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SUMÁRIO

Capa
Créditos
O que é a Fé Reformada?
Definindo a Questão
Existem Fontes de Autoridade?
Diferenças de Opiniões sobre as Definições
É possível Identificar Características da Fé Reformada?
Os Temas Dominantes da Fé Reformada
Por que a Fé Reformada?
Introdução
A Grandeza de Deus e de Sua Glória
A Pequenez e a Depravação do Homem
A Graça da Obra Redentora de Cristo
Uma Visão Otimista do Futuro
A Mensagem da Reforma para os Dias de Hoje
Porque Lembrar a Reforma
Distorções verificadas na Lembrança da Reforma
Esquecimento doutrinário dos princípios da Reforma
Considerações Práticas sobre a Reforma e os Reformadores
A Mensagem da Reforma para os dias de hoje
Conclusão
Nossos livros
Mídias
O QUE É A FÉ REFORMADA?

Autores: John Richard De Witt; Terry L. Johnson; F. Solano Portela

Segunda Edição digital – Agosto de 2017

É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação, sem autorização por escrito dos editores,
exceto citações em resenhas.

Editor: Manoel Canuto

Tradutora: Luciana Heyse (Cap. 1 e 2)

Revisor: F. Solano Portela

Designer: Heraldo Almeida

© Can Stock Photo / csp26774497


O QUE É A FÉ REFORMADA?
John Richard De Witt
Definindo a Questão

U ma das grandes questões que nós temos que encarar constantemente,


como cristãos evangélicos de convicções reformadas, é a questão da
identidade. O Assunto apresentado através daquela pergunta reiterada com
frequência: O que é que significa ser reformado? E ainda mais precisamente:
O que significa ser reformado não apenas no sentido histórico da palavra,
mas no contexto atual, na situação em que nos encontramos na igreja, na na-
ção e no mundo?
Temos a intenção, é claro, de sermos fiéis à nossa herança, à grande tra-
dição na qual nós nos encontramos e que deu expressão tão brilhante e con-
vincente às verdades da Palavra de Deus, afirmadas pela igreja Cristã antiga
e, num certo sentido, redescobertas na época da Reforma protestante. Mas
esta nossa intenção, de nos atermos ao que é bom, requer mais do que uma
afirmação de determinação. Ela também demanda definição contemporânea e
claramente clama por um delineamento que fará, para nosso próprio tempo, o
que outros fizeram em gerações anteriores. Sempre temos de nos relembrar, a
nós mesmos, que não fazemos teologia num vácuo; que a ciência da teologia
não começou com a nossa entrada no mundo. Às vezes tem-se a impressão,
pela forma como alguns pregam e escrevem, que toda a cristandade esperava
pelo advento dos seus ministérios, e que é somente por meio deles, e pelo que
têm a dizer, que a fé cristã começou a fazer sentido e a ser entendida em to-
das as suas implicações. Mas tal abordagem é totalmente inaceitável; aqueles
que falam dessa maneira introduzem, ao mesmo tempo, seus próprios absur-
dos como se eles fossem o próprio evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
Devem, assim, ser repreendidos e seu ensino deve ser repudiado.
Deveríamos dizer de uma vez por todas que, mesmo a partir de uma
perspectiva histórica, não é fácil chegar a uma definição breve e satisfatória
do que significa ser Reformado. Essa é sem dúvida a questão; isso por uma
série de razões.
Existem Fontes de Autoridade?
Em primeiro lugar porque não existe uma única fonte à qual poderíamos re-
correr em busca de uma expressão que defina com autoridade a fé Reforma-
da. Certamente devemos muito a João Calvino. Mas também devemos gran-
demente a muitos outros: a Agostinho por exemplo, bem como a Anselmo, e
a Martinho Lutero. Além do mais, esses homens, não importa quão grandes
possam ter sido, eles não tinham a pretensão de estar falando com uma auto-
ridade equivalente à autoridade da revelação divina, ou de forma tal que toda
a igreja fosse constrangida a lhes obedecer. No Cristianismo evangélico não
existe papa que pode falar ex catedra, e assim impor pronunciamentos infalí-
veis aos fiéis. Frequentemente digo aos meus alunos que, se é para aprender
qual foi a posição Reformada nesse ou naquele ponto de doutrina — se for
para adquirirmos qualquer coisa como um entendimento oficial da fé Refor-
mada — temos que olhar não para os escritos dos teólogos, mas sim para as
confissões das igrejas: a confissão Belga, o catecismo de Heidelberg, a Se-
gunda Confissão Helvética, os Cânones de Dort, a Confissão de Fé de West-
minster e seus respectivos catecismos. Assim chegamos mais próximo de um
consensus ecclesiae, um consenso da igreja, nesses momentos específicos da
história, com relação ao ensino da palavra de Deus.
Diferenças de Opiniões sobre as Definições
Também é verdade que ser Reformado quer dizer coisas diferentes para pes-
soas diferentes. Alguns tendem a identificar a fé Reformada com os cinco
pontos do calvinismo, esquecendo que aqueles cinco pontos são apenas uma
expressão da fé — constituindo-se uma expressão importante — contra um
erro que se infiltrou no começo do século dezessete. Os Cânones de Dort
continuam sendo de extremo valor; e eu particularmente acho inconcebível
que qualquer pessoa possa afirmar ser reformado se os repudiar. Acima de
qualquer disputa no entanto, a Fé Reformada é muito mais abrangente e de
alcance muito mais amplo do que aqueles cinco pontos.É muito injusto àque-
la fé quando alguém restringe seu conteúdo a uma única área de doutrina, por
mais essencial que seja.
É possível Identificar Características da Fé
Reformada?
Isso nos leva a considerar, até que ponto pode ser possível isolar e identificar
certos temas característicos da fé Reformada? Como poderemos tentar des-
crever a genialidade desta fé? O que pode ser identificado no Calvinismo que
seja distinto e qual a melhor definição que pode aproximar-se do seu conceito
completo?
Muitas respostas a essas perguntas foram dadas, nenhuma delas total-
mente satisfatória. No entanto não devemos perder a esperança. Sugiro que
nós aqui não devemos pensar meramente num único tema dominante, mas
sim numa série de temas que se relacionam uns com os outros e que contribu-
em, cada um na sua própria forma, para uma compreensão maravilhosamente
harmônica e eminentemente bíblica da fé Cristã. Esses temas não são isolados
uns dos outros; mas se encaixam uns nos outros; eles são os fios verticais e
horizontais que se entrelaçam formando o tecido da nossa posição teológica e
espiritual. Eles não devem ser entendidos de maneira desconexa, sem relação,
mas devem antes ser tomados como um conjunto. Mencionarei vários deles
agora; admito porem que os temas que incluo não excluem outros e que a mi-
nha tentativa de discutir aquilo que constitui a genialidade da fé Reformada é
uma discussão preliminar e provisória.
Os Temas Dominantes da Fé Reformada
1) A Doutrina das Escrituras: Em primeiro lugar, extremamente básica para a
fé Reformada é a sua doutrina das Escrituras. De fato, num ensaio recente em
que procura definir o tema em que a fé Reformada encontra sua singularida-
de, o Professor Fred H. Klooster sugere que pode se dizer ser a doutrina da
Escritura ‘‘toda e por inteiro’’ (sola e tota Scriptura). 1 Num certo sentido
Doutor Klooster está certo segundo qualquer padrão. A Reforma redescobriu
e acentuou de novo e autoridade da Bíblia. Ela derrubou a tirania de uma hie-
rarquia eclesiástica corrupta que se tinha colocado acima da Palavra de Deus.
A Reforma e repudiou a autoridade da tradição eclesiástica coordenada com
aquela palavra, insistindo, com um vigor proveniente de uma recém desco-
berta verdade, de que Jesus é Mestre em Sua própria casa; que Ele fala ao Seu
povo através da Sua Palavra; e que esta “palavra é o meio pelo qual Ele cha-
ma pecadores para Si, reinando e subordinando-os ao Seu senhorio”.
Atualmente um amplo debate está se alastrando sobre a questão da inspi-
ração e sobre um assunto correlato: a inerrância das Escrituras. Verifica-se
um endurecimento notável das linhas em todas as frentes: alguns consideran-
do heréticos aqueles que não concordam com sua própria abordagem da posi-
ção, apesar deles poderem ser Cristãos evangélicos e de viverem em harmo-
nia com as principais doutrinas da fé; outros, declarando que são obscurantis-
tas e anti-intelectuais aqueles que querem insistir no caráter divino da palavra
deDeus. 2
Não sabemos, com detalhe, como foi que Deus deu a Sua Palavra. Na
verdade, sabemos que Ele deu partes da Bíblia de maneira diferente de outras
partes: os dez mandamentos por exemplo, foram escritos pelo dedo do pró-
prio Deus, enquanto que os Evangelhos foram escritos por meio de lembran-
ças inspiradas, o uso de testemunhas, e — no caso de Lucas nos é dito especi-
ficamente — investigação histórica, e tudo isso, além de sua forma peculiar,
com um propósito teológico muito definido em mente. Também é perfeita-
mente aparente que a humanidade e a individualidade dos escritores das Es-
crituras foram totalmente reconhecidas e levadas em consideração pelo Espí-
rito Santo no processo de inspiração. Como resultado disso, vemos que Amós
e Isaías escreveram livros muito diferentes, com estilos muito diferentes,
mostrando origens muito diferentes; Paulo e João, semelhantemente, demons-
tram qualidades marcantes de suas próprias mentes e corações, dando expres-
são a diferentes aspectos da verdade, escrevendo em estilos incrivelmente di-
ferentes, demonstrando igualmente experiências e intelectos afiados e exalta-
dos, no entanto totalmente distintos. Tudo isso não deveria causar inquietação
alguma. Pelo contrário, deveria causar maior adoração e louvor a Deus, de
nossa parte; a Deus que, por meio da superintendência soberana do Seu Espí-
rito, nos deu a Sua Palavra de tal forma que Isaías continuou sendo Isaías em
tudo que escreveu, e Paulo continuou sendo Paulo, enquanto que o resultado
é a santa e infalível Palavra de Deus.
Na tradição Reformada no entanto, em sua melhor e mais elevada forma,
a ênfase não caiu na maneira de inspiração, ou numa definição técnica do sig-
nificado dos vários atributos da Escritura tomados por eles mesmos (sua per-
feição, clareza, suficiência e necessidade), mas na sua autoridade. É quando
abordamos as Escrituras desta perspectiva, eu creio, que somos capazes de
compreender o significado dos vários adjetivos que usamos para descrever a
Bíblia. A Bíblia é autoritativa: e muito mais do que isso, ela é absolutamente,
e em última instância, autoritativa. Ela não erra e não pode errar, e nunca ja-
mais nos desviará. Podemos repousar no seu ensino, confiar nela completa-
mente, depender dela para tudo que precisamos saber para viver e morrer de
maneira feliz. 3 “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas ne-
cessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem”, afirma a
Confissão de Fé de Westminster, “ou é expressamente declarado na Escritura
ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescen-
tará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradi-
ções dos homens”. 4 Quando as Escrituras falam, então, nós obedecemos.
Quando ela afirma a verdade, nós submetemos nossos corações e nossas
mentes a ela com alegria e com regozijo.
Mas com base em quê? Qual é a base para a nossa aceitação da autorida-
de das Escrituras? Como é que sabemos o que afirmamos ser verdade? Estas
questões não são novas, e continuamos a lutar com elas. Estamos persuadidos
da autoridade das Escrituras porque podemos desvendar todos os seus segre-
dos, resolver toda dificuldade, e harmonizar cada aparente discrepância? Por-
que com nossas próprias mentes somos capazes de desvendar e penetrar seus
mistérios? Aqui, Calvino — o teólogo do Espírito Santo — é de ajuda inesti-
mável para nós, e dando sequência a Calvino temos a Confissão de Fé de
Westminster. Nós sustentamos que a Bíblia é um livro singular: vemos a sua
singularidade e somos por ela afetados. Sua unidade extraordinária, apesar de
ter sido escrita ao longo de vários séculos, seu estilo majestoso, seu conteúdo
glorioso, sua consistência maravilhosa, seu registro marcante de profecia e do
seu cumprimento — todas estas coisas nos movem a uma piedosa exclama-
ção. Mas não se trata de nenhuma dessas coisas, nem todas elas tomadas jun-
tas, sendo citadas, que nos convencem, nos persuadem e nos movem a obede-
cê-la. Antes, a base de autoridade indispensável, bíblica e singularmente con-
vincente, é, como Calvino jamais se cansou em insistir, o testemunho do Es-
pírito Santo. Nós cremos na Bíblia porque ela é a Palavra de Deus: mas nós
