Você está na página 1de 12

.

,~~Áf~~
<~ .011 .q:;

Escutar também é educar'

Quando os pais se determinam a esmagar


a vontade da criança estão a contribuir para
a formação da neurose na criança.
A autoridade irracional é aquela que não
tem qualquer fundamento genuinamente
humano e nenhuma Justificação no amor
ou na razão. - "Exijo que faças isto porque
sou o teu pai. Ah, issofazes!
Não tenho que te dar explicações.
Posso obrigar-te a fazer isso.
Fazes porque eu te mando!"
A. S. Neill

Eu não prestava para nada. Tu me encorajavas, por exemplo, quando eu caminhava em


passos marciais e cumprimentava corretamente, mas eu não era um futuro soldado; ou
me encorajavas quando eu conseguia comer copiosamente ou até beber cerveja, quando
repetia canções que não entendia ou papagueava as tuas frases favoritas, mas nada disso
pertence ao meu futuro. E é significativo que ainda hoje só me encorajas nas coisas que
te tocam pessoalment~, quando o teu sentimento do próprio valor está em causa, seja
porque o firo (por exemplo, pelo meu projeto de casaménto), seja porque é ferido através
de mim (por exemplo, quando Pepe me insulta) ... Para que poderia me servir o
eucorajamento, se ,ele só se manifesta quando, em primeiro lugar, não se trata de mim?
A impossibilidade de ter relações pacíficas contigo teve ainda uma outra
conseqüência, muito natural, na verdade: eu perdi o uso da fala... Desde cedo me
proibiste de tomar a palavra: "Nada de respostas!" dizias "Esta ameaça e a mão
erguida que a sublinhava acompanharam-me o tempo todo. Diante de ti - quanto
se tratava de teus próprios negócios eras um excelente orador - adotei uma forma
de falar entrecortada e gaguejante, mas isso ainda foi demais para o teu gosto e
acabei por me calar, no começo por desafio, talvez, dep.ois porque já não era capa.z

21
,.
'"
Afetividade & Inteligência J

i Escutar=bém é educar

de pensar nem de falar na tua presença. E como tu eras um verdadeiro educador, Ir f

Diz Paulo Freire:


os efeitos de tudo isso fizeram-se sentir em toda minha vida. I"

Se eu tivesse te obedecido menos, certamente estariasmuito mais satisfeito comigo. P 'lida toda educação toda ação educativa deve necessariamente estar
Ao contrário do que pensavas, o teu sistema pedagógico atingiu em cheio o seu ara ser va " .. fu d d . d
recedida de uma reflexão sobre o homem e de uma análise pro n a. o meio e
objetivo: não escapei a nenhum ato de posse: tal como sou, eu sou o resultado da ~da concreta do homem concreto a quem se deseja educar ou, para dizer melhor,
tUaeducação e da minha obediência... Tu dizias: "Nada de respostas", querendo
desse modo fazer com que emudecessem em mim as forças que te eram a uem se quer ajudar para que se eduque. . d
desagradáveis;mas o efeito produzido foi,demasiadamente forte, eu era demasiado Seqfalta uma tal reflexão sobre o homem, corre-se o risc~ de a~~tardme~ os
obediente e tornei-me inteiramente mudo. educativos e maneiras de fazer que reduzem este ho~em a condiçao e o ,eto,

