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CENTRO CIENTÍFICO CONHECER

CURSO:
AÇÕES DA ESCOLA CONTRA
O BULLYING
Módulo 1
“Tenho assimetria crânio facial e eu havia mudado de escola. Sofri e muito com os meus
colegas de classe, sendo caçoado. Muitas vezes pegavam o meu celular, desmontavam e
dividiam entre eles. Recebi apelidos, chegaram até a fazer uma história em quadrinhos para
me zoar. Usaram até um programa de rádio da escola para fazer isso.Um professor
participava das brincadeiras de mau gosto que faziam comigo. Entrava na zoeira. Ele ria.
Acaba incentivando os outros em vez de repreender. Cheguei a falar para ele que não
estava gostando daquilo, que não achava que era uma atitude de professor. Ele me ignorou
simplesmente. Nunca procurei a direção da escola.Eu tinha dores de cabeça muito fortes,
ficava muito nervoso, acabava descontando a raiva em quem só tinha amor a me oferecer.
Descontava nos meus pais, meu rendimento escolar caiu. Até chegar a um limite em que
meus pais perceberam. Comecei um tratamento psicológico e isso me ajudou a superar esta
dificuldade."
D.S. (25 anos)

Mas afinal o que é Bullying? O Bullying é um


fenômeno recente? No Brasil, existe legislação
Mas afinal o que é Bullying?
contra O Bullying é um
o Bullying?
fenômeno recente?
INTRODUÇÃO
Assistimos, cada vez mais, nos noticiários, nos jornais e nos meios de
comunicação em geral, o aumento da presença em nosso cotidiano de cenas e de atos
que envolvem os vários tipos de violência, desde a agressão física até xingamentos e
humilhações.
As agressões não têm um lugar específico para ocorrer, estão presentes em
qualquer ambiente em que as relações interpessoais existem, podendo ser
evidenciadas na rua, no trabalho, dentro de casa e na escola. A escola, independente
de sua localização ou poder aquisitivo da comunidade na qual está inserida, deveria ser
um local seguro para crianças e jovens, mas acaba se tornando um ambiente em que a
violência está presente no seu dia a dia.
Preocupadas apenas com o aprendizado dos conteúdos escolares, as escolas
acabam silenciando para os conflitos que ocorrem nas relações interpessoais entre os
estudantes, possibilitando que fenômenos como o bullying surjam nos ambientes
escolares.
Ainda que timidamente, o bullying tem ganhado espaço na mídia e se apresenta
como um grande problema social, e a falta de informações sobre este fenômeno gera
dúvidas a respeito de sua ocorrência, de suas características e de seu enfrentamento.
Embora pareça um fenômeno recente, o bullying ocorre há tempos nas mais
diferentes sociedades, porém os estudos realizados a cerca desse fenômeno são ainda
muito recentes.
Atualmente existe uma grande tendência em identificar o bullying em qualquer
situação, porém devemos ficar atentos à formas de violência, pois nem toda agressão
pode ser classificado como bullying. A violência que se faz presente cada vez mais em
nossa sociedade não é causada simplesmente pela vontade de causar algum dano ao
outro.Essa vontade vem acompanhada de uma bagagem sócio cultural construídas
pelos indivíduos a partir das relações estabelecidas ao longo de suas vidas.
Frente à realidade na qual estamos inseridos, repleta de preconceitos e
carregados de marcas de violência, vamos abordar neste curso a violência repetitiva e
intencional cometida entre seus pares, que se denomina bullying, sua causas,
consequências, maneiras de evitá-lo e como lidar com essa violência.
1. Compreendendo um pouco mais o termo

[...] Quando eu te encarei frente a frente não


vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto,
mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
[...]
(Caetano Veloso)

O termo bullying é derivado de uma palavra inglesa – bully, que traduzida


significa "valentão, tirano". Fante (2005) destaca que outros países adotaram
denominações distintas para este fenômeno: “mobbing” na Noruega e Dinamarca,
“mobbining” na Suécia e na Finlândia, “harcèlement quotidién” na França, “prepotenza
ou bullismo” na Itália, “yjime” no Japão, “agressionem unter shülern” na Alemanha,
“acoso y amebaza” entre escolares na Espanha e “maus-tratos entre pares” em
Portugal. Contudo, o termo bullying é conhecido mundialmente em prol de facilitar a
comunicação entre povos.
Esse termo, normalmente, ocorre nas relações interpessoais, em que há
uma relação desigual de poder, uma vez que, um lado da relação será caracterizado por
alguém que está em condições de exercer o seu poder, através da intimidação,
humilhação, atitudes agressivas sobre outra pessoa ou até mesmo um grupo mais
fraco.
Esse desequilíbrio de poder que há entre os protagonistas do bullying se dá
pelo fato do agressor possuir algumas características, tais como, “idade superior a da
vítima, estrutura física ou emocional mais equilibrada, ter apoio dos demais amigos de
classe, ser sociável entre os demais grupos da classe, tamanho superior", sendo que
tais atributos fazem com que a vítima se sinta inferior, não tendo condições de se
defender diante das ofensas, sejam elas verbais ou físicas.
Fante (2005) define de forma concisa o termo Bullying, facilitando a sua
compreensão. De acordo com ela:

[...] bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais


e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado
por um ou mais alunos contra outro (s), causando dor, angústia
e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações
que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de
grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de
outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos,
morais e materiais, são algumas das manifestações do
"comportamento bullying (FANTE, 2005, p. 28 e 29).

