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Revista

Aeronáutica
ISSN 0486-6274 Número 301
2018

60
EDIÇÃO COMEMORATIVA

ANOS
Aeronave Gripen NG.
Capa comemorativa
dos 60 anos da
Revista Aeronáutica

Índice
3 MENSAGEM DO PRESIDENTE 23 HOMENAGEM A SANTOS-DUMONT
Maj Brig Ar Marco Antonio Carballo Perez EM PARIS
Ten Brig Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez

4 EDITORIAL
Redação
24 GUERRA
QUESTÕES FILOSÓFICAS
5 NOTÍCIAS DO CAER Araken Hipolito da Costa
Redação Cel Av
*Nota: na citação da
Revista Aeronáutica nº1,
foi mantida a ortografia
8 A GEOPOLÍTICA ATRAVÉS
DOS TEMPOS 27 UMA BREVE HISTÓRIA DA GUERRA vigente em 1958

Gilberto Pedrosa Schittini

MENSAGEM DO PRESIDENTE
Manuel Cambeses Júnior
Cel Av Ten Cel Av

10 AS INJUSTIÇAS INERENTES 34 ...E A PARADA SEGUE


AO SISTEMA POLÍTICO E À
ESTRUTURA DE NOSSO ESTADO
Ives Gandra da Silva Martins
O SEU DESTINO
Raul Galbarro Vianna
B imestre de novembro/dezembro dos idos de 1958! Apenas
doze anos após a criação do nosso Clube, nascia, há 60 anos,
a nossa memorável Revista Aeronáutica, agora na sua 301ª edição,
Para aqueles que desejarem rever algum exemplar, informa-
mos que o Departamento Cultural possui todas as 301 edições
Cel Av arquivadas e digitalizadas, disponíveis para consulta, bem como
Jurista
com a invejável marca alcançada de um exemplar editado a cada um catálogo com o índice geral de todos os artigos publicados
dois, quatro meses. em todas as edições. É ideal para pesquisadores. Existe, ainda,
14 COLÔMBIA: AMADURECIMENTO 37 OPERAÇÃO HOWEVER No editorial daquele primeiro número, já era ressaltado que: a possibilidade de se ler todos esses exemplares no nosso site
DEMOCRÁTICO Maj Brig Ar Carlos Sergio de Sant’Anna Cesar (...) êste órgão da imprensa especializada é precìpuamente o
Ricardo Vélez Rodríguez
www.caer.org.br, no link Revista.
Doutor em Filosofia porta-voz dos oficiais e civis dos quadros da Aeronáutica (...)*. Celebrar os 60 anos da Revista Aeronáutica é motivo de
Passadas essas seis décadas, as orientações originais perma- orgulho e júbilo, e este é o justo momento de agradecer e para-
40 ESQUADRÃO “ÁGUIAS DE FOGO”
16 LÍNGUA PORTUGUESA Ten Brig Ar Sergio Pedro Bambini
necem inalteradas. É certo que, além da importante colaboração benizar todos aqueles que, ao longo dessas décadas, dedicaram
E CULTURA DA PAZ dos nossos oficiais, atualmente também publicamos prestimosos seus melhores esforços para perpetuar esse importante veículo;
Marco Americo Lucchesi artigos de renomadas autoridades civis, que emprestam prestígio e todos os assíduos colaboradores que, com suas genialidades,
Professor
44 OS DIREITOS DA RELIGIÃO ao nosso veículo informativo. nos emprestaram suas visões políticas, filosóficas, estratégicas
Fulton J. Sheen Saboreando as amareladas páginas dessa histórica edição, e operacionais, bem como vários causos engraçados dos tempos
19 DIGNIDADE NACIONAL FRENTE Filósofo vejo, com alegria, artigos assinados pelos então Brigadeiros Márcio vividos. A todos, os nossos sinceros agradecimentos!
À IDEOLOGIA DO CONFLITO de Souza e Mello e Gabriel Grüm Moss (ex-Ministros da Aeronáutica Por fim, auguro vida longa à Revista Aeronáutica, que tem sua
Percival Puggina
Arquiteto e Escritor e ex-Presidentes do CAer); Joelmir Campos de Araripe Macedo, história estritamente ligada ao nosso Clube, entidade de classe
48 MONUMENTO ALUSIVO também ex-Ministro; e do então Cap Lauro Ney Menezes, um dos dos oficiais da FAB. Que venham outros 60 anos!
ÀS ORIGENS DO MINISTÉRIO
20 TRADUZINDO HIERARQUIA DA AERONÁUTICA. O RESGATE ícones da nossa Aviação de Caça. Dentre as suas sessenta páginas,
E DISCIPLINA DE UMA PEÇA HISTÓRICA consta uma matéria sobre a inauguração do Destacamento da Maj Brig Ar Marco Antonio Carballo Perez
Gen Ex Marco Antônio de Farias Brig Ar Clovis de Athayde Bohrer Base Aérea de Brasília. Um deleite manusear esta primeira edição! Presidente do CAer
NOTÍCIAS do CAER
BAILE DO AVIADOR
A Sede Central do Clube de Aeronáutica
teve a honra de sediar o famoso Baile
do Aviador, no dia 26 de outubro. Evento de
congraçamento dos membros da Família
Aeronáutica, esta é uma festividade assaz
importante para a Força Aérea Brasileira. O
Dia do Aviador e da FAB, também comemo-
rado no dia 23 de outubro, rememora o dia
em que o brasileiro Alberto Santos-Dumont
A primeira Revista Aeronáutica
alçou voo com seu mais pesado que o ar:
foi publicada em novembro/dezembro de 1958, o 14-bis, no Campo de Bagatelle (França),
portanto esta edição nº 301 (out./nov./dez. 2018) realizando o primeiro voo autônomo da
registra seus 60 anos de existência. História da Aviação.
A Revista Aeronáutica construiu sua história na consolidação do elo entre o passado, O baile teve inicio às 22 horas e trans-
correu até as três horas e trinta minutos,
o presente e o futuro, que se confundiram com a epopeia do próprio Ministério da Aeronáutica.
com muita animação e shows diversos.
O principal objetivo de sua criação é transmitir as ideias, os estudos, as reflexões
Logo na entrada, que foi feita pelo INCAER,
sobre a aeronáutica civil e militar e sobre o Brasil no contexto das nações. já se podia ouvir um saxofonista, com sua
O conteúdo da Revista Aeronáutica alimenta o estreitamento dos laços de solidariedade bela melodia, dando as boas-vindas aos coloridas e lasers. Enquanto isso, na pista de
entre oficiais e civis da Força Aérea, bem como a manutenção das tradições, convidados. Podia-se apreciar também a dança montada na área descoberta, o ritmo
que significa cultivar os valores morais e éticos, o amor à terra dos nossos pais, Exposição Cultural realizada pelo Centro frenético foi do DJ da banda, que conquistou
a identidade cultural e a consciência histórica de Pátria. de Documentação da Aeronáutica. O evento os jovens oficiais com músicas modernas e
É certo que a Revista não tem perdurado sem o respaldo da visão daqueles contou com aproximadamente 750 pessoas, eletrônicas.
que conduzem o Clube de Aeronáutica, bem como do apoio de nossos que se divertiram em diversos ambientes A decoração ficou a cargo de Leonardo
estrategicamente criados no Salão Marechal Inácio, em conjunto com a Comissão do
associados e, é assim, jubilosos de alegria, que comemoramos nossos 60 anos.
Ivo Borges e no jardim tropical do Clube de evento. Exuberante, esta seria a palavra cor-
Aeronáutica. reta para descrever o que se viu: os lustres,
A execução e coordenação da festa ficou o mobiliário, a decoração das mesas e do
a cargo da DIRAP, na pessoa do seu Diretor, Salão, tudo de muito bom gosto e requinte,

EDITORIAL
Maj Brig Ar Martins. à altura da importância da comemoração do
A atração da noite foi a Banda Palace, Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira.
que se apresentou no Salão com oito bai- O bufê foi servido pela Nautilus Festas, que
larinas, proporcionando um show à parte. ofereceu coquetel, jantar, mesa de frios e
A Redação Coreografias estonteantes foram embaladas bufê de comida japonesa.
ao som das músicas dos anos 80 e 90, Indubitavelmente uma noite memorável,
acompanhadas por um espetáculo de luzes de muita alegria!

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NOTÍCIAS do CAER
MEMBRO DO GRUPO DE ESTUDOS É AGRACIADO
COM MEDALHA PELA AERONÁUTICA
E m cerimônia realizada em
Washington-DC, no dia 17 de

SEMINÁRIO GUERRA AÉREA


outubro, na presença de mais de
200 representantes diplomáticos e
militares das Forças Armadas dos
Estados Unidos, Canadá, América
Latina e América do Sul, o Brig Ar
O Seminário sobre Guerra Aérea foi
realizado no dia 25 de setembro, no
Salão de Convenções do Clube de Aero-
Alcides Teixeira Barbacovi, Adido
náutica, como parte da programação do
da Aeronáutica nos EUA e Canadá,
IX Curso do Pensamento Brasileiro.
conduziu a cerimônia de imposição
O evento foi idealizado pela ABRA-PC
de condecorações a 25 agraciados.
(Associação Brasileira de Pilotos de Caça)
Nesta mesma solenidade, o Eng
e contou com a parceria do Departamento
Antonio Carlos Gomes Siqueira rece-
Cultural do CAER. O auditório estava lotado,
beu a Medalha Mérito Santos-Dumont
com cerca de 70 participantes. Teve início
por seus serviços prestados como
Brig Ar Barbacovi e esposa com o Eng Antonio Carlos às nove horas com término ao meio-dia,
pesquisador do Grupo do Pensamento Gomes Siqueira e esposa, que é filha do herói quando foram hasteadas as bandeiras do
Brasileiro do Clube de Aeronáutica. da Segunda Guerra Mundial, Saul Gerlich
Brasil, do CAER e do 1º GAvCA, seguindo-se
um almoço festivo.

PICADINHO “JESUS ESTÁ CHAMANDO” A sequência do evento contou com a


apresentação do Cel Av Araken, Diretor do
Da esq. para a dir.: Cel Av Póvoas, Ten Brig Ar Mendes, Ten Cel Av Schittini, Brig Ar Quírico,
Cel Av Araken e Brig Ar Bhering

N o último dia 6 de outubro a Associação Brasileira de Pilotos de Caça realizou no Clube de Aeronáu- Departamento Cultural, que palestrou sobre
tica, Sede Central, o tradicional almoço comemorativo do desembarque do 1º Grupo de Aviação de as Questões Filosóficas da Guerra. Dando
Caça na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, ocorrido há exatos 74 anos, em 6 de outubro de 1944. continuidade apresentou-se o Ten Cel Av
O evento contou com a presença do Comandante da Aeronáutica, Ten Brig Ar Nivaldo Luiz Rossato, Schittini com o tema A Breve História da
além dos ilustres Ten Brig Ar Carlos de Almeida Baptista, ex-Comandante da Aeronáutica; Maj Brig Ar Guerra. Encerrando o Seminário, foi a vez de
Marco Antonio Carballo Perez, Presidente do Clube de Aeronáutica; e Maj Brig Ar Silas Rodrigues, piloto o Cel Av Póvoas proferir palestra com o tema
de Caça mais antigo ainda vivo, formado em 1946, no primeiro Estágio de Seleção de Pilotos de Caça Pensamento Estratégico Militar da Amazônia.
(ESPC). Além deles, também fizeram parte da assistência, membros do Alto-Comando, os pilotos de O evento contou com a presença de di-
Caça do passado e do presente, além de seus familiares. versas autoridades da Aeronáutica brasileira
Nas palavras do Presidente da ABRA-PC, Brig Ar Teomar Fonseca Quírico, muito mais que o desem- como o Ten Brig Ar Mendes, Presidente da
barque de uma Unidade de combate na Itália, o que se comemorava na ocasião era o ingresso, na Segunda
CFIAER (Caixa de Financiamento Imobiliário
Guerra Mundial, da Força Aérea Brasileira e da própria Nação Brasileira, com o objetivo de defender valores
da Aeronáutica); o Ten Brig Ar Seixas, parti-
e princípios tão caros à sociedade, e que estavam sendo ameaçados: a democracia, a soberania, a paz
cipante do Curso do Pensamento Brasileiro;
social, a integridade do patrimônio nacional e o progresso.
o Brig Ar Quírico, Presidente da ABRA-PC;
além do Brig Ar Bohrer e Brig Ar Bhering,
conselheiros do INCAER.

Hasteamento
6 das bandeiras 7
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Manuel Cambeses Júnior
Cel Av

A GEOPOLÍTICA ATRAVÉS DOS TEMPOS


Membro emérito do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil,
membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, pesquisador
associado do Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do
Exército e conselheiro do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.
mcambesesjr@gmail.com

A
s grandes transformações que no alvorecer do século X X e atingiu cia a esta ciência durante os anos 1930 Conferência de Yalta, onde ditaram as basicamente a exercer o controle em parâmetros ordenadores da Geopolítica,
ocorreram no mundo nas duas grande difusão durante a primazia do e 1940 do século passado, como meio premissas ordenadoras do mundo pós- determinados espaços terrestres e ma- o mundo teria sido arrasado por uma
últimas décadas, dentre as quais regime nazista. O general alemão Karl para atingir o poder global. -guerra e que, certamente, moldaram os rítimos considerados chaves, o que se hecatombe nuclear.
tem um grande peso a expansão univer- Hausshofer modernizou a Geografia A utilização propagandística da paradigmas mantenedores da Guerra Fria. materializa por meio de uma gravitação Após a queda do Muro de Berlim,
sal do espaço cibernético, carrearam, Política utilizando-a como instrumento Geopolítica acarretou, após a derrota Entretanto as condições que emol- estratégica e econômica, sem necessida- que pôs fim à Guerra Fria, a Geopolítica
como consequência natural, notáveis que justificasse a expansão da Alemanha alemã na Segunda Guerra Mundial, seu duravam o conflito Leste-Oeste e os de de perpetrar uma anexação territorial retomou o interesse perdido e voltou a
modificações na geografia humana do durante o Terceiro Reich e desenvolvendo descrédito e esquecimento, sobretudo no ideais democráticos do mundo ocidental do tipo formal. crescer ao amparo das tensões interna-
planeta. Mudanças que se traduzem em as teorias do espaço vital do geógrafo âmbito acadêmico. Não obstante, alguns fizeram modificar substancialmente A expressão prática desta visão está cionais surgidas com o desmembramen-
uma reinterpretação histórica da Geopo- alemão Friedrich Ratzel (Lebensraum), segmentos, principalmente militares e seus fundamentos e objetivos. Daí se consolidada no Tratado de Defesa do to da União Soviética. É nesse cenário
lítica e no questionamento de muitos de apoiadas pelo professor sueco Rudolf diplomatas, seguiram interessados por originaram novas teorias emanadas Atlântico Norte (OTAN) e foi sobejamente que emergem os Estados Unidos, como
seus pressupostos, os quais eram con- Kjëllen. Países como a Rússia, a China e este ramo da Geografia, no qual podiam por potências como Inglaterra, França testada com a crise dos mísseis, ocorrida a superpotência única, sem contrapesos
ceituados de forma determinística pelo o Japão também deram grande importân- ser lidos os acordos explicitados na e Estados Unidos, que se orientaram em 1962. Fica bastante claro que sem os imediatos. Esta situação os incentiva a
discurso clássico das ciências políticas. iniciar o desenvolvimento de uma política
Denominamos de Geopolítica a de poder tendente ao controle do mundo,
ciência que pretende interpretar os e que tenta legitimar sobre as bases de
fenômenos que permeiam a política ser o vencedor da Guerra Fria e de sua
nacional ou internacional no estudo superior qualidade econômica, cultural
sistemático dos fatores geográficos, e militar. Dissipa-se assim o tradicional
econômicos, sociais, raciais, culturais conflito Leste-Oeste e começam a ser
e religiosos. Desde a criação do termo mais notórias as diferenças no que
pelo renomado geógrafo sueco Rudolf concerne a níveis culturais e de desen-
Kjëllen, em 1916, em seu famoso livro, volvimento do eixo Norte-Sul.
que consagra o Estado como organismo O Estado-Nação continua sendo
vivente, a Geopolítica desenvolveu seu o elemento básico do sistema inter-
conceito básico segundo o qual os Es- nacional que aglutina a identidade
tados possuem muito das características nacional, a coesão de um povo e
dos organismos viventes. mantém a sua soberania. Entre-
Ao mesmo tempo, se anuncia a ideia tanto já não constitui o único ator
de que um Estado teria de crescer, relevante, e a soberania muitas ve-
expandir-se ou morrer dentro das zes deve subordinar-se à conveni-
fronteiras vivas. Devido a isso é que ência de acatar as regras impostas
tais fronteiras têm uma natureza pela globalização. No cenário atual
dinâmica e são susceptíveis a surgem novos e atuantes atores.
mudanças. A Geopolítica é Entre estes podemos enumerar os
uma ciência que, por meio da blocos econômicos regionais, as
Geografia Política, da Geogra- reagrupações de Estados objetivando
fia Descritiva e da História, a defesa mútua, as grandes empresas
estuda a causalidade espacial multinacionais e as organizações não
dos acontecimentos políticos governamentais. A Geopolítica, no
e seus futuros efeitos. entanto, segue vigente, com novos
A Geopolítica teve gran- atores e cenários, porém em franco
de aceitação na Alemanha desenvolvimento n
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Ives Gandra da Silva Martins
Jurista
igm@gandramartins.adv.br