sabemos que é a Palavra de Deus por causa do testemunho do Espírito Santo.
Quando falhamos em compreender isso, quando nós separamos a autoridade
das Escrituras do testemunho do Espírito — estamos ao mesmo tempo em pe-
rigo de esfriamento espiritual e somos presas fáceis de debates estéreis que
são improdutivos e, no final, insensatos.
Na tradição Reformada, portanto, nossa doutrina, e também nosso siste-
ma organizacional, nosso louvor, nossa vida pública e privada como cristãos,
bem como aqueles que fazem parte da igreja, estão sob a autoridade suprema
da voz do Deus vivo falando a nós nas Escrituras. Pois para nós a Bíblia não
é simplesmente um livro, mas trata-se do livro de Deus: não é apenas uma co-
letânea de proposições, mas tratam-se das palavras do Senhor Vivente. “Cre-
dibilidade de Doutrina”, disse Calvino, “não é estabelecida até que sejamos
persuadidos, acima de qualquer dúvida, de que Deus é Seu Autor. Assim, a
maior prova das Escrituras é derivada em geral do fato que Deus em pessoa é
quem nela fala”. 5
2) A Soberania de Deus: A Fé Reformada também é caracterizada pela
insistência de que Deus deve ser conhecido e adorado como o Deus Sobera-
no. Alguns fariam desta soberania a sua característica maior. Num certo sen-
tido essa ideia estaria correta, especialmente quando a fé Reformada é com-
parada com outras tradições teológicas, onde a grandeza e a majestade de
Deus são insuficientemente apreciadas ou mesmo perdidas de vista. Deus é
Rei, e não o homem! Num mundo em queexiste uma crise na doutrina da pro-
vidência divina, como aponta o professor G.C. Berkouwer no seu brilhante
volume sobre a providência de Deus, o Calvinista insiste que Deus é Senhor,
e que Ele reina na História e sobre todo universo; que Ele é livre, indepen-
dente de qualquer força ou ser fora dEle; que Ele conhece o fim desde o co-
meço; que Ele cria, sustém, governa e direciona; que no dia do Senhor, o ma-
ravilhoso desígnio que Ele teve desde o começo será completamente manifes-
tado — completo, e perfeito, afinal. 6 Nada pode parar ou retardar o progresso
da chamada dos seus eleitos, da edificação da sua igreja, da vinda do seu rei-
no, no espaço — até o mais alto grau de extensão da vasta criação de Deus,
ou no tempo — até o fim dos tempos.
Não temos a intenção de entender o mistério das transações de Deus
com o mundo. Sempre, de novo, deixamos de encontrar uma explicação para
o horror, o sofrimento e a morte que vemos ao nosso redor. Algumas coisas
podem ser compreendidas como parte de um todo coerente. Mas existe muito
que nós não sabemos e jamais poderemos vir a saber nesta vida e neste mun-
do. Os Cristão às vezes têm sido tentados até mesmo a duvidar, não só da
Onipotência e Bondade de Deus, mas até da própria existência do Deus mes-
mo. James Walker na sua Teologia e Teólogos da Escócia tem um parágrafo
fascinante sobre as dúvidas religiosas de alguns dos grandes personagens da
história da igreja Escocesa. Diz-se que Robert Bruce “uma das figuras mais
dominantes na nossa história religiosa, sobre cujas palavras havia um certo
poder de soberano que elas pareciam que vinham como se fossem diretamen-
te do santuário”, costumava dizer, “É uma grande coisa crer em Deus”. E Sa-
muel Rutherford, falando das dúvidas ateístas pelas quais bons homens são
de vez em quando assaltados, comenta num parêntese condescendente, Ex-
pertus Loquor (ele fala de experiência própria). James Renwick, o último dos
Covenanters (homens do Pacto) a ser condenado a morrer publicamente pela
causa do Pacto, falando de suas lutas juvenis para chegar a uma fé firme e
sem hesitação “descreve sua agonia imensurável naquela tempestade de alma
que ameaçava engolir todas as suas convicções e esperanças mais doces. Es-
tando nos campos e olhando para as montanhas, ele disse, ‘Se todas estas fos-
sem fornalhas devoradoras de pedras ardentes, eu estaria contente de passar
por elas, se por esse meio eu pudesse ter a certeza de que existe um Deus’”.
Procuramos nos relembrar, no entanto, das palavras sábias do grande te-
ólogo Herman Bavinck que certa vez escreveu: “Mistério é o elemento vital
da Teologia... A verdade que Deus revelou concernente a Ele mesmo na natu-
reza e nas Escrituras vai muito além do que o homem pode conceber e da
compreensão humana. Nesse sentido a Teologia se ocupa especificamente
com mistério, pois não trata de criaturas finitas, mas do início ao fim se eleva
acima de qualquer criatura ao próprio Ser Eterno e Infinito”. 7 Apesar de não
entendermos muitas coisas completamente, a despeito disso, louvamos e ado-
ramos a Ele; nos ajoelhamos perante o Seu trono, de quem e por quem e para
quem são todas as coisas. A Ele somente seja a glória para sempre [Rm
11:36]!
3) A Primazia da Graça de Deus: Outro distintivo principal da Fé Refor-
mada é sua constante insistência sobre a invencibilidade da graça de Deus.
Falamos muito das doutrinas da graça; e o fazemos com razão. Enquanto que
existe no ensino das Escrituras bem mais do que os cinco pontos do Calvinis-
mo — as doutrinas da eleição, redenção particular (expiação limitada), depra-
vação total, graça irresistível, e a perseverança dos santos — ainda assim es-
tas grandes verdades estão no cerne da nossa proclamação; e temos de anun-
ciá-las sem vergonha e com grande entusiasmo. Com certeza, não pregamos
sempre a eleição divina: fazê-lo seria pregar sem a perspectiva bíblica. O pró-
prio João Calvino é muito mais cuidadoso do que muitos Calvinistas, neste
sentido. Embora exalte a soberania de Deus em todos os sentidos, e a exalta,
portanto, também com relação à salvação, somente quando ele começa a falar
de salvação — da soteriologia — é que ele, nas suas Institutas, faz uma dis-
cussão plena da doutrina da eleição. 8 Este fato é de grande significância. A
eleição sempre deve ser colocada no contexto bíblico; e isso é geralmente po-
rém não exclusivamente, o contexto do desígnio redentor de Deus.
Certamente é também dentro deste contexto que nós devemos colocar a
enorme importância da redenção particular, da expiação particular. Alguns fi-
zeram comentários sem compreensão sobre esta doutrina e supõem ser este o
tendão de Aquiles do Calvinismo. 9 Mas esse não é o caso completo e fazer
tal asserção se trata de ser passível de culpa de presunção e de elevada imper-
tinência. A nossa doutrina da eficácia da obra expiatória de Cristo, é em pri-
meiro lugar, uma das glórias e forças da Fé Reformada. Por que falamos da
morte de Cristo do jeito que falamos? Por que é tão essencial que, com toda a
vastidão das implicações da cruz, nós continuamente enfatizamos a sua parti-
cularidade? Por que insistimos que aqueles por quem nosso Senhor sofreu e
morreu, são também aqueles que serão levantados e exaltados com Ele e se
assentarão nos lugares celestiais, com Ele? Certamente a resposta só pode ser
que o que está em jogo aqui é a invencibilidade da graça de Deus. O nome do
nosso Senhor é Jesus, porque Ele salva o seu povo dos Seus pecados.
4) A Integração de Doutrina com a Vida Cristã: A Fé Reformada, igual-
mente, acentua a doutrina bíblica da vida cristã. Quantas têm sido as aberra-
ções nesta área! Em alguns pontos da história a vida cristão foi entendida em
termos de ascetismo e do abandono da vida neste mundo presente. Os cristão
até mesmo foram divididos em duas categorias: de um lado, aqueles chama-
dos ao plano mais alto de isolamento monástico e auto-negação, expressando
isso em votos de pobreza, castidade e obediência; do outro lado, aqueles que
não eram capazes de atingir este padrão mas viviam no nível inferior e ordi-
nário da experiência humana. Quase que o mesmo tipo de concepção também
prevaleceu em certos meios mais evangélicos: por exemplo, onde crentes têm
sido agrupados em duas categorias, aqueles da vida de fé vitoriosa, e aquele
grupo dos não-vitoriosos, da vida carnal, que, apesar de cristãos, não eram da
mesma qualidade ou caráter dos outros. Numa outra nuança deste mesmo es-
quema, existem cristãos que conhecem ao Senhor somente como Salvador; e
existem cristãos que O conhecem tanto como salvador como Senhor. Às ve-
zes tem havido também uma insistência sobre o caráter privado da verdadeira
vida cristã. Toda a ênfase recaiu então sobre a vida da alma na presença de
Deus, num tipo de experiência cristã mística que tinha a tendência de ignorar
as outras relações da vida e tinha pouco a ver com a vida corporativa do Cris-
tianismo. Alguém também pode levantar uma tendência marcante, aqui e ali,
de se retrair da vida, como se o Cristão não pudesse viver no mundo, como se
a vida no mundo fosse algo que o crente devesse evitar o mais que pudesse.
Eu me refiro aqui, é claro, à mentalidade de gueto que tem caracterizado, com
muita frequência, as pessoas que se descrevem como cristãos bíblicos.
A Fé Reformada, com sua compreensão firme da doutrina do pacto da
graça, tem insistido numa vida Cristã de grande amplitude e de órbita com-
pleta: uma vida vivida no mundo, mas ao mesmo tempo uma vida que não é
orientada para o mundo e seus padrões; uma vida que enfatiza a “Cristianiza-
ção” dos relacionamentos — por exemplo, o lar e a família. Onde é que al-
guém encontra a prática do culto doméstico? Onde é que alguém procura pelo
conceito da igreja como uma coleção de famílias, ou como ela própria sendo
a família? Além disso, a ideia Reformada da vida Cristã é a de uma vida vivi-
da no mundo, cumprindo com as obrigações e as responsabilidades de tal
vida, dando testemunho da fé que está em Jesus Cristo, no sentido de ser
sempre coram Deo, na presença de Deus. 10
5) A Relação entre Lei e Evangelho: A Fé Reformada também tem sido
caracterizada por um entendimento claro da distinção e da relação entre Lei e
Evangelho. Uma das diferenças que mais impressionam no Protestantismo
histórico é encontrado neste ponto. Os Luteranos sempre acusaram os Calvi-
nistas de confusos a esse respeito. Apesar de Lutero e Calvino, formalmente,
terem um só pensamento no seu entendimento do uso triplo da Lei, ainda as-
sim a ênfase de Lutero era no primeiro uso da Lei, enquanto que Calvino en-
fatizava o terceiro, o chamado “uso prático” (usus practicus). 11 A Lei é nossa
pedagoga de Cristo como o Novo Testamento claramente nos ensina; porém é
mais do que isso; ela é também o nosso amado e santo guia para a vida de
obediência e fé. Aqui a instrução do apóstolo Paulo é paradigmática para o
Novo Testamento como um todo [Rm 8: 3,4]. A Lei não é o Evangelho: não é
um meio de vida ou um meio para se viver. Mas nós também prosseguimos e
declaramos que o Evangelho não o é sem a lei; ele é um meio de vida, o meio
de vida para o povo de Deus. Se a santa Lei de Deus é de fato um reflexo da
santidade do próprio Deus, então também o crente apesar de estar livre da Lei
como um meio de vida, continua numa relação de alegre obediência à Lei que
Deus, em Sua livre misericórdia, lhe deu. Além disso, faz parte do que nós
entendemos que as escrituras ensinam, que a lei de Deus tem as suas implica-
ções para a sociedade em geral, o usus politicus.
Aqui novamente está um aspecto da verdade que precisa ser diariamente
pregado e a cada hora, em nossa presente situação social. Num tempo de im-
piedade disseminada, quando parece não existir mais nenhuma noção clara de
princípios morais absolutos e normativos; quando o dia do Senhor é pisado e
a vida humana é barata, facilmente abortada, e a razão de ser disso, justifica-
da até mesmo pela suprema corte do país; quando Deus é zombado e seus
preceitos desafiados, e existe perigo exatamente e precisamente nesta narrati-
va e neste registro de eventos de um abandono divino de toda a nossa ordem
social, como consequência de nossa mesquinharia, desejos e impureza (Rm
1:18ss.); nesta situação, com certeza a igreja de Cristo precisa declarar com
convicção óbvia e com vigor que, de Deus não se zomba e que Sua santa Lei
não pode ser deixada de lado sem que haja punição.
6) O Relacionamento entre o Reino de Deus e o Mundo: Outra caracte-
rística principal da Fé Reformada tem sido sua visão positiva e afirmativa da-
quilo que talvez eu possa chamar de relacionamento entre o reino de Deus e o
mundo. Neste ponto as opiniões não têm sido uniformes, e nem todos os teó-
logos Reformados têm estado preparados para falar livre e facilmente da ideia
do “mandato cultural”, como alguns outros o fazem. Não obstante, no seu
melhor e mais alto ponto a tradição teológica reformada tem expressado um