Tognetta (?????) afirma que, diante dessa situação de causadores e vítimas de


bullying, ambos precisam de ajuda, a saber:

Por um lado, as vítimas sofrem uma deterioração da sua auto-


estima, e do conceito que tem de si, por outro, os agressores
também precisam de auxílio, visto que sofrem grave
deterioração de sua escala de valores e, portanto, de seu
desenvolvimento afetivo e moral.

O fenômeno bullying não tem um alvo específico, independentemente de classe


social ou econômica, pode ocorrer em diversos ambientes, desde que exista relação
entre os sujeitos, como, nas escolas, nos locais de trabalho, nas famílias, nas prisões e
nos clubes.
A prática do bullying considerada muitas vezes pelos pais e professores como
brincadeiras de criança, briguinhas que envolvem xingamentos e ofensas, mas que
passam e, em alguns momentos são desvalorizadas e a até ignoradas, está longe de ser
um comportamento normal e aceito em um ambiente escolar.
O bullying, ao contrário, caracteriza- se por ser uma agressão que se apresenta
de forma velada, causando dor e angústia à pessoa que está sendo vitimada, podendo
levá-la à depressão, isolamento, baixa auto-estima, queda no rendimento escolar, e
até ao suicídio. As vítimas, muitas vezes, sofrem caladas, carregando o trauma das
situações de constrangimento que vivenciaram para o resto de suas vidas, gerando
consequências na fase adulta como problemas de interação e relacionamento com
outros sujeitos.
Oportuno mencionar que o comportamento agressivo por parte do autor do
fenômeno em questão geralmente ocorre pela falta da presença da família no dia-a-dia
da criança e até mesmo pela ausência de limites. Dessa forma, destaca Fante (2005):
É oportuno que os pais façam uma reflexão profunda sobre as
suas próprias condutas em relação aos filhos e sobre o modelo
de educação familiar, predominante em casa, que vem sendo
aplicado. Nem sempre os pais se dão conta de que certos
comportamentos que o filho manifesta são aprendidos em casa,
como resultado do tipo de interação entre os familiares que é
percebida por ele; muito menos procuram checar e refletir se o
que o filho está realmente aprendendo tem relação com aquilo
que “eles pensam” que está sendo ensinado.

Os pais então, devem elogiar constantemente as qualidades e capacidades de


seus filhos, para que a auto-estima dos mesmos não seja prejudicada. Outro aspecto
importante a ser mencionado é que “os pais devem estar atentos para não se
precipitarem ao considerar seus filhos vítimas de bullying”.

1.1 Decurso histórico do fenômeno Bullying

O bullying é uma realidade mais comum do que podemos imaginar. Ele sempre
existiu,mas não era estudado. Quando acontecia, a vítima sofria calada, ou “pedia para
sair” mudava de escola, cidade etc. No ambiente de trabalho, quando a vítima não
aguentava, pedia mudança de setor ou se demitia. Todo o mundo achava tudo muito
comum.
Chegavam até a colocar a “culpa” do bullying nas próprias vítimas. Todavia, foi
somente a partir da década de 1970 que começaram a ser realizadas pesquisas sobre o
assunto.
Foi Dan Olweus, então professor na Universidade de Bergen, Noruega, o
precursor dos estudos sobre o bullying, tendo chamado a sua atenção o número de
suicídios que ocorreram com crianças na Noruega na década de 1970.
Dan Olweus desenvolveu os primeiros critérios para detectar o problema de
forma específica, permitindo diferencia-lo de outras possíveis interpretações, como
incidentes e gozações ou relações de brincadeiras entre iguais, próprias do processo de
amadurecimento do indivíduo. Olweus pesquisou, inicialmente, cerca de 84 mil
estudantes, 30 0 a 400 professores e em torno de 1000 pais, incluindo vários
períodos de ensino. Um fator fundamental para a pesquisa foi avaliar a sua natureza
e a sua ocorrência.
Esse estudo constatou que, a cada sete alunos, um estava envolvido em caso de
bullying. Essa situação originou uma campanha nacional, com o apoio do governo
norueguês, que reduziu em cerca de 50% os casos de bullying nas escolas; tal fato
incentivou outros países, como Reino Unido, Canadá e Portugal, a promoverem
campanhas de intervenção.
De lá para cá milhares de casos começaram a ser diagnosticados, alguns com
finais trágicos, e o assunto tornou-se pauta constante de organizações educacionais,
trabalhistas, militares, de defesa de direitos humanos de centenas de países.

