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Como o mundo é organizado economicamente?

1. A pergunta: Dos mercados locais para a economia política global

A autora dá inicio ao texto retomando o significado amplo de economia,


cuja resposta seria “o estudo da produção e distribuição de bens e riqueza”. De
forma didática, ela destrincha cada uma dessas palavras e seus respectivos
significados para, assim, iniciar sua argumentação de como a “economia”
começou a ser pensada de fato, e sendo desenvolvida até é os dias atuais, que
engloba o mundo todo.
Ela começa a mapear os determinados momentos históricos e a
evolução da produção e das trocas comerciais, que já existiam há milhares de
anos, mas nunca foram pensadas efetivamente como “economia”. Inicialmente,
esses primeiros mercados resumiam-se em produções locais, com práticas
relativas a agricultura de subsistência, nas quais as pessoas trocavam os bens
como parte da vida cotidiana, não valia a pena percorrer longas distâncias para
se trocar um bem. Ou seja, essas práticas de trocas comerciais foram
incorporadas às relações sociais, então, não se pensava em “economia” como
uma área separada, pois os efeitos dos mercados eram limitados.
No feudalismo da Idade Média, na Europa, os monarcas concediam aos
nobres o direito às suas terras em troca de lealdade e serviços militares. Os
nobres, por sua vez, concediam acesso às suas terras para os camponeses, em
troca de serviços militares e mão-de-obra e produção agrícola. Essas normas
culturais e expropriação aristocrática da riqueza dificultavam a busca de lucro
para o ganho privado. Além disso, havia um outro posto de poder: a Igreja
Católica. Esta constitua a autoridade moral e a força cultural unificadora mais
significativa.
Durante o século XV, aproximadamente, os europeus começaram a se
desenvolver a partir de outros lugares, passando, assim, do sistema
descentralizado de produção agrícola para o capitalismo industrial estado-
cêntrico, com formas de tecnologia aprimoradas. “Esse deslocamento envolveu
mudanças profundas nas identidades das pessoas, nas formas de pensar e
estruturar o comportamento humano. A centralização dos estados europeus
promoveu arranjos capitalistas que favoreceram a acumulação de riqueza por
uma minoria, cujo poder de decisão moldava as escolhas e os recursos
disponíveis para a maioria. Eventualmente, os mercados capitalistas se
estenderam pelo mundo.”
A autora afirma que, para responder a pergunta presente no início do
capítulo, é necessário que tenhamos conhecimento sobre essa transição. Ela
cita quatro mudanças que são especialmente importantes para entender a
economia política global de hoje: 1) O papel dos Estados na criação de mercados
capitalistas; 2) Como as tecnologias importam; 3) Como o trabalho é organizado,
e; 4) o trabalho de quem é valorizado.
No século XVI, com o desenvolvimento do pensamento racionalista e o
controle do ser humano sobre as forças físicas e sociais, a autoridade da Igreja
– além de outras lealdades de poder – declinou, além da mudança da
“economia”. “Os Estados centralizados adotaram políticas mercantilistas para
aumentar suas riquezas por meio da exploração e apropriação estrangeira.
Internamente, o mercantilismo promoveu saldos comerciais positivos e proteção
da produção doméstica; externamente, aumentou a exploração agressiva de
"novas" terras e provocou conflitos na medida que as potências européias
lutavam pelo controle dos mercados”.
Do século XVIII em diante, o capitalismo industrial consolidou e ampliou o
poder europeu. Enquanto os recursos naturais eram as únicas fontes de energia,
as formas de poder e produção eram limitados. A transição para uma
industrialização com a energia a vapor teve grandes consequências. O poder
dos mercadores enfraquecia em favor dos capitalistas industriais que investiam
em máquinas e produção fabril, que possibilitava uma maior produtividade. O
trabalho foi cada vez mais mercantilizado: os camponeses foram expulsos das
terras por novas políticas impostas pelos Estados; sem acesso à terra, eles eram
obrigados a se tornar trabalhadores assalariados, vendendo sua força de
trabalho para sobreviver, tornando-se membros do proletariado. O capitalismo
industrial transformou a escala de produção. O local do "trabalho" deslocou-se
dos lares para oficinas e fábricas onde eram pagos em salários, considerado
(economicamente) "produtivo" e associando os homens como "ganha-pão".
Essas mudanças profundas e o surgimento do liberalismo foram um ponto de
virada na organização de atividades econômicas, na atribuição de valor e na
institucionalização do poder. ///////////////////
O liberalismo marcou uma mudança decisiva no pensamento no que diz
respeito a razão, direitos, indivíduos e instituições que detêm o poder. Sua forma
do século XVIII rejeitava o poder arbitrário em favor dos direitos à propriedade
privada, à escolha religiosa e à liberdade individual. Estes direitos foram o
alicerce das "revoluções democráticas" da Europa. Ao mesmo tempo, o
liberalismo produziu uma tensão instável entre a liberdade expressa em termos
econômicos (através da propriedade privada e acordos irrestritos de mercado);
e a igualdade expressa em termos sociopolíticos (através de processos
democráticos e restrições necessárias para garantir a igualdade de acesso,
oportunidade e participação).
A industrialização capitalista gerou uma abundância sem precedentes de
bens, mas a custos consideráveis. Foi especialmente devastador para todos os
que perderam o acesso à subsistência terrestre e foram obrigados a ganhar
salários – em condições extremas - como a única maneira de sobreviver. Além
disso, a expansão da riqueza e do poder europeus dependia da ruptura de outras
sociedades através das práticas coloniais, que exploraram, escravizaram e
dizimaram outros povos e culturas. Esse liberalismo inicial que defendia o
progresso científico e a superioridade racional estendeu a igualdade política
apenas aos homens brancos proprietários, dando legitimidade às práticas
colonizadoras. Além disso, o trabalho de reprodução social na esfera doméstica
perdeu valor e status para a esfera pública masculinizada da política e para a
produção "real", ou seja, assalariada.
Apesar de inúmeras resistências, os europeus continuaram a consolidar
seu poder e transferiram recursos maciços de matérias-primas de áreas não
industrializadas para a Europa e asseguraram que os países em
desenvolvimento comprassem seus produtos manufaturados. Esses processos
geraram prosperidade nos países industrializados avançados, onde a
organização sindical beneficiou muitos trabalhadores assalariados e os
movimentos políticos garantiram acordos de “bem-estar social”. Durante o século
XX, redes de transporte melhoradas e novas tecnologias de informação e
comunicação estenderam o alcance dos mercados capitalistas, eventualmente
englobando o mundo.
A autora encerra este tópico afirmando que a economia é indissociável do
poder e da política, na medida que a interação dos agentes (indivíduos,
corporações, estados e organizações internacionais) exercem várias formas de
poder (compra e investimento, criação de emprego e rescisão, tributação e bem-
estar, políticas comerciais). Portanto, ao invés de dizer “economia mundial”, ela
se refere a isso como “economia política global”.
Em seguida, Agora temos uma "imagem" de como a economia política
global foi criada historicamente. Mas como isso ela é organizada hoje?

