, a fim de que se haja depois
de proceder á reunião dos árbitros Portuguezes e Ingle-
zes, segundo as disposiçoens do artigo 15 do mesmo
tractado. O que por ordem do mesmo Senhor Vossa
Excellencia fará presente no Conselho da Fazenda para
sua intelligencia, procedendo nesta conformidade pela
parte que lhe toca. Deos guarde a Vossa Excellencia.
Palácio do Governo em 29 de Julho de 1820.
JOAÕ A N T Ô N I O SALTER DE MENDONÇA.
SENHOR VISCONDE D E BALSEMAÕ.
290 Política.

Portaria dos Governadores de Portugal sobre os direitos


de exportação do Sal.
Tendo novamente representado a El Rey Nosso Se-
nhor as villas de Setúbal, Palmella, e Alcacer do Sal,
que em conseqüência do augmento dos direitos na expor-
tação do sal, ordenado pelo Alvará de 25 de Abril de
1818, tinham inteiramente desapparecido daquelle porto
os Navios Estrangeiros, que alli o vinham buscar: prefe-
rindo para esse fim os Portos de Hespanha, França, e
Gram-Bretanha, onde além de naõ pagarem direito al-
gum, saõ convidados com prêmios proporcionados ás
porçoens que levam; e sendo indispensavelmente neces-
sário occorrer-se á imminente total ruína deste precioso
ramo de commercio, ainda antes de baixara consulta,
que a este respeito se acha affecta a Sua Majestade,
manda o mesmo ^enhor, como providencia interina, que
o direito de todo o sal que se exportar para fora do Rey-
no Unido, fique reduzido a 300 réis por cada moio, in-
cluídos os 3 por cento paia as fragatas : que o sal expor-
tado em Navios Portuguezes para paizes Estiangeiros
pague somente 200 réis por moio, também incluídos os
dictos 3 por cento; e que o preço do sal assim transpor-
tado naõ exceda ao de 1.000 réis por moio. O Conselho
da Fazenda o tenha assim entendido, e faça executar.
Palácio do Governo em 5 de Agosto de 1820.
Com três Rubricas dos Governadores do Reyno.

Portaria dos Governadores de Portugal, sobre a matri-


cula das equipagens dos navios.
Tendo chegado ao Real conhecimento de Sua Majes-
tade os estorvos, que soflre o commercio da praça do
Política. 2-21
Porto com a duplicidade das matrículas das equipagens
dos navios nacionaes, e com as visitas das differentes au-
thoridades, que se practicam alli na saída dos mesmos
navios; e desejando o mesmo Senhor remover, a benefi-
cio do commercio dos seus vassallos, tudo o que des-
necessariamente possa impeccUo, ou molestállo: he ser-
vido ordenar, que as duas matrículas das equipagens dos
navios, que naquella cidade estaõ em uso, se reduzam a
uma só, a qual deve fazer-se pela Intendencia da Mari-
nha, na forma do Alvará de 2 de Julho de 1807 ; e bem
assim, que as visitas a bordo de cada navio Portuguez
na sabida fiquem substituídas por uma única visita, que
satisfaça aos objectos, que se tinham em vista, e que fará
pessoalmente o Intendente da referida Marinha, quando
o navio estiver de todo prompto para navegar, e j á com
piloto practico a bordo; tudo debaixo do regulamento,
que será com esta assignado por D. Miguel Pereira For-
jaz, Secretario do Governo na repartição da Marinha.
As authoridades, a quem o cumprimento desta Portaria
pertencer, o teraõ assim entendido, e executarão, cada
uma pela parte que lhe toca. Palácio do Governo em 13
de Julho de 1820.
Com três Rubricas dos Governadores do Reyno.
Registada a folhas 237 do livro 2.° das leys; Alvarás, e
Decretos do Conselho do Almirantado, e Juncta da Fa-
zenda da Marinha.

Regulamento para a matricula dos equipagens dos na-


vios nacionaes na cidade do Porto, e para a visita dos
mesmos navios na sahida.

I. A matricula, que ha de continuar a fazer-se pela In-


tendencia da Marinha, deverá ser lançada em um livro
V O L . XXV. N". 148. ir
2-2-2 Política.
para este effeito destinado, contendo muito distincta-
mente os uomes, filiaçoens, idades, naturalidades, e sig-
naes de cada indivíduo, e igualmente as soldadas, ou or-
denados, que for vencendo cada um, segundo o ajustado
com o capitão, dono, ou consignatario do navio; e rece-
bendo se a estes respeitos as declaraçoens, que derem os
próprios indivíduos, e conjunctamenteo Capitão, ao qual
se dará um duplicado da mesma matricula, em tudo con-
forme com a do livro, e sendo ambas assignadas pelo in-
tendente, e Escrivão, e pelo Capitão, ou mestre da embar-
cação.
II. A visita que deve fazer o Intendente, quando o Navio
estiver prompto para poder sair, ha de praticar-se com
assistência do Escrivão, e Meirinhoda Intendencia, e do
Patraõ Mor. O Capitão apresentará neste acto todos os
Despachos, e mais papeis, que está ordenado, e em uso
para a legitimidade da Navegação Portugueza; fiscali-
zando o Intendente, se estaõ em regra, porá o seu—Visto
—em todos os que achar conformes: entram essencial-
mente no numeio dos dictos papeis o passaporte do Na-
vio, passado por esta Secretaria de Estado, e os dos Pas-
sageiros, se os levar o Navio, expedidos também por
uma das duas Secretarias de Estado, conforme o destino
do mesmo Navio, ou para os Dominios de Sua Majestade,
ou para portos Estrangeiros; e examinará com par-
ticular cuidado, o Intendente, se vai alguém a bordo
fora da tripulação sem passaporte; executando o que a
tal respeito está determinado nas leys do Reyno, e ordens,
que saõ de todos conhecidas.
III. Na mesma visita se conferirá a matricula com a
Equipagem, e se passará a revista dos sobrecellentes, que
se declararão no verso da Matricula, segundo a lotação do
Navio, e verificação dos que este levar; e só com a appro-
vaçaõ, e o—Visto—em todos os papeis dar-'i o Intendente
Política. 223
o—Passe—, que he da sua authoridade, para a fortaleza
do registo deixar sahir o Navio.
IV. Achando-sé alguma irregularidade essencial, e se
para verificar se foi emendada, o Intendente julgar quehe
precisa nova visita, terá o arbítrio de proceder a ella, o
que com tudo naõ fará sem motivo justo.
V. Concluida a visita, naõ poderá o Navio ter mais
communicaçaõ com a terra, nem receberá mais alguém a
seu bordo, salvo com licença do Intendente, a quem só
desde entaõ fica sugeitooNavio ; mas naõ deixará o mes-
mo Intendente de satisfazer a qualquer authoridade, nos
termos da sua competência, relativamente ao Navio, ou a
alguma das pessoas nelle embarcadas; e podendo retirar
para esse fim o—Passe—-já por elle dado, em quanto a
embarcação naõ tiver sahldo; se assim o achar conve-
niente.
VI. Naõ se procederá á Visita sem o preparo para ella,
entregando-se na Intendencia a importância dos emolu-
mentos, consistentes em os mil e seiscentos réis estabele-
cidos para cada um dos três officiaes na visita dos so-
brecellentes, e nos dous mil e quatrocentos réis para o
Intendente, além do cruzado novo também do estillo
para o escaler. Na secunda visita, quando deva ter lu-
gar, os emolumentos seraõ de metade do que he dado
para a primeira: e fica prohibido receberem os Offi-
ciaes mais cousa alguma pela Visita, nem ainda a titulo
de gratificação voluntária, sob pena de suspensão, ede in-
habilidade para mais servirem.
VII. As embarcaçeons costeiras saõ isentas da visita
da Intendencia, e das Matrículas, como foi já ordenado
em Aviso desta Secretaria de Estado do 1.° de Julho
de 1815, em quanto Sua Majestade naõ mandar o con-
trario.
Palácio do Governo em 18 de Julho de 1820.
D. M I G U E L P E R E I R A FOKJAZ.
221 Política.

Proclamaçaõ dos Governadores de Portugal, sobre a re-


volução na cidade do Porto.

Portuguezes! O horrendo crime de rebelliaõ contra o


poder, e authoridade legitima do nosso Augusto Sobe-
rano, El Rey Nosso Senhor, acaba de ser commettido na
cidade do Porto.
Alguns poucos indivíduos mal-intencionados, halluci-
nando os chefes dos corpos da tropa daquella Cidade, pu-
deram desgraçadamente influillos, para que, cobrindo-se de
opprobrio, quebrassem no dia 24 do corrente o juramen-
to de fidelidade ao seu Rey, e ás suas bandeiras, e se at-
trevessem a constituir, por sua própria authoridade, na-
quella cidade um Governo a que dam o titulo de Governo
Supremo do Reyno.
Bem conheciam os perversos, que maquinaram esta con-
spiração, que só poderiaõ conseguir extraviar coraçoens
Portuguezes occultando-lhes, debaixo de apperencias de
um juramento illusorio de amor e fidelidade ao seu Sobe-
rano, o piimeiro, e tremendo passo que lhes fizeram dar,
para o abismo das revoluçoens, cujas conseqüências po-
dem ser a subversão da Monarquia, e a sujeição de uma
Naçaõ, sempre zelosa da sua independência, k ignomínia
de um jugo estrangeiro.
Naõ vos illudais pois, fieis e valorosos Portuguezes, com
semelhantes apparencias: he evidente a contradicçaõcom
que os revoltosos, protestando obediência a El Rey Nosso
Senhor, se subtrahein á authoridade do Governo, legiti-
mamente estabelecido por Sua Majestade, propondo-se,
como declaram os intrusos, que a si mesmos se constituí-
ram debaixo do titulo de Governo S upremo do Reyno, a
convocar Cortes, que sempre seraõ illegaes, quando nao
forem chamadas pelo Soberano; e a annunciar mudanças
Política. 225
ealteraçoeus, que, quando muito, deviam limitar-se a pedir,
por isso que só podem emanar legitima, e permanente-
mente do Real consentimento.
O nosso Soberano nunca deixou de prestar-se a solici-
taçoens justas, que se dirigem ao bem, e prosperidade de
seus vasallos.
Agora mesmo, pela embarcação de guerra entrada hon-
tem no porto desta capital, acabam de chegar providen-
cias, que seraõ promptamente publicadas, patenteando a
solicitude verdadeiramente paternal, com que se digna
attender ao bem deste Reyno; o que augmenta ainda
mais se he possivel, o horror que a todos deve causar o at-
tentado commetido na cidade do Porto.
Os Governadores do Reyno estaõ dando, e continuarão
o dar todas as providencias, que taes circumstancias im-
periosamente dictam, e que lhes saõ prescriptas pelos mais
sagrados deveres do seu cargo.
Quando porém alguns motivos de queixa, e de justas
representaçoens lhes sejam expostos, elles se appressaraõ
a levallos respeitosamente á Real Presença, lisongeando-se
de que os mesmos indivíduos, já envolvidos em tam crimi-
nosa insurreição, reflectiraõ nas desgraças em que vam pre-
cipitar-se, e voltarão arrependidos à obediência do seu
Soberano, confiados na clemência inalterável do mais
Piedoso dos Monarcas.
Entretanto esperam os Governadores do Reyno, que esta
fidelissima naçaõ conserve constantemente a lealdade, que
foi sempre o seu mais prezado timbre; que o exercito, cuja
heroicidade foi, ha tam pouco,admirada pela Europa toda,
se apresse em apagar a mancha, de que a sua honra está
ameaçada, pelo extravio desses poucos corpos, que incon-
sideradamente se deixaram hallucinar: e que a maioria
da tropa Portugueza conserve, a par da reputação do seu
226 Política.

valor inalterável, a virtude, naõ menos distineta, da sua


fidelidade.
Portuguezes! a conservação intacta da obediência a El
Rey Nosso Senhor he a obrigação mais importante para
todos nós, ao mesmo tempo que he o nosso mais patente
interesse. Haja pois firmeza nestes princípios: concor-
raõ todas as classes para manterá tranquillidade publica,
e promptamente vereis restabelecida a ordem, que os
mal-intencionados se arrojaram á tentativa de transtor-
nar.
He o que vos recommendam, em nome do nosso Ado-
rado Soberano, os Governadores do Reyno. Lisboa no
Palácio do Governo em 29 de Agosto de 1820.
C A R D E A L PATRIARCHA
M A R Q U E Z D E BORBA.
C O N D E DE PENICHE.
C O N D E DA F E I R A .
A N T Ô N I O GOMES RIBEIRO.

Ao Real Erário se expedio o Aviso seguinte:

Illustrissimo e excellentissimo Senhor.—El Rey nosso


Senhor em conseqüência das representaçoens dos Gover-
nadores do Reyno, sobre a falta de rendas, que o Erário
Regio experimenta para occorrerem ás urgentes despezas
do Estado: foi servido determinar, em quanto naõ dava
novas, e efficazes providencias, que o Banco do Brazil sus-
pendesse por ora os Saques mensáes sobre o Erário de
Lisboa, pela assistência da Tropa da divisão dos Volun-
tários Reaes, estacionada em Monte Video; ficando esta
despeza annual de seiscentos contos de reis, a cargo do
Erário Regio do Rio-de-Janeiro. O que participio a
Política. 227
Vossa Excellencia para que assim o tenha entendido, e
faça executar pela parte, que lhe toca.
Deos guarde a Vossa Excellencia, Palácio do Governo,
em 29 de Agosto de 1820.
ANNTONIO GOMES R I B E I R O .

Senhor Marques de BORBA.

Edictal pelo Conselho da Fazenda em Lisboa, sobre a


taixa do sal exportado de Setúbal.

Sendo presente a El Rey Nosso Senhor a Consulta do


Conselho da Fazenda de 11 do corrente, sobre as duvidas
quecomeçam a suscitar-se a respeito da taixa do Sal, que
se exportar do Porto de Setúbal para Paizes Estrangeiros,
estabelecida na Portaria de 5 ; e naõ podendo ter intelli-
gencia diversa da que lhe dá o Conselho, manda Sua Ma-
jestade declarar, que a taixa de mil réis por moio do que
se exportar de Setúbal para os mencionados Paizes, he so-
mente restricta ao sal fabricado nas marinhas de Setúbal,
e Rio Sado para a Roda, pois que esta Roda unicamente
regula nas sobredictas Marinhas, e naõ nas outras do
Reyno. O mesmo Conselho o tenha assim entendido, e
faça executar. Palácio do Governo em 16 de Agosto de
1820.

Com três Rubricas dos Governadores destes Reynos.

E para que assim haja de constar, se faz publico por


esta fôrma. Lisboa 17 de Agosto de 1820.
L Á Z A R O DA S I L V A F E R R E I R A .
J O A Q U I M J O Z E D E SOUZA.
228 Política.

AMERICA HESPANHOLA.

Cláusulas do tractado entre os Governos do Brazil e de


Buenos Ayres, na forma de 16 Artigos addicionaes, ao
Assignado em Maio de 1812.
2. Sua Majestade Fidelissima declara novamente, que a
sua presente ou futura occupaçaõ dos pontos militares,
na margem oriental do Rio-da-Prata, em proseguimento de
Artigas, naõ tem outro objecto mais do que sua própria
segurança e preservação ; e que de similhantes actos naõ
pretende deduzir nenhum direito do dominio, posse per-
petua e muito menos conquista: mas que quando ces-
sarem os sobredictos motivos, procederá a uma transac-
çaõ amigável, com as authoridades, que entaõ existirem
em Buenos-Ayres, pela parte das Provincias Unidas, para
tractar dos termos em que se deve abandonar o mesmo,
e entrar em convençoens, que sejulguem mutuamente ne-
cessárias e úteis para a futura e permanente tranquillidade
de ambos os Estados vizinhos.
8. Os subditos de ambos os estados teraõ livre accésso
nos territórios de cada um, como se fossem pessoas, que
pertencessem a outro qualquer paiz neutral.
10. He concordado, que os navios de guerra e mercan-
tes de ambos os Estados entrarão livremente nos portos
um do outro; porém, como a prohibiçaõ de entrar e su-
bir pelos rios do interior, he geral a todosos estrangeiros,
ella se extenderá aos Portuguezes, a menos que naõ seja
em seguimento de Artigas.
15. Ambas as partes contractantes se obrigam a obser-
var o mais profundo segredo, a respeito dos artigos em
que aqui se concorda, e cuja publicação se naõ julgue
prudente. Portanto, quando, naõ obstante todas as pre-
cauçoens adaptadas pelas dietas provincias, algum dos
Política. 229
artigos secretos for divulgado, o Governo das dietas Pro-
víncias se obriga a contradizer a existência dos dictos
artigos, empenhando a sua dignidade nisso se for neces-
sário.
Artigo 1.° O Governo das Provincias Unidas porá im-
mediatamente em liberdade todos os vassallos Portugue-
zes, que, em virtude da proclamaçaõ publicada em Bue-
nos-Ayres aos 2 de Março, foram removidos para o de-
posito em Lujan; e levantará o embargo, que se tenha
posto nas propriedades Portuguezas, de qualquer deno-
minação que sejam.
3. O Governo das Provincias Unidas se obriga a retirar
immediatamente todas as tropas, com seus respectivos
armazéns, que se houverem mandado em auxilio de Ar-
tigas, ou seus partidistas; e naõ lhes fornecer para o fu-
turo auxilio algum; e, ultimamente, naõ admittir o dic-
to Chefe, ou seus partidistas armados, no território da
margem Occidental, pertencente ao Estado. E se acon-
tecer que entrem por força, e naõ haja meios de os expel-
iu* promptamente, o dicto Governo das Provincias pode-
rá solicitar a cooperação das tropas Portuguezas para este
fim, que se lhe concederão na proporção de uma terça
parte das tropas fornecidas pelas dietas provincias; e
obrarão debaixo do commando do Chefe nomeado por
estas.
4. O dicto Governo também se obriga a indemnizar,
em conformidade dos regulamentos navaes, poi qualquer
damno feito a vasos Portuguezes, e que se prove terem
sido capturados desde os 26 de Maio, 1812, atê o tempo
presente: por corsários authorizados com patentes expe-
didas pelo dicto Governo, ou por seus vasos de guerra
sendo Sua Majestade Fidelissima obrigado a fazer o mes-
mo de maneira reciproca, e dar-se-haõ as ordens mais
VOL. XXV. N.» 148. co
230 Política.
peremptórias aos corsários de ambos os Estados, a fim
de prevenir a continuação de similhantes actos de hosti-
lidade, a respeito do que ambos os Governos receberão
mutuamente devida informação.
5. O dicto armistício continuará em plena força e vi-
gor, tanto da parte de Sua Majestade Fidelissima, como
da do Governo das Provincias do Rio-da-Prata.
6. Em ordem a prevenir enganos e difficuldades nas
operaçoens das tropas de Sua Majestade Fidelissima, he
concordado, que se lhes naõ permittirá ir no alcance de
Artigas, e seus partidistas, alem das margens do Urugu-
ay, &c.
7. Ambos os Governos se obrigam, durante este armis-
tício, a naõ fazer nem permittir tentativa alguma, directa
ou indirecta, que possa ser nociva á tranquillidade dos
habitantes, que occupam o território contido dentro das
linhas notadas pelo artigo precedente.
8. Em reciprocidade do artigo 3.° a que oGoverno das
Provincias Unidas se obriga ; Sua Majestade Fidelissima
de sua parte se obriga a naõ emprehender aliiança algu-
ína contra ellas, a naõ prestar muniçoens, mantimentos
ou outro algum gênero de auxilios a seus inimigos, e
mesmo a naõ lhes permittir passagem nem porto em seus
domínios, nem em qualquer território occupado por suas
tropas.
11. No caso em que infelizmente se renovem hostili-
dades entre as partes contractantes, he concordado, que
o rompimento do armistício agora existente será official-
mente notificado seis mezes antes, permittindo-se aos sub-
ditos de cada um dos Estados, que residir nos territórios
do outro, o ficar ali, se o seu comportamento os naõ fizer
suspeitos, ou retirar-se livremente, com toda a sua pro-
priedade e capital.
12. Pelo que respeita as pessoas criminosas, desertores,
Política. 231
e escravos fugidos, ambos os Governos instituirão pro-
cedimentos, segundo o direito das gentes e practica rece-
bida entre as naçoens civilizadas e neutraes.
13. He declarado, que os ajustes dos presentes arti-
gos teraõ o mesmo effeito de um solemne tractado de
paz.
14. Ainda que o comportamento de S. M. Fidelissima,
posto que justo e legal, se considera opposto ás presentes
exigências, em que S. M. Catholica se acha collocado, o
que pôde occasionar uma ruptura; he concordado, que
neste caso haverá entre os dous Governos uma aliiança
defensiva, que se publicará conjunctamente, com o so-
lemne reconhecimento da independência das Provincias
Unidas do Rio-da-Prata, porS. M. Fidelissima, no mo-
mento em que a dieta occurrencia tiver lugar.
16. Os presentes artigos addicionaes e secretos teraõ a
mesma força e vigor, que se fossem inseridos palavra por
palavra no dicto acto, porque se concluioo armistício de
26 de Maio de 1812.

Carta do General Morillo ao Soberano Congresso de Co-


lumbia.

Sereníssimos Senhores!—Vossas Altezas Sereníssimas»


estando sem duvida informados dos acontecimentos, que
oceurrêram ultimamente na Península, e do triumpho da
vontade geral da naçaõ, para restabelecer a Constituição
da Monarchia Hespanhola, como foi sanecionada em
Cadiz, no anuo de 1812, pelo voto unanime dos represen-
tantes de ambos os hemispheiros, e havendo eu recebido
ordens positivas do Rey constitucional de ambas as Hes-
panhas, para entrar em uma liberal e justa accommoda-
çaõ, que refina toda a familia de maneira, que goze dos
232 Política.
benefícios de nossa regeneração política, e ponha termo
aos fataes effeitos da desavença, que se origina no desejo
de ser alleviada daquella oppressaõ, que se tem julgado
erroneamente ser peculiar a estas regioens, mas que, de
facto, he universal em todo o Império. Apresso-me a in-
formar a Vossas A ltezas, que tenho aberto communica-
çaõ com o Commandante em Chefe Militar de vosso
Governo, e seus officiaes; e proposto uma suspensão de
hostilidades, até que se possa effectuar uma reconcilia-
ção, para cumprimento do que, o Brigadeiro D. Thomaz
de Cires, Governador da Provincia de Cumana, e D.
Jozé Domingo Duarte, Intendente do Exercito, e Super-
intendente Geral da Fazenda, tem commissaõ para trac-
tar com Vossas Altezas, sobre bazes de equidade, pró-
prias, e mutuamente vantajosas. No entanto tenho dado
ordens aos meus officiaes, para que ponham immediata-
mente em effeito a suspensão de hostilidades, e que se
conservem nas posiçoens, que occúpam agora, a menos
que sejam atacadas.
Como Chefe militar, obediente aquella subordinação
por que a minha carreira se tem sempre guiado, fiz a
guerra; e agora, como reconciliador, me submêtto gos-
tozamente á mesma subordinação, e mostro aquelles
princípios de liberalidade, sobre que El Rey e a naçaõ
me tem authorizado a obrar, em ordem a restabelecer a
paz e reconciliação de um povo, por natureza Hespa-
nhol, e que, pela concurrencia de circumstancias, tem
direito a participar no gozo da reforma, effectuada em
nossas instituiçoens políticas.
Vossas Altezas devem perder de vista, como eu faço a
este momento, os horrores da guerra; e fixemos as nossas
vistas somente na doce e deleitavel esperança de unir fi-
lhos a pays, irmaõs a irmaõs, amigos a amigos, e Hespa-
nhoes a Hespanhoes, a quem uma fatalidade tem dividi-
do: e para este fim unamo-nos em saudar uma Constitui-
Política. 233
çao conciliatória, que melhoraremos por mutuo consen-
timento, conforme dictar a judiciosa experiência das
cousas. Ella iguala a representação nacional de cada po-
vo : um naõ depende do outro, e consequentemente to-
dos saõ livres e independentes. Nos seus votos reside a
authoridade de formar as leys. a que se ha de obedecer
e aquelles regulamentos de economia política, para o me-
lhoramento da agricultura, commercio, artes, e toda a
espécie de industria, sem aquellas odiosas distincçoens,
que a estreita política dos séculos passados tinha adop-
tado.
Os Commissarios apresentarão a Vossa Alteza os prin-
cípios de reconciliação, e eu estou inteiramente persua-
dido, que a affeiçuõ e boa vontade estabelecerão a frater-
nidade, ainda que Vossas Altezas, pela apprebensaõ do
que se tem passado nas epochas de fúria e desesperaçaõ,
naõ concordem de uma vez nas propostas da naçaõ, que
se originam no desejo de que está animada, de fazer os
seus triumphos geraes a todos os paizes Hespanhoes nas
quatro partes do globo, aonde chegaram suas antigas leys,
e aonde suas novas instituiçoens seraõ mais promptamen-
te recebidas.
Que agradável metamorphosis para nós todos, quando
nos pudermos unir, e eu me puder apresentar sem o ap-
parato de guerra, e meramente como um pacifico cida-
dão Hespanhol, unindo-me nas expressoens geraes de ale-
gria, pela victoria reciprocamente ganhada sobre nossas
paixoens. Até que isto que faça, Vossa Alteza naõ po-
derá graduar a differença entre o General e o cidadão,
que tem a constitucional honra de ser.
De Vossas Altezas Sereníssimas
obedientíssimo criado
PABLÒ MORILLO.
Quartel General de Caracas
17 de Junho, 1820.
234 Política.

Resposta do Congresso ao General Morillo.

Excellentissimo Senhor!—O Congresso Soberano es-


pecialmente convocado para o fim de ver a carta, que
Vossa Excellencia lhe dirigio do Quartel General de Ca-
racas, em data de 17 de Junho próximo passado, infor-
mando-o de que o Brigadeiro D. Thomaz de Cires,e D.
José Domingo Duarte tinham commissaõ de proceder
para esta capita], a fim de solicitar a uniaõ destes paizes
com a Monarchia constitucional da Hespanha, e que
aquelles Senhores produziriam os princípios de reconci-
liação proposta pela naçaõ, deliberou aos 11 do corrente
em sessaõ publica, e em resposta transmittoa Vossa Ex-
cellencia o seguinte decreto:—
" O Soberano Congresso de Columbia, desejando esta-
belecer a paz, ouvirá com prazer, qualquer proposta, que
se lhe faça da parte do Governo Hespanhol, com tanto
que tenha por baze o reconhecimento da Soberania e in-
dependência de Columbia, enaõ admittirá nenhuma, que
naõ contiver aquelle principio tantas vezes declarado
pelo Governo e povo desta Republica.
O Presidente do Soberano Congresso tem a honra de
ser.
De Vossa Excellencia muito obediente criado
O Presidente do Congresso
FERNANDO DE PENALVER.

Felipe Depiano. Secretario.


Nova Guianna, 13 de Julho, 1820.
A S . Ex». D. Pablo Morillo.
Política. 235

ALIiMANHA.

Acto final das Conferências Ministeriaes feitas para


completar e consolidar a organização da Confederação
Germânica.

Os Príncipes Soberanos e as cidades Livres d' Alema-


nha, considerando a obrigação que tomaram, quando se
fundou a confederação Germânica, de firmarem e aper-
feiçoarem a sua uniaõ, dando os necessários desenvolvi-
mentos às disposiçoens fundamentaes do Acto Federati-
vo ; considerando, outro sim, que, para tornar indissolúveis
os estreitos vínculos, que reúnem a totalidade dos Esta-
dos da Alemanha em um systema de paz e de benevolên-
cia reciprocas, naõ deviam demorar-se mais cm satisfazer,
por meio de deliberaçoens communs, a obrigação, que se
haviam imposto, e a necessidade geralmente 6entida, no-
mearam para este effeito Plenipotenciarios, a 6aber, etc.
(segue-se a longa lista dos plenipotenciarios), os quaes,
reunidos em Vienna em conferências de Gabinete, depois
da troca de seus plenos-poderes, achados em boa e devida
forma, maduramente examinaram e combinaram os intui-
tos e as proposiçoens dos seus respectivos Governos, e
depois deste trabalho, definitivamente conviéram nosarti-
tigos seguintes:
Art. 1. A Confederação Germânica he a uniaõ federa-
tiva dos Príncipes Soberanose das Cidades Livres d' Ale-
manha, uniaõ que repousa no direito publico da Europa, e
formada para manutenção da independência e da inviola-
bilidade dos Estados, que nella se comprehendern, assim
como para a segurança interior e exterior da Alemanha
em geral.
2. Quanto ás suas relaçoens interiores, esta confedera-
ção forma um corpo d' Estados independentes entre si, e
236 Política,

ligado por direitos e deveres livre e reciprocamente esti-


pulados. Quanto ás suas relaçoens exteriores, ella con-
stitue uma potência collectiva, estabelicida em um prin-
cipio de unidade política.
3. A extensão eos limites, que a confederação tem pre-
scripto ao exercício do seu poder, estaõ indicados no
Acto Federativo, que he o pacto primitivo, e a primeira
Ley fundamental desta uniaõ. Enunciando o objecto da
Confederação, este Acto determina ao mesmo tempo os
seus direitos e as suas obrigaçoens.
4. O direito de desenvolver e completar o pacto fun-
damental, quando assim o exija o objecto, que elle ha con-
sagrado pertence á reunião dos Membros da Confedera-
ção. Entretanto as resoluçoens, que se houverem de to-
mar para este effeito, naõ poderão nem achar-se em con-
íradicçaõ com os princípios do Acto Federativo, nem
afastar-se do character primitivo da uniaõ.
5. A Confederação he indissolúvel pelo mesmo prin-
cipio da sua instituição: por conseguinte nenhum dos
seus membros tem a liberdade de separar-se delia.
6. Naõ abrangendo a Confederação, conforme a sua in-
stituição primitiva, senaõ os Estados que actualmente
formaõ parte delia, naõ pode ter lugar a admissão de um
novo membro, senaõ quando ella for unanimemente jul-
gada compatível com as relaçoens existentes, ecom o in-
teresse geral dos Estados confederados.
7. A Dieta Federativa, formada pelos Plenipotenciarios
de todos os Estados, representa a Confederação no seu
todo; e he o orgaõ constitucional e perpetuo da sua
vontade e da sua acçaõ.
8. Os Plenipotenciarios da Dieta saõ individualmente
dependentes dos seus respectivos Soberanos, e responsáveis
só para com elles pela fiel excuçaõ das suas instruc-
Política. 237
çoens, assim como em geral pelo exercício de suas fuuc-
çoens.
9. A Dieta Federativa naõ cumpre as suas obrigaçoens,
nem exercita o seu poder, senaõ nos limites que lhe saõ
assiguados, tanto pelas disposiçoens do Acto Federativo,
assim como pelas leys fundamentaes posteriormente es-
tabelecidas na conformidade deste Acto, e na falta des-
sas leys pelo objecto da uniaõ, tal qual se enunciou no
acto Federativo.
10. A vontade geral da Confederação manifesta-se pelos
accordaõs da Dieta, dados nas formas legaes; e será con-
siderado legal c obrigarorio todo o accordaõ (ou deter-
minação) que, nos limites da competência da Dieta, se
houver votado livremente, depois de uma deliberação,
quer em conselho permanente (Conselho dos dezesette),
quer em assemblea geral, segundo o que está regulado a
este respeito pelas disposiçoens das Leys fundamentaes.
11. Regra geral, as resoluçoens relativas á direcçaõ dos
negócios communs da Confederação tomaõ-se no Conselho
dos desesette, e com pluralidade absoluta devotos. Esta
forma terá lugar em todos os casos, em que se tracta de
applicar piincipios geraesjâ estabelicidos, ou pôr em ex-
ecução leys ou resoluçoens precedentemente adoptadas;
ella será em geral seguida em todos os objectos de delibe-
ração, que se naõ acham exceptuados pelo Acto Federa-
tivo, ou por posteriores regulamentos.
12. A Dieta naõ se forma em Conselho geral senaõ nos
casos especificados expressamente pelo acto federativo,
e outro sim quando se tracta de alguma declaração de
guerra, ou da ratificação de algum tractado de paz, ou
também da admissão de algum novo membro na confede-
ração. Se em algum caso particular houver dúvida so-
bre a forma que se ha de escolher, o Conselho dos deze-
VOL. XXV. No. 148 nu
238 Política.

