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A QUESTÃO SOCIAL NO BRASIL

A influência do sistema escravista nos direitos e na cidadania

Por Bárbara Camargo


Departamento de Responsabilidade Social e Sustentabilidade*

I. INTRODUÇÃO
Para discorrer sobre o surgimento da questão social no Brasil é necessário se debruçar sobre o
fenômeno do capitalismo brasileiro, isto é, no próprio sistema colonial escravista, pois, daí
nascem os núcleos dos maiores problemas passado-presente do país, "notadamente a
propriedade fundiária e o regime de trabalho – no âmbito do qual o povo brasileiro surgiu e
cresceu, constrangido e deformado" (Ribeiro, 1992, p.26, grifo meu).
Em sua tese de doutorado dedicada às particularidades da "questão social" no Brasil Josiane
Soares Santos (2012) defende que, ao contrário do que uma naturalização dos fenômenos do
capitalismo predispõe, e que acaba por influenciar na interpretação distorcida do termo, como
fenômenos a partir de "mudanças na forma de solidariedade e coesão social", o primeiro passo
para se buscar a lucidez para o tema é relacioná-lo às particularidades do capitalismo. O que
requer a recuperação das conexões entre a colonização e os modos de produção articulados em
seu interior. "Tais conexões determinam não apenas as características essenciais à constituição
das classes sociais, mas também ao padrão produtivo daí herdado: o latifúndio de monocultura
extensiva, tendo em vista a exportação, que permaneceu inalterado e, durante boa parte de
nossa história, hegemônico, dando o tom do lugar que o Brasil iria ocupar na divisão
internacional do trabalho capitalista" (Prado Júnior 2004, apud Santos, 2012, p.95)
Netto (1996, apud Santos, p.95) dá ênfase a importância do tema ao lembrar que, no caso
brasileiro, "um traço econômico-social de extraordinárias implicações" foi que, ao contrário
das experiências euro-ocidentais, que promoveu transformações estruturais como pré-
condições para o capitalismo, no Brasil o desenvolvimento capitalista redimensionava formas
econômicas sociais que as experiências históricas já tinham demonstrado que eram adversas,
como o latifúndio. "No Brasil não se operou contra o atraso, mas mediante a sua contínua
reposição em patamares mais complexos, funcionais e integrados" (grifo meu). "A constituição
das nossas classes sociais, está repleta de passagens que fornecem ilustrações desse teor
predominantemente conservador, de conciliação com o “atraso”, como veremos a seguir, ao
analisar, com a ajuda da autora, a influência do padrão produtivo herdado: o latifúndio de
monocultura tendo em vista a exportação, na trajetória do desenvolvimento capitalismo
brasileiro que perpetuou desigualdades.
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II. O SISTEMA COLONIAL ESCRAVISTA NO PASSADO E NA CONTEMPORARANEIDADE BRASILEIRA:


A CARACTERIZAÇÃO DO ATRASO
Nascido de um empreendimento entre a monarquia de Portugal e grupos particulares, o Brasil
começa a ser colonizado para atender aos interesses comerciais da metrópole, voltada para o
mercado externo europeu. (Prado Júnior 2004, apud Santos, 2012 p.55).
Nesse mercado europeu
o capitalismo já se encontrava em transição de sua fase de cooperação para a manufatura, que
vai de meados do século XVI ao último terço do século XVIII. Isso significa dizer que o Brasil
foi sempre visto pela metrópole como um fornecedor de artigos de exportação, na forma de
matérias-primas, uma vez que o desenvolvimento, mesmo incipiente, das manufaturas (aqui)
foi castrado no século XVIII. Essa proibição assegurava a reprodução dos interesses
metropolitanos garantindo na colônia um mercado consumidor compulsório de seus
manufaturados (ALBUQUERQUE, 1981) e evitava a concorrência que poderia representar
perigo para uma economia atrasada e decadente como a portuguesa, além, é claro, de prevenir
possíveis ideais de autonomia política (PRADO JÚNIOR, 2004).

A colonização moderna integrava, portanto, antes de tudo, um modo de produção capitalista


cujo único objetivo era a acumulação primitiva de capital. O "atraso" da economia portuguesa
para realizar esta transição do capitalismo de cooperação para a de manufatura, irá condicionar,
significativamente, o atraso brasileiro na mesma direção" (Santos, p. 96).
Sodré (1990 apud Santos, 2012, p.97) explica que, naquele momento, para o grupo mercantil
luso:
"Tratava-se [...] de obter, por compra, por troca ou pela força, mercadorias nas áreas produtoras
e vendê-las nas áreas consumidoras, auferindo a diferença de preço entre a operação inicial e a
final. Nisso residiu o segredo do sucesso português e nisso residiu o seu fracasso, a sua
debilidade fundamental: a economia lusa não era nacional. [...] O comércio de intermediação
era, por característica, desligado dos extremos, a produção e o consumo, e nada tinha a ver com
a estrutura dos mercados produtor e consumidor. [...] A empresa das navegações e do comércio
em escala mundial não previra a eventualidade de ocupar, povoar, produzir. Ela não era
produtora, mas apenas mercantil" (grifo meu).

