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11/12/2018 O que é uma lei da natureza?

Crítica
8 de Janeiro de 2012 ⋅ Filosofia da ciência

O que é uma lei da natureza?


A. J. Ayer
Tradução de Sérgio R. N. Miranda e Aluízio Couto

I
Num certo sentido, sabemos suficientemente bem o que comumente se quer dizer com
“lei da natureza”. Podemos dar exemplos. São ou acredita-se que sejam leis da natureza:
que a órbita de um planeta em torno do Sol seja elíptica; que o arsênico seja venenoso;
que a intensidade de uma sensação seja proporcional ao logaritmo do estímulo; que haja
303 000 000 000 000 000 000 000 moléculas em um grama de hidrogênio. E não são leis
da natureza: que a soma dos ângulos de um triângulo euclidiano seja 180°, embora isso
seja necessariamente verdadeiro; que todos os presidentes da terceira República Francesa
tenham sido homens, embora esse seja à sua maneira um fato legal; que todos os cigarros
que tenho agora em minha cigarreira sejam feitos de tabaco da Virgínia, e embora isso
seja verdadeiro, dados os meus gostos, não é completamente acidental. Mas ao mesmo
tempo que há numerosos casos em que não temos dificuldade para dizer se uma
proposição que tomamos por verdadeira é ou não uma lei da natureza, há casos em que
podemos ficar em dúvida. Por exemplo, suponho que a maior parte das pessoas pensa que
as leis as da natureza incluem a primeira lei da termodinâmica, segundo a qual em
qualquer sistema físico fechado a soma da energia é constante. Mas algumas pessoas
defendem que tal princípio é uma convenção, devendo ser interpretado de tal modo que
não haja possibilidade lógica de ser falsificado, e por isso podem negar que tal princípio
seja afinal uma lei. Há duas perguntas a se fazer num caso assim: a primeira é se o
princípio em discussão é realmente uma convenção, e a segunda é se o fato de ser uma
convenção, caso realmente o seja, o impede de ser uma lei da natureza. Do mesmo modo,
pode haver uma controvérsia sobre se as generalizações estatísticas contam como leis da
natureza, distinta da controvérsia sobre se certas generalizações, que têm sido tomadas
por leis da natureza, são de fato estatísticas. E mesmo que fôssemos sempre capazes de
dizer a respeito de qualquer proposição se ela tem ou não a forma de uma lei da natureza,
permaneceria o problema de tornar claro o que isso implica.

Atualmente, o uso da palavra “lei”, tal como ocorre na expressão “leis da natureza”, é em
geral nitidamente diferente do seu uso em contextos morais ou legais: não concebemos as
leis da natureza como imperativos. Mas nem sempre foi assim. Hobbes, por exemplo,
apresenta no Leviatã uma lista de quinze “leis da natureza”, e entre elas duas das mais
importantes são que os homens “busquem a paz e a sigam e “que os homens cumpram os
pactos realizados”. Mas Hobbes não pensa que essas leis sejam necessariamente
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respeitadas. Pelo contrário, sustenta que o estado de natureza é um estado de guerra, e que
os pactos não serão de fato mantidos a menos que haja um poder para fazer que o sejam.
As suas leis da natureza são como leis civis, com exceção do fato de não emanarem de
qualquer autoridade civil. Em dada altura, fala de “ ditames da razão”, e acrescenta que os
homens, de modo impróprio, lhes dão o nome de leis: “pois são apenas conclusões ou
teoremas a respeito do que conduz à conservação e à defesa deles mesmos: ao passo que a
Lei, propriamente, é a palavra Daquele que por direito tem poder sobre eles”. “No
entanto”, continua Hobbes, “se você considerar que os mesmos teoremas são transmitidos
por meio da palavra de Deus, que por direito exerce o comando sobre todas as coisas,
então serão propriamente denominados “Leis”“.1

Pode-se pensar que o modo como Hobbes usa o termo é tão distante do uso corrente que
haveria pouco propósito em mencioná-lo, exceto como uma curiosidade histórica; mas
acredito que a diferença é menor do que parece. Penso que o uso corrente da expressão
“leis da natureza” carrega traços da concepção segundo a qual a Natureza está sujeita a
ordens. Se tais ordens são concebidas como provenientes de uma deidade pessoal ou,
como pensavam os gregos, de um destino impessoal, não faz aqui diferença. De qualquer
modo, o principal é que o soberano é tido como tão poderoso que os seus ditames são
obedecidos obrigatoriamente. Não se trata, como em Hobbes, de uma questão de dever
moral ou de prudência, casos em que o sujeito tem a liberdade para errar. De acordo com
a perspectiva que agora considero, as ordens dadas à natureza são emitidas com tal
autoridade que seria impossível desobedecer-lhes. Não digo que esse ponto de vista ainda
é prevalecente; ao menos não é explicitamente sustentado. Mas bem pode ter contribuído
para a persistente impressão de que há uma certa forma de necessidade ligada às leis da
natureza — uma necessidade que, como veremos, é extremamente difícil de estabelecer.

Caso alguém ainda esteja inclinado a pensar que as leis da natureza podem ser
identificadas com as ordens de um ser superior, vale a pena assinalar que essa análise não
pode estar correta. Já é uma objeção a tal análise o fato de ela pôr aos ombros da nossa
ciência toda a incerteza da nossa metafísica ou da nossa teologia. Se fosse revelado que
não temos boas razões para acreditar na existência de tal ser superior, ou que não temos
boas razões para acreditar que ele emita quaisquer ordens, seguir-se-ia, nessa análise, que
não estaríamos autorizados a acreditar na existência de quaisquer leis da natureza. Mas o
argumento principal contra essa perspectiva é independente de qualquer dúvida que
alguém possa ter acerca da existência de um ser superior. Mesmo que soubéssemos que
tal ser existe, e que regula a natureza, não poderíamos mesmo assim identificar as leis da
natureza com as suas ordens. Pois apenas descobrindo quais seriam as leis da natureza
poderíamos saber que forma essas ordens teriam. Mas isso implica que temos alguns
critérios independentes para decidir quais são as leis da natureza. Portanto, a suposição de
que são impostas por um ser superior é ociosa, assim como é ociosa a suposição da
providência. Apenas com a existência de meios independentes para descobrir o que está
para acontecer se pode dizer o que a providência nos reserva. A mesma objeção se aplica
à idéia, mais na moda, de que as leis morais são ordens de um ser superior. Mas isso não
nos interessa agora.

Em todo caso, há algo estranho na noção de uma ordem impossível de desobedecer.


