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Tzong Kwan

Sabedoria
Revista bimestral do Templo Tzong Kwan – Mês. Janeiro 14

Volume 73

A Visão do Centro

“Sem nenhum ganho, o Bodhisattva, acolhendo-se na Perfeição da


Grande Sabedoria , não tem obstáculos em sua mente. Sem
obstáculos, não há medo. Distante de todas as delusões,
alcança-se o Nirvana .”
Sumário

Introdução ....................................................................................... 6

As cargas mentais ............................................................................ 7

Conceituando nossas experiências ................................................. 8

A visão ilusória ................................................................................ 9

O observador ................................................................................. 10

O pensamento ............................................................................... 13

O apego ......................................................................................... 14

Vendo as coisas como são ............................................................. 15

As quatro nobres verdades ............................................................. 17

Meditação ...................................................................................... 19

A visão sem lentes ........................................................................ 20

A visão além do centro ................................................................ 22

Sutra do Coração da Perfeição da Grande Sabedoria


(Prajna Paramita Hdraya Sutra) .................................................. 23
Seja bem Vindo!
O Templo Tzong Kwan está aberto para visitas de:
-Segunda a sexta-feira, das 14h às 16h30.
-Sábado e domingo, das 9h30 às 15h.
*Aos sábados – Meditação das 15h às 16h para Principiantes
- Meditação das 16h às 17h50 para Iniciados
- Ensinamentos sobre o Buddhismo, das 18h às 18h30.
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*Horário de atendimento telefônico de segunda a domingo 14h às
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TZONG KWAN

A Visão do Centro
Marco Defensor de Moura

(Upasaka Hui De)

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Introdução

A inspiração deste artigo vem do nome do Templo Tzong Kwan. “Tzong”


em chinês é centro; “Kwan” é visão ou contemplação. Visão do Centro.
Por ter sido escolhido como nome do templo, certamente não é um termo
em vão, existe todo um contexto budista no que se refere à chamada
Doutrina da Visão do Centro (Madhyamaka). A ideia deste texto, no entanto,
não é adentrar em tais ensinamentos. Eu, o autor, sou um simples praticante,
não uma autoridade na doutrina budista, de modo que a minha proposta
é, ao invés de nos enveredarmos em definições clássicas, deixarmos brotar
o entendimento da “visão do centro” a partir de um raciocínio simples e
sequencial. Pouco a pouco, abordaremos questões importantes do
autoconhecimento e da relação entre mente e realidade, associando-as
aos ensinamentos de Buddha.
Comecemos pelo que seja ver a partir do
centro. Na posição de alguém que vê, de um
observador, são necessários pontos de referência
para identificar o que é o centro. O centro está a
meio caminho entre uma extremidade e outra. O
centro não é esquerda nem direita, não é grande
nem pequeno, não é forte nem fraco, não é claro
nem escuro, não é quente nem frio. Não parece muito fácil se aperceber
do centro, não é? O que é exagerado chama a nossa atenção, o que é
sutil, não. Quando vemos o claro, é fácil dizer que é claro; o mesmo para
o escuro, pois são bem aparentes; mas para o que está a meio caminho
dizemos apenas: nem um, nem outro - mal podemos identificá-lo. O centro
é muito sutil, muito fulgaz.

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As cargas mentais

Os olhos captam as oscilações externas e as imprimem como imagens


na mente. As cenas carregadas de uma carga emocional intensa, longe
do eixo de equilíbrio, ficam melhor registradas na mente. São experiências
que impressionam e deixam marcas. Aquilo que gostamos muito ou
detestamos tem um grande peso e a mente registra; mas o que a sensibiliza
mais ou menos tem um peso indiferente e ela se esquece facilmente.
Aquilo que está próximo ao centro de equilíbrio quase não pesa - é sentido
de forma “morna” e escapa da apreensão da mente, como uma pena
levada pelo vento.
Quando acumulamos impressões fortes, a mente sai do seu eixo e perde
o equilíbrio. Uma vez que você se apega a uma experiência física ou men-
tal, você carrega um peso a mais - a carga do passado. O acúmulo de
impressões carregadas de conclusões e julgamentos subjetivos se torna
um peso excessivo para a vivência do momento. Com esse referencial,
você perde o eixo de equilíbrio, balança e pende para um lado, tornando-
se tendencioso.
Sem acumular cargas excessivas de experiências que já se foram, a
mente permanece em equilíbrio no presente, entre o passado e o futuro.
No centro, você não se desequilibra nem para um lado, nem para o outro,
portanto não se desgasta. Nessa posição, a mente está leve, livre e
desimpedida, caracterizada pela imparcialidade. A visão do centro advém
de uma mente desapegada, que preza pelo soltar ao invés do agarrar,
pela sabedoria do momento ao invés do conhecimento adquirido.