AS INJUSTIÇAS
INERENTES AO
SISTEMA POLÍTICO
E À ESTRUTURA
DE NOSSO
ESTADO
O
Brasil é uma federação maior que reforma previdenciária e esta inviabiliza
o Produto Interno Bruto (PIB), o desenvolvimento nacional.
que não perdeu sua origem de A corrupção – leia-se também con-
Estado Unitário. Teoriza a justiça social cussão, parece ter raízes mais profundas
e pratica o corporativismo burocrático do que a Lava Jato desventrou. Seu
que inviabiliza seu desenvolvimento. Por combate ensejou insegurança jurídica,
isto cresce menos que outras nações pois possibilitou um ativismo judicial que
emergentes. ultrapassou, e muito, os limites consti-
Muitos de seus estados deveriam tucionais do direito de defesa. Embora
ser territórios, pois não têm densida- necessário o combate ao desvio de di-
de financeira para se autossustentar, nheiro público, tal combate deve ser feito
acarretando suas estruturas políticas, nos limites da Constituição elaborada por
um peso excessivo e desnecessário à legisladores, e não naquela escrita pelos
população. juízes de todas as instâncias.
O corporativismo, a corrupção e o E o dinheiro público é desbaratado
desperdício de dinheiro público são a nessas áreas, com privilégios, conces-
marca da falência orçamentária da União, sões, benefícios, desvios, más aplicações
que com carga tributária superior à de de tal ordem que, se esses recursos
países como Estados Unidos, Coreia do fossem administrados por uma empresa
Sul, China, Japão e Suíça convive com privada, tal nível de desperdício a levaria
déficits permanentes e um endividamento rapidamente à falência, sem passar por
beirando os 80% do PIB. qualquer tipo de recuperação judicial.
O corporativismo da burocracia, nas Em face deste quadro, quero lembrar,
três esferas da federação, inviabiliza a per functoriamente, algumas noções
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fundamentais do que é o Estado para que Utopia) ou de Tommaso Campanella – que que sintetiza o pensamento dos demais forma mais eficaz de, sem restrição dos a escolha de seu destino, de seus gover- tar-se toda ação especificamente política.
se compreenda que o país tem de mudar em 1602 escreveu A Cidade do Sol. Nem em bons ou maus. direitos humanos, pacificá-los, em face nantes, ou por eleição ou pela aceitação Admitamos que as distinções últimas
definitivamente seu perfil e sua trajetória irei ao cinismo pragmático de Nicolau Não é a forma de exercício do poder da natureza humana tendente ao mal, dos governantes que lhe são impostos no âmbito moral sejam bom e mau; no
para o caos. Maquiavel, em O Príncipe. Começo pela ou a forma de conquista que faz de um enquanto Rousseau, a partir da natureza à força. estético, belo e feio; no econômico, útil
O Estado é uma sociedade civil po- análise do Estado Moderno, estudado na governo bom ou mau, mas seu exercício. boa do homem, vê no Estado a mútua As quatro teorias sofrem restrições e prejudicial ou, por exemplo, rentável
liticamente organizada, a partir de seus ciência política, ou seja, das diversas Tanto é verdade que a classificação de um colaboração dos indivíduos integrantes exegéticas: a primeira, por esquecer a e não rentável. A questão, então, é se
três elementos essenciais: povo, território teorias que conformam a discussão sobre governo como bom ou mau independe de um povo, para superar suas limitações natureza humana; a segunda, por imputar também existe uma distinção peculiar não
e poder. Este é o sentido lato que se dá o perfil do poder, nos tempos contem- das formas distintas de conquista e de individuais e criar condições de cresci- a Deus responsabilidades de má escolha, semelhante ou análoga às demais, porém
ao Estado. Em seu sentido estrito, é o porâneos. exercício. mento generalizado. sabendo-se apenas, pelo Velho Testa- independente delas, autossuficiente, e
governo constituído pela sociedade ou o Necessária se faz, entretanto, uma De rigor, numa subdivisão mais am- Nas duas teorias contratualistas, a mento, que Deus outorgou um rei a Israel, como tal evidente, como critério simples
governo imposto à sociedade. rápida digressão sobre o direito e a pla, são os governos separados em seis partir de concepções diversas de natureza a pedido do povo, cansado dos juízes; a do político, e em que ela consiste.
O conceito de Estado também pode política. grupos, a saber: monarquia, aristocracia humana, Hobbes vê também no Estado terceira, por fotografar a História, mas A distinção especificamente política
ser examinado em conjunto com ou- A política e o direito se interligam no e política, formas boas; e democracia, a personificação coletiva desta unidade sem se aprofundar nas razões do poder a que podem reportar-se as ações e os
tros conceitos, como o de nação, mais pensamento filosófico desde os primei- oligarquia e tirania, formas más. sistêmica que Rousseau não vislumbra, estatal; e, a quarta, não é de hoje a melhor motivos políticos é a discriminação entre
vinculado à noção de povo, ou seja, a ros escritos, sendo que Arnold Joseph A monarquia é a melhor das formas razão pela qual, para Rousseau, o acordo corrente do jusnaturalismo, porque inclui antigo e inimigo. Ela fornece uma deter-
comunidade com os mesmos ideais, Toynbee atribui a cinco grandes pensa- boas e a tirania a pior das formas más, entre os homens, a fim de gerar o Estado, a participação divina na aceitação con- minação conceitual no sentido de um
língua e cultura que se fortaleceram e dores do mundo curiosa interligação na pois ambas representam governo de é necessariamente bom, como o é o Esta- creta de cada governante por parte da critério, não como definição exaustiva ou
desejaram viver em conjunto (povo). Um percepção de que o homem luta desde um homem só. Se bom o governo, a do (o contrato social). Já para Hobbes, tal sociedade. Esta última corrente coloca o especificação de conteúdos. Na medida
segundo conceito é o de pátria, que é de priscas eras, para desvendar os misté- monarquia é excelente, porque o homem contrato é imprevisível, embora inevitável, direito natural como elemento limitativo em que ela não é derivável de outros
rigor, o território onde uma nação vive. E rios entre o bem e o mal, a saber: Isaías, bom, que governa, não tem problemas a podendo gerar o Estado do Poder Aético da soberania e da condução do povo, sen- critérios, corresponde, para o político,
o outro é o de soberania, independência Confúcio, Buda, Pitágoras e Zaratustra. dividir para obter consenso, mesmo com (Leviatã). As duas teorias são, pois, con- do melhor que as demais, e pior do que a aos critérios relativamente independen-
e autossuficiência que um Estado ostenta É interessante atribuir, como o faz, homens bons. Se mau, ocorre o contrário, tratualísticas, porque partem do princípio moderna concepção do jusnaturalismo de tes das demais contraposições: bom e
em relação a outros. a Buda, Isaías e Zaratustra pensamentos não havendo limite do exercício do poder. de que os homens assim decidem, e não princípios apenas fundamentais. mau, no moral; belo e feio, no estético
John Stuart Mill chegou a defender políticos, visto que foram mais líderes A segunda forma boa de governo os políticos e os ambiciosos pelo poder, Miguel Sancho Izquierdo e Javier etc. (O Conceito do Político, Editora
a tese de que o Estado corresponde à religiosos, mas é também notável verificar é a aristocracia, ou seja, o governo de contra a vontade do povo. Hervada procuram definir o direito natural Vozes, 1992).
nação, pelo princípio das nacionalidades, que a religião e a política se entrelaçam a poucos, que se opõe à segunda forma Jacques Bossuet e Joseph de Maistre com três palavras: é a ordem social justa Helmut Kuhn, talvez, ao definir que o
visto que os povos podem ser diversos ponto de o Velho Testamento ser para os menos ruim de governo, que é a oligar- defendem a teoria da monarquia de Direito (Compendio de Derecho Natural, v. 1, Estado é um mero instrumento do poder,
dentro de um mesmo território, como historiadores um compêndio da história quia, também governo de poucos. Divino, que a História conhece desde a Ediciones Universidad de Navarra, 1980). coloca o poder além do Estado (El Estado:
ocorre com os quatro povos suíços ou política dos judeus. Se os poucos dirigentes forem bons, mais remota origem, como se percebe Sem pretender ser cínico, estou uma exposición filosófica, Editora Rialp,
aqueles belgas (flamengos e valões). O que impressiona é o fato de que tendem a criar um governo não tão bom nas declarações dos monarcas nos convencido de que o poder estatal, mes- 1979).
O Estado é, fundamentalmente, si- suas ideias, como já disse, influenciam quanto o da monarquia, posto que a primeiros Códigos conhecidos, de que mo nas democracias, não decorre da Os detentores do poder no Brasil, in-
nônimo de poder, e o poder nem sempre a história política de seus povos, muito média a ser ponderada gerará fatalmente representavam a divindade na condução vontade do povo, mas daqueles poucos felizmente, ainda estão longe de entender
representa a vontade da nação, mas é embora os dois outros pensadores, que uma solução menos perfeita que a de um dos povos. A monarquia, portanto, é o que ambicionam o poder, que conformam a necessidade de enfrentar os desafios do
exercido pela força de quem o detém com tentaram aplicar sua teoria (Pitágoras só bom homem, sem contestação. Se os único tipo de governo correto, pois o as regras e pretendem encontrar formas século 21 adaptando os países às suas
condições de não ser afastado, sendo e Confúcio), fracassassem de forma homens forem ruins, haverá a tendência poder passa de pai para filho, segundo a de sua manutenção pela manipulação reais necessidades, pois grande parte
para a manutenção do poder relevante o desconcertante, ao ponto de Pitágoras de tomarem, também, pela média ponde- vontade divina. da sociedade, mesmo na democracia. deles desconhece até o que seja o Esta-
tributo que o povo paga. Trata-se, pois, ter sido contestado como conselheiro rada, decisões menos ruins do que aquela Viktor Cathrein, autor de Filosofia Maquiavel e Carl Schmitt tinham razão do, a política, o governo, a federação, a
de elemento fundamental de domínio. do tirano de Crotona, e Confúcio, pela tomada por um déspota. morale: esposizione scientifica dell´or- ao identificar o príncipe e a política com economia, as finanças públicas, o direito,
Fonte: edição 112 da Revista da ESPM

Há diversas teorias sobre o poder introdução filosófica da burocracia nos Por fim, a pior forma de governo bom dine morale e giuridico (Libreria Editri- a manutenção do poder ou a oposição a governança conjunta, a democracia.
estatal. sistemas de governo. é o da política, ou seja, o governo do povo ce, Fiorentina, 1913), e muitos outros entre o amigo e o inimigo. O Poder Estatal Com isso, acabam reduzindo problemas
Não me deterei, senão brevemente, O bem e o mal, todavia, representam bem escolhido, que, por buscar um con- hospedam a tese de que os fatos e os é representado pelo poder da minoria que complexos a uma simples teoria do exer-
nos filósofos gregos e sobre as formas a marca da luta política, que conforma o senso, terá de fazer maiores concessões. acontecimentos geram o Estado, e não o empalma, com ou sem a participação cício do poder, não percebendo que para
reais (Aristóteles) ou utópicas (Platão). direito, sendo que sua percepção, nesta Nesse caso, fatalmente, as soluções não um pacto social, a maioria das vezes do povo, elemento secundário nos go- todos os problemas complexos existe
O primeiro divide o Estado, a partir das dimensão correta, só foi apresentada serão tão boas quanto as de um governo transcendendo a vontade dos povos, a vernos exercidos sempre de acordo com uma solução simples, geralmente errada.
formas de governo, em bons (monarquia, pelos filósofos gregos e, particularmente, de um homem só ou de poucos. constituição do Poder Estatal. os ideais pro domo sua de quem detém O Brasil só sairá da crise se tiver con-
aristocracia e política) e ruins (democra- pelos três que dominaram e dominam a Volto à análise do Estado Moderno. Por fim, Francisco Suárez e o Car- o poder. dições de combater o corporativismo, a
cia, plutocracia e tirania). Já o segundo filosofia até hoje: Platão, Aristóteles e As teorias que se debatem são, deal Roberto Belarmino expõem a teoria Apesar de criticado por stalinistas e corrupção e o desperdício e providenciar
defende o seu modelo de Estado ideali- Sócrates. essencialmente, as teses contratualis- clássica do direito natural, não a atual, nazistas, Carl Schmitt ensinava: O polí- as reformas previdenciária, tributária,
zado na República, utópico como foram Os três filósofos dividem os gover- tas de Thomas Hobbes e Jean-Jacques de que não aos monarcas, mas ao povo. tico precisa, pois, situar-se em algumas administrativa, política, social e do Judi-
os modelos de Thomas More (autor de nos, o que se torna nítido em Aristóteles, Rousseau. O primeiro, vendo no Estado a Deus concederá a soberania, cabendo-lhe distinções últimas, às quais pode repor- ciário e do Ministério Público n
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COLÔMBIA AMADURECIMENTO DEMOCRÁTICO
A
Ricardo Vélez Rodríguez s recentes eleições presidenciais o território nacional. O candidato vencedor, quisadores e coordenadores da campanha
Filósofo e futuro Ministro da Educação na Colômbia deram o triunfo ao de outro lado, defendeu a revisão da anistia 5.600 Propostas de Governo ao longo de
Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”
da Universidade Federal de Juiz de Fora. Membro do Instituto Histórico e Geográfico jovem candidato liberal-conserva- aos mais de mil ex-guerrilheiros que não 2016. Como resultado desse debate, o
Brasileiro. Professor Emérito da ECEME-RJ. Docente da Universidade Positivo, Londrina. dor Iván Duque (41 anos). O presidente entregaram as armas à Comissão Verifica- presidente eleito escreveu dois livros em
rive2001@gmail.com eleito é advogado e trabalhou no Banco dora das Nações Unidas. Os colombianos 2017, em que destaca duas preocupações
Interamericano de Desenvolvimento, em não estavam satisfeitos com as condições básicas: o debate em torno de como po-
Washington. Tinha sido eleito senador, em em que o Governo de Juan Manuel Santos tencializar as oportunidades empresariais
2014, pelo Partido Centro Democrático negociou a paz com as FARC. E deram o na Colômbia, além da discussão em torno
(chefiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe triunfo a Ivan Duque. de políticas públicas que freassem a cor-
Vélez). Liderou, ao lado dele, a campanha Como vice foi eleita a senadora pelo rupção. Quanto ao primeiro aspecto, Duque
de oposição aos Acordos de Paz (na Partido União Nacional, Marta Lucía Ramí- ressalta duas providências urgentes: uma
forma em que tinham sido negociados rez (63 anos), uma experiente política con- política de obras públicas que modernize
pelo Governo do presidente Juan Manuel servadora, que já foi ministra de Comércio a logística colombiana no que tange a
Santos, conferindo vantagens exageradas Exterior, embaixadora na França e Ministra estradas, linhas férreas, portos e aeropor-
aos líderes das FARC), tendo ganhado o da Defesa. Quem costurou a candidatura tos; e, em segundo lugar, propostas para
plebiscito pelo não em 2016. Durante a de Iván Duque foi o senador Álvaro Uribe dinamizar a educação média e superior,
campanha, Duque defendeu a reformu- Vélez, correligionário do mesmo partido do aproximando-as do empreendedorismo.
lação dos Acordos de Paz, que deverão presidente eleito. Uribe conseguiu realizar A Colômbia encontra um novo espaço
ser revistos pelo Parlamento, revisando uma ampla pesquisa de opinião entre os para avançar rumo ao aperfeiçoamento da
as penas simbólicas dadas aos líderes três partidos colombianos de tendência sua democracia, solidamente enraizada no
guerrilheiros e exigindo que os chefes má- liberal-conservadora (Partido Conservador, sucesso econômico, mediante a abertura
ximos passem a cumprir penas privativas Partido do Centro Democrático e Partido global (com tratados de livre comércio
da liberdade e não possam se candidatar União Nacional). Num debate democrático com os Estados Unidos, Europa Ocidental
para cargos eletivos majoritários (depu- em que foram discutidas as propostas e o Bloco Asiático) e a dinamização de
tados e senadores). dos aspirantes, em eleição direta entre os uma realidade econômica interna que já
Duque contesta a interpretação dada membros das três agremiações, a candi- era positiva no quinquênio 2013-2017. A
pelos negociadores dos Acordos de Paz datura de Iván Duque foi aprovada por mais produtividade se desenvolveu exponen-
quanto às atividades das FARC como de quatro milhões de votos. Assim, o atual cialmente ao longo do último ano com um
cartel de narcóticos, que eliminaram a presidente conta com o apoio interpartidá- crescimento de 10,5% na indústria (tendo
culpabilidade dos líderes guerrilheiros rio das forças liberais-conservadoras da mantido o aumento da produtividade em
pelo delito de narcotráfico. Teria sido Colômbia, um fato inédito que revelou a 34 das 39 atividades manufatureiras regis-
cometida aqui uma injustiça flagrante, capacidade negociadora de Uribe Vélez. A tradas; 8,8%, na exploração de petróleo; e
segundo Duque, contra os demais detentos esse consenso veio se somar o apoio das 8,3%, no comércio).
pelo delito de narcotráfico, que amargam forças de centro e de esquerda moderada, O reto do crescimento econômico é
pesadas condenações, tendo sido os deixando para o candidato derrotado, Gus- importante para melhorar a qualidade de
chefões dos demais cartéis extraditados tavo Petro (58 anos), o apoio das forças da vida dos colombianos, que, se bem de-
para os Estados Unidos, de acordo com esquerda socialista e do liberalismo oficia- ram o triunfo a Duque (com 11,5 milhões
a legislação colombiana vigente. De outro lista de Juan Manuel Santos. Os membros de votos, correspondentes a 54% dos
Região Norte do Brasil lado, Duque propôs, na sua campanha, que moderados do tradicional Partido Liberal eleitores), também votaram no candidato
fossem redefinidas as ajudas financeiras votaram em favor de Duque. da esquerda, o ex-guerrilheiro do M-19
prometidas aos guerrilheiros anistiados, O presidente eleito consolidou o seu Gustavo Petro (2,3 milhões de votos,
Amazônia Brasileira/Legal
exigindo que estas sejam pagas com os Programa de Governo a partir da criação, correspondentes a 41,8% dos eleitores),
enormes capitais que as FARC juntaram em antes das eleições, do think tank denomi- mas com uma presença marcante de 800
Amazônia Internacional bancos no exterior, ao longo dos 50 anos nado de Centro de Pensamento Primeiro mil votos em branco. Lembremos que na
de sequestros e roubos praticados em todo Colômbia. Foram analisadas pelos pes- Colômbia o voto não é obrigatório n
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LÍNGUA PORTUGUESA E CULTURA DA PAZ
Marco Americo Lucchesi
Presidente da Academia Brasileira de Letras
Professor
presidencia@academia.org.br

Discurso de posse na Academia das Ciências de Lisboa,


em 16 de outubro de 2018.

D
o sonho dos poetas e escritores Dei início a uma navegação de cabota-
lusitanos vivi anos a fio de minha gem, sem agulhas de marear, na imensidão
juventude. Protegido pelos fortes linguística do português, às vezes, em
dos séculos XVI e XVII que margeiam a horizonte trágico-marítimo, armado de
Guanabara, entre o Rio e Niterói, e velam sonho claro e de esperança vã, ao renegar
o tesouro da língua que me precede e o nec plus ultra de minhas colunas de
arrebata. Tal como o farol intermitente Hércules, inspiradas desde a Escola de
da Fortaleza de Santa Cruz, quando fixo a Sagres ao tempo extinto da Ulisseia, de
entrada noturna da baía. Origem de uma Gabriel Pereira Castro.
língua que tem o mar como destino e Em meus albores, tomei o partido de
comunhão. Minha janela alcança o velho Vieira na carta ao Bispo do Japão, porque
mar que nos une. um dia dom João IV há de ressuscitar, e a
Nenhum corsário, por incógnito e cujo encalço lançamo-nos há séculos para,
sub-reptício, será capaz de arrancar de quem sabe, atravessarmos, um dia, o ata-
nosso meio a intensidade do til e da nasa- lho do espaço-tempo, a famosa ponte de
lização e a plácida melodia das vogais ma- Einstein-Rosen. Teci infinitas conversações
nuelinas, vibráteis, cuja precisa escansão com Cesário e Florbela, desde a rapariga de
é um tributo ao erário de um português fiel um bairro moderno a seu anverso feminino
ao seu passado. Nossa língua não perdeu; e àquele cabo tormentório, em cujas águas
seu DNA, antes se amoldou, onívora, a um se ocultou.
destino polifônico. Tal como Sá-Carneiro, ando perdido
Se adentrarmos os subúrbios da entre o que sou e uma intangível alteridade,
Leopoldina, a voz do povo reveste-se a salvo, tão-somente, porque unido aos
da pá t ina quinhen t is t a , pa r a a lém heterônimos de Pessoa, em cujas formas
da toponímia, nas antigas flexões e se dissolvem meus cuidados.
prefixos verbais, boa parte de quanto Quantas luas contei nas águas, densas E vou cercado pelo magma de Her- de uma abrangência fundada nas coisas Quanto seria longo e inútil confessar línguas portuguesas, a imagem sebástica,
surde nos cantos de Os Lusíadas, pro- e bravias, plácidas e altivas, de Camões, berto, cuja atividade vulcânica não cessa mais diáfanas e sutis. a adesão sebástica de que sou vítima, os aqui e agora, pois a volta ao passado é
nunciados pela gente simples, as levas antes de vislumbrar a esplendorosa Vênus na minha alma sísmica, lapili de palavra e Como não lembrar de José Régio, encobertos que busquei, nos labirintos de apenas uma hipótese da teoria de Gödel,
migratórias das ilhas e continentes que desnuda. Morro-me quando procuro soledade, ritmado o esconjuro intermitente naquela alvorada de névoa, prefácio do Vieira e nas águas conceituais de Pessoa, restrita a não poucos impasses.
foram outrora de el-rei e dos impérios Antero, entre nuvens e relógios, ao longo à hora mortis. rosto de el-rei: Numa Ilha ignota é que nos excessos de Sampaio Bruno e nos Em outras palavras, não será possível
da África. de um inacabado pôr de sol e, com igual Embora a lista se apresente inacabada, ele agora vivia, o Encoberto e o Desejado feixes de sentido em Teixeira de Pascoaes. alcançar, através da máquina do tempo,
Meus ouvidos de menino seguiam fervor, afundo os remos na noite escura de invoco a latência de um emblema: dom de sempre. E um dia viria, numa alvo- Cada qual inclinado ou arrastado a um o rosto de dom Sebastião. Somente nas
essas ondulações, fluxo e refluxo, passa- Al Berto, furiosa e quebradiça, tamanha a Sebastião, perdido nas lonjuras de um rada de névoa, resgatar o seu Reino da multiverso de futuro incompossível, tão malhas da língua viva, nos poros da pele,
do e futuro, aquela mesma síntese com sua beleza imponderável. império imaterial. pobreza e da vergonha (...) o capitão de variegadas mostram-se entre si as leituras nas muitas cores e diversas latitudes, na
a qual Machado de Assis inventou uma Não me afasto um centímetro da ma- Procuro a desejada parte oriental, Deus, o Rei da esperança maior que os dissonantes de um rei inacabado. forma de grafá-las ou traduzi-las é onde
expressão toda sua, forjada num eterno temática de Gedeão, pois a ideia-número mais imprecisa e ecumênica, através de desesperos, o vencedor da sua própria A inscrição do futuro dá-se através daremos início a uma nova epistemologia:
presente, rigoroso e salutar. guarda uma poética intrínseca. Mensagem e Tabacaria, frutos sazonados imperfeição mortal... do legado de um espectro flutuante das na interface com outras línguas, no tempo
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DIGNIDADE NACIONAL
agora, no vislumbre da aura e de sua con- estejam em nossa casa como na sua. Mas mão dupla, sem vencedores ou perdedo-
sequente epifania. isso nem se pede, nem se sugere. Espe- res. Metáfora de paz arrevesada.
Língua que une e separa, integra e de- remos que nos encontremos em qualquer Em tamanha diversidade, havemos de

FRENTE À IDEOLOGIA
sintegra, partilhada por avaros e pródigos. coisa como a antiga casa “miticamente recuperar um dia o rosto de dom Sebastião.
Língua indomável, nas dobras e rizomas da comum” por ser de todos e de ninguém. Como quem reúne os 14 pedaços de Osíris,
interlíngua, nos espaços entre as palavras, Essa casa miticamente comum re- ao longo do Nilo, para recompor sua figura.