2. Exemplo Ilustrativo – Trabalho formal e informal

No tópico acima, a autora disserta sobre como a economia política


global foi criada historicamente. Ao se questionar como ela é organizada nos
dias atuais, neste típico, ela discutirá sobre as diferenças entre o trabalho formal
e informal, suas problemáticas e dimensões.
Quando os economistas e a mídia falam sobre "economia", eles
geralmente se referem ao comércio formal (contratuais, regulamentados, legais).
Um dos desenvolvimentos mais problemáticos na economia política global de
hoje é o significado sócio-político dos trabalhos informais. O trabalho informal se
refere àquele que não é registrado ou regulamentado e varia de trabalho
socialmente necessário a atividades voluntárias, onde o dinheiro raramente é
trocado e as autoridades reguladoras estão ausentes (por exemplo, cuidadores
de crianças e idosos, trabalho doméstico, projetos comunitários). Além disso, há
as atividades sombrias e irregulares, onde a regulamentação legal é difícil de
aplicar ou intencionalmente evitada (por exemplo, vendas de ambulantes,
pequenos negócios, indústrias domésticas, trabalho sexual, tráfico de drogas,
comércio de armas).
Se considerarmos todos esses tipos de trabalho, o tempo gasto em
atividades informais hoje, excede o das trocas formais de mercado. Além disso,
constituem metade de toda a produção econômica a equivalem a 75% do PIB de
alguns países. Portanto, a autora faz o questionamento de quais são as
implicações ao se ignorar todo esse volume de trabalho informal e focar nas
análises formais de mercado, na medida que essas atividades informais
repercutem em redes criminosas, causam disordem na economia política global
e, no contexto da globalização neoliberal, continuam a ganhar força e aumentar.
Segundo a autora, a fonte desse crescimento é a flexibilização. A
reestruturação neoliberal transformou os arranjos da sindicalização de
trabalhadores e seus benefícios nas fábricas, e a flexibilização é a palavra-chave
que caracteriza as mudanças: os processos de produção alteram-se para redes
espacialmente dispersas (a linha de montagem global; a subcontratação;
empresas menores); empregos cada vez mais casualizados (temporários e meio
expediente) e informalizados (não regulamentados, não contratuais); produção
em pequenos lotes, "just in time" (curto prazo, em vez de longo); e rejeição do
trabalho organizado.
A flexibilização feminiza a força de trabalho: uma proporção crescente de
empregos exige poucas habilidades e os trabalhadores mais desejáveis são
aqueles que são percebidos como pouco exigentes, dóceis, confiáveis,
disponíveis para trabalho temporário e meio expediente e dispostos a aceitar
baixos salários. Os estereótipos predominantes descrevem as mulheres como
candidatas mais atraentes para esses empregos. As realidades predominantes
são que as mulheres - apesar de décadas de ativismo e avanços - continuam
ganhando de 30% a 50% menos que os homens em todo o mundo. São
consideradas como secundárias, e não como chefes de família (isto é, homens).
Essa suposição é usada para "justificar" salários mais baixos para as mulheres,
como se seus ganhos fossem marginais ao bem-estar familiar e à economia
"real" do trabalho dos homens. A feminização refere-se, então, a como a
flexibilização é simultaneamente uma transformação material e incorporada dos
mercados de trabalho (mais mulheres trabalhadoras) e uma caracterização
conceitual das condições de trabalho desvalorizadas (salários mais baixos e
disposições de trabalho menos seguros).
A retórica do neoliberalismo toma a flexibilidade como essencial para o
sucesso competitivo e como uma política inerentemente positiva. À medida que
essa retórica se torna senso comum, obscurece como essas políticas são, na
verdade, motivadas política e economicamente; eles beneficiam alguns à custa
dos outros. Na ausência de regulações que protejam os direitos dos
trabalhadores e gerem salários dignos, a flexibilização se traduz em maior
insegurança de emprego, renda e benefícios para a maioria dos trabalhadores
do mundo. Na medida que isso acontece, mais pessoas buscam gerar renda
familiar da maneira que puderem, ou seja, participando de atividades do setor
informal.
Portanto, a informalidade é importante economicamente porque prejudica
alguns negócios e capacita outros. Sua evasão fiscal apenas diminui as receitas
públicas, com efeitos econômicos de longo alcance, especialmente nos grupos
mais vulneráveis. Talvez o mais significativo estruturalmente - ao evitar salários
indiretos, regulamentações das relações de trabalho e condições do local de
trabalho -, a informalização aumenta o poder do capital em detrimento do
trabalho. Ou seja, ela pressiona os salários, diminuindo os ganhos e o poder dos
trabalhadores, tendo um efeito disciplinador sobre eles.
Além disso, a informalização importa politicamente, na medida que evita
regulamentações. As sociedades perdem quando atividades informais evitam a
cobrança de impostos, diminuem as receitas públicas e permitem a corrupção.
Escândalos recentes em relação ao uso de informações privilegiadas e práticas
contábeis fraudulentas revelam quão extenso o dano pode ser. As sociedades
também perdem quando práticas de trabalho desreguladas representam riscos
à segurança, à saúde e ao meio ambiente, quando atividades criminosas
frustram interesses coletivos e quando ganhos ilícitos são usados para financiar
conflitos.
Como a flexibilização, alguns indivíduos prosperam ao se engajar em
atividades empreendedoras - legais e ilegais - possibilitadas por um ambiente
menos regulamentado. Isso é evidente nas microempresas dos países em
desenvolvimento - favorecidas pelos neoliberais - onde as atividades informais
são cruciais para a geração de renda, e em atividades clandestinas que estão
aumentando em todo o mundo. E, como a flexibilização, este trabalho é
polarizado entre um grupo pequeno e privilegiado capaz de prosperar por meio
da desregulamentação e flexibilização, e da maioria dos trabalhadores informais
do mundo - mulheres, migrantes e pobres - que participam menos por escolha,
mas por necessidade.
Para concluir o tópico, a autora afirma que a informalidade, que é
feminizada e cresce cada vez mais, representa questões fundamentais sobre a
economia política global no que diz respeito aos meios de subsistência de
famílias, condições de emprego, o que conta como atividade econômica e como
essas atividades são valorizadas.