Casar, fundar uma família,aceitar todos os filhos que nasçam, fazê-Iosviver num projeção de mal formadas e deterioradas representaço~s que temos deste. tal
Res eitar a vocação do homem, de ser sujeito e não objeto torna-s~ fundame~ .
mundo incerto e mesmo, se possível, guiá-los um po~co, eis_ estou disso persuadido Na ;usência de uma análise do meio cultural e concreto se corre o nsco de realizar
- o grau extremo do que um homem pode esperar... Não são muitos os que
uma educação pré-fabricada e castradora. .. u
verdadeiramente o conseguem e, depois, essepequeno número não "faz" geralmente Para ser válida, a .educação deve levar em con.ta.o f~to pnmordlal do homem o
coisa alguma; ele "submete-se" tão-somente a qualque"rcoisa (Carta de Kafka a j .. . ocaça-ooh" tolórrica que é tornar-se SUJeito,SItuadono espaço e no tempo,
seu pai). sela, sua v b' , •. m
no sentido de que vive em uma época precisa, em um lugar preCISO,em u.
contexto social e cultural preciso. "O homem é um ser com raizesespaço-temporais
Esta carta de Kafka a seu pai mostra claramente a revolta contra o medo, e cabe-lhe a transformação".
força elementar de uma educação.
A autoridade educativa ainda no princípio deste século subentende um Posso afirmar, portanto, que o homem é sempre o r~sultadoda aç~.o ~e
sistema de manipulação cujo efeito é privar a criança de toda e qualquer transformação da realidade e de sua adaptação
de sua capacidade de transformá-Ia. De onde aadvêm
ela, segwd~ da ~ons:encla
os prlOciplos e que
possibilidade de opor-se ou mesmo de afirmar-se como pessoa. Retirar a palavra
educar é:
sob a forma de um mutismo ou de gagueira evidencia um conflito; de um lado
um desejo de agradar ao pai e do outro a vontade de vir a ser.
• Um processo que permite ao homem chegar a ser o ~ujeito de sua pr.ó~ria
A excessiva e desvairada autoridade na educação, tanto familiar como açao,
- em h armo rua
. com o "si mesmo" e não apenas objeto de outros sUJeitos.
escolar, apontando limites e regras, reequilibrando um sistema em
desenvolvimento, pelo contrário, só promoverá lima insegurança fundada no • Um meio para que o homem possa se construir como pessoa em termos de
medo, quando não hostilidade e revolta.
"sendo" e não de "tendo" (Ser, não Ter).
Aqui não existe somente uma carta de um Kafka a seu pai, mas uma
confissão nossa, de cada um de nós, a todos aqueles que de uma forma ou de • Uma iniciação à crítica, interpretação e transformação do mundo, inovando-o
outra, consciente ou inconscientemente, nos proibiram de sermos. O pai ou para o bem-estar próprio e do outro.
educador sob a máscara do liberalismo dissimula uma autoridade fundada no
poder e na violência.
Não acredito no entanto, que os atos de "poder sobre a criança sejam
O educador está sempre à espreita de que a criança execute o que foi frutos de uma inte~cionalidade maléfica do adulto, seja ele pai, pro!"essor ou
previsto para ela. A liberdade deixada à criança é sempre ilUsória; esta não "médico" (em princípio de nosso século a autoridade médica :ra de tao grande
tem Outra saída senão adaptar-se a um mundo const.ruído para oprimir e castrar. · fi ência e poder dentro da família que tratava e se colocava ate como educador
Não acredito que devamos iniciar analisando "o por clue as crianças não 10 u f" ) Acredito sim em componentes inconscientes de uma posse
e con essor . " . hi' .
aprendem", mas nos perguntando por que nos negamos tanto a aprender a escravizadora do homem sobre o ,homem, que em outras ~pocas stonca~
"educar". Existe uma profunda presunção em todo educador, como se educar i eram colocadas pelo menos de forma mais leal e escl~reclda. Refiro-me a
fosse um ato natural.
escravidão legal e explícita, aprovada pela cultura consciente no decorrer da
I

22
23

l
Afetividade & Inteligência
Escutar llI1TIbém é educar

• D

história da humanidade, ora sob a égide das guerras de conquista, ora sob a
• A criança já de nascença é·má; é preciso separá-Iade sua natureza e submetê-,la
necessidade de mão-de-obra para a grandeza dos respectivos países em a um adestramento moral e físico, submetendo-a desde pequena as
desenvolvimento ou em diferentes estágios de colonização. alternâncias de um terror e de uma sedução constante.
Muitas libertações de escravos aconteceramna história do homem, porém
devemos nos conscientizar de que é chegada a hora de libertarmos aquele que • A criança deve adquirir precocemente a arte de renunciar. Deve-se t~mar
nunca pensamos ser o nosso escravo mais próximo, aquele que acreditamos posse de seu ser para garantir o domínio dele. Os caprichos, os choranungos
ser o foco de nosso amor mais intenso, o nosso filho; falo do fIlho do homem, e as pequenas obstinações devem ser tratadas com palavras se:eras e golpes
a cnança.
aplicados na cama. São geralmente atos que surpreendem a ~n~ça e par~
Penso que há um fundo inconsciente em nós, pais, herdado ao longo do (Y seu pranto. Se isto não obtiver êxito, devemos dar-lhes puruçoes ~o~oraIs