Talvez estejamos certos de que uma dada ordem, de fato, jamais será desobedecida. Mas
o que significaria dizer que não pode ser desobedecida? Que as sanções que a sustentam
são muito fortes? Mas não poderia uma pessoa ser tão imprudente ou insensata a ponto de
desafiá-las? Estou inclinado a dizer que pertence à natureza das ordens que deva ser
possível desobedecer-lhes. A necessidade atribuída a essas ordens supostamente
irresistíveis pertence na verdade a algo diferente: pertence às leis da lógica. Não que as

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leis da lógica não possam ser desconsideradas; é possível cometer erros no raciocínio
dedutivo, assim como em qualquer outra coisa. Porém, há um sentido em que é
impossível que qualquer coisa que aconteça viole as leis da lógica. A restrição não se
encontra nos próprios eventos, mas no nosso método de descrevê-los. Se violarmos as
regras de acordo com as quais o nosso método de descrição funciona, não o estaremos
usando para descrever coisa alguma. Isso poderia sugerir que os próprios eventos
estariam de fato desobedecendo às leis da lógica, mas não poderíamos dizer como isso
acontece. Isso, no entanto, seria um erro. O que é descritível como um evento obedece às
leis da lógica: e o que não é descritível como um evento não é, absolutamente, um evento.
As cadeias com as quais a lógica acorrenta a natureza são puramente formais: sendo
formais elas não oprimem, mas pela mesma razão são inquebrantáveis.

Se considerarmos as leis da natureza como ordens de um ser superior, estamos a um


pequeno passo de creditarmos às leis da natureza a necessidade que pertence às leis da
lógica. E essa é de fato uma perspectiva que muitos filósofos sustentaram. Tomaram por
certo que uma proposição pode expressar uma lei da natureza somente se exprimir que
eventos ou propriedades de certo tipo estão necessariamente conectados; e interpretaram
essa conexão necessária como idêntica, ou aproximadamente análoga, à necessidade com
que a conclusão se segue das premissas de um argumento dedutivo; como sendo, em
suma, uma relação lógica. E isso lhes permitiu chegar à estranha conclusão de que as leis
da natureza podem, pelo menos em princípio, ser estabelecidas independentemente da
experiência: pois já que são verdades puramente lógicas, têm de poder ser descobertas
apenas com o uso da razão.

A refutação dessa perspectiva é muito simples. E foi decisivamente levada a cabo por
Hume. “Para nos convencer”, diz Hume, “que todas as leis da natureza e todo modo como
os corpos se comportam, sem exceção, são conhecidos apenas pela experiência, as
seguintes reflexões talvez sejam suficientes. Fosse-nos apresentado um objeto, e fosse-
nos exigido pronunciar a respeito do efeito que dele resultaria sem recorrer a observações
anteriores: como, pergunto, deve a mente proceder nessa operação? Tem de inventar ou
imaginar um evento que atribui ao objeto como sendo o seu efeito: e é claro que essa
invenção tem de ser inteiramente arbitrária. A mente jamais pode, pelo escrutínio e
exame mais acurados, encontrar o efeito na suposta causa. Pois o efeito é totalmente
diferente da causa, e conseqüentemente jamais nela pode ser encontrado”.2

O argumento de Hume é tão simples que tem sido freqüentemente mal entendido. O
argumento é descrito como a defesa de que a inerência de um efeito em sua causa é algo
que não é passível de ser descoberto na natureza; que de fato as nossas observações não
conseguem revelar a presença de qualquer relação desse tipo — o que deixaria em aberto
a possibilidade de as nossas observações estarem erradas. Mas o cerne do argumento de
Hume não é que a relação de conexão necessária que se supõe unir eventos distintos não
seja de fato observável: o cerne é que não pode haver tal relação, não por uma questão de
fato, mas por uma questão de lógica. O que Hume sublinha é que se dois eventos são
distintos, são distintos: a partir de uma asserção que se limita a afirmar a existência de um
deles é impossível deduzir qualquer coisa acerca da existência do outro. Isto de fato é
claramente uma tautologia. A sua importância reside no fato de os oponentes de Hume a
negarem. Queriam defender que os eventos associados pelas leis da natureza seriam
logicamente distintos entre si e, ao mesmo tempo, que estariam unidos por uma relação
lógica. Mas isso é uma contradição manifesta. Os filósofos que adotam essa perspectiva
tendem a expressá-la de uma forma que deixa a contradição latente: e foi uma conquista
de Hume ter trazido a contradição à luz.

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Em certas passagens, Hume deixa isso claro quando diz que a contraditória de qualquer
lei da natureza é ao menos concebível; a sua intenção é mostrar desse modo que a
verdade da frase que expressa tal lei é uma questão de fato empírico e não uma certeza a
priori. Mas tem-se levantado a objeção de que o fato de a contraditória de uma
proposição ser concebível não é uma prova decisiva de que a proposição não seja
necessária. Pode acontecer que em lógica ou matemática pura alguém faça uma afirmação
que não se possa provar nem refutar. Nesse caso, tanto a sua verdade quanto a sua
falsidade são certamente concebíveis. W. C. Kneale levanta esta objeção3, e cita o
exemplo da conjectura de Goldbach, que afirma que todo número par maior do que dois é
a soma de dois primos. Embora a conjectura tenha sido confirmada até onde foi testada,
ninguém ainda sabe com certeza se é verdadeira ou falsa: nenhuma prova foi descoberta
para mostrar que é verdadeira ou para mostrar que é falsa. Em todo caso, se for
verdadeira, é necessariamente verdadeira, e se for falsa, é necessariamente falsa. Suponha
que se revela falsa. Certamente, não poderíamos dizer que o que Goldbach tinha
conjecturado como verdadeiro era efetivamente inconcebível — ainda que vejamos então
que a sua conjectura é a contraditória de uma proposição necessária. Se insistirmos que é
impossível conceber a contraditória de uma proposição necessária, encontramo-nos na
estranha situação de ter de sustentar que uma das duas alternativas é inconcebível, sem
saber qual delas o seria.

Penso que Kneale está certo: mas não acho que isso seja uma resposta a Hume, pois este
não está primariamente interessado em mostrar que um determinado conjunto de
proposições que foram admitidas como necessárias não são realmente necessárias. Isso é
apenas uma conseqüência possível de seu ponto fundamental de que “não há objeto que
implique a existência de qualquer outro se considerarmos tais objetos em si mesmos, e
nunca olharmos além das idéias que deles formamos”4. Em suma, dizer que os eventos
são distintos é incompatível com a afirmação de que estão logicamente relacionados. E a
objeção de Kneale não tem qualquer força contra isto. O máximo que poderia provar é
que, no caso dos exemplos particulares que oferece, Hume poderia estar equivocado ao
supor que os eventos em questão fossem realmente distintos: a despeito das aparências
que indicam o contrário, uma expressão que Hume pensava que se referia apenas a um
dos eventos poderia ser usada de um modo que incluísse a referência ao outro.

