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Agradecimentos

Este livro n ã o foi feito atravé s d e a m p a r o , autorizaçã o o u orientaçã o d e


n e n h u m a instituição, ma s está distante de ser tarefa solitária de seu s autores , que , por
serem dois já tê m o nó s c o m o us o obrigatório . Em muitas passagens ,
entretanto , o nós abrange muit o mais pessoa s além do s doi s autores . A s
pessoa s a q u e m estamo s agradecendo aqui no s ensinaram , emprestara m sua
inteligência e energia ao noss o projeto, enxergara m caminho s q u e se ocultavam ,
criticaram estrutura, detalhes , estilo e referencial teórico.

Nosso s agradeciment o s sã o especialment e para:


Alfredo Jerusalinsk y (primeir o mestre , q u e no s instigou a pensa r sobr e a infância co n te m p or â ne a ) : APPOA
(porqu e o ofício da psicanálise sobreviv e graça s a lugare s com o esse) ; Contard o Calligaris (e m cujo pensament o
no s inspiramos) ; Ed a Estevanell Tavare s (qu e també m c onhec e o m u n d o da s fadas, po r idéias q u e incorporamo s
ao texto); Eduard o Mende s Ribeiro (po r estar nest e livro d es d e q u e ele era um a fantasia);
E.liana do s Reis Calligaris (pel a cumplicida d e fraterna, na teoria e na prática); Eva Susana e J u a n
Lichtenstein (interlocutore s incansáveis); Flávio Azeved o (po r ter sido amig o a p o nt o de ser sever o
co m noss o texto): J o ã o Carneiro e Nazareth Agra Hasse n (pel a força no m o m e n t o inicial); Jorg e
e Maria da Graça Falkembac h (pela leitura afetiva); Júlia Lichtenstein Corso (consultor a em J. K. Rowling
e em Maurício de Sousa, pela pesquisa das fontes em todo s os capítulo s e pela s hipótese s propostas) ;
Laura Lichtenstein Corso (entusiasta da Terra Média, por nos iniciar em Dorothy , Poo h e Harry
Potter e pela leitura crítica dos originais); Loraine Schuch (po r tratar curiosidade s de criança co m
seriedad e de gent e grande) ; Maria Ângela Brasil (cujo argument o foi definitivo para o início do
livro); Rosan e Monteiro Ramalh o (pela s questõe s meticulosas) ; Simon e Moschen Rickes (qu e mais de
um a vez ajudo u a pensa r as linhas mestras); Zinah Corso (po r ter conse guid o compartilha r a vida dest e
projeto).
Modos de Usar

O presente volume pode ser utilizado de vários modos. De acordo com as espectativas do
leitor, podemos sugerir diferentes métodos de abordagem.
ALEATÓRIO: para quem. se interessa por literatura e que r saber mais
sobre seus contos ou histórias preferidos. Nesse caso. sugerimo s qu e vá direto aos capitulos
qu e lhe
chamare m a atenção , se m preâmbulos . O livro p o d e ser perfeitamente lido em
ordem aleatória, nu m percurs o costurad o pelas narrativas qu e marcaram a memória de
cada um Para tanto, cada capítulo tem a estrutura de um ensaio, prop õ e
interpretações sobre personage n s e tramas, assim c o m o lança mã o do s conceitos
psicanalíticos qu e alicerçam
tais hipóteses. Visando a permitir esse tipo de leitura, cada element o teórico tratado e esclarecido na ocasião
em que surge. Há algun s casos em qu e remetemo s o leitor, qu e esteja em busca de alguma dimensã o
qu e requeira esclarecimentos, para outr o capítulo, mas normalment e cada história ou grup o de conto s encontra
um tratamento complet o e fechad o em si.
SISTEMÁTICO: q u e m está interessad o em c o m p r e e n d e r a infância, trabalh a co m criança s
ou estud a psicanálise, psicologia , psiquiatria , peda go gi a ou disciplina s afins, atravé s da leitura
contínua , encontrará , na primeira part e d o livro, um a espéci e d e roteir o d o de se n v ol vi m e n t o infantil,
ilustrado através do s conto s d e fadas. Nã o é u m m a n u a l d e psicologi a d o d e s e n v o l v i m e n t o , ma
s busc a apresenta r o tracadi inicial d o cresciment o de um a crianç a até a adolescênci a e seu s
co nt ra te m p o s , já q u e as historias oferecera m excelente s oportunidad e s par a apresenta r e ilustrar algun s
conceitos . A segu nd a part e do livro, se lida de m o d o continuado . suger e u m a interpretaç ã o da infância
c o n t e m p o r â n e a , ou seja, o q u e é ser crianç a e viver em família hoje. PARA TODOS: p e n s a m o s
noss o interlocutor imaginário c o m o uma pesso a q u e p o d e ser leiga, mas qu e
por razõe s de trabalho , paternidade , ou po r ser um curios o sobr e a alma hum ana , que r sabe r
mais sobr e as histórias infantis d e o nt e m e hoje. Apena s u m d o s capítulo s será d e leitura mai s
árdu a para algué m sem conheciment o s prévio s em psicanálise, psicologia ou literatura: o capítul o
XII, o n d e fazemos a crítica de um livro fundamenta l sobr e o assunto . Ali estã o as justificativas
teóricas e metodológica s dest e trabalho , assim com o o diálog o c o m ess e livro clássic o q u e n o s
serviu d e m o d el o . D e q u a l q u e r maneira , m e s m o ness e capítulo, busc a mo s a clareza, assim c o m o
tentamo s realizar um deba t e sobr e a cultura infantil moderna , seu s novos meio s e temáticas.
Aliás, se algu m fio tece u nossa narrativa, foi o da busc a cia leveza. Mesm o tratand o de tema s árduo s e ne
m sempr e agradáveis , fizemos o possível par a entrega r ao leitor o fio de Ariadne, para q u e o Minotauro da
chatice nã o no s devore.. .
Sumário

PREFACIO
A CRIANÇA E SEUS
NARRADORES
15
Maria Rita Kehl

APRESENTAÇÃO
21

PRIMEIRA PARTE -HISTÓRIAS CLÁSSICAS


25
Capítulo I
EM BUSCA DE UM
LUGAR
31
O Patinho Feio, Dumbo e Cachinhos Dourados
Capítulo II
EXPULSOS DO
PARAÍSO
41
João e Maria, O Lobo e os Sete Cabritinhos e O Flautista de Hamelin
Ca p í t u l o III
UM LOBO NO
CAMINHO
51
Chapeuzinho Vermelho, Dama Duende, João-Sem-Medo e Os Três Porquinhos
Cap ít u l o I V
A MÃE
POSSESSIVA
63
Rapunzel e A Fada da Represa do Moinho
Capítulo V
O DESPERTAR DE UMA
MULHER
75
A Jovem Escrava, Branca de Neve, A Bela Adormecida e Sol, Lua e Tália
Cap ít u l o V I
O PAI
INCESTUOSO
93
Bicho Peludo, Pele-de-Asno, A Ursa e Capa-de-Junco
Cap ít u l o VII
A MÃE, A MADRASTA E A MADRINHA
107
Cinderela e Cenerentola
Cap ít u l o VIII
PAPAI OGRO , FILHO LADRÃO
117
João e o Pé de Feijão
Ca p í t u l o I X
HISTÓRIAS DE AMOR I: QUEM AMA O FEIO, BONITO LHE PARECE
129
O Rei Sapo. A Bela e a Fera e O Príncipe Querido
Ca p í t u l o X
HISTÓRIAS DE AMOR II: AS METAMORFOSES
141
A Leste do Sol e a Oeste da Lua, O Carneiro Encantado,
O Lobo Branco. Cupido e Psique, A Pequena Sereia e Flans, o Ouriço
Ca p í t u l o XI
HISTÓRIAS DE AMOR III: FINAIS INFELIZES
151
Barba Azul. O Pássaro do Bruxo. Nariz de Prata e Av Três Folhas da Cobra
Ca p í t u l o XII
CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO:
A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS ( de Brun o
Bettelheim) I6 1

SEGUNDA PARTE - HISTÓRIAS


CONTEMPORÂNEAS...................................................183
Ca p í t u l o XIII
A LÓGICA DA INFÂNCIA EM PROSA E VERSO
187
Winnie-the-Poob
Ca p í t u l o XIV
UM POR TODO S E TODO S EM UM
201
A 'Turma da Mônica
Capítulo XV
ERRAR É HUMANO
213
Pinocchio
Capítulo XVI
CRESCER OU NÃO CRESCER
227
Peter Pan e Wendy
Capítulo XVII
O PAI ILUSIONISTA 243
O Mágico de Oz

Capítulo XVIII
UMA ESCOLA MÁGICA
253
Harry Potter
Capítulo XIX
AS CRIANÇAS-ADULTO
269
Peanuts, Mafalda e Calvin
Anexo
GÊNESE E INTERPRETAÇÃO DE UM CONTO FAMILIAR
289
Vampi, o Vampiro Vegetariano (por Mário
Corso). Pais Suficientemente Narrativos
Conclusão
O VALOR DE UMA BOA HISTÓRIA
303
QUASE ÍNDICE
307

FONTES PRIMÁRIAS DE CONSULTA


311

BIBLIOGRAFIA TEÓRICA
313

ÍNDICE
317
Prefácio
A CRIANÇA E SEUS NARRADORES
Maria Rita Keh l

Uma infância são


ânsias
(Marilene Felinto)

Certo dia, a mãe de uma menina - Onde ponho meu avental?


mandou que ela levasse - Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
um pouco de pão e leite para Para cada peça de roupa (...) a menina
sua avó. Quando caminhava fazia a
pela floresta, um lobo mesma pergunta, e a cada vez o lobo respondia:
aproximou-se e perguntou-lhe - Jogue no fogo... (etc).
onde ia. Quando a menina se deitou na cama, disse-
- Ah. vovó! Como você é peluda!
- Para a casa da vovó. - É para me manter mais aquecida, querida.
- Por qual caminho, o dos alfinetes ou o das - Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
agulhas? (etc, etc, nos moldes do diálogo conhecido,
- O das agulhas. até o clássico desfecho):
O lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou - Ah, vovó! Que dentes grandes você
primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu tem! É para comer melhor você,
sangue numa garrafa, cortou a carne em fatias querida.
e colocou numa travessa. Depois, vestiu sua roupa E ele a devorou!
de dormir e deitou-se na cama, à espera.
Pa, pam. Para nosso espanto, este conto recolhido
- Entre, querida. na França, por Charles Perrault, da tradição oral
- Olá, vovó. Trouxe um pouco de pão e leite. campo- nesa do século XVII, termina
- Sirva-se também, querida. Há carne e bruscamente aqui. O corajoso caçador, que viria
vinho na copa. A menina comeu o matar o lobo e resgatar com vida a pobre
que foi oferecido, enquanto um gatinho Chapeuzinho Vermelho e sua querida avó, não existe
dizia: "menina perdida! Comer a carne e beber o nesta versão. Não existe um final feliz, nem uma moral
sangue da avó!" da história. Seu objetivo original, afirma Robert
Então, o lobo disse: Darnton, não era o de prevenir as crianças a
- Tire a roupa e deite-se comigo. respeito dos perigos da desobediência aos pais
(na
Fada s n o Di v a — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infanti s

versã o m o d e r n a d o c o n to . C h a p e u z i n h o escolh concomitant e à criaçã o d e u m mund o


e o ca minh o o p os t o a o r e c o m e n d a d o po r sua p r ó p r i o d a crianç a e a o r e c o n h e c i m e n t o d e
mãe) , d e m o d o a protegê-la s do contat o u m a "psicologi a infantil", da qua l mais tard e a
precoc e co m a sexualidad e adulta . As narrativas psicanálise viria a se destaca r radicalmente .
popular e s européias , matrizes do s m o d e r n o s conto s Os autore s dest e Fadas no Divã, o casal
infantis2 que , a partir da s adaptaçõ e s feitas no Diana e Mário Corso, sabe m de tud o isso. Na linha
sécul o XIX, passara m a inte- grar a rica mitologia inaugurad a pe l o psicanalista austríac o Brun o
universal, n ã o aprese ntav a m a riquez a simbólica Bettelheim4, afirmam q u e a capacidad e d e
q u e faz do s conto s d e fadas u m de positári o d so br e vi vê n c i a d o s m e l h o r e s conto s d e fadas, q u
e significações inco nscient e s abert o à e continua m e n c a n t a n d o crianças da s geraçõe s do
interpretaçã o psicanalítica. Na verdade , eles n e m era m s c o m p ut ad or e s , videogame s e jogos d e RPG.
destinado s especificament e à s crianças, n e m parece c o n s i s t e e m s e u p o d e r d e si m b o liz a r e
m aliados a uma pedagogi a iluminista. "Longe de "resolver" o s conflitos psíquico s incon scient e s
oculta r su a mensage m co m símbolos , o s q u e aind a dize m respeit o às crianças de hoje. A
contadore s d e histórias do sécul o XVIII, na leitura da p e s q u i s a d e t a l h a d a e d eli ca d a q u e
França, retratavam um m u n d o de brutalidad e nua o casa l Cors o co n d u z ao long o dest e livro no s
e crua3 ", escrev e Robert Darnton . faz ver q u e o atual impéri o da s imagen s n ã o
A função das narrativas maravilhosas da retirou a força da s narrativas orais.
tradição oral poderia ser apena s a de ajudar os É provável q u e a s técnicas d e transmissã o
habitantes de aldeias camponesa s a atravessar as oral, q u e n a falta d e i m a ge n s visuai s a p e l a m
longa s noites de inverno. Sua matéria? Os perigos do a o p o d e r imaginativ o do s p e q u e n o s ouvintes ,
mu ndo , a crueldade, a morte, a fome. a violência do s sejam at é hoje c a p a z e s d e conecta r a s
ho men s e da natureza. O s conto s populare s p r é - criança s a o e l e m e n t o maravilhoso e à
m o d e r n o s talvez fizessem po u c o mais do q u e multiplicidade de sentidos q u e caracteriza m o
nomear os medos presente s no coraçã o de todos , mito em toda s as culturas e em toda s a s épocas
adulto s e crianças, qu e se reunia m em volta do fogo , formando , n a expr essã o d o s autores , u m
en q ua n t o os lobos uivavam lá fora, o frio recrudescia " a c e r v o c o m u m d e h i s t ó ri a s " a t r a v é s d o
e a fome era um espectr o capa z de ceifar a vida q u a l a h u m a n i d a d e re c on he c e a si mesma .
do s mais frágeis, mê s a mês . Nesse sentido , o s autores , q u e t a m b é m sã o
A s m oderna s versõe s do s conto s d e fadas, pais e c on ta d or e s d e histórias, tê m a sabed ori
qu e encantara m tant o nosso s antepassado s a d e nã o esgotar pela explicaçã o psicanalítica todo s
q u a n t o a s crianças de hoje, data m do sécul o XIX. os elemento s q u e c o m p õ e m a magia d o s conto s
São tributárias da criação da família nuclear e da d e fadas. Pudera : Dian a e Mário Cors o n ã o
invenção da infância tal c o m o a c o n h e c e mo s hoje. entrara m n o m u n d o da s histórias infantis po r pur o
Isto implicou: interesse intelectual; entrara m co n d uzi d o s pela s mão s
d e sua s du a s filhas. Por isso mes mo , sabe m o
1. a progressiva exclusão do s pe q ue n o s do q ua n t o é ingênu a a prete nsã o de se p r o p o r um a
m u n d o d o trabalho , n a m e di d a e m q u e a únic a chav e d e e n t e n d i m e n t o par a a s histórias,
Rev oluçã o Industrial criou espaço s de produçã o uma vez q u e a s crianças sabe m utilizar o s
separado s do espaç o familiar (o segund o era conto s à sua maneir a e segund o sua s
característico da s organizações do trabalho necessidades :
artesanal e campesino) ; "com o era usad o o mito na s sociedad e s antigas. (...)
2 . o s ideai s iluminista s e o s n o v o s c ód ig o s A criança é garimpeira , sempr e p r o c u r a n d o
civis trazidos pela s revoluçõe s burguesa s pepita s n o mei o d o cascalh o n u m e r o s o q u e lh e
passara m a reconhe ce r as crianças c o m o é servid o pela vida5". Além disso, c o m o
sujeitos, co m direito tant o a p ro te ç õe s legais psicanalistas, compartilha m da paixã o da
específica s q u a n t o a o r e c o n h e c i m e n t o d e um psicanálise pela fantasia, resolutiva de conflitos ,
a subjetividad e diferen • ciada d a d o s adultos . constituti v a d e i d e n t i d a d e s , criador a d e espaço
s psíquico s tã o reais e potente s q u an t o a dita
Assim, a infantilização da s narrativas tradicionais, realidad e da vida. Os psicanalistas leva m a
tra nsf or m a d as nos atuais " cont os de infância a sério. No cas o de Diana e Mário Corso , à
fadas", é paixã o pel o univers o infantil soma-s e o gost o literário
pelo s conto s

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D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s
o
publicitárias. Nossa s criança s continua m interessada s

d e fadas . Co m isso , o s a u t o r e s c u m p r e m a
mai s i m p o r t a n t e da s cinc o condiçõe s
proposta s p o r Fernando Pessoa par a um crítico
literário: a simpatia.

Tem o intérprete qu e sentir simpatia pelo


símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta,
irônica, a deslocada - todas elas privam o intérprete da
primeira condição para poder interpretar.6

Munidos d e indiscutível simpatia po r se u


objeto, na interface entr e a psicanálise e a literatura, os
autore s vêm contribuir co m a ousad a propost a de
pr ee n ch e r um vazio na área da crítica de
literatura infantil no Brasil.
Diana e Mário Cors o nã o sã o
tradicionalistas . Reconhecem que , nas últimas
décadas , o po d e r da s comunicaçõe s n o m u n d o
globalizad o acelero u u m trabalho de transmissão
de histórias qu e levou séculos d e tradiçã o oral , n
o O c i d e n t e . A e xt e n s a anális e apresentada neste
livro contempla , desd e os tradicionais contos d e fadas
coletado s n a Europ a pelo s irmão s Grimm e po r
Charles Perrault, até os atuais e cinemato • gráficos Harry
Potter, Turma da Mônica e O Senhor dos Anéis,
en c err a n d o c o m os herói s do s melhore s cartuns
contemporâneos : Mafalda, Peanuts e Calvin.
Segundo o s autores , d o p o n t o d e vista d o
ouvint e infantil, n ã o faz muita diferença se a história é
passad a o u contemporâne a . O s conto s qu e
aparentement e nã o correspondem a questõe s do m u n d o
atual interessam â criança, sempr e abert a a toda s
as possibilidade s da existência e capa z de identificar-
se co m as personagen s mais bizarras e as narrativas mais
extravagantes. Com o a criança aind a n ã o delimito u
as fronteiras entr e o existent e e o i m a g i n o s o ,
entr e o verdadeir o e o verossímil (fronteiras
estabelecida s , e m parte , pel o recalque da s
representaçõe s inconscientes) , todas as possibilidades
da linguagem lhe interessam para compo r o
repertório imaginário de qu e ela necessita para aborda r os
enigmas do m u n d o e do desejo.
Se algun s do s mistérios envolvido s na s
antigas narrativas maravilhosa s - os mistérios da
fertilidade, a d e p e n d ê n c i a h u m a n a e m r e l a ç ã o
ao s cic l o s d a natureza, o d es co n h eci m e n t o de
fenô meno s naturais, etc. - hoje p a r e c e m su p er a d o
s pel a tecnociênci a e pelo acess o q u e toda s as
crianças tê m à informaçã o televisiva, isto n à o
significa q u e a zon a estranhamente familiar da s
manifestaçõe s d o inconscient e tenh a s e reduzido
ao discurs o científico e à ousadi a da s imagen s
17
e m se u própri o univers o d e mistérios, q u e
sobreviv e à a p ar e nt e transparênci a da era das
com unica çõe s , co m se u imperativ o d e t u d o
mostrar, t u d o dizer, tud o exibir.
Mais, ainda : est e m u n d o q u e p r o p õ e trazer
toda a riqueza subjetiva para um a zon a de plen a
visibilidade p a r e c e convence r meno s a s
criança s d o qu e o s adolescente s e
a d u l t o s . A s c r i a n ç a s c o n t i n u a m interessada s
no mistério; se ele se e mp o br e c e , elas o
reinventam . D a mesm a forma, sã o fascinadas po r
tud o o q u e despert e nela s a vasta gam a de
sentimento s de m ed o . O m e d o é um a da s
semente s privilegiadas da fantasia e da invenção ;
gr a n d e parte del e prové m da s mes ma s fontes d o
mistério e d o sagrado . O m e d o p o d e ser p r o v o c a d o
pel a p e r c e p ç ã o d e noss a insignificância diant e do
Universo, da fugacidad e da vida. da s vastas zona
s sombria s d o d es c o nh ec i d o . E u m
sentiment o vital q u e no s proteg e do s riscos da
morte . Em tunçã o dele , desenvol ve mo s ta m bé m o
sentid o d a curiosidad e e a disposiçã o à coragem , qu
e supera m a mera função d e defes a d a
sobrevivência , poi s possibilita m a expansã o
da s pulsõe s d e vida.
As crianças procura m o m edo . As histórias
infantis inclue m sem pr e eleme nto s assustadore s
q u e ensina m os p e q u e n o s a c o nhece r e enfrentar o
med o . Curioso s e e xc ita d os , o s pequeno s
ex ig e m q u e o s a d u l t o s repita m várias veze s
a s passagen s mais amedronta - cloras do s
conto s de fadas. A madrasta malvada da
Branca de Neve é mais popula r do q u e os
b o n d o s o s anõezi nhos , assim com o a bruxa comedor a
d e crianças de João e Maria ou o t e n e b r o s o
Dart h Vader , do c o n t e m p o r â n e o Guerra nas
Estrelas.
Na primeira part e do livro, os autore s
analisam conto s infantis q u e conte mpla m o m e d
o d a agressivi- d a d e sexua l do s pai s
incestuos os , assi m com o d a rejeição
inconscient e d e alguma s mãe s po r sua s crias. O
tem a da s madrasta s invejosas e má s - em
Branca de Neve e Cinderela, po r exempl o
- interess a às crianças p o r q u e no meia m
indiretament e a rivalidade da s mãe s em relaçã o a
sua s filhas, q u e o mito da perfei- çã o do amo r matern o
obriga a recalcar. A sobrevivência d e diversa s
histórias d e a b a n d o n o da s crianças po r
mães/ ma drasta s egoístas, na linha de João e
Maria e Pequeno Polegar, indica q u e as criança s
querem saber d o s limites e d a ambivalênci a d o
a m o r mater no . A s o b r e v i v ê n c i a d e u m a d a s
história s infanti s mai s popular es , a saga d o
p o b r e patinh o feio expuls o d a convivênci a co m
o s irmão s b e m nascidos , indica, na s palavra s do
s autores , q u e tod a a criança c o n he c e a
Fada s n o Di v a - Psi c a ná l is e n a s H is tó ri a s Infant i s

experiênci a d e sentir-s e u m a "estranh a n o "a mort e imaginária da criança, pois esta sent e qu e
ni n ho " . Ouvir histórias é u m do s recurso s d e q u e só existe e nq u an t o sua palavra valer"7.
a s crianças dispõe m para desenha r o map a Talvez po r isso, o inesgotável potencial (re)criativo
imaginári o q u e indica seu lugar, na família e no abert o pelas narrativas infantis resida na sabedoria com
mundo. q u e apresenta m a função paterna , reduzid a ao
Histórias d e crianças q u e sae m o u sã o traço mínimo , indispensável, a partir do qual é a criança
expulsa s de suas casas, ou qu e perde m o rum o de quem tem qu e se encarrega r do resto do trabalho. O
volta depoi s de um passeio mais ousad o e se depara exempl o do Mágico de Oz é reto mad o co m muita
m co m perigos inimagináveis, funcionam com o sensibilidade pelo s autores , s e g u n d o os quai s a
antecipaçõe s qu e lhes permite m domina r o m e d o d o falta de magia do mago é o ponto mais mágico da
"mund o cruel" que , mais dia, me no s dia, terã o de história (o u do filme), poi s indica q u e o pai nã
enfrentar. Nestas incursõe s pel o m u n d o proibid o o é tã o p o d e r o s o quant o se esperava . Basta q u e
long e d a proteçã o familiar, o s melhore s conselho s seja "um h o m e m bom , mas u m ma u mágico " 8 ,
- com o os do Grilo Falante, da história de de m o d o a q u e a criança seja obrigada a re s ol v e
Pinóquio - existem para nã o ser obedecido s . De toda s r s o z i n h a o s p r o b l e m a s q u e a vid a lhe
estas, pens o qu e a soluçã o mais feliz e men o s moralista apresent a. Nesse sentido ta m b é m, as
é a de Peter P a n , meni n o qu e fugiu de casa i n ú m e r a s aventura s infantis q u e termina m c o m
exatament e par a perpetua r a utopi a d a um a volta para casa n ã o sã o tã o conservadora s c o m
infância , associada ã liberdade quas e sem limites qu e o p o d e m parecer. C o m o n a p e q u e n a novela d o
a fantasia permite. Com o observam os autores , em Bo m Leão, criada por Ernest He ming wa y ( q u e n ã o
Peter Pan, ao contrário da história de Pinóquio, o integra est e livro), aquel e qu e retorna à casa depoi s de
m u n d o da fantasia nã o é um desvio errado em relação uma longa aventura nunca será o m e s m o q u e um dia saiu
às norma s do m u n d o adulto: ele indica qu e a criança para con hece r o mundo . No entanto , a viagem de
precisa desejar crescer, para qu e isto aconteça. Por outr o iniciação necessária para
lado, a Terra do Nunca, ilha da utopia o n d e as q u e tod a a criança conquist e o m u n d o à su a
crianças nunc a crescem , nã o tem ne n h u m a maneira ne m sempr e leva para muit o long e de
semelhanç a co m o paraís o bíblico: o prazer d e casa. A análise d a sag a contemporâne a d e
habitá-la está ligado a o goz o d o perigo, d o med o e H ar r y P o tt e r revela , s e g u n d o o s autores , o
da aventura. Não interessa às crianças a fantasia de um pape l d a escola c o m o espaç o de transiçã o da
paraíso pacificado, sem conflitos. Elas desejam o infância para a adolescênci a - ou com o o luga r
medo , o praze r do mistério e do desafio, ao s o n d e é possíve l viver est e p e r í o d o q u a s e
quais responde m co m a máxima potênci a de suas impossível da vida, a chamad a pré-adolescência .
fantasias d e onipotência . No último capítul o de Fadas no Divã, o
De toda a gama de ameaça s e perigos qu e assolam e leitor será p re s en te a d o co m um a surpresa : um a
fascinam o m u n d o infantil, é important e destacar história qu e o pai-narrado r Mário Cors o criou
o desampar o das crianças diante da s fantasias inconscien• em parceri a co m sua s dua s filhas, hoje
tes do s pais, às quais estão particularmente adolescente s . C o m o toda s a s histórias d o gê n er o
exposta s pel o fato de serem, para elas, perigo s maravilhoso , esta t a m b é m conté m ele mento s
irrepresentáveis. Estes nã o se resume m às obscura s simbólico s q u e remonta m a questõe s sobr e a orige
fantasias incestuosas do s adultos ; engloba m també m m familiar da s menina s ( q u e nã o vo u antecipa r aqui
tod a um a gam a d e possibilidades de resposta à par a n ã o estragar o praze r do s leitores). Contar
pergunt a sobr e o sonh o parental: o qu e o Outr o história s n ã o é a p e n a s u m jeito d e da r
que r de mim? Pergunta cuja resposta é impossível de pr az e r à s crianças: é u m m o d o d e ampará-la s e m sua
ser atendida pela criança. Com o lembram Diana e Mário s angústias, ajudá-las a no mea r o q u e n ã o podi a
Corso, ao analisar a história de Pinóquio: a paternidad ser dito, amplia r o espaç o da fantasia e do pensamento
e é o sonh o de fazer de algué m a marionete de nosso : a ficção, escrev e C or s o , "acab a send o um a
s próprio s sonhos . E acrescenta m que , da posiçã o de saíd a p a r a q u e c er t a s verdade s s e imponham".
9
filhos, "somos o delicad o equilíbrio entre nã o encarna r
o qu e se esper a de nós, e (viver) levand o e m Contar histórias é ainda um a da s melhores maneiras
cont a ex at a m e nt e isso". Nesta balanç a precária, o de ocupa r o lugar geracional qu e cab e aos pais, junto a
adulto nã o p o d e vencer: sua vitória implicaria seu s filhos - lugar q u e os adultos hoje relutam em ocupar,
no afã de se conservar eternament e adolescentes .
Se cad a filho te m qu e reconta r a própria história à su a

18
Di a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o Co r s o

maneira para fazê-la sua, os autores apresentam sua versão


particular do s pais suficientemente bons , de
Winnicott, como pais suficientemente narradores: estes
são capazes de tecer uma teia de sentido em torn o das
crianças, e ao m e s m o t e m p o deixá-l a in c o m pl et a
par a q u e esta s continue m a tarefa de produzi r
o romanc e familiar apropriado a suas pequena s
vidas.
A associaç ã o entr e os cui da d o s parentai s
e a narratividade me fez lembrar o relato do
romancista argentino Ricardo Piglia sobr e os índios
sul-americanos ranqueles, dizimados no final do século
XIX. Viviam em tribos nômad es , se m relaçõe s
fixas de autorida d e e obediência. Entre os
ranqueles. o pode r nã o advinha da força de coação,
mas da capacidad e narrativa do chefe.

Nessa s s o c i e d a d e s , q u e s o u b e r a m p r o t e g e r
a linguagem da degradação qu e as nossas lhe infligem,
o uso da palavra, mais do que um privilégio, é
um dever do chefe. O pode r outorgad o a ele
do uso narrativo da linguagem deve ser
interpretado com o um meio que o grup o tem de
manter a autoridade a salv o d a vi o l ê n c i a
c o e r c it i v a . (...) com o u m personagem de
Kafka, esse homem , prisioneiro de seus súditos,
continua, todos os dias, construindo seus belos
relatos de ilusão. E porque , apesar de tudo,
continua falando, todos os dias, ao amanhece r ou
ao entardecer , consegu e fazer co m qu e suas
histórias entrem na grande tradição e sejam lembradas
pelas gerações futuras. Até que , por fim, um dia,
as pessoas o abandonam : alguém, em outro local, nesse
momento , está falando em seu lugar. Seu
poder, então, acabou.1 0
C o m o o antig o chefe ranquele, os pais
narrativos servem-s e d e seu p o d e r d e dize r
coisas significativas a seu s filhos, dia a p ó s dia, até
percebe r q u e eles estã o d e ix an d o de lhe s da r
ouvidos . É hor a de deixá-los falar po r si
mes m os . O a m o r entr e ele s continu a - ma s seu
p od e r acabou .

Notas
1. Apud Robert Darnton, O Cirande Massacre de (kitos
(e Outros Fpisódios da História Cultural
Francesa). Rio de Janeiro : Graal, 1986.
Traduçã o de Sônia Coutinho.
2. Moder nos , e m b or a já tradicionai s para
nossa s crianças, porqu e são versões posteriores
ao século XVII.
3. Darnton. cit., p. 29.
4. Autor do consagrado A Psicanálise dos Contos
de
Fadas.
5. M. e D. Corso. p. 29
6. Apontamento de Fernando Pessoa utilizado
como nota preliminar publicada pela
primeira vez na edição da Obra Poética do autor
pela editora Aguilar, Rio de Janeiro . 1960. As
outra s qualidad e s do de ci fr ad o r d e
símbolo s seria m a i nt ui çã o , a
inteligência, a compreensã o e a graça.
7. p. 219 e 224.
8. p . 248 e 250.
9. p. 307.
10. Ricardo Piglia, O Laboratório do Esctitor: Sao
Paulo: Iluminuras . 1994, p. 90-91 . Traduçã o
de Josely Vianna Baptista.

19
Apresentação

A psicanálise sente-se â folclóricas sobreviventes. Pretendemos traçar hipóteses


vontade n o terren o das a respeito do quê as mantêm vivas até
narrativas , afinal, trocando agora, que fantasias poderiam estar animando-as.
em miúdos, uma vida é uma Embora muita coisa tenha mudado no reino dos
história, e o que contamos homens, parece que certos assuntos permaneceram
dela é sempre algum tipo de reverberando através dos tempos. Por exemplo, os
ficção. A história de uma temas do amor, das relações familiares e da construção
pessoa pode ser rica em das identidades masculina e feminina ainda podem se
aventuras, reflexões, frus• inspirar em narrativas muito antigas. Essas velhas
trações ou mesmo pode ser insignificante, mas sempre tramas devem ter achado razões para existir em
será uma trama, da qual parcialmente tempos tão distintos, senão teriam perecido.
escrevemos o roteiro. Freqüentar as histórias São problemas e soluções de outrora, mas que
imaginadas por outros, seja escutando, lendo, assistindo surpreendentemente encontraram lugar no interesse de
a filmes ou a televisão ou ainda indo ao teatro, gente novinha em folha. Por quê?
ajuda a pensar a nossa existência sob pontos de A segunda questão busca saber se os contos de
vistas diferentes. Habitar essas vidas de fantasia é uma fadas podem evoluir. A resposta a essa
forma de refletir sobre destinos possíveis e cotejá-los interrogação passa pela identificação daqueles
com o nosso. Às vezes, unia história ilustra que seriam os sucedâneos modernos dessas
temores de que padecemos, outras, encarna narrativas centenárias. Se pudermos analisar histórias
ideais ou desejos que nutrimos, em certas infantis mais recentes, ma s q u e já se tornara m
ocasiões ilumina cantos obscuros do nosso ser. O certo é clássicas , nascida s e consagradas ao longo do
que escolhemos aqueles enredos que nos falam de século XX, buscando nelas as novas formas qu e
perto, mas não necessariamente de forma direta, pode a fantasia encontrou de se conjugar, talvez
ser uma identificação tangencial, enviesada. possamos compreender melhor algu• mas coisas Sobre
A paixão pela fantasia começa muito cedo, as crianças, as famílias e as pessoas do nosso tempo.
não existe infância sem ela, e a fantasia se alimenta da Através das fantasias que embalaram os sonhos das
ficção, portanto não existe infância sem ficção. Observamos gerações mais recentes, deve ser possível saber algo
que, a partir dos quatro últimos séculos, quando a mais sobre o tipo de gente que estamos nos
infância passou a ter importância social, as narrativas tornando.
folclóricas tradicionais, os ditos contos de fadas, A importância dos contos tradicionais
constituíram-se numa forma de ficção que foi para a construção e o desenvolvimento da
progressivamente se direcionando para o público subjetividade humana já foi estudada e demonstrada,
infantil. Hoje, os contos de fadas são considerados coisa especialmente por Bruno Bettelheim em seu livro A
de criança, mas curiosa• mente muitos deles continuam Psicanálise dos Contos de Fadas. Essa obra foi
estruturalmente parecidos com aqueles que os uma experiência pioneira em interpretar
camponeses medievais contavam. Como foi que esses exaustivamente os contos de fadas a partir da
restos do passado vieram parar nas mãos das crianças de teoria psicanalítica, ressaltando que seu uso pelas
hoje? crianças contemporâneas visa a ajudá- las na
O presente livro organiza-se ao redor de elaboraçã o de seus conflitos íntimos. Ele
duas questões. A primeira é direcionada a essas acreditou encontrar na eficácia psicológica
narrativas dessas
Fada s n o D i v a - Ps ic a n ál is e n a s His t óri a s Infa nt i s

tramas o motivo de sua p er enida d e e, co m bas e ness a questões sobre os sonhos e pesadelos dos
hipótese , discorreu sobr e um a série d e sere s h u m a n o s .
características d a infância. Inspirad o ness e trabalh o O ut r o fator t a m b é m estimulo u ess e estudo
d e Bettelheim, noss o estud o compartilh a d e seu . O território da análise da ficção dirigida à infância é
c a m p o d e interesse e de suas questões , ma s visa a lugar d e u m paradoxo : preocupamo-no s
seguir um pass o adiant e dess a pesquisa , ou seja, crescent e e obsessivament e co m a s crianças,
verificar se histórias infantis do sécul o XIX e XX sã o nunc a tant o inves• timent o foi feito em sere s tã o
usada s pela s crianças de forma similar. Além disso, nova s p e q u e n o s e dele s tanto se esperou . Além disso,
histórias r es p on d e m a nova s n e c e s s i d a d e s subjetivas , cad a vez mais se acredita nas influências precoce s d a
a s fantasia s t r a d u z e m a s novidade s existentes n a formaçã o n o destin o do s seres h u m a n o s . Por isso
vida d o s joven s h u m a n o s , ma s q u e modificações sã o m e s m o é intrigante q u e tenhamo s tão p o u c o
essas? es pa ç o para a crítica à ficção q u e lhes é
Na primeira parte do livro, enfocamo s conto s de oferecida . E m contrast e c o m o v ol u m e d e
fadas tradicionais tal c o m o fez Bettelheim. Dedicam o estudo s d ed ic a d o s â literatura, â mídia e às
s u m capítulo a o re-estud o d e seu livro, on d e apontamo s artes c o m o um t o d o , parec e qu e pouco s
a s interpretaçõe s interessantes q u e ele no s legou, profissiona i s e s t ã o em • p e n h a d o s e m decifrar o s
ma s també m as divergências, fazemo s críticas efeitos sobr e a s crianças d o lequ e cie cultura q u
particular• ment e a certas idealizações co m q u e o e hoje lhes é ofertado . Q u a n d o esse s estudo s sã
auto r cerco u o problema . o feitos, salvo raras exceções , tende m a ganha r
Tanto o m u n d o do s conto s de fadas, q ua n t visibilidade públic a a pe n a s as interpretaçõe s
o a oferta atual de ficção para crianças sã o universo s catastrofistas q u e surge m s o b forma d e alerta,
muit o extensos , e isso se reflete ao long o do denun • ciand o os nefastos efeitos q u e seria m
livro, o n d e també m contamo s e analisamo s muitas gerado s a partir de um a infância marcad a pelo
narrativas, o q u e basicament e s e constitu i n o s games e d e s e n h o s animad o s violentos.
re ch e i o d e n o s s o trabalho. Q u e m nã o está habituad o Mais d o q u e oferece r soluçõe s par a o s
a o tema p o d e julgar excessiv o o númer o d e enigma s q u e as trama s narrada s apresenta m , noss o
história s examinada s par a responde r questõe s objetivo foi incentivar ess e cami nh o e unir
ap ar e nt e m en t e tão simples, poré m nã o acreditamo s esforços co m aquele s críticos q u e já o estã o
possível u m est u d o dess e assunt o se m essas trilhando . Para isso, usa m o s a ferramenta da qua l
referências múltiplas. dispo mo s - a psicanálise -, ma s um a anális e
Certament e podería mo s ter mantid o u m purament e psicanalític a certament e é
de b at e basicament e teórico co m o leitor, ma s reducionista , t e nt ar e m o s s e m p r e q u e possíve l
o pta m o s po r u m ca minh o demonstrativo . Através abrir o leque . Seria um a deslealdad e tratar qualque r
d e um a ampl a gam a de exemplo s de histórias fantasia d e m o d o simplista , é n e ce ss ár i a u m a
infantis, tradicionais e m o d e r n a s , e da leitur a r e l a çã o d e respeit o co m o caráte r s u r p r e e ndent e d e
psicanalíti c a d o c o n t e ú d o inconscient e q u e elas cad a história, assi m c o m o u m a assu mid a hu mildad e
pode m evocar , p r e t e n d e m o s contribuir para d o q u a n t o su a riquez a tr a ns ce n d e noss a
elucidar as razõe s de sua atualidad e e consagração . c a p a c i d a d e d e anális e
E m termo s d e linguagem , e m p e n h a m o - no s e m Essas histórias sensibilizam q u e m as escuta
desdobr a r o s conceito s psicanalíticos d e forma qu e s e em diversos planos, e certament e nã o
torne m compreensívei s par a o s leitores nã o conseguiremo s dar conta de todos . Por exemplo , o
iniciado s ness a teoria , ma s q u a n t o a o n ú m e r conto João e Maria fa\a da escassez, de alimentos e da
o d e e x e m p l o s n ã o é possíve l economizar , faz expulsã o do lar po r essa c o n tin g ên ci a . A s criança s
part e d a naturez a d o objeto. d a Velha E ur o p a q u e o escutavam entendia m
Com o efeito secundári o d o present e estudo , b e m d o q u e s e tratava, pois a comid a faltava
a anális e d e história s a ca b a s e n d o u m a form a mesmo . Mas a empati a co m um a história se dá em
mai s agradável de entrosament o co m a teoria vários níveis e é provável que , junto co m o tema
psicanalítica, pois aqui s e pod e vê-la e m da fome real, també m fossem tocada s po r outras
funcionamento . Evidente• mente , person agen s d e questões , para as quais toda s as crianças sã o sensíveis,
conto s n ã o sã o pacientes , e n e n h u m dele s receb e co m o a separaçã o da mã e nutridora e o m e d o
algu m tip o d e diagnóstico . Trata- s e a p e n a s d e de ser a b a n d o n a d o pelo s pais. J á um a criança
história s q u e n o s p e r m i t e m a b o r d a r moderna , d e um a família abastada, quiçá n e m saiba
o q u e poss a ser a falta de alimentos , nã o obstant e se
fascina co m a
D i a n a Li c h t e n s t e t n Co r s o e M a n o C o r s o

mesma história, e provavelment e isso será devid o p or q u ê d e d et er m i na d o s conto s tere m s e


às questões mais subjetivas. celebrizado , d u r a d o , permanecid o co m u m
Ainda e m u m outr o p o n t o d e vista, n ú c l e o c o m u m tã o preservado , s e n d o qu e nã o sã o
p o d e m o s supor qu e um a criança brasileira, habitant e da necessariament e muit o m el h or e s d o q u e outros .
periferia miserável d o s centro s urbanos , se escuta r Entre a variad a oferta d e combinatória s de
a história de Joã o e Maria, vai encontra r no fadas, bruxas , am ore s e aventuras , algun s conto s
cont o um a fonte para traduzir a angústi a concret tiveram a sorte de oferecer um a mistura a d e q u a d a
a de ser expuls a de cas a p o r s e u s p a i s e a o us o do s narradore s d e outro s tempos . N os s
a d ú v i d a d i á r i a s o b r e a possibilidade d e ele s o trabalh o busc a c o m pre e nd e r quais desse s
conse guire m trazer comid a o u não; mas , eleme nto s estã o presente s e m u m de te r mi n a d o
a c r e s ci d o a es s e s e n t i d o dir et o , talve z conto , qua l teria sid o o acert o daquel a síntese
compartilhe co m a criança de vida mais abastad particular para q u e ele fosse escolhid o para durar.
a a questão sobr e a posiçã o da mã e nutridora , Uma espéci e de análise d o p ro d ut o para entende r seu
cujo seio ela també m tev e de deixar. É prováve l qu sucesso , à s veze s secular, n o m er ca d o d a ficção.
e a empati a com o s pe rs o n ag e n s dess e cont o ocorra e Q u a n t o às narrativas mais recentes , o critério
m doi s níveis foi similar, poi s dedica m o- no s basicament e àquela
(social e íntimo ) par a toda s as criança s s qu e j á m os tr ar a m sinai s d e c o n s a g r a ç ã o junt
brasileiras, afinal, há Jo ã o s e Marias em t o d o s os o a vária s geraçõe s d e crianças. Por isso,
semáforo s do país, entã o co m o nã o pensa r e m ser trabalhamo s alguma s ficções nascida s c o m o sécul o
abandonado ? Além disso, i n d e p e n d e n t e m e n t e d o XX, q u e aind a sã o p o p u • lares, e analisamo s també
q u a n t o a realidad e d a pobreza se impõ e para as m alguma s histórias prove • niente s da s últimas
diferentes cama da s sociais, não h á mã e q u e n ã o décadas , cujas personagen s e tramas s e tornara m d e
faça questã o d e lembra r a seu s rebentos, q u a n d o do míni o público , s e n d o conhecida s muit o além
eles e s n o b a m o alimento , q u e h á outras crianças d e sua existência escrita, d es e nh a d a o u filmada.
q u e passa m fome. Este livro inclui també m um apêndice ,
Co m o forma d e estrutura r o livro, o p t a m o s o n d e é contad a e analisada um a história familiar
po r agrupar o s conto s t e n d o c o m o eix o a s criada para nossa s filhas, n ã o é u m c o nt o
fantasias q u e acreditamos q u e suscitam, diss o resulto u folclórico, ne m u m sucess o de público . A única
q u e alguma s histórias e p e r s o n a g e n s clássicas fosse tradição a q u e ela pertenc e é a da p e q u e n a família
m c o n v o c a d a s e outras não . Toda a escolha implica nuclea r q u e constituímos, sua única popularida d e é
perdas, certament e o s leitore s e n c o n t r a r ã o omissõe entr e as crianças filhas do s amigos q u e recebera m um
s qu e c o n s i d e r e m imperdoáveis . A seleçã o de a cópi a dessa historinha. mas sua participaçã o
história s é t a m b é m a q u e nos foi possível, poi s no livro é justificada pela possibilidad e de
incluímo s aquela s sobr e as quai s sentíamos q u e exemplificar e explicar c o m o determi na d o cont o é
tín h a m o s alg o a dizer, e n t e n d e n d o - s e por isso a s escolhid o e construíd o e n q u a n t o part e d a
q u e tocara m e m algu m p o n t o r e m a ne s • cente da men sage m
noss a infância e q u e deixo u resto s na vida (inconscient e ) q u e o s pai s passa m ao s seu s
adulta. Certament e a parentalida d e ajudo u a precipita r filhos. Num a história inventada , fica mais fácil
essas escolhas , já que foi quand o no s c o m p r e e n d e r e demonstra r a transparênci a entr e os
de sc o br i m o s n o pape l d e pai s narradore s q u e seu s elem ent o s e o inconsciente , tant o d o
tod a a d i m e n s ã o desse p e d a ç o d a infância narrado r q u a n t o d e su a platéia.
aflorou. Entre a s herança s simbólicas q u e passa m d e
E m g er al , q u a n d o c o n t a m o s u m c o n t o pais par a filhos, c e r t a m e n t e , é d e inestimá ve l
n o s apropriamo s dele , o subjugamo s ao s nosso s valo r a importância dad a à ficção no context o de
interesses. Para tanto , um a part e se conserv a um a família. Afinal, um a vida se faz de histórias - a
(um a espéci e de núcleo da história), ma s outr a é qu e vivemos, as q u e contamo s e a s q u e no s
acrescentada , po r isso, a s histórias n ã o p e r m a ne c e m contam .
exatament e iguais co m o passar do s anos . É isso
q u e torn a tã o instigante o
Primeira
Parte
- HISTÓRIAS CLÁSSICAS -

"...as fábulas são verdadeiras. São, tomadas em conjunto, em sua sempre repetida e variada casuística de
vivências humanas, uma explicação geral da vida, nascida em tempos remotos e alimentada pela lenta ruminação
das consciências camponesas até nossos dias; são o catálogo do destino que pode caber a um homem e a uma
mulher, sobretudo pela parte da vida que justamente é o perfazer de um destino: a juventude, do nascimento que
tantas vezes carrega consigo um auspício ou uma condenação, ao afastamento de casa, às provas para tornar-se
adulto e depois maduro, para confirmar-se como ser humano."
Ítalo Calvino1
servia m a uma parcel a restrita de pessoas ; ele s
nascera m par a

A primeira parte do livro


destina- s e basicament e a o
leitor q u e q u e i r a s a b e r m a i
s sobr e o s conto s de
fadas folclóricos e a s razõe s d
o seu encanto . Nós n o s
interrogamo s sobr e a s
co n di ç õe s d a eficácia
dessa s narrativas junto à
subjetividade infanti l e p o r
que algumas
delas p e r d u r a m at é hoje. Afinal, entr a geração ,
sai geração e seguimo s repetind o as mesma s histórias
para as crianças. Por vezes , dam o s nova s roupagen s a
velhas tramas; em outras , modificamo s o desfecho ,
o ritmo, o estilo, ma s muitas dela s sobrevivera m quas e
idênticas a si mesma s ao long o de séculos . Isso é
absolutamen t e surpreendent e n u m m u n d o cad a ve z
mai s mutante .
E i nt er es sa n t e q u e e ss e s c o n t o s t e n h a m
sid o relegados à infância, já q u e na su a orige m n ã o
todos . Dur ant e séculos , faziam part e d e
m o m e n t o s coletivos , e m q u e u m b o m c o n t a d o r
d e história s emocionav a su a platéia, incluind o gent
e d e toda s a s idades . Co m o passa r do s tempos ,
foi diversificando- se a forma da narrativa, através da
popularizaç ã o d o s livros - tant o em ediçõe s primorosa s
destinada s à corte e à burguesi a nascente , q u a nt o e m
brochura s baratas , pa r a s e r e m c o n s u m i d a s p o r
um a sociedad e e m crescent e process o de
alfabetização ou m e s m o através do teatr o popular .
Mais recentemente , o cinem a e a TV foram
d o m i n a n d o a cena . I n d e p e n d e n t e m e n t e do m ei o ,
fomo s assistind o a u m d e s l o c a m e n t o : essa s
formas d e narrativa mágica foram send o
e m p urr a d a s par a o do míni o infantil.
Q u a n d o essa s histórias faziam part e d a tradiçã
o oral, o m u n d o domésti c o n ã o era tã o dissociad
o d o rest o d a sociedade , trabalhava-s e n u m lugar q u e
er a a extensã o d a casa. Nã o havia um a distância clara
entr e casa e trabalho , n e m entr e o m u n d o da
infância e o
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s His t ór i a s Infanti s

do s adulto s , assi m c o m o t a m p o u c o havi a fazem ec o na infância e a tentativa, a partir desses,


u m a pr e oc u pa ç ã o co m a formaçã o da s crianças, de conjecturar po r q u e as criança s as mantivera m
poi s n e m havia um a clara idéia de q u e a vivas. B e t t e l h e i m demonstra um enfoque
infância, tal qua l a co ncebe m o s , existisse. Na que
partilha ocorrid a posterior• mente , qu e fez co m p od er ía m o s cha ma r d e dar winian o dess a relaçã o bem-
qu e casa e trabalho , adulto s e crianças se su ce d id a , a c r e d i t a n d o q u e a s trama s q u e
separassem , os conto s de fadas ficaram em casa co m sobrevi• v e r a m atravé s do s tempo s fora m
o s p eq u en o s . aquela s q u e oferecia m o p o r t u n i d a d e par a
A partir da mod ernida de , com eço u a have r represent a r conteúdo s d o inconscient e infantil, o u
um a distinçã o e n t r e p r o d u t o s culturai s pa r a seja, a s q u e foram capaze s d e s e ad a pt a r à s
a d u l t o s e produto s para crianças, noss o t e m p o n e c e s s i d a d e s atuais . Par a ele , h á u m a s e l e ç ã o
levou isso a o extremo , e cad a idad e passo u a ter seu s ativ a p o r p a r t e d a s c r i a n ç a s e sua s famílias,
produto s b e m delimitados. A cultura assimilou as n o sentid o d e escolhe r e usa r certa s histórias c o m o s e
leis do mercado , i n c o r p o r a n d o s u a s fossem u m e s q u e m a n o qua l s e apoia r para
p r e r r o g a t i v a s d e c o n s u m o e publicidade . Fm realizar sua s elaborações . Cad a história conteri a
função da s intençõe s pedagógic a s e m e r c a d o l ó g i c a s uma m e n s a g e m , u m desafi o e u m desfech o q u
, pa s s a e n t ã o a se r i m p o r t a n t e a definição e par a a criança interess a ouvi r e m d e t e r m i n a d o
de um público-alvo . Graça s a isso, o grau de m o m e n t o d e su a vida. E m linha s gerais ,
especializaçã o da cultura produzid a para a infância concordamo s co m esse p o n t o de vista e
t o r n o u - s e al g o a se r e s t a b e l e c i d o c o m te nt a m o s a c o m p a n h a r ess e auto r à altura d a
p r e c i s ã o . Levando em cont a a psicologia de cad a époc a importânci a d e sua s elaboraçõe s , de di c an d o - no s a
da vida, t e m o s oferta s culturai s d i f er e n c i a d a s trabalha r um a série d e conto s d e fadas, inclusive algun s
pa r a b e b ê s , criança s p e q u e n a s , escolares , p r é- so b r e o s quai s el e j á escrevera , assi m c o m o
p ú b e r e s , adoles • centes , adulto s solteiros, famílias outra s histórias c o n t e m p o r â n e a s .
e assim po r d i a n t e / Esses produto s culturais par a A obr a de Brun o Bettelhei m foi a pe d r
a infância geral• a fun• damenta l d a p r o d u ç ã o analítica sobr e o s
ment e sã o aceitos se m reservas pel o público-alvo , ma s conto s d e fadas, ensinand o-no s o s mecanismo s d
sem pr e estã o so b a suspeita adulta de sere m e sua eficácia n a vida da s crianças. P o d e m o s
preju• diciais ou deformador e s da ment e infantil. Ao inclusive dize r q u e seu text o foi decisivo par a a
contrário, o s conto s d e fadas atualment e parece m legitimação do s conto s de fadas e n q u a n t o digno s
estar isentos dess e tipo de desconfiança, e é d e fazer part e d a formaçã o da s criança s
praticament e consen • sual o apreç o a esse tipo de contemporâneas . Vive mo s tempo s m ui t o
narrativa. O únic o se n ã o é um certo filtro quant o a psicológicos , no s quai s há um a p r e o c u p a ç ã o a
passagen s mais cruas. Alguns conto s foram submetido s a priori co m o s efeitos d e t o d o o estímul o q u e s e
um a certa censura,3 e mbor a possamo s dizer qu e seu oferec e à s crianças . Bettelhei m elevo u o s c onto
c o n t e ú d o básic o foi mantido . Hoje eles fazem part s d e fadas a o estatut o d e recomendáveis , o q u e
e da e d u c a ç ã o desejável, assim co m o aprende r a certament e ta mbé m contribui u de algum a forma
conta r e se alfabetizar, e é impensáve l qu e uma criança par a su a sobrevivênci a e p o pu la ri da d e .
cresça e m u m ambient e considerad o estimulador sem Da obra de Bettelheim. ap re n de m o s o métod o
ter entrad o e m contat o jamais co m Chapeuzinho de observa r o diálog o da criança co m o cont o
Vermelho, João e Maria ou Bela qu e lhe agrada, principalment e sua corage m ao
Adormecida. Ne m q u e seja intuitivamente , a atribuir essa escolh a ao s aspecto s estruturais
maio r parte da s pessoa s acredita q u e essa tradiçã o inconscientes . Acre• ditamos, porém , qu e ele
te m algo a dizer. co m p re e n d e u essa relação d e form a alg o
H á muit o par a p e n s a r s o b r e esse s rest o idealizada , imaginand o qu e o s conto s
s d a tradição oral q u e s e perpet uara m n a preservado s eram aquele s qu e desem pen hava m funções
intimidad e d o s lares, passand o a fazer part e da edificantes n o sentid o d o cresciment o o u d a elaboraçã o
formaçã o da s crianças. Q u a n t o ao s presente s de conflitos. Não temo s um a visão tã o otimista
capítulos , c a b e - n o s enfoca r de s d e o únic o ângul assim. Acreditamos q u e muitas histórias a pe n a s
o q u e temo s competênci a par a fazê-lo: a leitura pe r m an e c e m pel o seu caráter merament e ilustrativo ou
psicanalític a do fenômen o e da s histórias. representativo, c o m o u m esque m a imaginário o n d
Seguimo s o s passo s d o psicanalista austríac o Brun o e s e apoia m ele • mento s consciente s e
Bettelheim, que , co m se u livro A Psicanálise dos inconscientes. O q u e cad a trama evoca no leitor ou
Contos de Fadas, criou o caminh o q u e no s inspira: a ouvinte, ou seja, a combinatóri a de elemento s e m
leitura do s aspecto s psicológico s q u e nessa s histórias qu e um a representaçã o s e apóia, nã o
necessariament e faz parte intrínseca da história, ela p o d e

26
D i a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o

mudar conforme o cenário e a época em que a narrativa é


contada. Dentro desse ponto de vista, é possível supor que
contos como Cinderela ou João e o Pé de Feijão não
resistiram até nosso tempo pelas mesmas razões que
os consagraram nas tradições recolhidas pelos
folcloristas ou nas versões de Perrault e Jakobs.
Da mesma forma, podemos supor que contos como
Bicho Peludo ou Pele de Asno tiveram sua
popularidade encolhida pelas inconveniências que
continham, na medida em que não é admissível
hoje contar aos pequenos histórias tão francamente
incestuosas.
Nosso trabalho é uma tentativa de
alargar o horizonte que Bettelheim nos deixou.
Uma certa idealização restritiva na sua compreensão
do que seria um conto de fadas o afastou de um conjunto
de ficções especialmente intrigantes e
importantes para as crianças. Divergindo dele,
acreditamos que existem novos contos de fadas,
configurando-se num gênero dedicado não apenas ã
preservação, mas também ã renovação. Em função
disso, propomos uma inclusão de histórias que o
autor não considerava genuínos contos de fadas,
nem apropriados para crianças, no gênero do
maravilhoso.

Conto de fadas versu s


conto maravilhoso
O que entendemos aqui por conto de
fadas é o mesmo que Vladimir Propp
denominou conto maravilhoso,' em
função da onipre• sença de algum
elemento mágico ou fantás•
tico nessas histórias. Contos de fadas não precisam ter
fadas, mas devem conter algum elemento
extraordi• nário, surpreendente, encantador. Maravilhoso
provém do latim mirabilis, que significa admirável,
espantoso, extraordinário, singular. Muitos
optaram por essa denominação justamente para
dar conta da vastidão de personagens e
fenômenos mágicos, absurdos ou fantasiosos que
podem povoar os reinos encantados. Mas
preferimos seguir a sabedoria popula r qu e
manteve as fadas enquanto representantes deste reino.
Elas já foram associadas ãs Moiras, imaginadas
com uma roca nas mãos, que conteria o fio de nosso
destino, como uma espécie de parteiras mágicas,
que pos• sibilitam a vida e definem os seus percalços.
As fadas seriam as herdeiras das sacerdotisas de ritos
ancestrais, já que a elas é reservada a função de veicular
a magia. Por isso, não abriremos mão da denominação
que em tantas línguas as tornam embaixatrizes
do mund o mágico.
27
O element o fantástic o present e
e n q u a n t o maravilhoso nessa s narrativa s c u m p r
e a funçã o de garantir qu e se trata de outra
dimensão , de outr o mun do , co m possibilidades e
lógicas diferentes. Assim fazendo, os argumento s da
razão e da coerência já sã o barrado s na porta, e
a festa p o d e começa r se m suas incômoda s
presenças , bastand o pronuncia r as palavras mágicas
Era uma vez... co m o um a senh a de entrada.
Vivemos n u m m o m e n t o e m q u e a
mutaçã o d o s meio s dessa s histórias atingiu um
p o n t o de virada: a tradiçã o oral cede u e sp a ç o
a o impéri o da s imagens . Hoje, tud o o q u e s e diz
dev e se r ilustrado. O s sons , o s silêncios, a
en to n aç ã o e a capacid a d e dramática, q u e
faziam a glória de um b o m contado r de histórias
foram, substituído s pela s capacidade s narrativas
do s estúdio s de cinema , da televisão e d o s
ilustradores de livros e quadrinhos . O q u e no s
interessa é o fato de muitas histórias tere m
subsistidos através desse s novo s meio s e
pe r du ra r e m e v o c a n d o a s mesma s e m o ç õe s .
Noss o propósit o é encontra r velhas trama s
m e s m o q u e es• tejam ve stind o n o v o s trajes.
Seguire mo s o s rastros daquela s qu e s e preservara
m d e formas meno s vistosas, assim c om o tentaremo
s detecta r a existência de novi• da d e s na terra
da fantasia.
Aproximando-s e do folclore de vários
países, é possível constata r q u e certas histórias,
clássicas par a n ó s , n a v e r d a d e , c o n s t i t u e m
a p e n a s u m arranj o particular qu e encontro u um a
forma feliz, fez ec o num a certa comunidad e e tev
e a sorte de ser preservado . Nã o é i n c o m u
m e n co n tr ar m o s na s compilaçõe s d e histórias
folclóricas, de distintas nacionalidades , conto s que
co m e ç a m c o m o o noss o co n h eci d o Branca
de Neve, s eg u e m c o m are s de A Bela e a Fera e
termina m igual ao de Cinderela.
É prováve l q u e a maioria do s conto s
de fadas esteja irremediavelment e esquecida .
As histórias q u e sucumbira m dava m cont a d e
situaçõe s q u e j á n ã o s e repetem : explicaçõe s
mágicas para problema s relativos á fertilidade, ao s
mistérios da natureza , a regras morai s n u m te m p o d e
rigidez religiosa, a rituais d e passage m e a tanta s
outra s coisas, ma s deixaremo s essa pesquis a par a
q u e m te m a competênci a d e fazer um a
arqueo • logia d o s conto s d e fadas..5 Uma
simple s leitura n o a m pl o univers o dele s j á
suger e q u e existe m algun s q u e atualment e nã o
causa m o s m e s m o s efeitos e estã o e m via d e
esqueciment o , subsiste m a pe n a s no s escritos d o s
folcloristas, ma s praticament e n ã o sã o mai s
lidos o u contados .
C o m o te m o s acess o ao s conto s d e fadas
através d e u m acerv o coletad o po r
folcloristas, te n de m o s a concebê-lo s c o m o um a
coleçã o d e narrativas compost a
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s História s Infan ti s

d e histórias fechadas e m si. Pensa r assim, n o


entanto , seria um tant o reducionista, poi s as histórias qu e
conhe • ce mo s hoje sã o um a part e preservad a d e
u m acerv o muit o mais rico. Em seu s primórdios ,
elas era m um sistema lógico e m q u e várias
histórias poderia m ser com bina da s . Por isso,
melho r seria c o m pr ee n dê - la s c o m o u m gigantesc o
baralh o d e cartas q u e permitia u m sem-n ú mer o d
e arranjos, dentr o d e certos tipo s d e seqüênci a
lógica, ma s c o ns er v an d o um a plastici• d a d e e m
q u e vários ele mento s p o d e m se r m u d a d o s e certos
sentidos , preservados . O s conto s q u e co n h e •
cemo s sã o algun s do s produto s dess e tod o maio r qu
e s e mo v e co m regra s próprias , mai s
ap ar e nt ad a s a o mito qu e a o noss o p e n s a m e n t o
racional.
O s contos d e fadas têm e m comu m co m o s mitos
o fato de nã o possuírem propriament e um sentido, sã o
sim estruturas qu e permite m gerar sentidos, po r
isso toda a interpretação será sempr e parcial. Os conto s
sã o formados com o imagens de um caleidoscópio,
o q u e mud a são as posições dos elementos .
Certos arranjos particularmente felizes por equilíbrio,
beleza e força, cristalizam e formam algumas dessas
narrativas qu e hoje conhecemo s com o as nossas
histórias clássicas.
Nos capítulo s q u e s e segue m , v a m o s
reconta r s i n t e t i c a m e n t e a l g u n s d o s c o n t o s d e
fada s ma i s populares , assim c o m o outro s m e n o s
notório s o u mais antigos q u e lhes sejam cone xos ,
emb ora , n o q u e tang e as pessoa s da sociedad e
ocidental , seria precis o ter cr es ci d o e m Marte
par a n ã o c o n h e c ê - l o s e m su a maioria. Aliás,
este é mais u m do s motivo s d o noss o interesse
pel o assunto : o fato de q u e todo s partilhamo s u m acerv
o c o m u m d e histórias. E m u m i n u n d o tão
plural, de tantas ideologias, tradiçõe s e religiões,
elas constitue m u m d e n o m in ad o r c o m u m .

Sobre as fontes
rocuraremo s agrupa r as histórias pela fantasia
principal qu e ela geralment e evoca. É
claro qu e é uma reduçã o difícil, porqu e a
mesm a
históri a poder á se r retomad a em
o u t r o m o m e n t o , inserid a e m outr a reflexão . A
idéi a d e trabalhar u m cont o até esgota r quas e
todo s o s seu s el e m en t o s é tentadora , foi o
corajos o c a m i n h o de Bettelheim, ma s é perigoso .
Ningué m dá conta de tudo , um cont o inclui muito
material não-interpretável pela psicanálise: formas
arcaicas de narração, cacos de antigos mitos , q u e j á n ã
o n o s di z e m mai s resp eito , resto s histórico s d e
experiên cia s d e d e t e r m i n a d o s p o v o s ,
falar qu e cairíamos e m outr o problema , s e fôssemos
considera r um a história e n qu a nt o u m todo , teríamos
de eleger um a versão, ma s qua l seria a melho r fonte?
Na pesquis a so b r e a variedad e de história s e
versões , nossa s fontes serã o toda s a s d e q u e puder mo s
dispor, privilegiand o a variedad e se m hierarquiza r o
q u e seria um a narrativa autêntica , original d e deter•
minad o conto . Por isso, e m torn o d e cad a eix o temático
escolhido , organizamo s várias histórias, cujos detalhe s a s
diferenciam , ma s p a r e c e m convergi r par a u m centro comum .
Compartilhamos , relativo ao s conto s d e fadas, a idéia do
antropól og o Claud e Lévi-Strauss referente ao s mitos.
S eg u n d o ele , fazem part e d o mit o toda s a s sua s versõe s e
n ã o haveria um a versã o original a ser privilegiada6.
Embor a deva mo s reconhece r q u e o cont o maravilhos o sofre
transformaçõe s históricas, inclusive algun s conto s passara m
po r modificaçõe s d e tal mont a q u e resta pergu ntar mo s s e
dize m o m e s m o q u e diziam antes , p o d e m o s su p o r q u e ,
s e ele s s ob re vi v e m , é p o r q u e no s toca m d e
d e t e r m i n a d a form a e q u e p r o v a v e l m e n t e alg o foi
p r e s e r v a d o d e se u arranjo inicial. Caso contrário, teriam
perdid o a força, o encant o e cairiam no esqu eci ment o .
É c la r o q u e o s c o n t o s d e fada s d e v e m
su a sobrevivênci a a um a série de folcloristas, que , de um
a forma mais apaixonad a d o q u e científica, no s legaram
sua s versões . C o m o essas compilações , agor a clássicas,
constituíram o degra u q u e possibilitou a chegad a até
nó s dessa s trama s tã o antigas, eles angariara m o s mé • ritos
q u e justificam q u e o s privilegiemo s diant e d e
infinitas formas de vulgarizaçã o e difusão.
Nossa escolha, e n qu a nt o estrutura do livro, é pela
análise da eficácia das fantasias q u e os conto s possa m
mobilizar no s ouvinte s atuais. Sempr e é b o m lembrar
q u e está n o interior d e cad a u m a tecla mágica,
pois ne m todo s sã o tocado s pelo s mesmo s contos , n e m
d a mesm a forma. Afinal, conto s qu e nunc a foram
esque • cidos e provocara m horro r e fascínio em un s
passa m despercebido s para outros. Na seleçã o de quais
conto s escolher, privilegiamos entã o as histórias qu e sã o ainda
lembrada s e que , po r isso, segue m causand o efeitos ao long
o do s séculos em seu s leitores e ouvintes.

O uso do conto pelas crianças


as crianças, é mai s fácil observa r o impact o
da ficção, elas se a p e g a m a algum a história e
usam-n a par a elabora r seu s drama s íntimos, par a
da r colorid o e imagen s a o q u e estã o
vi ve n d o . Elas a u s a m c o m o er a u s a d o o mit o e m
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
quantida de : em termo s de ficção elas são
consumidor a s onívora s e insaciáveis. Em noss a
sociedade s antigas, entra m na trama oferecida e tenta m
encaixar sua s questõe s no s esquema s
interpretativos previament e disponibilizados . O u e nt ã
o s e apropria m d e fr ag m en to s , c o m o tijolo s d
e significaçã o q u e combina m à sua m o d a par a
levantar a obr a de deter • minado assunt o q u e lhe s
questiona .
O q u e fica de um cont o par a um a criança
é o que ele fez reverbera r na sua subjetividade,
aliad o ao fato de co m o chego u até ela. Caso tenh
a vind o pela mão d e u m adulto , p o d e ser tomad o pela
criança c o m o se ele tivesse tido a intençã o de dize r
alg o através da escolha daquel e trech o dramátic o
específico. For sua vez, a criança faz sua s en c o menda s ,
qtier escuta r deter• minada história, p e d e q u e lhe
alcance m cert o livrinho, propõ e q u e s e brinqu e co m
ela considerando - a c o m o se fosse um a personag e m .
Enfim, essa s trocas entr e o adulto e a criança, t end o
os conto s c o m o intermediá • rios, p o d e m o p er a r
c o m o um a espéci e d e diálog o inconsciente.
O important e é t er m o s clar o q u e a
crianç a é garimpeira, está sempr e buscand o
pepita s n o mei o do cascalho n u m e r o s o q u e lhe é
servid o pel a vida. A relação da infância co m as
histórias fantásticas é antiga e sólida, o q u e no s leva à
convicçã o de q u e essa ficção é preciosa para as
mente s jovens.
Teste mu nho s e m anális e s o br e a força
dessa s histórias sã o freqüentes, é c o m u m paciente
s adulto s mencionarem um cont o de fada ou um a
ficção infantil contemporâne a q u e nunc a esquecera m
e q u e jamais, desde qu e a escutaram , foram os
mes m os . Essas lem• branças abre m boa s associaçõe s
para sua s análises. E ainda, há q u e m diga q u e as
coisas mais dura s q u e já escutaram estava m
contida s e m algum cont o d e fada ou numa
história infantil e q u e nunc a mais vivencio u uma
empatia tã o intensa junt o a outr a forma de arte.
Nesses relatos, a lembranç a do cont o é
a c o m p a n h a d a d a evocação d o m o m e n t o d a narrativa,
o u seja, q u e m apresentou a história, q u a n d o e
o n d e isso se deu .
Portanto, seja co n ta d o po r algué m o u po r
outr o meio, há um encont r o entr e as crianças e
os conto s de fadas q u e rarament e falha. Se alguma s
tê m a sorte de ter adultos q u e sejam narradores ,
certament e isso vai fazer parte da su a memóri a relativa
â história. Mas, aqueles qu e n ã o tê m essa
oportu nidad e , encontrar ã o nos livros, na TV, na
escola, no cinema , no teatro um a fonte ond e bebe r sua s
dose s de fantasia e ficção. Aliás, mesmo a s crianças qu e
escuta m histórias narrada s po r seus pais, parente s o u
cuidadores , recorrerã o t a m b é m a outros meios , poi s
par a elas import a a qualidade , mas també m a
29
visão, o important e é qu e , de algu m m o d o , as
histórias c h e g u e m até as criança s par a ajudá-
las a pensar , e q u an t o m e n o s impessoa l for o
veícul o dess a narrativa, tant o melhore s serã o
seu s efeitos.

Notas
1. CALVINO, ítalo . Fábulas Italianas. São
Paulo : Companhia das Letras, 1992. p.15.
2. Essa proliferação de categorias nã o pára
de nos surpreender. A título de exemplo ,
podemo s citar um a séri e televisiv a d e
sucess o recente : o s Teletubbies,
provavelmente o primeiro programa no qual se
trata de captar a lógica dos bebê s para cativá- los.
A reação de seu público extremamente precoce
parece confirmar o acerto da proposta.
3. A transformação dos contos de fadas em relatos
bem co mp ortado s e meno s grotesco s nã o
é absolu • tamente fruto de arroubo s
pedagógicos recentes. Por exemplo, já no
início do século XIX, ao longo das sucessivas
edições da compilação dos irmãos Grimm .
é possíve l a c o m p a n h a r o progressiv o
abrandament o das tramas e das personagens,
com o a transformação da mãe má em
madrasta. "Em seu idealismo romântico, os
Grimm literalmente nã o toleravam que uma
presença materna fosse equívoca ou perigosa, e
preferiram bani-la completamente. Para eles, a
mãe má precisava desaparecer para que o idea l
so br e vi ve s s e e permitiss e q u e a Mãe
florescesse com o símbolo do eterno feminino, a
terra natal, e a família em si co m o o
mais elevad o desiderato social." In WARNER.
Marina. Da Fera à Loira: sobre Contos de Fadas
e Seus Narradores. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999, p.244.
4. PROPP, Vladimir. Morfologia do Conto, Lisboa: Vega
Editora, 2003-
5. O exempl o mais clássico desse tipo de pesquisa
é o conhecid o As- Raízes Históricas do
Conto Maravi• lhoso, de Vladimir Propp. Para dar
um exemplo mais recente, em 1994, foi
publicado o livro de Marina Warner, Da
Fera à Loira: Sobre Contos de Fadas e Seus
Narradores, qu e realiza uma viagem
pel o c o n t e x t o históric o da s narrativa s
tradicionai s , e n f o c a n d o p r i n c i p a l m e n t e a
i mp o rtâ n ci a da s mulheres.
6. LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia
Estrutural. Rio de Janeiro: Temp o Brasileiro,
1985. p.250.
7. Um do s mais famosos casos clínicos
relatados por Sigmund Freud, popularment e
conhecid o com o O Homem dos Lobos, tem
boa parte de seu conteúd o
Fada s n o D i v ã — Ps ic a n áli s e n a s His t óri a s Infa nti s

baseada em reminiscências do paciente relacio• nu m livro de contos de fadas. Sua irmã


nadas a contos infantis, assim com o às circuns• mais velha, qu e lhe era superior, costumava
tâncias em qu e os escutou ou leu. apoquen- tá-lo segurand o essa figura
Relativo à análise de um sonho, em qu e específica na sua frente, sob qualquer
aparecem lobos no s galhos de uma pretexto, para qu e ele ficas• se aterrorizado e
árvore, Freud comenta : começasse a gritar". In: FREUD, Sigmund.
"Sempre vinculara esse sonh o à recordação História de uma Neurose Infantil. Obra s
de que, durante esses anos de infância, Completas, vol. XVII. Rio de Janeiro :
tinha um med o tremendo da figura de um Imago Editora. 1987, p.46.
lobo que vira
30
Capítulo I
EM BUSCA DE UM LUGAR

O Patinho Feio, Dumbo e Cachinhos Dourados


Desamparo infantil - Valor da infância na modernidade - Vínculo mãe-
bebê Angústia de separação - Valor social da maternidade e do amor
materno - Sentimentos de inadequação e de rejeição na família

Andersen foi, sozinho,


responsável por um revigoramento do
conto de fadas e um alargamento de
seus limites
para acomoda r novos desejos e
fantasias.
Maria Tatar1

A cabeç a é desproporcionalmen t e realment e são. Com o tempo , vã o ficando


grande ; a s pernas , praticament e graciosos, r os a d o s e prop orcionai s , ca p az e s d e
atrofiadas, sã o incapaze s d e sus• co m u n ic aç ã o , estand o realmente habilitados a ocupa r
tenta r o c o r p o ; o s o l h o s um lugar ao sol. Antes disso são... patinhos feios.
tê m um a película opac a e Escolhemos para iniciar este livro aquela s histórias
azulad a q u e lhe torn a o olha r q u e no s oportunizasse m falar da chegad a da criança na
en e vo a d o ; o cheir o n ã o é família, da s dificuldades q u e u m b e b ê enfrenta
melho r q u e a aparência : fezes par a encontra r e constati r um lugar no mundo . Embor a
e vômit o sã o e m a na çõ e s essa primeira parte do livro seja dedicad a á análise do s
constantes . À s veze s conto s da tradição, partiremo s de dois exemplare s
são carecas, n ã o p o s s u e m linguagem , p r o d u z e m atípicos, já qu e sã o conto s do sécul o XIX: O
son s desagradáveis e guturai s emitido s a pleno s Patinho Feio,2 escrito po r Andersen ; e Cachinhos
pul mões . E ainda achamo s u m b e b ê bonito . Dourados,'' um a história em qu e as fontes e as
A beleza qu e os adultos percebe m em seu s bebês variantes se confundem , co m o n u m telefone se m
recém-nascidos é totalmente reativa diant e do qu e fio. Eles figuram em primeir o lugar,
eles
Fadas n o Div ã — P s i c a n á l i s e n a s História s Infa nti s
filme e m anim açã o d e Walt Disney,
denominado Dumbo, q u e te m c o m o
porqu e decidimo s começa r co m um a seqüênci a
q u e reproduz a a do cresciment o da s crianças.
Essas dua s histórias sã o d o agrad o da s
crianças b e m pe q u en a s . São tramas se m drama s
amorosos , n e m bruxa s vingativas. O q u e as crianças
precisam , ao se inaugura r n o m u n d o , é d e u m
lugar ac o n ch e ga n t e o n d e possa m sentir-se bem-vindas .
Patinh o Feio pass a tod a a sua infância num a espéci e de
exílio e Cachinho s Dourado s s e desencontr a co m o s
objetos d a casa do s ursos, d o s quai s esperaria obte r
algu m bem-estar. Esses personagen s no s lembra m qu
e n ã o é fácil chega r a o m u nd o , co meça mo s ao s
berros , e o de sa m p a r o amea • ça-no s po r um bo m
te m p o . As crianças e sua s famílias têm colaborad o
para a preservaçã o dessa s histórias centenária s
porqu e elas sã o u m retrato da s primeiras lágrimas,
daquil o pel o qua l c h o r a m o s antes , muit o antes,
de saber o significado do amor.
Não há fadas nesses primeiros contos de qu e
no s ocupamos, aliás, há inclusive que m diga qu e sequer
sejam contos de fadas, já qu e lhes faltam os elemento s
mágicos em sua forma tradicional. Bettelheim lhes
neg a essa característica, porqu e nã o há a luta do
herói, vencend o as provações e encaminhando-.se
para a resolução de um conflito, itens qu e ele considera
imprescindíveis para essa classificação. Quant o a
nós, acreditamo s qu e o simples fato de haver
uma família de ursos m orand o numa casinha na
floresta, qu e dorm e em camas, senta em cadeiras e
com e na tigela é o bastante para situar o leitor nu m
território mágico. Se contarmo s ainda co m uma
pata preocupad a co m a imagem pública da sua
prole e co m uma série de animais falantes no
caminh o de um angustiado patinho, temo s dose s
de fantástico suficientes para reivindicar a essas
histórias algum lugar n o m u n d o mágico, senã o
enqua nt o conto s d e fadas, pel o meno s na categoria
de conto s maravilhosos.'
Q u an t o à crítica d e Bettelheim, d e q u e
nessa s histórias faltaria a luta da persona ge m rum
o á supe • ração , p e n s a m o s q u e , nest a form a
d e catalogaçã o subjetiva, faltaria considera r outras
formas de superaçã o q u e nã o passa m po r vence r
bruxas , dragõe s o u con • quistar princesas. A
jornad a desse s p e q u e n o s heróis , o patinh o e a
menina , é mais interior do q u e exterior. O primeir o
luta contr a o de s a m pa r o e a desespera nça , a segund a
busca se u lugar n u m a casa, num a família. Por
isso, d e n o m i n a m o s este capítul o de Em Busca de
um Lugar.
Para efeitos d e atualizaçã o da s questõe s
abor • dadas , lançamo s m ã o à anális e d a q ue l e
q u e consi • dera mo s um a versã o m o d e r n a par a
O Patinho Feio, d e Andersen . Trata-se d e u m
cont o coincidência s e diferença s q u e no s permitirão
discutir questõe s sobr e a infância conte mporâ ne a .