grande interesse na forma e cultura do mundo: não no sentido, é claro, de se
conformar com o mundo, mas no sentido de transformação do mundo. Pode-
se ver isso fortemente no próprio Calvino, cujos interesses eram bem mais
amplos do que a proclamação do Evangelho em Genebra. 12 Esta proclama-
ção era de primeira importância, com certeza; mas tinha suas implicações ao
longo do caminho, por toda a vida da comunidade e do estado.
A sociedade é importante? Existe essa coisa de um “mandato cultural”?
13 Temos de nos importar com as condições sob as quais as pessoas vivem?
Os famintos devem ser alimentados, os sedentos devem ser saciados, os per-
seguidos defendidos, e os necessitados satisfeitos? Só pode existir uma res-
posta da perspectiva Reformada. Com muita frequência o pensamento nesta
área foi insuficientemente ligado ao Evangelho; e muitas vezes ideias vindas
de outras fontes que não o Evangelho têm permeado o que bons homens pen-
saram sobre a vida do crente aqui neste mundo. 14 Mas cristãos reformados
creem enfaticamente que a “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se
contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24:1), e que Ele não abando-
nou nem por um momento os poderes fora dEle mesmo. É por isso que não
podemos ser indiferentes aos males sociais, e à violações da lei de Deus na
sociedade como um todo; é por isso que devemos nos opor ao terrível mal do
aborto, à horrível aliciação da corrupção moral perceptível em todo canto, e
também ao massacre opressor dos pobres e destituídos que estão sob os pode-
rosos, à opressão dos fracos e desamparados qualquer que seja a forma como
se manifeste. Certamente a transformação social não pode, em nenhum senti-
do, estar divorciada da pregação do Evangelho e da regeneração de indiví-
duos. Mas ao mesmo tempo é muito errado supormos que não deveríamos fa-
zer nada, não dar testemunho, não exercer nenhuma influência, não ter visão,
ver a nós mesmos como se não tivéssemos um chamado para trabalhar para
que a vontade preceptiva de Deus seja feita, mesmo que um reavivamento e
reforma mais abrangentes tardem a vir.
Trata-se de uma prostituição do conceito bíblico da vida da fé, de consi-
derar o Cristão como uma pessoa isolada, vivendo para ele próprio somente,
como se ele pudesse cumprir sua obrigação para com Deus sem ver todas as
coisas como estando sujeitas ao Senhorio de Jesus Cristo. Não temos que ter
medo de enfrentar o mundo, apesar do seu caráter ser mau e de jazer na impi-
edade (I João 5:19). Cristãos Reformados têm desafiado tiranos e destituído
esses: podemos lembrar de Gaspar de Coligny, William de Nassau, o Príncipe
d’Orange, John Knox, John Rym, Oliver Cromwell, Richard Cameron e os
Covenanters Escoceses (homens do pacto), John Witherspoon e outros ho-
mens piedosos, santos, que tinham como meta glorificar a Deus sobre a terra.
Esta é a nossa herança, nosso entendimento do que significa viver como Cris-
tão neste mundo, viver a vida da fé. Não há razão para temer a escuridão, e a
fúria dos déspotas não deve nos aterrorizar. E por que deveria, se Aquele a
quem pertencemos nos disse: “Tende bom ânimo; Eu venci o mundo” (João
16:33). Assim, como Cristãos nós trabalhamos rumo ao dia em que os reinos
deste mundo se tornarão o reino do nosso Senhor e do Seu Cristo (Ap11:15).
7) A Importância da Pregação: Por fim, a teologia Reformada é marcada
também por uma visão muito clara de pregação. Talvez eu deveria ter dito:
por uma visão definida e clara do ministério e da vida na igreja em relação a
ele. Aqui, existe muito em comum entre todos os evangélicos, de qualquer
período da história. Isso é claro, também é verdadeiro das outras áreas que eu
mencionei. Por exemplo, João Calvino não inventou a doutrina da predestina-
ção. Assim também com relação à pregação, na medida em que eles e nós so-
mos bíblicos, evangélicos e calvinistas ocupam o mesmo campo e se regozi-
jam na nossa comunhão. Continua sendo verdade, no entanto, que alguém
pode falar de uma visão distintamente Reformada de pregação. Mas no que
consiste isso?
Certamente aqueles que se apegam à fé Reformada têm uma visão eleva-
da do ministério (veja Rm 10:15). 15 Já podemos sugerir e pressupor isso,
apesar de não termos dúvidas que muitos nas chamadas igrejas Reformadas e
Presbiterianas esqueceram sua própria herança a este respeito. A doutrina do
ministério que prevalece em muitas frentes é uma visão muito inferior do que
aquela ensinada nas Escrituras: testemunhe a facilidade com que as congrega-
ções se livram de pastores que possam tê-los incomodado de alguma forma
ou desagradado pela objetividade da sua pregação.
Se temos uma visão elevada do ministério, isso quer dizer que temos
também um visão elevada da própria pregação do evangelho em si (I Co
1:21; Rm 10: 13-15). É pela pregação que Deus confronta as pessoas e as traz
para si, conformando-as ao padrão do Seu Filho; de fato, é pela pregação que
Jesus Cristo se apresenta aos corações e às consciências dos homens (Rm
10:14).
Mas nós prosseguimos e fazemos a pergunta básica: O que caracteriza a
pregação no sentido neo-testamentário da palavra?
a) Exposição: Certamente pregação é a exposição da Palavra de Deus.
Quando estamos lidando com as Escrituras, procurando expô-las temos de lu-
tar com a passagem que temos à nossa frente; temos de abordá-la exegetica-
mente; temos que procurar entender seu significado; temos que procurar en-
tender seu significado específico. Outras áreas de estudo são de uma enorme
valia aqui — a teologia sistemática, por exemplo; a história da igreja e teolo-
gia bíblica; um conhecimento integral da sua própria época e cultura dentre
outros; porém nada deve interferir com o pregador e o seu texto.
b) Aplicação: Pregação é inevitavelmente, e na natureza do caso, a apli-
cação da palavra de Deus. Alguns têm negado isso, ou pelo menos têm seria-
mente modificado esta visão. Até mesmo aqueles que se chamam Reforma-
dos têm, ocasionalmente sentido um certo desconforto com a conexão entre
“exposição” e “aplicação”, já que a aplicação parece exigir que o pregador
seja muito direto na abordagem do seu povo a ponto de esperar que o povo
faça algo com a verdade que os confronta. Deve ser enfatizado que o decisivo
resultado da pregação não é o resultado de nossa habilidade ou criatividade,
paixão ou zelo, mas sim da obra de Deus por meio do Seu Espírito nos cora-
ções daqueles que ouvem. Ao mesmo tempo está perfeitamente claro nas Es-
crituras “que a verdade é para o bem; e a grande pedra angular da verdade é a
sua tendência a produzir santidade”; 16 e esta pregação é de longe muito mais
do que anunciar: ela é exposição e aplicação; é a verdade levada à vida; é ver-
dade com uma dimensão moral e cognitiva (2 Tm 4:1,2).
Aplicar a verdade na pregação não é tarefa fácil; no entanto nós não te-
remos pregado enquanto assim não tivermos feito. Os teólogos de Westmins-
ter, no seu pequeno e maravilhoso tratado sobre o assunto, insistiam que o
pregador “não deve ficar só em doutrina geral, apesar de confirmar e esclare-
cer, mas deve levá-la à vida e ao uso especial dos seus ouvintes por meio da
aplicação: o que, no entanto, se mostra um trabalho de grande dificuldade
para a pessoa, e que requer muita prudência, zelo e meditação, e será muito
desagradável para o homem natural e corrupto; no entanto ele deve tentar
apresentá-la de tal forma, que os seus ouvintes sintam a palavra de Deus rápi-
da e poderosamente, e como um discernidor dos pensamentos e propósitos do
coração; e que, se qualquer pessoa ignorante ou descrente estiver presente ele
possa ter os segredos do seu coração manifestos e dar glória a Deus”. 17
c) Proclamação: Mas não podemos parar por aí. Pois a pregação é a ex-
posição e a aplicação da Palavra der Deus; mas, além disso ela é proclama-
ção. A própria palavra “pregar” no Novo Testamento significa isso. Nós so-
mos expositores e aplicadores; porém somos expositores e aplicadores da
Verdade de tal forma que o que nós fazemos vem a ser proclamação. Nós so-
mos arautos, com uma mensagem, que nos foi legada para ser entregue às
pessoas. Isso nos tira para fora de nós mesmos, nos eleva, tirando-nos da es-
fera da comunicação ordinária. Nós estamos lidando com os assuntos supre-
mos de vida e morte, do céu e do inferno. Não somos de nós mesmos; a men-
sagem que trazemos não é de nossa própria imaginação; o peso que é coloca-
do sobre nós não está confinado às preocupações do tempo e do espaço. O
pregador é o homem de Deus com a mensagem de Deus. E essa mensagem é
da mais desesperada urgência e consequência. Somos enviados a pessoas que
vivem no mundo das sombras da morte e temos as palavras de vida e luz nos
lábios. Quando um ministro reformado prega, ele o faz com a consciência do
que consiste a sua tarefa e qual a sua função. Ele deve se levantar e proclamar
sua mensagem com o coração cheio de amor a Cristo e pelas almas dos ho-
mens. Ele deve pregar clara e simplesmente, destemidamente, pastoralmente
e amorosamente; e ele deve pregar na certeza e consciência da seriedade e
majestade e da glória do que Deus está fazendo por meio dele. Ele sabe que o
Senhor está consagrando a Si a boca e a língua de um mero homem a fim de
ressoar por meio da própria pregação a voz do próprio Salvador.18 O que nos-
sa geração precisa não é de um grupo de comunicadores, ou de oradores mui-
to espertos, oradores eficazes, ou professores interessantes, mas sim de um
grupo de proclamadores do Evangelho que permanece para sempre em toda
sua riqueza e compreensibilidade.
d) Liberdade: Porém, uma qualidade a mais da pregação no entendimen-
to Reformado da palavra deve ser mencionado: a sua liberdade. “Eu, irmãos,
quando fui Ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz
com ostentação de linguagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber
entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e
grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação
não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstra-
ção do Espírito e de poder”, (I Co 2:1-4). E de novo: “Portanto eu vos pro-
testo, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais dei-
xei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (Atos 20: 26,27; e também 2
Co 5:10,11; 2 Tm 2:9). Dos primeiros pregadores do Evangelho, os apósto-
los, nos é dito: “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; to-
dos ficaram cheios do Espírito Santo, e, com intrepidez, anunciavam a pala-
vra de Deus” (Atos 4:31).
Calvino tem uma ótima palavra para usarmos aqui:
“De acordo, Pedro, que era bem instruído pelo Mestre em relação a quanto deveria fazer, não re-
serva nada para si mesmo ou para outros a não ser compartilhar a doutrina como ela foi lhe foi en-
tregue por Deus. ‘Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus’ (I Pedro 4:11); isto é,
não hesitando ou tremendo como as consciências más estão acostumadas a fazer, mas sim com a
mais alta confiança que é apropriada ao servo de Deus equipado com as suas ordens certas. O que
seria isso senão rejeitar todas as invenções da mente humana (de qualquer que seja a mente que
tenham vindo) a fim de que a pura Palavra de Deus seja ensinada e apreendida na igreja do cren-
te? O que é isso senão remover as ordenanças, ou antes as invenções de todos os homens (qual-
quer que seja a sua posição), a fim de que somente os decretos de Deus permaneçam fortes? Estas
são aquelas ‘armas espirituais... poderosas em Deus para destruir fortalezas’; por meio delas os
fiéis soldados de Deus ‘anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de
Deus, levando cativo todo pensamento `a obediência de Cristo’ (2Cor 10: 4-5). Aqui, então, está
o poder soberano com o qual os pastores da igreja, qualquer que seja o nome que forem chama-
dos, deveriam ser equipados. Isto é, que eles se atrevam, a ousadamente fazer todas as coisas pela
Palavra de Deus; que eles possam, com força, fazer com que todo poder, glória, sabedoria e exal-
tação do mundo se renda e obedeça à sua majestade.; que eles sustentados pelo seu poder possam
comandar do maior até o menor; possam edificar a casa de Cristo e aniquilar a de Satanás; possam
alimentar as ovelhas e espantar os lobos; possam instruir e ensinar aos que se deixam ensinar;
possam acusar e repreender e subjugar os rebeldes e teimosos; possam ligar e desligar; e final-
mente, se necessário for, possam lançar raios e trovões; no entanto, fazer tudo pela palavra de
Deus”. 19