Mas não é possível que Hume esteja sempre equivocado. Será que os eventos, ou
propriedades, que estão associados pelas leis da natureza, nunca são distintos? Essa
questão é complicada porque uma vez aceite a generalização como lei da natureza, ela
tende a mudar o seu estatuto. Os significados que atribuímos às nossas expressões não
são sempre constantes: se estamos firmemente convencidos de que todo objeto de um tipo
que é designado por certo termo tem uma propriedade que o termo não contemplava
originalmente, tendemos a incluir a propriedade na designação; alargamos a definição do
objeto, alterando ou não as palavras que a ele se referem. Para ilustrar, considere que foi
uma descoberta empírica que o ímã atrai ferro e aço: para alguém que usa a palavra “ímã”
apenas para se referir a um objeto que tem certa aparência física e uma dada constituição,
o fato de o ímã se comportar de uma determinada forma não é formalmente dedutível.
Mas como a palavra é hoje geralmente usada, a proposição de que o ímã atrai ferro e aço
é analiticamente verdadeira: um objeto que não faça isso não seria apropriadamente
considerado um ímã. Do mesmo modo, pode ter-se tornado uma verdade necessária que a
água tenha a composição química H2O. O que dizer então da água pesada (com deutério),
que tem D2O como composição? Não é realmente água? Essa questão é claramente
trivial. Se convém considerar a água pesada uma espécie de água, não devemos fazer com

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que seja necessário que a água seja H20. Caso contrário, podemos fazê-lo. Temos a
liberdade de resolver a questão, seja qual for o caminho que quisermos.

Nem todas as questões desse tipo são assim tão triviais. Por exemplo, qual é o estatuto na
física newtoniana do princípio de que a aceleração de um corpo é igual à força que age
sobre ele dividida pela sua massa? Se nos guiarmos pelos manuais em que “força” é
definida como o produto da massa e da aceleração, concluiremos que o princípio é
evidentemente analítico. Mas não há outros meios de definir força que permitam que esse
princípio seja empírico? De fato há, mas como Henri Poincaré mostrou5, podemos nos
ver forçados a tratar outro princípio newtoniano como uma convençãoI. Pareceria que
num sistema desse tipo provavelmente há um elemento convencional que, dentro de
certos limites, podemos situar onde bem escolhermos. O que é colocado para o teste da
experiência é o sistema como um todo.

Isso é conceder que algumas das proposições que passam por leis da natureza são
logicamente necessárias, e ao mesmo tempo implica que não é verdadeiro que todas
sejam logicamente necessárias. Mas pode-se ir muito além. É de todo modo concebível
que em certo estágio a física se deva tornar tão unificada que poderia ser totalmente
axiomatizada: atingiria o estatuto de uma geometria, em que todas as generalizações
fossem consideradas necessariamente verdadeiras. É mais difícil de ver qualquer
desenvolvimento desse tipo na biologia, e isso sem contar as ciências sociais, mas não é
teoricamente impossível que possa também ocorrer nessas áreas. Seria característico de
tais sistemas que nenhuma experiência poderia falsificá-los, mas a segurança de tais
sistemas poderia ser estéril. O que tomaria o lugar de serem falsificados seria a
descoberta de que não teriam qualquer aplicação empírica.

O ponto importante a notar é que seja qual for a vantagem prática ou estética de tornar as
leis cientificas verdades lógicas necessárias, isso não faz avançar o nosso conhecimento,
nem acrescenta algo à segurança das nossas crenças. Pois o que ganhamos de um lado,
perdemos do outro. Se tratarmos como uma questão de definição que há exatamente
tantos milhões de moléculas em todo grama de hidrogênio, podemos dessa forma estar
certos que todo grama de hidrogênio terá esse número de moléculas: mas devemos nos
tornar correspondentemente mais céticos, em um dado caso qualquer, se o que tomamos
por um grama de hidrogênio é realmente um grama de hidrogênio. Quanto mais
adicionamos às nossas definições, mais incerto é se algo as satisfaz: esse é o preço que
pagamos por diminuir o risco de falsificação das nossas leis. E se alguma vez chegarmos
ao ponto em que todas as “leis” sejam completamente seguras por serem tratadas como
logicamente necessárias, todo o peso da dúvida recairia sobre a afirmação de que o nosso
sistema tem aplicação. Tendo-nos privado do poder de expressar generalizações
empíricas, teremos de fazer as nossas afirmações existenciais realizarem o trabalho.

Se tal estágio for alcançado, estou inclinado a dizer que então não deveríamos mais ter
um uso para a expressão “leis da natureza”, tal como esta é agora entendida. Em certo
sentido, a vigência de tais leis ainda seria afirmada: seriam contrabandeadas nas
proposições existenciais. Mas nada haveria no sistema que contaria como lei da natureza:
pois considero que é característico de uma lei da natureza que a proposição que a
expressa não seja logicamente verdadeira. A respeito disso, no entanto, o nosso uso não é
inteiramente claro. No caso em que uma frase originalmente expressou uma
generalização empírica que reconhecemos como uma lei da natureza, nos inclinamos a
dizer que ainda expressa uma lei da natureza, mesmo quando o seu significado tenha sido
tão modificado que a frase passa a expressar uma verdade analítica. E somos encorajados
a isso pelo fato de ser freqüentemente muito difícil dizer se essa modificação ocorreu ou

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não. Da mesma forma, no caso em que algumas proposições num sistema científico
desempenham o papel de definições, tendo alguma liberdade para decidir o que devem
ser, tendemos a aplicar a expressão “leis da natureza” a qualquer uma das proposições
constituintes do sistema, sejam analiticamente verdadeiras ou não. Mas aqui é essencial
que o sistema como um todo seja empírico. Porque fazem parte do restante do sistema,
permitimos que as proposições analíticas contem como leis da natureza.

Assim, objetar a Hume que ele pode estar errado ao admitir que os eventos conectados
causalmente sejam “existências distintas” é meramente admitir que é possível a ciência se
desenvolver de tal modo que os sistemas axiomáticos tomem o lugar de leis naturais. Mas
isso não era verdade a respeito das proposições em que Hume estava interessado, nem é
verdadeiro no que diz respeito às ciências de hoje. E em qualquer caso, Hume está certo
ao dizer que não podemos ter o melhor de ambos os mundos; se queremos que as nossas
generalizações tenham conteúdo empírico, não podem ser logicamente certas; se as
tornarmos logicamente certas, subtraímos o seu conteúdo empírico. As relações que se
mantêm entre coisas, eventos ou propriedades não podem ser simultaneamente factuais e
lógicas. O próprio Hume falou apenas de relações causais, embora o seu argumento se
aplique a qualquer uma das relações que a ciência estabelece, e de fato a qualquer relação,
seja ela qual for.