sette tem o direito de decidir a questão. As resoluçoens


da assemblea geral exigem a maioria de dous terços dos
votos.
13. Nenhuma decisaõ da pluralidade de votos pode ter
lugar nos casos seguintes:—1.° Para adoptar novas leys
fundamentaes, ou modificar as existentes; 2." para as in-
stituiçoens orgânicas, que servem de meios de execução
para objectos directamente ligados ao reconhecido fim da
confederação: 3.° para a introducçaõ de um novo Mem-
bro da Confederação; para os negócios de religião.—Naõ
poderá entretanto haver decisaõ definitiva sobre objectos
desta natureza, sem que os membros, que se oppòem ao
parecer da maioria tenham communirado os motivos cia
sua opposiçaõ, e sem que estes motivos hajam 8Ído devi-
damente examinados e discutidos.
14. Pelo que em particular respeita às instituiçoens or-
gânicas, naõ só a questão prévia, se houver lugar para
tractar delia nas circumstancias dadas, mas também as
bazes e as disposiçoens essenciacs dos planos apresentados
para esse effeito, seraõ decididas em assemblea geral, e
com unanimidade de votos. Se a decisaõ for favorável ao
projecto, as deliberaçoens sobre as particularidades da
sua execução seraõ da alçada do Conselho permanente, o
qual decidirá, á pluralidade de votos, todas asquestoens
a isso relativas, e poderá, se o julgar conveniente, no-
mear entre os seus membros uma commissaõ encarregada
de conciliar as difTerentes opinioens ; satisfazendo quanto
for possível aos interesses e aos intuitos de cada Go-
verno.
15. Nos negócios em que se tracta dos direitos indivi-
duaes (jure singulorum,) e que naõ respeitam aos Esta-
dos considerados como membros da uniaõ, mas em sua
qualidade de Estados independentes, naõ se poderá to-
mar resolução alguma obrigatória, sem olivreaesensoda-
Política. 239
quelles, que nella saõ especialmente interessados. O mes-
mo acontecerá no caso em que se exijam de algum Esta-
do da Confederação prestaçoens ou contribuiçoens par-
ticulares, naõ comprehendidas nas obrigaçoens communa
a todos.
16. Quando as possessoens de alguma das casas sobe-
ranas da Alemanha passarem por successaõ a outra casa
destas, pertence ao Corpo da Confederação decidir, se o
novo possuidor deve gozar dos direitos annexos ás dietas
possessoens na assemblea geral, visto que no Conselho
pei manente nenhum Membro da Confederação pode ter
mais de um voto.
17. A Dieta he chamada a conservar intacto o espirito
do acto federativo, pronunciando, na conformidade do
objecto da uniaõ, sobre as dúvidas que possam suscitar-
se em uma ou outra das disposiçoens deste acto, e asse-
gurando-lhe a sua justa applicaçaõ em todos os casos em
que seja preciso interpretallo.
18. Sendo a manutenção inviolável da paz no seio da
Confederação um dos principaes fins desta uniaõ, toda a
vez que a tranquillidade interior do Corpo Germânico for
ameaçada ou perturbada de qualquer modo, tomará a
Dieta as resoluçoens necessárias para a conservar, ou
para a restabelecer, conformando-se para este effeito com
as disposiçoens enunciadas nos artigos seguintes.
19. Logo que se receiem, ou com effeito tenha havido,
vias de facto entre os Membros da Confederação, a Dieta
procederá a medidas provisórias para prevenir ou suspen-
der toda a em preza tendente a obter justiça por meios
violentos, primeiro que tudo vigiará no estado de posses-
são.
20. Quando a Dieta se achar no caso de eu
dever, a requerimento de algum Membro da Confedera-
ção, e for duvidoso o estado de possessão, he especial-
240 Politiea.
mente authorizada a convidar um dos Governos confede-
rados, situado na vizinhança do território contestado, pa-
ra que faça summariamente, e sem demora, examinar
pelo seu Tribunal Supremo de Justiça o facto da ultima
posse legal, e as circumstancias que deram motivo à quei-
xa ; ficando salvo à Dieta o assegurar por todos os meios,
que estaõ A sua disposição em similhante caso, a execu-
ção da sentença pronunciada pelo dicto tribunal, se o
Estado, contra quem ella se der, livremente se naõ ren-
der â intimaçaõ que se lhe dirigir para esse effeito.
21. Em todas as desavenças submettidas à Dieta em
virtude do acto federativo, tentará a Dieta primeiramente
o meio da conciliação mediante uma Commissaõ que
disso seja encarregada. Se o negocio se naõ poder apla-
nar por este meio, procurará a Dieta a sua decisaõ por
uma sentença austregal (de Juizes árbitros) observando
(em quanto se naõ convencionar de outro modo) as regras
prescriptas sobre as jurisdicçoens austregaes pela resolu-
ção de 16 de Junho de 1817, assim como as instrucçoens
particulares que receber com o presente acto.
22. Quando conforme á mesma resolução, o Tribunal
Supremo de um Estado Confederado se tenha escolhido
para servir de Tribunal (ou Conselho) Austregal, a elle
he que unicamente pertence e direcçaõ do processo, e a
decisaõ do negocio em todos os seus pontos principaes
e accessorios, sem que possam concorrer ali nem a Dieta
nem o Governo do paiz. Este ultimo todavia, se lho re-
querer a parte quiexosa, deve tomar as medidas necessá-
rias para accelerar a sentença.
23. Na falta de outras regras de decisaõ pronunciará
o Conselho Austregal segundo as authoridades jurídicas
subsidiaramente admittidas em cousas desta natureza pe-
los antigos Tribunaes do Império, naquillo em que se
Política. 241

achar serem applicaveis ás relaçoens actuaes dos Estados


confederados.
24. A instituição do Juizo Austregal na Confederação
nadaderoga nas Juridiçoens A ustregaes estabelecidas por
pactos de famílias, ou por outras convençoens anteriores;
e sempre será livre aos Governos confederados convenci-
onarem á sua vontade Austregaes ou commissoens par-
ticulares, quer para algum caso especial, quer para todas
as contestaçoens que entre elles possaõ occorrer.
25. A manutenção da ordem e da tranquillidade dos
Estados confederados pertence unicamente aos Governos.
Entre tanto o interesse commum da confederação e a
obrigação dos seus membros de se prestarem mutuamente
soccorros, admittem como excepçaõ a este principio a co-
operação geral, no caso de algum Governo experimentar
resiteucia formal, no de manifesta rebelliaõ, e no de mo-
vimentos perigosos que ameacem ao mesmo tempo mais
de um Estado da Confederação.
26. Quando em algum Estado da Confederação for com-
promettida a tranquillidade publica por actos de resis-
tência formal ás authoridades estabelecidas, e houver ra-
zaõ para recear que o movimento sedicioso se communique
aos Estados vizinhos, ou quando com effeito rebente al-
guma rebelliaõ, e o Governo desse paiz, depois de haver
exhaurido todos os meios que lhe offerece a sua pró-
pria legislação, invocar o auxilio da Confederação, deverá
a Dieta mandar conduzir os mais promptos soccorros para
o restabelicimento da ordem legal. Se neste ultimo caso
o Governo em questão estiver notoriamente em estado de
naõ poder reprimir a rebelliaõ, e impedido ao mesmo tem-
po pelas circumstancias de reclamar os soccorros da con-
federação, nem por isso a Dieta deixará de tomar, naõ ob-
stante o naõ ter sido a isso expressamente chamada, as
medidas que julgar convenientes. Estas medidas cm caso
&4'J Política.

nenhum poderão estender-se a mais que até o termo quo


o Governo a que se presta o auxilio julgar deve por si
próprio indicar para as fazer cessar.
27. O Governo que houver recebido similhante soecoro
devera informar a Dieta dos Motivos que deram lugar aos
distúrbios, assim como das medidas que haja adoptadas
para estabelecer e firmar a ordem legal.
28. Quando a tranquillidade publica se achar ameaçada
cm vários listados confederados por associaçoens e ma-
quinaçoens perigosas, contra as quaes só podem offerecer
uma barreira sufficiente medidas comniuns, a Dieta porá
em deliberação e decretará estas medidas, depois de se
ter convencionado com os Governos mais immediatamente
expostos ao perigo.
29. Se em algum Estado confederado oceorrer o caso
de negação ou suspençaõ de Justiça, e a parte lesada
naõ poder obter o saneamento dos sens aggravos pelos
meios ordinários e legaes, tem a Dieta obrigação de re-
ceber as quiexas, que se lhe dirigirem a este respeito, de
as examinar no sentido da constituição e da Legislação
do paiz a que ellas se referrem, e de solicitar o Governo
que as provocou a prover nisto nas formas judiciaes.
30. Se acontecer que se naõ possa fazer justiça ás re-
reclamaçoens suscitadas por particulares, por motivo de
ser duvidosa ou contestada entre vários Estados confe-
derados a obrigação de satisfazer a ellas, a Dieta, em as
partes interessadas lho requerendo, procurará em primei-
ro lugar um arranjamento amigável, e se este naõ produ-
zir eíleito, e, em um prazo que se deve lixar, os Estados
a que toca o negocio se naõ poderem entender em algum
compromisso, ella fará decidir a questão preliminar por
um Juizo Austregal.
A Dieta tem o direito e a obrigação de vigiar na execu*
çaõ do Acto Federativo e das outras leys fundamentaes
Política. 243

dos assentos ou resluçoens, que tiver tomado em virtude


da sua competência, das sentenças dadas pelos tribunaes
Austregaes, das decisoens de arbítrios tomadas em con-
seqüência da sua intervenção, e dos arranjamentos de
mutua vontade effeituados sob sua mediação, assim como
na manutenção dasgrantiasespeciaes de que a confedera-
ção se ha encarregado. Se os .outros meios constitucio-
naes naõ bastarem para este effeito, recorrerá entaõ ás
medidas de execução propriamente dietas, observando
estreitamente a marcha coordenada em separado do pre-
sente Acto.
32. Sendo cada Governo da confederação obrigado a
fazer que se executem as leys e resoluçoens cominuns, e
naõ estando a Dieta authorizada para intervir nos negócios
interiores dos Estados confederados, naõ podem as medi-
das de execução ser dirigidas senaõ contra os próprios
Governos. Ha excepçaõ nesta regra, quando algum Go-
verno em caso de hrsufliciência de seus próprios meios,
tiver reclamado o auxilio da confederação, ou quando a
Dieta nas conjuneturas previstas no art. 26, houver con-
corrido para o restabelecimento da ordem publica sem ser
para isso requerida. Entretanto no primeiro caso sem-
pre se procederá de acordo com o Governo a que se presta
o auxilio, e o mesmo succederá no segundo caso, tam de
pressa o Governo em questão haja recuperado a sua au-
thoridade.
33. As medidas de execução seraõ decretadas e reali-
zadas em nome da Confederação. Para este effeito, at-
tendendo a dieta ás circunstancias locaes e ás relaçoens
particulares, encarregará um ou mais Governos, naõ in-
teressados no negocio, de quanto diz respeito a estas me-
didas; determinará ao mesmo tempo as forças militares
que se haõ de empregar, o a duração do seu emprego,
calculada secundo o objecto da execução.
244 Política.
34. O Governo, que receber similhante commissaõ, de
que he obrigado a encarregar-se como de um dever fede-
rativo, nomeará para esse effeito um commissario civil,
que dirigirá directamente as medidas da execução, con-
formando-se á instrucçaõ especial, coordenada em conse-
qüência das disposiçoens da Dieta pelo Governo de quem
elle recebe os seus poderes. Se a commissaõ tiver sido
dada a vários Governos, a Dieta designará aquelle que
deve nomear o commissario civil." O Governo revestido
da commissaõ instruirá a Dieta dos resultados da execu-
ção, e lhe annunciará o seu termo assim que o seu objec-
to houver sido completamente preenchido.
35. A Confederação Germânica tem o direito, como
potência collectiva, de declarar a guerra, fazer a paz, con-
trahir allianças, e negociar tractados de toda a espécie.
Com tudo, segundo o objecto da sua instituição, como se
acha declarado no art. 2.° do acto federativo, ella so-
mente exercita estes di rei tos para sua defensa própria,
para a integridade e segurança do seu território, e para a
inviolabilidade de cada um dos seus membros.
36. Tendo os Estados confederados contrahido, pelo
art. 11 do acto federativo, a obrigação de defender con-
tra todo ataque a Alemanha no seu todo, e cada um dos
seus co-Estados em particular, e de reciprocamente se
garantirem a integridade das suas possessoens compre-
hendidas na uniaõ, nenhum Estado confederado pode ser
lesado por uma potência estrangeira, sem que alesaõse
estenda ao mesmo tempo e no mesmo gráo a toda a Con-
federação.
Por outra parte, os Estados confederados se compro-
mettem a naõ darem motivo a provocação alguma da
parte das Potências estrangeiras, e a nenhuma practi-
carem para com ellas. N o caso de algum Estado estran-
geiro se queixará Diela de alguma lesaõ,que tenhaexpe-
Política. 245
rimentado da parte de algum Membro da Confederação,
a Dieta, depois de haver verificado o facto, tomará as me-
didas necessárias, para que seja dada satisfacçaõ prompta
e sufficiente por aquelle que causou a queixa, e para que
se afaste a tempo toda a complicação hostil.
37. Quando occorrerem desavenças entre uma Potên-
cia estrangeira e algum Estado da Confederação, e o ul-
timo reclamar a intervenção da Dieta, esta examinará a
fundo a origem da contenda e o estado real da questão.
Se deste exame resultar que o direito naõ esteja da parte
do Estado confederado, a Dieta se valerá das mais serias
representaçoens, para o mover a desistir da contestação,
recuzar-lhe-ha a sua intervenção, e consultará, em caso
de necessidade, os meios convenientes para a manutenção
da paz. Se o exame prévio mostrar o contrario, a Dieta
empregará os seus bons officios do modo mais efficaz, e
os estenderá até onde for preciso para assegurar á parte
reclamante satisfacçaõ e segurança completas.
38. Quando o avizo de algum Membro da Confedera-
ção, ou outras premissas authenticas, induzirem a crer
que um ou outro dos Estados confederados, ou toda a
Confederação se acham ameaçados de ataque hostil, a
Dieta examinará sem demora alguma, sehe real o perigo,
e pronunciará sobre esta questão no menor espaço possi-
vel. Se o perigo for reconhecido, a resolução que o de-
clarar será seguida immediatamente do decreto relativo
às medidas de defensa, a que neste caso se ha de logo re-
correr.
A resolução, e o decreto que a acompanha saõ da com-
petência do Conselho Permanente, procedendo á plurali-
dade de votos.
39. Quando o território da Confederação for invadido
por alguma potência estrangeira, o estado de guerra fica
VOL. XXV. N \ 148. 1 1
246 Política.
estabelecido pelo facto da invasão, e seja qual for a deci-
saõ utterior da Dieta as medidas de defensa proporciona-
das ao perigo devem ser adoptadas sem demora.
40. Se a Confederação se vir obrigada a declarar for-
malmente a guerra, esta declaração naõ pode emanar se-
naõ da assemblea geral, procedendo, segundo a regra
estabelecida, á maioria dos dous terços dos votos.
41. A resolução pronunciada em Conselho permanente,
sobre a realidade do perigo de um ataque hostil, faz to-
dos os Estados confederados solidários (obrigados in soli-
dum) das medidas de defensa que a Dieta houver julgado
necessárias. Do mesmo modo, a declaração de guerra,
pronunciada em assemblea geral, constitue todos os Es-
tados confederados partes activas na guerra commum.
42. Se a questão prévia relativa à existência do perigo
for decidida negativamente pela maioria dos votos, aquel-
les dos Estados confederados, que naõ forem do parecer
da maioria, conservam o direito de concertarem entre si
medidas de defensa communs.
43. Quando o perigo e a defensa só forem relativos a
tal ou tal Estado confederado, e uma ou outra das partes
litigantes apellar â mediação de Dieta, esta, se julgar a
proposição compatível com o estado das cousas, e com a
sua própria attitude, e se a outra parte consentir nisso,
se encarregará da mediação; bem entendido que dahi
naõ resultará prejuízo algum ao proseguimento das me-
didas geraes para a segurança do território da Confedera-
ção, e menos ainda demora alguma na execução das que
já se acharem decretadas.
44. Declarada a guerra, he livre a qualquer Estado
confederado fornecer ft defensa commum maior força
do que a do seu contingente legal, sem que este augmen-
to com tudo o authorize a formar quaesquer pertençoens
a cargo da Confederação.
Política. 247
45. Se em uma guerra entre Potências estrangeiras, ou
por outros acontecimentos, houver motivo de recear al-
guma infracçaõ na neutralidade do território da Confede-
ração, a Dieta determinará sem demora em Conselho
permanente as medidas extraordinárias, que julgar própri-
as para a manutenção desta neutralidade.
46. Quando algum Estado confederado, que tenha pos-
sessoens fora dos limites da Confederação, emprehender
uma guerra na sua qualidade de Potência Europea, a
Confederação, cujas relaçoens, e cujas obrigaçoens essa
guerra naõ prejudicar, ficará absolutamente estranha a ella.
47. No caso de um tal Estado se achar ameaçado ou
atacado nas suas possessoens naõ comprehendidas na
Confederação, esta naõ he obrigada a tomar medidas de
defensa ou parte activa na guerra, senaõ depois de a Di-
eta haver reconhecido em Conselho permanente, e á plu-
ralidade dos votos, a existência de algum perigo para o
território da Confederação. No ultimo caso, todas as
disposiçoens dos artigos precedentes teriam igualmente a
sua applicaçaõ.
48. A disposição do acto federativo pela qual, quando
a guerra he declarada pela Confederação, nenhum dos
seus membros pode entabolar negociaçoens particulares
com o inimigo, nem assignar a paz, ou algum armistício,
he indistinctauiente obrigatória para todos os Estados
confederados, quer possuam, quer naõ, paizes fora do
território da Confederação.
49. Quando se tractar de negociação para concluir a
paz ou algum armistício, a Dieta confiará, a direcçaõ
especial disso a uma Juncta, que estabelecerá paia esse
effeito; nomeará igualmente Plenipotenciarios para trac-
tarem das negociaçoens, conforme as instrucçoens de que
foram munidos. A acceitaçaõ e a confirmação de um
248 Política.
tractado de paz só podem ser pronunciadas em assemblea
geral,
50. Relativamente aos negócios estrangeiros em geral,
a Dieta tem obrigação: l.° de vigiar, como orgaõ da
Confederação, na manutenção da paz e das relaçoens de
amizade com os Estados estrangeiros; 2.° de receber os
Enviados das Potências estrangeiras accreditadas juncto
da Confederação, e de nomeallos, se parecer necessário,
para representarem a Confederação juncto das Potências
estrangeiras; 3.° de conduzir negociaçoens, e concluir
tractados pela Confederação, quando houver lugar paru
isso; 4.° d'interpor os seus bons officios juncto dos Go-
vernos estrangeiros, a favor dos Membros da Confedera-
ção que os reclamarem, e de os empregar ao mesmo tem-
po juncto dos Estados confederados, em negócios em qoe
alguns Governos estrangeiros requeiram a sua interven-
ção.
51. A Dieta he igualmente encarregada de prover nas
instituiçoens orgânicas, que se referirem ao systema mili-
tar da Confederação, assim como nos estabelicimentos de
defensa, quea segurança do seu território exigir.
52. Como, para alcançar o fim da Confederação, e
para assegurar a administração dos seus negócios, os Es-
tados que a compõem devem fornecer contingentes pecu-
niários, entra nos attributos da Dieta: 1.° fixar a somma
das despezas constitucionaes ordinárias, em quanto isto
poder practicar-se em geral; 3.° indicar as despezas ex-
traordinárias, que exigirem as precisoens da Confedera-
ção conforme as resoluçoens da Dieta, estribadas nas leys
fundamentaes, e determinar os contingentes necessários
para cobrir estas despezas; 3.° regular a proporção ma-
tricular conforme a qual deve cada um dos Estados con-
federados contribuir para as despezas communs; 4.' di-
Política. 249
rigir a cobrança, emprego, e contabilidade dos contin-
gentes.
53. Ainda que o acto federativo, garantindo a indepen-
dência dos Estados, haja afastado, por principio geral,
toda a interposiçaõ do poder federativo na organização e
administração interior destes Estados, convieram todavia
os Membros da Confederação, na segunda parte do acto
federativo, em algumas disposiçoens particulares relati-
vas, quer à garantia de certos direitos confirmados pelo
dicto acto, quer a vantagens communs aos subditos de
todos os Governos Alemaens. A Dieta he obrigada a
fazer executar as obrigaçoens contrahidas em virtude
destas disposiçoens, quando for sufficientemente compro-
vado pelas declaraçoens das partes interessadas, que fica-
ram sem execução. Com tudo a applicaçaõ aos casos
particulares das leys e ordenaçoens geraes decretadas em
conformidade das dietas obrigaçoens, ficará reservada só
aos Governos.
54. Como em virtude do art. 13 do acto federativo, e
das declaraçoens posteriores, que a este respeito se fizeram,
deve haver assembléas de Estados (Ajunctamentos de
Cortes, segundo a nossa fraze Portugueza) em todos os
paizes da Confederação, a Dieta vigiará que em nenhum
Estado confederado fique sem effeito esta estipulaçaõ.
55. Pertence aos Príncipes Soberanos da Confederação
regular este negocio de legislação interior, em beneficio
dos seus respectivos paizes, attendendo aos antigos direi-
tos das assembléas d'Estados, e ás relaçoens actualmente
existentes.
56. As constituiçoens das assembléas d'Estados, que
estaõ actualmente em vigor, naõ poderam ser mudadas
senaõ por meios constitucionaes.
57. Sendo a Confederação Germânica, á excepçaõ
das cidades livres, formada por Príncipes Soberanos
•250 Política.

exige o fundamental principio desta uniaõ, que todos os


poderes da Soberania fiquem reunidos no Chefe Supremo
do Governo, e que a cooperação dos Estados (ou das
Cortes) nenhum poder tem de os restringir no exericio
destes poderes, senaõ naquelles casos especialmente deter-
minados pelas Constituiçoens do paiz.
58. Nenhuma Constituição particular pode, nem con-
ter, nem restringir os Príncipes Soberanos confederados
nos deveres que a uniaõ federativa lhes impõem.
59. Nos paizes aonde está reconhecida pela sua Consti-
tuição a publicidade das deliberaçoens, deve providen-
ciar-se por um regulamento de ordem, que, nem nas
mesmas discussoens, nem quando ellas se publicarem, se
excedam os limites legaes da liberdade das opinioens,
em detrimento do socego do paiz, ou de toda a Alema-
nha.
60. Quando algum Membro da Confederação solicitar
a garantia geral da Constituição das assembléas d i s t a -
dos estabelecidas no seu paiz, está authorizada a Dieta a
cncarregar-se disso. Por este passo adquire ella o direito
de manter essa Constituição, quando uma ou outra das
partes interessadas reclamar a sua garantia, e de aplanar
as desavenças, que possam suscitar-se na sua interpreta-
ção ou na sua execução, quer por via de mediação, quer
por decisaõ de árbitros, uma vez que a dieta Constitui-
ção naõ haja providenciado outros meios de conciliar as
desavenças desta natureza.
61. Fora do caso da garantia especial, e da manuten-
ção dos princípios acima declarados, relativamente ao
art. 13 do acto federativo, a Dieta naõ está authorizada
para intervir em negócios relativos ás assembléas dista-
dos, nem nas discussoens que possam oceorrer entre es-
tas assembléas c os seus Soberanos, em quanto estas dis-
cussoens naõ transgredirem os limites além dos quaes se
Política. 251

confundiriam com os casos designados pelo art. 26, cu-


jas disposiçoens, assim como as do ait. 27, teriam para
logo applicaçaõ.
O que se estabelece no presente artigo naõ se entende-
rá derrogar o art. 46 do acto do Congresso de Vienna de
1815, relativo á Constituição da cidade livre de Frank-
furt
62. As disposiçoens precedentes relativas ao art. 13 do
acto federativo, se appliçaõás cidades livres, Membros
da Confederação, quanto o permittem as suas Constitui-
çoens e relaçoens particulares.
63. A Dieta he chamada a vigiar no exacto e inteiro
cumprimento das estipulaçoens conteüdas no art. 14 do
acto federativo, relativamente aos antigos Estados do
Império mediatizados, e a que se denominou Nobreza
immediata da Alemanha. Os Soberanos, nos paizes dos
quaes se acham encorporadas as possessoens dos Prínci-
pes, Condes, e Senhores, mediatizados, saõ obrigados para
com a Confederação pela invariável manutenção das re-
laçoens de direito publico fundadas pelas dietas estipula-
çoens. E ainda que as contestaçoens particulares, que se
possam suscitar sobre a applicaçaõ dos decretos expedi-
didos, ou das convençoens passadas em conformidade do
art 24 do acto federativo, devam ser submettidas á deci-
sam das authoridades competentes dos Estados, em que
estam situadas as possessoens dos mediatizados, nem por
isso estes conservarão menos o direito, toda a vez que
naõ obtenham justiça pelos meios legaes e constitucionaes,
ou que mediante interpretaçoens arbitrarias se cause pre-
juízo aos direitos, que lhes saõ assegurados pelo acto fe-
derativo, de interporem recurso na Dieta, a qual, aconte-
cendo esse caso, será obrigada a receber a queixa, e a
ftzer-lhes justiça, se a achar bem fundada.
64. Quando os Membros da Confederação propiizerem
252 Política.
á Dieta medidas de bem público, cujo desempenho só
possa ter lugar pela concordância de todos os Estados
confederados, e a Dieta reconhecer por principio a utili-
dade das medidas propostas, e a possibilidade da sua
execução, empregar-se-ha com desvelo nos meios de as
realizar, e dará todos os passos necessários para obter em
seu favor o livre e unanime consentimento dos Governos
da Confederação.
65. A Dieta continuará a tractar dos objectos que pe-
las estipulaçoens dos artigos 16, 18, e 19 do acto federa-
tivo estam submettidas à sua deliberação, a fim de che-
gar de commum accordo a regulamentos tam uniformes
quanto a natureza desses objectos admittir.
O presente acto será levado à Dieta, mediante uma
proposição presidencial, como resultado de um inviolável
comprometimento entre os Governos confederados, para
em conseqüência das suas unanimes declaraçoens se con-
verter alli, por uma resolução formal, em ley fundamen-
tal da Confederação, a,qual ley terá a mesma força e va-
lor que o acto federativo do anno de 1815, e será estrei-
tamente observada e executada, como tal, pela Dieta.
(Seguem-se as assignaturas.)

Carta confidencial do Principe Metternich, Primeiro


Ministro de Áustria, ao Baraõ Berstett Principal Mi-
nistro do Gram Duque de Baden.

Vossa Excellencia exprimio o desejo de Sua Altezn


Real o Gram Duque, de saber, em geral, mas de maneira
precisa, as idéas do Gabinete Imperial, sobre o estado
politico da Alemanha. Este convite da parte de um
Principe, que diariamente da as mais louváveis provas
de sua firme inclinação, em proteger sua felicidade, e seu
Política. 253

profundo conhecimentos dos elemento que a compõem,


me honra tanto, quanto me impõem o dever de com-
municar a Vossa Excellencia, sem reserva, o ponto de
vista, em que nós consideramos o actual Estado das
cousas. O tempo vai andando, no meio de tempestades;
trabalhar por fazer parar sua impetuosidade seria vaã
tentativa. A firmeza, a moderação, a prudência e a
unlao de forças exactamente averiguadas, ainda restam
no poder dos proteetores e amigos da ordem. Isto con-
stitue presentemente o dever de todos os oberanos, e dos
Estadistas bem intencionados; e somente merecerá esse
titulo, quem, depois de ter examinado o que he possivel,
e o que he justo, naõ permittir que seja desviado do no-
bre objecto, a que possam tender seus esforços, ja por de-
sejos inefficazes, ja por abatimento de espirito.
Este objecto determina-se facilmente. Nos nossos
dias naõ he mais nem menos do que manter o que existe :
obter isto, he o único meio de preservar as presentes van-
tagens, e tal vez o mais próprio para recobrar o que ja se
tem perdido. A este fim se devem dirigir todos os esfor-
ços e todas as medidas de todos os que estaõ unidos por
commum principio e por commum interesse. Os elemen-
tos combustíveis, que de tam longo tempo se haviam
preparado, foram incendiados entre os annos de 1817 e
1820. O falso caminho que seguio o Ministério Francez
durante aquella epocha; a tolerância, que se permittio
na Alemanha, ás mais perigosas doutrinas ; a indulgência
que se mostrou para com audazes reformadores; a fra
queza em representar os abusos da imprensa; finalmente
a preciptiaçaõ com que se deram constituiçoens represen-
tativas nos Estados Meredionaes da Alemanha: todas
estas causas tem dado a mais fatal direcçaÕ apartes, que
cousa nenhuma pôde satisfazer.
V O L . XXV. N". 148. KK
254 Política.
Nada prova melhor a impossibilidade de satisfazer
estas partes, do que a observação de que as suas mais
activas operaçoens tem tido lugar no Estado, aonde se
tem mostrado a maior indulgência ás suas vistas e pre-
tençoens.
O mal tinha chegado a tal ponto, antes do Congresso de
Calsoad, que uma insignificante complicação política
h ouvéra sido bastante para derribar inteiramente a ordem
social. A sabedoria do systema, que as grandes Cortes
adoptáram, as preservou dos perigos, que ainda poderi-
am ser fataes. <j Qual, pois, em tal caso, deveria ser a
marcha de um Governo illuminado? Propondo esta ques-
tão, presuppomos a possibilidade de salvação, e nos julga-
mos perfeitamente authorizados em tal esperança. Exa-
minando os meios p e q u e podemos obter tam sublime fim,
vemo-nos reconduzidos outra vez ao ponto donde parti-
mos. Para concertarmos aos poucos o edifício, que
ameaça cair, devemos ter seguro alicerce. Assim, para
assegurar um futuro mais feliz, devemos, pelo menos,
estar seguros do presente. A manutenção, portanto,
do que existe agora, deve ser o primeiro, assim como o
mais importante de nossos cuidados. Por isto naõ enten-
demos somente a antiga ordem de cousas, que se tem
respeitado em alguns paizes, porém igualmente todas a»
novas instituiçoens legalmente creádas.
A importância de as manter com firmeza e constância,
se pôde ver pelos ataques, que se lhe tem feito, com uma
fúria talvez maior do que contra nossas antigas insti-
tuiçoens. No tempo presente, a transição do que he
antigo para o que he novo, he acompanhada de tanto
perigo, como a volta do que he novo para o que se tem
abolido. Ambas podem igualmente conduzir a uma ex-
plosão das calamidades, que he essencial evitar a qual-
quer cuato
Política. 255
Naõ desviar, de alguma maneira, da ordem existente
das cousas, qualquer que seja a fonte de que se originem,
naõ tentar mudanças ainda que se julguem absolutamen-
te necessárias, excepto com inteira liberdade, e depois
de uma resolução maduramente pezada, tal he o primei-
ro dever de um Governo, que está inclinado a resistir
aos males deste século. Sem duvida tal resolução, por
mais justa ou natural que seja, excitará uma obstinada
opposiçaõ; porém he evidente a vantagem de ser collo-
cado, sobre uma base conhecida e reconhecida; porque
estando neste forte terreno, será fácil parar, ou anticipar
em todas as direcçoens os incertos movimentos do inimi-
go. Olhamos paia a objecçaõ, que se pôde fazer, isto
he, que, entre as constituiçoens até aqui concedidas na
Alemanha, ha algumas, que se naõ fundam em base al-
guma, e consequentemente naõ tem ponto de apoio, em
que se estribem. Se tal fosse o caso, os demagogos,
sempre indefatigaveis, naõ teriam deixado de as minar.
Toda a ordem, legalmente estabelecida, contém em si
mesma o principio de melhor systema, com tanto que naõ
seja obra do poder arbitrário, ou de louca cegueira (co-
mo aquella geralmente das Cortes de 1812.) Pôde outro
sim dizer-se, que uma Charta naõ he uma Constituição,
propriamente dieta: ésla he formada pelo tempo, e de-
pende sempre dos conhecimentos e inclinação do Gover-
no dar a desenvoluçaõ do regimen constitucional tal di-
recçaõ, que possa separar o bom do máo, consolidar a
authoridade publica, e preservar o socego e a felicidade
da massa da naçaõ, contra toda a tentativa hostil. Segu-
ram-se agora a todos os Governos dous grandes meios de
salvação os quaes, com os sentimentos de sua dignidade
e de seu dever, estaõ resolutos a naõ destruir-se.
Um destes meios consiste na cabal convicção de que
naõ existe entre as potências Europeas má intelligencia, c
256 Política.

que naõ he de presumir que alguma possa existir, te-


gundo os princípios invariáveis dos Soberanos. Este
facto, que está posto alén. de toda a duvida, confirma a
nossa posição, e responde pela nossa força.
O outro meio, he a uniaõ formada no decurso dos úl-
timos nove mezes, entre os Estados Alemaens: uniaõ,
que, com a bençaõ de Deus, a nossa fii meaa a fidelidade
far.iõindissoluvel.
As conferências emCarlsbad, e os decretos, quedima-
nàram dellas, tem obrado de maneira mais poderosa e
saudável, do que talvez nos attreveriamos a confessar,
quando ainda temos os sentimentos daquelles embaraços,
que nos agitam, e quando podemos somente calcular su-
perficialmente todas as vantagens, que temos obtido.
Medidas tam importantes como estas só podem ser
apreciadas em toda a sua extençaõ, quando soubermos
todos os seus resultados. A epocha, que immediatamen-
te se segue, naõ nos pôde apresentar todos; mas pode-
mos apreciar os eflèitos produzidos pelas resoluçoens de
28 de Septembro, calculando o progresso provável, que
os inimigos da ordem teriam feito sem ellas. Os resul-
tados das conferências de Vienna, ainda que de ordem
mais elevada, teraõ eflèitos menos brilhantes, porém
mais profundos e duráveis. A consolidação da uniaõ
Germânica offerece a cada um dos Estados, que a com-
põem, uma garantia efficaz, uma vantagem inapreciavel
nas presentes circ umstancias, e uma de que naõ temos
sido com certeza asbegurados, excepto pelas conseqüên-
cias. A bòa fé e moderação, com que esta importante
obra se conduzio, pôde, por uma parte, fixar-nos em cer-
tos pontos, e nos impede que adoptemos medidas mai»
denodadas e enérgicas; mas, por outra parte, suppondo
possivel tal caminho, seria necessário para esta obra umi
Política. 257
condição premeira ; isto he, a livre convicção e a sincera
confiança de todas as partes contractantes.
Nada compensaria tal defeito, que existiria em toda
a tentativa, para pôr em execução determitiaçoens feitas
com taes auspícios. Em geral, a força moral da confe-
deração éra tam necessária como a sua força legislativa;
e os progressos, que tem feito a convicção da utilidadee
necessidade desta uniaõ, saõ, na nossa opinião, o resul-
tado mais importante e mais feliz.
As regras, que os Governos Alemaens teraõ de obser-
var daqui em diante, se podem apontar em poucas pala-
vras:—
1. Confiança na duração da paz Europea, e na unani-
midade dos princípios, que dirigem as altas potências
aluadas.
g. Uma CBcrupulosa attençaõ a seu systema de admi-
nistração própria.
3. Perseverança na mantença das bases legaes das con-
stituiçoens existentes, e uma firme determinação de as
defender com força e prudência, contra todo o ataque
individual.
4. O melhoramento das faltas essenciaes nestas consti-
tuiçoens: sendo este melhoramento feito pelos Governos,
e fundamentado em razoens sufficientes.
5. No caso de insufficiencia de meios, uma nppellaçac
para o auxilio da Confederação; auxilio este, que cada
membro tem o mais sagrado direito de exigir; e que,
segundo as presentes estipulaçoens, naõ pode agora ser
recusado.
Tal he, segundo nós, o único caminho verdadeiramen-
te saudável, legal e seguro. Sobre taes princípios se
fundão systema politico do Imperador; e a Áustria,
tranquilla no seu interior, possuindo uma respeitável
força moral ephisica, naõ somente fará uso delia para
258 Política.
sua própria conservação, mas estará sempre prompta a
dispor delia, em vantagem de seus confederados, quando
o dever e a prudência pedirem o seu exercício.
Tenho a honra de ser, &c.
( Assignado.) METTERNICU.

«ESPANHA.

