Você está na página 1de 13

1

10º CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA DE


ENGENHARIA E AMBIENTAL
25 a 28 de agosto de 2002 – Ouro Preto, MG

CÓDIGO: 062GU
IDENTIFICAÇÃO DO ARTIGO TÉCNICO
Título do Artigo Técnico A importância da geologia nos problemas geotécnicos na região
de Santa Maria, Rio Grande do Sul
Tema do Artigo Técnico Geologia Urbana

IDENTIFICAÇÃO DOS AUTORES


Nome Rinaldo José Barbosa Pinheiro
Cargo Professor Adjunto Formação Eng. Civil
Autor Empresa UFSM E-mail rinaldo@ct.ufsm.br
Responsá- Endereço Travessa Cassel, 290/304
vel CEP 97050-110 Cidade Santa Maria UF RS
Telefone (55) 225.1905 Fax (55) 220.8608 Celular (51) 99667361
Co-autores Nome Formação Cargo Empresa
01 José Mario Doleys Soares Eng. Civil Prof. Adjunto UFSM
02 Ildomar S.Tavares Eng. Civil Mestrando UFSM
03 Ricardo T. Rachelli Acadêmico PIBIC/CNPq UFSM
04 Éliton de Lima da Luz Acadêmico Fapergs UFSM

RESUMO

Este artigo enfatiza a importância da geologia da região de Santa Maria e nos aspectos
relacionados aos problemas geotécnicos originados pelo desconhecimento das autoridades e
empresas nas conseqüências do mau uso dos recursos naturais. Os problemas geotécnicos em
áreas urbanas estão relacionados principalmente com a erosão, os cursos d’água, a
contaminação do lençol freático por resíduos sólidos e esgotos, a ocorrência de solos
expansivos, a extração de solo e os movimentos de massa em encostas naturais com processos
acelerados de ocupação. A cidade de Santa Maria, situada na região central do Estado do Rio
Grande do Sul, apresenta vários dos problemas geotécnicos mencionados, muitos deles
relacionados com a geologia da região devido a um nível de conhecimento inadequado da área.

ABSTRACT

This article emphasizes the importance of the geology of Santa Maria's area in the aspects
related to the problems geotechnical originated by the ignorance of the authorities and
companies in the consequences of the bad use of the natural resources. The problems
geotechnical in urban areas are mainly related with the erosion, the courses of water, the
contamination of the sheet water for solid residues and sewers, the occurrence of expansible
soils, the soil extraction and the mass movements in natural hillsides with accelerated processes
of occupation. Santa Maria's city, located in the central area of the State of Rio Grande do Sul,
it presents several of the problems mentioned geotechnical, many of them related with the
geology of the area due to a level of inadequate knowledge of the area. .
2

A IMPORTÂNCIA DA GEOLOGIA NOS PROBLEMAS GEOTÉCNICOS


NA REGIÃO DE SANTA MARIA, RIO GRANDE DO SUL

INTRODUÇÃO
Ao longo da história da humanidade, a relação Homem versus Natureza se configurou através da
exploração dos recursos naturais de forma indiscriminada e predatória. Este modelo de
desenvolvimento econômico que tem por base a exploração intensiva desses recursos naturais,
com a finalidade principal de alimentar a produção e o consumo, que devido ao intenso
progresso, tornou o Homem vítima de seu próprio modelo. Portanto, o uso e ocupação do solo
em centros urbanos tornaram-se um problema sério e com implicações sócio-econômicas para as
populações que ali residem. Esses problemas em áreas urbanas estão relacionados
principalmente com os processos erosivos, o assoreamento de cursos d’água, a contaminação do
lençol freático pela disposição inadequada de resíduos sólidos e esgotos, a ocorrência de solos
expansivos, a extração de solo e os movimentos de massa em encostas naturais com processos
acelerados de ocupação.A cidade de Santa Maria, situada na região central do estado do Rio
Grande do Sul, apresenta vários dos problemas geotécnicos mencionados, muitos deles
relacionados com a geologia da região.