Novas personagens para


um novo público
s crianças demoraram até quase o fim do
século XVI para serem dignas de alguma
importância e atenção. Antes disso, quando
sobreviviam aos altos índices de mortalidade
infantil, eram criadas entre os adultos, compartilhando
promiscuamente todos os aspectos da vida, até que a
maturidade física as tornava um deles. A partir do
momento em que passaram a valer mais para seus
adultos, conquistaram o direito a um reduto literário. Estas
duas histórias de que nos ocuparemos, por
exemplo, foram escritas e compiladas numa época em que
os pequenos já eram objeto de preocupação, sendo inclusive
dedicadas às crianças. Sua origem é diferente dos outros
contos de fadas da tradição, que conhe• cemos através
das compilações de Perrault e dos irmãos Grimm, entre
outros. Estes clássicos, por sua vez, se deslizaram da sua
audiência adulta original, constituída pelos trabalhadores em
seu momento de descanso ou pelos nobres em seus salões,
para a condição de uma narrativa destinada às crianças.
Hans Christian Andersen escolheu as crianças
como seu público, mas não sem vacilaçào. Era comum aos
autores de literatura infantil, que antes tinham
tentado vencer no território da escrita para adultos,
considerada mais séria, poré m só conheceram a
consagração como escritores para crianças, obtendo
junto a elas o prestígio que os meios literários
lhes haviam neg ado . De qualqu e r maneira ,
convém observar que esses contos, que atendem tão bem
ao critério da sensibilidade das crianças pequenas, datam do
século XIX. O primeiro livro de literatura infantil de
Andersen foi publicado em 1835, já a versão mais antiga
de que se tem notícia do conto de Cachínhos
Dourados foi escrita por Eleanor Mure, por volta de
1830, para seu sobrinho de 6 anos. Nessa versão, a
invasora ainda ' era uma velha, ela só assume a
identidade de uma menininha em 1850.5
Não surpreende que os contos que nos propiciam
abordar assuntos relativos aos bem pequenos sejam
diferenciados e um pouco posteriores aos da tradição. Como
ressaltamos acima, Andersen reinventou o conto de fadas
para os novos tempos. A sociedade que passou a
valorizar a infância presta atenção à constru• ção da vida de
cada indivíduo, agora levando em conta
D i a n a Li c h t e n s t e i n Co rs o e Mári o C o r s
o
sentiu rejeitado até pelo s cães de caça, q u e o farejaram
mas , n ã o o morder am . Sempre v o a n d o par a long e d o
perigo , el e caiu n a
3S permitirão seus pensa m ento s , sua s convicções , seu s desejo
nporânea. s e principalmente suas particularidades. A literatura
sofreu transformações com o u m todo , a s
persona gen s dei• xaram de ser estereotipadas , e as
aventura s passara m a incluir aspecto s relativos a
tensõe s subjetivas.
Patinho Feio é um do s primeiros heróis mod erno s
escritos para crianças, seu drama baseia-se nu m
ise o fim d
per• sistente sentimento de rejeição. Inclusive ele
o s de
tem sido considerado co m o u m alter-ego d o própri
alguma iisso,
o Andersen. O conto poderia ser lido co m o um a
quand o
descrição alegórica da infância difícil dess e dinamarquê s
? mortalidade
de origem humild e e aparência bizarra, q u e passo u
npartilhando
po r mau s b o c a d o s devid o à su a p e r s o n a l i d a d e
da, até qu e a
sensível , c o n s i d e r a d a efeminada po r alguns d e seu
A partir do s contemporâneo s .
tis para seu s
Anderse n coloco u muito s conflitos
luto literário,
e m oc io n ai s modernos, incluind o o sofrimento subjetivo
aremos, p o r
da s perso • nagens, dentr o d e u m format o e m q u e
na época em s e beneficio u dos recursos d o s conto s maravilhosos .
pação, send o Assim, recrian • d o o cont o d e fadas par a
TI é diferente n e c e s s i d a d e s d e o ut r o s tempos, contribui u par a
que conhe - e a c o ns a gr aç ã o d o gênero , enquant o um a
dos irmãos r modalidad e narrativ a , nã o n e c e s • sariamente
sua vez, se pres a a de te r mi n a d a constelaçã o d e tipo s de
1, constituída persona gen s e tramas .
descanso ou
lição de um a

O Patinho Feio
as crianças
. Era comu m históri a d o Patinh o Fei o é
intes tinham a m p l a m e n t e conhecida . Mas n ã o i m p e d e
)ara adultos, qu e a recon - temo s - em grande s
nheceram a pincelada s - tant o para alicerçar a análise
:as, obtend o q u e faremos q u an t o para
terários lhes retomar a história original, pois ela é muit o
ra, c o n v é m difundida com passagen s cortada s ou simplificadas.
tão bem a o N o com eç o havia u m ov o diferente n o ninh o
íenas, datam d e uma pata, ele era maio r e de ch o c o mais
itura infantil d e m o r a d o que os outros . Por fim, de u orige m a
versão mais e um a avezinh a graúda, desengonçad a e acinzentada , em
Cachinhos por nada parecida com seu s gracioso s irmãos . Seu
volta de as pe c t o distint o é determinante para ser discriminad o
•sa versão, a po r todos , inclusive pela mãe . Após s e enche r do s maus-
5 assum e trato s dispensa do s por ela, irmão s e vizinhos, el e voo
a os propiciam u para long e dess e galinheiro infernal.
uenos sejam No lago o n d e foi parar, relacionou-s e co m
da tradição, doi s jovens gansos , apesa r da frase inicial dess a
ntou o cont o amizade :
:iedade q u e "você é tã o feio, que vamo s c o m a sua
io à constru- cara". Mas durou p o u c o ess e laço, poi s seu s
do em conta amigo s foram aba • tidos num a caçada . Escondid o entr
e o s juncos , salvou- s e d e um a carnificina q u e liquido u
co m tud o q u e voa• va. Paradoxalmente , el e se
d e de um caçado r qu e o desentranho u do gel o e
o levou para sua casa. Lá, devid o a
tanto sofrimento qu e teve na vida, interpretou com
choup o agressões as brincadeiras do s filhos de seu
an a salvador. Numa tentativa d e escapa r deles,
d e provoco u uma revoada desastrosa, derrama nd
um a o a manteiga, o leite e a farinha da
velha , casa. Q u a n d o a mulhe r d o caçado r gritou,
qu e po r caus a d a confusão, ele fugiu mais uma vez,
o resignado a sobreviver sozinh o no lago até a
acolhe primavera. Essa estação troux e de volta os
u cisnes, as bela s aves q u e ele admirara e vira partir
pensa no outono . F.ntão, ao curvar a cabeça de
nd o m e d o de que eles t a m b é m o maltratassem ,
tratar- ele se viu no espelh o das águas, descobrind o
se de qu e havia transformado- se no mais bel o dos
um a cisnes.
pata
poedei Pouca s histórias infantis foram capaze s
ra . Lá de um a e m p a t i a t ã o fo rt e e d u r a d o u r a
se co m o p ú b l i c o , certament e devid o a o
sentia mérit o d e traduzir muit o b e m a angústia da
hostili criança pe q ue n a . O calvário do cisnezinho , q u e
zado foi cair no ni n h o errado , é igual ao de todo s
pelo s nós . Na verdade , a trama sintetiza dua s
outro s fantasias assusta• doras : um a do s pais, o
animai m e d o de ter o filho trocad o po r outr o -
s da hoje, po r um equívoc o na maternidade ,
casa e outrora po r alguma artimanha d e algué m o u d o
foi destino; e outr a do s filhos, a de
ficand descobrirem-s e adotivos. Na primeira, o
o co m filho está no ninh o errado ; na segunda ,
sauda ele ve m d o ov o errado . Ambas ,
de da entretanto , evoca m um a certa verdade :
água , s o m o s t o d o s adotivos , o laç o biológic o nã
até o no s oferece a s garantias necessárias par a sentir-
qu e s e a m a d o . Me s m o q u e sejamo s nascido
decidi s d a mesm a mã e q u e no s ama me ntar á e
u educará , aind a resta um vag o e
voltar desagradáve l sentime n t o de ser o ov o
a o errad o n o ninh o errado .
lago. Entre o feto q u e se avolum a na barriga
T e o b e b ê q u e sai e é ap re s en ta d o ao s
ud o pais n ã o há um a iden• tificação direta.
corre u Acreditamo s q u e o b e b ê e a mã e se
be m reconh ece m , a música d e fund o dess e
at é a encontr o amo • ros o é o batiment o cardíac o
chega m at er n o q u e comparti • lhara m tod a a
da d gestação , assim c o m o há o reconhe •
o ciment o da s voze s mais constantes , q u e
invern penetra m n a cavidad e líquida d o n e n ê . Porém ,
o , isso n ã o terá sentid o s e n ã o for reapresentad o
quand ao b e b ê .
o Ele reconh ece r á a voz da m ã e do
ficou lad o de fora c o m o s e n d o a q u e l e m e s m o
congel s o m a b a f a d o q u e s e imiscuía na s água s
ad o e uterina s q u e o banha va m , d es d e q u e ela
desma reintroduz a ess a vo z n a vida dele . A
iou . mãe
Teria
morrid
o , nã o 3
fosse a 3
b on d a
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s His t ór i a s Infa n ti s
pr ee n ch e r o

precisará conquistá-lo , falando co m ele , par a q u e


el e conect e o so m de fora co m o de dentro . Já,
par a ela, será difícil reconh ece r naquel e ser esquálid o
e sujinho o filho q u e tant o fantasiou; el e també m terá d e
seduzi r su a m ã e . m a m a n d o e m se u s seios ,
d e m o n s t r a n d o capacidad e d e respon de r ao s seu s
estímulos .
O volum e do ventr e ma tern o é p re e nc hi d o
pela fantasia do filho perfeito, já o b e b ê q u e
sai, c o m o dizíamos , é o patinh o feio. A m ã e precisa
olhar, reco • nhece r e adota r ess e recém-nascid o
c o m o se u filho. O víncul o q u e existia na gestaçã o
entr e o feto e a mã e precisa ser renegociado . Te m tud o
para da r certo. E m geral, o pact o de olhare s entr e
o recém-nascid o e a mã e é tão rápid o e eficiente
q u e n e m é visível, n e m parec e qu e foi necessário .
Embor a o amo r à primeira vista entr e ele s doi s
p os s a se r fulminante , n ã o é automátic o ne m
infalível, c o m o prova m a s psicose s puerperai s e
as descone xõe s do b e b ê .
A mã e e o beb ê têm vários m o m e nt o s
para se desencontrar : n a gestação , n o part o o u n o
puerpéri o . Em todo s os casos trata-se do fracasso
de um víncul o q u e gostaríamos d e crer c o m o natural.
Entre o s animais, os filhotes fracos e defeituoso s sã
o deixado s morre r ou sã o devorado s pela própri
a mãe . For mais cruel q u e seja, isso no s parec e
mais compreensível , já q u e nesse s casos a rejeição de
um filhote o b e d e c e a algum a lógica biológica.
No cas o da mã e hu ma na , a lógica q u e
reg e o víncul o é infinitamente mais complicada . Na
gestaçã o o u n o parto , po r e xe m p l o , ela p o d e
rejeitar u m filho perfeito q u e reconheç a c o m o seu,
p o r q u e ocorr e qu e ela nã o s e admit e n o pape l d e mãe
. N o puerpério , ela p o de r á dedicar -s e a o filho,
atencios a e prestativa , ocupan do -s e dele, mas o
beb ê p er ce b e q u e ela está emocionalmen t e
alienada , suprind o a falta de víncul o c o m um a
eficiência m e câ ni c a . Po r isso, u m beb ê
limpinho, gordinh o e belo , pod e ser
com pleta men t e desconecta d o po r n ã o ter e n c on tr a d
o seu ninho .
Na maior part e da s vezes , ao escuta r o
primeir o chor o d o recém-said o d e seu ventre , a mã
e sent e q u e es t e é o se u e s p e r a d o b e b ê ,
o l h a r o c o r p i n h o en s a n gü e nt a d o só confirma o
q u e seu s ouvido s já lhe informaram, po r isso, o
encontr o é feliz. Mas a suspeit a q u e t o d o s t e m o s é
de sermo s incapaze s de n o s igualarmo s à
fantasia q u e s e avolumar a n o ventr e d e noss a mãe .
Esse temo r no s a co m p a n ha r á par a sempre , justificando o
sentiment o de rejeição q u e no s identifica ao patinho ,
a b a n d o n a d o e órfão d e s d e o ovo . O ventr e da mã e é
estufado de ideal, os filhos cresce m e, m e s m o q u e s e
t o r n e m belo s cisnes , ficam s e m p r e c o m o
sentiment o d e q u e lhe s falta alg o par a
de seu s pais. A família tradicional era um lugar
árido e, se um filho n ã o tivesse predica do s log o
ao nascer, provavelmen t e n ã o sobreviveria . Crianças
q u e a mã e esperava . Essa defasage m é o tecido defeituosas, co m incapacidades , nã o teriam maiore s
do cont o d o Patinh o Feio. regalias e, caso sobrevivesse m , aind a teriam de
A história t a m b é m lembr a q u e o ambient e que levar o estigma de falhadas, já q u e os pais
re ce b e m e s m o o mai s a m a d o e e s p e r a d o do s filhos seriam be m francos em não esconde r o q u an t o
n ã o deixa de ter sua s hostilidades . Além da s supra• lhes desagradav a um filho aleijado, po r e x e m pl o .
citadas eventualidad e s ou fantasias de rejeição, está o Cremos q u e o feio p o d e ser usad o para toda a gam a
fato de os b eb ê s interpretare m c o m o hostilidades exter• na s do qu e nã o se encaixa num a normalidade, algo q u e
até m e s m o aquela s q u e s e p r o d u z e m dentro d o se u está fora do padrã o - pel o que contam os
pr ó pr i o c o r p o . Fome , gases , c an s aç o e cólicas p o d e biógrafos, o própri o Andersen , excêntric o e
m p ar ec e r u m v er da de ir o c o m p l ô d o mund o delicado, era diferente d o padrão .
contra si. For isso. n ã o é difícil imaginar q u e todo o
b e b ê po r veze s habit a u m m u n d o hostil, gelad o
e solitário c o m o o do patinho . Na clássica história
de Andersen , a p e q u e n a av e interpreta c o m o Dumbo: um amor
maldade at é mesm o açõe s benéfica s o u se m grande como um
i n t e n ç ã o d e m a c h u c a r q u e lh e s ã o dir ig id a s . O
p a t i n h o está pa ra n ói c o d e p o i s d e t u d o o q u e
elefante
sofreu. U m bebê t a m b é m fica inconsoláve l em certas
filme Dumbo é mai s um a criaçã o de
ocasiões, afinal, ele está m o r r e n d o de cólicas e ningu é m
Walt Disney que , s e p o d e dizer, fo i
fez nada para impedir...
responsável po r u m revigoramen t o d o s
Há també m algo de verdad e histórica neste conto: a s conto s d e fadas.
criança s p r é - m o d e r n a s est a v a m mai s sós . S e o Desd e o la n ça m e n t o de se u filme
persona ge m d o Patinh o n ã o era dign o d o amo r d e sobr e a Branca de Nev e (e m 1936), el e foi o
sua mãe , isso n ã o constituía um a realidad e tã o distante par a precurso r de outr a mo dali dad e d e apropriaçã o d
se u autor . Nu m passad o mai s r e c e n t e para a linguage m dos conto s d e fadas, agor a narrado s e
Anderse n do q u e par a os dias de hoje, era freqüente a m c o m p as s o com a s
história d e crianças q u e n ã o era m adotada s n o amor

34
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

imagens, so b forma de d e se n h o s animados . As histórias


da tradição oral, assim c o m o aquela s obra s
literárias qu e se tornara m clássicas, c o m o é o cas o de
O Patinho Feio, deve m sua sobrevivência às sucessivas
reapropria - ções d e q u e foram objetos. O s
compilador e s tradicio• nais, co m o Perrault, as adaptara
m à linguage m de seu tempo. P od e m o s dize r q u e
houv e - e haver á - repeti• dos mo m ento s d e
reciclagem, e m q u e velha s narrativas se atualizam em
nova s linguagens . Uma história n ã o necessariamente
super a a outra, muita s vezes , p o d e m proliferar
versões ou tramas inspiradas uma s nas outras. Lançado em
1941, Bumbo lembra o cont o de Andersen, não o
substitui n e m o supera . Por isso, vamo s enfocar nossa
leitura na s diferenças entr e essa s histórias.
A história do elefante voado r foi escrita
pel o próprio Disney. Ele afirmou ter se inspirado na
Figura de um elefante qu e vira num a caixa de cereais.
Através desse desenh o animado , aproximadament e u
m século depois, o patinh o feio e rejeitado
transformou-se nu m bebê-elefante qu e nasceu co m
gigantescas orelha s d e abano. Esse defeito o
tornava motivo de escárnio po r parte de todo s no
circo em q u e vivia. Mas agora o filhote torto está
co m a sua mãe , e ambo s sofrem co m o seu defeito. A
novidade é qu e a mã e modern a aceita - pelo meno s
tem de aceitar - o filho do jeito qu e venha . Afinal,
agora o amo r matern o é um valor em si.
Mesmo contand o inicialmente co m o amo r da sua
mãe, o drama de D u m b o tam bé m é de separação . Don a
Jumbo, a mãe , é encarcerad a apó s ter um a
crise de fúria contr a a q u e l e s q u e maltratav a m
su a cria. O elefantinho ficou só, tend o apena s o rato
Timóte o co m o conselheiro. Co m um final feliz, a
história termina pro • vando qu e o defeito de Dumb
o era na verdad e um a virtude, pois suas enor me s
orelha s o transformam nu m elefante voador. Com o o
Patinho Feio, cuja aparência diferente nã o era um
defeito, apena s uma característica das jovens aves de
sua espécie , o elefantinho tinha as tais orelha s
destinada s a alg o maior. Ambo s desco • nheciam
suas qualidades, qu e carregavam consigo com o um fardo,
ambo s se descobrira m superiore s ao s outros, mas s ó
depoi s d e u m bocad o d e sofrimento.
Até o c o m e ç o da sociedad e m o de r n a , o
amo r matern o n ã o figurava entr e o s requisito s
q u e um a mulher queri a reivindicar par a si. Nos
primeiro s mo • mentos da eman cipaçã o feminina, era
grand e o desej o d e desincumbir-s e d o s filhos e d
o lar, se m p r e q u e houvesse posse s par a isso.
Libertadas d o p e s a d o fardo do trabalh o doméstico , as
n ob r e s eman cipad a s e as primeiras burguesa s
jogara m o b e b ê fora junt o c o m a água d o b an h o ,
dedicaram-s e a o óci o e à s tentativas de se
mimetizar co m os privilégios e as tarefas mascu •
linas. Incu mbia m seu s b e b ê s ao s cuidado s d e
amas - de-leite , muita s veze s fora d o lar d e
origem , e o s recebia m d e volta q u a n d o j á tivessem
formato d e gente . se tivessem sobrevivid o até lá."
Na mo d er ni d ad e , o filho passa a ser um
projeto prioritário para a mãe , m e s m o ante s
de prova r sua viabilidade. O destin o dela está
associad o ao do filho. A sociedad e incluiu o
cu id a d o co m a família entr e as realizaçõe s
necessária s para atingir o sucesso . Acaba valend o
a máxima : "diga-me c o m o sã o teu s filhos e eu
te direi q u e m és". A maternidad e nã o é um a
tarefa degredada , realizada no s bastidore s d a
sociedade , hoje el a é importante , central ,
d i g n a de o c u p a ç ã o e p r e o c u p a ç ã o .
Q u a n d o Disney criou D u m b o , essa muda n ç
a já estava consolidada . Dona J u m b o nã o s e faz d e
rogada , aceita o seu filhote e briga po r ele,
m e s m o q u e isso venh a a arruiná-la, c o m o é o
caso . O filho vai ser se mpr e sentid o e vivido com
o se fosse part e da própria mãe . Ela ficará ao seu
lad o no infortúnio e ele será sua extensã o
narcísica.
O dram a d o elefantinh o centra-se n o fato d
e q u e ele se vê privad o dess a proteção , q u an d o
sua mã e é e n ca rc er a d a . Essa história te m se u
fim q u a n d o s e produ z o milagre de fazer um elefante
voar. A diferença entr e a história do pat o e do
elefante está na consa • graçã o d o amo r m atern o
co m o u m grand e valor. O patinh o j á
demonstr a ess a valorização , p el o lad o
negativo , na medid a em q u e a história frisa a
rejeição egoísta da pata e o de sa m p a r o do filho.
D u m b o . qu e te m sua mã e a seu lado . nã o se
transforma num a bela criatura preexistent e na
natureza , co m o o cisne, ele se revela um ser
fantástico, um elefante voador . Co m o vemos , a s
mãe s n ã o investem e m troca d e pouco.. .
Nesse sentido , o final do filme de Disney
difere do cont o de Andersen : em O Patinho Feio, a
felicidade signific a e n c o n t r a r a tri b o e te r
u m a e x i s t ê n c i a autônoma ; para D u mbo , o final feliz
está em preenche r as expectativa s do ideal matern o e
ser algo grandioso . O impossível de um elefante
voar aconteceu , logo as fantasias desatinada s d e
um a mã e dedicad a p o d e m ser alcançadas .
Assumir o formato do ideal materno , no entanto ,
é Lima propost a regressiva. E um a pos •
sibilidade de se entrega r infantilmente à condiç ã
o de ser objet o da mãe . Infelizmente, a
experiênci a clínica n o s revela o q ua n t o isso puls
a forte em cad a um de nós , perseguin do-no s a
vida inteira.
S e n a m o d e r n i d a d e a mã e m u d o u , o
m e s m o ocorre u co m a infância. O aspect o mais
marcant e dess a modificaçã o é se u prolongamento . Nã
o h á mai s press a e m a ba n d o n a r a s asas d a mãe . Junt o
dess a prorrogaçã o

35
Fadas n o Div ã — Ps ic a n áli s e n a s Hi st ór i a s Infanti s

d o crescimento , estã o a valorização dess e p er ío d o masculinos , a condiçã o universal e p re c oc e de


d a vida e as expectativa s q u e temo s dele : ser suas representaçõ e s n ã o oferec e barreira s à
crianças p o r mai s tempo , par a q u e o s pai s identificação da s meninas .
t a m b é m p os s a m investir mais e m torna r o s filhos alg o A o c o m p a r a r a história d e D u m b o c o m
mais próxi m o d e se u ideal. Em Dumbo. essa infância a d o P a t i n h o Feio , p o d e m o s p e n s a r q u e o
prolonga d a já está presente , poi s ele é u m heró i c o n t o d e Anderse n n ã o se deixo u substituir e
fixado ness e períod o d e idílio co m a mãe . é mantid o vivo pela s crianças e seu s pais , graça s
E o pai de Dumbo ? Nã o temo s notícia, â ênfas e no fato de q u e cad a u m terá d e batalha r pel o
ma s a função paterna é feita po r um ratinho, o Timóteo . se u lugar n o mundo . Embor a D u m b o tenh a vivid o
Com o nas histórias d e fadas qu e veremo s adiante, su a aventur a long e d a pr ot eç ã o materna , nu m a
temo s u m pai desvalorizado, nest e caso, minúsculo . jornad a d e crescimento , a fonte d e sofriment o s e
A assimetria dess e casal rato-elefante , n o exercíci situa n a conjugaçã o d a hostili• d a d e d o m u n d o co
o da s funçõe s pa te r n a e mat er n a , simboliz a m a ausênci a d a m ã e . O Patinh o Feio n ã o
b e m o q u e s e m p r e sentimos: uma mã e maior d esperav a nad a d e su a m ãe , q u e aliás s e
o q u e suportamos ; e u m pai sempr e a qu é m d o re ve l o u um a m a d r a s t a . Mas c o m p a r t i l h a m o s
necessári o par a barra r a sua potência. Nas piada co m a m b o s um a certa d o s e d e d e s a m p a r o e d e
s tradicionais, o e n o r m e elefante costuma ter me d sentiment o d e rejeição , o q u e n o s impulsion a n
o d e ratos, mostrand o q u e tama nh o nã o é a busc a d e u m lugar a o sol.
documento . Porém, nã o deixa de ser ilustrativo qu e O Patinho Feio já se descolo u de se u
a mã e seja tão imensa, en q ua n t o o personage m criador, foi a p r o p ri a d o po r todo s e circula em
qu e poderíamo s associar a o pai seja tã o p e qu e ni n o . várias versões. Sua força é tal q u e muito s c h e g a
O ratinho representa um pai qu e surge com o m a cre r q u e é um c o nt o d a tradiçã o oral, o
um conselheiro oportun o e sábio, ma s só depoi s q u e serv e par a prova r qu e a s criaçõe s literárias
q u e o destino tira de cena a don a Jumbo , cujo p o d e m ter a m es m a pregnânci a q u e o s conto s
amo r paqui- dérmico ocupav a todo s os espaços . ancestrais . H á alg o d e estrutur a co mu m e nt r e ess a
Timóte o cria um objeto mágico, uma peninha, q u e faz criaçã o d e A n d er s e n e o s c o n t o s tradi• cionais
co m q u e o elefan- tinho perca o med o de voar. : o p ati n h o n ã o r e c e b e u m p r e n o m e , designa - s e
Convence-o qu e se estiver segurando-a na tromba nã o pela s característica s funcionai s d o p er s on a ge m ,
cairá. Só depois, qu a n d o Du mb o já estava assim c o m o o final feliz redim e e justifica o sofrimento
convencido de seu dom , Timóteo lhe revela qu e a a n t e ri o r . Falt a p o r é m a t r a d i c i o n a l r e v a n c h
história da peninh a fora um p e q u e n o truque. Não pod e e o u p u n i ç ã o dos vilões. Nessa história n ã o
haver nada mais patern o d o q u e esse há um vilão específico, a pe n a s o ambient e te m
episódio . Ele é similar ao qu e ocorr e q u a n d o as crianças sua s rusticidades, ele sofre de frio e fome. O pape l
aprende m a anda r d e bicicleta: e m determinad o de ma u se reserva às ave s q u e o discriminaram ;
mo • mento , q ue m as está segurand o deixa-as soltas, assim c o m o no circo, o elefantinh o or e l h u d o
e elas segue m pedaland o sozinhas, confiantes de foi achincalhad o pela s amigas da mãe. 8 De qualque
q u e estã o send o amparadas . O trabalho do pai é r maneira , esse s p ers o n ag e n s qu e maltratam o patinh o
esse auxílio no crescimento, qu e passa po r deixar voar, estã o long e de ser vilões do quilate d e bruxas , ogro s
mas entregand o um a peninh a q u e represent e su a e dragões . T a m p o u c o encontramo s a q ue b r a de
presença , ou , co m a s mão s soltas, a c o m p a n h a c o algum a interdição , q u e geralmen t e faz a virada
m o olha r a s primeira s pedalada s independentes . da s situaçõe s n o s conto s d e fadas.
Trata-se d e u m apoi o q u e saiba se ausenta r na C o m o d i z í a m o s a n t es , c o n s i d e r a m o s q u
hora certa e possa ser substituído pela confiança no s e O Patinho Feio faz um a p o n t e entr e o
passos do filho. cont o de fadas tradicional e o ro manc e moderno , já
Quand o Anderse n escreve u O Patinho que , na trama de Andersen , a fonte do sofrimento
Feio, justamente se estava o pe ra n d o a valorização da é t a m b é m interna. Esse cont o já conté m um a
infância q u e culmino u no s dias d e hoje. For psicologia rudimentar , coisa q u e a s pe rs o na g en s do
algum a razão , porém , essa história n ã o sucumbiu . s conto s d e fadas p o d e m até revelar, ma s o
O s adulto s a se • g u e m contando , a s criança s sofrimento se dar á mais em funçã o da tragédia e m
continua m escolhendo- a c o m o algo dign o d e ser s i e m e n o s n o discurs o d a personage m . A c a m i n h a d a
repetid o a cad a noite . Pel o jeito, ela n ã o é apena d o P a t i n h o F e i o , d i f e r e n t e m e n t e d o percurs o
s um a relíquia, ela fala de coisas q u e aind a sã o ativas da s pe rs o na g e n s clássicas d e conto s d e fadas, é
n o noss o inconsciente . P e n sa m o s q u e , nesse s casos, mobilizad a p el o sentiment o de rejeição e pel a
p o u c o import a o s e x o d o perso • nagem , embor a sua vo nt a d e interna . Lembremo -no s d e q u a n d o el e
tant o o patinh o q u an t o o elefante sejam deix a a casa d a velha , o n d e n ã o estav a s e n d o
propria me n t e

36
Di a n a Li c ht e ns te i n C o r s o e Mári o C o r s o
razão : provavelmen t e a mora l contid a é mai s uma
desculpa , o q u e transmitimo s a o conta r u m a
maltratado, p o r q u e n ã o s e adapt a à co m p a n hi a
d o s outros animais doméstico s - un s tipo s b e m
desagradá • veis - e senti a s a u d a d e s d e n a d a r
na la g o a . A s dificuldades externa s auxiliam na s
decisõe s d e q u a n d o partir, mas o q u e realment e o mov e
é o fato de n ã o se sentir be m recebid o e m
deter minad o lugar.

Cachinhos Dourados:
uma casa que não acolhe
a versão mais popular, Cachinhos
Dourados fala de um a menin a qu e foi
passea r num a parte da floresta q u e ainda
n ã o conhecia . Lá e n c o n t r o u um a casa ,
provisoriamente
abandonada pelo s seu s donos : três ursos qu e
haviam saído para dar um a volta en q ua n t o seu mingau
esfriava nas tigelas. Esses ursos ás vezes sã o
representado s po r uma família - co m o na versã o mais
popula r hoje -; po r outras, são apena s o urso grande , o
médi o e o p e q u e n o . A trama é breve , conté m quas
e n e n h u m a ação ,
enfoca a pe n a s a estad a da m enin a na casa. Cachinho s
tenta saciar sua fome na s tigelas: o minga u da
grand e está muito quente , o da médi a muit o frio
e o da p e • quena, na medida . Por isso, ela c o m
e o aliment o do urso p e q u e n o . Cansada , busco u u
m lugar par a senta r e experimento u as três
cadeiras : a grand e era muit o dura, a média muit
o mol e e a p e q u e n a lhe parece u ótima, mas
ela era muit o gr a n d e par a o assent o e acabou
q ue br a nd o - o . Por último, foi tenta r dormi r um pouc o
na s cama s e a experiênci a se repetiu . Apó s
achar a cama do papa i urs o muit o dura , a da
m a m ã e muito mole e a do filhote ótima, p eg o u no
sono . Nã o durou muito se u descanso , acordo u
apavorada , rodea • d a d e ursos e m t or n o d a
cama . Nã o tev e dúvidas , pulou pela janela e
fugiu. Fim.
Cachinho s Dourado s está long e d e ser u m
b e b ê feinho, já é um a linda menin a crescida, ma s
n e m po r isso conquisto u um lugar. A preservaçã o dess a
história na vida da s crianças c o nt e m p or ân e a s já
garant e um a questã o im po rtante . Certa me nt e n ã o
seria po r se u conte úd o moral , poi s n ã o c o n t é
m n e n h u m a lição, apena s deix a u m v a g o avis o
d e q u e n ã o c o n v é m invadir propriedad e alheia, ne
m usar objetos se m auto • rização d e seu s d o no s . E m
geral, s u p o m o s q u e tod a a história possu i algu m
tip o d e moral , lição o u b o m exemplo , e isso
seria o motiv o de introduzi-la na vida d e uma criança.
Esta é um a prov a d e q u e n ã o é b e m essa a
história é alg o q u e n o s escapa , q u e o b e d e c e a deter •
minaçõe s inconscientes .
A história de Cachinh o s Dourado s n ã o é
um a lição d e bondade , d e bravura, d a
persistência neces • sária até encontra r u m lugar,
d o fato d e q u e t o d o o sofrimento u m dia terá
um a c o m p en s aç ã o . Q u a n d o o heró i nã o mostra algu
m tip o d e mérito, teríamo s aind a o fund o moral
q u e justificaria um a narrativa, c o m o alertar sobr
e os perigo s da curiosidad e (Barba Azul) o u d a
desobediênci a (Chape uzin h o Vermelho). Esse cont
o n ã o oferec e n e n h u m a m e ns a g e m positiva, seria
simplória a leitura de q u e a menin a é punid
a pela curiosidade , p a g a n d o u m preç o pela
transgressã o d e invadir um a casa q u e nã o é sua,
e que , co m ela, as crianças apren deria m a nã o
ser xeretas. Cachinho s é ap e n a s um a menininh a
cansad a e co m fome, depoi s de um a excursã o
na floresta. Afinal, se fosse o cas o d e culpa r
alguém , po r q u e n ã o re p re en d e r a casa do s urso s
po r n ã o ser mais acolhedora ?
Ela chega sozinha, vinda nã o se sab e de
onde , tenta de todas as formas encontrar no
ambiente algum tipo de aconcheg o e se desentend e co
m os objetos do • mésticos. Duros demais, muito
grandes, excessivamente moles, menore s do qu e
deveriam ou frágeis. São camas, cadeiras, pratos e
alimentos qu e se mostram inadequados, demonstrand o
sim qu e a menina nã o serve para se utilizar deles. Por
último, exausta depoi s de tantas aventuras, ela
adormec e na cama do beb ê urso, mas somente até o
retorno de seu verdadeiro dono .
T a m b é m c o n v é m nota r q u e t o d o s o s
aconte • cimentos dessa história ocorrem dentro da
casa. Aqui a floresta é com o uma boca de cena, por ond e
desaparecem e aparece m os personagens , o foco
está lá dentro. Se tivéssemos qu e resumir a
trama, diríamos: a casa nã o serve para a menina
e a menina nã o serve para a casa, enquant o a
floresta ainda nã o se constitui nu m lugar.
Boa part e da s histórias tradicionais infantis ocorr e
na floresta ou inclui a tarefa de atravessá-la. É o e s pa ç o
po r o n d e passa a missã o de sair par a o m u n d
o par a prova r algu m valor, c o m o ser capa z d e
sobrevive r ao s seu s perigos , trazer u m objeto o u
tesouro , tarefas mais usuai s do s herói s do s conto s
de fadas. Seja c o m o for, o q u e interessa é q u e
se repet e a situaçã o em q u e o p er s on a g e m pass
a p o r algu m tip o d e expulsão , fuga ou partid a
do lar, a partir da qua l e m p r e e n d e r á a
verdadeir a aventura , q u e s e desenrol a d o lad o d e
fora d e casa, n a floresta o u atravé s dela .
Viver junt o da família, na mesm a casa,
equival e a ficar à merc ê de seu s julgamento s
e desígnios . É precis o partir par a o m u n d o par a
revelar e descobri r o

37
Fadas n o D i v ã - Ps ic a n áli s e n a s História s Infanti s
feitio,

própri o valor, conquista r méritos q u e funcione m com o


um a p e q ue n a vingança. For melho r qu e seja a família,
haver á um a lista d e queixa s q u e coleciona m os ,
d o q ua nt o nã o no s consideram o s apreciado s e
a m ad o s . A primeira dessas insatisfações prové m de q u e a
criança pe quen a é excluída de um a série de
evento s e vista c o m o incapa z para muitas tarefas e
atividades, o q u e , aliás, às vezes, é a mais pura verdade .
Co m o nà o somo s norteado s pela razão, sem pr e
restarã o mágoas . E m última instância, parec e q u e
algué m deveri a paga r pel o fato d e virmo s a o m u n d
o tão impotente s e despre • parados .
A partir d o m o m e n t o e m q u e no s
julgue mo s vitoriosos n a aventur a d a vida, po r
ter c o n s e g u i d o q u a l q u e r cois a qu e achemo s
m e r e c e d o r e s d e se r apreciada pelos outros, temos um
sentimento de vingança relativo àqueles qu e pensávamo
s qu e nã o acreditavam em nós. Estes, na verdade, talvez
nunca tenha m duvidad o da nossa competência,
simplesmente no s viam co m a juventude e a
ignorância qu e de fato tínhamos, prova• velmente
estavam nos cuidand o e educando .
Apena s crescemo s um p ou c o , o suficiente
par a anda r pela s própria s pernas , e um bel o dia
passamo s a achar a casa familiar estreita e querem o s
de algum a forma partir. Desejamos transcende r aquel
e ambient e , mas sentimo s c o m o se os pais e os irmão
s no s achas • sem desvalorizado s e no s
expulsasse m . Fantasiand o um a expulsão , projetamo s
no s outro s o noss o desej o de sair.
Nos conto s d e fadas, algu m tip o d e
maltrat o preced e a partida do lar: a vida do heró i corr
e perigo , ele é mal-amado , mal-co mpre endi do . E
precis o q u e suas conquistas, em outro s reinos ou na
floresta, sirvam para mostrar às pessoa s q u e o
viram crescer, e q u e apostava m tã o pouc o nele, o seu
grand e valor. Q u a n d o ele volta para a família, o
faz chei o de tesouro s e glória. Muitas vezes, ne
m volta: vai viver sua realeza n u m m u n d o po r
el e co n q uis ta d o atravé s d o s d o n s q u e e m casa
ningué m s o u b e apreciar.
Cachinho s é totalment e atípica. Nã o há
família para testemunha r nada , ta m p o u c o ela que r provar
algo; sua história é uma simple s busc a inglória po
r algum a form a d e a m p a r o . Essa p e r s o n a g e m
talve z po s s a propiciar um a representaç ã o para a
situaçã o do filho caçula, q u e já encontr a um a
família pront a e n à o sab e o n d e se encaixar. Mas
ta m b é m serv e par a o filho mais velho , cujo lugar foi
u s u r p a d o p el o recém-c hegad o bebê , q u e tem
direito a o berç o n o quart o d o s pais ( a cama) , ao
sei o (o prato ) e a um aparent e lugar junt o a o
casal q u e s e recolh e hibernante, c o m o ursos, e
m volta d o nov o b e b ê . O m u n d o n ã o está n o se u
a comid a n à o é a q u e el e q u e r e se u lugar na
casa sofre inexplicáveis alterações .
A identificação co m Cachinhos nã o é privilégio de
crianças qu e têm irmãos, ela també m serve para
todo s o s d e s c o n t e n t a m e n t o s q u e a crianç a te m
c o m se u ambiente, qu e são vividos com o hostilidades. Se a
cama está incômoda, a comida não tem gosto bo m e as
cadeiras nà o são confortáveis, é porqu e esses objetos
nà o sào mais para a criança, e que m sab e eles já nã o a
quere m mais? Freqüentement e as crianças sente m c o m
o vind o de fora o qu e estão vivendo po r dentro.
Elas projetam seus sentimentos em pessoas e objetos do m u n d
o externo, sem a mínima noçã o de seu envolvimento.
À m e d i d a q u e cresce , o b e b ê c o m e ç a a
da r trabalho , j á nà o com e co m o m e s m o apetite , se u so n o
fica inquiet o e chei o d e p es ad el o s , n ã o pár a
s e n t a d o e m lugar n e n h u m e sua mãozi nh a curios a
s e met e e m t o d o s o s lugares , e m busc a d e algu m
objet o q u e ne m ele sab e qua l é . N a é p o c a e m
q u e c o m e ç a a caminhar , a crianç a te m um a
atividad e ansios a q u e a a c o m p a n h a r á pelo s an o s
seguintes , até q u e cons olid e a linguage m e a
c a p a c i d a d e de brincar.
Cachinho s é t a m b é m ess e ser inquieto , q u e
joga culp a n o m u n d o pel a insatisfação q u e a aflige.
Diant e d e tanta atividade d a criança, se u ambient e
doméstic o começ a a apresenta r sinais d e inadequação . O s
objetos mais frágeis sà o colocado s fora d e se u
alcance , repe • tidos nãos torna m cad a mo vim ent o se u
um a negocia • ção , h á muito s lugare s on d e nà o p o d e i r
o u coisas e m q u e nà o p o d e mexer. Além disso, o s adulto s
t a m p o u c o estã o s e m p r e d e a c o r d o c o m a o pi ni ã o
d a crianç a sobr e o m o m e n t o de fazer a higiene , se
agasalha r ou se alimentar. Se nã o há acord o relativo
ao s hábitos , muit o men o s haver á e m relaçã o a o sabo r da s
comidas , q u e aind a o b e d e c e m a o cardápi o parental ,
emb or a o p e q u e n o j á s e ach e n o direito d e fazer
sua s escolhas . De certa forma, a casa tod a fica mei o
hostil, c o m o a do s urso s par a Cachinhos .
É b o m insistir q u e o s conto s infantis n à o serve
m a p en a s à criança, o at o de narrar abre , par a os
pais, u m e s p a ç o d e e l a b o r a ç ã o s o b r e o q u e
ocorr e n o víncul o co m o filho. A história de
Cachinho s brind a a possibilidad e d e ver representad o
o seu trabalh o d e inventar u m lugar para o s
p e q u e n o s q u e che gam .
É recorrent e escuta r d a s criança s p e q u e n a s
a pergunta : o n d e e u estava q u a n d o e u aind a n ã o
tinh a nascido? A p re o cu pa ç ã o dela s é imaginar a
inexistência d e u m lugar prévio , d e d u z i n d o q u e , s e
algué m u m di a n ã o esteve , o u t r o di a p o d e r á
n ã o mai s estar . Inexistir ante s d e ter nascid o é pio
r qu e morrer, poi s q u e m morr e deix a
lembrança s, marcas de sua
Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso

passagem. Mas quem ainda não nasceu constata que o Cachinhos também é a criança que cresceu um pouco,
mundo se virava bem sem sua presença. As respostas dos agora tem condições de olhar de fora e ver o
pais, revelando que o filho já morava em seus bebê que já não é mais.
corações ou em sua imaginação, tranqüilizam a criança, Muitas crianças têm cachinhos na primeira versão
assegurando-lhe que ela foi precedida por um desejo, o dos seus cabelos, os quais geralmente não sobrevivem
que já é um consolo. ao primeiro corte. Os cachinhos são o cabelo do bebê
Se tiver sido desejada, a criança de alguma forma que cresceu. Às penugens do recém-nascido,
existia antes de nascer. "Mas por que meus pais sorriam muitas vezes, se sucede uma cabeleira vasta e
tanto naquelas fotos da viagem, ou da boda ondulada, com cachinhos, que as mães têm pena de
ou da festa, se EU não estava lá?" Acompanha essa, a cortar, tanto em meninos quanto em meninas.
fatídica questão: "e se eu não tivesse nascido?" E terrível Possivelmente, o adjetivo dourados diga respeito ao
cons• tatar que não faríamos falta, pois não valor em ouro que esses cachos têm para as mães,
saberiam de nós. Portanto, se perguntar pelo lugar na ou ainda ao fato de a primeira cabeleira do ser humano
família, pelo desejo que justificou um nascimento é ser mais clara, alourada, que a permanente.
pura filosofia, e é dela que se incumbe Para muitas crianças, o primeiro corte de cabelo
Cachinhos. Um lugar na casa, um lugar ao sol, se o é marcante: depois nunca mais serão louras
temos, existimos. nem cacheadas, esse é um tempo que acaba
Nesse caso, os ursos funcionam como uma metáfora ali. Depois disso, há um mundo que espera, mas até
da família humana. Os animais muitas vezes representam lá, embora a casa esteja ficando um pouco
os humanos, mas os ursos são um caso particular em incômoda, o tora de casa ainda não tem
que esse comportamento é muitas vezes retomado. O registro. Nesse momento, sair correndo de casa
urso é um animal que vivia próximo do homem, facil• sem ir a lugar algum faz sentido, porque não
mente encontravel nos lugares onde os contos nasceram. há exatamente um lugar tora da família. Embora
Além disso, o urso é onívoro como o homem, pode ser a primeira infância traga consigo elementos de
feroz, mas nem sempre, é um animal de belo socialização, o mundo referencial dos pequenos
porte, pode andar em duas patas e usar as mãos, não transcende o universo familiar. Cachinhos lembra
parecendo-se conosco. Mas é o fato principalmente de aos pequenos e ás suas famílias que ainda não é hora
hibernar com suas crias que faz com que pareça ter um de sair, mas nem tudo são rosas na toca dos ursos. Por
lar para sua família, como os humanos. baixo das cabeleiras douradas e cacheadas, há
Os ursos, ao contrário da maioria dos uma revolução que se gesta.
animais, teriam suas casas, tornando-se portadores do
tema do dentro e fora do lar, do aconchego da casa da
família nuclear versus a floresta inóspita e perigosa do Leitores versu s ouvintes
mundo externo. Os animais sempre estiveram
nos contos folclóricos, mas, desde que o homem ssas histórias raramente são lidas
começou a sair do campo e vir para a cidade, eles pelas próprias crianças. Quando já
passaram a repre• sentar também a idealização da estiverem no ponto de lerem sozinhas,
natureza, um lugar onde a harmonia ainda existiria. buscarão tramas
Cachinhos Dourados diferencia-se do conto mais complicadas, que propiciem devaneios
de fadas tradicional por não ter um desfecho bem sobre a coragem e o amor. É enquanto ouvinte que seu
marca• do. Quando é descoberta, a menina foge bem jovem público se situa. Mas não há o que temer,
espavorida para a floresta, deixando aos ursos a tarefa afinal elas falam de um mundo de bichinhos, se a mãe
de recons• truir seus objetos, o equilíbrio doméstico e ou a professora contarem essas histórias tristes, a criança
arrumar a bagunça que deixou. não se sentirá obrigada a uma identificação consciente.
Na família urso, Cachinhos enfrenta impasses que Hoje tem-se optado por livros dirigidos às crianças
são os de qualquer criança quando aquilo que deveria pequenas em que se narram conflitos cotidianos, nos
ser tão adequado a ela deixa de ser seu número. quais elas próprias são protagonistas,
Já não encontra seu lugar nem junto ao pai, cujo amor explicitando emoçõe s ou p r o p o n d o soluçõe s
é duro, alto e quente demais; nem junto à e negociaçõe s possíveis. O franco otimismo desse
mãe, cuja presença esfriou qual a sopa e cujo abraço é tipo de narrativa9 ameniza o peso das escolhas
demasiado mole, às vezes sufocante; muito menos lhe temáticas, afinal, sempre apresentam uma solução ou
serve ser o bebê, cujo lugar agora parece frágil
consolo.
e pequeno .
Já os contos maravilhosos não precisam ser
tão delicados, podem tratar os assuntos com mais
crueza,
39
Fada s n o Div ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infanti s
consi •
derada a mais antiga disponível: um cont o
escocês,
graças ao distanciament o qu e a fantasia
oportuniza , talvez de v a m a isso su a long evida de .
O fato de o personage m ser u m pato, permit e qu e
ac o m p an h e m o s sua infância miserável; já qu e é um
elefante, nã o importa se o m u n d o o ridiculariza, e ele
necessita se fazer valer longe da mãe; e, quant o à
história da menina , c o m o a casa é de ursos, n ã o
parec e tã o preocupa nt e q u e seja tão po u c o
acolhedora , q ua n t o seria se a hostilidade proviesse
de uma casa de humanos .
O própri o do maravilhoso, tal c o m o definido
po r Todorov, é tratar-se de um tipo de escrita o n d
e o ele• ment o do sobrenatural figura co m toda a
naturalidade possível. Por mais maluco s e oníricos
qu e sejam os acontecimentos, nã o haverá
estranhamento , pois está tácito d e q u e estamo s e m
outr o registro, q u e tud o é totalmente fictício. Isso
ele denomin a de "maravilhoso puro", "que nã o se
explica de nenhu m a maneira".10

Notas
1. TATAR, Maria. Contos de Fadas: Fdição
Comentada e Ilustrada, Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2004.
2. ANDERSEN. Hans Christian. Contos de
Andersen.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
3. A compilação anteriormente citada, de autoria
de Maria Tatar. disponibiliza a variante padrã o em qu
e a personagem principal é Cachinhos Dourados;
ela também inclui a versão de Robert Southey,
publicada em 183", na qual a invasora era
uma velha. Em algumas compilações de contos para
crianças, com o Children's treasury (Global Book
Publishing, 2002) ou A Chil's Book of Slories
(Random House, 1998), a personage m é
s e m p r e a menin a C ac hi n h o s Dourados. Esta
última compilação citada atribui a autoria da
versão ã francesa Madame D'Aulnay, mas nela os
dono s da casa nã o são uma família, são
ursos de três tamanhos. Apesar dessas variantes, tudo
indica que a versão da história do s três ursos repre•
sentado s com o uma família e a invasora
com o Cachinhos Dourados veio para ficar.
4. "Relaciona-se geralmente o gênero maravilhoso
ao dos contos de fadas, o conto de fadas não é
senão uma das variedades do maravilhoso. (....)
O qu e distingue os contos de fadas é uma
certa escritura, nã o o estatuto do sobrenatural."
In: TODOROV, Tzvetan. Introdução ü
Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva,
2003, p. 60.
5. Brun o Bettelheim mencion a um a versã o
com o as mulheres devem dar conta de ser
profissionais e mães com a mesma competência, os
homen s também passaram a ter qu e mostrar
no qual a invasora é uma raposa qu e termina devo• rada
seu desempenh o n o mund o doméstico.
pelos proprietários da casa. Ele frisa, porém, qu e este
seria: "um cont o admonitório, advertindo- nos a respeitar a 8. O fato de os perseguidores de ambo s
propriedad e e a privacidade dos outros". BETTELHEIM, personagens serem figuras da mesma espécie da
Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro : mãe leva-nos a supor qu e elas nã o passam de
Paz e Terra, 2001, p. 256. Consideramos essa versão a duplicações de sua figura. Em Andersen, as
forma folclórica do conto , ante s cie ser direcionad a outras aves do galinheiro propiciam uma
ao públic o infantil. representação caricatural e exagerada da rejeição da
mãe. No caso de Dumbo , seria uma divisão
6. Ao escreve r seu s ensaios , no s ano s 1580-1590,
maniqueísta da mãe, entre uma toda boa e
Montaigne já reclama contra isso. Diz ele: "E fácil ver por
aquela madrasta que rejeita, clássica nos contos
experiência que essa afeição natural (amor dos pais), a
de fadas. Nesse caso, o papel da madrasta é
que damos tanta autoridade, tem raízes bem frágeis . Em
represen• tado pelas amigas discriminadoras de
troc a d e u m p e q u e n o benefíci o , arrancamos todos
dona Jumbo.
os dias crianças do s braços das mães e a estas
encarregamos de nossos próprios filhos; obrigamos essas 9. São livros dirigidos às crianças bem pequena s
mães a abandonar os filhos a alguma pobre ama, a quem que corajosamente enfocam, de forma direta,
não desejamos entregar os nossos, ou a alguma cabra". assuntos difíceis, com o a morte de um familiar muito
Aliás, o próprio Montaigne, que não pertencia â alta querido, a separação do s pais, a inclusão
aristocracia, quis que sua mulher recorresse a amas, de social de amigos ou colegas com alguma
tal mod o o irritava a presença de crianças pequena s sob seu deficiência, os sentimentos de raiva ou inveja e
teto. In: BADINTER, Elisabeth. Um Amor Conquistado. Rio de a desigualdade social, entre muitos outros.
Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p.66. 10. TODOROV , T z ve ta n . Introdução à
Literatura
~\ A mesma questão se coloca para os homens : hoje de
pouc o vale ser um sucesso no mund o externo e um Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2003, p.63.
fracasso no casamento e ou na paternidade. Assim

40
Capítulo II
EXPULSOS DO
PARAÍSO

João e Maria, O Lobo e os Sete Cabritinhos e O Flautista de Hamelin


Concepção oral do mundo - Aquisição da locomoção - Desmame -
Fantasia de ser devorado - Fantasia de expulsão do lar - Distúrbios
alimentares
suficient e p a r a t o d o s . O p a i protesta, mas
ced e ao argument o de q u e o casal deveria

O s i r m ã o s d o c o n t o João
e Maria' alcançar a m a
proez a d e sere m conhecido s po r
prati• ca ment e toda s a s
crianças d o m u n d o ocidental . S
e existe u m cont o q u e fala a o
coraçã o da s crianças, este é o
caso . Nã o se p o d e dize r q u e
o s conto s d a tradiçã o
tenham uma boa
campanha d e lançament o , s e ele s sã o lem brado
s é porqu e a peneir a do s s é c ul o s o s
destaco u c o m o importantes. Co m o fonte dest a
história, e n c on tr a m o s a versã o do s irmão s
Grimm, Hansel und Gretel, publicada em 1812.
Joã o e Maria sã o filhos de um p o b r e
lenhador , cuja miséria extremad a levo u sua
esposa , madrast a das crianças, a sugerir q u e se
livrassem delas , já que nã o havia aliment o
se livrar das d u a s boca s extras para salvar a
própri a vida. A mulhe r suger e q u e as crianças sejam
levada s para o coraçã o da Floresta, par a um lugar o n d e
seriam deixada s à própri a sort e e d e o n d e n ã o saberia m
retor• nar, o u melhor, u m lugar e m q u e certament e
seriam e nc o nt ra d a s pela s feras, servindo-lhe s d e
alimento , ante s q u e achass e m a saída.
N a propost a d a madrasta , o s enteado s estava
m destinado s a o pape l d e refeição. Co m o veremos ,
era exata me nt e isso q u e assombrav a o destin o deles ,
ma s o q u e o s es pe ra v a n ã o er a u m a matilh a d
e lobo s famintos e sim outr a mulhe r perversa ,
um a brux a - provavelme n t e outr a face d a própri a
madrasta .
Nã o foi tã o fácil livrar-se da dupla . Enqua nt o
os pai s arquitetava m o plan o d e a b a n d o n o , a s
crianças, q u e n ã o havia m conseguid o conciliar o son o po r
tere m id o par a a cam a co m fome, ouvira m tudo .
Maria se desespero u , ma s J o ã o p e n s o u e m algo: n o
mei o d a noite, saiu d e casa e e nc h e u o s bolso s co m
pedrinha s
Fadas n o Div ã - Psi c a n áli s e n a s Hi st ó ri a s Infanti s

brancas , d o tip o q u e brilhava à luz d a lua. Q u a n d Con quistad a a liberdad e , o s irm ão s


o o plan o do s pais foi executado , J o ã o foi en c he r a m o s b o l s o s c o m p é r o l a s e p e d r a s
de ix a n d o cair as pedrinha s ao long o de to d o o p r e c i o s a s q u e e nc o nt ra r a m na cas a ela bruxa . Mas
trajeto de ida; assim q u e anoiteceu , elas indicara m o aind a tinha m qu e e nc o nt r a r o c a m i n h o ele volta.
ca m i n h o d e volta. A o amanhecer , eles batiam à porta Curios a ment e , dessa vez agira m c o m o s e
da casa, são s e salvos. Na próxim a tentativa de s o u b e s s e m p o r o n d e ir, sinal d e q u e já era hor a
livrar-se dele s t u d o se ele voltar. Poré m , no ca m i n h o , foram barrado s po r
repetiu , m a s a madrast a t ra n c o u a port a d a u m g r a n d e rio q u e teria m ele cruzar, se m
casa , i m p e d i n d o q u e J o ã o foss e a b a s t e c e r - s e auxíli o ele p o n t e o u can oa . Mais um a vez , chama a
c o m a s providenciai s pedrinhas . Não te n d o c om ate n ç ã o a estranhez a dess e c a m i n h o ele volta,
o marca r o caminho , o menin o utilizou o únic o pois n ã o h á notícia dess a travessia n a ida. Nã o
recurs o q u e tinha: migalhas d e pão , q u e obviament e p o d e n d o enfrenta r ess e desafi o sozinhos , foram
serviram d e aliment o ao s pássaros , deixand o o s irmão s ajudado s por um pato , que os transporta , um p o r
se m guia par a voltar para casa. Sem encontra r a saída, vez, par a a outra m arge m .
caminhar a m a e s m o dias e noites pela floresta at é q u e , Outra vez Maria mostrou-se esperta, pois é ela quem
exauridos , seguira m u m encantad o r pássar o branco , se deu conta ele qu e nã o poeleriam subir juntos na
q u e o s levou par a o qu e parecia ser a salvação: ave, que afundaria co m o peso . Com isso, os irmãos
"uma casinha feita de p ã o doc e e d e bolos, cujas ficaram quites, coubera m a cada um dua s ocasiões
vidraças era m d e açúca r cande" . Q ua n d o começara m a ele mostrar sua capacidade . Sem outras dificuldades,
devora r o telhad o e as janelas, saiu ele elentro dela chegaram em casa para elescobrir ejue a madrasta també
uma velhinha, que foi gentil co m eles, convidando- m morrera, e o pai só fazia lamentar a perda elos filhos.
o s para entrar. Graças às riquezas ela baixa , os três viveram felizes,
"Acomodaram-se , co m a sensaçã o ele estar livres da ameaça da fome e ela maldad e ela
no céu", lá foram regiament e alimentado s e madrasta.
ac o nc h eg a d o s até ador mec ere m . Mas. apó s ess e
agradáve l s o nh o , esperav a po r eles o pior pesadelo . A
velha na v er d a d e era uma perversa feiticeira, e a Tempos difíceis
casinh a n ã o passava ele uma isca para fisgar suas
presas . sta é um a história d e pai s q u e
N a manh ã seguinte , J o ã o desperto u conde na m seu s filhos a morre r de fome,
enjaulado , e n q u a n t o Maria foi acorelaela ao s gritos, livram-se deles par a ficar co m o p o u c o
q u e a convo • cava m par a o trabalh o eloméstico. Sua aliment o q u e restou,
primeira tarefa era prepara r uma comiela elestinada já q u e sã o incapaze s de abastece r a
a engorelar se u irmão, que aind a estava muit o magr o família. A fome é um do s eixo s em torn o do s quai s
para ser comido . Todo s os dias, a bruxa ia girou boa p a r t e d a históri a d a h u m a n i d a d e ,
verificar o a n d a m e n t o do p r e p a r o ele su a iguaria m u i t a s vezes , imp ulsio nan d o o s movimento s
, par a tant o p e di a que el e colocass e o eleelinho migratórios, a s disputas d e poder , a s guerras . N o cenári
par a fora elas graeles, par a ver se não estava mais tã o e u r o p e u , o n d e nasce• ram essas histórias, o tem a
o ossudo . O menino , que n ã o era bobei, da falta de aliment o só foi s up er a d o recentement e .
mostrava a ela um ossinh o q u e guardar a para Incontávei s o n d a s d e escassez dizimara m bo a part e
essa finalidade, o b t e n d o assim um a prorrog açã o d a populaçã o o u o s deixaram fracos para
ela sentença . Não sabe mo s po r q ua n t o t e m p o ess e d oe nç a s d e ocasião , d e m o d o que , não faz
truqu e surtiu efeite), mas o certo é que um bel o dia a
muito s anos , o m e d o de morre r de fom e era
paciênci a d a brux a acabou , decidind o comê-l o c o m
uma realidad e cotidian a ness e continent e (e aind a o é
o estivesse, magr o mesmo .
para um a inaceitável part e d a h u m a ni da d e) .
el a ma ndo u prepara r u m p a ne lã o ele águ a Existia inclusiv e um a utopi a m ed ie v a l a
par a cozinha r o menin o e ordeno u á irmã q u e esse respeit o q u e n o s d á a d i m e n s ã o d a
esquentas s e o torne), onele assaria t a m b é m um p ã o . ex te n sã o e d a importânci a da fome. O
A intençã o ela brux a era devora r ambos , empurrand o contrap on t o dess a escassez d e n o m i n a v a - s e
a menin a par a elentro elo forno, imaginava que ela Coc anha , 2 luga r imaginári o o n d e a comid a
seria mais saboros a assaela. Mas Maria t a m b é m
existia e m abun dância . E m Cocanh a havia rio s d e
tinh a lá su a esperteza : alegand o n ã o sabe r
vinho , a s lingüiças pulava m na s frigideiras, chovia
verificar a temperatur a elo forno, ela consegui u que
pãe s e queijos, enfim, tu d o aquil o p o r q u e
a brux a se debruçass e nele , de tal forma q u e
fosse possíve l empurrá-l a par a dentro . Foi assim ansiava a maioria da s pesso a s estaria lá presente . Na
q u e ela arde u na s própria s chamas . verdade , a utopi a se prestava a outro s s o nho s também :
lá ningué m trabalhava , a hierarqui a d o m u n d o estava abolida
, mas
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co r s
o

lãos enchera m certamente o acent o mais forte era na abun dânci a de


preciosas q u e alimentos. A insistência de tanta s histórias infantis no
ida tinham q u e tema d a fome pa re c e se r t a m b é m u m e c o de ss e s
lamente, dess a tempos difíceis.
ide ir, sinal de
Outro comentári o q u e s e faz necessário , sobr e
aminho, foram
esta e outras histórias: refere-se às crianças c o m o as
am de cruzar,
primeiras sacrificadas q u a n d o a escasse z de alimento s
ma vez, cham a
chega. Por exemplo , no cont o O Pequeno Polegar.3 é a
de volta, poi s
vez de o pai fazer o pape l de carrasco , di ze n d o à
Não p o d e n d o i
ajudados p o r z, sua esposa:
para a outr a
Você está vendo que não podemo s mais alimentar
nossos filhos. Não tenh o coragem de vê-los morrer de
pois é ela que m
fome diante dos meus olhos, estou resolvido a levá-
' juntos na ave,
los amanhã à floresta e deixá-los lá, perdidos, o que não é
irmãos ficaram
difícil fazer.
3es de mostrar
chegaram em
Convé m observa r qu e O Pequeno Polegar
m morrera, e o
coincide em alguns po nto s co m João e Maria. Apó s
iças às riquezas
os sete irmãos terem sido expulso s de casa po r vontad e d o pai,
da ameaça da
encontrarã o u m ogr o devorado r d e crianças. O que mais
uma vez no s leva a pensa r q u e existe um a correlação entre
essas figuras: o pai ou a mã e q u e rejeita e o monstr o
q u e ameaç a devorar, n ã o po r acas o são d o mesm o sex o e m
amba s histórias.
Era u m t e m p o e m q u e o s pais , s ó d e p o i s d e
ue condena m
enche r b e m a barriga , l e m b r a m q u e a s c r i a n ç a s
ivram-se dele s
poderiam ficar co m as sobras.4 O d u r o é q u e era b e m
to que restou,
assim. A criança c o m o algué m q u e possu i um valor
scer a família,
mais alto qu e o adulto, algué m a q u e m se dev e cuida r e
tais girou bo a
preservar, é uma conquist a da m od er ni d a d e . Para nós
íuitas vezes ,
é tão natural abrirmo s m ã o d o p o u c o par a q u e não
DS, as disputas i,
falte à s c r i a n ç a s , quanto , par a a sociedad e
onde nasce-
tradicional européia , era deixá-las co m as sobras .
imento só foi is
Mas essas sã o c o ns id er a ç õ e s gerai s q u e no s au•
de escassez os
xiliam a contextualiza r o clima da s o cie d a d e em q u e
deixaram
nasceram esse s contos , e m b o r a n ã o e xp li q u e po r qu e eles
>do que, n ã o
continua m s e n d o tã o p op ul ar e s . Aliás, observa r a
ome era um a
diferença cultural q u e separ a o m u n d o d e orige m
inda o é para
dessas histórias d a realidad e d e seu s atuai s leitore s
nos instiga aind a mai s a busca r nela s o motiv o de
lieval a ess
sua longevidade . S ó p o d e m o s conjetura r q u e esse s
e ítensão e
elementos ancestrai s estã o hoje a serviç o d e outro s
da
significados. Acreditamo s q u e se u u s o hoje é psicoló • gico.
;ssa escassez
Considera r o s aspecto s histórico s n ã o substitui a
íário ond e a
necessidad e d e a pr ec ia r a s possívei s e v o c a ç õ e s
lha havia rios
inconsciente s d e s p e r t a d a s p e l o c o n t o , q u e sã o a s
leiras, chovia
verdadeira s r e s p o n s á v e i s p e l a s u a permanência ,
ue ansiava a
mesmo q u a n d o a s c o n di çõ e s objetiva s j á n ã o per •
Ja verdade, a i:
mitem um a identificaçã o diret a en tr e o leito r e a
lá ninguém
personagem .
abolida, ma s
e important e explicar u m p o u c o esm orece .
mais sobr e o funcionament o de
um be b ê , par a c o m pr ee n d er m o s po
Famintos 43
r que , nesse s conto s d e
e fadas, os pais estão tão e m p e n h a d o s em
Desmamados livrar-se do s filhos e da tarefa de alimentá-
los. Em João e Maria, as crianças ficam a maior
i
parte da história relacionadas ao tema da
s
alimentação. Embora passe m da condiçã o
a
de famintos à de iguaria, só depoi s de
n
derrotar a bruxa
d
(qu e parec e morrer a o m e s m o t e m p o qu e
a madrasta, indicand o q u e sã o personage n s
o
conexas) , o s irmãos acertam o pass o para voltar
para casa, fazendo a travessia necessária para outra
a
forma de vínculo familiar. O cont o é a história
dessa travessia, simbolizada pel o cruzament o do
u
rio na viagem de volta. Do outr o lado do rio, já
m
n ã o há fome, ta m p o u c o há bruxa s
a
devoradoras . Vejamos c o m o esses últimos
elemento s s e combina m .
a
Neste conto , o s pais sã o acusad o s
n
d e estare m i m p o n d o ao s filhos aquil o que
á
, n a verdade , o se u própri o cresciment o
l
está precipitand o e m sua vida. Crescer traz
i
ganh os , mas ta m b é m perdas . Estas últimas
s
fazem co m qu e a independênci a conquistad a pel
e
o filho seja vivida c o m o a b a n d o n o po r part e
do s pais, já q u e é muit o difícil, nest e
d
m o m e nt o , s e reconhece r c o m o auto r da
e
própria história. Muitas vezes, a criança mesm a
"se desmama " e , a o m e s m o temp o ,
c
inconscientemente , acus a a mã e de negar-lh e
u
o seio.
n
Estamos acostumad o s a acom pan ha r o
h
sofrimento co m o qua l as mãe s prescinde m da
condiçã o de fonte de aliment o para seu s filhos.
o
Serão lágrimas de tristeza, pel a p e r d a d e u m
tip o d e víncul o ond e ela s sã o
p
insubstituíveis junto a seu s bebês , assim c o m o
s
palavras d e culpa , pel o notóri o g a n h o e m
i
liberdad e q u e o fim da tarefa lhes proporciona .
c
Tod o ess e discurso habitua- no s a
a
compreende r o desmam e com o um a
n
atitud e basicament e materna , o q u e ofusca a
a
e n o r m e partici• paçã o d o b e b ê nessa
l
decisão .
í
O d e s m a m e é o primeir o mo vi ment
t
o de inde • pend ênci a d o b e b ê , ele ocorr e
i
c o m o o fim d e um a relaçã o am orosa , n a
c
qua l o casal vai se nt in d o e m diversas
o
ocasiõe s qu e o es p er a d o encontr o n ã o acon
,
• tece, a sintonia diminuiu , há ruíd o na
comunicação . O cresciment o da criança, assim
t
c o m o a reestruturaçã o da vida e de) corpe)
o
da mã e a p ó s o parto , vai dimi• nuind o as
r
condiçõe s propícias par a a entreg a necessária a o
n
amor os o m o m e n t o d a am a ment ação . Cada vez
a
mais, acontec e q u e a m b o s estã o u m p o u c o
-
mai s distraídos, impacientes , o s corpo s n ã o
s
s e encaixa m tã o bem , é um a paixã o q u e
Fadas n o Div ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

Aliás, n ã o dem or a muit o par a q u e a criança pass e a Paraíso, poi s alé m d e n o futuro virar comid a d e bruxa,
s e sentir incomplet a c o m o q u e p o d e consegui r e agor a aind a terá d e trabalhar.
m termo s de satisfação e motivaçã o através da O trabalh o de Maria retrata a p e r d a da
boc a e critica a provedora , c o m o se a falha fosse grata passividad e d o b e b ê , q u a n d o pel a su a
dela . Q u e m s a b e se o p r o d u t o foss e mai s a invalidez tudo lhe é alcançado . Há um a époc a na vida
se u contento , o consumid o r nã o ficaria tão em qu e se diz à s crianças, m e s m o p e q u e n a s , q u e
insatisfeito... use m sua s pernas para ir busca r o q u e quere m , q u e
A primeira forma de decodificar o m u n d o é procure m e alcancem seu s objetivos, e é notóri o o
oral: chupar , lambe r e suga r sã o meio s q ua n t o elas resistem a isso. Embor a já saiba m falar
privilegiado s d e con heci m en t o e satisfação. Os olho s alguma s palavras , insistem em pedi r o objeto
fazem um ma pea • ment o geral, situam o objeto, mas , desejad o ao s gritos ou através de gestos . Q u a n d o
para investigações mais profundas , sã o requerido s j á p o d e m s e locomover , se u interesse privilegiará
os lábios, a língua e um revestiment o de saliva qu aquil o q u e tiver d e lhe s se r alcançado, m e s m o
e atesta o c o n he ci m e nt o adquirid o . q u e haja outro s tantos , igualment e atrativos,
Mas chega um dia em q u e ess e sistema e o m u n d o colocado s o n d e possa m pegar. Fazer o esforço de pedir
q u e el e p o d e abra nge r p a r e c e m p e q u e n o s , c o m palavra s (e m vez d e gritos), trabalhand o n
outro s horizonte s sã o requerido s pela curiosidad e o uso d o vo ca b ul ári o , assi m com o s e
d o be b ê . A o crescer, sua motivaçã o pass a pel a a b a s t e c e r d o que necessita m (ind o busca r o s
exploraçã o d e t o d o s o s lugare s o n d e su a s objeto s c o m a s próprias pernas ) sã o ato s vividos
perna s e seu s o l h o s p ud er e m levá-lo. A c o m o a b a n d o n o . Se a criança tiver de se engenha r par
loco moçã o é fascinante, tant o a própria co m o a do a atingir um objetivo é porque n ã o o fizeram po r e para
s objetos, q u e sã o arremessad o s o u têm providenciais ela. Neste m o m e n t o (à s vezes pe l o rest o da vida), se r
rodinhas . T u d o s e mo ve . ate n di d o é um a forma primitiva de ser a ma d o ,
trabalha r par a cuidar-s e e abastecer-se evoc a um a
Jo ã o e Maria jamais admitiriam q u e gostaria m de
forma d e solidão .
ter saído d e casa. q u e ansiava m o s mistérios d a floresta. O
desej o mais imediat o seria de q u e su a própri a casa Engaiolad o pel a baixa , J o ã o fica n o pape l aparen•
fosse comestível e q u e eles p u de ss e m passa r o teme nt e mais passivo , mai s regressivo, d aquel e qu
resto da vida la m b e n d o sua s paredes . Nã o fosse a e é impe did o d e crescer, q u e s e ma nté m alhei o a o
fome e a expulsão , jamais sairiam. Aí q u e está o engano mundo . Porém , se u pe rs o n ag e m incumbe-s e d e urna
, o mai s c o mu m é as crianças se lançare m à floresta, da s mais primitivas formas d e atividade, q u e constitui n
ma s acu• s a n d o o s pais d e tê-las ex p ul sa d o d e o exercí• cio do direito de se recusa r a comer .
casa e d iz e n d o q u e ali passava m fome. Nas histórias Fechar a boc a é a primeira rebeldia
de fadas, é muit o c o m u m um a te m p or a d a na assumida de u m bebê . A o entrega r o ossinh o e
floresta, significand o o m u n d o externo , o fora m lugar d o dedo para engana r a bruxa, J o ã o se
de casa, q u e invariavelment e s e iniciará c o m o um a posiciona c o m o magro - ossudo , c o m o se diz -, na
expulsã o o u co m a fuga d e um a condenaçã o á morte mesm a medid a em qu e ela o que r rechonchud o com o
. H á muita s morte s a o long o d o crescimento , cad u m porq uinho . Esse tip o d e recus a alimenta r é
a nova etap a obriga o ser h u m a n o a ver morre r similar à do s filhos, q u e insistem em seleciona r
aquil o q u e ele era e a família q u e servia àquel a o própri o cardápio , discordant e do da mãe ,
modalida d e d e relação . assim c o m o a o freqüent e f e n ô m e n o d e q u e a s
Neste conto , e m q u e a expulsã o d e casa s e crianças c o m e m d e tu d o n a casa do s outros , enquant
dev e à falta de alimentos , a mã e ou sua o na própri a são enojado s e seletivos. É simples , na
representante , a madrasta , te m a idéia de livrar-se casa d o s o u t r o s ( q u e assi m s ã o c h a m a d o s
da s crianças , ma s o pai resiste, embor a se deix e porqu e nã o p e r t e n c e m à família mai s
levar. Parec e coerente , afinal é ela q u e m faz questã p r ó x i m a ) n i n g u é m está p en de nt e d o q u e eles c o m e
o no conto , é o se u corp o q u e é negado , já qu e m o u não . Nesse s casos, a crianç a realiza u m a
de v e m o s co mpree nde r o aliment o e n q ua n t o extensã o d o a p r o p r i a ç ã o d o at o alimentar , destinad o agor a
corp o d a mã e e d e seu s atributos m a t e r n o s . Perdido s a p e n a s à própri a satisfação, orientad o pelo s seu s
n a floresta , reencontra m um a representaçã o critérios.
d e s s e c o r p o , s o b a form a d a cas a comestível, A propost a da brux a a J o ã o n ã o existe
q u e de v or a m se m pre o c up a çã o , c o m o u m sedent o n o só nas fábulas. Muitas patologia s grave s d o víncul o
desert o s e atira na s água s d e um a miragem . O preço , mãe-bebê , q u e vã o r e d un d a r e m psicose s
c o m o sabe mos , é alto. J o ã o é engaiolad o par a infantis e e m certos q ua d ro s d e d e m ên ci a s e m
se r c o m i d o pel a brux a e Maria t a m b é m p e r d e o adultos , sã o frutos dessa bruxaria , qu e
co st u m a m o s c ha m a r d e simbiose . São
44
Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso

filhos engaiolados, não têm olhos para floresta alguma, Por isso, os dois irmãos se prestam para repre•
só vivem para e através de um vínculo umbilical com sentar duas formas importantes do crescimento: a troca
sua mãe. Jamais desenvolverão linguagem, porque só da passividade pela atividade e a separação
ela os entenderá e só isso importa, se caminharem o entre o desejo da mãe que quer alimentar e
farão sem rumo, pois só existe a presença magnética a vontade de comer do filho. O complemento
da mãe, todo o resto não é compreensível. seio-boca rompe-se definitivamente quando a
Talvez usem fraldas e se babem como bebês, criança passa a escolher e recusar alimentos. Antes,
ofertando-se no altar dos cuidados maternos, o seio simbolizava o alimento perfeito, portanto
embora em muitos casos estejamos falando de raramente era recusado, mesmo que viesse aplacar
homens barbudos e com pêlos pubianos. Esse é o outros incômodos diferentes da fome. De um jeito
filho que a bruxa devorou. Há patologias físicas, ou outro, o seio era sempre bem-vindo, se não para
mamar, para usá-lo de bico ou para ficar olhando
como lesões cerebrais e síndromes genéticas, que
para a mãe.
condenam pais e filhos a relações mãe-bebê, num
sofrimento que se prolonga até que a morte os É importante observar que o paraíso representado
separe, mas não estamos falando desses casos. Nas pelo seio - esse modo de vida em que nada falta e em
patologias psíquicas anteriormente referidas, não há que não é preciso fazer nenhum esforço - não existe
concretamente na vida dos humanos. Desde o primeiro
acidente, não há doença diagnos- ticável no corpo
encontro, quand o o recém-nascido dá a
que justifique a gravidade do quadro,
mamada inaugural e mãe e filho são banhados de uma
apenas um vínculo sufocante e demenciante. sensação de reconhecimento mútuo, estabelece-se
Maria também terá o destino do forno, já que ser uma relação que já supõe dois seres distintos. Eles
devorado não é um privilégio da relação da mãe com o passarão bom tempo sentindo-se visceralmente
filho homem. O que muda sua sorte é que ela estava unidos, mas essa é uma ilusão compartilhada. No
trabalhando, de alguma forma independente, por isso, desmame, rompe-se essa fantasia, não uma
dela parte a possibilidade de reagir. João, por sua vez, simbiose de fato. A necessária presença do
não está como a vítima hipnotizada da cobra, esperando o olhar como complemento da mamada, que o
bote, ele mantém a esperteza e engana a bruxa. bebê reivindica (ãs vezes até furiosamente),
Buscar seus próprios objetos, de alguma deixa bem claro que ele quer a mãe, não o leite, que
forma trabalhar, não é a única maneira de romper o o seio é parte de um contexto, não serve isoladamente.
fascínio de ser cuidado, descobrir que é possível É por isso que os bebês podem ser amamentados com
discordar do adulto, que ele não é tão poderoso nem mamadeira sem traumas, quando necessário, como nos
onipresente, como se acreditava, também é importante. casos de adoção ou de algum impedimento físico para
A tarefa é dar-se conta do quanto se é independente dar o seio.
do desejo da mãe: não adianta a bruxa querer
Quando esse primeiro idílio amoroso se rompe,
lhe empurrar comida, fazendo de Joã o um
restam a queixa e a idealização do que se
porquinho , ele lhe responderá com sua magreza.
supunha ter. Em João e Maria, a queixa é
representada pela expulsão de casa, onde a
madrasta lhes recusava co• mida, assim como a
Paraíso perdido idealização fica a cargo da ma• ravilhosa casa
comestível da bruxa.
oão é um bom exemplo para ilustrar Chame-se ela casa de gengibre, de
um tipo de anorexia infantil, doces, de pães e bolos, não há quem não tenha em
absolutamente normal, no qual a criança seu acervo alguma versão apetitosa dessa casa
testa e constata da bruxa. Sua aparência varia, pode ter sido
quão grande é a vontade da mãe de que ela fornecida pela gravura de um livro infantil ou por
coma. Quant o mais se recusar, mais uma criação pessoal, mas ela faz parte da galeria
variadas e angustiadas ofertas de alimento a da infância. A casa da bruxa significa fartura, pena
mãe lhe fará, ignorando que a única coisa que lhe que o preço seja fazer parte do cardápio. Aliás, a
permitiria voltar a comer seria se abster de lhe maior parte desse conto gira ao redor do comer:
oferecer muito e insistentemente. Se a mãe não começa com a fome em casa, o banquete na casa da
mostrar ansiedade em alimentar o filho, o desejo deste bruxa (onde se comem até as paredes), o terror de
pelo alimento poderá até se expressar, mas, enquanto serem devorados por ela e conclui com um belo
a insistência da mãe lembrar que ele comerá para assado de bruxa. O mundo de João e Maria é
a satisfação dela, ele recusará. 5 interpretado a partir da oralidade, mas, na prática, isso
é uma evocação, como aquelas memórias que fazemos
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

sobr e algum a pesso a querid a qu e perdemos , po r mort e o Seja através de um a velha baix a ou de um
u separação , entã o pinça mo s par a n os s o us o s ó lobo, de p oi s q u e um a floresta separ a m ã e e
a s parte s q u e no s interessam . A memóri a é sempr filho, restam evocaçõe s de dois tipos: idealizadas (a
e um a versã o d o s fatos. saudad e de ura m u n d o comestível) e aterrorizantes. A
Separa do s d a mã e pelo s n o v o s horizont e s figura primordial assustadora é uma versão da mã e
d e c o n h e c i me n t o e relaçõe s q u e se descorti na m a imaginária do primeiro vínculo simbiótico e, embor a
partir d o d e s m a m e , faremo s de s s e pri meir o pareç a estranho , pode muito b e m ser representad a
m o m e n t o um a versã o mítica, d e um a Mãe-Cocanha pel o lobo , associado em outra s histórias à figura
, d e cujos peito s jorrava m o leite e o mel . Mas masculina . O monstr o não precisa ser um a
ess a fantasia te m se u lad o negro : é a brux a figura feminina, porqu e ele nã o é a mãe , ele
de v or a do r a . Nã o poderíamo s pensa r qu e apena s dev e ter um apetite insaciável e feroz c o m o
s e m e l h a n t e fantasia d e c o m p l e m e n t a • ridad e entr o do ogr o de O Pequeno Polegar, de Perrault. O
e mã e e filho parecess e possíve l se m repre • senta r algu ap et it e p e r e m p t ó r i o d a velh a brux a o u a
m tip o d e ameaça . Ser u m s ó c o m a m ã e bocarra escancarad a do lob o representa m a
signific a p e r d e r - s e nel a , se r r e a d m i t i d o e m mesm a ameaça: ser visto apena s c o m o algo q u e
s u a s entranhas , e m suma , ser assado , cozid o e precisa ser incorporado o mais rápid o possível. Depoi s
co m i d o . Observe-s e q u e é uma fantasia possíve l de comidos , os filhos já n ã o terão existência própria,
a p e n a s par a q u e m j á te m b e m clar o q u e está d o lad farão parte do monstro.
o d e fora, p o r isso, tem m e d o d e se r reincorporad o . Esses conto s tã o assustadores , e m verdade ,
S ó p o d e voltar a entra r q u e m já saiu. têm u m aspect o extre ma m ent e tranqüilizador. O s
irmãos J o ã o e Maria n e m ch e g a m a se r devorados
, enquant o os cabritinhos e a menin a Chapeuzin h o
Vermelho saem intactos d a barriga d o lobo . Com
O Lobo e os Sete Cabritinhos
o a s histórias são contad a s d e s d e a perspectiv a
ara deixa r mai s claro q u e o important e da s crianças q u e já ti• vera m sua s rudimentares ,
é a separaçã o e m si, p o d e m o s lançar ma s bem-sucedida s , expe• riências d e separação ,
m ã o d e outr a história , t a m b é m m uit o n ã o h á mai s perd a d a integri• dade , ning ué m se
c o n h e c i d a , compilad a pelo s irmãos Grimm: dissolve na s entranha s da bruxa ou d o lobo .
O Lobo e os Q u a n d o um olha r enlaç a a mulhe r a se u
Sete Cabritinhos," em cujo c o m eç o há um a filho, q u e mam a e m seu s braços , j á estamo s nu m
inversã o em relaçã o a João e Maria, já q u e é a momento e m q u e ela e se u b e b ê sã o sere s separados . O
m ã e q u e m sai par a a floresta. primeiro tem po , q u e seria da simbios e absoluta , ne
Era um a vez um a velh a cabr a q u e tinh a m existe de fato. Na vida real, o seio represent a a
set e cabritinhos e os amav a c o m o as mãe s a m a m os mãe , ma s é ela q u e é a m a d a , p o r isso, é
filhos. Certo dia, ela teve de ir à floresta em busc a de re pr es e nta d a c o m o uma mulhe r (n o cas o a madrasta ,
a velha cabra) . Vice-versa, o filho interessa a ela n ã o só
aliment o e r ec o m e n d o u ao s set e cabritinhos :
p o r q u e a suga , há muitos significado s qu e se
"Tenh o de ir á floresta , meu s queridinhos , e você s
a c o p l a m á m a t e r n i d a d e - d e conquist a d e um
de v e m toma r muito cuidad o co m o lobo , q u e é
a identidad e feminina, d e poder , d e prov a de
muit o ma u e muit o peri• goso . S e ele entra r aqui e m
amor , etc. A mã e p o d e ser um a só, mas a
casa, devorar á você s todos , inteirinhos, da cabeç a ao m at er ni d a d e n ã o é um a coisa só . So ment e
s pés . Ele muitas veze s se disfarça, ma s é fácil apó s a primeira separação , da qual a criança se
reconhecê-l o logo, po r su a vo z ásper a e seu s pé s sent e autora - q u a n d o ela "se desma ma " -, aparecer
muit o pretos" . á a figura mons• truosa, c o m o se a criança p u d es s e
Disfarçado, o lob o consegui u devora r todo s se dizer: "Vejam só, o t a m a n h o d o perig o d e q u e
os cabritinhos , m e n o s o me n or zí n h o q u e s e e u m e escapei!".
e s c o n d e u be m e conto u para a mã e o aconteci d
A versã o pavoros a d o primeir o enlac e
o q u a n d o ela voltou . Eles encontrara m o mon str o
amoroso é um a espéci e de alerta par a a m bos . Para
d o r m i n d o d e bar• riga cheia e, de forma similar ao a mãe , que certament e c o n h e c e a s p e r s o n a g e n s
final de Chapeuzinho Vermelho ( q u e analisaremo s d a su a própria infância, este é o aviso: n ã o
n o p r óx i m o capítulo) , abriram a barriga d o lob o reincorporará s teu produto, s o b p e n a d e t e
c o m um a tesoura , salvaram o s filhotes d e v o r a d o s assemelhar e s a monstro s d o pior tipo; par a o filho:
e r e p u s e r a m o v o l u m e c o m pedras . O lob o s e estás n u m a viage m se m volta.
acordo u c o m sede , caminho u at é o poço , mas , com o Nã o esqu eça mo s q u e tant o a brux a quant o o lobo
o p e s o da s pedra s o derrubo u lá dentro , acabo u s ó fazem sua apariçã o n u m se g u n d o momento , apó s
m o r r e n d o afogado . a saída de casa do s filhos ou da mãe . Por sorte, em
geral,

46
Di a n a L i c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o

esses monstros são fantasias q u e só habita m os porõe s É relevante o detalh e de q u e a travessia final tenh a
da memória, nã o fazem part e concret a da vida familiar. de ser feita a sós, ou seja, os irmãos terã o de se separar,
Uma palavra a mais é necessári a sobr e as pedra s inclusive entr e eles mesmos . Já observamo s o fato de o
na barriga do lobo: preenche r o lob o é c o m o ter certeza percurs o de volta ser tà o diferente do da ida, afinal nã o
de que sua fome será aplacada , nad a mais caber á h á notícias d e qu e eles tenha m atravessado
lá. Está bem, mas se tem ta m b é m a e n c e n a ç ã o n e n h u m curs o d'água n o trajeto inicial, muito meno s
de um a gravidez masculina, o q u e també m ocorr e em u m grand e e difícil de transpo r c o m o esse.
Chapéu- zinho Vermelho. No final, a mã e ou o Um e x e m p l o q u e segu e atual sobr e a importânci a
caçado r recos - turam a barriga do lob o co m da águ a na s passagen s é o batismo . Algumas
pe d ra s dentro , e el e morre disso. Essa "gravidez tradiçõe s religiosas tê m revalorizad o o batism o
masculina " n ã o funciona, pedra é algo inanimad o e em sua forma primitiva, a imersã o total do neófito na
morto.8 Q u a n d o o lob o sofre uma "cesariana", o q u e água . Só depoi s disso, ele estará dentr o d e outr a
sai é alg o q u e já foi nascid o antes, ele mes m o é orde m mais elevad a q u e a do início. A partir da
estéril. A barriga de ped ra s já é uma tentativa da imersão . será recon heci d o c o m o m e m b r o d e
criança de diferenciar os sexos , entr e as mulheres qu e determinad a c o m u n i d a d e religiosa, ou seja, é um
carrega m os b e b ê s em seu ventr e e os homens qu ritual de passage m em q u e a água assinala o m o m e n t o
e n ã o o fazem. Inicialmente, ela part e da premissa d e transformação .
de qu e todo s sã o iguais e p o d e m fazer as mesmas Muitos sere s mágico s sã o incapaze s d e atravessar
coisas, log o gesta r e parir seria m atributo s curso s de água . Um expedient e c o m u m para se
comuns a ambo s os sexos . A realidad e liquida livrar d e u m perseguido r sobrenatura l é pular u m
essa hipótese e talvez a g e sta ç ã o p ét re a seja riach o o u atirar-se n u m rio, pois aquel e ficará
u m a bo a ilustração dessa infettilidade. invariavelment e detid o na margem . A mitologia e
a tradição folclórica parece m sublinha r a travessia
da águ a c o m o um a da s m e t á f o r a s par a a
p a s s a g e m p ar a o u t r o níve l d e existência, d e
A travessia
transformação , n ã o s e sai d o outr o lad o d a marge m
o fim da história, conform e a versã o d o m e s m o m o d o c o m o s e entrou .
d o s irmãos Grimm, J o ã o e Maria "achara A casa par a a qual retorna m J o ã o e Maria
m em tod o o cant o da casa da baix a arcas de n ã o é a m e s m a d e o n d e partiram, n ã o h á
pedra s preciosas e pérolas" qu e eles levaram mais nela um a figura m a t e r n a a m e a ç a d o r a , e
consig o a s ri q u e z a s fora m c o n q u i s t a d a s p e l a s p r ó p r i a s
de volta para casa. "São m elhore s q u e as cri a nç a s . E u m final diferente de tantas histórias
pedrinha s brancas", afirmaram referindo-s e à q u e l a de fadas, em q u e o heró i c o nq ui s t a se u p r ó p r i o
s c o m q u e assinalaram o cami nh o de volta na reino , riqueza s e um a bel a princesa , d a n d o as
primeira vez em que foram expulsos . Em casa, J o ã costas para o seu castelo de origem. João e Maria é
o havia e n ch i d o os bolsos d e pedrinha s o u migalha s anterio r a esse s horizontes , há um a revoluçã o
q u e lhe permitisse m voltar; dessa vez, o faz co m a fazer, ma s ela é intramuros , seu s efeitos serã o
outr o tip o de tesouro , cujo valor nã o é o de contabilizado s aind a dentr o da relaçã o familiar. O
um a passage m de volta. Eles encontram o pat o c o m o mei o d e transport e talvez seja um a
ca m i n h o d e casa, ma s pela s própria s pernas, as h o m e n a g e m à versatilidade dess e animal, poi s pouco s
pedra s preciosa s e as pérola s sã o um valor mundano, c o m o el e voam , camin ha m e nadam . Difícil
sã o c o m o dinheiro , q u e providenciar á o imagina r algué m mais b e m p r e p a r a d o par a a s
abastecimento d e q u e eles precisam . Agora, o s bolso transformaçõe s q u e a vida exige, portanto , ele parec e u
s estão pleno s d e indepe n dência . 9 m b o m exem pl o de mobilidad e possível. C o m o ele
Uma vez morta a mãe, que se negava a ser o paraíso, e domin a vários meios, p o d e figurar c o m o u m
livres dos perigos de ser devorado s po r ela, os irmãos se auxiliar ajudand o algué m a passa r po r eles.
satisfazem co m as jóias qu e pode m compra r comida e bem-
estar, representantes das riquezas qu e tanto fizeram falta
nos tempo s de escassez. Muitas histórias infantis Outros gulosos
contemplam u m verdadeiro crescimento, lembrand o qu e
quando partimos nã o voltamos nunc a mais, vivemos em xiste u m c o nt o curto, muit o antigo, repetid
outro reino, o antigo morreu. Isso equivale a dizer q u o e m vários folclores, geralment e
e uma vez qu e se mud a de posição subjetiva n ã o há volta, co n he ci d o c o m o título de Os Três
10
se verá tud o desd e um outr o prisma. Desejos. A história é a seguinte : um
p ob r e h o m e m conseg ue ,
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s H is tó ri a s Infanti s
importânci a d o p o d e r d e fazer cessa r o
jorr o d e a li m e nt o . A s
po r intermédi o d e u m ser mágico , a graç a d e
ter três desejos atendidos . Mas ele e sua mulhe r
sã o muit o tolos e . c o m o q u e m nunc a c o m e mel,
q u a n d o c o m e se lambuza , desperdiça m seu s
desejos de um a forma estúpida . O pape l de mais
tolo ora é da mulher, ora é do marido , ma s o certo
é q u e um do s dois, distraído e m conjectura r qua l
a m el h o r form a d e fazer se u pedido , enunciar á
alto sua vontad e d e c o m e r algum a coisa.
Prontamen t e o pedido_ é atendid o e assim se
d e s p e r d i ç a c o m u m si m pl e s a l i m e n t o a q u i l o
q u e poderi a conte r todo s o s tesouro s d o m u n d o .
O outr o cônjuge, raivoso po r ter visto um desejo ser
banalment e usado , n u m impuls o p e d e q u e a tã o
desejad a lingüiça grud e no nariz do guloso , e lá
se vai outr o desejo . Com o d a primeira vez,
trata-se d e u m p e n s a m e n t o q u e é en u nc ia d o
alto; se inicialmente há um a gula desmedida ,
nessa segund a vez, ocorr e u m descontrol e de raiva.
For último, o derradeir o pe di d o é gast o par a livrar o
nariz do monstruos o a d e n d o . E o casal está de nov o
co m o ante s d a possibilidad e d e desejar.
Além de ser um a fábula sobr e a dificuldade
de sabe r o q u e desejamos , a história n o s
mostra que, q u a n d o nã o s a be m o s o qu e
queremos , existe um a bo a chanc e d e
escorregarmo s par a o s desejos orais ou par a outro
s impulso s primitivos. Nessa história, há dua s formas
d e incontinênci a oral, a d e raciocinar c o m o estômag o
e a de falar se m pensar . Nas histórias de fadas,
muitas vezes , as person a gen s vomita m coisas boa s
o u ruins q u a n d o falam, mostra nd o q u e palavra s
també m sã o objetos q u e sae m da boc a e é
precis o controla r o q u e se diz. Em um a delas ,
As Fadas,1 1 a b o n d a d e é premiad a co m a expulsã o d e
pérola s junt o a cad a palavra , ao pass o q u e a
p e r s o n a g e m má é c o nd en a d a a vomitar sapo s
sem pr e q u e falar.
Outra história sobr e satisfação oral chama-s e
O Mingau. É narrad a pelo s irmão s Grim m e mal
passa de um parágrafo. Nela, um a menin a
faminta receb e c o m o pr e se nt e , d e um a velh a
q u e e nc o nt r a , um a panel inh a mágica . O objet o
fantástic o s e m p r e lh e oferecerá a quanti dad e q u e
ela desejar de mingau . A velha lhe ensin a as
palavra s mágica s par a iniciar e cessar o feitiço,
e assim a menin a providenci a par a q u e ela e sua
m ã e n ã o t en h a m mai s fome. U m dia, n a sua ausência ,
a mã e c on s eg u e fazer o feitiço iniciar, ma s n ã o
sab e fazer a panel a parar, acontec e e nt ã o um a
e n o r m e inun daçã o d e minga u q u e envolv e tod a a
cidad e e só cessa c o m a volta da menina .
O Mingau é um a fantasia sobr e um paraís o
oral, pel a possibilidad e d e satisfação irrestrita, cujo
p o d e r está co m a criança. É necessári o frisar a
criança s p e q u e n a s sã o e m b uti d a s d e comid a d e tal
m o d o q u e a idéia d a colhe r vind o par a um a
boca , q u e te m d e s e escancara r b e m obedie nte , vai
ficando terrífica á medid a q u e crescem . Fecha r a boc a
é uma da s primeiras formas d e poder . For isso, essa
pe q ue n a história, q u e ne m seque r angario u muita
popularidade , é significativa par a noss a análise.
Arriscamos dize r qu e seu e nc a nt o está e m dize r q u e
a crianç a p o d e até compartilha r co m a mã e o
p od e r de fazer brota r o alimento , mas o de fazê-lo
cessa r é só dela, ningué m vai lhe fazer co me r o q u e
ela n ã o queira .
O s paraíso s orai s n ã o p e r d e r a m se u prestigiei,
s e g u e m s e n d o imaginados . Acreditamo s qu e , contem -
p o r a n e a m e n t e . o mai s r e q u i n t a d o é a fabric a
de choc olat e do livro A Fantástica Fábrica de
Chocolate, de Roald Dahl.1 2 A trama é muit o mai s
rica do qu e um a utopi a oral, mas , d e q u a l q u e r
forma, o cenári o principal , em q u e a história se
de se n v ol v e , é uma fábrica mágica-tecnológic a o n d e
t u d o é comestíve l e todo s o s s o n h o s glutõe s infantis
p o d e m se r atendidos . Nessa novela , a magia é
substituíd a pel a tecnologia , e a floresta encanta d a é u m a
fábrica n ã o m e n o s encan • tada . Enfim, u m a c o c a n h a
infantil moderna , o n d e to d o s o s d o c e s estã o
disponívei s se m custo s e sem limites, ma s cad a um a
da s criança s visitante s terá d e a p r e n d e r a se controlar
. A p as s ag e m pel a fábrica é t a m b é m u m ritual d e
saída d a infância, n a medid a e m q u e cad a u m
precis a prova r q u e n ã o s e deixa levar pel a oferta
oral , p o r mai s q u e a te nt aç ã o seja d o t a m a n h o d e
um a fábric a e se u p r o p r i e t á r i o feiticeiro, u m
g r a n d e sedutor .
O s drama s atuais, c o m o obesidade s , anorexias,
toxicomanias e alcoolismo, sã o histórias de gente , jovem o u
adulta , t e n t a n d o sol u ci o na r o s p r o b l e m a s co m
pedrinha s branca s q u e a s recon duz a m a o calor d e u m
lar q u e o s expulso u q u a n d o crescera m . Diant e do s
fracassos, da s insatisfações, esses João s e Marias tentam
devora r a casinha, ingerindo alimentos ou incorporand o
substâncias tóxicas q u e proporcion e m um a satisfação. Se
consumire m a comida , ou a substância "mágica",
tenta m atingir tal satisfação, mais mítica do q u e real.
Trata-se d e gent e qu e sab e o q u e que r e p o d e consegui- lo,
se u desejo é a incorporaçã o de um objeto concreto. A
anorexi a é o m e s m o pela s avessas , o objet o é a
comida, só qu e a relação é de recusa.
A toxicomania , c o m o a bulimia, sã o um circuito d
e vid a r e d u z i d o , ela s a p l a i n a m o p r o b l e m a d o s
desejos. Afinal, nunc a sa b e m o s muit o b e m o qu e , o u
q u e m q ue re m o s , n e m d o q u e precisamo s ser par a qu e no s
queiram . Q u a n d o o assunt o s e resolv e e m termo s d e
ingestão, c o n s u m o ou abstinência de algum
Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso

alimento ou substância, sabemos que queremos aquilo e


que se tivermos aquilo nos sentiremos
queridos. Como se vê, João e Maria é uma
história de gente pequena que serve também para
gente grande.13

O voto de morte paterno


oão e Maria é uma história que
também oportuniza a elaboração do voto
de morte dos pais sobre os filhos, a fantasia
de filicídio.
O começo é muito explícito, os pais
não querem mais as crianças, elas atrapalham
a sua sobrevivência, comem sua comida. Como não há
para todos, então os pequenos têm de partir. É
mais do que uma expulsão, eles são deixados à
própria sorte na floresta. Os pais nã o se
preocupa m se eles conseguirão sobreviver sozinhos;
o que importa é que não voltem, se morrerem ou
viverem dá no mesmo. Nesse conto, a vontade paterna
é manifesta, mas cremos que existe outro que, embora
velado, discursa mais sobre o quanto os filhos
atrapalham a vida de um casal. Trata-se de O
Flautista de Hamelin,14 uma história européia que nos
mostra a vontade dos adultos de se livrar desses
pequenos seres que tanto comem e
só atrapalham.
A história é simples: uma cidade é assolada por
ratos, e os cidadãos já não sabem o que fazer. Os ratos
estão em toda a parte, importunando a todos, estragando e
comendo a comida da cidade. Os métodos habituais
não surtem efeitos, pois os animais são muitos, ninguém
dá conta de se livrar de tantos. Como último recurso, o
prefeito oferece uma valiosa recompensa a
quem conseguir livrar a cidade dessa praga.
Logo depois surge um flautista que diz ter uma
solução, com sua flauta mágica encanta a todos
os ratos e some com eles. A cidade comemora feliz
por estar livre dos roedores. Mas na hora de
cumprir o trato, o prefeito não quer pagar ao flautista
a quantia justa por ele ter livrado a cidade da peste. O
flautista não pensa duas vezes em se vingar de uma
cidade tão ingrata, pega a flauta, encanta desta
vez as crianças encerrando-as dentro de uma
montanha. Um menino coxo, que não consegue
acompanhar a turma, é a única criança que se
salva desse estranho destino e resta para relatar o
ocorrido. O menino manco tem inveja dos que se
foram, pois a promessa da música do flautista, que
ele também ouvira, era de um mundo melhor, onde
nada falta, onde não há perigo, e ele mesmo
ficaria bom da perna.
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Existe uma história moderna , uma
pequen a novela inglesa, qu e pod e ajudar-
nos a pensa r a equivalência entre criança e
ratos, chama-se As Bruxas, também de Roald Dahl.1
5
Nessa história, as bruxas são uma sociedade
secreta cujo objetivo é odiar e ex• terminar
crianças. Estão tentando usar em larga escala um
veneno, ministrado em guloseimas, que
transfor• maria as crianças em ratos. E, para a
maior glória das feiticeiras, seriam os próprios
pais e professores que vão matar seus
pequeno s sem saber o que estão fazendo.
Nessa novela, há uma pista para pensar o
porquê dos ratos: o menino que vem a
ser o personagem principal da história cria ratos,
são os seus animais de estimação. Ou seja, os
ratos podem estar nestas duas posições: ser um
bicho pequeno e gracioso e ser uma peste que
transmite doenças e dizima celeiros. O seu
aspecto de pequeno e doce é hoje bastante
lembrado, as histórias infantis do século XX estão
cheias de ratos, basta lembrar de Mickey e
Jerry para ficar nos mais famosos. As aventuras
de Tom e Jerry, sua permanência e simpatia
(apesar, ou talvez por causa da violência) se
devem, ao nosso ver, à eterna luta entre grandes e
pequenos, entre adultos e crianças. Como
o século passado foi um período de simpatia
crescente com as crianças, é natural que Jerry se
saia tão bem diante de seu inimigo natural bem
maior.
Mais recentemente, foram lançados vários
filmes em que os ratinhos são associados ao tema
da adoção. Por exemplo, em Bernardo e Bianca,
dois ratinhos se envolvem em salvar uma menina
órfã; em Stuart I.ittle, um ratinho é adotado
como filho por uma família humana.
Curiosamente, o menino que enfrenta as
bruxas no livro de Roald Dahl também é órfão.
Esse é um expediente pelo qual as histórias infantis
oferecem uma bem-vinda separação entre os
adultos maus, as bruxas, e seus pais, que são
inocentados desse voto de morte pela sua
ausência da cena.
Ora, se a equivalência ratos-crianças
pode ser estabelecida nesses contos modernos, e
esse simbolismo transposto para O Flautista de
Hamelin, então o conto faz sentido. O que a
cidade não agüentava mais - os seres pequenos
que tanto comem e que estão por todos os lados
incomodando a todos - eram as crianças.
Simbolicamente esse duplo movimento do
flautista, ora com os ratos, ora com as crianças,
de encantar e sumir é o mesmo. Trata-se de
sumir com as crianças para a felicidade dos
adultos.
Claro que o final é triste para a cidade, que
está privada de suas crianças, mas assim é a vida,
sempre
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s Hi st ó ri a s Infan ti s
diferente

p e r d e m o s alg o m e s m o q u a n d o no ss o s desejo s
sã o satisfeitos. Uma i n c o m p r e e n s ã o c o m u m d e
q u e m s e aproxi m a d a psicanális e é p e n s a r q u e o
c a m i n h o d a cu r a seri a a s i m p l e s r e a l i z a ç ã o
d o s d e s e j o s . N a v er d a d e seria m el h o r co n h ec ê-l o
s par a p o d e r enfren • tá-los , sa b e r lida r c o m
ele s , n ã o n e c e s s a r i a m e n t e realizá-los. S e assi m
fosse, um a q u e s t ã o d e satisfação direta, existiriam
p o u c o s h o m e n s sobr e a face da terra, j á q u e s o m o s
h a b i t a d o s p o r d e s e j o s d e m o r t e , direcionado s
inclusive ao s nosso s sere s mais queridos , incluind o
n os s o s filhos. Existem m o m e n t o s e m q u e
q u e r e m o s q u e ele s su m a m , q u e vacilamo s s e foi um a
bo a idéia tê-los tido . Esse p e q u e n o c on t o d á
va z ã o à s fantasias q u e n o s p e r c o r r e m a respeit o
d o n o s s o desejo , muita s veze s am bivale nt e , pelo s
filhos. São o s m o m e nt o s q u a n d o o s pai s p e n s a
m o q u a n t o o s filhos p o d e m se r u m p e s o n a su a vida
. Mas ess e c o n t o fala a am bos : às crianças , po r
tere m um a intuiçã o de q u e p o d e m se r o peso ;
e ao s pais , par a p o d e r e m pensa r c o m o seria
enfrenta r ess a ci da d e (casa ) vazia. O s pais têm
dificuldade d e re sp o n d e r c o m o seria
a sua vida se m os filhos. Certament e seria mais
fácil, mais barata, co m mais t e m p o par a eles , ma s
ficariam c o m o a cidad e d e Hamelin, c h o r a n d o
pela s crianças q u e s e foram o u q u e n ã o tiveram. Ter
filhos n ã o é u m b e m universal inquestionável , é cad a
vez mais, par a a sorte de todos , uma escolha . Relançar
o desejo h er d a d o d o s pais na geraçã o seguint e
se m p r e foi o destin o da hu manid ad e , paga m o s o
q u e nosso s pais investiram e m nó s n a próxim a
geraçã o q u e , po r su a vez, vai pagar tend o filhos e
assim sucessivamente . Acreditamos q u e é este p a ga m e n t
o q u e o prefeito de Hameli n inter• rompe u e, po r isso,
as crianças sumiram . Talvez hoje a pressã o po r ter
filhos n ã o esteja tã o forte c o m o um a imposiçã o
social, e existe m outra s formas de paga r ao s
pais po r no s fazer existir.