Memorial dos Generaes Riego, Banos e Arco Arguero


ás Cortes.
Quando os Generaes, que estaõ á frente do exercito de
observação, se lembram de que a elles e a seus com-
panheiros em armas he devido o primeiro impulso con-
stitucional ; que elles foram os primeiros, que fizeram
resôar o grito da liberdade; que elles apressaram e até
mesmo creàram os acontecimentos extraordinários, a que
os Hespanhoes devem uma pátria; e de que El Rey de-
riva sua grandeza e seu poder; e, finalmente, em conse-
qüência do que a naçaõ tem visto o ajunctamento de «uai
Cortes; estes mesmos generaes naõ hesitam em levar aos
pés do throno seus desejos, e suas solicicitudes.
O capitão General da Andaluzia, em data de 8 do cor-
rente, communica uma ordem do Ministro da Guerra ao
Commandante em Chefe daquelle Exercito. A ordem
pronuncia a sua dissolução, e dispersa, por vários pontos,
os corpos que o compunham.
Explicar ao nosso Congresso nacional a imprudência
desta medida precipitada, seria duvidar dos conhecimen-
tos e sabedoria de nossos legiladores. O Congsesso naõ
ignora, que as circumstancias actuaes saõ ainda difliculto-
sas e precárias. Apenas tem começado suas importantes
deliberaçoens, e o tempo somente he que pôde assegurar
a estabilidade de nossas instituiçoens constitucionaes,
Política. 259
dando-lhes uma força capaz de resistir aos ataques da ma-
levolencia: esta malevolencia deve crescer de dia em
dia, por causa do estabelecimento de um systema dif-
ferente do que se abrogou. As regras, que devem prece-
der e determinar a organização de uma força nacional,
ainda naõ foram sugeitas â primeira discussão. O systema
financial, que deve ser a baze da Administração; refor-
mas de toda a qualidade, que naõ deixarão de excitar
descontentamento e opposiçaõ entre as classes ricas; todas
estas grandes questoens ainda se haõ de resolver. A ley
fundamental do Estado; a segurança publica; saõ amea-
çadas por associaçoens protegidas no exterior, que tem
sua fonte em paizes estrangeiros.
A justiça nacional, ainda naõ alcançou aquelles, que,
em 1814, vilmente atraiçoãiam a confiança de sua pátria,
e abusaram de sua augusta missaõ. Ainda estaõ im-
punes aquelles, que no dia dez de Março fizeram correr o
sangue dos patriotas nas ruas da heróica cidade de Cadiz.
Neste estado de cousas, sem communicar com o Con-
gresso nacional, com quem estaõ identificados todos os
nossos interesses, se despachou uma ordem pela Secre-
taria de Guerra, para desbandar o nosso exercito, que
proclamou a liberdade; que jurou enterrar-se debaixo
das ruínas de sua pátria, antes do que abandonar suas
armas, primeiro do que vissem a mesma pátria completa-
mente feliz e regenerada.
He o tempo presente favorável ? As Cortes sem duvida
concederão, que este feliz momento de depor as armas,
ainda daõ he chegado; que a medida, que o ordena, he
prematura; que he acompanhada por um séquito de fa-
taes conconsequencias, perigozas á liberdade publica,
cuja preservação he o único objecto dos desejos do exer-
cito e de seu chefe.
Esperamos da sabedoria do Congresso, que reflectirá
maduramente na importância deste negocio, e que nos
2'td [260] Politira.
naõ porá na perigosa alternativa, <le faltai ao nosso prin-
cipal objecto, que he a segurança de nossa pátria (objec-
to a que naõ cessamos de aspirrr, desde o primeiro dia de
nossa feliz e gloriosa empreza) ou de desobedecer a uni
Ministro orgaõ do poder desordenado, e cuja ordem
compromette a liberdade nacional, ganhada por nossos
esforços.
(Assignados) R R F A E L . DEL R I E G O
M I G U E L L O P E Z BANOS.
P H I L L I P E DE A n c o ARGUEJIO.
S. Fernando, 11 de Agosto de 1820,

Memorial a El Rey.

SENHOR !•—Desejamos, que os que cercam a Vossa


Majestade conhecessem plenamente a sinceridade de nos-
sos sentimentos, e desejaríamos, com igual bôa fé, pro-
mover a felicidade da Hespanha, seguindo as veredas,
que o Céo milagrosamente se dignou abrir-nos; deseja-
mos, que elles quizessem, assim como nós, que Vossa
Majestade visse a sua gloria e a sua prosperidade aug-
mcntaiem-se na linha de comportamento, que adoptou
com tanta nobreza, para a felicidade de sua naçaõ; desta
naçaõ, que tem tam bem provado a todo o universo, o
amor em que arde por vossa augusta pessoa.
Pois, Senhor, se isto assim he, sem temer interpreta-
çoens sinistras, presumiríamos depositar, no seio de
Vossa Majestade, todos os nossos sentimentos, e a nossa
franqueza fará que elles sejam recebidos com generosa
indulgência. Uma ordem Real de 14 do corrente, que
desbanda o corpo de observação, foi communiçada aos
8 pelo Capitão General de Andaluzia, D. J. 0'Donqjhu.
Esta ordem excita o temor de que o nosso requirimento
Política. -261
naõ seja recebido tam favoravelmente como deve ser.
Receamos que uma maõ hostil dirige as operaçoens do
Ministério, e leva a naçaõ á sua ruína; receamos que
comprométte a Vosa Majestade, ao exercito e a nós mes-
mos, que nada desejamos mais do que o estabelecimen-
to de um systema constitucional. Este systema, Se-
nhor, assegura a Vossa Majestade, uma grandeza e um
poder, que naõ tendes achado no systema contrario; por-
que Vossa Majestade tem tido demasiada triste expe-
riência, á custa da honra Hespanhola, naquelles annos
de aflicta memória, quando estáveis cercado e enganado
por ministros ao mesmo tempo ignorantes e perversos.
Dizemos, Senhor, com franqueza, que uma occulta
maõ gula à destruição inevitável, tanto a naçaõ como a
Vossa Majestade; porque excita desconfianças, indignas
de Vossa Majestade e de nós; a nossa boa fe he irritada
por suspeitas, que as ordens ininisteriaes naõ tentam dis-
farçar.
Em ordem, Senhor, a preservar a affeiçaõ que os nos-
sos concidadãos nos testificam, e a bondade com que
Vossa Majestade nos honra, devemos permanecer fieis
aos princípios, que temos proclamado, quando abraça-
mos a causa da nossa pátria, e de Vossa Majestade. A
historia nos ensina, que muitas vezes tem custado caro
dizer a verdade aos reys; naõ porque elles sejam inimi-
gos da verdade, mas porque ella contrasta os interesses
de seus cortezaõs.
As mesmas façanhas de Cid, que nunca se dirigio a
outra cousa mais do que ã gloria de seu Principe, foram
objecto dos sarcasmos dos validos de palácio, e castiga-
das por aquelles, que as deviam premiar. Porém nós
naõ podíamos ver com indifferença o nosso paiz, sub-
mergido na confqsaõ pela ignorância, se naõ pela perver-
sidade, de um ministério, que nos pucha para a borda
VOL. XXV. No. 148 xx
262 Política.
do precipício, pôc-m a perigo a segurança do Estado,
obriga-nos a relaxar as leys da disciplina, e surprende a
Vossa Majestade, para dar ordens contrarias a seu servi-
ço, e perigosas á tranquillidade publica. O nosso com-
portamento prova, que naõ devemos ser objecto de algu-
ma sorte de desconfiança. As tropas, que temos a hon-
ra de commandar, merecem as bençaõs e o amor de Vos-
sa Majestade, e de todos os Hespanhoes. A despeito da
opposiçaõ, que experimentamos a cada passo, e das in-
trigas, que incessantemente contrariam nossos mais ino-
centes movimentos, naõ ha um indivíduo no exercito,
que corra algum perigo de ser accusado de inimigo de
sua pátria e de seu Rey. Ja fomos experimentados, e
ainda daremos provas convincentes de nosso bom com-
portamento, para podermos contar d'ante maõ com a es-
timação da posteridade. Ajunetou-se o Congresso; mas
ainda naõ tem podido realizar as reformas, que a naçaõ
exige. Estas reformas necessariamente haõ de ser op-
postas por aquelles, que estaõ acustumados a viver das
calamidades publicas; aquelles, que naõ podem suppor-
tar a idea de ver que os Hespanhoes adquirem, por
meio de novas instituiçoens, os conhecimentos, que
d'antes lhes faltavam ; aquelles, que naõ podem ver a
diflusaõ das incontestáveis verdades, que a virtude e o
trabalho saõ as melhores genealogias; as verdadeiras
fontes daquella prosperidade, que deve ser procurada
pelo homem bom, pelo Hespanhol digno deste nome.
O dia dez de Março ainda está impune. A justiça
nacional ainda naõ alcançou aquelles, que em 1S14 vil-
mente atraiçoaram a confiança de sua pátria, e abusaram
de sua augusta missaõ, enganando a Vossa Majestade, e
desencaminhando vossa razaõ, a tal extençaõ, que vos
fizeram recompensar com tormentos e morte a generosa
devoção dos Hespanhoes, cm favor de Vossa Majestade,
quando estava caplivo nas maõs de vossos pérfidos ini-
Política. 2G3
migos; aquella devoção, cujo objecto éra consolidar a
liberdade publica sobre taes bazes, que naõ fosse possi-
vel, ao depois, que algum de nossos príncipes fossem a
victima de ministros ignorantes ou corruptos. Mil regu-
lamentos indispensáveis tem ainda de ser submettidos á
primeira discussão. A ley fundamental do Estado, e a
segurança publica estaõ ameaçadas por associaçoens pro-
tegidas por estrangeiros, e por inquietaçoens internas,
cujas causas se podem traçar a influencia estrangeira.
Nestas circumstancias quiz o Ministro dissolver o ex-
ercito de observação; aquella salvaguarda da representa-
ção nacional, pela qual nós pelejamos por Vossa Majes-
tade; e as novas instituiçoens, que ainda estaõ bem longe
do estado de perfeição e solidez, necessários para apre-
sentarem verdadeira garantia do socego geral.
Uma vez dissolvido este corpo do exercito, Vossa Ma-
jestade ja naõ tem defeza alguma, contra os inimigos de
vossa pessoa, e da naçaõ. Se abandonamos esta posição,
donde fizemos tremer os mãos ^ que vasto campo se abri-
rá ás culpaveis esperanças daquelles, cujos projectos cri-
minosos somente a nossa uniaõ previne ? Senhor, a des-
graça da inocência provem da seducçaõ dos perversos; e
o bom coração de Vossa Majestade ja foi seduzido por
conselhos pérfidos : como Vossa Majestade declarou em
sua proclamaçaõ de dez de Março próximo passado.
jQuem pôde assegurar a Vossa Majestade, a seus minis-
tros, ou a nós, de que a dissolução deste corpo naõ pro-
cede de uma trama contra a liberdade de nossa pátria e
preservação de Vossa Majestade no throno?
Animados, Senhor, pelo mais vivo interesse pelo bem
geral, que interessa essencialmente a Vossa Majestade,
assim como á Real Familia; convencidos de que o bom
character, que temos adquirido entre nossos concidadãos,
e até no mundo, deve ser preservado intacto, izento de
*oda a suspeita de traição ou fraqueza: que o nosso si-
261 Politica.

lencio seria um crime, quando a nossa pátria está »o


ponto de cair nas maõs de seus inimigos, que pronuncia-
riam a dissolução do exercito, rogamos a Vossa Majes-
tade seja servido attender a esta exposição ; a ponderar
as conseqüências da ordem Real, communicada ao exer-
cito pelo Ministro da Guerra; a suspender o seu effeito;
e a apreciar o Ministro, pelo passo que deo nesta occasi-
aõ, que pôde ser a origem de incalculáveis desgraças.
Em nosso nome, e no do exercito.
(Assignados) R A F A E L DEL R I E G O .
L O P E Z BANOS.
ARCO ARGUERO.

Relatório do Commissario, nomeado para devassar das


desordens cm Cadiz aos 10 de Março de 1S2Ü.

Em ordem a satisfazer a impaciência geral, sobre a con-


clusão do processo, que S. M., aos 21 de Março proxime
passado, ordenou que se instituísse, relativamente aos sue-
cessos, que aconteceram em Cadiz, aos 10 e 11 do mesmo
mez, requeri ao Governo, que desse ao publico noticia dos
progressos que nisso se faziam; e S. M., annuindo á
minha proposição, e authorizando-me para esse effeito,
me apresso a referir, que, ainda que a devassa esteja so-
mente em forma summaria, com tudo, dá toda a luz neces-
sária, para guiar com certeza nosso juizo, sobre aquelles
infelizes acontecimentos, fixar a opinião sobre as causas,
que os produziram, e sobre o character das pessoas, que fi-
guraram, em bem diversos modos, naquella scena de san-
gue e dessolaçaõ, que he digna de eterna lembrança. Se-
guindo estrictamente a marcha prescripta pelas leys, que
regulam a ordem dos processos, leys invioláveis, que saõ
a única salva guarda da liberdade; collocando-me acima
Política. 2Q.',
de toda a influencia das paixoens, e attendando somente
á vóz da justiça, tenho trabalhado incessantemente por
chegarão fim de minha importante commissaõ; mas,
pela mesma razaõ, tem sido do meu dever ouvir todos
aquelles, que posso esperar revelem os mysterios de ini-
qüidade, que inundaram Cadiz de sangue e lagrimas, aos
10 de Março; e por outra parte, éra justo interrogar to-
dos os actores naquella lamentável catastrophe, em que
o numero dos executores foi muito maior do que o das
victimas. He fácil conceber o numero de declaraçoens,
que se tem feito, e sem duvida com um gráo de vanta-
gem proporcional ao cuidado, que tem havido. A for-
mação da causa está próxima a seu complemento e o
processo está em tal estado, que naõ está mui distante o
momento, em que juizes dignos de confiança publica pro-
nunciarão a sentença. N a õ h e licito anticipar o seu j u i z o ;
nem a circumspecçaõ própria do meu character legal me
permitte denunciar os cruéis authores das desgraças de Ca-
diz; sendo mui fácil confundira illusaõ de opinioens com
a malícia, os erros com os crimes, a imprudência com o
engano, e a franqueza com a perverversidade. Lembro ao
publico, que a demora nos procedimentos judiciaes, he
um tributo devido á justiça; e para assim dizer, o preço
porque se compra a segurança do cidadão; que as for-
mas judiciaes saõ o escudo da liberdade; a precipitação
o mais perigoso escolho no caminho da justiça: por tan-
to, exhorto-os a que confiem no meu zelo, e na rectidaõ
do Governo, a quem esta confiada a protecçaõ de seus
direitos, e o castigo dos crimes.
(Assignado) GASPAR HERMOSA. Juiz
da Devassa.
(Coronel Fiscal.)
Sau Lucar de Barrameda
20 de Agosto de 1820.
( 266 )

COMMERCIO E ARTES.

Edictal da Juncta do Commercio em Lisboa, sobre as in-


demnizaçoens lnglezas, pela Galera Dido.

A' Real Juncta do Commercio, Agricultura, Fabricas


e Navegação baixou o seguinte

Avizo.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor.—Havendo o
Ministro de Sua Majestade na Corte de Londres partici-
pado, que a Commissaõ Mixta estabelecida naquella ci-
dade, em virtude do artigo nono da Convenção addicio*
nal ao Tractado de 22 de Janeiro de 1815, havia recente-
mente dado uma sentença a favor da galera Dido, de que
fora Capitão Caetano Alberto da Silva, adjudicando
aos proprietários a indemnizaçaõ de Libras esterlinas
11.649-14-2; he o mesmo Senhor servido mandar fazer esta
communicaçaõ à Real Juncta do Commercio, Agricultu-
ra, Fabricas e Navegação, para que lhe dê a conveniente
publicidade, para conhecimento das pessoas a quem pos-
sa interessar. O que participo a Vossa Excellencia, para
o fazer presente no Tribunal, e assim se cumprir. Deus
guarde a Vosa Excellencia Palácio do Governo, em 20
de Julho, da 1820. D. Miguel Pereira Forjaz.—Sflr. Cy
priano Ribeiro Freire.
Commercio c Artes. 267

E para assim contar se mandaram fixar Edictaes.


Lisboa 27 de Julho de 1820.

(Assignado-.) JOZE A C C U R S I O DAS N E V E S .

Mappa das Embarcaçoens, que entraram e sahiram do


porto do Rio-de-Janeiro no anno de 1819.

Estrangeiras.

Entraram. Sahii

AllemaSs 3 3
Americanas 61 70
de guerra 2 2
Cidades Anseaticas
is 4 2
Dinamarquezas 2 2
Hespanhoes 0 1
Francezas 32 27
de guerra 3 2
Hanoverianas 1 0
Hollandezas 14 13
de guerra 2 2
lnglezas 159 175
de guerra 15 16
Paquetes 13 13
Prussianas 2 0
Russas 6 5
de guerra 4 4
Sardas 1 1
Suecas 16 11

340 349
268 Commercio c Artes.

Portuguezas de gnerra.
Fragatas 2 3
Brigues 19 . 20
Escorias 22 . 22
Corvetas 5 6
Charruas 3 5

Total 51 56

Mercantes.

Portos da Europa
Navios 33 . . 21
Bergantins 22 . 16
Escunas 2 . .
Dictos d'Africa
Navios 19 . . 15
Bergantins 30 . . 37
Escunas 2 . 1
Corvetas 3 . 2
Dictos d'Ásia
Navios 7 , 6
Bergantins 2 . I
America do Sul, excepto do Brazil
Navios 3 • 4
Bergantins 19 • . 16
Escunas 4 • 4
Sumacas 27 • . 26
Total 173 149

Somma total 564 554


Commercio e Artes. 269

Portuguezas nos portos do Brazil.


Entraram. Sahiram
Alagoas 3 3
Akobaça 1 9
Assú 1 4
Assumar 1 0
Bahia 28 . 22
Benevente 6 7
Cabo frio 65 . 69
Campos 230 . 223
Cananéa 7 4
Capitania 37 . 38
Caravellas 18 7
Coreripe 1 1
Gruparim 6 4
Guaratiba 1 0
Iguape 2 8
Ilha Grande 71 . 56
Itamaracá 2 0
Itapacoroia 3 0
Itapemerim 10 6
Laguna 21 . 20
Macahé* 47 54
Maugaratiba 7 15
Maranhão 4 5
Pará o 1
Parati 84 80
Pernambuco 22 21
Porto Seguro 1 O
Paranagoá 26 26
Rio de Contas 1 1
Gio Grande e Porta-
legre 108 105
VOL, X X V . N» 148. MU
270 Commercio e Artes.

Rio de Ostras 14 14
Rio de S. Francisco 10 8
Rio de S. Joaõ 87 90
Santa Catharina. 24 26
Santos 64 61
S. Matheus 9 4
Sepitiba 13 12
Tagoahi 35 43
Taipú 3 O
Ubatuba 19 5
Somma 1092 1043

Total Geral 1656 1597

N. B. Neste numero naõ se comprehendem as embar-


caçoens arribadas.
( 271 )
Preços Correntes dos principaes Productos do Brazil.
LONDRES, 25 de Septembro, de 1820

GenerM. Qualidade. Preços. Direitos.

.Bahia por lb l s . l£p. a l s . 2 | p .


I Capitania. .
1 Cea i á l s . 4p. a l s . 5p. 6s. 7p. por 100 l b .
Aljodani . .J Maranham .. ls. 2Jp. a ls. 3£p em navio Po rtuguez
j Minas novas l s . Op. a l s . 2|>. ou Inglez.
(Pará l s . Op. a l s . 2p.
^Pernambuco l s . 3p. a ls. 3|p.
Anil Rio 5 por lb,
Redondo . . . 43s. a 48s.
} Batido . . . . .
Mascavado .
49s. a 58s.
34s. a 38s. .Livre «te direitos por
Arroz Brazil exportação.
Cacáo , .Pará 55s. a 65s
Caie Rio , 128». a 133».
Cebo Rio du Prata 3s. 2p. por 1121b,
Chifres. Rio Gande por 123 48s. a 5s4. 5s. por 1121b.
CA 8Jp. a 9*p.
Rio da Prata, pilha 1 B
f C
CA 7Jp. a 7jp. 10 p. por couro
kRio Grande ] B 6p. a 6Jp.
<C 6p. a ô | p .
Pernambnoa, salgados
• Rio Grande de cavallo
Ipccacuaaha Brazii por lb. 14s. Op. á l ã s . 6p 48. >
Oieo de cupaiba,,
Orucu
l s . 2p. a l s . 4p
4s. Op
2s. J por 1121b.
Páo Amarelo. Brazil 120s. a 130s. ) direitos pagos pelo
Pao Brazil . . . .Pernambuco 5 comprador,
Salsa Parrilha. Pará . . . l s . 9p, a 2 s , . . . i direitos pagos pelo
Tapioco 5 em rolo. > comprador,livre por
I em folha. ' exportação
Tapiaca.... "..Brazil 18p. rij por lb.

Câmbios com as seguintes praças.


Rio de Janeito 54 Hambuigo 37 6
Liihoa 48* Cadiz 34*
Porto 48* Gibrallar 30
Paris 25 70 Genora 43*
Amitrrdain 12 7 Malta 45

Espécie Seguros.
Ouro em barra £ 3 17 1 0 | Brazil. Hida 30s. Volta 30B
Decai de 6400 reis 3 14 6 Lisboa 25s.
/ por 30s
Pobroeni Hespa- Porto
nhoes \ onça. 30s
Madeira 20i
PPZO» dicloi
Açores 20a,
Prata em barra Rio da Prata 42i. 42»
Bengala 60i «2i
I 272 )

LITERATURA E SCIENCIAS.

N O V A S P U B L I C A Ç O E N S EM INGLATERRA.

HoldredCs Álgebra ; preço 7*. Novo methodo de re-


solver equaçoens com brevidade e facilmente, em que se
acha, sem reducçaõ previa, a quantidade incógnita.
Com um Supplemento contendo outros dous metbodos
sobre os mesmos princípios. Por Theophilo Holdred.

Soortsbyys Arciic Regions. 2 vols. 8T0. preço 2/. 2Í.


com 24 estampas. Noticia das regioens Árticas, com a
historia e descripçaõ da pescaria das baleas no Norte.
Por Guilherme Scoresby. F. R. S.

Henen's Principies of Military Surgery. 8™ preço


18Í. Princípios de Cirurgia Militar, comprehendendo
observaçoens sobre o arranjamento, policia e practica
dos hospitaes, e sobre a historias, tractamento e anoma-
lias da Varíola e Siphilis, illustrado por casos, dissecço-
ens, e estampas. Por Joaõ Henen, M. D. Inspector dos
Hospitaes.

Appleton's Early Education. 8T0. preço 10í. 6d.


Primeira Educação, ou o manejo das crianças, coniide-
Literatura e Sciencias. 273
rado com as vistas de seu futuro character, &c. Pela
Senhora A ppleton, Authora da Educação particular, &c.

Wilks' History of Mysor. 3 vols. 4to- preço 61. 6s.


Esboços históricos da Iudia Meredional. Tentativa para
traçar a historia do Mysor, desde a origem do governo
Indico até a extincçaõ da dynastia Mahometana em
1799; fundada em authoridades Indicas, colligidas pelo
Author, durante vários annos, que officiou como Agente
Politico na Corte de Mysor. Pelo Coronel Mark Wilks.

Nichoirs Recollections. 8T0. preço 12Í. Reminiscen-


cias pessoaes e políticas, connexas com os negócios pú-
blicos, durante o reynado de George III. Por Joaõ Ni-
cholls, Membro da Casa dos Communs nos XV., XVI.
e XVIIL Parlamentos da Gram Bretanha.

Dissertation on the passage of Hannibalover the Alps.


8T0, preço, com 4 mappas, 12*. Dissertação, sobre a pas-
sagem dos Alpes por Hannibal. Escripta por um Mem-
bro da Universidade de Oxíord.

Parleis Treatise on Heat, preço 2s. 6d. Tractado


sobre o calor, chama e combustão. Por T. M. Parley.
0 objecto deste tractado he mostrar, que o calor naõ he
propriedade da matéria; que a chama he um elemento
e única causa do calor na natureza, &c.
274 Literatura e Sciencias.
Viera Arte de Furtar. Nova edicçaõ da Arte de Fur-
tar escripta pelo Padre Antônio Vieira; dedicada pelo
edictor ao Illustrissimo Senhor F. B. M. Targini, Viscon-
de de S. Lourenço, Londres 1820. Na othcnia de T. C.
Ha nsa rd. Preço 12Í.

PORTUGAL.

Saio ã luz: Fábulas moraes de Mr. de La Fontaine,


traduzidas em verso lyrico Portuguez. Por B. M. C. S.
ou Belmiro Transtagano.

ECONOMIA, P O L Í T I C A D E SIMONDE.

CAPITULO VIU.
Dos tractados de Commercio.
(Continuado de p. 167)
O commercio das matérias finas naõ merece, mais do
que os outros, os favores do Governo; por que elle naõ
procura á naçaõ mais vantagens que os outros, nem aug-
menta mais as suas rendas. Pelo contrario, como naõ
he senaõ um commercio de transporte, que consiste em
tirar os metaes d'um paiz, para os reexportar para outro,
sem nunca os applicar ao uso próprio do paiz commerci-
ante, fica na classe daquelles, que contribuem menos â
prosperidade do Estado; porque os dous capitães, que
substitue alternadamente, saõ ambos estrangeiros, e põ-
em em movimento menos industria nacional do que ne-
nhum outro.
O Governo Francez será talvez convidado a negociar
Literatura e Sciencias. 275

algum tractado de commercio com a Hespanha: este


paiz, assim como Portugal, distribue numerário a toda a
Europa, e quando tenha recebido o que para elle se ac-
cumúla na America, terá também grande quantidade
para exportar.* Se o Ministério Francez prestar ouvi-
dos aos fautores do systema mercantil, talvez se nao occu-
pe senaõ dos meios de favorecer a entrada das patacas
Hespauholas no nosso paiz, Temos visto que a super-
abundancia das espécies em Hespanha, tinha ali feito
abaixar o seu valor relativo, o que he o mesmo que en-
carecer tudo quanto por ellas se pôde trocar; de sorte
que a prohibiçaõ de exportar o numerário lhe tinha
occasionado uma perda habitual, sobre o valor com que
ella paga a maior parte de suas compras, além do nume-
rário, que he a principal mercadoria, que ella destina á

* A Hespanha vendia cada anno muito numerário, e entretanto


parecia estar sempre desprovida delle; este êxito pôde mui bem
estar com o baixo preço das matérias finas : duas cousas con-
correm a explicállo. Primeiramente, a Hespanha ficou tam po-
bre, tem tam pouco commercio e as trocas saõ ali tam pouco
freqüentes, proporcionalmente á sua extençaõ, que naõ tem ne-
cessidade para a sua c irculaçaõ, senaõ de uma massa de nume-
rário muito menor do que ontro qualquer paiz. Em regundo lu-
gar, a Hespanha tem de tal modo multiplicado a sua moeda de
cobre, que este deve necessariamente expulsar do paiz o ouro e
a prata: logo que a quantidade de moeda de cobre cessa de ser
proporcionada á massa total do numerário, produz necessaria-
mente o mesmo effeito do papel moeda, do que naõ differe, sen-
do o seu valor igualmente fictício, independente do trabalho,
que nella se accumula, e desconhecido fora dos Estados de um
só Soberano. Tudo quanto temos dicto, Liv. I. cap. VI. do
papel moeda he applicavel á moeda baixa ou de cobre, e basta
para fazer comprehender, como esta expulsa do paiz as espéci-
es de ouroe prata, que circulam em concurrencia com ella
276 Literatura e Sciencias.
exportação. Ajustando que a Hespanha revogue esta
prohibiçaõ, se obteria uma vantagem para esta naçaõ al-
uada, sem causar àFrauça nem lucro ném prejuízo; mas
se ao depois se fizessem esforços para reter nas nossas
fronteiras, este numerário que entrasse, far-se-hia á Fran-
ça o mal que a mesma prohibiçaõ faz à Hespanha; far-
se-hiá com que abaixasse o preço do dinheiro, ou, o que
he o mesmo, far-se-hia levantar o preço da maõ d'obra,
e o de todas as mercadorias, que se trocam por este di-
nheiro, e se participaria com a Hespanha de uma perda,
que hoje em dia ella somente padece.*
O Governo Francez annunciou aos negociantes, que naõ
se achava ainda disposto a concluir tractados de com-
mercio; sem duvida teve razaõ em pospòr isto, para ter
tempo de conhecer as verdadeiras necessidades da Fran-
ça, e de distinguir a gritaria de alguns fabricantes do
desejo geral do commercio e dos consumidores; porém
se, depois deste estudo prévio, vier a conclusão, he de
esperar que naõ será sobre as bazes estreitas e mesqui-
nhas, de que acabamos de dar conta, e que o favor, que
procurará ao commercio, será o de ser livre, e entregue
a suas próprias forças.
O projecto de libertar o commercio he aquelle a que
se propõem a terceira classe dos negociadores, de quem
ainda temos de fallar. O commercio he uma vantagem
para cada particular assim como para cada naçaõ, seja no
momento em que compra, seja no em que vende: no
primeiro caso, procura-lhe aquillo de que tem necessidade,

* Segundo o Dicc. de Peuchet, Tom. IV. p. 410, na epocha,


que procedeo a revolução Franceza ; a França tirava da Hespa-
nha annualmente espécies de ouro ou prata, pelo valor da
C2-.500.000 francos. He provável que dentro em pouco» annos
este coinmeicio se restabeleça no mesmo pé.
Literatura e Sciencias. 277
a preço relativo mais baixo do que o houvera obtido sem
o commercio; no segundo caso, he-lhe preciso vender
o qne tem de mais, a preço mais alto do que teria feito
sem seu soccorro: a primeira operação diminuc as suas
despezas, a segunda augmenta as suas rendas. Quanto
mais livre e extenso for o commercio, tanto melhor po-
derá a França comprar a bom mercado das outras na-
çoens, o que lhe for necessário para seu consumo, ou
que pôde applicar para seu uso, e por conseqüência se-
raõ tanto maiores as poupanças, que poderá fazer em
suas despezss. Por outra parte, quanto mais se multi-
plicar o numero dos freguezes, que delia comprarem o
que produz de supérfluo a seu consumo, tanto mais ella
produzirá para elles, na razaõ do augmento de suas ne-
cessidades, e tanto mais ella poderá ao mesmo tempo
levantar o seu preço relativo, na razaõ do augmento do
numero dos compradores, comparado ao dos produc-
tores; de sorte que se augmentaraõ as suas rendas, ja por
uma producçaõ mais considerável, ja pelo maior lucro
desta producçaõ. He pela razaõ de que o conimercio
faz a vantagem das duas partes contractantes, que a sup-
pressaõ de todos os entrávez, que diíhcultum a circula-
ção de uma província a outra, contribue poderosamente
á prosperidade de ambas. Se forem supprimidos os ob-
stáculos, que coarctam a passagem das mercadorias de
um Estado para outro, far-se-ha ao commercio da Euro-
pa o mesmo serviço, que se tem feito ao commercio in-
terior da França, tiazendo-se ás fronteiras todos os es-
criptorios das arrecadaçoens, que impedem a circulação
interior das provincias.
Quando duas naçoens, contractando um tractado de
commercio, convém abolir os entrávez, que difncultiini
sua communicaçaõ, sem proveito do Fisco, fazem com
VOL. XXV. N*, 148. SN
278 Literatura e Sciencias.

q u e todos tenham um beneficio igual, ainda que um del-


les c o m p r e ao o u t r o m u i t o m a i s d o q u e lhe vende. Neste
caso o beneficio d o p r i m e i r o será principalmente a van-
tagem d o consumidor, d i m i n u i n d o as despezas: o bene-
ficio d o segundo será p r i n c i p a l m e n t e em vantagem do
productor e em a u m e n t o das r e n d a s ; * mas se naõ con-

* He nesta cathegoria, que se deve arranjar o tractado de


commercio concluído entre a França e a Rússia aos 11 de Janeiro
de 1787. Os principios, que dirigiram os negociadores neste
ultimo, e no outro entre Inglaterra e a França, concluído pou-
co tempo antes, saõ os mesmos. Entretanto os effeitos dos
dous tractados naõ se fizeram sentir igualmente, porque a
França naõ pôde entreter com a Rússia senaõ um commercio de
natureza bem differente do que fazia com a Inglaterra. Pelo
tractado de Petersburgo os mercadores Russianos, que nego-
ciassem em França, ficavam izentos dos direitos do frete, e dos
de 20 por cento sobre as mercadorias desembarcadas em Mar-
seilhes, suas ceras e seus cebos obtém uma reducçaõ de 20 por
cento nos direitos expressos na tarifa, e os seus ferros saõ ad-
mittidos no mesmo pé das naçoens mais favorecidas : (Art. X,
X I , e XII.) Em retribuição, o Imperador da Rússia concede
áos Francezes nos seus portos as mesmas vantagens, que a seus
próprios subditos, e diminue os direitos recebidos nos vinhos e
saboens da França. (Art. XII.) Este tractado naõ estipula nada
quanto ás manufacturas de uma ou outra naçaõ, em quanto o de
20 de Junho de 1766, entre a Inglaterra e a Rússia estabelece,
que os direitos sobre os panos e estofos Inglezes seraõ fixos de
maneira moderada. O tractado de Petersburgo podia ser muito
mais vantajoso á França e á Rússia ; porque podia dar a seu
commercio reciproco muito maior liberdade. Tal qual éra con-
tribuía ja, sem duvida, a augmentar as rendas, e diminuir as
despezas de uma e outra naçaõ. Dava aos Russianos mais fa-
cilidade de obter bom preço por suas matérias primas, e de se
prover sem demasiado gasto dos productos do terreno ou da in-
dustria Franceza : dava aos Francezes mais facilidade de se
Literatura e Sciencias. -J79

sideramos senaõ a extensão, q u e se dá ao m e r c a d o d o


vendedor, todo o t r a c t a d o d e c o m m e r c i o , cuja base he a
liberdade, he constantemente vantojoso aos productores
de ambas as n a ç o e n s , q u e contractam ; porque n u n c a
acontece que u m a n a ç a õ c o m p r e d e outra unicamen-
te a credito ou numerário, e sem lhe vender a l g u m a
cousa em retorno. Q u a n t o aos productores, estes sem-
pre nisso acham a maior vantagem, q u e pertence â na-
çaõ mais pequena e mais pobre das d u a s ; porque o m e r -
cado, que lhe he aberto, he tanto mais vantajoso, q u a n -
to he mais vasto e mais rico.
Naõ posso dispensar-me de e x t r a h i r , por occasiaõ
disto, o discurso porque Mr. P i t t defendeo no Parlamen-

proverem, a baixo preço, das matérias primas, que lhe fornece


o Norte, e de vender ali de maneira proveitosa os seus vinhos e
os seus saboens. Mas os que adoptam o systema mercantil
consideram as vantagens, que a Rússia tira deste tractado,
antes como percas; ao mesmo tempo que olham como de
grande vantagem, e de alta importância, os que dali re-
sultam para a França: assim o tractado com a Rússia he alia-
mentente approvado, pela mesma gente, que condemna o da
Inglaterra. Nos olharemos para ambos como vantajosos;
ambos estes coramercios como proveitosos ; entretanto aquelle,
dos dous, que melhor convém, hoje em dia, á naçaõ Franceza,
naõ he o commercio Russo, mas o commercio Inglez ; porque o
primeiro consiste principalmente em vendas a credito, e em
contas a dinheiro de contado, o que constitue um empréstimo de
capitães Francezes á Rússia; e appresenta o que os calunia-
dores políticos chamam um balanço favorável : ao mesmo tempo
que o commercio com a Inglaterra, vista a taxa dos juros e o
estado das fabricas nos dous paizes, debaixo das apparencias
de um balanço desfavorável, se compõem de vendas a dinheiro
de contado, e de compras a credito; de tal sorte que a França
attrahe a si, a titulo de empréstimo, uma somma considerável dos
capitães Inglezes.
280 Literatura e Sciencias.
to aos 12 de Fevereiro de 1787, o tractado de commer-
cio, que acabava de concluir com a França: este discurso
he igualmente curioso por sua bôa lógica, e pela com-
paração, que delle se pode fazer, com o comportamento
subsequente deste Ministro, quando entrou de novo na
administração.
Naõ he verdade, disse elle, que uma naçaõ deva ser a
inimiga natural e inalterável de outra; esta inimizade
naõ he confirmada pela experiência das naçoens, nem
pela historia dos homens; he calumniar a constituição
das sociedades políticas, e suppôr a existência de uma
malignidade infernal no character humano. Os Fran-
cezes, na maior parte das suas guerras com elles, foram,
he verdade os aggressores, mas a sua franqueza na nego-
ciação actual merece da nossa parte igual confiança. Se-
ria ridículo esperar que os Francezes consentissem em
ceder-nos vantagens, sem obter compensação; assim o
tractado concluído com elles lhes será sem duvida vanta-
joso, mas o será ainda mais para nós. A França obtém
para os seus vinhos e suas outras producçoens a entra-
da em um rico e vasto mercado: nós obtemos para as
nossas manufacturas a mesma vantagem, mas em grão
muito mais superior. A França adquire oito milhoens
de consumidores, nòs adquirimos vinte e quatro milhoens:
he preciso aproveitar o momento, em que duas naçoens
estaõ dispostas a formar relaçoens tam vantajosas. A
França deve aos benefícios da Providencia, o melhor ter-
reno, o mais bello clima, as mais ricas producçoens; ella
possue mais do que nenhum outro paiz, em suas ferieis
vinhas, suas abundantes colheitas, tudo quanto pôde fa-
zer a vida feliz. Por outra parte, a Inglaterra, menos fa-
vorecida pela natureza, deve â sua feliz liberdade, á sua
constituição, â igualdade de suas leys, e á segurança, que
ellas procuram, o haver-se elevado ao mais alto ponto de
Literatura e Sciencias. 281
grandeza commercial, e de se ter posto em estado de for-
necer â França as commodidades da vida, em troco das
preciosas producçoens de seu terreno.*
0 tractado de commercio asignado aos 26 de Septem-
bro, 1786, éra com effeito, ainda que tenha excitado al-
gumas queixas, vantajoso a ambas as naçoens ; e éra para
os productores de cada uma, como observa Mr. Pitt, (que,
assim como os demais políticos, conta aqui por nada o in-
teresse dos consumidores) na razaõ da extençaõ do mer-
cado, que offerecia a uma no paiz da outra; isto he, na
razaõ da população e da riqueza da naçaõ com quem
contractava. O principio geral deste tractado éra a ad-
admissaõ mutua da importação e exportação das merca-
dorias de um e outro paiz, mediante uma contribuição
módica e proporcionada a seu valor ; e que se pagaria na
entrada.f Os Francezes tinham tido a condescendência

* Lloyd's History of England f íom the peace in 1783. Chap.