DO CONFLITO
vogais e consoantes. Somente aqui a língua pousa na dinâmica de um projeto em Ou, ainda, os 201 pedaços de Exu, desde a
portuguesa assume toda a sua vocação construção, de todos e de ninguém, como cultura iorubá, como lembrou recentemen-
especular, como na hóstia do padre Manuel o Homero da Grécia, reclamado por todas te o rei de Ifé, em visita ao Brasil, a fim de
Bernardes. Brilha no fragmento o sinal de as cidades, nascido em todas as épocas. apaziguar a alma dos escravos mortos. Ou Percival Puggina
uma totalidade interrompida, sem exclusão Assim, pois, a casa comum da lusotopia, talvez melhor: quando, no Bhagavadgītā, Membro da Academia Rio-Grandense de Letras, arquiteto, empresário e escritor.

do sujeito, de seu irredutível espaço, de sua multidiversa e plurimodal, dispõe de um toda a beleza de Kṛṣṇa se desvela, em seus puggina@puggina.org

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corrente identidade. Toda a pertença, todo volume generoso de tempo, em que nos olhos, como o Sol e a Lua conjugados, os omo entender esse sentimento de inferioridade, de desapreço
o acúmulo de sonhos que o atravessa, no assentamos, respeitosos, sem esconder braços infinitos, sob intensa massa de em relação a nós mesmos, sendo herdeiros de uma história
rumorejar do tempo. a síntese de que somos filhos e protago- esplendor, guardião do devir, fruto de uma e de uma cultura tão ricas? Qual a causa desse rastejar em
Lembro-me do ensaio de Mircea nistas, com as línguas ao sul do Atlântico, insólita adição épica. culpas e remorsos, como se ser brasileiro equivalesse a viver num
Eliade, Camões e Eminescu, no elogio das das Áfricas e das Índias. Assim também a língua portuguesa, estuário de vilanias e maldições?
línguas extremas da latinidade, o romeno e Leio o capítulo sexto da História do como os rostos e os corpos de Kṛṣṇa, A visão negativa a que me refiro iniciou com a propaganda
o português, línguas de fronteira, capazes futuro e substituo a presença de Portugal, centrada e descentrada, ao longo de um republicana. Entretanto, nada fez tanto estrago à nação quanto o
de enorme assimilação de mundo e espa- sem a apagar, fixando-me no rizoma de núcleo semântico centrado e descontínuo. discurso esquerdista ao suscitar conflitos sem os quais sua ação
ço-tempo, um romaneio de palavras, para proporções planetárias, a própria luso- Eis a latência infindável de dom Se- política entra em coma.
torná-las sui juris. cromia: Não venceram só a Poro, rei da bastião, mártir redivivo, na etimologia do É como se a História do Brasil fosse uma reportagem de
Línguas que se fazem notar pela be- Índia, e seus exércitos; mas sujeitaram testemunho, de um tesouro equívoco, a horrores que começa com genocídio indígena e escravidão. A ou o germânico dos suevos, ou o gótico dos visigodos. A história do
leza, Vênus desnuda, cujas extremidades e fizeram tributárias mais coroas e mais desenhar a cultura da paz, das areias do de- partir disso não tem mais cura nem conserto. Ora, qual país não nosso belo idioma também é nossa e tem tudo a ver com a cultura
se tocam no corpo de um latim que mal se reinos do que Poro tinha cidades. Não serto ao delta do Ganges, ao longo das co- registra páginas escuras em seus anais? Qual não viveu ou criou e a identidade nacional.
reformou, entre o Atlântico e o Mar Negro, navegaram só o mar Indico ou Eritreu, laterais constantes rochas do Amazonas, situações assim? Não conheço outro, contudo, que as traga A religião é parte integrante da cultura dos povos em todas
à deriva de demandas prístinas e atuais, que é um seio ou braço do Oceano, do Tejo e do Minho, aos rios e oceanos de de modo permanente à luz para repudiar suas origens desde o as civilizações. Não há povo sem religião. Parte valiosa de nossa
como um graal inquieto e preservado. mas domaram o mesmo Oceano na sua um império urdido em metáfora e saudade. Descobrimento, injuriar a identidade nacional e desprezar a própria identidade, então, está fornecida pelo cristianismo aqui aportado
Língua sem barreiras, sem medo de maior largueza e profundidade, aonde Também aqui Sebastião: a espera dignidade. Desconheço estupidez análoga em outro lugar do planeta! de múltiplas formas pelos nossos povoadores. É igualmente longo,
arrostar novas comunidades, formas de ele é mais bravo e mais pujante, mais ativa, de língua e liberdade, em que se con- São ideias difundidas por supostos estudiosos dos temas na- procede de Roma e vive momentos decisivos na Ibéria do século VI,
cionais que se aborrecem com o fato de nosso povoamento haver o processo de conversão daqueles povos ao cristianismo. Também
diálogo que dissolvam fantasmas ideoló- poderoso e mais indômito: o Atlântico, o sumou boa parte de uma persona flutuante
transcorrido no período histórico correspondente ao absolutismo é nossa essa história.
gicos, em decomposição. Etiópico, o Pérsico, o Malabárico, e, sobre ou sediciosa, como em Canudos, visto por
monárquico. Deprime-os a maldição de que o mercantilismo fosse A ideologia do conflito, revolucionária, precisa destruir a base
Foi Eduardo Lourenço quem corajo- todos, o Sínico, tão temeroso por seus Euclides da Cunha, em Pedra Bonita fixada
o sistema econômico então vigente. Incomoda-os saber que no cultural das sociedades ocidentais cristãs. Tanto quanto Marx
samente definiu, em A nau de Ícaro, o mo- tulões e tão infame por seus naufrágios. por Ariano Suassuna, nas rútilas distâncias
século XVI foi levado o último toco de pau-brasil, sem o qual fomos viu a religião como ópio do povo, seus seguidores percebem que
vimento pendular que une e divide nossos Que perigos não desprezaram? Que de Goa e de Macau, em Timor Leste, nas
obrigados a sobreviver até hoje. Atribuem nossas dificuldades precisam destruir a cultura do Ocidente. Para isso trabalhou a Es-
países. O Brasil não cometeu devidamente dificuldades não venceram? Que terras, ilhas de Cabo Verde afortunadas.
financeiras ao ouro arrancado de nossas entranhas (uma explora- cola de Frankfurt e para isso opera parcela expressiva do mundo
o parricídio, como se filho de si próprio se que céus, que mares, que climas, que De todas as partes, a casa comum
ção privada, sobre a qual a Coroa cobrava 20% de imposto) e que acadêmico brasileiro.
tornasse, sem forças de recuperar os laços ventos, que tormentas, que promontórios cresce na urdidura delicada de que somos
gerou desenvolvimento econômico e social em Minas Gerais, Rio Como parte dessa estratégia perversa, enquanto outros
fundadores. E Portugal não se libertou não contrastaram? Que gentes feras e feitos, e emancipados no futuro, sem per-
de Janeiro e São Paulo. povos se orgulham de sua nacionalidade, cultuam seus grandes
de uma saudade projecional do Império, belicosas não domaram? Que cidades der a origem e as dores do parto. vultos, enfeitam suas cidades com monumentos que os exibem
De fato, a Coroa portuguesa entre os séculos XVI e XIX não
preso no labirinto de suspiros e saudades, e castelos fortes na terra? Que armadas Um Sebastião travestido de língua, um regia uma economia de livre mercado, não era uma monarquia à memória e reverência de sucessivas gerações, aqui eles são
nos braços do Minotauro, sem o fio de poderosíssimas no mar não renderam? rei ambíguo, transfigurado. Última flor do Lá- constitucional, nem uma democracia popular, nem era politicamente escondidos. Quantos monumentos a Bonifácio? Frei Caneca? Na-
Ariadne. Diz Eduardo Lourenço, em outra Que trabalhos, que vigias, que fomes, que cio, jardim afro-brasileiro, onde cabem todas correta! Ora pombas, que coisa mais anacrônica! buco? D. Pedro II? Isabel? Mauá? Rio Branco? Caxias? Patrocínio?
parte, sobre uma possível lusodifusão: é sedes, que frios, que calores, que doenças, as Índias, também uma jangada de pedra. Prefiro outro modo de ver a História. Prefiro valorizar a riqueza Rui? Quantos estudantes brasileiros conseguiriam escrever cinco
no espaço cultural, não só empírico, mas que mortes não sofreram e suportaram, Não tenho dúvidas: a língua portugue- cultural de que somos herdeiros, enriquecida pelo aporte das varias linhas sobre qualquer deles?
intrinsecamente plural, que os novos ima- sem ceder, sem parar, sem tornar atrás, sa é o semblante do Encoberto e Desejado, etnias que aqui se agregaram. Nessa herança, valorizo o idioma Se não vemos dignidade em nossa História, dificilmente a
ginários definem que um qualquer sonho insistindo sempre e indo avante, com mais onde todos se reconhecem numa densa e que falamos. Ele resulta de laboriosa construção no tempo e lança veremos em nós e muito mais dificilmente a veremos nos outros.
de comunidade e proximidade se cumprirá pertinácia que com instância?. luminosa alteridade especular. raízes na Península Ibérica desde que, vitorioso na Terceira Guerra Seremos grotescos pichadores de nós mesmos. Tenho orgulho
ou não (...) É bom estar na casa dos outros Não se trata de um discurso de guerra, Muito obrigado pela acolhida neste Púnica, o Império Romano conquistou a região e criou a província das minhas raízes como brasileiro. É a política do tempo presente
como na nossa. É melhor que os outros mas de seu contrário, uma conquista de egrégio Sodalício n Lusitânia. Não fosse isso, falaríamos o idioma púnico de Cartago, que me deprime n
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TRADUZINDO
HIERARQUIA
E DISCIPLINA
General de Exército Marco Antônio de Farias
Ministro do Superior Tribunal Militar

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e início, ressalta-se que as Forças não deixa que o sol de valores neles guarda- § 3º A disciplina e o respeito à hierarquia
Armadas destinam-se à defesa da dos mostre toda a sua luz. A Hierarquia e a devem ser mantidos em todas as circuns-
Pátria e à garantia da lei e da ordem, Disciplina são os pilares de sustentação das tâncias da vida entre militares da ativa, da
resguardando o funcionamento do Estado e Forças Armadas, não porque tais princípios reserva remunerada e reformados.
protegendo o patrimônio material e imaterial constem da Constituição. Pelo contrário, Disciplina, prezados operadores do
do nosso país. esses valores constam da Constituição Direito, não é somente responder com
Contudo, essa prontidão à Nação não por serem essenciais para a existência das educação e respeito à ordem recebida do
se limita ao emprego no estado de guerra ou Forças Armadas. superior. Não é simplesmente prestar-lhe a
em outras situações beligerantes. Projeta-se E por que são valores essenciais? continência ou solicitar autorização para se
na paz, no cotidiano, quando o militar se Note-se que, no âmbito das Instituições retirar da sua presença. Esses procedimen-
dedica ao preparo permanente, às eventuais Militares, o termo valores diz respeito a tos são exteriorizações da Disciplina.
operações de garantia da lei e da ordem, referenciais e fundamentos imutáveis, de É lícito, então, assinalar que Disciplina
na execução de ações subsidiárias, além caráter coletivo. Eles atuam como catalisa- é muito mais que isso. Disciplina é algo do
de uma gama variada de imprescindíveis dores e influenciam, de forma consciente ou interior, é razão, é culto, é crença. Disciplina
atividades meio. inconsciente, o comportamento e a base de é aceitar conscientemente que os interesses
Em tempo de guerra, o emprego priori- conduta profissional do militar. A Hierarquia pessoais perdem a prioridade em proveito do
tário das Forças Armadas é marchar para o e a Disciplina são essenciais porque sobre cumprimento do dever; é acatar as decisões
enfrentamento do conflito armado. No tempo esses valores se edificam todos os demais do chefe, do diretor ou do comandante, em
de paz, o preparo e as atividades operativas e que emolduram a consistência moral, ética, qualquer nível, mesmo diante de discordân-
administrativas têm o objetivo de internalizar, jurídica e profissional de uma Força Armada. cia inicial; é avançar para alcançar o objetivo
em seus efetivos, o rol de valores e de prin- Discorramos, então, sobre eles: estabelecido na tarefa, mesmo que isto lhe
cípios que conduzem à defesa da integridade traga receio ou desconforto. É saber que as
das instituições nacionais e da soberania DISCIPLINA ordens emanadas pelo superior deverão ser
do país. Em qualquer dessas situações, a Conforme o Estatuto dos Militares – Lei atendidas porque, legais, elas foram precedi-
Hierarquia e a Disciplina compõem o alicerce nº 6.880, de 9 de dezembro de 1980 – a das de análise e de cuidadoso planejamento;
que sustenta o sagrado compromisso do Disciplina está conceituada nos seguintes é acreditar que o cumprimento pleno das
cumprimento do dever a qualquer custo. termos: ordens é algo necessário e essencial para
São duas singelas palavras que en- o sucesso de qualquer atividade; é estar
cerram gigantes bases principiológicas a Art. 14 (...) convicto de que o coletivo se sobrepõe ao
serem preservadas. É trabalho paulatino de § 2º Disciplina é a rigorosa individual.
conscientização, em que não se pode admitir observância e o acatamento integral das A Disciplina é obediência, e o ato de
qualquer tipo de ruptura, provocado por leis, regulamentos, normas e disposições obedecer identifica a nobreza da alma. Ser
agente, militar ou não, sob o risco de restar que fundamentam o organismo militar e disciplinado é, ao amanhecer, despertar para
comprometida a própria razão de existência coordenam seu funcionamento regular servir e somente dormir mediante a certeza
das Forças Armadas. e harmônico, traduzindo-se pelo perfeito de que nada deixou de ser executado naquela
Atualmente a mera citação desses cumprimento do dever por parte de todos jornada.
princípios, Hierarquia e Disciplina, sem a e de cada um dos componentes desse Disciplina é, também, vencer o medo
tradução de seus vitais desdobramentos, organismo. (grifo do autor) pela intenção de alcançar o êxito e de praticar
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HOMENAGEM A SANTOS-DUMONT EM PARIS
as boas recomendações estabelecidas nas nação se faz por postos ou graduações; sem as quais as Forças Armadas estariam
leis, nas ordens e nos regulamentos. dentro de um mesm-o posto ou graduação despidas do ponto de partida dirigido ao êxito
Disciplinado é aquele que ocupa e ga- se faz pela antiguidade no posto ou na de sua destinação constitucional.
rante o seu posto de serviço, seja a bordo graduação. O respeito à hierarquia é con- Nesse passo, não se poderia ordenar Ten Brig Ar Antonio Carlos Moretti
de um navio, no hangar das aeronaves ou ao substanciado no espírito de acatamento aos subordinados que enfrentassem a morte
Bermudez
relento num ponto extremo do último pedaço à sequência de autoridade. (grifo de autor) em períodos de guerra ou em situações de Comandante-Geral do Pessoal
de chão nacional, de dia ou de noite, com frio A partir das Legiões, o Estado Romano crise, em qualquer terreno ou sob as mais e futuro Comandante da Aeronáutica

ou calor, na chuva ou no sol. conseguiu impressionante expansão ter- rígidas intempéries, sem a mentalidade edi-

E
Disciplina é honrar a farda, a orga- ritorial, tendo por base a incorporação de ficada diuturnamente, como aço, nos fortes m 1906, no Campo de Bagatelle, em A placa antiga não foi encontrada, por
nização militar à qual per tence, a sua notáveis mudanças na arte da guerra, que pilares da Hierarquia e da Disciplina. Paris (França), Alberto Santos-Dumont, isso fizemos uma nova e nela colocamos uma
Instituição e a sua Pátria; é esforçar-se influíram para a superação de hordas de Nenhum soldado derrama o seu sangue Pai da Aviação Mundial e Patrono da silhueta de Santos-Dumont – que não existia
pelo aprimoramento próprio, superando bárbaros de outrora. pela população civil se não estiver talhado, Aeronáutica Brasileira, fazendo da luta contra na antiga, e que foi retirada da capa do livro
fragilidades e preparando-se para melhorar A História descreve que Roma Antiga em sua alma, o sentido magnânimo de sua o desconhecido um objetivo maior, realizou o de autoria de Sílvio Amorim, intitulado De
primeiro voo em um aparelho mais pesado Cabangu para o Mundo – (via Paris).
o seu desempenho e bem cumprir as suas deixou marcante legado aos exércitos da era profissão. Esse processo virtuoso somente
que o ar, o 14-bis. Achei que seria muito importante inserir a
atribuições. Disciplina é colocar o seu moderna, com destaque para inovações na efetiva-se segundo a estreita via do sen-
Decorrido quase um século, em 2005, silhueta do Pai da Aviação na nova placa, por
corpo como escudo na defesa dos ideais organização e na estrutura militar até então timento patriótico, sempre balizado pelo
tive a oportunidade de assumir o cargo de um único motivo: as pessoas seriam atraídas
da sua gente. desconhecidas. A criação das patentes e a imprescindível aprendizado sistemático da
Adido de Defesa e de Aeronáutica do Brasil na inicialmente pela imagem, e depois leriam a
Enfim, Disciplina é compromisso, é descentralização do comando associado a Hierarquia e da Disciplina. Assim, enquanto
França. Naquela época, dois grandes eventos mensagem repetida da antiga placa, expressa
culto, é vontade, é crença, é desapego, é treinamentos específicos contribuíram para se almeja do agrupamento castrense cum- Local da placa
estavam marcados para acontecer: o Ano em pequenas letras. Após árdua procura em
dedicação, é tenacidade, é valor e é dever! a transformação de homens simples em prir a sua destinação, prevista no Art. 142
Brasil na França, em 2005, e o Centenário do revistas e jornais, a informação fora encon- Confesso que foi uma sensação indescri-
Por outro giro, a ofensa à Disciplina soldados de alto nível, ordenados em escala da Carta Magna, jamais se pode admitir a Voo do 14-bis, em 2006. trada nas páginas de um antigo livro sobre o tível para o então Cel Av Bermudez, após 100
atinge desfavoravelmente o estamento hierárquica e empregados em novas táticas ofensa, por parte do cidadão, aos princípios Ao começar minhas atividades, o mo- Pai da Aviação. anos, deixar novamente registrada, na calçada
militar, pondo em risco o cumprimento do e estratégias bélicas. Foram fatores de fundamentais contidos no dispositivo cons- torista da Adidância, Sr. Carlos, contou-me Em outra frente, continuávamos bus- da Avenida mais famosa do mundo, em des-
dever, o compromisso profissional e a con- sucesso em conflitos diante de tradicionais titucional para o segmento militar. sobre a existência de uma placa, há alguns cando, junto à empresa, a autorização para taque, uma referência ao gênio brasileiro, pela
fiança mútua, aspectos substanciais para a adversários e de povos guerreiros. Frise-se que, ao serem julgados pro- anos, na fachada de um prédio da Avenida des recolocarmos a placa no prédio, mas desta sua extraordinária conquista que aproximou
funcionalidade das atividades castrenses. Com isso, é possível atribuir aos ro- cessos, perante o STM, voltados a fatos Champs-Élysées, com um texto sobre Alberto vez, a uma altura mais baixa, para que todos o homem do Criador; que deu asas à Huma-
Mudanças crescentes de costumes e de manos, ao longo de gradual processo de ocorridos durante períodos de paz, os Santos-Dumont. Segundo ele, devido a uma os pedestres pudessem vê-la, admirá-la e nidade, uniu povos, integrou continentes; e
valores na sociedade nem sempre se admi- formação, a origem da Hierarquia militar referidos princípios devem ser aplicados reforma, tal placa fora removida e nunca mais fotografá-la com facilidade. Não foi fácil eles que, com olhar sábio, se atreveu a defrontar
tem no cotidiano da atividade militar. Neste presente, nos dias atuais, em qualquer com maestria e conforme pedagógica visão colocada em seu lugar. Ficava afixada na altura atenderem nosso pedido para a mudança do paradigmas e conceitos até então petrificados.
sentido, lesiona frontalmente a disciplina, exército do mundo. prospectiva, pois, quando as situações de do segundo andar, e era de difícil visualização. lugar da placa, até porque o prédio passaria Enfim, julgo que somente conseguimos
a utilização de meios informatizados ou Hierarquia é o ordenamento do mando e crise advierem, inexistirá tempo para incutir, A partir das informações que obtive, por uma grande reforma em sua fachada. concluir essa verdadeira empreitada cultural
de redes sociais para criticar, contestar ou da subordinação; é respeito; é a consciência com eficiência, a mentalidade da profissão iniciei os contatos possíveis, verificando com Assim, em 2006, por ocasião das come- franco-brasileira junto à imobiliária e à Maire
manifestar desacordo contra atos emanados de que cada militar tem uma posição para porventura dantes desprezada. inquilinos, com antigos proprietários e com a morações dos 100 anos da realização do voo de Paris graças ao já conhecido apreço do
das autoridades competentes, superiores si na estrutura da organização castrense; O organismo militar somente consegui- própria Maire de Paris (Prefeitura), se era do do 14-bis, em homenagem ao homem que teve povo francês pela cultura, que aquiesceram
hierárquicos ou governamentais. que esse espaço denomina-se posto ou rá manter-se consolidado se houver a obser- conhecimento de alguém o paradeiro da refe- o lampejo capaz de ligar o espaço que separa o ao nosso pedido, autorizando a colocação da
A quebra da Disciplina na estrutura graduação, e que deve ser ocupada com vância e a prática diuturna, especialmente rida placa. Depois de muito buscar, encontrei querer do realizar, foi recolocada uma placa no nova placa no prédio onde morou Alberto San-
militar de forma contínua, individual ou responsabilidade e dignidade. na paz, dos valores e princípios irradiados uma antiga imobiliária do prédio, que me deu o prédio onde ele morou, na Avenida des Champs- tos-Dumont, justamente no local solicitado.
coletiva, é impensável, porque provocaria Hierarquia é a estratificação do Poder, pela Disciplina e pela Hierarquia. Esta base caminho das pedras. De início, como era de se -Élysées nº 114 (Paris), em frente ao qual, no A cerimônia de descerramento da placa
a ruptura do alicerce de sustentação das cujas camadas sobrepostas garantem a principiológica, contudo, jamais alcançará esperar, tivemos dificuldades de toda a ordem. ano de 1903, pousou com o seu Dirigível no 9. ocorreu às 11 horas do dia 3 de novembro de
Forças Armadas, ensejando que grupos de solidez da autoridade; é precedência e aca- efetividade se não for tutelada por um orde- 2006, com a fachada do prédio totalmente
em obras, embaixo dos alambrados, e com
homens, com armas na mão, transformas- tamento; é competência, atribuição e direito; namento jurídico consistente, atuando de
a presença das mais altas autoridades da
sem tropas em milícias ou, pior ainda, em é confiança e estímulo; é coesão; é mérito forma célere e equânime.
Armée de L’Air, da Força Aérea Brasileira, da
bandos. Certamente ao final essas armas e é progresso. Por isso, a Justiça Militar da União
Embaixada do Brasil na França e de Adidos de
estariam apontadas na direção errada. Hierarquia é ordem e é dever. (JMU) deve manter integralmente sua com-
diversos países.
A quebra da hierarquia redundaria no petência constitucional, confirmando-a sem-
Mais do que um evento, deixamos enta-
E A HIERARQUIA? fracasso da autoridade, na inversão da com- pre que os artigos 9º e 10, ambos do Código
lhado naquela placa o exemplo de abnegação,
Por sua vez, segundo o Estatuto dos petência, no pandemônio marginal. Seria o Penal Militar (CPM), a invocar, repudiando
coragem e perseverança de Alberto Santos-
Militares – Lei nº 6.880, de 9 de dezembro retrocesso às comunidades primitivas, em dúvidas improcedentes, as quais poderiam, -Dumont, valores tão presentes nos brasileiros
de 1980 – a hierarquia assim consta definida: que a autoridade sobre o grupo passaria a por vezes, combalir a sua própria existência. que envergam o azul da Força Aérea, na ins-
ser exercida pelo mais forte e não pelo mais A JMU é a garantidora especializada tigante missão de manter soberano o espaço
Art. 14. (...) capacitado e legalmente constituído. da manutenção dos pilares básicos que aéreo desta Nação verde e amarela n
§ 1º A hierarquia militar é a ordenação Conclusão sustentam as Forças Armadas e, em espe-
(Texto do Ten Brig Ar Antonio Carlos Moretti
da autoridade, em níveis diferentes, dentro A Hierarquia e a Disciplina são o com- cial, do serviço que prestam à sociedade Bermudez, Adido de Defesa e de Aeronáutica junto à
da estrutura das Forças Armadas. A orde- bustível indissociável da profissão militar, brasileira n Embaixada do Brasil na França em 2005 e 2006).
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GUERRA
QUESTÕES FILOSÓFICAS
Araken Hipolito da Costa
Cel Av
Editor da Revista Aeronáutica