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Conceituando nossas experiências

A mente tem dificuldade em ser imparcial diante daquilo que observa.


Ela discrimina e conceitua as suas experiências. Ao observarmos um
fenômeno, nós o reconhecemos através de rótulos mentais. Esses rótulos
não são simples etiquetas, são palavras classificatórias que representam
um conjunto de ideias, de sensações identificadas como boas ou ruins e
impressões de experiências prévias com o objeto identificado.
Por exemplo: observo uma estrutura de madeira com um tampo, quatro
pernas e reconheço essa imagem sob um nome: mesa. Então a
conceituação dualista continua: digo se é bonita ou feia, grande ou
pequena, resistente ou frágil, etc. Como foi dito, quanto maior o conteúdo
emocional relacionado ao objeto verificado, maior é a impressão que causa.
Digamos que na última semana eu me descuidei, cortei a mão carregando
uma mesa com tampo de vidro e fui parar no hospital. Se hoje eu vejo
uma nova mesa de vidro, certamente não serei indiferente e irei associá-la
ao perigo. Não é mais uma simples mesa como há um mês atrás, quando
eu não tinha lembranças negativas em relação a ela. Agora é uma mesa
de vidro que corta a mão e causa dores horríveis. O que registrei não foi a
minha falta de atenção, mas o perigo associado ao objeto. Agora a mente
está influenciada pela experiência e se aflige diante da imagem dessa
mesa. Deixou de ser uma visão centrada e imparcial diante do objeto e
agora é uma visão tendenciosa, impregnada de conceitos e opiniões
dualistas. E não apenas objetos, a mente segue classificando tudo dessa
forma tendenciosa: seres, eventos e ideias, fazendo desse reconhecimento
subjetivo a sua realidade.

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A visão ilusória

A visão límpida do fato dá lugar a uma visão distorcida quando existe


um pré-julgamento. A mesa é só uma mesa. Podemos olhar e ver uma
simples mesa ou olhar e ver um monte de conceitos mentais associados
que vêm à tona quando a memória é acionada. A imagem mental de
cada objeto, pessoa e situação é relacionada a um histórico de contatos
prévios, relações prazerosas ou não e opiniões. Ao recorrer à memória para
vivenciar o presente, a mente fica condicionada, presa ao passado. Sem
condizer com o presente, a sua visão é tendenciosa e distorcida, cheia de
preferências e totalmente parcial. Ao invés de ver o fato em si, a mente vê
o seu registro interno, projetando o seu conteúdo no cenário externo. Utiliza
o cenário para identificar a forma, mas interage com o seu próprio mundo.
Na terminologia budista, dizemos que a realidade que observamos através
da nossa tela mental de registros e conceitos é chamada “Maya”
Maya”. É uma
Maya”
realidade projetada pela nossa mente - uma visão falsa e ilusória criada
pelas impressões do passado.
A visão equivocada da realidade acarreta inúmeros problemas, pois há
uma falta de correspondência entre o que acreditamos e o que é real. A
mente fica confusa e desconfortável. São formados os três venenos da
mente: a ignorância, a cobiça e a ira. A ignorância é o estado da mente
iludida, desprovida de sabedoria. A mente ignorante não compreende a
natureza dos fenômenos que surgem e cessam de forma contínua sob a
lei de causa e efeito. Com isso, ela atribui um caráter individual à aparência
daquilo que observa e cria a dualidade, ou seja, a visão fragmentada da
realidade que gera oposição e conflito - de um lado o que eu identifico
como “eu”, do outro, o mundo exterior composto por inúmeras peças.