É óbvio que deve haver alguma restrição na liberdade ministerial na pre-


gação da Palavra de Deus. Um ministro deve ser um pregador responsável; e
ele é livre para pregar apenas aquilo que está nas Escrituras. Como o próprio
Calvino aponta, a diferença entre os apóstolos e os seus sucessores é que “os
primeiros eram certamente escribas genuínos do Espírito Santo, e seus escri-
tos devem portanto ser considerados oráculos de Deus; mas o único ofício
dos outros (dos sucessores) é de ensinar o que foi providenciado e selado nas
sagradas Escrituras.’ 20 Além disso, um ministro é um dentre muitos; ele está
sujeito aos seus irmãos no Senhor, como um servo da Palavra de Deus na co-
munhão da igreja.
É uma das glórias da forma bíblica de governo de igreja, no entanto, que
na tradição Reformada os ministros devem ser preservados do falso ensino e
doutrina herética assim como do discurso precipitado no exercício do seu ofí-
cio, na sua relação com o presbitério e a sua supervisão dos mesmos, mas ao
mesmo tempo protegidos de qualquer desprazer malicioso nas suas congrega-
ções quando o ressentimento pode brotar pela sua proclamação fiel do Evan-
gelho. O ministro na tradição Reformada é separado até certo grau da sua
congregação no que ele não pode ser dispensado pelo caráter profético da sua
pregação. De forma ordinária é claro que os pastores e o povo devem ser um
só, e ambos deveriam se regozijar na amizade que compartilham e no apreço
que têm um para com o outro. O pastor deveria estar preocupado em edificar;
não em arruinar. Mas cada ministro digno do seu sal, teve a experiência de ter
sido constrangido pela obediência à Palavra de Deus, a repreender e reprovar
quando há pecado, erro, visão curta na congregação; ele o faz sem medo e
sem favor; ele não é bajulador de homens. E ele o faz com um grande e po-
tencial custo próprio. Ao mesmo tempo, igrejas e instituições que clamam
para si o nome de cristãs, e existem para exaltar o nome de Cristo e levar
avante a sua causa na terra, devem fazer todo esforço possível para que a fun-
ção profética do ministério esteja sendo exercida com toda ousadia e liberda-
de. E deveriam agradecer a Deus por tal coisa.
Não precisamos de palavras açucaradas, pensamentos anuviados, prega-
dores que fazem concessões, cujo primeiro pensamento é se o que eles vão
dizer vai ou não ofender aos ouvintes ou a comunidade como um todo; mas
antes precisamos de pregadores cujo compromisso primordial e portanto o
primeiro impulso, seja a obediência ao senhor Jesus em cujo serviço eles fo-
ram alistados, a quem eles pertencem, e a quem eles devem prestar contas.
Na sua luta com o Arcebispo John Whitgift, o primeiro no ranking Eli-
zabetano que frequentemente parecia estar mais interessado em agradar a rai-
nha do que ao Senhor, e que resistiu até mesmo a perseguir aqueles na igreja
que insistiam na aplicação livre da palavra de Deus, o grande teólogo Purita-
no e pregador Thomas Cartwright escreveu estas nobres palavras:
“É verdade que deveríamos ser obedientes aos magistrados civis que governam a igreja de Deus
naquele ofício que a ele é confiado, e de acordo com aquele chamado. Mas deve-se lembrar que
magistrados civis devem governá-la de acordo com as regras de Deus prescritas na sua Palavra, e
naquilo que são cuidadores assim também sejam servos para a igreja, e no governo da igreja eles
lembrem-se de se submeterem a igreja, submeter seus cetros, lançar ao chão suas coroas, perante a
igreja, sim, como diz o profeta, lamber o pó dos pés da igreja. De maneira que não quero dizer
que a igreja ou extraia à força os cetros das mãos dos príncipes, ou tire suas coroas das cabeças,
ou que requeira que os príncipes lambam o pó dos pés dela (como o fez o Papa sob esta preten-
são), mas quero dizer, como o quer dizer o profeta, que qualquer que seja a sua magnificência ou
excelência ou pompa deles ou das suas propriedades e posses, que não fecha com a simplicidade
(no entender do mundo) e pobreza e estado desprezível da igreja, que eles estarão contentes em
abrir mão”. 21

Cartwright pagou um alto preço nos seus dias pela sua obediência ao Rei
dos reis: ele foi silenciado, aprisionado e exilado para sua liberdade no exer-
cício do seu ministério, enquanto que os bispos bajuladores prosperaram e
afloraram com suas consciências mortas e sua preocupação em agradar sua
Majestade. Talvez tenha de ser sempre assim. Mas seja assim ou não — se a
nós for dada a liberdade dentro da igreja, de ser fiel à palavra de Deus ou ter
de batalhar continuamente por ela — não pode haver dúvida de onde está
nosso dever. E o fato é que a luta jamais acaba, enquanto a natureza humana
permanecer do jeito que ela é, mesmo que em princípio esteja convertida e
humilhada aos pés da cruz de Cristo. Um ministro na igreja de Jesus Cristo,
reformada de acordo com a Palavra de Deus, jamais pode passivamente acei-
tar uma imposição de silêncio que venha a ser ilegalmente colocada sobre ele,
mas ele dirá perante qualquer sinédrio que seja chamado a comparecer: “Jul-
gai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus;
pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos
4:19,20). E numa palavra dos apóstolos que diz tudo que precisa ser dito:
“Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

1 Fred H. Klooster, A Singularidade da Teologia Reformada: Uma Tentativa Preliminar de Descrição


(Grand Rapids: O Sínodo Reformado Ecumênico, 1979). A brochura inclui respostas de Raden Soedar-
mo, Sr. Eugene Osterhaven, W. van’t Spijker, e John H. Leith.
2 A literatura é vasta e está crescendo. Veja por exemplo, Harold Lindsell, A Batalha pela Bíblia
(Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1976); e A Bíblia e o Equilíbrio (Zondervan, 1979); tam-
bém as publicações do Conselho In ternacional de Inerrância Bbíblica (Oakland, Califórnia). Por outro
lado, Jack B. Rogers, ed., Davis, O Debate Sobre a Bíblia (Philadelphia: Westminster Press, 1977);
também Jack B. Rogers e Donald K. McKim, A Autoridade e a Interpretação da Bíblia: Uma Aborda-
gem Histórica (San Francisco: Harper e Row, 1979).
3 A discussão de João Calvino sobre a autoridade bíblica é de extrema importância e é tão valiosa agora
como foi no século 16; veja as suas Institutas da Religião Cristã, I/ 7,8,9.
4 A Confissão de Fé de Westminster, I/6.
5 Institutas, I/7/4; sobre o testemunho do Espírito Santo veja também I/7/I; I/7/5;I/8/13.
6 G.C. Berkouwer, A Providência de Deus ( Grand Rapids:Wm. B. Eerdmans Pub Co., 1952), pp. 7ff.
7 Herman Bavinck, A Doutrina de Deus ( Banner of Truth Trust, 1977), p. 13.
8 Institutas, III/21-24.
9 Veja por exemplo Clark H. Pinnok, ed., Grace Unlimited (Graça Ilimitada) (Minneapolis:Bethany
Fellowship, Inc., 1975): “Apesar de os ensaios não terem sido escritos de maneira polêmica, sua tese dá
ao livro um caráter controverso, no que nós estaríamos opondo um esforço tremendo na ortodoxia Pro-
testante limitando o evangelho e jogando uma sombra sobre a sua disponibilidade e intenção universais,
manifestando-se mais abertamente no Calvinismo clássico. Esta teologia que, na sua doutrina terrível
de dupla predestinação, questiona a intenção de Deus de salvar a todos os pecadores e como conse-
quência lógica nega que Cristo morreu para salvar o mundo como um todo, é simplesmente inaceitável
exegeticamente, teologicamente e moralmente, e devemos dizer a ela um ‘Não!’ enfático”. (p. 12; as
palavras são de Pinnock).
10 Veja o excelente livro de M. Eugene Osterhaven O Espírito da Tradição Reformada -The Spirit of
The Reformed Tradition - (Grand Rapids: Wm.B. Eerdmans Pub. Co., 1971), especialmente o capítulo
4, “Na Presença de Deus”, pp.88ff.
11 Otto W. Heick, A History of Christian Thought, Vol. I ( Philadelfia: Fortress Press, 1965), p. 450.
12 Um estudo de grande ajuda sobre os aspectos mais amplos do ministério de Calvino nesse respeito é
W.Fred Graham, The Constructive Revolutionary: John Calvin & His Socio-Economic Impact (Rich-
mond: John Knox Press, 1971).
13 Em qualquer discussão sobre o “mandato cultural”, a passagem fundamental a que invariavelmente
se faz referência é Gênesis 1:28, “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, en-
chei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal
que rasteja pela terra”. Está em vista a responsabilidade de sujeitar todas as áreas da vida, cada aspecto
da experiência ao senhorio de Deus e de considerar cada uma dessas áreas para o Seu serviço.
14 Temos de reconhecer que na natureza do caso até mesmo o melhor e mais puro dos cristãos é imper-
feito; e apesar de todos os nossos esforços de nos livrarmos daquelas coisas que não têm origem na Pa-
lavra de Deus, aquelas ideias e tradições que são parte da bagagem que trazemos conosco de outra esfe-
ra, resta aquilo que é inconsistente com o Evangelho. Assim, os próprios Reformadores por exemplo,
aceitaram o sacramentalismo e o territorialismo do seu tempo de maneira inquestionável, apesar de es-
tes terem sua gênese nos reinados dos imperadores Romanos do quarto século, e não no Novo testa-
mento. Muitos líderes cristãos no século dezesseis tendiam a pensar nos limites da igreja e do estado
como quase co-extensivas. O fato de eles estarem enganados neste ponto não anula o que eles procura-
ram fazer em termos de reino de Deus.
15 Veja, por exemplo João Calvino, Institutas, IV/ 3/3; e IV/3/I,2.
16 Citação da “Introdução” a A Forma de Governo, da forma ratificada e adotada pela Igreja Presbiteri-
ana nos Estados Unidos da América, 1788.
17 O Diretório do Culto Público, “Da Pregação da Palavra”, encontrado na Confissão de Fé, Catecismo
Maior e Menor, etc., editado pelo Comitê de Publicações da Igreja Presbiteriana Livre da Escócia
(1967),p. 380. E Pela Editora Os Puritanos/2000
18 Romanos 10:14 é de primeira importância aqui. Paulo declara: “Como porém invocarão aquele em
que não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pre-
gue?”. O apóstolo está declarando aqui que na pregação não é simplesmente a voz do pregador que é
ouvida, mas sim a própria voz do Senhor Jesus Cristo. Nas suas discussões de pregação, esta ideia é
muito proeminente na mente de Calvino.
19 Institutas, IV/8/9.
20 Ibid.
21 As Obras de John Whitgift, editado para a Parker Society por John Ayre, Vol III ( Cambridge: The
University Press, 1853), p. 189. As palavras de Cartwright estão impressas ao longo das respostas de
Whitgift.
POR QUE A FÉ REFORMADA?
Terry L. Johnson
Introdução

G ostaria que considerássemos a razão por que alguém deveria aderir à fé


reformada. O que quero dizer com “reformada”, é aquela tradição teoló-
gica cujas raízes remontam a Calvino — e, talvez, alguém poderia contestar e
dizer: vão até Agostinho, antes de Calvino. Mas nós nos referimos primeira-
mente às reformas do século 16, reformas das corrupções do final do período
da Igreja Medieval e Renascentista, e o movimento que estas produziram. Re-
ferimo-nos à herança calvinista emanante de Genebra, que resultou nas Igre-
jas Reformadas Suíças, Holandesas e Alemãs; no mundo anglo-saxônico, re-
sultou na Igreja Reformada Escocesa, que ficou conhecida como Presbiteria-
na; resultou, também, no Puritanismo Inglês, no Puritanismo da Nova Ingla-
terra e também na antiga escola de Princeton.
Não quero, porém, que este material seja uma aula de História. Por mais
que eu aprecie a oportunidade de examinar os eventos históricos fascinantes
em torno da Reforma: Lutero sendo atingido por um raio; Lutero perante a di-
eta de Worms bradando: “Aqui estou firme”; Knox protegendo o inflamado
pregador escocês George Wishart, com uma espada de dois gumes; Knox ser-
vindo como um escravo nas galés de um navio francês de guerra; Hooper,
Cranmer, Ridley, Latimer, todos sendo condenados à morte em fogueiras; La-
timer voltando-se para seu amigo e dizendo: “Tende bom ânimo, Mestre Rid-
ley, e seja homem de verdade; nós haveremos, pela graça de Deus, de acen-
der uma chama na Inglaterra, hoje, que jamais se apagará”. Havia gigantes
na terra, naqueles dias!
O que eu gostaria, no entanto, de examinar, é a própria Fé Reformada;
suas ideias, seus princípios fundamentais. Por muitas gerações a Fé Reforma-
da tem capturado os corações dos homens e os têm inspirado, enviando-os, de
maneira irônica, ao campo de batalha como sendo o campo missionário. Ten-
do sido criado numa outra tradição, foram as ideias e ideais da Fé Reformada
que instigaram minha imaginação quando jovem estudante no seminário. Eu
fiquei empolgado com o que vi como sendo um entendimento mais puro da
visão bíblica de Deus e das coisas criadas, com cada uma delas no seu devido
lugar. “Religião Bíblica em Sua Pureza”, é o que tem sido chamada. No en-
tanto, hoje em dia há tão poucos que sequer ouviram falar da “Fé Reforma-
da”. Na época da Revolução Americana, 85% da nossa população nacional
era de tradição reformada. Como caíram os poderosos! E como o fim da sua
existência enfraqueceu e prejudicou a igreja americana! Tenho que admitir,
eu não gosto do evangelho da forma que o ouço hoje em dia. O antigo evan-
gelho está morto. Os liberais o substituíram por uma versão mundanizada e
politizada. Estas não são novidades recentes. Estão fazendo isso por muitas
décadas. A coisa surpreendente é como podem, até mesmo os evangélicos
conservadores, trocar o Evangelho real por uma mensagem de auto-ajuda e
auto-realização. Os temas como pecado e salvação foram substituídos por as-
suntos mais em voga e na moda, emprestados da psicologia moderna. Exis-
tem mil e uma lições sobre auto-melhoramento (e.g. casamento, trabalho, fa-
mília, contentamento, etc.) para cada obra sobre a expiação. Perdemos o
rumo do caminho, em nossos dias, e creio que são os distintivos da Fé Refor-
mada que apontarão o caminho de volta para a igreja. Quais são as suas ideias
fundamentais?
A Grandeza de Deus e de Sua Glória
É aí que tudo começa. O Deus da Igreja Reformada é, de fato, um Deus
Grande. B.B. Warfield, o maior dos teólogos da escola de Princeton, disse:
“É a visão de Deus e da Sua majestade... que jaz no fundamento da plenitude
do pensamento calvinista” (Calvino e Agostinho, 491). Se fosse para alguém
isolar uma característica distintiva da Fé Reformada, todo mundo haveria de
concordar que esta seria a grandeza soberana de Deus.
O que se encontra no pensamento reformado é um desejo e vontade de
deixar que Deus seja Deus. Enquanto outros tentam aplicar a lógica às ques-
tões dos decretos divinos e da responsabilidade humana, nós meramente cur-
vamos nossas cabeças em silenciosa reverência. Enquanto outros mergulham
no fatalismo por um lado, ou virtualmente derrubam a Deus do Seu trono, nós
O louvamos nas palavras do apóstolo Paulo:
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondá-
veis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33).