Notas
1. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Contos de Fadas.
Belo
Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
2. Existe um conto dos Grimm, A Terra da
Cocanha, mas ali estão exposto s apena s os
traços bizarros desse lugar mágico. Um bo m livro
qu e analisa essa utopia é Cocanha- História de
um País Imaginário, de Hilário Franco Júnior,
publicado pela Companhia das Letras, São Paulo, em
1998.
3. PERRAULT, Charles . Contos de Perrault.
Bel o Horizonte: Editora Itatiaia, 1989. É bo m lembrar
qu e O Pequeno Polegar de Perrault é muito
das outras histórias com esse nome . Aqui ele é o
caçula de sete irmãos, qu e são expulsos de casa
pela miséria, o começ o é praticamente igual a João e Maria.
Na floresta, eles enfrentam um ogro que os quer
devorar, mas, graças à astúcia do Pequeno Polegar,
habilmente conseguem escapar.
4. Nas palavras da mulher do lenhador dessa história:
- "Onde estarão nossos pobres filhos agora? Eles
fariam uma boa refeição com estes nossos restos!"
5. Voltaremos a esse assunto no Capítulo XIV, anali•
sand o os personagen s de Maurício de Sousa, Magali e
Dudu.
6. GRIMM. Jaco b & Wilhelm. Contos de Fadas. Belo
Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
7. Em Chapeuzinho Vermelho, ele faz o papel de adulto
sedutor e ardiloso, similar às raposas das fábulas, qu
e tentam e engana m os inocentes e os otários.
8. Idéia desenvolvida em FROMM, Erich. A Linguagem
Esquecida. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1962.
9. Retomamos essa questã o da troca de um tesouro de valor
oral por outro de importância monetária, na análise do
conto João e o Pé de Feijão, Capítulo VIII.
10. JACOBS, Joseph . Histórias de Fadas - Mundo da
Criança, volume III. Rio de Janeiro: Editora Delta, sem
data.
11. PERRAULT, Charles . Contos de Perrault. Belo
Horizonte: Editora Itatiaia, 1989. Citamos Perrault, mas
essa história é conhecida em todos os folclores com os mais
variados títulos. Quase sempre existem duas irmãs, uma de
boa índole e outra má e egoísta, send o esta última sempr e
a preferida da mãe.
12. O livro tem tradução no Brasil pela Editora Martins
Eontes, 2000. Em 1971, saiu o filme homônim o que muito
contribuiu para a popularização dessa história.
13. Na verdade, especialmente a toxicomania comporta vários
outros elementos, aqui falamos apena s de um do s
circuitos qu e estão operand o nesses con• textos de
adição.
14. BROWNING, Robert. O Flautista de Manto Malha- do
em Hamelin. São Paulo: Musa Editora, 1993. Esta
lenda ficou popula r através da poesi a feita po r esse
inglês, mas já era conhecid a há séculos. A cidad e de
Hamelin existe, fica na Baixa Saxônia e é també m um
porto . Há q u e m queira buscar indícios reais d e
um a migraçã o d e criança s o u jovens ocorrida no
sécul o XIII, mas nad a ficou provado , e tud o entã
o fica nest e território vago o n d e o s mitos
florescem.
15. DAHL, Roald. As Bruxas. São Paulo: Martins Fontes,
2000. Em 1990, essa história foi filmada com o nom e de
Convenção das bruxas.
Capítulo III
UM LOBO NO CAMINHO

Chapeuzinho Vermelho, Dama Duende, João-Sem-Medo e Os Três


Porquinhos
Perda da inocência - Curiosidade sexual infantil -
Fantasias de sedução por um adulto - Fantasia de
incorporação -
O papel do medo na construção da função paterna

- Para qu e esses olhos tão


grandes?
- Para te ver melhor, minha
netinha.
- Para qu e estas orelhas tão
grandes?
- Para te escutar melhor, minha
netinha.
- E para qu e esta boca tão grande?
- Para te comer melhor, minha
netinha!
ser á devorada, capa z d e preve r cad a frase, q u e
sab e d e cor e exige qu e a cad a vez seja repetida
ss e d i á l o g o é e s c u t a d o de forma idêntica. A o long o d o s últimos
h á gerações , e o leitor séculos , d e s d e Perrault,1 que a compilou do
certament e o conhece : faz folclore no sécul o XVII, essa história
part e do cont o Chapeuzinho
Vermelho. Se toda a
narrativa te m seu clímax, pouca s
tê m um a cadênci a tã o bo a até
atingi-lo c o m o esta. Ao final
dess e diálogo, a criança q u e
ouv e a história já está ele-
trizada, pendente d o d e s ti n o d a m e n i n a q u e
foi s e n d o suavizada . Sua primeira versã o francesa em
pape l (1697) n ã o conté m u m b o m final para a menina :
depoi s d o diálog o clássico, ela é definitivamente devo • rada .
O text o de Perrault te m um caráter de fábula
moral, ensin a q u e q u e m transgrid e a s regras s e expõ e ao
perigo , é p u n i d o e fim de história. Inclusive alguma s versõe
s d e Perrault traze m un s versinho s finais q u e
alertam as me nina s ingênua s sobr e o perig o d o s
lobos de fala mansa :

Vemos aqui qu e as meninas e, sobretudo, as mocinhas


lindas, elegantes e finas, nã o devem a qualquer um
escutar. E se fazem-no, nã o é surpresa, qu e do lobo
virem o jantar. Falo "do" lobo, pois nem todos eles
Fada s n o D i v ã - P si ca n á lis e n a s H is tó ri a s Infan ti s

são de fato equiparáveis. Alguns são até muito amá• ante s à cas a da avó . Já na história de Perrault, o
veis, serenos, sem fel nem irritação. Esses doces lobos, lob o desafia C hape uzinh o par a um a corrida até se u
co m tod a a e d u c a ç ã o , a c o m p a n h a m a s objetivo, s e n d o q u e lh e indica o c a m i n h o mai s
joven s senhoritas pelos becos afora e além do lo n g o e vai p el o mais curt o tratar d e seu s
portão. Mas ai! Esses lobos gentis e prestimosos são, assunto s c o m a vovó. E m toda s a s versões ,
entre todos, os mais perigosos." C h ap e uz in h o n ã o c u m p r e seu trajet o d e u m a
form a d ir et a . Seja p e l a s flore s e b o r b o l e t a s
Cent o e sessent a an o s depoi s (1857), os d o caminho , seja pel o praze r d e um a
irmão s Grim m escrevera m um a continuaçã o d a corrida , ela n ã o leva su a tarefa totalmente a
história, q u e lhe emprest a u m caráter d e cont o sério, cumpre- a brincando.
d e fadas.3 Nesta, a p ó s Ch a pe u zi n h o ter sid o De qualque r maneira , o Lobo cheg a ante s à
devora da , u m lenhado r q u e estava passand o em casa da avó , anuncia-s e c o m o s e n d o a neta e
frente à casa da av ó da menin a escuto u o ronc o d o lob o aproveita par a d e v or a r a velh a se m de lo n g as ,
q u e dormi a d e barriga cheia. Ele entro u e cortou-lh e ve sti n d o suas r ou p a s de dormi r e deitando -s e em sua
a barriga, retirand o a a v ó e a neta vivas de seu cama , à esper a d a m e n i n a . C h a p e u z i n h o c h e g a
ventre; após , os três pr ee n ch er a m o espaç o vazio d o d e p o i s , e , n e s s e m o m e n t o , ocorr e o clássico
estômag o d o animal co m pedras . O lob o acordo u s e g u n d o diálog o - repro • duzid o acima -, q u e é
co m sed e a acabo u afunda nd o n a águ a qu e se m p r e o clímax da narrativa. Por mais variaçõe s q u
pretendi a beber, m orr e n d o d a mesm a forma q u e e a história poss a produzir , essas falas sã o com o u
em O Lobo e os Sete Cabritinhos. m núcle o pe r m a ne nt e .
Apesar de os finais da s histórias de Num a ediçã o com entad a e ilustrada d o s
Perrault e do s irmãos Grimm diferirem, seu s inícios conto s de fadas, Maria Tatar disponibiliza um a curiosa
sã o bastant e similares. Temo s um a menin a adorável , versão, de feitio mais antigo, dess a história. Ela foi
conhe cid a d e todo s pel o capu z vermelho , compilad a a parti r d e na rr ati v a s orais , n a
pr es e nt ea d o pela avó , o qual andav a se mpr e Fr a nç a , e m 1885; portanto , q u a n d o já existiam
vestindo . U m dia, su a mã e p e d e - lhe q u e leve un s disponíveis par a o públic o as versõe s impressa s de
bolinho s e vinh o (o u manteiga ) par a sua av ó q u e Grim m e Perrault. O cont o chama-s e A História
vivia na floresta. Em Grimm, essa or d e m é da Avó ' e te m as características da s narrativas
a c o m p a n h a d a d e u m p e q u e n o sermão : folclóricas, n ã o originalment e direcio• nada s par a a
s crianças. Po r isso, n ã o h á nel e ne nh u m a mensa ge m
Trate de sair agora mesmo , antes qu e o sol pedagógi c a subliminar, n e m p re o cu p aç ã o e m
fique quent e demais, e, quan d o estiver na suprimir o s eleme nto s grotescos .
floresta, olhe para a frente com o uma boa menina e A História da Avó merec e um comentário ,
nã o se desvie do caminho. Senão pod e cair e quebra r poi s está fora do p ad r ã o habitual . O c o m e ç o é
a garrafa, e nã o sobrará nada para a avó. E igual, mas m a i s sucinto , se m o sermã o
quand o entrar, nã o se esqueça de dizer bom-dia materno , qu e est á totalment e ausente . O
e nã o fique bisbilho- tand o pelos cantos da diálog o co m o Lob o é breve , a p ena s est e pergunt
casa. a po r o n d e ela vai e segu e o outr o caminh o corrend o
par a chega r antes . Devor a a avó , ma s n ã o toda ,
Disposta a obedecer , C h ap e uz in h o peg a o deix a u m p o u c o d e carn e e um a garrafa d e sangu e
ca• minh o conform e lhe fora indicado , ma s par a depois . Q u a n d o C h ap e uz in h o chega , el e
p e d e - l h e par a deixa r a cest a na d e s p e n s a e
encontra-s e co m o Lobo. As várias versõe s frisam q u e
a convid a co m a carn e e o vinh o (o u melhor, o
ela n ã o tev e m e d o , poi s n ã o sabia d o perig o q u e
sangue ) q u e estã o n a prateleira. N o fund o d a
corria c o m ele . N o primeir o diálog o do s dois, chei o d
cena , u m gat o falante c o m e nt a q u e é precis o
e gentilezas, el e tom a a iniciativa e lhe pergunt a
se r um a porc a par a com e r da carn e da av ó e bebe r
a o n d e ela vai. Pron • tament e a menin a conta ao Lobo o seu sangue . A menin a n ã o parec e da r importânci a
sua missão, seu trajeto e a localização precisa da a essa observação , ma s está atent a a o convit e d o
casa da avó . Lobo par a irem par a a cama :
O ardilos o animal elabor a entã o u m plan o
par a devora r n ã o uma , ma s dua s criaturas. Para isso
precisa d e tem po , entã o faz Ch a pe u zi n h o ver c o m o o Tire a roupa , minh a filha, e venh a para a
sol está lind o e qua nta s flores há par a colhe r pel o cama comigo.
cami nho . A menin a s e entusiasm a c o m a proposta ,
s e distrai c o m as flores e admirand o borboletas , e ele A cad a peç a d e roup a q u e ela tira, pergunt a par a
consegu e chega r o Lobo o n d e colocar, el e r e s p o n d e s e m p r e o
mesmo:
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

Jogue no fogo, minha filha, nã o vai precisar


mais dela.

O strip-tease é detalhado , q u a n t o ao avental,


ao vestido, ao corpete , a anágu a e finalmente as meias ,
e mais minucioso será, q u an t o mais o narrado r
quise r acentuar as tintas eróticas da cena . Q u a n d o
ela final• mente deita, depoi s d o diálog o
co n he ci d o sobr e a s partes grandes e peluda s do corp
o do Lobo, a menin a tem uma súbita vontad e de urinar
e p e d e par a se aliviar lá fora, ao qu e o Lobo
r e s p o n d e q u e faça na cam a mesmo. A menin a
insiste, e ele deixa-a sair, ma s co m um cordão
amarrad o no pé . A menin a amarra o cordã o numa
árvore e dispara par a casa tã o rápid o q u e o
Lobo não a alcança.
Desd e ess a narrativ a d a tr ad iç ã o ora l -
q u e consideramos a mais antiga -, passand o po r Perrault,
até a história como é contada hoje - praticamente a
.versão dos Grimm - , o s as p ect o s mai s erótico s
( e m q u e Chapeuzinho se desp e para entrar na
cama do lobo- vovozinha) e canibalísticos (quando ,
antes de come r a menina, o lobo lhe serve a
carne e o sangu e da avó) foram sendo suprimidos,
substituídos e suavizados.
Apesar das modificações, a o long o dess e proces •
so, ficou preservad a a existência de um diálogo ,
em que a vítima faz perguntas , parecend o
desconfiada , mas ingenuament e se entreg a à bocarr a
de se u algoz. Por mais máscara s q u e s e p o n h a
par a suaviza r a violência do relato, a menin a será
engolida , e a tensã o da narrativa prové m da percepçã o
da s crianças ouvin • tes, que antecipa m o perigo , ao
pass o q u e a menin a se deixa enganar.
Mas se existiram tantas maneira s de conta r
essa história, numa s a menin a se salva, noutra s é
devorada , por vezes precisa de ajuda, po r outra s
foge sozinha , com o e n t e n d e r q u e r e c o n h e ç a m o
s t o d a s c o m o Chapeuzinho Vermelho? 'Na
verdade , c o m o em outro s contos, toda s a s
forma s s ã o válidas , inclusiv e a s modernas
visivelmente mod eradas , poi s estas sã o as
necessárias para noss a sensibilidad e atual. Toda s
as narrativas mantê m o essencial, po r isso sã o
re co n h e • cidas, afinal o q u e faz um cont o sã o os
eleme nto s em jogo, nã o necessariament e os seu s
ira a cama desfechos . O cont o d a Chapeuzinh o conté m u m
dram a sobr e a perd a d a inocência, e isso está
preservad o em toda s as versões . Chapeuzin h o é um a
criança c o m a ingen uidad e
de que m nã o sab e - e aind a nã o suport a sabe r - sobr e o
sexo, ma s sua intuiçã o lhe diz q u e há alg o a
mai s que anima o s sere s h u m a n o s . Embor a ela lev
e do c e s para a vovozinha , p a r e c e n d o q u e na vida
co m e r é a
rent e inocênci a infantil par a o c o n he ci m e n t 3
o da existência da s práticas sexuai s adultas ,
q u e surge m n a vida d a criança à s veze s
mai através d e um a seduçã o imaginada ou , em
o r caso s grave s e traumáticos, vivida.
sati
O apel o dess a história é forte, porqu
sfaç
e todo s já fomo s algum a vez C h a pe u zi n h o
ão e
Vermelho, que r dizer, d e s c o b r i m o s q u e a s
a
d e m a n d a s sexuai s existe m e p a s s a m o s a
solu
investiga r n o q u e no s dize m respeito .
çã o
Curiosos, ma s de s pr ep ar a d o s , corremo s o
par a
risco de ser c on v oc a d o s a o pape l d e objeto
tod
d e u m desejo erótico ante s d e estarmo s
o s
seque r remotamen t e pronto s par a tal. Q u e
os
dess e dram a um a menin a seja a protagonist
mal
a parec e normal , mesm o pa r a a
e s
id en tif ic aç ã o d o s ho m e n s , poi s se mpr e q u e
(vo
houve r um a criança s u b me • tida à s ed u ç ã o
v ó
po r um adulto , seja de q u e sex o for,
ficar
ficará fe m i ni za d a em decorrênci a da
á bo
p a s s i v i d a d e própri a d o ato . Isso n ã o que r
a da
dizer qu e u m m en i n o perder á sua
d oe
masculinidad e a partir de um incident e
nç a
desses , ma s sim que , naque l e m o m e nt o , estará
) ,
vivend o alg o q u e p o d e ser c o m p r e e n d i d o a
ela
partir d o p o n t o d e vista da entreg a sexua l
enc
feminina.
ontr
a no
cam
inh O que quer Chapeuzinho?
o
outr a époc a da criaçã o da teoria
o s psicanalítica, um a da s descobert a s
enc freudiana s mais difíceis d e absorver,
ant po r um a sociedad e q u e j á no s
os : pr ec e d e e m u m século , foi a d a
a sexualidad e
lábi infantil. Freud atribui a ignorância dess e
a aspect o da vida da s crianças a doi s fatores: a um
lupi preconceit o moral e à amnési a "qu e na maioria
na ,
da s pessoa s (ma s n ã o em todas!) en c o br e o s
as
primeiro s ano s d a infância, até o s
flor
6 o u 8 ano". 5 Talvez deveríamo s
es,
conjecturar q u e n ã o s e trata d e um a amnési a
as
bor total, ma s d e um a memóri a seletiva.
bol N a anális e d e u m adulto , através
eta s da s associa • ções , temo s acess o a u m nu meros o
e o acerv o d e fantasias erótica s infantis. Nela s
praz podemo s constat a r tant o o caráter
e r sexualizad o q u e a criança perceb e no s vínculo s
de a m o r o s o s familiares , assi m com o a
brin er oti z aç ã o d e m a n i p u l a ç õ e s medicinai s e
car. d e higiene . T a m b é m é possíve l evocar, a o
Ela lo n g o d e u m a análise, a s fantasias q u e a
repr crianç a fabrica pa r a se u us o
ese mastur batóri o , n o r m a l m e n t e formatada s d e
nt a a c o r d o c o m a s teoria s sexuai s q u e possu i
a n a ocasião , portant o privilegiand o
tran
siçã
o da
apa 5
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á l i s e n a s Hi st ór i a s I n fa n ti s
sabemos , pelo s drama s q u e circunda m o
control e esfincteriano - a tirada da s fraldas
a s parte s d o c or p o mais importante s par a a
criança p e q u e n a q u e par a o adulto : a boc a e o
ânus .
Outra forma d e mante r a memóri a desse s
velho s prazere s certament e fica ao s cuida do s da s
manifes• tações culturais. Tal pape l cab e certament e à
lembranç a d e algu m a artista o p u l e n t a q u e t e n h
a p o v o a d o a imaginaçã o do s p e q u e n o s , a algu
m trech o d e livro, convers a o u filme q u e a s criança
s t en h a m c on s eg ui d o coletar , ma s história s
infantis com o ess a t a m b é m oportuni/.a m a
ex p re ss ã o d o q u a n t o a s criança s s e sente m
atraídas po r ess e de sc o n he ci d o tentado r q u e é o
sexo . A menin a dess a história advert e q u an t o ao s
riscos q u e as crianças corre m graça s à sua inocênci a e à
maldad e d e algun s lobo s perversos , ma s t a m b é
m ilustra o quant o elas p o d e m vir a se expo r em
funçã o da curiosidad e e do s desejos erótico s
confusos, ma s imperiosos , qu e guarda m e m seu
interior.
Assim , fica difíci l i n t e r p r e t a r a a t i t u d
e d e Chapeuzinh o d e da r confiança par a u m estranh o
c o m o pur a ingenuidade . F m quaisque r da s versões ,
m e s m o na s be m co mp ortad a s q u e chegara m at é
nosso s dias . percebe-s e sutilmente , so b a trama
dess e conto , q u e entr e o Lobo e sua pres a há
um diálog o q u e n ã o se restringe à iminent e
devoração , a convers a te m um a inequívoc a
coloraçã o erótica.
Chapeuzinho Vermelho é um a história q u e
p o d e até incumbir-se da s seqüela s psíquica s d o
d e s m a m e e aj u d a r a organiza r a s fo bi a s
necessárias , m a s é principalment e evocativa d e
um a corrent e erótica q u e perpass a a relaçã o d a
criança c o m seu s adultos . Diant e d e s s e ti m b r e
se ns u a l d o a m o r familiar, a crianç a p e q u e n a
é tã o i n g ên u a q u a n t o C h a p e u z i n h o , ma s també
m tã o ousad a q u an t o ela. A menin a p o d e n ã o
sabe r qu e jogo está s e n d o jogado , ma s é inegável
seu interesse em participar.
Apesa r d e p e r c e b e r q u e v o v ó estav a
m u i t o estranha , ela entr a n o jog o d e palavra s
e s e deix a devora r pel o lobo . Aliás, trata-se d e
um a convers a d e mútu a sedução , plen a d e
preliminares . Sem destaca r seu caráter d e tentaçã o
erótica, seria incompreensíve l pensa r po r q u e o
lob o nã o a c o m e u co m a mesm a objetividad e
q u e o fez co m a vovozinha.. . Fm vez disso,
ele e a menin a ficam travand o um d ue l o verbal,
totalment e dispensáve l s e C ha p eu zi n h o nã o
passass e d e u m b o ca d o d e carn e tenra.
Em A História da Avó, a menina ,
d e p o i s de despida , escap a porqu e insiste co m o
Lobo par a q u e a deix e sair par a urinar, a o q u e
el e a c e d e s e ela for amarrada co m um fio de lã,
recurso de q u e ela se livra c o m facilidade. Ora, b e m
- e p e l o s repetitivo s c a s o s d e e n u r e s e n ot u rn a
- incontinência urinária -, q u e fazer xixi em hor a e lugar
inconvenient e s é , muita s vezes , manifestaçã o d e uma
excitação sexua l irrefreável par a a criança.6
A vontad e de urinar está freqüentement e associada ao
praze r das menina s e se mistura co m os primórdios da
masturbaçã o feminina. Na versã o folclórica do conto, então , é
indiscutível q u e Chapeuzinh o ficou excitada co m aquel a
conversa e co m o strip-tease. Embora os relatos mais
mo derno s n ã o tenha m essas partes picantes, restaram o diálogo
seduto r e o fato de q u e o lob o recebe a menin a na cama.
Seria p o u c o pensa r q u e d o pai s ó s e esper a
o pape l d o Lobo n o sentid o d e coloca r a s coisas n o seu
lugar e impo r as leis. Sabemo s q u e ele t a m b é m tem
seu s atrativos, principalm ent e par a a s Chapeuzinho s
Vermelhos q u e ele tem e m casa. O s me nino s també m
vã o se interessar po r ele, c o m o vere mo s em João e o
Pé de Feijão (Capítul o VIII), a se u m o d o , m a s
as menina s usarã o també m a s arma s femininas d a seduçã o par a
conquista r par a si a a te nç ã o do pai . É p o r isso q u e
elas s e deixa m cativar n o s diálogo s co m ele, qu e
d e s o b e d e c e m á mãe . O pa i d e v e ser temível, c o m o o
Lobo, ma s par a a menin a é important e fantasiar qu e
el e t a m b é m a desej a e a corteja. Essa q u e s t ã o
da importânci a d o desej o pa te r n o torna-s e relevant e mais
tarde, q u a n d o a menin a entra n a adolescênci a (com o
vere mo s adiante) , ma s o idílio já é b e m antigo , desd e o s
rudiment o s d a feminilidade d e cad a filha.
Três geraçõe s d e mulher e s estã o envolvida s n o
conto : a filha, a mã e e a avó . Se o Lobo p u d e r també m ser
consider ad o um a forma d e simbolizar aspecto s d o desejo
paterno , veremo s q u e ele s e interessa justamente po r aquela s
q u e n ã o p o d e n e m dev e seduzi r n a vida real. O
lobo-pa i teria de se restringir às mulhere s da su a
geração , se m assu nto s a tratar c o m criança s e
senhora s c o m idad e par a se r su a mãe .
É exatam ent e isso q u e a criança está tentand o
decodificar n a organizaçã o sexual d a vida adulta. Q u e m p o d e
casar co m q u e m e po r q u e o s velho s e a s crianças parece m
estar fora dess e tema? Q u e r e m c o m p r e e n d e r sobr e o amor,
q u e m se submet e a q u e m e qua l dessa s submissõe s (vista na
ótica infantil, é claro ) é sexual . A C h a pe uz i n h o te m e m
c o m u m co m a av ó o fato d e estar fora do comérci
o sexual , se o pa i n ã o respeit a essa orde m , é
natura l q u e v á c o m e r a a v ó ta m b é m , afinal toda s as
mul here s da família seria m en t ã o dele . O s a s p e c t o s
eróticos tão latentes q u a n t o
insistente s d a históri a d ã o c o nt a d e u m a c o rr en t e
s e n s u a l q u e s e e s t a b e l e c e e n t r e a crianç a e s e u
s progenitor e s , ma s n ã o deix a d e s e ate r ao s
velho s
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

conhecidos: a boc a e o praze r oral. Ao m e s m o t e m p o Curiosidade sexual


que o conto funciona dentr o do antig o registro
oral, tão cômodo para a criança, observ a certas pesar de existirem diferentes versões,
pe rc e pç õ e s novas, ainda nà o passíveis d e sere m há poucas histórias similares à de
decodificadas , que balançam o esquem a d e Chapeuzi• nho. Os contos de fadas são
organiza çã o psíquic a primordial. O praze r da convers extremamente
a e de brinca r entr e as flores se interpõe ao tema da repetitivos, uma leitura mais extensiva nesse
comida . Sua missã o era levar comida para a vovó território revela que uma mesma fórmula aparece, com
, c o m o se da í proviess e a forma única d e variações apenas superficiais, sob vários títulos. Nesse
a g r a d o possíve l , m a s eis q u e n o caminh o o sentido , Cbapeuzinbo é ímpar. Mas existe
mund o s e re ve l a be m maio r q u e a s uma exceção: uma história curta, narrada
guloseimas qu e cabe m na cesta. pelos irmãos Grimm, que pode evocar traços
Nào é difícil p e r c e b e r q u e C h a p e u z i n h o de Chapeuzinho, chamada Dama Duende.'"
est á cativada po r alg o q u e n ã o c o m p r e e n d e , ma s Nele, uma menina, que já é
se nt e . Nesse sentido , s ã o m u it o ilustrativa s a s desobediente e teimosa, pede aos pais para conhecer
g r a v u r a s clássicas d e Gustav e Dor é q u e retrata m a Dama Duende, uma senhora de má fama. Ouve-se
o primeir o encontro da menin a c o m o l o b o dizer que em sua casa ocorrem prodígios, a menina
na floresta e os dois d e i t a d o s l a d o a l a d o então é atraída por isso e tem muita curiosidade
n a c a m a . E m a m b o s desenhos , C h a p e u z i n h o de ver tais maravilhas, não explicitadas no
olh a par a o l o b o fixamente , entre intrigada e conto . Seus pais a proíbe m terminantemente
hi p no ti za d a . Há u m a m út u a s e d u • ção implícita. de ir lá, inclusive ameaçam de não reconhecê-la
O q u e s e d u z e fascina a m e n i n a n ã o é mais como filha, mas tal advertência pouco
certament e a bele z a d o lob o , d e que m surte efeito, ela vai mesmo assim.
n à o podemo s afirmar q u e seja u m galã , s ã o sua s O desfecho é rápido, a menina entra na casa da
se g u n • das intenções . Afinal, o p r e d a d o r p o d i a te r Dama Duende e quando chega diante da propriamente
d e v o r a d o sua tenra pres a n u m c a n t o q u a l q u e r dita já está pálida de medo. O que se sucede
d a floresta . Distraíd a colhend o flore s e é um diálogo que lembra o diálogo de Chapeuzinho
corrend o atrá s d e borboletas, era fácil d e se r com o Lobo. Neste conto, a menina já está
e m b o s c a d a , m e s m o assi m ele a atraiu par a a cama , amedrontada e não quer crer no que seus olhos já
par a lá lh e passa r sua con • versa mole ante s de viram: a casa se revela um lugar diabólico, com
devorá-la. 8 figuras masculinas aterrorizantes. A Dama Duende
Chapeuzinh o está interessad a e m sabe r n o é de uma crueldade impassível, transforma a menina
q u e ele está interessado, p odería mo s dize r q u e é o num pedaço de lenha que imediatamente é
desejo dele qu e a intriga. Mas gostaríamo s de frisar que , consumido pelo fogo.
para a menina, isso é mai s um a cu ri os id a d e , A moral da história é tão breve quanto o conto:
di ga m o s , teórica, qu e a pretensà o de chega r a não se deve ser desobediente e não se deve
algu m tip o de envolvimento erótic o co m se u buscar nada com as pessoas más. Mas, falando em
sedutor . U m abism o separa a s intençõe s d e u m tentação, o que essa menina desobediente procurava?
pedófilo d a capacidad e d e compreensão d a criança Que lugar é este que , apesa r do medo , dá
d e q u e m el e s e aproveita . Infelizmente, para as má fama e da advertência categórica dos pais,
p ob r e s vítimas dess e crime, é justament e ess a não deixava de atraí- la? Talvez a melhor pista seja o
i n o c ê n c i a c u r i o s a q u e s e d u z o abusador: o seu destino, virar um objeto a ser consumido pelo fogo.
contraste entr e a condiçã o adulta de seu propósito Na versão A História da Avó, existe um fogo aceso que
e a infantilidade da vítima. consome as roupas de Chapeuzinho, aqui a própria
O cont o Chapeuzinho Vermelho trabalh a o menina se torna um objeto a alimentar as chamas.
tem a d a sexualidade infantil dentr o d o território d o O fogo em questão é um recorrente símbolo do
possível e necessári o par a a s criança s p e q u e n a s desejo sexual e do ato sexual. Não falamos
. Te r u m a sexualidade, sabê-la e exercê-l a sã o apenas do popularmente conhe• cido fogo da paixão,
três coisa s b e m distintas. Esta última possibilida d e é bom lembrar também que existe a crença popular de
s o m e n t e se inau • gura co m a adolescênci a , que criança que brinca com fogo se urina na cama.
enquant o a infância oscila entre a s dua s Outra história dos Grimm que mistura os elemen•
anteriores . C h a p e u z i n h o é útil par a aqueles q u e tos do medo e da curiosidade sexual é
se nt e m q u e a têm , estã o curioso s c o m seu João-Sem- Medo.11 Este personagem não se assusta
significado, ma s aind a n ã o estã o p r o n t o s par a com nada e,
explicitar ess e c o n he ci m e n to . 9
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

po r isso, pass a reclamando : "Ah, s e e u p u d e s s e treme r Comer e ser contido


d e medo!".
Aqui n o s afasta mo s d e C h a p e u z i n h o , m a m Os Três Porquinhos,12 conto da
s a temática é a mesma : o enigm a diant e de tradição inglesa, també m há um
sensaçõe s do m u n d o adulto , ou seja, o q u e é o en contr o dos personagens com o lobo,
se x o e, principal • mente , c o m o n ã o temê-lo . Com mas esta história
o o maio r desej o d e João-Sem-Med o é encontra r alg ressalta outro significado desse evento:
o q u e lhe permit a viver essa sensaçã o q u e o s outro s tê m a fantasia de incorporação. Aqui, o risco de ser
e parec e ter-lhe sid o vedada , nã o lhe resta alternativa devorado é o tema central, enquanto em
senã o sair pel o m u n d o e m b us c a d e u m e n c o nt r o Chapeuzinho é um significado associado ao tema
co m o medo . E m se u caminho , po r sorte, da curiosidade sexual, como analisamos acima.
encontr a u m castel o e n ca nt a d o , assombrad o po r Neste conto, chega um dia em que os três irmãos
tod a a classe de diabo s e fantasmas, e q u e m porquinhos estão em idade de sair de casa, pois sua
consegui r desencantá-l o terá as graça s do rei e sua mãe já não tem meios de sustentá-los. Partem então
filha c o m o esposa . separados, seguindo caminhos diferentes. A primeira
Até os diabo s se assusta m co m a corage providência de cada um é conseguir uma casa
m de João : ele fica as três noite s - o te m p o q u e para morar, o primeiro faz a sua rapidamente
um preten • dent e devia passa r ali dentr o - se com um p ou c o d e palh a qu e receb e d e u
divertind o c o m as tentativas do s sere s da s trevas em m hom e m n o caminho. O segundo pede e
expulsá-lo . For fim, o s fantasmas s e dã o po r ganha, também de um homem que encontra, um
vencido s e sae m d o castelo, q u e p o d e se r pouco de gravetos e com isso faz a sua casa,
habitad o p o r h o m e n s n o v a m e n t e . O heró i ganh a levemente mais robusta qu e a do irmão anterior. For
a princesa c o m o prêmio , p or é m segu e frustrado fim, o terceiro porquinho dispensa mais tempo para
p or q u e ainda nã o consegui u treme r d e medo . A criada d fazer sua casa, pois ela é feita da maneira mais
e su a recém-espos a te m um a idéia: q u a n d o ele está sólida possível, é construída de tijolos, qu e també
na cama d or m in d o co m sua mulher, ela lhe joga m gan ho u d e u m d es co n h e ci d o n o
em cima uma tina de águ a co m peixe s vivos. Este caminho. Todos recebem, portanto, alguma ajuda (um
susto, q u e desta vez o colh e no lugar certo , na homem que lhes fornece o material
cam a co m uma mulher, produz-lh e a sensaçã o tã o necessário), o qu e varia entre eles é a
almejada, finalmente trem e d e m e d o . disponibilidad e para o trabalho.
Bettelhei m encontr a o sentid o dest e Quando o lobo entra em cena, os porquinhos já
c o n t o c o m p r e e n d e n d o - o a parti r d o se u fim, têm onde se abrigar. O primeiro corre até sua casa e
q u e o re - significa: a busc a de João , o q u e lh e se esconde, mas o lobo com facilidade sopra a casa
faltava sentir, n ã o era o m ed o , ma s os tremore s e pelos ares e devora o porquinho. O
afetos relacionado s ao sexo . Era ess e o efeito q u e ele segundo dos irmãos tem o mesmo destino, o
buscava , cuja ausênci a lhe impedi a d e s e sentir u m lobo simplesmente tem de soprar um pouco mais.
h o m e m completo . Afinal, é na cama e a partir de É apenas no terceiro porquinho que a história
um a sensaçã o produzid a pel a a ç ã o de um a toma outro rumo. O lobo sopra, mas não
m u l h e r - n o ca s o , a criad a é u m a duplicaçã derruba a casa. Já que suas ameaças de nada valem -
o da espos a - que ele sent e o q u e nunc a "vou assoprar, bufar, e sua casa vou derrubar!" -,
sentira. procura então outra maneira.
João-Sem-Med o partiu para o m u n d o movid o pela Usando a mesma lábia que surtiu tão bom efeito
curiosidade sexual, mas, c o m o já era jovem, p ô d e afinal s e com Chapeuzinho Vermelho, ele tenta
divertir, n ã o foi d e v o r a d o n e m c o ns u m i d o pela seduzir o porquinho com indicações de onde existem
s chamas . J á estava long e d a époc a e m q u e o apetitosas iguarias para ele. O porquinho escuta e
praze r dependi a d a boca , sã o o s peixinho s p u l and vai buscar a comida, mas sempre se antecipando ao
o e m sua pele , escorregand o juntament e c o m a lobo, que não consegue nada com suas armadilhas, a
águ a fria q u e o excitam . não ser perder maçãs e nabos para o espertinho.
O significado mais co mpl et o d o cont o seria Por fim, o lobo apela para uma medida
um a advertência : n ã o adiant a a corage m na extrema, tenta entrar pela chaminé da casa do
vida se m a corage m na cama , se m isso n ã o se porquinho; dessa vez, este também estava preparado,
é adulto . Muitas vezes, u m b o m d e s e m p e n h o e o lobo tem o seu fim dentro de uma panela de
diant e do s desafios d a vida n ã o implica q u e água fervente. Nesta história inglesa, o porquinho
tivemo s a corage m d e enfrentar o s fantasmas q u e come ensopado de lobo no jantar, ou seja, quem veio
no s a ss o m br a m entr e o s lençóis. comer acabou devorado.
Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso

Os Três Porquinhos têm a simplicidade que


as crianças bem p eq u e n a s apreciam , se m
muito s personagens, os bons de um lado e um
malvado de outro. A trama, porém, embora simples,
toca a fundo as crianças pequenas, que afinal um dia
terão de sair de casa e proteger-se sozinhas. Nessa
história mais antiga, os dois primeiros são
devorados, mas nas versões contemporâneas
todos se salvam: a cada investida do lobo, a
casa é derrubada e eles correm para se abrigar na
casa do irmão.
Embora os porquinhos não sejam tão
ingênuos quanto a menina, ambas as histórias
compartilham certa decodificação oral do mundo -
dividida entre os que comem e os que são
comidos -, que ainda persiste um bom tempo após
o desmame. O porquinho pode ser pensado como
sendo três em um. O trio daria espaço para a
evolução do personagem, representando sucessivos
momentos. Inicialmente desprotegidos, à mercê de
serem devorados, o porquinho e a criança aprendem a
criar empecilhos que os separem da mãe, diferenciando
sua vontade da dela. Como situávamos nos capítulos
anteriores, a separação da criança, o trabalho
de se compreender como um indivíduo é
progressivo e bastante marcado por estratégias
de defesa, como se recusar a comer e negar-se a fazer
o que lhe é solicitado. Sucessivas paredes, cada vez mais
bem construídas, demarcarão os territórios entre
a criança e seus adultos.
A arma do lobo é sempre a boca, afinal, o sopro é
uma força que provém dali e, de certa
maneira, também a lábia em querer enganar vem
do mesmo lugar. A boca cumpre múltiplas funções
quando se é muito pequeno, além de fonte de
saciedade, prazer e conhecimento, ela é uma espécie de
portal. Os trânsitos que ainda restam entre o bebê e sua
mãe, uma vez que a comunicação umbilical foi
cortada, terão passagem prioritária pela boca. O
olhar é uma fonte muito importante de vínculo.
Em função do que vê, o bebê pode se tranqüilizar -
"que bom, mamãe chegou" - ou inquietar-se - "Perigo!
Perigo! Ela pegou a bolsa, ela vai sair!". Mas só
aquilo que se engole é factualmente passível de
ser possuído e controlado.
Embora ainda não compreenda conscientemente, a
criança procede como se soubesse que sua primeira
morada é o ventre materno. Por sua vez, o raciocínio
de que se possa entrar e sair de dentro do outro não é
nada estranh o para alguém qu e há pouc o
se alimentava diretamente do corpo de sua mãe. Se
aquele líquido morno sai diretamente dos seios dela
para sua boca, outros trânsitos de dentro de um para
o outro também são imaginariamente possíveis. Mas
eis que
vem o lobo para lembrar que essa história não é
tão simples assim.
No imaginário infantil, o lobo e as bruxas gulosas
- tal qual a de João e Maria - assustam mais
que as baixas ciumentas - como as encontráveis em
Rapunzel, Branca de Neve e A Bela
Adormecida -, q u e geralmente aparecem
depois. Estas últimas são mais complexas, assim
como vai ficando a vida depois que as relações
passam a ser claramente entre pessoas inteiras
e não mais entre bocas. Quando as bruxas
ciumentas reinam, já há uma família inteira, há
uma criança que sabe que vai crescer e já pode se
colocar questões relativas à ambivalência de
sentimentos e à fragilidade dos pais. O primeiro
perseguidor, o papão da primeira infância,
freqüentemente pertence ao gênero masculino,
tendo no lobo seu ancestral mais famoso, tanto
que até hoje se fala dele. Mas na vida dos
pequenos o lobo não está só, pode ter a companhia do
Papai Noel, que não traz só presentes, são muitas as
crianças que o temem; do bicho-papão, que geral•
mente mora em baixo cia cama, mas freqüenta
outros cantos escuros; do palhaço, o terror dos
aniversários; do cachorro, que, como o lobo, vaga
pelas ruas pronto para cravar os dentes afiados
nas criancinhas; e de outros, ao sabor do
freguês. A bruxa também é assustadora, mas
ela não costuma sair das histórias para
aterrorizar o cotidiano dos pequenos, ou pelo
menos é mais raro encontrar uma bruxa
incumbida do papel de objeto fóbico.
Em relação aos três porquinhos, vence
aquele que melhor soube prever e se proteger, que
construiu a casa de tijolos. São histórias
que dão conta da necessidade de proteção da
criança diante de perigos que ela ainda não
decodifica bem, mas desconfia que deve aprender
a evitar. Os Três Porquinhos possui també m
agregad o um aspect o de fábula moral,
mostrando que a perseverança vence, que o
mundo não é só brincar, que o trabalho árduo é
recompen- sador e que crescer é saber cuidar de si.
No desenho da Disney referente a esse
conto, há uma provocação interessante à figura do
lobo, pois os porquinhos ganham uma trilha sonora
onde cantam de forma desafiadora: "Quem tem medo
do lobo mau, lobo mau, lobo mau?", provocando
seu perseguidor, como um toureiro. O porquinho
não se contenta em fugir e procede como a criança
que pede a repetição do conto, no incansável
prazer de ter medo. Graças ao lobo, a criança
poderá simbolizar o med o de desaparece r
dentr o do corp o da mãe, com o os
alimentos desaparecem dentro de sua boca, indo
morar em sua barriga.

57
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ór i a s Infanti s
figura faz um contrapont o com o u m aspect o d o lob o
q u e é um a ameaç a primordial.
São tem po s de uma subjetividade simples,
um a é p o c a e m q u e é c o n v e n i e n t e a i nv o ca ç ã
o d e u m intermediário entre a mã e e a criança, esse é
precisamente o lobo. Q u e m já brincou co m
pequenos , pouc o mais qu e bebê s deambulantes ,
descobriu qu e se esconde r e ser encontrad o é muito
divertido para eles.
Apó s aguardare m ofegantes , escondido s debaix o
d e um a cobert a o u atrás d e um a cortina, ele s
gritam nervoso s e eufóricos q u a n d o sã o descoberto s
e sae m correndo , c o m o p or q ui n h o s gritões. O
m o m e n t o d e esper a so b o s panos , ante s d e sere
m descobertos , é equivalent e à expectativa q u e
a c o m p a n h a o diálog o co m o lob o e o objetivo da
criança co m essa brincadeira é sentir m e d o . Mas po r
q u e um a criança gostaria o u precisaria sentir
medo?

Para que sentir medo?


e a criança n ã o soub ess e q u e há um
lobo - adult o r o n d a n d o lá fora, n ã o teria
tranqüi • lidade par a ficar oculta so b o
tecido , teria m e d o de nunc a sair de lá.
É o lob o q u e a
fará sair de seti esconderijo . O terror mais primitivo
é o de ser enterrad o vivo nas entranha s da
mãe . Por isso, a maior part e da s crianças eleger á
algum a figura a p a vo ra n t e par a se u us o pessoal ,
co n he ci d a pelo s psicanalista s c o m o objet o fóbico
. Sua form a varia bastante , ma s a certeza é q u e
o m u n d o ficará geogra • f i c a m e n t e mapead o
conform e su a presenç a o u ausência . O s objetos
fóbicos mais c o m u n s sã o aquele s fáceis de ser
encontra do s no dia-a-dia e no s lugares
freqüentado s pela s crianças. N e nh u m a dela s terá terror a
pingüins... A n ã o ser q u e mor e no Pól o Sul.
Sabendo-s e qual é o perig o e o n d e fica, o m u n d o
se torna mais previsível e tranqüilo. O pior
m e d o é despertad o q u a n d o nã o conhec e mo s be m o s
contorno s d o q u e no s ap a vo r a , p o r isso , o
terro r habit a n a escuridão. A fobia qu e
normalment e se manifesta na infância é um recurs o
de defesa contra um a forma de med o muito mais
terrível, qu e é a angústia: essa sensaçã o de q u e algo
indefinível e nào-localizável no s ameaça . A o
escolher u m algoz c o m o u m cã o o u u m palhaço ,
p o d e m o s controlar esse sentiment o d e forma be m mais
eficiente d o qu e s e formos tomado s po r ele.1 3
Algumas formas de angústia sã o relativas a sentir- s
e dissolvido ness e outr o maior qu e p o d e no s
conter, no s engolir. Após Chapeuzin h o ter
sucu mbid o a tã o aterrorizante destino, surge, na
versã o do s Grimm, o caçador qu e a tirará de lá. Essa
transforma da em
a v i ã o z i n h o q u e a s mãe s fazem, m a r c a n d o
ruidosa• m e n t e a vi a g e m d o a l i m e n t o d o
Parec e contraditório , ma s a figura d o lob o abr e
p r a t o à b o c a , é denotativ a dess a separaçã o . Seja
espaço , a o m e s m o t e m p o , par a represent a r o risco d a n o sei o o u n a mama • deira, o at o de se alimenta r
i n c o r p o r a ç ã o a o c o r p o m a t e r n o , assi m c o m o seu era de a co n c he g o , mas co m a chegad a d o prat o
oposto , a personificaçã o d e u m objet o fóbico q u e lhe e d a colhe r h á u m mu n do , chei o d e instrumento
ajude a circular no m u n d o externo . A lógica da história c o m o s frios e duros , q u e s e interpõ e entr e mã e e filho.
dizíamo s é da s mai s primitivas: "é visível q u e o l o b o Só de aviã o para cobrir um a distância tã o nov a e
está interessado , ma s s e algué m q u e r alg o d e mim, as su st a do r a . Po r isso , o d e s m a m e , n o sentid o
q u e m sab e p o d e ser q u e queir a m e engolir", ess e subjetivo q u e lh e atribuímos , é u m process o
poderi a ser o tip o d e raciocínio d e Chapeuzin h o diant e longo , almejad o e temid o pel a criança, do qua l o med o
do lobo . Por isso, o caçado r te m q u e fazer um parto, d o lob o é u m recurs o defensiv o auxiliar.
já q u e é n a s c e n d o q u e se sai do ventr e materno . A cen a d o O pedid o da s crianças para escutar o
b e b ê alimentando -s e a o sei o reprodu z cont o da Chape uzinh o repetida s veze s justifica-se
po r fora a situaçã o q u e o c ordã o umbilical estabelecia p o r pel o prazer de encontra r o lobo , constatar a
dentro , de um fluido q u e liga o c o r p o de m ã e e ameaç a real q u e ele conté m e assustar-se, par a
filho c o m o se fossem um só . A partir dela, a b e m de tranqüilizar-se. E po r isso q u e o objeto
criança iniciará u m s e g u n d o parto , dess a ve z fóbic o te m n o pa i se u melho r representante . O pai
psíquico . O d e s m a m e é um nasciment o subjetivo, no ocup a a mãe , ao exigir seu quinhã o n o interesse dela,
qua l o mais important e é a garanti a par a a crianç a oferecendo-lh e prazere s adulto s qu e o b e b ê n ã o
de q u e seu c o r p o e su a pesso a sã o um a u n i d a d e p o d e lhe dar, fazend o co m q u e muitas veze s
indivisível e separad a d o corp o materno . É important e ela se desconcentr e da criança. E claro q u e o
ressaltar qu e es s e p r o c e s s o n ã o ocorrer á s o m e n t e c o trabalh o dela, assim c o m o a s preocupaçõe s mundana s
m criança s alimentada s a o seio, seu s e s q u e ma s s e co m o dinheiro , c o m a vida social e cultural, produ z
reproduzirã o t a m b é m c o m a q u e l a s q u e u s a r a m o m e s m o efeito; ma s s e h á algué m disponíve l
m a m a d e i r a e precisa m transitar para outra s formas de par a ser culpabilizad o p o r retirar d a criança a
alimento , mais ativas e q u e exige m q u e a criança co m a atençã o d a mãe , est e é o pai , afinal é c o m el e
q u e ela d o r m e . Nada
fora do colo. A p a n t o m i m a da colher

58
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

mais compreensível entã o q u e s e alicerce m e m


su a figura as representaçõe s do objet o fóbico,
q u e será conclamado para ronda r d o lad o d e
fora d a casinh a do porquinho.
Para o s pe q ue n o s , q u e c o n h e c e m a boc a
c o m o fonte primeira de prazer, é fácil pensa r
q u e aquil o que os adultos fazem q u a n d o estã o a sós
se relacion a com se morder uns ao s outros . Essa conclusã
o se impõ e porque ele decodificará tal m od al id a d e
a partir do seu desejo de mordiscar e aboca nha r o
seio, q u e sã o formas carinhosas de devoraçào . Os
adultos , em um a certa sabedoria inconsciente, log o
desco bre m o imens o prazer que infunde no se u b e b ê a
brincadeir a de beijar a barriguinha com o se fossem
comê-los.
O lobo nã o é um bich o tã o grand e e
rarament e ataca o homem , entã o po r q u e ele foi
escolhid o par a esse papel desabonador ? Acreditamo s
q u e justament e por ser a versão maligna do cachorr o :
a m b o s partilham a mesma carga genética , conform e
a raça, q u a s e a mesma aparência, e p o d e m cruza r
entr e si. Enfim, um é a versão doméstica, e o outro , a
versã o selvage m do canídeo. Tão iguais e tã o
diferentes, o lob o e o cã o mostram-se propício s
par a su p or ta r a metáfor a d o perigo associado
ao amo r incestuoso , afinal, é alg o tão familiar e
próximo , c o m o os pais, q u e p o d e ser vivido de
maneir a selvage m e distante , tal qua l os desejos
inconfessáveis e incompreensívei s q u e se imis• cuem na
relação co m eles.
Entre as tantas interpretaçõe s possíveis da história
de Chapeuzinho, pode-s e pensa r q u e ela seja
alusiva a o potencial d e sedu çã o contid o na s relaçõe s
co m o s adultos. Sendo assim, é natural q u e estes,
vividos até então com o protetores , revele m se u
lad o o b s c u r o : alguém qu e segu e s e n d o o mes mo ,
ma s q u e mostra sua face selvagem. Co m o o cã o
doméstic o se prest a para encarnar a fera de q u e
necessitamo s invocar em determinado s m o m e n t o s
( a q u e l a s criança s qu e s e desesperam q u a n d o
v ê m um , aferrando-s e a o col o mais próximo), o
lob o é, em definitivo, essa versã o selvagem d o
perig o doméstico , um a prov a d e q u e o papai
bonzinh o q u e s e te m e m casa p o d e tornar-s e
uma figura ameaçador a e temível.

Chapeuzinbos quando
(não) crescem...
xi st e m adulto s qu e sã o
co m pl et a me n t e alheio s à s sutileza s
e r ó t i c a s q u e e s t ã o presente s na vid a
cotidian a (certament e o l eit o r c o n h e c e r
á a história de a l g u é m
alfabetizar, voltar-se par a o s amigos , par a a
escola . T u d o vai b e m at é q u e a
próxi m o q u e seja assim) . São aquela s
mul here s o u h o m e n s q u e nu n c a p e r c e b e m 59
quand o estã o s e n d o olhados , dificilmente
arranjam parceiro s e m funçã o d e q u e n ã o
sabem , n e m rudimentarment e , praticar o jog o d
a seduçã o e s e queixa m d e sere m
invisíveis, q u a n d o n a verdad e sã o é cego s par a
est e assunto .
Q u a n d o enfim alg o acontec e par a ess e
tip o d e inocentes , eles p õ e m t u d o a perde r po r s ó
en te n de r e m as coisas depoi s da noit e ter passado .
Muitas vezes , se envolve m e m relacionamento s e m
q u e sã o usado s da s mais diversas formas, já qu e
a passividad e infantil é a únic a m o d ali d a d e d e
relaçã o q u e tê m a oferece r e se m p r e h á
q u e m tire proveit o disso . P os su e m um a
ingenui dad e crônica, a experiênci a parec e
nunc a ser cumulativa , estã o sem pr e repetind o
seu s erros , inca• paze s d e a pr en d e r c o m o
funciona o jogo sexual . Co m algum a freqüência,
essa inocênci a militante s e estend e par a o s
território s fora d o am or , fica c o m p l i c a d o
trabalha r e estudar , j á q u e rara ment e
p e r c e b e m o s subtexto s q u e estã o implícitos n a
com unica çã o entr e a s pessoas , na s instituições qu e
freqüentam , enfim sã o imu ne s a quaisque r
sutilezas.
A ingenuida d e adulta é um a patologi a da
s mais sérias, caus a u m a série d e embaraços ,
atrapalh a o u inviabiliza a vida amoros a da s
pessoa s envolvida s e, pior, geralment e n ã o é
reconhecid a c o m o u m g ra n d e proble ma . A pesso a
q u e a possui se sent e pur a e boa , e n q u a n t o os
outro s é q u e sã o cheio s de hipocrisia e
intençõe s escusas . Pois bem , um a provável fonte
dess a ingen uida d e prové m d e um a recusa
inconscient e e m admitir o p r e p o n d e r a n t e pape l do
sex o na nossa vida. A o long o d o crescimento , h á
um a série d e idas e
vinda s a respeit o dess a q uestão . O períod o de
latência, po r e x e m pl o , é u m m o me n t o d e suspensã o
d a proble • mática. Algo c o m o : n ã o q u e r o sabe r
disso, pel o m e n o s nest e m o m e n t o , t e n h o coisas
mais importante s para m e ocupar . Depoi s d e ter
passad o pel o intens o dram a am oros o e erótic o d o
Co mple x o d e É di p o, " q u e torn a a s criança s at é
o s 4 , 5 a n o s tã o difíceis d e lidar,
finalmente a s exigência s eróticas e a s disputa s d e
p o d e r d ã o um a trégua .
Na verdade , é um armistício merecido ,
poi s a long a batalh a anterio r estabelece u o
lugar da s coisas. Q u a n d o a latência chega , o s pais
diminuíra m a morosa • m e n t e d e tamanh o e
a u m e n t a r a m su a estatur a e m autoridade , a
própri a criança já n ã o se sent e tã o central n a vid a
deles . Muitos vínculo s d e d e p e n d ê n c i a mai s
primitiva, qu e envolvia m tant o física e
espiritualment e pais e filhos, estã o se dissolvend o ness
a ocasião . Graças a isso, sobr a energi a par a se
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s Hi st ó ri a s Infan ti s
Bel o
Horizonte: Ed. Itatiaia, 1989.

p u b e r d a d e termin a c o m a trégua , traz n ov a m e nt


e à ce n a desejo s i nc o m pr ee n sí ve i s , modific a o
c o r p o , erotiza a vida.
Essa postur a latente vida afora é inviável,
poi s n ã o c a b e mai s n o q u a d r o d o adulto : se u
c o r p o é se x ua d o , o s calore s d o desej o invade m
se u corpo , que r seja na fantasia masturbatóri a
quer, no s piore s casos , s o b a form a d e u m a
angústi a q u e o deix a de sam parad o . Essas almas
puras q u e r e m ser celiba- tárias c o m o o s latentes, ma
s termina m fazend o o pape l d a avestruz qu e escond e a
cabeç a n o buraco , deixan d o e x p o s t o o e n o r m e
c o r p o . D en tr o d e s s e e s q u e m a , q u a n d o a vida lhes
impõ e u m pape l sexual, vã o ofere• cer o qu e têm:
sua ingenuidade . Ser um a assustad a Chapeuzinh o
é até o n d e vai a sexualidad e de q u e m nã o que r
sabe r nad a d o assunto .
Acima d e tudo , essas pessoa s n ã o q u e r e m
sabe r da diferença do s sexos , já q u e o amo r e o
exercício da sexualidad e sã o movido s po r um a
sensaçã o d e q u e somo s incompletos , um a m etad e
e m busc a d a outra . A diferença do s sexos , q u e
partilha o s sere s co m bas e e m um a grand e divisão
d e identidade , no s coloc a a priori diant e d a
impossibilidad e d e pertenc e r ao s doi s times. O
desejo sexual é mais variad o do q u e isso, ele permit e
q u e tant o a identificação (masculin a ou femi• nina) ,
assim c o m o o tip o d e objet o escolhid o par a
ama r (homossexua l o u heterossexual) , faça
combina - tórias diversas, pessoai s e intransferíveis.
Mas há um p o n t o d e partida co m o qual n ã o
p o d e m o s deixa r d e lidar: e m co n di ç õ e s nor mai s
n a s c e m o s fisicament e sexuados , pertencent e s a um
a da s metades .
Aceitar a diferença do s sexo s traz, c o m o
decor • rência, a perd a n ã o s ó d a inocência , c o m o
ta m b é m d a onipotênci a infantil. É difícil aceitar qu
e há alg o em nó s q u e sempr e d e p e n d e r á d o
outr o par a ser con • quistado . Uma vez sexuados
, sere mo s par a s e m p r e incompletos . Por mais qu e u
m h o m e m s e conect e co m seu lad o feminino e vice-
versa, se m p r e será o outr o lado. Amar é... ser
incomplet o . Por isso, essa ingenui • dad e é defendid a
co m u n h a s e dentes , par a voltar a ser algo tã o
valioso c o m o acreditávamo s ser q u a n d o b e b ê s e
perdê-l a é ficar à merc ê do amor . H o m e n s ou
mulheres , po r mais principesco s o u p o d e r o s o s
q u e sejam, s e estivere m e m busc a d e algu m amor,
estarã o lidand o co m a incompletud e .

Notas
1. PERRAULT, Charles . Contos de Perrault.
2. Da obra original de Perrault (Histoires ou Contes du Temps
Passe, Avec des Moralités. Paris: Barbin, 1697), in TATAR,
Maria. Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2004. É interessante observar qu e esses
versinhos finais foram suprimidos das edições atuais
de contos de Perrault.
3. GRIMM, Jaco b e Wilhem. Contos de Grimm. Belo
Horizonte: Ed. Villa Rica, 1994.
4. Conforme Maria Tatar: A História da Avó foi contada po r
Louis e François Briffaut, em Nièvre, 1885.
Publicada originalmente por Paul Delarue em Lês
Contes Merveieux de Perrault et la Tradition
Populaire", "Bulletin Folklorique de l'Îlle-de France"
(1951). Ibidem p. 335. Essas fontes sugerem que,
embora A História da Avó tenha chegad o até nós
graça s a um a pesquis a posteri o r à q ue la s que
propiciaram as compilações mais tradicionais, como as de
Perrault e do s irmãos Grimm, ela é resultante de uma
pesquisa dentr o de parâmetro s de rigor histórico qu e
nos autorizam a considerar esta versão mais antiga qu e as
anteriores.
5. FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da
Sexualidade (1905). Obra s Completas , vol. VII,
p.163. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
6. Surpreendentemente, a enures e é um sintoma cuja cura
respond e bastant e be m a um a intervenção
moderadament e severa por parte da família. Uma
explicação plausível para esse fenômen o deve-se ao
fato de a criança receber a reprimenda como a bem-
vinda proibição de se entregar a uma forma de
satisfação sexual que , embor a sinta, é muito pesada
para carregar. Trocando em miúdos, ela sente um prazer
sexual de alguma forma conex o com coisas qu e os
adultos fazem e sobre as quais ela nã o sabe be m o qu e
são. Essas sensações corporais estranhas e boas, de
alguma forma, se associam a seus pais, porém ela nã o
tem registro possível para tal desejo, porqu e é proibido e
complicado demais. Por isso, se urina em sonho s ou
mesm o segura o xixi até qu e sua saída explode com o forma
de prazer. Quand o lhe é proibido urinar em qualquer
lugar, embora pareça um contra-senso proibir algo
que tem motivaçõe s inconsciente s , muita s vezes , a
criança consegue controlar-se; é com o se ela fosse
excluída de um circuito de prazer muito complicado para ela
mesma. Algo semelhante ao qu e sentimos qu and o ficamos
impedido s de comparece r a um compromisso desejado,
mas qu e temíamos enfrentar.
7. Ver em PERRAULT, Charles. Contos de Perrault. Belo
Horizonte: Editora Itatiaia, 1989, p.53 e 24.
Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso

8. No Capítulo VI do livro O Pensamento dament e precoc e e inesperadamente intensa, pelos


Selvagem, Levi-Strauss demonstra as ponte s entr problemas sexuais, e talvez seja até despertada por
e os tabu s sexuais e a l i m e n t a r e s : "Toda s eles". In: FREUD, Sigmund. Três Ensaios
a s s o c i e d a d e s concebem uma analogia entre as sobre a Teoria da Sexualidade (1905). Obra s
relações sexuais e a alimentação... (...) Em tod o o completas vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1989-
cant o do m undo , o pen same nt o human o p.182.
p a r e c e c o n c e b e r um a analogia tão estreita entre 10. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Todos los Cuentos de
o ato de copular e o de comer que muitas los Hermanos Grimm. Madri: Coedição Editorial
línguas designa m essas dua s coisas pela Rudolf Steiner, Mandala Ediciones, Editorial
mesma palavra." É na base disso que , explica o Antroposófica,
autor, os tabus geralmente se estabelecem sobr e 2000.
este s c a m p o s , o u seja , a s r e g r a s q u e 11. Na versão brasileira, o cont o chama-se História
estabelecem que m poder á casar-se co m do Jovem Que Saiu pelo Mundo para Aprender
q ue m . deslizam-se metaforicament e para "que o Que É o Medo. In GRIMM, Jaco b & Wilhem.
m com e quem", r e d u n d a n d o na s prática s d Contos de Grimm. Belo Horizonte: Ed. Villa Rica,
e restriçõe s alimentares, ou seja, o qu e se pod e e 1994.
nã o se pod e comer. In: LEVI-STRAUSS, Claude. 12. JAKOBS, Joseph . Contos de Fadas ingleses. São
O Pensamento Selvagem, São Paulo: Editora Paulo: Landy Editora. 2002.
Nacional e Editora da USP, 1970. 13. Voltaremos a este assunto no Capítulo XIV, analisando
9. "Ao mesmo temp o qu e a vida sexual da o personagem Cascão, de Maurício de Sousa.
criança chega a sua primeira florescência, entre os 14. É como os psicanalistas chamam o triângulo amoroso
três e os cinco anos, também se inicia nela a em que os filhos pequenos se envolvem com
atividade qu e se inscreve na pulsão de saber ou de seus pais. O filho amará o progenitor do sexo
investigar. (...) Constatamos pela psicanálise que , oposto e disputará sua preferência com o do mesmo
na criança, a pulsão de saber é atraída, de sexo. Este primeiro amor deixará seqüelas pelo
maneira insuspeita- resto da vida. Freud utilizou-se da trama da
tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles, como
metáfora desse triângulo.
61
Capítulo IV
A MÃE POSSESSIVA

Rapunzel e A Fada da Represa do Moinho


Simbiose materna - Desejos de grávida -
IXsafios na instalação da paternidade - Dificuldade materna diante do crescimento -
Saindo da família para o amor

ra uma vez um casal que queria a prometer a filha que nasceria para a perversa mulher
muito ter um filho. em troca do raponço.
Quando finalmente atingiu Assim que nasceu, a menina foi recolhida
essa graça, ocorreu que a mãe por essa estranha madrasta, que a batizou de
foi tomada por um clássico Rapunzel, numa alusão aos raponços pelos quais
desejo de grá• vida: queria fora trocada. Tão grande era o apego da bruxa
comer os rapon- ços,1 (uma á Rapunzel que, quando esta atingiu a idade de
verdura para salada), qu e 12 anos, se tornando uma bela jovem, foi colocada
cresciam no jardim da numa torre sem portas, para que ninguém a visse. O
vizinha, conhecida como uma único acesso aos aposen• tos de Rapunzel era por meio
perigosa feiticeira. Tanto incomodou seu de suas próprias tranças. A bruxa madrasta chegava
marido, lamentando que morreria caso seu desejo ao pé da torre e gritava a frase que celebrizou essa
não fosse satisfeito, que ele se dispôs a correr o risco personagem:
de colher o vegetal. A primeira porção só incitou
a mulher a exigir mais, motivo pelo qual ele "Rapunzel, Rapunzel! Jogue suas tranças!"
empreendeu uma segunda excursão à horta da bruxa.
Dessa vez, ele se deu mal, foi surpreendido pela dona Pelos cabelos da moça, ela subia. A
da casa, obrigado a explicar seus propósitos e visita da bruxa era o único contato de Rapunzel com
somente saiu vivo - e carregado da verdura tão o mundo externo. Certo dia, um príncipe escutou a voz
cobiçada - porque foi coagido da jovem,
Fadas no Divã - Psicanálise nas Histórias Infantis

que cantava para aplacar a solidão. Não só costuma ser contada dentro dos limites do que se
descansou enquanto não descobriu a fonte da julga conveniente para as crianças, não é
música qu e o encantara. Escondido, assistiu à bruxa narrado o fato de que ela teve dois anos de
subindo e deci• diu usar o mesmo expediente. Depois concubinato clan• destino (e dois filhos) com seu
que ela partiu, repetiu a mesma frase e as tranças príncipe. Nesse caso, quem conta um conto, subtrai
caíram. um ponto.
Chegando aos aposentos de Rapunzel, contornou o Por sorte, a essência da história de Rapunzel não
susto da moça, que jamais vira um estranho, muito está no pedaço omitido, mas sim no desejo
menos um homem, garantindo-lhe que a amaria mais incontro- lável que ocorreu durante a gestação de sua
do que qualquer um. Assim começou um mãe, dando origem á trama que fez da menina filha
romance que só poderia terminar em um plano adotiva de uma baixa. A marca registrada desse
de fuga: ela pediu ao rapaz que lhe trouxesse conto é o exílio na torre sem portas, cuja única
entrada dava-se por meio das longas tranças da jovem.
seda com a qual teceria uma escada para descer
Como veremos, tanto o desejo incontinente da mãe,
da torre. Na véspera da sua partida, ela recebeu a
quanto a clausura da filha, responde ao mesmo
rotineira visita da baixa, mas acabou falando mais do fenômeno: a mãe possessiva. Acreditamos que
que deveria. Na versão que chegou até nós, ela diz à Rapunzel não deve fazer companhia a outras jovens,
madrasta.: "Como é, boa mãe, que você é tão mais pesada como Branca de Neve e Cinderela, que padecem da
que o jovem príncipe?" Porém, na primeira versão dos inveja da madrasta de sua beleza juvenil. Ela terá de
Grimm para essa história, a menina teria perguntado: enfrentar a ira da mulher que a criou como filha, mas
"Por que meu vestido está ficando mais apertado na a origem do conflito entre as duas está na atitude
cintura?", pelo que deduzimos, ela está grávida, mas é tão possessiva materna, que vê o crescimento como um
inocente que não compreende o que lhe ocorre. abandono. O pecado dessa personagem não é o de
A bruxa ficou furiosa, cortou as tranças da moça e ser mais sedutora que a mãe, mas o de incluir alguém
a expulsou de seu convívio, exilando-a num deserto. Na mais. o príncipe, numa relação que deveria ser completa,
seqüência de sua vingança, amarrou as tranças na torre em que mãe e filha se bastassem.
e ficou lá esperando o príncipe. Quando ele Rapunzel congrega três grandes temas recorrentes
subiu por elas, o empurrou, fazendo-o cair sobre es• nas histórias de fadas: o filho prometido a contragosto
pinhos que o cegaram. Dessa forma, condenou- para um ser mágico em troca de algum favor (ou da
o a nunca mais ver sua amada. Ele vagou por anos vida), a clausura do filho ou filha pela mãe
pela floresta, comendo raízes e frutas, enquanto no ou pai
deserto Rapunzel deu á luz a um casal de (tentando mantê-lo longe dos braços de seu amor) e,
gêmeos. Em sua errância, o príncipe chegou até por último, o surgimento de um apaixonado em função
onde ela estava e lhe reconheceu a voz, abraçando- de resgate, retirando a jovem (ou o jovem) da clausura,
se a ela, desesperado. Tomada de tristeza, ao ver seu do sono ou do feitiço. Esse conto ainda
amado naquele estado, ela chorou e suas lágrimas contempla uma jornada posterior, que também é
devolveram a visão a ele. O conto Rapunzel2 bastante comum nessa literatura, em que os amados
conserva-se lembrado pelas crianças apesar de não ter se desencontram por longos anos, esquecem-se um do
tido, até agora, grande ajuda da mídia moderna para sua outro ou não se reconhecem, para depois reatar o
difusão. Não contamos ainda com uma versão laço amoroso.
cinematográfica, apena s segu e comparecendo A sua aparição mais antiga é atribuída, por diversos
nas compilações de contos de fadas folclóricos. autores, a um conto narrado pelo precursor de Perrault
As versões que conhecemos são todas inspiradas e dos irmãos Grimm: Giambattista Basile. Em 1636, 60
na de Jacob e Wilhelm Grimm. Recentemente, o conto anos antes de Perrault, Basile publicou a primeira versão
ganhou mais uma censura, por exemplo, a literária de impacto popular de contos de
omissão da maternidade de Rapunzel no deserto. fadas, o Pentamerone, onde figurava a história de
Na verdade, a própria versão dos Grimm já é Petrosinella
modificada nesse sentido, visto que a pergunta que a (salsa, em italiano). Nesta, uma grávida é
jovem faz à bruxa - pela qual esta descobre seu descoberta roubando a horta de uma baixa, que lhe
plano de fuga - deixou de ser alusiva a uma gestação, faz prometer o bebê em troca da vida. De
como vimos antes. Essa última transformação já posse da menina, a enclausura numa torre, de
responde ao direcio• namento dessa obra de onde ela é resgatada por seu príncipe, após vários
encontros eróticos.
compilação folclórica para o público infantil. Isso
não é uma novidade, a Bela Adormecida passou Embora o autor italiano tenha enfatizado o amor
pelo mesmo crivo. Sua história hoje dos jovens e a engenhosidade da heroína para escapar
da torre, as versões seguintes já foram introduzindo o
sofrimento na vida do casal. Sessenta e um anos depois,

64
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Cors o
ameaça d e morrer ,

em 1697, uma aristocrata francesa, Charlottte Rose


de Caumont de Ia Force , pu b lic o u a v er sã o
q u e d e u origem ao conto, traduzido para o alemã o po r
Friedrich Schulz, considerado a prováve l fonte de
inspiraçã o dos irmãos Grimm. Na história francesa, a
dupl a pass a por maus bocado s até desperta r no
coraçã o da bruxa a capacidade de perdoá-los .
A jovem presa num a torre é um a image m
forte usada po r m u i t o s a u t o r e s , p o r i s s o , é
c o m u m associarmos um s em-númer o de joven s
enclausurad a s como versões de Rapunzel . Mas
ela é um a síntes e singular e seria uma pen a
tomá-la po r um de seu s elementos isolados . O
q u e vale , a n o s s o ver, é a combinatória
específica da trama. P o d e m o s considera r como cerne
da história a associaçã o entr e um b e b ê entregue
a um ser mágico , um pa i fora de cen a e a
mãe (no caso um a substituta ) n ã o s u p o r t a n d o
q u e alguém se interponh a entr e ela e a filha.
Por isso, vamos trabalhar co m a versã o do s irmão s
Grimm, q u e legaram essa síntese ao s nosso s
tempos , e qu e , n ã o por acaso, é a qu e perdura .

Um desejo imperativo
esde o mo m ent o em qu e o pai aceita o
trato e a menina é levada pela vizinha q u e a
batiza de Rapunzel - co m o alusã o ao
objeto pel o qu e foi trocada -, os pais
biológicos desapa •
recem da história. Essa feiticeira é muito diferente
da s ogras devoradoras de criancinhas e da s bruxa s más
de outros contos de fadas, ela se comport a c o m
o um a verdadeira e atenciosa mãe . Sua malvadeza nã
o mostra expressão mágica, ne m seque r se
co m p re e n d e o qu e apavorou tanto o pai de
Rapunzel, já q u e em n e n h u m momento ela faz
propriament e um feitiço. Se algué m realiza um ato
mágico, esta é Rapunzel . q u e cura a cegueira do
príncipe co m suas lágrimas.
A fúria da bruxa é se m pr e o resultad o de
sentir- se invadida, é mais egoíst a que mágica ,
seu s ato s malvados sã o conseqüênc i a da
dificuldade de ver a menina crescer e do m e d o
de perdê-la . Ela vocifera contra q u e m e n t r a e m
su a h or t a o u t o r re , s e a deixassem em paz,
aparente me nte , ela n ã o faria ma l a ninguém.
Provavelmente , a c h a m a m o s de brux a po r falta
d e um a palavr a m elh o r par a um a m ul h e r
poderosa, intransigente e egoísta.
A madrasta e a m ã e sã o pe rs o na g e n s
conexas , porque amba s q u e r e m a satisfação de
seu s desejo s num esquem a d e t u d o o u nada , vida o u
morte . A m ã e biológica exig e a verdura , s o b
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levand o consig o a criança par a o túmulo . Já a
bruxa a m a su a filha, m a s s o m e n t e s e es s e
afet o lh e for exclusivo . Sentindo-s e traída,
expuls a aquel a a q u e m tant o s e dedicou ,
convencid a q u e n ã o lhe serve mais; de certa
forma, é c o m o se par a ela Rapunze l tivesse
morrido . Unidas pela intransigência de seu s
desejos, essas dua s personage n s materna s p od e m ser
compreen • dida s c o m o um a só . O process o d
o cont o vai nu m crescente isolamento da filha co m
a mã e até a separação radical, deixand o be m claro
qu e fora da torre uterina só há um deserto .
Essa mãe , além de querer a filha totalment e
para si, que r crer qu e é tud o para ela.
É inevitáve l pensa r qu e ess e co n t o
co nt e n h a algu m e c o d a história bíblica sobr e
a expulsã o d o Paraíso de Adão e Fva. Temo s
aqui um jardim-pomar maravilhoso , c o m o n o
Paraíso, o n d e s ó havia um a interdiçã o - nest e
cas o t a m b é m , ma s sobr e tod a a extensã o do
jardim-pomar da bruxa. No Paraíso bíblico, um a vez
burlad a a lei sobr e um vegetal interdito - a
maçã -, os dois sã o expulsos ; aqui idem, o pai e a mã
e biológicos sae m d e cena . Além disso, temo s outra
vez um a mulhe r incitand o um home m a quebra r as
regras. Nã o é o cas o d e um a re ed iç ã o d o
mito , ma s sã o elemento s e m jogo qu e permite m
raciocínios análogo s sobr e o s tema s d o desejo,
d a transgressão e d e u m castigo c o m o
paga me nto . Na história de Rapunzel, o ciclo se
repet e dua s vezes, já q u e o príncipe é pilhad o
r o u b a n d o a jovem, tal qua l ocorre u ao pai
co m os vegetais, e ambo s sã o c o n d e n a d o s a o
desterro.
O paraís o é, na visão de um a mã e
simbiótica,3 o q u e ela dá ao filho, ou a
com pletud e q u e sua relação e st a b e l e c e . Esse
pa ra ís o te m c o m o c o n t r a p o n t o a c o n d e n a ç ã o
a o deserto , q u e nã o poderi a ser melho r
m et áf o r a d a aride z qu e esper a o s
e x p u l s o s . D e q u a l q u e r forma, u m e l e m e n t o
de s s e paraíso , um a verdura , faz pape l de fruto
proibido ; já noss a heroína , g r a ç a s a u m
deslocamento , transforma-s e n u m substitut o
(Rapunzel-raponços ) d o objeto cobiçado. '

A exclusão do pai
feiticeira da casa vizinha e a mã e de
Rapunzel sã o mulhere s poderosas , cujos
desejos n ã o deve m ser negados , poi s a
cobiça da grávida era tã o impositiva quant o o
m e d o qu e a bruxa
infundiu n o pai d e Rapunzel. Esse po b r e homem ,
fraco co m o cab e à maior part e do s pais no s conto s d e
fadas, é u m joguet e entr e essas mulhere s exigentes:
um a que r raponços , outra que r Rapunzel. Sua mulher,
se morresse, levaria junto a filha q u e estava em sua s
entranhas ; já a
Fada s n o D i v ã - P sic a n á lis e n a s Hi st ó ri a s Infa n ti s
q u e o pa i vivenci e u m a e sp éc i e de mágoa ,
q u e muita s veze s
bruxa també m o fará perdê-la, levando- a para ser criada
long e dele. Ambas quere m o mesmo , porqu e
amba s sã o a mesma . Elas quere m o beb ê para si
e n ã o estã o dispostas a compartilhar, é um desejo se
m negociação . Q u e m desa par ec e é o pai, poi s el e
abdic a dess a filha p o r n ã o p o d e r satisfaze r a
su a mulher . Essa i ns ati sf aç ã o s e e x p r e s s a p e l
a e x i g ê n c i a d e m a i s raponços . n u m apetit e
insaciável q u e o deix a impo • tente . É c o m o se a
mulhe r dissesse : já q u e n ã o p o d e s me satisfazer, a
filha q u e virá será o me u objet o de satisfação. A
mãe , agora transfigurada na bruxa, anunci a ao pai o
víncul o simbiótico q u e irá ter c o m a filha e q u e ,
logicamente , o exclui. Rapunze l é a respost a para esse s
anseio s de grávida, a grávida co m e raponços , a
bruxa engol e a vida de Rapunzel . A diferença
entr e um a e outra é a existência do pai, b an i d o
da cena , junto co m a mã e biológica. Depoi s del e ter sid
o subju• g a d o pela bruxa, ningué m mai s ameaçar á
a s posse s do jardim ond e ela plantou Rapunzel para seu
usufruto
pessoal .
P o p u l a r m e n t e s e di z q u e , c a s o u m
d e s e j o alimentar da grávida nã o seja satisfeito, a criança
nasc e co m a cara daquil o qu e a mã e tant o
almejou. Pel o jeito, foi o qu e aconteceu : a
menin a ficou co m um n o m e qu e é a marca do objeto
q u e a mã e tant o queria . Mas q u e desejo é esse q u e
a grávida tem? Afinal, o q u e que r essa mulher, q u e
já está co m a barriga cheia? Teoricamente , uma
gestant e estaria plena , satis•
feita. A partir dessa perspectiva , cham a a atençã o q u
e ela queira tant o come r algo, mostrand o q u e seu apetit e
n ã o se satisfez co m o q u e lhe e n c h e o
ventre . Ela sab e precisament e o qu e lhe falta: come r um
a melancia às três da manhã , fruta q u e evidente me nt e
n ã o se te m em casa na ocasiã o ou ne m é época ,
po r e x e m pl o . O folclore sobr e o desej o
pere mptór i o da s gestante s é sábio, lembrand o qu e o
filho e s pe ra d o p o d e n ã o satis• fazer totalment e à mãe
, há algo q u e aind a lhe falta. Ainda bem ,
diríamos...
A s mulhere s geralment e deseja m a
gravidez , exibe m co m orgulh o a protuberânci a q u e torn a
pública sua condiçã o d e sexualment e desejada s e
demonstr a q u e ela foi agraciad a c o m o d o m da
maternidad e . O beb ê é herdeir o dess e orgulho :
incapa z d e anda r co m a s própria s pernas , locomove-s e
aderid o a o se u corpo , alimentando -s e d e seu s seios.
Nos caso s e m q u e a mã e fica fascinada ness a
possessão , el e será a m a d o e nq u an t o um a
continuidad e d o corp o d a mãe , enquan • t o nã o ameaç a
caminha r par a long e dele .
Q u a n d o u m casal é invadid o po r u m
terceir o elemento , o recém-nascido , nã o é incomu m
começ a no própri o curs o da gestação . A aparência de
plenitud e da grávida, alguma s veze s associada à recusa de
um a vida sexual mais animada , deixa o home m co m
um a sensaçã o d e exclusão . O nasciment o não
melhora as coisas: o recém-nascid o povo a a casa com
seu s objetos, seu s gritos e seu cheiro, incluindo, por
vezes , a p re s en ç a ostensiv a d a sogr a o u d e
outros estranho s na casa. A nova mã e passa o dia
seminua, ma s dess a vez n ã o h á n e n h u m apel o erótico,
apena s u m a font e d e leite . Ale m d i s s o , e x a u s t a ,
a mãe adormecer á co m o nen ê sempr e qu e tiver
oportunidade . Para o h o m e m , há algun s ca minho s
possíveis:
observar á tod o ess e circo a um a distância prudente ,
orgulhos o da paternidade , ma s estranh o a seu s rituais, o u é
possíve l qu e se id e nti fi q u e co m a mulher ,
com partilhan d o co m ela o s cuidado s materno s primá•
rios. De qualque r um a dessa s posições , precisará (ou
sentirá necessida d e de ) intervir, reconstruin d o a vida
erótica d o casal, l e m b r a n d o à mulhe r q u e aind a é
desejável, tirando- a d o s circuitos obsessivo s e m qu e
ela entra co m seu b eb ê . Por mais envolvi d o q u e esteja co m
mamadeira s e fraldas, o pai tend e a oferece r algu• ma
exterioridad e q u e areja a relaçã o c o m o b e b ê . As mãe s
principiantes entra m e m pen same nto s recorrentes e culposos
, e m qu e s e acusa m da s mai s variada s
insuficiências, alarmam-s e co m qualque r coisa e teme m a cad
a s e g u n d o pela vida d o b e b ê . Nada c o m o u m pai
para relativizar essa s p e q u e n a s , ma s sofridas lou• curas .
Porém , n e m se m p r e o h o m e m está pront o para exerce r tal
função . Ele p o d e t a m b é m entra r num a disput a c o m
o b e b ê , colocando-s e n a me s m a posição : chorã o e
exigente , ou aind a terá o recurs o de desistir, d e i x a n d o
su a m u lh e r e ntr e g u e a o pape l d a bruxa , vivend o
exclusivament e para o b e b ê . Muitas vezes, est a é a
ocasiã o par a providencia r um a relaçã o
extraconjugal , fazend o um a co n ve ni e n t e separa çã o
entr e a mã e e a mulhe r desejada , q u e ele nã o suport a vê-
las fundida s nu m a me sm a pessoa .

A história de Rapunze l é profunda m en t e ligada a


essa trama d o filho c o m o possessã o materna . Mas
long e d o cont o d e fadas, n e n h u m filhote h u m a n o faz
b e m ess e papel , todo s mostra m p o u c a vo ca ç ã o para
ess e idílio - se n ã o for assim , pagar á o p r e ç o
da d es c on e xã o , d a psicose , po r essa entrega . Talvez por
isso essa história se conservo u e é tã o bem-vinda , ela
mostra que há um a saída m e s m o q u a n d o se tem a
mai s possessiv a e dedicad a da s mães .
É interessant e nota r que , log o no s primeiro s dias d e u
m b e b ê , ocorr e u m f e n ô m e n o q u e neutraliza a
possibilidad e de ele se r objet o de plen a satisfação da
m ã e : sã o a s cólicas d o primeir o trimestre. Essa cólica
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e M a n o Co r s o

é uma dor de barriga mesclad a de angústia q u e díad e m ã e - b e b ê . O pa i dess a história paga ,


faz uma percentage m muit o gr an d e d e recém- c o m o a p a ga m e nt o d e se u person age m , o preç o d e
nascido s gritar incessantemente po r horas , se m qu e ser me n o r q u e a s exigência s d e su a mulher . Ela
o seio, o colo, as cançõe s de ninar, ou queri a algo q u e a satisfizesse, ma s n ã o basto u a
q u a l q u e r dispositiv o tentado, surtam maiore s efeitos. primeira leva de vege • tais ro ub a d o s do jardim da
A cólica é atribuída a uma imaturidad e gástrica , bruxa . A continuida d e da exigênci a é o qu e permit e
p o r é m c u r i o s a m e n t e s e observa que bebê s se m q u e a mã e se transforme na bruxa , criand o essa
mã e (deixado s em hospitais, orfanatos) ou sem filha q u e ela cobiço u para seu us o pessoa l e
substituta n ã o costuma m desenvolve r esse quadro, ou intransferível.
seja, dói, ma s só adianta chora r se houver alguém
para que m se queixar.5 Geralment e todas as famílias
desenvolve m rituais do q u e julgam capa z de A clausura
cessar o sofrimento do pe q ue n o , alguns investem
em determinada forma de segurá-lo, na bolsa de apunze l cresc e co m essa mã e dedicad a
água quente, no chazinho, em algum remédio , num a até a p u b e r d a d e , q u e tra z par a a
música ou na alteração do ambiente . O certo é filha u m a curiosidad e d e transpo r o s
qu e o beb ê chorará até qu e consiga parar, em muro s d o jardim. Dessa vez, a m ã e será
geral, vencid o pela exaustão. A frustração insuficiente para com •
decorrent e de um a sessã o de gritaria dessas pletar a filha, a bruxa fica colocad a na mesm a
derruba qualque r ilusão de completu d e e posiçã o d o pai d e Rapunzel .
continuidade entre o b e b ê e o corp o materno , já q u e Q u a n d o a jovem atinge a idad e de 12
nada do qu e ela possa lhe oferecer o satisfaz. anos , a bruxa , temeros a d e q u e algué m visse
O folclore, a o alimenta r ess e mit o d e q u e sua crescent e beleza , a enclausur a num a torre,
u m desejo insatisfeito da ge st a nt e prejudicar á o sem portas, q u e só po de ri a se r acessad a
feto, ressalta em qu e ela, e m b or a grávida, aind a dever s u b i n d o - s e pelo s cabelo s d a moça . Rapunze l ná
á ser satisfeita pel o marido . Se este n ã o prova r sua o p o d e sair, e o acess o da mã e dá- s e através d e
potênci a satisfazendo-a, a m ã e p o d e se locupleta r co um a continuida d e corporal : u m pe d a ç o da filha
m o filho; e, se assim for, este efetivament e será da q u e se estend e a p ed i d o da mã e e garant e a
forma c o m o ela queria. Mas o q u e ela quer, nesse ligação da dupla . As tranças sã o um tipo de
s m o m e nt o s de insatisfação, nã o é da orde m do cordã o umbilical, simboliza m a continuida d e de
q u e o marid o p o d e lhe dar, nã o é um desej o corpo s qu e se corta co m o nascimento , mas qu e
sexual , é um desej o oral. Ora, bem sabemo s qu e o a bruxa reedita justament e q u a n d o ela mais tem e
território da oralidad e aind a é de domínio materno , o rompimento .
ou seja, no caráter do p e d i d o dela já está contid o Q u a n d o cheg a a pub erdade , os pêlos
q u e ele n ã o pod er á satisfazê-la. Talvez os desejos pubiano s - os cabelinhos qu e tanto crescem
orais da s grávida s sejam um último apelo dessas nessa époc a - nã o p e d e m licença para aparecer,
mulhere s que , estand o prestes a tornarem - se mães, se avoluma m co m o os belos cabelos d e Rapunzel,
terão q u e cede r o lugar de filho para se u bebê, mas ná o costumam obedece r á voz da mãe . A brux a
seria o último "mamã e eu q u e r o mamar".6 Talvez por isso dess a história te m o c o m a n d o s o b r e q u a n d o esse s
també m seja tã o tentado r o jardim da brux a e tão cabelo s sã o atirado s par a fora d a janela, ele s
impossível ao marid o satisfazer ã mã e de Rapunzel, seu crescem par a ela. Nã o é assi m c o m os
desejo já seria um assunt o entr e mã e e filha. adolesce ntes : q u a n d o o s pêlo s a p a r e c e m , d e
Tomada pel a fantasia d e plenitud e q u e certa forma o acess o d o s pai s é interditado . A
eman a de seu ventre volumoso , a futura mã e exigirá n u d e z será o u n ã o ocultada , confor m e o hábit o
mais do homem, so b pen a d e desistir d e outr o d a família, ma s o olha r n unc a mai s terá a mesm a
tip o d e satis• fação, qu e nã o aquel a provenien t e permissivida d e q u e se te m c o m a criança, cujas parte s
d a maternidade . Para qu e lhe seja c o n ce di d o o mais íntimas p o d e m ser v istas e tocada s i m p u n e m e n t e
direito de compartilha r o filho, evitand o q u e ele nasça pelo s pais. O corp o d e adolescent e cresc e para o olha r
co m a cara da inclemên - cia do desejo insatisfeito da mãe , d o parceir o erótico, q u e , d e certa forma, s e
o pai tentará satisfazer aos caprichos da gestante . anunci a c o m essa s transfor• m a ç õ e s físicas.
A história de Rapunze l mostr a o qu a nt o Rapunze l fica e nt ã o pres a n a torre ,
essa s exigências de rapon ço s e melancia s sã o r e c e b e n d o as visitas diárias da bruxa , e q u a n d o
um a cilada para o pai, que , testad o em su a está solitária se p õ e a ca nta r . Su a músic a
potência , se revelará pequen o diant e d o crescent e t r a n s p õ e o c l a u s t r o e p os si bi lit a c o m q u e
p o d e r d e exclusã o d a el a s u s c i t e o d e s e j o d e u m h o m e m , o qua l
ser á o g a n c h o necessári o par a a sepa • raçã o d a
m ã e . Po r d u a s vezes , o príncip e e ela s e
Fada s n o Di v ´ â - P s i c a n á l i s e n a s His t óri a s I nf a nt i s
jardim-pomar inicial. Tanto será assim, quant o mais
um a mã e simbiótica pensar qu e
en c on tr a m atravé s d a voz, poi s n ã o p o d e m s e
ver:
q u a n d o ela está n a torr e e q u a n d o el e está
cego .
Mostrar a nov a imagem , agor a c o m relevos ,
é, par a a s a d o l e s c e n t e s d o s e x o f e m i n i n o , a
form a privilegiada d e revela r o a va n ç o d a m a t ura ç ã o
sexual , assim c o m o par a os m e ni n o s a m u d a n ç a
de vo z é o sinal definitivo do processei. Ness e
caso , a image m atrai pela su a omissão , e r g u e n d o
muralha s q u e im pe • d e m de ver se u tesouro . A
brux a só faz instigar o olhar, poi s be m sabemo s o
q u a n t o o desej o é atiçad o pel o q u e s e oculta o u
a p e n a s s e insinua . A bel a vo z anunci a a bel a
moça , q u e mai s atraent e será q u a n t o mais difícil
for vê-la.
Q u a n d o o e n co n tr o enfim se dá , o príncip e qu e r
tirá-la de lá e levá-la consigo , ma s ela só p o d e r á
sair- q u a n d o fizer um a escada . Fia p r o p õ e e n t ã
o a se u a m a d o q u e . a cad a visita, ele traga
u m a m e a d a d e fios d e sed a co m o s quai s ela
tecer á essa escada , q u a n d o esta estiver concluída ,
ela descerá . E n q u a n t o tramava a fuga e a escada ,
n u m lapso , a jove m faz u m comentári o infeliz á
bruxa , d i z e n d o q u e achav a estranh o q u e ela fosse
mais p e sa d a q u e o príncip e , re v el an d o assi m seu
p l a n o e p e r m i t i n d o q u e esta fizesse algo para
impedi-la .
Inconscientemente , acaba dizend o q u e o
amo r da mã e é muito pesado. Esse comentári o qu e
a trai é considerado , por Bruno Bettelheim, u m
exe mpl o únic o de laps o num a narrativa de história de
fadas clássica. O laps o diz o qu e nã o se que r
dizer, mas , ao m e s m o tempo , enunci a tud o qu e s e
pensa . Co m ess e comentá • rio, Rapunzel desvela a
própri a divisão psíquica do mo m ent o da
personagem : que r sair e que r ficar. De qualquer
maneira, o lapso permite a resolução da relação co m a
baixa : a sua conseqüênci a é a expulsã o da jovem.
Rapunzel co m sua frase infeliz provoc a o cort e
da s tranças e da relação co m essa mãe .