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A cobiça é o desejo excessivo que surge nessa mente, que busca
impulsivamente uma satisfação para os vícios e apegos que ela mesmo
criou. A ira é o estado de aversão excessiva da mente perante algo que
vai contra a sua satisfação. Das inúmeras combinações desses três venenos,
surgem todos os males da mente que nos fazem sofrer.
Todas as ações originárias da mente envenenada pela cobiça, ira e
ignorância geram consequências das quais não podemos escapar. O
veneno impregna o corpo, a fala e a mente, de modo que a energia
envenenada que se investe na intenção é a mesma que move a ação e
que está contida no efeito. É a chamada lei do karma
karma, entendido como
a ação intencional que não está separada do efeito, que pode manifestar-
se imediatamente ou muito tempo depois. São como sementes plantadas
e que dão frutos em seu devido momento, de acordo com as condições
propícias. Ações meritórias geram resultados favoráveis, ações destrutivas
geram resultados desfavoráveis.

O observador

Sabemos que a visão do observador não é límpida, que existe uma tela
mental que é projetada naquilo que está diante dele. Essa tela mental é
formada por experiências prévias registradas em sua memória. Mais do
que um observador, é um projetor. Sabemos também que a sua mente é
mais apurada para os fenômenos associados a conteúdos emocionais
intensos do que para experiências sutis. O observador vê, identifica e dá
nome àquilo que observa, ficando a experiência registrada em sua mente.
Mas quem seria o observador? É aquele que vê, sente, vivencia, memoriza,
pensa. O observador é o observado. Não é possível separar o observador
do conteúdo que observa, da sua visão, do pensamento, da emoção, da

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respiração. Tudo isso que o observador supõe como sendo parte dele é
chamado de ego
ego. É o que consideramos ser o “eu” - o corpo, seus
processos, o registro de tudo o que o observador já passou e que identifica
como sua própria experiência; tudo aquilo que ele acredita, sua ideologia,
seu potencial, etc. O ego, portanto, não é uma entidade real, é uma
identificação de processos mentais.

Os cinco agregados (skandhas) são as formações mentais que se


sucedem ao contato com um objeto perceptível, desde o reconhecimento
da sua forma, captada pelos órgãos sensoriais, até a mobilização da
energia mental, resultando em um conhecimento. É o que a mente, de
forma equivocada, caracteriza como sendo “eu”.
1) Forma (rupa): através dos órgãos dos sentidos, recebemos estímulos
do meio e essas informações são convertidas em uma imagem mental.
2) Sensação (vedana): diante desse estímulo, há a sensação de prazer,
de aversão ou neutra.
3) Percepção (sañña): associamos a imagem obtida a um repertório
de concepções de mundo e é ativada a nossa intenção em relação a
essa sensação.
4) Volição (sankhara): através do mecanismo da ação, projetamos a
intenção através do corpo, fala e mente.
5) Consciência (viññana): tornamo-nos então conscientes das nossas
percepções sensoriais e mentais associadas ao objeto que tivemos contato.

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Por exemplo:
1) Vejo uma maçã e sinto o seu aroma;
2) Ocorre uma sensação agradável;
3) Isso me remete à lembrança da infância, do pomar de maçã que
havia em casa e do prazer em reunir-me lá com a família. Quero essa
sensação e reconheço que essa maçã pode me satisfazer;
4) Começo a salivar, libero neurotransmissores e o meu corpo se prepara
para a ação de pegar e saborear a maçã;
5) Tomo consciência do gosto e me convenço que a minha experiência
com a maçã faz com que eu sinta prazer. A maçã passa a fazer parte
daquilo que classifico como bom.

Assim, a mente interpreta e registra o que vivencia, seja prazeroso ou


doloroso, criando marcas. O prazer é sentido interiormente, enquanto o
objeto (maçã) é o gatilho que desencadeia essa sensação. Toda a estrutura
de pensamentos e desejos apoia-se nessa construção, que não condiz
com a realidade, mas com a sensação particular do observador que é
convertida em conceituações. A partir da experiência pessoal que fica
gravada como “eu”, a realidade é distorcida. A maçã não será mais vista
de forma livre, mas presa em uma suposição. É criado um cenário mental
fictício onde o sujeito identifica o que lhe satisfaz. É um cenário de formas,
cheio de palavras e ideias que aprisionam a mente. O mundo do ego é o
mundo das formas, composto por todo esse processo de identificação.

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A partir do mundo limitado das formas, não é possível conceber a
realidade que está além da forma. Tudo fica condicionado à presunção
do ego, ou seja, à nossa impressão particular dos fatos.