II. §27.
f Na maior parte dos objectos manufacturados esta contri-
buição naõ passava de dez a quinze por cento de valor das mer-
cadorias. A quinquilheria e gazes eram taxadas a dez por
cento (§ vi. do tractano Art. 6 e 10) os algudoens, as modas a
porcelaina e os vidros pagavam 12 por cento de valor (Art. 9.)
as batistas 5 shillings por meias peças de sette varas e três quar-
tas (Art. 8.) Os direitos sobre os vinhos águas ardentes, vina-
gres e azeites, ainda que muito diminuídos, naõ o foram tanto :
uns igualavam, outros até ultrapassavam o valor original da mer-
cadoria. (Art. 1. 2.3. e 4.) O direito sobre a cerveja foi fixado
a 30 por cento (Art. 5.) Se a reducçaõ dos direitos cobrados
pelos Inglezes sobre as bebidas fornecidas pela França, tivessem
sido proporcionadas á reducçaõ dos direitos cobrados pela
França sobre as mercadorias de fabrica Ingleza, he provável que
as importaçoens de ambas as partes tivessem igualada as expor-
taçoens ; ao mesmo tempo que, segundo as contas das alfande-
282 Literatura e Sciencias.
de consentir em que os Inglezes, para manter o tractado
de Methuen naõ fizessem pagar aos vinhos de Portugal se-
naõ dous terços dos direitos de entrada que os Francezes
pagavam ; o que naõ éra justo, porém só lhes éra desfa-
vorável, em tanto quanto estes direitos eram mui subi-
dos.
(Continuar-se-ha.)
gas Francezas, se calcula que as importaçoens de mercadorias
lnglezas subiram.
no anno de 1787 a 58:500.000 francos.
1788 63:000.000
1789 58.000.000
E as exportaçoens das mercadorias Francezas para a Inglater-
ra montaram
em 1787 a 38:000.000
1788 34:000.000
1789 36.000.000
Deve notar-se, que em 1789 a Inglaterra forneceo á França
18:000.000 em graõs, farinhas ou lugumes. Deduzindo este
artigo, puramente accidental, do valor das vendas de Inglaterra,
ella se acha, com pouca differença ao nível do valor de suas
compras.
Em 1789, o preço dos juros éra com poucadiffrença o mesmo
na Inglaterra e na França: os nossos capitães antes da revolu-
ção eram sufficientes á nossa industria; naõ havia, pois, razaõ
para que fosse sempre a Inglaterra quem desse o empréstimo, e
a França quem sempre o recebesse : depois que o movimento
extraordinário produzido pelo tractado de commercio, se hou-
vesse acalmado, se restabeleceria dentro em pouco tempo o
equilíbrio entre as compras e as vendas.
Naõ succederla o mesmo, hoje em dia, nas nossas relaçoens
com a Inglaterra: temos muita necessidade da receber delia
imprestimos de capitães, e ella tem demasiado interesse em im-
prestar-nos, para que as suas vendas a credito naõ excedam
suas compras, em somma tanto maior, quanto suas relaçoens
commerciaes com ella forem também maiores.
Literatura e Sciencias. 283

Esprit des Institutions Judiciaires de V Europe,par Mr


Meyer.

(Continuado de p. 174)
O Capitulo quinze desenvolve a matéria importante
do Ministério publico. Os Reys e os Senhores, com-
mettiam a Presidência das Cortes judiciaes a commis-
sarios seus delegados. Quando se instituíram os Par-
lamentos, além do Presidente do Parlamento, havia Pre-
sidentes para as suas differentes secçoens; e outro sim
se nomearam Procuradores d' El Rey, que olhassem por
seus direitos; o que éra tanto mais necessário, quanto os
presidentes eram pela maior parte nobres de alta gradua-
ção, totalmente ignorantes das leys; como se vê ordina-
riamente em Portugal hoje em dia, aonde os fidalgos
que presidem nos tribuuaes, possuem conhecimentos na
razaõ inversa de sua extensa genealogica.
Por esta maneira se instituio o Ministério publico, ou
uma espécie de funeçaõ media entre os juizes e o inte-
resse publico, que éra advogado pelos procuradores d' El
Rey. Estes, além do que se podia propriamente chamar
interesse publico, tinham também o cuidado do que im-
portava individualmente ao Rey ou ao Senhor Suzerano,
e por isso se chamaram Procuradores Fiscaes. Vejamos
as mudanças, que desta circumstancia resultaram á or-
dem judicial; segundo as palavras do A. a p. 265.

" As muletas faziam considerável parte das penas, e ao mes-


mo tempo um ramo das rendas reáes ou senhoríaes. Os procu-
radores dos senhores, ou dos reys, naõ só estavam encarregados
da cobrança destas reudas, mas também da accusaçaõ dos cri-
minosos ; e por isso o que se chamava Ministério publico ficou
284 Literatura c Sciencias.

na posse de promover os processos criminaes, de buscai os de-


linqüentes, e de olhar pela mantença das leys peuues, tendentes
a proteger a ordem social e da tranqnillidude publica."

Ja vimos que nos tempos antigos, em todos os proces-


sos tanto criminaes como civis, naõ se conheciam senaõ
duas personagens, Author e Reo; agora vemos, que, nos
casos crimes, além do accusador, que éra a pessoa lesada,
apparecia o procurador do Rey, como representando o
publico, que se suppunha offendido, no mal que se tinha
feito a qualquer indivíduo da sociedade. Antigamente
tal éra o amor do bem geral, que qualquer indivíduo,
íi* uma acçaõ que a todos importava, naõ só podia ser
o accusador, mas naõ faltava nunca quem apparecesse
tomo accusador, e isto éra bastante garantia, para que
naõ se perdessem os interesssses geraes. Isto succede
ainda agora na Inglaterra. Mas desta epocha em diante
ficaram os procuradores d' El Rey sendo os promottores
da Justiça, ja de per si somente, ja em combinação
com a parte lezada.
He claro, que estes promottores da execução das leys
deviam em breve adquirir grande influencia; e com tudo
o ministério publico naõ augmentou o poder dos reys de
França tanto quanto se poderia suppôr.
O A. aponta duas causas, que concurrêram a impedir
o augmento do poder Real: primeira, a independência dos
lugaresjtidiciacs, e segunda a divisão da França por certo
numero de Cortes de justiça, todas igualmente soberanas,
eque naõ tinham um ponto commum de reunião. Como
cada divisão tinha o seu Ministério publico, e estes naõ
tinham communicaçaõ uns com outros, naõ podiam obrar
de concerto, nem de maneira uniforme em promovera
extençaõ do poder Real.
Mas a instituição do Ministério publico, naõ tiiouo aos
Literatura e Sciencias. 285
indivíduos o direito de accusaçaõ, porém mod ficou-o
da maneira, que o A. exprime a p. 273.
" A liberdade da accusaçaõ naõ ficou abolida pelo estabeli-
cimento de um magistrado encarregado da accusaçaõ ex officio;
éra unicamente a popularidade ; isto he o direito, que, entre os
antigos, tinha cada cidadão de reclamar a mantença dos direitos
da sociedade, tomada collectivamente, e de proseguir a vindicta
de toda a transgressão; popularidade, que presuppuuha um
interesse directo em cada cidadão, na causa publica; uma iden-
tidade de interesses públicos e particulares de cada indivíduo;
uma parte indivisa da soberania, e que, conveniente ao espiri-
to de uma republica, ou de uma monarchia representante, éra
incompatível com a soberania absoluta, a que tendiam as insti-
tuiçoens Francezas."

Deve notar-se aqui, que os Reys de França intentando


augmentar o seu poder, e destruir as authoridades inter-
mediárias, que lho pudessem restringir, naõ tinham ne-
cessidade, para sua grandeza de intrometter-se com os
direitos dos indivíduos ; e nisto se distinguiam as insti-
tuiçoens Francezas das outras dictadas pela aristocracia,
que coarctavam a liberdade particular, ainda nas relaço-
ens mais intimas dos indivíduos.
No Capitulo 17, tracta o A. dos Juizes Cônsules, que
constituíram uma jurisdicçaõ totalmente alheia das in-
stituiçoens judiciaes nos tribunaes da monarchia. Esta
jurisdicçaõ ainda que proveniente dos Edictos Reaes, éra
exercitada por negociantes, nomeados d'entre si mesmos,
e versava sobre constestaçoens cm materiaes commerci-
aes, sem a intervenção do Governo. Estas instituiçoens
naõ eram conhecidas nem na Inglaterra, nem nos Paizes
Baixos, nem mesmo nas cidades Hanseaticas, que eram
por assim dizer meros ajunctainentos de negociantes.
Voi, XXV. N°. 148. oo
286 Literatura e Sciencias
O A. explica esta apparente incongruência no systema
politico dos Reys de França, quando tudo se destinava a
augmentar o poder Real, pela máxima seguida, depois
de Luiz o Gordo, de crear communidades, cheias de
privilégios, por mein das quaes se neutralizasse a influen-
cia dos Baroens, e grandes Senhores do Reyno. Um dos
privilégios, concedidos a estas communidades, foi terem
magistrados de sua de sua eleição; a esta circumstancia,
mais do que nenhuma outra, fazia com que as cidades e
villas procurassem metter-se debaixo da protecçaõ do rey,
e se livrassem do jugo dos senhores territoriaes.
Quando, porém, a consideração destas communidades
cresceo ao ponto, de se achar por ellas diminuída, e
quasi annihilada a prepotência dos Baroens, foi necessá-
rio suflbcar também a independência destas communs:
fez-se isto gradualmente, commençando pelos princípios
do século 1 6 ; debaixo de vários pretextos, e por diffe-
rentes causas, que o A. desenvolve miudamente neste
capitulo, mas que seria demasiado extenso proseguir.
Porém, entre outros expedientes, se seguio a mesma
tática da divisão de interesses; e como se tinham conce-
dido privilégios ás communidades, para as separar dos
Baroens, assim se concederam agora privilégios a certas
classes dos cidadãos, para os separar dos outros. Favo-
receram-se pois os negociantes, a fim de lhe dar interes-
ses diversos, e algumas vezes oppostos aos outros conci-
dadãos; e se lhes concedeo o privilegio, debaixo do pre-
texto de favorecer o commercio, de nomearem de'ntre si
magistrados, que decidissem suas causas commerciaes,
reservando com tudo appellaçaõ às cortes de justiça so-
beranas.
Esta invenção conrespondeo por tal maneira ás vistas
dos Reys, que em menos de quatorze annos, o que até
entaõ fora privilegio especial aos negociantes de Tou-
Literatura e Sciencias. 287
louse e Rouen, veio a ser ley geral do Reyuo, pelo Edic-
to de 1563. Mas tomaram-se precauçoens, para que naõ
adquirissem estas novas jurisdicçoens influencia alguma,
que fizesse sombra ao Rey. Assim, foram estes magis-
trados somente feitos annuaes, e prohibio-se a sua re-elei-
çaõ limitou-se sua jurisdicçaõ aos negociantes, e aos
negócios mercantis; deixáram-se sugeitos a uma appella-
çaõ; e em fim só tiveram direito de conhecer da execu-
ção de suas sentenças.
A este mesmo systema de divisão, nas communs, at-
tribue o A. a incorporação dos officios, que vinham a
ser outras tantas sociedades diversas da mesma commu-
nidade em que viviam, e por meio das quaes os reys po-
diam formar o seu partido, e supportallo por um jogo de
interesses diversos, que impediam a uniaõ do todo
contra quaesquer planos do Governo. Exemplifica-se
isto, nos Estados Geraes de 1580, quando as Communi-
dades recusaram prestar-se aos pedidos, que El Rey ti-
nha feito; e por isso a incorporação dos officios se fez
gera), pelo Edicto de 1581.
Para melhor mostrar a connexaõ destas medidas, diri-
gidas todas ao mesmo fim, que o A. lhe attribue, de di-
minuir a authoridade e influencia das communidades,
por meio desta subdivisão de interesses; o A. dá, em
uma nota, a serie chronologica dos Edictos a este respei-
to.
1549. Primeiras jurisdicçoens consulares.
1563. Edicto, que generaliza estas jurisdicçoens.
1566. Suppressaõ das justiças communaes.
1581. Edicto, que protege osjurandos.
1614. Ultima convocação dos Estados Geraes.
(Continuar-se-ha.)
( 288 )

MISCELLANEA.

REVOLUÇÃO EM PORTUGAL.

Declaração, e votos das Authoridades Ecclesiasticos.


Civis e Militares, Nobreza, e Povo da Praça de Elvas.

Aos 30 dias do mez de Agosto de 1820, nesta praça e


cidade de Elvas foram congregados, no Quartel General
do Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Tenente Ge-
neral Joaõ Lobo Brandão de Almeida, as Authoridades
Ecclesiasticas, Militares, Civis, Nobreza, e Povo delia,
representado pelo senado da Câmara; e sendo todos
junctos foi proposto pelo dicto Senhor Tenente General,
que no dia de hontem á noite tinha recebido pelo Capi-
tão do Regimento de Cavallaria N.° 11, Antônio de Li-
ma Barreto Praça, um officio assignado por Francisco
Gomes da Silva, como Secretario da Juncta Provisional
do Governo Supremo do Reyno, instalada na Cidade do
Porto no dia 24 do corrente Agosto, com uma proclama-
çaõ a todos os Portuguezes, convocando-os a que a re-
conhecessem como tal: e de commum accordo apprc-
vassem o chamamento das Cortes, e a nova Constituição,
que depois se seguiria para o Governo destes Reynos,
com outra proclamaçaõ similhante aos soldados, e com a
forma do juramento que todos deveriam prestar, exigin-
do-se no mesmo officio a prompta execução de tudo. K
logo foram lidos, perante todos, os citados documentos, e
acabada a sua leitura foi proposto a votos, qual deveria
Miscellanea. 289
ser a deliberação, e quaes as providedcias que ao dicto
respeito se deviam adoptar. Uniformemente se deliberou,
que, uma vez tendo jurado todos fidelidade e obediência
ao nosso Augusto Monarca o Senhor D. Joaõ VI., e na
sua ausência aos Senhores Governadores do Reyno, aos
mesmos pertencia decidir sobre o presente objecto; de-
vendo em conseqüência ser-lhes participado, pois que a
todos como vassallos, obrigados á fé que juraram, só
competia obedecer. E outro sim se assentou, que o Pre-
sidente da Câmara, convocando a esta, tomasse as medi-
das, que lhe parecessem mais congruentes, para manter a
paz, e o socego de todo o povo, fazendo-lhe ver os pre-
juízos e tristes resultados do contrario systema, assim
como pertencia aos Senhores Commandantes dos Corpos
Militares desta Praça, fazerem conservar os seus Subal-
ternos na mesma obediência, e subordinação ao actual
Governo, a que até ao presente se tem prestado, em quan-
to pelo mesmo naõ for determinado o contrario. O que
tudo assim assentado se mandou aqui escrever, e todos
protestaram cumprir e assignâram.—Elvas 30 de Agosto
de 1820.
{Asssgnados)—Joaõ Lobo Brandão de Almeida, Te-
nente General Governador de Elvas. Maximiano de
Brito Mozinho, Brigadeiro e Tenente Rey da Praça
d'Elvas. Caetano Antônio de Almeida, Brigadeiro Go-
vernador do Forte da Graça. Joaõ da Silveira de Lacer-
da, Brigadeiro. O Conego Joaõ Antônio de Figueiredo,
Provizor e Governador do Bispado. Francisco Jozé da
Silveira Falcato, Desembargador Provedor. Joaquim
Jozê de Almeida e Freitas, Major do Real Corpo de En-
genheiros Commandante, e pelos officiaes do seu Com-
mando. Antônio de Gouvêa da Maia, Major do Regi-
mento N.° 17. Manoel Bernardo da Silva Reboxo, Ma-
jor do 17 dicto. Manoel Vicente Nunes, Major do 8.*
tffO Miscellanea.
de Infanreria. O Conego Jozé Antônio Ferreira de
Mello, Vigário Geral do Bispado. Francisco de Paula
Biquer Tenente Coronel do 17.° Regimento por mim, e
pela Corporação. Jozé Chrysogono de Freitas Araújo
Tenente Coronel de Cavallaria, N.° 3 por mim, e pela
Corporação. Joaõ da Cunha Preto, Major de Artilheria
N.° 3 por si, e sua Corporação. O Corregedor Pedro
Jozé Lopez de Almeida. O Superintendente das Alfân-
degas Antônio Filippe da Silva Cambiasse O Juiz de
Fora, Amaro Jozé de Araújo Velasco Camizaõ. O Ve-
reador Jozé Innocencio d' Assa. O Vereador Joaõ Jozé
da Silveira Falcato. No impedimento do Vereador 2.°.
Antônio Vellozo de Mello. O Procurador do Conselho
Jozé Pedro Peieira. O Escrivão da Comarca, Frascisco
Antônio Franco Barroet.

Copia do Officio que o Doutor Corregedor da Comarca


de Villa Real dirigio á intendencia Geral da Policia
cm data de 28 d* Agosto ultimo.

Iílustrlssimo Senhor Intendente Geral da Policia da


Corte e Reyno.—Ante-hontem me achava eu em Mon-
dim de Basto principiando a Correiçaõ d'aquellas Villas,
mais adjacentes com muito socego, quando recebi o Of-
ficio do Excellentissimo Conde de Amarante General
desta Provincia, que consta da Copia N°. 1. Immedia-
mente me puz em marcha para esta Villa, e cheguei
aqui nesse mesmo dia. Achei tudo em perfeita tranqüi-
lidade, e tenho toda a bem fundada esperança de que
jamais se perturbará aqui o socego. Hoje recebi o Of-
ficio da Copia N°. 2, e já se deram as providencias, que
elle determina; por aqui soam ainda em confuso os acon-
tecimentos do Porto do dia 24, e se limitam ao levanta-
Miscellanea. 2gi
mento da tropa, e creaçaõ de uma Junta Provisional. V.
S» deverá já estar mais completamente informado a este
respeito, e eu me naõ descuidarei em tomar as medidas
que julgar opportunas, e em participar o que recrescer,
mas posso affirmar com segurança, que aqui naõ ha mos-
tras de lavrar o contagio.
Deos guarde a Vossa S* muitos annos. Villa Real
27 de Agosto de 1820.
O Corregedor Delegado, JOAÕ ANTONÍO F E R E I R A
DE MOURA.

Copia do Documento No. 1. a que se refere o Officio


que â Intendencia dirigio o Doutor Corregedor da Co-
marca da Villa Real em data de 27 do mez passado.

Illustrissimo Senhor:—Os acontecimentos do Porto me


fazem marchar a toda a pressa para Chaves; e V. S pelo
bem do serviço de El Rey Nosso Senhor, deve immedia-
tamente marchar para Villa Real, para couservar a tran-
quillidade e socego naquella Villa, emquanto eu naõ
volto a ella, o que deverá sueceder em poucos dias.
Deos guarde a V. S. Quertel General em Villa Pouca,
25 de Agosto de 1820.
CONDE DE A M A R A X T E .
Sa. JOAÕ A N T Ô N I O F E R R E I R A D E M O U R A .

Copia do Documento No. 2, a que se refere o Officio


que á Intendida Geral da Policia dirigio o Doutor
Corregedor da Comarca de Villa Real, em data de 27
do mesmo mez passado.

Illustrissimo Senhor:—Como he do nosso dever naõ ter


communicaçaõ com as terras, que estaõ insurgidas, e co-
HQt Miscellanea.
mo o Porto lie a cabeça da insurreição, deve V. S. fazer
suspender o Correio, que vai para aquella cidade, ficando
em guarda, e deposito as Cartas ou Bolça, que para ella
se dirijam; e como he necessário que continue a haver
conrespondencia com a capital, V. S. ordene ao Correio
assistente de Villa Real estabeleça um Correio para a Ci-
dade de Viseu, pelo qual remetterá as Bolças que saõ
pertencentes a Lisboa, e Província da Extremadura, e
Alemtejo.
Desta minha dou parte ao Governo, e de que V. S. he
o responsável pela fazer cumprir, como Ministro de Po-
licia.
Deos guarde a V. S. Quartel General de Villa Real 2b*
de Agosto de 1820.
CONDE DE AMAKANTE.
Sr. JOAÕ ANTÔNIO F E R R E I R A DE MOURA

Proclamaçaõ dos Gorertiadores do Reyno, para o cha-


mamento de Cortes.

Portuguezes! Os Governadores do Reyno, persuadidos


do perigo imminente que corre a Naçaõ e a Monarquia,
se se prolongar a crise produzida pela sublevaçaõ da Ci-
dade do Porto. E usando das faculdades extraordiná-
rias, que pelas suas instrucçoens lhes saõ concedidas
em casos urgentes, pepois de ouvirem o parecer de gran-
de numero de pessoas do Conselho de Sua Majestade, e
conspicuas entre as diversas classes da Naçaõ, resolve-
ram, em nome de El Rey nosso Senhor, convocar Cortes,
nomeando immediatamente uma commissaõ destinada a
proceder aos trabalhos necessários, para a prompta re«
uniam das mesmas Cortes.
Misctllanea. 2p3

Esperam os Governadores do Reyno que uma medida,


que tam decididamente prova a terminação de se atten-
der ás queixas, e ouvir os votos da Naçaõ, reunirá im-
mediatamente a um centro legitimo, e commum, a Nação
inteira, e que todas as classes de que a mesma se com-
põem reconhecerão a necessidade de uma tal uniaõ, para
evitar os males imminentes da anarchia, da guerra civil,
e talvez da dissolução da Monarchia.
Lisboa no Palácio do Governo, em o primeiro de Sep-
tembro, de mil oitocentos e vinte.
CARDEAL PATRIARCHA.
M A R Q U E Z D E BORBA.
C O N D E DE P E N I C H E .
C O N D E DA F E I R A .
ANTONIOGOMES RIBEIRO.

Officio do Tenente General Conde de Amarante.


Illustrissimo e Excellentissimo Senhor.—A' uma da
noite, amanhecendo para o dia 27 deste, se me apresen-
tou um Capitão de Infanteria N.° 6 com duas cartas, uma
para mim e outra para o Marechal de Campo Manoel da
Silveira Pinto da Fonceca, e como vi nos sobrescriptos
ser da Juncta revolucionaria do Porto, e mostrando ser
de serviço nacional, quando por mim, e pelos bons Por-
tuguezes, he só reconhecido o serviço Real, pois pela
Graça de Deos temos Rey, naõ quiz abrillas, e fechadas
as remetto a Vossa Excellencia, para que se sirva levallas
ao conhecimento do Governo de Sua Majestade Fidelis-
sima.
Atê este momento ainda naõ recebi resposta dos offici-
os que escrevi aos Senhores Generaes da Beira e Minho.
VOL. XXV. N.» 148. PP
294 Mizcellanea.
A Tropa desta provincia penso tella reunida dentro de
mui poucos dias, e logo que isto succeda, e esteja prom-
pta a marchar, marcharei com toda ella para Villa Real,
aonde espero as Ordens de Vossa Excellencia.
Para Villa Real já mandei marchar um Destacamento
do regimento de Infanteria N.° 12, e hoje mesmo orde-
no ao Commandante de Infanteria N.* 24 mande marchar,
para aquella Villa 200 homens, para se poderem guardar
de qualquer tentativa as estradas que se dirigem ao
Porto.
O Capitão, que me trouxe as cartas que remetto, fica
prezo no Corpo da Guarda desta Praça, e igualmente as
Ordenanças, que o acompanhavam lambem ficam prezas
até que Vossa Excellencia ordene o seu destino.
Deos guarde a Vossa Excellencia. Quartel General de
Chaves ás 2 da noite, amanhecendo para o die 27 de
Agosto de 1820.
C O N D E DE A M A R A N ^ E .
Ill mu . e E x m o . Senhor Francisco de Paula Leite.

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor.


Conforme o que tive a honra de participar a Vosgn
Excellencia de Villa Real em data de 24 deste, marchei
naquelle mesmo momento para esta Praça, e esta manhãa
desgraçadamente achei verificadas as minhas suspeitas
do levantamento do Porto, e ainda para maior desgraça
minha vi, que entrou nelle meu Irmaõ Antônio da Silvei-
ra, homem louco, ja como tal connecido.
Naõ temo que este acontecimento manche a minha
reputação, pois a minha conducta tem sido e seríi sem-
pre de ser Fiel a El Rey Nosso Senhor, o que farei co-
nhecer pelas minhas acçoens; mas que he um pezar o ver
Miscellanea. 295
que um homem, que me he addido pelo sangue se es-
quecesse de mim, e de seus avós. Peço a Vossa Excel-
lencia que faça constar ao Governo o que acabo de dizer,
e que se houver alguma pessoa, que intente manchar a
minha reputação, eu estou prompto a justificar a minha
conducta.
Tenho mandado reunir todos os Corpos desta provin-
cia, e tenho feito espalhar nella a proclamaçaõ que re-
metto. Eu intento reunir toda a Tropa da 1." e 2.* Linha
em Villa Real, e tenho aberto communicaçaõ com os
Generaes da Beira e Minho, da qual ainda naõ he tempo
de receber respostas; e tendo a tropa reunida, esperar
as Ordens de Vossa Excellencia. Tenho mandado cortar
toda a communicaçaõ dos Correios com o Porto: e que as
bolsas dessa Capital sejam remettidas por Vizeu, tendo
eucarregado da execução desta ordem o Corregedor da
comarca de Villa Real, como Delegado da Policia. Es-
pero que Vossa Excellencia ordene aos Correios, que a-
promptem aquelles extraordinários, que forem necessá-
rios.
Nesta Provincia se necessita de um Corpo de Artilhe-
ria para o Parque, que há nella, de 12 peças, e como o naõ
posso haver do Porto, por aquelle Regimento ser uni dos
Revolucionários, dou esta parte a Vossa Excellencia, es-
esperando me mande alguns officiaes, e soldados desta
arma e mesmo de que meio me hei de servir para a
tropa ser municiada com Etape, logo que saia dos seus
quartéis.
Deos guarde a Vossa Excellencia. Quartel General de
Chaves 26 de Agosto de 1820.—Illustrissimo e Excellen-
tissinio Senhor Conde da Feira.—De Vossa Excellencia.
—Subdito muito obediente
CONDE DE AMAKANIE.
2?Jo* Miscellanea.
Proclamaçaõ.
Francisco da Silveira Pinto da Fonseca, Condi
Amarante, do Conselho de Sua Majestade Fideliss
Gram Cruz da Torre,e Espada,ede S. Fernandona '
panha, Commendador das mesmas ordens, e da deC
to, Nosso Senhor, das honras de Nogueira, de S. Cypri
Tenente General dos Reaes Exércitos, e Governadoi
armas da Provincia de Trás os Montes.
Transmontanos valorosos e fieis, hea terceira vez,
as circumstancias me fazem convocar-vos ás armas
sempre tive a satisfacçaõ de vos ver correra defendi
sagrados direitos do Nosso Augusto Soberano, o Sei
D. Joaõ VI., Rey do Reyno Unido de Portugal Braz
Algarves: em 1808 fostes vos quem rompeo o captivi
que os exércitos de um pérfido invasor nos tinha lançs
mas desgraçadamente nada temos feito; pois se naõ
mos inimigos exteriores, temos entre nós homens
biciosos, loucos, e perdidos, que infelizmente, coi
nome de Portuguezes, querem mudar de governo, e
especiosos, e falsos motivos nos querem induzir a
traidores ao Rey, e perjuros ao sagrado juramento,
lhe dêmos, e semeando a anarchia na naçaõ, nos ]
mettem grandes bens, com taes mudanças; mas leml
vos de quaes foram os que os Francezes revoluciona
causaram â França, onde só se viram mortes, incen
e roubos, e por fim uma destruidoraguerra; mas a v
fidelidade he tam conhecida, que naõ he necessário
pertalla com razoens. Eu estou decidido, pelos pri
cipios da honra, do dever, e da religião, a sacrificar
a ultima gota do meu sangue em defensa dos sagn
direitos de El Rey Nosso Senhor: estou certo que t
sentimentos seraõ os de vós todos. He um crime r
nhecer o Governo revolucianario do Porto: as Camí
magistrados, e todas as authoridades, assim militi
Miscellanea. 297
como civis, as deveram repellir, e naõ reconhecer tal
Governo.
TransmontanoB, conservemos a nossa fidelidade, e seja
o nosso grito geral
Viva El Rey, e vivam os Portuguezes honrados, que
lhe forem fieis.
Quartel General de Chaves 26 de Agosto 1820.
CONDE DE AMARANTE.

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor:


Achando-me com licença de Vossa Excellencia em
Villa Real, á vista dos acontecimentos que tiveram lugar
no Porto, eu naõ posso ir tomar o Commando da minha
Brigada, por ser a Brigada daquella cidade, por tanto
como vassallo fiel, participo a Vossa Excellencia, que eu
me tenho unido ao Tenente General Conde de Amarante,
para seguir o partido de El Rey Nosso Senhor, onde es-
pero as ordens de Vossa Excellencia.
Deos guarde a Vossa Excellencia. Quartel General de
Chaves 26 de Agosto de 1820.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Francisco de Pau-
la Leite.
Manoel da Silveira Pinto. Marechal de Campo.

Proclamaçaõ.
Os Governadores do Reyno de Portugal e Algarves, aos
Corpos de Exercito extraviados.

Valorosos Militares que vos deixastes illudir! De-


pois de terdes sustentado com o vosso sangue os direitos
da Religião, do throno, e da Pátria; depois de haverdes
29S Miscellanea.

no meio dos perigos e privaçoens assombrado as Naçoens


da Europa com os gloriosos feitos, que praticastes em
uma guerra sem igual, he no seio da Paz, no centro das
vossas famílias, enos vossos próprios lares, que uma cap-
ciosa sedueçaõ vos faz perder o merecimento, que tanto
vos custou a adquirir, manchando vossa até agora illibada
fidelidade.
Os Governadores do Reyno, se usassem da força, e dos
meios que S. M. depositou nas suas maõs, e que saõ sus-
tentados pela lealdade, e briosa conducta as tropas das
Provincias de Traz-os-Montes, Beira, Estremadura, e
Alemtéjo, e Reyno do Algarve, aonde as sugestoens, que
tem sido dirigidas pela supposta Juncta Suprema, foram
recebidas com o desprezo de que eram dignas, em breve
vos fariam conhecer a que triste situação vos arrastaram
os authores do vosso extravio; porém certos no amor
Paternal do nosso Piedoso Monarca, e do quanto lhe seria
penoso o fazer derramar sangue Portuguez, vos conce-
dem, no seu Real Nome, um completo perdaõ.
Considerando que os Officiaes e Soldados dos Corpos
extraviados delinquiram, mais por obediência aos seus
Chefes, do que por intenção de se subtrahirem ao legitimo
Governo do seu Soberano, naõ offerecem prêmios aos
que voltarem aos seus deveres, por ser indigno do nome
Portuguez, que um tal estimulo seja quem faça voltar
ás suas obrigaçoens Tropas, que nunca forammercena-
rias; mas offerecem a clemência do seu Monarca, e um
perfeito esquecimento da inconsideraçaõ commettida, a
todos os que promptamente abandonarem o partido
injusto a que desgraçadamente ?e deixaram ligar, e se
reunirem aos corpos fieis, que lhes ficarem mais próxi-
mos.
Os officiaes dos Corpos Extraviados, que promptamente
concorrerem pai a fazer restituii á devida obediência os
Miscellanea. 299

os mesmos corpos seraõ naõ só perdoados, mais se terá


com elles a especial contemplação, que merecer a ma-
neira da sua resolução.
Lisboa no Palácio do Governo, em 2 de Septembro de
1820.
CARDEAL PATRIARCHA.
MARQUEZ DE BORBA.
CONDK DE P E N I C H E .
C O N D E DA F E I R A .
ANTÔNIO GOMES R I B E I R O .

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor:—Apreso-me a


participar a Vossa Excellencia, que neste momento
acaba de chegar o Pagador do Batalhão de Caçadores
2, com a agradável noticia, que o Senhor General Charn-
palimaud, o Tenente Coronel Aadok, e o Capitão Ricar-
do, partiram às ouze horas da manhãa do dia de hoje em
direitura á Praça de Abrantes, em conseqüência de ter
chegado a Thomar o Capitão do Regimunco N° 20 de
Infanteria, D. JoaÕ, dando-lhe parte de ter desemparado
o Commando do Corpo, e da Praça o Tenente Coronel
José Pinto Saavedra, e que por conseqüência o Corpo es-
tava em uma grande confusão. O Senhor General, a
quem pertence toda e a maior consideração, tomou logo
a deliberação de fazer prestar ao dicto D. Joaõ o jura-
mento de fidelidade, de que se tinha desgraçadamente des-
viado, esta acçaõ foi feita na na frente do Batalhão onde
depois de prestado juramento, o Senhor General lhe man-
dou entregar a sua espada.—Estou persuadido que a esta
hora o Senhor General Champalimaud, terá tido a gloria
muito particular de fazer prestar aquelle corpo o jura-
mento de fidelidade, como practicou com o Capitão.
Logo que tenha mais alguma noticia immediatamente
300 Miscellanea.
a transmiti irei a Vossa Excellencia. Deos guarde a
Vossa Excellencia. Quartel em Torres Novas, 2 de Sep-
tembro de 1820.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Francisco de
Paulo Leite.
Domingos Bernardino Ferreira de Sousa, Briga-
deiro no commando da 4m Brigada de Caval-
laria.