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ste tema sempre desperta muitos Destacamos as suas seguintes CÓDIGO MOSAICO
questionamentos, em especial criações; a capacidade de abstração E CRISTIANISMO
aos militares. Os primeiros pas- e de generalização, os tipos de saber, O pensamento religioso componen-
sos para nos aprofundarmos sobre o formulação das diversas disciplinas; e te da nossa cultura ocidental revela que
assunto: devemos contextualizá-lo na a diferenciação das diversas formas de o pecado original de Adão e Eva origina
nossa cultura ocidental. manifestação artística. a desordem em seus descendentes pela
Lembrando que a cultura representa Na filosofia, a guerra sempre foi alvo desobediência a Deus.
a criação espiritual de um povo, enten- de reflexões, mas nos restringiremos em Traz o primeiro fratricídio explici-
dida como as ideias e os pensamentos trazer à pauta, um pensador notável em tado por Caim matando Abel. É a luta e
filosóficos, religiosos, científicos e seu alvorecer. É o filósofo pré-socrático guerra instauradas entre irmãos. Assim,
artísticos, enquanto o termo civilização, Heráclito de Éfeso, que viveu entre os a guerra representa a perda dos manda-
por sua vez, traduz os bens materiais anos de 540 a 480 a.C., e que descreve mentos religiosos e, por consequência,
que proporcionam o bem-estar da so- em um de seus fragmentos: A guerra é inserindo a morte na vida.
ciedade. mãe de todas as coisas e de todas as Outras considerações devem ser
O processo de estruturação da cul- coisas é rainha. (...) observadas sobre a guerra, embasadas
tura ocidental deve-se a quatro fatores Para Heráclito, o devir ao qual tudo pelo ponto de vista moral constante do
básicos: Pensamento filosófico grego; está destinado caracteriza-se pela pensamento cristão:
Código mosaico e Cristianismo; Direito contínua passagem de um contrário ao – É lícita a guerra de legítima defesa
Romano; e Família outro, mas ao mesmo tempo, nota-se que tende a assegurar legítimos direitos
bem, tratar-se de uma guerra que é paz. violados. Ao contrário, é ilegítima a
PENSAMENTO Um contraste que é, ao mesmo tempo, guerra de conquista, que somente visa
FILOSÓFICO GREGO harmonia,. O perene correr de todas as ampliar o poder de determinado grupo
A filosofia surgiu na Grécia Antiga, coisas e o devir universal revelam-se social, à custa de outro;
aproximadamente no século VI a.C. como harmonia de contrários. – O princípio do pacifismo absoluto
O gênio grego encontrou ambiente fa- Assim, Heráclito afirma que a vida e só contribuiria para favorecer a ousadia
vorável para superar a visão puramente a morte se atraem e, onde vigora esta dos malvados, como notava o Papa Pio
mítica do mundo e introduzir o logos (a atração, dá-se a luta. Ele pensa a luta como XII em sua alocução de Natal de 1948;
razão) como meio de compreensão da a essência do Ser e, consequentemente, – A guerra há de ser sempre o recur-
realidade. a guerra representa o ápice. so extremo, só aplicável depois de terem
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UMA BREVE HISTÓRIA DA
se esgotado todos os meios para chegar gorias, o que é preciso pensar é: a troca propícias ao Estado para deflagrar uma
a uma solução pacífica do problema; de morte como experiência crucial para guerra.
– Dado que esteja em curso uma pensar a ética; o Estado (ou toda outra O Estado não é uma simples con-

GUERRA
guerra justa, é preciso que não uti- unidade política: a cidade ou o Império) venção. É o prolongamento da raciona-
lize estratégias injustas. Assim, são pensado como aquilo cuja consistência lidade humana, capaz de fazer o homem
ilícitos todos os atos de violência própria, a guerra, deve assegurar; enfim, um ser social, viver entre iguais e bus-
não necessários para atingir os a busca armada da justiça. A guerra é car com eles o bem-comum, tendo em
objetivos justos dos beligerantes; são a troca de morte que dá consistência a vista seu pleno e vital desenvolvimento. Gilberto Pedrosa Schittini
Ten Cel Av
condenáveis, também, o bombardeio de uma unidade política e é sustentada por O Estado não é apenas um instrumento
gschittini@terra.com.br
populações civis inocentes e indefesas, uma reivindicação de direito. destinado a garantir a devida harmonia