3. Respostas gerais – Explicando a política da economia

Neste tópico, a autora trabalha com as diferentes abordagens que


estudam a política econômica global, e o por quê de separarem o estudo da
economia do estudo da política. O estudo da economia política foi iniciado por
Adam Smith, no século XVIII, que estudou a economia política, entendendo os
mercados como indissociáveis de dinâmicas sociais, institucionais e políticas.
Esses debates englobam o motivo das mudanças relativas ao crescimento das
atividades informais e seus efeitos econômicos e políticos, além de abordar
quem são os vencedores e os perdedores dentro disso tudo.
Depois do século XVIII, intensificaram-se formas de organização social
baseadas em trocas de mercado impulsionadas pelo Estado. As ideologias de
progresso centradas no Ocidente – com os países industrializados no centro - e
o capitalismo liberal estavam espalhados pelo mundo, com efeitos extensos,
embora não homogêneos. Nesses países, a produção em massa, a negociação
coletiva e o estado de bem-estar liberal-capitalista fomentaram o crescimento de
uma classe média.
Estes desenvolvimentos cumulativos tiveram efeitos diversos. Por um
lado, a industrialização bem-sucedida estava associada à produtividade
aprimorada, à proliferação de mercadorias, a maiores prazeres do consumidor e
a novas identidades. Por outro lado, o desemprego, as duras condições de
trabalho e a competição implacável significaram novas misérias, migrações de
trabalhadores e crescentes disparidades entre os que têm e os que não têm
dentro e entre as nações.
No século XX, as universidades se tornaram centros para a produção
de conhecimento, com a divisão da economia e da política. A economia
neoclássica tornou-se a escola predominante da teoria econômica, e é subscrita
pela maioria dos economistas que defendem a reestruturação neoliberal atual.
Essa escola pressupõe que os recursos são escassos, os desejos são ilimitados
e que as preferências de ordem racional determinam como os indivíduos e as
empresas otimizam seus interesses próprios. Se concentrando, assim, em
fenômenos objetivos e exluindo aquilo que não é quantificável ou não é
valorizado o suficiente para ser contado.
Até recentemente, o estudo da política global tendia a marginalizar a
consideração de raça, gênero e classe. Relacionado a isso está uma tendência
a negligenciar as identidades sociais e as emoções, ou seja, “quem somos” e o
que molda nossos desejos e expectativas - especialmente em relação aos
"outros". Esses fatores subjetivos são difíceis de medir, mas são importantes
para a política. Essa negligência de fatores subjetivos está, por sua vez,
relacionada a uma prevenção de fenômenos culturais diversos.
As novas tecnologias de informação e comunicação expandem o
alcance global das mídias, moldando as informações a que as pessoas têm
acesso e, consequentemente, os pressupostos ideológicos que elas
internalizam. Portanto, essa ênfase nos fatores objetivos e o domínio sobre as
fronteiras disciplinares moldam o que a população sabe sobre a economia
política global.