ÁREA DE ESTUDO
A cidade de Santa Maria situa-se no centro geográfico do Estado do Rio Grande do Sul,
desenvolvida entre as encostas da Serra Geral e a Depressão Central Gaúcha (Depressão
Periférica). A área do município abrange uma área de 1800 km2, com uma população de 245000
habitantes.

A região apresenta um clima subtropical com temperatura média durante o ano de


aproximadamente 22ºC, oscilando entre um valor mínimo de 0ºC no inverno e um valor máximo
de 40ºC no verão. A região apresenta grandes variações de umidade, geadas, ventos e quedas de
pressão que caracterizam um clima tipicamente de transição.

Geomorfologia e Geologia
Geomorfologicamente Santa Maria situa-se junto ao rebordo do Planalto Meridional Brasileiro,
denominado como Serra Geral. O relevo da região apresenta três feições bem distintas. A
primeira é das planícies aluviais, modeladas em sedimentos quaternários, com uma topografia
plana e sujeitas a inundações (Cadena, Vacacaí-Mirim e Ferreira). A segunda corresponde à área
das coxilhas, modeladas em rochas sedimentares triássicas, constituída por colinas alongadas,
com uma topografia suavemente ondulada. As principais coxilhas são de Pau Fincado, Bonita,
Santa Catarina e Pinheiros. As planícies aluviais e as coxilhas fazem parte da Depressão Central
Gaúcha com declives suaves, com amplitudes que variam entre 70 e 160m e representam área de
degradação.

A transição da Depressão para o Planalto se dá através da unidade geomorfológica Serra Geral –


Área Serrana. Nessa unidade são comuns os declives superiores a 15%. Considera-se parte desta
unidade os morros testemunhos isolados na Depressão. As altitudes das encostas variam de 120 a
470m. O substrato rochoso é composto pelas Formações Caturrita, Botucatu e Serra Geral. Esta
unidade caracteriza a terceira feição do relevo da região, o qual é modelado em rochas
3

vulcânicas, com elevações de topo aplaianado e com patamares, nas encostas. Na área Serrana, a
escarpa é festonada e constitui um prolongamento da Serra Geral, conhecida com denominações
locais de serras de São Martinho e do Pinhal.

Um trabalho pioneiro que serve de ponto de partida para o estudo da geologia da região, foi
realizado por Maciel Filho em 1977, com a caracterização geotécnica das formações
sedimentares de Santa Maria. Este trabalho culminou com a publicação da Carta Geotécnica de
Santa Maria em 1990 (Maciel Filho, 1990). A coluna estratigráfica adotada neste trabalho é a
proposta por Bortoluzzi (1974) e modificada por Maciel Filho (1990). As unidades
estratigráficas que interessam à geologia local são as Formações Rosário do Sul, Santa Maria,
Caturrita, Botucatu e Serra Geral. A Figura 1 apresenta o mapa geológico da região de Santa
Maria com as principais unidades geológicas (Costanzo Jr. et al., 1978).

Formação Rosário do Sul


Esta formação localiza-se ao sul da região de Santa Maria, com pouca expressão na área de
estudo. A litologia predominante é constituída por arenitos finos a médios com proporções
variáveis de argila e silte. São essencialmente quartzosos, com algum feldspato e mica.
Freqüentemente estes arenitos apresentam intercalações de siltitos arenosos e siltitos argilosos.
Os arenitos, em geral, são ferruginosos ou levemente calcíferos com matriz argilosa,
predominantemente avermelhados, amarelados ou esbranquiçados (Sartori et al., 1978; Pinheiro,
1991).

Formação Santa Maria (Arenito Basal)


Maciel Filho (1990) sugere considerar-se o arenito Passo das Tropas (camada basal)
separadamente da Formação Santa Maria. A litologia predominante é formada por arenitos
grosseiros a conglomeráticos avermelhados ou amarelados, friáveis e feldspáticos. Estas
camadas apresentam seixos e grânulos de quartzo arredondados e clastos de argila e siltito, em
tons avermelhados. Estes arenitos transicionam no topo para a Formação Santa Maria.