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que são especialmente ameaçadas entre as esferas da vida econômica stamos no crescente fértil – um
pelas armas nucleares, bem como o A FAMÍLIA e os interesses dos seus cidadãos. local onde a presença humana é
fuzilamento de reféns, a destruição de O berço familiar é a célula mater É, deste modo, que são constituídos muito antiga. Estamos na época em
prisioneiros pela fome ou por maus da formação da sociedade. A sua es- os países de ideologias totalitárias, que os seres humanos estão deixando de
tratos, e a tortura. truturação se dá por meios de valores pois com base numa cosmovisão ser caçadores e coletores e passando a
No contexto do pensamento reli- morais e éticos. materialista encontram, nesta, sua ser agricultores. Estamos num vale onde
gioso, devemos considerar a guerra Por intermédio da Teologia Moral, ún i ca ve r dad e. Esq ue ce m q ue a s existem quatro grupamentos humanos,
espiritual que nunca esteve ausente das que tem como fonte principal a revelação sociedades não sobrevivem sem os sejam estes tribos ou famílias diferentes.
escrituras ou da vida. É nas batalhas sobrenatural, mostrando ao homem o valores éticos e morais. O Estado é um Com relação às suas capacidades como
espirituais que está sendo decidido que ele deve fazer para adequar o seu instrumento para realização do próprio agricultores, à força física e às habilida-
se nossas almas irão viver ou morrer; comportamento aos princípios da fé. Em bem e da felicidade comum de todas des para a luta, consideremos a seguinte
em que nos equilibramos diante de um síntese, procura deduzir da Palavra de as gerações de cidadãos, presentes distribuição:
abismo, e em que há, de fato, inimigos Deus as normas concretas que levem a e futuros, subordinados a um valor Produtivos e fortes;
reais que estão tentando nos matar pessoa humana à sua plena realização. ético-objetivo independente da vontade Produtivos e fracos;
– n ã o s ó n o s s o s c o r p o s , c o m o, São exemplos de valores morais: o amor dos indivíduos, e que se chama justiça. Não produtivos e fortes;
também, nossas almas. (Mt 10, 28: a Deus, o amor ao próximo, a verdade, Participam ativamente do desen- Não produtivos e fracos.
Não tenhais medo daqueles que matam a felicidade, a liberdade, a fé, a esperan- volvimento da sociedade a classe Fortes Fracos
o corpo, mas são incapazes de matar ça, a caridade, a justiça, a prudência, empresarial, a artística, a política, a Produtivos + + + -
a alma! Pelo contrário, temei aquele a coragem e a temperança. religiosa, dentre outras. É, porém, na Não produtivos - + - -
que pode destruir a alma e o corpo A ética, como par te da filosofia classe militar, que se apresenta uma ca-
Os produtivos e fortes vivem rela-
no inferno!) prática, versa sobre a reta ordenação racterística ímpar e essencial ao referido
tivamente em paz e bem alimentados;
dos atos humanos a partir da razão. desenvolvimento: a dedicação à unidade
e os não produtivos e fortes, devido ao
DIREITO ROMANO Contribui para a realização do ser nacional. É fruto da sua missão, a defesa
insucesso na agricultura, para não passar
O direito romano, além de criação humano, indicando tão somente os ca- territorial e a segurança nacional.
fome dominam pela força os produtivos e
original, revelou ser uma ordenação, a minhos que o bom senso e o raciocínio Considerando este contexto, a for-
fracos e escravizam os não produtivos e
bem dizer, perene, desse aspecto da vida podem descobrir para orientar o com- mação do militar deve fundamentar-se
fracos. Incentivados pelo seu sucesso no
social e de sua estruturação, com forma portamento humano. São exemplos de nos valores morais, éticos e numa sólida
uso da força, consideram a possibilidade
considerada definitiva. valores éticos: a amizade, a confiança, base humanística, com conhecimentos
de atacar e dominar os produtivos e fortes.
O direito existe para tornar possí- a coragem, a autoridade, a dignidade, da ciência militar e do espírito de cor-
Com o passar dos anos, depois de vários
vel o convívio social, bem como deve a liberdade, a justiça, a igualdade, o po. Deve estar preparado para arriscar
conflitos, terminam por se organizarem
fundamentar-se nos costumes de um respeito, o patriotismo, a cidadania e a sua vida na guerra. Com respeito à como um único agrupamento humano
povo. Lembrando que as relações jurí- responsabilidade. disciplina, aos aspectos institucionais para lidarem com outros agrupamentos
dicas pressupõem a confiança mútua Com base nestes valores, a família e coletivos, constitui poderoso fator de humanos semelhantes dos vales vizinhos.
entre os homens e que, sem ética, o educa os filhos para viver em sociedade. desenvolvimento de uma nova cons- Em suma, a guerra, a solução dos pro-
direito nunca realizará o ideal de justiça. É na família que encontramos o amor ciência ética e política, adequando as blemas para a sobrevivência pela violência,
Neste contexto o filósofo francês desinteressado e, ao mesmo tempo, necessidades do ser humano e da sua é uma atividade tão antiga como o próprio
Frédéric Gros fundamenta que a guerra é no contexto familiar que os conflitos dignidade a uma pátria livre e demo- ser humano.
apresenta três dimensões: ética, política afloram e, dependendo da sua intensi- crática e, assim, manifestar confiança A historinha acima mostra os primei-
e jurídica. Por detrás destas três cate- dade e interesses, vão guiar condições quanto ao destino da Nação n ros passos dados pelos seres humanos na
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direção de se organizarem socialmente. satisfação das necessidades, bem como O PENSAMENTO – O uso de truques (assassinato
São os primeiros passos do processo trazer uma boa vida para todos. CHINÊS e corrupção) está em segundo lugar;
civilizatório. O Estado é produto dos homens que, estando São conhecidos vár ios autores – Manobra em terceiro lugar;
A sociedade é fruto da insegurança, é a impossibilitados de se bastarem a si próprios chineses da Antiguidade, sendo Sun Tzu – Em último lugar o cerco ou a
representação física do pacto que fazem entre e tendo necessidade de uma infinidade de – que já mencionamos – o mais famoso batalha.
si os homens para sua proteção. coisas, se associam para obter ajuda. dentre eles. Segundo Sun Tzu, a guerra Na cultura chinesa, a esperteza na
Protágoras Platão é de vital importância para o Senhor e, guerra era mais importante do que a força
Possivelmente os textos mais antigos Devido à inevitabilidade do surgimento portanto os negócios militares devem ser bruta, e a melhor guerra é aquela que nun-
que tratam da guerra são dos chineses. do Estado e da guerra entre os diferentes estudados. Para os chineses a guerra é ca ocorreu. O melhor comandante deveria
Para eles a guerra não era um instrumento Estados, há quem veja a evolução da um mal, muitas vezes necessário, mas ser antes um sábio do que ser violento e
da política, tampouco um fim em si mesma. capacidade do mesmo como uma resposta um mal é um desvio da harmonia cósmica brutal: A melhor guerra é aquela em que
A guerra era vista como um mal apesar de às exigências da guerra. Basicamente o ou dao. não houve luta e a pior guerra é aquela
ser, muitas vezes, necessária, devido às Estado tem duas funções primordiais: uma Dao somente pode ser restaurado que se repete.
imperfeições do mundo. função econômica e outra de segurança, por dao, portanto será vitorioso na guerra
Nosso objetivo, atualmente, é meditar utilizando a política, a estratégia e a logís- aquele que tiver maior virtude. Somente GREGOS E ROMANOS
sobre a guerra, este fenômeno social, tica para executá-las. Há um grande número de autores en- as características contrastantes entre Comentários sobre a Guerra da Gália, há
será forte aquele que se engajar numa
exatamente por ser uma atividade huma- Acredito já ser evidente que estudar a tre gregos e romanos, mas poucos fizeram a estratégia de Aquiles, uma estratégia outros dois autores que merecem menção:
batalha por uma causa justa.
na que acontece com um moto próprio. guerra não é apenas coisa de maluco ou uma abordagem abstrata e filosófica da voltada para o uso da força e o confronto – Frontinus, cujo trabalho sobre a arte
Dao e favor do universo à parte os
Nós concordamos com Van Creveld, que de gente belicosa, mas é uma atividade de guerra; a grande maioria tratou apenas direto na busca de uma batalha decisiva; da guerra foi perdido, restando o livro Stra-
escritos de Sun Tzu e dos outros autores
em seu livro The Transformation of War, suma importância para se estabelecer uma dos aspectos práticos. Infelizmente dentre e a estratégia de Ulisses, voltada para o tagemata, que trata dos aspectos práticos
também apresentavam aspectos práticos
afirmou que: é axiomático afirmar que ne- estratégia nacional e garantir que o Estado os grandes generais, como Alexandre, uso da esperteza, do engano, da manobra e técnicos da guerra;
a serem considerados para o sucesso nas
nhuma atividade humana pode realmente atinja seus objetivos. Scipio e Cesar, apenas Cesar deixou regis- e de somente aceitar o confronto direto – Vegetius, que com seu trabalho
batalhas; como por exemplo: a meteoro-
ocorrer sem uma completa compreensão Como vamos apenas dar um voo rasan- tros de suas batalhas nos seus Comentarii numa condição de vantagem. A opção por Epitoma rei militaris, também trata exclusi-
logia, o terreno, o comando e a doutrina.
de seus princípios, e assim sendo tal te na História, vamos nos limitar a comentar de bello Gallico. uma ou por outra estratégia está sempre à vamente dos aspectos práticos da guerra.
Uma vez, porém, que a violência era
estudo da guerra é importante. a visão que alguns destacados autores pos- GREGOS disposição do comandante e não se pode, a A leitura de Frontinus e Vegetius,
uma perturbação do dao ela deveria ser
Pelo caráter introdutório do trabalho, suíam sobre a guerra. Não vamos comentar Dentre os autores gregos temos He- priori, descartar o uso de uma ou da outra. principalmente, era mandatória, segundo
minimizada. São observações de Sun Tzu:
vamos privilegiar uma maior amplitude em sobre táticas e manobras, a não ser que o ródoto, que escreveu sobre a guerra com ROMANOS os melhores autores de assuntos militares
– Nenhum Estado jamais se benefi-
detrimento da profundidade na abordagem comentário contribua de alguma forma para os persas; Homero, que escreveu sobre Os romanos da República sempre se até o século XVIII.
ciou com uma guerra longa;
do assunto. ilustrar a visão do autor em questão. a guerra com Troia e Tucídides, o qual empenharam em guerras de conquista Em minha opinião a mensagem que
– Diplomacia é o melhor método de
Sun Tzu é o mais famoso escritor e Por longo tempo na História, a escreveu sobre a Guerra do Peloponeso. devido à ambição de sua elite. Foi um povo os romanos nos deixaram sobre a guerra
se resolver uma disputa;
general chinês a tratar da guerra. Ele pode guerra foi um instrumento do Senhor, A história da Guerra do Peloponeso, guerreiro por natureza e em um século pode ser facilmente reconhecida pela
ou não ser uma figura histórica, não há do Rei ou do Imperador para satisfazer narrada por Tucídides, merece uma atenção conquistaram toda a Península Itálica. A observação do comportamento de seus
como saber isto com certeza, mas ele é quaisquer que fossem seus desejos. O especial por tratar-se de uma guerra entre história de Roma é relativamente bem generais e legionários em todas as suas
sem dúvida uma lenda. A ele são atribuídas exército e o povo deviam marchar para a duas Cidades-Estados – Atenas e Esparta conhecida, mas não há qualquer tratado de campanhas. Nenhum inimigo dos romanos
as afirmações: guerra e produzir recursos para mantê-la – um aspecto que a torna semelhante às cunho filosófico sobre a guerra, de autor jamais teve dúvida sobre a ferocidade com
– Um Senhor pode ou não gostar dos sem ter o direito de opinar sobre seu guerras mais recentes. Segundo Tucídides romano. Além de Júlio Cesar, autor dos que eles lutariam; as legiões romanas eram
negócios militares, mas, não se preparar objetivo. Podem-se citar como exceção a guerra, resultado de um confronto polí-
para a guerra é faltar com seu dever; as Cidades-Estado gregas, onde havia tico entre duas potências gregas, ocorreu
– A guerra é de vital importância para uma discussão envolvendo a elite e os devido ao temor de Esparta e seus aliados
o Estado. cidadãos sobre o propósito da guerra e, de sucumbirem ante o poderio ateniense.
Essas são algumas de suas muitas na República Romana, onde as guerras Foi uma guerra terrível, principalmente para
ideias, que aparecem em seu livro A arte eram travadas para satisfazer a ambição o perdedor – Atenas.
da Guerra. expansionista da elite romana. Homero foi o autor da Ilíada, narrando
Como ilustrado na nossa narrativa Essa característica perdurou até a história da Guerra de Troia. Há contro-
inicial e ampliando a visão de Protágoras, o meados do século XVII, quando, com a vérsia sobre essa guerra, se ela foi de fato
Estado é o resultado do choque do homem assinatura de vários tratados entre as um evento histórico ou se trata de uma
com a natureza e com o próprio homem. nações ocidentais, destacando-se dentre ficção. A segunda hipótese é reforçada pelo
A existência do Estado é inexorável; ele eles o Tratado de Westphalia, surge o atual estilo literário usado por Homero. Gostaria
é o instrumento da tribo, da nação, para sistema internacional e o Estado-Nação apenas de destacar um aspecto dessa nar-
organizar a vida comum e promover a como é conhecido hoje. rativa sobre a guerra. Trata-se de mostrar
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máquinas de matar e não de fazer prisionei- Maquiavel pode ser considerado o pai da e as dimensões moral e social seriam os seu tempo, dominou os vários elementos Um dos primeiros tratados sobre os
ros. Quando cercados pelos romanos era política como ciência. Para ele a prática parâmetros fundamentais para os milita- que constituem a liderança em combate. princípios da guerra e estratégia foi elabo-
sabido que o cerco somente terminaria de da política deve ser baseada num realismo res. A revolução militar, ou uma completa Ele foi mais um comandante prático do que rado por um oficial prussiano: Adam Henri-
uma de duas formas, isto é, com a derrota frio e, não, na procura de um ideal ilusório. e fundamental mudança na guerra e nos um teorista. ch Dietrich Von Bullow, e seu trabalho Spirit
total de um dos dois lados. Vide o cerco Ele entendia perfeitamente a relação entre exércitos, aconteceu a partir da segunda Raimondo Montecuccoli, mestre na of the modern system of war foi publicado
de Massada e a conclusão das Guerras a guerra e a política, e a necessidade de metade do século XVI. Isso ocorreu devido guerra de manobra, competente adminis- em 1799. Nesse momento a estratégia já
Púnicas contra Cartago; o final foi uma um exército competente e poderoso para à introdução do mosquete, da artilharia trador e intelectual, foi o primeiro teorista não era a arte de conduzir a guerra anali-
vitória indiscutível dos romanos: Delenda prover segurança e liberdade de manobra e da profissionalização dos exércitos. a tentar compreender a guerra em todos sando o campo de batalha montado num
Cartago est. para a diplomacia. A conexão e o inter-re- Segundo Maquiavel, as figuras notórias os seus aspectos, tanto técnicos quanto cavalo; isso começava a ser feito em cima
Esta característica da guerra, de es- lacionamento entre as instituições políticas responsáveis por essa revolução seriam: humanos. de uma mesa usando mapas, já que mapas
calada sem controle da violência, foi reco- e militares são, talvez, as mais importantes Maurice of Nassau, Gustavus Adolfus e Antes de passar aos séculos XVIII e adequados começavam a ficar disponíveis.
nhecida pelo grande filósofo da guerra Von e revolucionárias ideias de Machiavel. Montecuccoli. Foi essa revolução que XIX gostaria de mencionar os trabalhos de Von Bullow desenvolveu a teoria de base
Clausewitz. Hoje, no mundo dito civilizado, Na sua percepção, uma vez que a vida resultou em exércitos, como os de hoje, Frederico, o Grande. Esse grande soldado, de operação, linhas de avanço e linhas de
há um esforço inútil e hipócrita de tentar do Estado depende da excelência de seu baseados em disciplina, subordinação Rei da Prússia, personificou o que de me- suprimento e os textos sobre estratégia
limitar a violência, coisa que os romanos exército, as instituições políticas devem hierárquica e obrigação social. lhor poderia haver no mundo militar antes passaram a se assemelhar a textos de
nunca fizeram: a pax romana foi mantida ser organizadas de forma a propiciar con- Maurice of Nassau é considerado o da Revolução Francesa. Ele deixou cinco geometria. O seu trabalho tratava, de fato,
graças à ferocidade de suas legiões. dições favoráveis ao funcionamento das pai do corpo de oficiais dos exércitos eu- trabalhos importantes: Principes generaux de um sistema para conduzir as operações
organizações militares. Na verdade, a visão ropeus. Ele mudou o etos da profissão, pois de La guerre; Testament politique; Testa- de guerra. Ele foi o primeiro a organizar o
DO SÉCULO XVI AO XIX de Maquiavel sobre a natureza do poder considerava comando como o resultado ment militaire; Elements de castrametrique campo de batalha com a utilização de ba- uma questão de cálculos; sua visão já
O período entre os séculos XVI e XIX nunca foi ultrapassada, ela continua tão da confiança da nação, com a autoridade et tactique; e um poema sobre a arte da ses de operações, objetivos das operações refletia a visão humanística, que surgia na
fez aflorar um pensamento mais esclare- atual hoje como o foi há quinhentos anos, derivada de uma comissão outorgada pelo guerra. Originalmente esses trabalhos e linhas de operações. filosofia em contraposição ao cartesianis-
cedor. Vários são os autores dessa época, e sua visão sobre a natureza da guerra e Estado, assim como ocorre na estrutura de foram considerados secretos, pois eram Antoine Henri Jomini foi o sucessor mo. Ele e Jomini ocupavam pólos opostos.
muitos deles soldados profissionais, que a função dos militares na estrutura social, comando moderna. direcionados ao treinamento dos oficiais direto de Von Bullow. Jomini era suíço e foi Os dois pontos de vista seriam unidos pelo
produziram trabalhos excepcionais. Vamos que inspiraram suas ideias, transcendem Quanto a Gustavus Adolfus (Rei da prussianos. Chefe do Estado-Maior do Marechal Ney. grande escritor ocidental sobre a arte e a
comentar sobre aqueles que consideramos seu tempo na História. Suécia), suas práticas administrativas e Em função dessa preocupação na edu- Ele costumava chamar a estratégia de Les ciência da guerra, Carl Von Clausewitz.
mais relevantes: – Séculos XVI e XVII – A revolução operacionais foram largamente imitadas cação de seus oficiais, no final do século grandes operations de guerre. Assim como Clausewitz não foi apenas mais um
– Maquiavel militar e, mais do que qualquer outro general de XVIII os oficiais passaram a ser comissio- Von Bullow, ele procurava um sistema que soldado com boas ideias, ele foi um filó-
O fiorentino Maquiavel foi um buro- Como reunir um exército capaz de nados após curso em Academias Militares, orientasse o comandante na condução das sofo de uniforme, ele procurou responder
crata, diplomata e político, e seu famoso ser instrumento confiável sempre foi um e, mais tarde, frequentavam curso em operações. Ele foi o primeiro a chamar a duas questões: o que é a guerra? e qual o
livro O Príncipe foi influente a ponto de criar problema. No final do século XV, com Escolas de Estado-Maior. Os graduados região onde ocorriam as operações de propósito da guerra?
termos como maquiavelismo e maquiavéli- a influência de Maquiavel, o estudo dos nessas instituições de ensino militar se Teatro de Operações. Seu trabalho sobre Não vou me enveredar numa análise
co, que significam comportamento mau e métodos militares romanos passou a ser tornaram então o alvo dos autores de obras estratégia foi publicado em 1805, e seu crítica das ideias de Clausewitz. Acredito
pessoa má, respectivamente. O Príncipe, uma fonte de inspiração para resolver este literárias sobre teoria militar. outro trabalho a Arte da guerra foi publi- ser um imperativo categórico fazer isso
seu masterpiece, foi escrito como um problema. A insistência de Maquiavel na Em suma, nos séculos XVII e XVIII cado em 1837. Nesse trabalho ele incluiu em todo trabalho que vise uma análise
manual para o governante, recomendando disciplina com base na hierarquia e com- vimos um significativo crescimento nos os aspectos políticos da guerra. Tanto abrangente e detalhada da guerra, porém
um comportamento baseado unicamente petência militar adquirida pela ordem unida efetivos dos exércitos na Europa. Os prin- Jomini quanto Von Bullow mostram, em esse não é o nosso propósito. A nossa
no próprio interesse, completamente e treinamento teve uma grande influência cípios de administração e controle foram seus trabalhos, uma visão coerente com a pretensão é apenas fazer um voo rasante
amoral e destituído de qualquer virtude. O na formação de uma força de combate aprimorados; uma nova ênfase foi colocada visão mecanicista do mundo em voga no para cobrir mais território num menor
seu tratado sobre A Arte da Guerra, apesar eficaz, na Holanda, na sua guerra contra na disciplina; a cadeia de comando foi século XVIII devido à filosofia de Descartes tempo, em detrimento do aprofundamento.
de ser menos conhecido hoje, também os espanhóis. Nessa força de combate aprimorada; e o efetivo das forças armadas e Newton. Entretanto é obrigatório dizer alguma coisa
fez muito sucesso. Ele valorizava o modo foi criado um novo tipo de soldado pro- deixou de ser de soldados profissionais Essa visão racional, que buscava um e, portanto, devo mencionar que de acordo
romano de fazer guerra e tentou deduzir fissional e líder de combate, combinando mercenários para ser de soldados profis- sistema capaz de orientar o comandante com Clausewitz: A guerra é o exercício ou a
os princípios inseridos na História Militar excelência em combate e valores morais sionais servidores do Estado. para atingir seus objetivos, teve seus prática da violência e da força, livre de qual-
romana para mostrar sua aplicabilidade no e sociais. Justus Lipsus, um admirador – Séculos XVIII e XIX críticos e, o mais importante, dentre eles, quer lei, regra ou restrição, exceto aquelas
seu tempo; em especial ele valorizava o fato de Maquiavel, insistia na lealdade e obe- A segunda metade do século XVIII outro oficial prussiano, Georg Henrich Von que forem convenientes para alcançar o
de as legiões romanas serem constituídas diência do soldado a serviço do Estado. A até o século XIX foi um período criativo de Berenhorst. objetivo político. Cotejando sua famosa
de cidadãos romanos, por essa razão ele guerra, segundo Lipsus, não era ou não é ideias sobre a guerra, até porque, com o Von Berenhorst publicou seu trabalho, frase: A guerra é apenas a continuação da
defendia ardorosamente o uso do soldado um ato descontrolado de violência, mas surgimento das Academias e Escolas Su- Reflections on the art of war, entre 1796 e política do Estado por outros meios. Infe-
cidadão (conscrito), substituindo o mer- o emprego da força comandada por uma periores de assuntos militares, o consumo 1799. Segundo Von Berenhorst, exércitos lizmente, neste caso, o português é pobre
cenário que era comumente usado então. autoridade legítima no interesse do Estado, desse material aumentou. não eram máquinas e a estratégia não era de palavras e não nos ajuda na apreciação
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das ideias de Clausewitz. Temos duas hipótese, isto é, o poder aéreo proporciona atingidos e uma vitória foi obtida. Nor- em qualquer conflito sem antes entender-
expressões em inglês, politics e policies uma nova estratégia para a guerra. malmente devido à natureza das forças mos perfeitamente tal conflito. Sem este
e ambas são traduzidas por políticas em De fato a guerra foi fundamentalmente envolvidas não há uma rendição e um en- entendimento o estabelecimento de uma
português. Então, para esclarecimento, na mudada com o advento do poder aéreo e o cerramento definido. A melhor maneira de estratégia e de uma logística adequadas
versão em inglês, a palavra usada é policy comandante que não souber como usá-lo se consolidar uma vitória foi demonstrada para o sucesso será impossível. Foi por
e, portanto, para Clausewitz, a guerra não não terá sucesso, exceto se o comandante pelos romanos contra os cartagineses. falta dessa visão da guerra e de quando a
é uma política, mas um procedimento da oponente o ajudar bastante. Uma definição Atualmente, no entanto, tal forma de vi- vitória foi conseguida que, mesmo tendo
política. atual do poder aéreo seria a capacidade de tória será considerada desumana, sendo derrotado o inimigo na guerra revolucioná-
SÉCULO XX projetar uma força de combate usando uma muito mais importante hoje do que outrora ria dos anos 60 aos anos 80, uma vitória
A ofensiva alemã de agosto de 1914 foi plataforma no ar ou no espaço. É possível, entender a guerra, isto é, sem sombra definitiva não foi obtida.
a materialização de um século de desen- portanto, imaginar o que isto significa em de dúvida é essencial, para a adoção de A Humanidade está longe de atingir
volvimento do pensamento militar e prática termos de ciência, tecnologia, indústria, uma estratégia eficaz, a determinação o fim da História e o tempo em os leões
da guerra. Os alemães, segundo a crença infraestrutura, sistemas logísticos, orga- de quando os objetivos foram atingidos. viverão em paz com os cordeiros. Como
reinante, considerando que a ofensiva era nização, pessoal etc. Apesar de a guerra nem sempre envolver Platão escreveu as únicas pessoas que
a mais forte forma de guerra, esperavam Como nosso objetivo é tratar da dois Estados e dois exércitos, ela ainda é a não precisam se preocupar com a guerra
um final rápido. Devido à evolução do ar- guerra e não do poder aéreo, devo resistir condução da política por meio da violência, já morreram. Na verdade, pode ser que o
mamento, no entanto, como, por exemplo, à tentação de fazê-lo. O emprego do poder power. The 1990’s began with a convincing e já que Delenda Cartago est não pode ser ser humano nunca consiga uma paz eter-
a metralhadora, a defesa se mostrou uma aéreo é um assunto vasto e, nesse século demonstration of modern campaigning in o efeito desejado, o uso da violência deve na, simplesmente porque a ambição por
forma de guerra bem mais forte. Em conse- que se passou, desde seu aparecimento, the Gulf War and ended with a victory over ser feito com muita sabedoria. Um Estado grandes coisas e a violência está no seu
quência, as operações na frente de batalha tornou-se um poderoso instrumento da Serbia that removed their military forces Realmente a capacidade destrutiva pode estar em guerra contra uma rede DNA. Gostaria, portanto, de encerrar como
chegaram a uma estagnação, a qual durou guerra para obtenção e manutenção dos from Kosovo and paved the way for the dos novos sistemas de armas pode ter terrorista, uma milícia, um exército rebelde, comecei, citando Van Creveld: É axiomático
anos e custou alguns milhões de vidas. interesses da nação. Por esta razão merece entry of peace-keepers. That the victory afastado o risco de conflitos armados e até contra o crime organizado. As guerras afirmar que nenhuma atividade humana
Assim como o telégrafo e o transporte um tratamento especial que deve ficar para was won in the absence of ground cam- diretos entre as grandes potências. Este irregulares também podem ser travadas en- pode realmente ocorrer sem uma completa
ferroviário foram os fatores tecnológicos outra ocasião. paign surprised some traditional airpower conflito tem ocorrido e continuará ocor- tre dois grupos organizados sem envolver compreensão dos princípios envolvidos.
que influenciaram as guerras na segunda Para não ser injusto com os dois pio- skeptics. Noted military historian John rendo na periferia das áreas de influência nenhum Estado. A violência subiu de tom É por esta razão que procurar entender
metade do século XIX, pelo menos três neiros e visionários do poder aéreo, porém, Keegan remarked, “Now there is a new destas nações. nestas guerras, pois, normalmente, o que a guerra não é uma opção n
fatores tecnológicos importantes influen- gostaria de mencionar sobre Giulio Douhet turning point to fix in the calendar: june 3, Após a Segunda Guerra Mundial, o impede a barbárie na guerra é o conceito
ciaram a guerra de 1914 a 1918. Foram que ele foi o primeiro a escrever seriamente 1999 when the capitulation of President mundo não se tornou, de forma alguma, de honra dos soldados e o respeito entre Bibliografia
FREEDMAN, Sir Lawrence. Strategy: a history.
eles: a motorização das tropas terrestres, sobre o poder aéreo e seu efeito na guerra. Milosevic proved that war can be won by um local mais pacífico; na verdade as guer- os inimigos. Oxford University Press. Edição do Kindle.
a evolução das armas de tiro rápido e o Na sua visão, aquele que controlasse o ar airpower alone. ras continuaram a ocorrer como sempre Alguns acreditam que estamos vi- HUNTINGTON, Samuel P. The clash of
civilizations and the remaking of world order.
avião. Nenhuma dessas tecnologias che- também controlaria a superfície. Sobre Se havia, portanto, alguma dúvida de ocorreram. Na sua maioria, porém, foram vendo o final dos tempos do Estado wes-
Simon & Schuster. Edição do Kindle.
gou a contribuir de forma decisiva nessa Hugh Trenchard, reconhecido como o Pai que o poder aéreo mudou completamente conflitos de baixa intensidade, isto é, con- tphaliano. Os avanços tecnológicos estão PARET, Peter. CRAIG, Gordon A. GILBERT, Felix.
guerra, mas o mesmo não pode ser dito da Real Força Aérea Britânica, é importante a face da guerra, já não há justificativa para flitos em menor escala sem a participação causando uma fragmentação da soberania Makers of modern strategy from Machiavelli to
the nuclear age.
nos conflitos posteriores. mencionar que ele era um enfático defensor não aceitar este fato. de grandes exércitos e sem o emprego de dos Estados, que já não conseguem GOVERNMENT, U.S. The paths of heaven: the
Com a estagnação da linha de frente do poder aéreo estratégico. Tanto para Entretanto não foi apenas o poder grande número de armamento pesado e controlar o que acontece dentro de suas evolution of airpower theory – Douhet, World
War I and II, William Mitchell, Naval Theories,
e como os aviões evoluíam rapidamente, Trenchard quanto para Douhet, o avião é aéreo que provocou mudanças na guerra. sofisticado por todas as partes em conflito. fronteiras; isto é uma indicação de que Continental Europe, Air Corps, De Seversky,
ficou evidente para alguns visionários que uma arma essencialmente ofensiva. Para O desenvolvimento de armas de destruição Entretanto nem por isso deixaram de ser conflitos irregulares tendem a aumentar. Nuclear Strategy. Boyd, Warden, NATO.
Progressive Management. Edição do Kindle.
a arma aérea ou o nascente emprego do Trenchard o gol da ofensiva aérea deve ser em massa, tecnologia de informações, sangrentos. Importante ressaltar que neste Como já afirmamos, o objetivo deste GOVERNMENT, U.S.; Military, U.S.; Defense
poder aéreo seria a forma de vencer futuras paralisar, desde o início das hostilidades, a comunicação, sistemas logísticos e outros tipo de conflito tamanho não é documento, trabalho é fazer uma abordagem superfi- (DoD), Department of. The End of the
Beginning: On the application of aerospace
guerras. Entretanto, mesmo hoje, ainda há indústria, os transportes e a comunicação avanços tecnológicos são fatores que tor- e grandes potências sofreram derrotas ex- cial na História para ver como a guerra foi power in an age of fractured sovereignty, trends
dúvida ou ignorância entre muitos generais do inimigo. Considerando esse objetivo, a nam inaceitáveis as perdas para todas as pressivas. Vários nomes são atribuídos aos entendida e conduzida em cada tempo e, 2020, demography, technology, military, social,
operations with blurred boundaries. Progressive
de como deve ser o emprego do poder seleção de alvos se torna uma atividade partes em conflito se tratar-se de grandes conflitos de baixa intensidade: terrorismo, assim, projetar uma imagem de como ela
Management. Edição do Kindle.
aéreo, e mesmo entre profissionais do primordial. potências. insurgência, guerrilha e até combate ao deve ser vista atualmente. Esperamos que GOVERNMENT, U.S.; Military, U.S.; Defense
ramo há dúvida se o poder aéreo mudou a Reproduzo abaixo, o texto extraído de Esta situação levou Martin Van Crev- crime organizado. Não importa o nome, isto seja uma introdução para futuros estu- (DoD), Department of; Air Force (USAF). U.S.
airpower, Afghanistan, and the future of warfare:
estratégia da guerra ou apenas as táticas. The end of the beginning: on the application eld a fazer a seguinte afirmação em seu este é o tipo de conflito mais importante dos sobre o assunto. Francamente eu não an alternative view – assessing the air-ground
Assim como é impossível falar da of aerospace power. O livro foi publicado livro The transformation or war: a ghost is atualmente, principalmente porque, neste vejo, no âmbito das nossas organizações relationship, precision strike, change in land
combat, force intensification, doctrine mpact.
guerra sem mencionar Clausewitz, é impos- pelo Departamento de Defesa dos EUA e é de stalking the corridors of General Staffs and caso, poderio militar é irrelevante. de defesa nacional, uma ideia clara sobre Progressive Management. Edição do Kindle.
sível falar de poder aéreo sem referir-se a autoria do Major Douglas W. Kiely (USAF): Defense Departments all over the devel- Um grande problema relacionado ao as nossas hipóteses de guerra, e de como VAN CREVELD, Martin. A history of strategy:
from Sun Tzu to William S. Lind. Castalia House.
Giulio Douhet e Hugh Trenchard, e tanto um The last decade of the Twentieth oped world – the fear of military impotence, conflito de baixa intensidade é como, e devemos nos preparar. Acredito ser muito Edição do Kindle.
quanto o outro eram defensores da primeira Century was very good for aerospace even irrelevance. quando, concluir que os objetivos foram difícil, se não impossível, obtermos êxito Transformation of war. Free Press. Edição do Kindle.

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Raul Galbarro Vianna
Cel Av
raulgvianna@gmail.com

...E A PARADA SEGUE O SEU DESTINO


N
a recente segunda quinzena de do Galeão fui informado de que comandaria
maio, lendo despretensiosamente a escolta que levaria para o México os pri-
um jornal matutino, fui levado a sioneiros políticos constantes de uma lista
encarar uma notícia que informava sobre divulgada pela imprensa, por exigência dos
a condenação a 30 anos e nove meses de sequestradores do Embaixador americano
prisão, em última instância, do ex-ministro Charles Burke Elbrick, que fora recentemen-
José Dirceu (eminência parda desde há te sequestrado e se encontrava em local
muito até tempos recentes). desconhecido, em poder dos sequestrado-
Esse episódio acendeu e ativou, com res. E eu pergunto: – Cadê a escolta? – e
bastante clareza, o retrovisor de minha alguém responde: – Você providencia!.
memória. Assim, pude divisar com nitidez Aí começa a inana. Quais e quantos
o dia 6 de setembro de 1969, um sábado. membros na escolta? Somente graduados?
Nosso país vivia um período conturbado Ou uma mescla de graduados e praças? Em
e eu, nesse contexto, nessa referida data, que setores recrutá-los? O vulto da opera-
cumpria uma cansativa escala de sobrea- ção, as ressonâncias política e diplomática
viso na Base Aérea do Galeão. Em face das de qualquer falha ou deslize poderiam
circunstâncias do momento, após uma acarretar sérios atritos internacionais. Ao
noite um tanto insone, embora até certo fim optei por selecionar um graduado e
ponto tranquila, ao amanhecer do dia 7 um cabo, que haviam ficado em quartel
de setembro pude retornar à minha casa. cumprindo o sobreaviso, uma vez que já os
Sendo capitão e solteiro, morava na conhecia bem, em razão de ações a serviço
casa de meus pais. Ao entrar em casa, da Seção de Investigação e Justiça. Dessa
vejo um jornal do dia aberto sobre a mesa. forma os dois passaram a ser os meus fiéis
Antes de ver ou falar com alguém o telefone escudeiros na missão.
toca e eu, prontamente, atendo. Era da Minha preocupação era a possibilidade
Base Aérea do Galeão. O comandante de- que havia de alguma rebeldia ou conduta
terminava o meu regresso imediato. Achei inadequada ou estranha de algum ou alguns
estranho e argumentei que estava saindo dos subversivos, o que, se ocorresse, co-
de um sobreaviso. O comandante foi taxati- locaria por terra tudo que o nosso governo
vo e monossilábico, recomendando, ainda, desejava e nós também. Equacionados es-
que viesse pronto para uma viagem de dois ses pequenos detalhes efetuei um briefing
dias. Entendendo que a ordem era rigorosa, explicativo aos dois sobre a missão, cujo
mas não absurda, nessa circunstância fiel cerne era o SIGILO quanto ao nosso des-
à máxima de que o militar cumpre e depois tino, uma vez que os próprios prisioneiros
pondera, retornei ao quartel de imediato não o sabiam e, a partir daí, como prevíra-
(sem qualquer explicação convincente à mos, seríamos indagados insistentemente
família, que nada entendeu). por eles a respeito.
Durante o percurso, dirigindo o meu Reduzidos os pormenores, antes do
carro, eu me perguntava: – Qual será a embarque, seria necessário conhecer e
missão? Por que eu?. Um pouco mais tarde identificar os prisioneiros, a fim de poder
viria a saber. Tão logo cheguei à Base Aérea efetuar a entrega ao governo mexicano. De
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posse das fichas individuais, com fotos, de último passageiro para o México: Mario permitiram que fosse efetuada qualquer Maj Brig Ar Carlos Sergio de Sant’Anna Cesar
treze componentes, da lista de quinze a ser Roberto Galhardo Zangonato, o Shu-Shu. negociação com representantes mexicanos ccesar56@yahoo.com.br

OPERAÇÃO
entregue às autoridades mexicanas (entre Ao longo do voo, cujos passageiros (emigração).
as quais a de José Dirceu de Oliveira e apresentavam cenho mais preocupado Conversei com o comandante do
Silva), surge um impasse. Como eu não co- que cansado, alguns tiravam seguidos nosso avião. Retornamos a bordo, eu e o
nhecia ninguém da lista, tive de me valer de cochilos curtos, enquanto nossa diminuta pessoal da emigração mexicana. Com isso,
um pequeno macete para facilitar a tarefa. equipe mantinha-se administrando bem a e somente assim, foi possível efetuarmos

HOWEVER
Adotei símbolos e cores pequeníssimos e situação, embora já apresentando alguns as transações necessárias, uma vez que as
discretos que passaram a constar da roupa sinais de esgotamento. coisas se desenvolveram com a turba inva-
e da ficha individual correspondente a cada Felizmente não houve qualquer ocor- sora, em uníssono, o tempo todo batendo
um. Dessa forma, por ocasião da entrega, rência destoante ou anormal que mere- na porta do avião e gritando: – Gorilas fora!.