El Rey Nosso Senhor He Servido Nomear o Arce-


bipo d' Évora, o Conde de Barbacena, do seu Conselho,
o Tenente General Conselheiro de Guerra Mathias José
Dias Azedo, e os Desembargadores Antônio José Guiaõ,
e Antônio Thomás da Silva Leitaõ, ambos do seu Con-
selho, para formarem a Commisaõ, qne deve tractar dos
trabalhos necessários para a convenção das Cortes, a que
S.M. manda proceder, ordenando o mesmo Senhor, que os
membros nomeados se reunam desde logo no Real Ar-
cbivo da Torre do Tombo, e se occupem sem interrup-
ção dos referridos trabalhos. Palácio do Governo em o
Io, de Septembro de 1820.
Com as Rubricas dos Senhores Governadores do Reyno.

Copia do officio, que á Intendencia Geral da Policia di»


rigiram os Juizes Ordinários da Villa de Punhete em
data de 2 deste mez.

Illustrissimo Senhor:— Segundo o nosso officio da ma-


nhaã do dia 30 d'Agosto próximo passado, elevamos &
presença de V. S.» o acontecido nesta villa com o desta-
camento do Regimento de Infanteria N.° 20, para que
V. S.» viesse no seu conhecimento: agora porem, cheios
Miscellanea. 301

da maior satisfacçaõ e regozijo, com os puros sentimen-


tos de um verdadeiro amor ao nosso augusto Soberano
participamos a V. S.» que agora mesmo acaba de chegar
a esta villa o Excellentissimo Senhor General Champali-
maud, residente em Thomar, acompanhado de alguma
officalidade, e na praça publica desta villa, por um offi-
cial da sua comitiva, foi lida a proclamaçaõ dos Excel-
lentissimos Senhores Governadores do Reyno, entre mil
vivas a El Rey Nosso Senhor da parte do povo desta
mesma villa, e expressando todos um verdadeiro zelo, e
puro amor ao nosso Augusto Soberano, tendo-se primei-
ramente arrancado aquella proclamaçaõ, que este referido
destacamento tinha a (fixado na manhaã do dia 30 de
Agosto na praça publica desta villa.
He em conseqüência com um espirito verdadeiramente
patriótico, e inundados de uma verdadeira alegria, e
amor ao nosso Soberano, que elevamos novamente á pre-
sença de V. S.a este gostozo, e suramamente apreciável
contecimento, para darmos verdadeiras provas da nossa
submissão ao Regio Throno.
Deos guarde a V. S.a Punhete na tarde do dia 2 de
Septembro de 1820.—Illustrissimo Senhor Intendente Ge-
ral da Policia da Corte e Reyno.—Os juizes ordinários,
Francisco Ignacio dos Santos Cruz, Jacinto de Souza Fal-
cão,

Copia do Officio, que â Intendencia Geral da Policia di-


rigio o Doutor Juiz de Fora da Villa d'Abrantes em
data de 2 do corrente.

Illustrissimo Senhor:—Depois do meu officio de 30 do


passado, em que participei a V. S.« os acontecimentos,
VOL. XXV. N°. 148. QQ
302 Miscellanea.
que haviam tido lugar nesta villa até aquella data, depois
delia tinha o Governador da praça feito todas as disposi-
çoens para se retirar delia com o Regimento, e tanto, que
requizitou cincoenta cavalgaduras maiores, para estarem
promptas hoje por noite. Aconteceoporém ter observa-
do descontentamento em alguns dos officiaes, e sendo
em conseqüência convocados todos os da guarniçaõ, de-
terminaram, e manifestaram o seu arrependimento pela
causa que haviam tomado, e ás nove horas de hoje, reu-
nido o Regimento em parada, no meio de acclamaçoens.
e vivas a El Rey Nosso Senhor, foi lida a proclamaçaõ
dos Excellentissimos Governadores do Reyno, de 29 do
passado, e affíxoda n'aquelle mesmo lugar em que o esta-
va ainda a outra do Governo do Porto, que foi arrancada
e rasgada, e depois voltou o Regimento aos seus quartéis
e continua a fazer o serviço da praça.
Deos guarde a V. S.a Abrantes 2 de Septembro de
1820.—Illustrissimo Senhor Desembargador do paço In-
tendente Geral da Policia da Corte e Reyno.—O Juiz de
Fora, Joaquim Jozè de Moura.

Estas mesmas noticias acabam de se receber pelo Ge-


neral Champalimaud em officio da mesma data dirigido
ao Ajudante General.
Do Tenente General Joaõ Lobo Brandão de Almeida
se recebeo o seguinte officio.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor:—Tive a honra
de receber o officio de V. Ex». de 31 do mez próximo
antecedente, às 5 horas menos um quarto da manhaã de
hoje, que me foi entregue pelo correio de gabinete Gre-
gorio de Souza, o qual communiquei com pouca demora,
em primeiro lugar aos Brigadeiros Maximiniano de Brito
Mosinho, e Joaõ da Silveira Lacerda, e depois da parada
Miscellanea. 303
ás 9 horas da manhaã, foram reunidos no meu quartel
novamente os mesmos, e todos os mais Chefes Militares
e authoridades ecclesiasticas, e civis, e sendo lido o offi-
cio de Vossa Excellencia, foi ouvido tudo com o maior
regozijo e applauso possivel; e contentes e satisfeitos em
verem, que Sua Majestade approvava a sua leal conducta
me pediram, para que eu rogasse a Vossa Excellencia,
levar à presença do mesmo Augusto Senhor os seus res-
peitosos agradecimentos, e protestaçaõ de continuada
obediência á suprema authoridade, que o representa nes-
te Reyno, e unindo eu a estes os meus leaes sentimentos,
exulta o meu coração em ver sempre approvada a minha
conducta pelo mesmo Senhor, e nesta firmeza estou cer-
to de nunca desmerecer; e beijando respeitosamente as
maõs a Sua Majestade, fazemos votos a Deos pela conser-
vação da vida do nosso augusto Monarcha e Senhor, pela
uniaõ de toda a uaçaõ à sua obediência, e que assim seja
salva a Pátria do perigo em que se acha.
Aqui tudo está no maior socego.
Deos guarde a Vossa Excellencia, Elvas 2 de Septem-
bro de 1820.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conde da Feira.
Joaõ Lobo Brandão de Almeida, Tenente General Go-
vernador de Elvas.

Proclamaçaõ.

Habitantes da Cidade do Porto, e mais Portuguezes, que


a seu exemplo vos deixastes illudir!—Os Governadores
do Reyno, únicos depositários legítimos da Authoridade
Regia, na ausência do nosso Amado Soberano, acabam de
dar a naçaõ inteira a prova mais evidente dos paternaes
sentimentos do mesmo Senhor, adoptando em seu Real
304 Miscellanea.
Nome a resolução de convocar Cortes, na persuasão de
que esta medida encherá de satisfacçaõ a todas as pro-
vincias do Reyno, e sobretudo aquelles, que fundam nesse
desejo o extravio a que foram arrastados. Elles espe-
ram que uma tal resolução será o signal da geral uniaõ e
concórdia, persuadindo-se que só porintençoens sinistras
ou por uma hallucinaçaõ manifesta, haverá quem possa
recusar obediência ao Governo, legitimo representante de
El Rey Nosso Senhor, quando este adopta o meio legal
de attenderàs queixas, e desejos da Naçaõ, e está firme,
e sinceramente determinado a affectuar com a maior
promptidaõ possivel a resolução que tomou.
Portuguezes que fostes illudidos! Mostrai aos vossos
Compatriotas, mostrai à Europa toda, que o vosso ex-
travio momentâneo naõ foi motivado, nem por falta de
lealdade, nem por projectos ambiciosos, e naõ presteis
ouvidos às instigaçoens pérfidas, que talvez se vos façam;
lembrai-vos de que o primeiro dever, o primeiro voto de
todo o bom Portuguez, he o de manter independente a
Monarchia, assim como indissolúvel a sua unidade.
Os Governadores do Reyno afiançam solemnemente, em
nome de Sua Majestade, inteira amnistia a todos aquelles
que de prompto entrarem nos seus deveres e se submet-
terem ao legitimo Governo; declarando outro sim, que
em todo o caso, bem seguros dos leaes sentimentos dos
bons Portuguezes de que se compõem a grande maiori-
dade briosa Naçaõ, estaõ determinados a fazer reconhe-
cer por todo o Reyno a authoridade de Sua Majestade.
Lisboa no Palácio do Governo, em 2 de Septembro de
1820
CARDEAL PATRIARCHA
MARQUEZ DE BORBA.
CONDE DE PENICHE,
CONDE DA FEIRA
ANTÔNIO GOMES RIBEIRO.
Miscellanea. 305

Portaria.

Tendo El Rey Nosso Senhor defirido à representação


do Conde de Barbacena, alliviando-o da commissaõ que
deve tractar dos trabalhos necessários para a convocação
das Cortes, em attençaõ ás suas moléstias; he servido
nomear, em seu lugar, o Doutor Joaquim Jozé Ferreira
Gordo, do seu Conselho, e prelado da Santa Igreja Patri-
arcal de Lisboa; e Secretario o Doutor Manoel Borges
Carneiro, que se reunirão desde logo no Real Archivo da
Torre do Tombo, na forma da Portaria do 1.° do corren-
te da copia juncta. Palácio do Governo, em 4 de Sep-
tembro de 1820.
Com as Rubricas dos Governadores do Reyno.

Copia do Officio, que á Intendencia Geral da Policia


dirigio o Juiz Ordinário da \illa do Sardoal em
data de 31 de mez passado.

Illustrissimo Senhor:—Hontem fui surprehendido por-


um Capitão do regimento N.° 20, acompanhado de Sol-
dados do mesmo regimento, o qual entrando em minha
casa me fez ir com elle a casa do Capitão Mór, a quem
fez saber as ordens que trazia do Governador de Abran-
tes (o Tenente Coronel José Pinto Sávedra) para affixar
uma proclamaçaõ, que se diz da Juncta do Governo Su-
premo Interino do Porto. E elle mesmo affixou a pro-
clamaçaõ, eu chamei logo a Câmara, nobreza, e Povo,
para fazer ver a todos a obrigação que tínhamos de per-
manecer firmes nos nossos juramentos de fidelidade á
religião, ao nosso Augusto Soberano, e á Pátria; todos
assim o prometteram, e assignâram em Câmara; e eu o
306 Miscellanea.
participo a V. S.* para que me diga o que devo mais
fazer.
Mando um próprio levar este por me naõ fiar nos Cor-
reios.
Deos guarde a V. S.a Sardoal 21 d* Agosto de 1820—
Illustrissimo Senhor Desembargador Intendente Geral
da Poticia.
O Juiz Ordinário, Francisco Xavier d' Almeida Pi-
menta.

Portaria
>
El Rey Nosso Senhor, por puros effeitos da Sua Real
compaixão, he servido perdoar o crime de primeira, e
segunda deserção simples a todos os Indivíduos do seu
exercito, que se acharem sentenciados ou ainda por sen-
tenciar, e aquelles, que, por igual motivo, estiverem
jà cumprindo as suas sentenças: E ordena que postos
em liberdade, sejam logo restituidos aos seus respectivos
corpos ou a qualquer outro em que o tenente General
Commandante Interino do exercito julgar conveniente
empregallos, durante as actuaes circumstancias, a fim
de continuarem no seu Real serviço. O conde da Feira
do Conselho de Sua Majestade, Secretario dos Negócios
Estrangeiros, e da Guerra e Marinha, assim o tenha en-
tendido e faça executar, expedindo as Ordens necessá-
rias. Palácio do Governo, em quatro de Septembro de
mil oitocentos e vinte.
Com as Ruhricas dos Senhores Governadores do
Reyno.
Miscellanea. 307

Proclamaçaõ
Os Governadoves do Reyno ao Leal e Valoroso Exer-
cito Portuguez.
Chefes, Officiaes, e Soldados do heróico Exercito Por-
tnguez, que fostes o assombro da Europa, terror dos ini-
migos, e o firme esteio da Independência da nossa Pátria,
escutai agora a voz dessa mesma Pátria, que vos clama,
que depois de ha verdes salvado pelo vosso valor, na porfio-
sa luta da guerra, a salveis pela vossa lealdade inabalá-
vel dos horrores da guerra civil e da anarchia.
Sim, generosos Soldados Portuguezes, he em nome da
nossa Pátria, em nome do nosso Rey: que os Governado-
res do Reyno hoje vos faliam.—Elles confiam da grande
maioridade do Exercito Portuguez a conservação da
tranquillidade publica, da unidade da Monarchia, e da
obediência ao legitimo Governo; e deplorando a ceguei-
ra momentânea de uma parle desse mesmo Exercito,
que desgraçadamente se deixou hallucinar, lhe offerecem
uma completa amnistia, persuadidos de que o vosso
brioso exemplo lhe abrirá os olhos, e a reunirá ao único
centro legitimo, donde podem emanar a felicidade e a
liberdade da naçaõ Portugueza.
Soldados, os Governadores do Reyno, interpretando
os sentimentos do nossso Augusto Soberano, acabam de
convocar Cortes, e trabalham com a maior actividade em
accelerar o seu ajunctamento: brevemente vereis reuni-
dos os três Estados do Reyno, conforme as Leis Funda-
mentaes da nossa Monarchia; he esse o único meio legal
de consultar os votos da naçaõ, de attenderás suas quei-
xas, e de adoptar as medidas permanentes e necessárias
para restabelecer o antigo edifício da nossa Constituição,
deteriorado pelo decurso do tempo; El Rey, e os Três
308 Miscellanea.
Estados do Reyno, Clero, Nobreza, e Povo, saõ as ma-
gestosas columnas que o devem sustenlar.
Naõ nos deixemos pois illudir pela ambição, que se
disfarça debaixo dos especiosos pretextos: todos quere-
mos os melhoramentos necessários para a prosperidade
da Monarchia; mas queremos uma reforma, e naõ uma
revolução, cujos effeitos seriam a subversão dessa mesma
Monarchia, a dissolução das differentes partes, que a
compõem, e por fim a sua sujeição a um jugo estranho
ficando assim baldados os esforços com que no campo
de batalha defendestes a sua independência.
Soldados, naõ presteis ouvidos às suggestoens dos ma-
lévolos, que por todos os meios procuram inspirar-vos
uma injusta desconfiança do Governo, e excitar o Exer-
cito, a quem só compete defender El Rey, e a naçaõ, a
dictar pela força Leis, que só devem emanar, para serem
providas e permanentes dos deputados dessa mesma na-
çaõ e do throno. Os Governadores do Reyno vos alfian-
çam, e o tempo brevemente vos provará, que elles estaõ
firmemente determinados a effectuar a solemne promessa
que fizeram : naõ acrediteis os que insidiosamente vos in-
sinuam, que o Governo intenta ganhar tempo com o anun-
cio da convocação de Cortes, e chama para impor silen-
cio á voz dos Portuguezes, o auxilio de tropas estran-
geiras : os Governadores do Reyno vos asseguram, que
elles, nem esperam, nem pedirão, nem estaõ dispostos a
receber um tal auxilio: elles detestam a idéa de ver o
sangue dos seus Concidadãos derramado n'uma guerra
civil, e só confiam que os ajudareis a cumprir o seu mais
sagrado dever de manter illesa a unidade do Governo,
que lhes está ligitimamente commettido. Continuai a ser
pela vossa lealdade, como pelo vosso valor, o exemplo, ea
inveja das naçoens Estrangeiras : a maior felicidade vos
espera; oSoberanoea naçaõ vos deverão a sua seguran-
Miscellanea. 309

ça e os nossos vindouros abençoarão os vossos nomes.


Viva El Rey Nosso Senhor !
Lisboa, no Palácio do Governo, em 6 de Septembro
de 1820.
CARDEAL PATRIARCHA,
MARQUEZ DE BORBA.
CONDE DE PENICHE.
CONDE DA FEIRA.
ANTONONIO GOMEZ RIBEIRO.

Quartel General da Rua da Cruz do Valle, de Septem'


br o de 1820.
Ordem Do Dia
0 Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Tenente Ge-
neral Francisco de Paula Leite, commandante Interino do
Exercito, manda declarar para conhecimento dos Senho-
res Generaes e commandantes dos Corpos, que se acham
nomeados o Senhor tenente General Conde de Amarante
commandante em Chefe das tropas Leaes da Beira, e pro-
vincias do Norte, e o Senhor Marechal de Campo Conde
de Barbacena, Commandante do Corpo de Exercito, que
se forma na provincia da Estremadura, para pôr os povos
desta Provincia ao abrigo de qualquer perturbação, e
conservar livres as communicaçoens com a Provincia da
Beira.

Copia de um Officio dirigido pelo Tenente General encar-


regado do Governo das armas do Alemtéjo ao Tenen-
te General Commandante Interino do Exercito, em
data de 4 de Septembro de 1820.
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor:—Tenho a
VOL. XXV. No. 148 RR
310 Miscellanea.

a honra de transmittir a Vossa Excellencia, para co-


nhecimento do Governo, os juramentos, e protestos que
novamente se tem ratificado no meu Estado Maior, e no
da Praça de Estremoz, no Corpo das Ordenanças, eda
Nobreza e Fovo, assim como o da 5.* Brigada de Infan-
teria, e 2.° de Cavallaria, e á medida que for recolhendo
outros os farei remetter a Vossa Excellencia,aquém pro-
protesto sem o menor receio a intimidade e adhesaõ de
toda esta Provincia em geral a Sua Majestade El Rey
Nosso Senhor, e ao Governo que o representa.
Deos guarde a Vossa Excellencia. Estremoz 4 de Sep-
tembro de 1820.
Visconde de Souzel Tenente General.
Illustrissimo e Excellentissmo Senhor Francisco de
Paula Leite.
Seguem-se os juramentos do General e seu Estado
Maior, do Governador da Praça e Officiaes avulsos, que
alli se achaõ, do Corpo das Ordenanças, da Câmara
Nobreza, e Povo de Estremoz, do Regimento N.° ò de
Cavallaria, e Deposito Geral da mesma arma, do Regi-
mento N.*1 2 e 8 de Cavallaria, e da 5.» Brigada de Infan-
teria composta dos regimentos N.° .5 e 17-
Por um expresso que hontem â tarde chegou a esta
Capital, se recebeo officio do Tenente General Antônio
Marcellino da Victoria, datado de Viseu em dois de Sep-
tembro corrente, dando parte da boa ordem em que se
acham as tropas da Província da Beira animadas de senti-
mentos de lealdade para com seu Soberana

Portaria dos Governadores do Reyno.


Sendo notoriamente sabidas as circumstancias actuaes
do Reyno, depois dos acontecimentos que tiveram lugar
na cidade do Porto, e dos quaes um dos funestos resulta-
dos tem sido a diminuição dos rendimentos do Real Era-
Miscellanea. 311
rio; sendo tanto mais para attender a este importante
objecto, quanta he a urgência das despezas, que já tem
occasionado, e necessariamente hao de motivar os sobre-
dictos acontecimentos : Em attençaõ ao referido, e naõ
podendo duvidar-se de que as Pessoas das differentes
classes da Monarquia tenham a intenção de se prestarem
a contribuir, por Donativo voluntário, com as quantias
que couberem nas possibillidades de cada uma, reconhe-
cendo, como primeiro, e importantíssimo, o dever de
dar demonstraçoens evidentes do seu zelo, em fornecer
os meios para sustentação da Tropa, e de habilitar o Go-
verno a proseguir vigorosamente, como está decidido, nas
medidas de utilidade geral, que tem sido publicadas,
para evitar divisoens na Monarchia, e sal valia da pertur-
bação e risco a que foi conduzida pelo erro e hallucinaçaõ
daquelles que se extraviaram, e que promptamente o de-
verão reconhecer, submettendo-se ás disposiçoens adopta-
das para o bem e prosperidade de todos: Manda El Rey
Nosso Senhor, que no mesmo Real Erário se estabeleça
um Cofre separado em que se recebam os Donativos, que
assim se offerecerem. E sendo rambem de esperar que
estes sentimentos de patriotismo se manifestem nas Pro-
vincias do Reyno, que tanto utilisam na independência
e conservação da Monarchia, poderão as Pessoas das
mesmas Provincias remetter os seus Donativos em direi-
tura ao referido Erário, ou entregallos nos seguros dos
Correios, que mais commodoslhes forem, sem que se lhes
peça nem façam, despeza alguma.
Determina Sua Majestade outro sim, que nas Gazetas
dos últimos dias de cada semana se publiquem os nomes
e quantias das pessoas que tiverem concorrido ; publi-
cando-se esta e remettendo-se transumptos delia onde se
fizer necessário. As authoridades a que competir o te-
nham assim entendido, e cada uma dellas o cumpra mui
312 Miscellanea.
exactamente pela parte que lhe toca. Palácio do Gover-
no cm 6 de Septembro de 1820.
Com três Rubricas dos Senhores Governadores do Rey-
no.

Portaria.
Manda El Rey Nosso Senhor, que o perdaõ de primei-
ra e segunda deserção simples, que por Portaria expedi-
da em data de quatro do corrente mez, houve por bem
concedera favor dos indivíduos do seu exercito, seja am-
pliado aos da Brigada Real da Marinha em Lisboa, que
se acharem em idênticas circumstancias. O Conde da
Feira, do Conselho de Sua Majestade, Secretario doGo-
Governo encarregado das repartiçoens dos Negócios da
Marinha, Estrangeiros, e da Guerra o tenha assim enten-
tendido, e expessa as ordens necessárias. Palácio do
Governo em 6 de Septembro de 1820.
Com três Rubricas dos Governadores do Reyno.

Carta de chamamento das Cortes, pelos Governadores do


Reyno.
Presidente, Vereadores, Procuradores desta cidade de
Lisboa, e Procuradores dos Mestéres delia. El Rey
Nosso Senhor, pelos Governadores dos seus Reynos e
Portugal, e Algarve, vos envia muito saudar. Havendo
nós já annunciado a necessidade, que ha nas actuaes ur-
gentes circumstancias, de se convocarem Cortes, para
neilas se tractarem, e discutirem com os Três Estados dos
dictos Reynos cousas mui importantes ao serviçode Deos,
do mesmo Senhor, e bem dos seus povos; determinámos
em seu Real Nome convocallas nesta cidade de Lisboa,
para o dia 15 de Novembro do presente anno de 1820.
Pelo que muito vos encommendamos que, logo que esta
Miscellanea. 313

virdes, ellejais dous procuradores, que tenham as quali-


dades, e circumstancias, que para tal acto se requerem,
os quaes viraõ munidos de procuração bastante (como
sempre foi uso, e custume) para com elles, e com os das
outras cidades, e villas, que também mandamos vir ás
dietas Cortes, se practicar, communicar, e assentar em
tudo aquillo que parecer mais conveniente aos referidos
fins: e trarão outro sim quaesquer lembranças, que vos
parecer serâõ mais interessantes ao bem geral da naçaõ,
e ao particular desta cidade, e se apresentarão com a
conveniente anticipaçaõ ao Secretario do Governo da re-
partição dos negócios do Reyno, a quem entregarão a
mencionada procuração. E confiamos de vós que assim
na elleiçaõ dos mesmos procuradores, como em tudo o
mais quetoca a esta matéria, procedereis com a considera-
ção que ella merece. E por quanto he notório que os
povos fizeram grandes despezas, e soffreram muitas vexa-
çoens por occasiaõ da guerra passada, e he vontade do
mesmo Senhor fazer-lhe merece em tudo o que se offere-
cer, mandaremos que os referidos procuradores, bem
como os das outras terras do Reyno, sejam ajudados nas
despezas, que houverem de fazer nas dietas Cortes, con-
forme a necessidade de cada lugar. Escrita nesta cidade
de Lisboa no Palácio do Governo, em 9 de Septembro de
1820.
CARDEAL PATRIARCHA.
MARQUEZ DE BORBA.
CoNDK DE PENICHE.
C O N D E DA F E I R A .
ANTÔNIO GOMES RIBEIRO.

Para o Bispo Conde reformador Reitor.

Excellentissimo eReverendissimo Senhor:—S.M. con-


3i 4 Miscellanea.
siderando quanto importa ao estado regular, e proveitoso
das sciencias a tranquillidade, que actualmente he incom-
patível com o estado de perturbação, em que se acha este
Reyno, he servido que a abertura das Aulas dos Estudos
da Universidade de Coimbra, que devia ter lugar no anno
lectivo, que haveria de começar no principio de Outubro,
do presente anno, fique suspensa até nova ordem, em
quanto naõ for restabelecida a tranquillidadee concórdia,,
que he de esperar seja brevemente o resultado das provi-
dencias, que se tem adoptado. O que participo a Vossa
Excellencia para que assim o fique entendendo, e faça
executar, dando a este fim as ordens necessárias, e do
estylo, em casos similhantes.
Deos guarde a Vossa Excellencia. Palácio do Gover-
no, em 9 de Septembro de 1820.
A N T Ô N I O GOMES RIBEIRO.

Para o Senhor Conde de Palmella.


Illustrissimo e Excellentissimo Senhor:—Sendo da
maior importância que Vossa Excellencia continue a
prestar a Sua Majestade, na assistência que tem feito ás
deliberaçoens deste Governo desde o dia 28 de Agosto
próximo passado, o serviço mais interessante, que nas
actuaes circumstancias lhe pode fazer; espera o mesmo
Governo que Vossa Excellencia queira demorar-se por
algum tempo nesta capital, e assistir às suas sessoens.
tomando parte em todas as decisoens, que sefizeremne-
cessárias. E previno ao mesmo tempo a Vossa Excellen-
cia de que para segurar a sua viagem para a Corte do
Rio-de-Janeiro, logo que esta possa ter lugar, se manda
já apromptar a Fragata Pérola, como anteriormente
havia determinado. Deos guarde a Vossa Excellcn-
Miscellanea. 31â
cia muitos annos. Lisboa, no Palácio do Governo, em
o de Septembro de 1820. De Vossa Excellencia o mais
attento e fiel cativo.
C O N D E DA F E I R A .

Illustrissimo e Excellentisssimo Senhor.—Em conse-


qüência do desejo que Vossa Excellencia me manifesta,
em nome dos Senhores Governadores do Reyno, no Of-
íiicio que me dirigio com a data de hoje, differirei a
minha partida para a Corte de Rio-de-Janeiro até que
se ache prompta a Fragata Pérola, o que espero poderá
effeituar-se no espaço de poucos dias.
Entretanto naõ seria nem justo, nem conforme á minha
inclinação, o escusar-me de tomar publicamente sobre
mim a porçaõ da responsabilidade, que me cabe actual-
mente, pelas deliberaçoens a que o Governo me faz a
honra de me chamar.
Permitta Deos, que eu tenha a consolação de poder
levar brevemente ao Nosso Augusto Soberano a noticia
bem grata para o seu coração paternal, do restabelici-
mento completo da concórdia em Portugal, assim como
a certeza de que adherindo os Senhores Governadores do
Reyno aos desejos unanimes da Naçaõ Portugueza, inter-
pretaram desse modo as intençens sempre benéficas de
Sua Majestade.
Deos guarde a Vossa Excellencia muito annos. Lis-
boa, em 9 de Septembro de 1820.
De Vossa Excellencia muito attento de fiel servidor.

CONDE DE P A L M E L L A .
316 Miscellanea.
Proclamaçaõ.

O Conde de Barbacena ás tropas do seu commando.

Soldados! Tornando a ser vosso Companheiro de ar-


mas, senaõ me proponho a gloria de concorrer outra vez
agora na cooperação, e no testemunho dos vossos triunfos
contra inimigos invasores, alcançaremos outro naõ menos
glorioso contra a guerra civil, e contra a anarchia, que
por uma funesta hallucinaçaõ, e discórdia de antigos cama-
radas, ameaça a nossa Pátria, e que já se acha ressentida
por muitos dos fieis cidadãos da cidade do Porto, nossos
compatriotas. Esta causa que nos move, grandemente
nos afflige, mas também os meios discretos de persuasão
e de clemência, de que somos depositários, e instrumen-
tos, que pertendo empregar de preferencia aos queminis-
ministra o vosso reconhecido valor, assim como a bem
fundada esperança de se conseguir o objecto, que noshe
determinado, também grandemente nos consola.
O Governo único legitimo do Reyno, certificado da
benevolência do nosso Poderoso, sempre Benigno Sobera-
no, que elle representa, considerou o incrível comporta-
mento, que deplorámos, dessa pequena parte da brioza
naçaõ Portugueza, como um delírio devido aos prestígios
de mal intendidas doutrinas, affiançando-lhe solemnemen-
te em Nome de Sua Magestade, inteira amnistia, se de
promto entrarem nos seus deveres.
Procuremos todos os modos, aproveitemos todas as
conjuncturas de chamar á sombra protectora das nossa9
Bandeiras, que pela vossa fidelidade, e pelo vosso patrio-
tismo, naõ menos que pelo vosso valor, tremulam sem
mácula, a esses valorosos Militares, que se deixaram il-
ludir; será o nosso intento facilitar-lhe esse benéfico re-
fugio, e teremos a satisfacçaõ, que nos he permittida, de
os receber tom perfeito esquecimento do crio passado :
Miscellanea. ,'í!7

uma indurecida renitencia fica somente sendo crime. Sol-


dados ! Com a subordinação aos vossos Chefes, que naõ
he qualidade nova nos vossos ânimos, prestai sempre a
devida obediência, e plena confiança no Governo, que
bem segurodos vossos entimentos esta determinado a fazer
reconhecer, desde Lisboa em todo Reyno, a authoridade,
que S. M. entregou á sua lealdade, e sabedoria, tomando
desde a já por divisa o grito que do coroçaõ nasce—
Viva El Rey Nosso Senhor—Viva a Sua Real Familia, e
Augusta Dynastia—Viva a leal naçaõ Poitngueza, e
viva o único legitimo Governo, que, na ausência de S. M.
he depositário de sua Regia Authoridade. Quartel de
Aleoentre, 9 de Septembro de 1S20,
Conde de Barbacena, Francisco, Commandante do
Corpo de Exercito formado na Província da Estremadu-
ra.

1.* Proclamaçaõ
Publicada na revolta da cidade do Porto.
Soldados!—Uma só vontade nos uma: caminhemos á
salvação da pátria. Naõ ha males que Portugal naõ
sotfra; Naõ ha soffrimento, que nos Portuguezes naõ es-
teja apurado. Os Portuguezes, sem segurança em suas
pessoas e bens, pedem o nosso auxilio, elles querem li-
berdade regrada pela ley. Vós mesmos,- victimas dos
males conimuns, tendes perdido a consideração, que o
vosso brio e vossas virtudes tem merecido. He necessá-
ria uma reforma, mas esta reforma deve guiar-se pela
razaõ e pela justiça, naõ pela licenciosidade. Coadjuvai
a ordem, cohibi os tumultos; abafai a anarchia, e crie-
mos um Governo Provisório, em que confiemos; elle
chame as Cortes, que sejam o orgaõ da Naçaõ, e ellas
preparem umaConstituiçaõ, que assegure os nossos di-
reitos. O nosso Rey D. Joaõ VI., como bom, como be-
nigno, ha de abençoar nossas fadigas, como amante de
um povo, que o idolatra. Viva o nosso bom Re).
VOL. XXV. N \ 148.
318 Miscellanea.
Vivam as Cortes, e por ellas a constituição. Porto em
Conselho Militar, 24 de Agosto de 1820.
(Assignados) S E P U L V E D A , Coronel do Reg. N.° 18
C A B R E I R A , Coronel d'Artilheira.
T t . Cor. do Reg. N, p 6
Major das Milícias de Maia
Major das Milícias do Porto
2.3 Proclamaçuõ
Acabou-se o soffrimento! A Pátria em feros: a vossa
consideração perdida: nossos sacrifícios baldados; um
soldado Portnguez próximo a mendigar uma esmola!—
Soldados o momento he este: viemos à salvação da
Pátria: voemos á nossa salvação própria.—Camaradas,
vinde comigo; vamos com nossos irmaõs organizar um
Governo Provisional, que chame as Cortes, a fazer uma
Constituição, cuja falta he a origem dos nossos males.
He necessário desenvoivêllo; porque cada qual de vôs
o sente. He em nome, e conservando o nosso Augusto
Soberano, o Senhor D. Joaõ VI., que ha de governar-se.
A nossa sancta líeligiaõ será guardada! Assim como
nossos esforços saõ puros, assim Deus ha deabençoàllos.
Os soldados, que compõem o bravo exercito Portuguez,
haõ de correr a abraçar a nossa; porque he a sua causa.
Soldados a força he nossa ; naõ devemos, portanto, con-
sentir tumultos : a cada um de nós deve a Naçaõ sua segu-
rança e tranquillidade. Tende confiança n'um Chefe,
que nunca soube ensinar-nos senaõ o caminho da honra
toldados! naõ deveis medir a grandeza da causa, pela
singeleza dos meus discursos: os homens sábios desenvol-
verão um dia este feito, maior que mil victorias. Santi-
fiquemos este dia ; seja de hoje em diante o grito do
nosso coração; Viva El Rey, o Senhor D. Joaõ VI:
Viva o Exercito Portuguez: Vivam as Cortes, e por ellas

a Constituição Nacional.
(Assignado J
Miscellanea. 319
Auto da Câmara Geral.
Elogo, estando reunidos todos os abaixo
assignados pelos Illustrissimos membros do Conselho Mi-
litar acima mencionados, foi representado, que, sendo
evidentes os soffrimentos de todas as classes, e tendo de
esperar-se a cada momento um rompimento anarchico,
que levasse a naçaõ a todos as males, que este monstro
semêa na sociedade; elles animados do mais vivo desejo
de prestar serviços á Naçaõ, de salválla, de fazêlla re-
ganharosseus verdadeiros direitos; e caminhando outro
sim sobre a baze firme, e inabalável de manter fidelidade
e vassalagem ao nosso Grande e Muito Poderoso Mo-
narcha, o Senhor D. Joaõ VI., se deliberaram a propor,
como tem proposto, o seguinte:—
Que se formará uma Juncta Provisória, depositaria do
Supremo Governo do Reyno, composta das seguintes
pessoas, e do Vice-presidente, que essa mesma Juncta ele-
ger; a saber:—
Juncta Provisional do Governo Supremo do Reyno.
Presidente.—Antônio da Silveira Pinto.
Vogaes. Pelo Clero. O Deaõ Luiz Pedro de Andrade
Brederode.
Pela Nobreza.—Pedro Leite Pereira Mello.
Francisco de Souza Cirne de Madureira.
Pela Magistratura.— O Desembargador Manuel Fer-
nandez Thomas.
Pela Universidade.— O Dr. Fr. Francisco de S. Luiz-
Pela Provincia do Minho.—O Desembargador, Joaõ da
Cunha Soutomaior. Jozé Maria Xavier de Araújo.
Pela Provincia da Beira.—Jozé de Mello Castro e Ab-
reo. Roque Ribeiro de Abranches Castello Branco.
Pela Provincia de Traz-os-montes.—José Joaquim de
Moura. Jozê Manuel de Souza Ferreira e Castro.
Pelo Commercio Francisco Jozé de Barros Lima.
Secretários com voto.—Jozé Ferreira Borges. Jozé da
Silva Carvalho. Francisco Gomes da Silva.
320 Miscellanea.