As áreas de ocorrência da formação apresentam relevo suave, levemente ondulado, com colinas
arredondadas, sem grandes desníveis topográficos, possuem de drenagem dentrítica.
Geomorfologicamente situa-se na região da Depressão Central Gaúcha (Depressão do Rio Jacuí),
com extensas planícies de inundação que ocasionalmente alagam-se nos períodos de chuvas
intensas.

Formação Santa Maria


Esta formação é constituída por siltitos argilosos maciços, vermelhos, com folhelhos na base
(Membro Alemoa). Apresentam mica e concreções calcíferas irregulares. Sua argila mais comum
é montmorilonita. Segundo Maciel Filho (1978) esta formação passa discordantemente para
Formação Caturrita, verificando-se um paleosolo que delineia perfeitamente a superfície de
discordância acompanhando suas ondulações.

A Formação Santa Maria freqüentemente apresenta-se nas encostas dos morros cujos topos são
mantidos pela formação sobrejacente (Caturrita ou Serra Geral). No caso dos morros serem
mantidos pelas camadas siltosas da Formação Santa Maria, estes são de pequena altura e com
vertentes muito suaves. Possui alta densidade de drenagem em decorrência dos valores muitos
baixos de condutibilidade hidráulica.
4

O relevo da região onde ocorre os siltitos da Formação Santa Maria são suaves a ondulados
característicos da Depressão Central Gaúcha. Nesta área são comuns os morros testemunhos
(Serra Geral) cuja camada basal são formados por estes materiais.

Formação Caturrita
A Formação é constituído por intercalações de arenitos e lutitos (Andreis e Montardo, 1980). Os
arenitos são quartzosos, com pouco feldspato e mica. Texturalmente podem variar de
conglomerático a muito fino, possuem cores avermelhadas, amareladas e esbranquiçadas. Os
siltitos e folhelhos ocorrem sob a forma de lentes ou camadas mais espessas com importância
local. Os siltitos são argilosos, micáceos, de cor avermelhada e com argilas do grupo das
montmorilonitas e ilitas.

Esta formação passa, no topo, concordantemente para os arenitos eólicos da Formação Botucatu.
A Formação Caturrita é a que capea as plataformas convexas, com vertentes suaves, porém mais
abruptas que as Formações Santa Maria e Passo das Tropas, constituindo-se no primeiro degrau
para a subida do Planalto.

A drenagem é dentrítica com baixa densidade. Os arenitos são altamente permeáveis e devido as
intercalações de siltitos argilosos pouco permeáveis formam-se lençóis de água suspenso

Formação Botucatu
A Formação Botucatu é constituída por arenitos finos a médios, com grãos subangulares e
arredondados de superfície fosca, essencialmente quartzosos, sendo comum à presença de
feldspatos. A impregnação por óxidos de ferro é responsável pela cor, predominantemente
avermelhada ou amarelada, e por parte da cimentação. Estes arenitos eólicos (fácies eólica da
Formação Botucatu strictu sensu – Bortoluzzi, 1974) apresentam uma estratificação cruzada de
alto ângulo. Esta formação inclui tanto o arenito eólico pré-basal quanto o intertrapeano com
espessura expressiva.

O contato entre o arenito e a Formação Serra Geral é discordante. Processos erosivos de grande
intensidade anteriores aos derrames vulcânicos provocaram a possibilidade de contato direto
entre os derrames vulcânicos (lavas basálticas) e rochas mais antigas (Formação Caturrita e
Santa Maria).

Os arenitos constituem um excelente aqüífero. A drenagem mostra um padrão dentrítico a


subparalelo, com baixa densidade. Estas rochas são responsáveis por forte expressão topográfica,
pois constituem parte da escarpa do planalto (Serra Geral – Área Serrana).

Formação Serra Geral


A Formação Serra Geral apresenta duas seqüências de rochas vulcânicas, uma básica e outra
ácida. Os derrames básicos são formados por basaltos com intercalações de arenitos eólicos
(arenitos intertrapes) e os derrames ácidos por vitrófiros e granófiros. Foram identificados 5
derrames básicos e 4 ácidos (Maciel Filho, 1978 e 1990). A base dos derrames situa-se na cota
200 e o topo na cota 470 (Sartori et al., 1975).