 Abordagens liberais e neoliberais


As narrativas convencionais da economia política global estão
associadas à tradição liberal e às políticas de livre mercado. Pressupostos
básicos dessa posição incluem: os mercados são eficientes e moralmente
desejáveis; o movimento irrestrito do comércio e do capital resultará em fluxos
ideais de investimento; países se beneficiam enfatizando sua vantagem
comparativa; o crescimento é imperativo e será "filtrado" para o benefício de
todos; as fronteiras abertas garantem a distribuição mais eficiente e equitativa
de mercadorias em todo o mundo. O papel dos governos é facilitar o
funcionamento dos mercados, mas não intervir na tomada de decisões.
As políticas do neoliberalismo emergem dessa tradição liberal. A
reestruturação que eles pressupõe é nova porque é elevada ao nível global. Ao
mesmo tempo, penetra no nível individual: à medida que os apoios de serviços
públicos e o bem-estar declinam, espera-se que os indivíduos, por si só,
garantam seu bem-estar por meio do consumismo inteligente e invistam
sabiamente para sua aposentadoria. Ou seja, os trabalhadores e cidadãos são
sujeitos à regulação pelas forças do mercado, em que a motivação é a busca de
lucros, em vez da prestação de bens públicos.
O "fundamentalismo de mercado" transmite adequadamente o
significado do neoliberalismo: promover o poder dos tomadores de decisão
baseados no mercado em detrimento dos tomadores de decisão públicos ou do
governo. O principal objetivo do capital privado e corporativo (forças de mercado)
é gerar lucros para proprietários e acionistas. Segundo a autora, existe uma
tensão entre a promoção de ganhos privados e a melhoria do bem-estar público,
que complica a forma que se teoriza a economia política global e a avaliação do
capitalismo neoliberal.
A autora faz uma comparação dessa reestruturação a um "jogo" global
do capitalismo neoliberal, o “jogo em jogo” (“game at play”). Isto é, eles aderem
o modelo da natureza humana atribuído aos jogadores (indivíduos ou estados
atomísticos, competitivos e racionais) às expectativas que fluem desse modelo
quando nenhuma restrição é imposta (estratégias de “cada um por si só”, o
“vencedor leva tudo”) e, para o longo prazo, todo o sistema se beneficia de jogar
o que eles entendem como o ‘único jogo na cidade’ (‘the only game in town’), ou
seja, ‘não há alternativa’. Em um sentido importante, esses relatos tornam as
hierarquias estruturais invisíveis, seja por serem despolitizadas (como "as coisas
são" devido à natureza ou a inevitável globalização) ou marginalizadas
(lamentáveis, mas ainda assim subordinadas a análises de preocupações mais
urgentes). Essa perspectiva teórica domina a análise econômica e a mídia
tradicional, pelo fato de que a maioria das pessoas ouve pouco além desta teoria,
portanto, tendem a acreditar que é a única.
Os economistas liberais e neoliberais concentraram-se em atividades
formais de mercado e os que estudam a economia global se concentraram no
papel das grandes empresas corporativas e das economias industriais
avançadas. A teoria da modernização supunha que as atividades informais
seriam substituídas pela industrialização, que envolvia a expansão do trabalho
assalariado e formas crescentes de regulamentação. Então, pouca atenção
teórica foi dada às atividades que não se adequavam a essas expectativas.
Como resultado, a teoria econômica ignorou as atividades informais. Segundo a
autora, esse silêncio refletia uma relativa falta de interesse em questões de maior
importância para os países pobres e em desenvolvimento e de maior
conseqüência para as populações vulneráveis e feminizadas.
A reavaliação teórica foi estimulada pelo crescimento das atividades
informais em todo o mundo e, especialmente, nas economias em transição dos
regimes centralizados e estatais frente aos neoliberais. Na maioria das vezes, a
informalização que não envolve atividades criminosas tende a ser interpretada
positivamente pelos economistas liberais. É vista como um terreno fértil para a
microempresa ou uma resposta flexível à regulamentação ineficiente ou
excessiva. A tendência de se concentrar nesses efeitos positivos, empreendidas
principalmente por grupos de renda média e alta, leva a uma negligência da
informalização entre os grupos de renda mais baixa. Estes, participam mais por
pura sobrevivência e têm poucos recursos para se envolver em atividades que
"estimulam a economia". Ao mesmo tempo, existem redes crescentes de crime
organizado. Estes se envolvem em atividades ilegais - contrabando de drogas,
tráfico sexual, comércio de armas - que geralmente são muito lucrativas. As
implicações são perturbadoras como quando as operações semi-clandestinas e
ilegais estão moldando a condução dos conflitos militarizados do século XXI.
Portanto, análises liberais e neoliberais tendem a dominar a teoria
econômica, a grande mídia e a consciência pública. Mas há vozes discordantes
também, como alguns economistas que se sentem desconfortáveis com a forma
como a reestruturação neoliberal foi imposta, observando especialmente sua
tendência à desestabilização das condições sociais e, dadas as recorrentes
crises financeiras e os escândalos contábeis corporativos, também são
levantadas preocupações quanto à desregulamentação dos arranjos financeiros
e às dificuldades de garantir a transparência e a prestação de contas.
Novamente com a metáfora do jogo global (the global game metaphor),
a autora explica que esses jogadores concordam com os pressupostos e
objetivos do neoliberalismo, mas estão mais atentos aos perigos de aplicá-los de
forma tão rápida e indiscriminada. As respostas se concentram em "ajustar" a
implementação de políticas, especialmente para amenizar seus efeitos mais
prejudiciais. Nesse sentido, as regras do jogo não são fundamentalmente
desafiadas, mas os principais jogadores são encorajados a adotar uma visão
mais ampla, a fim de facilitar as práticas imediatamente devastadoras para que,
assim, o próprio jogo prossiga com menos conflitos e crises.