Entre os reformados se encontra uma disposição de fechar a boca e dei-


xar que Deus fale por Ele mesmo na Sua Palavra e crer no que Ele diz, não
importa quão difícil seja de entender, ou, quando entendido, quão desconfor-
tável faz com que eles se sintam. Ao assim fazê-lo, temos encontrado um
Deus que é maior do que as simples categorias em que alguém talvez queira
encaixá-lo. Alguém pode tentar o quanto quiser colocar Deus numa caixinha
manejável de compreensão, mas Ele não se encaixa. Deus vai emergir sempre
de novo de forma maior e maior, mais glorioso, mais dominador, mais incrí-
vel, mais aterrador, e mais confortador. “Considerai, pois, a bondade e a se-
veridade de Deus,” diz o apóstolo (Romanos 11:22). “Quem és tu, ó homem,
para discutires com Deus?” (Romanos 9:20). Este é o Deus que fez todas as
coisas, que planeja todas as coisas, até “o que quer que venha a acontecer”,
como ensina a nossa Confissão de Fé, quem governa, sustenta e preserva to-
das as coisas. Ele é um Deus grande. É o único Deus que pode manter-me
leal!
Talvez você se identifique com a seguinte experiência. Num certo ponto
dos meus anos de estudante universitário, eu me vi perdendo as energias para
praticar o discipulado. Deus, da maneira que eu O conhecia então, era grande,
mas somente no sentido de ser um Ser maior do que nós homens. Eu não es-
tava aqui para Ele, Ele é que estava lá para mim. Eu não era Seu servo, Ele
era meu servo. A vida cristã estava precisamente invertida para mim naquele
tempo. Foi somente quando eu cresci para esta visão bíblica e reformada de
Deus que uma revolução “Copérnica” (de Copérnico) aconteceu, e eu fui for-
çosamente retirado do centro das coisas, e compreendi que Deus é que estava
no Seu trono. Eu compreendia Deus como sendo um amigo. Eu não tinha
compreendido Deus como Rei.
Este é o princípio fundamental da Fé Reformada. Ele dá vida a tudo que
fazemos. Nós nos reunimos para adorar não para agradar a nós mesmos, ou
como é muito frequente, para nos entreter ou para “tirarmos algum proveito
da coisa”, como frequentemente se ouve dizer; mas, sim, para glorificar e
exultar no Senhor nosso Deus. No culto não vamos para ouvir uma boa pala-
vra, ou para ouvir uma palestra sobre um assunto interessante, mas, sim, para
nos humilhar, humilhar nosso pensamento, nosso estilo de vida, nossas práti-
cas sob a Palavra de Deus, e obedecer à Sua Palavra como nossa lei. É com
esta atitude que vivemos toda nossa vida. Ele não é apenas o Rei da Igreja, ou
do nosso compartimento de oração; mas, sim, do mundo todo e de todo as-
pecto a Ele relacionado. A vida é um render-se contínuo de nós mesmos
como sacrifícios vivos, para o louvor do grande e glorioso Deus a quem ser-
vimos (Romanos 12: 1,2).
A Pequenez e a Depravação do Homem
A quê nos leva esta visão da grandeza e da glória de Deus? Ela leva a um en-
tendimento profundo da pequenez do homem. “Que é o homem, que dele te
lembres?”, pergunta o salmista (Salmo 8). Quando alguém vê a Deus em Sua
glória, o sujeito fica consciente da sua própria insignificância – apenas “so-
mos pó” (Salmo 103:14). Quando foi dada a Moisés a visão gloriosa, não da
face de Deus, mas apenas de suas “costas”, lemos da sua reação:
“E, imediatamente, curvando-se Moisés para a terra, O adorou” (Êxodo 34:8).

Esta é a revolução Copérnica à qual me referi acima. Nos apercebemos


que não somos o centro do universo, mas Deus O é; e, em relação a Ele, so-
mos apenas grãos de pó na balança (Isaías 40:15). Isso é difícil para o orgu-
lho humano engolir. Nós gostamos de ter a nós mesmos em alta conta. Quão
importante eu sou! Nós nos levamos tão a sério; vestimo-nos bem; damos tí-
tulos a nós mesmos. Somos mais honráveis e excelentes: o Reverendo, o exe-
cutivo, o diretor e o presidente. Mas Deus nos diz: “Porque tu és pó, e ao pó
tornarás” (Gênesis 3: 19). Na nossa força coletiva, considerando-nos como
nações, Ele diz:
“Todas as nações são perante ele como cousa que não é nada; Ele as considera menos do que
nada, como um vácuo” (Isaías 40:17).

A Fé Reformada coloca as pretensões humanas no seu devido lugar.


Elas são todas vaidade.Mas, além disso, a Fé Reformada, como nenhuma ou-
tra, entende a pecaminosidade do Homem. Se alguém perguntar qual será a
outra crença tipicamente citada dos calvinistas, a resposta geralmente é: “a
depravação do homem”. Nós somos a última palavra em pessimismo quanto
à natureza humana desassistida. Como foi que o pecado nos afetou? Quando
outros falam do pecado como uma influência, nós falamos dele como escravi-
dão. Quando outros dizem que o pecado distorce a perspectiva do homem,
nós dizemos que ele cega os olhos e fecha os ouvidos. O homem não está
simplesmente doente: ele está morto em delitos e pecados (Efésios 2:1). “Em
mim não habita bem nenhum”, diz o apóstolo Paulo (Romanos 7;18). Quão
profundamente negativa é nossa visão da natureza humana! Que outra com-
preensão, além da Fé Reformada, diria que o homem é,
“totalmente vil em todas as suas faculdades e em todas as partes da alma e do corpo... e totalmente
indisposto, sem condições, e oposto a todo bem, e inclina-se totalmente ao mal” (Confissão de Fé
de Westminster, VI.2,4)?

Por que dizemos que o homem é tão mau? Porque compreendemos que
Deus é tão santo e tão puro, e uma vez tendo alcançado essa visão, não temos
outra alternativa senão nos vermos como totalmente vis em pensamento, pa-
lavra e ação. Como Isaías, nós vemos a Deus em Sua glória, nós ouvimos os
serafins clamando: “Santo, Santo, Santo”, e não podemos senão concluir com
ele: “Ai de mim, porque sou homem de lábios impuros” (Isaías 6:5). O ho-
mem não é apenas pequeno, como criatura, ele é degradado por causa do pe-
cado. O pecado nos deixou numa condição desesperançada e irremediável,
cegos, escravizados e mortos. Nenhuma outra escola de pensamento vem
com tanta fúria contra o orgulho humano – especialmente contra as ideias do
pós-iluminismo e das visões modernas da grandeza humana – e assevera de
maneira não ambígua a depravação e a degradação total humana.
A Graça da Obra Redentora de Cristo
É óbvio que o homem, numa condição tal como a descrita acima, está deses-
peradamente necessitado de um Libertador, um Salvador para o resgatar. En-
quanto que alguns atribuem uma parte ao homem e uma parte a Deus, para
conquistar a salvação, a Fé Reformada se posiciona sozinha e afirma, junto
com Jonas, as totais implicações da palavra: “a salvação pertence ao Se-
nhor”. Nenhuma outra visão exalta tanto a obra de Cristo na cruz. O que foi
que Ele fez para assegurar a nossa salvação? Tudo. Ele morreu pelos nossos
pecados. Enquanto que outros param por aí, nós vamos além e dizemos que
Ele nos trouxe para a vida, fez com que “nascêssemos de novo”. Ele nos “re-
generou”, como dizem os teólogos, e em nós operou a fé, que nos deu como
dom (Efésios 2:8,9). Por meio dessa fé somos justificados, adotados, santifi-
cados, preservados e seremos glorificados. Se somos salvos, não podemos ter
mérito em nada. Não podemos nos gloriar de nada, Paulo diz:
“Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e
santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”
(I Co 1:30,31).

Isso expressa o ponto. Foi por “Sua operação”. Então, como é que você
poderia se gloriar? A Salvação é um Dom que Cristo conquistou. Ele mesmo
conquistou e nos deu por Sua livre e espontânea vontade e não por alguma
coisa que porventura existisse em nós.
O teólogo R.C.Sproul certa vez debateu com um homem que dizia que a
salvação é como a experiência de um homem que estava se afogando e para
quem Cristo lança uma corda. O que o homem tem de fazer é agarrar-se à
corda. A parte de Deus é providenciar a corda. A parte do homem é agarrá-la
e segurá-la. Sproul retrucou que a salvação não se compara a um homem que
está se afogando, mas a um homem que já está afogado, e está inconsciente
no fundo do lago. A parte de Cristo é de mergulhar, retirar o homem e trazê-
lo até a margem, fazer respiração boca a boca, e trazer o homem de volta à
vida. Qual é a parte do homem? Apenas voltar a viver. E isso não é parte coi-
sa nenhuma. Você diria que tal pessoa contribuiu para o seu próprio resgate?
É claro que não. O mesmo é verdadeiro para salvação. É Cristo sozinho quem
nos salva.
Damos toda glória a Cristo, e nenhuma glória ao homem. Enquanto que
outros gostam daquela imagem de Cristo passivamente batendo à porta do co-
ração dos pecadores, esperando para ser deixado entrar, nossa imagem é a de
Cristo arrombando a porta e entrando com veemência pelos portões do nosso
coração, bem como nos arrancando dos portões do inferno. Ele é um salvador
grandioso, que não só faz possível a salvação, mas de fato salva!
Uma Visão Otimista do Futuro
Em Cristo o homem é restaurado ao seu papel exaltado original na criação.
Em Cristo somos refeitos (Hebreus 2:7,8; cf Salmo 8). Feitos à imagem de
Deus e restaurados a Deus em Cristo, temos dignidade e possibilidades que
jamais seriam alcançáveis sob a tirania do pecado. Jesus Cristo derrotou o di-
abo, e triunfou sobre os principados e potestades (Cl 2:15). Ele está assentado
no Seu trono nos céus como possuidor “de todos os poderes nos céus e na ter-
ra”, e Ele nos envia como “mais que vencedores”, e por isso “nosso trabalho
no Senhor não é vão” (I Co 15:58).
Portanto, não podemos deixar de ser otimistas. Cristo vem marchando
nesse mundo de maldade miserável. Ele vem “conquistando e para conquis-
tar”. Ele está vencendo. Ele está levedando a massa toda. O grão de mostarda
está crescendo e dominando o jardim. Podemos servi-Lo na confiança do su-
cesso do evangelho (Ap 6:2; I Co 15:57; Mt 13:31-35).
Esta é a nossa herança. Pense no otimismo de William Carey, o pai das
missões modernas. Depois de cinco anos e meio de trabalho missionário pio-
neiro na Índia sem um convertido sequer, ele escreveu ao seu amigo Samuel
Pearce:
“O trabalho sobre o qual Deus colocou Suas mãos, vai prosperar de maneira infalível. Cristo co-
meçou a conquistar esta fortaleza forte e antiga, e certamente o fará até o fim”.