O amor da mãe ou o deserto


amo r simbiótico nã o tem portas, a única saída é
pela janela, isto é, send o jogado,
defenes- trado, para fora do continente materno,
externo
ao qual a mã e supõ e qu e espera
apena s o vazio." Após as longas tranças, qu e
garantiam a conti• nuidad e entre mã e e filha, terem sido
cortadas, a traição será punida co m a expulsã o para o
deserto, por definição, um lugar ond e nã o há nada,
representand o a impossibili• dad e de a mã e ver qualquer
coisa além da díade e fazendo um contraponto ao paraíso do
por o n d e vei o o supost o pecado . S e
p e n s a r m o s qu e Rapunze l foi penalizad a co m o cort e
de cabelos , signo d e u m a castração , a cegueir a
se m ela nada existe e co m ela a criança teria o paraíso,
p o d e se r t a m b é m a contrapartid a masculina dess a
q ua n d o , na verdade , o filho é q u e seria um refúgio
castraçã o simbólica. Mas Rapunze l estava grávida, o
paradisíaco para a mãe.9
príncip e n ã o ficou só no olhar, po r isso dev e
Rapunze l pass a trabalho , ma s n ã o pa re c e deser-
ser p u ni d o . D e qualq ue r forma, há, par a a m b o s
tificar-se, vag a p o r m u i t o t e m p o n a s o li d ã o e n a
o s perso nage ns , u m a p a g a m e n t o d o m u n d o e m
miséria, ma s dá à luz a um casal de g ê m e o s ,
q u e habitavam , par a Rapunzel , o vazi o d o deserto ;
fruto da s visitas d o príncip e á torre . É interessant e
par a o príncipe , a falta de olhar.
com o ela pass a d a funçã o d e filha ã d e m ã e q u a s e
No final feliz, quand o as lágrimas
imediata• m e nt e . Isso n ã o é nad a es tr a n h o e m
devolve m a visão ao a m a d o e a felicidade ao
histórias qu e foram popula rizad a s e m t e m p o s anteriore s
casal, h o u v e uma modificaçã o d a imagem :
á anticon- c e p ç ã o , mas , par a a s m ul h er e s d e hoje, a
in de p e nd e nt e s terã o d e ver e ser vistos de forma
maternida d e n ã o é mai s o indíci o princeps da su a
diferente, c o m o h o m e m e mulher. Mas n ã o p o d e m o
maturi da d e sexual , há um l o n g o t e m p o entr e su a
s elidir o fato d e q u e ess a nova i m a g e m ,
iniciaçã o e a c o n c e p ç ã o .
inaugurad a pela s lágrima s , pressupõ e o
Q u a n d o o príncip e cheg a para busca r su a amada, é a
lament o pela s perda s q u e tiveram. E, afinal de
terrível sogra q u e encontr a em se u lugar. Nesse
contas, n ã o se cheg a à maturidad e se m perdas .
m o m e n t o , o discurs o da brux a é ilustrativo de sua
O corte da s tranças incidiu sobr e aquel e
fúria egoísta: atributo
(fálico, diríamos) qu e tornava essa filha valiosa
Arrá! Veio à procura da queridinha, mas a bela ave já não para a mãe . É po r isso que , em psicanálise, se diz qu
está no seu ninho cantando. O gato comeu e e o filho p e q u e n o é um falo para a mãe ,
também vai furar teus olhos. Você perdeu Rapunzel indepe ndent e men t e de q u e ele seja ou nã o dotad o de
para sempre, nunca mais a verá de novo. pênis . É na condiçã o de objeto de desejo par a a mã e qu
e ele se "faliciza", assim c o m o a perd a dess e lugar
Fica clar o q u e o pr í nc i p e foi p u n i d o c o m implicará um a castração, para m ã e e filho.
a cegueir a pel o crime de olhar. O castigo incid e

68
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co rs o

Neste pont o da história, há mais um a virada:


na primeira, com o advent o da puberdade , a bruxa escond
e a jovem na torre; já, apó s o exílio
( a c o m p a n h a d o da maternidade), os amante s terã o
terminad o definitiva• mente de crescer. A marca
dess e nov o m o m e n t o é a solidão, essa consciência
da s perda s qu e acom p anh a tristemente todos os
adultos.
Nas histórias de fadas, sempr e a felicidade sobrevém
após um caminho de desafios e provações. Nesse caso.
Rapunzel e seu príncipe tinham de vencer a
bruxa e aprender a viver independentes , fora do
castelo e da torre. A jornada deles é a do crescimento, do
rompiment o do vínculo co m a mãe . É important e
percebe r q ue . enquanto a mãe a possuía
pacificamente, nã o houv e conflito no conto de
Rapunzel, ne m seque r a usurpaçà o do bebê pela bruxa
pareceu muito trágica. A verdadeira bruxa só se
materializa q u an d o a jovem precisa crescer, se afastar e
ser perdida pela mãe . A baix a da mãe nã o deixa a
filha partir, mas nessa história fica claro que , de certa
forma, també m a filha, no ato falho, a convoca
para a função de complicar sua saída. Na verdade, para
a filha também nã o é fácil abandoná-la.

As tranças
s cabelos, c o m o p o d e m o s constatar a o long o
da história, nunc a foram indiferentes.
Cada cultura, cad a época , decidi u o
significado de cortá-los, deixá-los cresce r ou
penteá-lo s
d e d ete r m in a d a forma , m a s se u u s o s e m p r
e foi simbólico.10 Seu corte foi um m o d o muit o
populariza d o de subjugar o inimigo, de impo r a
algué m um castigo desonroso, mas també m u m sinal d e
respeit o extremo , d e veneração. Cortavam-s e o s
cabelo s e m sinal d e luto (e muitas veze s era m
enterrado s junt o co m o ent e perdido); sua raspagem , a
tonsura , é t a m b é m o m o d o de os religiosos mostrare m
submissã o a Deus . Por isso, não pode mo s passa r
incólume s pel a relevância da s tranças nessa história;
elas foram um el o entr e a brux a e a moça, cortá-las
foi a castraçã o do q u e a relaçã o tinha de fálica.
Nesse caso, se algué m se reivindicava possuidor a
desse sempr e valioso objeto (o cabelo , as tranças ) era
também a bruxa. Cortá-lo é um a forma de
castração , mas num sentid o mai s amplo , n ã o a pe n a s
significando a ablação d o ór g ã o sexua l
masc ulino , c o n s i d e r a d o como uma espéci e d e
símbol o d o falo, d e represen • tação privilegiada
deste . Fálico, no jargão psicanalítico,
69

significa se m faltas, assim c o m o falo é o


c o m p l e m e n t o necessári o a um a supost a falta. É
important e q u e fique b e m claro qu e estamo s falando e
m termo s metafóricos. Nesse sentido , p o d e m o s dize r
q u e é fálica um a mulhe r q u e s e faz cobiça r n a su a
perfeição, um a m ã e q u e s e encastel a c o m o
possuidor a exclusiva de seu bebê , ou aind a um
h o m e m que se ach a o tal. Isso n ã o é um
insulto, é um a forma de expressa r q u e o
desej o e o objet o capa z d e provocá-l o sã o
móveis , p o d e m s e instalar e m alguém , e m
de te r mi n a d o m o m e n t o , e m um a relação .
Para Freud, os cabelos (enquant o
representantes do s pêlos pubianos) facilmente se prestam
para ser objeto de amo r fetichista." A explicação proposta
para essa idéia é a de qu e os pêlos pubiano s seriam
o último patamar, ante s q u e o s olh o s q u e
fitavam o p ú bi s feminin o constatassem a falta
de pênis, a "castração" da mulher. Para ele, a
aceitação da diferença do s sexos é um do s
grande s traumas co m qu e é preciso lidar. Atrás do s
pêlos pubiano s se escond e a raiz da nossa
incompletude. Os caracteres sexuai s secundários ,
c o m o pêlo s e protu- berâncias, são nuance s que .
por vezes, pode m confundir os sexos, mas o pênis e
a vagina dividem os humano s em dois. A presença
do órgã o sexual masculino, externo e visível, tornou- o
símbolo da completude.
A existênci a da falta c o n d e n a - n o s a se
r bio - logicament e d e doi s tipos , s e somo s um.
deixamo s d e ser o outro , o q u e faz. co m qu e para
sem pr e estejamos b u s c a n d o a outra metade . Para
tant o recorremo s ao amor, ao sexo , à maternidad e
ou a qualque r expedient e à procur a da q ue l e o u
daquil o q u e no s poss a restituir um a integridad e
supost a e para sem p r e perdida . Mas o
important e é c o m p r e e n d e r q u e a castraçã o n ã
o é um a prerrogativa da s mulheres , qu e o
corp o é feito de presença s e ausências , dividind o
o ser h u m a n o em d u a s classes. Essa realidad e é
limitante par a todos , poi s necessariament e
nasceremo s co m um a o u outra característica
sexual .
Para a s tranca s d e Rapunzel , c o nv er g e m
doi s sentidos : po r u m lado , sã o o símbol o d a
continuida d e entr e mã e e filha - cortá-las é cortar o
víncul o simbió - tico; po r outr o lado, sã o també m
u m corte n o corp o de Rapunzel , a marca q u e a
fará estar long e da mã e e, po r su a vez, a
capacitar á par a ama r e ter filhos. A castraçã o
é se mpr e lembrad a c o m o um a falta. Talvez seja
u m a i n c l i n a ç ã o pe ssi m i s t a d a n o s s a cultura
, p o r q u e , n a verda de , se m a instalaçã o dess a
falta, nã o h á desejo . Afinal, q u e m te m tudo , nad a
quer . É depoi s q u e ela p e r d e a s trança s q u e su a
vida d e fato começa .
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

A fada do lago e m q u e a relaçã o c o m essa moç a começava , o


destino falou mais forte. Num a caçada , perseguin d o um
cont o de fa d a s Rapunzel, assi m a presa, matou- a próxim o d a represa . Depoi s d e
c o m o Chapeuzinho Vermelho, nã o possu i prepara r o animal, aproximou-s e do lago para lavar
muita s histórias conexas , e m b o r a exista um as m ão s e foi tragad o par a dentro . A fada enfim levou
a a que o q u e sempr e fora seu .
p o d e m o s recorre r par a am plia r a s É claro qu e todos o perderam, ele saiu desse mund o
idéia s sobr e os elemento s em c o m u m . Essa e foi para o reino da fada no fundo do lago, mas que
história nã o é semelhant e na aparência, mas sim na m mais o pranteava era a sua esposa. A dívida, motivo
trama q u e remet e a o tema d a mã e simbiótica. Nela de tanto sofrimento para seu pai, veio a ser
temo s u m menin o send o moed a de troca e uma efetivamente cobrad a da primeira mulhe r q u e o
fada qu e o afasta do pai. Uma propost a de troca a m o u . A espos a desesperou-se, compreend e u o
do b e b ê po r riquezas é feita log o q u e a crianç
qu e ocorrera, mas não sabia com o reaver o seu
a nasce , p o r é m a entreg a n ã o é imediata, co m
marido. Ao adormecer, ela teve u m sonh o e m qu e
o n o caso d e Rapunzel. N a medid a e m qu e
aparecia uma velha oferecendo-lhe ajuda. Q u an d o
cresce, a jornada dess e menin o é primeiro evitar,
depoi s se libertar, dess e ser feminino poderos o q u acordou , seguiu a pista do sonho : partiu em busca da
e o ganho u d o pai num a espéci e d e logro. velha trilhando o caminh o qu e lhe fora indicado.
De fato, o sonh o era uma influência mágica, pois
Trata-se de A Fada da Represa do Moinho:.12
terminou encontrand o a mesm a mulher bondosa,
vivia um a vez um moleiro na beira de um a repres a
pronta a lhe auxiliar a recuperar seu amado .
e p o d e se dizer qu e era próspero . Em cert o m o m e n t o
A senhor a deu-lh e u m pent e d e ouro ,
da vida. porém , a sorte o a ba n d on o u e ele
sugerind o q u e esperass e a lua cheia e fosse
endividou-se . Um dia estava à beira da represa,
cabisbaixo , p e n s a n d o n o seu destino , q u a n d o pentear-s e na beira do lago. A jovem fez o
emergi u um a mulhe r muit o bela da s águas . O co m b i na d o e, depoi s de um tempo , um a ond a
moleir o assustou- se . sabi a q u e encontrar a u m ser veio até a marge m e levou o pente . Das água s q u e
mágico , mas . c o m o ela c h a m o u - o po r seu nome , s e erguera m para o resgate d o present e d o u r a d o ,
ele nã o fugiu. A fada pergunto u o q u e estava surgi u a ca b eç a d o se u a m a d o , q u e lhe
ac o nt ec e n d o co m sua vida e ele explico u q u e a devolve u um olhar triste. Voltou até sua benfeitora, qu e
fortuna o a b a n d o n a r a . Entã o ela lhe p r o p ô s desta vez lhe ofereceu um a flauta de ouro ,
um negócio : ele voltaria a ter sorte se em troca lhe indicand o q u e esperass e at é a próxim a lua
dess e a criatura q u e estava na s ce n d o naqu el e chei a e tocass e o instrument o à beira do lago.
m o m e n t o e m sua casa. For mais estranh o qu e pareça , Novament e repetiu-se a cena : um a ond a levou
el e n ã o sabia q u e sua mulhe r estava grávida, po r a flauta, d ei xa n d o o marid o descobert o pela água ,
isso, p e ns o u q u e o trato viria a lhe custar um po r un s momentos , até a cintura. Seguind o o m e s m o
filhote de cachorr o ou de g a t o e foi p a r a cas a ritual, foi feita um a terceira
satisfeit o . Q u a n d o c h e g o u , anunciaram-lh e qu e a tentativa. Agora, c o m um a roc a d e ouro , s ó que , dest
mulhe r tivera um filho. O moleir o ficou triste e a vez, n o m o m e n t o e m q u e a ond a subiu par a
desconcertad o , poi s s e de u cont a d e q u e o negócio , pega r o presente , o marid o ficou inteirament e livre da
aparente me nt e barato , sairia b e m caro . A fada o água . A espos a estende u a m ão , d e u m salto el
havia logrado . e pulo u para fora do lago e a m b o s fugiram
Pelo m e n o s a fada tinha palavra e a correndo . Enfurecida, a fada criou um a o n d a
sorte do h o m e m d e fato voltou. O q u e n ã o gigantesca , fazend o c o m q u e tocla a águ a do lag
aconteci a nunc a era o dia da cobrança , o pai sabia o se levantass e e os perseguisse . Já se ciavam po r
q u e o m e ni n o n ã o era mais seu, sofria cad a dia vencidos , q u a n d o a espos a apelo u mais u m a ve z
po r isso, ma s t a m p o u c o vinh a algué m lh e cobra r par a a velh a s e n h o r a . Par a salvá-lo s d o
a dívida . O moleir o vivia exclamand o : "De q u e afogamento , ela os transformo u em rã e sapo .
m e vale a riqueza, s e t e n h o d e perde r me u filho". Os doi s sobrevivera m á investida da água ,
O m enin o tornou-.se um rapa z e provou-s e exce ma s se p er d er a m um do outro . Uma vez retornad o s à
• le n t e caçador , ma s ne m po r iss o forma hu mana , aind a lhes restava u m desafio:
a b a n d o n a r a m a cautela: ele era proibid o d e chega r estava m n u m lugar d es co n he ci d o e se m notícias d o
pert o d o lago, po r m e d o d e ser levado . Co m o s e parceiro . Embor a tristes , resignaram-s e a
destacav a n o se u oficio, ficou a serviço de um senh o r retorna r à vi d a c o m u m , trabalhan d o c o m o
local importante . Te mp o s depois , ganho u del e um a pastore s e m lugare s distintos. Muito t e m p o depois ,
casa para viver, d e s p o s a n d o um a jovem d a aldeia q u e eles s e cruzara m pastor eando , ma s n ã o s e
estava a m a nd o . N o m o m e n t o
reconh ecera m . D e qualq ue r maneira , ficaram felizes po r nã o estare m tã o sozinho s n o c a m p o .

70
D i a n a L i c h t e n s t e i n C o r s o e Mari o C o r s o
fada da represa, us a n d o uma terminologia mais precisa,
seria entã o um a sereia,
Numa noite em q u e conviviam , aind a incógnito s
um para o outro, o pasto r pe g o u um a flauta e
toco u uma canção bela e triste. Imediatament e , a
pastor a rompeu em prantos, d ize n d o que , em um a da s
últimas vezes que vira seu marido , ela tinha tocad o
essa triste música. Só entã o ele a olhou , a
re co n he c e u , e ela também. Era com o se um vé u
tivesse caíd o de a m b o s os olhos, possibilitando q u e
enfim se vissem. Dess e dia em diante, foram felizes
par a s e m pr e .

Um prisioneiro da sereia
ste conto é, na fantasia predominante ,
uma versão masculina da história de Rapunzel.
Nas duas histórias, desd e o nascimento , o pai
nã o
ignora qu e o filho vai pertence r a um
ser feminino mais p o d e r o s o . Em ambas , o
ve r da de ir o problema só começa q u a n d o um terceiro
ve m de fora e ameaça formar um nov o núcle o
amoroso . É ness e momento que a violência do laço com
a mãe-fada mostra a sua força. No primeiro caso,
Rapunzel é expulsa, só terá registro em seu amo r
se for poss e exclusiva da mãe. No caso masculino,
a mã e reté m o filho para si, impedindo-o de amar
outra mulher.
Esse rapaz foi trocad o pela riqueza do pai,
mas acreditamos qu e é outr o significado de
riqueza q u e está em jogo: ele ve m a ser a riqueza
da mãe . O pai que fique lá com as suas riquezas
mundanas , ma s deix e o filho para ela. Se essa for a
troca, admitimos q u e a fada é um dupl o mater no
. Afinal, ela a p ar e c e pel a primeira vez no dia do
nasciment o e só vai reaparece r para impedir o
envolvimento do filho co m outra mulher, do que se
depree nd e q u e ele já lh e pertence u po r todo s esses anos.
Senão, po r que , justamente no m o m e n t o em que
surge essa jovem, a fada ve m cobrar sua dívida? Parece-
nos qu e ela n ã o suporta qu e algué m venh a a
pegar a sua riqueza. Ela já conseguiu , mediant e o trato
inicial, tirar o pai do caminho , po r q u e viria
agor a a suportar uma concorrente?
No folclore europeu , c o m o em tantos outros,
as águas pode m ser reinos de seres mágicos. De um a forma
geral, águas calmas, c o m o as de lagos, represa s e fontes,
costumam ser habitado s po r seres femininos; e n q ua n t o
nas águas agitadas, com o as de rios e
corredeiras, se encontram seres masculinos. Ambo s sã o
sedutores , mas as criaturas mágicas femininas -
sereias ou ondina s - têm na seduçã o sua principal
característica: costuma m encantar jovens homen s qu e s e
pe r de m na s água s par a nunca mais sere m vistos. Essa
ou , pel o menos , s e comport a c o m o tal. Com o
sabemos , a s sereias prende m amorosament e o s homen
s n u m reino seu. A partir disso, eles vã o viver só
para elas, se n à o os matarem . Com o o enfeitiçado
só vai ter olho s para a sereia, nad a mais lhe
interessa na vida, a mort e p o d e ser interpretada
co m o uma morte social. Mediante essa tradição
folclórica, é natural qu e a prisão do h o m e m
enfeitiçado n à o seja um a torre, ma s a água. Neste
meio , totalment e envolvente , o herói esper a qu e
algué m de fora poss a vê-lo para ajudá-lo a fugir.
Além d a mã e e d a fada, q u e s e
alterna m n o m es m o papel , há um a representaçã o
diferente da figura materna . Trata-se da velha
bond osa , ou seja, a face da mã e permitind o q u e
o filho poss a ir embora . Ela é velh a p o r q u e
sab e q u e seu t e m p o já se foi. É ela q u e vai
ter u m diálog o simbólic o sobr e don s
femininos co m a futura esposa , q u e tenta dar à
sogra as prova s d e q u e possu i o s dote s
feminino s necessário s par a g a n h a r a d is p u t a
po r ess e home m . O s presente s entregue s a
o se r a q u á t i c o sã o representante s do s
encanto s e da s lides femininas. O pent e está
ligado à b el ez a , afinal ela necessitav a
pe nt e ar- s e a nt e s d e entrega r o objeto . A flauta
lembra a música, ma s tam• b é m o encant o da voz,
do canto . Aliás, cantar é o qu e as sereias fazem
de melhor. É claro qu e a sereia é a outra, ma
s se a futura espos a nã o tiver nad a de sereia, po r q u
e ess e h o m e m trocaria de fada? Por fim, a roca
é o símbol o do trabalh o feminino po r
excelência em é p o c a s passadas , alé m do s
encantos , um a mulhe r precisava prova r q u e
sabia trabalhar.1 3
Nessas dua s histórias, depoi s da libertação, temo
s u m m o m e n t o d e cert o desenc ontr o e d e uma
cegueira, eles s e olham , ma s nà o s e vêem . H á u m tip o
d e encan • ta ment o q u e precisa cair par a q u e o
amo r ressurja. A jovem espos a tev e seu s encontro s
oníricos e reais co m a velha mulher, q u e lhe
ensino u as artes da conquista , ma s n à o p ô d e
garanti r a uniã o d o casal. A última
transformaçã o em anfíbios,14 pela qual ela lhes
salva a vida, t a m b é m o s separa , a p o n t o d e
esquec ere m-s e d a image m u m d o outro .
O olha r é q ua s e se mpr e associad o à paixão .
Nas histórias d e amor, sempr e u m capítul o
privilegiado s e dedic a à primeira visão q u e u m
ama nt e te m d o outro . Na história de Rapunzel ,
po r d u a s vezes , o príncip e n à o p o d e vê-la,
ma s p o d e escutá-la. Nesta outra, o s a m a nt e s
alternam-se , resgatando-s e atravé s d o so m da
flauta.
Essa temp orad a pastoril ajuda-no s a re-
significar a part e final d o cont o d e Rapunzel ,
poi s tenderíamo s a pensa r q u e foram soment e
o s malefícios d a brux a q u e impedira m a felicidade
d o casal, cas o n ã o conside -
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s Hi st ór i a s Infa n ti s
múltiplas tarefas n a gincan a d e conquista r a
capacida d e d e pertence r a u m casal. Amar é
trabalhoso .
rá ss e m o s a s limitaçõe s d e c a d a u m d ia n t e d
e u m relacionamento . O s doi s pastores , po r
ex e m pl o , n ã o foram impedido s d e s e encontra r apena s
po r u m agent e externo , tiveram d e vence r també m
u m a dificuldade interior: estavam cego s um par a o
outro .
Após a inundação, ainda estava reservada para
os amante s a experiência da solidão e da
responsabilidade, marcas do pastor, qu e anda só, cuidand o
de seu rebanho . E com o se as metamorfoses
continuassem, pois ainda nã o estavam prontos para
outr o tipo de relação.
É bastante comum , na experiência do s casais, estes
beneficiarem-se do s impedimento s q u e a relação possa
sofrer (proibiçõe s familiares , distância s e
outros) . Paradoxal ment e , sã o dificuldade s
e x t e r n a s q u e contribuem para o bo m andament o da
relação. Algumas vezes, depoi s d e terem lutado par a
vence r tud o o q u e o s i m p e d i a , s e d e s c o b r e m
j u n t o s ( e nf i m s ó s ) e desencantados . Não estavam
prepara do s par a enfrentar u m a o outro , se m a
interme diaç ã o d a família, d o s obstáculo s d o
trabalho , d o es tu d o o u d a distância. São
tomado s d e dúvida s sobr e o qu e sente m
e ameaça m separa r aquil o q u e pareci a tã o c oeso
. À s vezes, torna-se necessári o u m m o m e n t o d e
solidão, afastar-se emocionalment e , par a enfim,
amadurecido s , p o d e r e m voltar a se encontrar .
Q u a n d o o s amante s dest e cont o com eçara m
sua relação, o caçado r receber a um a casa d o
senho r par a q u e m trabalhava; portanto , tev e de
certa forma um apoi o paterno . Porém, aind a
vivia so b a ameaç a da fada d o lago um a mã e
possessiva so b cuja m e n ç ã o crescera. Nã o h á po r
q u e considera r irrelevante q u e ele tenh a se
esquecido dess e risco q u a n d o foi lavar as mão s n o
lago. Acaba assim fazend o u m laps o similar a o d e
Rapunzel. N o m o m e n t o d a partida, q u a n d o vai
viver co m a mulhe r amada , ess e jovem vacila e entrega -
se, uma última vez, a sua antiga fada.
A preparaçã o para a nova vida de um jovem casal
envolve novament e a família, q u e r seja na organizaçã o
de uma festa de casament o ou de um lugar para morar, há
uma nova convocaçã o par a a b ê n ç ã o e a
tutela. Foi nu m m o m e n t o c o m o ess e q u e o s
doi s jovens , Rapunzel e o caçador, vacilaram. Mediante
esses lapsos
- expressã o d e fraqueza diant e d e seu s propósito
s - , a saída só p o d e ser árdua , c o m o foi par a esse s
casais, cuja uniã o será tã o mais difícil q ua n t o for
a força do vínculo familiar q u e terã o d e romper .
É importan t e observa r q u e o s outros , a m u l h e r
d o c a ç a d o r e o príncipe d e Rapunzel, n ã o passara
m im pu ne s po r ess e processo : també m tiveram
a relação metafórica do vegetal com a interpretação
da história, da planta autogâmica com a mã e
totalizante, não deixa de ser no mínimo
Notas curiosa. In TATAR, Maria. Contos de Fadas. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1. Raponço ou rapôncio é uma denominaçã o comum a
duas plantas campanuláceas, cujas raízes se comem com o 2004.
salada. Do italiano, raponzo ou raperonzo. 5. SPITZ, René A. O Primeiro Ano de Vida. São
Paulo: Martins Fontes, 1983, p.193.
2. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Contos de Fadas. Belo
6. O carnava l brasilei r o cel e bri z o u a
Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
marchinh a carnavalesca Mamãe eu quero (de
3. "O conceito de simbiose foi criado por
Margareth Mahler, tanto para dar conta de uma fase Jararaca e Vicente Paiva, 1936): "Mamãe eu
importante na evolução da relação mãe-filho, quant o quero, mamã e eu quero, mamã e eu quer o
para dar cont a d o f u n c i o n a m e n t o p s í q u i c o d a mamar, dá chupeta, dá chupeta, dá chupeta pr
criança psicótica. Trata-se mais de uma polaridade o beb ê nã o chorar". Neste moment o de encenar
do que de uma forma clínica particular (...)." In: fantasias, fica evidenciado que , pela vida afora, no
LEBOVIC1, Serge . Traité de Psychiatrie de fundo da nossa alma, ainda mora um beb ê chorão .
L'Enfant et de L'Adolescent. Paris: Presses 7. "Para a moça, a puberdad e assinala o qu e pod e ser
LIniversitaires de France, visto pelo s outros. (...) co m as
1985, p. 196 (Lês Psiychoses Infantiles, verbete escrito por modificações da silhueta, em particular o
René Diatkine e Paul Denis). crescimento do s seios, a image m d o corp o
•i. Maria Tatar insere uma associação desse vegetal cora a está comprometid a co m dois olhares: a busca
história. S e gu n d o o crítico Joyc e Thomaz , o de uma conformidade a um model o socialmente
raponç o seria uma "planta autogâmica, qu e fertiliza a definido, cujas pistas ela pod e encontrar nas revistas
si mesma, tend o ainda uma coluna qu e se divide em femininas (...); po r outro lado, com a demand
dua s se não-fertilizada, e as metade s enroscam- se a de uma confirmação pelos outros, tanto po r
com o trança s ou cacho s na cabeç a de uma sua família com o po r seus amigos, de qu e
donzela, e isso poe o tecido estigmático o estatuto de seu corpo mudou . (...) Para o rapaz,
feminino em contato com o pólen masculino na na
superfície exterior da coluna". Procedente ou não,

72
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

puberdade, a pulsão vocal é qu e será imediatamente segund o p la n o , t ra b al h o , casamento ,


acentuada. (...) O qu e animará a relação qu e projeto s inconclusos , t u d o isso será a di a d o
ele terá com o outro sexo será a voz e sua colocação par a outr o momento . Não é fácil retomar. Muitas
à prova: o ato de contar vantagens." In: RASSIAL, Jean- vezes apegar- se ao beb ê é uma saída para
Jacques. O Adolescente e o Psicanalista. a covardia de re- enfrentar a vida. Fm casa, com
Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999, p. 25 seu filho, identificada com a vida infantil deste,
e 26. ela se manterá afastada d o trabalho , da s
8. Para a psicanálise, as fantasias ou tentativas exigência s sociais e , freqüen • temente, da
de defenestração (jogar-se desde uma abertura no própria sexualidade.
vazio) são de alguma forma evocativas de uma 10. A propósito do significado do s cabelos nos
separação radical. Freud analisou, no caso clínico contos maravilhosos, Vladimir Propp, os considera
de 1920, A Psicogênese de um Caso de símbolo de força, e citava o exempl o paralelo
Homossexualismo numa Mulher, a tentativa de de Sansão e Dalila:... "nos cabelos residia a
suicídio através da qued a como uma simulaçã alma ou o pode r mágico. Perder os cabelos
o de nascimento . Para essa leitura, ele equivalia a perder a força". In: PROPP, Vladimir.
apoiou-s e no us o da palavra alemã As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso. São
niederkommen, que significa tanto "cair" quant o "dar á Paulo: Martins Fontes, 1997, p.35.
luz". Em suas palavras: "É provável qu e ninguém 11. No texto de 1927, O fetichismo, Freud tece algumas
encontre a energia mental necessária para matar-se, a consideraçõe s sobr e a figura d o
menos que, em primeiro lugar, agindo assim, esteja ao "cortado r d e tranças", um personage m
mesmo tempo matando um objeto com que m se desaparecido de nossos tempo s (junto com as
identificou e, em segund o lugar, voltando contra si tranças): "Nele, a necessidade de executar a
próprio um desejo de morte antes dirigido a outrem". castração, qu e ele mesmo rejeita, veio para o
In: FREUD, Sigmund. Obras Completas, vol. XVIII. primeir o plano . Sua açã o conté m em si
Rio de Janeiro: Imago Editora, 1987, p.203- Conside• própria as dua s asserções mutuament e
rando a saída pela janela, caindo no caso do príncipe incompa• tíveis: 'a mulher ainda tem um
ou send o destinada ao vazio do deserto , pênis' e meu pai castrou a mulher". In:
com o Rapunzel, enquant o "defenestraçòes" (afinal, FREIO), Sigmund. O Feti• chismo. Obras
com o Rapunzel saiu da torre?), podemo s pensar um Completas, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago
pouc o no quanto é preciso matar em si o outro Editora, 1987, p. l84.
qu e nos sufoca e com isso morrer também um pouc o 12. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Contos de Padas. Belo
a cada separação. Somente esse tipo de Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
associação ajuda- nos a entender por que , ao 13- Além de ser um símbolo do trabalho, a
longo do s tempos, as versões foram enfatizando roca está associada ao sexo. Ver próximo
nessa história o calvário do jovem casal. capítulo quand o falamos da Bela Adormecida.
9. Um filho recém-chegado pod e ser uma 14. Se existe um animal que pod e suportar a
suspensã o da relação com o resto do m u n d o metáfora do crescimento, este é o sapo, ou
para a mãe. Durante um tempo, as exigências da a rã, os dois passam por estágios muito
vida ficam em distintos, por transfor• mações radicais, no
rumo da maturidade. Por isso, se prestam a
alegorias sobre crescimento.
Capítulo V
O DESPERTAR DE UMA MULHER

A Jovem Escrava, Branca de Neve, A Bela Adormecida e Sol, Lua e Tália


Identificação da menina com a mãe - Importância da inveja materna -
Amor e ódio da filha pela mãe - Passividade feminina - Menarca -
Passagem da infância para a adolescência -
Adolescência como período de adormecimento e exílio

s bruxas dos contos de Já as analisadas neste capítulo são


que falamos até agora só fadas ou madrastas orgulhosas, qu e agem por
queriam saber de comer, de se sentirem ofendidas, por inveja, ciúme ou
engolir as crias. A face obscura narcisismo ferido. Nestas histórias, temos outro
da mãe, discutida nos capítulos aspecto da complicada relação com a mãe:
anterio• res, corresponde à da trata-se da problemática da construção da
primeira infância, quando está identidade feminina. Não podemos esquecer de
em jogo o lugar do filho como que a menina floresce na mesma pro• porção
posses• são materna. Essas cm que sua mãe perde o viço, restando o
primeiras incontornável conflito de como se parecer com esta,
histórias revelaram a versão terrífica desse tornando-se uma mulher, na mesma época em
idílio amoroso, lembrando que toda a entrega tem seu que a mãe vê declinar seus atrativos
preço. No amor, seja materno-filial ou erótico, femininos. Essas histórias são bem claras, avisam à
quanto mais profundamente alguém se entregar a viver futura mulher que a juventude da mãe morrerá
o papel de objeto, meno s saberá ond e estão esperneando e que nã o há lugar para dua s
os limites, as fronteiras, que assinalam onde mulheres desejáveis no núcleo familiar.
termina o eu e onde começa o outro. O preço Branca de Neve é uma das narrativas de que os
da entrega absoluta é a dissolução ou a pequenos mais gostam, talvez graças â presença dos
fragilidade do eu, que equivale na fantasia a ser sete anões, enquant o A Bela Adormecida é
devorado pelo outro ou a viver sob essa ameaça. hoje preferida das meninas, por ser acima de
tudo uma
Fada s n o D i v ã - Ps ic a n á lis e n a s Hi st ór i a s Infan ti s
m u m n ú m e r o proporciona l de críticas e
preconceit o s par a co m o sex o feminino ,
história d e amor . Nã o basta a p e na s a essa s
heroína s se livrar da velha bruxa , é precis o
enfrentar aind a a mort e da infância e as
dificuldades de desperta r no s braço s d e seu s
príncipes , q u e aliás s e apaixonara m po r elas
q u a n d o estava m adormecidas . Eis mais u m detalh
e q u e liga essas princesas : ambas , b e m c o m o
suas an te pa ss ad a s, passam por um período
d e adorm eci men t o - fato q u e dá n o m e a um a dela s e
é o estad o e m q u e seduze m o s seu s a m ad o s .
A s histórias c o m e ç a m muit o b e m , poi s
a m b a s a s m e ni n a s era m filhas desejadas . Branca
d e Nev e nasce u e xat a m e nt e c o m a s core s q u e
a imagi naç ã o de su a m ã e a pintou ; e Bela
Adormeci d a tev e su a cheg ad a a o m u n d o celebrad a
n u m l u xu o s o batizado , e m q u e a s fadas
dotaram-n a d e to d o s o s e nc a nt o s q u e um a
m ul h e r p o d e ter. Essas pri n ce s a s tê m o
privilégio d e c or re sp o n d e r e m g ê n e r o e n ú m e r o
a o desej o p a r e n t a l . N i n g u é m c o n s e g u e es s a
p r o e z a , c o m o lembrávamo s po r ocasiã o d a anális e
d o c o n t o d o Patinh o Feio, o filho idealizad o n ã o
nasc e n u nc a , restand o ao filho real a batalh a
inglória de tenta r se parece r co m o q u e ele
s u p õ e q u e ess e ideal poss a ser. Acrescente-se a
isso qu e , face á antigüidad e desse s contos , é
su rp re e n de n t e q u e haja filhas m ul h er e s n u m lugar tã o
idealizado , poi s é recent e a valorizaçã o do
nasci ment o d e um a menina .
A sociedad e qu e viu nasce r es s a s
hi st óri a s compr eendi a a utilidade de um a filha
mulhe r restrita à possibilidad e de alianças po r
casament o , o q u e era p o u c o face a o pape l d e
u m filho h o m e m n a trama sucessória. Q u a nt o à s
filhas, m e s m o q u e se u enlac e beneficiasse a
família, a necessidad e de lh e dispensa r u m oneros o
dot e lembrava a passage m d e u m encargo , d e u m
fardo , p e l o q u a l é n e c e s s á r i a a l g u m a in•
denização . Às plebéias , incapaze s de oferecer qualque r
aliança important e co m seu matrimônio , restava apena s a
função de fardo, já q u e seque r lhes cabia preserva
r o n o m e d a casa paterna . C o m o sabemos , havia
p o u c o a celebra r co m o nascimen t o d e u m
b e b ê d o sex o f e m i n i n o . Par a usa r um a
e x p r e s s ã o a nt i g a e d e esclarecedor a crueldade :
ter um a filha era c o m o rega r a horta do vizinho. As
princesas , portanto , explicitam em sua s histórias um a
contradição , pela qua l o desej o aparec e ao contrári
o de sua forma tradicional. Vale a p e n a s e
pergunta r o p o r q u ê .
Tã o lisonjeiros sã o esse s conto s par a a belez
a e o s d o n s d e sua s joven s p er so n a ge n s
femininas, q u e q u e m os apreci a mal p er ce b e o
q ua n t o o julgament o é inclement e relativo ao rest
o da s mulheres . Tanto s elogios, e m verdade , oculta
adulta . A mã e boa , q u e morr e rapida men t e na
história de Branca de Nev e e sai de cen a na
da Bela Ador• mecida , é muit o m e n o s expressiv a
cuj a fac e p e r i g o s a é e x p l i c i t a d a c o m requintes , do q u e a malvada. A bo a índol e está restrita às
principalmen t e na figura da madrast a da Branca de joven s e a um a q u e outra fada, ma s as fadas boa s
Neve . De a co r d o c o m esse s relatos , a jove m extrai jamais estã o desacompanh ad a s de su a versã o
seu s encanto s do fato de qu e aind a é inocente , portanto n ã o maligna. Essas histórias seriam, então, t a m b é m u
sa b e usa r o s ardi s típico s d a fême a humana. m tratad o so b r e a relaçã o d e h o m e n s e
Carent e de p o d e r formal, a mulhe r s e m pr e foi vista mulhere s co m a feminilidade: seu preço , se u
m a q u i n a n d o formas sutis de exercê-lo , e esse s são fascínio, a magi a magnétic a d e su a beleza ,
seu s feitiços. Além disso, somo s levado s a crer que, se u s p o d e r e s e perigos .
q u a n d o se torna r mãe , vai lidar co m se u filho como
u m dragã o sentad o sobr e se u tesouro , devorand o e
cu s pi n d o fogo e m q u e m ameaça r sua s crias.
No cont o da Bela Adormecida , a velha fada, com se u Lisa, a antepassada
ma u h u m o r invejoso e nocivo , exemplifica o que resta
isa, a heroín a de A Jovem Escrava,1
de um a mulhe r q u a n d o a juventud e a abandona. Os
atrativos femininos seria m um a arm a privilegiada d e conto escrit o p o r Basile, p u b l i c a d o em
conquist a d e posiçã o para um a mulher, com o o 1634, é a p o nt a d a c o m o a ancestra l
envelhe cim en t o a privaria destes , a mulhe r necessitaria recorre mai s próxima
r a outro s feitiços, os da bruxa . Um homem p o d e de Branca de Neve . De fato, o
ama r a pa i xo n ad a m e n t e um a princes a adorme• cida, co n t o de Basile, originalment e narrad o e m dialet
aprisionad a e passiva , ma s q u a n d o a mulher despert o napolitano, conté m algun s eleme nto s de Branca
a e p e r d e a belez a inocent e da juventude , resta a visão da de Neve, embora t a m b é m p o s s a m o s r e c o n h e c e r
sua verdadeir a alma: pod e rosa , perigosa e ardilosa . t r a ç o s d e A Bela Adormecida e Cinderela.
Vemos entã o que , so b um a cap a d e elogio, essas A história dest e cont o inicia c o m um a brincadeira
história s c o n t ê m u m avis o d e q u e t o d o cuidad o é d a jove m irmã d e u m b a rã o q u e faz u m a apost
p o u c o co m mães , sogra s o u t o d o o tip o d e mulher a com sua s amigas : qua l dela s conseguiri a pula r
um a roseira

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D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

sem tocá-la. N e n h u m a c o n s e g u e , m a s a
menina
. trapaceia as companheiras , já q u e ela pul a melho r q u e
as outras e faz parece r q u e ga n h o u , ma s sab e
q u e deixou cair uma folhinha. Rapidamente , ela
engol e essa folha para garantir sua vitória no jogo .
T e m p o s depois se descobr e grávida. Desesperada ,
poi s nã o sabe como isso ocorreu , ela recorr e às
sua s amiga s fadas2 em busca de uma explicação. Estas
lhe informam que ela engravidara magicament e da
folha da roseira. Ela passa então a ocultar primeir o a
gestaçã o e depoi s a menininha qu e nascera, a q u e m dá
o n o m e de Lisa. Leva-a até as fadas, em busca de sua
be n ç ã o e proteção , e elas lhe dã o muita s
q ual id a de s . Um a da s fadas, porém, apressad a
par a c h e g a r a ess a e s p é c i e d e batismo, torce
o pé e, movid a pel a dor, rog a um a praga. A
maldição proferida era q u e Lisa, ao atingir 7 anos,
enquanto estiver s e n d o pentead a pela mãe , mor • rerá
com o pent e enterrad o em seu s cabelos . Chegad a a
funesta ocasião, a maldiçã o se confirma. A
rainha guarda sua filha, q u e parec e morta, ma s
m a nt é m as cores da vida, em sete caixas de cristal, um a
dentr o da outra. Essa urna é mantid a escondid a
pel a mã e em um remoto quart o do castelo, cuja chav
e leva s e m p r e consigo. Tomada de tristeza pela perda ,
a m ã e morre , não sem antes pedir, em seu leito de
morte , q u e seu irmão custodiasse a chave , se m
jamais abrir a port a do respectivo recinto.
Passados algun s anos , o irmã o casa-se co m um
a mulher perversa e ciumenta . Num a ocasião , el
e se ausenta para uma viagem e confia a chave ,
co m as devidas recomendações , par a sua esposa . É
claro q u e a mulher abr e a porta e encontr a a urn a
e nel a um a jovem (que na realidad e é sua
sobrinha) . A menin a crescera nesses ano s d e sono ,
assim c o m o seu caixã o transparente, q u e s e expandir a
c o m ela. Enlouquecid a de ciúme, pel o qu e julga ser
um objeto de culto do marido, ela arranca a jovem de
seu s o n o pelo s cabelo s e, com isso, faz cair o pent e q u e a
mantinh a enfeitiçada. Ao acordar do seu son o
mágico , Lisa exclama : "Oh . minha mãe!". Ao q u e
obté m c o m o resposta : "Vou te dar mãe e pai!".
Tratando-a c o m o um a escrava, a espos a do tio a submetia
a t o d o o tip o de trabalho , de maus - tratos e recobr e
seu corp o de trapo s e sujeira. Q u a n d o o tio retorna,
a espos a lh e cont a q u e Lisa er a um a escrava
qu e lhe havia sid o enviad a pel a sua mã e e,
sendo uma jove m perversa , deveri a se r
sistemati • camente castigada.
Certo dia, ao partir par a um a viagem, o tio
p e d e a todos no castelo q u e façam algum a
e n c o m e n d a , a jovem escrava p e d e u m a boneca ,
u m a pedr a d e afiar e uma faca. A bonec a servia
c o m o ouvint e de seu s
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sofrimentos e a pedr a par a afiar a faca, q u e seria
usad a par a p ô r fim à su a vid a miserável .
O tio termin a es c uta n d o su a história triste n o
m o m e n t o e m q u e ela a narrava para a b o ne c a ,
co m isso i m p e d e que ela se mat e e a mand a par a
casa de pessoa s de sua confiança, para recupera r a
sa ú d e e a beleza . Q u a n d o a jove m finalmente
está bem , ele realiza u m b a n qu et e e m sua
homenage m , apresenta- a à sociedad e com
o s u a sobrinh a e expuls a sua pervers a mulher .
Por fim, o tio providenci a u m b o m marid o para
Lisa.
Essa narrativa serv e par a q u e possa mo s
pensa r o q u e ela teria e m se u cern e par a ser
interpretad a c o m o a or ig e m de A Branca de
Neve. As trajetórias da s pe rs o n ag e n s n a
verdad e s e assemelha m apena s pel o
desapare cim en t o precoc e d e sua s mães . N a
história d e Basile , p a r e c e h a v e r al g o d e
p e c a m i n o s o n a c o nc e pç ã o , po r mai s mágic a
q u e seja, d e Lisa, poi s sua mãe , q u e a tev e
e m função d e um a travessura, precisa oculta r
a menina , sugerind o q u e sua orige m foi de
algum a forma escusa . Esse foi um el e m e nt o
q u e s e perdeu , poi s e m nad a lembra o
nasciment o d e Branca d e Neve .
Lisa c ha m a a tia de mãe , t o r n a n d o
possível o deslizament o dest a para o pape l
materno , assim c o m o se u tio e m s eg ui d a
a s s u m e u m luga r p at er n o , a o reestrutura r se u
luga r social e providenciar-lh e u m casamento .
Ta mbé m n ã o s e mantev e nas versões poste• riores a
suposiçã o da tia de que haveria algu m tip o de amo r
entr e se u marid o e a jovem adormecida , orige m de
se u ciúm e vingativo . Essa trama ce d e u
lugar a alusõe s b e m m e n o s incestuosas. Com o
veremos , n o cont o d o s irmão s Grimm, nad a d
á marge m seque r à suposiçã o de algu m amo r
familiar. O pai desapare c e ou é se m importância , e
a madrasta entra nu m a disput a d e belez a c o m a
enteada , intermediad a pel o ascético espelh o
mágico. Tud o indica qu e a passage m d o temp o foi
d e c a n t a n d o histórias cad a vez mais simbólicas
e metafóricas, necessária s à nov a sensibilidad e
m o d er n a e à p r e o c u p a ç ã o co m o q u e se
está oferecend o às crianças .
C o m o antepassada , Lisa serv e para
representa r a fundaçã o d e um a genealogi a d e
joven s mulhere s q u e terã o d e s e salvar d e praga s
e maldades , proveniente s d e q u e m deveri a
abençoá-la s e cuidá-las. Elas de v er ã o amad urece r
isoladas, oculta s dessa s terríveis invejosas. Por fim,
par a encontra r u m amor, terã o ante s d e passa r po r
u m s o n o enfeitiçado. Vamo s adiante , então ,
a o encontr o d e Branca d e Neve e Bela
Adormecida , q u e herdara m del a parte s da
história e sobrevive m hoje p ar a alimenta r
d e v a n e i o s a m o r o s o s e m pe ss o a s d e toda s a s
idades . Co m elas, p o d e m o s pensa r sobr e a s
Fadas no Divã - Psicanálise nas Histórias In fanti s

intempérie s provenie nt e s d a rivalidade c o m a sobrevivent e é essa madrasta , em cuja relaçã o


m ã e , q u e é precis o vence r par a a d or m e ce r m enin com a en te a d a n ã o h á o a m o r m a t e r n o par a
a e des • perta r mulher, assim c o m o sobr e o s amortece r o ciúm e e a inveja.
reveze s q u e sã o próprio s da adolescênci a de Apó s um a n o de luto, o rei, na última ve z qu
a m b o s os sexos . Mais adiante , encontraremo s e é m e n c i o n a d o n o c o n t o , cas a n o v a m e n t e
aind a Cinderela, q u e é um a jovem escrava, c o m c o m uma mulhe r tã o bela q ua n t o perversa . O pai
o Lisa, e no s fará avança r nessa s conjecturas . de Branca de N e v e n ã o ser á l e m b r a d o n e m
p a r a e x p l i c a r seu desap arecime nt o , n e m seque r
será m e n ci o na d a sua posiçã o diant e d o destin o
Branca como a neve d a menina . E m se u lugar, s u r g e u m e s p e l h o
mágico , objet o d e co n st an t e s consultas pela
ranca de Neve, tal com o a madrasta. Enquant o o espelh o respondia q u e ela era
c o n h e c e m o s , nã o conta co m uma versã o d e a mai s bela da s mulher e s (sim, el e era falante),
Perrault, ma s a p a r e c e na compilaçã o a entead a nã o trazia problemas , ma s quand o
folclóric a d o s irmãos Grimm..3 Seu sucess o chego u o dia em q u e ele m e nc io n o u q u e a
está de algum a
menina era a mais bela do reino, ela tornou-s e
forma associad o ao fato de ter sid o o primeir o
um a rival.
longa- metrage m e m de senh o s animados . O d e s e n h o
Isso ocorre u q u a n d o Branca de Neve tinha 7 anos.
anim ad o Branca de Neve e os Sete Anões (Estúdios
É curios o q u e aind a tã o jovem ela poss a se r ameaçadora
Disney, de
á posiçã o d e um a mulhe r adulta , po r
1937), alé m d e eleva r este s último s à c o n d i ç ã
is s o é compreensíve l qu e esse detalh e tenh a
o d e protagonistas , foi o precurso r de um a
linguage m q u e formará o gost o e o estilo de desaparecid o dos relatos contemporâneos . No
narrativa par a crianças de geraçõe s a partir daí. É filme da Disney, assim c o m o nas ilustrações
tã o marcant e a influência dess e filme q u e a mais tradicionais da história, a he r oí n a é
image m sugerid a po r el e par a a perso nage m da r e p r e s e n t a d a c o m o u m a a d o l e s c e n t e . E soment
Branca de Nev e hoje é indissociável desta. e nessa fase, q u a n d o perd e a condiçã o infantil, qu
Qual que r leitor q u e pensa r nela a imaginará tal com o e a jovem represent a uma ameaç a par a o reinad o da
ali foi desenha da . mulhe r mais velha da casa. Os 7 ano s talvez representem
N a v e r s ã o d o s irmão s G ri m m , o c o m e ç o m o m e n t o em q u e a menin a começ a a
o d a história nã o poderi a ser mais idílico: apresentar algu m interesse pelo s atributos de
feminilidade, com o roupa s e comportamentos , já que
Era uma vez uma rainha que, certo dia, no meio , até então , p o u c o se diferenciam na aparência as
cio inverno, quand o flocos cie neve caiam do céu com crianças de ambo s os sexos, mas isso são conjecturas.
o se fossem penas, costurava sentada junto à Outra fonte, be m mais provável da alusão a essa idade, é
janela, cujo caixilho era de éban o muito negro. E. o fato de que , á époc a dessas narrativas, os 7 ano s era m
enquant o costurava e olhava pela janela, espeto u a ocasiã o do fim da inocência infantil, o início de uma
o d e d o na agulha e três gotas de sangue certa responsabilidad e social.4
caíram na neve. Ela pensou então: que m me Vemos també m qu e é co m a idad e de 7 ano s q u e
dera ter uma filha branca com o a neve, vermelha Lisa está fadada a perde r sua mãe .
com o o sangue e negra com o o caixilho da janela. D e qualque r maneira , graça s ao s acontecimento
s q u e s e sucedem , é possível supo r q u e a s aventura s d
Seu desejo foi um a orde m , "pouc o depoi s de u e Branca de Nev e a c o n t e c e m q u a n d o a heroí n
á luz a um a filha q u e tinha cútis tã o alva com o a nev e a já é adolescente , portant o a criança am ad a e
e tã o corad a c o m o o sangu e e cujos cabelo s era m negro s desejad a já n ã o existe mais mes mo , foi
co m o o é b a n o q u e ficou cha mad a d e Branca d e Neve". substituída po r um a bela jovem. Um b e b ê te n d e
Mas o q u e era b o m d u r o u q u a s e nada , j á q u e a a ser objet o de contemplaç ã o e fascínio po r part e do s
m ã e morre u log o ap ó s o nascimento . Essa rainha pais, q u e celebra m a realização cie seu desejo . Já a
aparec e ap e n a s par a ser q u e m faz a e n c o m e n d a . moç a q u e ess e b e b ê se torno u é objeto d e desej o
Mãe boa , c o m o toda s a s d e conto s d e fada, que , po r ter para u m jovem príncipe , de s ba n ca n d o a m b o s de se u
desejad o tant o a criança, ficaria isenta de trono : o pai é substituíd o po r ele, e a mã e é
sentimento s hostis, a b a n d o n a a cen a rapida me nte , agor a um a madrast a invejosa cia belez a e da
par a deixa r surgir e m se u lugar a madrast a n u m juventud e da filha. É a partir d es s e p o n t o q u e a
n o v o casament o d o pai. Sempr e clarament e açã o realment e começa .
diferenciad a da genitora, a m ã e A fim d e livrar-se d a incôm od a presenç a d a bel
a jovem , a madrast a i n c u m b e a um c a ça d o r a
serviç o de su a cort e qu e lev e a entead a par a a
floresta, a
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

mate e lhe traga seu fígado e pulmões t o m o prova.


O homem compadece-se das súplicas da
menina, deixando-a partir, confiante de que as
feras farão a tarefa por ele. Para simular que
cumprira sua missão, mata um animal e leva
suas vísceras para serem comidas pela invejosa
mulher. A menina atravessa a floresta livre de toda a
ameaça, ficando claro qume o perigo morava em casa.
Ao anoitecer, chega a uma cabana, onde tudo é
pequeno. Uma mesa servida para sete, assim como
sete caminhas e, nesse mundo em miniatura, se sente
aconchegada. Ela come um pouquinho de cada
prato e experimenta todas as camas, ficando
adormecida na última delas. A cabana pertencia a
sete anões mineiros que, ao anoitecer, retornam,
encontrando a bela invasora. Ela lhes suplica
que a deixem ficar e conta sua história. Sensi•
bilizados, eles a aceitam, mas com a condição
cie que ela faça os serviços domésticos.
A partir desse momento, eles se cuidam mutua•
mente, por isso, ao sair, sempre alertam para que ela
não permita a entrada de estranhos na casa. Enquanto
isso, a madrasta é comunicada pelo espelho - que nunca
mente - da sobrevivência e do paradeiro de Branca de
Neve. Por três vezes, ela visita a jovem, a fim de livrar- se
pessoalmente dela: na primeira, disfarçada de velha
vendedora ambulante, lhe oferece um cadarço para seu
corpete. Quando a moça aceita, ela o coloca na jovem,
apertando-o até sufocá-la, mas ela foi salva pela provi•
dencial chegada dos anões. Da segunda, mais uma vez
disfarçada, ela lhe oferece um pente envenenado. Assim
que o pente toca os cabelos da moça, ela cai morta,
mas mais uma vez os anões a salvam, retirando o objeto
de sua cabeça. Por último, mediante o fracasso
das tentativas anteriores, ela tenta a gula da
jovem com uma bela maçã vermelha envenenada.
Branca de Neve morde a maçã, cai como morta e dessa
vez não há o que seus amigos possam fazer para
reverter o fato.
Apesar de morta, a jovem parecia estar apenas
adormecida, mantendo-se rosada como em vida. Por
isso, os anões decidiram colocá-la em um
féretro de vidro, onde pudesse ser contemplada por
quem passasse, enquanto eles velavam e montavam
guarda ao seu lado. Não demorou muito para que um
jovem príncipe passasse por ali e ficasse
fascinado com a sua beleza inerte. Tanto que
pediu aos anões para que ela pudesse repousar
em seu palácio, prome• tendo honrá-la como
uma amada. Ao ser transpor• tada, um tropeço
dos lacaios balançou o caixão e, com o solavanco,
soltou-se da garganta de Branca de Neve o
p ed a ç o de maç ã e n v e n e n a d o q u e mantinha o
sono enfeitiçado. Ao despertar da amada,
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o príncip e declar a se u a m o r e é aceit o pel
a mo ç a . Co n vi d a d a á festa d e c a s a m e n t o , a
madr ast a c o m p a • rece , m e s m o corroíd a pel a
inveja. L á p o r é m a e s pe r a o castigo : é obrigad
a a calça r s a p a t o s em bras a e nele s d a n ç a r
at é a m o rt e .
Na versã o Disney, Branca de Nev e é
despertad a d e u m m o d o mais romântic o e m eno s
pudico , po r u m beijo, fruto do s novo s te m p o s .
Q u a n t o à malvada , é eliminad a pelo s anões ,
q u e s e encarrega m d e jogá-la d o alto d e um a
mo ntanha . J á qu e o filme lhes de u
pe rs o na li da d e s e papéi s mai s marcantes , n ã
o é d e estranha r q u e a vinganç a també m coubess
e ao s anões , assim c o m o ante s haviam s e
incu mbid o d a seguranç a da princesa .

Espelho, espelho meu...


morte precoce da rainha-mãe
representa que o filho que nasce não fica
com a cara cia encomenda por muito
tempo: assim que começa a crescer,
passa a escolher sua
própria carta de cores e matizes. Na versão dos
irmãos Grimm. a rainha morre no parto, o que é bem
correto, pois a criança que nasce não é
nunca exatamente como se sonhou, afinal ela já
chega ao mundo ber• rando, dando mostras de
alguma insatisfação. Assim, quem morre no
parto é esse ideal de que um filho será capaz
de satisfazer plenamente o desejo da mãe. Nos
contos, a mãe má é representada ora por
uma bruxa, ora por uma madrasta. Branca
ele Neve tem o azar ele ter as duas, com um
detalhe adicional: sua madrasta é bela, sua feiúra
é interior. Na cultura medieval cristã, a beleza
feminina se identificava ao maligno, à influência
do demônio, o que vem a ser o coroamento de uma
longa carreira ele preconceito para com a mulher.
Como os contos de fadas desde sempre foram
elessacralizados, nunca foram muito afetados
por essa visão cristã ela beleza como um
problema
(como o esconderijo do diabo): a beleza era
sempre um bom sinal, e a feiúra, o signo dos maus.
Nisso a madrasta ele Branca ele Neve
é uma exceção,5 mas convive com uma eterna
insegurança a respeito ele seus atrativos, não
lhe bastava ser bela, sua formosura tinha de ser
insuperável. A supremacia da beleza da madrasta é
objeto de consulta constante a um espelho mágico,
a quem ela pergunta:

Dize a pura verdade, dize, espelho meu:


Há no mundo mulher mais bela do que eu?
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á l i s e n a s Hi s t ó r i a s I n fa n ti s
cresceu e

A verdad e é q u e a belez a só existe par a um olhar, 80


se m ess e recon heci men t o ela n ã o faz sentido , po r isso
o e s pel h o é o c o m p l e m e n t o necessári o da imagem .
O olhar n o espelh o traz s e m p r e um a pergunt a
e um a resposta. Cada um o contempl a tentand o
se ver "de fora", b u s c a n d o decifrar o impact o
de sua image m no s olho s do s outros , interrogand o
c o m o so mo s vistos. Outra fonte d e informaçã o a
respeit o d e q u e m
somo s é a comparação : é sempr e melho r se p o d e m o s
ser julgados mais lindos, inteligentes ou
interessante s q u e est e o u aquel e qu e
c o n s i d e r e m o s d i g n o d e admiração , imitação o u
desafeto . E m suma , q u e r e m o s s u p er a r algué m qu e .
pe l o direit o o u p e l o a ve ss o , consideremo s c o m o
parâmetro . Por isso. n ã o basta o espelh o respo nde
r q u e ela é bonita , ela te m de ser a mais bela d e
todas .
Nada mais útil entã o q u e u m e sp el h o capa
z d e emitir opinião , se assim fosse nã o
gastaríamo s tant o t e m p o no s p e r g u n t a n d o c o m o
est a m o s p a r e c e n d o . Porém, a melho r respost a aind a é
se r a m a d o . A admi • raçã o d o ser a m a d o , d e q u e m
nor mal men t e exigimo s que , c o m o o espelho , diga
alto e claro o q u a nt o no s aprecia, é o melho r
certificado de adequaçã o a este olhar, pois
significa q u e algué m viu, gosto u e desejo u aquil o q u
e somos . H á moça s q u e termina m na s mão s d e u m
e n a m o r a d o príncipe , ma s nunc a cessa m d e lhe
pergunta r se sã o amadas , aind a e de verdade , e
n ã o adiant a q u e el e assegur e q u e isso já foi dit o mil
veze s e q u e su a opiniã o n ã o m u d o u . Nã o basta se r
espelho , te m de falar.
O amant e da madrasta é representa d o po r
ess e espelh o mágico, capa z de lhe respon de r a
pergunt a a contento . Aliás, ningué m faria um a
pergunt a dessa s par a ouvir q u e a mais bela é a
outra, a respost a te m de ser previsível, é apena s um a
busca de confirmação . O drama começ a q u a n d o o
espelh o r es p on d e q u e a mais bela é a jovem. Até
aqui a convivênci a era pos • sível, o q u e fica
insuportável é justament e a c o m p a • ração das
belezas.

Espelho e caçador, duas faces do pai


as que olhar é este que acaba com a paz no
lar? O espelho mágico é um olhar pregado a
uma parede no quarto da madrasta. Assim
deveria ser o homem com quem ela se casou,
ou seja, ter olhos só para sua mulher; entretanto, esse
homem-espelho consegue ver também a beleza
da princesa, sua filha. Um belo dia, o pai, que é
também um homem, se dá conta de que sua menina
foi agraciad a c o m os atrativos de um a jove m mulher. É
um a constatação , ma s é t a m b é m o início de uma
se pa ra ç ã o entr e pa i e filha, el e n ã o mai s contemplará su
a n u d e z e m vão . A intimidad e q u e u m pa i podi a ter co m
sua menin a ante s dess a visão agor a é invadida po r u
m constrangiment o .
O e s p e l h o e n t ã o e n un c i a q u e h á u m a jovem
mulhe r na casa, su a própria mulhe r nã o é mais a única e está
ficando para trás. Existem outras histórias centradas no caráter
traumático para a jovem do m o m e nt o em q u e se
explicita esse olhar do pai, po r exemplo , no cont o
Bicho Peludo.6 É inegável q u e el e contribui para a
impossibilidade de permanênci a no lar da Branca de Neve,
ma s aqui vamo s centrar o enfoqu e na reação da mãe , ou
melhor, madrasta. De qualque r forma, nessa família só
há lugar par a um a mulhe r ser desejada. À filha só resta a
expulsão , partir em busc a de se u próprio espelho , ou seja,
de um amor.
Q u an d o ela perd e o lugar de única beldade , a fúria da
madrasta dá início ao drama. A inveja é o divisor de águas,
e ela ag e rápido: mand a se m rodeio s qu e um caçador
mate Branca de Neve e traga suas vísceras, que pretend e
devorar temperada s co m o sabor da vingança. A madrasta que r
incorporar os atributos da jovem, comer se u pulmão , se u
fígado, se u coraçã o (o órgã o varia conform e as
versões) . Comê-la é passa r a ser ela, a incorporação
é a forma mais primária de identificação. Nessa história, o
pe rs o na g e m do pai é um a figura
subordi na d a â madrasta , um olha r p r e s o â pared e do
q u a r t o . Mas p o r q u e el e n ã o p o de ri a se r também
re pr es e nta d o pel o caçador, c o m o se fossem dua s faces da
mes m a moeda ? Afinal, el e se s u b m et e à madrasta, m a s
po r outr o lad o a enga na . Diferentement e desta, o caçado r
co n se g u e ver a moç a c o m o um a menin a frágil, te m pen a dela
e a salva da inveja assassina materna. Há um a
cumplicida d e entr e o caçado r e a jovem, que minimiza o
p o d e r cia madrast a e permit e a fuga. 0 '
mai s importan t e é o fato de a m ã e p o d e r se r enganada, dela
nã o ter control e total sobr e ess e homem . O pai é fraco, po d
e enganar , ma s n ã o reverter o quadro , por isso, n ã o
vale a pen a ficar em casa po r ele. Além disso, é indign o do
a m o r da filha, livra-a da mãe , mas a deixa na floresta
á merc ê da s feras. Nesse caso, o amor do pai é impotent e
no m u n d o externo , fica restrito ao s muro s d a casa.
Os caçadore s era m n ob re s na origem, afinal a
caç a er a um atribut o da aristocracia. As crianças de
hoj e n ã o s a b e m d e ss e a s p e c t o histórico , mas eles
s e g u e m s e n d o figuras importante s , aparece m como
protetore s , poi s caça r animai s selvagen s é enfrentar o q u e
h á d e mai s perigos o n a floresta. Essa importância
Di a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

é visível na popula r história de Pedro e o filho e o h o m e m a m a d o . O important e é essa variação,


Lobo, em que o caçador aparec e c o m o m o d e l o de d e m o d o q u e ninguém , n e m filho, n e m cônjuge,
identificação viril para os meninos , assim c o m o na seja objet o absoluto , capa z de locupleta r a mã e
etern a Cbapeu- zinho Vermelho, em qu e a menin a é ou o pai. A criança interessa-s e po r aquil o q u
retirada da barriga do lobo por um caçadora . 8 e é important e para seu s pais. p o r q u e , n u m
Por mais podere s qu e a bela madrasta tenha , primeir o m o m e n t o está b u s c a n d o lugar para s i n
ela não consegue controlar ne m espelho , ne m caçador. o amo r deles , ma s termina descobri nd o u m
O olhar de um e os atos de outr o a traem. O espelh o m u n d o mais vasto, plen o d e o p ç õe s amorosas , de
está preso à parede, mas enxerg a alé m do realizaçõe s possíveis e variadas formas d e realizar
recinto , e o caçador só finge qu e obedece . Se a mã e seu s desejos.
fosse perfeita, se sua beleza hipnotizasse o pai, qu e mais
ele quereria além de adorar e obedece r a sua
amada? A filha só restaria a opção de tentar se
mimetizar ã mã e para tornar- se também objeto dess e A turma dos anões
amor. É important e q u e a filha possa recolher elemento s ivrada da mort e pel o caçador .
de identificação co m a mãe.'' Ser como ela em alguns Branca de Nev e se vê sozinha , a b a n d o n a d
aspectos, mas c o m o p o nt o de partida, não de chegada.
a na floresta e se m ter par a o n d e ir.
Perceber a limitação do model o materno empurra ao
Vaga po r algu m t e m p o até q u e o
trabalho de busca r referenciais e vivências que
acas o a c o n d u z par a a
ampliam o horizonte da vida da filha.
casa do s an õ e s d a floresta. Q u e m sã o esse s
É um caminh o problemátic o para a filha q u a n d o anões? Ora, o folclore e u r o p e u está chei o deles ,
ela sente uma admiraçã o irrestrita pela mã e ou m e s m o sã o sempr e criaturas da terra, ou melhor, das
quando o amo r de se u pai pel a espos a é de entranha s da terra. São mineradore s incansáveis e
um a paixão engolfante. Isso relega a moç a a dua s detentore s do s segredo s e tesouro s d o interior da s
posiçõe s igualmente difíceis: p o d e tenta r se m o nt a nh a s . Geralmente , sã o representado s c o m o
iguala r à m ã e , perdendo o caminh o de construçã adulto s e m miniatura, usa m longas barbas , sã o avarento
o de sua própri a pessoa, ou ainda se identificar s e n ã o muit o amistosos . No noss o caso, se porta m
co m o pai, b u s c a n d o amar uma mulher maravilhosa muit o be m co m a heroín a e lhe d ã o casa e
assim c o m o a qu e ele ama. Na segunda escolha, ela comid a em troca de serviços domésticos . Ela
encontrará numa solução homossexual a possibilidad e de ganh a u m lar o n d e p o d e ocupa r u m lugar
relacionar-se co m a perfeição de sua mãe. 10 feminino, ma s n ã o sexua do , ela é a don a de
Porém, para haver algum a existência casa, mas n ã o é mulhe r de ninguém , todo s a
individual, algo que possamo s chama r de "eu", é quere m e a cuidam , mas n ã o há um a disput a sexual
precis o q u e saibamos nos diferenciar, particularizar
po r cia. No filme da Disney, eles c o m p e t e m po r sua
um a forma de ser. Tentar ser igual é uma forma de morte
atençã o c o m o u m gru p o d e irmãos , estã o
, de anulação , pois, se formos iguais a alguém , seremo s
e n a m o r a d o s dela, ma s c o m o crianças q u e q u e r e
essa pessoa , portanto nã o existirá aquel a forma
m u m q u i n h ã o maior d e sua atenção .
específica q u e no s identifica. Para a filha, é
necessári o constata r q u e o desejo do pai transcend e Nos conto s d e fadas, o s anõe s geralment e
se u amo r pela mãe , de forma a que esta nã o se cristalize estã o num a posiçã o o n d e desejam outras coisas
c o m o a única forma capa z de suscitar algum desejo. qu e nã o o sexo . Eles qu ere m riqueza s e
rarament e cobiça m as princesas , poi s estã o fora
A moça interroga par a o n d e se dirige o olha r e o
dess e d o m í n i o da s lides sexuais. São co m o os mais
desejo paterno, e s p e r a n d o q u e o pai se interesse
velho s ou c o m o as crianças, cies têm as barba s da
po r algo além de sua esposa , inclusive q u e ele
reserv e algum espaç o para percebe r q u e a filha velhice e o tamanh o da s crianças. Digamos qu e eles
cresceu . Essa questão nã o é restrita ao c a m p o p o d e m representa r um território fora do exercício
a m or o s o ou erótico , a amplitude d o desejo d o pai sexual (antes e depois) , um lugar o n d e a Branca
p o d e ser representa d a por um gosto dest e pel o se u d e Neve nã o precisa s e preocu pa r co m sua
trabalho , pel o jornal q u e lê com dedicaçã o beleza. Nesse sentido, é o lar ideal para o
obsessiva , p e l o esporte , amigos , leituras, programa m o m e nt o. " Temo s o b se rv a d o q u e no s d e s e n h o s
s de televisão — enfim, tu d o o q u e lembra qu e ele Disney é
n ã o te m olho s apena s par a su a mulher . O amor da mã e constant e a presenç a de figuras infantis
ta m b é m te m de ser repartid o entr e o representada s pelo s animai s e , nest e filme, t a m b é m
pelo s anõe s (poi s todo s disputa m o s cuidado s
materno s d a princesa) . Essas figuras funcionam com
o gancho s d e identificação mai s diretos par a as
crianças. Essa inserçã o é sábia, poi s a criança
p o d e sonha r em ser a bel a princes a ou o
príncip e corajoso n o futuro, s e n d o q u e n o
present e

8
1
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s H is tó ri a s Infan ti s

ela s e permite , c o m o o s animaizinhos , participa r A mãe bruxa


d a trama se m s e projetar diretament e ness e
desafio q u e s ó o t e m p o lhe designará . Troc and o perversidade da madrasta de Branca de Neve
e m miúdos , a menina , po r exemplo , poder á sonha e sua determinação inamovível de livrar-
r co m u m dia ser a Cinderela, mas n o m o m en t o s e se da enteada obrigam-nos a tentar
imaginar á c o m o u m d e seu s ratinhos d e estimação . entender
A narrativa d o s Grim m frisa a importânci a qual a origem de tanto ódio. Só as rivalidades
da igualdade fraterna entre os anões . Por exemplo , o femininas, o pânico de ser superada pela mais jovem
an ã o qu e foi desalojado de sua cama pela exausta seriam suficientes?
Branca de Neve - quand o ela chega na casa pela Acreditamos que aqui temos retratado mais
primeira vez —, dorm e uma hora daquel a noite n a cama os sentimentos da filha pela mãe do que o contrário.
d e cada u m do s outros, para nã o sobrecarregar As meninas na primeira infância são tão
ninguém. Os objetos, as quantidade s de comida, os amorosamente dedicadas às suas mães como os
móveis são absolutamente iguais, equanimiment e meninos. Porém, enquanto estes continuam
divididos entre todos. amando alguém similar à mãe pelo resto da
A menin a Cachinho s de O u r o invad e a casa vida (desde, é claro, que sejam heterossexuais),
de um a família, utiliza os objeto s e, atravé s elas terão de abrir mão dessa moda• lidade
deles , se interroga sobr e o s lugares d e cad a u m amorosa, para experimentar com o pai os
n u m núcle o familiar. Branca d e Neve, po r su a vez, rudimentos do que será seu objeto amoroso heteros•
t a m b é m invad e um a casa, mas descobr e nela com sexual no futuro. Dos caminhos e percalços
o é u m gr u p o d e irmãos , o u d e amigo s q u e deste enlace amoroso, nos ocuparemos no capítulo
sã o e m certo s aspecto s equivale ntes . Nã o q u e r seguinte. Aqui pretendemos entender o que
dize r q u e o s a n õ e s seja m irmãos entr e si, pois o acontece quando esse primeiro amor das meninas
relato n ã o esclarec e se sã o um g r u p o d e com a mãe acaba.
trabalhadore s o u um a família , ma s o Geralmente, esse primeiro amor com a
funcionament o d o gr u p o é tipicament e fraterno. mãe sucumbe em meio a um mar de queixas,
Para os jovens, passa r a maio r part e do acusações e mágoas. A menina desvincula-se da
t e m p o e m companhi a d e u m grup o d e pares , sua mãe acusando-a de tê-la abandonado, descuidado
"turma", é um a da s formas de proteçã o d o s e preterido. Tem também queixas de que a
conflitos familiares gerado s pela adolescência . A casa mãe não a dotou dos atributos (fálicos, dirão
da família fica b e m difícil d e habitar q u a n d o o s os psicanalistas) de que ela precisava para ser
defeitos do s pais sã o tã o chamativos ao s olho s do s valiosa e escolhida na sua prefe• rência, por fim
filhos e vice-versa. Ao m e s m o tempo , desd e um a posiçã o ainda acusa a mãe de ser ela própria castrada e
m e n o s valorizada, fica difícil o exercício d e autoridad desvalida, incapaz de dar-lhe o que ela
e q u e o s pais aind a neces • sitam fazer. A necessita. Essas queixas se enlaçam às queixas relativas
conseqüênc i a disso é um ambient e tens o e ao desmame, de ter recebido pouco leite ou por tempo
potencialmen t e conflitivo, o n d e lugare s hierárquico s sã insuficiente.
o disputados , e pais e filhos passa m se Muitas dessas ruminações são comuns a meninos
criticando, e m discussõe s ou , n o mínimo , e m e meninas, pois a mãe sempre deixa a desejar. Como
pensa me nto s . vimos antes, é porqu e este amor materno
Esses grupo s fraternos costu ma m a mpara r a s pri• não é absoluto, nem locupleta ninguém, que um
m ei r a s e x p e r i ê n c i a s a m o r o s a s e s e x u a i s , e filho sente necessidade de crescer, desejar além
b e m sabemo s o quant o é difícil administrar o tem a do dos primeiros vínculos e partir. Mas entre as
amo r e da amizade . E sempr e constranged o r ama r mulheres essa falta materna acaba sendo o
algué m d o grupo , fala-se e m perde r a amizad e e combustível que faltava para que elas incinerem os
se m p r e q u e possível se am a algué m de fora, voltand o restos de um amor que terá de sucumbir. Freud
par a o gr u p o q u a n d o s e está só, para s e cura r do s escreveu em 1932: "não consegui• remos
fracassos d o amo r e par a toma r corage m par a um a entender as mulheres, a menos que valorizemos essa
nov a investida. O s anões , c o m o o s b o n s amigos , fase de vinculação pré-edipiana à mãe".12 Situações
sã o todo s d a me sm a geração , as desigualdad e s como a rivalidade mortífera entre a madrasta
sã o muit o sutis e o sex o fica excluíd o d a relação e a enteada desse conto nos obrigam a concordar.
. Po r outr o lado , c o m o ocorr e n o grup o adolescente , Parece que há algo de raivoso nas relações entre a
Branca d e Nev e s e prepar a ali par a transitar d o mãe e a filha, senão na prática, pelo menos nas
olha r e d o desej o d o pa i par a o encontr o co fantasias de que essas histórias se incumbem de
m se u príncipe , e o s anõe s sã o parteiro s dess e representar.
processo . A menina funciona como a raposa da fábula que
colocava todos os defeitos possíveis nas uvas que não

82
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co r s o

conseguia alcançar e terminav a concluind o q u e


"as uvas estão verdes". Esse amo r mater no , que
ela n ã o levará consigo para sempre , q u e ela
sent e q u e está perdendo lugar, será desqualificado
, criticado c o m o as cobiçadas e inatingíveis uva s
da raposa . O e x p e • diente para livrar-se da mã e é
acusá-la de t o d o o ranco r que a filha sente po r esta
q u e a está a b a n d o n a n d o . Mais uma vez temo s um a
projeção , o n d e se atribui ao outro aquilo qu e sentimos
.
A forma pela qual a bruxa venc e Branca de Neve
(parcialmente), atravé s d a maç ã e n v e n e n a d a ,
di z respeito a essas queixas da filha, as quai s
p o d e m ser encontradas nas associações livres da s
paciente s em análise: o med o de ser envene nad a
pela mãe , assim como os inúmero s distúrbio s
alimentares , c o m o as anorexias nervosas, no s quais
tod o alimento envenena . A mãe é a primeira fonte de
alimento e os assunto s do estômago sempre lhe serão de
certa forma alusivos. Ser envenenada é també m um a
forma de lhe dizer q u e seu leite é ruim, qu e seu
alimento nã o nutre, mata. Mais uma vez é a mágoa
qu e dá o tom do texto da filha.
Por tudo isso, as mãe s farão papéi s extremamen t e
cruéis quand o a heroín a do cont o for um a moça , serã o
finalmente derrotada s e cruelment e castigadas. Q u a n t o
aos pais, quand o faze m sua s maldades ,
s e m p r e encontram algum tip o d e conciliaçã o o u
pe r dã o n o final. Realmente, ser mã e é desdo bra r
fibra po r fibra...

A maçã envenenada
espelh o tud o sab e e acab a reveland o á baix a
qu e a belez a de Branca de Nev e segu e viva,
assim com o su a localizaçã o . A
m a dr as t a
resolve q u e s e alg o te m d e ser bem-
feito tem de ser feito pessoalment e e part e par a
en v en e n a r a princesa. Disfarçada de velha ou de
cam pon esa , tira d o seu arsenal d e maldade s u m ve ne n
o p o d e r o s o q u e oferece a ela, so b a forma de um a
maçã .
O disfarce de velha é um a sábia forma de engana r
Branca d e Neve, poi s d o s velho s p o u c o h á par a temer.
Costumeiramente, o s adolescente s encontra m no s avó s
abrigo para os conflitos resultantes do narcisismo ferido
dos pais. No velho , p o d e m reencontr a r o
confort o daquele amo r matern o perdido ,
a d m i n i s t r a d o p o r quem já se apaziguo u relativo
ao s conflitos do sexo . A camponesa seria um a
mulhe r se m o s atrativos d e uma nobre, tosca e
voltad a par a o trabalho , portant o fora do circuito
da se d uç ã o .
83

Q u a n d o pedi mo s para crianças fazerem desenho


s de árvores , qualque r q u e seja, é incrível a
recorrência d a macieira, q u e parec e ser u m
arquétip o d e árvore. A maç ã ficou, dentr o da
noss a tradição, inseparável d o mit o d e Adã o
e Fva, c o m o sím bol o d e desej o proibido . F.
morde r essa maç ã q u e altera o destin o de Branc a d e
Neve , m orr e um a me nin a e nasc e um a
mulher, o v e n e n o é a sexualidade . Poré m até
aquel e m o m e n t o , a jove m se mostr a
tot al m e n t e casta . A madrasta leva até ela a
primeira tentação , so b a forma, é claro, do fruto
proibid o mais c o n he ci d o da tradição ocidental .
Fica a questã o do q u e a feiticeira foi
lazer lá. poi s a jovem já nã o perturbav a seu reinado ,
escondid a n o fund o d a floresta , brinc and o d e
m a m ã e junt o co m a turm a do s anões . Porém ,
um a vez q u e o espel h o lembro u q u e sua
belez a aind a conta , á m ulhe r mais velha c o u b e
fazer o resgate.
A cen a n ã o é inco mu m no cotidian o de
mãe s e filhas. Na maio r part e da s vezes , a
vida erótica da jovem é b e m maio r n a fantasia d
e sua mã e d o q u e n a prática da vida da filha.
A mã e su p õ e aconteciment o s q u e a jovem ne m
seque r ous a pensar, q ua n t o mais dizer. F m
determinad a etap a d o início d a adolescência , a mã e
pass a a n t e c i p a n d o e m seu s p e n s a m e n t o s a
principiant e sexualida d e q u e sua jove m filha
aind a n ã o sent e condiçõ e s de exercer. F isso
q u e a brux a foi fazer na casa do s anões , na
história vai para matá- la, na prática se trata de
fazê-la desperta r para o desejo sexual , para a
tentação . Tant o é assim q u e é so b os efeitos
da maç ã q u e a belez a de Branca de Neve se
expõe , tornando-s e disponível para o olhar do
príncipe. Assim, a mã e é important e fonte de
identificações, nas quai s a filha b e b e a ciência do s
atrativos femininos, afinal, el a lh e possibilit a
afinar a cintura , a fazer pe nt ea d o s diferentes
e a se mostrar disponíve l para ser a m ad a .
Mas a história lembr a que ess e en si n o t a m bé
m é a c o m p a n h a d o de rivalidade e de inveja pela
m u l h e r mai s velha . Talve z ess a seja a
ori g e m d a agressividad e latente e da rivalidade
sutil que perma • n e c e n a re l a ç ã o da s
m u l h e r e s e n t r e si, i n d e p e n • de nt e m e nt e d a
idad e e d o tip o d e vínculo .
É important e a ressalva de q u e , ao associar
essas questõe s da g ên e s e da identidad e feminina
à história d a Branca d e Neve , jamais no s ocorre u
q u e houvess e qualque r intencionalidad e n o sentid o d
a representaçã o desse s d ra m a s n u m c o n t o d e
fadas. A s origen s d a preservaçã o dess a trama se
d e v e m a múltiplos fatores, d o s quai s a p e n a s
p o d e m o s aqu i conjecturar alguma s
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s H is tó ri a s I nf a n ti s

facilitações, o u seja, um a possibilidad e d e comparaçã o Bela, porque adormecida


co m certas ocorrência s psicológica s constatávei s
n a noss a subjetivida d e c o n t e m p o r â n e a . Nesse s história deste conto tem, resumidamente
casos , permitimo-no s certo tipo d e livre associação , e até onde a prospecção histórica alcança,
aprovei • tand o a ocasiã o par a revela r a tram a três momentos. Começa em Giambattista
q u e s e p o d e associar a algun s aspecto s d o conto . Basile,
E m seu so n o letárgico, Branca d e Nev e com o nome de Sol, Lua e Tália'*
sedu z passivamente . O fato de pe r ma n ec e r corad a é a (1634); encontra outra versão consagrada em A Bela
marca d o feitiço, é o q u e mostra q u e ela n ã o Adorme• cida do Bosque.14 de Perrault (1697); e assume
está morta , q u a n d o a s core s d a vida a b a n d o n a m a forma pela qual a conhecemos hoje em A Bela
o corpo . Tã o viva ela está, qu e sua image m sedu z o Adormecida1^
príncipe , sobr e q u e m n ã o temo s motivo s par a (1812), dos irmãos Grimm. Em 1959, os estúdios Disney
pensa r q u e seja u m profanado r d e cadáveres , u m produziram sua versão em desenho animado.
necrófilo. El e é ap e n a s mais u m h o m e m qu e s e Na história de Basile, Tália é uma princesa que
apaixon a pela image m d e passividad e d a mulher. nasce com a mesma recepção festiva de suas similares.
Branca d e Nev e e m seu esquife d e cristal é a image Preocupado com seu destino, o rei manda
m d e um a mulhe r e nt re g u e a o desejo d e seu consultar astrólogos e magos, que se reúnem para lhe
príncipe. dar uma triste notícia: sua filha morrerá sob o
Estar corad a é um a expressã o da vivacidad e efeito de uma lasca de linho. O rei manda
do desejo, q u e no s esquenta q u a n d o ruborizamos . retirar de seu palácio tudo o que representasse
A co r vermelha també m costum a tingir as faces do risco para sua preciosa filha. Em certa ocasião,
s adoles • centes , q u a n d o sã o vistos, menci ona do s o u porém, ela vê uma mulher fiando, interessa-se pela
ab o rd a d o s po r algué m q u e lhes interessa o u consideram . atividade e pede para experimentar. É nessa ocasião
Portanto, ess a morte d e Branc a d e N e v e m a i que uma lasca presa ao linho entra sob sua unha,
s e x p r e s s a a possibilidad e d e ser vista d o qu e e ela cai morta. Desconsolado, o rei a veste
u m so n o propria • ment e dito. O feitiço da suntuosamente, coloca-a num trono de veludo e
madrasta torn a possível q u e su a belez a poss a ser a deixa num de seus castelos no campo, que manda
exibid a e desejada , disponíve l par a o amo r na fechar, como um grande monumento funerário. Certo
sua urn a transparente . dia, outro rei que caçava por ali perdeu um de
Essa m aldad e q u e sai pela culatra n ã o é seus falcões, que foi visto entrando no castelo. À
um a contradiçã o d o conto , é a p en a s um a prov a procura da ave. ele entrou no castelo
d e q u e para um a jovem a inveja de sua mã e abandonado. Quando chega á sala do trono, se
n ã o é neces • sariament e nociva. Essa inveja é um depara com a bela princesa desacordada e começa a
móve l important e d e confirmaçã o d e sua s gritar para despertá-la. Mesmo que ela não reaja aos
qualidad e s femininas, um a espéci e d e ferment o qu chamados, ele se enche de desejo pela jovem, leva-a
e permit e a e x p a n s ã o d e seu s encantos . Além disso, para um leito e a possui. Ao sair do castelo, envolve-
dev e ficar b e m claro q u e a jovem a se r invejada está se em seus assuntos, esquecendo-se da amante
em posiçã o b e m diversa da meni • ninha qu e a adormecida.
mã e enfeitava para sua própri a glória. A criança Nove meses depois, Tália dá à luz a um casal de
rosada, arrumad a co m b ab a d o s e fitas, dev e ser gêmeos, que, auxiliados por duas fadas, são colocados
en v en e na d a , d e v e morrer, par a q u e fique clar o para mamar em seus seios. Certo dia,
q u e agor a s ó restou a jove m cujos atributo s buscando os mamilos da mãe, os bebês começam
n ã o s e endereça m á mãe , mas sim a um príncip e a lhe sugar os dedos, possibilitando que a farpa
en c an ta d o de amo r pela sua imagem . saia de sua unha e da acorde. Tália desperta
Enfim, c o n v é m ressaltar a ligação dess a princes e encontra suas duas pequenas jóias, que chama
a co m a s cores, de s d e a s características co m a s de Sol e Lua, porém ainda não compreende o que
quai s deveri a nascer, at é a s q u e conservo u e m lhe ocorreu. O castelo é um palácio encantado, ela
se u s o n o enfeitiçado. Tant o um a c o m o a outr a sã o a s e seus filhos têm tudo de que precisam, mas nunca
core s c o m as quai s a mã e a pintou , as primeira s encontram ninguém. Quando o rei finalmente se
do desejo da rainha boa , as segu nda s as da inveja da lembra de Tália, comunica que sairá para caçar e volta
madrasta . Seja pel o direito ou pel o inverso , temo s a seu castelo. Feliz em vê-la desperta, se prolonga
o fato de q u e o amo r m at er n o será s e m p r e u m a junto dela por muitos dias, enamorado dela e de
espéci e d e matriz q u e definirá a carta de core s do s seus dois belos filhos. Conta-lhe tudo o que aconteceu
a m or e s q u e o sucederão . e promete que encontrará forma de levá- los
para seu reino.