 Abordagens marxistas:
São abordagens que emergem da tradição marxista que têm em comum
a crítica ao capitalismo, que promove a concentração de recursos e poder em
uma minoria, às custas da maioria. A economia política global marxista
desenvolve explicações estruturais sobre como mercados, empresas e governos
interagem. Leva as instituições a sério e as analisa em relação aos diferenciais
de poder, tanto para manter desigualdades baseadas em classe quanto para ter
um papel corretivo em atenuar as hierarquias de classe. Outra variante do
marxismo apresenta as visões de Antonio Gramsci, prestando especial atenção
às questões da cultura e como a regra hegemônica ocorre através do
consentimento ideológico. Por exemplo, a ideologia do neoliberalismo é
promovida através de múltiplas mídias, que cultivam uma aceitação do
capitalismo como desejável e inevitável ("não há outra alternativa"). Sua ênfase
nos desenvolvimentos históricos é importante para esclarecer como os sistemas
são feitos e, portanto, podem ser alterados. Como os economistas liberais, elas
tendem a se concentrar no setor formal, mas também realiza contribuições
significativas para teorizar a informalidade.
O marxismo está associado à visão de que a formalização ou a
proletarização substituiria outras formas de trabalho à medida que o capitalismo
se desenvolvesse. Ao mesmo tempo, os marxistas mais próximos ao
materialismo histórico compreendem que a proletarização total é uma
contradição estrutural para o capitalismo. Eles argumentam que a acumulação
de capital depende não apenas dos lucros obtidos através de mecanismos
formais de produção e troca, mas também da acumulação de lucros através de
atividades econômicas não-capitalistas e/ou de atividades econômicas informais
que não são proletarizadas.
Uma dimensão dessa tese é que a busca do capital pelo maior lucro
implica manter um excedente ("exército de reserva") do trabalho que não é, no
momento, empregado e formal, mas potencialmente empregável. Esse
excedente aumenta os lucros por meio da manutenção da pressão declinante
sobre os salários, e disciplina os trabalhadores empregados pela ameaça de
serem substituídos por essas reservas. Em outras palavras, a disponibilidade de
mão-de-obra excedente obriga os trabalhadores a competirem uns com os
outros; esta competição aumenta a vantagem de barganha dos empregadores,
diminuindo o que eles precisam oferecer em termos de salários e benefícios. O
setor informal constitui parte desse excedente de mão-de-obra e tende a reduzir
os salários.
Em primeiro lugar, a evasão das condições de trabalho regulamentadas
evita uma variedade de custos para as empresas e diminui os custos médios de
mão-de-obra. Segundo, a concorrência direta de trabalhadores informais tende
a diminuir o número de trabalhadores mais bem pagos (formais) e, às vezes,
diminui o quanto eles são pagos. Dada essa dinâmica, o contrato salarial que
sustenta os arranjos formais de trabalho é apenas uma parte e não o conjunto
das atividades econômicas; a proletarização total prejudicaria a busca capitalista
expansionista de apenas as maiores taxas de lucro concebíveis.
Além disso, analistas marxistas reconhecem que a informalização não
é um fenômeno passageiro. Pelo contrário, é uma característica estrutural das
relações capitalistas e desempenha um papel na reestruturação associada aos
ciclos de expansão e recessão (boom-and-bust cycles) do capitalismo. Durante
as recessões econômicas, as atividades informais aumentam à medida que as
oportunidades de emprego formal diminuem. Da mesma forma, a novidade do
crescimento informal nas economias avançadas deve-se à seletividade
conceitual (o foco na produção industrializada, atividades formais, etc.) e a
relegar atividades informais a teorias de desenvolvimento (focadas em
economias pobres, do "terceiro mundo" e não industrializadas).
Para finalizar, a autora afirma que as abordagens marxistas nos ajudam
a entender a informalização como uma característica estrutural do capitalismo
(ligando a economia informal à formal através da pressão declinante sobre os
salários) e um processo cíclico de longo prazo (ligando a expansão das
atividades informais aos ciclos de acumulação). Por mais que sejam avanços
importantes no quesito dos estudos sobre a informalidade eles ainda
permanecem limitados, segundo a autora, de duas formas. Primeiro, as críticas
desses analistas raramente são ampliadas para além dos indicadores
econômicos e das classes. E, segundo, eles negligenciam de seus estudos a
reprodução social, o trabalho doméstico e a dinâmica intrafamiliar.