E quando, finalmente, Krishna Pal se converteu a Cristo, naquele tempo


seu primeiro e único convertido, ele escreveu:
“Ele foi apenas um, porém um continente está vindo após ele. A graça divina que transformou o
coração de um indiano poderia obviamente transformar cem mil.”

De modo semelhante, um grande missionário pioneiro no interior da


África, que apesar de ter visto pouco em termos de conversão no seu tempo,
escreveu:
“A grande ideia de converter o mundo a Cristo não é uma utopia: é uma motivação Divina. O cris-
tianismo há de triunfar. Isto também se aplica a cada um dos passos da pregação do Evangelho”.

Quando vemos as grandes ondas de marés de impiedade em nossos dias,


somos tentados a nos desesperar. O mal corre solto, de alto a baixo no nosso
país, sem ser controlado, e sem ser aparentemente impedido. Existe alguma
esperança? Essa massa de gente indiferente poderá um dia ser trazida a uma
fé salvadora em Jesus Cristo? Existe uma maneira de parar o diabo? A situa-
ção não pode ser revertida? Outros podem até desistir. Nós não podemos.
Nós sabemos que Deus pode transformar corações humanos. Ele pode tomar
o homem mais indiferente e apático, que se senta em frente a sua TV noite
após noite, tomando cerveja e assistindo aos jogos de futebol, e fazer dele
uma pessoa cheia de zelo por Jesus Cristo. E o que Deus pode fazer por um,
Ele pode fazer por uma nação inteira. “Jesus reinará, por onde quer que passe
o sol”, escreveu Isaac Watts. Com certeza, “todo joelho se dobrará, e toda
língua confessará, que Jesus Cristo é o Senhor” (Fp 2:10,11).
Roland Baiton, o eminente historiador da igreja em Yale, disse que o
calvinismo “deu à luz uma geração de heróis”. Nosso sonho é que Ele o faça
de novo. Nossa oração é de que a visão reformada da majestade de Deus pos-
sa vir a ser a sua, e inspirá-lo e inspirar a toda a cristandade novamente, a que
venha a acreditar em Deus para as grandes coisas, e empreender grandes coi-
sas. Certa vez eu li um artigo com o título, “Presbiteriano Tenta Inflar a Igreja
Através do Evangelismo”, no qual líderes de igreja estavam lamentando
“nossos jovens estão deixando nossas igrejas a rodo”. O que pode parar isso?
Quando começamos a pregar o evangelho – não o patético evangelho da tele-
visão, da saúde e da prosperidade; nem o evangelho liberal falido, da salva-
ção política e social; nem o evangelho superficial da auto-realização dos ou-
tros, mas, sim, “o evangelho da glória do Deus bendito”; o evangelho da sua
grandeza, da nossa depravação, e da graça do Salvador (I Tm 1:11).
Quando pregarmos essa mensagem e crermos que Deus a usará para
transformar corações, então veremos reavivamento na minha cidade e no nos-
so país. Nós, como herdeiros da tradição Reformada, temos ir para a linha de
frente e anunciar estes símbolos, dos quais as nossas igrejas e a nossa nação
tanto necessitam nos dias de hoje.1

1 Mensagem proferida pela primeira vez pelo Rev. Terry Johnson, na Primeira Igreja Presbiteriana In-
dependente de Savannah, Georgia (PCA), USA, no dia 29 de outubro de 1989.
A MENSAGEM DA REFORMA PA R A O S
DIAS DE HOJE
F. Solano Portela
Porque Lembrar a Reforma

E m 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero pregou as suas hoje famosas


95 Teses na porta da catedral de Wittenberg. Periodicamente as igrejas
evangélicas relembram aqueles eventos que, na soberana providência de
Deus, preservaram viva a Sua Igreja. Muitos, entretanto, questionam estas co-
memorações e alguns chegam até a contestar a lembrança da Reforma. “Por-
que considerar o que aconteceu há quase 500 anos?”
Seguramente muitos não estudam a Reforma por mero desconhecimen-
to, por falta de informação, por não se aperceberem da sua importância na
vida da Igreja e da humanidade. Entretanto, muitos procuram um voluntário
esquecimento daqueles eventos do século XVI. Martin Lloyd-Jones1 nos fala
que entre aqueles que rejeitam a memória da Reforma temos, basicamente,
dois tipos de argumentação:
1. “O passado não tem nada a nos ensinar”. Segundo este ponto de vista,
o progresso científico e o futuro é o que interessa. Firmado em uma mentali-
dade evolucionista, estas pessoas partem para uma abordagem histórica de
que “o presente é sempre melhor do que o passado” e assim nada enxergam
na história que possa nos servir de lição, apoio, ou alerta.
2. A segunda forma de rejeição parte daqueles que veem a Reforma
como uma tragédia na história religiosa da humanidade. Estes afirmam que
deveríamos estar estudando a unidade em vez de um movimento que trouxe a
divisão e o cisma ao cristianismo. Dentro desta visão, perdemos tempo quan-
do nos ocupamos de algo tão negativo.
Podemos dar graças, entretanto, que um segmento da igreja ainda acha
importante estar relembrando e aplicando as questões levantadas pelos refor-
madores. Mas é o mesmo Martin Lloyd-Jones que alerta para um perigo que
existe ainda dentro do interesse pelos acontecimentos que marcaram o século
XVI. Na realidade, ele nos confronta com uma forma errada e uma forma
certa de relembrar o passado, do ponto de vista religioso.
A forma errada, seria estudar o passado por motivos meramente históri-
cos. Esse estudo seria semelhante à abordagem que um antiquário dedica a
um objeto. Por exemplo, quando ele examina uma cadeira, ele não está inte-
ressado se ela é confortável, se dá para se sentar bem nela, se ela cumpre ade-
quadamente a função de cadeira. Basicamente a preocupação se resume à sua
idade, ao seu estado de conservação e, principalmente, a quem pertenceu. Isto
determinará o valor daquele objeto para ele e, consequentemente, o seu estu-
do é motivado por esta visão.
Em Mateus 23:29-35 teríamos um exemplo dessa abordagem errada do
passado. O trecho diz:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque edificais os sepulcros dos profetas e adornais os
monumentos dos justos, e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido
cúmplices no derramar o sangue dos profetas. Assim, vós testemunhais contra vós mesmos que
sois filhos daqueles que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.

Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? Portanto, eis que eu vos
envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis
de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra,
desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o
santuário e o altar.

Jesus diz que aquelas pessoas pagavam tributo à memória dos profetas e
líderes religiosos do passado. Eles prezavam tanto a história, que cuidavam e
enfeitavam os sepulcros. Proclamavam a todos que os profetas eram homens
bons e nobres e atacavam quem havia rejeitado os profetas. Diziam eles: “se
estivéssemos lá, se vivêssemos naquela época, não teríamos feito isso!” Mas
Jesus não se impressiona e os chama de hipócritas! A argumentação de Jesus
é a seguinte: Se vocês se dizem admiradores dos profetas, como é que estão
contra aqueles que representam os profetas e proclamam a mesma mensagem
que eles proclamaram? Ele testa a sinceridade deles pondo a descoberto a ati-
tude no presente para com aqueles que hoje pregam a mensagem de Deus e
mostra que eles próprios seriam perseguidores e assassinos dos proclamado-
res da mensagem dos profetas.
Esse é também o nosso teste: uma coisa é olhar para trás e louvar ho-
mens famosos, mas isso pode ser pura hipocrisia se não aceitamos, no presen-
te, aqueles que pregam a mensagem de Lutero e de Calvino. Somos mesmo
admiradores da Reforma, daqueles grandes profetas de Deus?
Mas existe uma forma correta de relembrar o passado. Deduzimos esta
não apenas por exclusão e inferência do texto anterior mas por que temos um
trecho na Palavra de Deus — Hebreus 13:7-8, que diz: “Lembrai-vos dos
vossos guias, os quais vos falaram a palavra de Deus, e, atentando para o
êxito da sua carreira, imitai-lhes a fé. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje,
e eternamente.”
A maneira correta de relembrar a Reforma é, portanto, verificando a
mensagem, a palavra de Deus, como foi falada, e isso não apenas por um in-
teresse histórico de “antiquário” mas para que possamos imitar aquela fé de-
monstrada. Devemos observar aqueles eventos e aqueles homens, para que
possamos aprender deles e seguir os seus exemplos discernindo a sua mensa-
gem e aplicando-a aos nossos dias.
Distorções verificadas na Lembrança da Reforma
Muitos de nós que crescemos neste país de maioria católica podem se recor-
dar de, numa ou outra ocasião, terem ouvido alguma posição distorcida sobre
os fatos da Reforma do Século XVI, ou sobre os reformadores. Uma das
versões comuns, na visão da Igreja Católica, era apresentar Lutero como um
monge que queria casar e que por isso teria brigado com o Papa. Outros dizi-
am que Lutero foi alguém que ambicionava o poder político. Ainda outros fa-
lam que Lutero era apenas um místico rebelde, sem convicções reais e pro-
fundas. Até mesmo a descrição dele como doente de alma, psicopata, engana-
dor e falso profeta permanece em vários escritos de historiadores famosos do
período.2 Um famoso autor e historiador católico brasileiro chegou a escrever
que “excomungado em Worms, em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à mo-
leza.”3
Em anos mais recentes, um novo de tipo de abordagem à Reforma tem
surgido nos círculos católicos, mas que igualmente representa alguma forma
de distorção. Por exemplo, nos 500 anos do nascimento de Lutero (1983) o
Papa participou de algumas cerimônias comemorativas do evento, na Alema-
nha.4 Certamente não foi por convencimento das verdades ensinadas por Lu-
tero, pois a igreja que representa nada mudou doutrinariamente após a sua
participação. A ida do Papa evidencia, entretanto, uma comprovação de que a
imagem de Lutero e os princípios que pregava estão sendo alvo de revisionis-
mo histórico e distorções. Diluindo-se a força das doutrinas que pregava, pos-
sibilita-se uma aproximação com os fatos históricos descontextualizados.
Em 1967, nos 450 anos da Reforma, a revista TIME escreveu o seguin-
te: “O domingo da Reforma está se tornando um evento ecumênico, que olha
para o futuro, em vez de para o passado”.5 Na mesma ocasião, um semanário
Jesuíta, fez esta afirmação: “Lutero foi um profundo pensador espiritual que
foi levado à revolta por Papas mundanos incompetentes”.6 Podemos ver
como essa colocação faz da Reforma uma revolta contra pessoas temporais e
não contra um sistema de doutrinas de uma igreja apóstata, que persiste até
hoje.
Refletindo o sentimento ecumênico que tem permeado a segunda metade
do século XX, Bispos das Igrejas Católica e Luterana, dos Estados Unidos, fi-
zeram uma declaração solidária, no aniversário da Reforma, dizendo o se-
guinte: “…recomendamos um programa conjunto, entre os membros de nos-
sas igrejas, de estudos, reflexão e oração.”7Podemos imaginar discípulos je-
suítas consciente e sinceramente fazendo estudos, reflexão e oração em co-
memoração à Reforma do Século XVI? Certamente só se ignorarem os pon-
tos fundamentais de doutrina levantados pelos reformadores.
Refletindo uma visão político-sociológica da Reforma, uma outra distor-
ção permeou durante muito tempo o pensamento revisionista da história. Na
época em que o comunismo ainda imperava na Europa oriental, porta-vozes
do partido comunista, da Alemanha, relembraram Lutero como sendo: “um
precursor da revolução”.8
Esquecimento doutrinário dos princípios da
Reforma
Muitas das ações descritas acima, de comemoração conjunta da Reforma, por
católicos e protestantes, só ocorrem porque não se fala nas doutrinas cardeais
levantadas pelo movimento do século XVI. Tristemente, temos observado
que mesmo no campo chamado “evangélico” a situação é semelhante. Raras
são as igrejas evangélicas e denominações que ensinam o que foi a Reforma
do Século XVI e muito poucas as que comemoram o evento e aproveitam
para relembrar e reaplicar os princípios nela levantados. Mais recentemente,
temos observado que a clara linha que separa o entendimento da fé cristã e da
salvação, das igrejas protestantes e católicas, tem sido removida. Esta ação,
que até alguns anos atrás era praticada somente pela teologia liberal, que já
havia declaradamente abandonado os princípios norteadores da Palavra de
Deus, hoje está presente no campo protestante evangélico.
A falta de discernimento e conhecimento histórico, prático e teológico
tem-se achado mesmo dentro do campo ortodoxo e abrange até teólogos re-
formados e tradicionais. Referimo-nos ao documento “Evangélicos e Católi-
cos, Juntos” (“Evangelicals and Catholics Together”), emitido em 1994, nos
Estados Unidos, e que tem sido uma fonte de controvérsia, desde a sua divul-
gação.
A base e intenção do documento foi a realização de ações conjuntas de
cunho moral-político por católicos e protestantes,9 mas ele evidencia uma
grande falta de discernimento e sabedoria. Por exemplo, o documento encora-
ja a que as pessoas convertidas seja respeitadas em sua decisão de se filiar
quer a uma igreja católica quer a uma protestante.10 Estas declarações foram
emitidas como se a fé fosse a mesma, como se a doutrina fosse igual, como se
a base dos ensinamentos fosse comum, como se as distinções inexistissem ou
como se fossem extremamente secundárias.
A premissa básica do documento “Evangélicos e Católicos, Juntos” é
que a evangelização de católicos é algo indesejável e não recomendável, uma
vez que a verdadeira fé e prática cristã devem já estar presente na Igreja de
Roma. Em sua essência, este documento é a grande evidência do esqueci-
mento da Reforma do Século XVI e do que ela representou e representa para
a verdadeira Igreja de Cristo.
Algum evangélico poderia argumentar, “mas isso é coisa de americano,
não atinge o nosso país!” Ledo engano! A conhecida e prestigiada Revista
Ultimato trouxe em suas páginas, no número de setembro de 1996, artigos e
depoimentos, advindo do campo evangélico conservador, refletindo basica-
mente a mesma compreensão do documento “Evangélicos e Católicos, Jun-
tos”, ou seja: as distinções com a Igreja de Roma seriam secundárias e não
essenciais.
Tal situação reflete pelo menos uma crassa ignorância da doutrina Cató-
lico Romana. Por exemplo os canônes 9 e 10, do Concílio de Trento, escritos
no auge da contra-reforma, mas nunca ab-rogados até os dias de hoje, dizem
o seguinte:
Cânon 9 — Se alguém disser que o pecador é justificado somente pela fé, querendo dizer que
nada coopera com a fé para a obtenção da graça da justificação; e se alguém disser que as pessoas
não são preparadas e predispostas pela ação de sua própria vontade — que seja maldito.