Talvez se deva observar que os filósofos que ainda desejam manter que as leis da natureza
são “princípios de necessitação”6 não concordariam que isso significa dizer que as
proposições que as exprimam sejam analíticas. Defenderiam que estamos lidando aqui
com relações de necessidade objetiva, que não devem ser identificadas com derivações
lógicas, embora as duas sejam parecidas em certos aspectos. Mas o que são essas relações
de necessidade objetiva? Nenhuma explicação é dada, exceto que são apenas relações que
existem entre eventos ou propriedades quando estão conectados por uma lei da natureza.
Mas isso é simplesmente reafirmar o problema; e não uma tentativa de resolvê-lo. Essa
menção à necessidade objetiva não parece permitir que detectemos qualquer lei da
natureza. Pelo contrário, é apenas ex post facto, quando a existência de alguma conexão
foi empiricamente testada, que os filósofos afirmam ver essa misteriosa propriedade da
necessidade. E muito freqüentemente o que “vêem” como algo necessário é falsificado
por observações posteriores. Em si, isso não prova que os eventos que ocorrem
simultaneamente devido a uma lei da natureza não estejam ligados numa única relação.
Se todas as tentativas de análise fracassam, podemos limitar-nos a dizer que é sui generis.
Mas por que descrevê-la de um modo que leva à confusão com a relação de necessidade
lógica?

Outra tentativa de conectar a necessidade natural com a lógica encontra-se na sugestão de


que se considera que dois eventos E e I estão necessariamente conectados quando há uma
afirmação universal bem estabelecida U a partir da qual, em conjunção com a proposição
i, que afirma a existência de I, uma proposição e, que afirma a existência de E, é
formalmente dedutível.7 Essa sugestão tem o mérito de explicitar o fato de que qualquer
necessidade que possa haver na conexão de dois eventos se dá apenas através de uma lei.
A proposição que descreve “as condições iniciais” não permite por si mesma derivar a
proposição que descreve o “efeito”: só o faz quando a combinamos com uma lei causal.
Mas isso não nos autoriza a dizer que a lei em si seja necessária. Podemos atribuir um
significado semelhante para a afirmação de que a lei é necessária estipulando que se
segue, diretamente ou com a ajuda de certas premissas adicionais, de alguns princípios
mais gerais. Mas qual é então o estatuto desses princípios mais gerais? A questão do que
constitui uma lei da natureza continua, nessa concepção, sem resposta.

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II
Depois de nos livrarmos da confusão entre relações lógicas e relações factuais, o caminho
óbvio parece ser sustentar que uma proposição expressa uma lei da natureza quando
enuncia o que invariavelmente acontece. Assim, se dissermos que corpos sem suporte
caem e admitirmos que a afirmação é uma lei da natureza, queremos dizer que não há,
não houve e não haverá um corpo sem suporte que não caia. Nessa perspectiva, a
“necessidade” de uma lei consiste simplesmente no fato de não ter exceções.

Veremos que essa interpretação também pode ser alargada às leis estatísticas. Pois
também se pode considerar que estas afirmam certas constâncias na natureza: ocorre que,
nesse caso, o que se sustenta que é constante é a proporção de casos em que uma
propriedade se combina com outra ou, para dizer de outra forma, a proporção de
membros de uma classe que são também membros de outra. Assim, é uma lei estatística
que quando há dois genes determinando uma propriedade hereditária — por exemplo, a
cor de um dado tipo de flor —, a proporção de indivíduos na segunda geração que
apresentam o atributo dominante — por exemplo, a cor branca por oposição à vermelha
—, é de três quartos. Porém, há a dificuldade de não se esperar que a proporção seja
mantida em todas as amostras. Como R. B. Braithwaite sublinhou, “quando dizemos que
a proporção (num sentido não literal) de nascimento de crianças do sexo masculino de
entre os nascimentos é de 51%, não estamos dizendo de qualquer classe particular de
nascimentos que 51% são nascimentos de meninos, pois a proporção efetiva de
nascimentos pode diferir muito de 51% numa classe particular de nascimentos ou em
várias classes particulares de nascimentos. Mesmo assim, não estamos dispostos a rejeitar
a proposição de que a proporção (no sentido não-literal) seja de 51%”8. De todo o modo,
o uso “não literal” da palavra “proporção” é bastante próximo do literal. Se a lei ocorre, a
proporção tem de permanecer algo perto de 51% para qualquer classe de casos
suficientemente grande: e os desvios dessa taxa encontrados em subclasses selecionadas
têm de ser como o que espera da aplicação do cálculo de probabilidades. É mister admitir
que a questão sobre o que constitui uma classe de casos suficientemente grande é difícil
de responder. Pareceria que a classe teria de ser finita, mas a escolha de qualquer número
finito particular também pareceria arbitrária. Mas não vou tentar resolver isso aqui. A
única coisa que quero sublinhar é que uma lei estatística não é menos “legiforme” do que
uma lei causal. De fato, se as proposições que expressam leis causais são simplesmente
afirmações do que invariavelmente acontece, podem ser encaradas como expressões de
leis estatísticas com porcentagem de 100%. Uma vez que uma porcentagem de 100%, se
for efetiva, tem de ocorrer em qualquer amostra, esses “casos-limite” de leis estatísticas
escapam da dificuldade que acabamos de mencionar. A partir de agora detemos a nossa
atenção nesses casos porque a análise das leis estatísticas “normais” trazem complicações
estranhas aos nossos propósitos. Não afetam a questão do que torna uma proposição
legiforme: e estamos interessados principalmente nesta questão.

Na perspectiva que temos agora de considerar, tudo o que se exige para haver leis na
natureza é a existência de constâncias de facto. No caso mais simples, a constância
consiste no fato de que eventos, ou propriedades, ou processos de diferentes tipos estão
invariavelmente associados entre si. Isto é atraente devido à sua simplicidade: mas pode
ser que seja simples demais. Há aqui objeções a que não é fácil responder.

Em primeiro lugar, temos de evitar sobrecarregar-nos com leis vácuas. Se interpretarmos


as afirmações da forma “Todo S é P” como equivalente, na notação de Russell, a
implicações gerais da forma “(x) (Φx ⊃ Ψx)”, enfrentamos a dificuldade que tais
implicações são consideradas verdadeiras em todos os casos em que a sua antecedente é
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falsa.II Assim, teremos de entender como verdadeiro que todos os cavalos alados são
corajosos e que todos os cavalos alados são domesticados; pois ao admitir, o que
considero que podemos fazer, que jamais houve ou haverá quaisquer cavalos alados, é
verdadeiro que nunca houve ou haverá qualquer cavalo alado que não seja corajoso e, da
mesma forma, que nunca houve ou haverá qualquer cavalo alado que não seja
domesticado.III E será assim com qualquer outra propriedade que escolhermos. Mas
certamente não queremos considerar que a atribuição de qualquer propriedade a cavalos
alados é expressão de uma lei da natureza.

