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275.

O papel da ciência nas mutações sociais


O advento da ideologia científica moderna agravou a confusão na atmosfera cultural [274]. Esta
ideologia faz uma divisão entre o conhecimento determinado pela ciência e o restante
conhecimento, que passa a ser tido apenas como matéria de fé, ou seja, como algo que
decidimos aceitar ou não. Na realidade, trata-se de um giro, em que certas crenças – inoculadas
através do sistema educacional, da comunicação social, etc. – passaram a ser encaradas como
evidências imediatas, logo, não passíveis de discussão. Uma delas diz que vivemos num mundo
determinado pela ciência e pela tecnologia. Contudo, estas não alteraram quase nada do
universo e muito pouco do planeta Terra. A ciência não alterou órbitras de planetas, nem
modificou o passado ou a acção residual ou persistente de causas históricas desencadeadas
desde há milénios.
O poder da ciência parece enorme porque é um elemento que faz parte do ambiente verbal e
imaginário onde estamos emersos. É normal qualquer discussão sobre ciência e 318
tecnologia começar por fazer um reconhecimento do que devemos estas, que trouxeram os
computadores, os antibióticos, etc. Contudo, o produto científico-tecnológico que teve maior
impacto no século XX foi a bomba atómica e o consequente armamento nuclear das grandes
potências, que Paul Valéry resumiu dizendo que civilizações agora sabiam que eram mortais.
Ironicamente, num ambiente em que ninguém mais conseguia encarar a perspectiva da própria
morte [273], isto obrigou as pessoas a olharem para a morte da civilização ou mesmo para o fim
da espécie humana. A primeira descoberta científica que teve um impacto social considerável no
séc. XX foi a dos gases de mostarda, que foram usados na Primeira Guerra Mundial e que
possibilitavam uma capacidade mortífera muito maior do que até aí se conhecia. Esta guerra
teve um impacto tal que já não se poderia classificar da mesma forma que as outras guerras. A
aviação militar foi outro dos avanços científicos, que fez com que, pela primeira vez, a população
civil fosse envolvida de forma sistemática na guerra. Até ao século XIX existia o campo de
batalha, que estava separado das cidades, e mesmo na guerra civil americana, onde existiram
ataques às populações civis, as batalhas ainda foram travadas em locais pré-determinados fora
das cidades.
Mas existem outros efeitos da ciência fora do campo militar que também são geralmente
esquecidos. Dos estudos de Pavlov sobre o controlo da conduta humana originaram-se os
processos de lavagem cerebral e a manipulação social. Estes integraram-se na engenharia social
[266], que é um meio de impor quase tudo o que é adoptado a nível mundial. A organização
burocrática moderna, quase indestrutível, é também resultado do avanço da economia, das
ciências sociais, do direito, etc.
A ciência moderna é um elemento fundamentalmente destrutivo e que, por vezes, tem alguns
efeitos benéficos. Por exemplo, o computador foi, em primeiro lugar, uma tecnologia militar e só
bastante depois veio a beneficiar a população civil, e o mesmo aconteceu com muitas outras
coisas. Mas os cientistas esquecem de listar nas suas actividade quase tudo aquilo que
contribuiu para aumentar o morticínio e a opressão. Vários cientistas vão mais além e defendem
que a comunidade científica representa o máximo de confiabilidade, de honestidade, de
veracidade e de sinceridade, por isso, ela impõe-se como o novo padrão de moralidade que pode
condenar toda a civilização cristã. Mas são virtudes que, na melhor das hipóteses, pertencem à
comunidade e não aos indivíduos, e estes só participam destas virtudes enquanto membros da
comunidade, não importando o resto das suas condutas. Um pedófilo nunca será um santo da
Igreja mas pode chegar ao prémio Nobel.
A ideia de virtude colectiva constitui uma mutação civilizacional monstruosa. É a ideia de
participarmos da virtude enquanto membros de uma comunidade, mas essa participação é um
papel social, pelo que a virtude vai estar colocada neste e não na nossa pessoa concreta, ou seja,
é tudo um teatro. Mas como podemos falar da virtude da sinceridade nas ciências se a história
destas não é sincera? Os cientistas não confessam as suas contribuições negativas, o gás
mostarda, a aviação militar, a organização burocrática usada pelos governos tirânicos, a
manipulação de consciências, os métodos de desinformação, a lavagem cerebral, a engenharia
social, a bomba atómica. A isto ainda podemos adicionar a substituição do antigo capitalismo
industrial pelo capitalismo financeiro. Com esta alteração, a economia passou a estar dominada
por entidades vagas, indefinidas e incontroláveis. Ninguém sabe exactamente o que está
acontecendo e isso é um enorme incentivo à fraude, a que se juntam todas as fraudes derivadas
dos métodos de engenharia social. Esta é uma disciplina intrinsecamente desonesta e que visa
induzir as 319
pessoas a agir de uma maneira que não é necessariamente nem do interesse e nem da vontade
delas. É mais uma das contribuições da ciência.
Tal como a comunidade militante, a comunidade científica quanto mais se afunda no mal mais
necessidade tem de se auto-idealizar e de se ver como divina. É o conhecido processo psicótico
da compensação, em que, por exemplo, o indivíduo cometeu um crime mas diz que foi Deus que
mandou ele fazer aquilo. α90