caminho histórico, cujo último elo ainda se manifesta bem claramente no final repetidas a intervalos e esse tratamento até ao final, ao ser atIngtdo o
do século XIX. Parece que enquanto as Américas libertavam os negros da objetivo de obediência absoluta. .
Tal procedimento deverá ser levado até atingirmos o domínio total da cnança
escravatura, baseando-se provavelmente em ideobgias importadas (liberdade,
igualdade e fraternidade), na Europa a autoridade moral educativa paterna e para sempre. A partir daí, bastará um simples olhar,. uma palavra ou um
escolar era multiplicada pela autoridade (mágica) na posição do médico ou do simples gesto de ameaça para governar a criança que se quer educar.
~ducador ou até de ambos superpostos. • O controle que o adulto adquire sobre as tendências instintivas e maléficas
A instituição escolar e a instituição médica procuravam realizar no final
da criança, deverá estender-se sobre o seu próprio co~o através de u:na
do século passado uma missão que acreditavam ser "civilizadora e salvadora". ideologia corretiva do corpo, na expressão de educação.fíSIcae das correçoes
As obras de vulgarização médica ocuparam assim, no final do século ortopédicas: Sente-se direito/ Ande com a cabeça ergwda/Feche as pe~na~/
XIX (mais precisamente em torno de 1880), o lugar da religião; algumas obras Cruze os braços. Podemos dizer ainda, que até hoje na g:ande maIona,
levaram até o título de "catecismo"(do Dr. Demirleau). todos recebemos o amor ou o olhar e a palavra de nossos paiSe mestres ao
A medicina se unia então à educação formando uma pedra angular preço de negarmos o nosso ser.
de peso e consistência nunca vista para seguir um caminho de posse e de Pervertemos o nosso desejo profundo na busca dos ideais de ego, ao
aniquilação do "Ser Humano".
preço de sermos ao menos respeitados e amados pelos nossos pais e educadores.
O Dr. Daniel Gottlieb Moritz Schreber (pai de Sçhreber, caso estudado
por Freud), pai-médica-educador em 1880, que se tornou célebre por suas E depois nos perguntam por que temos dificuldades e problemas em ~osso
aprendizado? ..
obras de anatomia, fisiologia humana, higiene, cultura física e pedagogia,
escreve livros sobre a educação na Alemanha, tidos como os melhores Quem foi escravizado só tem como Ideal escraVIzar. .
"Saber - Poder - Autoridade" constituem os elementos fundamentaiS
referenciais sobre educação; contemporaneamente, cria filhos que serão de um camuflado chicote da nova escravatura, agora sobre o pequeno Ser,
futuros paranóicos e suicidas. Dizendo textualmente: "Um educador é um
homem que tem resposta para tudo e é dotado na maioria das vezes do que leva o nome de "aluno", que só deseja crescer, desen~ol~er-se e entender.
poder da cura." As dificuldades da aprendizagem em crianças que dificilmente aprendem

Dr. Daniel era ouvido por educadores, médicas e pais. A ele deve-se a ou nunca chegam a aprender, mostram diante de uma avaliaçãopsicopedagó~ca
elaboração de regras de vida fundadas numa disciplina impecável. operativa, uma deticiência na construção do real em termos de represe~taçoes,
estruturas lógico-matemáticas e até mesmo de uma falta de desenvolVlffiento
Esse terror pedagógico, portanto do final do século XIX, do qual deriva
a educação atual, tinha como princípios os ~eguintes lemas: funcional do próprio pensamento. Devemos então nos perguntar onde r~pousa
a etiologia desses problemas; será que o meio ainda opressor, castrador e VIolento
em que vive a criança (aluno) nada tem a ver com isso?

24
25
Afetividade & Inteligência

Ante a pergunta - "O que é a educação?" - David Cooper (1974)