A saída óbvia desta dificuldade é estipular que a classe à qual nos referimos não deve ser
vazia. Se as afirmações da forma “Todo S é P” forem usadas para expressar leis da
natureza, têm de ser construídas de modo a implicar a existência de pelo menos um S.
Têm de ser tratadas como equivalentes, na notação de Russell, à conjunção das
proposições “(x) (Φx ⊃ Ψx) (∃x) Φx”. Mas essa condição pode ser forte demais, pois há
certos casos em que queremos considerar que as implicações gerais expressam leis da
natureza mesmo que as suas antecedentes não sejam satisfeitas. Considere, por exemplo,
a lei newtoniana de que um corpo sobre o qual nenhuma força está atuando continua em
repouso ou em movimento uniforme ao longo de uma linha reta. Poder-se-ia argumentar
que essa proposição seria vacuamente verdadeira, uma vez que não há corpos sobre os
quais nenhuma força atua; mas nem por isso deixa de ser entendida como expressando
uma lei. Não é interpretada como vácua. Mas como então tal proposição se encaixa no
esquema? Como se pode admitir que é uma descrição do que realmente acontece?

O que queremos dizer é que se houvessem corpos sobre os quais nenhuma força atua,
então eles se comportariam do modo como a lei de Newton prescreve. Mas não
estabelecemos qualquer procedimento para esses casos hipotéticos: de acordo com a
perspectiva que examinamos, as afirmações legiformes abrangem apenas o que é efetivo,
e não o que é meramente possível. Porém, há ainda um modo de ajustar tais leis “não-
instanciadas”. Como C. D. Broad sugeriu9, podemos tratá-las como se se referissem não a
objetos hipotéticos ou a eventos, mas apenas a conseqüências hipotéticas de leis
instanciadas. A nossa lei newtoniana pode então ser vista como algo que implica que há
leis instanciadas. Neste caso, leis sobre o comportamento dos corpos sobre os quais
atuam forças e que, combinadas com a proposição de que há corpos sobre os quais
nenhuma força atua, implicam a conclusão de que esses corpos continuam em repouso,
ou em movimento uniforme ao longo de uma linha reta. A proposição de que há tais
corpos é falsa e assim também o é a conclusão, se for interpretada existencialmente. Mas
isso não importa. Como Broad o exprime, “o que estamos interessados em afirmar é que
essa conclusão falsa é uma conseqüência necessária da conjunção de uma suposição falsa
instanciável com certas leis da natureza verdadeiras instanciadas”.

Esta solução da presente dificuldade é engenhosa, embora não esteja certo de que seria
sempre possível encontrar as leis instanciadas exigidas. Mas mesmo que a aceitemos, os
nossos problemas não acabam. Como o próprio Broad sublinhou, há uma importante
classe de casos em que não nos ajuda. Tais casos são aqueles em que se diz que uma
quantidade mensurável depende de outra quantidade mensurável. Casos como o da lei
que conecta o volume e a temperatura de um gás sob uma dada pressão — em que há uma
função matemática que nos permite calcular o valor numérico de qualquer um dos dois
partindo do valor do outro. Tais leis têm a forma “x = Fy”, em que a extensão da variável
y abrange todos os valores possíveis da quantidade em questão. Mas não se pode supor
que todos esses valores se deverão encontrar realmente na natureza. Mesmo que o
número das diferentes temperaturas que os espécimes de gases têm ou irão ter seja
infinito, terá ainda de faltar um número infinito. Como devemos então interpretar tal lei?
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Como a volumosa afirmação de todas as suas instâncias efetivas? Mas a formulação da


lei não indica quais são as instâncias efetivas. Seria absurdo construir uma fórmula geral
sobre a dependência funcional de uma quantidade em relação à outra como algo que nos
comprometeria com a afirmação de que apenas esses valores da quantidade são
efetivamente realizados. Como afirmando que para um valor n de y, que de fato não se
realiza, a proposição de que ele se realiza em conjunção com o conjunto de proposições
que descrevem os casos efetivos acarreta a proposição de que há um valor
correspondente m de x? Mas isto está aberto à mesma objeção, com o inconveniente
adicional de que não haveria acarretamento. Como afirmando em relação a qualquer
dado valor n de y que ou n não é realizado ou há um valor m correspondente de x? Esta é
a alternativa mais plausível, mas torna a lei trivial para todos os valores de y que não
sejam realizados. É difícil escapar da conclusão de que o que realmente queremos dizer
quando formulamos tal lei é que há um valor correspondente de x para todo valor possível
de y.

Outra razão para adicionar as possibilidades é que não parece haver outro modo de
explicar a diferença entre generalizações legiformes e generalizações factuais. Voltando
aos exemplos anteriores, é uma generalização factual que todos os presidentes da Terceira
República Francesa são homens ou que todos os cigarros que estão agora na minha
cigarreira são feitos de tabaco da Virgínia. É uma generalização legiforme que todos os
planetas do nosso sistema solar se movem em órbitas elípticas, mas uma generalização
factual que todos têm nomes latinos. Alguns filósofos referem-se a essas generalizações
factuais como “generalizações acidentais”, mas esse uso da palavra “acidental” pode ser
enganador. Não se sugere que estas generalizações são verdadeiras por acidente, no
sentido de não haver explicação causal para a sua verdade, mas apenas que não são
expressões de leis naturais.

Mas como devemos fazer essa distinção? A fórmula “(x) (Φx ⊃ Ψx)” representa bem
ambos os casos. Seja a generalização uma generalização factual ou legiforme, irá dizer no
mínimo que nada há que tenha a propriedade Φ e que não tenha a propriedade Ψ. Nesse
sentido, a generalidade é perfeita em ambos os casos, na medida em que as afirmações
forem verdadeiras. Porém, parece haver um sentido em que a generalidade a que estamos
chamando generalizações factuais é menos completa. Parecem limitadas, ao contrário das
generalizações legiformes. Ou as generalizações factuais envolvem alguma limitação
espaço-temporal, como no exemplo dos cigarros que estão agora na minha cigarreira, ou
se referem a indivíduos particulares, como no exemplo dos presidentes da França.
Quando digo que todos os planetas têm nomes latinos, estou me referindo definidamente
a certo conjunto de particulares como Júpiter, Vênus, Mercúrio e assim por diante. Mas
quando digo que os planetas se movem em órbitas elípticas, estou me referindo
indefinidamente a qualquer coisa que tenha as propriedades que constituem ser um
planeta deste sistema solar. Mas não é adequado dizer que as generalizações factuais são
simplesmente conjunções de afirmações particulares, que definitivamente se referem a
particulares. Pois ao afirmar que os planetas têm nomes latinos, não os identifico
individualmente: posso saber que têm nomes latinos sem ser capaz de fazer uma lista de
todos. Também não podemos delimitar generalizações legiformes insistindo que não
podem incluir referências a lugares e momentos específicos do tempo específicos, pois as
generalizações factuais podem ser ajustadas a essa condição. Em vez de referir os
cigarros que estão agora na minha cigarreira, posso encontrar uma propriedade geral que
só os meus cigarros têm, como, por exemplo, a propriedade de estarem dentro de uma
cigarreira com certos arranhões e pertencente durante um dado período a uma pessoa com
determinadas características. As descrições são escolhidas de tal modo que a descrição da
pessoa é satisfeita apenas por mim e a descrição da cigarreira, caso eu tenha mais de uma,