O pensamento

O pensamento e a emoção são movimentos da mente, são produtos


do ego. A atividade da mente é constante, mobilizando o conteúdo que
tem armazenado: as memórias de suas experiências passadas. Esse
conteúdo, como vimos, são conceituações de experiências através dos
cinco agregados, e não registros puros dos fatos. É um conteúdo
tendencioso, porém é só o que a mente tem para mobilizar. Não existe um
pensamento puro, uma emoção pura - eles estão impregnados de
conceitos e opiniões. O pensamento se faz útil em momentos adequados
para tratarmos de assuntos cotidianos, mas o que ocorre é que se nos
descuidarmos, ele domina a mente.
O pensamento desvia a mente do momento presente. Ademais, os
pensamentos surgem quando a mente perde o senso de presença, no
budismo chamado sati (atenção plena). Mantendo atenção plena em
cada experiência, não se abrem brechas para o processo mental de
conceituação. Ou seja, partindo-se do contato com a realidade através
dos órgãos dos sentidos, advêm naturalmente as sensações, pois somos
seres sencientes, mas na etapa seguinte de percepção, não damos vazão
ao pensamento. Essa é a etapa que a mente se identifica com as
sensações e começa a racionalizar, interpretar e trazer à tona o seu
conteúdo fictício. Essa é a hora de parar e retornar à observação pura do

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presente sem se dispersar, dando continuidade à vivência do momento
com atenção plena.

O apego

Lidar com a mente é como equilibrar-se o tempo todo para não deixá-
la criar apego. Qualquer apego, mesmo ao centro, tira a estabilidade. O
equilíbrio não é estático, é dinâmico, pois a vida é móvel. Podemos
balançar, só não podemos sair do eixo. A vida está em movimento e segue
propondo mudanças desafiadoras. Se você fixa a sua mente, você a
ancora e é atropelado pelas circunstâncias. É como tentar capturar o vento,
que é móvel. Se você captura o vento em suas mãos, você não pega
nada, pois destrói o movimento. O momento presente é movimento, não
pode ser capturado pela mente. Se você achar que capturou o momento
presente, o que você ganhou foi um problema: o apego a uma forma
ilusória. O apego é uma carga a mais em sua jornada e o pior, você mesmo
o cria e nutre.
O apego consome a energia mental dos pensamentos e emoções
para criar a ilusão que sustenta a sua permanência. Ele encontra muitas
artimanhas para conseguir chamar atenção de modo que a energia men-
tal seja desviada para seus fins. Ele se apresenta de forma oscilatória: ora
como uma recompensa, quando você faz o que ele quer; ora como uma
adversidade, esperneando quando o seu desejo não é atendido. Não tem
saída. Existe um ditado popular: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho
come”. É o próprio apego.
Porém, a adversidade é apenas uma estratégia que esse “bicho” ilusionista
se utiliza, manipulando pensamentos e emoções para simular uma situação.

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Ela não é real, mas se você a encara como um fato, ela te derruba. Sob
o comando do apego, a mente cria a ilusão de Maya; se adentrarmos nos
seus domínios, seremos capturados. É uma armadilha. A tela de Maya se
abre e perdemos a visão dos fatos. Nem lutar contra, nem se apegar -
qualquer atenção demasiada só reforça a ilusão, atribuindo um caráter
real à adversidade. O dinamismo da vida faz com que ocorram turbulências,
comumente vistas como obstáculos fixos. Os obstáculos são dejetos do
passado, são um conjunto de crenças que a mente segura como que
catando pedras no caminho, das quais o apego se apropria para fazer o
seu ilusionismo. Sem assumir a forma aparente como fixa, basta contornar
e seguir em frente como a água corrente: moldável e flexível. Com atenção-
plena ao momento, a mente ilusória não acha brecha para se instalar
com todo o seu rastro de confusão. O apego enfraquece e se esvai.