responde: "É de um modo geral uma tarefa em primeiro lugar de destruição".
Gostaríamos, todavia, de torná-Ia em primeiro lugar uma tarefa de
transformação, onde a ignorância seria transformada em descoberta e invenção;
os sentidos servindo à descoberta e a ação servindo à invenção (organização);
o homem sabe organizar e adaptar-se (funçõ~s invariantes) para viver e
,.
sobreviver, assim como uma célula também sabe fazê-Io. Uma educação para o proXlmo
Em segundo lugar, gostaríamos de fazer com que a educação fosse
uma via para a doação do homem a si mesmo; um trabalho de amor, dando século -.paradigmas para
ao próprio homem aquilo que lhe pertence, ou seja, a sua capacidade de
inventar, criar, fazendo coisas novas, criticando O que já existe, buscando
novos caminhos e aprendendo a descobrir por ele mesmo, sentado
uma nova Pedagogia
comodamente no banco de sua própria segurança, confiando na sua
espontaneidade e tendo a coragem de ser.
o Homem prolonga-se para afim do espaço e do tempo,
Diante destes fatos e desta interpretação sinto que nos cabe transformar num oulro mundo. E deste, que é elepróprio, pode,
o mundo em que vivemos na medida das possibilidades, tanto internas relativas se assim quiser, percorrer os ciclos irifinitos. O cic/Qda Beleza
à nossa coragem, quanto externas naquilo que a cultura nos permite. que contempldm os sábios, os artistas e os p~et~s.
O do Amor, que inspira o sacrijicio, o heroIsmo e a renunC1~.
O da Graça, recompensa suprema daqueles que apaixon~ent~
buscaram o principio de todaJ as COISas(...j
Chegou o momento de começar a obra da noua reno/i(]ção.
Mas não lhe estabeleceremos o programa porque um programa
asfixiaria a realidade viva numa armadura rígida,
impediria ojorrar do imprevislvel,
efixaria ofuturo nos limites do nosso esp!rito
Alexis Carre)

A meu ver o primeiro plano que se apresenta quando abord~mos c


universo Educação, é que o ato educativo deveria estar a s~rvlço de
desenvolvimento e. do bem-estar do Homem e, em profunda harmorua com ele
mesmo e com o meio em que vive.

o QUE SERIA ESTAR EM HARMONIA COM AS CONDIÇÓES DA EXIsrtNCLI


HUMANA?
QUAIS SERIAM ESSAS CONDIÇÓES E DE QUE NATUREZA?