A produção colonial mercantil era, assim, apenas complementar, conforme explica Cardoso de
Mello (1994, apud Santos, p.96), e não concorria com a produção metropolitana. As atividades
econômicas que surgirão ao longo do processo de povoamento do vasto território brasileiro
estarão diretamente ligadas com a atividade mais lucrativa do momento" (Santos: 57). "Até
1530, a exploração pau-brasil deu conta de satisfazer os interesses extracionistas" de Portugal.
"Após isso, o que havia dessa madeira no litoral esgotou-se, obrigando a metrópole a pensar
em algo para além das feitorias comerciais" (ibid, p.56), que ajudavam, inclusive, a vigiar a
costa brasileira. Ainda com o lucro do pau-brasil os portugueses instituem, então, as primeiras
lavouras de cana, e, em 1549 surge o Governo Geral, para aperfeiçoar os meios de legitimação
da autoridade política da Coroa no processo colonizador em terras brasileiras.
Tornar a exploração da cana de açúcar um negócio sistemático e produtivo representava, no
entanto, um desafio para Portugal, afinal, "[...] a empresa das navegações e do comércio em
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escala mundial não previra a eventualidade de ocupar, povoar, produzir. Se esta eventualidade
de assumir os encargos da produção era arriscada ainda no caso de já existir produção nas áreas
a serem ocupadas – como acontecia no Oriente – apresentava-se muito mais difícil no caso em
que não existia produção, tratando-se de iniciá-la. E este era precisamente o caso brasileiro"
(SODRÉ, 1990, p.36-37).
Deste impasse, surgirão as conexões estruturantes da questão social no Brasil: a escravidão
(moderna e, portanto, reinventada) e o latifúndio. Instituídas a partir da criação do Governo
Geral, formatou uma questão que é "central na caracterização do atraso: a concentração de
propriedades territoriais, ou, falando mais claramente, a constituição dos latifúndios" (Santos:
97). A necessidade de grandes capitais inaugura também as raízes da desigualdade.
"De acordo com a lógica do monopólio metropolitano, somente alguns poucos investidores
reuniam as condições necessárias ao investimento requerido pelos engenhos produtores de
açúcar e esse foi, fundamentalmente, o fator que esteve na gênese da concentração fundiária
brasileira. Obviamente que essa característica se reproduziu de maneiras diversificadas
historicamente – as fazendas de café e a modernização capitalista no campo, sob o formato das
agroindústrias, são as mais significativas" (ALBUQUERQUE, 1981).

Para Silva (1985, p.73, apud Santos, p. 97-98) a questão das grandes propriedades
territoriais em particular para o capital é importante, pois implica "a não disponibilidade
para os trabalhadores". Este fenômeno implica "processos de expropriação, legitimados em
lei, que consideravam 'devolutas' as terras cujos ocupantes não tivessem o título de propriedade.
A sesmarias, por sua vez, era o marco fundante desta concentração. Pois, por meio deste
instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras, e, consideradas lotes de
terra inculta ou abandonada que os reis de Portugal cediam aos novos povoadores, determinava
por consequência uma grande exclusão. Para termos uma ideia desta dinâmica de poder a partir
do espaçamento, podemos partir do exemplo da expansão da lavoura da cana no território
brasileiro: veremos que esta foi introduzida em três capitanias: Pernambuco, Bahia e São
Vicente. Em 1549, Pernambuco já possuía trinta engenhos-banguê; a Bahia, dezoito; e São
Vicente, dois. A lavoura da cana-de-açúcar era próspera e, meio século depois, a distribuição
dos engenhos perfazia um total de 2561.
A escravidão, por sua vez, (fundada na Roma Antiga e fundamental para a expansão do Império
Romano) será a solução encontrada pelos portugueses na colonização moderna do Brasil para
baixar os custos de produção, dado que o cultivo exigia muita mão de obra.
Mais tarde na história brasileira este processo de expulsão de trabalhadores, conforme registra
Sodré (1996, p.77 apud Santos p.98), também será visto: "A expansão cafeeira exigirá a
expulsão dos posseiros [...] os posseiros são atingidos pela grande lavoura, o latifúndio os
expele sem pausa. "Uma vez legalizada a posse de terra sob relações capitalistas em expansão,
tem origem a especulação fundiária na região produtora de café.
É, portanto, a expansão capitalista que está na base da especulação fundiária. Com efeito, a terra
em si não tem valor, ela possui um preço na medida em que representa um meio que permite a
apropriação da mais-valia. Em outros termos, a especulação fundiária não pode ser explicada
fora da dominação do capital que dá valor comercial à terra. [...] Se a massa de imigrantes

1 Encyclopedia Britannica do Brasil ublicações Ltda. Vol.2 pg 153-154. São Paulo (1994).
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pudesse ter acesso fácil à propriedade da terra, o capital não encontraria a força de
trabalho que tanto precisava. O preço elevado da terra na região do café reflete a apropriação
da terra pelo capital (SILVA, 1985, p.72-73, apud Santos).