Que esta Juncta governará em nome do Senhor Rey


D. Joaõ VI. Que ella manterá a sagrada Religião Catho-
1 ica Romana, que temos a felicidade de professar. Que
a Juncta he erecta para convovar Cortes representativas
da Naçaõ, e nellas formar uma constituição adequada u
nossa sancta religião, aos nossos bons usos, e ás leys, que
na actualidade das cousas nos convém.
A qual proposição foi aceita unanimemente, por todos
canonicamente firmada a eleição, sem perturbação al-
guma, e a aprazimento reciproco. E logo neste mesmo
acto, acabada a eleição, foi deferido em nome do Con-
selho militar, o seguinte juramento, por maõ do Corortel
Commendador Sebastião Drago Valente de Brito Cabrei-
ra, e do Coronel Bernardo Corrêa de Castro e Sepulveda,
a o l > r . Juiz de Fora do Cível, que depois o deferio ao
mesmo Conselho Militar, e a todas as mais pessoas, que
neste acto assignam, segundo suas respectivas attribui-
çoens, principiando por todos os membros, que com-
põem a Illustrissima Câmara: o qual Juramento he do
theor seguinte:—
Formula do Juramento.
" Juro aos Sanctos Evangellos obediência á Juncta
Provisional do Governo Supremo do Reyno, que se acaba
de instaurar, e que, em nome d' El Rey nosso Senhor D.
Joaõ VI, ha de governar até a installaçaõ das Cortes, que
deve convocar, para organizar aConstituiçaõ Portugueza:
Juro obediência a essas Cortes, e â Constituição, que fi-
zerem, mantida n Religião Catholica Romana, a Dynastia
da Sereníssima Casa de Bragança."

E sendo em particular dirigida a palavra aos Excelen-


tíssimos Bispo da Diocese, e Governadores das Justiças c
das Armas, todos expressaram os mais lisongeiros senti-
mentos de approvaçaõ, e adhesaõ ao systema, c procedi-
Miscellanea. [321] 32
mentoadoptado, como legitimo e único meio de salvar a
naçaõ.
E logo convocados o Presidente da Juncta, e mais
membros presentes (porque muitos ainda estavam fora da
cidade) lhes foi deferido ojuramento, a saber: ao Presi-
dente, pelo Juiz de Fora do Cível; e por aquelle aos de
mais. E terminando este acto com toda a regularidade,
ordem e júbilo, que cabe em tam grande feito, por todos,
as vozes dos Coronéis Cabreira e Sepulveda, foram repe-
tidos das janellas dos Paços do Conselho:—Viva o nosso
bom Monarcha, o Senhor D. Joaõ VI!—Viva a nossa
Religião sagrada!—e Vivam as Cortes e a Constituição
por ellas!—E desta forma houveram por finda esta Vere-
açaõ, de que mandaram lavrar o presente Auto, que foi
assignado, &c.

A Juncta Provisional do Governo Supremo do Reyno aos


Portuguezes.
Se na agitação porfiosa, que commoveo as naçoens da
Europa, e abalou os thronos, o vosso exercito salvou a
Pátria, immortalizando o seu nome, elle naõ se mos-
tra hoje menos benemérito delia, acabando de arran-
câlla do abysmo, em que se achava precipitada, e próxi-
ma quasi a perder até a sua representação nacional.
Uma administração inconsiderada, cheia de erros, e de
vícios, havia accarretado sobre nós toda a casta de males;
violando nossos foros e direitos, quebrando nossas fran-
quezas e liberdades, e profanando até esses louváveis cus-
tumes, que nos characterizâram sempre, desde o estabe-
licimento da monarchia, e que eram por ventura o mais
seguro penhor de nossas virtudes sociaes.
0 amor da pátria, sacrificado ao egoísmo, naõ foi mais
do que um nome vaõ, na boca desses homens ambiciosos,
que occupa vam os primeiros lugares da Naçaõ, e que só
J22 Miscellanea.

tinham por fito medrar nas honras e nas riquezas, em


prêmio do seus crimes, ou da falta de luzes e expe-
riência, com que dirigiam as cousas do Estado.
Assim vimos nós desappareccr desgraçadamente nosso
commercio, definhar-se a nossa industria esmorecer a agri-
cultura, e aprodecer nossa marinha.
Poucos dias mais bastavam para perdermos até o ul-
timo vaso mercante, e para acabar de todo a navegação,
pela qual fomos tam poderosos no tempo de nossa pas-
sada gloria: sulcavamos entaõ os mares devasando as
suas costas, freqüentando seus portos, e espalhando por
a Europa espantada e invejosa as preciosidade do Oriente
e as riquezas de ambos os mundos.
Estancadas por tal modo as fontes da prosperidade
nacional, devia ser e foi uma conseqüência necessária a
perdição de nossos mais charos interesses; e para cu-
cumulo de desventura deixou de viver entre nós o nosso
adorável Soberano. Portuguezes! desde esse dia fatal
contamos nossas desgraças, pelos momentos que tem du-
rado a nossa orfandade. Perdemos tudo, e até haveria-
mos perdido nosso nome, tam famoso no universo, se
naõ mostrássemos que ainda somos os mesmos, pela
constância com que temos soffrido tantas calamidades
e misérias, e pela heróica resolução, que hoje havemos
tomado. Nossos avós foram felizes; porque viveram nos
séculos vetiturosos, em que Portugal tinha um Governo
representativo nas Cortes da Naçnõ; e obraram prodí-
gios de valor, em quanto obedeciam ás leys, que apro-
veitavam a todos; porque a todos obrigavam. Foi entaõ
que elles fizeram tieinera África, que conquistaram a
a índia, e que asombraram o mundo conhecido, ao qual
acrescentaram outro, para dilatar ainda mais o renome
de suas proezas. Nunca a Religião, o throno e a pátria
receberam serviços tam importantes; nunca adquiriram
nem maior lustre, nem mais solida grandeza; e lodo*
Miscellanea. 323

estes bens dimanávam perenemente da Constituição do


Estado; porque ella sustentava em perfeito equilíbrio, e
concertada harmonia, os direitos do Soberano e dos vas-
sallos, fazendo da naçaõ e de seu chefe uma só familia
em que todos trabalhavam para a felicidade geral.
Tenhamos pois essa constituição, e tornaremos a ser
renturosos. O Senhor D. Joaõ VI., nosso adorado Monar-
cha, tem deixado de a dar, porque ignora nossos dese-
jos : nem he ja tempo de pedir-lhe; porque os males, que
soffremos e mais ainda os que devemos recear, exigem
um promptissimo remédio.
Imitando nossos maiores, convoquemos as Cortes
e esperemos de sua sabedoria e firmeza as medidas, que
sò podem salvamos da perdição, e segurar nossa existên-
cia política. Eis o voto da Naçaõ: e o exercito, que o
enunciou por este modo, naõ fez senaõ facilitar os meios
de seu cumprimento, retardado ja em demazia pela timi-
dez, ou pela desunião dos amantes da pátria. Nos glo-
riosos campos de Ourique o exercito levanta a vóz, e
apparece a Monarchia: hoje no berço de Portugal o ex-
ercito levanta a voz, e salvada destruição e da ruína este
precioso deposito, confiado á sua guarda, e sustentado
pelo valor do seu braço invencível, depois de muitos
séculos de existência.
Portuguezes! O passo, que acabais de dar para a vossa
felicidade futura, éra necessário, e até indispensável:
e a vossa desgraçada situação plenamentejustificao vos-
so procedimento, Naõ vos intimideis por tanto; porque
de certo naõ atraiçoaes os sentimentos de vossa natural
fidelidade. Nenhuma ley ou instituição humana he feita
para durar sempre, e o exemplo de nossos vizinhos bas-
taria para nos socegar. O mundo conhece bem, que a
nossa deliberação naõ foi effeito de uma raiva pessoal
contra o Governo, ou de uma desaffeiçaõ â Casa Augusta
de Bragança.- pelo contrario, nós vamos por este modo
324 Misrel/auea.
estreitar mais os laços de amor, e de respeito, c de vas-
6allagem, com que nos achamos felizmente ligados à
Dynastia do immortal Joaõ I V . : e as virtudes, que ador-
nam o coração do mais amado de seus descendentes, nos
affiançam, que elle ha de unir os seus aos nossos esfor-
ços, felicitando um povo, que tantas acçoens de heroísmo
tem practicado, para lhe segurar na frente a coroa do
Luso Império.
A mudança, que fazemos, naõ ataca as partes estáveis
da Monarchia. A religião sancta de nossos pays ganha-
rá mais brilhante explendor, e a melhora dos custumes,
fructo também de uma illuminada instrucçaõ publica,
até hoje por desgraça abandonada, fará a nossa felicida-
de, e das idades futuras.
As leys do Reyno, observadas religiosamente, segura-
raraõ a propriedade individual; e a naçaõ sustentará a
cada um no pacificio gozo de seus direitos, porque ella
naõ quer destruir, quer conservar. As mesmas ordens,
os mesmos lugares, os mesmos officios, o sacerdócio, a
magistratura, todos seraõ respeitados no livre exercício
da authoridade, que se acha depositada nas suas maõs.
Ninguém será incommodado por suas opinioens, ou
conducta passada; e as mais bem combinadas medidas
se tem tomado, para evitar os tumultos, e a satisfacçaõ
dos ódios, ou vinganças particulares.
Portuguezes! Vivei certos dos bons desejos, que nos
animam. Escolhidos para vigiar sobre os vossos desti-
nos, até o dia memorável, em que vós, competentemente
representados, haveis de estabelecer outra forma de Go-
verno, empregaremos todas as nossas forças, para con-
responder à confiança, que se fez de nós: e se o resulta-
do for, como esperamos, uma Constituição, que segure
solidamente os direitos da Monarchia, e os vossos, po-
deis accieditar será ella a maior e a mais gloriosa recom-
pensa de nossos trahalhos e fadigas.
Miscellanea. 315
Porto, e Paço do Governo, em 24 de Agosto, de
182a
(Assignado por todos os da Juncta Provisória)

Nota official sobre os officiaes Inglezes.


Illustrissimo Senhor!—O memorável acontecimento,
que restituio a Portugal a sua graduação entre as naçoens,
que justamente reclama, naõ permittio que a Juncta Pro-
visional do Governo Supremo, em um momento de tanta
importância, e que requer as mais promptass e efficazes
medidas expressasse aos officiaes Inglezes que occupam
postos no Exercito, quanto deseja mostrar, a justa e
bem merecida consideração, em que tem seus eminentes
serviços; e quam feliz seria em pensar que se julgava
authorizada a remunerallos dignamente. Porém, na im-
possibilidade de assim obrar, sente que be um de seus
primeiros deveres, no exercício da authoridade, que lhe
he confiada, ordenar que vós, Senhor, deciareis a todos os
dictos officiaes, e a cada um delles em particular, que
conservarão as suas honras, privilégios e distincçoen»
pertencentes a seus postos, assim como os seus soldos,
que lhes seraõ punctualmeute pagos, até o ajunctamen-
to das Cortes.
A Juncta ordena também, que Vossa Excellencia lhes
de a entender, que na conformidade da vontade geral da
naçaõ Portugueza, cujos desejos regulados por sua gene-
rosidade e gratidão saõ sem limites, fará com que se dê
aquelles officiaes que o desejarem, os meios necessa-
sarios para que fiquem no paiz com toda a decência e
commodidade; a menos, que elles tomem a resolução de
partirem para o seu paiz, ou para qualquer outro.
VOL. XXV. N.« 148. ri
326 Miscellanea.
Que a Juncta, porém espera, que elles se conduzirão,
nas presentes circumstancias, com aquella delicadeza e
ciicumspecçaõ, que convém a homens, que por educação
tem aprendido a apreciar o respeito devido à vontade de
toda uma naçaõ, que tem tam solemnemeiite declarado
sua firme resolução de manter seus direitos.
Deus guarde a Vossa Excellencia. Palácio do Go-
verno em 26 de Agosto de 1820.
FRANCISCO GOMEZ DA SILVA.
Ao Illustrissimo Senhor Sebastião Drago Valente de
Brito Cabreira, Commandante em Chefe da força armada
desta Divisão.

Proclamaçaõ.

A franqueza he a primeira das virtudes de um Gover-


nojusto; vós portanto sabereis tudo quanto nós sabemos,
e cuja certeza vos asseguramos. Os antigos Governado-
res do Reyno proclamaram, que uns poucos de homens
se mettéram a mudar a antiga ordem de cousas, e que por
esta razaõ ninguém nos deve obedecer. Vós sabeis a que
ponto elles estaõ enganados ou procuram enganar; porque
vós sabeis perfeitamente bem com que rapidez o grito
que levantantes foi repetido em toda a parte. Naõ te-
mais. Em Lisboa sois considerados como heroes e ver-
dadeiros patriotas; e os seus habitantes, que desejam
imitar-vos no socego com que proclamastes vossa inde-
pendência, somente esperam a chegada de alguma força
para se declararem, sem temor de soffrer alguns males, e
sem se verem na necessidade de os infligir. Cidadãos do
Porto, temos forças; temos meios de sustentar a nossa
causa. Ella he justa; e he também a causa de nossos vi-
zinhos, os Hespanhoes: e por esta razaõ suas tropas oc-
Miscellanea. 327
cupam ja as fronteiras de Galiza, aonde estaõ promptas a
auxiliar a nossa independência. Desejaríamos dever so-
mente a nossos esforços a liberdade que vamos a gozar;
mas os inimigos da naçaõ até nisto desejam obscurecer a
gloria a que tem tantos títulos. Cidadãos do Porto naõ
temais cousa alguma. Deus he com nosco.
Porto, oo Palácio do Governo, em 2 de Septembro de
1820.
(Assignado) ANTÔNIO DA SILVEIRA P I N T O
DA FONCECA. Presidente.
SEBASTIÃO DRAGO VALENTE DE
BRITO CABREIRA. Vice Preci-
dent<\

AMERICA HESPANHOLA.

Officio do Governador Gabriel de Torves ao General


Bolívar.
Vossa Excellencia sabe, e reconhecerá no seu coração,
como eu faço, que as disputas de familia tendem sem-
pre, por um impulso natural, à fraternal reconciliação,
particularmente quando os principaes agentes obram de
bòa fé e tem em vista a felicidade publica. A naçaõ Hes-
panhola, cujos filhos Europeos e Ultramarinos tem esta-
do ha tanto tempo em disputas, obteve por fim o per-
manente estabelicimento da Constituição de 1812, que
naõ pode deixar de ser um laço de reunião, ou meio de
a effectuar; os indivíduos de qualquer sociedade naõ po-
dem aspirar a mais do que a obter um Governo liberal,
justo e sábio, cujo objecto naõ pôde deixar de ser mani-
festo naquelle código fundamental, de que vos mando
«ma copia, junetamente com a proclamaçaõ de Sua Ma-
328 Miscellanea.
jestade, manifesto da Juncta Provisional, e regulamentos
para a convocação das Cortes.
Este systema, que removerá todas, ou a maior parte
das queixas das dissidentes colônias, dá aos habitantes da
America uma participação na eminente gloria, a que com
toda a probalidade a naçaõ será elevada. Ao mesmo tem-
po que, por outra parte, se a Hespanha, em conseqüência
desta desunião, perder tam grande porçaõ de seu poder,
a America despovoada, e principalmente este Reyno, naõ
pôde deixar de descubrir, quam impossível lhe he sup-
portar-se só de per si, por falta de uma população pro-
proporcionada á extençaõde seu território, e ao pequeno
progresso, que tem feito na informação geral, na agricul-
tura, industria, commercio, relaçoens estrangeias, e to-
dos os outros elementos necessários para formação de
uma naçaõ, sem poder, em conseqüência destas differen-
ças, e das da côr e raça de seus habitantes, aproveitar-se
do exemplo, que lhe dam as naçoens, que se tem respec-
tivamente separado dos Estados a que pertenciam. Se,
nos dictos documentos, nestas minhas suggestoens, ou
n' outras melhor calculadas por vós mesmo, Vossa Ex-
cellencia achar alguma cousa capaz de promover recon-
ciliação e reunião, e consequentemente receber e jurar a
Constituição, e mandar às Cortes o numero de Deputados,
conrespondente ao districto agora occupado pelas forças
debaixo do Commando de Vossa Excellencia, este Su-
premo Governo está authorizado a considerar tudo co-
mo ajustado, e publicará uma completa amnistia pelo
passado, que, durante o presente systema, naõ pôde deixar
de ser religiosamente observada. Vossa Excellencia terá
a gloria de ser um dos primeiros authores da termi-
nação das presentes calamidades deste paiz, digno de me-
lhor sorte, e o Governo reconhecerá e premiará o mereci-
mento de tam benéfica resolução.
Porém se occurrerem a Vossa Excellencia algumas dif-
Miscellanea. 329
ficuldades, que se possam obviar por convençoens con-
clusivas ou provisionaes, o Supremo Governo Nacional,
que se me devolveo, está prompto para abrir conferên-
cias, por meio de deputados, para o fim de as superar:
ou se Vossa Excellencia, ou o Governo, a que pertenceis,
preferir communicaçaõ directa com a Corte, e mandar
commissarios, com plenos poderes, para explicar os seus
desejos a Sua Majestade, eu lhes darei os necessários pas-
saportes, na intelligencia de que estou authorizado a as-
segurar a vossa Excellencia, que Sua Majestade ouvirá
as proposiçoens, e concederá tudo quanto for compatível
com a majestade e bem da Monarchia.
Porém em todo o caso, e quando vós naõ querais receber
e jurar immediatamente a Constituição, e mandar depu-
tados para as Cotes, pôde haver outros pontos de arranja-
mentos prévios, e uma tregoa ou cessação de hostilidades
seria desejável para este fim. Isto proponho eu a Vossa
Excellencia, que seja ajustado, por meio de deputados,
Sobre a baze de ser sem prejuízo ás vantagens respectivas
de ambas as partes, e que nada se tente, no entanto, que
possa comprometter as operaçoens futuras.
Porem se, a despeito de tudo, a guerra deve continuar,
este governo Superior, segundo as ordens, que recebeo, a
continuará nos princípios de humanidade e direito das
gentes, evitando todo o ultragem, se Vo9sa Excellencia
de sua parte adoptar um caminho similhante.
Finalmente, o Supremo Governo Nacional, de cuja
pura e cordial bôa fé se daraõ sempre os mais positivos
testemunhos, me authoriza a assegurar-vos, que practi-
carios princípios de rectidaõ, que saõ essenciaes ao be-
néfico systema, que tem adoptado; e se infelizmente,
naõ resultar delle o effeito saudável, que a naçaõ e El
Rey sinceramente se propõem, daraõ á Europa e ao mun-
do um irrevocavel testemunho da maior moderação; e
330 Miscellanea.
nenhuma alternativa restará mais do que a força para sub-
jugar os obstinados, e será empregada com justiça e pro-
priedade, sem sugeitar o Governo à responsabilidade
pelas desgraças futuras, que teria incorrido, se naõ hou-
vesse adoptado esta medida.
Faço esta communicaçaõ a Vossa Excellencia, por
este officio, dirigido ao Commandante das forças imme-
diatamente opposto a esta cidade, e espero a vossa res-
posta no espaço do 4o ou 50 dias.
Deos guarde a Vossa Excellencia.
G A B R I E L DE TORRES,
Carthagena 20 de Julho, 1820.
Ao Commandante em Chefe
das forças dissidentes, neste
Reyno.

He da maior importância ao bem publico, e ao inter-


esse dos indivíduos na guerra, neste Reyno, que o officio,
que vos mando com uma bandeira de tregoas, chegue im-
mediatamente ás maõs do Commandante em Chefe. Es-
pero, portanto, quando for informado de sua recepção,
saber também que foi remettido.
G A B R I E L DE TORRES.
22 de Julho, 1820.
Ao Commandante das forças
dissidentes, em frente desta
Cidade.

Extracto de uma carta do Almirante Brion, datado do


Quartel General em Barranquilha, aos 8 de Julho
1820.

Tenho a satisfacçaõ de referir, que expulsamos os


Hespanhoes para os muros de Carthagena, depois de ter
Miscellanea. 331
tomado toda a frota Hespanhola no rio de Magdalena, a
qual constava de 27 barcas canhoneiras, a maior parte
dellas de calibre 12, e compridas de 24: também todas
as muniçoens de guerra, e um immenso parque de arti-
lheria de bronze, obuzes, morteiros e uma bateria com-
pleta. O exercito de Antioquiaja se nos unio ; assim
como também 2.500 homens do exercito do Norte, na
provincia da Sancta Martha. 2.000 homens mais deste
exercito estaõ em marcha, com o Presidente à sua frente;
e esta semana chegarão de Antioquia mais 1.000 regu-
lares ; de maneira que as tropas effectivas de linha mon-
tarão a 4.000 homens; alem de 5.000 milicianos. Esta
provincia levantou-se quando aqui entramos, naõ ficando
um só homem que uaõ corresse às armas. O exercito do
Norte, debaixo do commando do General Urdaneta,
obra era Sancta Martha, Rio de Ia Hache e Maracaibo.
A nossa força no Magdalena he presentemente de 42
vasos de guerra, e temos aberta a communicaçaõ com
todo o interior; esperamos dali immensas sommas de
ouro; porque naquelles paizes ha muita falta de fazen-
das.
0 porto de Savanilla foi declarado aberto para o com-
mercio, e se estabeleceo ali uma alfândega. He uma
bella enseada, e protegida por uma forte bateria; edificar-
se-ha ali immediatamente uma communicaçaõ por um
Canal com o Magadalena.

(Assignado) BRION

P. S. 0 Quartel-General do exercito Principal está em


Turbaco.
332 Miscellanea.

Refiexeens sobre as novidades deste mez.

REYNO UNIDO DE PORTUGAL BRAZIL E ALGARVES.

Dizem alguns naturalistas, tidos por demasiado crédulos, que


os ratos, por um instiucto natuial, fogem das casas em que
habitam, quando ellas estaõ para cair. A partida do Marechal
Beresford para o Brazil fazendo-nos lembrar esta circumstancia,
naõ deixou de dar-nos mais um pressagio do que ia a succeder
em Portugal, e por isso dissemos no nosso N." 144. p. 534,
(fallando da partida do Marechal para o Brazil) " Veremos o
que succede em quanto volta, e o que resultará dessa volta."

Revolução do Porto.

Pelas 9 da noite do dia 23 para 24 de Agosto, segundo o plano


previamente concertado, se congregaram na casa do Coronel do
Regi mm to de Artilheria N.° 4, Sebastião Drago Valente de
Brito Cabreira ; o Bacharel Jozé Ferreira Borges ; o Tenente
Coronel do Regimento de Infanteria N.° 6. Domingos Antônio
Gil de Figueiredo Sarmento; o Tenente Coronel commandante
do Corpo de Policia, Jozé Pereira da Silva Leite de Berredo; o
Major de Milícias do Porto, Jozé de Souza Pimentel; o Aju-
dante de Milícias da Maya, Tiburcio Joaquim Barreto Feio, que
depois foi substituído, pelo Major do mesmo Regimento Jozé
Pedro Cardoso da Silva ; e entaõ, formado o Conselho, assenta-
ram, que as forças ficariam ás ordens dos dous Coronéis, que
deviam fazer o rompimento convencionado: o que elles aceita-
ram. Tomadas as medidas precisas, e reunidas as tropas d'an-
temaõ, leo o Coronel C:\brtira a proclamaçaõ N / 1.*, que dei-
xamos copiada a p. .'317.
No dia seguinte, 24, pela maiihaS mui cedo, ajunctaram-se
as tropas no campo de Sancto Ouvidio, e ali leo o Coronel Sepid-
veda a proclamaçaõ N.° 2. (p. 318) Deo-se uma salva de 21 ti-
ros; e n'um altar preparado no tampocelebiou missa o capelão
Miscellanea. 35S
do Regimento d'artilheria ti.* 4 ; e prestaram os presentes ju-
ramento, cuja formula, fica copiada a p. 321.
Isto feito marchou a tropa para a Praça Nova, e entraram na
casa da Câmara os chefes militares, e mandaram chamar todas
as pessoas principaes da cidade. Vieram ali o Bispo, o Gover-
nador das Armas, o Senado da Câmara, o Juiz do Povo, a Casa
dos Vinte e Quatro, os Juizes de Vara Branca, as pessoas da
governança, e cidadãos principaes ; e entaõ se lançou o Auto de
Câmara Geral, que deixamos copiado a p. 319.
Depois disto ajuncta nomeou para Vice-Presidente o Corouel
Sebastião Drago Valente Brito Cabreira ; e expedio o manifesto
ou proclamaçaõ á naçaõ, que copiamos a p. 321.
Diz o rumor, que esta revolução começara antes do período
contemplado, que éra aos 13 de Septembro, porque os conspi-
rados se descubrirain ao Conde d'Aniarante, esperando ganhállo
a seu partido, mas elle deo parte aos Governadores do Reyno
em Lisboa, que despacharam o Marechal Manuel Pamplona Car-
neiro Rangel, para que tomasse o commando das tropas no Por-
to, e prendesse os conjurados. Um destes, Manuel Fernandes
Thomaz, teve aviso do que se passava, comniunicoii-o aos ou-
tros, e resolveram declarar-se instantaneamente.
No entanto, que o General Rangel caminhava para sua com-
missaõ, soube em Aveiro, que o Porto ja estava levantado, pe-
lo que retrogadou a Coimbra, com o batalhão 1().° de Caça-
dores; mas sabendo, que o Coronel Silveira lhe vinha no alcance,
com o Regimento 22 de infanteria, deixou os Caçadores, e foi
para Lisboa.
0 Coronel Sepulveda chegou logo depois a Coimbra, aonde
reorganizou os Caçadores, coin mais outras tropas de seu bando.
Entaõ se declarou Coimbra pela Juncta Provisória, o que ja ti-
nham feito varias outras villas e cidades.
Quatro dias depois do levantamento do Porto, tiveram delle
noticia os Governadores do Reyno, chamaram a Conselho de
Estado, a que assistio o Conde, de Palmella ; e destas delibera-
çoens resultou a proclamaçaõ, que copiamos a p. 224,
VOL. XXV. N".l 48. uu
334 Miscellanea.
Quanto á proclamaçaõ dos Governadores do Reyno, attríbula-
se ella aos talentos do Conde de Palmella: nós a supporiamos
antes obra do Padre Jozé Agostinho, que por muito tempo tem
sido o coadjutor literário dos Senhores Governadores do Reyno.
Até naõ merece esta proclamaçaõ, que se lhe faça analyze.
O certo he que no outro dia (29) pela manhaS se achou rasga-
da a tal proclamaçaõ, ou bezuntada de iiuiiiundicie, em todos os
lugares públicos aonde tinha sido affixada. A esta falta de res-
peito se seguio mandarem os Governadores esqui par a toda a
pressa os navios de guerra, que se achavam no porto; c ainda
que esta medida fosse mui natural nas circumstancias, o povo a
attribuio logo, a preparativo dos Governadores, para se retirarem
ao Rio-de-Janeiro.
No entanto que isto se passava em Lisboa, a província do Mi-
nho seguia a revolução do Porto, commandando as tropas o Ma-
rechal Gaspar Teixeira de Magalhaens e Lacerda. A brigada9
e 11, e caçadores 12 éra commandada por Antônio Lobo Teixei-
ra de Barros ; e a brigada 3 e 15, e Caçadores 6, por Joaquim
Telles Jordaõ ; estando toda a divisão ás ordens do Brigadeiro
Antônio de Lacerda Pinto da Fonceca.
A cidade de Braga declarou-se pela insurrecçaõ aos 28 de
Agosto; Ponte de Lima aos 2 6 ; Vienna aos 27, proclamando
todos a Constituição, qne naõ se sabe ainda qual seja.
No 1.* de Septembro chegou ao Porto a Proclamaçaõ dos Go-
vernadores do Reyno, c em resposta a ella publicou a Juncta ou-
tra proclamaçaõ, que copiamos a p. 326: e na noite de 2 se fe»
uma leva para augmentar as tropas, que se destinavam a mar-
char contra Lisboa.
A Lisboa, porém, chegaram officios do Conde de Amarante,
Governador das armas, na provincia de Tras-os-montes, datados
de Chaves, aos 25 de Agosto, (e que deixamos copiados a p. 291)
em queaununciava os preparativos, que fazia para marchar con-
tra os revolucionários, chamava louco conhecido por tal a seu
irmaõ, que entrara na revolução : e incluía também o Conde a
copia de uma proclamaçaõ, que publicará contra os revoltosos.
Ao mesmo tempo tiveram os Governadores officios, na mesma
Miscellanea. 33á

tendência, do Corregedor de Villa Real, do Governodor das


armas da Provincia da Beira, e do Governador de Elvas, em que
todos se mostravam promptos a apoiar a authorídade d'El Rey,
esenGeverno. Copiamos estes officios com outros documentos
de p. 293 em diante.
Naõ obstante estas noticias, que mostravam terem os Gover-
nadores do Reyno ainda um partido a seu favor, publicaram el-
les, no dia 1° de Septembro, uma proclamaçaõ, em que pronaet-
tiam convocar as Cortes ; cedendo assim á torrente da revolução
Veja-se p. 292. Seguindo-se a isto nomear a Commissaõ pre-
paratória das Cortes, pela portaria, de p. 300, substituindo
depois outro membro, em lugar do Visconde de Barbacena,
p. 303.
Ultimamente passaram-se as Cartas de chamamento das Cor-
tes, para se ajunctarem em Lisboa aos 15 de Novembro ; e a
p. 312 damos a que se dirigio ao Senado da Câmara de Lisboa,
ordenando-lhe, que elegesse os seus dous procuradores, e lhes
desse instrucçoens.
Neste documento notamos, que os Governadores do Reyno
mudaram a fraze e estylo, que tam impropriamente tinham adop-
tado desde o principio de sua administração. As suas ordens
eram expedidas, fallando como se fosse El Rey, que as escrevera
ou assignara; agora faliam os Governadores em seu próprio
nome; como se convocassem as cortes de sua própria authori-
dade.
As noticias da revolução de Portugal foram publicadas nas
gazetas lnglezas, com algum estrondo, mas naõ apparecêo ne-
nhum paragrapho do Braziliano Residente em Londres, nem
para as contradizer, nem mesmo para as explicar ou suavizar;
pelo que suppômos que o tal Braziliano ja aqui naõ reside; ou
estará enfermo; se isto he, damos-lhe os pezames pelas suas
moléstias ; e lhe recommendamos, que incumba alguém a que
laça as soas vezes, escrevendo para os jornaes Inglezes ; por
qne decerto a revolução em Portugal naõ he bagateüa, que se
dente ficar no tintei ro.
336 Miscellanea.

Até aqui os factos, qne narramos segundo as melhores noti-


cias, que pudemos alcançar. Agora, porém, faremos algumas
observaçoens sobre estes procedimentos e suas conseqüências,
O concurso de causas, que tinham motivado o descontentamen-
to dos Portuguezes, éra tam manifesto, que nada podia escure-
cer : os malignos serviam-se disto, paracalumniar injustamente
El Rey : os Governadores naõ davam passo algum para impedir
o mal imminente : e os homens principaes da naçaõ, emprega-
dos por El Rey, fugiam de cooperar para o próprio remédio com
um egoismo, por naõ dizer outra cousa, verdadeiramente escan-
daloso.
Por exemplo o Conde de Palmella. Foi este fidalgo nomeado
Secretario de Estado ; e espeiava-se por elle na Còite do Rio.de-
Janeiro, como os Judeus esperam pela vinda do Messias: o Con-
de sabia, ou devia saber, pois ninguém o ignorava, que éra da
mais urgente necessidade adoptar promptissimas medidas, para
aquietar as fermentaçoens, que existiam em Portugal, mas em
vez de ir para o Brazil a promover, ou ao menos ajudar, os planos
que El Rey contemplava, deixou-se ticar em Londres por três
annos, fazendo viajens a Paris, sob vários pretextos ; e até se
diz, que El Rey, para o induzir a partir, he mandara pagar as
dividas, que montavam a sommas enormes.
Em um saio de Londres, mas foi para Lisboa, aonde chegou
a tempo para assistir ao enterro, dando-se em razaõ, que ia pa-
ra achar-se presente ao casamento da irmaS; como se tam futil
causa se pudesse pôr cm competência com a magnitude dos ob-
jectos, que se deviam tractar no Rio-de-Janeiro, c de que de-
pendia a salvação da Monarchia.
Mas naõ pára aqui o Conde de Palmella, em faltar á obediên-
cia a El l»<y. Na gazeta de Lisboa se publicou uma carta do
Conde da Feira, que assigna agora os papeis do Governo, junc-
to com os Governadores, sem sabermos cora que bullas. Esta
carta, dirigida ao Conde de Palmella, roga-lhe, que naô vá para
o Brazil; c o Conde de Palmella, responde, que a pezar dos
seus desejos, vista esta requisição se deixará ficar, (veja-se p.
314.)
i A quem illudirá uma pantomima desta natureza ? Depois
Miscellanea. 337

reremos, como esta repugnância do Conde tni ir para o Rio-de-


Janeiro, quadra com outras circumstancias.
A par deste comportamento egeistico do Conde de Palmella,
vem o procedimento dos Governadores do Reyno. Tudo amea-
çava a prompta dissolução de sua authorídade, se naõ se tomas-
sem medidas as mais decisivas, para contentar os Portuguezes,
principalmente depois do exemplo da Hespanha, mas nada fi-
zeram, senaõ prohibir que se naõ escrevesse nem fallnsse sobre a
revolução Hespanhola, como se fosse possivel o ignorar-se, em
Portugal, o que estava passando no outro lado de suas abertas
fronteiras; e como se taes medidas restrictivas naõ fossem de si
mesmas novo motivo, para se contrastar a liberdade Hespanhola
com a servidão Portuguesa.
Succede em fim a revolução do Porto, no dia 24 de Agosto, e
tam mal servidos eram os Governadores em Lisboa, que só delia
aoubéram aos 28. Aos 29 publicaram sua proclamaçaõ, decla-
rando, que as Cortes, convocadas pela Juncta Provisória, sem-
pre seriam illegaes; porque só El Rey tem o direito de as con-
vocar; e naõ obstante isto, quatro dias depois, aos 2 de Septem-
bro, se erigem esses Governadores em Rey, proclamando que
Iam convocar as Cortes.
Dizem os Governadores, nessa proclamaçaõ de 1 de Septem-
bro, que assim obram em virtude dos poderes e instrucçoens,
que tem, para os casos urgentes. Se taes poderes tinham £ por-
que naõ uzáram delles a tempo ? Se a convocação das Cortes éra
medida conveniente, para impedir o perigo imminente, em que
«e achava o Reyno, deviam couvocállas, antes de arrebentar a
revolução; porque entaõ appareceria como acto gracioso, o que
loinente he agora concessão extorquida ; entaõ um acto de jus-
tiça ou benevolência, lhes attrahiria respeito; agora uma conse-
qüência de temor só fará desprezível sua authoridade, entaõ as
Cortes, chamadas com deliberação, poderiam ser dirigidas, se-
gundo as vistas do Governo, para que naõ adoptassem senaõ re-
formas graduaes : agora obrando-se com a precipitação, a que a
revolução impelle, o Governo será levado pela torrente a qual-
qier extremo, que a convulsão o arrojar,
338 Miscellanea.