26

4
i\l<;UVJdaae& lnteugencla Uma educaçãoparao próximosécuJe

Poderíamos dizer como Erich Fromm, Prosseguindo cbm o seu pensamento Fromm diz:
A existência humana nos coloca fundamentalmente uma questão. O Homem é Quando falamos em nascimento geralmente nos referimos ao ato fisiológico,qm
jogado dentro deste mundo sem a sua vontade e retirado novamente sem a sua se verifica para a criança cerca de nove meses após a concepção. Existe, contudo
vontade. Contrariamente ao animal,que possui instintos e mecanismos de adaptação
ao meio, que visam a sua integração na natúreza, o Homem carece totalmente um aspecto ímpar no nascimento humano. . .
O nascimmto para o homem não é 11m ato, é 11mprocesso. A meta da VIda e nascer
desses mecanismos instintivos. Donde cumpre·lhe viver sua vida, ele não é vivido por ela. plenamente, embora sua tragédia consista em que a maioria dos homens morrerr
Está na natureza e, no entanto, transcende a natureza; tem consciênciade si mesmo, antes de haver nascido plenamente. Viver é nascer a cada minuto. A morte ocorre qlland,
e essa consciência de si como entidade separada fá-Io sentir-se intoleravelmente cessa o nascimento,' psicologicamente, porém, a maioria dentre nós cessa de nascel
só, perdido, impotente. O próprio fato de ter nascido coloca um problema. num certo e determinado ponto. Alguns são totalmente natimortos; continuam a
No momento do nascimento a vida faz uma pergunta ao Homem, e a essa pergunta viver fisiologicamente, mas mentalmente anseiam regressar ao ventre, à terra, às
ele precisa responder. Precisa responder a ela a todo instante; e não é sua mente, trevas, à morte; são eles loucos, ou quase (ibidem, pp. 103-4).
não é seu corpo, é ele, a pessoa que pensa e sonha, que dorme, come, chora e ri _
o Homem lodo - quem precisa responder a ela. Qual é a pergunta formulada pela Esta advertência que E. Fromm nos faz, leva-nos inexoravelmente a
vida? A pergunla é: como poderemos superar o sofrimento, o aprisionamento, refletir sobre uma educação que possa servir ao desenvolvimento da condição
a vergonha que cria a experiência do isolamento; como poderemos encontrar a humana em termos de ser ao invés de ter.
união conosco, com o nosso semelhante, com a natureza? O Homem precisa
responder a essa pergunta de algum modo, e até na loucura ele procura dar uma O que nos propomos mudar não é a busca de uma nova man~ira de
educar, mas sim, uma transformação quase completa sobre o conceIto e a
resposta quando transforma violentamente a realidade fora de si mesmo ou quando
vive completamente dentro da própria casca,superando assim o medo do isolamento significação de educação. .
(Zen Budismo e Psicanálise, 1960, p. 102). Em primeiro lugar a educação não é uma transmissão do c0nI:e~l~e~t~,
de um saber ou até mesmo de uma conduta, mas, sobretudo uma lnlCIaçaO a
Penso que a educação deveria assimila:: e metabolizar esta problemática
vida. Deveríamos, portanto, pensar sobre a vida e verificar que ali está o lugar
ajudando o homem desde a sua infância, não somente, a interagir com os
objetos e as regras do meio, mas principalrnente,a lidar consigo mesmo quer das primeiras interações com um meio mais amplo (natureza e cul.tura);.um
ele queira quer não. A questão é sempre a mesma diz E. Fromm: dos espaços onde o ser começa a viver com os primeiros elementos SImbólico:
que lhe lembram o lugar de onde ,:do (família e ventre); um ~s~aço onde sera
Existem apenas duas respostas frente à mesma e sempre pergunta. Uma delas é
completada a sua gestação para que ele possa enfrentar e aSSImilar o c~ntexto
sobrepujar o isolamento, e encontrar a unidade através da regressão ao eslado de sociocultural. É este um espaço e um tempo intermediário entre o naSCImento
unidade com o ventre que existia antes do despertar da pe,rcepção,antes do nascimento
e o destino, o trabalho, a profissão, a vida madura e adulta. Poderíamos dizer,
do homem. A outra resposta é nascer plmamenle, desenvolver a própria percepção,
a própria razão, apnipria capacidade de amar, a talponto que o homem possa ultrapassar então, que a escola que não leva em consideração este traço de ~nião, interação
o envolvimento egocêntrico, chegando a uma nova harmonia, a uma nova unidade entre a vida egocêntrica, familiar, uterina e a vida psiCOSSoclOcultural com
com o mundo (ibidem, p. 102). todos os seus devidos fatores e correspondentes repercussões de uns sobre os
outros, não poderia ser <;onsiderada uma escola séria e responsável, em termos
A segunda resposta, a mais difícil, a mais complexa, de longa trajetória é
evolutivos e menos ainda no sentido de seqüência e conseqüência para o futuro
aquela que verdadeiramente importa a nós educadores. Pergunto então, a quem do indivíduo.
chega a minha casa como hóspede, se é mais importante apresentar-lhe os
Penso, então, que nós nos encontramos no hal/ de entrada de uma
objetos que lá estão ou os indivíduos que lá vivem. Verificamos que fomos
verdadeira nova educação neste momento histórico.
educados com preocupações que até então sempre procuravam fazer conhecer
Deveríamos, portanto, repensar e suportar uma modificação profunda
mais os objetos que nos circundam do que o homem com o qual nos
relacionamos, seja ele externo ou interno a nós mesmos. do ato e do pensamento educativo.