Essa reprodução histórica do padrão produtivo baseado no latifúndio vem a determinar, na


visão de Josiane Soares Santos (2012), dois fenômenos. Um deles é "a funcionalidade deste
padrão no conjunto das relações capitalistas internacionais [...] e o segundo é a importância
política das classes dominantes forjadas a partir da grande propriedade privada".
O latifúndio estrutura, portanto, a condição do Brasil neste esquema mercantil de
complementariedade econômica das colônias em relação as metrópoles. O que significava "a
manutenção do desenvolvimento desigual e combinado para a maximização de lucros dos
países centrais" (Santos, p.98).
A dominância do modelo agro-exportador resulta da conjugação de uma série de fatores de
produção a baixo custo, especialmente a força de trabalho, que possibilitavam a produção de
matérias-primas relativamente baratas. Assim, esses produtos podiam ser vendidos no mercado
internacional por preços satisfatórios para quem as produzia e, também, para quem as comprava
– no caso, os países capitalistas centrais que tinham nesse mecanismo de acesso a matérias-
prima um dos fatores que proporcionavam a elevação das taxas de lucro. Na medida em que
essa complementariedade era lucrativa para as classes produtoras de ambas as partes, formava
um “complexo integrado” marcado por uma [...] aliança social e política a longo prazo entre
imperialismo e as oligarquias locais, que congelou as relações pré-capitalistas de produção no
campo. Esse fato limitou de forma decisiva a extensão do “mercado interno”, e assim
novamente tolheu a industrialização cumulativa do país, ou dirigiu para canais não industriais
os processos de acumulação primitiva que, apesar de tudo, se manifestaram (MANDEL, 1985,
p. 37).

III. O CAPITALISMO RETARDATÁRIO NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL


Avançando um pouco mais na história, vemos que, quando a industrialização na América
Latina ocorre, ela já está duplamente vocacionada "por seu ponto de partida: economias
exportadoras capitalistas nacionais, e por seu momento, o momento em que o capitalismo
monopolista2 se torna dominante em escala mundial, isto é, em que a economia mundial
capitalista já está constituída. (CARDOSO, 1994, p.98 apud SANTOS, p.99). "Isto teve
maiores consequências enquanto determinante da força adquirida pelo mito de país de 'país de
vocação agrária' e a consolidação da estrutura fundiária concentrada".
Isso porque, mesmo havendo capital acumulado disponível para investimento industrial, houve
um “bloqueio da industrialização”, nos termos de Cardoso de Mello (1994), que a manteve
“restringida”. A explicação disto está no fato de que a constituição de forças produtivas
especificamente capitalistas tinha como pré-requisito para um esquema de acumulação
endógeno, a montagem de um setor de bens de produção, assentado em capitais nacionais, com
função de alimentar a demanda industrial. Esse era justamente o “foco” da rentabilidade dos
países de capitalismo maduro nesse momento do imperialismo: a manutenção de áreas para

2 Também chamado capitalismo financeiro.


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exportação de capitais. Assim sendo, era restrito o leque de “opções” industriais do Brasil dado
que [...] a tecnologia da indústria pesada, além de extremamente complexa, não estava
disponível no mercado, num momento em que toda sorte de restrições se estabelecem num
mundo que assiste a uma furiosa concorrência, entre poderosos capitalismos nacionais
(SANTOS, Pp.100; CARDOSO DE MELLO, 1994, p.98).

Braun (2004), explica, por sua vez que, apesar de "o desenvolvimento capitalista
posteriormente operado no país tenha possibilitado o ingresso na fase de industrialização
pesada, o mesmo não implicou qualquer alteração significativa em relação a estrutura fundiária.
Em 1970, apesar do intenso processo de industrialização pelo qual o país havia passado nas
duas décadas anteriores, a agricultura era responsável por 74,1% das exportações nacionais"
(apud Santos, p.100, grifo meu). "Os impactos da industrialização pesada podem ser
observados nos processos de modernização da agricultura brasileira incentivados pelos fortes
mecanismos creditícios públicos, disponíveis aos grandes proprietários. A resultante disso foi
a consolidação das chamadas agroindústrias. (ibid, grifo meu). "[...] Já não é mais o produto
primário apenas, mas sim, produtos com diferentes níveis de processamento da indústria
(Braun p. 16-17 apud Santos p. 100-101).
Essa modernização do agronegócio se faz, no entanto, (e mais uma vez) "[...] sob a mesma base
sociopolítica (a grande propriedade territorial e com a mesma debilidade da modernização
industrial (importando tecnologia e insumos) o que caracteriza, na atualidade, uma espécie de
volta ao passado. (Santos, p.101). De acordo com Pochmann (2006, p.23 apud Santos p.101):
É cada vez maior a especialização da economia nacional em termos da produção e exportação
de bens primários com baixo valor agregado e reduzido conteúdo tecnológico, geralmente
intensivo em postos de trabalho mais simples [...]. Nos países desenvolvidos, verifica-se, em
contrapartida, a diversificação da produção, com maior valor agregado e elevado conteúdo
tecnológico na produção de bens e serviços. Em síntese, o Brasil registra, uma certa volta ao
modelo de inserção internacional praticado no século 19, quando se destacou como uma das
principais economias. É importante salientar que “[...] [os] empréstimos públicos [são] uma das
primeiras formas de exportação de capitais” (SILVA, 1985, p.33).