A revolução actual só he a manifestação do descontentamento


que muito d'antes existia; e se a convocação de Cortes he adap-
tado remédio desse descontentamento; ja também muito d'antes
deveriam os Governadores do Reyno ter proposto essa medida a
Sua Majestade. Nada disso fizeram.
Se, porém, a convocação das Cortes naõ éra o próprio remé-
dio, para acalmar a inquietação, que ha tanto tempo se obser-
vava em Portugal i que justificação poderão alegar os Governa-
dores do Reyno, para ter agora recorrido a tal medida ?
e" Que com isso pararíam a revolução e manteriam sua autho-
ridade ? Ridícula esperança ! um acto do Governo, dictado pelo
temor, nunca lhe conservou a authoridade ; porque nunca lhe
pôde conciliar o respeito dos subditos.
i Que se seguio de facto a esta medida dos Governadores e do
seus conselheiros ? Logo que se soube em Trás os Montes, que
os Governadores cediam á revolução, e chamavam Cortes, se fez
Conselho em Chaves, aos 6 de Septembro, em que foi resolvido re-
conhecer, no dia 7, a Juncta do Porto. Esta publicou, aos S,
uma proclamaçaõ, em que ludibriava a medida dos Governadores,
e marchou para Coimbra, para dali se passara Lisboa, a tomar
posse do Governo Geral do Reyno. Eis o fructo das resoluçoens
dos Governadores : exactamente o que se devia esperar.
Naõ podemos dar neste N.° a proclamaçaõ da Juncta do Por-
to do dia S; que na verdade he um chefe d'obra, em expor o
Governo de Lisboa, seu Conselheiro Conde Palmella, e o
systema, que tal gente seguia.
Nós exporemos esta miserável facçaõ em suas próprias cures
em outro N.°.
A Meza do Desembargo do Paço, que até aqui nada tinha
proposto, para o melhoramento dos negócios públicos, depois
das medidas do Governo, se saio com uma representação, para
approvar o que tinha feito o partido dos Governadores; o resumo
desta Representação, copiado da Gazeta de Lisboa, he o se-
guinte :—
" A Meza, pois, expoz na dieta representação, que animada
Miscellanea. 339
dos mais puros sentimentos de lealdade, de amor, e de inteira
dedicação á Soberana Pessoa de Sua Majestade, ao bem do seu
Real serviço, e ao interesse geral da Monarchia, naõ podia nas
actuaes circumstancias, em que se acha este Reyno, deixar de
concorrer com a expressão da sua dôr, pelos acontecimentos, que
desde o dia 24 de Agosto ultimo na Cidade do Porto tem abys-
mado o mesmo Reyno, em um violento estado de crise; unindo a
este doloroso sentimento por tam desastrosos, e deploráveis sue-
cessos o reconhecimento da confiança, que a todos justamente
inspira a promptidaõ, a energia, e o acerto das providencias,
que os Governadores do Reyno tem adoptado."
" Expõem a mesma Meza que taes, e tain judiciosas provi-
dencias, eram as únicas, que, dando a conveniente direcçaõ ao
espirito publico, vivamente agitado pelas opinioens dominantes
do século, como parece naõ poder duvidar-se, podiam salvar o
Reyuo de uma inteira subversão, que a todos cobriria de oppro-
brio, e de calamidades."
" Penetrada intimamente d'esta convicção, teve a Meza por
um dos seus principaes deveres levar ante o throno Augusto de
Sua Majestade, com a homenagem pura de sua lealdade, a ex-
pressão fiel do applauso, com que tem sido aceitas as referidas
medidas, adoptadas pelos Governadores do Reyno, e exprimindo
assim o conceito, que forma da gravidade do perigo, e dos meios
empregados para conservar a preciosa herança, que dos Se-
nhores Reys, Augustos predecessores de Sua Majestade, passou
por ventura nossa ás reaes maõs do mesmo Senhor, une-se, como
deve, desta sorte á voz do Governo, parecendo-lhe que as mes-
mas medidas sustentadas com firmeza, e perseverança saõ as
mais próprias para salvar o Reyno do risco em que se acha pre-
sentemente."
" Expõem finalmente a Meza que uma só circumstancia faria,
o complemento, e poria o remate a tudo : era o de agradar á
Divina Providencia, que Sua Majestade, na alta sabedoria de
«eus Conselhos resolvesse restituir a este Reyno a sua Real pes-
*«•» ou a do Sereníssimo Principe Real seu Augusto filho: que
ne «egurainente este o voto universal de toda a naçaõ, e a Meza
340 Miscellanea.
iiiterpondo-o, naõ hesita em supplicar humildemente a Sua Ma-
jestade, que se digne realizallo, concedendo a todos os seus fieis
vassallos de Portugal esta graça, que sobre todas quantas provi-
dencias se tem adoptado, e possam ainda adoptar, deve servir a
consolidar todas as instituiçoens, extinguir até a lembrança das
divisoens, dar nova vida, e vigor á Monarquia, animar comple-
tamente todo o systema da administração, e derramar sobre to-
dos os coraçoens os seutimentos de paz, de uniaõ, e de concór-
dia, de que tanto se necessita."
Até aqui o Desembargo do Paço, mas deve notar-se, que ao
piimeiro romper da commoçaõ se acharam ja pessoas obrando,
como representantes das três provincias do Minho,Taz-os-montes
e Beira, e o novo systema seguido logo depois, por cidades e
villas dessas três Provincias. Fatal cegueira, pois, a de quem
suppóz em Lisboa, que os elementos da revolução naõ eram ge-
raes por todo o Reyno ; e que também o remédio devia ser de
natureza geral. Mas até que a revolução arrebentou, naõ appa-
recêo nenhuma Representação da Meza do Dezembargo do Pa-
ço.
A commoçaõ, que arrebentou em Portugal, naõ pôde causar
admiração a ninguém ; porque tudo a anuunciava depois de
muito. Que isso se fizesse sem derramamento de sangue, he
circumstancia, que se deve julgar mais feliz, do que talvez
houvesse o direito de esperar : e por isso naõ ficarão menos cul-
pados tio tribunal da razaõ, aquelles, que, podendo impedir o
perigo, naõ o fizeram.
Que tudo tendia em Portugal para a revolução, que começou
no Porto aos 24 de Agosto, he cousa que até os cegos conhece-
ííain por ser naõ só visível mas palpável. Mas se os Ministros
d'EI Rey tomaram algumas providencias para prevenir o perigo
immineiite, he i> que naõ apparece ; porque até o dia de hoje
ainda naõ sabemos que existisse cousa nenhuma desta natureza.
Pelo contrario temos razaõ de dizer, que o dinheiro d'EI Rey
he estava dando a pessoas, quu trabalhavam o que podiam por
derribar a authoridade d<> mesmo Rey. Naõ disputaremos aqui
nem os seus motivo1;, nem as <<>n»eqiiencins : mas lá hc um pou*
Miscellanea 341

co árduo, que o dinheiro d*El Rey se empregue em fomentar


medidas de opposiçaõ a elle mesmo. Por havermos atacado os
abusos, que se deviam destruir, nos chamaram jacobinos, es-
ses mesmos homens, que agora nos apregoam de cortezaõs, por-
que dizemos que seria muito melhor que taes abusos naõ fossem
reformados por meio de revoluçoens : essas incongruências saõ
naturaes a injustos aggressores.
Mantemos ainda a mesma opinião. Se quem pôde remediar
os abusos naõ o faz ; he culpado, porque naõ previne os perigos:
se o remédio dos abusos se fizer por commoçoens populares, sem
desastres, he accaso, que nas regras ordinárias da prudência naõ
deve entrar em calculo.
Mas ; que diremos de empregados públicos, que ha muito
tempo tinham mandado assoalhar, por aquelles a quem davam
pensoens, a necessidade de mudar em Portugal todas as bazes
do edifício social: que fomentaram a publicação da chronologia
das Cortes, que faziam alardo de proteger, apparecer em publi-
co, promover o perdaõ, e dar pensoens aos mais escandalosos
traidores da pátria, no tempo da invasão inimiga ?
Se taes eram alguns dos principaes servidores d'EI Rey, a
ninguém deve admirar qne elle seja mal servido; e talvez mais
agradecimento deva El Rey aos que tramaram a revolução do
Porto; porque se ella tinha de sueceder, melhor he que caísse
em maõs, que livrem a naçaõ ou da anarchia dos democratas, ou
do despotismo de uma degenerada aristocracia.
He preciso combinar alguns factos, para virmos a descubrir a
vistas ocultas de certa facçaõ aristocrática. Nos mesmos escrip-
tos, em que vemos recommendada a necessidade da revolução
e dai mudanças em Portugal, vemos também uma constante
declamaçaõ contra El Rey, por conceder títulos de nobreza, e
principalmente por elevar a grandes empregos, homens, que
na6 saõ da classe dos fidalgos. Aqui se vê que, quern faz fal-
lar esses pregadores, he o partido desses aristrocatas.
«Donde tirou o Marquez de Marialva, o Conde de Palmella,
ou outro qualquer titulo das famílias Aristrocratas a sua nobre-
VOL X X V . N M 4 8 . xx
M2 Miscellanea

za, senaõ da concessão dos Reys ? E que mais direito tem ne-
nhum membro dessas famílias, desfiguradas por vergonhosas
bastardlas, de que tiram sua origem, a serem titulares, do que
Pedro, Paulo, Sancho, ou Martinho, a quem El Rey por sua
affeiçaõ particular, ou por serviços feitos á sua pessoa ou ásua
familia, faz entrar na classe da Nobreza ?
Daqui fica manifesto, que o partido que nos tem quebrado os
ouvidos com a necessidade de mudar as bazes do edifício social,
com a prostituição dos títulos a guarda roupas e pessoas insig-
nificantes, com os empregos diplomáticos em pessoas de classes
differentes desses fidalgos, naõ aspira amais do que a metter-nos
pelos olhos essa aristocracia rançosa, que de nada serve, e que
nas oceasioens dos apertos, ou tem tomado o partido dos inimi-
gos, porque lhe parecèo o mais forte, ou se tem mettido no es-
curo fugindo ás difficuldades.
Se esses que assim faltam, tem realmente em vista o desappro-
var, que pessoas naõ nobres sêjain elevadas a empregos impor-
tantes, principalmente na diplomacia ; para que estaõ tam car-
iados a respeito de pessoas taes como um Guerreiro, a quem dam
o tractamento de Excellencia ? < Que serviços, que estudos,
que talentos saõ os desse diplomático nascido das ervas, senaõ
o de ser um humilde instrumento do partido Roevidico ? Entre-
tanto, note-se, os mesmos que lhe dam Excellencia, saõ os que
nos ímpurram a necessidade de mudar as bazes do edifício so-
cial em Portugal; os que louvam os traidores da pátria, e os que
acham culpa em El Rey por elevar pessoas, que naõ saõ da
classe da grandeza.
He assim que, correndo em Londres a noticia, de que o Ab-
bade Corrêa éra ehamado ao Rio-de-Janeiro, para Ministro de
Estado, tiveram alguns biltres addictos á Embaixada Portugue-
za a iinpiickncia de d:/.«-r, que o Abbade sóiiía para dizer missa
a EI Rey. Porque se levantou esta antiphona, seguiram logo
outros a psalmodia, insinuando que o Abbade só sabia de sua
botânica.
Comparando, pois, todos estes factos, naõ nos resta a menor
duvida, de q»ie o? principaes motores da revolução, se devem
Miscelluttf* 34^

achar n'um partido aristocrático, que se lisongeava de poder


dar aos negócios de Portugal a direcçaõ, que lhe aprouvesse,
sem consultar a El Rey. Talvez um fidalgo, que manejasse as
cousas por de traz da cortina, tivesse em vista ser o Presidente
das Cortes ; mas jogando, como l.i dizem, com páo de dous bi-
cos, ir para o Rio-de-Janeiro a propor novos planos, quando as
cousas naõ saíssem ao som de seu padár.
Mas parecenos, que depois da confusão, que elles machina-
ram, os aristocratas se acharão completamente enganados. O
partido popular sem duvida ficará décima; 1.° porque tem o
talento de sua parte ; e segundo, porque o partido aristocrata
naõ tem a menor consideração entre o povo.
Esta nossa conjectura se corrobora com uma observação ; e
he, que no plano da revolução, como apparaceo no Porto, naõ
se admitte, nem a opinião daquelles, que recommendávam a
separação de Portugal do Brazil; nem se lembra o outro absurdo
caminho da sugeiçaõ a Castella ; que alguns alvitristas tinham
propalado.
Temos ja em outros N.°» precedentes, exposto o irracionavel
d'ambos estes partidos, que naõ tiveram seguito na revolução do
Porto; mas ainda assim, os aristocratas, faltando pela bocado
Dezembargo do Paço, em sua Representação, insistem em que
El Rey volte para Lisboa (o que sabem ser impossível nas con-
juncturas actuaes) ou que maude o Principe Real. Isto clara-
mente he lançar os fundamentos para futuras queixas ; e para
passar a confusão também ao Brazil: mas, nisto, outra vez se
acharão enganados os aristocratas, ainda que mandem o Conde
de Palmella ao Rio-de-Janeiro, para lá fomentar suas ideas ; por
que El Rey naõ pôde negligencear os interesses geraes e perma-
nentes da Monarchia, para attender ás vistas temporárias de
meiaduzia de famílias aristocratas, que, havendo por longo
t«mpo pizado a naçaõ, lhes parece agora que poderão também
P'*ar em El Rey. Sua Majestade terá sempre por si, como merece
' ** v o t o s da naçaõ ; o que se faz bem patente nesta mesma
revolução.
S*ja.»ns agora per,wittido fazer alguma eWrvaçaõ, sobre a
344 MiseelUmea

influencia, que terá no Brazil, a medida dos Governadores de


Portugal convocarem as Cortes daquelle Reyno, com a precipi-
tação, que fizeram, sem plano premeditado pelo Governo, e sem
vistas do interesse geral da Monarchia.
Se nas Côites de Portugal naõ entram Procuradores do Brazil,
El Rev será o Soberano de ambos os Reynos, mas elles seraõ os
os Reynos desunidos de Portugal e do Brazil; porquanto, uma
vez que as medidas políticas em Portugal dimanem de suas Cur-
ti s, e no Brazil só d"El Rey, he impossível que haja a unidade
de systema, sem a qual os dous Reynos só seraõ unidos de
nome.
Alem disto, os Brazilienses naõ poderão ver com olhos tran-
quillos, e sem natural ciúme, que seus con-vassallos em Portugal
tenham Curtes, e naõ as haja no Brazil. Ora o estado de in-
strucçaõ no Brazil está bem longe de lhe permittir, que tenham
lá Cortes como as de Portugal. Exemplo, a difflculdade, que
tem havido na America Hespanhola, de achar homens capazes de
formar governos btm organizados : todos se suppoem políticos;
todos arrostam com os negócios do Estado; e ninguém ou quasi
ninguém ha com assas conhecimentos da sciencia de Governo,
para dará devida direcçaõ aos negócios públicos.
Estas consideraçoens saõ da mais transcendente importância,
para a tranquillidade do Brazil. O exemplo de Portugal, e as
ideas do nosso século a favor das formas representativas de Go-
verno, devem necessariamente mover os espíritos no Brazil, que
naõ tendo, como fica dicto, assas fundamentos, caso adquira o
poder de obrar, só produzirá confusão e calamidades.
Parece-nos, logo, que o remédio devia ser a adopçaõ de medi-
das taes, que satisfazendo de algum modo a opinião geral, des-
sem aos povos instituiçoens constitucionaes moderadas, adapta-
das ao estado de civilização e instrucçaõ do paiz, deiiando a
sua desenvoluçaõ para o diante, seguindo os progressos da in-
strucçaõ do povo.
O Governo, e mais ninguém, pôde fazer isto; porque uma
vez que a reforma naõ seja iniciada e conduzida pelo mesmo Go-
verno, mas sim deixada aos accasos da commoçaõ, ninguém
Miseellauea 345

pode segurar a moderação, nem ainda prever os resultados, que


produzirá a confusão, no meio da concussaõ dos partidos, e das
desordens da anarchia.
Quando, porém, assim falíamos, sobre as medidas conveni-
entes, para conservar unidos os Reynos de Portugal e Brazil,
temos em vista o interesse de Portugal, e do Soberano, que o he
de ambos aquelles Estados; porque quanto ao Brazil, elle naõ
mais, nem tanto, necessita de Portugal, do que os Estados-
Unidos precisam da Inglaterra.
Portanto o Correio Braziliense deve ser propriamente enten-
dido, em seus desejos patrióticos, que naõ saõ de certo guiados
por prejuizos locaes. Se o Brazil nada precisa de Portugal, com
tudohe em sua honra, que seu Rey continue a sêllo também de
Portugal; assim desejáramos, que uma vez que os Governadores
de Portugal se portaram como se tem portado, e saõ convocadas
as Cortes, taes instituiçoens se adoptassem, que fossem favorá-
veis á verdadeira, e naõ nominal, uniaõ dos dous Reynos, e que
naõ causassem ciúmes de uma parte ou d'outra, para que assim
a uuiaõ fosse permanente.
Acabamos de ler em um escripto Portuguez, que a indepen-
dência de Portugal do Brazil, como estado separado, éra inadmis-
sível; porque " por sua posição e forças, comparativamente pe-
quenas, seria constantemente um boneco ou em maõs de um pro-
tector, ou de um rival." Esta proposição he a que temos de-
monstrado em alguns dos nossos N.os precedentes.
Do Brazil naõ se pôde dizer o mesmo ; mas ainda assim insis-
timos no grande decoro dessa uniaõ dos dous Reynos, e por
isso, e nnõ por prejuizos locaes, outra vez repetimos, desejaríamos
ver adoptadas taes instituiçoens políticas, que abrangessem os
interesses de ambos os Estados, e que assim os ligassem em um
só corpo politico, que se pudesse naõ só chamar, mas de facto
considerar, como Reyno Unido.
Quanto mais instituiçoens diversas se estabelecerem em am-
hos os Estados, quanto menor será sua uniaõ : a diversidade de
instituiçoens políticas, principalmente as essenciaes, naõ pôde
deixar de occasionar diversidade de character, de interesses e de
346 Miscellanea.
máximas ; e dous povos, ainda que sugeitos ao mesmo Soberano
colocados em taes circumstancias, he impossível que continuem
unidos por longo tempo.

A Juncta Provisória saio do Porto aos 14 do Septembro, dei-


xando ali três de seus Membros encarregados do Governo; e par-
tio para Coimbra, aonde se ajunctavam as tropas, que haviam
marchar sobre Lisboa. Achavam-se estas forças divididas em
dous exércitos, que, segundo as noticias do Porto se distribuíam
da maneira seguinte :—
Primeiro Exercito.
Commandante era chefe, Cabreira.
D." em Segundo, Sepulveda.
Infanteria; N.o»6; 1 1 ; 18; 22.
Cavallaria, parte do N.° 6, e 9.
Caçadores, N.° 6 ; 9 ; 13 ; 11.
Artilheria parte de N." 4.
Milícia do Districto.

Segundo Exercito.
Commandante em chefe, Gaspar Teixeira
D.° em Segundo, Lacerda.
Infanteria, N . o s 3 : 9 ; 1 2 ; 21 ; 23 ; 24
Cavallaria, parte de 2 ; 6 ; e 12.
Caçadores, 7 : 8 ; 12.
Artilheria, parte de N." 4.
Milícias da Beira.

Salinas de Setúbal.

A portaria dos Governadores de Portugal, que publicamos


a p. 220 prova indubitavelmente a ignorância dos princípios de
Economia Política, com que aquelles Senhores obram na imposi-
Miscellanea. 347

caõ dos direitos; pois ali confessam, que foi necessário a ex-
periência dos factos, para se desenganarem do mais obvio prin-
cipio nesta parte da legislação ; naõ souberam, que um pezado
imposto na exportação do sal fazia com que este producto do
território de Portugal naõ pudesse competir nos mercados
estrangeiros com o sal de outros paizes, senaõ quando
viram que ninguém ia a Setúbal comprar o sal, que se
podia ter mais barato em outros portos. Parece que só
quando a verdade he palpável estes cegos a conhecem ; as
luzes do entendimento, se as tivessem, lhes fariam conhecer
taes verdades, antes que se tocassem com os dedos da expe-
riência. Mas assim vai tudo, com qi?em naõ tem os princípios
tlieoreticos necessários, sendo a desgraça muitas vezes tal, que
quando a liçaõ da experiência chega, ja naõ ha lugar para o re-
médio, restando somente, um arrependimento infruetifero. Nós
até nos envergonhamos de referir o Leitor par o lugar do Correio
Braziliense, em que tam estrenuamente reprovamos aquella im-
politica imposição sobre o sal; porque he matéria tam sabida,
que nenhnm merecimento tem o politico, que tal absurdo aponta.
Diremos porém aqui, que apontando certo sugeito a D. Miguel
Forjaz (hoje por esses e outros que taes serviços Conde da
Feira) o que o Correio Braziliense dizia a respeito do sal; a res-
posta, que deo, foi esta: esse tolo e perverso do Correio Brazi-
liense naõ sabe o que diz: o Estado precisa rendas, para oceurrer
ás despezas necessárias, e essas rendas naõ se obtém sem tri-
butos."
Muito bem, Senhor Conde da Feira; saõ necessários os impos-
tos, mas o Ministro, que entende do seu ofticio, naõ os lança de
maneira, que destrua o mesmo artigo sobre que recáe a imposi-
ção ; porque com isso annihila aquelle ramo de industria na na-
çaõ, e torna de nenhum proveito a imposição.
Mas, se o Correio Braziliense éra o tolo ; para que se abolio
agora a imposição na exportação do sal ?
Quanto ao epitheto perverso, naõ he tempo agora de ajustar-
mos contas.
348 Miscellanea.
Exportação da casca de Sobreiro.
Como appendice i imposição de um tributo no sal, que ope-
rava como prohibiçaõ para sua exportação ; achamos a seguinte
prohibiçaõ, para que se naõ exporte a casca do sobreiro, no se-
guinte :—

Edictal pelo Conselho Fazenda.


A El Rey nosso Senhor foi presente, em Consulta do Conse-
lho da Fazenda de 30 de Agosto de 1819, a representação do
Procurador da Fazenda em que ponderava a ruiua, que se seguia
á conservação das matas e montados o excessivo corte de sobreiros
para descascar, assim como á industria nacional, na exportação
para fora destes Reynos da dieta casca, necessária para a labora-
çao das fabricas de curtumes. E Sua Majestade, tomando na
sua Real consideração o que na citada consulta foi ponderado ;
houve por bem, por sua immediata resolução de ciuco de Janei-
ro do corrente anno, declarar prohibida a exportação da dieta
casca de sobreiros para fora destes Reynos. E para constar, se
manda fazer publico por este modo, Lisboa 25 de Agosto de
1820.—D. Miguel Antônio de Mello—Joaquim Jozé de Souza.

Ja auounciauios em outros N.°» os entiávez, que se tinham


posto a este ramo da agricultura de Portugal. Naõ contentes
com isso, annihila-se agora inteiramente, prohibiudo a sua ex-
portação ; como se os recursos da industria Portugueza sobre-
pujassem tanto, que fosse preciso supprimir alguns de seus ra-
mos.
Entregue em taes maõs a prosperidade da Naçaõ, naõ éra pre-
ciso ser adivinhador para prognosticar o seu fim. Orahe preciso
conceder, que esta suppressaõ da industria, pela mais crassa
guorancia dos princípios de Economia Política, naõ tem nada
de commum com a residência d'EI Rey no Brazil, no que se tem
concentrado todas as queixas.
Miscellanea. 349

AMERICA HESPANHOLA.

As ultimas noticias, que temos de Venezuela, se contém nas


gazetas de Jamaica (Kingston Chronicle) de 30 de Julho ; que
dizem o seguinte:—
" Os Independentes, commandados por Montillo, estaõ de
posse de todo o reyno de Sancta Fé, excepto a cidade de Cartha-
gem, e parte da provincia de Sancta Martha; computa-se a sua
força a 2.600 homens, 400 dos quaes saõ Inglezes. O quartel
general de Montillo está em Turbaco, e a guarda avançada cou-
sa de 4 milhas distante daquella cidade. Brion está em Savanil-
la, a sua força consiste em um brigantim, e duas escunas, e de-
clarou Carthagena em bloqueio "
" A cidade de Carthagena tem sufficiente força para repellir
oa Independentes, se elles tiverem a temeridade de os atacar.
Ha naquella praça 1.600 homens de tropa regular; e consistem
•o regimento de Leon, parte do regimento de Valencia, e 300
artilheiros: os corpos de milícia e voluntários sobem a mais de
2.000 homens : as fortificaçoens estáõ em bom estado ; e estaõ-
se concertando os quartéis: tem mantimeutos e muniçoens suf-
flcientes para seis mezes. A casa da Inquisição serve de arma-
zém dos mantimeutos; e o Governador mandou, que todo o
habitante, qne se naõ pudesse prover de mantiinento para seis
mezes, saísse da cidade ; e em conseqüência ficou a população
reduzida,de 12.000 habitantes, que éra, a 5.000. Queimaram-
se todas as casas de madeira, situadas em uma ilha a Leste da ci-
dade, afimde prevenir, que os inimigos ali se pudessem alojar,"
" 0 Governador mandou o Capitão Belmonte, com bandeira
de tregoas, levando um officio ao Commandante em chefe do ex-
ercito independente, propondo-lhe, por ordem d'El Rey, uma
amnecua Peh> passado, e segurança aos officiaes, de que conser-
variam a soa graduação, no exercito Hespanhol, que presente-
mente tem no serviço dos Independentes. Montillo a brio a car-
ta, e aos 22 mandou a resposta por um official Inglez, dizendo,
Vot. XXV. No. 148 YY
3.">0 Miscellanea.

intentava citiar brevemente a cidade, e se escusava de responder


ás propostas feitas em nome d'EI Rey : mas que, se o Governa-
dor quisesse render a cidade, entaõ poderia tractar com as au-
thoridades, que se nomeassem para arranjar as disputas, entre a
America e a Metrópole."
A p. 327 deixamos copiada a carta do Governador de Cartha-
gena ao General Bolívar. A bandeira de tregoas chegou a Bar-
ranquilla, quartel general de Montillo, aos 26 de Julho. Bolí-
var parece que accedeo á proposição do armistício, porém ac-
crescentou, que se havia intenção de offerecer quaes quer ter-
mos, que naõ incluíssem o completo reconhecimento da indepen-
dência de Columbia, naõ seriam taes termos attendidos. Reque-
reo uma resposta cathegorica a este ponto, do contrario começa-
ria as hostilidades em oito dias.
Estas proposiçoens, do Governador de Carthagena, concordam
exactamente com as do General Morillo ao Congresso de Colum-
bia, que deixamos copiadas a p . 2 3 1 ; e a resposta do General
Bolívar he nos mesmos termos, que a do Congresso, como o
Leitor verá a p. 234.
He claro, pois, que a independência da America, he ainda
a determinada resolução daquelles Americanos Hespanhoes ; e
se a moderação das offertas da Hespanha naõ os induzio a mudar
de desejos, naõ vemos que haja forças com que elles se obriguem
á sugeiçaõ.
A p. 330 damos também o extracto de uma carta do Almiran-
te Brion, em que se referem algumas das operaçoens de guerra
daquelle paiz,
De Buenos-Ayres se diz, que igualmente recusaram, naõ ob-
stante o estado de anarchia daquellas provincias, as proposiço-
ens de Hespanha, concordando todos os partidos oppostos; no
principio commum de serem independentes.
Miscellanea. 351

Extraeto de uma curta de Buenos-Ayres, datada de \6


de Junho

"O estado politico deste paiz parece catarem tanta duvida co-
mo o de Hespanha. Alvear e Carrera estaõ juncto a Sancta Fé,
mas naõ se sabe exactamente as forças que tem com sigo, prova-
velmente naõ excedem 1.000 ou 1.200 homens. Se elles forem
auxiliados, como se diz, pelo chefe Ilamirez, Governador de
Entre-Rios ; e Lopez, Governodor de Sancta Fé, sem duvida te-
raõ ja começado a sua tentativa contra esta cidade, para pór
Alvear á testa do Governo ; porque Carrera deve ter neste lugar
pessoa, que lhe seja completamente fiel, antes que tente realizar
suas vistas em Chili. Mas todos estes planos saõ presentemente
frustrados por Aitigas, que atacou e derrotou uma partida de
400 homens das tropas de Ramirez, em Entre-Rios, e apossou-
se do Arroio de Ia China ; depois marchou para a jurisdicçaõ de
Comentes, para onde se diz que partira também Ramirez com
um corpo de tropas. Suppoem-se que se for bem suecedido
annihilará Artigas. Estas duas provincias estaõ no estado de
aoarchia e confusão. O porto de Baxada de Sancta Fé está fe-
chado, e naõ se permitte a nenhum vaso passar o rio dali para
baixo."
" Aqui estamos ainda quietos, mas todos esperam mudança.
Eu inclino-me a crer que Alvear virá a ser o Governador neste
lugar; porque tem grande partido a seu favor."
Aos 20 de Junho morreo o General D. Manuel Belgrano em
Buenos-Ayres. Aos 23 entrou o General Sole nas funcçoens de
Governador e Capitão Ceueral daquella provincia ; havendo sido
previamente proclamado ein Luxan, pelas tropas, que ali com-
mandava, e algumas milícias. Naõ houve nisto distúrbios.
Alvear, q ue he o seu competidor estava com suas tropas no inte-
rior.
Sentimos naõ poder dar a integra da convenção entre a Corte
Ri-de-Janeiro, e o Governo de Buenos-Ayres; deixamos
Porem copiados a p. 228 os artigos mais importantes, e na ordem
352 Miscellanea.

por que foram discutidos no Congresso na sessaõ de 10 de De-


zembro, 1817.
Este documeuto prova a todas as luzes, que as vistas do Ga-
binete do Brazil, naõ eraai de fazer conquistas, mas de segurar
suas provincias; que naõ desejava hostilidades, mas sim uni-
camente obrar na defensiva, e ser neutral; reservando-se somen-
te o caso, em que Hespanha, declaiando-se aggressora, quizesse
atacar a neutralidade do Brazil.

ALEMANHA.

Deixamos copiada a p. 225 a nota, que o Principe Metternich


dirigio, em nome do Imperador seu amo, ao Ministro de Baden,
e que temos razaõ de suppôr fosse circular, a todos os Priiicipes
da Confederação Germânica. Dizem que ha outras duas nulas
do mesmo Gabinete, sobre os negócios de Napoies ; uma dirigi-
da ás Grandes Potências Aluadas, outra aos Soberanos da Itá-
lia,
Assevéra-se, que o Gabinette Austriaco despachou, no 1."
de Septembro, uma • nota official ao Gabinete de Napoies, em
que explica o motivo de ajunctar suas tropas, e annuncia, que,
nesta medida, naõ se propõem a mais do que a manter a tran-
quillidade das provincias Austríacas, e a paz da Península.
He claro, que este tom de fallar he mui differente doque o
Gabinete Austriaco usou ao principio da revolução de Hespanha
e de Napoies ; e he provável, que para isto influísse a declaração
de Rússia, que mencionaremos ao depois : devendo advertir-se,
que também essa declaração Russiana he em tom bem differente
da primeira nota, que se dirigio ao Cavalheiro Zea.
Mas, alem da opinião de Uussia, a Áustria tem outro motivo
para se naõ ingerir por agora na revolução de Napoies ; e he, o
estado de fermentação, em que se acham as mesmas piovincias
Austríacas, de que he preciso cuidar, antes de entrar em uma
guena contra o presente Governo de Napoies.
Miscellanea. 353

Por noticias de Vienna de 6 de Septembro se diz, que ha um


grande espirito de revolta nas provincias de Lombardia e Veneza.
Nos Estados do Papa se interceptai um cartas, pelas quaes se
veio uo conhecimento de que o partido üos Carbonuri tem entra-
do no plano de revolucionar toda a Itália, uo case de uma guerra
com a Áustria: assim o Gabinete de Vienua está informado, de
que o menor revez de fortuna, n'uma guerra contra Nápoles,
daria azo a uma sublevaçaõ geral em seus dominios Italianos.
Naõ obstante tudo isto o novo Embaixador de Napoies, o Du-
que de Gallo, que se dirigia a Vienna, teve ordem em Clagen-
furth, aonde se achava, de despejar os Estados Austríacos.
As tropas Austríacas estaõ ja de posse das cidades de Bolo-
nha, e Commachio, no território do Papa; e no entanto um ar-
tigo de Vienna de 20 de Agosto diz, que o Governo Austriaco
recebera de duas das Cortes Aluadas a declaração de haverem
determinado naõ reconhecer nem a Constituição nem o novo sys-
tema adoptado pelo reyno de Napoies ; mas julgamos, que esta
resolução he anterior á que agora apparece de naõ se ingerirem
as potências, nos negócios internos das outras.
O Baraõ de Frimont, que éra o Commandante em chefe, nas
provincias Venezianas, foi nomeado para o commando supremo
do exercito da Itália ; cuja lista o faz subir a 72.678 homens de
infanteria, 5.831 de cavallaria, e 2.000 de artilheria.
0 temor, porém, de commoçoens, nas provincias Austríacas
da Itália, se mostra bem pelo seguinte :—

Em Vc.ieza se affixou a seguinte proclamaçaõ.

A seita dos Carbonari, que se tem espalhado nos paizes vi-


zinhos, tem trabalhado por fazer prosely tas nos Estados de Sua
Majestade o Imperador e Rey. As pesquizas sobre este ponto
tem conduzido á descuberta das vistas tam perigosas como cri-
minosas daquella associação, que seus chefes naõ revelam a to-
nos os membros de sua confederação. Por expressa ordem de
334 Miscellanea.

Sua Majestade se fazem publicas estas vistas, a fim de que todas


os seus subditos se considerem admoestados. O preciso objecto
a que tende a Uniaõ dos Carbonari, he o transtorno e destruição
dos Governos. Como os que se tem associado na causa dos
carbonari, ainda que na» conhecessem os seus fins, se tem feito
culpados do crime de alta traição, segundo o código pena); e
como aquelles que naõ tem impedido o progresso daquella socie-
dade, ou que tem deixado de denunciar seus membros, se fazem
cúmplices do dicto crime, desde o dia da publicação desta»
ninguém poderá alegar ignorância dos desígnios dos Carbonari,
como pretexto de justificação. Em conseqüência, todos os que
se alistarem nesta sociedede, ou que deixarem de impedir seus
progressos, ou de denunciar seus membros, seraõ daqui era di-
ante processados, segundo as formas estabelecidas pelas leys.

(Assignado) O Governador, CARLOS, Conde d'Inzaghi.


O Vice Presidente, CARLOS, Marquez del-
Magne.

Veneza 25 de Agosto, 1820.


(Similhante proclamaçaõ se publicou em Milan.)

FRANÇA.