Cânon 11 — Se alguém disser que os homens são justificados unicamente pela imputação da jus-
tiça de Cristo ou unicamente pela remissão dos seus pecados, excluindo a graça e amor que são
derramados em seus corações pelo Espírito Santo, e que permanece neles; ou se alguém disser que
a graça pela qual somos justificados reflete somente a vontade de Deus — que seja maldito.11

Estas declarações, ou melhor, maldições, foram pronunciadas contra os


protestantes. Elas atingem o cerne da doutrina da justificação somente pela
fé. São afirmações contra a defesa inabalável da soberania de Deus na salva-
ção, proclamada pela Reforma do Século XVI e continuam fazendo parte dos
ensinamentos da Igreja Católica.
A visão distorcida do evangelho e da evangelização, no campo Católico Romano, não é apenas
algo que data da era medieval. Vejam esta declaração extraída da encíclica papal “O Evangelho
da Vida” escrita e divulgada à Igreja em 1995: “O Evangelho é a proclamação que Jesus possui
um relacionamento singular com todas as pessoas. Isso faz com que vejamos em cada face huma-
na a face de Cristo.”12

Certamente teríamos que chamar esta visão do evangelho de universalis-


mo e declará-la contrária à fé cristã histórica.
Perante este emaranhado de opiniões tão diferenciadas, perante o teste-
munho e o registro implacável da história, perante a crise de identidade, de
doutrina e de prática litúrgica que nossas igrejas atravessam, qual deve ser a
nossa compreensão da Reforma?
Considerações Práticas sobre a Reforma e os
Reformadores
Nosso apreço sobre a Reforma e suas doutrinas não deve nos levar a uma vi-
são utópica e idealista com relação aos seus personagens principais. Devemos
reconhecer os seus feitos mas também suas limitações. É na compreensão da
falibilidade humana que detectamos a mão soberana de Deus empreendendo
os Seus propósitos na história. Vejamos alguns pontos que valem a pena ser
recordados:
a) Lutero foi um homem falível:
As 95 Teses de Lutero13 realmente representaram um marco e um ponto
de partida para a recuperação das sãs doutrinas. Entre as teses encontramos
expressões de compreensão dos ensinamentos da Bíblia, como por exemplo
na tese 62 (“O verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossanto Evangelho da
glória e da graça de Deus”) e na tese 94 (“Os cristãos devem ser exortados a
seguir a Cristo, a sua cabeça, com diligência…”). Entretanto, devemos reco-
nhecer que elas estão longe de serem, em sua totalidade, expressões precisas
da verdadeira fé cristã. Elas registram, na realidade, o início do pensamento
de Lutero, que seria trabalhado e refinado por Deus ao longo de seus estudos
e experiências posteriores. Vejamos os seguintes exemplos:
Lutero faz referência ao Purgatório, sem qualquer contestação à doutrina em si, em 12 das
suas teses (teses 10,11, 15, 16, 17, 18, 19, 22, 25, 26, 29, 82) - ex.: Tese 29: “Quem disse
que todas as almas no Purgatório desejam ser redimidas? Temos exceções registradas nos
casos de S. Severino e São Pascal, de acordo com uma lenda sobre eles.”

Além da menção aos santos, na tese acima, Lutero faz referência à Maria como mãe de
Deus (Tese 75), aparentemente não no sentido histórico do termo (o termo histórico, grego
Theotokos — tinha o propósito de reconhecer a divindade de Jesus14), mas no conceito ca-
tólico da expressão, que infere a existência de um poder especial em Maria: Diz a Tese 75
— “É loucura considerar que as indulgências papais têm tão grande poder que elas pode-
riam absolver um homem que tivesse feito o impossível e violado a própria mãe de Deus.”

Quatro teses inferem legitimidade ao papado e à sucessão apostólica (77, 5, 6, 9). Ex. Tese
77: “É blasfêmia contra São Pedro e contra o Papa dizer que São Pedro, se fosse o papa
atual, não poderia conceder graças maiores [do que as atualmente concedidas].”