"Operado no quadro do capitalismo dos monopólios e limitado por mecanismos protecionistas


de acesso à tecnologia por partes dos países cêntricos", o desenvolvimento do capitalismo
brasileiro não permitiu qualquer alteração no lugar ocupado pelo Brasil na linha divisória do
trabalho.
Esse quadro deve ainda ser complementado, de acordo com Machado (2002), pela ausência, no
Brasil, de um núcleo endógeno de inovação tecnológica. Isso ocorreu porque os benefícios
concedidos pelo Estado intervencionista à burguesia nacional não eram acompanhados de
exigências mínimas de investimento em pesquisa e desenvolvimento – que deveriam funcionar
como uma espécie de contrapartida, no sentido de consolidar alguns aportes que possibilitassem
autonomia tecnológica em médio-longo prazos. (SANTOS, p. 101)

Ou seja,
o ganho de dimensão conseguido pelos produtores domésticos – dado a reserva de mercado –
não resultou no desenvolvimento de uma tecnologia própria que transformasse o mercado
interno em base ou trampolim para se empreender a conquista de mercados externos.[...] A
racionalidade conservadora e pouco empreendedora do empresariado nacional e a atuação das
multinacionais [...] já revelam, portanto, a racionalidade estratégica dos agentes locais, os quais
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se mostravam pouco propensos a desenvolver processos internos de inovação tecnológica para


competir no mercado internacional. No entanto, o formato das políticas industriais
governamentais, assentadas num protecionismo indiscriminado, cria um ambiente institucional
que não condiciona ou impele à modificação nos padrões de comportamento industriais [...]
apenas acentua os traços mais negativos de uma burguesia industrial parasitária e acostumada
a sobreviver de benevolentes favorecimentos econômicos (MACHADO, 2002, p. 43 ).
A possibilidade de autonomia tecnológica fica cada vez mais distante, sobretudo, após as
mudanças na base técnica da produção, chamadas por alguns de “Terceira Revolução
industrial”.

Para encerrar o raciocínio sobre as reiteradas contribuições do sistema colonial "sem dúvida,
no caso brasileiro, parte substantiva da caracterização do "atraso", na medida em que responde
por traços decisivos na estruturação das classes sociais, de suas atividades econômicas e
universo cultural" (SANTOS, p.94), citarei mais uma contribuição de Machado (2002, p.65,
apud Santos p.102) sobre o tema, ao lembrar que:
A proliferação nos anos noventa de negócios voltados à importação parece reviver –
sob nova roupagem – a velha tradição colonial das burguesias “compradoras”, as quais
multiplicam seus negócios em torno da importação de sofisticados produtos. Enfim, nos
anos noventa, verifica- se um retrocesso no anterior processo de constituição de uma
burguesia industrial nacional. Ainda que, uma burguesia que ocupava posições
secundárias nos interstícios do capital industrial internacional.
Na crítica de Josiane Santos "desse modo é que a manutenção do latifúndio de monocultura
para exportação ganha ares de “modernidade”, justificados pela sua participação na balança
comercial do país, respondendo historicamente por considerável parcela do superávit primário"
(p.102).
A publicidade da emissora Rede Globo de Televisão para o agronegócio nacional intitulada
"indústria-riqueza do Brasil" sob slogan "agro é pop", é um traço muito sintomático e atual
desta 'velha tradição colonial'.
Assim,
a historiografia que trata não só da consolidação do modo de produção capitalista no Brasil,
como a que aborda, relacionado a isso, a constituição das nossas classes sociais, está repleta de
passagens que fornecem ilustrações desse teor predominantemente conservador, de conciliação
com o “atraso”. Essas relações são importantes não apenas do ponto de vista da correlação de
forças que se erige como dominante na vida política brasileira. São importantes,
fundamentalmente, pelas determinações introduzidas por esse “atraso” nas opções concretas de
política econômica que constituíram historicamente o capitalismo brasileiro (SANTOS: 95).

José Murilo Carvalho (2002), destaca ainda, por sua vez, em sua obra "Cidadania no Brasil –
O longo Caminho", sobre heranças coloniais e os entraves para a expansão da cidadania no
Brasil, os efeitos da grande propriedade rural. "Se é possível argumentar que os efeitos da
escravidão ainda se fazem sentir no Brasil de hoje, a grande propriedade ainda é uma realidade
em várias regiões do país. No Nordeste e nas áreas recém-colonizadas do Norte e Centro-Oeste
o grande proprietário e coronel político ainda age como se estivesse cima da lei e mantém
controle rígido sobre seus trabalhadores".
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Nas palavras de Darcy Ribeiro (1992), em sua grande obra "O Povo Brasileiro – A Formação
e o sentido do Brasil", "o povo brasileiro pagou um preço muito alto em lutas das mais cruentas
que se tem registro na história, sem conseguir sair, através delas, da situação de dependência e
opressão em que vive e peleja. (p. 25). "O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos
tendentes a transpô-lo, porque se caracterizam no modus vivendi que aparta os ricos dos pobres,
como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de
indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar
numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo-massa, sofrido e perplexo,
vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus,
à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive, o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas
sempre frios e perversos, e, invariavelmente, imprevisíveis" (ibid, p. 24).