Os derrames inferiores são de granulação fina a média, compactos, pouco alterados, na sua parte
central (basalto a andesitos). Nas regiões do topo e base são geralmente castanhos, amigdaloidais
e vesiculares e alterados.
5

A seqüência ácida da Formação Serra Geral é constituído por 3 derrames de vitrófiros de


pequena espessura, vítreos, de cor preta ou marrom. Cobrindo estes derrames, encontra-se 1
derrame superior muito espesso de riodacito (granófiro), de cor cinza claro, textura fina,
composto de quartzo e feldspato alcalino.

Segundo Maciel Filho (1978), os capeamentos de rocha mais resistentes ao intemperismo e


erosão sustentam as regiões mais altas. Os diferentes materiais presentes nesta formação podem
sem classificados na seguinte ordem: basaltos, granófiros sãos e arenitos intertrapianos muito
silicificados, como muito resistentes; basaltos alterados, vitrófiros, arenitos intertrapianos pouco
a medianamente silicificados como resistentes.

Geomorfologicamente as áreas onde afloram as Formações Serra Geral e Botucatu são o Planalto
das Araucárias – Planalto dos Campos Gerais), constituído pelo último derrame, de composição
mais ácida; serra ou rebordo do planalto (Serra Geral – Área Serrana), de topografia mais
acidentada, constituído de basalto, vitrófiros, arenitos intertapes e Botucatu.

Colúvios
São depósitos formados pela ação da gravidade que ocorrem na região logo abaixo das escarpas
naturais do arenito silicificado intertrapes e das camadas superiores de arenito Botucatu, próximo
ao contato com as rochas vulcânicas básicas (basaltos). Estes materiais são formados por blocos
de basaltos e de arenito dos mais variados tamanhos envolvidos por uma matriz fina.

Depósitos aluvionares
Os depósitos aluvionares na região de Santa Maria são devido aos rios Arenal e Vacacaí que
fornecem grandes quantidades de areia. Os principais depósitos fluviais recentes são os do
Cadena e do Vacacaí-Mirim. Os depósitos fluviais associados ao Cadena são geralmente
arenosos e areno-argilosos, com espessuras de 3 a 5m. Os depósitos do Vacacaí-Mirim são
compostos por areia fina a grossa com cascalho. A espessura destes materiais esta em torno dos
7m. Os aluviões do Cadena recobrem as Formações Caturrita, Santa Maria e Rosário do Sul; os
do Vacacaí-Mirim apenas as duas primeiras formações.

PROBLEMAS GEOTÉCNICOS

Erosão e assoreamento
Os processos de erosão rápida, devida a águas pluviais, origina as voçorocas principalmente nas
formações de menor resistência. Na região de Santa Maria, a Formação Caturrita e a Formação
Santa Maria (incluindo o arenito basal) são as mais afetadas por estes processos erosivos.
Geralmente, os processos erosivos estão associados a um nível de base de algum arroio,
formando uma feição de relevo bem característica da região. O arenito basal (Passo das Tropas)
e os siltitos argilosos da Formação Santa Maria apresentam pouca resistência à erosão, formando
ravinas nas beiras das estradas, principalmente quando desprovido de vegetação e dos horizontes
superficiais. As cicatrizes de ravinamento são mais intensas nos siltitos dessa formação.

Os materiais originados da Formação Caturrita apresentam uma resistência baixa à erosão. A


resistência dos horizontes saprolíticos é menor ainda, onde a erosão progride rapidamente nessas
camadas. Em alguns locais, ocorre até o afloramento do arenito ou siltito, devido a erosão
provodada pelas estradas e rodovias abertas. Este fenômeno também ocorre em outros locais
sobre o arenito Botucatu e o arenito basal da Formação Santa Maria.
6

Os arenitos da Formação Botucatu apresentam-se resistentes à erosão, principalmente quando


litificados. Contudo quando a cimentação é fraca, ou em camadas alteradas, o solo residual
formado apresenta baixa resistência.