4. Questões mais amplas – Os custos ocultados do neoliberalismo

Neste tópico, a autora esclarece sobre alguns pontos que continuam


sendo deixados de fora das lentes liberais/neoliberais e marxistas e, portanto,
dificultando a compreensão sobre como a economia mundial está organizada e
sobre as consequências a longo prazo. Ela vai abordar questões mais amplas
que permanecem sem exame e revelar os custos ocultos do neoliberalismo.
No decorrer do texto vimos que o trabalho fora da economia formal não
está diminuindo, como esperado, mas aumentando com a globalização e durante
as crises econômicas. À medida que as condições econômicas se deterioram e
o fornecimento do bem-estar é reduzido, os indivíduos e as famílias são, assim,
pressionados a se engajar em atividades informais como estratégia para
assegurar a renda, da maneira que puderem. A maioria dos trabalhadores
informais são mulheres, migrantes e pobres urbanos, suas rendas geradas
permitem que sobrevivam, mas não que prosperem, sendo excluídos dos
supostos benefícios do neoliberalismo. Nesse sentido, a informalização
aproveita e agrava desigualdades baseadas em gênero, raça e hierarquias
econômicas.
Um componente significativo da informalização envolve atividades
realizadas para garantir a reprodução social - o trabalho que é caracterizado
como trabalho das mulheres. Por não serem valorizadas ou facilmente
quantificadas, essas atividades raramente são analisadas. Essa negligência se
deve em parte aos hábitos conceituais: os homens na esfera pública de poder e
trabalho “real” - isto é, remunerado - e as mulheres na esfera doméstica e nos
trabalhos de cuidados (caring labour) - isto é, não remunerados -. É também
devido a práticas institucionalizadas: por exemplo, disciplinas acadêmicas que
estudam a vida social como esferas separadas de investigação (psicológicas,
sociais, econômicas, políticas). Os críticos argumentam que o que é considerado
trabalho feminino e atividades informais é crucial para analisar a economia
política global.
Em suma, a autora argumenta que, para uma compreensão mais
adequada da política global, é necessária a inclusão do papel da informalização,
a análise de quem são os vencedores e os perdedores e as consequências da
exclusão de muitos dos supostos benefícios do neoliberalismo. A autora diz que
os analistas que estão mais atentos a essas questões são as feministas. Elas
fornecem os relatos mais abrangentes de reprodução social, trabalho com
gênero (gendered work) e informalização.

 A divisão do trabalho por gênero:


