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Direito do Trabalho

FDUC
28.01.2016

I - Identifique em cada grupo a afirmação correta (1,5 x 4 = 6 val.)


1. A lei:
a) É uma fonte própria de Direito do Trabalho;
b) É uma fonte de direito hierarquicamente superior à convenção coletiva; CORRETA
c) Não pode estabelecer condições menos favoráveis do que a convenção coletiva;
d) Impõe uma imperatividade absoluta ao contrato de trabalho.

2. O contrato de trabalho:
a) Tem caráter sinalagmático; CORRETA
b) É em regra um contrato fiduciário;
c) Está sujeito a forma escrita;
d) É uma fonte formal de direito do trabalho.

3. O termo resolutivo:
a) Identifica-se com a fixação de uma data certa para a cessação do contrato;
b) Quando é inválido, leva à invalidade do contrato de trabalho;
c) Traduz uma ocorrência futura e certa; CORRETA
d) Não pode ser um termo impróprio.

4. A atividade laboral:
a) É estritamente determinada em conformidade com o princípio da contratualidade do
objeto do contrato de trabalho;
b) É estritamente determinada pela categoria profissional;
c) Não é determinada unilateralmente pelo empregador; CORRETA
d) É um elemento típico e exclusivo do contrato de trabalho.
II (14 val.)

Joana e a sua empregadora Luísa celebraram, em 30 de Maio de 2015, um acordo


escrito de revogação do contrato de trabalho entre elas celebrado, em 2 de Fevereiro
de 2000. Ficou estipulado que o acordo revogatório produzia efeitos em 30 de Junho de
2015 e que Joana recebia uma compensação pecuniária global no montante de dois mil
euros.
Entendendo que a compensação global que lhe foi atribuída não respeitava a lei,
Joana enviou uma comunicação escrita a Luísa, em 20 de Junho de 2015, a revogar o
acordo de cessação do contrato.
Joana, cuja retribuição mensal é de 1200 euros, nada recebeu a título de férias
no ano da cessação do seu contrato. Além disso, o empregador, em 2004, ficou a dever-
lhe uma compensação por violação do direito de férias no montante de mil euros, que
nunca lhe pagou.
Responda, justificando legal e doutrinalmente, às seguintes questões:
1. Acha que Joana podia cessar a revogação do contrato em 20 de Junho de
2015? (3,5 val.)
Verifica-se neste caso que a data de celebração da revogação do contrato de
trabalho celebrado (30-05-2015) e a data de produção de efeitos deste acordo não
coincidem. Sendo certo que Joana pode exercer o seu direito ao arrependimento – um
verdadeiro direito potestativo - dentro do prazo de 7 dias, importa saber a partir de
que data começa este prazo a contar.
Atendendo à letra do artigo 350º, n.º 1, do CT, deve atender-se à data de
celebração do acordo de mútua revogação, isto é, o direito ao arrependimento deve
ser exercido até ao sétimo dia seguinte (7 de Junho de 2015). À luz desta interpretação,
Joana, em 20 de junho, já não poderia exercer o “direito ao arrependimento”.
Atendendo à ratio da lei, nomeadamente à proteção de uma maior ponderação
e esclarecimento do trabalhador, a uma vontade mais esclarecida e livre do
trabalhador, bem como à necessidade de evitar “fraudes”, nomeadamente o combate
a despedimentos dissimulados, então talvez deva admitir-se que o legislador, ao
estabelecer o regime codicístico, não pensou na hipótese de as datas de celebração do
acordo e da produção de efeitos serem diferentes. Se tivesse pensado, teria admitido
que os 7 dias para o exercício do direito ao arrependimento começassem a contar do
dia seguinte à data de produção dos efeitos do acordo revogatório, justamente para
proteger os interesses e os valores visados com o acolhimento do direito ao
arrependimento. Neste caso, este direito podia ser exercido até 7 de Julho de 2015,
ou seja, Joana ainda podia exercitar o direito tempestivamente.
Admite-se qualquer uma das soluções. Se a segunda é mais razoável a primeira
é a que mais acolhe a letra da lei, sendo certo, que por razões de certeza e segurança
jurídica, deveria ser o legislador e não o intérprete a esclarecer a questão.
O exercício do direito ao arrependimento está sujeito à verificação do requisito
negativo previsto no art. 340º, n.º 4, do CT., ou seja, não ter havido reconhecimento
notarial presencial das assinaturas apostas no documento relativo à revogação por
mútuo acordo, o qual deve ser “devidamente datado”.
Segundo o art.º 350º, n.º 3, do CT, a eficácia da cessação do acordo depende
de Joana devolver ao empregador ou pôr à sua disposição as quantias pecuniárias
recebidas aquando da revogação por mútuo acordo. Como não recebeu a quantia
correspondente à compensação pecuniária global (dois mil euros), não tem,
evidentemente, de a “restituir”. Mas, caso tenha recebido importâncias pecuniárias
proporcionais relativas a título de retribuição de férias, subsídio de férias e subsídio
de Natal, vencidas na data da cessação do contrato, nos termos do art.º 245º, n.º 1, e
art.º 263º, n.º 2, al. b) do CT, então estas importâncias devem ser restituídas ao
empregador.