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11/12/2018 O que é uma lei da natureza?

só é satisfeita pela cigarreira mencionada. Em certas circunstâncias, essas descrições


podem ter de ser um tanto complicadas, mas normalmente não o seriam: e de qualquer
modo a questão da complexidade não está em discussão aqui. Mas isso significa que com
a ajuda desses predicados “individuadores” as generalizações factuais podem ser
expressas de uma forma tão universal quanto as generalizações legiformes. E,
conversamente, como sublinhou Nelson Goodman, as generalizações legiformes podem
ser expressas de tal modo que contenham referência a indivíduos particulares, ou a
lugares e momentos do tempo específicos. Pois, como Goodman observa, “mesmo a
hipótese “Toda a grama é verde” tem como um equivalente “Toda grama em Londres ou
noutro lugar é verde””10. Temos de admitir que esta equiparação dos dois tipos de
afirmação parece um ardil; mas o fato de que funcionar mostra que não podemos
fundamentar a distinção numa diferença nos modos pelos quais a afirmação pode ser
expressa. De novo, o que queremos dizer é que embora as generalizações factuais
abranjam apenas instâncias efetivas, as generalizações legiformes abrangem também
instâncias possíveis. Mas esta noção de instâncias possíveis, opostas às efetivas, ainda
não foi clarificada.

Se as generalizações legiformes abrangem tanto as instâncias possíveis como as efetivas,


o seu alcance tem de ser infinito; pois enquanto o número de objetos que existem ao
longo do tempo e que têm certas propriedades possa ser finito, não há limite ao número
de objetos que possivelmente poderiam ter tais propriedades: pois quando entramos no
campo das possibilidades não ficamos confinados aos objetos que efetivamente existem.
E isto mostra o quanto estas generalizações estão longe de ser conjunções. Não só devido
ao seu alcance ser finito, o que poderia ser verdadeiro mesmo que se limitasse às
instâncias efetivas, mas porque é absurdo tentar fazer uma lista de todas as instâncias
possíveis. Pode-se imaginar um anjo se dando o trabalho de nomear ou descrever todos os
homens que já existiram ou irão existir, mesmo que fossem de número infinito. Mas como
nomearia ou descreveria todos os homens possíveis? Esse ponto é desenvolvido por F. P.
Ramsey, que observa que a proposição hipotética com variável ““(x) Φx” assemelha-se a
uma conjunção a) na medida em que contém todas as conjunções menores, i.e., todas as
conjunções finitas, e aparece como um tipo de produto infinito; b) quando perguntamos o
que a tornaria verdadeira, inevitavelmente respondemos que é verdadeira se, e somente
se, todo x tem Φ; i.e., quando a consideramos como uma proposição que pode ser
verdadeira ou falsa, somos forçados a fazer dela uma conjunção que não podemos
expressar por falta de poder simbólico”.11 Porém, continua, “o que não podemos dizer,
não podemos dizer, e também não podemos assobiar”. E Ramsey conclui que tal
proposição hipotética com variável não é uma conjunção e que “se não é uma conjunção,
não é de modo algum uma proposição”. De maneira análoga, Ryle, sem explicitamente
negar que as generalizações legiformes são proposições, descreve-as como “garantias
para inferências sazonais”12, numa analogia com os bilhetes de trem válidos
sazonalmente, o que implica que não são tanto proposições, mas antes regras. Schlick
também sustentou que seriam regras, argumentando que não poderiam ser proposições
porque não eram conclusivamente verificáveis; mas este é um argumento fraco, uma vez
que é duvidoso que quaisquer proposições sejam conclusivamente verificáveis, exceto
possivelmente as que descrevem as experiências imediatas individuais.

Dizer que as generalizações legiformes não são proposições tem o mérito de destacar a
sua peculiaridade. É um modo de enfatizar a diferença entre elas e as generalizações
factuais. Mas acredito que a ênfase é forte demais. Afinal de contas, como Ramsey
reconhece, queremos dizer que as generalizações legiformes são ou verdadeiras ou falsas.
E são testadas como as outras proposições: pelo exame de instâncias efetivas. Uma
instância contrária refuta uma generalização legiforme do mesmo modo que refuta uma
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generalização factual. Uma instância positiva confirma ambas. Temos de admitir a


diferença de que se todas as instâncias efetivas são favoráveis, a sua conjunção acarreta a
generalização factual, mas não acarreta a generalização legiforme: mas ainda assim não
há meio melhor de confirmar uma generalização legiforme do que encontrar instâncias
favoráveis. Dizer que as afirmações legiformes funcionam como garantias para
inferências sazonais é de fato esclarecedor, mas o que quer dizer é que a inferência em
questão é garantida pelos fatos. Não haveria sentido em expedir bilhetes sazonais se os
trens de fato não funcionassem.

Dizer que as generalizações legiformes abrangem tanto casos possíveis quanto reais é
dizer que acarretam condicionais subjuntivas. Se for uma lei da natureza que os planetas
se movem em órbitas elípticas, então será verdadeiro não só que os planetas reais se
movem em órbitas elípticas, mas também que se uma coisa qualquer fosse um planeta,
mover-se-ia em órbita elíptica: e “ser um planeta” deve aqui ser entendido como o ter
certas propriedades, não só como sendo idêntico a um dos planetas que existem. Não é de
fato uma peculiaridade de afirmações que entendemos expressar leis da natureza que elas
acarretem condicionais subjuntivas: pois o mesmo será verdadeiro para qualquer
afirmação que contenha um predicado disposicional. Dizer, por exemplo, que esta tira de
borracha é elástica não é meramente dizer que ela retornará ao tamanho normal depois de
ser esticada, mas é também dizer que ela assim o faria se alguma fez fosse esticada: um
objeto pode ser elástico sem ser esticado uma vez sequer. Mesmo a afirmação de que isto
é um pedaço branco de papel pode ser tomada como implicando não só que parece um
pedaço de papel, mas também que se pareceria com um pedaço de papel sob certas
condições, que podem ou não ser cumpridas. Assim, não se pode dizer que as
generalizações factuais não acarretam as condicionais subjuntivas, pois podem muito bem
conter predicados disposicionais. E realmente é mais provável que contenham. Mas não
irão acarretar as condicionais subjuntivas que são acarretadas pelas afirmações legiformes
correspondentes. Dizer que todos os planetas têm nomes latinos pode ser fazer uma
afirmação disposicional, no sentido de que implica não tanto o fato de as pessoas os
chamarem por tais nomes, mas que elas o fariam se falassem corretamente. No entanto,
isso não implica, com relação a qualquer coisa, que se essa coisa fosse um planeta, teria
um nome latino. E por essa razão não se trata de uma generalização legiforme, mas
apenas de uma generalização factual.