Segundo Maciel Filho (1978) o processo de formação de voçorocas tem início com a formação
de sulcos e pequenos saltos e se desenvolve pelo aprofundamento destes e desmoronamento das
paredes. A evolução deste sistema, devido à erosão regressiva, ao alargamento da base, ao
abrandamento dos taludes na fase de extinção e à cobertura vegetal, resulta em um tipo de
drenagem com vales planos.

Verificou-se que geralmente as voçorocas têm origem em um processo de modificação ou


remoção do solo superficial e vegetação, o que acontece freqüentemente por ocasião de abertura
de ruas e estradas e implantação de loteamentos e obras de engenharia de grande porte.

Problemas de assoreamento ocorrem principalmente ao longo dos arroios Cadena e Vacacaí-


Mirim. Os depósitos fluviais associados ao Cadena são geralmente arenosos e areno-argilosos,
com espessuras de 3 a 5m. Os depósitos do Vacacaí-Mirim são compostos por areia fina a grossa
com cascalho. A espessura destes materiais esta em torno dos 7m. A Foto 1 apresenta a várzea
do arroio Vacacaí-Mirim. A Foto 2 mostra o ravinamento característico sobre os siltitos
vermelhos da Formação Santa Maria.

Contaminação do lençol freático


Estudos recentes relacionados ao meio ambiente foram apresentados pela Sociedade de
Engenharia e Arquitetura de Santa Maria (SEASM) em um Seminário sobre Abastecimento de
Água e Esgoto Sanitário em Santa Maria no ano de 2000. Neste seminário foram abordados
temas relacionados a proteção de mananciais, sistemas alternativos de abastecimento de água,
qualidade da água fornecida e consumida, sistema de coleta, tratamento e disposição de esgoto,
sistemas alternativos para coleta e tratamento do esgoto sanitário e inter-relação entre a
drenagem urbana e esgotos sanitários. Estes estudos verificaram problemas de contaminação do
lençol freático em várias áreas do município. O monitoramento de poços artesiano indicou a
contaminação devida principalmente ao esgoto sem tratamento (apenas 30% do esgoto são
tratados).

Na cidade de Santa Maria em um levantamento realizado (Maciel Filho, 1988) foram


identificados vários depósitos de lixo em uma área relativamente grande. Esses depósitos situam-
se na Vila Oliveira (1 ha), Vila Lídia (4 ha), Vila Cerrito (4 ha), Vila Renascença (3 ha) e
Fazenda Santa Marta (10 ha). Os depósitos de lixo das Vilas Renascença, Lídia e Oliveira
localizam-se sobre o antigo leito do Cadena, onde foram aterrados e apresenta-se em processo de
consolidação. Atualmente o lixo da cidade está sendo colocado na Fazenda Santa Marta. Este
depósito situa-se sobre uma camada de arenito basal da Formação Santa Maria, que estão em
contato com aluviões da várzea do Cadena. Este depósito que durante anos não teve um
acompanhamento técnico sobre a disposição desses materiais, sendo reconhecido o local com
lixão da Caturrita (Foto 3). Recentemente teve início um controle tecnológico do local com o
intuito de transformar em um aterro sanitário.

Solos expansivos
Grande parte da área urbana de Santa Maria está sobre a Formação Caturrita e Formação Santa
Maria (Membro Alemoa). O bairro Camobi está quase todo sobre os sedimentos cenozóicos e
algumas partes baixa da cidade sobre aluviões recentes. O Membro Alemoa (siltitos vermelhos)
e camadas da primeira formação (principalmente os siltitos e folhelhos) possuem argilas do
7

grupo das montomorilonitas, cuja tensão de expansão medidas em ensaios de laboratório podem
ser superiores a 300 kPa. Maciel Filho e Osório (1978) em um levantamento de campo
verificaram o arqueamento de estruturas, afastamento de paredes, fraturas verticais, diagonais e
horizontais em casas construídas sobre os materiais dessas formações. Destaca-se que em
moradias situadas sobre sedimentos cenozóicos, e mesmo sobre a Formação Caturrita, mas tendo
o siltito argiloso da Formação Santa Maria logo abaixo podem ter sido influenciados por este o
que provocaria um aumento de umidade permanente abaixo destas moradias (inchamento do
solo). Evidencia-se assim a importância de localização dessas unidades estratigráficas nas áreas
urbanas, que servirá para alertar sobre problemas que possam ocorrer e as soluções a tomar.

