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Os estudantes, a professora e a escola.

Autor: Guilherme, o maravilhado

Admito que a primeira visita que fui à escola levei comigo expectativas e
dores. Expectativas de concluir um projeto educacional, ansiedade pelo trabalho
docente, por conhecer os estudantes, a professora e a escola. Dores por estar com
medo de me dirigir à escola, medo de retornar a um estágio e reviver coisas
dolorosas decorrentes de preconceitos na última escola. Medo de não me sentir
preparado para o trabalho. Tanta ansiedade e medo começaram a perturbar meu
estado físico e emocional.
Enquanto me dirigia à instituição, senti realmente febre, dores de cabeça e
barriga, enfim, pensei que talvez seria melhor desistir e me preparar mais. Porém
me recordei das aulas de educação inclusiva. Nessas aulas aprendi que não
podemos esperar a escola estar apta à inclusão para ser feito, basta que seja
realizado assim que a necessidade aparecer. Percebi que não estar preparado para
aquele local educacional não é problema e que eu deveria me adaptar e aprender
junto com os estudantes, a professora e a escola.
Estava a poucos metros do portão quando decidi lembrar de Freire, não do
Paulo, mas de Zilda1, companheira de Paulo. Além dela, segui conselhos de minhas
professoras – loucas em diferentes maneiras – que alertaram para desapegar-me
das críticas ao sistema educacional.
Basta perguntar a qualquer estudante de licenciatura, qualquer professora ou
professor da rede pública e mesmo à população atendida na rede pública de ensino
que todos sabem destacar problemas na educação. Atualmente, até mesmo astros
da pornografia e apresentadoras de TV sabem apontar problemas na educação
pública. O pior é que os astros são ouvidos pelo governo. Enquanto o resto das
pessoas envolvidas…
Enfim, seguindo o conselho dessas mulheres incríveis, resolvi a entrar na
escola não para ser mais um a criticar, mas sim aprender com a escola, antes
mesmo de tentar realmente propor alguma proposta pedagógica. Passo então a
contar o que aprendi com os estudantes, a professora e a escola.

1 Tens certeza que o nome dela é Zilda?


Os estudantes
Aprendi que os estudantes estão na escola por motivos diferentes. Entre os
dias que estive na escola conversei com estudantes e presenciei ações de jovens e
adultos que me permitiram perceber que não importa tentar enumerar as
possibilidades que os fazem retornarem à escola, mas, sim, o fato de terem voltado.
Na minha vida costumo fazer analogias para justificar algumas de minhas
teorias. Eu comecei acreditar que a educação de jovens e adultos deve tentar
reparar danos que a sociedade causou a essa pessoa, reparar traumas do sistema
regular de ensino – que muitas vezes auxilia na evasão de estudantes e que vão
retornar a escola –, reparar atrasos de sistemas educacionais reguladores em que
alguns adultos viveram, reparar problemas sociais que impediram que jovens e
adultos não foram permitidos de estudar.
Não sou ingênuo e hipócrita a ponto de acreditar e talvez insinuar que
apenas um profissional da área da educação “dará conta” de reparar todos esses
pontos e outros tantos que não sou capaz de estimar. Mas, acredito, a união faz a
força.
Quando digo que faço analogias é porque penso que a educação de jovens e
adultos deveria ser parecida com o tratamento que biólogos e veterinários fazem
com os animais silvestres resgatados em cativeiro. O trabalho é coletivo e rápido,
tentando apagar traumas e maus tratos causados pela crueldade humana. Quem
retorna para escola como jovens e adultos, retornam cheios de traumas causados
pela crueldade e interesse humano. Quem serei eu nessa sala de aula? Alguém que
vai causar mais trauma a fim dos meus interesses humanos? Ou serei da equipe de
resgate, que mesmo não sabendo tudo, vou aplicar tudo que sei para reduzir os
danos feitos por meus semelhantes?
Aprendi que os estudantes têm um espírito coletivo muito forte, mesmo entre
a separação invisível entre os jovens e adultos, se ajudam em seus nichos -
achando que a professora não percebe.
Entre os problemas de matemática ou as conjugações do tempo verbal, as
idas e vindas na mesa de seus pares para auxiliar ou tentar compreender o
exercício. Jovens e adultos comemoram a evolução de seus semelhantes em sala
de aula. Surpreendi-me a começarem a fazer festa quando um colega terminou de
ler o texto pela primeira vez.
Juro que fiquei encantado e até hoje me juntam lágrimas nos olhos ao
lembrar-me da cena. Ficarei feliz se comemoraram meu aprendizado com eles.
Aprendi e recordei que alguns estudantes são um pouco mais “rebeldes” e
“bagunceiros”, pois essa é a ferramenta utilizada para chamar atenção. Tudo muda
quando se dá atenção. O problema é que atenção demais atrapalha o rendimento e
a concentração dos demais em sala de aula. Talvez, como dizia Freire, agora o
Paulo, talvez seja necessário dar autonomia, mas também ter disciplina.
Aprendi que os sonhos dos estudantes motivam a voltar à escola.
Aprendi que bumbum de estudante fica dolorido quando fica muito tempo
sentado - no primeiro dia de observação quase tive um treco de ficar tanto tempo
colado na cadeira.
Aprendi receita de torta, palavras novas da Cultura gaúcha, gírias novas que
jovens pelotenses usam.
Entendi que aprendi tanto com os estudantes, que fica confuso pontuar o
tanto que A PREN DI. Lógico, o sociointeracionismo explica. Veja depois o que direi
sobre.