84
D i a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o

O rei está tão enamorad o qu e em


sonho s constantemente chama seus nomes, o que
motiva sua esposa a investigar quem são, desconfiando
que esta seja a razão da longa permanência do rei na
floresta. Quando descobre o segredo de seu
marido, pensa numa maneira de se vingar e se livrar
dessa incômoda rival. Por intermédio de um secretário
do rei, ela envia para Tália uma suposta missiva do
soberano, solici- tando-lhe que confie Sol e Lua a esse
homem, que os levará para junto do pai, pois ele sentia
falta e queria vê-los. Era uma grande cilada
montada pela esposa ciumenta, que pretendia servir os
filhos de seu marido como iguarias para o próprio pai.
As crianças salvam- se graças ao cozinheiro, que
pratica a tradicional substituição de crianças por
caça escondendo-as em sua casa. Enganada, a
malvada diverte-se, acreditando que está enganando
seu marido. Passado um tempo, ela manda buscar
Tália, que obedece prontamente, pensando tratar-se
de um chamado do rei. Para a rival, a rainha tinha
preparado uma fogueira, mas Tália se põe a gritar,
e o rei chega a tempo de alimentar as chamas com a
perversa mulher e o secretario traidor. Saindo de cena a
rainha, Tália se torna a nova esposa do rei, e este é o
final feliz. Neste conto, a ênfase está mais na relação
de Tália com o futuro marido que naquilo que a
adormece.
Já A Bela Adormecida do Bosque, de Perrault, dá
contornos mais precisos para o nascimento da heroína,
assim como compartilha com o conto de Basile
da segunda parte. Como escrevia para a Corte, o
francês deu um lustro moral a essa história, que,
convenhamos, é bem picante . Aqui a
p er s eg u i d o r a da Bela Adormecida não é a
esposa traída, mas sim a sogra. Porém, não
acreditamo s qu e as transformaçõe s produzidas
por Perrault visavam apenas ã maquiagem moralista da
história. Na verdade ele combinou outros elementos
dessas inúmeras partes, semelhantes em tantas
histórias, qu e se articulam para formar os
diferentes contos de fadas.
Em Perrault, a menina foi muito desejada
por seus pais, tanto que quando chegou foi
motivo de grandes comemorações. Numa das festas,
no entanto, acontece a maldição. As fadas foram
convidadas para o batizado, recebendo cada uma
talheres de ouro do rei; elas, por sua vez, ofereceram á
criança dons, como a beleza, a bondade e a graça. Mas
a corte esqueceu de convidar uma fada, tão velha e
isolada que inclusive a julgavam morta. Mesmo
assim ela foi ao evento, mas sente que não foi bem
recebida, por isso amaldiçoa a menina, para que
morra quando tocar num fuso. Por sorte, uma
jovem fada ainda não oferecera à
85

princesinh a se u d o m e uso u e n tã o su a
magia par a ameniza r a maldição : graça s a ela a
mort e se transfor• mo u n u m sécul o d e s o n o .
O rei m a n d a quei ma r a s rocas d o reino .
Mesm o assim, 15 ano s depois , ela encontr a um
a velha ( q u e n ã o sabia d a proibição ) fiando
l i n h o nu m a torr e d o castelo. A menin a pergunta ,
tod a a curiosa, o q u e era aquil o e p e d e par a
experimenta r o instrument o q u e par a ela era
novidade . Mal pego u o fuso, feriu-se e caiu
n u m s o n o centenário . Q u a n d o ficam s a b e n d o d a
tragédia, as fadas encanta m o castelo par a q u e
todos , m e n o s os pais, d u r m a m junto co m a princesa .
Magica- mente , a vegetaçã o em volta faz um a cerca de
espinhos , q u e ningué m co nsegu e ultrapassar.
Ao fim de ce m anos , um príncipe q u e
foi caçar po r aquele s lados encontro u o castelo. Sobre
este castelo havia um a lend a d e q u e era habitad o po r
uma beldad e ador meci d a , par a cujo resgate
estava destinad o u m príncipe. Entrand o n o
castelo sem encontra r n e n h u m obstáculo , poi s a
vegetaçã o espinhos a se afastava só para ele e se
fechava em suas costas, encontro u a prin• cesa .
E n qu a nt o el e a conte mp la v a p a s m o co m su a
beleza, ela despertou , pois havia chegad o o fim de
seu encantament o . Co m o a atração é recíproca, eles
come • ça m um romance . Esse caso cie amo r fica
clandestino po r dois anos , o temp o necessário
para q u e nasça m um casal de filhos, chamado s de
Aurora e Dia. Q u a n d o o pai do príncipe morre ,
ele herda o tron o e assum e publicament e o
relacionamento , para qu e nã o lhe fosse exigido casar
novamente .
Te m p o s depoi s, surge uma guerra, o
rei é obrigad o a partir, de ix a n d o o rein o e
a espos a ao s cuida do s de sua mãe .
Infelizmente, a sogra de Bela Ador me cid a er a
d e s c e n d e n t e d e um a linhage m d e ogro s e
q u e r c o m e r o s netos . Ela o rd e n a matá-los ,
ma s o criad o incum bi d o da tarefa lhes p o u p a
a vida, oferece carn e de caça par a a av ó
canibal e os oculta e m su a casa. Nã o contente ,
aind a m a n d a prepara r u m prat o co m a carn e
da nora , q u e é salva da mes m a forma q u e seu
s filhos. Felizmente , a s tanta s artimanha s par a
enganá-l a vã o d a n d o certo; n o final, o marid
o volta, e a m ã e malvada , surpreendid a em
sua vileza, s e atira n u m p o ç o d e víbora s o n d e
encontr a se u fim. Os irmã o s Grim m n o s
legara m A Bela Adorme•
cida q u e hoj e é a versã o mai s c on h ec i d a dess a
trama . A ênfas e está na relaçã o c o m os pais , o
desej o de ter a filha, su a posterio r maldiçã o
e se u despertar . As aventura s q u e o c o r r e m
a p ó s o desperta r d a jovem , si m p l e s m e n t e
inexiste m n e s s e relato . N o c o n t o , a se q üê n ci
a é c o n h e c i d a p o r t o d o s n ó s : u m casa l rea l
esper a a ns io s a m en t e par a ter u m herdeiro , u
m dia
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s
e ela me s m a vira

um a r ã a p a r e c e d u r a n t e o b a n h o d a rainh a
e lh e anunci a q u e ela terá urna filha. Dito e
feito, nasc e um a bela me nina . O s reis d ã o um a
g r a n d e festa d e batizad o e convida m t a m b é m as
fadas. C o m o o rei n ã o tinha prato s d e o u r o
par a toda s (s ó tinha 12), u m a ficou d e fora.
Essa fada e x cl uí d a , a d é c i m a terceira, cheg a à
festa m e s m o se m se r convida d a e, na sua fúria,
amaldiço a a menin a par a q u e n ã o viva mais q u e
15 anos . Ao che ga r a essa idade , ela estaria condenad
a a espeta r o d e d o nu m fuso e morrer . Por sorte
, um a da s fadas n ã o havia d a d o o se u d o m
e converte u a mort e e m u m s o n o q u e
imobilizaria a princes a po r ce m anos .
Nessa versão, t o d o o castelo, incluind o seu s pais,
ador mec e junto co m a princes a e começ a a
cresce r uma cerca d e espinheiro s a o redo r d o
castelo, q u e o cobr e inteiramente. Cria-se uma
lend a n o local q u e no tal castelo encanta d o vivia
a Bela Adormecida . E, d e s d e e n t ã o , assi m ficou
s e n d o c h a m a d a . Muito s príncipes tentara m chega r
a o castelo, mas acabava m desistindo de atravessar
o espess o espinheiro . Alguns qu e insistiram acabara
m m or re n d o . Quand o o praz o estava para
acabar, surge u m príncip e q u e n ã o te m m e d o
de atravessar a cerca de espinhos . Na verdade , nã o
precisa fazer grande s esforços, ele é de certa forma
escolhido , pois a o chega r pert o d o espinheiro , este s e
abr e em flores e o deixa facilmente passar. Encontrand o a
beldad e q u e lhe tinha sid o predestinada , el e
fica subitament e apaixo nad o e a beija. Apó s o
beijo t o d o o rein o desperta , e eles se casa m e vivem
felizes até o fim de seu s dias.
O d e s e n h o d o s Estúdio s Disne y traz-no s
um a Bela Adormecid a já nu m viés romântico , poi s
a livra dessa passividad e absoluta . Aqui o s dois
ap ai x o na d o s se escolhe m ante s q u e ela sucumb a
ao feitiço. Nessa versão, ela fica escondida , ao s cuidado
s da s boa s fadas, num a caban a na floresta até os
15 ano s par a estar a salvo da s maldade s da
bruxa . Desd e o c o m e ç o , a malvada é uma
bruxa e n ã o um a fada - um a velha senhor a q u
e havia sid o p r u d e n t e m e n t e excluíd a d a festa,
pois dela nã o s e esperav a nad a d e bo m . Durant e se u
t e m p o d e es c o nd er ij o n a floresta , a pr in ce s a
encontra , po r acaso , o príncipe ; os doi s jovens,
se m sabe r q u e já estava m prometid o s entr e si
pela s sua s famílias, s e apaixonam . Q u a n d o vã o ter
d e cumpri r o desígni o d o s pais, j á s e apropriara m
d o desej o deles , e entã o o final é feliz, poi s t ud o
é conciliado .
Mas Disne y o p e r a a lg u m a s m u d a n ç a s
imp or • tantes: o e n r ed o ganh a are s de Rapunzel , poi s a
brux a trança a Bela Adormecid a n u m castel o
inacessível, os espinheiro s estã o a se u c o m a n d o ,
deparando-se com os criados adormecidos, surpreen•
didos pelo sono mortífero que os condenou
a só despertar junto com a princesa. Dessa forma,
um dragão que impede a passagem do príncipe. Agora o
não só a mulher espera imóvel, como seu mundo
príncipe não encontra um caminho livre, ele tem de vencer
aguarda um novo amo para voltar a girar. A
os espinheiros e matar o dragão, com uma espada
entrega da Bela Adormecida é completa,
mágica fornecida pelas fadas, para chegar à princesa e
nenhuma princesa oferece tanta passividade a um
desencantá-la junto com seu reino. Embora a salvação esteja
homem como ela.
na força e na determinação do homem que escolheu essa
Apreciamos os amados em geral dormindo, não
princesa, ela já o havia explicita• mente escolhido
há mãe que não tenha ataques de ternura ao ver seus
também. Esse desenho animado não exime os heróis dos
anjinhos adormecidos. É extremamente
desígnios do destino, de serem joguetes na luta do bem
sedutora a visão dos rostos corados, os lábios
contra o mal, mas se empenha em ressaltar sua
entreabertos, a respiração tranqüila dos seres
capacidade de determinação, tanto na escolha amorosa
entregues ao sono, sem controle sobre seus
dos jovens quanto na capacidade de luta do príncipe.
corpos, inconscientes da força dessa presença
apaixonada que os possui com os olhos. O filho
e o ser amado adormecidos são perfeitos, são
Uma passividade absoluta possessões inermes, desarmadas, à mercê da nossa
as princesas dos contos de fadas, a Bela idealização.
Adormecida é a mais passiva, a começar por seu No amor, a mulher parece se colocar sempre o
nome. Sua característica principal é a dilema de que será bela enquanto se fingir de morta.
beleza inerte, objeto de cuidado e de con• Ela própria tende a narrar, para si e para os
templação por parte da Corte e do seu príncipe, que vem a outros, uma situação amorosa dando ênfase no
conhecê-la no sono enfeitiçado. Ela compartilha dessa impacto que produziu no outro, no desejo que
sedução passiva com a Branca de Neve e com Tália, que suscitou, mais que daquele sentido por ela. Embora as
cativam seus príncipes nesse estado de mortas. A mulheres modernas possam incluir seu desejo no
Bela Adormecida tem como túmulo o seu paláci o relato do desenlace de
enfeitiçad o . o prí n ci p e ch eg a até ela

86
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

ama cena de amor, ou seja, dirã o se sentira m interess e


ou não, a movimentação d o s atore s tender á a q u e ela
seduza e ele conquist e . Me s m o q u e e ss e s
p a p é i s amorosos sucumbam a o grand e
q ue sti o na m e n t o q u e vêm sofrendo no s últimos
anos , a q u est ã o da pas • sividade e da atividade
conserv a sua atualidade .
A passividade n ã o se define pela ausênci a
de ação. Uma atitude silenciosa pod e se r
ex tr e m a m en t e ativa, basta, por exemplo , silenciar sobr e
algo em q u e o interlocutor deseja muito um a resposta,
para percebe r quanta atividad e p o d e h a v e r n u m
a a u s ê n c i a cie palavras ou atos. Se algué m diz ao
outr o q u e o am a e este se cala, gerand o do r e angústia no
primeiro , temo s uma s it ua ç ã o e m q u e a m b o s
fora m ativos . A passividade de p en d e d e qu e
algué m s e envolv a e m um evento sem se sentir
necessariament e sua causa . Ou seja, significa sofrer em
sua pesso a açõe s ou desejos que não antecipou , qu e
n ã o s u p ô s q u e p u d e s s e m ocorrer."' Nesse sentido.
Bela Adormecid a foi realment e passiva, ocupo u a
posiçã o paradigmátic a da femini• lidade tradicional,
aquel a que conduzi d a pel o pai é entregue no s
br aç o s d o m a r i d o n a c e r i m ô n i a d e casamento.
O simbolism o dess e gest o é c o m o o de um
objeto, qu e passa de m ã o em m ão , se m ter
um querer que defina sua trajetória.
Não há mulher qu e possa ou queira
plenament e se instalar nesse lugar passivo. Antes de
se deitar no esquife, cuidará dos detalhes do cenário,
aco mpa nhan d o com o canto do olh o cada moviment o do
príncipe. Mas essa história dá conta de um resto infantil qu
e se imiscui na gênese da sexualidade feminina: a
importância de ser desejada pelo pai. Não há melho r
resposta para o desejo de ser desejado qu e o fato de ser
escolhido q ua n d o nã o tínhamos intenção de seduzir. As
histórias de amo r mais românticas trazem seguidament e
relatos em q u e um a mulher é surpreendid a pel o
desej o d e u m h o m e m quando estava ocupad a co
m outra coisa, distraída em seu cotidiano nada sedutor.
Nada, então, confirmará mais que somos interessantes
para um outr o do qu e sermo s fisgados p el o
interess e d e s t e a n t e s q u e q u a l q u e r reciprocidade
se esboçasse. Assim, um a menin a gostaria de perceber o
impacto de seus encanto s sobre o pai sem que tivesse de
passar pel o constrangimento de seduzi- lo, ou de entrar
em qualque r disputa co m a bruxa da sua mãe. Dessa
forma, a passividade passa a fazer parte da cena
erótica humana , mais enquant o um a fantasia qu e
uma posição propriamen t e dita. É també m
en q ua n t o fantasia qu e a passividade assumiu lugar
privilegiado na erótica feminina, traduzindo-se n u m
intenso desejo de ser desejada, arrebatada e possuída se
m ter de fazer nada para provocar a cena.
87
Existe um a passage m q u e p o d e da r um
a idéia d o q u an t o ess a passividad e te m d e
ativa. Num a da s v e r s õ e s d o s i r m ã o s Gri mm ,
a Bela A d o r m e c i d a é cham ad a d e Rosa da s
Urzes, e m referência à s flores d o e s pe s s o
espinheiro . Tant o n o s Grim m q u a n t o e m
Perrault, ess e espinheir o impedi a a passage m de
muitos interessados , ma s q u a n d o chego u o
escolhido , ele s e abr e c o m facilidade. Aquil o
q u e espinhar a tanto s e q u e impedi a o acess o à
princesa , agor a se ach a abert o c o m o um corredor .
É difícil n ã o pensa r tais espinho s c o m o um a
proteçã o d a princes a q u e s e escondi a a o t oqu e
e ao olhar, as descriçõe s enfatizam q u e a cerca
cobria t o d o o castelo. Ou seja. só q u a n d o ela
quiser, o c a mi n h o estará franquead o par a q u e o
outr o o faça ativamente. Portanto , é ativa na
decisã o de abrir o flanco, deixar-se penetrar .
C o m o existe m tanta s histórias q u e alertam
sobr e o s perigo s oriundo s do s podere s
e x e r c i d o s pela s m u l h e r e s , q u e alia m su a
força à sabedori a e à s frustraçõe s d a
maturi dade , nã o s u r p r e e n d e q u e o s príncipe s
fiquem seduzido s po r aquela s q u e sã o bela s e
estã o inativas, indefesas. Veremos adiant e o
q ua n t o Cinderel a é diferent e dessa s princesas . Ela
luta par a ir ao baile, invoca co m seu sofrimento
o feitiço q u e a embeleza , e n c o m e n d a o
vestido, assim co m o entra e sai de cen a mostrand o
q u e a se d u çã o é feita de revelar e ocultar
alternadament e .

O sangue necessário
reviravolta da história é feita, c o m o é c o m u
m ness e tipo de relato, po r alguma
transgressão: a Bela Adorm ecid a se pica
p or q u e nã o devia
toca r o fuso. For mai s q u e a proibiçã o
tenh a tid o o objetivo de protegê-la, assim c o m o a
impost a à Branca de Neve, de n ã o abrir a porta
par a estranhos , trata-se d e algum a forma d e
um a o r d e m q u e n ã o é o b ed e ci d a . F.ssas
moci nha s s e s u b m et e m a o perig o porqu e sã o
desobedientes . Elas fazem o qu e nã o devem , ma s um a
maldiçã o anterior é a orige m da interdição, e é
niss o qu e devemo s no s centra r par a
deslinda r a história. A maldição prescrev e algo
q u e o futuro n ã o poder á evitar, c o m o crescer,
ama r e partir.
Um a fada, um a brux a o u ge n er ic a m en t
e um a mulhe r má, n ã o q u e r q u e a princes a
viva mai s d e q ui n z e anos . A o completa r ess a idade
, espetar á o d e d o e m um a roca, sangrar á e
morrerá . Aqui, ma s d e um a forma be m
disfarçada, a história s e aproxim a d a d e Branc
a d e Neve . É u m a substituta malévol a d a
mãe , m o v i d a pel a força d o ó d i o p o r n ã o
te r u m luga r
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s História s Infanti s

reconhecid o , po r ter sid o esquecida , q u e rogar á


88
um a prag a contra a transformaçã o de Bela
Adormecid a em mulher .
N a époc a e m q u e esse s co nt o s faziam part e
d a tradiçã o oral, acreditava-s e mais na eficácia
mágic a da s palavras . Rogar um a prag a er a
r e a l m e n t e u m perig o e , cas o algué m proferiss e
u m a maldição , o objet o da ofens a estav a
fat id ic a m e n t e expost o e necessitav a d e u m
contr a feitiço. Nós no s afastamos d e s s e
funcionamento , ma s seguimo s acreditand o
inconscie nte men t e q u e , s e algué m no s q u e r mal,
isso p o d e , de algum a maneira , no s afetar. As
praga s e o m a u- ol h a d o aind a fazem a s sua s vítimas.
Vind o e n tã o de um a fada, os pais de Bela
Ad orm ecid a ti n h a m todo s o s motivo s para s e
alarma r co m a maldição .
A roca era um objet o ab s ol ut a m en t e indispensá •
vel d o cotidian o da s mulhere s ; de p oi s d e
cozinhar , tece r era a o c u p a ç ã o feminina po r
excelência . Vários sã o o s conto s e m q u e at é
m e s m o o s reis escol he m p o r esposa s boa s
fiandeiras.1 A s m ul h er e s fora m a s primeiras
artesãs, inicialmente da cerâmic a e d e p o i s d a
tecelagem ; do mina r ess e ofício era própri o d a con •
diçã o feminina. O fato é q u e o rei n ã o que r sabe
r de nad a q u e tenh a a ver co m fiação e tent a
protege r su a filha d o inevitável, q u e i m a n d o toda s a s
roca s d o reino . Mas o destin o nesse s c o nt o s
s e m p r e confirm a sua força: um a única roca
esquecid a num a remo t a torr e qu al q u e r é
suficiente, a menin a a encontr a e, mara • vilhada,
aproxima-s e d o fuso, c u m p ri nd o -s e a pre • visão .
A princes a cai n u m s o n o profun do .
Ante s de tudo , est e é um cont o
sobr e a inexorabilidad e d o destino . Existe um a
fatalidade q u e vai acontece r sejam quai s forem a s
p r e c a u ç õ e s toma • das . Mas, ante s d e pensa r e m
pessimism o fatalista, c o n v é m conjectura r a respeit
o do q u e é m e s m o o inevitável. É inevitável
sangrar . Ser mulhe r é con • viver co m
sangrament o s incontornávei s : o primeir o é a
menarca , seguid a da s regras mensais ; e o segundo , par a
as q u e co meça m a ter vida sexual , é o decorrent e d o
ro m p i m en t o d o hímen . O at o d e s e s p e r a d o d o s
pais d a Bela Adormecid a p o d e ser visto c o m o
um a tentativa d e evitar a menarca , o u melhor ,
t o d o ess e derra ma ment o d e sangu e qu e lhes arrebatar á
a criança e fará dela um a mulher . A menarc a
marca , design a o fim de um a era o n d e a mã e é
a mai s bel a entr e as mulheres , e o pai é soberan o
no coraçã o da filha, nã o h á pais qu e abra m m ã o dessa
admiraçã o d e b o m grado . A mulhe r qu e surg e dessa s
gota s d e sangu e dedicar á seu s encanto s a o príncip e
q u e virá arrancá-la d e dentr o d o rein o d o pai.
As gotas de sangu e derramada s na roca dão início ao
efeito de um feitiço qu e represent a a irreversibilidade da s
transformaçõe s própria s da puberdade . Não se
determin a o cresciment o do s seios, do s pêlo s pubianos, o
início da s regras . Rebelde s ao livre-arbítrio, eles
escolhe m a hora e a forma de se instalar no corpo da
menina . Ela poderá , no futuro, usar esses atributos para
sedução , ma s esse m o m e nt o nã o cheg a junto. No início, essas
novidade s sã o secretas e incômoda s possessões p o d e m
ser vividas c o m o certa maldição.1 8
Con vé m lembra r q u e a bo a rainh a q u e concebe
Branca de Nev e o faz a partir da contemplaç ã o
de trê s gota s d e sa n g u e de r r a m a d a s n a nev e
quando pico u o d e d o c o m uni a agulh a de costura .
A jovem m ulhe r q u e deva nei a co m u m b e b ê , q u e
u m dia a fará feliz, é a co nti n ua ç ã o dess a história
da menina q u e cresc e e , á s custa s d e s an g u e , s e
torn a mulher. Afinal, haver á r e c o m p e n s a s p e l o s a ngu e
derramado: o príncip e e o filho s o n h a d o .
O ut r o viés interpretati v o p o d e se r t o m a d o : se a
q ue st ã o é evitar o cresciment o e a sexualidade , que
lugar é ess e o n d e n ã o se p o d e coloca r o dedo ?
Essa proibiçã o p o d e evoca r outra , b e m similar, dess a
vez dirigida á atividad e de coloca r o d e d o n u m
lugar proibido , a mastur b ação . Afinal, ess a é u m a
prática q u e a levará a pens a r em coisa s b e m long e do
s pais, isolando-s e e m busc a d e prazere s q u e o s
transcen• de m . D es d e Tália, é s e m p r e o d e d o , alg o
q u e não d e v e toca r o u se r t o c a d o s o b p e n a d e
paralisar a heroína . Por isso, é b e m possíve l q u e ess
e d e d o seja o m e s m o utilizad o par a a e x p l o r a ç ã o
sexua l pelas meni nas . A roca aqui volta a ser um sign o
mais amplo, é t a m b é m um a atividad e solitária, ma nu al ,
q u e impri• me na má q u in a um a certa agitaçã o
rítmica, o que p o d e t a m b é m sugeri r u m paralel o
simbólic o co m a atividad e masturbatória .

A morte necessária
o s ritos d e passagem , e m várias tradições,
existe um a repetiçã o facilmente constatável: a
passage m da existência anterior par a a que
se terá pós-ritual. A vida depoi s do rito
de p a s s a g e m é s e p a r a d a d a a nt er i o r p o r u m a
mort e simbólica e, nã o em pouca s tradições, os
neófitos até g an h a m u m nov o nome , poi s s e trata
m e s m o d e uma nov a existência . Com o sã o
so ci e da d e s c o m m e n o s degrau s etários qu e a nossa, morr e
a criança para emergir o adulto, se m fases intermediárias.
O q u e enten de mo s
D i a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o
desperta m

por adolescência, num a sociedad e ritualizada, p o d e


se resumir a uma noite na floresta, a alguma mutilação ou
prova que se tenha de cumprir. Q u a n d o existe um ritual,
não há nuances, o antes e o depoi s nã o deixa m lugar a
dúvidas. Antes da cerimônia o sujeito era criança, depoi s é
adulto e ponto, vai respo nde r pelo s seu s atos
de outra maneira, vai ter outr o estatuto social e sexual,
vai estar pronto para o qu e que r qu e seja
considerad a a vida adulta.
A partir da sociedad e moderna , ficou estabelecid o
que, entre a infância e a vida adulta, haverá o períod o
cada vez mais prolonga d o da adolescência . Essa é
a época de um grand e sono , em que os sujeitos
estã o vivos, mas ausentes do m u n d o ao qual
pertenciam , sendo que ainda nã o despertara m no
temp o qu e será seu próprio futuro. Esses belo s
adormecido s provavel• mente têm contribuído para a
preservaçã o da s histórias de princesas adormecidas, já qu e
elas segue m existindo, agora com novo s significados .
Atual me nte , a a d o • lescência é a época de ser o qu e
todo s cobiçam: jovem, belo e com todas as
possibilidade s em aberto . Para nossa sociedade, o
jovem parec e ter o m u n d o a seu s pés." Mesmo
assim, é válida a metáfora de tal períod o como um
sono. O adolescent e parec e ador mecid o para o mundo
dos adultos, ma s ele n ã o está nad a parado : em seu
retiro, seja o quarto, o grup o ou o hobby , pra• ticará
frenética e entusiasticamente qualque r coisa qu e o
engate, se entregará ao amo r co m o nunca , dedicará a
seus amigo s mai s t e m p o d o q u e n u n c a ,
o d i a r á ferozmente a todo s os q u e del e discordam.
Portanto, fica estranho dizer qu e essas criaturas
dor me m .
O longo s o n o da Bela Adormecida , ess e
retiro da vida pública, garante q u e ela de algum a forma
morra para sua família e renasç a par a o exercício
da sexua • lidade, num temp o diferente d a q ue l e
vivido po r seu s pais. É interessant e le m b r a r q u
e a s d u a s v e r s õ e s clássicas, de Perrault e do s irmão
s Grimm , apresenta m diferenças importante s relativas
a ess e tem a da mort e e do renascimento.
Na narrativa de Perrault, a jove m é deixad a
em seu adormecid o castelo em com pan hi a da
criadagem , enquanto seu s pais, tristes pel a perda ,
parte m par a viver seu tempo , cuida r da vida e do
reino . Q u a n d o ela desperta, a époc a é outra, seu s
pais n ã o existe m mais, o rei do lugar m u d o u e n ã o
pertenc e à sua família. A história prossegu e alé m do
desperta r da princesa : ela casa co m se u príncip e
e te m doi s filhos, ficando essa relação po r doi s
an o s na clandestinidade .
Escrita mais d e u m sécul o depois , a versã o
d o s irmãos Grimm, q u e foi utilizada pelo s Estúdios
Disney, conta qu e os pais a d o r m e c e m c o m a filha e
Outror a o desperta r

c o m ela par a o c as a m e nt o e a felicidade 89


eterna . A história d e Perrault d á mais es p a ç o para
interpretaçõe s e seria interessant e p e ns a r p o r
q u e p e r m a n e c e u a versã o resumida .
A tendênci a natural é qu e pais e
filhos vivam t e m p o s diferentes . O s filhos
nunc a c o m p r e e n d e r ã o c o m o er a o a m b i e n t e
q u e a bri g o u a infância e a adolescênci a do s
pais; e estes, po r sua vez, em muito s caso s p o u c o
saberã o d o t e m p o d e maturidad e d o s filhos,
afetado s pela s limitações da velhice ou varridos d e
sua s vidas pela morte . C o m o n a história d e Perrault,
n ã o há concomitânci a na vida de pais e
filhos, há alternância, substituição. De alguma
forma, pais e filhos s e perde m mutuamente ,
habita m t e m p o s distintos . Q u a n d o un s acordam ,
outro s já partiram. Normalmente , o filh o l e m b r a
d o qu e g o s t a ri a d e te r di t o , o u
pe r gu nt a d o ao s pais, a pe n a s depoi s q u e este s
j á s e foram . A c o m u n i c a ç ã o entr e pai s e
filhos s e m p r e p a de c e dess e d e se n co nt r o
temporal .
Além disso, é ilusório pensa r q u e os pais
entre • ga m d e b o m gra d o se u filho â vida
amorosa , abrind o m ã o d a q ue l e q u e nasce u c o m
o seu objet o d e desejo. As aned ota s sobr e os
sogros , principalment e sobr e a sogra, sã o
esclarecedoras . Uma vez assumid a publica• me nt e
um a relação , aind a h á q u e separa r o consort e
d e seu s pais, e m geral d e forma traumática.
A p e r e n i d a d e da versã o resumida , na
qua l os pais despert a m co m a filha, nã o
ficando claro q u e o t e m p o d e maturidad e do s
jovens coincid e co m o d e declíni o do s mais
velhos , diz respeit o à instalação d o
envelhe cim en t o c o m o u m tema tabu . O
perm ane nt e elogi o do s encanto s d a
adolescê nci a n a so ci e da d e c o nt e m p or ân e a ( q u e
preservo u a versã o do s irmãos Grimm ) torna-
no s u m coletiv o se d en t o d e águ a d a fonte
da juventude . Face ao declíni o da fé na
vida etern a e á valorizaçã o da vida de cad a
indivíduo , o praz o de um a existência se revela
curt o para atingir a felicidade e o sucess o
necessários . Não há ser h u m a n o q u e n ã o queira
prorrogação .
Fechar a port a do castelo e pensa r q u e
os pais n ã o estarã o mais lá po r ocasiã o do
desperta r da filha é um a cen a insuportável para os
conte mp orâne o s . Hoje q u e r e m o s viver toda s as
fases co m o maio r grau de juve ntud e possível ,
leia-se, co m isso, co m o maio r gra u d e
distância d a mort e possível . Para o s filhos
t a m b é m é assustador a a idéia de acorda r q u a n d o
seu s pai s j á morreram , é m e lh o r cre r q u e
ele s seguirã o pr o te ge n d o p o r praz o indefinido .
O s estudo s d e história social tê m no s
oferecid o t e ste m u n h o s d e u m cresciment o d a
importânci a d a família nuclea r par a os indivíduos .
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s H is tó ri a s Infanti s
do s pais na maturidad e contribua m para minimizar
essa
junto co m a criadage m do castelo, garantind o se u lugar
social, era um a referência identitária suficiente,
hoje n ã o h á lugar social garantid o par a ninguém , 90
todo s o s referenciais d e identidad e sã o relativos e
p o u c o durá • veis. Nesse contexto , a importânci a
do s familiares na condiçã o d e testemunhas ,
capaze s d e reconh ece r o indivídu o c o m o s e n d o
ele m es m o , apesa r d e sua s transformações, é
necessária. Os pais deve m sobreviver à transformação
da criança em adulto . Isso, porém , nã o invalida
qu e algum tipo d e mort e simbólica ocorr a nessa
transição.

O sono necessário
c o n t o , n a v e r s ã o d e Perrault , t e m
d o i s m o mento s d e adormeciment o , d e
latência. O primeiro dele s é o s o n o da
Bela, q u a n d o
ce m ano s a separa m da criança q u e foi
um dia. O segund o é o períod o de doi s ano s
em q u e a jovem e seu príncipe mantê m o casament o
em segredo . O fato de a relação ficar abrigada, oculta
no castelo já desperto , mas ador mecid o par a o
m u n d o , estend e a ela os benefícios do sono . A
moç a acordo u par a o amo r e para o sexo , mas para
o m u n d o é c o m o se ela ainda dormisse , pois ningué m
sab e deles , representan • d o u m s e gu n d o tipo d e
latência.
O primeir o períod o d e ce m ano s d e
adormeci • m ent o é a part e essencial dess e conto
, q u e n ã o se p e r d e e m nenhu m a versão .
Esse sécul o d e s o n o simboliza aquel e
distanciament o q u e separ a e m doi s te m p o s a
vida de pais e filhos. Em sua separação ,
imposta pel o crescimento , é inevitável a mort e do qu
e fomos un s para os outros .
Q u a n d o s e é adulto , o s pais p o d e m ser
acolhe - dores , n a melho r da s hipóteses , ma s j á
n ã o p o d e m vence r a s batalha s pelo s filhos c o m o
faziam q u a n d o eles era m p e q u e n o s . Ao filho cab e
enterra r a grandez a e o h e r o í s m o q u e , q u a n d o
criança , supunh a n o s progenitores . O s filhos
p o d e m até aind a freqüentar o s pais, ma s possue m u m
m u n d o próprio , q u e transcend e d e tal maneir a a
família d e origem , q u e este s n ã o c o ns e gu e m
c o m p r e e n d e r tod a a dim ensã o d o q u e s e passa na
vida do s mais jovens. As vivências em c o m u m
escasseiam-se , m u d a m n o filho o s referenciais
co m q u e ele interpreta o m u n d o . Muitas d e sua s
cond uta s e crença s serã o pautada s po r identificações e
experiên • cias colhida s e ocorrida s fora da vida
familiar.
É possível qu e um clima de amizad e e a vivacidade
distância, ma s de algum a forma ela aparecerá . A grande exceçã o
para esse afastamento ocorr e q u a n d o há netos pe q ue n o s , q u a n d
o o compartilhament o do s cuidados c o m eles , assi m c o m
o a c o n s t a n t e e v o c a ç ã o da s lembranças infantis, produ z
um a renovada familiaridade, Porém , mais uma vez, é po r
um período . Por mais amoros o qu e seja um vínculo
familiar, q u a n d o o filho começ a a amar, se instala um
estranhament o com seus pais. Q u a n d o isso ocorre, os
pais n ã o se reconhecem mais no s filhos e, nã o raro. acusa m
o parceiro amoroso dest e pelas modificações. Temo s aqui a
morte do filho c o m o p o s s e s s ã o , já q u e n ã o é mai s
u m a criatura totalment e concernid a ao s seu s pais. Co
m o tempo, um mur o nã o de espinhos , mas de
diferenças, se erige entr e as gerações , qu e p o d e ser
co m p e ns a d o com a
permanênci a d e u m afeto mútuo , o u não.2 0
Do lad o do jovem, o r o m pi m e n t o co m a família é
vivido c o m o um a forma de exílio. Um exilado é
algué m q u e vive em outr o lugar po r ter sid o de alguma forma
expulso , banido , da sua terra de origem. Ele po d e ter
en c on tr a d o abrig o no mais bel o e confortável paraís o terreno ,
ma s será inevitavelment e abatid o por um a sauda de ,
resultant e d e sua saída aparentemente involuntária .
O e s pa ç o geográfico q u e se habita na adoles•
cência é típico de um exilado : um lugar q u e sé) existe
p or q u e é fora de outro . J o ve n s encontram-s e na rua,
em lugares públicos , na s casas q u a n d o os adulto s estão
ausentes , enfim, nu m lugar e te m p o q u e n ã o sã o reinos de
ninguém . Assim o jovem providenci a um a forma de
n ã o ser visto. Q u e m n ã o é visto n ã o é interrogado, n ã o é
cobrado , nã o é controlado . Esconder-s e assim é um a da s
formas de passa r dormindo po r ess e período. Para efeitos
d a s oci e da d e , t a m b é m sã o belos
adormecidos , já q u e se trata de sujeitos crescidos, mas qu e
nã o fazem muito além de se prepara r para a vida q u e
está po r vir. E um a fase de ensaio, de treinamento, de
simulação.2 1 Essa latência (o u exílio) social, espécie de
depressã o normal qu e ocorr e nessa época , é causada
justamente po r tud o o qu e os espera . Do lad o de fora
dess e castelo adolescente , a vida adulta espreita como
um a matilha de lobo s famintos, pront a par a cair sobre os
jovens. Esse desafio inclui as decisõe s vocacionais, o
trabalho, as opçróes amorosa s e a parentalidade .
H á u m potencia l d e desperdíc i o d e t e m p o nos
jovens , um a inutilidade necessária , um a abstinência da
s grande s tarefas d a vida, traduzível po r u m sono q u
e p a r e c e e te rn o . Diant e d e t u d o isso, é preciso
dormir, par a postergar, par a esquecer , par a repousar,
par a s e esconder .
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
para um

Notas
1. BASILE, Giambattista. 'lhe Pentamerone,
traduzido por N. Penzer. A íntegra deste conto pod
e ser lida em wwAv.surlalunefairytales.com. de autoria
de Heidi Anne Heiner, disponível desde 1998.
2. As fadas, tanto estas, quanto as convidadas ao batizado
de Bela Adormecida, nào devem ser compreendidas
como as entendemo s hoje, com o seres
mágicos femininos benévolos. No folclore europeu
"fada" é um nome genérico para inúmeros seres
feéricos, nào necessariamente femininos,
intermediários entre os seres reais e os espíritos.
Podem estar nesse conjunto, por exemplo, os elfos, os
brounies, os duendes. Enfim é uma palavra pouco
precisa e não descreve o caráter desses seres, que
parecem tão suscetíveis em seus humores como
são os humanos. Ora se apresentam como amigos e
doadores, ora pode m roubar, raptar e amaldiçoar.
3. GRIMiVl, Jacob & Wilhelm. Contos cie fadas,
bel o
Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
4. Aries nos ilustra esta questão da idade de 7
anos como a do fim da infância, no capítulo
denominado Do despudor à inocência: "A partir
de 1608, esse gênero de brincadeira (jogos eróticos
com suas amas) desaparece: o Delfim se tornara
um homenzinho - atingindo a idade fatídica de 7
anos - e era preciso ensinar-lhe modos e linguagem
decentes". In: ARIES, Philippe. História Social da
Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1981, p. 127.
5. A beleza da madrasta assemelha-se à do herói
do clássico literário O Retrato de Dorian Gray, de
Oscar Wilde. Nesta história, um rapaz realiza uma
espécie de pacto com o diabo para permanece
r jovem e belo. Graças a isso, um quadro , que
o retratara no auge do viço juvenil, envelhece
em seu lugar. O retrato nào só envelhece, com o
também representa a feiúra de sua alma,
tomada pel o egoísm o e a maldade. Dorian
continua sempr e aparentement e igual, sua
imagem fica congelada naquele instante juvenil,
mas, enquant o isso, seu espírito passa a ser retratado
na pintura e revela em seus traços toda a sua
miséria interior. A madrasta tem esse tipo de
beleza. Que m paga qualquer preç o para
continuar belo e jovem, diria Wilde, não amadurece,
apodrece.
6. Este olhar patern o será mais analisado no
Capítulo
VI, O Pai Incestuoso.
7. Nas fantasias infantis, be m com o em crenças
de vários povos, a ingestão do inimigo serviria
para apropriar-se de suas qualidades. Assim,
1987, p . 148.

antropófago tupinambá, comer um valente


guerreiro inimigo era o reconhecimento de sua
bravura e força, assim com o a vontade de
91
incorporar essas virtudes. Existia a crença qu e
os leprosos comiam o fígado de crianças
para restaurar o seu, pretensamente ,
danificado órgão. Enfim, devorar seria
desejar as qualidades, a madrasta queria era
incorporar essa reconhecida beleza da
princesa.
8. E interessante lembrar qu e essa boa reputação
tenha persistido inclusive em nossos tempos
ecológicos, ond e os caçadores são sempre
(justamente) vistos com o maus, destruidores das
indefesas criaturas da natureza. O caçador com o
herói é um dinossauro, sobrevivente de um
imaginário antigo, já que hoje a civilização é a
grande madrasta, enquant o a natureza encarn a a
profanad a virgem, po r isso toda s as
simpatias das novas gerações estão com a caça.
9. Bettelheim nos faz notar que o espelho mágico
parece às vezes falar com a voz da filha, ou seja,
fala deste momento em que a menina acredita que
sua mãe é a mais bela das mulheres. In
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de
Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, p.
246.
10. Esta nã o é. de forma alguma, a explicação
universal para a homossexualidade feminina.
Nesse caso, é apena s a solução para um
impasse, proveniente de uma identificação,
através de um mod o de amar.
11. Consideramos a casa dos anões como um
refúgio transitório e tolerante, onde se gesta o
crescimento da heroína. Por isso,
discordamos da crítica que Bettelheim dirige
ao desenh o animado, ond e diz
(trata-se de uma nota): "Os anões simbolizam
uma forma de existência imatura e pré-
individual qu e Branca de Neve deve transcender.
Por isso. o fato de dar nom e próprio e uma
personalidade individual a cada um - como
fez. Walt Disney no seu filme -, q u a n d o n o
cont o d e fadas todo s são idênticos,
interfere seriamente na compreensã o
inconsciente desse simbolismo: esses aspectos
prejudiciais aos contos de fadas, qu e
aparentemente aumentam o interesse humano,
pode m na verdade destruí-los, pois tornam difícil
captar o significado profundo e correto da
história". In: BETTELHEIM, Bruno. A
Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de
Janeiro: Paz e Terra,
1980. p . 249.
12. FREUD, Sigmund. Novas Conferências
Introdutórias sobre Psicanálise. Conferência
XXXIII: Feminilidade. Obras Completas, vol.
XXII, Rio de Janeiro: Imago,
Fada s n o D i v a - P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

13- BASILE, Giambattista. Sol, Lua e Tália. Esta história 18. Nas sociedade primitivas, as regras
pod e ser encontrada , inclusive acrescentad a determinavam um período de impureza para a mulher,
d o original em dialeto napolitano, no livro A havia objetos e pessoas qu e ela nã o podia
Princesa que Dormia - Nas Versões dos Irmãos tocar, atividades que nã o devi a fazer. Co m o
Grimm, De Charles Perrauli e de Giambattista passa r do s tempos , a menstruaçã o perde u
Basile. Florianó• polis: Editora Paraula, 1996. seu caráter social, a mulher nã o se retira para
14. PERRAULT. Contos de Perrault. Belo uma cabana na floresta esperando qu e passe, ela
Horizonte : Editora Itatiaia, 1989. a sente com o algo seu e pessoal, algo
15. GRIMM, Jaco b & Wilhem. Contos de Grimm. privado. Sendo qu e hoje resta apena s a TPM,
Belo nesta fronteira entre o fisiológico e o mítico,
Horizonte: Villa Rica, 1994. para lembra r q u e a mulhe r se encontr a
16. Essa compreensã o da atitude passiva se dedu z em estado delicado.
da obra freudiana, particularmente no qu e 19. "Os adultos querem ser adolescentes. Os adolescen•
tange ao tema da sedução, mas uma boa tes ideais têm corpo s qu e reconh ece mo s
sistematização dessa q u e s t ã o , tal qua l como parecidos com os nossos em suas
form ula mo s aqui , p o d e se r e nc o ntr a d a e m formas e seus gozos , prazere s iguais ao s
Je a n Laplanche . Conform e el e nosso s e, ao mesmo tempo , graças ã mágica
(citando Spinoza), "somos passivos quand o se da infância estendida até eles. são ou
faz em nós alguma coisa da qual somos a causa apena deveriam ser felizes numa hipotética suspensã o
s parcialmente". Com o exemplo , este autor das obrigações, das dificuldades e das
cita a diferença entre .ser amamentado, mamar responsabilidades da vida adulta. Eles são
e dar de mamar. Na conjugação passiva de adultos em férias, sem lei. (...) A adolescência torna-
ser amamentado se assim um ideal do s adultos". In: CALLIGARIS,
(diferentemente das posições ativas cie Contardo. A Adolescência. São Paulo: Publifolha,
mamar e dar de mamar), se expressa de tal 2000. p. 69.
forma qu e "faz- se em nós alguma coisa, da 20. Voltaremos a esse tema da relação dos jovens casais
qual somos a causa apena s parcialmente e da com as respectivas famílias e com a
qual buscamo s tornar- nos causa adequada". In: sociedade no Capítulo X.
LAPLANCHE, Jean . Teoria da Sedução
21. Calligaris descrev e a adolescênci a enqua nt o
Generalizada. Port o Alegre: Artes Médicas,
um período de moratória (termo utilizado
1988, p. 90.
originalmente por Erik Erikson) no.s seguintes termos:
17. LévkStrauss nos conta que entre os indígenas norte- "Ele se torna adolescent e quando , apesar de
americanos havia uma correlação entre boa seu corp o e seu espírito estarem prontos para
tecelã e mulher quent e na cama, que m sabe esta a competição, não é reconhecido como adulto.
ligação não pod e ser lembrada nos contos de Aprende que, por volta de mais dez anos,
fada. Afinal, é extraordinário qu e reis busque m boas ficará sob a tutela dos adultos, preparando-se
tecelãs para rainhas. A equivalência entre mitologias para o sexo. o amor e o trabalho, sem produzir,
tão distantes sempre se revela problemática e algo ganhar ou amar; ou entã o produzindo,
arbitrária, mas neste caso acreditamos qu e há ganhand o e amando , só qu e marginalmente".
um paralelo. Ver: LÉVI-STRAUSS, Claude. A In: CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. São
Oleira Ciumenta. São Paulo: Editora Brasiliense, Paulo: Publifolha, 2000, p. 15.
1986.
92
Capítulo VI
O PAI INCESTUOSO

Bicho Peludo, Pele-de-Asno, A Ursa e Capa-de-Junco


A importância do desejo paterno para o amadurecimento sexual da menina
Complexo de Édipo feminino - Construção da sedução feminina -
Restos maternos no amor adulto.

Mas se tudo andasse às mil maravilhas,


O drama em comum
não haveria história para contar, então a rainha
xistem duas histórias adoece. Todos os médicos do reino são
muito semelhantes, Bicho chamados , mas ninguém consegue curá-la e fica
Peludo. nos irmãos Grimm, e claro que a rainha vai morrer em breve. Já no leito
Pele-de-Asno, em Perrault, de morte, com muito esforço, a rainha chama o rei e
provavelmente oriundas de lhe dirige um último pedido: que ele não torne a
fontes anteriores co mu n s . casar-se senão com uma mulher tão linda e virtuosa
Uma desta s qu e contribuiu quanto ela. Uma vez que o rei, cego de amor e de
para a popularização de tais dor, aceita o pedido e jura não vir a tomar outra
narrativas é certamente A Ursa, esposa que não seja melhor do que ela, a rainha fecha
de Giambatistta Basile. os olhos e morre em paz.
Embora seu desfecho se distancie das demais, Evidentemente esse pedido é uma cilada,
razão pela qual trabalharemos esse conto em pois tanto Perrault quanto os irmãos Grimm comentam
separado, o começo é praticamente igual nas três que o verdadeir o objetivo da moribun d a é
histórias: num reino idílico, um rei bem quisto pelo seu nã o ser substituída. Se não tivesse absoluta
povo desposou uma rainha linda e sábia e tudo corre confiança em ser insuperável em seus atributos,
muito bem. A felicidade não pára por aqui, dessa não teria solicitado o juramento do marido.
união resulta uma filha, que é tão bonita e cheia de O que se segue é previsível: o melancólico
predicados como a mãe. rei sofre muito e não aceita as pressões da Corte por
uma
Fada s n o Di v a - P s i c a n á l i s e n a s História s Infa nti s
fuligem no rosto e nas mãos , t o m a n d o um aspect o
feio e repulsivo.
nov a rainha e po r mais filhos par a assegura r o destin o
d o reino . N a tentativa d e dissuadi r seu s
conselheiros , o rei comunic a a promess a q u e
fizera e anunci a q u e só tornará a casar-se co m um a
mulhe r aind a mais bela e virtuosa do q u e fora a esposa .
Seu s súdito s esforçam- s e po r encontra r um a nova
rainha, mas n ã o localizam ningué m em q u e m ele
veja tais qualidades .
Co m o passa r d o tempo , poi s s ó o te m p o aplac a
o luto, o rei faz um a descoberta : a única pesso a
q u e parec e estar à altura da falecida é sua filha,
afinal ela é tã o bela e virtuosa q u a n t o fora a
mãe , t e n d o seu s encanto s acrescido s pel o frescor
d a juventude . Num a atitude q u e assombr a a todo s d o
rein o e especialment e á princesa, o rei revela sua
deter minaç ã o de casar-se co m a própria filha c
imediatament e ped e sua m ã o . Apavorad a e
horrorizad a co m semelha nt e proposta , a princesa
pens a e m c o m o sair dess a enrascada . Ela, a o
contrário do rei. se dá conta da transgressã o incestuos a
q u e seria cometid a cas o a uniã o s e consu mas se .

Bicho Peludo
(SÉJJ^S qui a s versõe s d a história g a n h a m c o n to r n o s
W WS c lif t , r e n tes . Km Bicho Peludo,1 a versã
o do s fijLJf§j!l irmão s Grimm , o cabel o d o u r a d o é
um d o s r e q u i si t o s i m p o r t a n t e s q u e m ã e e
filha
possue m em co mu m , e ess e fetiche era exigid o par a a
substituiçã o d a falecida, alé m da s outra s virtudes .
Nu m e str at a ge m a q u e visa g a n h a r t e m p o
, a princesa - q u e depoi s ve m a ser Bicho Pelud o
— n ã o recusa diretament e a propost a incestuosa ,
ma s tent a evita r o de sa str e , p e d i n d o a o pa i
com o p r e s e n t e vestido s de sl u m b ra nt e s e
impossíveis : u m d o u r a d o c o m o o sol, outr o
pratead o c o m o a lua e o terceiro brilhante com o a
s estrelas. Além disso, que r u m mant o leito d e mil pele s
d e animai s diferentes, "cada espéci e d o teu rein o tem
q u e da r u m p e d a ç o d a su a pel e para tal fim". A
princesa pens a que , co m esse s pe di d o s
impossíveis, o rei vai recua r de su a investida. Mas el
e nã o pens a assim e, se m pestanejar, vai
realizand o os capricho s dela um a um, co m a
press a de q u e m te m u m desejo preme nt e a
satisfazer. Q u a n d o finalmente todo s txs mimo s foram
concedido s , o pai decreto u q u e a bod a seria no dia
seguinte .
Para a princesa , só resta e nt ã o fugir. Para isso, se
ocult a s o b o m a n t o d e pele s q u e g a n h o u ,
da í s e originand o o n o m e q u e d á titulo a o conto ; leva
consig o o s três vestidos deslumbrante s (guardado s nu m a
casca de coco ) e alguma s jóias; e aind a pass a
A jove m acab a s e n d o encontrad a p o r caçadores d e
u m outr o rei q u e a descobre m entocada , dormindo no o c o
de um a árvore , e acredita m tratar-se de um e s t r a n h o
anim al . Q u a n d o c o nst at a m q u e era uma mulher,
po r comiseração , o monarc a faz co m qu e ela seja levad a
ao paláci o par a ajudar na s tarefas mais sujas e
pesadas .
Bicho Pelud o te m e nt ã o seu s dia s d e Cinderela, é
obrigad a a fazer as tarefas mais degradadas , vive
c o m o um a serva em outra Corte. Até q u e certo
dia acontec e u m baile n o palácio , e Bich o Pelud o
pede par a ir espia r a festa. O cozinheiro , se u chefe, consente
q u e ela d ê um a espiada , ma s q u e volt e log o
para termina r de limpar a cozinha . Ciente de q u e tem pouco
te m p o , ela ag e rápido : p õ e o vestid o dotirad o como o sol,
tira a fuligem e vai par a o baile. Q u a n d o chega, pass
a a ser o centr o da festa, e todo s pensa m que
algué m tã o deslumbrant e só p o d e ser filha de um rei. O
rei dess e paláci o foi ao se u e n co nt r o e só dançou co
m ela, mas , terminad a a dança , ela desaparece u tão
espetacularmen t e c o m o surgiu. O rei faz busca s por
todo s o s lados, ma s n ã o c o n se g u e descobri r ne m por
o n d e ela saiu.
Ela já está de volta para sua pel e e, a pedid o do
cozinheiro real, vai prepara r a sopa qu e o rei
tomará depoi s da festa. Com tod o o esmero , preparo u um caldo
delicioso e colocou dentr o del e um do s seu s anéis. O rei gostou
da sopa e ficou intrigado co m o anel. Chamou o cozinheiro,
qu e inicialmente mentiu ter sido ele mesmo que m preparo u
o prato, mas acabou confessando que fora Bicho
Peludo . Esta foi imediatamen t e levada à presença do
rei e nego u q u e tivesse qualque r conhe• cimento de
com o a jóia fora parar no prato dele.
Em outra ocasião , houv e outr a festa no palácio e mais
um a o p or tu ni d a d e par a Bicho Pelud o dar uma fugida
da cozinh a para espia r a festa. Dessa vez, vai co m o
vestid o pratead o c o m o a lua; nova ment e faz sucess o
co m o rei e foge se m deixa r rastros. Tud o se repete ,
ma s nessa ocasiã o deix a cair na sopeir a uma p e q u e n a
roca de o ur o . É precis o u m a terceira festa par a q u e
o rei poss a prepara r um a p e q u e n a cilada: Bicho
Pelud o c o m p ar ec e co m se u vestid o brilhante c o m o a
s estrelas e . e n q u a n t o ele s dançam , se m que ela
p e r c e b a , o rei desliz a u m ane l e m se u dedo .
Q u a n d o s e repet e a situaçã o e m q u e ela é
chamada par a q u e expliqu e a orige m d o carretei d e
o ur o n a sopa , ela se disfarça às pressas , coloc a as
pele s por cima d o su nt u o s o vestido , ma s s e e s q u e c e
d e passar fuligem n o d e d o d o anel .
Pressionando-a , o rei a p u x a p el o br a ç o num
gest o brusc o e a s pele s caem , reveland o a dam a que
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
Além disso, reparo u no bel o príncipe que , na volta das
caçadas, aparecia na granja real para um a refeição.
se escondia em seu interior. Ele a p e d e imediatament e
em casamento e dessa ve z nad a a i m p e d e de
aceitar.

Pele-de-Asno
orno a outr a p r i n c e s a . P el e - d e - A s n o 2
s e desespera igualment e co m a intençã o d o
pai e corr e e m b us c a d o s c o n s e l h o s
d e su a madrinha, a Fada do s Lilases. É
esta última
quem tem a idéia de pedir ao rei vestidos q u e consider a
impossíveis de sere m confeccionados : um co m a
cor do tempo, outro co m a cor da lua e, po r
último, um que imite o sol. Os pedido s sã o de
fato impossíveis, mas tão deter minad o est á est e
rei qu e força seu s artesãos a executar os
capricho s da princesa . Apesa r do absurdo da
situação, é indisfarçável o e n ca n t o q u e as vestes
incríveis pr o du z e m na jovem.
Quand o ela nã o p o d e mais recuar, a fada
lhe sugere qu e faça u m últim o p e d i d o q u e ela
julga totalmente impossível de ser atendido : p e d e a pel
e de um asno qu e o pai tem em sua estrebaria. Esse asn o
é encantado e, em vez de estrume , ele evacu a
m o e da s de ouro, send o assim a maio r fonte da riquez a
do rei. Mas ele não vacila, m and a sacrificar o precios o
animal, seu desejo pela filha é maior e está dispost o
a paga r qualquer preço. Quand o a princes a
finalmente obté m a pele do asno, sabe que mais nada tem a
pedir, que
não há mais limites, barreiras n e m critérios na vontad e
de seu pai, agora só lhe resta fugir. A sua
madrinh a lhe garante qu e seu s vestido s estarã o
se m p r e à sua disposição, entrega-lhe um a varinh a
mágica e assegur a que eles a seguirão po r baix o da
terra par a o n d e ela for, quando quiser trajá-los é
só bate r co m a varinh a no chão. A princesa peg a
alguma s de sua s jóias, se suja, se cobr e co m a
pel e do asn o sacrificado e foge sem rumo.
Por ond e passa, Pele-de-Asn o p e d e trabalho , ma s
ninguém que r algué m tã o repulsiv o em sua casa.
Por fim, consegue trabalhar n u m retirad o sítio, um a
granja real onde tiveram pen a de sua condiçã o e a
deixara m limpar o chiqueiro e levar as ovelha s par a
pastar. Foi numa ocasião de pastorei o que ela se
viu refletida na água e se assusto u c o m su a
terrível aparênci a . Foi como se despertass e de
um transe, lavou-se, gosto u do que viu e a partir de
entã o passo u aproveita r sua s folgas para usa r os
se u s be l o s vestido s e fazer-s e penteados em q u
e entremeav a flores e jóias em seu s cabelos, mas
sem pr e escondid a e m seu quarto .
entre mei a à história, observ a com

Certo dia, ele passeav a a esm o depoi s de 95


come r e foi espiar o q u e se escondi a num a aléia
escura, no fim da qual viu uma porta fechada.
A curiosidade o levou a olhar pela fechadura,
e ele n ã o acreditou no qu e seu s olho s
encontraram : ali estava um a princesa tão linda
e tã o ricamente vestida qu e ele supô s se
tratar de um a divindade . A visão lhe causo u tal
respeito qu e ele nã o bateu , ne m derrubo u a
porta c o m o era sua vontade .
Curioso , interroga q u e m habita aq u el e
local e receb e a informaçã o de q u e ali
mora Pele-de-Asno, um a seiva imund a co m a
qual ningué m seque r fala. Enfeitiçado po r ess e
amo r e se m sabe r muit o c o m o lidar co m
isso, o príncip e cai gravement e doente . A
rainha , su a m ã e , n ã o m e d e esforço s par a
curá-lo , oferece-lh e m u n d o s e fundos, ma s el e
só que r q u e a tal Pele-de-Asn o lhe faça um
bolo . Ningué m n e m ao m e n o s s a b e q u e m
ela é, ma s afinal é e n c o n t r a d a n a q u e l e
r e m o t o sítio ; faz o b o l o c o m r e q u i n t e s
culinários e deixa cair dentr o da massa um
delicad o anel d e ouro . Nã o s e sab e s e isso ocorr e
po r descuid o o u intencionalmente , ma s Perrault
observ a q u e n ã o dev e ter sid o po r acaso . O
príncip e encontr a a jóia e determin a q u e s e
casará co m aquel a e m q u e m ela servir.
Evidentement e o anel é experimentad o po r toda s a s
moça s d o rein o para, s ó po r último, servir e m Pele-
de-Asno , qu e o experimen t a e m mei o a
riso s e zombarias .
Pele-de-Asn o n ã o é bob a e, ante s de ser
levada ã presenç a do príncipe , po r baix o da pele
, se trajou à altura da nobrez a da sua origem. Q ua n d
o o anel serviu, ela deixo u cair a pel e e se revelo u
em tod a a plenitud e cie su a beleza . Ness e
m o m e n t o , cheg a a Fada do s Lilases e cont a
à família do noiv o a triste história da afilhada.
Os sogro s log o se e nt er ne c e m co m a virtude d a
princesa , e a s boda s sã o
p r o v i d e n c i a d a s imediatamente . Entre os
convid ado s estava seu pai, q u e havia esquecid o
o episódi o e encontrar a um a bela mulhe r para se
casar. No reencontro , eles se abraçara m e algum a
forma de pe r d ã o torna-s e possível.

O olhar do pai
mbor a a s princesa s acredite m q u e o
pedid o d o s vestido s vis a a
retarda r o a s s é d i o pa terno , n ã o
deix a d e ser curios o qu e , na s
a v e n t u r a s q u e a s e s p e r a m , seja m
essas
mesma s indumentária s a s q u e irão revelar su a
nobrez a e b e l e z a . O s vestido s sã o a s
a r m a s c o m q u e conquistarã o depoi s seu s
príncipes . Perrault , n o s comentário s q u e
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á li s e n a s História s Infa n ti s
significam o contrári o d a nobreza , sã o
características d e q u e m te m q u e mete r a
mã o n a massa . Elas ficam assi m
perspicáci a q u e a s m oç a s p e d e m o s vestido s
socialment e desclassificadas, vã o ocu pa r o últim
e s e encanta m co m eles c o m o um a q ua s e
vacilação, afinal o q u e o pai te m a lhes oferece r o lugar
é b e m tentador . Por isso, ao fugir nunc a se
e s q u e c e m de levá-los junto , n ã o s ó o s desejavam, 96
com o ta m b é m precisa m tê-los consig o nas
aventura s q u e seguirão .
O q u e é q u e faz a graça , o e n c a n t o
de um a menina? Nã o há um a respost a simple s par
a isso, ma s o qu e faz uma menin a se m graça é mais
fácil responder . Existe um a constataçã o clínica
simples: u m pai q u e nã o d ed iq u e um olhar par a sua
filha a deix a se m arma s par a o futuro jogo am oros o
fora de casa. Não adiant a espelhar-s e n a mãe ,
m e s m o q u e esta seja c o q ue t e , s e a filha n ã o tiver
um a chanc e de ser vista pel o pai. Se ela n ã o
p ud e r disputa r o pai (na fantasia), n à o há razã
o par a a identificação co m as arma s da s ed u ç ã o
q u e a m ã e v e n h a a lh e oferecer . Esse s
v e s t i d o s representa m o olhar d o pai, olha r q u e
d e fato p o d e ser um tesouro . Sem ele fica
difícil construi r u m a image m desejável para q u e m
que r q u e seja. E m outra s palavras , um a menin a q u
e n ã o s u p o n h a u m olha r patern o desejante nã o
vai quere r se arrumar.
As artes da seduçã o da mulher se aprende m através
de um jogo qu e nã o p o d e ser realizado co m o pai. ma s
p o d e muit o be m ser en saiado . A imaterialidad e
d o vestido ve m depo r a o noss o favor: n o cas o d
e Bicho Peludo , o s vestidos p o d e m ser guardado s
num a casca d e c o c o ; e m Pele-de- Asno . a
madrinh a diss e q u e estariam se mpr e ao dispor,
bastaria usar a varinha. Esses vestidos mágicos são e m
verdad e d o n s imateriais, co m o s quais qualque r menin a
qu e s e supô s amad a po r seu pai - o u po r alguém qu e
oc u p e alguma posiçã o patern a
- se sentirá trajada quand o partir para as
batalhas do amo r e do sexo, cujo c a m p o de marte
sempr e se situa e m algum outr o reino, o n d e o pai
n à o governa .

Sob as peles
outra questão , tã o central q u an t o o tem a do s
vestidos, é o esconderij o na s peles ,
afinal s ã o e s t a s q u e as nomeiam ,
que vêm
emprestar-lhe s cert o a r rústico e da r
n o m e a o s c o n t o s . O q u e s ã o e s s a s peles ?
O q u e ela s escondem ? J á sabemo s q u e elas
e s c o n d e m a belez a d a filha q u e s e abriga d a
cobiç a d o olha r d o pai, ma s po r q u e n ã o s e
content a m c o m a sujeira da s cinzas?3
As cinzas estã o ligadas ao trabalh o e
reservad o às mulheres , poi s a sujeira está sempr e ligada ao
p o b r e e ao desvalorizado . Mas um pass o a mais p o d e
se r d a d o , co n si de ra n d o um a contextualizaçào social q u
e p o d e conte r mais d e um a referência.
Um d o s legado s da religião - q u e já foi mais
do minant e do q u e hoje - foi difundir a crenç a de que o
sex o é algo sujo, e é exata men t e o q u e aflige essas
m o ç a s , e l a s e s t ã o l i d a n d o c o m d e s e j o s sexuais
inomináveis , portant o elas estã o poluídas , impuras.
Desd e ess e p o n t o de vista, as moça s teriam perdido o seu
lugar social em função de sua apro xim açã o como p e ca d o do
incesto . Na verdade , elas n ã o fizeram nada de errado , ma s
o seu s pais explicitara m um desejo q u e lhes dizia
respeito , e isso é o suficiente par a torná- las part e d o pecado
.
Dess a forma, a n o br e z a fica associad a a uma
posiçã o mais alta no sentid o mora l e a pobreza, à
perd a da virtude. A viagem q u e elas iniciam, rumo à
r e t o m a d a e a o r e c o n h e c i m e n t o d e su a condição
aristocrática , p o d e se r vista c o m o um a espéci e de
penitência , c o m o um trech o de abstinênci a capaz de
angaria r o perdão .
O nobr e era identificado pela sua educação, pela
incorporação de uma série de limites no contato corporal, do
respeito às regras de etiqueta na alimentação, na
indumentária e no convívio. Por mais que , aos nossos
olho s contemporâneo s , a vida n u m castelo medieval
possa no s parece r um chiqueiro promíscu o e selvagem,
estamo s falando da etiqueta possível e adequad a a cada tempo .
O camponês , o trabalhador, ficava reduzido à necessidade:
comia porqu e tinha fome; vestia-se porque tinha frio; enfim, vivia
de uma forma rude . O nobre faria tud o isso po r prazer ou
obrigação social e da forma mais complicada possível.
Ao sair de se u rein o desprovid a s da nobreza de sua
origem , reencontram-s e co m um a dimensã o mais primitiva
de se u ser, perdida s da e d u c a ç ã o qu e re• cebe ra m
em casa c o m o se tivesse m desaprendido . Se pensarmo s qu e
o s prazere s era m supostam ent e restritos ao s nobres , fica fácil
c o m p r e e n d e r po r q u e essas moças se privam ta m b é m dessa s
prerrogativas . Livres de sua condiçã o nobre , poderia m viver
també m long e de toda tentação .
A riqueza da indumentária, a beleza qu e mobiliza a
paixão, só será novament e revelada para os olhos e o desejo de
outr o homem , de outr o reino e escolhido por elas. Este terá de
ser suficientemente nobr e para perceber as sutilezas qu e sinalizam
a nobrez a oculta. Trata-se de um a retomada; para pode r ser
novament e desejada, ela deverá encontrar, em outr o reino,
algué m qu e seja capaz de vê-la co m o mesm o encantament o do s
olhos do pai.
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

O homem que substituirá seu pai a livrará dele, Paradoxalment e , o disfarce de pele s ex p õ e o qu e
mas será, de certa forma, seu equivalente. mai s s e oculta, s e p u d e r m o s pensa r a s pele s
S ó partind o de s s a premiss a é qu e c o m o s u bst it u t o d e s s e s p êl o s . Afinal es s e é
p o d e m o s entender por q u e a s histórias d e o jog o d a s p r i n c e s a s : a l t e r n a d a m e n t e oc ult a r
princesa s sã o tã o condescendentes co m o pai, n ã o e revelar . Elas m o s t r a m o q u e suscitar á o
imp ortand o o q ua n t o este as fez sofrer. Q u a n d o d e s e j o e, a seguir , o es co n d e m . S ó serã o vistas
pecaram , as mãe s má s ou substitutas morreram so b q u a n d o e q u an t o quiserem . Ter control e sobr e o
tortura, mas , q u a n d o se trata do pai, tudo termina n u m limite de entreg a ao seu parceir o a m o ro s o é muit
grand e b an q ue t e de perdão . A deduçã o q u e s e o important e par a um a jovem, poi s ela s ó
i m p õ e é q u e a l g u m t i p o d e reconciliação com deixará q u e ele tenh a acess o a o tant o q u e ela
o pai é necessária. É precis o algu m acordo para qu e suport a compartilhar. Nada estranh o entá o q u e
se possa transferir o amo r q u e o pai e a filha elas a n d e m coberta s e s imb olica men t e n u a s a o
tinham entr e si par a outr o h o m e m . No fim, ele m e s m o t e m p o , na s pele s e em pêlo . É diss o qu e se
deve comparece r para entregá-la ao herdeir o dess e afeto constrói a sensualida d e da s mulheres .
inaugural. Aind a a s p e l e s n o s le v a m a o u tr a
As peles, ante s de nosso s tempo s linh a cie raciocínio, algo tev e d e morre r para
ecológicos , receberam um lugar especial, justamente po r q u e a s heroína s ganha sse m sua s peles ; n o cas o
seu pape l diferencial entre os nobre s e os d e Bicho Peludo , u m se m -n ú m e r o d e animais; e
cam pon eses . E certo que os primitivos as usavam contra m Pele-de-Asno , o animal mais valioso do reino .
os rigores do inverno, mas elas terminaram associada s Esses fatos as ligam, de certa forma, a um a
ao s mais abastados . Além de convenientes pela morte , afinal elas porta m esse s animai s morto s e
quantidad e de calor qu e poderiam guardar, elas m seu s n o m e s e e m seu s corpos , ma s qua l
tinham um charm e a mais, era m troféus de caça. Pele-de- mort e está em jogo? Possivelment e a mort e da infância.
Asno e Bicho Pelud o carregam em seus disfarces peles Elas sae m de casa, já q u e n ã o há mais um
muito valiosas. lugar de filha e é o m o m e n t o de partir.
Um casaco feito co m amostra s de pele s de todo s Fazend o um a com paração , apesa r d e n ã o
os animais do rein o faz da filha a verdadeir a haver regra s gerai s n o s rituai s d e p a s s a g e m
rainha das peles. Por ela todo s os caçadore s do primitivos , p o d e m o s afirmar q u e quas e todo s fazem
rei fizeram uma verdadeira matança. Nossa jovem porta alusã o a um a mort e e a um a ressurreiçã o n u m nov o
suas peles , identificando-se a um a só vez co m a caça, co m estágio, ás veze s co m outr o n o m e (aqu i també m é
o animal que pertence ao rein o do pai, e co m o o caso, embor a só saiba mo s o se u n o m e d a
caçador, qu e ostenta a pele c o m o símbol o de sua fase d e transição) . Esse s conto s p o d e m ser tant o
conquista . Apesa r da aparência rústica q u e os o resto desse s rituais, q ua n t o p o d e m ilustrar
conto s alega m q u e elas assumiram, é plen o de alegoricament e o process o d e saída d a infância
significado q u e Bicho Pel ud o tenha sido encontrada para outr a modalid a d e d e existência.
, entocad a feito um bicho , po r um rei qu e
estava caçan do ; portanto , é c o m o caça que ela foi
levada ao castelo. Vivend o lá, termino u se A importância de ser amada pelo pai
comportando mais c o m o um caçador, atraind o o
seu eleito com sua s p e q u e n a s armadilha s . C o m o este s contos , n ã o se question a a
diz o ditado: um dia é da caça, outr o do castidad e d o s propósito s da s filhas ne m
caçador. s e duvid a d e q u ã o long e elas estã o
As peles dessa s histórias visam a ocultar a riquez a disposta s a chega r e m
de suas vestes, ma s n ã o p o d e m o s ignorar q u e defesa da su a honra . Embor a o rei
existe um contrapont o entr e as pele s e os esteja c e g o e m s u a o b s e s s ã o i n c e s t u o s a , a
vestidos . Estar com elas é estar se m os vestidos , r e l a ç ã o é preservad a d o pecad o pela recusa . Poré m
é estar des-vestidas. No Brasil, diz-se estar nu em h á alg o q u e pa i e filha co m p ar til h a m : o p e d i d
pêlo , ou seja, vestid o apenas co m o s pêlo s d o o d e u m objet o impossível. O s vestido s - co m a
corp o ( c o m o u m caval o q u e é montado em pêlo , se cor d o te m p o , d o sol, d a lua, da s estrelas - , assim
m a sela). A presenç a de peles , talvez alusiv a a c o m o o sacrifício d o asn o d a s feze s d e our o , sã
e s s e s p ê l o s , p o d e t a m b é m esta r r e m e t e n d o a o ressaltado s c o m o p e d i d o s inaceitáveis, tant o
um a marc a muit o i m p o r t a n t e d a maturação
q u a n t o o sex o c o m a própri a filha. A filha p e d e
sexual, o cresciment o de pêlo s pubianos .
ab s ur d o s qu e p en s a nã o poderã o se r
Acompanhados d o a u m e n t o d e volum e d o s seios,
satisfeitos , co m iss o talvez ,
o s pêlos são a marca de início do pudor , é a partir
p e d a g o g i c a m e n t e , dem ons tr e a se u pai q u e h á
dele s que os jovens passa m a ter o q u e esconder .
desejo s impossíveis, o u impagáveis , com o o
sacrifício d o asno .
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á l i s e n a s História s Infa n ti s

O diálogo, realizado através de objetos, pa i entr a em jogo : será aquel e cujo amo r
manté m a filha na condiç ã o casta qu e a história pela filha reconhecer á a semelhanç a dest a c o m a
a apresenta , ma s esquec e u m detalhe : po r qu e essas mãe , ou seja, perceber á na filha potencialmen t e um a
princesas usa m co m o argument o precisament e o mulher . Porém, ess e a m o r t a m b é m terá de se r
pedid o d e q u e u m caprich o seu fosse realizado? Não interditado , com o foi aque l e primeir o idílio co m a
seria esse justamente seu problema , ser objeto d e u mãe , ele terá q u e mostrar q u e seu desej o já te m
m caprich o d o pai? Po r qu e responde r na mesm a en d er eç o , par a q u e a filha vá' busca r seu príncip e
moeda? Afinal, se ele que r um objeto de desejo, elas em outra s paragens . Portanto, o primeir o amo r
também . Demonstrar caprichos assim coloca pai e heterossexua l será o do h o m e m que reina sobr e
filha na mesm a situação, nisso se revela qu e nã o é sua vida: papai . Assim, a menin a poderá desejar
apena s o pai qu e quer, a jovem també m deseja algo. q u e ele a am e c o m o am a m a m ã e (o u ainda
Essas princesas acaba m ficando e m dua s posições, mais, de preferência ) e se saber á valiosa.5
tanto ativas, desejand o os vestidos, quant o Dessa forma, o eleme nt o a m or o s o interfere
passivas, com o u m objeto d o desejo paterno . na construçã o da identida d e sexua l da menin a
Ningué m sab e que m é e quant o vale po r si, essa mais do q u e no m en in o . O futuro h o m e n z i n h o
é um a questã o a ser respondi d a em interaçã o co fará o possível par a s e p a r e c e r e m alg o c o m
m a vid a q u e l e v a m o s e c o m a s p e s s o a s o pa i par a u m dia conquista r o am o r de um
co m q u e m convivemos , s e s o m o s alg o é a mulher , par a tant o basta incorpora r traços dest e
necessaria me nt e ao s olho s d e alguém . Num a em sua personalidad e . Já para a menina , se r c o m o a
esquemátic a leitura freudiana, d o qu e s e mãe , identificar-se c o m ela, não basta lh e copia r
c o n v e n c i o n o u c h a m a r d e C o m p l e x o d e Édip o - algun s traços, pass a po r ser amada corn o ela,
os primeiro s amore s vividos em família pela s ma s necessariament e perdend o a primeira
crianças —, sabe mo s q u e a m b o s os sexo s mo dalidad e d e amo r q u e experi mento u n a
principia m sua vida amoros a e m u m co rr es p o nd i d o vida.
amo r co m a mãe . Essa talvez serã a maio r paixã o q u O s garoto s continua m sempr e amand
e se viverá na vida. Para a criança pequ ena , a mã e é a o a s mulheres , d a m ã e par a a namor adinha , nã o h á
própria image m da perfeição, n ã o é à to a q u e as mudan• ças estruturais. A menin a pass a po r um a
mãe s largam ess e tron o c o m tanta dificuldade. nov a gestão: ama r algué m d e outr o sex o q u e o
A partir daí, os caminho s se bifurcam. O m e n i n d a m ã e abala a estrutura q u e o a mo r m at er n o
o partirá e m busc a d e angaria r atributos viris, com o deixo u montada , ela a b a n d o n a a m ã e , m a s
se u pai,4 par a obte r o amo r de outra mulher, poi s é p r o j e t i v a m e n t e se sente a b a n d o n a d a po r ela.
forçad o a desistir daquel a q u e foi se u primeir o Diant e dess a desilusã o amorosa, precisa no v a m en t e
amor, p o r q u e já te m d o n o . A menina , po r sua ser escolhid a c o m o objeto de amor, recebe r a
vez, par a ama r os h o m e n s n ã o contar á c o m o confirmaçã o d e su a capacid a d e d e se r amada par a s e
ca m i n h o traçad o p o r ess e amo r primordial: terá de s a b e r m u l h e r . Par a o s m e n i n o s h á uma
trocar, terá de a p r e n d e r a ama r algué m de outr o renúncia ; par a as meninas , uma perda .
sexo . Se ela tenta r mante r o primeiro esquema , As histórias dessa s princesa s sã o c o m o um drama
a saída será se identificar c o m o pai, o objeto edípic o feminin o explícito, a céu aberto . Elas venceram
de a m o r da mãe , e isso implicará se virilizar. a c o n t e n d a p e l o a m o r d o pa i q u e o u t r a s ,
Para ser mulher, precisará se identificar c o m a mãe com o Cinderela e Branca de Neve, perderam . E
, rivalizar co m ela, o q u e implica em q u e , em mais, o pai afirma q u e mulhe r algum a chegar á ao s seu s
vez d e se r a mad a po r ela. terá d e perdê-la . pés , afinal, a mã e maravilhosa e agor a morta foi nã
O menin o n ã o terá q u e elabora r a diferença entr e o só represen• t a d a , ma s superad a po r um a
ser a m a d o pela mã e e pel o seu futuro objeto de amor : v e r s ã o m e l h o r a d a , rejuvenescida , q u e é a filha.
sua na morad a o u espos a fará, queir a o u n ã o , E m suma , e m b o r a nessa s história s a s
sua s veze s d e m ã e , poi s n o h o m e m o afet o princesas p a r e ç a m contrariad a s n o p a p e l d e
a p e n a s s e transfere, nã o transmuta . A menin a terá escolhida s pelo pai , o simple s fato d e q u e p e ç a
d e m u d a r d e objeto, trocand o a m ã e pel o pai: se m p re se nt e s valiosos d e m o nst r a qu e ela s
quise r ama r e ser a m a d a c o m o a m ã e , a filha c o m p r e e n d e m e s e identificam co m a s vontade s d o
terá d e abdica r d e s s e primeir o vínculo e , aind a po r pai . Aliás, essa s princesa s desejam o desej o d o pai ,
cima, disputa r n o m e s m o território q u e ela. Se ela o exige m até , p e d e m pr o va s deste, q u e r e m sabe
ama r se u pai, e nt ã o a m ã e passará a se r sua r q u ã o l o n g e el e irá e m n o m e desse amor ,
primeira rival. É som ent e aqu i q u e o isso a s torn a b e m c o m pl ac e nte s , po rt an t o amo•
ro sa m e n t e implicadas .
D i a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o

Um tesouro nas entranhas


ele-de-Asno foge vestida com a pele do tão
cuidado animal, o asno das fezes de
ouro; assim fazendo, termina por se
identificar totalmente com esse objeto.
Sob a sujeira
que recobre o corpo dessas jovens, assim como nos
dejetos do animal mágico, se esconde algo
valioso. Em ambos os casos, as aparências enganam. O
burro seria o menos garboso do estábulo, mas é o
preferido. Fezes são para jogar fora, mas essas são um
tesouro. Pele-de-Asno e Bicho Peludo são como esse
animal: vão vestidas nessa pele aparentemente feia,
cobertas de sujeira, ocupar-se das mais nojentas
tarefas do castelo, mas sob uma aparência rude
começam, tal qual o sacrificado asno, a defecar seus
tesouros.
As fezes de ouro são um notório resto
infantil. Para um bebê, seu cocô tem valor, ele o guarda
consigo tanto quanto puder, às vezes o retém como um
tesouro, experimenta o prazer de sua expulsão e o
contempla como parte desprendida de si. Não é sem um
emotivo adeus que ele suporta suas fezes serem
despejadas e desaparecerem na água da privada. Além
disso, o bebê pensa que é defecado e ignora a
existência da vagiria, mas não acreditamos que
signifique para ele nenhum demérito ocupar o lugar de
um cocô. For isso, Freud estabeleceu uma certa
equivalência na fantasia infantil entre pênis-fezes-bebês.
Pênis é uma parte do corpo com que uns
nascem dotados e outros não, metade das pessoas
têm e as outras não. Por isso é um elemento que
representa bem a alternância da presença e da
ausência; fezes são esse tesouro que todos fabricamos e
perdemos. Já os bebês são também um
conteúdo valioso do ventre da mãe que, por sorte,
ninguém joga na privada, mas que sempre acaba saindo.
O asno vale por todos esses significados. Ele não é
desejável em si, como seria um belo cavalo,
mas por seus dejetos, tornando-se apto a
representar os valores que o bebê e as fezes podem
ter e ser. Ainda na leitura freudiana, a tríade bebê-
fezes-pênis é de certa forma equivalente. Relativos ao
corpo, são todos elementos valiosos, condenados a
serem perdidos ou presentes só para alguns. Esses
tesouros corporais são os mais aptos a representar o
que a menina gostaria de receber do pai como prova
de amor, aliás como as meninas dessas histórias, que
fizeram suas exigências de presentes valiosos.
O recurso a tais simbologias freudianas ajuda a
nos familiarizar com os aparentes absurdos
dessas histórias da tradição. Aliás, em matéria de sem
sentido, a psicanálise descobriu que as crianças têm
muito a
99
no s ensinar. Por mai s q u e no s esforcemo s e m
mapea r alguma s fantasias, elas serã o pálidas
caricaturas, mero s es q ue m a s aproximativo s d e su a
com pree nsã o bizarra do m u n d o . Já a literatura
em sua versão ancestral, a narrativa da tradição
oral, oferece um acervo escato- lógic o e
fantástico q u e parec e coisa do Chapeleir o
Maluco, ma s q u e cu m p r e um a função qu e
ningué m precisa explicar, bast a co m isso p od e r
jogar. Artistas e crianças têm liberdad e d e tocar e m
ponto s nevrálgicos d o inconscient e co m a
liberdad e do s q u e nã o sabem, n ã o quere m , ne m
d e v e m sabe r o q u e fazem. O cont o folclórico
revela o q u e há de infantil na arte e de
artístico na infância. Histórias mais rude s c o m o
essas deixa m particularment e visível tal cone xão .
Aind a s o b r e o a s n o , p o d e m o s dize r
q u e u m rastreament o de seu simbolism o ve m
a corrobora r a hipótes e desta dupl a face: humildad
e e trabalh o versus exuberânci a sedutora . O asn o
é animal de carga, de trabalh o pe s ad o . Além
disso, carrego u Jesu s cjuando este entro u em
Jerusalém , ficando assim ligado à idéia de
humildad e e servidão . Q ua n t o â sua
sensualidade , temo s mais elementos : era oferend a
a Príapo, antig o d e u s ligado â fertilidade; na
índia, é símbol o da falta de castidade ; era a
cavalgadur a de Dionísio; na Idad e Média, era
us a d o c o m o image m do praze r carnal; e aind a
havia um antig o costum e jurídico de fazer as
mulhere s infiéis n o casament o cavalgarem u m
burro .

Entre o erótico e o traumático


ssas histórias reproduz e m o núcle o do dram
a edípic o d a menina , ma s tud o aparec
e co m os pólo s invertidos: "não sou eu qu e
o quero , é ele q u e me quer'". A mã
e morta sai de
cen a par a facilitar a trama, ma s de um a forma ou
outra, essa é a história de toda s as meninas ,
cab e a elas da r cont a d o q u e elas s u p õ e m q u e
o pai queir a delas .
A morte de uma mã e jovem é um
problema. Já qu e as meninas se acreditam na reserva, a
mã e é a garantia de qu e elas nã o vão precisar jogar
de fato. O desejo de afastar a mã e da cena pod e ser
um pesadel o para algumas meninas, pois deixaria o
caminh o livre para esse amo r impossível. Esse
amo r do e pel o pai é útil enquant o um exercício de
hipótese, gerador do s atributos mágicos qu e a menin a
levará para construir seus encanto s de mulher
- com o os vestidos qu e Bicho Pelud o e Pele-
de-Asno levaram consigo. Porém, o sentimento
será traumático se o pai se dispuser a atuá-lo e
consumá-lo, tomand o a filha com o objeto de desejo
sexual. Desejar ser desejada nã o redund a n a vontad
e d e ser consumida.6
Fadas no Divã — Psicanálise nas Histórias Infantis

É traumático quando um adulto faz uma criança para que a filha possa fantasiar em paz sem temor de
viver algo que ela não tem como compreender, como o ser abusada. Bicho Peludo e Pele-de-Asno não foram
assédio sexual. Quando abusada, por mais que em certos abusadas, nem são jovens traumatizadas. Elas apenas
casos a prática possa até lhe causar um certo prazer, ela representam o fio de navalha pelo qual
terminará por se sentir privada de toda a caminha a construção da identidade de uma
identidade, reduzida a uma coisa. Abusar é confrontar a mulher.
criança com algo muito maior do que ela possa elaborar.
O assédio sexual do adulto sobre uma
criança materializa algo que, na mente infantil, não
passa de um conglomerado confuso de hipóteses,
Pistas douradas
imagens, fantasias e sensações. Esse caos só se redenção dessas jovens disfarçadas
definirá numa prática erótica que possa ser passa pela conquista de um príncipe, e, para
compartilhada com outros, quando a infância acabar e isso, elas têm seus instrumentos. Bicho
os pais já não forem mais os personagens principais da Peludo
vida. A estruturação de um desejo sexual é um foge de casa levando consigo, além de seus
processo demorado e paralelo ao crescimento. Isso vestidos, três objetos de ouro (um anel, um
ocorre assim não só para que o incesto seja evitado, fuso e uma roca) que ela colocará dentro da
mas também porque, para se desejar algo, é sopa de seu príncipe, como uma pista. Pele-
preciso sentir alguma falta. Buscar algo que não se de-Asno também entrega seus tesouros dessa
tem depende de se ter claro que se é alguém forma, colocando o delicado anel de ouro dentro
separad o dos outros, possuidor de uma do bolo. Ambas as prin• cesas se movimentam nessa
identidade e de carências. mistura entre o nojento - o sujo e excluído de seu
A criança pequena ainda tenta se iludir, pensando papel de servas imundas -, alternado com a
que possui todos os atributos necessários para ser amada, revelação de um tesouro interior - representado
portanto pretende ser e ter tudo de que precisa. R claro pelas jóias surpreendentes que brotam de dentro
que isso é uma ilusão, e, graças às inúmeras ocasiões do alimento.
em que se sente inadequadamente amada, ela encontra O sexo é como o tesouro do burro das fezes de
forças para se afastar da família e construir urna ouro, ocupa um território cloacal, a ponto de as crianças
vida própria. Um adulto, ou mesmo um jovem, já p equ en a s ( e muitos adulto s qu an d o
compreende que está só, carente do amor de que fantasiam) confundirem e misturarem as funções
necessita, por isso, fará o possível para conquistá-lo. É excretórias com a satisfação sexual. Ao vestir a
só aí que o desejo sexual vem para dar forma, para fantasia de pele, a princesa Pele-de-Asno se
enfeixar toda essa falta: ele funciona como uma caracteriza como o maior dos tesouros do pai.
espécie de parâmetro que organiza as carências. É como o ser monstruoso (o bicho feio que
Antes de ter vivido esse processo de separação, que defeca ouro) qu e ela se apresenta inicialmente
vai dando forma ao seu desejo, a criança não pode ao seu príncipe, para só bem depois assumir
tê-lo da mesma forma estruturada e sintética do adulto, a identidade daquela de quem ele se ena•
nem pode lhe ser imposta. A sexua• lidade deve ser morou. A ligação entre as duas identiciades, a da suja
vivida de acordo com as fantasias e os desejos que o serviçal e a da dama nobre, é feita pelas jóias, são elas
sujeito pode ou não assumir. que, embutidas na sopa ou no bolo, dão a pista.
Essas histórias relatam de forma privilegiada o longo Os disfarces, as várias trocas de identidade,
percurso que separa a inicial vontade de ser desejada (o são chaves para a compreensão desses contos.
voto de ter um lugar entre as mulheres) do momento Em seus reinos de origem, primeiro eram amadas
final, em que é possível traduzir isso num desejo próprio. como filhas, depois passaram a ser objeto da cobiça
Entre a menina que fantasia e a mulher que ela será, há erótica do pai. Ambas fugiram fantasiada s com
algumas etapas a cumprir, que não parecem nada fáceis as peles , que simbolizam tanto os tesouros de
de viver. As jovens dessas histórias saem de casa como seus pais, quanto o aspecto animalesco do desejo
meninas e terminam conquistando os seus amados como de que foram objeto; assim caracterizadas ,
jovens mulheres, isso vai ocorrendo na medida em que entrara m e m outr o reino, ocupando o mais sujo
aprendem a administrar as doses de sedução necessárias e desvalorizado dos postos.
para cativar seu príncipe. Nesse novo lugar, longe dos olhos do pai, puderam
A mãe tem de permanecer viva ou ser substituída se fazer desejar à sua moda e ao seu ritmo: permitindo
por outra mulher - real ou onírica - no desejo do pai, que sua beleza aparecesse e se ocultasse alternadamente,
de forma a seduzir o novo soberano de seus corações
e, só por último, revelam sua nobre identidade
por meio de algumas pistas. Aos príncipes, dão uma
imagem

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D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mário Co r s o
vinda s da s m ai s diversa s origens , ma s
nenhuma lhe parec e estar à altura d o jurament o
q u e fizera. Não de m o r o u muit o par a descobri r q u e
que enfeitiça, apaixona . Depois , coberta s de
buscav a
fuligem, elas entregam a pista qu e diz: você dev e buscar o
tesouro que viu e desejou o n d e ele m e n o s parec e estar.
O our o deverá ser desenterrad o da s entranha s do
burro .
Mas o our o aparec e també m em
continuida d e com a comida. O aliment o era de um
valor inestimável para as sociedades q u e dera m origem a
essas narrativas, altamente cobiçad o n u m context o de
fome e miséria.
0 ouro sublinha a importânci a do alimento , po r outr
o lado, cozinhar e alimentar, é coisa de mãe . O
príncip e d e Pele-de-Asno pa de ci a , morri a d e
a m o r e s , ma s nenhum alimento da casa poderi a
salvá-lo, som ent e aquele feito pela mulhe r amada . A
questã o é q u e seu estômago havia m u d a d o de
dona , a atual amad a é o tempero particular, é
ela q u e m vai alimentá-lo daqu i por diante e isso
será um d o s e l e m e n t o s da nov a aliança. Os
príncipe s t a m b é m fizeram seu caminho , embora
resumid o n a história: passara m d o pape l d e
filhos ao de h o m e n s ao afastarem-se da mã e nutridora .

A Ursa
história d e Gia mbatist t a Basile , A
Ursa , possui u m c o m e ç o idêntic o à s dua s
histórias anteriores, ma s o disfarce da s pele
s prové m de um a fonte mágica distinta.
O desenlac e
guarda semelhanças , em bor a saliente mais a
neces • sidade de aceitação da nor a pel a sogra.
Essa história nos é providencial par a ilustrar po r
q u e foi ta m b é m como cozinheiras q u e as joven s se
insinuara m a seu s amados. Elas revela m q u e n ã o
s ó d o lad o d a mulhe r há transições a fazer, o
h o m e m te m de ser tirado de sua própria mãe , e
ela s terã o de prova r se u valor também nesse
território.
O começ o é o mesmo : um rei apaixonad o
perd e sua incomparável esposa, e ela faz o fatídico pedid
o de que ele só torne a se casar com alguém ainda mais
perfeita do que ela. O rei desespera-se, pois sab e
qu e precisa providenciar para o reino um herdeiro,
e "a natureza, que fez sua amada Nardella, jogou o
mold e fora", e co m ele a capacidade de ama r de
seu coração . Da uniã o restou Preziosa, urna moça
tão bela quant o a mãe.
Desafiados a enco ntra r um a substitut a par
a o soberano , s e u s c o n s e l h e i r o s p r o v i d e n c i a
m u m a proclamaçã o q u e c o n v o c a m u l h e r e s d
e todo s o s lugares d o mund o a s e
ca n di da ta r e m a o pa p e l d e rainha. Por long o
te m p o , el e examin a longa s filas de beldade s
101
long e o q u e já tinh a em casa, q u e su a filha
Preziosa era "formada n o m e s m o mold e d e sua
mãe" .
Q u a n d o o rei revel a su a intençã o d e
tomá-la c o m o esposa , Preziosa literalmente arranca o s
próprios cabelos, tal seu desespero . Mas, em seu auxílio,
aparece um a velh a senhora , sua confident e ( q u e
pel o jeito era um a fada), a qua l lhe oferece um
d o m mágico qu e a ajudará a se safar dess e terrível
destino . A velha mulhe r deu-l h e u m p e d a ç o d e
madeira , q u e , a o mordê-lo, Preziosa se
transformaria imediatament e em um a ursa. Grande s
festas foram organizada s e, no moment o
em qu e o rei anunci a para a Corte suas
intenções de casa r co m a própri a filha,
Preziosa providenci a sua transformação num a
grand e ursa, cujo porte selvagem ac ab a c o m a
festa, poi s todo s foge m apavorados .
Aproveitand o a confusão, ela se interna na floresta mais
próxima, ficando lá até qu e um dia é
encontrad a po r um príncipe cjue caçava po r ali. A grand
e ursa aproxima- se do jovem d a n d o sinais de
simpatia, balançand o o rab o c o m o um cachorrinh
o e deixando-s e acariciar. O príncipe leva o
simpático animal para casa, ordena nd o q u e fosse
deixad o viver no s jardins do castelo.
Certo dia, q u a n d o estava só no castelo, o príncipe
se aproxim a da janela par a olha r a ursa e,
em se u lugar, encontr a um a bela jovem p e n t e a n d o
seu s longo s c a b e l o s d o u r a d o s , p o r q u e m fica
i m e d i a t a m e n t e apaixon ad o . Q u a n d o Preziosa descobr
e qu e está send o observada , mord e imediatament e o
pedaç o de madeira, transformando-s e nova m ent e e
m ursa.
O príncip e sucumb e e m profund a
melancoli a e , na s sua s febres , lamentav a
"minh a ursa, minh a ursa". Ele era filho únic o d e um
a m ã e muit o dedicada , q u e já n ã o sabia o q u e
fazer par a curá-lo , entã o ela p e n s o u q u e a ursa
h ou v es s e feito algu m mal a ele e m a n d o u matá-
la. O s criados , q u e compartilhava m co m o príncip e
a afeiçã o pel o gr an d e animal , apena s a
soltara m n a floresta, m e n t i n d o par a a rainh
a q u e havia m c u m p r i d o sua s o r d e n s . Q u a n d o
o príncip e fica s a b e n d o da s o r d e n s d a m ã e ,
levant a furioso d e se u leito, disp ost o a castigar
se ve ra m e n t e q u e m havia t i r a d o a vi d a d e su a
urs a e t e r m i n a o b t e n d o a confissã o d e q u e ela
havia sid o levad a par a a floresta. Mes m o d o e n t e ,
m o n t a e m se u caval o e n ã o descans a e n q u a n t o nã
o a traz d e volta. N o castelo , tranca-s e c o m a
urs a n o se u quart o e , po r lo n g o t e m p o , fica
inutilment e t e n t a n d o con vencê-l a a a b a n d o n a r
su a forma animal . Suplicou, fez promessas , tant o
imploro u at é q u e , totalment e enfraquecid o ,
de rr ot a d o p e l o se u fracasso, caiu novament e
enfer mo .
A m ã e desespera -s e mai s aind a e, dispost a a
fazer qualque r coisa, aceita o bizarro p e d i d o d o
filho d e s ó
Fada s n o D i v ã — P si c a ná li s e n a s História s Infanti s
m o d o d e amar.

ser atendid o pel a ursa. Ele exigia q u e so m e n t e


ela fizesse sua comida , arrumass e seu s lençóis e lh e
dess e o s r e m é d i o s . Me s m o q u e tais tarefa s
p a r e c e s s e m impossíveis d e ser executad a s po r u m
animal, a m ã e permitiu e ficou o bs er v a n d o a
delicadez a e a c o m p e • tência co m qu e a ursa as
executava . Maravilhada, ela admite qu e esse animal
vale seu pes o em our o e afirma compreende r po r qu e
seu filho se afeiçoa tanto a ela. Vendo qu e o
coraçã o da mã e amolecera, ele p e d e sua permissã o
para ser beijado pela ursa, ame açand o que , se nã o
fosse concedida , ele morreria. Pressionada, a mã e
aceita e, durant e o beijo, Preziosa deixa cair a
madeira, desfazendo-se o feitiço. O qu e se segu e
é o mesm o fim das outras jovens: ela conta sua triste
história, é recebida na Corte pelos sogros, q u e
celebra m sua beleza e virtude, e se casa co m o
príncipe .
O q u e mais su r pr ee n d e na história é o
fato de Preziosa n ã o usar suas artes d e s e d u ç ã o co m a
mes m a perícia d e sua s similares posteriores . Ela
pa re c e te r sid o surpreendid a po r acas o n a forma
h u m a n a , t u d o indica q u e ela teria p er m a ne ci d o
assi m par a s e m pr e , se n ã o fosse o e m p e n h o do
príncip e e a autorizaçã o da futura sogra para q u e
ela mostrass e seu s dotes . É claro q u e ela n ã o
penteav a seu s cabelo s d o u r a d o s s o b a janela d o
príncip e po r acaso , ma s su a atitud e está long e da
s o us a d a s peripécia s d e Bicho P el u d o e Pele-de-
Asno .
Depoi s de fornece r a pista pela qua l o
príncip e deduzi u ser ela um a donzel a enfeitiçada,
Preziosa n ã o cede u a seu s encanto s enquant o nã o s e
provo u capa z d e cuida r d o jovem co m o zel o d e
um a mãe . S e a s princesa s anterior e s passara m
pel a experiênci a d e supera r a própria mã e no
território do s atrativos, esta, po r su a vez, tev e d e
rivalizar c o m ela n o c a m p o d o s cuidado s
maternos .
Pelo jeito esse nov o desafio correspond e
muito mais à s necessidades d o rapaz d o qu e à s dela, pois
aqui temos mais uma inversão. Embora pareça ser ela
que m recusa apresentar-se na forma human a até qu e
a velha mulher admita qu e a ursa é tão bo a don a de casa
quant o ela, pode mo s pensar qu e ocorre o oposto .
De fato, o príncipe só beijou sua amad a ursa quan d o
esta mostrou q u e podi a ser tã o prendad a quant o
sua mãe . O q u e pareceria resistência dela, talvez fosse
um capricho dele, já qu e ne m sempr e as coisas contê m
a lógica mostrada na superfície. Portanto, deixar
suas pistas em sopa s e bolos saborosos faz parte
necessária da seduçã o també m para as outras princesas,
porqu e seus homen s nã o quere m apena s um a mulhe r para
desejar, eles també m espera m ser cuidados po r elas,
pois seu coração mud a de dona , mas ne m sempr e d o
histórias de princesas que conservam sua popularidade,
a ênfase é dada na luta contra a mãe, para que a filha
possa desprender-s e dela. Esta é uma
Capa-de-Junco, quase uma Cinderela operação necessária para que a mãe deixe a
or q u e esse s três co ntos , tã o ricos filha crescer e permita ser superada nas questões
e elaborados, que se prestam para femininas. Pareceria que, da parte do pai. não
ilustrar questõe s cruciais da vicia das haveria conflito, bastaria com que ele mantivesse
meninas, a bruxa ocupada. Como se vê. com essas histórias,
ocupam hoje um lugar menor e estão quase não é bem assim, há assuntos a tratar com o pai, ele
abandonados? A resposta não é difícil, já que é visível que tem um papel ativo na construção da identidade
seu conteúdo não é suportável para os nossos feminina.
contemporâneos. O século XX foi um século bem Existe uma variante dessas histórias que assinala
psicológico , no qua l se concentr o u a quais restos delas permaneceram disponíveis
extrema preocupação pelo caráter ideológico, nos nossos dias. É um conto cuja trama alude
pedagógico e psicológico de tudo que se difundiu, constante• me n t e a essa s qu e es t a m o s
particularmente no que se disponibilizava às crianças. Em an a l i s a n d o , mas combinado com elementos
BichoPeludo, Pele-de-Asno e A Ursa, a fantasia é comuns a outras histórias da tradição. O que chama a
muito explícita: temos Lima trama edípica exposta à atenção é que parte dessa história tem elementos
luz do sol, ela quase fala por si mesma, o que a deixa comuns com Cinderela, assim como outras
com um aspecto bem constrangedor . Não há evocam as qu e analisamos anterior• mente. É
seque r os disfarces clássicos, por exemplo, o padrasto como se fosse uma história de ligação entre as
ou um tio ocultando o caráter paterno daquele que semelhant e s à Bicho Peludo e à
faz a sedução, algo que livrasse a cara do pai. consagrada Cinderela. Esse conto chama-se
A unidade dessas três histórias está na diferença da Capa-de-Junco8 e nos chega a partir da compilação
posição do pai. Colocado na maioria dos contos do folclorista inglês Joseph Jakobs. Entre 1890 e
clássicos que sobreviveram como fraco, morto ou sem voz 1894, Jakobs publicou seus English Fairy Tales
ativa, aqui ele é chamado a proclamar seu amor ao e os Celtic Fairy Tales, considerados como o
extremo e escolher a filha. Na maior parte das cânone britânico para os contos da tradição.