Extração de solo
A extração de solo na região tem como objetivo o uso em estradas e ruas e para o uso olarias. As
jazidas de extração de solos que são utilizados para a construção de estradas e ruas são de
pequena expressão na área e facilmente recuperadas, se o trabalho de lavra for bem executado.

Os melhores materiais encontrados na região são os solos residuais do arenito basal da Formação
Santa Maria ou de depósitos de terraços.

As áreas de extração de argila para olarias situam-se quase todas em aluvião ou baixadas. Na
região de Santa Maria atualmente existem 19 industrias no setor de produção de cerâmica
vermelha. È característico dessas indústrias a exploração intensiva de jazidas de solos com uma
degradação do meio-ambiente. Foram identificadas 29 áreas de extração de solo para uso pelas
olarias. Segundo Tavares (2002) desde total de áreas de extração, 21 são jazidas de várzea e 8
são jazidas de morro. A Fotos 4 apresentam um dos locais típicos de extração de solo em jazidas
de várzea na região.

A argila para cerâmica é extraída em aluviões do rio Cadena, em depósitos colúvio-aluvionares


de pequenos arroios sobre a Formação Santa Maria e da própria Formação Santa Maria.

O processo de extração das argilas é realizado, pelas olarias, de duas maneiras: manualmente
(em 5% dos casos), ou mecanicamente (em 95% dos casos). O processo de escavação rebaixa o
terreno, implicando normalmente na acumulação de água. Portanto, os processos de recuperação
deverão levar em conta está realidade.

Movimentos de Massa
A zona da encosta do Planalto, denominada Serra Geral, é caracterizada pelos declives mais
acentuados da região, onde são freqüentes os rastejos e escorregamentos em colúvios e tálus. O
substrato rochoso é constituído pela Formação Botucatu, a parte superior da Formação Caturrita
e a Formação Serra Geral.

Em Santa Maria, verificam-se evidências de escorregamentos ocorridos na rodovia BR-158


Santa Maria – Júlio de Castilhos, desde o ano de 1975. Esta rodovia de sentido norte-sul
atravessa a Depressão Central Gaúcha (Depressão Rio Jacuí), englobando as rochas das
Formações Rosário do Sul, Santa Maria e Caturrita, Serra Geral – Área Serrana, constituída por
arenitos da Formação Botucatu, Formação Serra Geral (basaltos, diabásios e arenitos intertrapes)
e na parte superior o Planalto dos Campos Gerais, formada por rochas vulcânicas ácidas.

Neste trecho da rodovia há casos notáveis de rastejos em taludes rochosos de basalto, quedas de
blocos, escorregamentos do tipo deslizamento no contato do aterro rodoviário, formando a
8

superfície de ruptura provavelmente ao longo do contato aterro-solo residual subjacente ou


aterro-rocha sedimentar (Maciel Filho, 1978).

Em 1998, após chuvas intensas ocorreu um grande deslizamento que interrompeu por vários dias
a rodovia BR-158. Este trecho pertence à unidade geomorfológica Serra Geral constituída de
basaltos e na base rochas sedimentares da Formação Caturrita e Santa Maria. Foram realizadas
sondagens rotativas e levantamentos geofísicos (GPR) com o objetivo de delimitar a possível
superfície de ruptura. O local aparentemente era um antigo vale que foi preenchido pelos
sedimentos originados das Formações Santa Maria e Caturrita e posteriormente recoberto por
derrames basálticos. A superfície de ruptura situa-se no arenito da Formação Caturrita, que neste
local apresenta-se fracamente cimentado, a uma profundidade de 15m. A Formação Santa Maria
abaixo da Formação Caturrita apresenta-se impermeável, gerando um confinamento que devido
às chuvas intensas e problemas de drenagem ocasionou a ruptura da camada de arenito Caturrita.
A Foto 5 apresenta os danos ocasionados neste trecho da BR-158 após as chuvas intensas
(Pinheiro, 2000).