A PROFESSORA
Conheci a professora antes mesmo de conhecer a turma, passei na escola
uns dias antes, procurei por ela, sentamos e conversamos um pouco. Ela me relatou
que trabalha como professora há mais de 30 anos e que a educação mudou muito
desde então. Concordamos que quem faz as políticas educacionais deveria estar
mais dentro do dia a dia da escola.
Disse-me que, atualmente, trabalha 60 horas semanais – 40 como Vice-
Diretora da escola e as outras 20 com a turma da EJA observada. Confesso que, no
primeiro momento, me senti assustado com a presença da professora, ainda mais
que ela integra a direção da instituição. Mas, no primeiro dia de aula, percebi o
quanto eu era ignorante com tratos de sala de aula. E sua autoridade estava
reservada para o turno da tarde. Naquele momento, percebi o quanto aquela mulher
é maravilhosa.
De uma narrativa – A princesa e a ervilha - ela conseguiu trabalhar vários
temas transversais dos PCNs. A partir deste conto clássico, conversaram de ética,
sociedade, política, gênero, diversidade, respeito, direitos humanos, consumo,
enfim, sempre trazendo para a realidade que vivem e pensam.
Aprendi com a professora que, às vezes, é necessário ter “pulso firme”, pois
os alunos ainda não entendem o quanto aquele momento é importante para eles,
não conseguem compreender “por que estudar matemática se quero jogar futebol”.
No entanto, a professora acredita em seus alunos. Às vezes, ter pulso firme é para
que o estudante não desista.
Aprendi com a professora coisas que eu ainda não havia aprendido no meu
ensino regular. Foi engraçado quando eu me percebi olhando para o quadro e
pensando “ahhhhh”.
A professora me disse que não planejava aula no papel, porém, eu consegui
encontrar na sua prática planejamentos e sequências de atividades. Eu aprendi que
a professora estimulava seus estudantes e respeitar seus processos. Aprendi que
faz atendimento direcionado com base nas suas anotações em diário de classe.
Aprendi que ela dá segundas chances para receber trabalhos atrasados. Ela
estimula jovens e adultos a se encontrarem para estudar.
Aprendi que, mesmo com problemas graves, a responsabilidade que tem
com seus estudantes, não permite que ela desista da sua profissão. Aprendi com
ela que trabalhar como professor de EJA é terapia, é prazeroso, é multidisciplinar.