Segundo a autora, o feminismo não tem um significado único e há
muitas maneiras de pensar sobre como o patriarcado opera. Em geral,
economistas feministas analisam a relação entre o trabalho reprodutivo das
mulheres, a economia formal e o acúmulo de excedentes. Inclui-se a adição do
trabalho das mulheres na reprodução social (cuidados de crianças e idosos,
trabalho doméstico, etc.) a modelos teóricos existentes, examinando as
diferenças de gênero nos mercados de trabalho e nas condições de trabalho. As
economistas feministas do desenvolvimento internacional concentram-se nos
países em industrialização. Elas estudam não apenas como a reprodução social
e as atividades informais afetam o empoderamento das mulheres, mas também
como os valores e as estratégias de gênero afetam o desenvolvimento nacional
de maneira mais geral.
Economistas feministas que se identificam com o marxismo teorizam
sobre a relação do capitalismo com o trabalho das mulheres. Elas argumentam
que elevar e socializar adequadamente os futuros trabalhadores produz força de
trabalho para a economia formal. A teoria econômica deve abordar como os
próprios trabalhadores são produzidos antes que sua força de trabalho seja
disponibilizada para implantação informal ou formal.
As feministas também expandem as análises de sistemas mundiais que
se concentram nos domicílios como unidades básicas de análise. Embora os
domicílios sejam variados, dois pontos-chave emergem dessa pesquisa. Uma é
que o trabalho informal associado à domicílios (households) sustenta a dinâmica
capitalista e a lucratividade, mas é negligenciado na teoria econômica
dominante. Um segundo ponto é que - com exceção de uma pequena elite - os
salários, por si só, são inadequados para sustentar as famílias. Para sobreviver,
a maioria das famílias do mundo combinam renda salarial disponível com
atividades informais, apoio ao bem-estar social e/ou trabalho de
autoprovisionamento (do-it-yourself). Também é negligenciada a expansão do
"lar global" (global householding), à medida que os indivíduos ultrapassam cada
vez mais as fronteiras nacionais como parte da sustentação da reprodução social
e econômica domésticas.
O que liga essas várias observações é uma divisão do trabalho por
gênero que foi produzida historicamente, se estende por todo o mundo e atribui
responsabilidades diferentes a mulheres e homens. Essa divisão relega às
mulheres o papel primordial de sustentar o bem-estar da família e do lar,
despolitiza o trabalho socialmente necessário que as mulheres fazem e o fardo
desproporcional da responsabilidade que lhes é colocada quando as condições
econômicas degeneram. Os processos envolvem identidades de gênero
(provedor da casa, chefe de família) e ideologias (o trabalho masculino é por
dinheiro, o trabalho feminizado é por o amor).
Segundo a autora, os estudos empíricos de políticas de ajuste
estrutural, flexibilização e informalização se fundem na exposição de como se
esperam que as mulheres compensem e assumam (“take up the slack”) quando
o emprego masculino e os serviços públicos declinam. Para muitas mulheres,
isso significa trabalhar três vezes mais - o trabalho reprodutivo, o informal e o
formal.
Portanto, não são apenas as mulheres que sofrem os custos da
globalização neoliberal, mas todos aqueles trabalhadores informais e aqueles
com menos escolhas e excluídos dos supostos benefícios neoliberais.
 Os custos das exclusões
Novamente, a autora traz a metáfora do jogo para nos permitir ver o
mundo "inteiro" através de várias lentes. Do ponto de vista dos economistas
liberais e neoliberais, o crescimento é a resposta e o capitalismo irrestrito é a
maneira inevitável de alcançá-lo. De um ponto de partida semelhante, mas com
crescente atenção às desigualdades globais e aos perigos que elas