IV. O CONCEITO DE QUESTÃO SOCIAL


Feito este périplo pela questão latifundiária no Brasil, que funda as bases do capitalismo
brasileiro, determinando seu atraso reiterado, passamos a uma recapitulação ao marco teórico
do conceito de "questão social" a partir da compreensão de um "tipo de exploração que se
estabelece na sociedade capitalista" onde "[...] a miséria cresce na mesma medida que a
acumulação capital". (Guerra; Ortiz; Valente e Fialho, 2007, p.2).
De acordo com Guerra, Ortiz, Valente e Fialho, "a obra marxiana nos oferece os insumos
teóricos para a compreensão da “questão social” como a expressão mais desenvolvida de um
tipo de exploração diferenciada", que segundo Netto (2001, p.46, apud Guerra, Ortiz, Valente
e Fialho, 2007, p.2) “se efetiva num marco de contradições e antagonismos que a tornam, pela
primeira vez na história registrada, suprimível sem a supressão das condições nas quais se cria
exponencialmente a riqueza social”, uma vez que a produção da riqueza é coletiva mas sua
apropriação é privada.
A questão social está profundamente vinculada, portanto, ao "fenômeno datado a partir do
século XIX, período no qual era clara a extensão do pauperismo a um espectro cada vez maior
de indivíduos, não mais limitados aos doentes, inválidos, órfãos, idosos ou viúvas (observado
já na Inglaterra do século XIV), mas principalmente aqueles aptos para o trabalho" (ibid).
A questão social, na definição de pobreza de Milton Santos, está vinculada a chamada
"marginalidade", reconhecida e estudada como 'doença da civilização', e produzida pelo
processo econômico da divisão do trabalho (Milton Santos, 1999, p.10).
Ao contrário do que sugere uma literatura mais recente sobre pobreza, que tende a naturalizar
o capitalismo e a definir a questão social como "mudanças na forma de solidariedade e coesão
social", a questão social, no caso específico brasileiro, é "expressão oriunda do modo de
produção capitalista".
A escravidão, por sua vez, aprofunda ainda mais os traços da questão social, pois, implicou em
obstáculos significativos para a alçada popular na busca por direitos civis, políticos e sociais.
E, portanto, agravou o quadro de concentração da riqueza, fruto da exclusão.
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Conforme explica Josiane Soares Santos (2012), das particularidades do capitalismo na


formação social brasileira e da dinâmica de trabalho no país, emergem ainda "a precariedade
na estrutura das ocupações como particularidades do desemprego", (p.17), aonde refunda-se a
"questão social" conceituada por Guerra, Ortiz, Valente e Fialho. Perpetuasse a dinâmica da
concentração particular da riqueza coletivamente produzida.
V. UMA BREVE ONSIDERAÇÃO SOBRE A ESCRAVATURA NO BRASIL E SUAS IMPLICAÇÕES PARA
OS DIREITOS E CIDADANIA NO PAÍS
O Brasil, como já foi dito, foi somente um projeto mercantil de Portugal. "Na verdade das
coisas somos a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical" (Ribeiro, 1992, p. 454).
Último país cristão a abolir a escravatura, o Brasil herdou do anti-projeto nacional português
uma característica cultural muito nociva que retardou, em muito, a luta por direitos e pela
cidadania, e que foi a sistematização da escravidão. Ou seja, sua aceitação e prática em todas
as esferas da sociedade brasileira.
Tratando-se de compreender a fundo o contexto por de trás dos inquietantes fatos da escravidão
no Brasil, no qual escravos libertos escravizam outros, José Murilo de Carvalho propõe um
ponto de análise e consideração crucial, acerca desta sistematização da escravatura. "Vemos aí
a presença de uma tradição cultural distinta, que poderíamos chamar de ibérica, alheia ao
iluminismo libertário, à ênfase nos direitos naturais, à liberdade individual" (p.51). Essa
tradição, explica,
insistia nos aspectos comunitários da vida religiosa e política, na supremacia do todo sobre as
partes, da cooperação sobre a competição e o conflito, da hierarquia sobre a igualdade. Havia
nela características positivas, como a visão comunitária da vida. Mas a influência do estado
absolutista, em Portugal, acrescida da influência da escravidão, no Brasil deturpo-a. Não
podendo haver comunidade de cidadãos em Estado Absolutista. Nem comunidade humana em
plantação escravista, o que restava da tradição comunitária eram apelos, quase sempre
ignorados, em favor de um tratamento benevolente dos súditos e dos escravos. O melhor que se
podia esperar era o paternalismo do governo (ibid).