Há vários filósofos que de bom grado deixariam a questão neste ponto. Explicam a
“necessidade” das leis naturais dizendo que consiste no fato de valerem tanto para
instâncias possíveis quanto efetivas: e distinguem generalizações legiformes de
generalizações factuais destacando as diferenças em relação ao acarretamento de
condicionais subjuntivas. Mas apesar de isto ser, até certo ponto, correto, tenho dúvidas
se vai suficientemente longe. Nem a noção de instâncias possíveis, por oposição às
efetivas, nem a noção de condicional subjuntiva é tão cristalina a ponto de tais referências
a estas noções poderem ser consideradas algo que porá um fim às nossas dificuldades. Se
pudermos, será bom tentar levar a nossa análise um pouco mais adiante.

A teoria que vou esboçar não evitará toda a menção a disposições; mas irá restringi-la à
atitude das pessoas. A minha sugestão é que a diferença entre os nossos dois tipos de
generalização reside não tanto no lado dos fatos que as tornam verdadeiras ou falsas, mas
antes na atitude daqueles que as propõem. A informação factual expressa por uma
afirmação da forma “para todo x, se x tem Φ então tem Ψ” é a mesma independentemente
do modo como for interpretada. Pois se as duas interpretações diferem apenas acerca dos
valores possíveis de x, por oposição aos seus valores efetivos, não diferem com respeito a
qualquer coisa que ocorra efetivamente. Contudo, não quero dizer que uma diferença

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acerca de meras possibilidades não é uma diferença genuína, ou que tal diferença deva ser
identificada a uma diferença na atitude daqueles que fazem a interpretação. Mas penso
que pode ser mais bem elucidado pela referência a tais diferenças de atitude. Em suma,
proponho explicar a diferença entre generalizações legiformes e generalizações factuais, e
assim dar uma explicação indireta do que é uma lei da natureza, pelo método de analisar a
distinção entre tratar uma generalização como uma afirmação legiforme e tratá-la como
uma afirmação factual.

Se uma pessoa aceita uma afirmação da forma “(x) (Φx ⊃ Ψx)” como uma verdadeira
generalização factual, não acreditará que qualquer coisa que tenha a propriedade Φ tenha
qualquer propriedade que o leve a não ter a propriedade Ψ. Pois uma vez que acredita que
tudo que tem Φ também tem Ψ, tem de acreditar que sejam quais forem as propriedades
diferentes que um dado valor de x possa ter, não serão propriedades que o impeçam de ter
Ψ. E pode ser que saiba que esse é o caso. Mas vamos supor que acredite que tal
generalização é verdadeira, mas que não o saiba com certeza. Nesse caso, haverá várias
propriedades X, X1... tais que, se lhe fosse ensinado, com respeito a qualquer valor de a
de x, que a tinha uma ou mais dessas propriedades, assim como tinha a propriedade Φ,
isso destruiria ou enfraqueceria seriamente a sua crença que a tinha a propriedade Ψ. Por
exemplo: acredito que todos os cigarros que estão na minha cigarreira são feitos de tabaco
da Virgínia, mas essa crença seria destruída se eu fosse informado que tinha
distraidamente enchido a minha cigarreira com cigarros que guardo apenas na caixa em
que coloco cigarros turcos. Por outro lado, se eu tomasse como uma lei da natureza que
todos os cigarros nesta cigarreira são feitos de tabaco da Virgínia, com base, por exemplo,
na cigarreira ter a propriedade física curiosa de transformar qualquer cigarro lá colocado
num cigarro com tabaco da Virgínia, então a minha crença não seria enfraquecida desse
modo.

Ora, se as nossas leis da natureza fossem causalmente independentes umas das outras, e
se, como pensou Mill, as proposições que as expressam fossem sempre avançadas como
incondicionalmente verdadeiras, a análise poderia ser bastante simples. Poderíamos dizer
que uma pessoa A tomaria uma afirmação da forma “para todo x, se Φx, então Ψx” como
a expressão de uma lei da natureza se, e somente se, não houver uma propriedade X tal
que a informação de que um valor de a de x teria X tanto quanto Φ enfraquecesse a sua
crença de que a teria Ψ. E aqui teríamos de admitir a cláusula que X não acarreta
logicamente não-Ψ, e também, suponho, que a sua presença não é considerada uma
manifestação de não-Ψ; pois não desejamos tornar incompatível o ato de tratar uma
afirmação como a expressão de uma lei com o facto de se ter de reconhecer uma instância
negativa se ela surgir. Mas na realidade isso não é tão simples. Pois é possível acreditar
que uma afirmação da forma “para todo x, se Φx, então Ψx” expressa uma lei da natureza
ao mesmo tempo em que também se acredita que, porque se acredita noutras leis, que se
uma coisa tivesse tanto a propriedade X quanto a propriedade Φ, não teria a propriedade
Ψ. Assim, a crença na proposição de que um objeto que alguém pensa ser um imã atrai
ferro poderia ser enfraquecida ou destruída pela informação de que a composição física
do suposto imã é muito diferente daquela que se imaginou. Porém, penso que em casos
destes a informação que poderia debilitar a crença de que o objeto em questão tinha a
propriedade Ψ é tal que, independentemente de outras considerações, enfraqueceria
seriamente a crença de que o objeto alguma vez teve a propriedade Φ. E se for assim,
podemos superar a dificuldade estipulando que a série de propriedades que uma pessoa
que considera que “para todo x, se Φx, então Ψx” é uma lei, deve estar disposta a associar
com Φ, sem que a sua crença na conseqüente seja enfraquecida, não deve incluir aquelas
cujo conhecimento da sua presença enfraqueceria seriamente a crença na presença de Φ.