O
era só cruzar a ficha com a roupa. cesse registro e, assim, decolamos para Ao fim, tudo bem, todos vivos, pudemos (eu s AVRO 748, incorporados à Casa Militar da Presidência, Base Aérea
A essa altura o clima no entorno do nossa última etapa, de Belém para MMMX e a escolta) nos juntarmos à tripulação, no FAB no início da década de ses- de Brasília, COMAR 6.
aeroporto e da Base Aérea era nervoso e (Aeroporto Benito Juarez, na cidade do saguão do aeroporto e, após ingerirmos um senta – o primeiro em dezembro de As primeiras edições do Ground
tenso, em razão do aparato policial-militar México), após cansativas doze horas e oportuno café da manhã, partimos todos de 1962 – receberam a designação de C-91 e, School do C-91 e decorrente instrução
envolvido. As horas foram passando e, trinta minutos de voo direto. A bordo, regresso, em um voo direto, sem escala, à época, trouxeram novas tecnologias, tais aérea foram, prioritariamente, voltados
após um frenético entra-e-sai de viaturas quinze subversivos, moeda de troca pela México-Brasília, efetuado em dezesseis como pressurização, piloto automático, para os oficiais integrantes do efetivo do
oficiais e vários boatos, finalmente às vida do embaixador americano no Brasil. horas e trinta minutos (até hoje, a maior motores turboélice, hélices com passo GTE, cuja missão básica era a operaciona-
17h30 o C-130 2456 decola para Recife, Mas a missão não terminara. A recepção foi etapa que encarei, como tripulante ou não). zero etc., que obrigaram o efetivo do Grupo lidade de sua UAer, salpicadas por oficiais
a fim de efetuar o embarque de Gregório preocupante e assustadora. Da sacada do Ao pernoitarmos em Brasília tive de de Transporte Especial (GTE) – Unidade das demais OM, em proporção às suas
Bezerra. Após quatro horas e cinco minu- aeroporto, ouviam-se os gritos frenéticos admitir que, apesar do cansaço físico já Aérea que os recebeu, a uma verdadeira participações no QP.
tos de voo predominantemente noturno, e os vivas aos recém-chegados subversi- bem reduzido e a sensação da mente leve revolução tecnológica em seus conceitos Este preâmbulo, além de situar o even-
chegamos a Recife, onde, após os trâmites vos. A nós, tripulantes e escolta, vaias e como uma pluma, sentia-me descoroçoa- e procedimentos operacionais. to a ser abordado no tempo e cenário, visa
legais, nos foi entregue a penúltima e, tal- gritos: – Gorilas fora! e – Gorila aqui é de do ante a perspectiva que se delineava para A Comissão de Recebimento instalada também demonstrar que o conhecimento
vez, mais valiosa moeda de troca: Gregório cabeça baixa!. o nosso país, o que veio a se configurar ao em Londres, junto à A. V. Roe and Com- integral das tecnologias disponibilizadas, Chanceler
Bezerra, que, ao adentrar no avião, onde Nossa tripulação foi para o prédio do longo desses quase 50 anos. Pela manhã Juraci Magalhães
pany (Avro), então fabricante do avião, era requeria tempo e dedicação dos tripulantes
já se encontravam sentados nos bancos aeroporto, enquanto eu tentava chegar do dia 8 de setembro, decolamos para o integrada pelo Maj Av Pereira Sobrinho, o que, naquele grupo heterogêneo, estavam Brig Eduardo Gomes que, consultado pelo
laterais todos, rigorosamente todos, estes a um acordo com as autoridades mexi- Galeão, aonde chegamos após duas horas Maj Eng Araujo, o Cap Av Sergio Burguer, mais presentes no efetivo do Grupo e da seu par e velho correligionário da pasta
se levantaram em respeitosa saudação. canas que, a meu ver, subestimaram ou e cinco minutos de voo. o Cap Av Cecchi, o Ten Esp Claudio e o BABR, uma vez que nas demais OM os ofi- das Relações Exteriores, não hesitou em
Dessa forma, foi possível decolarmos subdimensionaram o episódio, permitindo Assim estava encerrado mais um do- Ten Esp Cescato, além de uma equipe de ciais estavam envolvidos, prioritariamente, disponibilizar um C-91 da Força Aérea para
para uma etapa, agora totalmente noturna, a incursão no pátio de estacionamento, loroso capítulo de uma longa história que suboficiais e sargentos da manutenção do nas suas atividades fim. atender a missão.
de três horas e trinta e cinco minutos de de pessoas estranhas de toda a ordem, viria a se estender até os dias de hoje, 50 Grupo, a quem coube implantar e ministrar, Nossa história tem início no segundo Eis que, nas preliminares para a efe-
Recife para Belém, a fim de embarcar o inclusive refugiados que, com isso, não anos depois n inicialmente, os cursos teóricos – Ground semestre de 1966, quando já julgávamos tivação da missão, esbarra-se com a limi-
School – que transmitem os conhecimen- dominar totalmente o emprego, a perfor- tação operacional de que, o C-91, embora
tos necessários à manutenção e à opera- mance e a operacionalidade do C-91, e tenha o teto operacional de 25.000 ft, seus
ção da aeronave, assim como a instrução surge a necessidade de uma missão pre- gráficos de performance de decolagem
aérea que se lhe segue. cursora do Ministério de Relações Exterio- restringiam-se a aeródromos situados até
Ao longo de 1963, foram sendo recebi- res de, por intermédio de seu Chanceler, Dr. 8.000 ft, não contemplando análises para
das as demais aeronaves, totalizando seis Juraci Magalhães, dar curso às conversas pistas de maior altitude, o que levou a uma
– C-91 2500 a 2505 – que completaram, preliminares com presidentes de países primeira resposta por parte do GTE, de que
ao se juntarem aos dois VISCOUNT C-90 vizinhos, como preparatórias para uma o destino La Paz não poderia ser atendido,
presidenciais, a frota do 1ºGTE, sediado na Reunião de Presidentes sul-americanos, a uma vez que o aeroporto local – El Alto –
Base Aérea de Brasília (BABR), enquanto ser realizada em Buenos Aires. estava situado a 13.323 ft. Se há alguém
o 2º GTE, sediado em SBRJ – hangar do Tal missão deveria seguir um roteiro em quem uma resposta negativa sobre
COMAR 3 no Aeroporto Santos-Dumont – circunstancial, função do resultado de a realização de uma missão não ecoava,
ficou com a dotação total de C-47 e C-45. tratativas prévias efetivadas pelo Chanceler a história nos conta que o Brig Eduardo
O QP (Quadro de Pilotos) do GTE brasileiro, mas sabia-se que seus destinos era este alguém, e sua resposta veio em
era integrado por seu efetivo orgânico, prioritários seriam Buenos Aires, La Paz, palavras e imagem.
mais os oficiais aviadores do Gabinete Montevidéu e Santiago. Na revista Avro Journal, que se en-
do Ministro, Subchefia de Aeronáutica da Era então Ministro da Aeronáutica o contrava em seu gabinete, provavelmente
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trazida pela equipe comercial da A. V. Roe, encontrar os parâmetros que tornassem a foi feito no gráfico Balanced field length, La Paz, para o tal ajuste da Unidade de feitos nas turbinas no que tange à injeção internacional. Estávamos, pois, entre a cruz
a capa estampava um Avro 748, o G-ARAY, decolagem, naquela altitude, uma manobra cujos fatores atuantes eram conhecidos Água-Metanol. de água-metanol. e a caldeirinha.
o mesmo que fizera a demonstração pré- segura. e passíveis de extrapolação. Em verdade Pulamos agora para o dia 12 de outu- Por ser instrutor de voo de C-91, en- Ocorre que o Ten Claudio, de nossa
-venda aqui no Brasil, pousado em El Alto, Abro aqui um parêntese, para comen- não recordo com absoluta precisão estes bro, quando decolamos de Santiago (SCTI) quanto o Cap Trajano tinha a qualificação tripulação, como vimos acima, havia sido
La Paz. Narra a história que o Ministro teria tar que, para os oficiais aviadores mais números, mas posso afirmar que o PMD às 8 horas local com destino a Arica (SCAR), de 2P na aeronave, me coube a pilotagem da equipe de recebimento dos nossos Avros
dito: se os ingleses vão, por que nós não antigos do nosso QP ou simplesmente do para aquela altitude ficou em torno de cidade no extremo norte do Chile, próximo neste voo. Fizemos um brifing específico, na fábrica, e, como tal, o multiplicador do
podemos ir. Teríamos de ir, e aí nasce a efetivo daquelas OM supracitadas, toda 34.500lb, contra os 42.000lb permitidos ao às fronteiras com o Peru e a Bolívia, cujo ressaltando as anomalias que poderíamos conhecimento para as equipes de manu-
operação batizada de However. esta celeuma parecia sem sentido, uma nível do mar em ISA+15; as V1 e V2 muito aeródromo é ao nível do mar, e onde após encontrar, como falta de potência, con- tenção do Grupo. Logo, ninguém melhor
Consequentemente, nós implementa- vez que eram testemunhas ou mesmo próximas às mensuráveis no gráfico que quatro horas e vinte e cinco minutos de duzindo a uma corrida mais extensa para do que ele para cumprir tal boletim, que
mos buscas nos Manuais de Operações e protagonistas da operação dos heróicos as estabelecia para campos a 8.000ft de voo pousamos, efetivamos a calibragem atingir V1 e/ou V2, em face do que esta- determinava apenas a inspeção das janelas
Manutenção, no sentido de encontrar uma C-47, na Cordilheira dos Andes, que con- altitude; e a distância a percorrer no solo requerida na unidade de água-metanol das belecemos um ponto na pista compulsório de emergência e, se não encontradas anor-
resposta que viabilizasse a decolagem têm picos acima de seu teto operacional, estava na casa de 50 a 60% da disponível duas turbinas, e decolamos para La Paz, El para abortar; a necessidade de um moni- malidades, recolocá-las no local. Isto feito, e
de El Alto, ao tempo que consultávamos e com decolagens rotineiras de La Paz, no na pista de 4.000m de comprimento, o que Alto (SLLP), aeroporto a 13.323ft. toramento constante da temperatura das balanceando a responsabilidade operacional
os fabricantes da aeronave e das turbi- cumprimento de linha do Correio Aéreo nos deixava bem tranquilos. Após subirmos, orbitando entre Arica turbinas, vis-à-vis a entrada da água-me- e a administrativa, esta do Trajano e aquela
nas – RR Dart 531 – aquela, já agora, a Nacional (CAN). Agora se tratava de fazê-lo Isto posto, e apresentado ao Comando e o contraforte da Cordilheira, para atingir o tanol, para evitar a ultrapassagem do limite minha, optamos por prosseguir nossa mis-
Hawker-Siddeley e, esta, a Rolls-Royce, com uma aeronave muito mais potente, do GTE e ao Gabinete do Ministro o trabalho nível necessário para a altitude mínima em máximo permitido; e rigorosa observação são e decolamos no dia e horário previstos
respectivamente. com recursos muito melhores e com teto efetivado, foi emitida a Ordem de Missão, rota, aproamos La Paz, voando a 23.000ft da velocidade para o flap speed schedule, na OM e, obviamente, em voo pressurizado.
A RR nos enviou um boletim determi- operacional muito acima da altitude da tal por zelo administrativo, enquadrada como e, após trinta minutos de voo, iniciamos a em virtude do nível de sustentação. O segundo ocorre quando, conhe-
nando que, antes da decolagem do trecho decolagem, dita crítica. Missão Militar. Assim, em 9 de outubro descida, operando manualmente o sistema Feito isto, efetivamos duas decolagens cendo nossa decolagem de La Paz e
que tivesse por destino o aeroporto de El A conclusão de nossos estudos foi de 1966, o C-91 2503, com sua configu- de pressurização, para que tivéssemos com seus circuitos, em que pudemos projetando a duração da jornada, nossa
Alto, reduzíssemos em uma volta e um baseada na análise do gráfico En route net ração interna VIP, e tripulado pelo Cap Av o encontro das pressões da cabine e do observar e constatar o adequado compor- Embaixada em Buenos Aires nos comunica
quarto a regulagem do sensor da unidade flight path (drift-down), que determinava a Trajano, Cap Av Cesar, Ten Esp Claudio, exterior somente ao entrarmos na reta final tamento de todos os parâmetros, configu- que, em face do inicio do horário de verão,
da injeção de água-metanol das turbinas, altitude máxima de operação monomotor SO QAv Melo e 1S RTvo Magalhães, mais – 13.800ft – a fim de não gerar desconforto rando uma operação absolutamente normal não conseguiríamos pousar no horário
para que estes não registrassem uma diante da eventual falha de uma turbina em tripulação de cabine, decolou de SBRJ, para os passageiros. da aeronave. Comunicamos o resultado ao previsto para as cerimônias protocolares, e
desproporcional e irreal falta de potência, rota, justo para viabilizar rotas que cru- Santos-Dumont, tendo a bordo o Sr Juraci Para maior segurança, os tripulantes GTE, aprontamos o avião para o pernoite, causaríamos transtornos ao governo local.
levando a uma injeção desnecessária, que zassem áreas com montanhas de grande Magalhães, Chanceler brasileiro, mais 13 de cabine usavam suas máscaras de oxi- e fomos para o merecido descanso do Buscamos então conceber uma rota alter-
redundaria, fatalmente, em excesso de altitude. Assim foi possível estabelecer o pessoas, entre assessores e cônjuges, gênio e a aproximação e o pouso transcor- guerreiro. No dia 15 de outubro, concluída nativa, que pudesse encurtar o percurso,
temperatura e aos danos consequentes. Peso Máximo com que o nosso C-91 se para a missão preparatória da Reunião de reram de forma normal, não apresentando a missão da delegação do MRE, prossegui- e cancelamos a ida a Santiago, cruzando a
Tal ajuste deveria ser desfeito no primeiro sustentaria na perna com o vento de El Presidentes sul-americanos, tendo como qualquer diferença significativa daquelas mos a missão decolando para Arica, onde Cordilheira numa diagonal noroeste/sudes-
pouso após a decolagem de La Paz. E, ao Alto, que deveria ser feita a 14.500 ft, assim destinos as cidades de Santiago do Chile, realizadas em níveis inferiores. Após as iríamos desfazer os ajustes das turbinas, te, de Arica para Mendoza, fora de aerovia
fim da resposta, assinalava, HOWEVER como a velocidade mínima de sustentação La Paz, Buenos Aires e Montevidéu. cerimônias protocolares de recebimento de voltando à operação normal da aeronave. e visual, o que nos proporcionou um voo
deve ser ouvido o fabricante do avião nestas condições, e adotá-los como PMD Operacionalmente, as etapas previs- nosso Chanceler, a comitiva se retirou do Fugindo um pouco do objeto inicial de lindíssimo por cordilheira nunca dantes
sobre o comportamento da célula nestas (Peso Máximo de Decolagem) e V2. tas eram SBRJ/SBPA/SACO/SCTI/SCAR/ aeroporto, onde ficamos nós, a tripulação, nosso artigo, expresso pelo título, haveria navegada, em verdade com pouquíssimas
condições. Faltava só obter as distâncias a SLLP/SCAR//SCTI/SACO/SAAE/SUMU/ e em contato com companheiros da Força ainda dois episódios a narrar, que dizem informações meteorológicas, pois segundo
Por sua vez, a HS resumiu sua respos- percorrer para atingir V1 e V2, para ter- SBFL/SBRJ, isto é, seriam necessários Aérea Boliviana, colocamos algum lastro bem das características especiais das mis- nos comunicou o Centro La Paz, quando
ta a indicações, óbvias, sobre a operação mos uma decolagem balanceada, isto pousos intermediários entre os destinos no avião para simular o peso dos passagei- sões do GTE, e que exigem conhecimento já estávamos em rota, hoy dia no tenemos
do sistema de pressurização – que era é, dentro dos parâmetros de segurança políticos, assim como pouso imediata- ros e fomos fazer um voo de experiência, técnico e capacidade de decisão de seus meteorologista disponible.
semi-automático – nada esclarecendo estabelecidos para esta operação, o que mente anterior e posterior à operação em para confirmar a efetividade dos ajustes integrantes. Com a rota alternativa e com um tempo
sobre a performance de decolagem, isto O primeiro refere-se a um Boletim recorde nos procedimentos de solo em
é, cálculo de V1, V2, distância a percorrer Mandatório de Manutenção que determina- Mendoza, conseguimos chegar dentro do
que, em condições normais, são fornecidas va a inspeção das janelas de emergência, horário do protocolo. Aquela decisão de
pelos gráficos dos Manuais, finalizando, a ser feita na sede, para que se pudesse optar pela manutenção do quadro-horário
igualmente com o indefectível, HOWE- realizar voo pressurizado, o que levava as da missão vis-à-vis ao cumprimento não
VER, deveria ser ouvido o fabricante das aeronaves fora de sede a retornar a Brasília protocolar do Boletim Mandatório foi aceita
turbinas. em voo não pressurizado. No nosso caso pelo chefe do setor de Operações do Grupo,
Aí está o porquê do nome dado à era impossível fazê-lo, logo haveria que Ten Cel Av Alípio, mas gerou uma advertên-
missão. aguardar a equipe de inspeção, o que acar- cia no Boletim Ordinário a este responsável
Diante disto coube ao setor de Ope- retaria a impossibilidade de cumprimento operacional pela missão, para exemplo a
rações do GTE encontrar o caminho para da agenda do Ministro, evidentemente, de seus pares na OM.
viabilizar a missão, aí entendido como invulgar importância para nossa política HOWEVER... MISSÃO CUMPRIDA n

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m meados de 1967, nosso Esqua- duas aeronaves eram envolvidas nessas bem treinada. Meteorologista, mecânico,
drão, o 1º/10º GAv, vivia sua rotina missões semanalmente. Para assegurar radiotelegrafista nas missões de Observa-
normal com nossos RB-25J e nossos a cobertura lateral era impressionante o ção Meteorológica; fotodiretor, fotógrafos,
RT-11, cumprindo regularmente as missões trabalho do fotodiretor, Oficial Especialista mecânico e radiotelegrafista nas missões
do Esquadrão Poker. em Fotografia, operando um Visor Norden, de Reconhecimento Fotográfico; e especia-
Ten Brig Ar Sergio Pedro Bambini Semanalmente, uma tripulação, acres- assumindo a navegação e exigindo dos lista em armamento, mecânico e radiotele-
sergio.p.bambini@gmail.com
cida de um Oficial Especialista em Me- pilotos concentração total para que não grafista nas missões de Reboque de Alvo.