28 29
Uma educação para o plóximo seX

Frisaria ainda, que a escola deveria considerar que o homem não vive • Uma iniciação à Critica, à interpretação e à transformação do mune
somente em interação com o mundo de uma realidade exterior, mas sobretudo, inovando-o para o seu bem próprio e do Outro.
ele vive uma relação simbólica, com um sofrimento e um destino particular, Acredito que neste momento nos colocamos diante de um novo por
com um mundo interior, que é o de seu desejo, de sua fantasia, de seu de vista relativo a educação e que nos deparamos diante de um aspec
sofrimento. Então, este mundo, aparentemente externo e real, adquire uma totalmente diferente, o qual será provavelmente a perspectiva educativa
nuance toda particular para cada um de nós em relação ao mundo interior; próximo século.
portanto, a escola deve considerar que os vinte e cinco anos que aí passamos
QUAIS SERÃO OS PARÂMETROS QUE MARCARÃO ESTA TRANSFORMAÇAo?
não são simplesmente momentos de construção de novos conhecimentos, mas
de uma vida palpitante, cheia de vicissitudes, de dores e de prazeres c, Novos paradigmas (modelos) no ato educativo revelar-se-ão:
principalmente e em primeiro lugar, de uma "embriologia do ser"
(transformações que seguem uma vocação a ser sujeito). Onde não há na I. Haverá um espaço e um tempo dentro da escola quando poderei coloe
verdade uma transmissão, mas uma construção de conhecimentos e de um em evidência a meus colegas, o mundo em que vivo, minhas idéias, fantasi;
saber que se aprofunda e infere em cada um de. nós proveniente de nossas minhas descobertas, invenções, desejos e sonhos. Estes, emergindo de nos
experiências e símbolos, e de nossa interação com o meio. Meio este repleto núcleo, ligam-se e tomam sentido nos objetos do mundo exterior, isto
de objetos naturais e artificiais, de normas ~ leis, e de outros seres humanos. cada um dentro de si mesmo constrói sua própria ligação, criando seI
Paulo Freire diz: símbolos e valotes, assim como, sua significação especial, e é por me
dessas mesmas significações que o sujeito cria os elos entre o mundo interi,
Para que uma educação seja válida, toda a ação educativa deverá necessariamente e o exterior. E é a partir disso e com isso que devemos respeitar e criar un
ser precedida de uma reflexão sobre o homem, e urna análise profunda do meio
metodologia pedagógica que leve o sujeito ao seu pleno desenvolviment
de vida concreta daquele que se quer educar, melhor dizendo, daquele que se quer
ajudar a se educar. Sem esta reflexão sobre o homem, arriscamos a adotar métodos 11. "O pensamento sendo uma transformação de significações, a compreens~
educativos e de agir de tal modo que o homem ficaria reduzido à condição de nada mais é do que o processo de fabricar significações", diz Piage
objeto. Sem a análise do meio cultural e concreto, corremos o risco de realizar uma
Compreender é dar um sentido a um novo conhecimento num conjunt
educação pré-fabricada e castradora. Para ser válida, a educação deverá levar em
organizado de significações, que possui antecedentes, razões, causas
conta que o fator primordial do homem, sua vocação ontológica, é aquela de Ser-
conexões.
Sujeito e nas condições em que ele vive; em um lugar preciso, em um momento e
num certo contexto (1974, p. 37).
Portanto, a dinâmica (energia), os instrumentos cognitivos (estruturas
O Homem é um ser com raízes espaço-temporais e cabe a ele operar as operações mentais e as figurações (cenas) são de importância vital para
uma transformação, que está entre ele e o mundo, isto é, "realizar um sonho". construção de um saber. O processo e a energia que o move é mais important
Poderíamos, portanto, dizer que o homem é sempre o resultado da ação de que o produto (resultado).
transformação de uma realidade, de sua adaptação a ela e da consciência de 111. A nova percepção ecológica do nosso planeta mudará a atitude da vid
sua capacidade de transformá-Ia. em relação aos objetos exteriores, sejam eles naturais ou artificiais, pouco
Donde poderemos reafirmar que educar é: pouco haverá uma transformação em um novo comportamento relativ .
• Um processo que permite ao homem ser o sujeito de tal ação, e não o objeto aos atos sobre os objetos interiorizados pelo noss'Ü organismo, levando
de outros sujeitos ou muitas vezes do próprio objeto. vida ou à morte, como o ar, os alimentos e as drogas. Isto nos forçará a ur:
• Um meio pelo qual o homem possa "construir-se" como pessoa em termos novo comportamento com relação ao meio em que vivemos, e po
de Ser e não de Ter, ocupando o seu potencial do sentir e do pensar. conseguinte, teremos profundas interferências no pensamento pedagógice