A conspiração em Paris, que annunciamos no nosso N.° pas-


sado, se diz agora ter sido um plano, para chamar ás armas as
tropas, durante a noite, dizer-lhes que El Rey tinha morrido, e
proclamar o filho de Bonaparte, atacando o Palácio das Thuilbe-
rias, e a Família Real. O Moniteur observa, que por alguns
dias antes se tinha espalhado o rumor da morte d'El Rey, em
Mentz, Lyons, Bourdeaux e outros lugares. Foi somente na
noile de 19 do mez passado, que o Governo soube de todo o pro-
jecto, e se mandaram prender os conjurados. Foram prezo»
Miscellanea. 355

nessa noite 24: a saber, 4 officiaes da Legiaõ de Ia Meurthe;


13 da Legiaõ do Norte ; 5 do Segundo Regimento das Guardas ;
e 2 da Legiaõ do Baixo Rheno. Um capitão Nantel, que se diz
ser o chefe dos conspirados da Legiaõ de Meurthe, fugio : sub-
seqüentemente prenderam-se mais sette, incluindo um Tenente
Coronel, a meio soldo, e outros quatro officiaes da Legiaõ de
La Meurthe. Fugio também outro official, contra quem havia
ordem de prizaõ. Em Cambraia vários da Legiaõ de La Seine
formaram o projecto de levar a Legiaõ a Paris, para ajudar a in-
surreição. Ja se disse, que nove destes officiaes fugiram, sa-
bendo que a conspiração estava descuberta. Outros três foram
prezos. Expediram-se também ordens de prizaõ contra um Te-
nente General a meio soldo, e um capitão reformado, que eram
accusados de passar varias vezes de Paris a Cambraya, como
iim de seduzir os officiaes da Legiaõ de La Seine. O capitão foi
prezo em Cambraya, porém o Tenente Coronel fugio. Outro
Tenente Coronel a meio soldo foi prezo em Epinal. A Legiaõ de
La Seine marchou de Paris para Avesnes, aonde vários officiaes
da mesma, que haviam sido seduzidos foram prezos. O Moni-
teur, donde copiamos isto, conclue referindo os modos porque a
conspiração se veio a descubrir, e enumerando os corpos, que se
mostraram ávidos em manifestar sua affeiçaõ a El Rey, e á pá-
tria.
Nós porém naõ podemos lèr estas relaçoens, na gazeta official,
sem concluirmos daqui a existência de um fermento no exercito
de França, que he impossível desconhecer.
0 Gineral Coutard, commandante de 13.» Divisão Militar, e
M. de Chanlieu, Prefeito de Finesterre, chegaram a Brest aos
30 de Agosto. No dia seguinte expediram uma ordem, para
que os cidadãos, que formavam parte da Guarda Nacional, des-
bandada por uma ordenança d'El Rey, entregassem as suas ar-
mas na municipalidade; e dirigiram também uma longa procla-
m
»çaõ aos habitantes, promettendo, em nome d'El Rey, uma
«mnestiapelo passado, e ameaçando a maior severidade, em caso
de repetição de desordem.
350 Miscellanea.

HLSPAMIA.

Os negócios politicos da Hespanha continuam em marcha


Tegular, a pezar da complicada e extensa esphera de operaço-
ens, que naturalmente occupa a attençaõ do Governo e das Cor-
tes. Porém no meio disto ha um incidente, que merece obser-
vação particular; porque he urna prova do perigo, que ha, na
ingerência da força armada, na administração política de qual-
quer naçaõ.
O exercito, que se achava na Islã de Leon, foi o que fez
arrebentar em Hespanha a revolução, que a serie de circum-
stancias tinha por alguns annos preparado na Hespanha; mas
a conservação deste exercito, como corpo distincto, e com os
mesmos officiaes, dava occasiaõ a recear, que, se occurresse
de novo alguma occasiaõ de perturbação, esse mesmo exercito
se acharia disposto a querer dictar ao Governo, as medidas,
que se deveriam seguir. Com estas consideraçoens de prudên-
cia, resolveo o Governo Hespanhol dissolver aquelle corpo.
Expedio-se uma ordem, nomeando o General Riego, para
Capitão General da Galliza, e dissolvendo o exercito de obser-
vação, que estava na Islã, debaixo do seu commando. Esta
medida produzio as Representaçoens, da parte deste exercito,
que deixamos copiadas a p. 2 5 8 ; e que saõ importantíssimas,
pelo estranho predicamenlo, em que deixavam o Governo Hes-
panhol : o qual se disse, que julgaria prudente revogar a ordem,
e mandar que ficasse em pé aquelle corpo de tropas, que assim
dictava a seu Governo.
Com tudo o Governo insistio na nomeação de Riego para Ca-
pitão General da Galliza, e elle foi ter a Madrid, para se op-
pòr a estas medidas : o que fez até ao ponto de querer produzir
comnioçoens populares no theatro. O Governo, poiéni, o man-
dou positivamente retirar para Oviedo, lugar de seu nascimento,
e privado de suas honras militares. Alem disto, nooutrodia a-»
Miscellanea. 357
Cortes decretaram, por uma grande maioridade, a sirpprfssar»
da licenciosidade nas sociedades patrióticas.
0 Governo mandou também para Zamora o Coronel S. Mi-
guel, ajudante d'ordens do General Riego, e author du pro-
clamaçaõ do General. O General Velasco, Governador de Ma-
drid foi mandado para Valladolid. Manzanaros Coronel d'Ar-
tilheria, foi para Catalunha ; e o Capitão Nunes paia S'. Sebas-
tião.
Riego, alem dos documentos, que copiamos a p. 258, pu-
blicou também um papel; como esboço de uma falia, que pre-
tendia fazer nas Cortes; porem he evidente, que quanto mais
este official se empenhasse em contrariar as ordens do Governo
tanto mais mostrava a necessidade de se desbundar o corpo, que el-
le commandava. Nas Cortes muiios membros louvaram os passa-
dos serviços de Riego, mas todos conviéram no perigoso exem-
plo, que dava esta sua insubordinação.
Uma das queixas deste exercito, ou de seu commandante, éra,
que ainda se naõ tinham castigado os authores da matança de
Cadiz, aos dez de Março; nem os deputados, que protestaram
contra as Cortes em 1814. Estas queixas, naõ se limitam aquel-
le exercito somente.
Na sessaõ das Côites de 29 de Agosto, Valdillo, Deputado de
Cadiz, observou o anxioso desjo, que o Congresso Nacional
de Hespanha mostrava, para saber o estado do processo, instituí-
do contra os perpetradores da matança de Cadiz; como represen-
tante daquella cidade, com as vistas de satisfazer a curiosidade
publica, leo um relatório impresso do Coronel Gaspar Hermosa,
encarregado da preparação, em que se dizia, que o processo
summario estava quasi acabado, e que em breve se faria conclu-
so para a sentença.
Este relatório deixamos copiado a p. 264.
Na eessaõ do mesmo dia se fizeram três importantes proposi-
çoens, pelo Deputados Flores Estrada, Quiroga, e Palarea.efô-
nun submettidas ao segundo Committé de Legislação ;—Ia. Q u e
»»Cortes procedessem a tomar as resoluçoens necessárias, a fim

V o i . X X V . N - . 148. ir.
358 Miscellanea.
de que o Governo seui demora pudesse ordenar o castigo daque-
les, que tomaram parte directa na destruição do Código Nacional.
2 a Que as Cortes fizessem arranjamentos, a fim de que o Com-
mitté encarregado dos procedimentos contra 69 Deputados, cha-
mados Persas, e que assignâram a representação ao Rey em
em 1814, apresente o seu relatório, dentro de um período espe-
cificado. 3 . a Que os Secretários do Governo apresentem sema-
nalmente ao Congresso uni relatório sobre os negócios de Cadiz.
C,aiagoça Burgos e Galliza.
Na sessaõ de 9 de Septembro, o Ministro de Justiça entregou
ás Cortes, três petiçoens, que achara nos archivos de suaSecre-
taria, e tinham sido apresentadas a El Rey por três dos Depu-
tados chamados Persas (os que apresentaram a El Rey o protes-
to contra as Cortes cm 1814) e nestas petiçoens cada um dos
taes Persas solicitava, como prêmio de seu zelo, um beneficio
ecciesiastico: observou-se, que os requerentes preferiam os
Cabidos de Toledo e outros mais pingues. Os documentos fo-
ram remettidos á commissaõ relativa aos Persas.
Naõ temos lugar de mencionar o grande numero de providen-
cias, que as Cortes tem adoptado; porém lembraremos as se-
guintes como as mais notáveis.
Expedio-se um decreto, restabelecendo varias providencias
das antigas Cortes, pelas quaes varias prebendas, e outros bene-
fícios simples ecclesiasticos se applicarara ás necessidades do
Estado; assim como a abolição da tortura, e outros muitos re-
gulamentos importantes.
Também se mandou uma circular a todos os Governadores das
Provincias Ultramarinas, ordenando-lhes, que remettessem im-
mediatamente relatórios das suas respectivas provincias, especi-
ficando o estado de cada uma, para que o Governo possa formar
idea exactadas opinioens, que ali existem.
A fira de abolir mais efficazmente a Inquisição, mandou-se
venderem hasta publica a propriedade daquelle estabelicimento,
começando pelo sumptuoso palauo do Inquisidor Geral em Ma-
drid ; e do outro em que se faziam as sessoens do Tribunal, «
Miscellanea. aoy

continha os cárceres secretos, com varias casas, situadas na


capital. O producto destas vendas será applicado a pagar a di-
vida nacional.
El Rey approvou o decreto das Cortes, pelo qual se determi-
nou a expulsão dos Jezuitas, e o restabelicimento dos Conegos
de Sancto Isodoro, no Convento, que aquelles occupavam.
Na sessaõ de 30, o Deputado Jener fez a seguinte proposi-
ção:
" Propotiho que as Cortes convidem El Rey, para que dê o
patriótico exemplo de não tiazer outros vestidos, para seu uso,
senaõ os de manufàciuias nacionaes, e de naõ usar de produc-
çoens estrangeiras, senão nos casos indispensáveis, e quando
cousa nenhuma similhante se fabrique entre nós : que S. M. or-
denes todas as pessoas de Palácio, que se conformem com este
convite; e que esta seja uma regra invariável no exercito. Pro-
ponho, alem disto, que os Deputados obrem segundo o mesmo
principio."
Quanto a esta proposição do Deputado Jener, estamos be ra
longe de lhe dar approvaçaõ .- he ella o resultado de prejuizos
antigos, e bem contraria aos princípios de Economia Política,
que hoje illuiniuam o mundo; mas ao mesmo tempo deve con-
fessar-se, que tal prejuízo, a favor do monopólio das fabricas
nacionaes, naõ he peculiar a Hespanha.

INGI.ATKRRA.

A fragata Creola; que conduzia Lisboa o Conde de Palmella,


tem deficarnaquella paragem ; e para ao barrado Tejo partiram
dePorUmouth.aos 14, a fragata Active,Cap. Sir J.A. Gordon :
a fragata Liffey, cap. Honorable Duncan. Outros navios se
estaõ preparando para o mesmo destino, de maneira que a esqua-
dra Ingleza destinada a obrar nas costas de Portugal será tom
posta dos seguintes vasos:—
360 Miscellanea.
Corqueror, de 74 peças, Cap. Stanfell: Minden, de 74,
Cap. Patterson: Lifley, de 50, Cap. Honr.—Duncan: Active
46, cap. Sir J. A. Gordon ; Creole, 42, Cap. A Mackenzie.
Cartas de Corfu annunciam, que se descubrira era Zante uma
conspiração contra o Governo Inglez nas Ilhas Ionias.

NÁPOLES.

Por noticias de Napoies de 20 de Agosto se diz, que as nego-


ciaçoens com a Deputaçaõ de Palermo se tinham rompido, e os
membros voltado para a Sicilia, á excepçaõ dos Príncipes de
S. Marco e Partellaria, que ficaram em Napoies, temendo-se do
furor popular em Palermo.
Em conseqüência desta ruptura das negociaçoens, continuou
a guerra civil em Sicilia, sendo a cidade de Palermo a capital
o partido, que deseja fazer a Sicilia independente de Napoies, e
Messina a capital do outro partido, que he pela continuação da
uniaõ daquelles dous Estados.
A Juncta da Segurança Publica em Palermo dirigio, aos 24
de Julho, uma circular a todas as Municipalidades de Sicilia,
urgindo-as a perseverar no plano de fazer aquella Ilha indepen-
dente de Napoies, e mandar cada uma seu Deputado a Palermo,
em ordem a formar uma Câmara independeneente do Governo
Napolitano. A cidade de Messina naquella epocha, éra o prin-
cipal lugar dailha, aonde éra reconhecido o Governo Napolita no
Em Napoies se publicou uma longa proclamaçaõ á Naçaõ Bri-
tannica, conjurando-a a que supportassea revolução Napolitana.
Isto saõ, nem mais nem menos, palavras atiradas ao vento.
No entanto os dous partidos contendentes em Sicilia vieram
as maõs, juncto ao monte Babaurra, aonde houve uma renhida
batalha, depois da qual foi tomada Caltanasetta. Esta cidade
e porto tinha sido primeiro tomada pelo partido Palermitano;
depois retomada pelos habitantes ; e ultimamente tornada a ga-
Miscellanea. 361

nhar pelos primeiros, que commetteram grande carniceria na


cidade.
A Juncta de Palermo, em uma proclamaçaõ, de 14 de Agosto,
declarou que as suas intençoens eram, a completa separação do
Governo Napolitano. Depois dividio a ilha em quatro districtos
militares. Palermo, Girgenti, Messina, e Siracusa; determi-
nando armar em cada uma destas provincias a população, na
proporção de dous homens, por cada cem almas.
0 General Austriaco, Nugent, que commandava o exercito
Napolitano, ao tempo da Revolução, escapou-se de Napol»
para Malta: depois foi ter a Liorne, em uma escuna Ingleza. s

RÚSSIA.

Noticias recebidas, por varias partes, concordam em dizer,


que o Gabinete Russiano mudou suas intençoens a respeito da
revolução de Hespanha; e se assevera que o Imperador mandara
entregarão Ministro Hespanhol outra nota, differente em sub
stancia, da primeira communicada ao Cavalheiro Zea ; nesta de-
clara o Imperador, que está tam longe de querer ingerir-se nos
negócios internos de qualquer naçau independente, que seudo
El Rey de Hespanha membro da Sancta Aliiança, tem justo
direito a seus invariáveis bons desejos. O Imperador acrescen-
ta, que verá com satisfacçaõ as ulteriores desenvoluçoensda. or-
dem de cousas estabelecida na Hespanha; e que tudo quanto
pode contribuir á felicidade da naçaõ Hespanhola lhe excitará
sempre o mais vivo interesse.
Um artigo de Bruxellas de 12 de Septembro, referindo-se a
'nforroaçoeiis de Frankfort em data de 7, dá a importante noti-
«•a. de que o Baraõ d'Anstett, Ministro Plenipotenciario de
Rússia, na Dieta AlemaS, fizera uma declaração para o seguin-
tefim;—
362 Miscellanea

" O Imperador de Rússia naõ reconhece em Potência alguma


o direito de se ingerir nos negócios de outros Estados, com a
causa de inovaçoens introduzidas no governo desses Estados. S.
. Imperial declara, que na sua próxima entrevista com seu al-
liado, o Imperador de Áustria, está bem longe de ter por ob-
jecto o concertar medidas ou meios, tendentes a reprimir a nova
ordem de cousas na Hespanha ou Nápoles."
Um artigo de Warsovia, de 4 Septembro diz o seguinte:—
" Circulam aqui, neste momento, novidades políticas da
mais alta importância, para o systema da Europa. Falla-sede
um novo projecto, para o restabelicimento do Reyno de Polônia.
Affirma-se, que ja se começaram negociaçoens, que interessam
todos os Polacos, entre as Cortes de Rússia, Áustria e Prússia.
Se ellas concordarem no restabelicimento do Reyno da Poloi ia,
em toda a sua integridade, este Estado pôde ainda tornar a pre-
encher na Europa o objecto, a que parece particularmente des-
tinado, por sua posição geographica. Virá a ser outra vez uni
importante pezo na balança da Europa ; e o importante anteuiu-
ral do Norte.

TURQUIA.

As hostilidades do Pacha de Joanina contra a Porta tem con-


tinuado, sem que apparêça vantagem decidida de nenhuma das
partes. Os destiladeiros de Titola paia o território de Joannína
estaõ ainda occupudus pelas tropas de Ali Racha, mas a cidade
de Tilolu rendeo-se ás tropas do Sultaõ. O Castello de I.epan-
to também está na posse do Gram Senhor, e a guarniçaõ consta,
de 200ü Albanezes que A li Pacha ali tinha posto, abiio as portas
as tropas do Gram Sultaõ.
CORREIO BRAZILIENSE
DE OUTUBRO 1820.

Na quarta parte nova os campos ára;


E se mais mundo houvera lá chegara.
CAMOESS, (.'. vn. e 14.

POLÍTICA.

HEYNOUNinO DE PORTUGAL, BRAZIL»; S ALGARVES.

Caria dos Governadores do Reuno ú Juncta Suprema do


Porto.

Os Goternadores do Reyno á Juncta que se formou na


Cidade do Porto, e se intitula Suprema do Reyno.

Oi Governadores do Reyno, considerando que o dever


mais sagrado, que lhes foi imposto pelo nosso Augusto
Soberano, he o de manter a paz entre os habitantes deste
Reyno, e de preservar illesa a unidade da coroa, assim
corooa independência da Monarchia, usaram dos pode-
res extraordinários, que> lhes saõ confiados por El Rey
Nosso Senhor, para casos urgentes, e interpretando os
seus pateraaes sentimentos, resolveram, em seu Real
VOL. XXV. N.« 148. :iA
364 Política.
nome, convocar as Cortes, que deverão ajuuctar-se em
Lisboa a 15 de Novembro do presente anno.
He hoje o dia em que se expedem a todas as Câmaras
do Reyno as cartas de chamamento paia a eleição dos
seus respectivos procuradores, conforme os usos, e cos-
tumes da naçaõ: seja pois hoje o fausto dia da concórdia,
para todos os coraçoens Portuguezes. Os Governadores
do Reyno comprehendem nos seus puros desejos, e nas
suas esperanças bem fundadas, a mesma Juncta, que se
acha estabelecida na Cidade do Porto, e naõ hesitam em
lhe dirigir, assim como a todas as mais classes, e indiví-
duos da naçaõ Portugueza, palavras de conciliação.
Esqueçam para sempre as accusaçoens, as recrimina-
çoeris, e os erros, que, voluntariamente, ou naõ, possam
haver-se commettido, e comece unia nova éra de harmo-
nia, e de mutua confiança, pelo enlace, que existirá entre
o Soberano, e os procuradores da naçaõ, em seu Real
nome legitimamente convocados.
Possuídos de taes sentimentos, naõ podem deixar os
Governadores do Reyno de repetir o que ja solernneinen-
te annunciàram, declarando, que naõ deverão recear,
nem ódios, nem vinganças, nem castigos, por motivo
dos últimos acontecimentos políticos, os Portuguezes, de
qualquer classe que sejam, que ouvirem a voz doGoverno,
e se reunirem logo a este centro legitimo, e commum.
Ao receber a primeira noticia dos acontecimentos do
dia 24 de Agosto, da cidade do Porto, os Governadores
do Reyno naõ poderam deixar de qualificar com severida-
de a conducta de militares, que rompiam os vínculos da
disciplina, e de uma Juncta, que, elegendo-se a si mesma,
sem observar nem apparencias de legalidade, sem poderes
emanados de El Rey, sem missaõ alguma conhecida dos
povos, se intitulava Governo Supremo do Reyno, e se
arrogava até mesmo o direito de convocar Cortes. Porém
3Si
Política.
ao mesmo passo que os Governadores do Reyno censura-
ram como o deviam fazer,actos tam illegaes.e imprudentes,
naõ deixaram de conhecer que a maior parto, e talveí
mesmo todos os indivíduos, que assim se compromettiam,
poderiam ser a isso movidos, ou por huma nimia exalta-
ção de sentimentos, alias putos, ou por astuciosas intrigas
estranhas, que elles mesmos desconheciam. Por isso tomou
o Governo a única resolução, que podia salvar a pátria dos
horrores de uma guerra civil, e convocou effectivamente
Cortes, as quaes recebem dos representantes do Soberano
um character de legalidade, que nunca poderiam ter
aquellas, que foram annunciadas pela Juncta do Porto.
Vós sois Portuguezes; e este titulo glorioso, que vos
pertence.basta para affiançar que naõ cabe em vossos pei-
tos a falsidade, nem a dissimulação: sede pois fieis às
vossas próprias declaraçoens, e coherentes com vós mes-
mos: vós proclamastes a Santa Religião Cath olica Ro-
mana ; todox nós a temos gravada nos nossos coraçoens:
proclamastes o Augusto Soberano que nos rege, e a sua
dynastia; toda a naçaõ o reconhece, e está inabalável
nestes sentimentos de lealdade; as Cortes, ellas já se
acham convocadas em nome do Soberano: a Constitui-
ção; esta mesma convocação vo-la assegura, fundada nas
leys primordiaes desta Monarchia, que regeram os nossos
maiores, na epocha da sua prosperidade, e dos seus tri-
unfos. Se isto pois, que vós proclamastes, he só o que
sinceramente quereis, nada mais resta já a desejar; e só
feita agora, que, desprendendo-vos de uma authoridade,
que exerceis sem titulo algum legal, e, desde agora, atê
sem pretexto algum, deis, ao mundo, e â posteridade,
uma prova evidente de que naõ sois movidos por paixo-
ens oceultas, nem ambiciosas; de que as vossas declara-
çoens foram sinceras, e de que naõ quereis expor o Rey-
no ao perigo, que resultaria da prolongaçaõ de uma con-
366 Política.

tenda entre as suas provincias, nem abrir caminho a que


as Naçoens Estrangeiras, que sempre haõ de respeitar a
nossa independência, em quanto estivermos unidos, inten-
tem prevalecer-se das nossas divisoens. Olhai que naõ
ha tempo a perder para pararmos á borda do precipício•"
já os cidadãos se acham armados, em opposiçaõ uns aos
outros; os Commandantes das Tropas, que vos estaõ su-
jeitas, ameaçam as cidades e villas da perda dos seus foros
e privilégios; ameaçam os officiaese soldados, que senaõ
unirem a elles, de serem julgados e castigados como
traidores !—Um so passo mais, eis-uos mimei sos na guer-
ra civil, inundados do sangue dos nossos Irmaõs, ame-
açados de uma série de revoluçoens, que só teraõ fim
com a dissolução da Monarchia.
A vós, e unicamente a vós, seraõ imputaveis tama-
nhos males; sobre vós pezará, alè á Posteridade mais re-
mota, tam enorme responsabilidade, se naõ ouvirdes as
vozes, que hoje vos dirigem os Governadores do Reyno.
Elles naõ tam outra ambição mais do que a de salvar a
Naçaõ, e de assegurar a sua felicidade, nem se recusa-
rão a admittir representaçoens algumas, que possam con-
duzir a tam impoitante, e desejado fim; e esperam que a
Providencia, abençoando os seus esforços, apressará o
dia venturoso, e por elles especialmente apetecido, em
que possam restituir nas Reaes Maõs do nosso Soberano
o sagrado e importante deposito que lhes confiou.
Lisboa no Palácio do Governo, em 9 de Septembro de
1820.
CARDEAL PATRIARCHA.
M A R Q U E Z DE B O R E A .
CONDE DE PENICHE.
C O N D E DA F E I R A .
ANTÔNIO GOMES RIBEIRO.
Política. 3671

proclamaçaõ da Juncta Provisória no Porto, em respos-


ta â dos Governadores do Reyno em Lisboa.

Povo Portuguez!—A Juncta Provisória do Governo


Supremo agora mais que nunca tem necessidade de fal-
lar-vos com sinceridade e franqueza, que cumpre a ho-
mens honrados e a bons Portuguezes.
Ella naõ precisa de justificar perante vós os motivos
das suas resoluçoens, e dos assíduos trabalhos, que tem
emprehendido, com o mais sublime enthusiasmo, e con-
stância, pela vossa causa, e pela salvação da nossa amada
Pátria: a pureza de nossas intençoens, a regularidade de
seus procedimentos, a firmeza invencível em sustentar e
cumprir suas promessas, e o incessante desvelo, com que
se tem empregado em levar ao fim o grande edifício
organização publica, devem ser-vos conhecidos pelos pa-
peis, pelos factos, e pelo testemunho dos numerosos po-
vos, que mais de perto observam suas operaçoens.
Os Governadores de Lisboa no dia 26 de Agosto foram
informados do acontecido nas Provincias do Norte, e do
ardente enthusiasmo, que rapidamente se Ia propagando,
ficaram ainda por mais três dias indifferentes observa-
dores da opinião publica, e dos effeitos de nossos cla-
mores: e só quando puderam saber, que os dous Gene-
raes de Traz-os-montes e Beira se haviam ligado entre si,
para reprimir o espirito nacional tam altamente pronun-
ciado, para agrilhoar mais os povos, e para os conservar
na extrema abjecçaõ e miséria, a que tinham chegado,
h
e que levantaram a vóz da sua até entaõ adormecida fi-
delidade, e se lembraram de proclamar, que um milhaõ
de Portuguezes, que desejavam ser felizes, eram rebeldes
368 Política.
ao seu Rey: que uma Juncta, que apoiava e promovia
tam incontestável direito éra intrusa: que os seus úteis e
gloriosos trabalhos eram um transtorno da ordem publica:
que as Cortes somente podiam ser convocadas por El
Rey: e que toda a naçaõ devia esperar em silencio provi-
dencias tantas vezes requeridas e promettidas, e outras
tantas vezes denegadas aos nossos votos e aos nossos bra-
dos.
Naõ pudemos suppôr, que os Governadores de Lisboa
intentassem, com tam absurdos princípios e capciosas
frazes, desunir os Portuguezes, armállos uns contra os
outros, e accumular aos nossos males o mal extremo da
guerra civil. Elles saõ homens, e em peitos humanos
naõ cabe tam negro e vil projecto. Mas, esta seria por
certo a inevitável conseqüência de suas temerárias expres-
soens, se nos ânimos Portuguezes naõ faltassem mais alto
as vozes sagradas da natureza, da religião, do patriotis-
mo, e da nobre e bem regulada liberdade.
A Juncta do Governo Supremo naõ se assustou com
esta capciosa medida dos Governadores de Lisboa; por-
que conhece os vossos coraçoens, e está 6rme em seus
princípios. Ella naõ he rebelde ao seu Rey; porque o
ama, e tem jurado firmar e manter a independência e
gloria do seu throno, que os Governadores do Reyno des-
lustravam, por sua administração inepta, e deixavam
minar por odiosos partidos. Ella naõ he intrusa; por-
que foi estabelecida pelo voto unanime de um povo nume-
roso, que quiz subtrahir-se â sua ultima e ja quasi inevi-
tável ruina. Ella naõ transtorna a ordem publica, antes
a quer restituir.
Ella.... mas que necessidade ha de expor-vos o que
vós sabeis ou tendes observado ?
A Juncta proseguirá firme em seu caminho, e vósja
Política. 369

tendes visto os mais felizes effeitos de sua constância he-


róica e inexpugnável. As bravas tropas de Traz-os-
montes e Beira tem desamparado successivamente os
seus dous Generaes, e estaõ ao presente unidas, quasi
sem excepçaõ, á sancta causa da Pátria, que juramos
defender. O General Silveira ja prestou juramento de
fidelidade a esta mesma causa. Os povos das três pro-
vincias do Norte tem podido desenvolver sem obstáculo
o nobre espirito que os anima, e vam marchar ao encon-
tro de seus irmaõs, que com enthusiasmo igualmente
unanime os esperam.
Os Governadores de Lisboa naõ ignoram estes últimos
acontecimentos, tam contrários ás suas esperanças, quan-
to oppostos á conservação do seu poder e da sua admi-
nistração. Buscam portanto agora outro artificio mais
insidioso, mas igualmente inútil, para alienar vossos
ânimos, e para vos persuadir que nelles achareis os remé-
dios, até agora em vaõ esperados, da publica desgraça.
Dizem, que vam convocar as Cortes, pelas particu-
lares instrucçoens, que tem d'El Rey nosso Senhor, para
os casos urgentes!
Notai bem, illustres Portuguezes! A 29 de Agosto
ninguém tinha o poder de convocar as Cortes senaõ El
Rey. Os povos, que as pediam eram rebeldes. Entaõ
ainda havia esperanças de desvariar as opinioens, de re-
primir o espirito publico, de semear a discórdia. A 2 de
Septembro ja os Governadores de Lisboa tem instruc-
çoens particulares para convocar as Cortes em casos
urgentes. ^ E que maior urgência que a desgraça pu-
blica, ha tanto tempo geralmente sentida e lamentada?
i Que maior urgência que os clamores geraes da Naçaõ,
tantas veses e por tantos modos repetidos em particulaar
e em publico ? ^ Que maior urgência que a funesta di-
viBaõ dos Portuguezes em três partidos bem conhecidos.
370 Política.
e nuuca reprimidos dos Governadores de Lisboa? Que
maior urgência, que o grito de uma provincia inteira, que
se levanta do abysmo, e que pede soccorro ? Mas
esta provincia entaõ éra rebelde; porque ainda havia es-
esperanças de a reprimir e assolar. Os clamores geraes
eram vozes de insubordinação, e como taes, castigados e
suffocados. Os partidos eram entretenimento de ociosos,
que o Governo olhava com indifferença. A desgraça da
Pátria naõ lhes tocava os coraçoens; porque se naõ fazia
sentir em seus elegantes e soberbos palácios.
Elles querem convocar as Cortes! Mas de que ma-
neira ? i Para que fim ? Com que intençoens ? Será
accaso para verem regulado pela justiça, e por conseqüên-
cia diminuído, o seu poder? ^Será para remediarem a
malversação dos administradores das rendas publicas, e
as derramarem em beneficio da agricultura, da industria
e do commercio nacional ? Será para resuscitarem a nos-
sa marinha de todo extincta? £ Será para estabelecerem
leys justas, que mantenham em paz os povos, que lhes
amancem seus direitos, que reprimam os abusos e os
crimes, ja quasi naturalizados entre nós, que restitúam a
ordem publica, e que assentem sobre bazes firmes a geral
felicidade?
Será para determinarem bem expressamente os direi-
tos sagrados da Naçaõ, e para traçarem os justos limites
do poder e da obediência? i Será em fim para nos da-
rem uma Constituição estável, qual a desejamos, que
seja o baluarte inexpugnável da liberdade publica, e o
solido fundamento de um throno justo?
Ah! Naõ vos enganeis, Portuguezes! Se estes fos-
sem os intuitos dos Governadores de Lisboa, ha muito
tempo que os teriam executado; porque ha muito tem-
po que as nossas necessidades saõ extremas. Elles mes-
mos nos dizem, que as instrucçoens d' El Rey a isso os
3
Política. 7l
authorizavâm em casos urgentes. E nao éra urgente a
miséria publica ?
Vai estabelecer-se, dizem elles, ou ja esta estabeleci-
da uma Commissaõ de pessoas escolhidas para consul-
tarem o methodo de convocar e celebradas Cortes! Pes-
soas escolhidas por elles, e da sua confiança! Pessoas
que estaõ debaixo da sua influencia! Pessoas que de cer-
to haõ de espaçar seus trabalhos, até que a Naçaõ se
ponha em discórdia ; até que um exercito estrangeiro
venha talvez subjugar-nos; e fazer mais pezados nossos
ferros; atéfinalmenteque por medidas de rigor e severi-
dade, se possam illudir os votos nacionaes, e a naçaõ
volte a ser submergida em um abysmo ainda mais pro-
fundo !
Naõ illustres Portuguezes! Naõ valorosas tropas Na-
cionaes! Naõ vos deixeis enganar! Ja sabeis o que
deveis esperar das pomposas promessas dos Governado-
res de Lisboa.
Quem até agora, foi indifferente á vossos males conti-
nuará a sèllo daqui em diante. Quem até agora frustrou
suas promessasi e nossas esperanças, naõ muda de syste-
ma era três dias. O tyrannico despotismo, que chega
a reprimir ou enfraquecer os primeiros esforços da li-
berdade, toma-se sempre mais pezado e mais auda-
cioso.
Firmeza e constância saõ as virtudes quea Pátria
de vós demanda nesta occasiaõ. Firmeza e consstancia
saõ as virtudes, que haõ de levar ao fim os nossos pro-
jectos, e de que a Juncta do Governo Supremo ha de
dar-vos o mais digno exemplo, até derramar a par de vós
a ultima go ta de seu sangue, e morrer com honra de-
baixo das ruínas da liberdade publica.

Voi.xxv.flo < M 9 . 3B
372 Política.

Carta da Juncta Provisional do Supremo Governo do


Reyno aos Governadores de Lisboa.

Illustrisimos e Excellentissimos Senhores.—Nin-


guém melhor que Vossas Excellencias sabe o triste es-
estado de miséria e oppressaõ, em que se achava a nos-
sa infeliz pátria, e quanto seus passos eram rápidos e
precipitados para uma total subversão. Nós nos pou-
pamos ao dissabor de recordar individualmente males tam
universaes, tam notórios, e tam pungentes a coraçoens
Portuguezes.
Vossas Excellencias sabem igualmente, que, para cu-
mulo de nossas desgraças, se haviam formado e iam
engrossando em Portugal, nessa própria cidade, na pátria
da honra e da lealdade, três diversos e oppostos partidos
que com o apparente intuito de salvar a Naçaõ, mas em
realidade para conservarem ou promoverem seus parti-
culares interesses, urdiaõ o indigno projecto, ou de nos
entregarem a uma Naçaõ estranha, ou de nos manterem
debaixo da vergonhosa tutella de outra, ou dederribarem
do throno nosso adorado Soberano, para lhe substituírem
o Chefe de uma illustre casa Portugueza, cuja lealdade
com tudo se recusaria, sem duvida, a tam intempestiva
honra.
Quaesquer que fossem as imaginadas vantagens destes
projectos, elles tendiam essencialmente a roubar-nos a
nossa independência, e a riscar da lista das Naçoen9
um povo leal e bravo, que tem figurado entre ellas com
tanta gloria: e quando menos a lançar do throno Portu-
guez uma Familia Augusta, que o poãsue por titulo»
tam legítimos, e que por sua clemência, bondade e amor
Política. 373
de seus povos tem adquirido os mais sagrados direitos á
nossa obediência e fidelidade.
Vossas Excellencias, a quem o nosso adorado Soberano
confiou o Governo destes Reynos, a felicidade dos Por-
tuguezes, e a segurança do seu throno e Soberania, naõ
tem tido energia.ou poder,nem para adoçar aquelles males,
nem para dissipar estes projectos. Nós naõ ousamos
suppôr a vil prevaricação em ânimos nobres e Portu-
guezes.
Que restava pois a uma naçaõ sempre honrada, gene-
rosa e cheia de brio ? Nenhum outro recurso senaõ o de
empregar em seu beneficio os meios extremos, a que re-
corre, e tem direito de recorrer qualquer simples indi-
víduo, que vè atacada a sua própria existência, ou estan-
cadas todas as fontes da sua prosperidade.
Naõ podemos, por tanto, vêr sem grande admiração e
magoa, que Vossas Excellencias tam inconsideradamente
ousassem qualificar de rebelliaõ o sagrado enthusiasmo
de tantos illustresfilhosda pátria, que, avivando em seus
coraçoens o fogo do patriotismo, que tantas desgraças ti-
nham suffocado, mas naõ extinclo, levantaram o primeiro
clamor da honra, da liberdade e da independência Nacio-
nal, e nenhum outro fim se propozéram senaõ salvar de
indelével mancha estes preciosos ornamentos da