Vendo as coisas como são

A mente desperta é aquela que vê as coisas como são. Uma


observação pura e centralizada da realidade. Na língua de Buddha, a
palavra “TTathata
athata” significa “a natureza das coisas como são”. As coisas são
o que são independentemente de como as vemos. Podemos crer nos
fenômenos como permanentes, como tendo uma essência independente
e sendo fonte de felicidade, mas trata-se de uma visão equivocada, iludida
pelas aparências. Segundo os ensinamentos, todos os fenômenos são
marcados por três selos: a impermanência (anicca), a não-identidade
(anatta) e a impossibilidade de proporcionar satisfação incondicional
(dukkha). Se enxergarmos a realidade a partir dessa perspectiva neutra,
não criaremos falsas expectativas e não sofreremos. Isso não significa que

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devamos ter apenas experiências “mornas” para que não se formem registros
que distorcem a realidade. Não é isso. Estamos expostos a situações sutis
e extremas, mas podemos manter-nos de forma centralizada e imparcial,
sem nos prendermos às aparências.
Para nos mantermos no eixo, precisamos deixar a mente em seu devido
lugar. Sabemos como a mente cria os rótulos, o pensamento e todo o seu
drama de conceituações diante do fato observável e das sensações. Ok,
é o sistema dela - capturar a forma, fantasiar em cima e depois registrar
em forma de conhecimento. Dizem que “o que os olhos não vêem o
coração não sente”. A forma que vemos é uma suposição. Sem forma
captada pelos olhos (órgãos dos sentidos), nem sensação pelo coração,
não há bases para construções mentais elaboradas no mundo de fantasia
da mente. Se reconhecermos como o mecanismo mental é limitado e
falho, podemos não nos apegar a ele. O que também não significa negar
a mente.
No budismo, fala-se muito sobre o caminho do meio
meio.. O príncipe
Siddhartha Gautama, antes de tornar-se o Buddha, vivenciou dois extremos:
o luxo da vida palaciana e as torturas de práticas espirituais da Índia, que
repudiavam o prazer do corpo. Na jornada pelo despertar da visão
iluminada, ele abandonou os extremos e seguiu o caminho do meio. Ele
percebeu que sem o devido cuidado ao corpo, não seria possível despertar
a mente. Sem a devida atenção à mente, o corpo se desintegraria e a
mente sofreria. Buddha teve esse insight ao comparar a prática espiritual
com um instrumento de cordas: se as cordas estão afrouxadas demais,
não produzem som; se são tensionadas demais, arrebentam; nem frouxas,
nem tensas, produzem um som agradável. Portanto, é preciso lidar com a
mente de forma equilibrada.

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As quatro nobres verdades

Os ensinamentos budistas têm como cerne as quatro nobres verdades,


transmitidas pelo Buddha ao verificar que as aflições humanas têm como
raiz a ideia equivocada de um eu permanente que sustenta desejos
incompatíveis com a realidade tal como ela é. Para nos libertar do ciclo de
aflições, ele apresentou as verdades do sofrimento, da sua causa, da sua
cessação e o caminho para a liberação.
1) Constatar a insatisfação (dukkha);
2) Constatar a sua causa (samudaya): o apego advindo da ignorância;
3) Visualizar a sua cessação (nirodha): abrir mão do apego conduz ao
nirvana;
4) Caminho para a libertação (magga): treinamento da conduta
compassiva, concentração e sabedoria.

Comentários sobre cada aspecto:


1) Todos buscam a felicidade. As pessoas buscam o prazer e evitam a
dor. Sendo essa busca feita de modo inconsciente e desorientado,
confunde-se felicidade com prazer e buscam-se situações que
proporcionem sensações agradáveis duradouras, sejam físicas ou mentais.
Trata-se de uma felicidade condicionada, que depende de situações
favoráveis para existir. A dependência de situações externas para que haja
felicidade leva fatalmente ao sofrimento, uma vez que são transitórias.
Desse modo, a insatisfação é inerente a essa condição humana.
2) A falta de uma compreensão clara da natureza das coisas nos conduz
a uma visão falsa da realidade. Negligenciamos o fato de que os fenômenos
são caracterizados por três marcas: a não-identidade, a impermanência e