Na encosta da Área Serrana, após o viaduto sobre o arroio Vacacaí-Mirim na BR-158, situa-se a
Vila Bilibiu. Grande parte da vila encontra-se sobre depósitos de tálus constituído por blocos de
basalto e arenito Botucatu. A matriz em sua maior parte é formada por sedimentos areno-
argilosos derivados da Formação Caturrita, com cores avermelhadas e róseas, e também
derivados de solo residual de basalto. Recentemente foram executadas sondagens, instalação de
piezômetros, medidores de nível da água e marcos superficiais para monitoramento desta encosta
(Soares et al., 2001 e 2002). A Foto 6 apresenta uma vista geral da encosta ocupada ainda com
cobertura vegetal.

Na encosta da Vila Bilibiu a drenagem sofreu alterações. As águas pluviais e das vertentes
teriam uma tendência natural de descer, de maneira relativamente uniforme, ao longo da encosta,
entretanto a ocupação modifica seu fluxo natural e concentra em caminhos preferenciais. Estas
drenagens recebem hoje a contribuição de águas servidas, e muitas vezes do esgoto cloacal. Em
resumo, as situações de risco geradas pela deficiente drenagem da encosta são: (a) processos
erosivos pela concentração dos fluxos d’água, expondo blocos e pedras sujeitas a movimentos
em enxurradas, (b) poder de contaminação das águas das drenagens e (c) encharcamento dos
terrenos pela presença de surgências d’água nos contatos entre o aterro, colúvio e solo residual.

São freqüentes os depósitos de aterros constituídos por solos e fragmentos de rocha, algumas
vezes também contendo entulho (madeiras e restos de alvenaria) e lixo. Alguns dos aterros
situam-se em áreas de grande declividade. Apesar de certa compacidade são sujeitos a
instabilidade quando cortados, podendo colocar grandes blocos em situação de risco. São
também sujeitos a movimentos de rastejo em zonas de alta declividade, levando a deformações
inaceitáveis das moradias. Estes aterros quando submetidos a erosão expõem blocos e pedras que
podem ser mobilizados em enxurradas.

Algumas das casas de madeira observadas apresentam problemas estruturais que comprometem
sua segurança. São comuns elementos de fundação em madeira excessivamente delgados e com
emendas. Por outro lado, casas são edificadas em locais totalmente inadequados sob o ponto de
vista de segurança a desabamentos, muitas vezes por força da ocupação que começa a restringir
os locais mais favoráveis. Foram observadas moradias a beira de taludes, em meio a drenagens e
em áreas de inundação. A investigação de campo dos materiais geotécnicos naturais mostrou
indícios de movimentos do solo coluvionar. Algumas poucas evidências localizadas de
deslizamentos foram constatadas, as chamadas cicatrizes de escorregamento, como resultado de
processos de instabilização. Foram constatados sinais de rastejo, isto é, movimentos lentos do
material da encosta por ação gravitacional em áreas de alta declividade.
9

CONCLUSÕES
A região de Santa Maria devido a sua peculiaridade geológica apresenta vários problemas
geotécnicos relacionados com o uso e ocupação do solo. A ocupação das áreas deve ser
precedida por estudos e indicativos de algum problema geotécnico especial ou da inexistência
deles.

Os problemas podem estar relacionados com o excesso de declividade (zonas de encosta da Serra
Geral), ocorrência de áreas degradas por algum tipo de exploração (extração de solo) ou depósito
de lixo (várzea do Cadena) e ocorrência de solos que merecem cuidados especiais (expansivos,
problemas de contaminação).