Cfr. Leal Amado, Contrato de Trabalho, pp. 315-316.

2. Acha que Joana tinha o direito de revogar a cessação do contrato por não
lhe ter sido paga uma indemnização correspondente à sua antiguidade
na empresa? (3,5 val.)
Joana tinha o direito de cessar o acordo revogatório, mas a razão por si
invocada não tem sentido, pois não lhe é exigido juridicamente que apresente
qualquer motivo para o exercer. Com efeito a cessação do acordo não é um ato jurídico
causal, ou seja, é uma manifestação de um poder discricionário seu, não sendo
necessário apresentar qualquer fundamento. Além disso, o montante da
compensação resulta do acordo das partes, nos termos do art. 349º, n.º 5, do CT, e
não da antiguidade de Joana na empresa. O cálculo da indemnização ou compensação
com base na antiguidade é próprio do regime do despedimento, regime este que não
está aqui em causa.
É certo que o art. 349º, n.º 5, do CT, ao prever uma compensação pecuniária
global a propósito do regime da cessação por mútuo acordo, parece estar a reconhecer
que muitas vezes este regime “encobre” um despedimento negociado. Mas também
é certo que esta compensação não corresponde a um direito do trabalhador sobre o
empregador, resultando antes da vontade comum das partes livremente expressa.
Cfr. Leal Amado, Contrato de Trabalho, p. 313
3. Quais os créditos de Joana a título de férias no ano da cessação? (3,5 val.)

A título de férias, no ano da cessação (2015), Joana tinha direito:


a) À retribuição de férias e ao subsídio de férias vencidos em 1 de Janeiro de
2015, ou seja, ao montante de 2400 euros (art.º 264º, n.º 1, e n.º 2 do CT),
nos termos do art.º 245º, n.º1, al. a) do CT. Dado que, de acordo com os
dados fornecidos no enunciado, se trata de uma retribuição de estrutura
simples e unitária, não existem prestações retributivas que devam ser
imputadas na retribuição de férias mas já não no subsídio de férias.
Estas férias reportam-se ao trabalho prestado no ano civil anterior, ou seja,
ao ano de 2014 (art.º 237º, n.º 2, do CT);
b) Aos proporcionais da retribuição de férias e do subsídio de férias relativos
ao ano da cessação (2015), que se venceram com a cessação do contrato
(art. 245º, n. 1, al. b) do CT) e se venceriam, caso o contrato não terminasse,
em 1 de Janeiro de 2016. Tendo Joana trabalhado em 2015 seis meses, tem
direito a 6/12 de 1200 euros (600 euros) a título de retribuição de férias,
mais 6/12 de 1200 euros (600 euros) a título de subsídio de férias.
Totalizam estes créditos três mil e seiscentos euros.
Cfr. Leal Amado, Contrato de Trabalho, pp. 237-238.

4. Poderia Joana, em Junho de 2015, exigir judicialmente o pagamento da


compensação por violação das férias vencidas em 2004? (3,5 val.)
Esta questão tem a ver com o regime da prescrição dos créditos laborais (art.
337º do CT). O contrato de trabalho vigorou até ao dia 30 de Junho de 2015.
Até esta data, não começou a correr o prazo de prescrição do salário de Joana.
Só começou a correr no dia seguinte (1 de Julho de 2015). Joana podia, nos
termos do art. 337º, n.º 1, do CT, exigir os créditos resultantes do seu contrato
de trabalho durante o ano seguinte, até 30 de Junho de 2016.
O crédito em causa resulta de uma violação das férias vencidas em 2004. Nos
termos do art. 337º, n.º 2, do CT, este crédito laboral exige um regime de prova
mais exigente na medida em que apenas pode ser provado por “documento
idóneo”, mas daqui não resulta um prazo diferente para a prescrição do crédito
laboral.
Cfr. Leal Amado, Contrato de Trabalho, p. 277 e ss.
Pode consultar Código de Trabalho não anotado.