Na tradição anglo-saxônica essa liberdade individual era um direito inalienável. O que


diferencia o nosso curso, por exemplo, de outros países como os Estados Unidos, cujo foco de
tensão e revolta no contexto no contexto da Guerra Civil (1861-1865) se deu pela discussão 'da
introdução ou não da escravidão em novos estados que se formavam' (ibid, p.48).
Havia, portanto, uma clara orientação - uma 'linha divisória' (geográfica) entre liberdade e
escravidão. "O escravo que fugia do sul para o norte, atravessando, por exemplo, o rio Orno,
escapava da escravidão para a liberdade. Havia até mesmo o movimento, chamado
Underground Railway, que se ocupava de ajudar os escravos, a fugirem para o norte". Este fato
é importante porque nos alude para o fato de que "[...] não existiam linhas geográficas
separando a escravidão da liberdade no Brasil. Não havia como fugir da escravidão" (ibid, p.
48, grifo nosso).
Fruto da diversidade regional das atividades econômicas promovidas por Portugal no Brasil –
e que visava ocupação territorial alinhada a interesses lucrativos do momento – a distribuição
de escravos no país se deu em todo o país. "Se é verdade que os escravos se distribuem de
maneira desigual pelo país, é também verdade que havia escravos no país inteiro, em todas as
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províncias, no campo e nas cidades". Carvalho (2002) conta ainda que os escravos que
conseguiam fugir e se organizar em quilombos, quando não eram prontamente atacados e
destruídos por forças oficiais ou de particulares, se viam obrigados a se relacionar com uma
sociedade escravista. A sistematização da escravidão estava dada. Como traz Carvalho, "no
próprio quilombo dos Palmares havia escravos" (ibid).
Ou seja, "os valores da escravidão eram aceitos por quase toda a sociedade no Brasil", incluindo
a Igreja. "A interpretação tradicional dos católicos, vigente em Portugal e no Brasil dava conta
de que a 'única escravidão a ser evitada era a da alma e não a corpo', como nos conta
Carvalho:49. O cristianismo, portanto, não condenava a escravidão. Inclusive, padres possuíam
escravos, e "filhos de padres com escravas chegaram a posições importantes no Império" (ibid,
p.50). Açoites, espancamentos, assassinatos, e privação de liberdade, além da violência
coletiva, psicológica, de desenraizamento e cultural, nada disso contava para a moral cristã
dominante. "Mesmo os escravos, embora lutassem pela própria liberdade, embora repudiassem
a escravidão, uma vez libertos admitiam escravizar os outros" (ibid, p.49).
"[...] O aspecto mais contundente da difusão da propriedade escrava revela-se no fato de que
muitos libertos possuíam escravos". Na Bahia este número chegou 78%. (Carvalho: 48, grifo
nosso). Outro dado perturbador mostra que "dava-se até mesmo o fenômeno extraordinário"
(ibid: 49) de escravos que possuíam escravos. Isso ocorreu na Bahia, em Minas Gerais, em
outras províncias, segundo o autor.
Creio ser possível afirmar que, estes marcos culturais distintos acabaram por determinar, por
exemplo, as tratativas sociais dadas no âmbito do período pós-abolição. Enquanto nos Estados
Unidos governo e organizações religiosas se mobilizaram, após a guerra civil de (1861-1865),
para assistir os ex escravos, sobretudo, com educação, distribuindo igualmente terras e
incentivando o alistamento eleitoral. No Brasil, ao contrário, não obstante o vexaminoso atraso
para a libertação de escravos, o país passa a negar a condição do negro
No Brasil, aos libertos não foram dadas nem escolas, nem terra, nem empregos. Passada a
euforia, muitos escravos retornaram a suas fazendas, ou a fazendas vizinhas para retomar o
salário por baixo salário. Dezenas de anos após a abolição, os descendentes de escravos ainda
viviam nas fazendas [...] outros dirigiam-se às cidades, como o Rio de Janeiro, onde foram
engrossar grande parcela da população sem emprego fixo. Onde havia dinamismo econômico
provocado em São Paulo, os novos empregos, tanto na agricultura como na indústria foram
ocupados por imigrantes italianos que o governo atraía para o país. Lá os escravos foram
expulsos ou relegados aos trabalhos mais brutos e mal remunerados. As consequências disso
foram duradouras para a população negra. Até hoje a essa população ocupa posição inferior me
todos os indicadores de qualidade de vida. É a parcela menos educada da população, com os
empregos menos qualificados, os menores salários, os piores índices de ascensão social" (ibid:
52, grifo nosso).
É por essa razão que Josiane Soares Santos trata "da questão social no Brasil tendo como foco
central sua expressão sob a forma do emprego. [...] o desemprego estrutural e, principalmente,
o subemprego no Brasil não são novidades recentes, existindo uma conexão entre este fato e a
superexploração da força de trabalho que se naturalizou como condição para a inserção
subordinada do país nas engrenagens do capitalismo monopolista de corte imperialista"
(Santos: 19).
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2017 Questão Social no Brasil
A influência do sistema colonial escravista nos direitos e na cidadania