1.2 O Bullying e a Legislação brasileira

As práticas de bullying colidem frontalmente com direitos fundamentais


previstos no art. 5o da Constituição Federal de 1988, devendo ser também, por isso,
coibidas e combatidas por todos os brasileiros.
Nesse sentido, podemos citar, entre outras normas, que os atos de bullying
violam os seguintes direitos fundamentais constitucionais:
Art. 5o Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade,
à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes:
[...]
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma
coisa senão em virtude de lei;
III – ninguém será submetido à tortura nem a tratamento
desumano ou degradante;
[...]
X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo
dano material ou moral decorrente de sua violação;
[...]
XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de
paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar,
permanecer ou dele sair com seus bens;
[...]
XX – ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a
permanecer associado;
[...]
XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos
direitos e liberdades fundamentais;
XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e
imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei; [...]

Além da Constituição Federal de 1988, o Código Civil, o Código Penal, o Código


do Consumidor, entre outras leis, determinam a punição (cada um em sua área) de
práticas de bullying, sendo que o assunto começou tímido nos tribunais, mas nos
últimos cinco anos rompeu os obstáculos iniciais e decisões coibindo o bullying (nos
mais diversos ambientes) começam a surgir, sinalizando que o Poder Judiciário não
tolera tais condutas, punindo, assim, os responsáveis.
No Código Penal, em seu Art. 146 encontramos que constranger alguém,
mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer
outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o
que ela não manda, acarretará na pena de detenção de três meses a um ano, ou multa.
Outra lei que ampara os sujeitos que venham a sofrer bullying é a Lei 8.069/90
do Estatuto da criança e do Adolescente que no Art. 5 garante que "nenhuma criança
ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado,
por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. Esse artigo é complementado
pelo Art. 17 dessa mesma Lei, onde é esclarecido que o direito ao respeito consiste na
inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente,
abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores,
ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais. Em ambos os casos, o autor do
bullying sendo identificado não pode e nem deve ficar impune, pois a Lei 8.069/90 -
ECA, determina que os que praticam atos dessa natureza responderão a
procedimentos, ficando sujeitos cumprir medidas socioeducativas proporcionais ao
ato praticado.
Segundo a lei brasileira, aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica
obrigado a repará-lo. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de
culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente
desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de
outrem.
Os atos de bullying configuram atos ilícitos porque não estão autorizados pelo
nosso ordenamento jurídico. Pelo contrário, os atos de bullying são proibidos por
desrespeitarem princípios constitucionais (ex.: dignidade da pessoa humana) e o
Código Civil é claro ao determinar que todo ato ilícito que cause dano a outrem gera o
dever de indenizar.
O incapaz responde pelos prejuízos que causar se as pessoas por ele
responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes.
Como regra, somos responsáveis somente por nossas atitudes. Mas há
momentos em que o indivíduo pode responder por danos provocados pela conduta
de outra pessoa. Isso ocorrerá sempre que faltarmos com o dever de bem vigiar ou
escolher. São hipóteses de culpa in vigilando e in elegendo, respectivamente.
São também responsáveis pela reparação civil (art. 932 do CC):
I – os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua
autoridade e em sua companhia;
II – o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se
acharem nas mesmas condições;
III – o empregador ou comitente, por seus empregados,
serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes
competir, ou em razão dele;
IV – os donos de hotéis, hospedarias, casas ou
estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para
fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e
educandos;
V – os que gratuitamente houverem participado nos produtos
do crime, até a concorrente quantia.

Em todos esses casos, seja in vigilando ou in eligendo, a culpa não interessa a


não ser para efeito de ação regressiva, se for o caso. Por outros termos, não interessa
se os pais ou o empregador agiram ou não com culpa in vigilando ou eligendo. Deverão
pagar a indenização. No caso dos pais, não há direito de regresso contra os filhos. No
caso do empregador, a ação regressiva será bem fácil, uma vez que a prova da culpa do
empregado já terá sido feita na ação da vítima de dano. Ou seja, no caso dos pais, não
poderão alegar que os filhos praticavam atos de bullying, gerando dano, contra
terceiros e nada sabiam, pois há o dever de supervisionar os filhos. Os pais devem
orientar os filhos para que não sejam vítimas e, também, para que não se tornem
agressores. Havendo dano causado por seus filhos menores, por atos de bullying, os
pais devem indenizar a vítima.

Quer saber mais?


Acesse: http://www.youtube.com/watch?v=oEsLjGOMtr0
Referências

Brasil, Constituição Federal. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 01
abr 2014.

Brasil, Código Civil. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 01 abr
2014.

Brasil, Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm>. Acesso em: 01 abr 2014.

FANTE, C. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a
paz. São Paulo: Verus, 2005.

LEÃO, L. G. R. O fenômeno bullying no ambiente escolar. Disponível em:


<http://www.facevv.edu.br/Revista/04/O%20FEN%C3%94MENO%20BULLYING%20NO
%20AMBIENTE%20ESCOLAR%20-%20leticia%20gabriela.pdf>. Acesso em: 30 mar 2014.