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a impossibilidade de nos proporcionar uma felicidade incondicional. Ou
seja, uma vez que tudo é originário da lei de causa e efeito, nada possui
uma existência independente; portanto, tudo cessa no momento em que
a causa de sua originação e de seu sustento cessarem. Todo o sofrimento
é causado pelo apego aos desejos centrados em um “eu” independente.
Esse “eu” é fruto da crença em uma entidade contínua que pensa, sente e
identifica-se com suas experiências do decorrer da sua vivência. Sustentamos
essa identidade com forte apego, alimentando os seus padrões viciosos e
procurando satisfazer os seus desejos. A origem da insatisfação é o apego
às condições transitórias e ilusórias do “eu”, desejando que sejam
permanentes.
3) É necessário lidarmos com essa mente imperfeita a partir de uma
perspectiva livre e não através dos pensamentos condicionados pela sua
visão subjetiva da realidade. Ao nos desapegarmos dos desejos formados
a partir dessa construção mental fictícia, nos esvaziando da ilusão do eu,
experimentamos o nosso estado natural e pleno de ser. A vida em si não é
sofrimento, que surge ao nos apegarmos ao que é impermanente e ilusório.
Ao despertarmos a mente para ver a realidade como ela é, nos libertamos
de todo o sofrimento.
4) O caminho para a liberação do ego é a prática em meio ao cotidiano
dos três treinamentos superiores
superiores: conduta compassiva (shila),
concentração (samadhi) e sabedoria (prajna).
Tendo em mente que a ignorância resulta em apego e sofrimento, é
necessário que abandonemos a visão equivocada, dando lugar à
sabedoria
sabedoria. Assim, vemos claramente a lei de causa e efeito operando
em todos os níveis, observando o surgimento e a cessação dos fenômenos.
Para isso, é preciso nos desapegarmos do nosso ponto de vista particular. A

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habilidade em desapegar-se requer o treinamento da concentração
concentração. A
concentração, por sua vez, é facilitada pelo cultivo de hábitos que não
sejam ego-centrados, que sejam íntegros mesmo em meio às aparências
que podem iludir o nosso discernimento. A conduta compassiva é o
que nos envolve na vida como um todo, beneficiando todos os seres e
manifestando a essência do coração a partir de um sentimento de
comunhão incondicional.

Buddha apresentou essa quarta nobre verdade na forma do “Nobre


Nobre
Caminho Óctuplo
Óctuplo”, citado a seguir:
(1) Visão Correta e (2) Pensamento Correto: treinamento da Sabedoria;
(3) Fala Correta, (4) Ação Correta e (5) Meio de Vida Correto:
treinamento da Conduta Compassiva;
(6) Esforço Correto, (7) Atenção Correta, (8) Concentração Correta:
treinamento da Concentração.

Meditação

A meditação tem um papel fundamental na prática budista. Através


da meditação, é criado o ambiente mental propício para o despertar da
sabedoria. Basicamente, no treinamento da meditação, a mente tem um
objeto de contemplação, do qual ela não desvia a sua atenção.
Normalmente, esse objeto é a respiração - uma observação contínua na
sensação da entrada e saída de ar. Durante essa observação, naturalmente
ocorrem pensamentos, mas não adentramos nos domínios do pensamento
como ocorre quando estamos desatentos. Simplesmente observamos o
fato de que estão ali. Sem dar-lhes atenção, seja seguindo-os ou lutando

19
contra, os pensamentos gradualmente perdem a força e não mais afligem
a mente.
Com a observação contínua da respiração, a mente permanece
conectada ao corpo mantendo o fluir do momento presente. Sem uma
quebra na atenção, não existe brecha para a racionalização da sua
experiência. Com o sentido de presença, a mente permanece em um
estado sereno e livre de obstáculos. Vivencia o momento sem dramas -
somente a observação pura dos fatos, sem suposições e sem
sentimentalismos.

A visão sem lentes

A ênfase de Buddha está em despertar a mente para enxergar a realidade


sem filtros ilusórios. A visão da realidade como é, sem as lentes da dualidade,
nos conduz à felicidade incondicional. A dualidade é a visão desintegrada
da realidade que nos faz ver os fenômenos como formas individuais. Bud-
dha ensina que a raiz dos fenômenos não é algo separado do fenômeno
em si. Causa e efeito são um. As coisas não surgem do nada, elas só
podem vir a existir a partir de uma origem dentro da concepção mental de
tempo e espaço. É a originação interdependente
interdependente, que sustenta que
todos os fenômenos são originados de causas e condições. A concepção
da criação como se fosse algo totalmente novo, surgido no mundo e
separado daquilo que o originou é ilógica. O que vemos como criado, na
verdade, são combinações e transformações de elementos pré-existentes.
Nossas novas ideias, por exemplo, são recombinações de informações
prévias sob um novo olhar. Só pode vir a existir o que já existe em potencial.