A resistência do próprio escravismo à mudança de modo de produção de trabalho denuncia


esse traço: o Brasil permaneceu escravista até os fins do século XIX, quando o capitalismo em
escala mundial já atingia sua última etapa, com o imperialismo. A lei do desenvolvimento
desigual apresenta nessa anomalia um de seus mais gritantes exemplos (IDEM, p. 81).
Cabe ressaltar ainda que além dos escravos chacinados, vencidos e integrados nos plantéis
havia também homens livres ignorantes (sem educação básica), para além desta elite oriunda
da metrópole. Essa população livre se via também a refém dos grandes proprietários de
"investidura real", uma vez que não havia um governo público para a população. "A autoridade
máxima nas localidades, por exemplo, eram os capitães-mores. [...] Havia, então, confusão,
que era igualmente conivência, entre o poder do Estado, e o poder privado. O cidadão comum
ou recorria à proteção dos grandes proprietários ou ficava à mercê do arbítrio dos mais fortes"
(Carvalho: 22, grifo nosso).
Do ponto de vista que aqui nos interessa - a formação do cidadão - fica patente, então,
reconhecer que
"as consequências da escravidão não atingiram apenas os negros. A escravidão afetou a tanto o
escravo como o senhor. Se o escravo não desenvolvia a consciência de seus direitos civis, o
senhor tampouco fazia. O senhor não admitia os direitos dos escravos e exigia privilégios para
si próprio. Se um estava abaixo da lei, o outro considerava acima. A libertação dos escravos
não trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis mas negada na
prática. Ainda hoje, apesar das leis, aos privilégios e arrogância de poucos correspondem o
desfavorecimento e a humilhação de muitos" (CARVALHO, p.53).

É importante ter em mente ainda que, a cidadania nasce dentro do contexto histórico do estado-
nação; nasce da relação das pessoas com o Estado. É, por isso que, "a maneira como se
formaram os Estados-nação condiciona assim a construção da cidadania. Em alguns países, o
Estado teve mais importância e o processo de difusão de direitos se deu principalmente a partir
da ação estatal. Em outras, ela se deveu à ação dos próprios cidadãos". (ibid, p.12).
No caso brasileiro, esta luta ficou enfraquecida com a escravidão e a população livre
desassistida de educação, e, também, destituída de um sentimento de integração ou de 'um
sentido de nacionalidade' (Carvalho p25). Superado "somente nas raras instâncias em que o
povo-massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de
estruturação social, como ocorreu com os Cabanos, em Canudos, no Contestado e entre os
Mucker". (ibidem, p.24). Mesmo assim, "o povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de
milhares, foi também sangrando em contra revoluções, sem jamais, senão episodicamente,
conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso de sua própria história. Ao
contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à
violência pela classe dominante como arma fundamental da construção da história" (Ribeiro,
1992, p. 26).
Em resumo
"abordagem dessa relação entre ocupação de território e a exploração econômica de suas
potencialidades reforça a tese de uma colonização predatória cujas atividades entravam em
colapso por falta de investimentos melhoramentos técnicos - um contracenso sem chances de
competir num mundo que descobre cada vez mais formas de controles da natureza pela ciência.
A mentalidade estreita da metrópole que visava somente extrair vantagens de uma natureza
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abundante, "arranhando a costa como caranguejo", nos dizer de um cronista da época, legou
também outras características a nossa formação social, como as grandes propriedades
territoriais agrárias, fruto da agricultura de monocultura extensiva estimulada devido aos
interesses comerciais; a questão indígena jamais solucionada, desde a catastrófica exploração
dessa mão de obra nativa; o papel secundário da agricultura de subsistência, que, estando fora
do raio dos negócios lucrativos, fica relegada e provoca o disparate da fome da subnutrição [...]
o descaso com a educação, uma vez que um parco sistema de ensino concentrava-se apenas nas
maiores cidades e foi criado e após 1776; e a corrupção denotando, desde sempre, nenhuma
fronteira entre interesses públicos e privados por parte da Coroa portuguesa e dos colonos que
aqui se instalaram". (SOUZA, p.58)

À título de comparação em termos de educação superior, o autor cita em sua obra "Cidadania
no Brasil – Um longo caminho" dados relativos as colônias americanas da Espanha em
oposição as portuguesas, e logo, ao Brasil:
Em contraste com a Espanha, Portugal nunca permitiu a criação de universidades em sua
colônia. Ao final do período colonial, havia pelo menos 23 universidades na parte espanhola da
América, três delas no México. Umas 150 mil pessoas tinham sido formadas nestas
universidades. Só a universidade do México formou 39.367 estudantes. Na parte portuguesa,
escolas superiores só foram admitidas após a chegada da corte, em 1808. Os brasileiros que
quisessem, e pudesssem, seguir curso superior tinham que viajar a Portugal, sobretudo Coimbra.
Entre 1772 e 1872, passaram pela Universidade de Coimbra 1.242 estudantes brasileiros.
Comparando com os 15 mil da colônia espanhola o número é ridículo (Carvalho: 23).

"Nem mesmo o objetivo dos defensores da razão nacional de formar uma população
homogênea, sem grandes diferenças sociais, foi atingido. A população teve que enfrentar
sozinha o desafio da ascensão social, e frequentemente precisou fazer isso por rotas originais,
como o esporte, a música e a dança. Esporte, sobretudo, o futebol, música, sobretudo, o samba,
e dança, sobretudo o carnaval, foram os principais canais de ascensão dos negros até
recentemente", (Carvalho, p.58).