Além disso, verificamos que resquícios do Romanismo se fizeram pre-


sentes na formulação da Igreja Luterana, principalmente na sua estruturação
hierárquica e na compreensão quase católica dos elementos da Ceia do Se-
nhor. Possivelmente poderíamos também dizer que na Reforma encontramos
individualismo em excesso e falta de unidade entre irmãos de mesma persua-
são teológica (principalmente nas interações dos Luteranos com Zwinglio e
Calvino). Mas, com todas essas limitações os reformadores foram poderosa-
mente utilizados por Deus na preservação das Suas verdades.
b) A revolta de Lutero foi eminentemente espiritual.
Não podemos compreender a Reforma se acharmos que Lutero teve uma
revolta contra pessoas, contra padres corruptos, apenas. A ação de Lutero foi
uma revolta contra uma estrutura errada e uma doutrina errada de uma igreja
que distorcia a Salvação. Não foi um movimento sociológico, ele não preten-
dia ensinar a salvação do homem pela reforma da sociedade, mas compreen-
dia que a sociedade era reformada pelas ações do homem resgatado por Deus.
Na realidade, a Reforma do Século XVI foi um grande reavivamento espiritu-
al, operado por Deus, que começou com uma experiência pessoal de conver-
são.
c) Lutero não formulou novas doutrinas, ou novas verdades, mas redes-
cobriu a Bíblia em sua pureza e singularidade.
As 95 Teses representam coragem, despreendimento e uma preocupação
legítima com o estado decadente da igreja e com a procura dos verdadeiros
ensinamentos da Palavra. Mas é um erro acharmos que a Reforma marca a
aparição de várias doutrinas nunca dantes formuladas. A Palavra de Deus, cu-
jas doutrinas estavam soterradas sob o entulho da tradição, é que foi resgata-
da. Uma das características comuns das seitas é a apresentação de supostas
verdades que nunca haviam sido compreendidas, até a aparição ou revelação
destas a algum líder. Estas “verdades” passam a ser determinantes da inter-
pretação das demais e ponto central dos ensinamentos empreendidos. A Re-
forma coloca-se em completa oposição a esta característica. Nenhum dos re-
formadores declarou ter “descoberto” qualquer verdade oculta, mas tão so-
mente apresentava em toda singeleza os ensinamentos das Escrituras. Seus
comentários e controvérsias versaram sempre sobre a clara exposição da Pa-
lavra de Deus.
Mais uma vez, Martin Lloyd-Jones nos indica “que a maior lição que a
Reforma Protestante tem a nos ensinar é justamente que o segredo do suces-
so, na esfera da Igreja e das coisas do Espírito é olhar para trás” 15 Lutero e
Calvino, diz ele, “foram descobrindo que estiveram redescobrindo o que
Agostinho já tinha descoberto e que eles tinham esquecido”.16
A Mensagem da Reforma para os dias de hoje
As mensagens proclamadas pela Reforma continuam sendo pertinentes aos
nossos dias. Da mesma forma como a Palavra de Deus sempre é atual e repre-
senta a Sua vontade ao homem, em todas as ocasiões, a Reforma, com suas
mensagens extraídas e baseadas nesta Palavra, transborda em atualidade à
cena contemporânea da igreja evangélica. Vejamos apenas alguns pontos pre-
gados pelos Reformadores e a sua aplicação presente:
a) A reforma resgatou o conceito do pecado — Romanos 3:10-23.
A venda das indulgências mostra como o conceito do pecado estava dis-
torcido, na ocasião da Reforma do Século XVI. A igreja medieval e, princi-
palmente, as ações de Tetzel, fugiram totalmente à visão bíblica de que peca-
do é uma transgressão da Lei de Deus e qualquer falta de conformidade com
Seus padrões de justiça e santidade. A essência do pecado foi banalizada ao
ponto de se acreditar que o seu resgate podia se efetivar pelo dinheiro. É fácil
vermos as implicações que a falta de um conceito bíblico de pecado tem com
outras doutrinas chaves da fé cristã, por exemplo: se o resgate é em função da
soma de dinheiro paga, como fica a expiação de Cristo, qual a necessidade
dela? Ao se insurgir contra as indulgências Lutero estava, na realidade, rea-
presentando a mensagem da Palavra de Deus sobre o homem, seu estado,
suas responsabilidades perante o Deus Santo Criador e sua necessidade de re-
denção.
Hoje estes conceitos estão cada vez mais ausentes da doutrina da igreja
contemporânea. A mensagem da Reforma continua necessária aos nossos
dias. Estamos nos acostumando a ouvir que todas as ações são legítimas; que
pecado é uma conceito relativo e ultrapassado; que o que importa é a felicida-
de pessoal e não a observância de princípios. Mesmo nos meios evangélicos,
existe grande falta de discernimento — a preocupação é muito maior em cima
de se encontrar justificativas, explicações e racionalizações do que na convic-
ção e no arrependimento.
b) A Reforma pregou a doutrina da Justificação somente pela Fé - Gl.
3:10-14.
A Igreja Católica havia distorcido o conceito da salvação, pregando
abertamente que a justificação se processava por intermédio das boas obras
de cada fiel. Lendo a Palavra, Lutero verificou quão distanciado esta prega-
ção estava das verdades bíblicas — salvação era uma graça concedida pela fé.
Todo o trabalho vem de Deus. As boas obras não fornecem a base para a sal-
vação, mas são evidências e sub-produto de uma salvação que procede da in-
finita misericórdia de Deus para com o homem pecador que Ele arranca da
lama e perdição do pecado.
Hoje estamos novamente perdendo esta compreensão–a mensagem da
Reforma é necessária. A justificação pela fé continua sendo esquecida e pro-
cura-se a justificação pelas obras. Muitas vezes prega-se e procura-se a justi-
ficação perante Deus através do envolvimento em ações de cunho social
A justificação pela fé está sendo, ultimamente, considerada até um ponto
secundário, mesmo no campo evangélico, partindo-se para trabalhos de am-
pla cooperação, como base de fé e de unidade, como vimos no pensamento
expresso pelo documento já referido: Evangélicos e Católicos Juntos.
c) A Reforma resgatou o conceito da autoridade vital da Palavra de Deus
- 2 Pe 1:16-21.
Na ocasião da Reforma, a tradição da igreja já havia se incorporado aos
padrões determinantes de comportamento e doutrina e, na realidade, já havi-
am superado as prescrições das Escrituras. A Bíblia era conservada longe e
afastada da compreensão dos devotos. Era considerada um livro só para os
entendidos, obscuro e até perigoso para a massa. Os reformadores redescobri-
ram e levantaram bem alto o único padrão de fé e prática: a Palavra de Deus
e, por este padrão, aferiram tanto as autoridades como as práticas religiosas
em vigor.
Hoje o mundo está sem padrão. Mas não é somente o mundo, a própria
Igreja evangélica está voltando a enterrar o seu padrão em meio a um entulho
místico pseudo-espiritual–a mensagem da Reforma continua necessária.
Sabemos que nas pessoas sem Deus, imperam o subjetivismo e o exis-
tencialismo. A única regra de prática existente parece ser: “comamos e beba-
mos porque amanhã morreremos”. Verificamos que nas seitas, existem uma
multiplicidade de padrões. Livros e escritos paralelos são apresentados como
se a sua autoridade estivesse paralela ou até acima da Bíblia. A cena comum
é a apresentação de novas revelações, geralmente de caráter escatológico e de
características fluidas, contraditórias e totalmente duvidosas.
No meio eclesiástico liberal, já nos acostumamos a identificar o ataque
constante à veracidade das Escrituras. Já vamos com mais de dois séculos de
contestação sistemática à Palavra de Deus, como se a fé cristã verdadeira fos-
se capaz de subsistir sem o seu alicerce principal.
Mas é no campo evangélico que somos perturbados com os últimos ata-
ques à Bíblia, como regra inerrante de fé e prática. Ultimamente muitos ditos
intelectuais têm questionado a doutrina que coloca a Bíblia como um livro
inspirado, livre de erro. Podemos tomar como exemplo o caso do Fuller
Theological Seminary. Esta famosa instituição evangélica foi fundada em
1947, sobre princípios corretos. Logo após o seu início, formulou-se uma de-
claração de fé que especificava: “…os livros do VT e NT…, nos originais são
inspirados plenariamente e livres de erro, no todo e em suas partes…” Entre-
tanto, em 1968, Daniel Fuller, filho do fundador, e que havia estudado sob
Karl Barth, começou a questionar a inerrância da Bíblia, fazendo distinção
entre trechos “revelativos” e trechos “não revelativos” das Escrituras. Foi se-
guido nesta posição pelo presidente, David Hubbard, e por vários outros pro-
fessores, todos considerados evangélicos.17 Logicamente não há critério coe-
rente ou autoritário para execução desta distinção. Subtrai-se da Igreja o seu
padrão, derruba-se um dos pilares da Reforma e a Igreja é retroagida à uma
condição medieval de dependência dos especialistas que nos dirão quais as
partes que devemos crer realmente e quais as que devemos descartar como
mera invenção humana.
No campo evangélico neopentecostal a suficiência da Palavra de Deus é
desconsiderada e ela é superada pelas supostas “novas revelações” que pas-
sam a ser determinantes das doutrinas e práticas do Povo de Deus.
A Confissão de Fé de Westminster em seu Capítulo 1º, apresenta a men-
sagem inequívoca da Reforma do Século XVI, cada vez mais válida aos nos-
sos dias. Ali a Bíblia é descrita como sendo a “… única regra infalível de fé e
de prática”.
d) A Reforma redescobriu, na Palavra, a doutrina do sacerdócio indivi-
dual do crente–Hb 10:19-21.
O sacerdócio individual do crente foi uma outra doutrina resgatada. Ela
apresenta a pessoa de Cristo como único mediador entre Deus e os homens,
concedendo a cada salvo “acesso direto ao trono” por intermédio do sacrifício
de Cristo na cruz e pela operação do Espírito Santo no “homem interior”.18 O
ensinamento bíblico, transmitido pela Reforma, eliminava os vários interme-
diários que haviam surgido ao longo dos séculos, entre o Deus que salva e o
pecador redimido. Na ocasião, esse era um ensinamento totalmente estranho à
Igreja de Roma, que sempre se apresentou como tendo a palavra final de au-
toridade e interpretação das Escrituras.
Lutero rebelou-se contra o véu de obscuridade que a Igreja lançava so-
bre as verdades espirituais e levou os fiéis de volta ao trono da graça. Isso
proporcionou uma abertura providencial de conhecimento teológico e religio-
so. Lutero sabia disso, mas sabia também que o acesso a Deus deveria estar
fundamentado nas verdades da Bíblia, tanto que um de seus primeiros esfor-
ços, após a quebra com a Igreja Romana, foi a tradução da Palavra de Deus
na língua falada de seu país: o alemão.
O ensinamento do sacerdócio individual do crente foi o grande respon-
sável pelo estudo aprofundado das escrituras e pela disseminação da fé refor-
mada. Levados a proceder como os Bereanos,19 os crentes verificaram que
não dependiam do clero para o entendimento e aplicação dos preceitos de
Deus e passaram a penetrar com determinação nas doutrinas cristãs.
A mensagem da Reforma continua sendo necessária hoje. A igreja con-
temporânea está se multiplicando em quantidade de adeptos, mas é uma mul-
tiplicação estranha porque segue em paralelo à uma preguiça mental ao estu-
do. Parece que fomos todos tomados de anorexia espiritual, onde nos conten-
tamos com muito pouco, nos achamos mestres sem estudo, nos concentramos
na periferia e não no cerne das doutrinas e ficamos felizes com o recebimento
só do “leite” e não da “carne”.
A mensagem da Reforma é necessária para que não venhamos a teste-
munhar a consolidação de toda uma geração de “analfabetos cristãos”. Em
vez de procurarmos “tudo enlatado” e de deixar que apenas formas de entre-
tenimento povoem nossas mentes e corações, devemos nos relembrar cons-
tantemente da importância de “guardar a palavra no coração”.
Precisamos nos aperceber que a objetividade da Palavra de Deus é ver-
dade proposicional objetiva. Mas esta objetividade tem que ter seguimento
por nosso estudo e na nossa capacidade de compreensão, sob a iluminação do
Espírito Santo de Deus, e na aplicação coerente dos ensinamentos desta Pala-
vra em nossas vidas.
e) A Reforma apresentou, de forma clara e inequívoca, o conceito da so-
berania de Deus. Sl 24
Na ocasião da Reforma, as expressões de religiosidade tinham se torna-
do totalmente centralizadas no homem. Isso ocorreu principalmente pela
grande influência de Tomás de Aquino na sistematização do pensamento Ca-
tólico Romano. Abraçando as ideias de Pelágio, Aquino enfatizou completa-
mente o livre arbítrio do homem, desconsiderando a gravidade da escravidão
ao pecado que o torna incapaz de escolher o bem, a não ser que a ele seja di-
recionado por Deus. Lutero reconheceu que a salvação se constituía em algo
mais que uma mera convicção intelectual. Era, na realidade, um milagre da
parte de Deus e por isso ele tanto pregou e escreveu sobre “a prisão do arbí-
trio”. Costumamos atribuir a cristalização das doutrinas relacionadas com a
soberania de Deus a João Calvino, apenas, mas o ensinamento bíblico de Lu-
tero traz, com não menor veemência, uma teologia teocêntrica, na qual Deus
reina soberanamente em todos os sentidos.
Hoje, a mensagem continua a ser necessária, pois o homem, e não Deus,
continua sendo o centro das atenções. Mesmo dentro dos círculos evangéli-
cos, nossa evangelização é efetivada tendo a felicidade do homem, como alvo
principal, e não a glória de Deus. Até a nossa liturgia é desenvolvida em tor-
no de algo que nos faça “sentir bem”, e não no objetivo maior da glorificação
a Deus. Nesses aspecto, deveríamos estar atentos à mensagem de Amós, que
nos ensina (Am 4:4-5) que Deus não se impressiona com a Liturgia que não é
direcionada a Ele.20 Neste trecho vemos que a adoração realizada em Betel21
e Gilgal22 tinha várias características dos cultos contemporâneos:
1. Os locais eram suntuosos e famosos (Betel possuía belas fontes no topo da montanha).

2. A periodicidade dos cultos e possivelmente a frequência era exemplar (diariamente se reuni-


am).

3. As contribuições eram abundantes, superando até os padrões de Deus (de três em três dias trazi-
am as ofertas).

4. O louvor era abundante (sacrifícios de louvor eram ofertados. Am 5:23 e 6:5 fala também do
estrépito dos cânticos e da transbordante música instrumental).

5. Havia bastante publicidade (as ofertas eram divulgadas a apregoadas).

6. Havia alegria e deleite geral nos trabalhos (“disso gostais”, diz o profeta).

O resultado de toda esta adoração centralizada no homem era a mão pe-


sada de Deus em julgamento sobre aquela sociedade insensível (com aquele
culto as pessoas, dizia o profeta, “multiplicavam as suas transgressões”). Re-
almente, à semelhança da Reforma, precisamos resgatar a pregação da Sobe-
rania de Deus e demonstrar esta doutrina na prática de nossas vidas e na das
nossas igrejas.
Conclusão
Devemos reconhecer a Reforma como um movimento operado por homens
falíveis, mas poderosamente utilizados pelo Espírito Santo de Deus para res-
gatar Suas verdades e preservar a Sua Igreja. Não devemos endeusar os Re-
formadores nem a Reforma, mas não podemos deixá-la esquecida e nem dei-
xar de proclamar a sua mensagem, que reflete o ensinamento da Palavra de
Deus, aos dias de hoje. A natureza humana continua a mesma, submersa em
pecado. Os problemas e situações tendem a se repetir, até no seio da igreja. O
Deus da Reforma fala ao mundo hoje, com a mesma mensagem eterna. Deve-
mos, em oração e temor, ter a coragem de pregá-la e proclamá-la à nossa
igreja.

1 D. M. Lloyd-Jones, Rememorando a Reforma (S. Paulo: PES, 1994?) pp. 2-5.


2 O Rev. Sabatini Lalli, em seu livro, Lutero–Cinco Séculos Depois (SP: CEP, 1983) pp. 4-5, compila
várias dessas distorções.
3 Plínio Corrêa de Oliveira, Folha de São Paulo, 10.01.1984, p. 2. O autor cita uma carta de Lutero a
Melanchton, para provar o seu ponto, na qual Lutero reclama da sua preguiça. Provavelmente as colo-
cações expressam o profundo sentimento de incapacidade perante as grandes tarefas que confrontam os
verdadeiros e responsáveis cristãos. O autor parece desconhecer que enquanto Lutero “se entregava ao
ócio e à moleza”, entre outras coisas, traduziu a Bíblia em sua totalidade.
4 Jornal de Brasília — Caderno Internacional, 10.11.1983, p. 11 e Isto É, 09.11.1983, p. 37.
5 Time, 24.03.1967, Citado por Dr. Allen A. MacRae em Luther and the Reformation (N. York: Ameri-
can Council of Christian Churches, 1967) p. 2.
6 Mac Rae, Ibid.
7 Ibid.
8 Time, 24.03.1967, citado em The Christian News (New Haven: Lutheran News, Inc., 1983) ,
27.06.1983, p. 18.
9 lgumas dessas ações, reconhecemos, possuem validade moral; como, por exemplo, levantar a voz
conjunta da sociedade contra o crime do aborto, contra a promiscuidade defendida pelos meios de co-
municação, etc.
10 The Christian who “…has undergone conversion…” must have “…his decision about communal al-
legiance and participation… assiduously respected.” Also, “…those converted… must be given full
freedom and respect as they discern and decide the community in which they will live their new life in
Christ.”
11 Transcritos no WRS Journal (Tacoma: Western Reformed Seminary, Summer 1995) Vol. 2, Iss. 2,
p. 15.
12 Encíclica Evangelium Vitae, pt. 81.
13 O texto completo das 95 teses, traduzidas em inglês, pode ser obtido pela Internet, no seguinte ende-
reço: http://www.bibleclass.com/lib/95.htm.
14 Termo utilizado na igreja desde a Escola de Alexandria, por Orígenes, atacado por Nestorius, no
quinto século, mas aprovado e abrigado pelos Concílios de Éfeso (431 DC) e de Calcedônia (451 DC).
Posteriormente, a Igreja Católica veio a distorcer o significado de “Mãe de Deus” — em vez de repre-
sentar uma defesa da divindade de Cristo o termo passou a expressar uma situação privilegiada de po-
der e essência à Maria, como objeto próprio de adoração e fonte de poder.
15 Lloyd-Jones, Rememorando a Reforma, p.8
16 Ibid.
17 Harold Lindsell, The Battle for the Bible (G. Rapids: Zondervan, 1976) pp. 106-121.Exemplo de ou-
tros nomes famosos (chamados, evangélicos) que questionam inerrância: Paul King Jewett e George
Ladd.
18 Ef 2:18 e 3:16
19 At 17:11
20 Várias mensagens expositivas sobre os alertas de Amós, e a sua aplicabilidade aos nossos dias, têm
sido proferidas pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes (1995/1996) das quais alguns destes pontos
foram extraídos.
21 Betel (Casa de deus) - Cidade em Samaria, lugar de adoração dos Cananeus (El, Baal). Contrasta
com o Templo dos judeus, chamado de Beth Yaweh, a casa de Jeová.
22 Gilgal - Existem várias (pelo menos 6) na Bíblia. Esta deve ser a de Js 4:19, Jz 2:1 e 3:19, que fica-
va perto de Jericó, chegando a abrigar a Arca do concerto (Js 18:1). Outros acham que seria a de 2 Rs
2:1-4. Saul utilizou a primeira como base de operações contra os Amalequitas. Os 12:11 indica que vi-
rou local de sacrifícios. Etimologicamente pode ter o significado traçado a “um círculo de pedras”.
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