ESQUADRÃO
teorologia, era engajada em Missões de houvesse qualquer desvio na execução Pois bem, em plena rotina normal,
Reconhecimento Meteorológico, à época, das faixas do recobrimento. Como não certo dia do segundo semestre de 1967,
principal fonte fiel, para alimentar o que havia piloto automático e as asas tinham de o Esquadrão recebeu alguns personagens
jocosamente chamávamos bruxos, os estar niveladas, a manutenção da reta era assaz estranhos. Era uma meia dúzia de
meteorologistas do Centro de Previsão feita por meio dos pedais. O fotodiretor não homens, sendo que, quatro deles fardados,
Meteorológica do Galeão. Nos voos de admitia erro de um grau sequer. Suava-se mas de uma forma um pouco diferente.
Reconhecimento Meteorológico, o meteo- muito quando as faixas eram longas. E, às Três estavam de macacão de voo, de um
rologista escalado, no seu posto no nariz vezes, eram muito longas. azul forte, mas bem mais claro que o nosso
do RB-25J, fazia suas observações e, via Reboque de Alvos era a terceira es- macacão normal, de brim azul bem escuro.
telegrafia, as enviava para a Central do Ga- pecialidade do Esquadrão. Em voo a baixa As insígnias nas golas de seus macacões
leão, onde os dados eram juntados a outras altura, e com velocidade abaixo da veloci- eram grandes, as mesmas que usávamos
informações obtidas especialmente pelos dade monomotor, desenrolávamos, de um nas ombreiras do 5º Uniforme. Um deles
inúmeros postos de captação de dados, carretel hidráulico, dois mil pés de cabo de usava, na manga do seu macacão de voo, a
tipo temperatura, pressão e luminosidade, aço e, após, fazíamos chegar, até o final do divisa de segundo sargento, a mesma do 5º
existentes em, praticamente, todos os aeró- cabo, uma biruta retangular, de malha me- Uniforme. O último fardado era um homem
dromos controlados, e por informes de pi- tálica e, nessas condições, desfilávamos, alto, cabelo cheio e grisalho. Era um major
lotos em voo. Após analisados e integrados baixinho e devagarinho, em frente a uma ou aviador, com 5º Uniforme. Entretanto vestia,
esses dados, eram emitidas as previsões duas baterias de artilharia antiaérea equi- ao invés da tradicional túnica, uma jaqueta,
diárias e os boletins horários, os famosos pada com canhões de 90mm, que atiravam à época constante do RUMAER, o que res-
QAM. Esses voos MOMD – Missão de com munição real. Não era certamente uma saltava seu belo físico, seus ombros largos
Observação Meteorológica Diurna – eram missão agradável, pois envolvia riscos. Por e seu peito enorme. Na gola da camisa, as
dirigidos, sempre, para o setor geográfico exemplo, um dos tripulantes, da especiali- insígnias da ombreira do 5º Uniforme.
onde se estimava estar entrando uma frente dade Armamento, ficava com um tesourão Que diabo está acontecendo?
fria. Eram voos no mau tempo, em que a na mão pronto para cortar o cabo de aço Logo fomos reunidos, na Sala de
navegação correta era essencial, lembrando em qualquer situação de emergência, como Brifim, e informados que abrigaríamos,
que a aeronave era equipada, apenas, com um monomotor, ou, ainda, o acerto de um por algum tempo, um grupo de civis, que
dois radiocompassos e um VHF de doze tiro no cabo, ou mesmo na própria biruta, filmariam uma série de episódios para a
canais. Sim, existia um excelente equi- o que ocasionava um violento puxão no televisão, versando sobre a Força Aérea
pamento de radiotelegrafia, mas que não avião. Para missões com Unidades de Brasileira e suas Unidades Aéreas. A série
melhorava as condições de navegação. Os Artilharia equipadas com canhões 40 mm, chamar-se-ia Águias de Fogo. Estavam
pilotos, escalados para a missão semanal, os procedimentos eram idênticos, porém, autorizados e o comando superior solici-
regressavam com muitas horas de voo com menos cabo de aço distendido e a tava nossa total colaboração para o êxito
por instrumentos. Confiávamos, muito, utilização de biruta de tecido, posto que da missão dos visitantes e consequente
nas longarinas das asas do B-25 e de sua as baterias não possuíam radar de tiro. Ao divulgação de nossa Força.
forte estrutura, além, claro, dos paraquedas final da missão, a biruta era alijada sobre Os nossos azes do Esquadrão Águias
que serviam de almofada de encosto dos uma pista, em aeródromo militar, se exis- de Fogo eram o Maj Av Ricardo, Coman-
bancos dos tripulantes. tente nas proximidades, para facilitar seu dante da Unidade Aérea, representado pelo
Fazíamos, regularmente, como missão recolhimento e reaproveitamento. O cabo ator Dirceu Conte. Nas conversas internas
do Esquadrão, recobrimentos aerofoto- de aço era enrolado, hidraulicamente, em dizia-se que ele era irmão do famoso ator
gráficos, não fotogramétricos, devido seu carretel no interior da aeronave. cinematográfico Alberto Ruschell. Não
à precariedade das plataformas e sen- Em todas as missões descritas acima, cheguei a ter confirmação desse informe.
sores para as fotos, mas realizávamos o trabalho de toda a tripulação era algo O Oficial de Operações, Cap Av Cézar, era
excelentes trabalhos. Uma, às vezes, impressionante. Uma verdadeira equipe interpretado pelo ator Ari Fernandes. Ele

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era, igualmente, o diretor e, parece-me, organizações para onde, algumas vezes, o Uns diziam: – Não dá. Outros, apenas, balan- No final do expediente, levei o Manual que autorizou um voo para a filmagem. Uti- velocidade e um só motor, era impossível
o produtor da série. Esse era conhecido Esquadrão Águias de Fogo se deslocou. çavam a cabeça negativamente. Vi o Diretor de Voo (TO-1) e o de Manutenção (TO-2). lizamos duas aeronaves voando bem pró- manter a reta.
na indústria cinematográfica nacional, Uma hora, compúnhamos o efetivo do afastar-se visivelmente chateado. Convidei-o À noite, estudei, com muita atenção, o ximas. Uma, a que eu pilotava, simulando Voltando ao voo de cheque, na se-
pois produzira e dirigira a famosa série Esquadrão, em uma Sala de Brifim, noutra, a ir até minha sala, onde me informou que, Sistema Hidráulico do B-25. Não havia nada a pane. A outra, sem as janelas laterais do quência do procedimento monomotor, já
para a televisão dos anos 60, O Vigilante fazíamos parte de uma reunião em que sem uma visualização convincente da ae- escrito sobre ser possível simular uma compartimento traseiro, com a equipe de próximo ao ponto crítico, quando o piloto,
Rodoviário. Ari Fernandes era quem se mapas estavam sendo estudados para o ronave em pane, a cena teria de ser criada pane de trem de pouso, mas também não filmagem. Dizem que a filmagem ficou mui- em cheque, solicitou trem em baixo, colo-
relacionava conosco para a realização das planejamento de missões em episódios por meio de modificação nos diálogos, havia nada dizendo que não era possível. to boa. Jamais a vi, mesmo nos episódios quei o trem na posição intermediária. Ele
necessidades artísticas e cenográficas. dos quais não tínhamos a mínima ideia de com evidente perda da emoção desejada. No dia seguinte, eu faria um voo de da série, que assisti. Nem mesmo sei se não notou, isto é, não checou visualmente
Um indivíduo inteligente, comunicativo e como seriam montados. Todos nós vira- O trem em cima, com o piloto mostrando experiência de um avião saindo da revisão. foi aproveitada. Mas foi um desafio e tanto. entretido com o procedimento. Prosse-
simpático. Conseguia tudo o que pedia. mos artistas. Extras eventuais. Voávamos preocupação por estar com problemas Resolvi tentar. Decolamos, fizemos todos Foi-me útil a experiência na conti- guimos, e, quando na final para pouso,
Havia, ainda, o Asp Av Fábio, cujo relativamente bastante em proveito das para baixá-lo, seria convincente, mas não os testes previstos para o voo e, em uma nuidade de minha vida operacional como ele pediu-me para falar com a torre de
intérprete era o jovem artista Roberto filmagens. Ora filmando ora sendo filmados. emocionante. Da mesma forma, o trem altitude e local confortáveis, com a tripu- Instrutor de RB-25J. Certo dia fui escalado controle, olhei para ele e perguntei: – Vai
Bolant. Fazia o Aspirante típico, com muita Certo dia, vi o Diretor Ari Fernandes na posição baixado e o piloto mostrando lação toda em alerta, comecei meus testes para fazer um voo de cheque de um oficial pousar com o trem assim? Ele olhou,
vontade e pouca experiência. Completava conversando, um pouco agitado, com vá- estar preocupado, e em dúvida sobre o seu de abaixamento e recolhimento do trem de mais antigo, conhecido por ser extrema- viu e percebeu. Reagiu rapidamente, deu
o cast fixo o Sgt Fritz, segundo sargento rios militares da Manutenção, mecânicos, travamento, ou não, careceria de emoção. pouso. Uma, duas, três tentativas. Não sei, mente exigente, quando checando outros motor e pediu para eu falar com a torre
que exercia todas as funções técnicas e chamou-me à atenção, os especialistas Perguntei-lhe qual a urgência e ele ao certo, quantas. De repente, trabalhando pilotos. Fizemos todas as fases previstas que estávamos arremetendo. Experiente
dentro de uma aeronave cenográfica. Era em Sistemas Hidráulicos. Como eu era disse-me dispor, ainda, de alguns dias. com a alavanca do trem, consegui. Lá para o tipo de voo e, numa aproximação, que era, deu somente o motor necessário,
mecânico, radiotelegrafista, especialista adjunto do Oficial do Material – S4 – e, Procurei o Ten Eder, Oficial de Manutenção, estava o trem de pouso parado no meio na situação de voo por instrumentos, reduzi visivelmente perturbado, porque, na rea-
SAR e tudo mais que fosse necessário na desde que chegara ao Esquadrão, somente experiente, metódico, estudioso e dedicado, de seu curso. Um pouco... cerca de 15% a manete de um dos motores, simulando a lidade, não estava compreendendo o que
cena a ser filmada. Tinha a característica, havia trabalhado nessa área, aproximei-me, que conhecia tudo sobre a aeronave. Disse- dos pneus ainda no alojamento do trem, as perda total de potência desse motor. Zero se passava. Subimos um pouco. Olhei para
no filme, de ser lutador de artes marciais, interessado. Eles discutiam sobre a possibi- -me ele que tendo sido um avião construído portas abertas evidenciando, certamente problema para o B-25, que voava muito ele, sorrindo, e expliquei.
especializado também em capoeira. Foi o lidade de o RB-25J poder voar com o trem em esforço de guerra, saindo, diretamente, uma séria irregularidade no abaixamento bem com apenas um de seus dois motores, Regressamos e pousamos. Fiz o de-
herói de alguns episódios, quase no mesmo de pouso em uma posição que mostrasse, da prancheta dos engenheiros projetistas do trem de pouso. tanto que, em uma situação de emergência, brifim e expliquei-lhe o procedimento, que
nível percentual do Maj Cézar. com total evidência, que estava em pane de para a fabricação em série, os sistemas Conseguíramos! com a perda de um motor na decolagem, ele não conhecia, enfatizando a imperial
Nossos artistas conquistaram rapida- trem de pouso. Seria essencial para dar ve- eram seguros, porém extremamente sim- Repetimos duas ou três vezes, até eu ou, na arremetida, o procedimento era necessidade dos cheques regulares. Ele
mente o efetivo da Base Aérea de Cumbica. racidade a algumas cenas de um episódio. ples. Achava não ser possível atender à ficar proficiente na manobra, e voltamos à reduzir o motor bom para manter o avião continuou exigente, porém, menos turrão
Eram simples, simpáticos e acessíveis. Eles A discussão estava aberta e animada. solicitação da equipe de filmagens. Base. Comuniquei ao Oficial de Operações, sob controle. Com plena potência, pouca em seus voos como checador n
também se esforçavam para que o relacio-
namento desse certo. Em última análise, o
seu êxito dependia de nós.
Nos meses que se seguiram, nós do
efetivo do 1º/10º GAv, como também os
pertencentes ao 2º/10º GAv, então, sedia-
do em Cumbica, participamos de muitas
atividades visando facilitar, ao máximo, a
produção dos episódios da série.
Também fizeram parte desse esforço,
as bases aéreas de Canoas e de Santa Cruz,

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OS DIREITOS
DA RELIGIÃO Fulton J. Sheen
Filósofo
Extraído do livro “O problema da liberdade”

Qual a relação entre a religião e os negócios públicos?


A essa pergunta foram dadas duas respostas diversas no século
passado, ambas erradas: a religião é estranha aos negócios
públicos; e a religião é inimiga dos negócios públicos.

A religião é estranha para a ordem social. A alma convertia-se astros, girando em diferentes órbitas, não
aos negócios públicos num insignificante subúrbio da cidade cha- colidem. Tornava-se assim Deus um meio
A época do liberalismo julgou ser mada Negócio. Se a política e a economia cômodo de explicar irregularidades que
possível servir a um tempo a Deus e a não interferiam na religião, argumentava-se: a ciência não podia ainda esclarecer, um
Mammon. A religião era tida como uma – Por que deveria a religião interferir na remendão cósmico qualificado andando de
espécie de luxo sentimental a que o homem política e na economia?. A liberdade re- um lado para outro a tapar os rombos do
se podia apegar se assim o quisesse, mas ligiosa era assim adquirida na suposição universo newtoniano. De modo semelhante
que devia ser mantida num compartimento de que devia abster-se da ordem secular. permitia-se que Deus cuidasse das irregu-
separado da ordem econômica e política. Tornava-se a religião uma área delimitada laridades do universo político e econômico,
Seis dias da semana eram dados ao ho- da vida, isolada de qualquer contato com o isto é, Ele e Seus crentes podiam fazer o
mem para ganhar a vida; um dia por sema- temporal, e qualquer tentativa da parte da serviço de ambulância·para os pobres,
na devia ser concedido ao repouso. Se, em religião de introduzir considerações éticas os indigentes e os aleijados, que a ordem
vez de repousar, um homem desejasse ir à ou morais nos negócios era considerada política e econômica não tinha ainda meios
igreja, isso só era de sua conta; mas sob abusiva, como se a virtude da justiça fosse de atender. Mais tarde, com o progresso
condição alguma devia ele levar consigo qualquer coisa que se pregasse do púlpito e a ciência, mesmo essas irregularidades
sua igreja para o trabalho na segunda-feira num domingo, mas que não devesse ser sociais desapareceriam e não se neces-
pela manhã. A religião era considerada praticada numa fábrica na segunda-feira. O sitaria mais da religião. Desse modo era
um assunto particular; os negócios eram mundo admitia de bom grado que a religião a religião relegada a um lugar retirado do
públicos. Daí não ser considerado de bom pudesse revelar ao homem seu último fim, mundo; uma catacumba onde os homens
tom trazer o assunto de religião a um jantar, mas recusava-se a permitir que a religião podiam ir repousar, mas só depois de terem
embora se pudessem discutir à vontade as lhe proporcionasse os meios adequados lavado as mãos dos negócios. Chegava-se
ideias políticas do vizinho ou mesmo sua de atingir tal fim. quase a pensar que o homem que ia à igreja
consciência. A política e a economia eram A religião veio a ficar perante o mundo era diferente do homem que ia ao trabalho
terrenos em que cada qual devia decidir dos negócios na mesma relação em que ou que o homem, como criatura política
por si, tivesse ou não razão; e qualquer Deus estava para com a astronomia de e econômica, tinha escapado de algum
tentativa por parte da Igreja de sugerir Newton. Como Newton pôs o universo modo miraculoso à queda do homem. O
princípios morais que governassem esses debaixo da lei, presumiram os newtonianos resultado dessa separação entre a religião
domínios era encarada como injustificável que Deus não era mais necessário para e os negócios públicos era impelir a religião
intromissão. A religião era qualquer coisa explicar a ordem e harmonia das esferas, para uma posição de crescente alheamento
que se traz consigo, que se veste, como como se a descoberta de uma lei abolisse dos negócios públicos. Eu não incomodo
um terno de roupa, mas não uma parte a necessidade de um Legislador. Newton a Igreja, por que razão ela haveria de me
integrante da vida, tal como ver ou ouvir. trouxe Deus até seu universo para explicar incomodar? Isso se tornou o falacioso
Criou-se assim uma atitude mental em duas irregularidades que não se podiam refrão para justificar o divórcio de duas
que se supunha que o grande ato redentor ajustar em sua lei, a saber: por que certas coisas destinadas a serem tão inseparáveis
do Calvário não tinha significação alguma estrelas fixas não caem e por que certos como a cabeça e o corpo.
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A religião é inimiga permitido a qualquer propagandista barato valor à pessoa humana fora da raça ou da há lugar. A fim de melhor dar a entender que Foi assim no começo; é assim agora, e homem, começa este a perder todo o valor.
dos negócios públicos de Moscou ou Berlim pregar o seu ateísmo classe, é necessariamente antirreligiosa. O o homem havia rejeitado o seu Criador, Ele será assim até o fim; ensinaram a Europa a No momento em que o mundo perde Aquele
Essa atitude mental de afastamento ou o seu racismo, enquanto o homem de totalitarismo tem de agir assim se quiser é expulso da cidade para os montes, para cerrar o punho e a cuspir sempre que Seu que amou o homem a ponto de morrer por
da religião dos negócios públicos levou ao Deus que prega a justiça e a caridade é tido sobreviver, pois nunca poderá possuir in- longe das estalagens, para os estábulos nome é ouvido; não O podem deixar só. ele, o próprio homem deixa de ter qualquer
segundo período, mais contemporâneo, em como um inútil intruso. O ódio de classe teiramente o homem enquanto não alijar a lá fora, dentre os homens para o meio dos Eles não são precisamente homens sem valor; no instante em que ele esquece o
que a religião é considerada inimiga dos é o mau fruto do desprezo da caridade; a Igreja, que diz que o homem não pertence animais. E quando se deita um olhar nessa religião; são homens contra a religião; não preço outrora pago por uma alma humana,
negócios públicos. A transição é algum desonestidade em política é a triste herança inteiramente ao Estado. A Igreja opõe-se a Criança, que foi alijada da terra que criara, e mostram frieza para com Deus; entregam- a alma começa a ser um instrumento do Es-
tanto natural, pois dizer que a religião é do desprezo da justiça; o comunismo na tal absorção do homem pelo totalitarismo literalmente expulsa para fora da cidade de -se ao ateísmo com todo o ardor. tado. Esta derrota do homem na Rússia, na
impertinente à ordem social vale o mesmo vida nacional é o resultado do desprezo da e por esta razão é perseguida. Uma vez Seus pais, deitada num leito de palha entre Donde tiram eles energia para esse Alemanha, no México, e até certo ponto na
que conceder à irreligião predomínio na redenção e do amor fraterno. que o Estado inclui a religião sob a políti- um boi e um burro, não se podia deixar de ódio? Donde tal entusiasmo pelo ateísmo? Itália, onde o homem não tem direito algum
ordem social. Deixar a religião fora dos O mundo comete um grave erro ao ca, toda e qualquer atividade religiosa por ver nesses animais o símbolo da rejeição Como conseguem tal apostolado pelo Anti- senão aquele que o Estado lhe concede,
negócios públicos não é como deixar o pensar que pode deixar a religião fora de parte da Igreja passa a ser encarada como humana. Não havia lugar na estalagem. cristo, tantas espadas para a pilhagem das torna-se tanto mais flagrante quando ocorre
azul fora de uma colcha de retalhos; é sua norma de procedimento nacional e con- uma interferência política. O totalitarismo é A religião, dissemos acima, é primei- coisas de Deus e assassínio das mulheres numa época em que o homem tem tudo
como arrancar os olhos fora da cabeça. A tinuar a ser o mesmo mundo de antes. Seria errado não por ter um ditador, mas porque ramente ignorada, depois perseguida. A de Deus? Donde tirou a Rússia esse ímpeto o que pode conduzir ao sucesso na vida.
cegueira é a consequência da doutrina de isso verdade se a religião não passasse de o ditador está dispondo até da alma do indiferença à religião é o começo do ódio para implantar em Valência, pela primeira Nunca dantes teve o homem tanto Poder, e
que os olhos são desnecessários à vida; a um acidente da ordem social como as cor- homem, ao fazer da pessoa um meio para à religião. Assim se deu com o Cristo. Em vez na História do mundo ocidental, um re- nunca dantes foi tal Poder acumulado assim
desavença é a consequência da doutrina ridas de cavalo, e não a soma das virtudes um fim, do homem um aspecto econô- Seu Nascimento os homens não Lhe deram gime declaradamente contra Deus? Tirou-o para a destruição da vida humana; nunca
de que o mútuo amor é desnecessário às que condicionam a justiça e a paz. A casa mico do Estado, ou uma gota de sangue atenção; simplesmente batiam as portas no da realidade de Deus. Os homens não se dantes esteve tão defendida a educação
relações entre marido e mulher; e a violên- vazia será, afinal, a casa arruinada e a so- do organismo político, ou um operário do rosto de Sua Mãe. Dentro de dois anos eles o entusiasmam por fantasmas. Os homens e nunca dantes se esteve mais longe do
cia, a desordem, o derramamento de san- ciedade arreligiosa será, afinal, a sociedade Estado-fábrica. Quanto mais insistir a Igreja estarão perseguindo como a um criminoso. não saem a campo para dar combate a conhecimento da Verdade; nunca dantes
gue são a consequência da doutrina de que antirreligiosa. A religião que não interferir em seu direito à alma do homem tanto mais Primeiro mostram-se indiferentes ao lugar ficções da imaginação nem a mortos. houve tanta riqueza e nunca dantes tanta
a justiça é estranha à ordem econômica. De na ordem secular logo descobrirá que a será perseguida; eis por que tem ela sido em que ele nasceu; agora, intolerantes só Odeiam, entretanto, os vivos. Rejeitando- pobreza; nunca dantes tivemos tão abun-
modo semelhante, deixar a religião fora da ordem secular não se absterá de interferir chamada reacionária no México; antirrevo- porque nasceu. Antes apenas não O queriam -O, estão eles prestando-Lhe testemunho. dantes alimentos e nunca dantes tantos
ordem social não é a negação de alguma nela, talqualmente a mãe que se abstém de lucionária na Rússia; política na Alemanha; em suas estalagens; agora não O querem Ninguém odeia César, Napoleão ou Genghis homens famintos. O homem vê-se cercado
coisa indiferente; é a privação de alguma corrigir os seus filhos desobedientes verá contrarrevolucionária em Barcelona. César no mundo. Primeiro Ele é tão estranho às Khan. E por que não? Porque morre o ódio de luxos e comodidades com que as gera-
coisa indispensável. Deixar fora da ordem breve os filhos a corrigi-Ia. crucificará o Cristo sempre que César julgar suas vidas que O deixaram com os seus quando perece o objeto odiado. Os homens ções precedentes nunca sonharam; todavia,
secular a justiça, o amor, a caridade, os O mesmo mundo que há vinte anos que ele próprio é Deus. inofensivos animais; agora é Ele conside- já não cerram mais os punhos contra um nunca seus esforços foram tão frustrados,
direitos humanos e os deveres – todos os aceitava ser a religião desligada da eco- O que se dá no mundo moderno é rado inimigo de suas vidas e mais perigoso Bismarck, nem montam mais guarda ao nunca se sentiu tão miserável e intranquilo
quais pertencem à religião, é como deixar nomia e da política é o mundo que hoje apenas uma repetição do que aconteceu do que feras. Nem mesmo O querem agora túmulo de um Nélson. Mas cerram ainda diante do futuro. Tem tudo e, todavia, nada
a alma fora do corpo. Deixar a alma fora do hostiliza a religião. Não é bem porque a no começo da era cristã. A princípio o Filho deixar em seus estábulos, tal como a Rússia os punhos contra o Cristo. Dizem que Ele tem, porque esqueceu uma coisa – seu
corpo não é ficar com o corpo sem alma, é violência, o ateísmo, o racismo sejam con- de Deus é ignorado como um estranho ao não O quer deixar em seus tabernáculos. está morto, mas põem sentinelas em Seu próprio mérito, seu próprio valor intrínseco,
a morte; deixar a religião fora da sociedade sequentes ao declínio da religião, como o mundo, para depois ser perseguido. Parte de Herodes a ordem de que toda a túmulo. Dizem que Ele é inofensivo en- seu próprio alto destino. Somente Alguém
não é ficar com uma civilização secular, castigo se segue ao ato de desobediência; A princípio Ele foi considerado como criança do sexo masculino abaixo de dois quanto criança, contudo Herodes manda que pagou o preço pode dizer-lhe quanto ele
é o caos. Demonstra a História que, se é antes porque eles são inseparáveis, como um estranho ao mundo que veio salvar. Ele anos de idade deve ser morta. Nenhum rei os seus soldados matar a Criança indefesa. vale. Tendo perdido a etiqueta do preço da
uma sociedade ignora a religião, nunca se um Iírio podre e seu desagradável odor, ou veio para o que era seu, e os seus não O re- poderá ser soberano se este novo Rei Infante A verdade é que eles odeiam porque Redenção marcada Valor Infinito, fácil é que
transforma exatamente em uma sociedade a semeadura e a colheita. ceberam. Ele não foi abertamente rejeitado; também pretender a Realeza. Herodes não crêem – não com a fé viva dos redimidos, os ditadores pensem não ter ele qualquer
irreligiosa; torna-se antirreligiosa. A vida é Se o camponês não plantar trigo, foi apenas ignorado. Não houve violência poderá possuir inteiramente o homem se mas com a fé dos condenados. Não ha- valor; julguem que ele é simplesmente uma
apenas a soma das forças que resistem à não ficará estéril seu campo no outono; alguma contra Ele quando Sua Mãe batia de esta Criança se intitular Rei do homem. veria nunca vacinação se não existissem gota de sangue na corrente de sangue da
morte, e uma vez terminada a resistência cobri-Io-ão, as ervas daninhas. Deixai os porta em porta pela cidade de Belém. Sim- Aquele que primeiro desprezou a Criança germes; não haveria nunca proibição se raça; um soldado a mais no exército, um
a essas forças contrárias, começa o desa- homens crescer sem cuidarem se sua alma plesmente não havia lugar. Afinal de contas, agora teme a Criança. A caverna do pastor não houvesse alguma coisa a proibir, e não dente a mais nas rodas de engrenagem do
parecimento. Do mesmo modo, no mesmo pertence a Deus ou a César, e, antes que que relação teria a religião com a economia, torna-se agora o antro do bandido, enquanto haveria nunca ateísmo se não houvesse Grande Trator Proletário.
instante em que se nega à religião o direito eles o saibam, César os possuirá de corpo e que relação teria Deus com o mundo? Herodes despacha seus soldados, que se alguém a negar. Seu ódio é apenas a vã ten- É preciso que o homem seja redes-
de interferir na ordem política e econômica, e alma. Chama-se isso de totalitarismo Os homens estavam então demasiada- lançam como falcões em perseguição de um tativa de desprezo. Odeiam simplesmente coberto; não o homem animal que tanto
apodera-se destas a antirreligião. A ordem ou teoria estatal, que diz que o homem mente ocupados com seus cofres, com Infante que mal aprendeu a andar. A irreligião porque foram destinados a amar. conhecemos, mas o homem racional que
secular nunca vive no vácuo: nem mesmo todo pertence ao Estado. Tal regime deve suas contas e com seus impostos para se apoderou-se do lugar deixado pela religião; O que é de notar é que exatamente nas conhecemos tão pouco. Essa redesco-
neutra pode ser; se os cidadãos de um necessariamente perseguir a religião, pois incomodarem com o Criador, exatamente a perseguição seguiu-se à indiferença; o nações em que Ele tem sido mais rejeitado, berta está condicionada ao conhecimento
Estado abandonaram a religião e o seu para possuir o homem ele tem de desprezar como agora estão ocupados demais com assassínio dos inocentes veio na esteira maior tenha sido a derrota do homem. Na dAquele a cuja imagem e semelhança foi
dever de dar a Deus o que a Deus pertence, a religião, que afirma que o homem tem seus negócios e suas dissensões políticas. do nascimento do Inocente. A indiferença mesma proporção em que Ele é perseguido, o homem criado, pois só quando reconhe-
imediatamente julgará César que até Deus direitos independentes do Estado. Em Ele pode vir ao mundo, se quiser, mas que ao Cristo não termina e nem pode terminar persegue-se o homem; quando o mundo cemos os direitos de Deus é que o homem
recebe Sua autoridade de César. É então princípio, uma filosofia totalitária, que nega Ele próprio encontre lugar para Si. Aqui não na ausência do Cristo; acaba no Anticristo. rejeita Aquele que enalteceu o valor do começa a ser livre n
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MONUMENTO ALUSIVO ÀS ORIGENS DO MINISTÉRIO DA AERONÁUTICA
O RESGATE DE UMA PEÇA HISTÓRICA
Brig Ar Clovis de Athayde Bohrer
Conselheiro do INCAER
cabohrer12@uol.com.br