VI. A QUESTÃO SOCIAL HOJE


Por fim, gostaria de citar apenas alguns aspectos abordados pelo sociólogo francês e professor
da Universidade de Paris-Sobborne, Didier Layperonnie (2003), em seu artigo "A Questão
Social: ontem e hoje", fruto de sua participação no Seminário Internacional "A Questão Social
em 500 anos". Apesar de discorrer sobre a realidade francesa, algumas abordagens, mesmo
europeias, servem de base para pensarmos a pobreza, a exclusão, tomando em conta ainda os
efeitos da globalização na questão social. "Como no século XIX, há falta de explicações sociais
sobre fenômenos como a marginalidade e a pobreza, os problemas não são hoje considerados
como resultados de relação de poder. Eles são ao mesmo tempo moralizados e naturalizados"
(Layronnie, p.20), dado que os problemas não passam mais a ser explicados. "O sucesso e o
fracasso resultam essencialmente do próprio indivíduo, são personalizados. Aquilo que no
mundo industrial e socialdemocrata era vivido coletivamente como produto de um contexto
socioeconômico ou como um destino social, hoje é vivido no plano pessoal. O indivíduo torna-
se responsável por seu futuro, por seus sucessos e insucessos. Se ele não chega ao êxito, ele
não tem outras justificativas a não ser ele mesmo" (p.19). Por isso mesmo "nas sociedades
liberais, os problemas tendem, assim a ser vividos pessoalmente com frequência sob a forma
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de patologia psicológica, ou cada vez mais, pelo recurso às drogas" (ibid). A injustiça desta
condição, pode ser resumida no fato de que "a participação do excluído a vida social passa,
assim, por colocar-se em conformidade com uma imagem de si mesmo, imagem que lhe é
imposta pelas categorias dominantes".
A centralidade do tema do emprego é igualmente relevante para ideia da inclusão, porque, a
integração social passou a ser pautada pelo mercado. "O mercado não só desarticulou a
sociedade como também substituiu a produção pelo consumo: "os indivíduos não se situam
mais em virtude de um pertencimento social, mas no interior de trajetórias de mobilidade,
avaliando suas chances de ter ou não acesso ao consumo". A nova questão social seria,
portanto, aquela guiada pelo individualismo, na qual, o indivíduo, não existe a não ser pelo
consumo, por sua capacidade de apropriar e por sua capacidade de fazer circular bens e signos.
A generalização do mercado faz-se acompanhar da dissolução das 'subculturas populares e,
consequentemente, das referências culturais externas ao universo do consumo. Da mesma
forma que o indivíduo é remetido a si mesmo no caso de fracasso por ausência de referências
sociais, aqui ele fica contido em si mesmo: ele não existe, ou não é considerado, a não ser que
ele se conforme aos padrões dominantes". (Lapeyronnie, 2002 p.21)
Ao mesmo tempo, vemos, por outro lado, no contra fluxo da globalização, e, por isso, um.
efeito colateral dela mesmo, um caminho alternativo que pode significar a redemocratização
pela via da cidadania participativa. Esse processo é [...] um processo que busca a revalorização
do local, entendendo-o, por um lado, como um âmbito para encontrar alternativas de
desenvolvimento no marco da globalização (Arocena, 1997; Boisier, 1998; Madoery, 2000), e,
por outro lado, como uma escala humana que favorece a proximidade entre a gestão do governo
e as práticas democráticas". (BID, Liderando Cidades Sustentáveis, 2015). O que poderia se
tornar um caminho alternativo para a cidadania não alcançada em outros cursos da história, no
caso brasileiro. No entanto, a luta continua a ser o que Darcy Ribeiro definiu: "não é impossível
que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático.
Mas ela é muitíssimo improvável neste país em que poucos milhares de grandes proprietários
podem açambarcar a maior parte de seu território, compelindo milhões de trabalhadores a se
urbanizarem para viver a vida famélica das favelas, por força da manutenção de umas velhas
leis. Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da
institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força. [...] Faltou sempre
e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas
circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social" (Ribeiro,
p.26, grifo meu).
É preciso sonhar quem nunca foi sonhado e pagar a dívida social que o Brasil herdou, entre
outras coisas, concentrando "uma força de trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos
mercantis alheios a ela, através de processos tão violentos de ordenação e repressão que
constituíram, de fato, um continuado genocídio e um etnocídio implacável". (ibid, p.23)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARVALHO, José Murilo de. A Cidadania no Brasil – O longo caminho. 2002.


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A influência do sistema colonial escravista nos direitos e na cidadania

GUERRA, Y; ORTIZ, F; SANTANA, J; NASCIMENTO, N. Elementos para o debate


contemporâneo da questão social: a importância de seus fundamentos. Revista Política pública,
volume 11, n. 2, p. 237-255, jul./dez. 2007. Disponível em:
<file:///C:/Users/barba/Downloads/3823-12104-1-PB%20(1).pdf>. Data de acesso: 17 de
novembro.
LAPEYRONNIE, Didier. A questão social ontem e hoje. In: Praia Vermelha: Estudos de
Política e Teoria Social, Rio de Janeiro, volume 8, páginas12-31, primeiro semestre, 2003.
RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. 1992,
SANTOS, Soares Josiane. A Questão Social: particularidades no Brasil. São Paulo: Cortez,
2012.

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