30 3

h
Aferividade & Inteligência
Uma educação para o pIÓximo século

Conseqüentemente, os novos paradigmas mudarão' Estas grandes linhas do pensamento psicológico que descobrem a alma
a) A postura educativa' .
humana e verificam como se estrutura a cognição de um lado e como se
b) Os objetivos da ed~cação;
encaminha a dinâmica pulsi.onal do outro, nos levam a uma total modificação
c) Os eixos referenciais da educação (informar . e transformação do ato interpretativo do pensamento educativo, com uma
criticar, inovar inventar d b . conteudos, pensar, construir,
d) O s ruveISde
.. ' t '. , esco nr e transformar)' , nova visão de homem que tomará, sem mais, por base ,as seguintes premissas:
, au onomla mtelectual, moral e de responsabilidade além d aquele que vive
1. Todas as traniformações educa/Ívas visam a um "Homem melhor" -
respeIto para com o ser humano em termos de L • ' o
Criança e do Adolescente Lei d D' . eISe normas (Estatuto da de uma harmonia obtida pela vocação ontológica do seu ser, localizado
) 't ' os IreItos Humanos e outros)' num espaço e num tempo em que ele vive nas condições particulares desta
situação.
e c:~e;e:~ ~od~:~~~~::~~~a~;o~ransdisciPlinariedade e do p~nsarnento
O "homem melhor" chegará a ser sujeito através de uma consciência e
Portanto, acreditamos que, questões fund ' , _ de uma reflexão sobre sua situação, sobre seu meio concreto, engajado, prestes
tarefa: amentaIS nos guIarao nesta
a intervir no mundo real para o transformar. Tal critério tem por meta
• Por que estas crianças aprendem? Como elas ~ re;l . , desenvolver autonomia intelectual e emocional, procur~do uma tomada de
aprendem, quando aprendem? Qual é a rela'~ ndem. Com que obJetlvo consciência por meio das atitudes críticas sobre as quais o homem escolherá
interesse , o conhecl'mento , o sab er e o desenvol
çao ' que se destabelece entre o livremente, decidirá e deliberará, no lugar de submeter-se, vivendo assim em
• a aprendizagem ' de hOJ'eum sa er para o uturo?VImento o ser? Poderia ser
b fi cooperação de forma autônoma e responsável. Evidentemente que aí teremos
Por que estas cnanças não aprendem? implicados os aspectos de responsabilidade, profunda lado a lado com o da
A interpretação e o destino destas res o . . liberdade e da autonomia. O homem sujeito será o fruto de uma educação
são
, apresentados na probl ., p stas
ematlca que envolve a ed na malona
-. das
. vezes não para a liberdade quando terá como conseqüência a percepção correta de como
Ideologia
, que se propõe d .
a e ucar, e permanece e t ucaçao,. mUlto menos na responder a essa liberdade ante o mundo social em que vive; perceberá, por
Incompetente , ante o ser h umano e am. d a mais di s e UnJverso
d d totalmente
. meio da reversibilidade, o quanto o outro está implicado em sua liberdade e o
amadurecido deste. ' ante o esenvolvlmento quanto todos têm os mesmos objetivos, de ordem e harmonia, consciente ou
Devemos aí acrescentar e tornar evidente _ _ inconscientemente.
um modismo deste fim d . L . que.a nova educaçao nao será Verificamos que o binômio liberdade/responsabilidade implica elevar
, , e secu o, uma IdeologIa d .
sImplesmente a uma conclus-ao estetlca
•. d e prazere dque po ,.ena nos levar os níveis de harmonia cósmica e de respeito entre os seres humanos, buscando,
ou ,ainda, de uma máscara , ou mesmo d'e uma roboti s, e -aparencIas,. de slaltls assim, a diminuição de um conflito, seja ele interno ou externo ao homem,
raclOnalismo informatizado do fim de' u . . ?aç~o ao servIço de um visando a dignidade e a auto-estima.
Acreditam _ ma epoca IndustrIal e consumista. O homem deverá reorganizar-se e integrar-se em fi mesmo para que
os que a nova educaçao seja r 1
ela sofrerá a influência de duas d ea.mente uma Iraniformação, pois sincronicamente possa procurar transformar a sociedade em tudo que esteja
. , gran es correntes de pens .
o SUJeItocomo também d' amento atualS sobre ao alcance de sua cbmpreensão, pois ele" ao mesmo tempo, se
Antiga q~e nos mostra um ~~m renascIment~ ~os ideais humanistas da Grécia autocompreendeu. Parafraseando Paulo Freire: para o homem, o mais dificil
pós-moderno. Estamos falandvoo qduadro:a Pa~d:la,renascida no berço do mundo de ver de modo claro é, no fundo, a sua própria vida.
da escola de Geneb o constrUtlVlsmo' da' epIstemo I'0gIa genetlca
..
ra, que tem como líd J P' ' 2. A educação pré-escolar deverá ser projilática para a vida, e enfocará tendo como
uma psicanálise que na-otem somente como er ean fi Iaget;
.I estamos
' falando de objetivo "a embriologia do ser". Assim, da mesma forma que damos uma
de Freud, mas colaboradores tais como' Win~e erenCIa m.aJOro,pensamento atenção toda especial a uma mulher grávida pelo fato de que a criatura ali
DoIto, Lacan e por que não de J .'d _ cott, Melarue Klem, Françoise em desenvolvimento possa chegar a bom termo, protegida das agressões
ung, aIn a nao totalmente compreendido.
32
33
Afeuvidadc & Inteügência
Urna educação para o próximo século