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riundo da Escola Preparatória de fotográfica caixão junto ao significativo do Monumento, se possível localizando os um exemplar semelhante ao original. Neste indicação sobre sua origem e significado.
Cadetes do Exército, sediada em Monumento que se tornaria histórico e originais, se não, obter outras semelhantes. sentido solicitei o apoio do INCAER que, por Quanto à bomba, em face de se tratar de
Porto Alegre, ingressei na Força que, a partir de dezembro de 1945, quando Em contato que anteriormente tivera intermédio do Subdiretor de Divulgação, uma peça que representava uma das ati-
Aérea Brasileira, em 6 de abril de 1943, nos diplomaríamos, passaria a ser apenas com o então Diretor do MUSAL, Brig Ar Maj Brig Ar Terroso, fez o respectivo pedido vidades da Aviação Militar, foi nele usada
quando fui matriculado no primeiro ano da uma doce lembrança em nossas mentes. Bhering, soubera que, em dependência àquela Diretoria. como peça decorativa. O canhão, como
Escola de Aeronáutica. Não imaginávamos, na ocasião, que as daquela Organização, existia uma âncora Enquanto o processo se desenvolvia, nada tinha a ver com a missão da FAB,
Minha Turma, diplomada em 18 de de- duas despretensiosas fotos então colhidas semelhante à que fora mostrada durante a foi descoberto, em área do Clube de Aero- não deve ter sido objeto de maior atenção
zembro de 1945, foi a segunda inteiramente viessem a ter a importância que adquiriram. palestra e que, nela, constava a inscrição náutica, um canhão que se assemelhava ao e, provavelmente, ficou abandonado em
formada naquela Organização e a primeira Anos se passaram e, em dada ocasião, Lembrança da Marinha à Escola de Ae- da foto. As pesquisas que estavam sendo um lugar qualquer até o momento em que
que nela realizou o curso completo, pois a constatei que o Monumento não mais ronáutica. Apesar de não haver qualquer desenvolvidas pelo Serviço de Patrimônio algum dirigente do Clube de Aeronáutica
anterior, em face do conflito mundial que existia. Em data desconhecida, alguém, registro a respeito, essa informação era do Exército passaram, então, a incluir a decidiu levá-lo para também usá-lo como
então ocorria, teve seu curso reduzido. Brig Ar Bohrer em que igualmente não foi possível identificar, suficiente para se chegar à conclusão de identificação da peça descoberta. Posterior- peça decorativa, pois o local em que foi
Para nós, Cadetes vindos dos mais frente ao monumento determinou sua desmontagem, o que se que se tratava da peça original. mente o referido Órgão, em laudo enviado encontrado era, na época, área nobre, já
diversos pontos do país, tudo era novidade, Bragança, o Príncipe, oriundo da Reserva imagina foi devido a construção de novas Posteriormente, igualmente pelo Di- ao INCAER, atestou que se tratava de peça que ficava junto à antiga entrada do Clube.
pois passamos a usufruir de modernas ins- Naval e subalterno da Esquadrilha à qual edificações, entre dentre as quais, prova- retor do MUSAL, tomei conhecimento da semelhante à da foto. Ciente desse fato, o Isto, no entanto, é uma hipótese, porque
talações recém-construídas, como o prédio pertencíamos; e o 2º Ten Inf Peixoto, oriundo velmente, estava o atual prédio da ECEMAR. existência, na mesma Organização, de Presidente do Clube de Aeronáutica, Maj não há qualquer registro sobre o assunto, e
do Corpo de Cadetes, Refeitório, Cassino do Exército, tratava-se de um monumento Ao fazê-lo, sua intenção era certamente, em uma bomba que ali estava como peça Brig Ar Vinicius, disponibilizou-a para ser tanto os atuais, como os antigos dirigentes,
dos Cadetes e Campo de Esportes, dentre alusivo às origens do Ministério da Aeronáu- futuro próximo, reconstruí-lo em outro lugar decorativa que, à primeira vista, possuía as utilizada na reconstrução do Monumento. consultados a respeito, não souberam infor-
outras, que nos despertavam particular tica, homenagem da Marinha, do Exército e o que, por razões que desconhecemos, não mesmas características da que fora exibida Tentando descobrir como essas pe- mar quando e por que ele ali foi colocado.
atenção e curiosidade: ali estava a nossa da Aviação Militar do Exército à caçula das ocorreu. durante a palestra. Como acontecera com ças foram parar nesses locais, é possível Solucionado, então, o principal pro-
nova casa, que nos acolheria durante os Forças Armadas, materializada por meio Recentemente, em palestra que apre- a âncora, também sobre ela não existia supor-se que, dada a proximidade do lugar blema, foi solicitada a colaboração da
próximos três anos. de significativos símbolos das respectivas sentei sobre os Primórdios do Ministério qualquer informação. Após pesquisas e em que estavam, com o MUSAL, foram UNIFA para a designação do local onde o
Algo, no entanto, apesar de não ter atividades – a âncora, o canhão e a bomba. da Aeronáutica, por ocasião do Seminário acurada comparação com a imagem da inicialmente nele guardadas, não tendo Monumento seria instalado, a construção
qualquer interferência nas nossas atividades, A partir de então passamos a ver na- promovido pelo Clube de Aeronáutica em foto, levadas a efeito por determinação do sido feito qualquer registro a respeito, da respectiva base, bem como sua mon-
tornou-se, para nós, extremamente familiar, quela já familiar obra muito mais do que um comemoração aos 76 anos da criação do respectivo Diretor, chegou-se à conclusão provavelmente devido à possível intenção tagem final, tendo o MUSAL se incumbido
pois se situava no trajeto que, obrigatoria- conjunto de cimento e ferro. Ao admirá-la Ministério da Aeronáutica, mencionei este de que poderia tratar-se da peça original. de logo reconstruí-lo. da restauração das peças móveis – âncora,
mente, percorríamos diariamente quando passamos a sentir seu verdadeiro significa- fato, tendo, na ocasião, projetado a foto Faltava o canhão. A ideia inicial era re- Como a âncora tinha a inscrição an- canhão e bomba.
nos deslocávamos para nossos compromis- do, representação viva de uma Organização colhida há setenta e cinco anos. correr à Diretoria de Patrimônio do Exército teriormente mencionada, em um passado A escolha do local em que ficaria o
sos rotineiros. Tratava-se de um monumento na qual, com muito sacrifício, acabáramos Encerrado o evento, fui procurado com o intuito de se obter a identificação da relativamente recente, recebeu uma aten- Monumento merece um comentário espe-
que, pela sua composição, passou a desper- de ingressar e à qual, com muito orgulho, por vários companheiros que ao mesmo peça constante da foto, bem como consul- ção especial, tendo sido colocada em local cial. Era unânime a ideia de que ele deveria
tar, em nós, particular interesse. agora pertencíamos. tempo em que se declararam surpresos tá-la sobre a possibilidade da cessão de de maior visibilidade, mas sem qualquer ficar o mais próximo possível daquele em
Ele era constituído de uma base de Entretanto para um grupo de gaúchos com o que lhes havia sido mostrado, pois que estava a peça original, e que tivesse a
concreto, de formato arredondado, com três laranjeiras, a revelação que tivéramos não desconheciam a existência do Monumento, visibilidade que sua importância merecia.
degraus e, aproximadamente, dois metros poderia ficar restrita ao nosso círculo. De- manifestaram sua estranheza pela forma Então, aconteceu o inesperado. De forma
de altura, sobre a qual estavam fixados uma cidimos, então, que ela, por meio de fotos, como peça de tal valor histórico tinha sido espontânea, pois não houve qualquer inter-
âncora, um canhão e uma bomba. deveria ser compartilhada com nossos tratada. ferência humana nesse sentido, a natureza
Como não havia qualquer indicação familiares que, à distância, acompanhavam Como o mais longevo e único elemento se incumbiu de indicá-lo. E isto ocorreu no
quanto ao seu significado e origem, nossa com preocupação, mas, também, com entre os que ali estavam que conhecera mês de fevereiro último, quando os fortes
curiosidade, a cada dia maior, levou-nos orgulho, tudo que agora estávamos vivendo. e convivera com aquela obra, cheguei à ventos que acompanharam o temporal que
a buscar informações a respeito, as quais Assim, no sábado seguinte, vestindo conclusão de que deveria tentar sua recons- atingiu o Rio de Janeiro, particularmente
foram obtidas junto a oficiais do Corpo uma das peças mais vistosas dos unifor- trução e decidi, então, desenvolver esforços certas áreas da cidade entre as quais estava
de Cadetes. Segundo dois deles que nos mes recentemente recebidos – o blusão nesse sentido. A primeira providência a a da UNIFA, provocaram a queda de uma
atenderam – 1º Ten Av João de Orleans e de couro – posamos para uma máquina tomar seria conseguir as principais peças Colegas gaúchos em fotografia do autor de 1943 frondosa árvore que foi arrancada do solo
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Expediente
com sua raiz, deixando em seu lugar uma responsáveis pela alteração, procedimento Culturais Materiais Imóveis que ficam pre- PRESIDENTE
enorme cratera. Este local, por coincidên- inadmissível, pois alteraria a forma que as servados de qualquer modificação, devendo Maj Brig Ar Marco Antonio
cia, possuía as condições preestabelecidas Forças irmãs, Marinha e Exército, e também obrigatoriamente ser mantidas as suas ca- Carballo Perez
para receber o Monumento, pois se situava a Aviação Militar do Exército, escolheram racterísticas originais. Esse documento foi 1º Vice-Presidente Out. a Dez. 2018
muito próximo ao da peça original e possuía para homenagear a nova Força. Como não passado, na ocasião, às mãos do Diretor do Cel Av Paulo Roberto Miranda
Machado
excepcional visibilidade. poderia deixar de ser, a alteração introdu- Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica,
À vista do ocorrido, o Comandante da zida não foi considerada na reconstrução. Ten Brig Ar Rafael Rodrigues Filho. 2º Vice-Presidente
Brig Ar Paulo Roberto de Oliveira
UNIFA, Maj Brig Ar Isaias, não teve a mínima Finalmente a magnífica e fiel obra de Nesta oportunidade desejo registrar o
Pereira
dúvida a respeito, e decidiu que ali ficaria o reconstrução do histórico Monumento, extraordinário trabalho desenvolvido por di-
futuro Monumento. Assim, a mesma equipe conduzida de forma admirável pela UNIFA, versas Organizações da nossa Corporação www.caer.org.br revista@caer.org.br ISSN 0 4 8 6 - 6 2 74
de operários que concluiu a remoção da foi inaugurada em 4 de outubro de 2018, para a concretização da obra – Universidade
árvore atingida iniciou, dias após, as obras em solenidade presidida pelo Comandante da Força Aérea, principal responsável por SUPERINTENDÊNCIAS Sede Central
Sede Central Praça Marechal Âncora, 15
de sua reconstrução. da Aeronáutica, Ten Brig Ar Nivaldo Luiz ela, Instituto Histórico-Cultural da Aero-
Cel Av Pedro Bittencourt de Almeida Rio de Janeiro - RJ - CEP 20021-200
Durante as pesquisas que, na expecta- Rossato, e que contou com a presença de náutica, Museu Aeroespacial, Centro de
Sede Barra • Tel.: (21) 2210-3212
tiva de se obter maiores informações sobre inúmeros integrantes da Força Aérea Brasi- Documentação da Aeronáutica, Clube de
Brig Ar Paulo Roberto de Oliveira Pereira 3ª a 6ª feira de 8h às 12h e 13h às 17h
o Monumento, continuaram a ser desenvol- leira, da ativa e da reserva, entre os quais en- Aeronáutica e Prefeitura de Aeronáutica dos
vidas, tais como a data da inauguração, o contravam-se Veteranos que viveram aquela Afonsos, sem o qual teria sido impossível Sede Barra
CONSELHO DELIBERATIVO Rua Raquel de Queiroz, s/nº
registro do respectivo ato e outras, foram época. Para estes, não temos dúvida, aquele dar vida à histórica peça, que parecia estar Presidente - Ten Brig Ar Paulo Roberto Cardoso Vilarinho
Rio de Janeiro - RJ - CEP 22793-710
encontradas duas fotos, datadas de 1952, momento, provavelmente semelhante ao destinada a ser apenas uma nostálgica lem- CONSELHO FISCAL
• Tel.: (21) 3325-2681
no CENDOC, nove anos, portanto, após sua que ocorreu há setenta e sete anos, a par da brança na memória daqueles que tiveram Presidente - Maj Brig Int Manoel José Manhães Ferreira
4ª a domingo de 9h às 17h30
inauguração, que indicam que antes de sua satisfação de ver resgatada aquela histórica a ventura de vê-la nascer ou de desfrutar
desmontagem ele havia sido descaracte- peça, constituiu-se, também, ocasião para da sua presença como marco destinado SEDE CENTRAL COMISSÃO INTERCLUBES MILITARES
rizado com a colocação de um motor em doces e saudosas recordações. a manter sempre presente o significativo Assessores Clube de Aeronáutica
Diretor Cultural
uma de suas faces, peça que originalmente, Junto ao Monumento foi colocada uma momento da criação da Corporação da qual Cel Av Araken Hipolito da Costa Maj Brig Ar Venancio Grossi
Cel Av Araken Hipolito da Costa
como comprovam as fotos feitas em 1943, artística placa com um pequeno histórico tanto nos orgulhamos. Diretor Social, Tecnologia da Informação e Hotel Cel Av Ajauri Barros de Melo
ele não possuía. Imagina-se que isto tenha da obra. Após a sua inauguração, o Coman- Espero que este registro, que traz para Cel Av Ajauri Barros de Melo Contato pelo tel.: (21) 2220-3691
sido feito com a intenção de dotar a obra de dante da Aeronáutica assinou Portaria que o presente históricos momentos vividos Diretor Administrativo REVISTA DO CLUBE DE AERONÁUTICA
outras peças relacionadas com a Aviação, a contém o Termo de Custódia do Monumen- em um passado distante, possa concorrer Ten Cel Av Antonio Arcanjo da Silva
Tel.: (21) 2220-3691
fim de torná-la mais representativa da Força to, documento que, além de reconhecer o para a preservação da memória da nossa
Chefe Secretaria Geral
Aérea. Qualquer que fosse a intenção dos seu valor histórico, coloca-o entre os Bens Corporação n Diretor e Editor
Ten Cel Av Antonio Arcanjo da Silva
Cel Av Araken Hipolito da Costa
Diretor Beneficente
Cap Adm Ivan Alves Moreira
Conselho Editorial
Maj Brig Ar Marco Antonio Carballo Perez
Diretor Jurídico Cel Av Manuel Cambeses Júnior
Dr. Francisco Rodrigues da Fonseca Cel Av Araken Hipolito da Costa
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Financeiro e Patrimonial - Cel Int Genibaldo Bezerra de
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Oliveira
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Administrativo e de Pessoal - Cel Av Luiz dos Reis Domingues
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responsabilidade de seus autores, não representando,
SEDE LACUSTRE
necessariamente, a opinião da revista. As matérias não
Ten Brig Ar Rossato e Brig Ar Bohrer na cerimônia de reinauguração do monumento reconstruído Assessor - Cap Esp Met José Renato do Nascimento serão devolvidas, mesmo que não publicadas.
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SEDE BARRA
LAZER E ESPORTE