102
Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso
e à

A história tem um início diferente, essa


jovem hão foge, ela é expulsa de casa pelo pai. Esse
homem tem três filhas e resolve lhes perguntar o
quanto elas o amam, as duas mais velhas respondem o
previsível, que o amam como a vida, como o
mundo todo. A caçula (sempre a caçula,9 nos
contos) responde de forma mais enigmática, diz:
"o amo tanto quanto a carne fresca ama o sal".
Furioso por não compreender tal afirmação, o pai
expulsa a filha ingrata que não teria sabido
expressar seu amor por ele.
Esse conto, menos conhecido em sua
forma folclórica, pelo menos em parte, ganhou
perenidade ao ser transformad o em tragédi a
po r William Shakespeare, na peça O Rei Lear. O
princípio das duas histórias é idêntico, pois Cordélia,
a filha mais nova de Lear, nega-se a adular o
pai como suas irmãs interesseiras. Ela dá à
pergunta do pai uma resposta que privilegia a
sinceridade e a pureza dos senti• mentos,10 mas
o rei interpreta mal. Desde o desterro em diante, as
histórias divergem; o rei Lear paga muito caro pela sua
injustiça, enquanto, no conto de fadas, o desenlace é
mais fantástico e feliz.
Expulsa de casa, Capa-de-Junco passa por
um charco e ali junta suficiente quantidade do
vegetal que a nomeia para fazer uma capa com
capuz, de forma a cobri-la da cabeça aos pés e ocultar
suas belas roupas. Como vemos, outra vez o disfarce dá
o nome à personagem e ao conto. Assim vestida, ou
melhor. oculta, ela se dirige às terras vizinhas
onde pede trabalho e obtém o mais degradado da
casa. Algum tempo depois, é organizado um baile, e os
empregados têm permissão para assistir às danças. Ela
declara que está muito cansada e vai dormir. Porém,
escondida de todos, retira a capa, se lava e vai ao
baile.
Óbvio que o filho do patrão da casa em que ela
trabalha não tem olhos para outra senão para a
bela dama que nossa heroína se revelou; a noite inteira
dança com ela, que foge ao final, retornando ao seu
disfarce de junco. Quando todos voltam, ela finge
acordar e escuta o relato das próprias proezas feitos
pelos servos da casa. A sucessão dos acontecimentos
repete-se por três noites, sendo que, na última, antes que
ela fuja. ele lhe dá um anel e diz que morrerá de tristeza
se não for correspondido. Ela novamente se vai e o
jovem começa de fato a morrer de amores pela dama
misteriosa.
Em casa providenciam um mingau para o doente,
que ela pede para fazer, deixando no fundo da tigela o
delicado anel que ele lhe dera. O jovem encontra a jóia,
o disfarce cai e a bela dama aparece, sendo pedida em
casamento pel o patrão. Toda a redondez a é
convidada, inclusive seu pai, mas a jovem ped
cozinheira que, no jantar do casamento, a carne
seja preparada sem sal. Uma vez à mesa, o
pai prova o prato, nào consegue comê-lo e
se põ e a chorar, declarando que finalmente
entende o que a filha, que à essa altura já devia
estar morta, havia lhe dito. Nesse mo men t o ,
Capa-de-Junc o abraç a o pai, qu e a
reconhece, e se perdoam mutuamente.
Num primeiro momento, o que
modifica essa história em relação às anteriores é a
inversão: não é o pai que ama a filha, ele exige ser
amado por ela. Esse pedido do pai se repete em
outros contos, muitas vezes, associado à distribuição
da herança. O filho mais jovem, sempre o mais
devoto ao pai, leva a pior, por não ser hipócrita
como seus irmãos mais velhos, e sempre se revela
o de coração mais puro ou o mais bem-sucedido. De
qualquer maneira, justamente porque o pai
é incapaz de reconhecer o valor desse filho, ele é
fadado à aventura, vai buscar em outros reinos
o valor que lhe é negado no seu. Em casa é o
menor, no mundo provará que pode ser grande,
em todos os sentidos da palavra.
Assim, a nossa jovem é lançada à rua, mas
convém analisar a resposta que ela dá ao pai,
já que é bem enigmática. A jovem nào
responde com a abstração das irmãs, lança
mão a uma metáfora doméstica, situando o
pai como o tempero que torna a carne
apetitosa. Nisso, a história se inscreve na
seqüência das que estávamos estudando: uma
história de amor entre pai e filha, em que ele é o
que lhe dá os atributos que a tornarão sedutora.
Talvez nào haja metáfora mais rude e, ao
mesmo tempo, precisa do que falávamos antes
do que dizer que a filha é a carne e o pai o
tempero. Porém, dessa vez, é ele que se incumbe de
interditar o amor, negando- se a compreender o jogo
de palavras. Manda-a procurar seu tempero lá fora.
Mas, em verdade, ela já o tinha, sob a forma das
ricas vestes, e o caso agora é como administrar
isso fora da família. Como as suas
companheiras peludas, terá de se disfarçar e ir
mostrando aos poucos, tanto quanto suporta deixar
ver.
É aqui qu e se estabelec e a
con ex ã o com Cinderela: há o elemento dos três
bailes, da fuga e da pista que elas dão ao homem
amado ou que ele lhes dá, sejam os objetos de
ouro, o anel ou o sapatinho. Cinderela também
tem em comum com este conto o fato de ser a
preterida entre as filhas, a destinada ao trabalho
sujo.
Normalmente , os conto s tradicionais
são o resultado de diversas combinatórias
com elementos em comum. Eles são tais quais os
diversos jogos que podem ser jogados com o
mesmo baralho, por isso, a
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s História s Infa nti s

repetiçã o nã o su r pr ee n d e . O q u e estamo s Notas


situand o ness e m o m e n t o é um a espéci e d e cont o
d e transiçã o entr e aquele s q u e hoje n ã o sã o tã 1. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Contos de Fadas. Belo
o p o p u l a r e s e o c on t o q u e vence u a barreira Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
d o t e m p o , o u seja, a Cinderela. Por isso, vale a 2. PERRAULT, Charles . Contos de Perrault.
pen a situar o q u e se mantev e aind a em Capa-de-Junco Belo
e o q u e m e s m o nel e se perde u . Horizonte: Itatiaia. 1989.
3. Temos um exemplo num conto russo no qual o que
faz o pai afastar-se é a pele. "No conto Pele-de-Porco,
Jogo de esconde-esconde o pai se apaixona pela filha e deseja desposá-la: 'Ela
foi até o cemitério chorar carinhosamente
q u e cham a a atençã o nessa s histórias sobre o túmulo da mãe'. Disse-lhe a mãe: 'Pede
é o fato de os outro s só enxergare m o que ele te compre um vestido recamado de
q u e as heroína s q u e r e m q u e seja visto. estrelas'. A jovem obedece, mas o pai está cada
Enquant o vez mais apaixonado. A mãe aconselha então a
estã o ocultas so b se u disfarce d e pel e filha a pedir um vestido ond e estejam
representados o sol e a lua. 'Mãe. meu pai continua
o u junco , ningué m perceb e sua beleza . No
a me amar cada vez mais!' Dessa vez a mãe lhe diz
ba n q ue t e de bodas , o própri o pai d e Capa-de-Junc
para pedir qu e a cubram com uma pele de porco :
o n ã o not a q u e a noiva é sua filha, até que ela
O pai cuspi u de nojo e expulsou-a'
o abraça . Da mesm a forma, as irmãs de
(Afanasiev 161 a/ 290)" In: PROPP,
Cinderela tam bé m sã o incapaze s de percebe r qu e
Vladimir. As Raízes Históricas do Conto
a mus a do baile é a própri a irmã, embor a a Maravilhoso. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p.
tenha m observad o a noite toda . Dessa forma, partind o de 174
uma casa o n d e o amo r entr e pai e filha se torna
4. Nos ocuparemo s mais desse processo no
insuportável, cai-se nu m outr o registro o n d e a Capítulo
jovem n ã o está mais exposta , ela é mestra d o s disfarces e VIII, sobre o conto de João e o Pé-de-Feijào.
p o d e se iniciar na arte feminina de oculta r e mostrar, 5. JERUSALINSKY discute essa questão em termos mais
para atiçar o desejo. complexos , ressaltando a importância do
O dramátic o é q ua n d o , na vida real, as desejo paterno para o sucesso da separação com a
menina s nã o conse gue m deixa r d e ser u m "Bicho mãe: "(a menina) acaba de se separar do corpo
Peludo" . O u seja, par a fugirem de um supost o materno e se instalar no lugar U'm, que vai
olha r p at er n o , e c o n s e q ü e n t e m e n t e d e u m desej buscar no olhar do Outro algo que a reconheça. F.
o incestuos o , certas mulhere s opta m po r enfear-se. ali qu e seu destino se bifurca. Será qu e vai ser
A forma mais c o m u m de esconder-se , e um do s sintoma no olhar da mãe ou no olhar do pai? Para qu e
disfarces mais difíceis de tirar, parec e ser a ela possa buscá-lo no olhar do pai, o pai tem que ser
gordura . Sob análise, descobrimo s q u e certas desejante. Isto é, tem que se mostrar obsceno. A
mulhere s assim s e ma ntê m obesa s po r um a dificuldade obscenidade do pai é essencial para a construção do
extrem a e m suporta r u m olhar desejante , agora já sintoma feminino, numa posição tal que o desejo
generalizado , ou seja, vind o de qualq ue r um . Mas o da menina - o desejo feminino - escape a uma
vestir-se p o d e ser tam bé m fonte de litígio: certas identificação absoluta com o fantasma materno" . In:
adolescente s sã o mestre s n u m a estética q u e desagrad e JERUSALINSKY, Alfredo. O Desejo Paterno.
ao s pais o u q u e sirva c o m o disfarce. Outras , Porto Alegre: Correio da APPOA. Ne 79 - ano
emb or a raras, prefere m a sujeira e o fedor corn o um IX.
eleme nt o qu e a s torn e desinteressantes , o q u e 6. A psicanalista Eliana Calligaris resgata uma
parec e ser um a defesa mais masculina. impor• tante contribuição de Helene Deutsch e
De qualquer maneira, o qu e se perdeu , o ressalta a dupla face dessa figura paterna,
grand e esquecid o das histórias tradicionais qu e cuja sedução se revela necessária e perigosa:
noss o temp o herdou , é, co m certeza, o amo r "Helene Deutsch fez uma distinção: a menina
confesso entre pai e filha. Em Cinderela, já nada dele pequen a tem dois pais - o pai do dia, co m o qual
restou. Realmente, esse deve ser um assunto be m sua relação é consciente e sublinhada por uma
cabeludo... ou peludo , se no s permitem o trocadilho. troca amorosa; e o pai da noite, qu e acarreta
ameaças de crueldade e sedução, e
'que mobiliza sonho s angustiantes' (...) Seduzir
o
D i a n a I i c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co r s o

pai significa despertar o pai da noite: ele reconhecerá


que o corpo da menina é feminino, pois foi ele qu e o
castrou. Só qu e esse pai é chamad o a rasgar
a foto da entrega sem limites, ou seja, a foto qu e
no olhar da mãe cativa a menina num a eterna pequen
a comunhão. O pai, em suma, é também o
salvador. Por um lado é cruel e sedutor (o pai da
noite), por outro, afastou d o corp o d a
menin a o s flashes ofuscantes da mãe". In:
CALLIGARIS, Eliana dos Reis. Prostituição: o
eterno feminino. Dissertaçã o de Mestrado em
Psicologia Clínica. PUC/São Paulo 1996.
7. BASILE, Giambatistta. El cuenlo de los cuentus
(El
Pentamerón). Barcelona, José J. de Olarieta (ed.), 1992.
8. JAKOBS, Joseph . Contos de Fadas Ingleses.
São
Paulo: Landy, 2002.
9. Acreditamos que a persistente escolha do filho caçula
para encenar o drama da separação do s pais e
cio crescimento necessário deve-se ao fato de
qu e se supõe que ele será o último a sair de casa,
a casar. Antigamente, inclusive, existia a regra
de qu e as filhas se casassem por ordem de
nascimento, de tal
forma qu e nenhum a pudess e se casar antes
qu e sua irmã mais velha . Da mesm a forma
co m o o primogênito paga o preço da inexperiência
de seus pais, o caçula fica com o ônu s da resistência
destes de ver a família se dissipar.
10. Estas são as palavras da resposta de Cordélia: "Meu
bo m senhor, tu me geraste, me educaste,
amaste. Retribuo cum prind o me u deve r d e
obedecer-te , honrar-te e amar-te acima de todas
as coisas. Mas para qu e minhas irmãs têm os
maridos se afirmam qu e ama m unicamente a ti?
Creio que , ao me casar, o home m cuja mã o
receber a minha honra deverá levar també m
metad e d o meu amor, do s meu s deveres e
cuidados. Jamais me casarei com o minhas irmãs, para
continuar a amar meu pai - unicamente". Julgando que
sua resposta era movida pela ingratidão e pelo
orgulho, Lear a desterra e deserda, dizendo- l h e :
"tu a v e r d a d e ser á e n t ã o te u d o t e " . In:
SHAKF.SPEARE, William. O Rei Lear. Porto
Alegre: L&PM Editores, 1981.

105
Capítulo VII
A MÃE, A MADRASTA E A MADRINHA

Cinderela e
Cenerentola
Diferentes papéis atribuídos à figura da mãe - Rivalidade fraterna -
Valor da memória dos pais da primeira infância - Sedução - Fetichismo no amor

ertamente Cinderela é um dos do roteiro do desenho animado de Walt Disney (1950)


mais p o pu l ar e s conto s foi retirada da história francesa. Como no
d e fadas, sua estrutura é caso de Branca de Neve e suas similares, outra vez
simples, seu apelo é forte temos uma órfã nas garras de uma madrasta. O
e não ha quem não se personagem do pai é tão irrelevante que, em certas
emocione com esse destino . versões, não fica claro se já morreu ou se não se
Historiadores tê m importa com a filha. Nesse conto, além da madrasta
en co n t r a d o variaçõe s sobre para atazanar a vida de nossa heroína, existem as
essa narrativa em quase todas irmãs que lhe detestam.
as culturas, e sua anti•
guidade é proporcional à sua difusão. Já foi
docu• mentada uma versão chinesa do século IX da A Cinderela italiana
nossa era. Seu contraponto masculino não é
conhecido na nossa tradição ocidental, mas em inderela tem seu ancestral literário
culturas indígenas norte-americanas en co ntr am o s escrito por Giambattista Basile, fazendo
o Ash-Boy, um Cinderelo, com uma estrutura parte do
bastante similar à da faceta feminina. Pentamerone, uma compilação
A versão hoje mais difundida se deve basicamente a publicada em 1634, em dialeto napolitano,
Perrault (1697), seguida em popularidade pela versão dos narrada por várias vozes, ao longo de cinco noites
irmãos Grimm (1812). A maior parte dos elementos — com o mesmo tipo de estrutura narrativa do
Decameron. Basile recolheu histórias populares e,
entre elas, apareceu Cenerentola,'
Fadas no Divã - Psicanálise na s Histórias Infantis

a Cinderela italiana, avó da Borralheira que ainda vive folhas. Em poucos dias a árvore havia crescido, alta
entre nós. "como uma mulher". De seu interior saiu
Cenerentola conta as desventuras de Zezolla, uma fada que lhe perguntou o que ela queria.
a filha de um viúvo, mimada po r ele e Ela respondeu que queria poder sair da casa
po r uma governanta que lhe era muito devota. sem que suas irmãs soubessem. A fada lhe
Passado algum tempo do luto, o pai casou-se ensinou as palavras mágicas que. entre outras, dizia
com uma mulher malvada, que dedicava á enteada para a tamareira ao sair: "dispa- se e vista-me
um péssimo humor. Enquanto isso, Zezolla não rápido"; e, ao voltar, "dispa-me e se vista"
parava de lamentar o quanto desejaria que a (como se a árvore emprestasse as roupas).
governanta fosse sua madrasta, em vez dessa Chegada a temporada de bailes, Zezolla
terrível mulher. Foi essa queixa que oportunizou com• pareceu suntuosamente vestida, transportada por
a Carmosina (a governanta) propor a Zezolla uma luxuosa carruagem, a ponto de polarizar
uma forma de matar a madrasta e depois insistir junto comple• tamente a atenção do rei (que pelo jeito era
ao pai para que a desposasse. A menina fez solteiro). Na saída da festa, o rei colocou um servo
tudo conforme planejaram: deixou cair a tampa para segui- la, mas ela jogou moedas de ouro no
de um baú sobre o pescoç o da madrasta e chão, e ele se distraiu recolhendo-as. Dessa forma,
depoi s convenceu o pai a efetuar novas bodas com conseguiu manter seu mistério. No segundo baile,
Carmosina, a qual havia prometido qu e lhe apresentou-se ainda mais luxuosamente
seria fielmente dedicada. Durante as bodas do pai, paramentada, dançou com o rei, mas voltou a fugir,
Zezolla recebeu a visita de uma pomba que lhe dessa vez, jogando pedras preciosas que tinha
disse: "quando você desejar alguma coisa, mande o preparado para livrar-se do criado, que
pedido para a Pomba das Fadas, na ilha da Sardenha, e novamente a perseguia a mando do rei. Ainda numa
você terá seu anseio instantaneamente atendido". terceira festa, a cena se repetiu, ainda com
Não demorou muito tempo para qu e a mais ostentação. Como o rei estava muito
nova madrasta trouxesse para a família suas determinado a descobrir quem ela era. foi obrigada
seis filhas, mantidas ocultas até então, e Zezolla a fugir correndo e. na pressa, deixou seu tamanco
começasse a ser tratada como criada, vivendo na cair.
cozinha, entre as cinzas da lareira, passand o O rei organizou grandes jantares para
a ser chamad a de Cenerentola. O pai esqueceu-se experi• mentar o tamanco em todas as damas do
da filha, ficando total• mente envolvido com as reino, mas em nenhuma delas serviu um calçado
enteadas, a quem dedicava a mesma atenção de que tão delicado. Desesperado, lançou um pedido aos
antes ela era objeto. seus súditos para que apresentassem todas as
Km certa ocasião, o pai teve de tratar de negócios candidatas possíveis. Em função disso, o pai de
na Sardenha e oportunizou a cada filha que Zezolla lhe comentou que tinha mais uma filha em casa,
pedisse presentes. As seis enteadas fizeram suas mas que ela era tão esfarrapada e suja que não poderia
encomendas de roupas, perfumes e enfeites. sentar-se à mesa real. Mesmo assim o soberano
Dirigindo-se com ar zombeteiro para a própria ordenou que ela fosse trazida e, assim que a viu,
filha - lembrava de todos menos de seu próprio soube que era a moça que ele estava buscando. O
sangue, diz a história -, permitiu- lhe fazer também um conto não relata como ela estava trajada ness a
pedido. Ela respondeu que nada queria, mas pediu que o cas i ã o , pel o jeit o co m seu s andrajo s
levasse suas recomendações à Pomba das Fadas e lhe costumeiros. Assim que ela se sentou para
oferecesse a possibilidade de ela lhe mandar alguma experi• mentar, o pequeno tamanco arremessou-
coisa. Ele comprou todos os mimos solicitados se magica- mente para seu pé, reconhecendo sua
pelas enteadas, mas se esqueceu do pedido da filha. dona. Zezolla foi coroada imediatamente, e ás
Porém, ela havia lançado um feitiço: se ele não a irmãs coube apenas morrerem de inveja e
atendesse, não teria como voltar. O navio em que correrem para casa queixar-se para a mãe da
pretendia regressar não pôde sair do porto. Só então ele injustiça de não terem sido escolhidas.
lembra do pedido da filha e vai providenciá- lo; depoi
s disso , o navio enfim zarpa. Meio a
contragosto, ele trouxe para ela o que as fadas enviaram:
uma muda de tamareira, uma enxada de ouro, um balde A Cinderela francesa
também de ouro e um guardanapo de seda. versão seguinte, numa seqüência cronológica
Zezolla plantou a árvore com os das três mais famosas, é a de
instrumentos que se revelaram mágicos, regava-a Perrault, chamada de Cinderela ou O
e limpava suas Sapatinho de
Vidro..2 A Cinderela francesa só tinha
uma madrasta, que começou a maltratá-la de entrada. Com

108
Di a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
o é tã o magn ânim a q u an t o a anterior. A
Cinderela 3 a le m ã é mai s p r ó x i m a d e
Zezoll a e d a s
ela vieram dua s filhas, possuidora s do m e s m o péssim o
gênio da mãe. Do pai, Perrault diz a pe n a s q u e
teria repreendido a filha cas o ela se queixass e da
madrasta ,
"porque era sua mulhe r q u e m dav a as or de n s na casa",
em suma, um fraco. Ela trabalhav a de sol a sol, po r é m
se mantinha afável co m todos .
Quando chegou o convite para o baile, a ningué m
ocorreu que ela poderia comparecer, afinal, era
com o uma criada. Após pentea r e arrumar as irmãs co m
esmero, ela se sentou na cozinha a chorar. Foi nesse
moment o que surgiu sua madrinha, um a fada qu e a
obrigou, entre soluços, a confessar seu desejo de ir ao baile.
Com vários passes de mágica, ela providenciou a
carruagem - a partir de uma abóbora, tend o ratos e
lagartos transformados em cavalos, cocheiro e libres - e
os vestidos necessários para fazer de sua chegada um
acontecimento. Mas havia um senão: o encantament o só
durava até a meia-noite. O desejo foi alcançad o e,
mais do q u e isso, sua aparição paralisou a festa.
Ela se torno u o centr o da s atenções do príncip e
solteiro, e o assunt o obrigatóri o nos comentários
do baile. Lá ela dedico u particular atenção às
irmãs, co m q u e m partilhav a as iguarias
oferecidas, se m ser reconhecida . Ao voltar para
casa, sentiu muito praze r em escuta r o relat o
da s irmãs, maravilhadas pela bela desconhecid a , se m
n e m seque r
suspeitar qu e fosse ela.
Na segund a noit e de baile. Cinderela repeti
u a proeza, mas distraiu-se d a n ç a n d o co m o
príncip e e teve de sair c or re n d o q u a n d o soara m
as badalada s das doze horas . Na pressa, deixo u
cair um de seu s sapatinho s d e vidro . N a
poss e dele , o p r í n c i p e determinou-se a
encontra r a amad a misteriosa, poi s ele já estava
ap ai x o na d o po r ela. Procurara m entr e todas as
mulhere s do rein o e em n e n h u m a servia um
calçado tão diminut o e elegante , até chega r à casa
de Cinderela, q u e pedi u para prová-l o também ,
apesa r de que caçoava m dela . Num a ap ot e o s e final,
q u a n d o o calçado serviu, a moç a tirou o outr o
pé de sapat o do bols o e aind a a fada
m a d r i n h a a p a r e c e u par a transformar o s trapo s n o
mais bel o do s vestidos.
A boa Cinderela de Perrault casou-s e co m
seu amado e ainda perdoo u suas irmãs malvadas,
levando- as para o palácio e providenciando-lhes bon s
casamentos.

A Cinderela alemã
próxim a versão , do s irmão s Grimm , nã
o é tã o popular , e su a pe rs o na g e m nã
t u d o s e repetiu , ma s dess a ve z ela

moça s qu e mostrara m su a b el e z a em
m o m e n t o s mágicos , ma s se es c on d er a m em
trapo s e pele s até o m o m e n t o final d a
revelação .
Nest a história , o vín c ul o d a jove m
c o m su a f a l e c i d a m ã e é m u i t o r e s s a l t a d o
: el a s e g u e a s r ecomendaçõ e s dest a n o leito d
e morte , d e ser sempr e bo a a piedosa , e chor a
diariament e em seu túmulo . Q u a n t o a se u
pai, em brev e voltou a se casar co m um a
mulher, mã e d e d u a s filhas, amba s d e bela
apa • rênci a e péssim o coração . A ela s
c o u b e o p a p e l p r e p o n d e r a n t e de es p ez in h a r
a nov a irmã, q u e foi rebaixada , obrigad a a
fazer trabalho s forçado s e a habitar e m mei o
à s cinzas.
Certa ocasião , ante s de partir para um a
viagem, o pai pergunt o u par a as três o q u e
queria m q u e ele trouxess e d e presente . A o
contrári o da s irmãs, q u e solicitaram as riqueza s
costumeiras , ela pedi u ape nas :
" o primeir o galh o d e árvor e q u e bate r e m teu
chapéu , q u a n d o estiveres voltand o para casa".
Q u a n d o recebe u a e n c o m e n d a , um galh o de
aveleira, a jovem planto u a m u d a n o túmul o
d e sua mãe , regando- a co m sua s copiosa s
lágrimas até q u e a mud a s e transformou e m
um a árvore . Freq üente me nt e , q u a n d o ela s e
sentav a à su a sombr a par a reza r e chorar,
em seu s galho s p o u s a \ a u m passarinh o q u e
realizava seu s desejos.
Um dia cheg a um convite para um a
festa q u e duraria três dias, o n d e o príncipe
devia escolher sua noiva. Por dua s vezes, Cinderela
implorou para també m comparecer , mas a
madrasta, a contragosto, disse qu e só permitiria
cas o ela conseguiss e catar os pratos de
lentilhas qu e ela esvaziou entr e as cinzas - o qu e
julgava impossível. Q u a n d o a jovem realizou a
tarefa, graças à ajuda do s passarinhos, a perversa
mulhe r lembrou-a de q u e ela n ã o tinha roup a e entã o
nã o poderi a ir. Q u a n d o elas se foram, Cinderela apelo
u para suas aves mágicas. Curiosamente , foi
obedie nte , poi s é impossível nã o observa r qu e
ela poderi a ter apelad o para essa soluçã o mágica
desd e o começo , mas, através dess e expediente , ela
obtev e a permissã o da madrasta para ir, pois realizou
as tarefas e só nã o p ô d e comparece r po r falta de
roupas . Então, providencian d o as vestes, ela nã o
estaria fazendo nad a d e errado .
Co m o s belo s vestido s em prestad o s ,
co m p ar e • ce u a o baile e obtev e o s favores d o
príncipe , q u e n o fim se ofereceu para acompanhá-l a
até sua casa, curioso po r sabe r q u e m ela era.
Pert o d e casa, ela fugiu del e e pulo u n u m
po mbal . Co m ajuda d o pai d a moça , eles
derrubara m o pom bal , ma s nã o a
encontraram . Ela já correr a par a devolve r o
vestido , q u e deixar a sobr e o tú mul o d a m ã e
par a ser recolhid o pela s aves . N o s e g u n d o baile,
Fadas no Divã — Psicanálise nas Histórias Infantis

se escondeu do príncipe subindo agilmente lhe declara seu amor, e só então ela revela que é a
numa pereira, que novamente foi derrubada, bela dama do baile. Por isso, não convém julgar qual
sem qu e a identidade de Cinderela fosse descoberta. é a melhor versão, acreditamos que o tempo faz uma
A cada vez que ajudava o príncipe, o pai se seleção natural dos aspectos da história adequados a
perguntava se seria sua filha a princesa misteriosa, cada época e. se ela continua sendo contada, é porque
mas nada disse. Na terceira noite, o príncipe em sua essência ainda tem algo a dizer.
preparou uma armadilha: mandara passar piche As versões mais complexas, a italiana e a alemã,
na escadaria, dessa forma um delicado sapato permitem detalhar melhor a força da relação da moça
dourado da fujona ficou preso. Munido da pista, o com sua finada màe, que aparece no derramamento de
príncipe foi buscar sua amada. lágrimas sobre o túmulo e na busca de Zezolla por uma
Mandou experiment a r o sapat o em substituta, que termina sendo a Pomba das
todas , declarando que se casaria com sua dona. Fadas. Também nestas, os mistérios de Cincierela
As irmãs tentaram calçá-lo, mas como era pequeno assumem o ar de uma certa picardia infantil;
demais, a mãe delas cortou o calcanhar de uma subindo em árvores, jogando iscas para distrair o
e o dedo da outra. Conformado, já qe elas criado, as moças vão a baile como mulheres, mas fogem
haviam calçado o sapato, por duas vezes, o príncipe como molecas. O que essas duas histórias oferecem
pôs uma das irmãs sobre seu cavalo, disposto a em relação a Perrault é uma riqueza maior, o
desposá-la. Mais uma vez, os pássaros mágicos que é bem-vindo para nossa análise, enquanto a
ajudaram, avisand o o príncipe de que havia versão francesa é a melhor síntese. Talvez esta versão
sangue no sapatinho. hoje domine a cena justamente pela forma, pois é a
Voltando para a casa do pai de Cincierela, que melhor amarra os elementos da história.
ele perguntem se não haveria outra filha - afinal a Em todas elas, a madrasta parece não
amada sempre desaparecia em seu quintal. O pai invejar diretamente a juventude, a beleza e o bom
disse que só restava uma maltrapilha, mas o caráter de Cincierela, mas deixa claro que não
príncipe exigiu que ela também experimentasse. O suporta a falta desses dons em suas filhas
sapato serviu e o príncipe a reconheceu. Quando legítimas. O castigo é simples, fazer a menina
tentavam assistir ao casamento daquela que tanto trabalhar, com a expectativa de que o próprio
haviam maltratado e que agora adulavam, as duas trabalho haverá de enfeiá-la. O nome da heroína em
irmãs finalmente foram castigadas: as mesmas diversas línguas, que também dá nome ao conto, é
aves qu e tanto auxiliaram Cincierela furaram- sempre o mesmo: uma alusão às cinzas do fogão
lhes os olhos, cond en an d o à cegueira aquela e ao fato de estar junto a ele, de forma que sempre
s qu e só se importava m com a aparência. fica marcado o lugar daquela que trabalha.
Existem outros contos que insistem na idéia
de que a fadiga do trabalho acaba com o
O essencial encanto e a beleza, que as vestes rústicas da
camponesa tornam invisíveis os encantos da princesa,
ara Bettelheim, "A borralheira de Perrault é sem falar da descida na escala social, pois quem
adocicada e de uma bondade insípida e não trabalha não é nobre. Este é então o destino da
tem nenhuma iniciativa (provavelmente heroína, não ser amada em casa e trabalhar feito um
por servo. Porém, tão bom é seu caráter que ela suporta a
essa razão Disney escolheu a versão carga sem pestanejar e não só trabalha muito, como
de Perrault como base de seu relato cinematográfico). trabalha bem. Sua trajetória contém de forma
A maioria das outras borralheiras são mais gente".4 De fato, dramática uma virada clássica nos contos de
comparativamente, parece que Zezolla e a fadas, em que o herói prova no mundo externo uma
grandeza que em casa ninguém via.
Cincierela dos Grimm são mais travessas, precisam plantar
e regar a árvore de onde provém a boa magia e Cincierela dá um colorido forte a
são menos atenciosas com suas algozes. Porém, sofrimentos como o de nào ser amada pelo pai, que a
a história de Perrault sintetiza melhor toda a abandona à mercê da mulher perversa e da dor pela
trama, é um roteiro mais eficiente e perda da màe boa. Trazendo todos esses conflitos
acreditamos qu e não se perde a seqüência para dentro da cena doméstica, essa história
permite uma emparia imediata de qualquer filho
essencial: a boa alma, companheira da beleza,
com ela, já que cada um sempre se sentirá
encontra o devido reconhecimento apesar dos trapos
demasiado injustiçado e exigido, assim com o
qu e a ocultam. A jovem joga um esconde-
pouc o amado . Acreditamos qu e daí provém
esconde com o príncipe e com sua família, seu sucesso. Por isso, não importa se a heroína
que se nega a ver nela algum valor. Ele investiga, a
descobre,
Di a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
desejáveis, sa b e q u e está na hor a de ser olhad a po r
um h o m e m , e o baile
de Perrault é mais adocicada , já q u e o e nc a nt
o do conto é m esm o su a v oc a çã o par a o
dram alhão .

As filhas prediletas
s irmãs de Cinderela sã o seu avesso, pregui•
çosas, mal-humorada s e orgulhosas . Mes m
o q u a n d o é dito qu e sã o belas (Grimm),
sã o
aparentemen t e se m atrativos, nã o
obstant e detêm o amo r da mã e . O raciocínio óbvi o seria
atribuir essa preferência ao s laços de sangue , mas
isso já nã o salvou outras personagen s da s maldade
s maternas , e, como costumamos constatar, madrasta é
um qualificativo transitório d a mãe . Outr o ca minh o
seria pensa r q u e essas filhas infantilizadas ainda nã o
ameaça m o reinad o d a madrasta, elas n ã o s ã o
aind a mulheres , n ã o h á oposição, são crianças
mimadas , vivend o n o te m p o e m que a mãe ainda era
bo a e foco de admiração .
D e q u a l q u e r m o d o , ess a história engaj a
s e u s leitores num a profund a empati a co m a filha
q u e nã o é preferida n o amo r do s pais. O n d e
houve r irmãos , haverá desigualdad e d e fato o u a
suposiçã o d e q u e ela existe. É raríssimo o cas o
em q u e um g ru p o de irmãos consider e e q u â n i m e
a distribuiçã o do amo r dos pais. N or m a l m e nt e ,
o s filhos o b s e r v a m q u e a preferência do s pais, e
principalment e da mãe , incidirá sobre o filho m e n o s
independente , m e n o s rebeld e aos mimos, mais
exigent e d e atenção . O s filhos q u e mostram maior
interesse pel o m u n d o extern o qu e pelo s assuntos
doméstico s n ã o sã o digno s dess a escolh a po r serem
traidores. Para ama r fora de casa, é precis o ter
diminuído a importânci a do amo r dentro .
As irmãs da borralheir a se deixara m arruma r par a a
festa pela mãe , ma s c o m o c o m p l e m e n t o a su a glória. As
filhas só parecia m bela s ao s olho s matern os , su a
aparência n ã o foi chamativ a par a o príncipe ,
p o r q u e não foi par a el e q u e ela s se enfeitaram . Fora m
par a a festa com o os filhos p e q u e n o s iriam a um
aniversári o infantil. Co m Cinderela , o cas o
er a o u t r o : s e u embelezament o tinh a o e n d e r e ç o
cert o d o olha r d o príncipe e imediatament e se produ
z o efeito desejado . Esse feitiço sobr e o rapa z é descrit o
s e m p r e da mes m a forma: toda s as outra s moça s e
o rest o da festa se apagam, el e s ó tev e olho s
par a su a eleita. Portanto , não s e trata mai s d e
se r escolhid a n o a m o r d a m ã e ou do pai, o alv
o da flecha é o u tr o c or a çã o .
A reaçã o da jove m começ a q u a n d o ela faz a
su a primeira reivindicação : ir a um baile. Sua
vontad e é d e s e coloca r entr e a s m ul he r e s
. Em Cinderela,

é o lugar o n d e isso acontecerá . A madrast a 111


lh e dá várias missõe s impossívei s d e m o d o a
dificultar se u debut e , q u a n d o finalment e ela
ve n c e t od o s esse s desafios , aq u el a igual ment
e n ã o lh e ajuda. É um a recus a a admitir um
lugar diferente par a noss a heroína , para q u e ela
poss a a o m e n o s sonha r co m u m destin o melhor.
Além de ser impedid a de ir, Cinderela terá de s
e dedica r ao s preparativo s d e sua s irmãs par a o
baile. Finalment e cheg a o auxíli o na figura
da fada
madrinha . A madrinh a é a substituta da mã e
na sua falta, o q u e já n o s dá um a pista sobr e se
u significado. Perrault a p e n a s explicita melhor,
personificand o n u m se r m á gi c o aquil o q u e
n o s Grim m e e m Basile é r et r a t a d o d e
form a mai s simbóli c a e espiritual . O
important e é q u e no s três caso s o auxílio é
provenient e d o q u e decanto u d o antigo amo r do s
pais, agora morto, d es e nc ar n ad o , q u e j á n ã o te
m lugar n o m u n d o real da jovem.

Memórias encantadoras
a m o r m at er n o d á um a seguranç a q u e
p o d e se r a p r o v e i t a d a em vár i o s
m o m e n t o s e inclusive, contra t u d o e
contr a todos , no s
m o m e n t o s cruciais. É um a força
oriund a d o fato de q u e um dia fomos amados ,
significamos algo par a alguém, e imbuído s dessa
convicçã o vamo s entã o à luta. O d o m da fada
madrinh a - o m e s m o valend o para suas
similares - na verdad e é simples: restituir alg
o q u e um a filha já teve, q u a n d o era objeto do olha r
m at er n o a pai x o na d o d e q u e o s p e q u e n o s s e
nutrem . S ó u m o l h a r d e s s e calibre , h e r d e i r
o d e s s e amor , possibilitará q u e o encant o seja
realçad o e n ã o cobert o p o r cinza s e roupa s feias.
O q u e fica e m cad a u m d e nó s da força dess e
primeir o amo r matern o será o cern e d o narcisismo
ulterior d o sujeito, aquil o q u e c h a m a m o s
err o ne a m e nt e de auto-estima . Na verdade , é
tant o a força d e um a alter-estima q u e o funda,
q ua n t o reque r um olha r extern o par a ser
reafirmada a cad a tanto . F m geral , a s m ã e s
c o n t e m p l a m s e u s filhos c o m a mesm a paixã o
d o príncip e para Cinderela: eles sem pr e se r ã o o s
mai s b o n i t o s d a festa. Mas se u p o d e r é
temporário , a m ã e log o desapar ece , a o
contrári o d a madrast a q u e a m a n t é m so b o
jug o po r u m períod o mai s longo .
No s contos , madrast a é sinônim o d e m ã e
má, a ela sã o reservado s o s papéi s d a inveja,
d a colocaçã o d e entrave s par a q u e a menin a
s e torn e um a mulhe r
(Cinderela ) o u ainda , e m su a versã o mai s
mortífera, d o ód i o assassin o (Branca d e Neve)
Fadas no Divã — Psicanálise nas Histórias Infantis

temos o contraponto da fada madrinha ou das árvores pinçamos os trechos que nos convêm,
mágicas (quer crescidas no túmulo da mãe, cortamos os discordantes e alteramos alguns fatos e
quer enviadas pelas fadas, estas são erguidas datas.
sobre a memória da mãe perdida). Essas fadas são Na versão de Perrault, a fada madrinha viria era
personagens mais evanescentes, destinados a preservar seu auxílio sempre que, desesperada, a jovem deixasse
o lado bom da mãe, ou seja, a mãe da primeira cair lágrimas denunciadoras da força de seu desejo. A
infância. Porém, enquanto a madrasta é uma fada interroga o motivo de sua tristeza e providencia
personagem real, as fadas ou seus representantes uma ajuda: fazer dela uma princesa, mas por algumas
são figuras interiorizadas, aparecem apenas na horas apenas . De alguma forma, na hora
intimidade da jovem e são um segredo seu.5 de se apresentar para um homem, há uma
Na versão dos Irmãos Grimm, a jovem costumeira- reconciliação com uma dimensão boa da mãe, uma
mente visita e chora sobre o túmulo da mãe possibilidade de se identificar com seus melhores
onde plantou uma a veleira, proveniente do primeiro atributos. Em função desse desejo, a magia
galho de árvore que bateu no chapéu do pai quando materializa-se e oferece os objetos necessários
estava voltando de uma viagem. Foi esse galho, um para que a menina obediente e rústica, agora
símbolo do desejado retorno do pai, que vestida para seduzir, fosse ao baile.
embora vivo, na prática estava perdido, que ela As ajudas benignas nos contos de fadas oferecem
plantou e regou com as lágrimas de seu desamparo. instrumentos, jamais uma solução. A vida
Túmulo, árvore e pássaros mágicos formaram uma raramente transforma alguém em outra coisa, ela
espécie de altar dedicado aos pais da primeira infância, apenas brinda com alguns acasos, fatos e contextos
de onde se retira a força para seguir adiante. A mãe pelos quais uma vida pode mudar seu rumo. Os
biológica está morta, e o pai agora é um bobo insigni• objetos mágicos são representantes dessas
ficante, totalmente incapaz de protegê-la e condições, dão oportunidade à personagem de
valorizá- la. Mas nesse altar, se consuma a fertilidade revelar seus dons, são, por exemplo, vestes que
do pai (o galho que brota) sobre o corpo da ressaltam a beleza, botas de sete léguas que dão
mãe (a terra do túmulo), representados velocidade à esperteza do herói, o objeto surge então
espiritualmente pelo pássaro" e regados com a inserido no contexto de seus desafios e capacidades.
saudade cia filha. É um espaço de culto aos pais
perdidos - e por isso idealizado -, aqueles que
foram tão pcxlerosos a ponto de nos dar vida e tão As três formas da mãe
protetores a ponto de nos permitir que
sobrevivêssemos a riscos e incapacidades da primeira , u a n d o a filha s e dedica a fascinar seu
infância. A jovem está crescida, já não precisa prínci• pe, ela comete não uma, mas duas
mais ser carregada e alimentada, por isso, os pais da traições, já que ela não deseja mais
infância vivem apenas na memória. impressionar a
O encantamento capaz, de fazê-la renascer mãe e, ao mesmo tempo, ofusca-a
das cinzas para um novo tipo de amor, não mais como mulher, tornando-se centro das atenções. A mãe
materno, provém de um espaço interior à Cinderela. Todos perde o jogo, pois nem ela, nem suas lindas
temos, como ela, que montar com nossas criancinhas são o foco da atenção. Agora é a vez de
próprias mãos o altar onde colocamos as a jovem mulher ser o alvo dos holofotes. Não é de
evocações da infância, as lembranças que se admirar que a escolha dessa mulher recaia sobre
guardaremos conosco para uso em outros suas filhas, incapazes dessa dupla traição.
momentos da vida. Há um abismo entre a infância vivida Quanto à filha que se encaminha para a
e as lembranças que guardamos dela. Freud busca de seu príncipe, não estranhamos que
denominav a alguma s dela s com o considere a mãe boa como uma memória
"lembrança s encobridoras", ou seja, um tipo de
saudosa, enquanto a que está em casa será uma
memórias fabricadas, seguindo a mesma lógica
madrasta maléfica. A mãe receberá o mesmo
inconsciente com que se constrõem os sonhos, e que
sào evocadas quando estão ligadas a algo que estamos tratamento destinado aos amores que acabaram:
querendo elaborar em outro momento da vida. afinal, despeito, desvalorização e distan• ciamento são
Não quer dizer que as nossas lembranças sejam necessários para que uma história de amor
totalmente falsas, mas sim que, como em toda história termine e dê lugar a outra. Porém, tudo o que é
contada, ela será do ponto de vista do narrador. sentido pela filha será projetado na mãe (a projeção é
Organizamos o passado de forma tendenciosa, um mecanismo pelo qual se atribui ao outro o que na
verdade se está sentindo). Esse mecanismo é tão efetivo
que a filha poderia jurar que a mãe sente por ela tudo
o que na verdade rumina em seu interior.
112
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
razã o q u e certos autores viram e m Cinderel a um a
re m a ne sc e nt e da s
Subjetivamente falando, a m ulhe r do pai n ã o é
a mesma pesso a q u e a mãe . A mã e é
a q u e l a q u e supostamente se complet a co m os filhos, qu
e tem nele s sua prioridade e jamais deseja sua ausência .
A mulhe r do pai tem uma história de amo r a
viver, q u e exig e tempo, dedicação, e p o d e se superpo
r em importânci a a suas majestades os bebês . A mulhe
r do pai é a ma• drasta dos filhos, aquel a para q u e
m o casa me nt o está em primeiro lugar, m e s m o qu
e seja a legítima mã e deles. Nesse sentido, o pai
p o d e ser ta mbé m colocad o nesse lugar de preferido ,
em detriment o do s filhos que se sentirão
injustiçados. A madrinh a é a repre • sentante do
efeito benéfic o da s lem brança s de um a infância
ond e houv e um víncul o a m o ro s o co m a mãe . Sendo
assim, toda mã e tender á a ser mãe , madrasta e
madrinha ao m es m o t e m p o .
A madrasta invejosa do s conto s cie fadas tem uma
função extra, ela reconhec e a supremaci a da beleza da
mais jovem. Se no s referirmos ã madrasta,
compreen • demos que agora se trata cie uma disputa entre
mulheres, em que a jovem ganh a um lugar na categoria, e
a inveja da mulher mais velha é testemunh a da importância
dessa conquista. A inveja da mã e é tão important e
quant o o desejo do pai, eles sinalizam qu e em
casa a filha já pode ser considerada um a mulher,
ou pel o meno s um bom protótipo. E co m esses
elemento s q u e um a jovem se autoriza a cativar outro s
olhares.

Habitando as cinzas
nom e d a p ers o n ag e m está
invariavelment e
?;: ligado àquel a q u e trabalh a junt o da s cinzas.8
As versõe s do cont o variam mais do q u
e o nom e d a d o à heroína , que , alé m
disso, é o
nome do conto , o q u e só sublinh a a importânci a
da s cinzas para a história. Os dois no me s co m o é
conhecid a em português , Cinderel a ou Gata
Borralheira , tê m origem comum , alude m ao resídu
o do fogo. Existia, no passado europ eu , um criad o
q u e guardav a o fogo e recolhia sua s sobras , u m
a funçã o q u e estava no s últimos degrau s d e
um a s o c i e d a d e m a r c a d a m e n t e hierárquica. Q u e
seja um lugar social desvalorizad o faz sentido, ma
s po r q u e se m p r e este?
As cinzas geralment e estã o ligadas ao luto
e à purificação. Cobrir-se d e cinzas po r ocasiã o
d e um a perda era be m usual e m culturas mediterrâneas .
C o m o o fogo tem um pape l purificador, seu s restos sã o
puro s também. Isso no s leva a um a posiçã o
ambígua : ela estaria pura e stand o suja. Nã o é se m
, d e u m a cert a nobreza . Da s múltipla s versõe s
dess a história, o q u e
vestais,9 as guardiã s do fogo sagrad o na cultura
romana. De qualque r maneira , a Borralheira é 113
suja po r fora, ma s pur a po r dentro , isso ela
demonstr a co m seu b o m caráter, q u e s e m a nté m
apesa r do s maus-tratos.
Investigand o a vida amoros a do s homens ,
Freud encontro u caso s típicos de c o m o lidar co
m o amo r e o desejo , poi s estes n e m sem pr e
an d a m juntos. O q u e no s interessa nest e cas o é
ressaltar certas características d o m o d o d e amar,
encontrada s e m quadro s d e neuros e obsessiv a d e
maneir a taxativa, ma s q u e so b uma forma diluída sã o
be m recorrentes . Certas pessoa s fazem um a cisão
entr e um amo r puro , elevado , espiritual e casto
em contrapo nt o a sua vida sexual carnal,
desvalori• zada, baixa e suja. Nesses qua dros , é
c o m u m oscilar entr e u m amo r celestial e u m
amo r terren o n o baliza• m e nt o da s escolha s
amorosas . Mas essa divisão entr e a mulhe r
santa e a degradad a ou prostituta nã o cor•
re sp o n d e a u m restrito n ú m e r o d e caso s
patológicos , pois e n c on tr a m o s certa disposiçã o
geral d o s h o m e n s para uma classificação da s
mulhere s co m esses critérios. Nas palavras de Freud:
"Ond e elas (estas pessoas )
amam , nã o desejam, e o n d e d e s e j a m nã o
conse gue m amar, a fim de mante r sua
sensualidad e long e de seu s objetos amorosos".1 0
Cinderela, assim co m o Fele-de - Asno e Bicho
Peludo , de certa forma suporta essas dua s ponta s d a
representaçã o d o desejo masculino. Nesse
sentido, elas sã o uma mediação , uma síntese da
mulhe r q u e certos ho men s procuram , ora
suntuos a e pura e por isso amável; ora suja e
degradada e, portanto, sexual• ment e desejável.
Cinderela é uma personage m qu e casa em si esses
opostos : p o d e entã o ser amad a e desejada.
Bettelheim no s aponta em outra direção, ele
no s
lembra qu e na língua alemã há uma figura de linguagem:
"ter de viver entre as cinzas"" q u e significava nã o só
da condiçã o inferior, mas apontava a rivalidade
fraterna. Ou seja, estar entre as cinzas era metáfora de
estar abaixo d e outr o irmão (independentement e d o
sexo), sofrendo a l g u m a d e s v a n t a g e m . Esse é
o g a n c h o par a q u e Bettelheim centre bastante
sua interpretação do cont o no sentido de dar
conta do s problema s fraternos.

Um amor fetichista
inderela é escolhid a po r um traço, o pé.1 2
Certos autore s vêe m aqui resquícios d e
um a orige m oriental d o conto , o n d e
o s pé s sã o v a l o r i z a d o s , o q u e é
uma hipótese a
considerar . D e qualq ue r forma, mão s e pé s
delicado s s ã o si g n o s d e q u e m n ã o tr a bal h a
Fada s n o Div ã - P s i c a n á li s e n a s Hi st ór i a s Infan ti s

s e repet e é a presenç a d o sapat o e d o O caráte r t r a u m á t i c o da c ast ra ç ã o pass a


por descobri r q u e existe m doi s sexos , c o n d e n ado
p r í n c i p e b u s c a n d o o bc e ca da m e n t e su a d o n a . N o
univers o d o s contos , h á muito s desse s príncipes , s a se diferencia r e im ag in ar ia m e n t e se
seduzido s po r u m objeto cuja presenç a complementar . A partir da c o m p r e e ns ã o do significado
é
imprescindíve l par a qu e um a m ulhe r da diferença dos genitais femininos e masculinos ,
seja
escolhida . P o d e m se r pé s , qu e estaremo s condenados a no s sentir incompletos .
calce m
deter mina d o sapato ; mãos , o n d e o objet o q u e Mas ningué m se resigna a' isso tranqüilamente . A
orient a a busc a é um anel; ou aind a um cabelo , mulhe r p o d e exigir um filho q u e a complete ; no
geralment e d o u r a d o e trazid o pel o vent o q u e inspira trabalho , p o d e busca r o prestígio q u e a iguale ao
a busc a po r sua dona , para citar un s p o uc o s h o m e m . Este, po r sua vez, também te m inúmero s
exe mplos . cami nho s par a lidar co m a falta, mas os fetiches q u e
É impossível nã o aborda r o tema do ilude m su a imaginaçá o sã o u m atalho
fetichismo, q u e consiste n u m desejo erótico subordinad o à freqüentemen t e utilizado.
presenç a d e u m objet o estritament e Se o fetichismo c o m o q u a d r o domin ant e é
d e t e r m i n a d o e s e m negociaçõe s qu e permita m sua raro clinicamente , já c o m o t e m pe r o erótic o ou c o m o
troca. A importância do pé em Cinderela é tã o aquele traç o de que o objet o a m a d o n ã o p o d
grand e q u e o príncip e estava disposto a levar a e prescindir, c o m a n d a as e s c o l h a s a m o r o s a s .
moça errada, desd e qu e nela pudess e calçar o sapatinho. Ele faz part e da det ermin açã o do atribut o
Fm Grimm, sã o os pássaro s qu e o avisam d o necessári o par a q u e o feitiço do desejei seja ligado.
equívoco , pois ele n ã o s e d á conta . Cinderela represent a ta mbé m a mulhe r
Para dize r al g u m a s pala v r a s sobr e o que se a d e q u o u â ess a exigênc i a da erótic a
caráte r fetichista dess a busc a do príncipe , será masculina. É aquel a q u e sab e da importânci a de
necessár i o t a n g e n c i a r o t e m a e s p i n h o s o d o se deixa r amar a partir de um traço, do us o de um
Complex o d e Castração. Freud trabalha e m fetiche e se conforma a fazer de um h o m e m a
inúmera s ocasiõe s sobr e o efeit o i m p r e s s i o n a n t e , fonte de sua felicidade. Ou seja, ela n ã o é
à s veze s traumático , d a descobert a d a amad a só p o r q u e te m o pé delicado, ela é
c a s t r a ç ã o d a m ã e p e l a s c r i a n ç a s p e q u e n a s . amad a em sua totalidad e e pel o conjunto de
A forte i m p r e s s ã o p r o v é m d e q u e ela s parte m seu s dotes , ma s ess e a m o r n ã o vai funciona r
d a premiss a d e q u e t o d o s p o s s u e m pênis , se não tiver ess e gatilho par a o desej o d o
ap e n a s o da s menina s aind a n ã o teria crescido . homem.
Apesar de a idéia da castração ser algo de A permanênci a dessa história no s dias
difícil digestão para ambo s os sexos, a visão do s atuais é curiosament e extemp orâne a . Enquant o na
genitais da mã e deixaria especialment e o menin o prática as mulhere s já nã o precisam sair de casa no dors
impressionado , tanto qu e ele tenderia, por efeito o do cavalo de um príncipe, Cinderela e seu sapatinho
traumático, a se apega r eroticament e à última coisa qu persistem na fantasia feminina co m o um protótipo a
e viu ante s do púbi s da mãe : os pés , os sapatos, as ser levado em conta, possivelmente porqu e neste cont
meias, as cintas-liga (q u a n d o eram usadas), certos o há um bocado de verdade sobre o desejo masculino. A
tecidos, etc.13 Esse objeto fortuito nega a castração vida das mulheres mudou , mas a construção da
da mã e ao m e s m o t e m p o qu e é a prova de sua identidade feminina ainda requer qu e ela se disponh
efetividade e fica c o m o um substituto do falo a a desempenha r um certo papel para uso da fantasia
matern o inexistente . Dua s realidade s psíquica s masculina. Independentemente da mulher forte e
convivem então: a mã e é castrada e a mã e nã o é castrada, a capaz qu e ela se mostre no mundo, Cinderela será
única síntese possível é o fetiche. O inconscient e nã o usa qualque r mulhe r que , na intimidade, se disponh a a
um a lógica formal, está alhei o ao proble m a da brincar de esconde-escond e no s encontros amoroso s
contradição, po r isso, esses oposto s pode m conviver e e a deixar em seu rastro um fetiche com o isca para o
muitas vezes orienta m certos destino s eróticos. h o m e m qu e que r seduzir.
Embora já saibamo s q u e a mã e n ã o tem
pênis , to d o s t e m o s q u e s t õ e s p e n d e n t e s c o m o
c o r p o d a mulher. Font e d e desejo , d e terror, objeto
d e manipu • laçõe s e martírios, o corp o feminin o será
Versões mais antigas
par a sempr e o herdeir o d o corp o d a mãe . Esse q u e inderela é um desse s conto s q u e
pariu, a m a m e n - tou, q u e foi d a primeira sedutora,1 4 este desnudam a insuficiência da pe s qu i s a
q u e pe rd e m o s , ma s seguimo s a vida tod a buscand o se atua l sobr e a mitologia. A antigüidad e
u calor. A mã e fálica é um a fantasia potencia l da da narrativa e sua difusão, inclusive entr e
infância, é aquel a a q u e m nad a faltava p o r q u e n o s culturas isoladas, nos
tinha, é a mã e idealizada do s primeiros te m p o s .
levaria m a pensar num suposto momento arcaico

114
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s
o
primitivas e difundidas formas religiosas, era o cult o
d o s mortos .
quando os homen s partilharam um a cultura única . Mas
isso são suposições, o fato é q u e a similaridade
da s fábulas e do s c o nt o s distribuíd o s pe l o s
canto s d o planeta segue se n d o um a questã o não-
resolvida .
Em versões mais antigas q u e estas q u e
estamo s trabalhando, se encontr a um auxiliar
mágic o distinto que nos afasta da fada madrinh a e
no s aproxim a da árvore mágico-doadora . Nelas,
Cinderel a é ajudad a por um animal q u e ela protegi
a (vaca, ovelha , cabra, touro o u aind a u m
p e i x e ) e q u e foi m o r t o pel a madrasta. Antes
de morrer, o animal dá instruçõe s à heroína do q u
e fazer co m os seu s ossos : dev e enterrá - los e regá-
los . D es s e t ú m u l o , nascem os o bj et o s mágicos
qu e vã o ajudar Cinderela . outra s vezes , sobr e ele
nasce uma árvor e mágica ou um animal ajudante .
Em outras versões, ainda , o animal ressuscita do s seu s
ossos e entrega à heroín a os presente s mágicos .
De qualquer maneira, a força dess e auxiliar mágic o
ve m de outro mundo : do rein o do s mortos .
Aqui encontramo s apoi o nu m mit o
b a s t a n t e difundido, o d o r e n a s c i m e n t o at ra v é s
d o s o s s o s . Tratava-se d e um a s u p osi ç ã o d e q u e
o s osso s d o s animais, s e e n v o l t o s e m su a
p e l e e e n t e r r a d o s , voltariam à vida - o q u e
n o s re me t e a q u a s e um paralelismo co m o
m u n d o vegetal, já q u e eles sã o plantados. São
crença s xamânica s , en co nt ra d a s e m inúmeros
lugares, q u e falam dess a possibilidade , tant o para
homen s q u a nt o par a animais, de p o d e r voltar á
vida se certas pr e ca u çõ e s rituais c o m seu s
osso s e peles fossem respeitadas . Cogita-se qu e ess e
envoltóri o de peles e osso s seria oferecid o ao s
deuse s para q u e estes lhes devolvesse m a vida. De
qualque r forma, os restos mortais sã o devolvido s à
terra nu m a esperanç a que ela nutra e preenc h a de carn
e outra vez a estrutura
(os ossos) e seu envoltóri o (a pele) .
Geralment e o s animai s ressuscitado s
voltariam com algum problema , algu m oss o faltaria,
ou um do s cascos, enfim, eles acabaria m m a n c a n d o
pel a falha de quem fez o rito. A interpretaçã o dad a é
de que , q u e m passou pelo m u n d o d o s morto s e voltou,
fica marcad o por ter feito sem elhant e empreitad a e po r
isso manca . Por aqui passa m alguma s da s interpretaçõe s
a respeit o da assimetria no andar , e, po r isso,
Cinderel a faria parte do grupo , junto co m Edipo, Jasã o e
Perseu: deste s que caminham c o m dificuldade, tê m o s
p é s marcado s ou usam um a só sandália. São
pe rs o na g e n s q u e , de alguma forma , teria m
conhecid o o s m e i o s d e comunicação c o m o
m u n d o do s mortos .
A religião cotidian a da s culturas q u e no s
dera m origem (greco-romanas) , e um a da s mais
115
O s morto s d a família era m reverenciado s c o m o
deuses , i n d e p e n d e n t e m e n t e de sua s açõe s na terra;
e os vivos tinha m u m a série d e obrigaçõe s para co m
eles. A força de um a família provinh a justament
e dess a união , já q u e o s morto s ativament e
tentava m ajudar seu s vivos e vice-versa . Talve z
a d e d i c a ç ã o d e Cinderel a n o túmul o da mãe ,
assim c o m o a força mágica provenient e dela, poss a
ser u m ec o dessa s antigas crenças . Graças a isso,
faria mais sentid o a idéia cie ligá-la de algum
m o d o ás cinzas e entã o ao s mortos.1 "

Notas
1. BASILE. Giambattista. The Pentamerone.
traduzido por N. Penzer. A íntegra deste conto
pod e ser lida em vwvw.surlalunefairytales.com. de
autoria de Heidi Anne Heiner. disponível desde
1998.
2. PERRAELT, Charles . Contos de Perrault. Bel
o
Horizonte: Itatiaia. 1989.
3. GR1MM, Jaco b e Wilhelm. Contos de Fadas. Rio de
Janeiro: Villa Rica, 1994.
4. BETTELHEIM. Bruno. A Psicanálise dos Contos de
Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. p. 292.
5. "A árvore cresce, e o mesmo ocorre com
a mãe interiorizada dentro de Borralheira.
(...) A medida qu e a criança cresce, a mãe
interiorizada também deve passar por
modificações, como ela própria. F u m
pr o ce ss o d e desmaterializaç à o semelh ant e
àquele em qu e a criança sublima a mãe
boa real, transformando - a num a experiênci
a interior d e confiança básica". Ibidem. p.
299.
6. Os pássaros são animais ligados à morte, eles é
que pode m voar até um lugar longínquo que é o
mund o do s mortos. Existe uma conexão
alma-pássaro cm culturas da antigüidade,
seguramente no Egito e na Babilônia. Na tradição
cristã, os anjos qu e levam as almas são alados.
Numa cultura tão distante desta, na do s
índios da América do Sul, encontramo s
também uma idéia de qu e certos pássaros,
e por isso são agourentos, seriam a morada
transité>ria do s mortos.
7. "Quand o as lembranças conservadas pela
pessoa sã o submetida s à investigaçã o
analítica, é fácil determinar qu e nada garante
sua exatidão. Algumas imagen s mnêmica s
certament e sã o falsificadas, incompletas ou
deslocadas no temp o e no espaço.
(...) Forças poderosa s de época s posteriores da
vida modelaram a capacidade de lembrar das
vivências infantis - provavelmente as mesmas forças
responsá• veis por termos nos alienado tanto da
compreensã o
Fada s n o D i v ã - P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

dos anos da nossa infância". In: FREUD, ligação com a terra, e outros vão ver nesse mesmo
Sigmund. Sobre a Psicopatologia da Vida fato uma ligação com o mu nd o do s mortos.
Cotidiana (1905), vol. VI, cap . IV, p. 56. 13- "Parece que , quand o o fetiche é instituído,
Obra s Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, ocorre certo processo qu e faz lembrar a
1987. interrupção da memória na amnésia traumática
8. Por exe mplo : Cenerentol a ve m de cenere, (...) é como se a última impressão antes da
em italiano, cinza; em francês é chamada de estranha e traumática fosse retida com o fetiche.
Cendrillon, que quer dizer mulher qu e está Assim, o pé ou o sapato devem sua preferência
sempre ao pé do fogo, suja, e provém de com o fetiche - ou parte dela - à
cendre, cinzas ou restos mortais; em espanho circunstância de o m enin o inquisitivo
l Cenicienta, provind o de ceniza, cinzas e espiar os órgãos genitais da mulher a partir
no figurativo restos mortais; em alemão , de baixo, das pernas para cima." In: FREUD,
temos Aschenputtel. derivad o de asche, cinza; Sigmund. Fetichismo
em húngaro temos a Hamupipöke , derivado de (1927). vol. XXI. Obras Completas. Rio de
hamu, cinza; em inglês se usa o nom e Janeiro: Imago Editora. 1987, p.182.
francês adaptado: Cinderclla. 14. "(...) pud e reconhecer nessa fantasia de ser
9. Donzelas qu e se consagravam ao culto da seduzida pelo pai a expressão do típico
deusa Vesta (ou Cibele) e com o sacerdotisa s Complexo de Edipo nas mulheres. E agora
estavam obrigadas, por juramento, a manter a encontramos mais uma vez a fantasia de seduçã o
virgindade para sempre. Seu principal ofício era na história pré-edipiana das meninas, contudo
nã o deixar apagar o fogo sagrado da deus a o sedutor é regularmente a mãe
so b a pena de serem enterradas vivas. As (...) foi realmente a mãe quem, por suas
vestais já são uma manifestação tardia da importância atividades c o n c e r n e n t e s â h i g i e n e c o r p o r a l
do fogo em cada lar grego ou romano, cada casa d a criança, inevitavelmen t e estimulo u e,
deveria ter o seu sempre acesso, e era uma talvez até mesmo despertou, pela primeira
obrigação do don o da casa a sua nâo- vez, sensações prazerosas nos genitais da menina.".
extinção, pois ele tinha um caráter sagrado. In: FREUD, Sigmund. Novas Conferências
10. FREUD, Sigmund. Sobre a Tendência Introdutórias sobre Psicanálise (1933), vol. XXI.
Universal à Depreciação na Esfera do Amor Conferência XXXIII Obras Completas. Rio de
(1912), vol. XI. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1987, p. 149.
Janeiro: Imago Editora. 15. "... esse culto do s mortos perdura por um
1987, 166 páginas. tempo especialmente longo porqu e os mortos
11. BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos são deuses p r ó x i m o s e queridos , mai s
de acessívei s qu e a s divindades oficiais
Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001, p. 278. onipotentes. Seu culto é estrito e pragmático.
12. Alguns antropólogos fazem aqui uma ligação Compreendemo s agora po r que o índio qu e
com certa s p e r s o n a g e n s míticas q u e p o s s u e deseja uma pesca abundant e vai se deitar sobre o
m um a assimetria no andar, pois, com um só túmulo de sua mãe e ali passa alguns dias
pé calçado, Cinderela certamente claudica. Há um us dormind o e orando ; exatamente da mesma
o mítico, e provavelmente um símbolo, em andar com forma, a Cinderela russa, em sua infelicidade,
um único pé de sandália (monossandalismo). Está vai até o túmulo da mãe e rega-o com água ou
correto, mas a ligação desse caso a essa suas lágrimas, depend end o da variante; ou seja,
característica nã o nos ajuda muito, pois as realiza um ato de libação." In: PROPP, Vladimir.
interpretações sobre a assimetria no anda r també m As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso. São
variam muito . Certos autore s acreditam qu e Paulo: Martins Fontes,
seja uma marca da autoctonia, da 1997, p. 178.
116
Capítulo VIII
PAPAI OGRO, FILHO LADRÃO

João e o Pé de
Feijão
As várias faces do pai - Construção da identidade no menino -
Morte simbólica do pai - Reconhecimento familiar do crescimento

a maior parte dos contos Diferentemente da maior parte das


que analisamos, a maldade histórias trabalhadas até este ponto, cuja fonte
ficava po r cont a da s privilegiada encontra-se nas compilações dos irmãos
bruxas , o u mulheres Grimm ou de Perrault, João e o Pé de Feijão é
malévolas, às vezes com proveniente da tradição inglesa. As duas versões
poder e s mágicos, qu e tradicionais do conto pertencem a Benjamin Tabart e a
sempre mostravam suas piores Joseph Jakobs, sendo este último o responsável pela
intenções: eram antropófagas, abordagem mais conhecida. Quando realizou sua
invejosas e possessivas. Pois compilação, publicada em 1890, de contos tradicionais
bem, é chegada a hora de falar ingleses, Jakobs desprezou a versão escrita por
de monstros masculinos: os ogros e os gigantes. Eles Tabart, qu e existia desd e 1807, preferind o
são enormes, brutais, desprovidos de caráter, possuem referenciar-se nos relatos orais que conhecia.
bens preciosos, roubados de alguém, e adoram No texto de autoria de Tabart, Jack (João,
uma criança tenra em qualquer refeição. Nas histórias para nós) não é um filho inútil que vence como um
infantis, eles sào indiferenciados, podendo ser um ou ladrão- zinho esperto, mas sim um filho que vinga o
outro, até porque são muito similares,1 por isso, vamos pai com a ajuda de uma fada. Essa versão é
também usar indistintamente as palavras "ogro" ou considerada uma transformação da história
"gigante". O conto de fadas mais popular sobre um ogro tradicional em uma trama moral edificante, de
ou gigante é João e o Pé de Feijão, uma narrativa que menor autenticidade folclórica que a versão de Jakobs.
nos abre a possibilidade de falar sobre a construção da Bettelheim mostra-se simpático ao conto
identidade viril através da apropriação da herança de
paterna. Jakobs, considerando-o mais autêntico, mas nós não
Fada s no Divã — Psicanálise nas Histórias Infantis
O detalh e é q u e ele cha mo u a

acreditamo s q u e exista um a versã o original, q u e


seria entà o a mais verdadeira . No terren o do
folclore, pel a su a naturez a multiforme , tais
c o n s i d e r a ç õ e s s o a m estranhas . Afinal, se a versã o
de determinad a história é levada e m cont a po r
um a c o m u ni da d e , é p o r q u e segu e di ze n d o alg o
- adaptad o à s necessidade s d e deter minad o
m o m e n t o e lugar - , d e m o d o q u e se u cern e
ficou preservado . Preferimos entã o trabalhar co m amba s
e m p é d e igualdade .

A história de jakobs2
oã o e sua m ã e viviam à s custa s d e su a
vaca Branca-de-Leite, cujo leite vendia m na
feira. Cert o dia , a vac a s e c o u , e e le
s ficara m a m e a ç a d o s pela fom e e a
miséria, t e n d o
co m o única saída a vend a d o animal . J o ã o
sugeriu q u e poderi a trabalhar para o sustent o
deles , ma s a mã e argumento u qu e já ante s ningué m o
quis contratar. Ess a versã o é c o n d e s c e n d e n t e ,
poi s a l g u ma s adaptaçõe s sugere m qu e el e
er a u m r a p a z i n h o indolent e e mal-educado .
J o ã o saiu d e casa co m a tarefa simple s d e vende r
a vaca na feira, mas no mei o do camin h o
encontro u u m h o m e m q u e lhe fez um a propost a
peculiar: trocar a vaca po r um p u n h a d o de feijões
mágicos . Apesa r de a troca ser desproporciona l ,
noss o heró i aceitou sem pensa r muito . O h o m e m
lhe fez a seguint e promessa :
"se plantá-los à noite, pela m a n h ã estarã o lá no
céu", o q u e poderi a muit o b e m ser um a convers a d e
charla• t ã o v i s a n d o a e n g a n a r u m m e n i n o
t o l o . E foi exatament e isso q u e penso u a mã e
d e João , q u e s e deses pe ro u ao ser informada do
negócio , jogand o os feijões pela janela e m a n d a n d
o o tolinh o dormi r se m jantar, a m o d o de castigo.
A p ó s te r i d o p a r a a c a m a c o m f o m e ,
Joã o acordou-s e p el a manh ã co m um a
l u m i n o s i d a d e diferente e m se u quarto . O s feijões
mágico s atirado s p e l a j a n e l a c o n f i r m a r a m s e u
poder , crescend o espantosamente , d e tal
f o r m a q u e s e u s g a l h o s entrelaçado s s e perdia
m entr e a s nuven s c o m o um a escada . Não t en d
o mai s nad a a perder , o m e n i n o aceitou o
convit e da curiosidad e e subi u at é chega r a um a
terra e nc a nta d a , situad a acim a d a s n uv e n s . A
promess a d o h o m e m s e cumprira .
Saind o d o p é d e feijão, um a estrad a o
conduzi u até a port a de um a casa gigantesca ,
em cuja soleira estava um a mulhe r igualment e
grande , a q u e m J o ã o pedi u par a co me r alg o d e
café d a manhã , j á q u e n ã o havia seque r jantado .
o do seu jardim ante s de desce r pel o pé de feijão.
Graça s a essa s riquezas , mã e e filho viveram
be m po r u m tempo , ma s q u a n d o terminaram a s moedas,
enorm e mulhe r d e mãezinha e nã o p a r e c e tê-
foi necessári o subir novament e em busca de
la co n si de ra d o a m e a ça d or a . Mas a gigant a lh e avisou
mais.
q u e devia partir, poi s se entrass e na casa poderi a virar café
Na segund a visita, a história tod a se repeti
da m a n h ã de seu marido , o ogro , q u e já estava par a
u de forma similar, e mbor a tenh a sid o um p o u c o mais
chegar . P e n s a n d o mai s n a fom e q u e n o risco, J o ã o
difícil de con vence r a mulher. O souvenir dess a
imploro u q u e o deixass e entra r m e s m o assim, ao q u e a
ocasiã o era ainda mais valioso q u e as m o e d a s trazidas
mulhe r termino u c e d e n d o .
da primeira vez: era um a galinha q u e pu n h a ovo s
Em seguida , co m g r an d e estrondo , p o r qu e a casa tremia
d e o u r o sempre q u e lh e or denav am .
co m cad a um de seu s passos , um gigante de péssim a
E mbor a a galinh a lhe s garantis s e o
aparênci a entrou , mal t e n d o d a d o temp o de o m e n i n o
provent o necessário , J o ã o sentiu v o nt a d e de
engoli r um p o u c o de p ã o e leite e ser ocultad o
voltar lá, já que sua s visitas vinha m s e n d o tã o
dentr o do forno . O monstr o sentiu cheiro de carn e humana ,
rentáveis . Na terceira visita ne m tento u enga na r
ma s a mulhe r o e ng a n o u , dizend o que el e estava era
a mulher, entro u aprovei• tand o um a distração dela
sentind o o cheir o d o s restos d o menino q u e havia
e esconde u-s e n u m caldeirão de cobre . O ogr o mais
de g us ta d o na noit e anterior. Fia o distraiu servindo-lh e
um a vez o farejou e junt o com a espos a
um a lauta refeição, q u e o ogr o engoliu co m a
procurara m n o forno , ma s novament e
voracidad e própri a da espécie . Apavora d o em seu
julgaram se r o cheir o d o m eni n o d o jantar d a véspera.
esconderijo , o m en i n o fez m e n ç ã o de fugir, mas a mulhe r
O tesour o d a ve z er a um a harp a dour ad a q u e
lhe asseguro u q u e devia aguardar , pois ele s e m p r e
tocava e cantav a divinamente . Ao se u som , o
tirava u m cochil o depoi s da s refeições.
gigant e costu• mav a a d or m e c e r c o m o u m b e b ê . J o ã o
Depoi s de comer, o ogr o ordeno u à mulhe r que lh
aproveito u para fugir co m a harp a mágica d e po i s
e trouxess e sua s riquezas , e ela p ô s sobr e a mesa
q u e o ogr o pego u n o sono , ma s ela n ã o
sacos d e m o e d a s d e o ur o q u e ele co meço u a contar.
colaborou . C o m o falava, gritou assustad a q u a n d o o
De barriga cheia, termino u realment e pe g a n d o no sono. Essa
m e n i n o a p e g o u , a c o r d a n d o seu patrão .
foi a oportunida d e para a fuga de João , mas não sem
antes s e apossa r d e u m saco d e moedas , qu e jogou para dentr

118
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Cors o

Desperto, o ogr o iniciou a caçad a ao ladrãozinho ,


seguiu-o até o pé de feijão e o persegui u na
descida. Graças à sua agilidade juvenil, J o ã o chego u antes,
gritou para a mãe lhe alcançar um m a ch a d o e cortou o
grand e caule, fazendo o ogr o cair e morrer. Com
os ovo s da galinha e as a p r e s e n t a ç õ e s da harp
a mágica , ele s enriqueceram e Joã o pôd e se casar
co m uma princesa.

A versão de Tabart3
início da história é similar, embor a haja
um a ressalva de q u e o m e ni n o é um
inútil, ma s d e bo m coração . Q u a n d o partiu
par a vende r a vaca, ele encontro u um
açougueir o , q u e é
quem lhe fez a proposta . O detalh e interessant e
aqui é que ele realizou a troca pelo s feijões se m q u e
seque r o açougueiro tenh a lhe explicitad o b e m
qua l seria a mágica da qual as semente s era m
capazes . Co m o na outra história, ele é re pr e en di d
o pela mãe , q u e atira os feijões pela janela e o
julga um tolo se m conserto . A diferença entr e a s
versõe s começ a q u a n d o J o ã o chega ao alto do pé
de feijão e é recebid o po r um a
fada, que lhe cont a um a história:

Era uma vez um nobre cavalheiro que, junto com sua


amável esposa, vivia em seu castelo, na fronteira
da Terra das Fadas. Seus vizinhos, a gente pequena, havia
lhe dado muitos e preciosos presentes. A fama desses
tesouros espalhou-se, e um monstruoso gigante, muito
mau, resolveu se apossar deles. Para isso, ele subornou
um serviçal. qu e o deixou entrar no castelo e
matar seu dono durante o sono. Por sorte, a dama
não foi encontrada pelo gigante, pois lhe era
reservado o mesmo destino. Ela havia saído com o filho
para visitar sua antiga babá. Na manhã seguinte, um dos
serviçais do castelo, que havia conseguido fugir, contou á
mulher o terrível destino de seu marido, assim como a
intenção do gigante, que jurara matar mãe e filho
quand o os encontrasse . Em funçã o disso , a
se n ho r a ficou trabalhando como camponesa,
escondida na casa de sua velha ama, até que esta
morreu, deixando-lhe o pouco que tinha. Essa
pobre mulher é sua mãe, este castelo era de seu pai
e deve agora ser seu.4

Corno Jo ã o crescera se m saber da tragédia paterna, a


fada disse ter enviad o os feijões mágicos par a atraí-lo para
aquel e lugar, a fim de q u e ele recuperass e sua
legítima herança . A partir dess a revelação, o
menin o parte para enfrentar o assassino de se u pai. Vai
armad o apenas co m a corage m e a espertez a c o
m a qual os
detalhe reforça ainda

p e q u e n o s vence m os grandes . Para incentivá-lo, a 119


fada afirma: "Você é daquele s q u e mata m gigantes.
Lembre- se: tud o o qu e ele possui na verdad e é
seu".
Q u a n d o ele bateu á porta do ogro, foi
recebido por um a terrível giganta de um olh o
só. Apavorado , Joã o tentou fugir, mas ela o
pego u e o colocou para dentr o de casa, tencionand
o transformá-lo em seu pajem, queixando-s e d e q u e
o marid o devorava todo s seu s ajudantes e a
deixava co m tod o o trabalho. O ogro voltou, sentiu
cheiro de carn e humana , mas ela o engan ou ,
d i z e n d o tratar-s e d e um a c ar n e assad a q u e
havi a preparad o para o café da manhã . O gigante
comeu , saiu e deixou a mulher co m seu nov o pajem,
qu e a ajudou o dia todo . Após o jantar, através da
fechadura do armário, ele pô d e ver quand o o ogr o
mando u vir a galinha d o s ovo s de ouro . O resto
da história transcorre de forma similar á versão
anterior. Nas próximas visitas, disfarçado, ele volta para
trabalhar co m o pajem e rouba, uma vez o saco de our o
e, em outro momento , a harpa. Encontramos apena s uma
variação no final, pois é dito qu e Joã o vive feliz para
sempr e co m sua mãe.5

Trocando um pássaro
na mão por outro
voando
negócio da China feito por João
merece algumas palavras: afinal, que
troca é essa em que negociamos algo
valioso por uma
promessa? Pod e haver outro s
sentidos associados, mas salta aos olhos qu e
essa é uma representação perfeita para aludir ao
desmame. Afinal, é quand o fazemos o
negócio , a princípio nada proveitoso, de
trocar aquele leite certo de cada dia por algo
impalpável.
O fato é que a promessa da mágica dos
feijões se realiza. Afinal, toda criança verá um dia
seu corpo brotar em estatura tal qual o talo de
feijão, aimo ao céu. Se esses feijões realmente
significam a certeza de um crescimento, eles são,
de certa forma, mágicos.6
Porém, para crescer, é preciso perder as vantagens
de ser pequeno, como o leite do seio materno
represen• tado pela vaca. Podemos lembrar que,
movida pela raiva, a mãe manda Joã o para
cama com fome, sublinhando que o início do
conto trata mesmo de uma operação de
distanciamento da mãe e da sua condição de
alimentadora.
Quando o homem que propõe a troca da
vaca por feijões é um açougueiro (na versão
de Tabart), fica claro que ele a quer para outros
fins, diferentes do fornecimento de leite. Esse
Fadas n o Div ã — P s i c a n á l i s e n a s História s I n f an ti s
fada sabe mo s ter sid o o pai de João , é
muit o mai s um a permissã o simbólica par a a retomad
a do s tesouro s d o q u e um a ajuda. C o m o na s
mais a leitura de q u e J o ã o negoci a a versã o
histórias d e princesas ,
nutridor a da mãe . A troca resultante será a seguinte : el e
entreg a aquela qu e lhe dava leite, ma s secou , e
receb e u ma s semente s cuja magia é o crescimento
. É um negóci o de risco, pois ele dá algo q u e
n ã o lhe serve mais e receb e algo qu e ainda nã o é.
O passad o encontr a se u fim na s mão s do
açougueiro , o futuro é promissor, enquant o o
present e é um a incerteza.
O começ o do cont o já denunci a q u e a mã e
n ã o estava contente co m João . Em várias versões, ele é
um inútil desmiolado, com o se nã o bastasse, mostra-se
ainda mais tolo a partir do mau negóci o qu e faz. Enfim,
tud o começa com uma grand e desilusão de parte
a parte. Decididamente, Joã o está longe de ser o qu
e sua mã e espera dele. O contrário també m
ocorre , pois mã e e filho passavam fome, entã o
certament e Joã o nã o andav a satisfeito com sua nutriz. O
desencontr o já estava dado , em casa já nã o havia muito
para esperar, ao m enin o só restava partir para negociar co
m o destin o e tentar obte r o qu e necessitava fora de
casa.

Pai nobre, pai


açougueiro, pai
antropófago
o qu e se segue ao rompiment o entre mã
e e filho, começ a a riqueza da história qu e
torna esse cont o tão propício para falar da s
diversas
conjugações d o pai a o long o d o process o d
e construção da identidade do filho. Na verdade ,
temo s três homen s contracenand o n u m pape l q u e
poderíamo s considerar paterno : o açougueir o - ou
o h o m e m qu e faz a troca da vaca po r feijões; o
b o m e nobr e pai de Joã o - na versão de Tabart; e
o terrível ogro .
O personage m da estrada é um a da s
faces do pai q u e ve m marca r a intervençã o
necessári a par a afastar o filho do seio materno , mas é
um a face pacífica: mostra um caminh o possível de
crescimento , já q u e ele conso m e a vaca, ma s
c u m p r e o q u e promete . Se fôssemos fazer um
paralelo co m o desenvolvimen t o da criança, essa
parte nã o respeitaria a cronologi a da história
verdadeira : na vida real ess e en c on tr o n ã o é o primeir o
q u e ocorre . Seria mais u m epílog o e m q u e é
possível s e reconciliar c o m a lábia d o pai, q u e
n o s vende u algo q u e era a o m e s m o t e m p o nad a
e tudo . Trocamo s a mã e po r nad a alé m d e u m
caminho , q u e aind a po r cima somo s fadado s a
percorre r sozinhos . O b o m e no b r e cavalheiro ,
q u e pel o relato d a
me possuir.
Há um element o na versão de Tabart que propicia
em q u e a mã e bo a está se m p r e morta , nest a o a associação entre o gigante e o pai: no conto, o malvado
bom pa i t a m b é m está morto . Vivos resta m a o usurpado r mata o pai de J o ã o enquant o este dorme , já
menin o o açou gueir o , q u e vai esquarteja r a vac a o m en i n o aproveit a o s o n o d o ogr o par a
roubá-lo. Através dess a associaçã o entr e o assassino
leiteira, e o ogro , q u e está interessad o n a carn e
e o ladrão, que se valem do repous o da vítima, J o ã o
dele . J o ã o não recebe u p o de r e s o u objeto s co m o s
passa a ocupa r o lugar q u e antes fora do ogro , e este é
quai s vence r seu inimigo. A conquist a d o s tesouro s
vitimado com o o pai. Na equivalência estabelecida
d e p e n d e u unica• m e nt e d e sua coragem ; portanto , a
po r essa versão, qu e d á aos mau s atos d o menin o u m
versã o idealizada do pai nã o é um a ajuda concreta, é caráter d e vingança, se alicerçam as ponte s de qu e
apena s um exemplo a seguir , u m r e c o n h e c i m e n t o precisávamo s para propo r u m caminh o interpretativo.
d a l e g it i m i d a d e d o desafio, enfim, nã o passa m d e
u m incentiv o interno. Outr a figura pat er n a
e n c o n t r a - s e n o final d a
subid a do pé de feijão. Ali en contra mo s o pai enquant o u m Uma herança roubada
ogro . u m gigant e tirânico, qu e possu i muito s bens, ma s nã
s intençõe s d e u m e m relaçã o a o o ut r
o repart e co m nin gué m e aind a te m um a mulher q u e lhe
serve. Esse é o pai na visão primitiva da criança: ele é o d o n o sã o diferentes par a os rivais dess e conto :
o do pedaço , é o d o n o da mã e e, inclusive, vê o filho o ogr o q u e r come r crianças, o m e n i n o
c o m o um a de sua s posses . Boa part e das fantasias q u e r rouba r
de antropofagi a te m c o m o fund o a idéia de ser parte ben s d e circulaçã o social".
d e outro , ser incorporad o n o corp o d e alguém, afinal já Evidentement e q u e , q u a n d o sai e m perseguiçã o d
habita mo s o c o r p o da m ã e em noss a pré- história o p e q u e n o ladrão , o gigant e nã o está pensand o n o se
pessoal . Estar dentro , ser engolid o ou engolir alguém , u estômago , naquel a ocasiã o o outr o n ã o é um a
é ta m b é m um a forma rudimenta r d e represen • tar a iguaria, é um rival. Porém , e n q u a n t o estav a
identificação. Nesse caso , J o ã o projeta no ogro seu s e s c o n d i d o n o forno , J o ã o estav a a m e a ç a d o d e
próprio s ímpeto s d e s e apropria r d e seu s atributos: s e e u ser d e vo ra d o c o m o o m e n i n o d e cujos resto s a
q u e r o seu s tesouros , ele que r alg o d e mim, o u que r mul he r d o o gr o falara.