20
Imagine a quantidade de coisas que só existem no mundo da
potencialidade e que ainda não foram reveladas na existência. Os nossos
olhos são enganados por algo que vemos pronto, do qual desconhecemos
o processo de originação.
Sobre a origem do “eu”, já vimos que o “eu” não é uma entidade, assim
como nada o é. Vendo a partir do centro, o “eu” não nasceu nem não
nasceu. Como a concepção da forma surge a partir do potencial da
mente junto aos órgãos dos sentidos, tudo o que concebemos já existia
em potencial oculto na mente. Temos capacidade de conceber inúmeras
possibilidades de formas. Uma das principais obras budistas, o Sutra do
Coração da Perfeição da Grande Sabedoria, ensina como as formas são
vazias. Tudo o que a mente reconhece como existente de um lado tem
raiz em sua contraparte inaparente do outro lado. A cabeça não pode
fugir da cauda - nada está separado. Só identifico o “eu” porque concebo
o “outro”. Só noto o surgimento do visível porque antes era invisível. Só
reconheço o claro porque concebo o escuro, mas ambos são a mesma
realidade; são apenas diferentes concepções daquilo que reconheço como
luminosidade. A ilusão óptica da mente faz com que ela conceba
realidades distintas, mas em essência, trata-se de um grande vazio, sem
uma existência independente do olhar. É mente-dependente. Não nascido,
não morto; não existente, não inexistente. Chama-se sunyata
sunyata, traduzido
como “vazio”, mas cujo significado vai muito além da compreensão
intelectual. Escapa aos domínios da mente. A visão do centro em sua
magnitude é a visão do vazio.

21
A visão além do centro

absoluto,, não há nada real que a mente possa apreender


No sentido absoluto
sem tornar irreal. É como tentar capturar o vento: torna-se não-vento. É
uma realidade fluida, além dos domínios da mente. Não pode ser expressa
por palavras e nem compreendida intelectualmente. Apenas é!
No sentido convencional , não há realidade sem a mente. A
realidade é o que a mente concebe no domínio do tempo e espaço. É
onde a mente se situa, utilizando palavras, reconhecendo as formas e se
utilizando do conhecimento.
A realidade absoluta e a convencional interexistem, sendo impossível
separá-las. A existência surge da inexistência e o movimento da imobilidade.
Por mais paradoxal que pareça, um contém o princípio do outro. A visão
do centro, em seu mais alto grau de entendimento do caminho do meio,
não é apegada a termos dualistas. Não há centro se não existem opostos,
mas também não se pode negar o centro, nem os opostos. Se estiver se
acomodando na dualidade e se afastando da essência, é hora de retornar
ao vazio e adaptar novas abordagens. Não há ego, portanto, nada a
obter, nada a exigir; apenas o constante fluir seguindo o grande caminho
com gratidão e palmas unidas. O caminhar, o caminhante e o caminho
como um só.

22
Sutra do Coração da Perfeição da Grande Sabedoria

(Prajna Paramita Hdraya Sutra)


Comentado por Marco Moura

Quando o Bodhisattva A valokitesvara praticava a PPer


Avalokitesvara er feição
erfeição
da Grande Sabedoria, observou claramente o vazio dos cinco
agregados, libertando-se de todos os sofrimentos e aflições.
Comentário: Imerso na contemplação do momento presente com o olhar da

23
Prajnaparamita, o Bodhisattva Avalokitesvara compreendeu que a concepção
da realidade a partir do “eu” - um agregado de ideias personificadas - é fictícia,
portanto, desmoronou-se o equívoco. Sem mais sofrimentos inventados.

Oh! Sariputra! FForma


orma não é diferente do vazio
vazio.. V azio não é
Vazio
diferente da forma
forma.. FForma
orma é precisamente vazio
vazio.. V azio é
Vazio
precisamente forma. Sensação, percepção, volição e
consciência também o são.
Comentário: Toda forma distinguível é na verdade uma imagem projetada por
um emaranhado de conteúdos mentais sem nada de concreto. Sucedem-se ao
contato com a forma distinguível: a sensação diferenciada de prazer ou rejeição;
a conceituação daquela experiência a partir de um universo de conteúdos
apreendidos; a mobilização de energia para realizar a experiência; por fim, a
consciência da forma associada à experiência interna.