A ESCOLA
Conheço a escola antes mesmo de conhecer a professora, antes mesmo de
conhecer a turma. Quando cheguei a Pelotas e descobri, na esquina da Rua
Tiradentes com entrada para a Rua Almirante Barroso, existia uma escola que
trabalhava com a Educação de Jovens e Adultos, imaginei fazer meu estágio ali.
Quando surgiu a proposta da observação do estágio cogitei a ideia com
minha orientadora e meu orientador. Passaram-me o contato do Coordenador e
disseram para que eu o procurasse. Quando me dirigi a ele, percebi que a escola se
preocupa com a EJA, o Coordenador disse que precisava conversar com as
professoras. Justificou que algumas práticas de estágios proporcionaram evasão no
passado e solicitou que eu esperasse que me daria uma resposta. Quando retornou
com a confirmação, disse que precisava dos documentos para começar a
observação, mas que poderia conhecer as dependências da escola. Combinamos
de eu retornar outro dia e com material para anotar.
As dependências
Quando se entra pela secretaria da escola, logo na entrada se encontra a
Biblioteca, ao lado esquerdo, e a sala dos professores, no direito. Entrei na
Biblioteca, porém a responsável não estava. Encontrei muitos livros didáticos,
literatura infantil, alguns livros de pesquisas, mapas, cadeiras organizadas e
enfileirados, duas mesas para estudos. Os livros estavam organizados em estantes
de madeira. A sala dos professores também similar a de muitas outras escolas.
Uma mesa grande de centro com cadeiras em volta, quadro de avisos, café, uma
pia.
Mais ao fundo, ainda na secretaria, do lado esquerdo se encontra a sala da
gestão, alguns armários e banheiro de funcionários. Do lado direito, um corredor
que dá acesso ao piso superior, uma escada e embaixo da escada o gabinete da
secretaria.
Ao subir as escadas, do lado direito, existe uma sala de informática – os
alunos da EJA têm atividades nesta sala às quartas feiras – e, do lado esquerdo,
duas salas de aula que são utilizadas para 1ª e 2ª anos da EJA.
Ao retornar pela escada, para quem vai sentido ao gabinete da gestão, no
meio do prédio, do lado direito, existe uma porta que dá para o pátio externo. A
primeira coisa que vi ao atravessar a porta foi a quadra e algumas salas de aula ao
fundo. Logo na saída, existe uma rampa de acesso.
Percebi que existem estudantes jovens e adultos com necessidades
especiais. Ações inclusivas são pensadas na escola. Descendo a rampa encontra-
se o acesso às salas de aula que jovens e adultos estudam no turno da noite. A
ordem das salas são as sequências curriculares da EJA. A primeira sala, é a do
terceiro ano, a seguinte, do quarto ano – a que vou atuar –. As demais são quinto e
sexto ano.
Em seguida existe o refeitório e, durante os dias que estive na escola,
percebi que estudantes da EJA frequentam o local na hora do intervalo. O cheiro
das refeições é maravilhoso. Qualquer dia aceito o convite dos jovens e adultos e
vou comer com eles. As salas seguintes também atendem às outras séries da EJA,
em sequência até completar o nono ano. Existe entre elas o banheiro masculino e
feminino e um playground que fica fechado à noite.
A escola não é apenas um prédio. É, também, as pessoas que trabalham e
estudam no estabelecimento. Conheci pessoas maravilhosas que se preocupam e
interagem com os jovens e adultos. Não conheço toda a equipe que trabalha na
escola, mas todas que conheci, até o momento, me trataram com respeito e me
mostraram em ações as parcerias com estudantes. Quando me reconhecem como
parte do grupo, fico muito feliz. Chamam-me de professor!

A leitura, a Biblioteca e a sala de aula.


Faz-se necessário contar um pouco mais sobre a Biblioteca e sua
responsável. Também é importante relatar o que encontrei em sala de aula.

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