120
D i a n a I i c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o

O s r u d i m e n t o s d a id en tif ic aç ã o p a s s a m monstr o ma u deixa os rivais em campo s opostos, ficando


p o r abocanhar a p or çã o d o outr o q u e s e q u e r o heró i c o m o d o be m . Porém , q u a n d o s e
par a si. Esse process o é unicament e um trata d e roubá-lo, matá-lo par a conquista r seu s
pressup ost o incons • ciente, resultante do fato de tesouros , fica-se n a mes m a posiçã o q u e ele,
q u e o primeir o amor , a mãe, é algué m par a ser ganh a o melho r ladrão . Pensand o assim,
sugado . O raciocínio infantil decorrente seria que podería mo s considera r o ogr o co m o u m
ama r é comer-s e m u t ua m e nt e . Muitas vezes, porém intermediári o par a q u e J o ã o pu d es s e rouba r o
, as crianças muit o p e q u e n a s têm através de sua boc a s t e s o u r o s d e s e u p r ó p r i o pai . Aliás, a q u e l e
um diálog o sofrido co m o m u n d o , mordendo pessoa s é u m p e r s o n a g e m t ã o abjet o q u e a n i n g u é
o u amiguinhos , c o m e n d o o q u e não devem, m oc o rr er i a recriminar o menin o po r ter livrado
vo mitand o o q u e deveria m digerir. Ser devorado o m u n d o de sua presença ; po r outr o lado, se algué
pel o ogr o poderi a ser també m um a projeção, que é supo m narrasse a história d e u m jovem r o u b a n d o seu
r no outr o a intençã o q u e na verdad e nó s temos, própri o pai e travand o co m el e u m d u e l o
nest e caso , o desej o da criança de devora r mortífero , seria impossíve l q u e tivéssemos co m
aqueles qu e lhe sã o caros . ele qualque r empatia.
Os gigantes devorador e s têm muitos N a v e rs ã o d e Tabart , ess e c o n t o n o s
ancestrais, mas talvez o mais ilustre seja Cronos . Sua mostr a algué m r o u b a n d o sua própri a heranç a o u pel
história é a matriz de muitas outras da mitologia grega, o m e n o s , n a versã o d e J a k o b s . construind o u m
nas quais o pai precisa se livrar do filho para nã o ser mortpatrimôni o a partir d e u m roubo . Porém , apesa r
o po r ele. Cronos castrara seu própri o pai, Urano, e d o ditad o "ladrão q u e roub a d e ladrã o tem ce m
fora po r isso amaldiçoado co m o destin o de repetir a ano s d e perdão" , n ã o é possível esquece r qu e J o ã o
história, dessa vez com o vítima. Para se livrar do roub a várias vezes . Esses conto s mostram fatos nã o
vaticínio de ser eliminado po r u m descendent e , muito diferentes da realidade, recebe r um a heranç a
el e sistematicamente devorava todo s os filhos q u e sua nunc a é u m process o simples, h á percalço s n o
espos a Réia, lhe dava. Irritada c o m o fatídicoca m i n h o d a passage m par a o filho daquil o q u e
de sti n o de su a prole , Réia engenhou um plan o o sangu e ou o direito lhe design a co m o
para salvar seu último rebento , enganou Cronos, legitimament e seu . Por mais paradoxa l q u e
fazendo- o engolir um a pedr a envolta em trapos e pareça , um a heranç a te m d e ser roubada , assim
criou o me nin o escondid o do pai. co m o o pai te m d e ser d e algum a forma
Com o n a mitologia greg a ni n g u é m está assassinad o (nu m plan o imaginário, é claro).
acim a do destino, o d e s e n l a c e era previsível . Mas o q u e sã o esse s tesouro s usurpados ?
Cron o s foi derrotado po r ess e filho, q u e vei o a Eles consiste m n a matéria-prim a co m q u e cada u
ser Zeus , o qual não só vence u o pai, c o m o o m fabrica sua identidade . Sã o aquele s traços herdados ,
fez vomitar todo s seu s irmãos. Se n o s s o o gr o copiados , inspirado s n o q u e s e viu e viveu q u e
fizer jus à essa tradiçã o de comedores de passa m po r um a apropriaç ã o po r part e daquel e qu e
criancinhas , realment e fica fácil atribuir- lhe finalidade cresce, d a criança, do jovem, do filho, e serã o a
similar. Ele seria c o m o u m pa i q u e reincorpora matriz daquil o q u e um ser h u m a n o c o m p r e e n d e
a cria par a evitar q u e esta o s up e r e e termine c o m o sua personalidade .
apropriando-s e d e seu s tesouros .
Fora do s conto s de fadas, n ã o é necessári o
ter galinhas de ovo s de ou r o para assistir ao s filhos Com quantos
levarem consigo a juventud e perdid a do s pais, o
viço de seu apetite sexual , as o p o r t u n i d a d e s e
roubos se faz uma
a energi a par a aproveitá-las. Ver os filhos crescere m é identidade
c o n t e m p o r â n e o de se ver decrescer, e, no fim dess a
história, a tendênci a natural é qu e o pai de algum a t r a n s m i s s ã o d a h e r a n ç a imateria l é
forma morr a e n q u a n t o o filho o sobreviv e e u m a do a ç ã o ativa d o s pais (eles falam,
desfruta do tesour o de viver. A morte do ogro , educa m , cuidam , mostra m seu s a m or e s
depoi s q u e o m e n i n o obtev e o q u e quis dele, e mágoas) ,
mostra q u e n ã o h á lugar par a o s doi s sobr e a terra, ma s o filho n ã o é um herdeir o
algum precisa ser de v or a d o ou eliminado . passivo. Se recebess e passivament e os benefícios a q u
Reduzido à função de força bruta, o ogr o é vencid o e te m direito pel a filiação, n ã o s e possibilitaria co
como um monstr o qualque r a ser enfrentad o pel o herói, m q u e u m filho escolhesse , m e s m o q u e d e
mas a relação entr e o herói e seu inimigo é forma inconsciente , quai s aspecto s d a identidad e
diferente quando este possui tesouro s q u e se cobiçam . d e seu s pai s adotaria par a si. Além disso , h á u
Matar um m d e t al h e a mais : o q u e o s pai s termina m
legand o n ã o necessariament e é o tip o d e
coisa q u e cab e em seu s serm õe s e ideais. E
na vida familiar c o m o u m todo , d a forma c o m
o essa é ditada
Fadas n o Div ã — Psi c a n áli s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s
um b o m negociante com o algum de seus

pel o inconscient e parental , q u e o filho faz su a colheita d


e traços identificatórios. A percepçã o
inconscient e da criança vai além da hipocrisia, da
falsa moral, da s convençõe s sociais, m e s m o se m
sabê-lo , ela vai em busca do s detalhe s q u e
revela m a verdad e sobr e o amor, o desejo , as
frustrações e as expectativa s de seus pais.
Uma vez ex p os t o a esse s traço s do inconscient e
familiar, assim c o m o à cultur a d o se u g r u p o
( q u e inclui ofícios, inserçã o social, política, códig o de
ética, formas d e busca r praze r e tanto s outro s
parâ metr o s d e n t r o do s q u ai s vi v e m o s ) , à
m e d i d a q u e e s s e s elem e nt o s d e identificação vã o
s e n d o p in ç ad o s p e l o filho, resta-lhe descobri r q u e
tip o d e u s o fará deles . Poder á confirma r um a
i d e n ti d a d e c o m se u g r u p o s o c i a l , faze r u m a
versã o del a o u c o n t r a d i z ê - l a totalmente .
Evidentemen t e q u e estam o s faland o aqu i d e um a
escolh a ba si ca m e n t e inconscient e . A seleçã o d o s
aspecto s d a personalidad e e d o inconscient e
parenta l q u e farão sintom a e m nós , e c o e m
noss a form a d e ser, é um a taref a
d e s e m p e n h a d a pe l a inevitável n e ur o s e d e cad a
um .
A construçã o da identida d e d o s filhos nã
o se estrutura necessariament e sobr e o m o de l o da s
virtudes d o s pais, evidentemen t e q u e essas p o d e
m servir d e substrato , ma s o q u e organizar á a
lista d o s itens q u e um filho vai toma r para si
está mais do lad o do q u e falta a seu s pais d o
q u e daquil o q u e eles po ssuem . Por mai s q u e o s
pais possa m s e mostra r satisfeitos c o m o q u e
c o n q u i s t a r a m n a vida , ser á e m n o m e daquil o
q u e aind a lhes falta q u e eles próprio s seguirã o sua
caminhada .
O q u e falta ao s pais é representad o po r
aquilo q u e eles desejam. S e tiverem, po r exemplo
, sucess o profissional, mas lhes faltar qualidad e de
vida, para o filho ser á u m grand e desafi o
co n str u i r u m a vid a equilibrada entr e o trabalh o e o
lazer ou entr e este e o temp o dedicad o à família. Um
filho procurará transcen• dê-los, mais do q u e imitá-
los. Para tant o precisa se estruturar a partir do
qu e a eles faltou fazer, viver ou possuir. Partirá do
p on t o o n d e os pais encontrara m seu limite. U m do s
sentimento s possíveis d e u m pai, q u e assiste ao
filho realizar seu sonh o inconclus o é sentir- se
roubado , afinal aquilo era para ser vivido po r ele.
Porém o voto de ir além da s conquistas parentais é
um desafio e tanto, afinal mal sabemo s se conseguiremo s
chegar aond e eles chegaram ou se nã o
sucumbiremo s aos mesmo s empecilhos qu e os
fizeram fracassar, po r isso, a identidade co m a
falta do s pais precisa ser de alguma forma
processada, transformada. Por exemplo , se um filho for
busca po r traço s patern os .
A imensidã o do rival de J o ã o lhe garant e
pais, a identificação terá de transcorrer de tal forma que essa lugar n o p ó d i o do s pais. Gigante s sã o todo s o s adulto s
característica seja també m proprieda d e do herdeiro, pois se para a c r i a n ç a p e q u e n a , mas co m o t emp
ele pensa r tod o o temp o q u e ela pertence ao o el a vai desc obrind o q ue , su r pr ee n de nt e m e nt e ,
progenitor, fracassará no s negócios para nã o usurpá-la p o d e enganá- los. Manipula r co m seu s estado s d
dele. Se o filho se mostrar um b o m negociante por sua e humor , enganar co m p e q u e n a s mentira s o u
própria conta, poder á até conviver co m a consciência de qu e se omissões , compreende r se u p o d e r d e chantage m n
trata de uma identidade co m sua família de origem, mas para isso o jog o d o a m o r sã o instru• me nto s pelo s quai s
terá de ter matad o seu pai idealizado e se apropriad o daquilo a criança d e s d e muit o pequen a d es co b r e q u e a
qu e já era seu. Por outr o lado, se u m a família força desco mu na l d o s seu s gigantes te m inúmero
o b r i g a r - n a m a i o r p a r t e d a s vezes amorosamente s p o n t o s fracos.9
- um filho a herda r um ofício, uma A insistência d e J o ã o e m continua r rouband
característica , um negóci o , a passivida d e q u e essa o o ogro , m e s m o dep oi s d e obte r a galinh a do s
operaçã o lhe impõ e incorrerá no fracasso da empreitada, ou ovo s d e ouro , torna necessári o q u e avance mo s u m
pior. no sucess o da empreitada e na alienação do p o u c o mais ness a interpretação . Se no terceir o
sujeito, deixando- o numa infelicidade crônica. roub o o gigante finalment e despert a par a
reconh ece r e persegui r seu rival, p o d e m o s dize r
Fr e qü e nt e m en t e , ocorr e em famílias o roub o ou a
o m e s m o do m en i n o : é neste últim o furto q u e
ap r op ri aç ã o po r part e d o s filhos d e dinheir o o u d e
ele d e certa forma admit e q u e quer mai s d o q u
objeto s significativos, c o m o perfum e d a mãe , maquia• gem ,
e a s riqueza s d o monstr o , qu e r m es m o é
roupas , carro , bebidas . Nã o e sta m o s no s referi• m o s â
derrotá-lo , interessa-se po r ele.
delinqüê nci a , a o filho q u e roub a par a comprar drog as ,
ma s a o furto sintomático , a q ue l e e m q u e são Se até agora ele utilizou as riquezas do ogro
su rr u pia d o s objeto s q u e funciona m c o m o represen• sem se importar co m a procedência, ou seja, elas
tante s d o s pais . Esses objeto s estã o s u p o r t a n d o u m passaram a ser usadas po r João , da mesm a forma c o m o
rest o d e identificação, é melho r e n t ã o pe ns a r duas antes serviam ao gigante, q u a n d o se tratou da harpa,
veze s ante s d e fazer u m alarde , poi s n ã o s e objeto de prazer, ela gritou po r seu dono ,
trata e x a t a m e n t e d e r o u b o , sã o curtos-circuito s n a acordando- o para o duelo. A

122
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
ogr o n ã o é t a m b é m uma antropófaga (como n
o Pequeno Polegar, de
partir daquele momento, as riquezas (estas mesma s q u e
estamos associando aos traços identificatórios herdados )
para serem do menino terão de deixar de pertencer ao
gigante de forma explícita, po r isso, este terá de morrer.
E importante observa r q u e é so ment e no último
roubo que o gigante r ec o n he c e J o ã o c o m o o
auto r dos outros dois. Se os disfarces adiantara m
ante s é porque foi só a partir dali q u e ele atingiu
algu m tip o de identidade. Essa tolice do ogr o - e da
sua mulhe r - serve para frisar qu e as sucessiva s
incursõe s é q u e foram construind o um a
identidad e par a J o ã o , q u e passou de ladrãozinh
o a n ô n i m o à posiçã o de rival. Depois disso, o
ogr o p ô d e morrer. Morto o d o n o , os bens
roubados restam c o m o um a herança , p as sa n d o a
ser legitimamente de João . O q u e de fato aí se legitima é a
condição de crescido, capa z da inteligência e da
coragem indispensáve i s par a b us c a r d o m u n d
o o
necessário para prove r a sua casa.

Os tesouros do ogro
s tesouro s do ogr o sã o três: a galinha
do s ovos d e outro , a s sacas d e moeda s d e
o ur o e uma harp a q u e canta e toca
sozinha .
A galinh a d o s o v o s de o u r o é a antítes e
da vaca seca. As galinha s serve m ao s h o m e n s
co m sua s u r p r e e n d e n t e c a p a c i d a d e d e fabrica
r o v o s diariamente. Estes, alé m de fonte de
aliment o para nós, referem a questã o da orige m da
vida. Inclusive o ovo é um do s símbolo s da vida,
ou da ressurreiçã o como na Páscoa católica. Então,
tant o qu a nt o a vaca. a galinha está em condiçõe s
de representa r a mulhe r e seus don s de fertilidade
e alimentação . Na versã o de Jakobs, a primeira coisa
que J o ã o tira do monstr o é aquela de qu e a vida o
havia privado : a mãe .
O ouro , porém , ultrapassa a condiçã o
matern a dos ovos. Esse metal é o lastro da s
moe das , possu i um valor universal, n ã o é fiel a
n e n h u m d o n o , serv e àquele qu e o possuir. Uma
mulhe r q u e fosse c o m o a galinha do s ovo s d e
o ur o seria c o m o u m c h e q u e a o portador, d a n d o
seu s tesouro s femininos àquel e q u e lhe ordenar.
De fato, o amo r é c o m o o ouro , p o d e brilhar
na m ã o de qual que r um q u e o possua .
Aliás, so b sua aparênci a de servilidade, a mulhe r
do ogro se revela b e m p o u c o fiel: alerta J o ã o
para o perigo qu e corr e e aind a o alimenta, parec e nã
o estar do lado do marido , ap e n a s está ali par a
servi-lo po r temor. Q u e m escut a essa história,
evidente me nte , se pergunta po r q u e a mulhe r d o
Perrault) , dispost a a partilha r d o delicios o
m e n i n o assado . C o m o Réia, a espos a de Cronos , a
ogra guard a o m e n i n o par a si, n ã o neg a q u e
o pai é um rival perigos o e temível, ma s te
m a corage m cie salvar o p e q u e n o ladrã o qu
e a sedu z co m sua condiçã o d e filho
faminto. F.ssa tensã o entr e a relaçã o co m
se u h o m e m e co m seu filho é a raiz da s
contradiçõe s q u e revela m à criança q u e ningué
m é um c o m pl e m e nt o perfeito para o outro .
Se o pai fosse t u d o para a mãe , ela
jamais teria s e entregu e à maternidade ,
d e s e j a d o par a s i u m p e q u e n o sugador . Se o
b e b ê fosse tud o para ela, para q u e entã o ela s e
manteri a co m seu ogro , providen - ciand o-lh e
todo s o s prazere s q u e ele lhe exige? A
galinha do s ovo s d e ouro , portanto , mostra q u
e J o ã o p o d e até voltar ao lar e oferecer os
tesouro s para sua m a m ã e querida , mas depoi s de
ter enfrentad o o gigante algo mudou . Ela estará mais
cm posiçã o de testemunha r a s conquista s d e
cresciment o d e seu filho, d o qu e d e retorn o a
um a díacle idealizada . As artimanha s do
m e ni n o lhe permitira m vence r o seu rival e
també m aprecia r su a grandeza .
Apenas para fazer um contrapont o co m o mito
de Eclipo, po d e m o s dizer qu e J o ã o nã o despos a a
mãe . A história cessa n o m o m e n t o e m q u e ele
lhe prova qu e cresceu e circula co m outro s
valores, mais importantes qu e o alimento qu e ela
pod e fornecer, ou seja, o our o capa z de
comprá-lo .
Depoi s de comer , o ogr o costumav a gritar co
m a mulhe r pedindo-lh e q u e seu s tesouro s fossem
trazidos. Ele o s examinava , contand o o
d i n h e i r o , v e n d o a galinha pô r seu s ovo s dourado
s e , po r fim, adormecia , r o nc an d o sonora mente ,
satisfeito co m a comid a e as posses . O último
desse s ben s nã o diz respeito ã riqueza, ma s diretament
e ao prazer: trata-se da harp a encantada . Ela toca
para ador mece r se u amo , mas ta m b é m é ela q u
e grita q u a n d o J o ã o a peg a e c o m eç a a
levá-la embora . A harp a faz o q u e a ogra n ã o fez, é
fiel àquel e a que m proporcionav a p ra ze r .
S o m e n t e q u a n d o privad o dess e bem , o gigant e
desperta , reconhec e J o ã o c o m o o me nin o qu e vinha
sistematicamente rouban do - o e decid e eliminá-lo.
D ec id i da m e nt e , nã o era possíve l
compartilha r ess e tesour o co m o pai . O s ovo s e a s
m o e d a s p o d i a m ser po ss uí d o s po r J o ã o , e n q u a n t o
o se u d o n o original aind a vivia ali no alto do
pé de feijão, ma s a harpa , ess e instrume nt o d e
prazer , j á é demais . Q u a n d o u m filho faz su a
escolh a a m or o s a o u erótica, d e o n d e buscar á
extrair o deleite , o g oz o , terá de ser o a m o
d a situação , desejar á s e senti r o o g r o d a vez .
Q u er er á se r o legítim o p o s s u i d o r d e seu s
tesouros , capa z d e

123
Fadas no Divã - Psicanálise na s Histórias Infantis

produzir naquele que escolher para amar ou desejar açougueiro é aquele que o priva dos seios, é o que
eroticamente a servidão da harpa, que não reconheça lança o menino na aventura e também o ensina que é
outro que não ele. Depois do furto da harpa encantada, preciso ser astucioso. Essa lição tem de ser rapidamente
nã o h á lugar para dois. Nesse mo mento , aprendida para ser usada contra aquele que representa
Jo ã o representa o menino crescido que já não se o aspecto mais terrível: o ogro. O pai açougueiro
contenta com o que é do pai, nem com o passado; da é també m o último, porqu e seus feijões
vida ele quer o prazer que lhe seja pessoalmente realmente fizeram a mágica. Só no fim é possível ao
endereçado. Nossos argumentos falam da imaterialidade menino dar- se conta que valeu a pena. mas depois de
desses tesouros, que não seriam outra coisa que a ter vencido os obstáculos que esse mesmo pai impôs.
transmissão de dons de pai para filho. Outra evidência Identificado com a inteligência desse pai, o
que valida a hipótese é o lugar onde João vai buscar menino arrancará a esperteza necessária para saber
os tesouros: num mundo à parte, cujo acesso o pé de como sair das ciladas da vida.
feijão pos- sibilita, criando uma passagem para essa É preciso lembrar que uma identificação
outra dimen- são (agora nas nuvens), embora já estejamos efetiva pressupõe a morte imaginária daquele que nos
no território das fadas. Que reino é esse que se situa além legou o traço. Muitos casos de incompetência de um
do nosso alcance? Que lugar e esse o qual só por meio sujeito para a \ ida se devem ao fato de que os dons
de um expediente mágico podemos alcançar? João continuam fazendo parte do pai, assim como toda a
não tem um pai vivo, logo só é possível encontrá-lo sabedoria e a esperteza seguem como atributos dele.
no reino dos mortos, que também é o reino Não é o caso de nosso herói, ele aprende
das gerações passadas, responsáveis pela tradição que rapidinho que na vida ganha quem pensa mais
nos é legada. Um dos aspectos sempre lembrado rápido, e o açougueiro, que não será mais
do ogro é necessário, desaparece.
seu excelente faro para humanos. "Fi-feu-fo-fum, farejo o O próximo pai, o ogro não está
sangue de um inglês, esteja vivo ou morto, doente ou disposto a entregar-se. Na verdade não é tarefa fácil
são, vou raspar-lhe os ossos e comer com pão"10 é a para os pais a de serem usados pela
frase mais marcante do conto e o clímax para subjetividade dos filhos e depois dispensados. Há
os pequenos. Existe uma crença muito antiga que algo nos pais que diz ao filho que ele nunca crescerá,
versa sobre os odores, a qual pode vir em nosso precisará deles para sempre e jamais será tão capaz
auxílio: tanto os humanos sentem facilmente o quanto eles para enfrentar a vida. Por isso, a
mau cheiro dos mortos, como os mortos sentiriam de resistência dos pais ao crescimento dos filhos
longe o mau cheiro dos vivos. Cremos que o ogro se precisa ser eliminada através da morte do gigante. Aliás,
situa nesse outro espaço porque ele está ligado à morte, a be m da verdade, quand o os filhos ficam
até porque ele traz a morte aos humanos. Nesse grandes, os pais parecem fisicamente menores.
caso, ela vem associada á comida (ser devorado), O ogro tenta correr tanto quanto João, mas este,
mas talvez não só pelo aspecto das teses orais de mais leve e rápido, corta o talo do pé de feijão, fazendo
incorporação, mas porque a carne possibilita o gigante desabar pelo próprio peso. Há um
pensar na diferença entre os mortos e os vivos. Afinal, corte que o filho tem de fazer desse vínculo,
como os vivos se alimen- tam de carne morta, embora este não cesse de se reconstituir e regenerar de
podemos pensar que os mortos se alimentam da várias formas ao longo da vida. Se de entrada o pai
carne dos vivos; pod e ser esse o raciocínio de precisa impor ao filho um limite, ficando com a vaca
fundo de algumas lendas sobre ogros e outros para sua própria satisfação, na saída é o filho que
antropófagos que vivem em outras dimensões. lembra ao pai que ele está pesado e velho. Nada
como conviver com a juventude dos filhos para
contabilizar que o tempo não traz só ganhos, que
Morte dos três pais as perdas são muitas.
O pai que ficará para sempre, no
ão é fácil ser filho, uma identidade é masti- melhor dos casos, é aquele nobre cavalheiro do
gada e digerida com lentidão e dificuldade. conto de Tabart, o dono original dos tesouros. O
O pai é uma figura que, sob todas suas faces, o problema é que ele nunca sobrevive para entregar
principal que tem a oferecer é o desafio. seus dons. Quando o filho se apropria, o pai em
Do ponto de vista do menino, cada conjugação pessoa, já superado, não tem mais a mesma
do pai merece uma contrapartida. O primeiro importância. Afinal, uma pessoa precisa crer que
a ser encontrado nesse conto é também o seus dons e conquistas são realmente seus, senão
último. O pai estará a vida toda lidando com a própria existência
como se fosse patrimônio alheio.
124
Di a n a L i c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o C o r s o
casos, a

Volta ao lar
o fim do conto , em a p en a s um a da s versões ,
Joã o caso u co m algum a princesa ,
m a s podemo s ter a certeza d e q u e e m amba
s el e está apt o par a fazê-lo. A história
termin a
afirmando qu e ele e sua m ã e viveram felizes
par a sempre. Resta-nos a pergunta : o q u e J o ã o
q ue r c o m essa mãe que já nã o tem muito a lhe oferecer?
Sup o mo s que ela está na condiçã o de testemu nha r po r
part e da família o necessário r e co n he ci m e n t o da s
conquista s do filho. Justament e po r q u e as aventura s
acontece m fora do lar, é important e q u e os pais possa m
co n he c e r a vitória do s filhos, par a q u e fique claro q u e
est e q u e venceu é o m e s m o p e q u e n o de cujas
ca p aci d a de s todos duvidavam. Se essa é um a
história q u e tem a dizer sobre a aquisiçã o de um a
identidade , p o d e m o s acrescentar qu e esta t a m b é m
d e p e n d e d e s e fazer reconhecer co m o a mesm a
pesso a do início ao fim da própria história. Em
inúmero s conto s de fadas, o heró i busca sua família ,
e m gera l seu s irmãos , p a r a compartilhar suas
glórias, par a viver junto ness e nov o reino em qu e
ele é s ob er a n o .
A mãe perma nec e e m casa, c o m o u m resto
d o passado, com o ficam todo s os pais en q ua n t o seu s
filhos partem e voltam , de ta n t o em tanto , par
a fazer o balanço de sua caminhada . Os pais q u e
ficam, real ou metaforicamente, n o lugar e m q u e
foram deixado s a o partir, servem c o m o el o entr e a
criança q u e se era e o jovem ou adult o q u e o filho
se tornou .
Voltar par a casa é vivencia r um fio de
conti - nuidade, sentir-se part e de um a história,
confirmar a identidade de um a pesso a na s várias
circunstância s de sua vida. Por isso, nest e conto ,
c o m o na vida. o filho vai e a mã e fica, poi s
ela é fiel depositári a da memória da infância
perdida . E c o m u m q u e q u a n d o se encontrare m
en v ol vi d o s c o m a p a t e r n i d a d e ou maternidade, o
s filhos retorne m par a pergunta r à m ã e detalhes d o
se u p a s s a d o mai s r e m o t o . Desta vez, ouvem
com agrad o as mesma s histórias q u e ante s os
constrangiam : r e l a t o s d e c o m o d o r m i a m o u
s e alimentavam, de c o m o nascera m e da s
gracinha s ou travessuras q u e faziam q u a n d o bebês .
É q u a n d o s e está passand o par a o outr o lad o
da linha - agor a o filho é outr o -, q u e se torn
a possível resgatar essa s lembranças, compartilhá-la
s co m a mã e (o u co m os pais) e reapropriar-se
delas . Um d o s grande s benefícios da parentalidade está
em encontrar-s e de algum a forma com a criança q u e
um dia se foi.
Geralment e é na vida adult a a ocasiã o par a ess
e retorno , a s s i m c o r n o , n o m e l h o r d o s
125
o po rt u ni da d e para u m convívi o mais a m e n o
co m o s próprio s pais . O trabalh o d e
identificação a q u e n o s referíamos oportuniz a
tant o a consciênci a de q u e se é similar, em bor a
diferenciad o deles , q ua n t o o reconhe • ciment o d a
dívida sobr e o s legado s recebidos . Q u a n d o no s
re co n he c e m o s e n q u a n t o d ev e do r e s d o fato d e
ter pertencid o a uma linhage m ( m e s m o no s caso s
e m q u e acreditamo s q u e seja um a se m
predicados) , encontra • mo s um a forma d e
viver mais interessante , q u e no s permit e
oscilar entr e a individualidad e e o sentiment o d e
pertence r a u m gr u p o . O trabalh o d e um a
análise freqüentement e repet e a o pe ra ç ã o d e
João : primeir o pega r as riqueza s - sejam elas
fartas ou parca s - d o s pais , a segui r
conscientizar-s e d e q u e proviera m deles , d e p o i s
ap r op ri ar- s e dela s e , p o r último , aceita r a
o po rt u ni da d e d e q u e elas façam part e d e um a
história p e s s o a l . Par a s a b e r q u e m s o m o s ,
é f u n d a m e n t a l descobri r de o n d e viemo s e de
q u e é feita a bagage m q u e carregamo s para todo s
o s lados, a qual c h a ma m o s d e identidade .
Poderíamo s també m pensa r qu e Joã o
é u m p e q u e n o Édipo , poi s n o fim d a
aventur a el e volta par a casa, vitorioso, t e n d o
vencid o o gigante , par a goza r o s tesouro s co
m mamãe , c o m o aquele s filhos crescido s q u e
n ã o troca m o col o d a mã e po r amore s d o tip
o d e q u e u m h o m e m p o d e usufruir. Nã o
deix a de ser um final mais convenient e às crianças
peque nas , d o q u e aquele s no s quai s o s
tesouro s estã o se mpr e e m algu m rein o
distante , e a princes a te m d e se r
conquistad a o u d e algum a forma negociad a co m
algum s o b e r a n o s o g r o - o g r o . Pa re c e at ra e nt e ,
volta r par a finalmente o cu p a r o lugar d o papai
, se r o h o m e m d a casa. Mas essa é um a cen a
bastant e difícil, pois a mã e p o d e se r a mai s
atraent e da s m u l h e r e s ao s ol h o s a p ai x on a d o s
d o filho, mas , ao s olho s dela, el e sempr e será um
b e b ê incompetent e para a vida, q u e precisa
de sua ajuda par a co me r e se agasalhar.
Normalmente , essa saída acab a s e n d o m e n o s
um a forma d e se r o h o m e m da casa e mais
uma maneir a de perpetuar-s e na condiçã o de
filho.
Voltar par a casa vencedo r é um projeto da
criança q u e alguma vez se disse: -"ele s vã o ver!".
São inúmera s as histórias de fadas na qual um
jovem, de preferência o filho menor , considerad
o tolo e fraco, identificado co m toda s aquela s
incapacidade s q u e tem aquel e qu e ainda nã o
cresceu, sai para provar qu e é o mais espert o e capa
z de sua prole. Ele sempr e super a irmãos
mais velhos e sua revanch e às vezes passa pela
grandez a de incluí-los e m seu nov o reino,
oferecendo-lhe s esposa s e riquezas. Nã o é
precis o ser o filho caçula par a se identificar co
m ess e personagem , basta ser criança.
Fadas n o Div ã - P si c an á li s e n a s Hi st ór i a s I n fa n ti s
Tabart, qu e ele chama de "a versão
expurgada", "faz co m
Na maior part e da s vezes , é o pa i q u e m
duvid a da competênci a do filho mais m o ç o , o q u e
torn a su a aventura bem-sucedid a um a revanch e
contr a a falta d e crédito recebida . N o cas o d e
João , a dúvid a é explicitada pela màe , q u e
mediant e a troca infeliz do s feijões pela vaca constata
q u e n ã o d á par a conta r c o m o filho para nada,
fazend o cor o c o m textos os pai s e irmãos mais
velho s q u e dize m q u e n ã o s e dev e confiar n o s
p e q u e n o s , at é q u e ele s p r o v e m d o q u e s ã
o capazes .

Notas
1. Os gigantes e os ogros compartilham o tamanho, a
maldade, a brutalidade e a fama de
antropófagos. Ambos podem ser descritos com o
monoculares (o que a nosso ver sublinha o
papel do olhar nesses monstros) e, quan d o são
representados , ambo s possuem uma bocarra
pronta a devorar. Polifemo. o ciclope qu e
topou com Ulisses, é um ancestral ilustre
desses seres qu e hoje pode m ser incluídos
nessa categoria confusa entre o gigante e o
ogro. Por outro lado. existem inúmeros mitos qu e
levam a crer que o home m primitivamente era um
gigante e que vem degenerando , ficando cada
vez menor, mais traço e vivendo meno s tempo . O
ogro possui uma característica qu e nem sempre o
gigante possui, u m olfato b e m d es e n vo lv i d o
par a percebe r a proximidade de humanos.
Provavelmente a palavra
"ogro" vem de Orcus. figura de origem popular
na religião romana, às vezes confundida com
Caronte e, por isso. associado à morte.
2. JAKOBS, Joseph . Contos de Fadas Ingleses.
São
Paulo: Landy. 2002.
3. "As aventuras de Joã o foram registradas em primeiro
lugar por Benjamin Talbart, em 1807, c o m o
A História de João e o Pé de Feijão'. Tabart baseou-se,
sem dúvida, em versões orais qu e circulavam
em sua época, embora afirmasse qu e a fonte
de seu conto era um manuscrito original". In: TATAR,
Maria. Contos de Fadas: Edição Ilustrada &
Comentada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
Esta versão, m en o s popula r hoje e m dia, p o d
e ser lida e m portuguê s na tradicional
enciclopédi a infantil O Mundo da Criança,
publicada na década de 1950, pela editora
carioca Delta.
4. MILLS, Alice. Cbildren's Treasury. Ne w
York: Random House, 2002. Tradução nossa.
5. Na opiniã o de Bettelheim, esse cont o de
qu e tud o qu e suced e a Joã o seja uma
retribuição moral em vez de um a história sobre a
aquisição da masculinidade". Ele o contrapõ e ao cont o
de Jakobs, qu e considera "original": "O original de João
e o Pé de Feijão é a odisséia de um menin o qu e
luta para c o n s e g ui r i n d e p e n d ê n c i a de um a
m ã e que o menospreza e tenta conseguir por conta
própria uma certa grandiosidade. Na versão expurgada,
João faz apena s o qu e lhe diz outra mulher
mais velha e poderosa". In: BETTELHEIM, Bruno.
A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro:
Paz e Terra,
2001, p. 231 (nota).
6. Poderíamos inclusive pensar qu e eles contêm uma
promessa de crescimento qu e é muito preciosa era
particular para um menino , pois o feitiço
propicia algo qu e se parec e com uma ereçã o
gigantesca. Assim cont o as sementes são uma
analogia recor• rente do sêmen human o (não só pela
origem comum das palavras, mas també m pela
história da semen- tinha do papai na barriga da
mamãe). Nesse sentido, a magia do s feijões seria alusiva
à maturação sexual do menino. Bettelheim propõ e essa
leitura ao afirmar qu e "escalar o pé de feijão simboliza nã
o só o poder mágico de ereçã o do falo, uras
també m os senti• mentos do menin o em conexã o
co m a masturba- ção". Ele també m atribui essas
fantasias a um sonho, dize nd o q u e "nenhu m
menin o norma l poderia, durante o dia, exagerar
de mod o tão fantástico as esperanças qu e sua
masculinidade recém-descoberta lhe desperta. Mas
durante a noite, no s sonhos, isso lhe aparec e em
imagens extravagantes, com o o pé d e feijã o p o r
o n d e s o b e a t é o s c é u s " . In: BEITELHEIM.
Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de
Janeiro: Paz. e Terra, 2001, p p . 227 e
228 (nota).
7. A leitura freudiana da identificação co m o pai e da
rivalidade qu e esta conté m leva-nos a pensar
que que m que r se parecer co m o outro tem boa s razões
para devorá-lo. Nesse sentido, poderíamo s pensar
q u e . de certa forma. J o ã o elimina o ogr o e
se apropria do s seus objetos com o se
incorporasse algumas partes deste, lhe comesse
alguns pedaços:
"A identificação é conhecida pela psicanálise como a
mais remota expressão de um laço emocional com outra
pessoa. Ela desempenh a um pape l na história
primitiva d o Co m p le x o d e Édipo . U m
menin o mostrará interesse especial pel o seu pai;
gostaria de crescer com o ele, ser com o ele e tomar seu
lugar em tudo. Podemo s simplesmente dizer qu e
toma seu pa i com o seu ideal. (...) O menin o nota qu
e o pai se coloca em seu caminho , em relação à
mãe.
Di a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o

Sua identificação com ele assume então um colorido


hostil e se identifica com o desejo de
substituí-lo também em relaçã o à mãe . A
identificação na verdade é ambivalente desde o
início; pod e tornar- se expressão de ternura com tanta
facilidade quant o o desejo de afastamento de
alguém. Comporta-se como um derivado da primeira
fase de organização da libido, da fase oral, em que o
objeto qu e prezamos e pelo qual ansiamos é
assimilado pela ingestão, sendo desta maneira
aniquilad o c o m o tal. ' In: FREUD, Sigmund.
Psicologia de Grupo e Análise do Ego(\92\), cap. VII,
p. 133- Obras completas, vol XVIII. Rio de
Janeiro: Imago Editora, 1987.
O ouro , assim c o m o o d i n h e i r o , sã o
valore s monetários e, portanto, uma abstração. Eles
não têm valor em si, não servem diretamente para
nada. sua
cotação depend e de parâmetros externas. A
comida ainda tem um valor direto: é o
alimento de qu e precisamos para sobreviver. Os
distúrbios alimentares variados (anorexias e
bulimias) provam qu e ela está sujeita a uma
inserção subjetiva, que relativiza esse caráter
direto, mas ainda é diferente das riquezas
monetárias, estas sim são de um valor
impalpável.
9. A arte dos pequeno s em enganar os grandes,
com o fez João . é recorrente nos contos de
fadas. Para citar apena s seus similares mais
populares, temos O Pequeno Polegar e O
Cato de Botas, am bo s de Perrault.
1
0 \a tradução de Maria Luiza X. de A. Borges,
para o livro: TATAR, Maria. Coutos de
Padas: Edição ilustrada & Comentada. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

127
Capítulo IX
HISTÓRIAS DE AMOR I: QUEM AMA O
FEIO, BONITO LHE PARECE

O Rei Sapo, A Bela e a Fera e O Príncipe Querido


Repulsa infantil ao sexo - Idealização do objeto amado -
Início da vida sexual - Narcisismo infantil - Aspectos agressivos do
amor - Renúncia ao amor dos pais - Crescimento e civilidade

m diversos conto s de fadas, há u o s percalço s d a relaçã o c o m eç a m po r have r


m laps o d e t e m p o en tr e algo d e r e p u l s i v o , a n i m a l e s c o o u i n d o m a d o
o primeir o m o m e n t o e m qu e e m u m d o s m e m b r o s do casal - geralment e no
o príncip e e a princes a se olha m h o m e m . Na maioria da s vezes , o aspect o terrível
e se apaix ona m e aqu el e deve-s e a algu m feitiço q u e o a m o r finalment e
em q u e enfim ficam a sós no vencerá , p o r é m ante s ess e sentiment o terá d e s
leito nupcial . Muitas vezes , e prova r c o m o alg o maior q u e a atraçã o física,
haver á aventura s interposta s dever á transcend e r as aparências . Uma ve z posta s
entr e o pri m ei r o e n c o n t r o á prov a a nobrez a d o s sentimento s e a força
e a ceri • d o s heróis , o casal terá direito a uma image m
mônia de c a s a m e n t o . D ep o i s de d e s c o b r ir e m condizent e c o m a idealizaçã o da paixão , em
que desejam um ao outro , aind a lhes faltará lutar q u e a belez a e a riquez a da s veste s d o s
po r ess e amor, perder-se para reencontrar-se , vence r a m a d o s p o d e m recom pen sa r o s amante s pel a
opositore s ou enfrentar desafios. Temo s analisad o agrura d a conquista .
alguma s dessa s histórias no s capítulo s anteriores , mas , O casa me nt o é o último horizont e a qu e cheg a a
naquele s casos, a beleza d e a m b o s o s c o n s o r t e s maio r part e d o s herói s desse s contos , em bor a
ga ra n t e o m ú t u o encantamento d e qu e tirarão muitas v e z e s a relaçã o aind a tenh a d e
energi a para vence r o s obstáculos q u e o s separam enfrenta r a l g u n s cont ratem po s par a s e
. estabelecer , c o m o n o cas o d e Rapunzel e da Bela
Analisaremos agora alguma s das Adormecida, na versã o de Perrault. Depoi s do
i n ú m e r a s histórias d e desen contr o inicial. São felizes para sempre, q u e em geral significa casado
aquela s e m q u e s até q u e a mort e os separe , termin a o ciclo da
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s

maior parte desse s relatos; m e s m o q u a n d o m e n ci on a d o q u e t e n h a m ficado, n o nos s o t e m p o , par a


q u e o casal tev e filhos, a continuaçã o da história us o das crianças . O horizont e da juventude ,
n ã o vai muit o long e d a boda . o n d e elas têm o p o rt un i da d e de ama r e mostra r se
Quest õe s d a maturidad e n ã o sã o alvo do s conto s u valor, é fonte de apree nsã o , já q u e se p r e para m par
de fadas. Se a velhice, a mort e e a ed u ca ç ã o do s filhos a vivê-la, é a porção de futuro q u e têm em vista. Nos
aparecerem, serão sempr e mostradas desd contos , verificam que n ã o será um a experiênci a fácil,
e a perspectiva do s mais jovens . Certas histórias e m b or a perceba m que há luz no fim do túnel .
co m e ç a m co m a intençã o d e u m velh o rei d e Se há algum d a d o do futuro q u e as crianças levam
escolhe r u m entr e seu s filho s c o m o sucessor . em conta é o amor. Evidentement e estarão preocupadas
Nelas, a perspectiv a d a narrativa ac o m p a n h a a co m o que vão ser quando crescer, o q u e se
disput a entr e os príncipe s para obte r ess e direito, na qual traduz em expectativa s de trabalh o e sucesso ,
vence , na maioria da s vezes , o mais jovem e ma s sabe m que d e p e n d e m d e ama r e ser a m a d a s
ap ar e nt e m en t e m e n o s apt o d o s irmãos . Raros sã o o s par a sua sobrevivên• cia e n ã o tê m motivo s par a
caso s q u e enfoca m a qu estã o d a supo r q u e essa dependên• cia, tã o explícita na infância,
sucessã o d o po n t o d e vista d o s pais, daquele s se modificará radicalmen• te. E normal , portanto , qu e se
q u e envelhecem , q u e p er d e m a vez. Em A Gata p r e o c u p e m co m o futuro d e seu s vínculos am oros os .
Branca,' narrad o po r Madam e D'Aulnoy, o q u e Conhecedore s do s conto s d e fad a
moviment a a trama é o fato de o rei sempr e inventa r poderã o c o n tr a p o r qu e muita s história s
novo s desafios para seu s três filhos, co m o objetivo contempla m prota• gonista s maduros , casais
de procrastina r o m o m e n t o d e deixa r o trono . premi ado s pela sua bondade em recebe r os
Embor a aqu i apareç a explicitamente a vacilação d o necessitado s em casa ou castigados pela m e s qu i nh e z ,
velh o q u e n ã o s e confor- ma, seu valor na trama está animai s m o s t r a n d o q u e a uniã o faz a força ou
su b or di n a d o à luta travada entr e os filhos pel o trono . re ss alt a n d o um a ou outr a virtude . É um
univers o vastíssimo e existe essa vertent e de
Em outr o tip o de relato, o rei se encontr a de sc o n -
contos co m estrutura s fabulares, voltada par a a
tent e c o m o r es ult a d o d a e d u c a ç ã o d e u m
transmissão de valores e a reco mpe ns a da s virtudes.
filho, considera- o preguiçoso , ignorant e ou fraco,
Mas os leitores assíduo s d e conto s folclóricos d o
po r isso, enviará o jovem para um a jornad a de
m u n d o to d o admi• tirão qu e , na maioria da s
aprendizage m ; entretanto , lemo s um a história dess e
histórias, o a m o r - incluindo aqu i o reco nheci me nt o
tip o coloc ando - no s na expectativa da revanche , na qua l
patern o - é o motor, o prêmio ou o desafio da
o filho provará a o pai d o q ua n t o é capaz . Gostamo
trama.
s d e testemu nha r ess e p e r s o n a g e m c a l a n d o a s
dúvida s do pa i tã o espetacularment e q u an t o Este capítul o — assi m c o m o os doi s q u e se
gostaríamo s d e ter impres • sionad o nosso s se• g u e m - será d e d i c a d o ba si ca m e n t e às
próprio s pais , qu e invariavelmen t e sentimo s aventur a s que ocorre m n o território d o amor,
vacilar n a confiança q u e no s depositava m . especialment e àquelas e m qu e u m do s
Salientamos que , em a m b o s os casos , a ênfase c o n s o r t e s n ã o c o r r e s p o n d e à expectativ a d o
está me no s no s dilema s sucessório s o u outro . A feiúra g e r al m e n t e aparece associad a a
pedag ógic o s d o s monarca s e mais na disput a do s o caráter animalesc o d o outro , c o m o nos caso s
filhos pel o tron o ou pela herança . conhe cido s de O Rei Sapo e de A Bela e a Fera.
Q u an t o às filhas mulheres , a ênfase dos
conto s mostra co m o alguma s terã o d e lutar contra a s
cobrança s afetivas po r parte d o pai. q u e lhes exig O Rei Sapo
e u m tip o d e víncul o q u e já não cab e na
relaçã o paterno-filial. O pai p e d e um amo r q u e mais célebr e história de um noiv o
está reservad o par a o futuro e nã o voltad o para o animal e d a transformaçã o d o repulsiv o
passado . Outra s terã o d e enfrentar o desafi o d e e m atraente é co m certeza O Rei Sapo.2
cresce r l ut a n d o contr a sua s pr ó pri a s resistências, Nele, um monarca
sã o as princesa s mi mad as , cujos pa i e enfeitiçacl o d e p e n d e d o a f e t o d e
pretendent e terã o d e privá-las d o s mimo s d a uma princes a para voltar à forma original. Um a
Corte, d a família, lançando-a s n a aventur a a o ca b da s mais clássica s c e n a s e v o c a d a s p e l o s c o n t o
o d a qua l encontrarã o seu príncipe . s d e fadas é justament e a da bela princes a
A s variante s sã o muitas , ma s o beijand o um repulsivo batráqui o , permitindo-lh e o
d e n o m i n a d o r c o m u m é o p o n t o de vista a partir retorn o da metamorfose. A possibilidad e de um
do qua l se narra m tais contos : a juventude . Por isso, s a p o virar príncip e é um bom argument o par a o
n ã o caus a estranhez a fato d e q u e a s aparência s n ã o devem ser impediment o
par a u m a relação . Seguidament e a s

130
Di a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mário Cor s o
e pel a família

mulheres recorre m a ess a história com o


metáfora , quando argume nta m q u e val e a p e n a
investi r e m determinado pretendente , ap o st an d o
mais n o q u e ele se tornará do q u e naquil o q u e
é no presente . Mas vale a leitura do conto , tal
c o m o estabelecid o pelo s irmãos Grimm, par a no s
su rp re e n de r m o s co m um fato importante: a princesa
també m te m lá sua feiúra.
Trata-se da filha mais jovem do rei, c o m o sempre , a
mais bela de toda s as princesas . Nos dias quentes
, ela tinha por hábit o brincar co m sua bolinh a de
o ur o perto de uma fonte, ma s um a ve z deixo u
cair seu precioso objeto na águ a profunda , fazend o o
brinque - do desaparecer. Desesperada , pôs-s e a
chora r c o m o um bebê, aos gritos. Nesse m o m e n t o
surg e um sapo , prometendo alcançar-lhe a cobiçad a
bola, mas some nt e se ela concordar em levá-lo para
a casa dela. Além disso, teria d e lh e aceita r
c o m o c o m p a n h e i r o d e brincadeiras, compartilha r co
m ele seu prat o e admitir sua companhia até na própri
a cama . A jovem concor • dou, mas sem a mínim
a i nt e nç ã o de h o n r a r u m a promessa feita a tã o
desprezíve l criatura - e aqui ela se mostra uma
pesso a be m p o u c o bonita . Depoi s de obter a bola
de volta, ela foge co rr en d o do sapo , ma s ele vai
até o c a ste l o e b a t e à po rt a , e x i g i n d o o
cumprimento da palavra da princes a caçula.
Horrorizada co m a apariçã o cio sapo , a
princes a relata o ocorrido ao pai qu e , em vez de
apoiá-la, lh e exige que faça jus ã promessa . Assim,
tomad a de nojo, é obrigada a admitir o batráqui o
em sua mes a e em sua cama; na hora de dormir,
ela n ã o agüent a mais o assédio dele e raivosa o
atira contra a parede . Ele, então, se transforma
n u m bel o príncip e e ela, num a enamorada
princesa.
E surpreendent e q u e o gost o popula r
recent e tenha se apegad o a um a cen a q u e
simplesment e nã o existe na narrativa clássica do s
irmão s Grimm: a da princesa beijando o sapo . Não
só nossa heroín a jamais se disporia a isso, com o també
m a transformaçã o nã o era provocada po r um at o de
amo r e sim de violência. Na atual versão popular , o
sa p o esclarec e à jove m que ele é um príncip e
enfeitiçad o e, em nom e da perspectiva da
transformação , ela se sacrifica e venc e o nojo,
beijanclo-o. Já nesta narrativa mais antiga, a
princesa se envolv e co m o animal se m ess e
consolo , a aparição do bel o príncip e é um a
surpres a q u e a recompensa pelo s ma u s b o c a d o s
po r q u e passou .
A o s er m o s fisgado s p e l o am or , t e m o s
c o m o conseqüência a saída da casa do s pais para
vivermo s a relação, porém , isso n e m s e m p r e é
pacífico. Po r mais que os conto s insistam q u e o amo r é
um a pr o m e s - sa capaz de re com pensa r pela infância
131

perdidas , partir é mai s fácil par a os heróis


qu e têm madrasta s bruxas , pai s fracos, egoísta
s o u qu e sã o m es q ui n h o s movido s pela fome.
Q u a n d o o lar convida a ficar, sair será um a
o pe ra ç ã o doloros a e brusca, qu e p r e s s u p o r á algu
m tip o d e expulsão , comument e
personificad o po r u m casa ment o impost o
contra o s desejo s da jovem. Na história do Rei
Sapo, o pai da princes a lhe impõ e a
com pan hi a do ser viscoso em seu leito,
sub meten do- a á violência dess e convívio. O g es t o
agressiv o d a jove m está á altura d o
caráte r torturant e da situaçã o em q u e se viu
envolvida, mas t a m b é m é u m gest o dramátic o
d e rompimento , d e revolta contra a autoridad e do
pai e contra as exigências d o sapo . A
indepe ndên c i a nã o p o d e ser construída de
submissão , cresce r é ta m b é m percebe r a
limitação da força e do p o d e r da autoridad e
parental.
A versã o popula r do beijo nã o enfatiza o
ato de rebeldia da princesa . Naquel e caso, a jovem
se dispõ e a um a troca vantajosa: ela faz um
esforço para vence r o nojo e m n o m e d e u m
amo r possível (voltaremos a o tem a da repuls a
mais adiante) . De qualque r maneira, ela se
submete , ma s o fará soment e se isso lhe convier. Um
sacrifício movid o po r um a razão pragmática nã
o é um ato de obediência , é uma troca.
De qualque r maneira, o qu e é conhecid o
com o um beijo originalment e foi escrito co m o um
arremesso, send o assim, n ã o há c o m o suavizar
essa trama. Para ocorrer, u m amo r d e p e n d e d
e qu e u m rompimen t o co m a família de origem
esteja em curso ou consumad o . É necessári o q u e o
a m o r e n t r e pa i e filha te n h a encontra d o
uma nova dimensão .
J á vi m o s e m outra s história s ,
a n t e r i o r m e n t e analisadas , quai s sã o as
condiç õe s propícia s para a separaçã o entr e a
m ã e e os filhos, assim co m o para a identificação
entr e este s e seu s pais. Aqui, q u a n d o cheg a
a vez de a p re n d e r a ama r fora de casa, també m nã
o h á p o uc o s dramas .
Não é se m um a certa agressividad e q u e os
jovens d e a m b o s o s sexo s enfrenta m se u futuro
amor . Uma certa irreverênci a é a marc a da
recém- con quistad a l i b e r d a d e . Ela fará co m
q u e o s amante s nã o s e entregue m u m a o
o ut r o s e m p r e tã o passivam ent e , c o m o um a
princes a a d or m e ci d a e m u m castelo . O j o g o
erótico-agressiv o evidenci a qu e u m pact o
a m o r o s o n ã o é inicialment e pacífico, s ó de p oi
s qu e o sap o s e torno u inconvenient e a o
e x t r e m o e a princes a tot alme nt e intolerant e é q u
e ele s d e s c o b r e m o amor . A primeir a marc a n ã
o é de fascínio m út u o . Antes q u e o amo r o s torn e
s e m p r e tã o repetitivament e belos , ele s terã o q u e
ve n c e r a fera q u e h á d e n tr o d e cad a u m .
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infa nti s
q u e c o m p õ e o quadro : o amor, o sex o e a
violência. Resumind o todo s os termos, é o
amo r - simbolizad o pel o beijo - qu e
À s vezes , para e nte n d e r u m s o n h o o u u m
mito , é preciso inverter alguns cios elemento s em jogo.
Temo s a q u i um a pr in c es a q u e , n u m g e s t o d e
violênci a , atirand o o sa p o n a parede , transforma u
m animal e m u m h o m e m . S e invertermo s algun s
termos , p o d e m o s fazer outra leitura: temo s u m
príncip e q u e , n u m at o d e violência, transforma um
a menin a e m um a mulher . Com o a cen a se passa no
quart o e a sós, é precisament e ali q u e termin a a
paciênci a d a n o ss a pri nc es a , é provável qu e ness
e quart o tenh a s e d a d o a transforma• ção . A primeira
co n ce p ç ã o q u e a s crianças tê m d o ato sexua l associa-s
e a um a c e n a d e algum a forma d e violência,
pode r ou submissão . Por isso, o desenlac e dessa
história nã o lhes soaria estranho .
O beijo entr e a princesa e o s a p o é
um a da s cena s mais clássicas da iconografia do s conto s
de fadas. Acreditamos qu e essa image m é alusiva
ao estranha - ment o mútu o qu e embaraç a nosso s
protagonistas, o n d e a diferença de espécie s ilustra
de forma caricatural a diferença do s sexos. O encontr o
amor os o heterossexua l r o m p e um a seqüê nci a long
a d e a m i z a d e s h o m o s - sexuais qu e aco m panhara
m tod a a infância, q u a n d o se identificar un s co
m os outro s e se imitar mutua - ment e era o
tom.
A descoberta do vínculo amoros o introduz o tema d
a diferença entr e dua s pessoa s q u e s e sente m
muit o concernidas, mas terão de lidar
constantement e co m formas diferentes de encarai" o
mu ndo , de ver um ao outro, assim c o m o conviver co
m o contat o entr e corpo s diferentes. Tud o isso. acoplad o a
uma proximidad e física nunc a antes experimentad a -
po r ser assumidament e erótic a - , co n tri b u i p a r a
o c a r á t e r a g r e s s i v o d o s primeiros amores , pleno s
d e desenco ntro s e encontro s espetaculares , com o no s
conto s d e fadas.
Po r sorte , vivemo s e m u m t e m p o e m
q u e a primeira relação sexual nã o é cercead a po r
tabus, ne m e x t r e m a m e n t e valorizada . Embor a
n ã o seja s e m importância para a vida de cada
um, n ã o é mais o marc o fundamental da vida
adulta da mulher, c o m o fora até be m p o u c o t emp
o atrás - c o m o se p o d e ver a importância da
defloraçâo captad a na cena. Naquel e contexto ,
era e s p e r a d o q u e u m at o tã o ritual, tã o
valorizado , fosse o pe r a r um a transformaçã o
radical. Nesse sentido, é compreensíve l qu e a princesa nã
o seja a mesm a depoi s de compartilhar uma cama co m o
sapo , ela també m se transforma a partir daquel a
noite.3
A substituição da s cenas , da violência pel o
beijo, no s cai tão bem , porqu e de fato há um a
indefinição quant o a o c o m e ç o d e cad a element o
achava não haver nenhum cavalheiro digno dela.
Rejeitava e ridicularizava um depois do outro", ou ainda
"anunciara que se casaria com o primeiro homem que
transforma a violência do sex o em alg o desejável e
fosse capaz de propor-lhe um enigma que
restitui a hu manid ad e do noivo . ela não pudesse decifrar. Porém, se ela adivinhasse, o
homem deveria ser decapitado". Km geral, cabe ao
pretendente dobrar a noiva através de sua esperteza e
As princesas domadas de todos os ajudantes mágicos que conseguir alistar.
Nesses contos, é recorrente também a intervenção
jovem da história O Rei Sapo faz parte de do pai da jovem, pondo fim a seus
uma linhagem de princesas orgulhosas dos caprichos. Um bom exemplo é o caso de O Rei
contos de fadas, cuja representante mais Bico-de-Tordo,4 no qual o pai. irritado com a
popular nasceu da pena do dramaturgo inglês soberba da filha, decreta que ela se casará com o
Shakespeare: Catarina, da peça A Megera Domada. Não se primeiro mendigo que bater á sua porta. Um príncipe
trata de uma contradição, já que ele recolhia histórias do pretendente, que havia sido ridicularizado pela
folclore para inspirar suas personagens e suas tramas. A megera princesa, disfarça-se de mendigo, casa-se com ela e
Catarina não era uma princesa, mas a filha de um rico impõe à jovem uma rotina de trabalho e pobreza, até
burguês, e sua soberba agressiva torna-a um desafio para que ela tenha sofrido o suficiente para mudar seu
o homem que quiser desposá-la. Quando finalmente surge caráter. Tal situação também pode ser
um corajoso candidato, ele utiliza para domar a exemplificada com as palavras de outro
personalidade inconveniente da moça um método príncipe despeitado, personagem de Os Seis
similar ao de muitas histórias de fadas, em que as Criados, também dos Grimm: "sofri tanto por sua
princesas orgulhosas são submetidas a passar trabalho, causa, que achei que também devias sofrer por
necessidades e principalmente são privadas das vestes minha causa".
suntuosas e dos mimos que recebiam de seus pais na
Corte. Essa abordagem é bem diferente daquela
das lânguidas princesas enfeitiçadas, que esperavam
Várias histórias relatadas pelos irmãos Grimm inertes o príncipe chegar, para lhes oferecer
possuem um início quase invariável: "Era uma vez um rei status social,
que possuía uma filha belíssima, mas tão orgulhosa que

132
Di a n a L i c h t e n s t e i n Cors o e Mári o C o r s o

riqueza e segurança . Aqui parec e q u e o início de um a


relação é um duelo , em q u e o h o m e m , se perder , será
decapitado, e a mulher, q u a n d o derrotada , d o m ad a . É
impossível negar a perspectiva social q u e se evidenci a
em tais histórias. São os trâmite s necessário s
par a garantir a submissã o da espos a ao esposo ,
implícita no casamento tradicional. Milênios de
o p r e s s ã o da mulher encontra m aqu i um a b o a
tra d uç ã o . Afinal, reduzir a mulher a seu lugar de
súdita, m e s m o s e n d o rainha ou princesa, seria tarefa
do pai e do marido . As mulheres contemporâne a s
teriam mais motivo s para se identificar com essas
princesa s indômita s do q u e com a inerte Bela
Adormecida . Mas nã o acreditamo s que a
sobrevivência dessa s trama s na nossa cultura
deva-se apena s ao s restos da opressã o vivida
pela s mulheres. A s o b e r b a d a p r i n c e s a q u e
d e v e se r erradicada está mais relacionad a co m
uma forma de infantilidade, personificada tant o n o
chor o desmesu - rado pela bolinha de ou r o
perdid a (u m bri n q ue d o ) quanto na incapacidad e
de mante r um co mpr o miss o social (a promessa
dad a ao sapo) .
Há unia espéci e de pact o entr e o pai e o preten •
dente para colocar limites nessa s menina s
mimadas , assim c o m o e xi st e m histórias , tal
qua l O Duende Amarela,5 de Madam e D'Aulnoy. em
q u e a mã e busc a uma saída para as falhas na
ed u ca ç ã o q u e dispenso u à sua filha. Nesse caso, a
beleza da filha foi tã o elogiada que a jovem passo u a
considera r q u e n e n h u m h o m e m era digno dela. Parec e
q u e , em certo s m o mentos , um a filha porá todo s os
emp ecilho s possíveis ao cas ame nt o a fim de permanece r
na Corte de seu s pais. Nã o estará disposta a sair de bo m
grad o e só o fará q u a n d o surgir um homem muito
especial, capa z de lhe impo r um a sujeição qu e
ante s ningué m conseguiu .
Na vida real, po r sua vez, o rom pi ment o da jovem
com a casa familiar rarament e é pacífico. Não é
nad a incomum a ocorrênci a de um a ou mais cena s de
algu m tipo de violência, express a na elevaçã o do
tom da s vozes nas discussões , no bate r da s portas
, em algu m objeto quebrad o ou arremessado , tal qual o
sapo , c o m o premissas necessária s par a q u e um a
partid a poss a acontecer. As discussõe s entr e pais e
filhos, da s quai s as moças sã o as protagonista s
mais freqüentes , po r serem mai s dada s a
argumento s verbai s e m a i s submetidas a o
m u n d o doméstic o , d e n o t a m o fim d e u m a co r do
, de u m entendiment o n o relativ o a o
funcionamento da vida e do lar.
É precis o q u e o objet o q u e simbolizava o m u n d o
infantil seja jogad o fora, par a q u e a menin a
cresça. Mas s e ela n ã o estive r pronta , chorar á
c o m o u m a criança mimada . Ante s de encontra r se u
príncipe , terá
133
de ser, ainda um a vez, cercead a pela educação
parental. N o meio , entr e o s mo m e nt o s simbolizados
pela perd a da bol a dourad a e o surgiment o do
príncipe, há as cena s de submissão , raiva e
violência. O sapo, ao lh e devolve r o brinquedo ,
já lhe anuncia que, uma vez q u e o perdeu ,
n ã o reencontrar á mais seu m u n d o d o m e s m o
jeito. Ela nega em princípio, mas a vida bate à sua
porta, exigind o o cumpr iment o d o seu curso
d e cresciment o e de separaçã o do s pais.

Beleza versu s feiúra, nojo versu s


atração izem q u e o amo r é cego ,
de certa forma é mesmo . O
enamorament o prov o c a um a
idealizaçã o d o objet o a m a d o . Toda s
sua s
virtude s serã o ressaltada s e seu s
defeitos m i ni m iz a d os . O amo r é Lima
p o d e r o s a lent e q u e distorce para aumenta r o valor
daquel e a q u e m entrega- mo s o co ra ç ã o . O feio
vira bonito , essa é a lição primeira do cont o
O Rei Sapo. Outra , q u e talvez n ã o contenh a
exatament e a mesm a mensagem , mostra que , so b o
sign o do amor. é possível a transformaçã o do
re p ug n an t e e m atraente .
O s e x o é c o n s i d e r a d o p e l a s cr i a n ç a s
c o m o assustador , violent o e principal men t e
nojento . Elas ficam b e m chocada s a o imaginar o u
deduzi r o tip o d e prática a q u e os adulto s se entrega
m na sua intimidade. Provavelmente , a feiúra da s
pe rs o na g e n s dess e cont o a d v e n h a t a m b é m daí ,
d a intimidad e a q u e foram forçados pela
promess a feita ao s a p o pela princesa, d e co me
r n o m e s m o prat o e dormi r n a mesm a cama . A
criança tem um contat o muit o próxim o co m
aquele s q u e a cuidam . Em n o m e da higiene,
eles têm a c e s s o a sua s parte s íntimas ,
f r e q ü e n t e m e n t e compartilha m seu s talhere s e
prat o e deitam-s e co m ela para conversar, para
lhe conta r histórias ou para fazê-la adormecer .
Através da inocência infantil, essa intimidad e fica
a salvo de revelar as tintas erótica s q u e p o d e
assumir. A criança supos tame nt e é um ser fora
d o sexo , po r isso, a intimidad e d e u m
p e q u e n o co m seu s adulto s é um a relaçã o
protegid a po r todo s os tabu s q u e obriga m a
respeita r e cultivar a sua ingenuidad e . Essa
mesm a ingenui dad e teve Chapeu - zinh o Vermelh o
q u a n d o s e entrego u ao s ardis d o lobo , se m
desconfiar da s segunda s intençõe s deste . Em
O Rei Sapo, apesa r de o sa p o a p e na s q u er e r se
livrar do feitiço, o desenlac e amor os o da trama, q u a n d
o a jove m s e descobr e compartilhan d o o quart o
c o m u m bel o jove m p o r q u e m s e apaixona ,
n ã o deix a dúvida s d o caráter adult o assumind o
pel a intimidad e d a dupla .
Fada s n o D i v ã - Psi c a n áli s e n a s Hi st ór i a s Infanti s
dúvidas , aquel a q u e brincav a n a fonte co m sua
bolinh a d e o u r o
O q u e enoja o s p e q u e n o s e m relaçã o à
vida erótica do s grande s é justament e o outr o us o 134
daquil o q u e para eles deveria ser ap e n a s
funcional. Nã o h á dúvida s d e q u e a s crianças n ã o
s e omite m d e sentir e demonstra r um a série d e reaçõe
s prazerosa s associada s a sere m limpadas ,
acariciadas, abraçadas , ma s o tip o d e víncul o
paterno-filial providenci a par a qu e tais
manifestações sejam contida s e , d e preferência,
n ã o explicitem seu caráter erótico . Existem
ocasiõe s e m q u e um a criança diz coisas q u e
deixa m explícito q u e ela está sentind o um praze r
erótico. Os adultos , po r sua vez, descaracteriza m a
situação , a c h a n d o graça e transformand o sua s
palavra s e m a n ed o ta ; p o d e r ã o també m repreendê-
la , assim c o m o evitarão a situaçã o d e o n d e ela
extrai ess e prazer. São o s e x p ed ie nt e s pelo s
quai s o tab u cia inocênci a infantil te m sid o
preservado .
Q u a n d o , n a intimidad e d e u m casal, u m
p õ e comida n a boca d o outro , despe m-s e
m ut u a m e nt e o u deitam-se juntos, todo s aquele s
gestos , q u e outror a faziam parte do s cuidado s
materno s primários, assu• me m outr o significado,
ficando sub ordina do s à erótica da relação. Assim
fazendo , revela m o potencia l erótic o d a primeira
relação, motivo pel o qua l Freud c h a m o u a mã e de
a primeira sedutora .
A sensaçã o d e asc o e noj o associad a a o at
o d e come r ou a outro s m o m e nt o s da vida
cotidiana foi muit o analisad a no s primórdio s d a
psicanálise , po r ser sintoma insistente na histeria
da époc a de Freud . Foi d es d e entã o considerad a o
sinal de q u e há algu m contetkl o inconsciente,
normalmen t e sexual, associad o a um pe n sament o nã o
admitid o na consciência . Algo q u e d á sinais d e
sua existência n a medid a e m q u e temper a co m u
m sentiment o d e asc o outr o pensament o a p a r e n t e m e n t e
inocente , p o r e s s e d e s l o c a m e n t o associa-se a
e m o ç ã o a um nov o objeto, ma s se m um vínculo
d e significado aparente .
A princesa morr e de nojo ao compartilha r
sua intimidade co m aquel e ser viscoso q u e se
insinua a ela de forma tã o impositiva. Parec e
compreensíve l , pois a ningué m ocorreria sentir
ternur a ou a p e g o po r um sapo , q u e aliás tem o
péssim o hábit o de incha r e intumescer , c o m o s o e
oc o rr e r a o s ó r g ã o s se x ua i s q u a n d o excitados .
Nad a mai s distant e d o ca ri n h o infantilóide q u e
outr o bichinh o poss a evocar, d o qua l prové m o
hábit o cios amante s chamarem-s e mutua • ment e d
e gatinho , coelhinho. . . ficando assim ness e espaç
o intermediário entr e o desejo matern o e o sexual. O s a p
o é estrangeir o a t u d o isso, su a presenç a
na intimidad e da princes a n ã o deix a lugar a
volto u do passei o comprometid a co m um
sapo asqueroso . Após o incidente , ela estará fadada à perda
da intimidad e infantil co m os outro s e a um sentimento de
nojo, que chegar á par a avisar que come r e dormir
p o d e m associar-se a outro s prazeres .

A Bela e a Fera
om petind o co m O Rei Sapo, A Bela e a Fera é
um a da s mais lembrada s histórias de noivo
animal. Enquant o a primeira é um típico conto de
fadas, a segund a no s chego u através das
versões romanceadas , embor a originalmente existissem
conto s de fadas co m estrutura similar.
A arquitetur a da história é relativament e simples. Por
um a necessida d e d o pai, um a bela jove m entrega- se a
um c a s a m e n t o de c o n v e n i ê n c i a . O marid o é
assustadoramen t e feio, ma s igualment e rico. Ao chegar á
casa o n d e ela terá de viver c o m seu n o v o consorte,
encontr a nel e um a s ur pr ee n de n t e educ ação , quando
su a únic a e x p ect at i v a er a se r d e v o r a d a . A
jovem desco br e sensibilidad e e gentileza s o b a pel e
de um monstro , e est e se beneficia cio b o m coraçã o
da bel• d a d e nad a orgulhosa . Embor a seja
certament e tam• b é m u m a a l u s ã o a o s c a s a m e n t o s
arr a nj ad o s , que tinha m d e ser enfrentado s pela maio r
part e da s mulhe• res até o triunfo do amo r
romântico , n ã o eleve ser ap e n a s essa a razã o da
sobrevivênci a dess a história até nós . A Bela e a fera
restou c o m o representant e de um a vasta linhage m de
conto s em cjue o a m o r precisa transcende r a s aparência s
animalesca s par a acontecer. O relato dess e cont o de
fadas n ã o foi colhid o da
tradiçã o popula r pelo s Grimm , ne m po r
Perrault, celebrizou-s e na m ã o de dua s da m a s
francesas que produzira m as mais popular e s versõe s da
história, em m e a d o s do sécul o XVIII. Existem
narrativas similares d e m oça s en tr e gu e s a noivo s
animai s e m toda s a s culturas, ma s a mais célebr e
é esta de Jeanne-Marie Leprinc e de B ea u m o n t (e m
1756). Essa versã o é a mais parecid a co m as narrativas
tradicionais d o s contos de fadas. Nela, até a cen a final
da transformaçã o de m on st r o e m h o m e m , Bela
ignor a q u e su a Fera n a verdad e é um bonit o
príncip e enfeitiçado . A maior part e do relato enfoca
o s ur pr e en d en t e convívi o da jove m co m o monstro , e
m q u e ela v ê u m a mo r brotar d e dentr o da s pele s d e
u m se r tã o p o u c o atraente .
Anterior a esta, temo s a t a m b é m bastant e difun•
did a versã o d e Ma da m e d e Villeneuve (e m 1740), u m
relato aind a mai s maneirista q u e o d e Beaumont . Nele, a
j ove m, d e s d e sua c h e g a d a ao c a st e l o, s o n ha
Diana Líchtenstein Corso e Mário Corso
• em outros contos semelhantes, a
trama começa com uma viagem de um pai
insistentemente com um belo príncipe, por viuvo, outrora rico, que perdera seus bens. As
quem imediatamente se apaixona. Ela também descobre irmãs
que a imagem dele está estampada em quadros por todo de Bela não cessam de se queixar dos revezes que a
o castelo, assim como há a voz de uma fada nova vida de trabalho e austeridade lhes impõe. Já a
que lhe sussurra que não se deixe levar pelas jovem parece conformada, sabe da desgraça que
aparências. A jovem passa a crer que o príncipe com se abateu sobre o pai e faz de tudo para melhorar a vida
quem sonha é prisioneiro do monstro nas masmorras do
castelo. Vemos que, nessa versão, ela conta com pistas.
De certa forma, assemelha-se à princesa que beija
o sapo, sabendo antecipadamente do resultado. A
jovem de Villeneuve convive com o monstro,
mas seu coração nunca pertencerá ao animal, ela
vive presa ã fantasia com o belo príncipe, conta com a
possibilidade de sonhar com um casamento baseado na
perfeição dos consortes.
Na maior parte das narrativas em que uma jovem é
entregue a um monstro, ela se surpreenderá
ao encontrar amor ou pelo menos algum tipo de
bem- estar, nem que seja o da riqueza do ambiente,
onde só esperava escravidão ou castigo. O
relato das senhoras francesas certamente é o grande
responsável pela permanência desse conto na memória
do mundo moderno, já que elas traduziram a fórmula
folclórica tradicional, o noivo animal, para as
modalidades e a linguagem dos padrões amorosos
do seu tempo, da mesma forma que Perrault fez, à
sua época, com outras histórias da tradição.
Para estabelecer algumas conexões,
podemos arrolar, entre os parentes próximos de A Bela
e a Fera, o conto norueguês A Leste do Sol, a Oeste da
Lua, em que o noivo é um grande urso branco,
e O Lobo Branco, conto asiático que chega até nós
através da
„- compilação de Andrew Lang. Apenas para mostrar que
lidamos com um território bastante vasto e
pouco propício a estereótipo s , lembram o s a
históri a anteriormente citada, A Gata Branca, que
inverte tanto os termos de Bela quanto os de Fera. Ali nos
deparamos com a vez de uma princesa enfeitiçada
encerrar um jovem príncipe em seu castelo, encantado-o
e fazendo- o enamorar-se dela, apesar de sua forma
animal.

0 preço das flores

P
anto nas versões que comentamos

quanto
de todos com bom humor e muitas lides
domésticas. Seu bem-estar provém do amor
correspondido pelo pai; das irmãs mais velhas
recebia tratamento similar ao recebido por
Cinderela.
Antes de viajar, por um negócio que
esperava lhe proporcionasse a volta da antiga
condição finan• ceira, o pai oferece a cada
filha a possibilidade de encomendar um presente.
As irmãs mais velhas pedem belos vestidos ou jóias,
presentes caros, evocação da opulência que ele não
podia mais lhes oferecer. Bela, sempre
compreensiva, pede apenas uma rosa, um
presente de amor.
Voltando de sua viagem, na qual seus
negócios foram um fracasso, o pai perdeu-se numa
tempestade e chegou a acreditar que havia
encontrado seu fim. Entretanto, exausto, faminto e
molhado, descobre um castelo mágico, onde
encontra calor, uma mesa de iguarias digna de
um rei, roupas secas, mas nenhuma viva alma. Após
comer e dormir, já tendo desistido de agradecer
pessoalmente a seu cortês anfitrião invisível, que
julgava ser uma boa fada, está em condições de
empreender a viagem de volta. Eis que vê a
oportu- nidade de satisfazer o desejo da sua caçula,
já que se depara com um belo canteiro de rosas.
No momento em que colhe a flor, surge o dono do
castelo tomado de fúria, acusando-o de responder á
sua hospitalidade com um roubo. É difícil de
entender tal reação. Já que tudo ali havia se
oferecido para o bem-estar do hóspede, por
que com as rosas seria diferente? Mas estamos
no universo da lógica dos contos de fadas, se uma
transgressão não acontece, não temos conto.
O castelo pertenc e a uma fera de
aspect o repelente e humor condizente com a má
aparência, o monstro exige que o negociante
pague com a vida pelo roubo. Este lhe explica
que a flor era para atender ao desejo de uma de suas
filhas. O monstro oferece- lhe então a possibilidade
de voltar para casa e ver se alguma delas se
candidata a morrer em seu lugar - no relato de
Madame de Villeneuve, a Fera não fala em matar
o mercador, mas que sua vida lhe pertencerá.
Nesses casos, ele aceitará a troca por uma
de suas filhas, mas apenas se ela se propuser
voluntariamente. A óbvia continuação é a
inegociável posição de
Bela de ir no lugar do pai, já que seu pedido
era o que havia causado toda a confusão. A rosa
solicitada se equivale aos rapúncios dos pais de
Rapunzel, que lhes levam a dar uma filha, em troca do
vegetal colhido, a uma bruxa que os ameaça. Vemos
então que, sob a máscara da humildade, Bela
pedira o presente mais precioso, aquele capricho
que levou o pai a se arriscar e que precipita a trama.

135
Fadas n o Div ã — P si c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s I nf a n ti s

O present e q u e ela p e d e é um a prov a de realment e se inicia. A jovem volta para a casa da família,
amor, aliás, mais q u e isso, é parte d o comérci o d e ma s seu coraçã o já n ã o pertenc e ao s seus ;
u m a mo r qu e nã o precisa d e provas ; é mais d o q u e j á ela volta par a junto do pai, ma s agor a está ligada à
te m junt o dele, é um fruto da terra, representant e da vida Fera e sabe do perig o dest e vir a morre r de tristeza se
simple s qu e levam. Já sua s irmãs, ao solicitarem a n ã o retornar n o praz o c o nv en ci o na d o .
restituição da riqueza perdida , mostra m ao pai Em casa, distrai-se. d es c u m p ri n d o o praz o
sua crítica pela situação em qu e foram levadas a que havia c o m b i n a d o co m Fera par a sua estada ,
viver, c o n d e n a m - n o pela penúria , nã o estã o seja pelo praze r de convive r co m se u pai e seu s irmão s
satisfeitas co m o pa i q u e têm . Ao mesm o tempo , a homens, seja. conform e a versão, pelo s ardis da s irmãs
necessidad e de presente s caro s e valiosos denot a duvida invejosas, q u e visavam ao seu atraso par a qu e o monstr o
s a respeito de um amor. Q u a nt o meno s arraigado ele perdesse a paciênci a e a devorasse . Ao c a b o de
for, mais d e p e n d e r á de objetos qu e o provem . algu m tempo, movid a pel a culp a e po r um afeto
Jóia s e r o u p a s r e p r e s e n t a m aqu i a qu e descobrira a ligava a se u esquisit o
c o m p a n h e i r o . Bela volta ao c ast e l o o n d e o
superficialidade do víncul o q u e ligava o pa i ás
e n c o n t r a d e f i n h a n d o . T o m a d a d e tristeza, chora
outra s filhas. Já a flor, q u e Bela pedi u a pe n a s par a
, declar a se u a m o r e su a intençã o de aceitar o
satisfazer o desejo d o pai d e q u e ela t a m b é m
p e d i d o de casa mento , p r o p o r c i o n a n d o assim a s
e n c o m e n d a s s e algo, é similar ao pe di d o q u e condiç õe s par a a q u e br a d o feitiço. Apena s quando
Cinderel a - na versã o do s Grimm - faz ao pai fosse capa z de se r a m a d o , apesa r de su a
q u a n d o ele part e par a u m a viagem: que r o primeiro aparência repulsiva, a Fera poderi a readquiri r a
ram o q u e bate r n o se u chapé u q u a n d o ele e m pr ee n d e r o forma original d e q u e fora privad o po r um a
ca m i n h o d e volta. Cinderel a com o Bela, acima d e bruxa .
tudo . q u e r e m seu s pai s d e volta. Nã o contraditóri a ,
O q u e a p ar e c e inicialmente c o m o u m
m a s c o m p l e m e n t a r a ess a
sacrifício, da r a vida em troca da do pai, p o d e
interpretação , te m o s outr a q u e implic a u m a se r agor a lido c o m o a necessidad e de um a
cert a liberdade lingüística. Provenient e do latim, de/loresco
escolha . C o m o no caso da s princesa s orgulhosa s d e
— a retirada ou perd a da s flores -, c he g o u ás
q u e falávamos acima, tudo indica q u e n ã o é d e b o m
línguas neolatinas com o alusiva á perd a da
grad o q u e um a jove m trocará o amo r de se u pa i pel o
virgindade. Isso talvez no s d ê a pista d e po r q u e
de outr o h o m e m . A aparência monstruos a do
log o a s flores era m proibidas a o pai n o context o d e
consort e revela o q u a nt o ela aind a não po d e ver nel e
u m castelo o n d e t u d o se oferecia a se u bem-estar. O
nad a atraente , ap e n a s assustado r por ser um
h o m e m q u e irá colhe r as flores, qu e deflorará
h o m e m , c o m o o pai, ma s q u e tem , para com
Bela, n ã o dever á ser o pai, apesa r de q u ã o
ela, intençõe s b e m diferentes.
forte seja o a m o r paterno-filial. A interdiçã o
que desencadei a a históri a pod e se r a Os estúdio s Disney produzira m a su a versã o para
interdição a qu e pai e filha estava m submetidos . A Bela e a Fera em d e s e n h o animado. 8 Nela, a
trama foi simplificada, a família de Bela se resu m e a
Uma vez entregu e á Hera, a jovem encontr a seu pai, q u e é a p en a s u m viúv o u m pouc o excêntrico ,
no castel o t u d o a q uil o q u e se u pa i n ã o nã o u m comerciant e falido. Além disso, foi criada
p o d e r i a lh e oferecer. Desd e confortos q u e a façam a figura de u m rival p ar a Fera , s o b a form a
sentir-se cuida• da, co m tod a a seguranç a e o d e u m home m a p ar en te m e nt e atraent e po r fora,
mi m o possíveis, até a diversão, narrad a s e g u n d o ma s feio po r dentro. D e acord o co m a nov a
o s gosto s d a época , c o m direito a espetáculos , sensibilidad e q u e o s homens d e v e m sabe r
bibliotecas, jardins e pássaro s exóticos . Enfim, demonstra r n o amor, introduzid a pelas mulhere s
ela ter á t u d o , m e n o s a almejad a presenç a de ap ó s su a liberdad e conquistada , a Fera é capa z
seu q u eri d o progenitor . A solidã o inicial é de c o m p r e e n d e r os interesse s intelectuais da
c o m p e n s a d a pe l a c o m p a n h i a c a d a ve z m e n o jovem; o outr o é um brutamontes , dispost o a
s repulsiva d e Fera, q u e domin a a s artes d a conversaçã o casar-se par a fazer dela um a doméstic a a se u
e a trata co m respeito . Noite a p ó s noite, o serviço.
monstr o a p e d e em casament o e, co m a maior delicadeza
possível, Bela recusa. Até ess e m o m e nto , ela aind a se C o m o n o cas o do s relatos da s senhora s d o século
encontr a referenciada n o amo r d o pai , e m b o r a XVIII, no de se n h o animado , a figura de Fera se adaptou
c o m e c e a sentir algu m gost o pel a nov a vida. ao s ideais d e h o m e m d e um a época : d e cavalheir o n o
perfeit o d o m í n i o d a s arte s d o a m o r cortês ,
Graça s a o b o m relacionamen t o entr e eles, el e s e transm uto u par a u m h o m e m delicad o e
Fera fica disponíve l par a aceitar o p e d i d o de Bela, inteligente q u e u m a mulhe r livre e intelectualizad a - a
cujo pa i adoeci a de tristeza pel a pe r d a da filha, Bela nesse cas o amav a os livros - esper a a se u
par a visitar a família. Nesse m o m en t o , a relaçã o entr e lado . Já o pai de Bela, ape sa r da s alterações , segu e
o bizarr o casal
c o m o u m persona-

136
Di a n a Li ch t en st e i n Co r s o e Mári o Cor s o
Ma da m e D e Villeneuv e nem seque r m e n ci o n a a
orige m d o e n c a n t a m e n t o , assim c o m o n a maio r
part e da s histórias d e noivo -
gem socialmente desvalorizad o , se n d o ela a únic a qu e o
admira e po r isso seu amo r é tã o nobr e - com o na s
versões tradiciona i s - , p oi s é c a p a z de
a m a r n a adversidade.
Há um parentesc o claro entr e o amo r q u e a jovem
devota ao pai e o q u e destin a à Fera: em
a m b o s os casos, contorna as c o n ve n çõ e s sociais.
No primeiro , não se importa c o m a fortuna q u e o
pai perdeu ; no segundo, a beleza q u e falta à Fera
deix a de lhe fazer caso. Ela mostra capacid ad e
de transferir o m e s m o tipo de vínculo, c o m o se o
a m o r po r um ensinass e a amaro outro. Fera també m
se revela dispost o a espera r que Bela termine o luto po r
um amor, para q u e poss a aceder a o ut r o . N o
inicio , a jo v e m a p e n a s s e nt e saudades; a
seguir, sente-s e bem , ma s te m p e n a d o pai, que
supõ e estar d oe n t e de tristeza po r sua falta. Ainda
terá de voltar para casa, ap en a s para constata r
que seu coraçã o já n ã o pertenci a àquel e lugar, só e nt ã o
está em condiçõe s de viver um nov o amor, n ã o
mais incestuoso. Fera esper a ess e t e m p o d e
a m ad ur e ci • mento. Sua paciência, po r é m n ã o é
infinita, po r isso, está quase morto q u a n d o Bela
retorna .
Na versão Disney, fica mais realçad o o
encanta • mento sofrido po r Fera. A rosa é usad a
c o m o um a espécie d e ampulheta , u m símbol o d o
t e m p o q u e lhe resta para qu e o feitiço seja
q ue br a d o : co m o passa r dos anos, as pétalas caem
, q u a n d o cair a última, el e morrerá sem ter sid o
a m a d o e perder á a ch a n c e de voltará forma
original. Co m ess e recurso , a história se aproxima
mais da s tradicionais narrativas de noivo s animais.
Todo s tê m algu m tip o d e prazo , referent e a o tempo
qu e a jovem terá de convive r co m eles naquel a forma
horripilante; se tal praz o n ã o for respeitado ,
novos revezes e sofrimento s sã o reservado s par
a o casal (voltaremos a ess e assunt o mais adiante)
.
Ainda n o d e s e n h o animado , h á u m relato
q u e precede o desenrola r da história. Conform e a
versão . Fera teve seu coraçã o testad o po r um a fada. qu e ,
n u m a aparência esfarrapada, p e d e abrig o no
castelo, o q u e lhe foi neg ado . For ter sid o
c o n s i d e r a d o egoíst a e incapaz de amar, foi
c o n d e n a d o a ficar s o b um a forma repulsiva até que
um a mulher, apesa r disso, viesse a amá-lo. Aqui é
ele que te m de ap re n d e r a dobra r seu caráter brut o
e e nt en d e r as necessid ade s d o s outros , em outras
palavras, deixa r sua infantilidade par a trás. A
tra di ci o n a l v e r s ã o d e M a d a m e B e a u m o n t
apenas m e n c i o n a q u e u m a fad a m á
c o n d e n o u o príncipe a viver dess a forma até q u
e um a bela moç a consentisse e m desposá-lo ;
137
animal , nã o ficamo s s a b e n d o da s razõe s
d e ta l transformação . A única pista qu e temo s é
q ue , devid o a um a mulhe r mais velha, um a
bruxa, uma fada, as coisas andara m mal, geralment
e porqu e ele nã o soub e a m a r . T e m o s p o u c o s
elementos , ma s p o d e m o s e sp e cu la r , s e
fizermo s u m paralel o co m Bela. S e
considerarmo s q u e a situação do jovem é similar
à de Bela, p o d e m o s pensa r q u e seu feitiço
representaria o q u an t o ele aind a está pres o à mãe .
e ess e t e m p o seria o necessári o para pode r abrir mã
o dess e seu primeiro amor . fundant e para o s
h o m en s .

O Príncipe Querido
xist e um a históri a e m qu e a
o r i g e m d a transformaçã o animal fica
realçada po r ser o aspec t o central da
trama. Trata-se de O
Príncipe Querido, cont o tradicional
francês c o m p i l a d o p o r A n d r e w f a n g . Nele ,
u m b o n d o s o monarc a é testad o po r um a fada
q u e . sim uland o se r u m co elhinh o caçad o po r seu s
cães, s e atira no s braço s d o rei, d e q u e m acab a
r e c e b e n d o cuidados . A fada oferece , em troca
da proteçã o recebida , a realização d e qualque r
desejo , de s d e q u e seja único . Ele p e d e entã o
q u e ela seja guardi ã d a b o n d a d e n o espírito d e
seu filho, con hecid o po r todo s c o m o Príncipe
Querido , pela grandez a d e se u coração .
O pai morr e p ou c o depois , e a fada
presenteia o jovem co m u m anel, qu e lhe causa
do r q u a n d o ele s e revela ma u ou injusto. O idílio
inicial entr e o órfão e o controle da fada termina em
rompimento , o anel é post o fora e o príncip e
revela seu lad o despótic o e cruel, fazendo tod o o
tipo de injustiça qu e estiver a seu alcance. Ele é ma u co
m seu povo , ingrato co m um velh o tutor e violento
co m a mulhe r qu e escolhe u para amar.
A fada já havia dit o ao pa i q u e a
realização de se u p e d i d o d e p e n d e r i a m u i t o d
a c o l a b o r a ç ã o d o príncipe , o q u e n ã o estava
ocorren do . Diante disso, a tutor a tev e d e
recorre r a m é t o d o s mai s drásticos , media nt e
a aplicaçã o de um castigo: "condeno-t e a q u e
sejas c o m o o s animai s cujo c o m p ort a m e nt o imitas.
Pela tua fúria, ten s sid o c o m o um leão e
c o m o um l o b o pel a tua avareza . C o m o um a
serpente , ten s t e revoltad o contr a algué m qu e é
c o m o u m s e g u n d o pai par a ti e, po r teu ma u
caráter, te assemelha s a um touro . Portanto , e
m tu a nov a aparên ci a adotará s o aspect o
deste s animais".
Nã o mais querido , o príncip e ficou co m
cabeç a d e leão , a s aspa s d e touro , o corp o d e
serpent e e o s p é s e a s m ã o s c o m garra s d e lobo .
Q u a s e n ã o d á par a
Fadas n o Div ã — Ps ic a n áli s e n a s His t óri a s Infanti s

imaginar essa síntese. O fato é q u e , de dentr o da nov a extensã o do desej o do s pais. O pa i del e p e d e
forma, ele preciso u domina r a maldad e de su a que a grandez a de se u caráte r p r ov e n h a da magia, ao
alma para i r praticand o ato s d e b o n d a d e . Apó s que a fad a e d u c a d o r a r e s p o n d e q u e n ã o é
salvar o ho m e m qu e o alimentava e maltratava possível, o príncip e terá de trabalha r po r isso.
n u m a espéci e de zoológico para o qual fora A história não é mais q u e o trabalh o de um a
enviado , transformou - s e e m cãozinh o d e col o d a vida par a aprende r com frustrações e d es e ng a n os ,
rainha; a p ó s ajudar um a pessoa co m fome, é afinal, trata-se do trajeto de qualque r um . Esse
pro movid o a p o m b a . Sob essa última forma calvário animal conect a o príncipe c o m a s
animal, encontr a sua ama d a e receb e o afeto dela. princesa s m i m a da s d e q u e falávamos, que
Era o q u e faltava par a a transformaçã o final, em qu e precisara m pagar, co m trabalh o e c o m a
tud o volta a seu lugar e eles reina m felizes para perd a das vestes suntuosas , pel o se u orgulho . Mas há
sempre . um aspecto diferencial: a cond enaç ã o ã perd a da
A condiçã o animal nest e cont o é um a forma condiçã o humana. A animalidad e da aparênci a
de rebaixamento, em q u e um bel o jovem perd e o co rr es p o n d e à pouca
afeto qu e antes provocava no s outros. Ele se comport a h u m a n i d a d e d e se u espírito . O q u e no s
co m o uma criança despótica, o qu e se traduz b e m na s diferencia do s animai s está present e na forma
palavras do irmão de leite do príncipe q u e havia se com o a relação h u m a n a co m o mund o
tornad o seu mau conselheiro mais próximo: "todo tra n sc e n d e a s necessidades imediata s e se revela
aquel e q u e nã o cumprir co m teus desejos dever á desnaturada. Um animal matará par a comer , ma s
paga r po r isso". Nã o deixa de ser uma boa traduçã n ã o sairá par a caçar po r prazer. 0 má xim o q u e
o do narcisismo infantil, tal com o explicitado por p o d e m o s dize r é q u e algun s joven s gatos doméstico s
Ereud em Sobre o Narcisismo.1 0 tortura m sua s presa s ante s do golp e de
Nesse texto, ele relata co m o a criança - q u e ele cham a misericórdia, po r é m isso faz part e de se u
de His majesty lhe baby (Sua majestade, o beb ê treinamento c o m o futuros caçadores , sã o
brincadeira s d e filhote. Q u a s e t u d o q u e o s animai
) - é tratada com o alguém qu e deverá recebe r e m
s fazem tê m urna razão d e ser no sentid o da
vida tud o o qu e foi negad o a seus pais, ne n h u m limite
sobrevivênci a - sua, da cria ou do g r u p o - , é
dever á se interpor entre ela e seus desejos,
um a espéci e d e lógic a na tu ra l . J á o s
ne n h u m a exigência amargará o prazer de sua existência,
h u m a n o s sã o capaze s d e t o d o o tip o d e
tud o cairá em seu s braços com o meno r esforço possível. capricho e irracionalidade , é precis o trabalha r
Esse mecanismo , p e l o qua l o s pai s q u e r e m ve r noss a alma para q u e noss o apetit e d e g o z o nã
su a s frustraçõe s e pendência s solucionadas através o s e torn e irrestrito e perigoso . Sem o control e
da glória do s filhos, está be m ilustrado neste cont o pel de um a ed u ca ç ã o e de uma sociedad e capa z de
o diálogo do pai co m a fada. Q u a n d o ele receb e a pô r limites, som o s o pio r tipo de bich o - afinal nã o
oportunida d e de fazer um pedid o nã o que r algo para existe um altruísmo natural. Podemos encarna r a fera
si, é no príncipe qu e que r ver seu desejo realizado. má po r deleit e e serm o s capaze s de torturar a
O Príncipe Q u er i d o já era um b o m sujeito, pres a até b e m crescidos , n u m praze r que n ã o
po r isso fica difícil de c o m p r e e n d e r p o r q u e o pai foi te m idad e par a acontecer .
pedi r à fada alg o q u e o jove m já tinha .
É essa h u m an id a d e , tã o frágil, q u e é perdid
Atravé s d e s s e e x p e d i e n t e , a s q u a l i d a d e s d o a no conto . O rei considerav a a b o n d a d e o maio r
f il h o , qu e e r a m características de sua bem , por isso, n ã o desejo u alg o par a si, qui s o
personalidade , ficam alienada s com o se ficassem a refinament o do caráte r d e se u filho s e m q u e el
serviço do desej o do pai. Nã o é d e admira r entã o e tivess e d e passar p e l a s d o r e s d a e d u c a ç ã o .
q u e o jove m pass e po r u m pe rí o d o de rebeldia, E d u c a r tra z c o n s i g o a necessida d e d e impo r
necessári o para diferenciar-se dest e pai tã o limites, cercear, nega r prazeres. O s pai s q u e s e
d e v o t a m e n t e d e s p ó t i c o , a p o n t o d e s e faze r ne g a m a realizar essa tarefa constrõe m ferinhas,
representa r po r u m anel q u e feria o príncip e cri at ur a s se m capacidad e de avalia r a s
q u a n d o ele se comportav a mal. Mas esta é um a possibilidade s d a realidad e d e satisfazer sua s
da s formas possívei s d e p e n s a r o s s e u s m a u s exigên - cias, cuja satisfação reivindica m c o m
m o d o s . O u t r a vertent e para aborda r esta q ue st ã o violência. Nisso se transformo u o Príncip e
n o s aproxim a d o s impasse s qu e as famílias tê m vivido Q u e r i d o . Ge ra l m e nt e , a ideologi a desse s pais,
hoje no relativo à imposiçã o d e limites à s crianças. incapaze s d e educar , d e pôr freio a su a própri
Esse príncipe-menino-déspota , c o m o tanto s a e xt en s ã o narcísica, conté m um a idéia
q u e mostra m sua falta d e b o a s maneira s n a rosseaunian a d e q u e , deixad o à própri a sorte,
noss a vid a cotidiana , a p a r e c e n a leitura d e ou c o m p ouc a intervenção , o filho, algu m dia, revelará
Freu d c o m o u m a um a b o a natureza . Infelizmente, n ã o é o q u e acontec
e e , q u a n d o o s pai s s e d ã o conta , o s esforços .
precisa m ser r ed o br a d o s par a u m a correçã o d e ru mo

138
Di a n a Li c h t e n s t e i n Co r s o e Mári o C o r s o

Esse cont o possu i elemento s do s conto s de fadas,


mas é praticamente um a fábula moral. De
qualque r modo, revela qu e a pr en d e r a amar, no sentid o
erótico , depende de suporta r as frustrações e de
c o m p r e e n d e r a s necessidade s d o o u t r o . S e u m
filho tive r su a majestade de beb ê atrelada ao
narcisism o de seu s pais e se tiver a missão de
goza r po r eles, pressu põe -s e que deverá crescer
em con diçõe s muit o particulares: deverá recebe r
seu s d o n s po r magia . C o m o isso é impossível,
terminará se n d o u m bichinh o d e estimaçã o para a
satisfação dele s ou um a fera a ser enjaulada.
Nesses casos , g e r a l m e n t e o s p a i s r e p r o d u z e
m o discurso indignad o do Príncipe Q u er i d o em
sua fase despótica: vociferam contr a o m u n d o q u e
imped e seu precioso filho de conquista r o q u e eles
lhe desejam . A Bela e a Fera, graça s a ess a
outr a históri a conexa, pod e ser pensad a tam bé m
c o m o u m cont o d e conquist a d o a m o r e d a
h u m a n i d a d e . Afinal,
também nã o se nasc e h o m e m , torna-s e um .

Notas
1. LANG, Andrew. El Libro Azul de los
Cuentos de
Hadas I. Madrid: Neo Person, 2000.
2. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Contos de fadas.
Belo Horizonte: Villa Rica Editora Reunidas,
1994. No original o título é O Rei Sapo ou
Henrique de Ferro, mas popularmente é referido
apena s com o O Rei Sapo ou ainda com o O
Príncipe Sapo.
3. Freud observa qu e a defloraçâo de uma
mulher constitui-se numa: "injúria narcísica que
decorre da destruição de um órgão" a qual
poderia inclusive atrair sobre o autor de tal ato a
raiva da mulher. "O perigo que assim se levanta
pelo defloramento de uma mulher consiste em
atrair sua hostilidade para si próprio, e o marido em
perspectiva é exatamente a pessoa qu e teria
toda a razã o para evitar tal inimizade."
FREUD, Sigmund. O Tabu da Virgin-
dade. Obra s Completas, vol. XI. Rio de
Janeiro: Imago, 1987. p. 187.
4. GRIMM, Jaco b & Wilhelm. Contos de Fadas. Belo
Elorizonte: Villa Rica Editora Reunidas, 1994.
5. LANG, Andrew . Fl Libro Azul de los Cuentos
de
Hadas 1. Madrid: Neo Person, 2000.
6. LANG, Andrew . Fl Libro Azul de los
Cuentos de hadas I. Madrid: Neo Person. 2000, no
qu e se refere à versão de Madame de
Villeneuve. Já para a de Jeanne-Marie
Leprince de Beaumont ver TATAR, Maria.
Contos de Fadas: Edição Ilustrada & Comen• tada.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
7. Esses dois contos serão examinados no
próximo capítulo.
8. O filme A Rela e a Fera foi lançado pelos
Estúdios Disney em 1991. Essa é a versão
infantil animada. Não confundir com o tilme
homônimo, a obra prima de Jean Cocteau, de
1946. La Belle et Ia Bette.
9. LANG, Andrew . Fl Libro Azul de los
Cuentos de Hadas II. Madrid: Neo Person,
2000. Existe uma versã o e m p o rt u g u ê s :
PIMENTEL, Figueired o . Histórias da Avozinha.
Rio de Janeiro : Livraria Garnier, 1994.
Figueiredo Pimentel foi o primeiro compilador
brasileiro de contos de fadas, mas nem sempre
encontramos seus livros. Em suas antologias, ele
misturou alguns contos brasileiros entre os da
tradição européia
10. "Os pais sentem-se inclinados a suspender, em
favor da criança, o funcionamento de todas as
aquisições culturais que seu próprio narcisismo
foi forçado a respeitar, e a renovar em nome dela
as reivindicações ao s privilégio s d e h á muit o
po r ele s próprio s abandonados. (...) A criança
concretizará os sonhos dourados que os pais jamais
realizaram - o menino se tornará um grande
homem e um herói em lugar do pai, e a
menina se casará com um príncipe como
compensação para sua mãe". In: FREUD,
Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma Introdução. Obras
Completas, vol., XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1987, p.
108.