representam, vozes mais cautelosas estão pedindo reformas. Menos familiar é
uma série de perspectivas explicitamente críticas. Estas incluem uma variedade
de abordagens marxistas, algumas versões do institucionalismo, muitos
ambientalistas e uma variedade de críticas feministas.
Por começarem de posições diferentes, suas críticas são amplas.
Diferentes atores argumentam que a globalização neoliberal: aumenta as
desigualdades de classe, aumenta a riqueza e o poder das elites, falham em tirar
os pobres da pobreza, corrói os ganhos e as perspectivas do trabalho
organizado, piora o subemprego, desloca a agricultura de subsistência e a
produção artesanal local, aumenta o trabalho não-remunerado das mulheres,
alimenta a informalidade lícita e ilícita, reduz os padrões nas economias
avançadas, aumenta a vigilância dos trabalhadores, enfraquece as demandas
dos trabalhadores pela ameaça de perda de empregos, reduz a capacidade dos
estados, abastece mercados financeiros especulativos e gera riscos sistêmicos
devido à integração dos mercados financeiros.
Recomendações transformadoras são abrangentes e dependem de
questões particulares e da perspectiva dos críticos. Ajustes para suavizar os
efeitos negativos podem proporcionar alívio temporário, mas simplesmente não
são suficientes. Os custos do neoliberalismo para a maioria das pessoas são
simplesmente grandes demais. Assim, argumenta-se de forma variada sobre
diferentes premissas.
A autora argumenta sobre quais são as consequências em aceitar o
"senso comum" de que “não há alternativa” ao capitalismo e de que o
neoliberalismo é bom para todos. No curto prazo, as populações marginalizadas
enfrentam desafios assustadores: como garantir recursos imediatos para a
sobrevivência e o bem-estar da família e como manter o otimismo sob condições
estressantes e futuros pouco promissores. No longo prazo, as crescentes
desigualdades drenam o sentido de inclusão das pessoas em uma comunidade
global; aumento de sentimentos de frustração e desespero; reduzem a
probabilidade de pessoas trabalharem juntas por objetivos comuns; e minam os
princípios democráticos. Em conjunto, essas condições aumentam o
empobrecimento da maioria e a probabilidade de conflitos.
Essa perpetuação do “senso comum” tem diversas fontes. Como teorias
e limites disciplinares que resultam em uma resistência ao pensamento crítico; a
vantagem que isso gera à elite, aos estados ocidentais e aos grandes
empresários e seus pontos de vista “de cima para baixo” (top-down). Apesar de
defenderem processos "globais" e ideais democráticos, aqueles que promovem
o neoliberalismo dão pouca atenção a vozes e pontos de vista fora dos estados
ricos e poderosos. Por meio de suas lentes seletivas, a "realidade" nos países
em desenvolvimento, o "quarto mundo descartado", os guetos urbanos e as
famílias sobrecarregadas tornam-se invisíveis e, portanto, simplesmente não são
levados em consideração, não são “contados”.

5. Conclusões

Assim, a autoria conclui que desigualdades não se originam no


neoliberalismo. Mas da longa junção histórica do colonialismo, racismo,
patriarcalismo e desigualdade econômica dentro e entre as nações. O que
distingue o capitalismo contemporâneo é seu alcance global sem precedentes e
sua capacidade de moldar a maneira como "todos" pensamos. As corporações
controlam a maior parte da mídia mundial e seu objetivo principal é a busca de
lucros para os acionistas privados. Assim, a mídia dominante promove o
neoliberalismo, enfraquecendo o pensamento crítico e os processos
democráticos. Para aquelas pessoas que são contadas apenas uma história, é
normal que acreditem que "não há alternativa". Perspectivas críticas, realidades
vividas e visões alternativas são simplesmente "não contadas".