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Resta a dificuldade adicional de que normalmente não consideramos como


incondicionalmente verdadeiras as proposições que entendemos expressar leis da
natureza. Ao afirmá-las, implicamos a presença de certas condições que realmente não
especificamos. Talvez pudéssemos especificá-las se assim o desejássemos, mas
consideraríamos difícil tornar a lista exaustiva. Nesse sentido, uma generalização
legiforme pode ser mais fraca do que uma generalização factual, uma vez que se pode
admitir exceções às generalizações tal como estas são afirmadas. Porém, isso não
significa que a lei permita exceções: se a exceção é reconhecida como genuína, entende-
se que a lei foi refutada. Nos outros casos, considera-se que a exceção foi tacitamente
prevista. Estabelecemos uma lei sobre o ponto de fervura da água, sem nos importar em
mencionar se vale para altitudes elevadas. Quando isso é assinalado, dizemos que tal
qualificação deveria ser subentendida. O mesmo vale para os outros casos. A afirmação
de que se algo tem Φ também tem Ψ foi uma formulação frouxa da lei: o que realmente
queríamos dizer era que se alguma coisa tem Φ, mas não X, também tem Ψ. Mesmo no
caso em que a existência da exceção não fosse previamente conhecida, freqüentemente
vemos isso como algo que qualifica a lei ao invés de refutá-la. Não dizemos que a
generalização foi falsificada, mas antes que foi afirmada sem exatidão. Assim, deve-se
permitir que a crença de alguém na presença de Ψ, num dado caso, é destruída pela
crença de que Φ é acompanhado de X, possa ainda estar considerando que “(x) (Φx ⊃
Ψx)” expressa uma lei da natureza, se essa pessoa estiver disposta a aceitar “(x) ((Φx ~
Xx) ⊃ Ψx)” como uma formulação mais exata da lei.

Assim, sugiro que para uma pessoa considerar que uma afirmação da forma “se algo tem
Φ, também tem Ψ” é a expressão de uma lei da natureza, é suficiente i) que se sujeite a
uma disposição para afastar exceções, que ela acredite num sentido não trivial que tudo o
que de facto tem Φ também tem Ψ e ii) que a sua crença de que algo que tem Φ também
tem Ψ não seja passível de ser enfraquecida pela descoberta de que o objeto em questão
também tem outra propriedade X, satisfeitas as condições a) que X não acarrete
logicamente não-Ψ, b) que X não seja uma manifestação de não-Ψ, c) que a descoberta de
que algo tenha X em si mesma não enfraqueceria a sua crença de que o objeto tenha Φ e
d) que não considere a afirmação “se qualquer coisa tem Φ e não-X terá Ψ” como uma
afirmação mais exata da generalização que pretendia expressar.

Não estou sugerindo que essas condições são necessárias, pois penso que podem ser
simplificadas e que não cobrem todo o campo. Por exemplo, nenhuma condição foi
estabelecida para as leis funcionais, onde a referência a instâncias possíveis não me
parecem até agora elimináveis. Também não estou oferecendo uma definição de lei
natural. Não afirmo que dizer que alguma proposição expressa uma lei da natureza
acarreta dizer que alguém tem certa atitude em relação a ela; pois claramente faz sentido
dizer que existem leis da natureza que são ainda desconhecidas. Mas isso é consistente
com o ato de sustentar que a noção tem de ser explicada em termos de atitudes das
pessoas. A minha explicação é realmente esquemática, mas penso que as distinções que
tentei apresentar são relevantes e importantes: e espero ter feito algo no sentido de torná-
las claras.

A. J. Ayer
Artigo originalmente publicado na Revue Internationale de Philosophie, 36 (1956), pp. 144-65; traduzido a
partir da coletânea Philosophy of Science: The Central Issues, de Curd & Cover (Nova Iorque: W. W. Norton &
Company, 1998, pp. 808-824).

Notas do autor
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1. Leviatã, Parte I, Capítulo XV.


2. Investigação sobre o Entendimento Humano, iv, I. 25.
3. Probability and Induction, pp. 79 ff.
4. Tratado da Natureza Humana, i, iii, vi.
5. Cf. La Science et l’hypothèse, pp. 119-129.
6. Cf. Kneale, op. cit.
7. Cf. K. Popper, “What Can Logic Do for Philosophy?” Supplementary Proceedings of the
Aristotelian Society, Vol. XXII: e, no mesmo volume, artigos escritos por W. C. Kneale e por
mim.
8. Scientific Explanation, pp. 118-129.
9. “Mechanical and Teleological Causation”, Supplementary Proceedings of The Aristotelian
Society, XIV, 98 ff.
10. Facto, ficção e previsão, p. 78.
11. Foundations of Mathematics, p. 238.
12. ““If”, “So” and “Because””, Philosophical Analysis (ensaios organizados por Max Black), p.
332.

Notas de Curd & Cover


I. Cf. o capítulo 6 de La science et l’hypothèse (Paris: E. Flammarion, 1902); Science and
Hypothesis, traduzido por W. J. Greenstreet (Nova Iorque: Dover, 1952). Poincaré pensa que
qualquer tentativa de verificar a segunda lei, F = ma, por meio da experimentação — mesmo
num único corpo de massa constante — exige um modo de medir forças independente das
acelerações que elas causam e também independente de se verificar quando duas forças são
iguais em magnitude. Isso, Poincaré argumenta, tem de pressupor a verdade da terceira lei
(que a ação e a reação são iguais e opostas). Assim, ele conclui que se a segunda lei é
empírica, então a terceira lei tem de ser tratada como uma definição. Poincaré também
argumenta que se a segunda lei é considerada não como uma lei empírica, mas como uma
definição de força, então pode ser aplicada a mais de um corpo apenas se as massas de
diferentes corpos podem ser comparadas. Isso também, argumenta, pressupõe a terceira lei
de Newton, uma vez que quando dois corpos agem um sobre o outro, a razão das suas
massas é definida como a razão inversa das suas acelerações (admitindo que nenhum outro
corpo esteja agindo sobre eles).
II. Adicionamos, em todo o texto, parênteses às fórmulas usadas por Ayer. A generalização
universal “(x) (Φx ⊃ Ψx)” deve ser lida como “para todo x, se x tem a propriedade Φ, então
tem a propriedade Ψ”. Devido ao modo como o conector verofuncional “⊃” é definido,
qualquer fórmula condicional “(p ⊃ q)” é verdadeira em todos os casos em que a
antecedente, p, é falsa, independentemente do fato de a conseqüente, q, ser verdadeira ou
falsa. Por isso, compreende-se o comentário de Ayer sobre cavalos alados na afirmação
seguinte.
III. Em lógica de predicados, “(x) (Φx ⊃ Ψx)” é logicamente equivalente a “~∃(x) (Φx ~Ψx)”.
Esta negação de uma generalização existencial diz que “não é o caso que exista algo, x, tal
que x tenha a propriedade Φ e não tenha a propriedade Ψ”. Conseqüentemente, quando nada
tem a propriedade Φ — como no exemplo de Ayer sobre os cavalos alados — ambas as
afirmações são verdadeiras, independentemente da natureza da propriedade Ψ.

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