139
Capítulo X
HISTÓRIAS DE AMOR II:
AS METAMORFOSES

A Leste do Sol e a Oeste da Lua, O Carneiro Encantado,


O Lobo Branco, Cupido e Psique, A Pequena Sereia e Hans, o
Ouriço
Transição dos laços afetivos nos primeiros amores - Resistência
dos pais aos novos amores dos filhos - Maturação do casal -
Amantes como estrangeiros entre si - Dificuldades na saída da casa paterna
- Rejeição parental - Revezes da concepção

0 noivo cert o pesar, ma s d e olh o n o q u e traria d e volta


animal o p ã o à mes a par a os outro s filhos, o pai consult a a
o capítul o anterio r tratamo s de filha. Ela e m princípi o n ã o aceita, ma s acab a c e d e n d o
e x e m p l o s d e n o i v o an i ma l , pe l o b e m d e todos . Sempr e há dinheir o
ma s sã o histórias q u e , embor a e n v o l v i d o n e s s e s casamento s . Mas aqu i s e trata d e
pertencent e s a essa classifica• u m dot e à s inversas, ou seja, é o noiv o que compr a
ção , n ã o sã o típicas. Existem a su a noiva a p e s o de ouro , exata ment e o
contos , e m vários folclores, d e contrári o d o casa ment o eu r op e u tradicional , e m
personage n s d o tip o noiv o q u e um a mulhe r casav a tant o mai s fácil e
animal co m um a estrutura mais melho r q u a n t o maio r era se u dote .
parecid a co m o qu e Resignada a se u destino, a menin a parte
vamos co m o urs o e chega m a uma morad a mágica ond e nad a
trabalhar agora. faltava. No escur o da noite, o urs o tira sua pele ,
transforma-se
Em um cont o da tradiçã o norueguesa , compilad o n u m jovem e compartilh a a cam a co m a noiva.
por Peter Christien Asbjornse n e Jorge n Moe, cha mad o A Com o n a maior parte desse s relatos, n ã o temo s aqui
Leste do Sol e a Oeste da Lua,1 temo s um d o s ne n h u m a alusã o a q u e ess e mo ment o seja traumático ou
mais clássicos exe mplo s d e noiv o animal . Nele u m a violento para a jovem. Ao contrário, a forma human a
família muito pobr e é confrontad a co m a noturn a é um alívio para ela, um contrapont o ao animal
propost a de um urso que lhes promet e riquez a se com que m tem de conviver durant e o dia. Além
lhe c e de r e m a filha caçula, um a me nin a muit o bela disso, há um a virada n a expectativa d e u m destin o
, e m casam ento . Co m triste q u e a heroín a
Fadas n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s I n f an ti s

esperava, já que , q u a n d o da partida, c o m o ocorr tam , assim c o m o d e sere s mágicos , ness e caso , velhas
e a tantas prometida s a noivos animais, a idéia é s e n h o r a s q u e lh e of er e c e m cavalo s e objeto
enfrentar um sacrifício, incluindo a possibilidade de ser s cuja utilidad e ela descobrir á depois . H á mai s u m
devorad a pelo consorte. elemento muit o interessant e ness a viagem : ningué m a
Co m o em A Bela e a Fera, a moç a acab a sentind o que m ela pergunt a sab e e x ata m e n t e a localizaçã o
muita solidão durant e o s dias q u e passa n o do príncipe, e m b o r a t o d o s t e n h a m u m a idéi a
suntuos o castelo . Sent e falta d a cas a pa te r n a e a p r o x i m a d a d o ca m i n h o o u d e q u e m poder á sabe r
su a triste/ a convenc e o urs o a levá-la até lá par a um a sobr e ele. A única certez a compartilhad a po r
visita. Dessa vez, nã o há um praz o a ser texlos o s interlocutores en contrado s pel o c a m in h
de s ob e de ci d o ; entretanto , o urso a proíb e de falar a o é a de q u e ela é a moça q u e estav a
sós co m a mãe , na verdade , para qu e nã o comentass e destinad a par a o príncip e , po r isso, se dispõe
sua s intimidades . Claro q u e acontec e o proibido , e m a ajudá-la. Movida po r essa únic a indicação
a mã e se revela um a péssim a conselheira . amorosa , ela s e lança a o de sc o n he ci d o .
Sabendo , pel o relat o d a filha, d a pel e qu e ele Uma vez c h e g a n d o ao castel o da madrasta,
retira á noite, a mã e suspeita de q u e o noiv o seja ela precisa tirar se u h o m e m da s mão s da nov a e
um troll 2 e aconselh a a jovem a espiá-lo d or m in d o . horrível noiva: a princes a nariguda . É ness e
Q u a n d o ela tenta ver o noiv o se m a pele , ele perd e m o m e n t o que os presente s recebido s na viage m se
a oportunida d e de ser d es e nc an ta d o e a ab a ndona , apó mostra m úteis, pois negoci a um a maç ã de ouro , um
s referir: pe n t e de our o e uma roca d e o u r o c o m a horrend a
princesa , q u e n ã o parece estar muit o interessad a na
O q u e voc ê fez?, ex cl a m o u . Agora atraiu co m p a n hi a noturn a de seu noivo , sã o o s objeto s
um a maldição sobre nós dois. Se tivesse esperad o d o u r a d o s qu e realment e mobi• lizam seu desejo.
apena s um ano , eu terra sido libertado! l e n h o uma Aproveitand o a situação , a jovem troc a cad a u
madrasta e ela me enfeitiçou de tal mod o qu e sou m dele s p el o privilégio d e passa r uma noite co
urso de dia e home m à noite. Terei qu e deixar você e ir m o príncipe . Mesm o assim, n ã o é fácil realizar o
à procura dela. Ela mora num castelo a leste do sol e a resgate , poi s a noiva, q u e nã o era boba , narcotizava
oeste da lua. Mora lá também uma princesa, com um o príncipe . Apena s na terceira noite, el e é
nariz de três varas de comprimento, e é ela a alertado po r criado s par a q u e n ã o t o m e a poção ,
mulher qu e terei agora qu e desposar. assim poderá ficar a co r da d o para encontra r sua
amad a e planejar um a fuga. Juntos , derrota m os
trolls - pois sua madrasta e a princes a narigud a sim
Vemos ressurgir aqui a questã o do prazo , parec e
era m trolls - e fogem com toda s sua s riquezas .
qu e u m temp o é necessári o par a u m
i n d i v í d u o a m a d u r e c e r e assumi r p u b l i c a m e n t e O praz o q u e a noiva do urs o n ã o s o u b e
sua s relaçõe s í n t i m a s . E m toda s e s s a s respeitar refere-se ao t e m p o de amad ureci me nt o
h i s t ó r i a s , o p r i m e i r o encanta me n t o - o início do necessário para q u e um a relaçã o seja
relacionamen t o sexual do casal - ocorr e em algum a s s u m i d a p u b l i c a m e n t e . Atual me nt e equival e a
a situaçã o de confinamento , de exclusã o social. o p e r í o d o e m q u e o s casais p o d e m experimenta
Afinal, o q u e aborrec e a jovem é ser retirada d e r algum a privacidad e erótica, antes q u e o s laços d e
seu m u n d o d e referências e d o convívi o co m o s seus; u m casa ment o i m p o n h a m à relação desafio s q u e
ela n ã o c o m p o r t a . C o m o vem os , nas velha s
porém , q u a n d o te m a o p ort u ni da d e d e voltar ã casa
histórias, ess e p erí o d o d e latência d e u m amor já
d o s pais, de sc o b r e que sent e falta de se u ama do . A
está presente , provavel me n t e significando algo bem
partir daí, a finalização da trama é imediata,
diferente do eme par a nós . Ainda hoje a
encaminha-s e par a o fim da maldição .
estabilização ele um relacionamen t o reque r t e m p o
No cas o de Bela, nã o fosse pel o brev e descumpri - , paciênci a por part e do s amante s e um a certa cota
m e nt o d o prazo , diríamo s q u e ela fez rapida me nt de sacrifício aliada ã coragem , visand o a ajudar
e o process o d e r o m p i m en t o co m a família d e tant o o noiv o quant o a noiva a ro m p e r com os
origem , assumind o su a nov a situaçã o civil, a de velho s laços amor osos . Se não houve r ess e esforço, o
ser a mulhe r d e alguém . J á o s ama nte s dest a rapa z corr e o risco de adormecer no s braço s ela brux
tradiciona l história noruegues a passa m po r reveze s a possessiv a q u e é su a mãe . Da mesm a forma,
b e m maiore s q u e o s de Bela e Fera. A noiv a o s laços q u e p r e n d e m u m a jovem a o a m o r
precis a viajar par a a q u el e lugar geograficament e de v o t o e p l e n o d e m ú t u o s cu id a d o s q u e ela
improváve l e inacessível. Para essa jornada , professa p o r se u pa i p o d e m voltar a ficar
necessitará d e muita corage m e d o a p oi o d e forças d a fortes.
natureza , c o m o o s vento s q u e a transpor • Existe u m cont o d e Mad am e d'Aulno y q u e
nos mostr a j us ta m e n t e es s e fracasso , em que
os laços

142
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Cors o

amigos acabam prevalecend o . Chama-s e O Carneiro


Encantado3. Temos a mes m a seqüênci a d o s conto s
de noivo animal, com exceçã o de um detalhe : a menin
a é expulsa de casa pel o pai. Miranda, ess e é
o n o m e da heroína, era a m e n o r da s três filhas
e a predileta do pai, porém, ela nã o adulava o
pai c o m o as mais velhas, e ele acaba p e n s a n d o
q u e seu amo r n ã o era correspondido. Um dia a
menin a sonh a q u e o pai lhe alcança um jarro
para lavar as mãos . Ela cont a seu sonho a
ele, qu e o interpret a c o m o um a alusã o à
posição de servilidade frente à filha. Fica irado e
isso é a gota d'água para manda r matá-la. C o m o
acontece u a tantas heroínas, o carrasco te m pi e da d
e e eng an a o
pai, deixando-a fugir.
Na fuga, ela encontr a o Carneir o Encantado , qu e
é um príncipe enfeitiçado . Vive m junto s at é
q u e ocorrem as boda s de um a irmã dela, às quai s
deseja comparecer. Ela vai disfarçada à festa, faz muit o
sucess o e parte misteriosamente. Volta ao rein o do
Carneir o Encantado e e n c o n t r a - o s o f r e n d o m u i t
o p o r su a ausência. Tempos depois , no casament
o seguinte , da outra irmã, volta para a festa. Desta
vez , o pa i tinha obstruído a rota de fuga da
princes a misteriosa, poi s queria conhecê-la. Não
r e c o n h e c e n d o a filha, gentil• mente lhe estend e um
jarro para lavar as mão s a p ó s o banquete. Miranda cai
e m pranto s di z en d o q u e se u sonho se realizou,
e o pai leva um susto, ma s fica muito feliz em
sabe r q u e sua amad a filha estava viva, pois já se
arrepender a de se u tresloucad o gesto . Os dois
reatam o antigo víncul o e el e lh e pro met e seu
reino, uma vez que já estava velho . Enqu ant o isso,
o tempo passa, e o príncip e e n ca nt a d o morr e de tristeza,
pois Miranda tardava a voltar.
Nesse conto, os laços antigo s prevalec e m
sobr e os novos. O reencontr o co m o amo r do pai
foi fatal para o novo laço q u e se iniciara co m o príncip e
encan • tado. Miranda m o m e n t a n e a m e n t e e s qu e c e
de q u e m lhe sustentava afetivamente no p er ío d o em
q u e estava longe do pai, e o futuro c a s a m e n t o
n ã o a c on te c e . Decididamente, nã o se p o d e agrada r a
doi s senhores . As peripécias de A Leste do Sol, a
Oeste da Lua encontram similaridad e n u m c o nt o
da Ásia Menor , presente na compilaçã o de Andre w
Lang. Trata-se de O Lobo Branco,1 uma história q u e
inicia c o m o A Bela e a Fera, já que o pai é a meaçad o e
precisa dar sua caçula querida em troca da vida, ma s
finaliza c o m o a do urso, pois a moça terá de fazer
long a jornad a em busc a do amado perdido. A
variável interessante nest e cont o é a permanente forma
hu man a em q u e o lob o se manté m na intimidade
do casal. Ele s o m e nt e vest e as pele s quando
sae m d e se u castel o par a visitar o s pai s d a
ser m onstru os o viria arrebatá - la. O s pai s ficaram
desco nsolad o s , mas , m e s m o co m
noiva . N a ocasiã o d a s b o d a s d e um a da s
irmãs d a heroína, a mã e intromete-se, tentand o ajudar 143
e atrapalha. Assim q u e descobri u sobr e a s
transformações d o genro , durant e a noite, queimo u
a pel e do lobo, provocan d o seu desaparecimento .
O resto da história é a luta da jovem
apaixonad a pela reconquista dess e amor.
Cruzand o a s trê s histórias , ela s
demonstra m inequívoc o parentesco . Ness e
c o n t o asiático , h á t a m b é m a resistênci a à
uniã o da filha po r part e da m ã e . Sua
intervençã o só dificulta a relação , fazend o c o m
q u e a noiv a d o Lob o Branco , e m u m
cami nh o solitário, co m p ou c a orientaçã o e
algu m a p oi o d o a m b ie nt e , t en h a d e arrebatá-
l o da s m ão s d e outr a p r e t e n d e n t e , co m q u e m
está preste s a s e casar, poi s já acreditav a q u e
ela o havia es q ue ci d o . Além disso , a
monstruosidad e d e Fer a nã o parec e
d i f e r e nt e d aq u el a s d o s o utro s noivo s animais .
Enfim, sã o toda s u m d u e l o d e conq uista s e
pe r da s , e m q u e o a mo r d e um e outr o é post o à
prov a ante s q u e p os s a m sentar - s e lad o a lad o
n o trono , o u seja. assumi r publica • m e n t e a
relação .

Cupido e Psique
s história s p r e c e d e n t e s r e p r o d u z e m
um a estaitura co m u m qu e existe e m várias
versões no s conto s de fadas. Entre elas, temo
s a antiga
história de Cupid o e Psique. 5 qu e no s chego
u através de Apuleio, em O Asno de O u r o 6 — livro
també m con hecid o po r Metamorfoses. Psiqu e era
um a da s três bela s filhas d e u m rei, p or é m
muit o mais bela q u e a s irmãs. As outra s dua s
casara m e Psiqu e n ã o consegui a casamento , poi s
sua belez a era tanta q u e assustava o s
pretende nte s . Sua formosur a fazia todo s
acreditare m q u e ela era um a deusa , po r isso,
com eçara m a lh e leva r o fer e nd a s e m
substituiçã o àq u el a s devida s a Vênus . Q u a n d o
esta ve m a sabe r disso, mand a seu filho
Cupid o par a q u e a vingue : sua pen a seria
fazer c o m q u e P s i q u e s e a p a i x o n a s s e p o r
u m h o m e m desprezíve l . Poré m , C u p i d o n ã o
p ô d e realiza r su a tarefa, já q u e ele m e s m o
ficou fascinado po r Psique . Enq uant o isso, o s
pais. n ã o s a b e n d o o q u e fazer
par a qu e a filha viesse a se casar,
consultara m um oráculo , qu e é u m
intermediári o d e Apoi o - deus , entr e outra s
coisas, da s profecias. Ora, Apoio já sabia d a
pa ix ã o d e Cupido , e junto s faze m u m
plano , a partir do qual , a revelaçã o oracula r diz
ao s pais par a p r e p a r a r e m Psiqu e par a u m
funeral e deixar e m-n a n u m a roch a o n d e u m
Fadas n o Div ã - P si ca n ál is e n a s Hi st ó ri a s Infanti s
tarefas impossíveis,

muito pesar, assim foi feito. Psique , desesperada ,


foi abandonad a n u m ro c he d o à esper a d o monstro
.
Um vento levou Psique pelo s ares e a
deposito u sobre um relvado nu m vale. A princesa
adormece u e quando acordou estava nu m palácio
magnífico de our o e mármore. O palácio era
desabitado, pel o meno s da forma habitual, só vozes lhe
faziam companhia e atendiam a suas necessidades. Q u an d o
entardeceu, ela sentiu uma presença. Esse ser era Cupido;
entretanto, ele advertiu-a de que não poderia vê-lo,
sob pen a de perdê-lo para sempre. No escuro da
noite, vinha compartilhar a cama com Psique, que ,
apesar do estranho casament o e do marido ainda
mais estranho, se sentia feliz. Com o passar do tempo,
sente saudade s de casa e da s irmãs e vontad e de contar
aos pais qu e ná o estava morta, ne m tinha sido consumida
po r u m m onstro , c o nf or m e ela mesm o
acreditava qu e iria acontecer.
Depois d e muita insistência, Cupid o consenti u q u e
ela recebesse a visita da s irmãs, mas estava
temeros o qu e isso poderia ser um perigo para a
relação deles. Quand o suas irmãs soubera m que
tud o ia bem , q u e ela estava feliz e tinha um
marid o muit o rico, foram tomadas d e um a
profunda inveja. Nã o descansara m en q ua n t o n ã o
criaram u m plan o par a e n v e n e n a r a relação.
Soubera m entã o qu e ela nunc a tinha visto o
marido e qu e isso lhe estava vedado .
Sugeriram-lhe que . co m o auxílio de uma lâmpada, o
espiasse durant e seu son o e o matasse co m uma
faca afiada.
Psique acabo u c e d e n d o â idéia da s irmãs,
afinal o orácul o tinha falado n u m monstro , e espio u o
marid o a d o r m e c i d o . O qu e viu foi u m
b e l í ss i m o r a p a z . Emocionad a pela descoberta ,
acabo u dei x a n d o cair um a got a de azeite quent e
da lâmpad a sobr e el e e o despertou . Cupid o
cumpri u sua ameaç a e saiu di ze n d o q u e nã o voltaria
mais. " On d e h á a m o r dev e have r confiança",
foram sua s palavras ante s d e partir. Com o n o cas o
d a Bela Adormecida , Psiqu e cai d e a m or e s pel o
rapaz adormecido , confirmand o q u e é grand e o
pode r d e seduçã o do s amante s n a passividad e d o sono .
Poré m ess e rapa z nã o parec e estar disponíve l par a
tal adoração , Cupid o sente-s e traído.
Abandonada, Psique saiu a anda r pel o mundo , mas
nã o acho u acolhid a e m nenhu m lugar .
Vênu s a atormentava, pois invejava sua beleza e
ainda nã o fora vingada da afronta de ser substituída na s
oferendas. Enfim, comportava-se com o a mais ciumenta
das sogras. Numa manobra desesperada, Psique se oferece
com o serva para Vênus, na esperanç a de aplacar sua
ira. Vênu s a faz passar dias de Borralheira, dando-lh e
tarefas impossíveis, que , diligentemente e co m auxílio
de animais q u e dela se penalizam, cumpre . Num a de suas
um relato mítico. Temo s a clássica seqüênci a em
que ocorr e um a transgressão , depois a partida elos
heróis par a se recuperare m da falta, seguida d e u m
é vencida mais uma vez pela curiosidade, abr e uma caixa qu e final feliz c o m ele s n u m a p osi ç ã o superior
continha o so n o e cai adormecida . Nesse momento, Cupido àquel a d e q u e partiram.
intervém e a desperta. Enfim, Psique passa uma longa
jornada de privações e sofrimentos até qu e Cupido, qu e nã o Cupid o era invisível par a Psique , ma s sua relação
conseguia esquecê-la, ped e a Júpiter que lhe permita devia ser velad a par a a mãe , q u e foi d up lament e traída,
viver co m essa mortal. O Deu s consent e - na afinal el e deveri a destrui r e n ã o ama r su a
esperança de que, entretido co m um a paixão, rival. Na verdade , ningué m sabia dess e amor, ma
Cupido talvez deixasse os hu mano s e ele mesm o mais em s acreditamos q u e era especialmen t e Vênu s q u e m
paz - e a transforma num a imortal. Por fim, Vênus se deveri a ficar na ignorânc ia . Seu filho tinh a
reconcilia co m Psique. m ot iv o s p ar a preve r a t e m pe st a d e ele ciúme s
Seria essa a história inaugura l q u e nos legou e o deseje) ele vinganç a que viriam. O própri o
as outras? Pod e até ser, ma s q u e m nos garant e qu e ela Apoio , fazend o pape l de alcoviteiro, no s dá a
já não seja um a versã o de um a história anterior? É di m e ns ã o de q ua n t o ess e deveri a ser um a mo r
fácil cair num a hierarqui a d e q u e q u a n t o mai s antiga, encob erto , d e q u e Vênu s n ã o aceitaria ele bom
mais verdad eir a , mai s autêntica . E x a m i n a n d o o s grado u m amo r par a o d e u s d o amor .
contos atentament e , vemo s q u e a única hierarqui a
possível é entr e os b e m escritos e os mal escritos;
entr e os que mai s facilment e n o s c ol oc a m em Um amor de outro totem
cenário s e)nde as paixõe s h u m a n a s encontra m vazão ,
e os quue o fazem co m algum a dificuldade. Esse antig os casos ele noiv o animal, Bruno
o contei é muito b e m arquitetado , no s d á tod a a Bettelheim no s diz qu e essa condiçã o de
dime nsã o da s grandes dificuldades ele um a mã e em animalidade de u m do s pretendente s
ver se u filho c o m outra mulhe r q u e lhe super a em é m e t a f ó r i c a d a sexualidade ainda nã o
belez a e juventude . Seu foco central é a belez a dominada , antes de ser
en c on tr a n d o um novo altar. A única coisa que o lapidad a pela maturidad e e pel o amor. Send o
difere do s outro s é o uso de deuses da tradiçã o latina. assim,
A estrutura é a m es m a de um conto de fada e nã o de

144
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mário C o r s o

deparar-se co m um primeiro parceiro erótico equivaleria a


enfrentar a pretens a animalidad e do sexo . Pele-
de- Asno - história analisada no Capítulo VI -, para
pensarmos e m uma p e r s o n a g e m femini na , faria
p a r t e d e s s e raciocínio. Nesse caso, seria a mulhe r q u e
teria de largar a pele animal para retornar à plenitude
feminina.
A interpretaçã o de animalidad e c o m o s e n d o
a sexualidade aind a n ã o domesticad a pel o jovem
casal é irretocável, ma s acreditamo s q u e p o d e have r
outra s sobrepostas. N o univers o social p r é -
m o d e r n o . q u e originou e cultivou essa s histórias,
o casam ent o era uma mudanç a de referenciais,
especialment e par a as mulheres. O matrimôni o tecia
laços, a família da mulhe r perdia um m e m b r o e a do
marid o ganhav a um a filha. E não p o d e m o s esque ce r
q u e se m p r e havia u m d ot e em jogo, o casam ent o
era um a da s formas de partilha de riquezas, alg o q u e
no s conto s está sem pr e presente . De qualque r maneira, a
moç a ingressava em outra família com o um a
estrangeira. Era preciso qu e ela se habituasse a novo
s códigos, costumes, sabore s e cheiros. Cada família é c o m
o um p e q u e n o país, co m linguagem , rituais e gastronomia
próprios. Já qu e mudav a de família, deveria agora ser aceita
num a casa estranha, subordinada a uma sogra ne m
sempr e simpática co m sua nora. O homem era de
certa maneira, metaforicamente, de outr o totem,
pertencia a outra tradição familiar, e a mulhe r
deveria a c o m p a n h a d o . Nã o é d e admira r q u e
essa diferença pud ess e ser vista, de maneira alegórica,
como
seu amado fosse de outra espécie .
Talvez a s cultura s antiga s tivesse m a
m e s m a relação co m o s animai s q u e o s ameríndio s aind
a têm . Eles não fazem a divisão entr e naturez a e
cultura, em que os animais ficam do lad o da natureza ;
eles conce • bem os animais c o m o seres de outra
cultura. Corn o nós temos nossa linguagem , nosso s
hábitos , os animai s também teriam sua linguage m e seu
s hábitos; nó s n ã o os entendemo s e eles n ã o no s
en te n de m , da mesm a forma c o m o n ã o e n t e n d e m o
s outr a língua h u m a n a . Logo, nessa lógica, casar
co m um animal equival e a casar com um
estrangeiro , e os mitos ameríndio s d ã o inúmeros
exe mplo s da s possibilidade s d e casa ment o entre
h o m e m e animal.
Algumas organizaçõe s sociais d e tribos indígena s
mostram de maneir a b e m clara a circulação
regrad a dos c a s a m e n t o s . Q u e m p o d e casa r c o
m q u e m é definido estritamente , d e tal m o d o q u e
q u e m pertenc e a determinad o clã s ó po d e r á casa
r co m algué m d e outro. Isso t u d o está long e d a
noss a realidade , poi s na modernidad e o casa ment
o é u m a eleiçã o aberta , embora, é claro , as
regra s q u e i m p e d e m o incest o estão igualment e
presentes .
145

A p es a r d e hoj e e s c o l h e r m o s c o m o
coração, freqüente men t e ficamos surpreso s a o
constatar q u e determinad a s escolha s amorosa s
traze m o molde da noss a família, ou sã o
evocativo s da forma de ser de a l g u m d e n o s s o
s p ai s . Po r v ez e s , repetimo s seu s m o d e l o s d
e identidad e o u relação ; po r outras, no s
esforçamo s par a escolhe r noss o a m o r muito
distante de tais m odel os , ma s n ã o de q u a l q u e r
forma e sim p r o c u r a n d o seu s antônimos ,
amand o p es so a s culturalment e diversas ou
constituind o família do outro lad o do m u n d o - o qu e
ainda os mantê m na condição d e parâmetros , s ó
q u e á s inversas. Nã o temos nada objetivo a
regrar a escolha, os casa mento s não são
arranjados conform e necessidade s políticas ou
econô• micas, estamo s long e da s interdiçõe s
tribais, mas nã o necessariament e essa liberdad e
no s facilita a vida.
O problem a se equacion a do p o n t o de
vista do q u e , sintomaticamente , s u p o m o s c o m o
igual o u senti• m o s com o est ra n ge ir o .
Referi mo- no s aqu i a uma estrangeiridad e q u e
está long e d e s e restringir a o país d e origem .
Troca nd o e m miúdos , trata-se d o qu e s e s e nt e
c o m o familiar, p o r t a n t o p r o i b i d o , o u c o m o
estranho , p o rta n t o u m territóri o e m q u e a
escolh a amoros a é possível.
Pessoa s da mesm a raça, profissão, cidad e
natal, classe social ou qualque r traço evocativo da
família de origem p o d e m ser sentidas c o m o
interditadas, com o s e fossem d o m e s m o totem.
Não p o d e n d o escolhe r entre o s semelhantes , busca-
se algué m qu e possua qualque r i d e n t i d a d e
d i f e r e nt e par a p o d e r amar . À s vezes ,
necessita-se da certeza de q u e se está escolhend o
fora do lar, de q u e os amado s nã o sã o Lima evocaçã o
direta d o s pai s o u irmãos . C o m o clínicos,
observamo s o s freqüentes casos d e pessoa s q u e s ó
consegue m s e casar e m outr o país, o u co m u m
estrangeiro, o u ainda co m algué m de outra raça
ou cultura, com o única maneira de evitar a
fantasia de incesto. Nesses casos, soment e algué m
estranh o suscita desejo, só co m o príncipe ou a
princesa longínqua o casament o se concretizará.
Dessa forma, m e s m o no s tempo s m o de rn o s ,
no s quai s um a mulhe r n ã o será privad a d e
su a família, n e m obrigad a a ingressar na do
marido , a questã o da diferenç a e m t e r m o s d e
cultur a familiar aind a s e estabelece . O marid o
escolhid o trará par a dentr o da relaçã o seu s
hábito s e excentricidad e s familiares, e el a
i d e m . Sã o n e c e s s a r i a m e n t e d o i s e s t r a n g e i r o s
tentand o estabelece r u m território c o m u m d e
negocia • çõe s diplomática s e fronteiras. A identidad e
do núcle o familiar o u d o casal q u e irá constituir
dem or a e m ser encontra d a e negociada . Talvez ess e
t e m p o d e latência d e q u e falam o s conto s - n o s
quai s o s amante s aind a
Fadas n o Div ã — P si ca n ál is e n a s Hi st ó ri a s Infanti s

são d e espécie s diferent e s e deve m s etotem . Aqui q u e m te m a part e anima l é ela, e a história
ab st e r a o máximo do contat o co m as famílias de orige m é basicament e entã o a de seu sofrimento par a conseguir
- a p on t e um trabalh o de formaçã o de hábito s c o m u n s edeixa r d e ser sereia, c o m o n o rein o d o pai, e tornar-
se c o m o sã o o s d o rein o d o a m a d o , h o m e n s .
código s compartilhado s na q ue l e n o v o n ú cl e o familiar,
origina• do pel o casal. O cont o de Andersen nã o abre e s p a ç o
A animalidad e do consort e presta-s e entã o a um a para negociaçã o . Nas histórias preced entes , a m b o s tê
s o b r e p o s i ç ã o d e difere nç a s e p r o b l e m a s a m seu q u i n h ã o de perda s par a se encontrar . O
s e r e m administrados po r q u e m começ a um a relação noiv o animal passeia pel o m u n d o c o m sua
: a dife• rença de gênero ; a novidad e de , pel a primeira maldição , enqu ant o a jovem tem d e enfrentar
vez, ter tanta intimidade co m outr o sexo ; a diferença um a jornad a d e privação e perigo s para resgatá-lo.
das refe• rências familiares e ou culturais; e, po r último, Neste conto , pel o contrário, o a m a d o n ã o gasta u m
o desej o sexual qu e passa a conquista r u m espaç o d e fio d e cabel o e m troc a daquele amor, ele ne m
exercíci o outrora inédito, talvez aind a xisto c o m o s e d á cont a d e q u e ela é d e outro reino .
primitivo e portant o animal. Além disso, o preç o q u e a sereia tev e de pagar à
É possível qu e o melho r e x e m pl o de brux a pela forma h u m a n a foi sua capacidad e
troca de referências seja o tristíssimo cont o A de falar, q u e a prix-ou da capa cidad e de envolve r o
Pequena Sereia, d e Andersen. Bem meno s feliz qu e n o amado c o m a bela voz. Nã o há c o m o evitar
d e s e n h o musical h o m ô n i m o do s Estúdios Disne y pensa r a voz ta m b é m c o m o o representant e de
(1989), a p e q u e n a sereia original s ó enfrenta se u idioma. Nesse sentido , par a ingressa r e m
dissabore s d o c o m e ç o a o fim. Nessa história, po r
outr a cultura n ã o houve um a síntese possíxel, a
ocasiã o da maioridade , cad a sereia8 tinha direito a vir
mistura de idiomas , a sereia pago u sua ousadi a
espia r o m u n d o do s h o m en s . A heroína escutaxa
co m o mutismo , q u e , po r sua vez, foi a pe n a s
atentament e cad a história da s sua s precedente s em tal
metáfora da mort e q u e viria a seguir. Em última
ritual e muit o esperav a pel o seu. Q u a n d o faz 1 5
anos , xai c o m g r a n d e expectativ a espiona r o instância, o cont o termin a s e n d o um manifesto
rein o do s hu m a n o s . Na ocasião , encontr a um sobr e a impossibilidad e d e ro m p i m e nt o d e
navio em q u e havia um a festa, era o aniversário determi• nada s barreiras, sejam culturais, raciais ou
d e u m príncipe , q u e o celebrav a n o c on v é s . familiares. Não no s estranha qu e o desenh o Disney, em
Um a tempestad e vem para estragar a co m e m o ra ç ã o tempos
e joga o príncipe no mar, imediatament e a sereia o em qu e a tolerância entre os povo s é um ideal
salva e o leva, mais mort o q u e vivo, par a um a social, tenha lhe modificado o final tão radicalmente. No
praia segura . desenho animado , é permitido qu e o pox o do mar
e o da terra façam um casament o intercultural. É
O fascínio pel o outr o rein o ganh a um a dimensã o
o própri o pai da sereia que , xend o a força do
aind a maior, e a sereia se apaixon a pe r di da m e n t e pel o
amo r da filha, consente co m sua partida, m u da n d
príncipe . Não encontr a mais consol o n o rein o d o
o sua forma. Decididamente outros tempos...
pa i e faz um trato co m um a brux a para p o d e r
ser um a h u m a n a , t r o c a n d o a a p a r ê n c i a p o r
u m a d e s u a s virtudes, a voz. Ganh a a forma humana ,
ma s fica m uda . Nessa condição , encontr a o príncip e O filho animal
q u e n ã o a reco • nhec e c o m o sua salxadora, mas ,
d e qualque r mo d o , tom a carinh o po r ela e a ormal me nte , o s conto s d e noiv o anima l
conserv a s e m p r e po r p e i t o c o m o um a amiga o u u são muit o econô mic o s em explica r a
m tip o d e irmã. Desprovid a d a voz, qu e era um do s orige m do e nc a nt a men t o q u e custo u a image
seu s maiore s atrativos, e sofrend o terrivelmente, j á q u m human a ao consorte , a magia n ã o
e a s nova s pe rn a s doía m a o ca• minhar, nã o te m conviv e c o m mui-
c o m o s e fazer e nte n d e r e pass a pel o suplício d e tos p or q uê s . Vagamente , s ab e m o s q u e a
presencia r o casa ment o d o se u a m a d o c o m outr a responsável é um a mulhe r m á q u e lhe rogo u um a
princesa, ta m b é m h u m a n a c o m o ele. maldição . Alguns outro s contos , n o entanto , p o d e
Ela n ã o morre , poi s ficamos s a b e n d o qu e sereias m no s fornece r uma pista. Relataremo s u m destes
virtuosas s e transforma m n u m a espéci e d e anjo .
d a guarda , co m o ela m es m a foi par a o príncipe . Pouc o conhecido , poré m interessante, é o
É um a históri a b e a t a , e m q u e a v i d a e t e r n a conto narrad o pelo s irmãos Grimm, ch a m a d o Hans, o
fica c o m o reco mpens a suficiente par a aquel a qu e Ouriço.9
deixo u t u d o p o r a m o r a u m h o m e m d e outr a Han s é um pe rs o na g e m cuja forma mescla a
dimensão , d e outr o forma hu man a co m a de um ouriço . O detalh e
q u e no s faz conta r essa história é o fato de estar
centrad a na origem d o encantament o : u m desejo express o através d e u m deslize verbal d o pai.

146
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Cors o
tornar-s e deficient e par a o m u n d o

Privado de ter filhos po r um a infertilidacle do casal,


um camponê s se envergonh a de sua condiçã o quand o
vai à cidade comerciar seu s produto s e constata
qu e não possui um a prol e c o m o os outros. Outrora, e
hoje com meno s força, a fertilidade de um
h o m e m era símbolo inequívoc o de sua potência
sexual. Portanto, ser visto sem filhos era o m e s m o qu e
desperta r suspeitas de impotência, um a vergonh a
pública para o h o m e m em questão. O q u e entra em
jogo a partir daí n ã o diz respeito apena s ao desejo
de ser pai. ma s també m ao de se livrar dess e
questionamento .
Por isso, ele exclam a quere r um filho a
qualque r preço, "nem q u e seja um ouriço" . Não se sab e
se Deu s ou o diab o atend e a se u pedido , de qualque r
forma a dita criatura ve m ao m u n d o , tal c o m o
convocad a pel o pai. É óbvi o q u e est e se
arr e pe n d e do q u e disse e relega o estranh o ser a
viver entr e as cinzas, desejand o explicitamente q u e el e
morra. Afinal, se n ã o ter filhos já lhe impunh a um a
má fama, o significado social de um filho
imperfeit o e nt r e os povo s antigo s trazia
evocações aind a mais constrangedoras. 1 0
A vida de Han s n ã o começ a nad a bem , a
mã e não o amament a e o enjeitad o cresc e
c o m o p o d e . Quando atinge certa idade , n ã o t en d o
n e n h u m motivo para ficar, p e d e ao pai q u e lhe dê um
gal o c o m o mei o de transporte, un s porco s par a criar
e uma gaita para tocar. Que r partir para construir
sua própri a vida.
A enunciaçã o de q u e aceitaria um filho a qualque r
preço é feita para ser log o provad a impossível.
Um filho é p e ns a d o com o um troféu, é
co n ce bi d o para tanto. A tarefa da parentalidade , em
condiçõe s normais , é a de cair dess e cavalo. Nã o só
a criança, po r sorte, tem seus defeitos, c o m o ela
n ã o está dispost a a ficar enfeitando a estant e de
ninguém , já q u e ela te m sua própria vida para
cuidar. Isso no cas o de crianças q u e nascem s e m
imperfeiçõe s físicas . Quand o e s s e s acidentes
ocorrem , é possível aceitar um filho deficien- te, mas
ante s será necessári o realizar o luto pel o filho
perfeito qu e n ã o nasceu .
Nesse sentido , o q u e diferencia o nasciment o
de um filho co m proble ma s de um norma l é um a
questã o de tempo , o primeir o já nasc e ouriço ,
n ã o d a n d o chance à idealizaçã o - assassinad a log
o no início da festa. No se g u n d o caso, do b e b
ê perfeitinbo, a desi- lusão p o d e tardar, ma s n ã o
falha.
O s filhos q u e foram, d e algum a forma,
co n de n a • dos a pe r m a ne c e r à image m e
semelhanç a do ideal de perfeição costu ma m paga r
o pr e ç o de su a própri a vida o u d o equilíbrio menta
l par a o cu p a r u m lugar n a estante de troféus d o s
pais. Para ess e tip o de filho, será necessár i o
147
externo , s e n d o incapa z par a o sex o o u amo r (d e
forma a nunc a substituí-los); ou inviável par a certas
ousadias e transgressõe s necessárias para se
independiza r (assim n u n c a o s a b a n d o n a r á ) . É
p a r a d o x a l , m a s o filho idealizad o termin a po r
ser de certa forma deficiente: é aquel e q u e nunc a
cresce .
Hans , o ouriço , n ã o tev e ess e
problema , seu nasciment o n ã o empr esto u um a
image m d e potência a o pai. Enquant o b e b ê
espinh oso , n ã o viveu u m idílio simbiótico co m a mãe
. cujo seio n e m seque r conheceu; portanto , q u a n d o
qui s e preciso u partir, nad a o segu- rava. Mas
há alg o mais de q u e um filho precisa para
segui r adiante . Uma coisa é r o m p e r a bolh
a desse ideal e prova r o gost o amarg o da
imperfeição humana, outra é nunc a ter sid o
idealizado . Isto faz diferença. Tant o q u an t o u m
amo r obsessiv o tem o pode r
de imantar pais e filhos, q u e n ã o consegue m se separar,
um filho p o d e ser retid o junto ao s pais
justamente pel o contrário , pel a falta d e u m lugar
n o amo r deles. Ele persistirá dentr o do núcle o
familiar até se assegurar d e q u e partiu de i xa n d o
sauda des .
Infelizmente é comum , nu m a prol e
numerosa , q u e o filho q u e fica junt o do s pais
na adversidad e e na velhice seja justament e
aquel e qu e foi preterid o n o amor. O s preferidos
parte m tranqüilos, seguro s d e seu lugar na família
e no amo r do s pais, nã o precisam mais conquistá-
los . É c o m o na história bíblica da volta do filho
pródigo : aquel e q u e fica junto do pai nã o
receb e h o m e na ge n s , já o q u e a b an d o n o u a
família é objeto de grande s festas na sua volta.
Q u a n d o o filho q u e sem pr e estev e junto d o pai
reclama d a injustiça, q u e i x a n d o - s e d e q u e o
m e n o s a p e g a d o é o mai s h o m e n a g e a d o , o pai
diz q u e a h o m en a g e m era para o r e t o r n o d e u m
filho q u e , t e n d o sid o pe r di d o , foi finalment e
r e e n c o n t r a d o , e n q u a n t o el e jamais fora perdido
. A realidade , porém , é outra, o filho pródig o
p o d e partir e voltar quanta s veze s quise r e
sem pr e terá um a festa de boas-vindas , e n qu a nt o
o preterid o ficará se m p r e lá, cavand o um lugar
para si na pedr a dura d o coraçã o do s pais.
Já Hans , q u e n ã o tinha motivo s para
ficar, pois era mais do q u e preterido , era um
enjeitado, se interna na escuridã o da floresta, o n d e
leva solitariamente um a vida agradáve l e observ a
sua criação de porco s pros • perar. Uma ve z
tenta voltar, par a levar ao pai o fruto d e se u
trabalho , um a vez q u e su a criação d e porco s
tornara-s e muit o nu m er o s a . Nova me nt e
encontra-s e c o m a rejeição: o pai fica
desagradavelmen t e surpres o d e q u e a abjeta criatura
n ã o tenh a perecid o n a floresta e el e precisa novament
e partir. Em seu desejo , o jove m ouriç o pensar a e m
voltar par a casa n a condiçã o d e
Fadas n o Div ã - Ps ic a n ál is e n a s Hi st ó ri a s Infanti s
rejeição inicial desaparece r á quando for

home m digno , capa z de mostrar o se u sucesso , ma s


o pai lhe lembra q u e el e n ã o passa d e u m porco-espinho ,
tão animal c o m o os bicho s da sua criação.
De volta ao seu hábitat, po r d u a s vezes , el e
te m oportunidad e d e ajudar reis q u e havia m s e
perdid o na floresta e teriam perecid o nela,
incapaze s de sair ou sobreviver. A ambo s faz a
mesm a exigênci a em troca de guiá-los para fora
e salvar-lhes a vida: que r qu e lhe seja dad a a
primeira coisa q u e o s o be ra n o encontrar q u a n d o
chega r e m casa. Ne m é precis o dize r qu e a primeira
coisa q u e vai ao enc ontr o de a m b o s é a filha
caçula, predileta do pai, " feliz co m se u retorno . O
primeir o rei havia feito um contrat o falso,
contand o co m engana r o ouriç o e se m intençã
o de entregar-lhe nada. muito meno s a própria filha.
Q u a n d o Hans aparece para cobrar a promessa, é
recebid o pelos soldados do rei qu e têm instruções
de matá-lo. Pela segunda vez, precisa sobreviver a um
vot o de morte, já qu e seu próprio pai não cessava de se
lamuriar, desejando o fim da criatura monstruosa qu e
seu desejo gerou.
Hans , n o entanto , nã o s e co mp ort a c o m o
u m enjeitado qu e vai emb ora . Na floresta enco ntro
u se u hábitat, o n d e sua condiçã o animal era
natural e o n d e mostrou condiçõe s d e dar a o rei o
q u e ele n ã o tinha: a possibilidad e d e
sobrevive r á hostilidad e d o ambiente . N o
m u n d o h u m a n o , el e n ã o oferece u a o pai aquilo
q u e este desejava, nã o nasce u para prova r a
potênci a paterna : um a vez na floresta, o ouriç o de u
ao rei o q u e est e precisou , po r isso, o jove m
pass a a ter condiçõe s de cobrar. Muito se fala da
dívida q u e u m filho contrai co m seu s pais, po r tud
o q u e fizeram p o r ele , ma s ness a históri a
a p a r e c e m t a m b é m o s direitos conquistado s po r u
m filho q u e , a se u m o d o , cumpr e co m seu s
devere s e te m con diçõe s d e cobra r d a vida seu s
merecido s ganh os .
Ameaçand o os soldados , cas o o rei faltasse
co m sua palavra nova me nte , o ouriç o se faz
respeita r e consegu e q u e a princesa lhe seja dad a
em casament o . Mas, a mo d o de vingança, deixa a
noiva tod a ferida co m seus espinho s e parte
despeitado , para cobrar a promess a a o segund o
rei.
Ju n t o deste , encontr a a s porta s aberta s e
um a jovem, tal qual Bela, dispost a a se sacrificar
em n o m e da palavra do pai. F.ste rei toma- o com
o um filho e n ã o m e d e esforços par a recebe r
b e m a q ue l e q u e o ajudou nu m a hor a difícil.
Nesse caso , a condi çã o de Hans , e n q u a n t o u m a
criatura d a floresta, u m porco - e s p i n h o , serviu a
o rei e m d e t e r m i n a d o m o m e n t o , portant o é c o m o
s e ess a animalidade , a o se r absorvid a c o m o algo útil,
houv ess e se t or n a d o desnecessária . O símbol o da
Mas q u e desej o parenta l é ess e q u e faz do
filho um monstro , um animal encantado ? Na
tradição , um filho co m aparênci a animal, ou c o
neutralizad a pela s boas-v inda s d o pa i substituto ,
m algu m tipo de m o n s t r u o s i d a d e , c os t u m a v a se
o s e g u n d o rei. Na noit e de núpcias , o ouriç o
r castig o di v i n o por algum a forma de sex o
torna-se u m bel o jovem , cuja pel e d e bich o dev e ser
queimada par a encerra r o en c an ta m e nt o . interditado . A infertilidade de um casal é um
revé s biológic o do qua l ningué m tem culpa .
Nos conto s de fadas, a queim a da pel e é
uma f o r m a tradiciona l d e torna r o Porém , q u a n d o ela ocorre , é c o m o u m p é d e
d e s e n c a n t a m e n t o irreversível , no c a s o a n t e ri o r m e n t vent o q u e levanta u m a poeir a q u e n i n g u é m gost
e citado , O Lobo Branco, isso n ã o funciono u a d e encontrar , p o n d o e m evidênci a tod a um a
devid o ao fato de a mãe da jovem ter tentad o o gam a d e conflitos q u e usualmen t e passaria m se m
ritual ante s do prazo , à revelia d o príncip e fazer barulho. Q u a n t o mais rápid o e
en c an ta d o . N o c o n t o d e Hans , su a pele foi imperceptivelment e uma
q uei m a d a no m o m e n t o certo , ele deix a par a trás gestaçã o acontece , m e n o s ficará evidenciad o par a u
sua antiga existência q u e o prendi a ã maldiçã o paterna. m casal a diferença entr e o sex o par a a procriaçã o e
Ness e rein o ser á p l e n a m e n t e h u m a n o e é por prazer. Uma gestaçã o p o d e acontece r po r
feito o sucesso r do trono . acidente, n u m deslize d a contracepçã o , o u n u m
Essa n ã o é a única história em q u e a gênes e context o e m q u e s e está fantasiand o c o m u m
da animalidade é um a maldição do s pais. Um b o m exemplo filho, se m um a clara definição d e q u a n d o será
de maldição, dessa vez materna , é o cont o O Corvo.1 co n ce bi d o . Nesse s casos, engravida r incorpora-s e na
2 s fantasias eróticas d o casal, o desej o po r um filho
Nessa história do s irmãos Grimm, um a m ã e q u e é tênue , qu a s e lúdico . A parte complicad a - um
não agüent a mais um a filha choron a acaba desejando , p o u c o ou até muit o assustadora - chegar á c o m
num m o m e n t o de raiva, qu e ela se torn e um corvo . a confirmaçã o d a gestaçã o o u co m o
Dito e feito, a menin a se transformou em corv o e saiu nasciment o da criança, q u a n d o o casal se torna r
voando pel a janela. Nesse s casos , o s uma família.
de se n ca nt a m e nt o s são trabalhosos, mas possíveis, sã o Q u a n d o a naturez a neg a o u obstru i ess e caminh o
jornada s parecidas às da s jovens noivas do urs o e mais fácil e sutil, o casal terá de gera r a criança, afirman•
do lobo , em q u e é um amo r q u e vai redimir o s d o a força d o se u desejo . Terá d e sub mete r su
enfeitiçados. a vida

148
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co r s o

sexual ao impéri o da co n ce p ç ã o , t o rn a n d o consciente s


muitas coisas q u e muit o b e m ficavam na s
sombras . Um filho n ã o é um b e m universal ,
desejá-l o é tã o humano co m o questiona r se é
precis o m e s m o tanta abnegação, tanta dedicaçã o
po r algué m qu e , no fim da história, acab a ind o
emb or a e e s co lh e n d o outr o amor qu e nã o o de
seu s pais. Certa part e da s infer- tilidades
inexplicávei s pel a ciênci a médic a sã o
psicogênicas, podend o estar ligadas a um a
suposiçã o inconsciente d e q u e um , o u o s doi s
cônjuges , n ã o seriam capaze s de ser b o n s pais.
Às vezes , a d o çõ e s posteriores ou a reversã o do cas o
revela m infelizmente que as intuições era m verdadeiras .
É b o m lembra r q u e a facilidade para engravida r de
forma algum a que r dizer o oposto : neste s caso s
t a m b é m p o d e se revelar a total falta de p e nd o r par
a a paternid ad e .
O s p r o b l e m a s d e fertilidad e d e s n u d a m
u m a patologia ligada à c o n c e p ç ã o p o r q u e torna m
conscien • tes processos q ue , na fecundação ,
geralment e trans• correm de forma inconsciente .
Associad o ao event o biológico da relaçã o sexual ,
encontra-s e um ma r de dúvidas e e s t r a n h a m e n t o s
. Q u a n d o u m a g e s t a ç ã o acontece muit o rápida
e naturalmente , n ã o há muit o espaço para duvida r
d o parceir o escolhid o , n e m da s próprias capacidade
s para o exercício da parentalidade , nem seque r da
criança, q u e talvez seja difícil de criar o u
portador a d e algu m defeito . N o t ra n sc ur s o d a
gravidez, muitas dessa s dúvida s virão, ma s já é
tarde , não pode m impedi r a chegad a do filho
ao m u n d o . Quand o ela s s e insinua m á
co n sc iê nc i a a n t e s d a concepção , fica mai s clara
a gam a cie neurose s e fantasias qu e
a s s o m b r a m t o d o s o s p r o g e n i l o r e s principiantes.
O pai de Han s qui s um filho par a prova
r sua potência, saiu um monstro ; a mã e da menin a
corv o se desiludiu co m se u b e b ê , qui s q u e ela
fosse m e n o s chata, virou um a ave; a mã e de
Rapunze l qui s um a gravidez co m a mes m a
impaciênci a co m q u e exigiu os rapúncios, ficou só
co m os vegetais. Nos conto s de fadas, cad a vez q u e
os pais explicitam a força de se u desejo sobr e a
co n ce p çã o , alg o acontec e q u e i m pe d e a
paternidad e o u a maternidad e de ocorrere
m normalmente. Na vida real, nã o é assim tã o cert o ne
m tão direto, ma s vale c o m o um alerta.
E cert o q u e par a se ter um filho é
important e que ele seja desejado , ma s ess e vot o també
m sab e ser problemático. Seja qua l for o q u a d r o
da orige m de uma vida , se r o r e s u l t a d o d o
desej o explícit o o u inconsciente de algué m é um a
sina difícil co m a qua l todos temo s q u e lidar. Sempr
e nasce mo s mai s feinho s d o q u e no s fantasiaram,
à s veze s es pi n he n t o s par a
149

m a m a r e mai s c h o r õ e s d o q u e o e s p e r a d o
e n e m se mpr e c h e g a mo s a o m u n d o c o m o
gê n er o desejado . Somo s co nc e bi d o s n u m a
intimidad e erótica d o casal, q u e compartilharem o s
de forma incômod a e conflitiva d u r a n t e n o s s o s
a n o s d e infânci a , a ss i m c o m o a evocare mo
s e m nossa s fantasias q u a n d o crescermos . A
filiação é um a sina necessária. Essas histórias
ex p õ e m caricaturalmente sua face neurótica. O
noivo animal, po r ser u m filho monstruoso ,
evoca qu e n o m o m e n t o de partir par a a vida
adulta, sexualment e independent e e madura,
levaremos conosc o os desejos co m os quais fomos
fabricados. Isso é inevitável, às vezes é possível incinerar
as peles e cavar a própria humanidade, mas sempr e
restará pel o meno s a lembrança de com o tud o
isso começou : d o lobo, d o urso, d o ouriço,
d o corv o o u d o rapúnci o q u e u m dia fomos.
Sair de casa é uma nova existência, é um a
nov a pele . A casa paterna , sempr e tão
idealizada, muitas veze s se mostra asfixiante. Não
sã o raros os filhos q u e estã o s o b o jug o d e
desejos mortíferos po r part e do s pais, q u e n ã o
suporta m o u n ã o e n t e n d e m a s escolha s daq ueles .
A saída de casa, qu e . na verdade , é a saída da s
ex p ec tat i va s pa re n tai s , revela-s e n es s e s caso s
equivalent e à libertação de um a maldição .

Notas
1. TATAR, Maria. Contos de Fadas: Edição Comentada
& Ilustrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
2. Troll é um nom e genéric o utilizado no
folclore escandinavo para seres encantados que
habitam as montanhas ou as florestas. Sua tradução
aproximada seria: espírito malvado, demôni o ou
monstro. Podem adota r várias formas,
existem referências com o send o anões, mas em
outros casos eram vistos como gigantes.
3. LANO, Anclrew. El Libro Azul de los Cuentos
de
Hadas II Madrid: Neo Person, 2000.
4. LANG, Andrevv. El Libro Gris de los Cuentos
de
Hadas. Madrid: Neo Person, 2000.
5. Esta históri a par a os latino s te m
significado s agregados, afinal Cupido é a
personificação do amor, outras vezes do desejo. Seu
estatuto entre os deuse s n ã o é muit o claro ,
algun s o c o nsi d er a m um a divindade menor.
Para os gregos, com nom e de Eros, ele existiu desd
e o começ o do mundo , com o uma e nt id a d e
primitiva e eterna , cuja força nã o se
extingue. Não podemo s esquecer qu e suas
flechas pode m atingir até os deuses. Vênus,
sua mãe nas versões mais conhecidas, é a
deusa relacionada à
Fadas n o D i v ã - P s i c a n á l i s e n a s Hi st ó ri a s Infanti s

beleza e ao amor. Já Psique tem com o sobre a pureza da alma dos pais. Mesmo hoje, em
tradução aproximada "alma". t e m p o s m e n o s religiosos , o s pai s cujos
6. APULEIO, Lúcio. O Asno de Ouro. Rio de filhos a p r e s e n t a m algum a anomali a visível
Janeiro: Edições de Ouro . 1980. precisam combater a idéia de qu e ali estaria
7. ANDERSEN. Hans Christian. Contos de marcada alguma falta por eles cometida. Já
Andersen. Bettelheim observa que:
São Paulo: Paz e Terra, 1988. "a sabedoria psicológica destes conto s é
8. As sereias da Antigüidade eram mulheres até o torso notável: falta de controle sobre as emoçõe s
com o resto do corp o de ave, foram estas por parte dos pais cria uma criança
qu e tentaram Ulisses. No caso, trata-se de um desajeitada. Nos contos de fadas e sonh os ,
ser que habita um reino no fundo do mar, metade a má confor maçã o física com freqüência
mulher e metade peixe, talvez o nom e de represent a um ma u desenvolvimento
pequen a Nereida seria mais adequado , ou ainda psicológico", In: BETTELHEIM, Bruno, A Psicanálise
Ondina, mas ficou como sereia. Na tradição dos Contos de Fadas. São Paulo: Editora Paz e Terra,
européia recente, os seres aquático s encantado s 2001, p . 87.
era m t o d o s dess a forma, metad e h u m a n o co 11. Este expediente, pelo qual o pai será
m caud a de peixe , a figura clássica de um obrigado a prometer que dará a primeira coisa
Tritão. qu e encontrar ao chegar em casa a algum
9. GRIMM, Jacob & Wilhelm. Todos los Cuentos de ser qu e o ameaça, é repetido em vários contos
los Hermanos Grimm. Madrid: Coedição de de fadas. Em muitos deles é a filha caçula qu e
Editorial Ruclolf Stiner, Mandala Ediciones, Editorial corre aos seus braços nessa ocasião, com o
Antroposó- fica, 2000. Este conto nã o consta prova da intensa afeição qu e a liga ao pai.
nos Contos de Grimm - Obra Completa, editadas Não surpreend e qu e se repita essa escolha pel o
em português pela Editora Villa Rica. É uma boa edição, filho mais jovem com o predileto, pois é o que está
mas não sabemos o que os levou a publicar 99 mais distante de abandona r a família, o mais
contos apena s do s aproximadamente 200 contos próximo da criança amada e amante dos pais.
originais, e mesm o assim chamar-se de Obra 12. GRIMM, Jacob & Wilhelm. Todos los Cuentos de
Completa. los Hermanos Grimm. Madrid: Coedição de
10. Criaturas deformadas costumavam ser Editorial Rudolf Steiner , Ma ndal a E d i c i o n e s
associadas com seres demoníacos, o qu e lançava , Editorial Antroposófica. 2000.
uma sombra
150
Capítulo XI
HISTÓRIAS DE AMOR III:
FINAIS INFELIZES

Barba Azul, O Pássaro do Bruxo, Nariz de Prata, e As Três Folhas da


Cobra
Curiosidade feminina - O preço da iniciação sexual das mulheres -
Oposição paterna ao amadurecimento da filha - Ruptura da submissão
e da ingenuidade femininas - Construção da imagem corporal - Caráter
desestruturante das perdas amorosas - Ciúme patológico.

as histórias qu e várias nacionalidades. Para essa análise tomaremos ainda


precedem , analisadas nos Nariz de Prata,2 da tradição italiana, e O Pássaro
dois últimos capítulos, a do Bruxo,3 dos irmãos Grimm, da tradição alemã.
assimetria do casal encontra,
no final do relato, alguma
solução; entretanto, essa sorte Barba Azul
não é regra, o mesmo não
acontece em Barba Azul,1 nem arba Azul é um homem rico e poderoso, nada
nos contos que vamos lhe falta, exceto uma esposa. Pede então em
analisar agora. Existem casamento uma moça de menos posses que
várias veio a conhecer. O matrimônio para ela era
histórias que dão conta de desencontros amorosos, com uma oportunidade de saída do lar, a chance de
maridos cruéis, esposas jovens e curiosas, redundando uma vida financeiramente compensadora. Em Nariz de
num casamento que fracassa. São as tramas em que o Prata, três irmãs são sucessivamente convidadas para
estranhamento entre marido e mulher não trabalhar como criadas, mas para driblar a miséria da sua
encontra resolução, e o laço amoroso não se consolida. família. Já, na história alemã, O Pássaro do Bruxo,
Barba Azul, popularizado por Perrault, que deu tintas três irmãs são inicialmente raptadas, mas, assim que
literárias, ao estilo da época, a uma narrativa folclórica chegam ao cativeiro, são cercadas de todo o tipo de
anterior, pode ser considerado o conto modelo sobre conforto que o dinheiro pode comprar.
esse tema. Trata-se de um tipo de história bastante
difundido, tanto que existem outras muito semelhantes
provenientes de
Fada s n o D i v ã — P s i c a n á l i s e n a s Hi st ór i a s I nf a n ti s
sabã o capa z d e retirar a marca. O q u e ela nã o sabia
era q u e a tal chav e possuí a
Nessas histórias, o início é diferente de
conto s tip o A Bela e a Fera. Bela vai para o
castelo de Fera par a morrer, e n q u a n t o par a essa s
moças , po r mai s i n d i g e s t o q u e seja o
p r e t e n d e n t e , s e c o l o c a a possibilidade de um
casament o de conveniência . Mas o qu e no s levou
a agrupá-las n ã o é apena s o fato de com eçare m
d e m o d o semelhante , é se u desenlace ,
estruturalmente quas e idêntico. Só variam as aparências.
São as posses , ou a v o nt a d e de ir e m b o r a de
casa . q u e fazem as moça s em Barba Azul e
Nariz de Prata relevare m o qu e seu s olho
s vêe m n o pr ete n d en t e : tant o u m ma u a s pe ct o
q u a n t o um a pista d e s u a maldade. Quanto a
o primeir o c o n t o , acrescentava-s e à
desagradáv e l barb a d o heró i sua m á fama.
Sabia-se q u e casara várias veze s se m q u e s e
tivesse notícia d o parad eir o da s e s po s a s anteriores , o
que , c o n v e n h a m o s , n á o é muit o encorajado r par
a a s nova s candidatas . A desconfianç a da s moça s
q u e ele cortejava era tã o g ra n d e qu e preciso u
p r o m o v e r grande s festas, co m muita fartura e
diversão , par a seduzi r algum a delas . Finalment e
h o u v e u m a q u e consegui u suporta r o aspect o
sinistro d o h o m e m d e barb a azul e aceitar se u
pedido.
Depoi s d e c on s u m a d o o casamento , e m qu e tud o
ocorria normalmente , o marid o p a n e e m um a
viagem, deixand o co m a espos a toda s a s chave s
d o castelo. Tud o o q u e ele possuí a ficou ao dispo r
dela, riqueza s inclusive, m e n o s o acess o a u m
c ô m o d o proibido , cuja chav e ele tam bé m lhe
estava confiando . Se ela transgredir, diz ele, ante s
d e embarca r n a carruagem :
"nã o h á nada q u e ná o deva espera r d a minh a
cólera". Até o m o m e n t o dess a ameaça ,
Barba Azul era
u m m a ri d o cujo mai o r defeit o er a su a
a p a r ê n c i a estranha, a jovem nã o parecia ter motivo s
par a temê - lo, já qu e a tratava até co m cert o mimo ,
ma s nad a do q u e ele lhe podi a oferece r a
atraiu tant o q u a n t o o quart o proibido . Se o motiv o
do casament o era o bem - estar financeiro, isso nunc a
lhe faltou, bastava aco • modar-s e nessa nov a
vida. Mas tu d o indica q u e se u verdadeir o fascínio
era a aparênci a maligna e assusta• dor a do marido ,
o mistério q u e sua vida encerrava , p r o d u z i n d o o
m e s m o atrativ o d a cha v e d o q u a r t o interditado.
É co m ess e perigo , co m essa ameaça , q u e ela se
envolve u ao casar.
Ela vacila muito, ma s ced e à sua curiosidade. Ao
entrar no recinto proibido , a jovem encontro u um a cen a
tétrica: as esposa s anteriores degolada s e
pendurada s , feito um açougu e de carn e humana . O
susto fez co m qu e derrubass e a chav e no chão ,
manchando - a co m o sangu e derramado , e n ã o houv e
seqüência de três irmãs que são levadas pelo
estranho pretendente; destas, apenas a última, a caçula,
não sucumbe à sua armadilha. É com o se
o pode r mágic o de denuncia r a transgressão, uma vez
assim houvesse oportunidade para a personagem
suja, nã o podi a ser lavada. Ao voltar, o marid o descobriu qu e
aprender, levando-nos a supor que talvez as três não
ela traíra sua confiança através da manch a na chave e só lhe
restava, então , cumprir o prometido , castigando a co m a sejam mais qu e uma, ou seja. a mesma em
morte . três momentos sucessivos. Essa evolução da
personagem em três tempos permite que ela
O final da história te m um desenrol a r nervoso,
a es p os a é salva pelo s irmão s q u a n d o a lâmina cresça com a experiência. Assim, não ficará
já desci a s o br e se u p e s c o ç o . Essa é a mai s passiva mais rezando com a faca sobre o pescoço, mas
das três heroínas , o m á xi m o q u e ela fez par a se salvar foi fará o necessário para se safar, salvando as anteriores e
pedi r u m t e m p o par a rezar, p o st e r g a n d o assim levando consigo parte do tesouro do sinistro esposo.
por O Bruxo do conto dos Grimm, O Pássaro
1 5 minut o s a hor a d a morte , poi s apostav a do Bruxo, é na verdade um velho raptor, como o
n a possibilida d e d e q u e seu s irmãos , q u e estava m Velho do Saco.4 Ele bate à porta das moças
para chegar, tivessem c h a nc e de salvá-la. Já o temível Barba esmolando e termin a aprisionando-a s em um
Azul foi ve n ci d o e mort o se m gr a n d e resistênci a pelos cest o mágico, levando-as para seu castelo.
irmão s da esposa . Ela ficou se m marido , mas , Embora os inícios das histórias sejam distintos, já
pelo m e n o s , tinh a u m castel o e u m d o t e par a que não se trata aqui de um casament o po r
tenta r u m c a s a m e n t o feliz. interesse, com o ocorre u em Barba Azul, os
destinos das noivas são idênticos no restante da
trama. Quando chega à casa do Bruxo, a moça é a
senhora daquele novo e riquíssimo lar. Como cabe
O Pássaro do Bruxo
a esse tipo de história, o velho homem parte por
s heroínas similares das histórias alemã e uns dias, deixando aos cuidados da futura esposa as
italiana são mais espertas e dão uma virada na chaves da casa, incluindo a do quarto
trama, deixando seus algozes no papel proibido. Junto com o molho de chaves, ele entrega-
de otários. Além disso, nessas histórias, há uma

152
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co r s o
troco . Já q u e el e as fazia

lhe um ovo, q u e de v er á se r c u i d a d o e
c a r r e g a d o sempre consigo .
Quando a primeira da s irmãs entr a no
recint o proibido, depara-s e co m um a visão terrível: um a
pilha macabra, construíd a pelo s corpo s
esquartejad o s d e todas as moças q u e já havia m caíd o
na cilada. Co m o susto, o ovo cai na poç a de sangue ,
ficando co m um a mancha indelével. Q u a n d o o Brux o
retorna , examin a o ovo, que possui o sinal da
desobediência , e identifica a senha para mata r mai s
essa jovem . Assim ocorr e também com a seguinte
. Apena s a caçula escap a do castigo, quand o cheg
a sua hor a de ser post a à prova , a história muda:
a jovem deixo u o ov o a salvo ante s de abrir o
quart o proibido , lá encontro u sua s irmãs
esquartejadas e colou seu s pedaços , devolvendo -
lhe s a vida, e depoi s as es co n d e u . Fm favor da
idéia de que as três irmãs sã o na verdad e
representaçõ e s da mesma tem-s e o c o m p o r t a m e n t
o da terceira , q u e , mesmo sem se comunica r co m
as outras , ag e c o m o se soubesse o q u e ela s vira
m e q u a i s p r e c a u ç õ e s e providências deveria
tomar.
Ao retornar, o Bruxo ficou content e po r encontra r o
ovo intacto c o m o prov a da obediênci a da
jovem, resolvendo qu e esta seria sua espos a
definitiva. Ela aparentemente aceita o p e d i d o de
c a s a m e n t o e se iniciam os preparativos . Na nov a
condiçã o de futura esposa, ela lhe p e d e par a
envia r para sua família um grande cesto de riquezas ,
q u e o Bruxo deveria carrega r pessoalmente. A jovem
garant e ao noiv o q u e te m um poder mágico co m o
qual tu d o vê, de m o d o que , se ele fraquejar
c o l o c a n d o o c e s t o no c h ã o , el a o
. repreenderá. Aparentement e , el e n ã o lhe neg a
nada . Ela coloca as irmãs no cest o junto co m as
riqueza s e envia o crédulo noiv o para a sua casa
de origem . Por duas vezes, vergad o pel o imens o
peso , o Brux o tenta pousá-lo no chã o par a
descansar .
D e d e n t r o d e s e u e s c o n d e r i j o , el a s
t i n h a m instruções de , cad a vez q u e ele parasse ,
dizer: "estou olhando pela minh a janelinha e vejo
q u e paraste , te ordeno qu e sigas adiante!".
Impressionad o co m o pode r da noiva, o brux o segu
e o trajeto até q u e , s ua d o e cansado, entreg a o
cest o c o n t e n d o as joven s sãs e salvas na casa de
seu s pais. Através da s artimanhas , a jovem faz co m
q u e ele devolva as irmãs da mesm a forma com o
ele as raptou . Mas aind a lhe restava a
necessidade de fazer um pl a n o para sua própri a
fuga. Esta é a q u e melho r faz o pape l de
ridicularizar o noivo. Colocand o um a caveira vestida
de noiva na janela, disfarça-se d e u m bizarr o
pássaro , c o br in d o seu corpo de me l e plumas . Mais
u m a ve z a vinganç a tem cara de zombaria , de
153
carrega r u m ovo , ela s e fantasia d e um a
grand e ave . O q u e ela faz é subverte r as
coisas dentr o da própri a linguage m d o m onstr o
e , po r isso, ele n ã o pe rc e b e e a deix a
escapar .
Ao voltar da casa d o s pais dela, o Baix
o aind a cruza-s e n o ca m in h o co m a moç a
disfarçada d e ave . Sem desconfiar d e nada , el
e convers a co m ela, q u e lhe diz q u e sua
noiva está tod a arrumad a na janela e s p e r a n d o
po r ele, aludind o á risonha caveira deixad a em se u
lugar. Q u a n d o chego u ã casa, ele foi recebid o
pelo s irmão s da s jovens q u e incendiara m a
casa co m o d o n o dentro .

Nariz de Prata
ariz de Pinta, no conto folclórico
italiano, compilado por Ítalo Calvino, é o
Diabo. Ele aparece vestido de preto
com seu estranho nariz de prata, pedindo
a uma pobre lavadeira
que lhe confie uma de suas filhas para trabalhar
como criada em sua casa. Na verdade, como
bem cabe às aparições do demônio, ele foi
conjurado por uma das irmãs, ao exclamar que
preferia partir com o próprio diabo a passar
uma vida de tanta miséria. A história desenrola-
se de forma quase idêntica à de O Pássaro do
Bruxo: as jovens consecutivamente tornam-
se senhoras de imensa riqueza, possuem as
chaves de quartos com maravilhosos tesouros, mas
uma delas, a de um quarto proibido, não deve ser
usada. À medida que vão transgredindo, ele as mata
e volta para buscar mais uma das três irmãs,
alegando para a mãe delas que o trabalho é
muito e necessita de mais ajuda.
Nesse caso, o quarto dos horrores é um
inferno em miniatura, onde as moças padecem numa
fogueira. O objeto do teste também é diferente,
agora ele lhes coloca uma flor no cabelo
enquanto elas dormem. Quand o em contato
com o quarto-inferno, a flor murcha com o
calor e denuncia a transgressão. Como vemos, a
proibição é idêntica nas três histórias, o que muda
é a forma de suplício a que as curiosas
são submetidas, assim como o mecanismo pelo
qual se revela sua desobediência.
Lúcia, a irmã mais jovem, tirou a flor dos
cabelos e colocou-a num vaso, motivo pelo
qual não ficou chamuscada quando abriu a porta
do recinto proibido. Pensando que enfim havia
encontrado uma moça obediente, o Diabo cede
ao pedido dela de levar sacos de roupa para que a
mãe lavasse. Assim, ela faz com que ele transporte
ensacadas tanto as duas irmãs que ela tirou da
fogueira do inferno, quanto a si própria
Fadas no Divã — Psicanálise nas Histórias Infantis

de volta à casa da mãe. Usa o mesmo expediente de jovens são be m modernas , pois tud o indica
dizer que tem o dom mágico de tudo ver, para evitar que arrancaram o dote à força desses maridos, que
que o saco seja aberto e descoberta a trapaça. Cada mais se parecem com pais que as querem
vez que ele pousa o saco no chão, as irmãs ou aprisionar na inocência e na obediência infantil.
ela dizem, lá de dentro: "Estou vendo, estou vendo!" Elas terão que aprender a enganá-los para fugir
No final, com todas sãs e salvas de volta ao de casa, e eles se comportam como bobos, não
lar, basta colocar uma cruz na porta para garantir que lhes ocorre que elas possam ser espertas, que
ele não as importunará mais e usufruir dos tesouros tenham crescido tanto.
roubados por Lúcia da casa do Diabo. Todo amor qu e acaba implica algum
tipo de morte. Entre as moças e esses representantes
dos pais, que as querem reter na ingenuidade,
Um dote roubado não teria por que ser diferente. A moça em O
Pássaro do Bruxo deixa em seu lugar a patética
final é economicamente feliz, e as caveira vestida de noiva e foge. tendo-se apossado de
moças voltam provavelmente bem menos sua vida, levando consigo as riquezas que são as que
ingênuas. Porém, ainda estão solteiras. mais valem, aquelas que conseguiu conquistar
Aqui não há felicidade conjugai, a diferença sozinha. Mas vamos adiante detalhar mais este
entre a noiva percurso.
e o consorte revela-se insuperável. Contrariamente ao
caso de Bela, nessas histórias a monstruosidade
do noivo não tem cura, não há nada que o amor O quarto obscuro
possa fazer, só resta matá-lo ou fugir da relação
fracassada. Como no final da história elas estão mais esde a caixa de Pandora, a curiosidade femi•
espertas e com um bom dote, podemos talvez nina tem o péssimo hábito de abrir lugares
supor que não estejamos falando propriamente de de onde saem ou se revelam maldades. No
casamentos, mas sim de fantasias de libertação. mito grego, Zeus manda uma armadilha para
Provavelmente trata-se de desenvolvimentos os homens, uma arca que contém todos os males. 0
preparatórios para qu e uma jovem possa fazer uma endereço da oferenda é o de Epimeteu, mas
escolha amorosa e sair de casa levando aquelas é sua esposa. Pandora, quem abre a arca. Mesmo
riquezas a que tem direito. advertida do perigo , ela o ignora roída pela
Esses maridos ou noivos mais se parecem com o curiosidade. Libertados por ela, os males se espalham
ogro de João e o Pé de Feijão. Eles são poderosos e pelo mundo, e as conseqüência s só nã o são
assustadores, mas otários. Principalmente no caso do piores porque a esperança é a única que ficou
Bruxo e do Diabo, enganá-los é coisa que essas frágeis retida - Pandora fechou a arca quando se deu conta do
mulheres, assim como fez o pequeno João, fazem com que fizera. Daí vem o ditado: a esperança é a última
facilidade. A riqueza que lhes é roubada parece que resta.5 Esse é um tema recorrente em mitos
ser uma merecida punição para a maldade do e conto s de fadas: as mulheres em geral
adversário, assim como uma justa recompensa seriam mais curiosas, e há uma advertência de
pela bravura em combate das heroínas. que essa curiosidade lhes custa caro, quando não a
Dar um dote significa que o pai, um sua vida.
homem, confia aos cuidados de outro homem Para dar um exemplo bem distante do grego, os
uma mulher incapacitada para ganhar o próprio índios brasileiros tinham um mito em
pão. O dote funciona como uma compensação expansão na época da descoberta: é a história de
pelos gastos que ela causará dali em diante. No Jurupari, um herói civilizador que veio ensinar uma
tempo dos casamentos arranjados, ou de conveniência, série de coisas aos homens. Uma de suas
não se supunha que a mulher fosse somar algo à missões era conseguir uma mulher para o sol.
riqueza da família com empreendimentos e poder, Pois bem, quais os três atributos que essa mulher
isso teria de ser providen• ciado previamente pelo pai deveria ter? Saber guardar um segredo, ter paciência
dela. e não ser curiosa. O sol segue sem parceira
O trabalho feminino era interno à mecânica até hoje, pois Jurupari nunca encontrou tal
de manutenção do lar. Por mais que a mulher lidasse mulher. A questão é saber o que seria tão destrutivo,
de sol a sol como uma besta de carga, parindo, tão ameaçador, para os homens e para a civilização,
criando, alimentando e limpando, isso não era na curiosidade feminina?
visto como trabalho, nem como fonte de poder ou Na tradição judaico-cristã, a reputação da mulher
riqueza. Essas não é muito diferente. É Eva quem provoca a perda do
154
Di a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mário Cors o

paraíso terreno, ao convence r Adã o a cede r à tentaçã o A respost a d o p or q u ê dess a m á fama d e curiosas
de conhece r o sabo r da fruta proibida . Sua inveteradas é difícil, ma s talvez ess e quart o do s horrores
figura confunde-se co m a da serpente , poi s n ã o se sab e poss a no s fornece r pistas. As descriçõe s sã o
q u e m tem a maior culpa, a cobra po r representa r a variadas, ma s é um lugar particular, lá as
tentaçã o ou a mulher po r se deixar cativar po r es p os a s anteriores estã o morta s e vivas, num a espéci e
ela. São dua s faces da mesma moeda , dua s faces de suspensão , pois, e m b o r a esteja m esquartejada s ,
de Eva. Ela deseja ardentemente provar daquil o q u e par a salvá-las basta colar-lhes os me mbros . Em
lh e fora proibido : a árvore do conhecimento , de o n d e Nariz de Prata, o quarto é um a espéci e d e inferno,
prové m a capacidad e de distinguir o Bem do Mal. co m chama s e tudo , mas, q u a n d o a caçul a
O primeir o efeito dess e conhecimento foi se salva sua s irmãs mai s velhas, é só tirá-las do
percebere m nu s e se envergonha • rem, afinal, a
fogo e elas ficam c o m o antes , pronta s para voltar
inocência fora perdida . Depoi s disso ve m a sua
par a casa . É um a estranh a fogueira qu e não
expulsã o do Paraíso e as conseqüências , para
queima , ma s faz sofrer. Tant o em Barba Azai
eles e para su a d e sc en d ên ci a . Somo s herdeiro s
como em O Pássaro do Bruxo há muit o
do pecado de Adão e Eva, po r isso somo s
obrigado s a conhecer a s a gr ur a s d a vid a e sangue . Embora sejam morte s antigas, há um
te r c o m o d e s t i n o irremediável a morte. sangu e q u e nã o seca, o ch ã o cio quart o é um
lago de sangu e o n d e caem os o b j e t o s qu e
Como p o d e m o s ver, o s conto s d e fadas n ã o
ficarã o manchado s po r um a marca
tê m a mulher em melho r cont a q u e o rest o da
irreversível.
cultura, neles també m ela tem um a curiosidad e se m
Há um a história invertida, em q u e é um
possibili• dade de freio e c o m c o n s e q ü ê n c i a s
rapaz q u e profana a porta de um quart o proibido , qu e
funestas . Not e que mesmo as heroína s q u e se
salvam n ã o deixara m de abrir a porta, a pe n a s talvez no s ajude a c o m p r e e n d e r o q u e fascina essa s
so u be r a m en gana r o marido , o que nos leva a curiosas. Neste cont o do s irmãos Grimm, um rei
pensa r q u e é impossível driblar a curiosidade morr e e deixa s e u filho a o s c u i d a d o s d e s e u
feminina. h o m e m cie maio r confiança: João, o Fiel. A
Hoje a c r e d it a m o s q u e a s m u l h e r e s sã o r e c o m e n d a ç ã o cio pai é de qu e ele colocass e tod o o
mai s consistentes e c o m p r o m e t i d a s na s relaçõe s castelo à disposiçã o do jovem, dand o-lh e toda s a s
afetivas, que elas se e nt rega m ao sex o mai s movida s po r chaves , me n o s a d e u m quarto, q u e nã o
amor, que têm po r seu s h o m e n s laço s d e deveria ser abert o so b hipótes e alguma . Não é
a m i z a d e mai s constituídos ou , ainda , q u e d e p o i s precis o ir muit o long e para supo r q u e nad a interessou
d o sex o ficarão mais ligada s a o parceiro . tant o ao jove m q u an t o o tal quart o proibido .
Q u a n t o a o s h o m e n s , pensamos q u e p o d e r i a m Ele n ã o descanso u e n q u a n t o nã o fez J o ã o rompe r
s e e n t r e g a r à s r e l a ç õ e s sexuais se m a m o r e a promess a q u e fizera ao m o ri bu n d o , o bt e n d o
seria m mai s voláteis no s laços que venha m a assim a tal chave . O q u a r t o e m q u e s t ã o n ã o
constitui r a partir do s e x o . A frases acima sã o co nt in h a n e n h u m
o s e n s o c o m u m d o n o s s o t e m p o, " n ã o vamos horror, ma s o retrato de um a princesa bela,
agora analisa r a su a possíve l superficialiclade, o mas tã o bela q u e su a visão faria qualque r u m
i mp o rta n t e é r e s s a l t a r q u e es s a é um a enlouq uece r d e amor. Isso de fato acontec e co m
v i s ã o moderna. Na antigü idad e clássica e at é a o jovem príncipe, e será necessári o q u e J o ã o faça
auror a do s tempos m o d e r n o s , a idéia era b e m o impossível para trazer a beldad e para o reino ,
outra , senã o o oposto: a s mulhere s s e ante s q u e seu jovem sob era n o m o r r e s s e d e a m ore s
en tr eg ar i a m a o s e x o mai s facilmente, seria m . Podemo s també m lembra r a versã o de
mai s lúbricas . O s h o m e n s n ã o teriam muit o Perrault para Pele-de-Asuo - história ana • lisada
recato , ma s ele s seria m mai s c a pa z e s de fazer
no Capítul o VI dest e livro -, em q u e o príncip e
amizade s d ura d o ur a s e certament e manteria m mais a
ad o e c e d e amo r a p ó s ter espiad o a bela princesa
palavra e a fidelidade , n u m sentid o a m p l o . Não
pel o burac o d a fechadura . Escondid a e m seu quarto ,
vale a p e n a , n e m seria d o n o s s o alcanc e pensa r o
ela s e permitia enxerga r o s suntu os o s vestidos q u e
que estaria historicamen t e certo , ma s o s conto s d
e fadas sã o um a relíqui a fóssil d a s narrativa s trouxer a cie se u rein o e se despi a da sujeira e da s pele
h u m a n a s , e seus valores estã o firmado s mai s em crença s s animais q u e lh e ocultava m a beleza . Olha r pel
antiga s d o que m o d e r n a s . A s m u l h e r e s desse s a fechadur a é similar a abrir um a port a proibida , em
co nt o s sã o u m e x e m p l o d e p e s s o a s e m q u e m a m b o s os casos, vê-s e o q u e n ã o s e devia .
n ã o s e p o d e confiar, q u e n ã o o b e d e c e m ao s O q u e esses rapaze s enxergara m é algo
marido s e m e n t e m sempre q u e p o d e m . qu e os faria desejar ardentemen t e um a mulher. Já as
Pandora s d e todo s o s te m po s simplesment e foram
aquela s qu e n ã o aceitaram a interdição à sua
curiosidade, provavel• ment e dirigida ao sabe r sexual.
Entre todo s os mistérios
Fada s n o Di v a - P sic a n ál is e n a s Hi st ór i a s I nf a nt i s
denuncia o fog o da paixão a que se

qu e rodeiam as crianças, e as torna m detetives de seu s


adultos , o q u e mais instiga su a inteligência sã
o os mistérios referentes ao sexo . Afinal, a prática sexual
é a única qu e s e fecha atrás d e portas proibidas, s e escond
e entre as palavras, nã o se deixa ver. Por isso,
su p o m o s q u e , q u a n d o h á u m a q u e s t ã o d e
c o n h e c i m e n t o interditado, se trata do s mistérios do
sexo . Essas jovens mostraram a desobediência , a
infidelidade de q u e as mulhere s sempr e se
incumbiram. O q u e os príncipes fizeram c o m o um
deslize de criança - pedir muito algo qu e lhe foi
negado , espiar pelo burac o da fechadura -, as moças
executa m co m espírito de aventura.
A maior parte do s conto s de fadas retira sua trama
do desrespeit o a um a interdição, algué m faz alg o
q u e nã o devia ter feito, e o resto do t e m p o as
pe rs o na g e n s tenta m conserta r a situação . N o
ca s o d o pr ín ci p e curioso, ele conve nc e o tuto r a
desonra r su a palavra co m o pai dele . No cas o
de Pele-de-Asno, o heró i espia. Nossas heroínas ,
po r sua vez, precisara m d e muito mais coragem ,
pois, ao abrire m a porta, estava m lidand o co m um a
proibiçã o e n un ci a d a po r algué m muito assustador,
nã o tinha m dúvid a d e q u e sua vida estava em jogo
e, m es m o assim, quisera m sabe r o q u e havia lá
dentro .
A história d a h u m a n i d a d e construi u u m
long o currículo d e submissã o feminina. Durant e o s
século s em qu e amargo u a marginalidad e ao po d e r
e ás mais rudimentar e s formas d e liberdad e
social, a m u lh e r desenvolve u várias formas de
clandestinidade . Por isso, a fama de ardilosas,
fofoqueiras, bruxa s capa ze s de influenciar o sujeito
sem qu e ele se dê conta. As práticas sexuai s se m pr e
foram diferentes , e m q u a n t i d a d e e q u a l i d a d e , d
o q u e a hipocrisi a socia l admitia , a s relaçõe s
sempr e foram mais variadas e múltiplas do q u e
su a e x p r e s s ã o legal, m a s c o u b e à s m u l h e r e s
carregar a identidad e q u e se incumbi u dessa s verdade s
escondidas . O h o m e m traía, ma s era a mulhe r
q u e vivia sua vida c o m o prostituta o u c o m o
amante . O s h o m e n s p r o m o v e r a m n ã o p o u c a s
r e v o l u ç õ e s n a história d a hu manid ade , mas sã o elas
q ue , d e s d e Eva, levam a fama de desrespeita r até
o própri o Deus .
A resposta talvez esteja na diferença do conteúd o d
o quart o proibid o par a a m b o s o s sexos . O s
rapaze s passa m a padece r d e u m amo r q u e te m
d e lhe ser c o n ce di d o d e qualq ue r jeito, sofrem
d e u m desej o insatisfeito, e n q u a n t o a s moça s tê m
um a revelaçã o d e sofrimento, sã o confrontada s a o
fato d e u m sangu e q ue , um a vez derra mado ,
n ã o te m c o m o ser limpo , d e um a d an a ç ã o q u e a
s deix a chamus cadas . A marc a indelével sobr e a
chave , o ov o ou a flor é c o m o a fumaça, q u e
entregaram , u m sangu e q u e um a ve z derramad o
é irreversível. Esse sangue-transgressã o q u e deixa marcas é
um símbol o diret o e se m muito s rodeio s da perda d
a virgindade , outr o f e n ô m e n o irreversível.
Depois de ter usad o a chave da porta do
sexo, para uma mulher nã o há caminh o de volta. O detalhe é
qu e as jovens heroínas dessas três histórias abriram o
quarto proibido, ficaram sabend o do qu e as esperava,
m a s e s c a p a r a m a n t e s d o sacrifício , d o corte ,
d a queimadura . A esposa de Barba Azul é salva antes
que seu sangue se unisse ao das outras, assim com o as caçulas
das outras dua s histórias se livram do castigo e salvam as irmãs
mais velhas, qu e voltam para casa intactas. O quarto proibido é
uma revelação, uma ameaça, co m a qual as jovens têm
qu e aprende r a lidar antes da maturidade sexual. No
futuro sucumbirão ao império do desejo, mas nã o co m aquel e
h o m e m autoritário q u e a s que r ingênuas, co m esse m es m o
q u e as compr a co m um bem-estar doméstico, isso nã
o é um marido, é um pai, e um pai monstruoso, qu e
nã o deixa crescer.
A literatura, assim c o m o a memóri a da maior parte da s
famílias, está cheia de referências de histórias de
mul here s marcada s pela su a ousadi a sexual . Todos
c o n h e c e mo s mulhere s q u e tiveram q u e paga r com o
fardo de materniclades solitárias e socialment e conde•
nadas , co m banimentos , exílios, perda s d a condição
e c o n ô m i c a e o u t r o s castigos , pel a o u s a d i a de
se entrega r ao s prazere s da carn e fora de um a
situação aceitável. Para o h o m e m , o amo r ou um desejo
sexual impositiv o n ã o necessariamen t e o retira do
registro infantil, e m q u e seu s pedido s terã o d e ser
atendidos. Já as mulhere s p a g a m o preç o de su a
condiçã o de opressã o social, assim c o m o a iniciação
sexual lhes cobr a um ô n u s físico. Ela implica
r o m p i m e n t o do hímen , sangramento , possibilidad e de
engravidar. Nào há jeito de levar consig o muita s
ilusõe s infantis, a iniciação sexual é um golp e às veze s
efetivo, po r outras traumático , n a imaturidade .
P r o v a v e l m e n t e p o r isso, a s m u l h e r e s sempre
tenha m representa d o essa coragem , essa irreverência,
te nh a m sid o tã o controlada s socialmente , acusada s de tanta
infidelidade. A radicalidad e de sua experiência sexua l
n ã o lhe s d e u muita o p ç ã o . A força feminina, q u e
sem pr e se revelou no s reveze s familiares, nas mães coragem
da vida, n ã o é um a o p ç ã o , é um a sina.
As joven s curiosa s q u e abrira m o quart o proibido nà o
estava m profan and o a regra dad a po r u m marido, ma s
sim p o r um pai . É a casa patern a q u e se mostra tod
a generosa , d e s d e q u e ela n ã o s e c h a m u s q u e cora u
m desej o q u e a levará em b ora , n à o derram e a s gotas de
sa n g u e q u e a ligarão a outr o h o m e m . Um a filha
D i a n a Li c h t e n s t e i n C o r s o e Mári o Co r s o
m e ca ni s m o q u e move o corp o do filho, essa
image m simplesmen t e não se mont a ou , q u a n d o se
constitui, o faz cheia de
terá todo o bem-esta r do m u n d o , desd e q u e abra mã o
do sexo. É c o m o um cint o de castidad e po st o
pel o pai, cuja chave nã o dev e ser usada ; um corp o
feminino, cujo ovo nã o dev e ser fecundado .
Ao final da história, a jovem tem um dot e
finan• ceiro com o qual p o d e partir. Mas nã o lhe foi
entregue , como eram nos casamento s arranjados qu e
favorecem o pai e privilegiam a passividade feminina.
Só co m a morte do carcereiro, q u e as aprisionava
na inocência infantil, essas jovens, q u e nã o tinha m
autorização para tornarem-se mulheres , conquistara
m se u d o te . q u e simboliza aquilo q u e é
necessário levar consig o para partir. Esse dot e n ã
o é um atestad o de impotênci a feminina, é com
o a heranç a q u e J o ã o arrebato u do ogro -
Capítulo VIII dest e livro. Parte daquil o q u e
levamos conosco , ao partir da casa paterna ,
no s é ofertada, poré m o q u e diz respeit o à
separação , à libertação de um filho terá de ser
arrancad o à força, por mais permissiva q u e a família
seja. A razão é muito simples, partir de casa é uma
separaçã o amorosa , que , como nos ensina a história do s
Grimm, deixa um cadáver na janela e implica algum tipo
de mort e para os pais.

Separações e esquartejamentos
esquartejamen t o d o s corpo s n ã o no s
sur• p r e e n d e . A i m a g e m q u e t e m o s
d e n ó s mesmos , d e n o m i n a d a image m
corporal , é construída, n ã o nasce mo s co
m ela. \ a sua
ausência, surge seu contrapont o , o corp o
esfacelado, despedaçado . Nã o n o s bast a te r
corpo , cabeç a e membros, e eles sere m
fisiologicamente funcionais, é preciso q u e exist a
u m a r e p r e s e n t a ç ã o m en ta l d o conjunto para q u
e saibamo s usá-los. A u ni da d e de uma imagem
corpora l é tecida à força de amor, po r isso
quand o este falta, resta um a sensaçã o de corp o
despedaçado . T e n t a r e m o s a q u i e x pli c a r c o m o
s e conectam os tema s da image m corpora l e do
amor.
N o c a m in h o qu e te m d e se r
ne c es sa ria m e n t e trilhado para a construçã o dess a
image m corporal , há vários percalços possíveis. Entre
eles, sã o significativas tanto a s patologia s
decorrente s d e falta d e u m investimento
amor os o n a orige m d e alguém , po r um a falta de
conexã o entr e o b e b ê e a mãe , q u an t o o efeito
devastador decorrent e d a u m a b a n d o n o posterior.
N o primeiro c a s o , q u a n d o falta u m amo r
m a t e r n o consistente, a q u e l e q u e seria capa z d e
costura r a s partes, colar a superfície e anima r o
o crescimento deixará um

deficiência s o u d ef or m a ç õe s . J á n o s e g u n d 157
o caso , q u a n d o h á um a pe r d a amoros a
importante , po r morte , a b a n d o n o o u traição,
so br e v é m a depressã o , assim c o m o a s
fantasias o u o s atos suicidas.
Uma criança só fica na vertical, só se
equilibra sobr e doi s pé s tã o p e q u e n o s , graças
a algué m q u e a olh a no s olho s e lhe transmit e
segurança . Um b e b ê só terá forças para sustenta r
o p e s o de sua cabeça , par a ficar sentad o se m