REFERÊNCIAS
ANDREIS, R. R., MONTARDO, D.K. (1980). Paleosolos na Formação Caturrita (triássico
superior, Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. XXXI CONGRESSO BRASILEIRO DE
GEOLOGIA, Camboriú. Anais... Santa Catarina, v.2, p. 674-682.
BORTOLUZZI, C. A. (1974). Contribuição à geologia da região de Santa Maria, Rio Grande do
Sul, Brasil. Pesquisas, Instituto de Geociências, UFRGS, Porto Alegre, n 4, p. 7 – 86.
COSTANZO JR, J., VIRGILLI, J.C., MACIEL FILHO, C. L. (1978). Contribuição à cartografia
geotécnica da região de Santa Maria, RS. 2a. CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA DE
ENGENHARIA, São Paulo. Anais... ABGE, São Paulo, v.1, p. 267 – 280.
MACIEL FILHO, C. L. (1977). Caracterização geotécnica das formações sedimentares de
Santa Maria, RS. Dissertação de Mestrado, UFRJ, Instituto de Geociências, Rio de Janeiro,
123p.
MACIEL FILHO, C. L. (1978). Mapeamento geotécnico e planejamento da ocupação urbana de
Santa Maria, RS. 2a. CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA, São
Paulo. Anais... ABGE, São Paulo, v.1, p. 257 – 265.

MACIEL FILHO, C. L. (1981). Uma proposta para evitar a poluição por lixo e esgoto
doméstico. Ciência e Natura, Santa Maria, v. 10, p. 49 – 58.

MACIEL FILHO, C. L. (1990). Carta geotécnica de Santa Maria. Imprensa Universitária,


FINEP/UFSM, Santa Maria.

MACIEL FILHO, C. L., OSÓRIO, L. C. E. (1978). As argilas expansivas e o fraturamento de


paredes em Santa Maria (RS). 2a. CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA DE
ENGENHARIA, São Paulo. Anais... ABGE, São Paulo, v.1, p. 205 – 219.

PINHEIRO, R. J. B. (1991). Estudo do comportamento geomecânico de perfis oriundos de


rochas sedimentares da Formação Rosário do Sul. Dissertação de Mestrado, UFRGS, Escola
de Engenharia, Porto Alegre, 149p.

PINHEIRO, R. J. B. (2000). Estudos de alguns casos de instabilidade na encosta da Serra


Geral no Estado do Rio Grande do Sul. Tese de Doutorado, UFRGS, Escola de Engenharia,
Porto Alegre, 240p.

SEASM (2001). Seminário sobre abastecimento de água e esgoto em Santa Maria. Sociedade de
Engenharia e Arquitetura, Santa Maria.
10

SARTORI, P. L., MACIEL FILHO, C. L., MENEGOTTO, E. (1975). Contribuição ao estudo


das rochas vulcânicas da bacia do Paraná da região de Santa Maria, RS. Revista Brasileira de
Geociências, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 141 – 149.

SOARES, J.M.D., PINHEIRO, R.J.B., BICA, A.V.D., BRESSANI, L.A. (2002). Investigação de
uma encosta urbana instável em Santa Maria. 8º CONGRESSO NACIONAL DE GEOTECNIA.
Anais... SPG, Lisboa, Portugal, abril 2002. (aceito para publicação).

SOARES, J. M. D., PINHEIRO, R.J.B., MACIEL FILHO, C. L., ROBAINA, L., BRESSANI, L.
A., BICA, A.V. D. (2001). Estudo da estabilidade de encosta em área urbana no município de
Santa Maria (RS) – Brasil. III CONFERÊNCIA BRASILEIRA DE ESTABILIDADE DE
ENCOSTAS, Anais.... ABMS, Rio de Janeiro, 199-206.

TAVARES, I. S. (2002). Estudos das matérias primas utilizadas pelas indústrias cerâmicas
de Santa Maria/RS. Dissertação de Mestrado, UFSM, Programa de Pós-Graduação em
Engenharia Civil, Santa Maria.
11

FIGURA 1. Mapa geológico da região de Santa Maria – 1: 250.000 (Costanzo Jr et al., 1978).
12

FOTO 1. Várzea do Vacacaí-Mirim. FOTO 2. Ravinamentos nos siltitos da


Formação Santa Maria.

FOTO 3. Local de disposição do lixo – FOTO 4. Jazida de várzea.


Fazenda Santa Marta
13

FOTO 5. Ruptura da BR-158 após chuvas intensas no ano de 1998.

FOTO 6. Vista geral da encosta da Serra Geral onde situa-se a Vila Bilibiu.