Oh! Sariputra! TTodos


odos os fenômenos têm vazio-forma como
característica essencial. Não nascidos, não mortos; não impuros,
não puros; não evoluídos, não involuídos.
Comentário: Se a experiência sensorial é formada a partir de uma referência
subjetiva, sendo então conceituada, não existe realmente um nascimento (nem
morte), uma purificação (nem impureza), uma evolução (nem involução). São só
conceitos da mente.

Assim é tudo dentro do vazio. Sem forma, sem sensação,


percepção, volição, consciência. Sem olhos, ouvidos, nariz,
língua
língua,, corpo
corpo,, mente
mente.. Sem cor
cor,, som
som,, cheiro
cheiro,, sabor
sabor,, tato
tato,,
fenômeno. Sem âmbito da visão, sem âmbito da consciência.

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Sem ignorância e sem fim à ignorância. Sem velhice e morte e
sem fim à velhice e morte. Sem sofrimento, sem causa, sem
cessação e sem caminho. Sem sabedoria e sem ganho.
Comentário: A diferenciação é ilusória, portanto os instrumentos e mecanismos
diferenciatórios também o são.

Sem nenhum ganho


ganho,, o Bodhisattva
Bodhisattva,, acolhendo-se na PPer
er feição
erfeição
da Grande Sabedoria, não tem obstáculos em sua mente. Sem
obstáculos, não há medo. Distante de todas as delusões,
alcança-se o Nirvana.
Comentário: A ação do Bodhisattva é desimpedida: sem diferenciação, não há
nada a perseguir, nada a ganhar, nada a sustentar. Sem um eu ilusório, não há
delusões, há liberação total.

Todos Budas dos três períodos


períodos,, acolhendo-se na PPer
er feição da
erfeição
Grande Sabedoria
Sabedoria,, alcançam anuttara-samyak-sambodhi
anuttara-samyak-sambodhi.. PPor
or
isso
isso,, saiba que a PPer
er feição da Grande Sabedoria é a expressão
erfeição
de grande espiritualidade, expressão de grande clareza, expressão
insuperável, expressão inigualável, que pode remover todo o
sofrimento
sofrimento.. TTrata-se
rata-se do verdadeiro
verdadeiro,, não do falso
falso.. PPor
or isso
isso,, o
mantra da PPer
er feição da Grande Sabedoria foi dito recitando-o
erfeição
assim: “gate gate paragate parasamgate bodhi svaha”.
Comentário: A expressão da grande sabedoria é traduzida através do mantra
que diz: “ido, ido, ido completamente, todos juntos ido completamente para a
outra margem, viva!”. Cruzemos o mar da diferenciação até a margem da completa
não-diferenciação.

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A Revista Tzong Kwan é uma publicação bimestral, de distribuição gratuita e sem fins

lucrativos.

Doamos mais esta edição feita com todo amor e carinho desejando que ela possa

iluminar todas as pessoas que com ela tiverem contato, fazendo com que se afastem

dos sofrimentos e se beneficiem da riqueza dos ensinamentos do Dharma alcançando a

paz, a sabedoria, a compaixão e a compreensão vasta como um mar.

Agradecemos a todos os colaboradores que doaram seu tempo, dedicação e trabalho

para viabilizar esta edição; e aos que doaram recursos para que a revista fosse impressa.
Namo Amitofo!!

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Expediente
Diagramação e Layout : Carolina Castilho
Colaboradores: Sra. Ana Maria N. Hernadez, Sr. Henrique Pires,, Sr. Lu e Sr. Marco
Moura

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Quadrinhos: Xuanjian de Deshan (780-865) -Parte 4 1) Longtan subtamente

apagou a vela. Naquele momento Deshan obteve a iluminação. 2)


2)No dia seguinte Deshan

levou sua cópia do comentário Qinlong para o salão principal e a queimou..3)


3) Aprender

todas as grandes filosofias é como um fio de cabelo na vastidão do espaço: entender

totalmente as forças básicas do mundo é como uma gota num imenso abismo. 4) Somente

quando a luz externa se apaga, nossa luz interna brilha.. Somente quando nos livramos das

nossas muletas percebemos o nosso potencial latente.

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4 3