químicas ou traumáticas, assim deveremos proteger a criança pré escolar e


criar condições de interação com o meio natural e cultural em que vivemos. , rtância a cada momento dessa transformação interna, valoriz:,ndo e
A criança durante o desenvolvimento sensório motor (zero a 2 anos), 'ffi1° ndo m esfo'ços oco"idos dumn'e a infância pam a compmnsa~ dos
simbólico e pré-operatório (2 a 5 anos) não sabendo ainda defender-se dos ;vt a dos ob'etos e das leis do meio. Cada instante transformador este
vícios do pensamento adulto e menos ainda de suas ideologias, deverá ser ;o~:nento c~ativo do espírito é muito mais importante que o ~roduto final.
Pelo exposto acima queremos demonstrar que para a educaçao o processo
protegida - criando-se "condições uterinas" em termos culturais. Nós,
é sempre muito mais importante que o resultado.
educadores, deveríamos fornecer todos os elementos para um desenvolvimento
sadio, integrado e completo, isto é, deveríamos pesquisar e estudar UAIS SERÃO OS FATORES DE TRANSFORMAÇÃO E QUAIS AS SUAS

profundamente (e nisto estamos apenas começando) eúe "meio uterino" que CONSE~Ü~NCIAS SOBRE A EDUCAÇÃO EM FUNÇÃO DOS ESTUDOS E DAS PESQUISAS
contém o embrião do ser e dar a este a proteção, ,a oxigenação, o alimento EFETUADOS, POR EXEMPLO , PELA EPISTEMOLOGIA GENÉTICA, PELO

adequado para que ele possa se desenvolver. Com este cuidado, então, a criança CONSTRUTIVISMO E PELA PSICANÁLISE?

será forte, sadia, para defender-se, para procurar e assumir o seu destino de
sujeito após a idade da razão.
Considerando que, inicialmente ;pós os estudos e pesquisas de Freud,
Sendo esta a profilaxia, não nos esqueçamos de que o homem tem uma bservar que "o organismo funciona como um suporte d~ processo
passou-se
de inscriçãoa o do significante"
, (Lajonquiére, 1992, .p. 19) . I .sto que: dizer que a '
vocação, de ser sujeito e nós devemos protegê-lo até o momento em que ele a
tomará a seu encargo com sua própria vontade e inteligência. lavra ela mesma ou as representações psíqu1cas do lnCOnsc1ente que. se
paI .' umas com as outras independentemente de nossa vontade, aquem
3. Os oo/etos internos inconscientes que estão em interarão constante com o ~o através de re aClOnam .. texto escnto so bre e
de nossa própria consciência, compõe um verdade1ro
fantasias, sonhos, sensaçõese desdos, develiam ter a mesma importância dos oo/etos externos. entre o soma.
O meio interno do homem que tem suas raízes biológicas energizando
seus próprios instintos e pulsões deverá ser decifrado, interpretado e . 'ue se constitui como estrutura bioan:ltômica e que vive o
compreendido, tendo a mesma importância que seu meio externo, sem esquecer
res,
("')ulAtaSSdIOmdoaoarÇb~aolU~:ol;jS
de hereditariedade biológica,Ih da "evolução
. "Intenso
~a espécdie,
o
que cada objeto construído em nosso espírito tem uma profunda e intensa
nsforma "o otraba
deverá neste caso suportar especificamente trabalha e o atravessa a t'e o
~ clruqpco
ligação com nossas emoções, formando assim o campo simbólico e o figurativo,
significante
transformar Oll
de da
forma
palavra
que que
se torne
o tra maIs. um'. mIto que u. ma realidade (Saal,
como também o sistema de figurações (sonhar, fantasiar, brincar e trabalhar).
Braunstain, 1980, p. 97 in Lajonquiêre, 1992, p. 19).,
4. Nós não podenlos dar nozes àqueles que não têm dentes,' cada ato e procedimento
A pS1'canálise portanto, nos mostra que onde acre di tavamos
. ver um
corresponde a uma estrutura e cada objeto será absorvido e integrado em
" . , . d er Sabemos
nossa consciência de acordo com a capacidad,~ metabólica da estrutura
que o assimila. or anismo somático deveremos agora escutar a eXl~tencI~ . e um s. _
o~ outro lado, através dos estudos da epistemologla genetlca, qu~ as.açoes do
Admitamos, portanto, que durante o desenvolvimento o organismo ~omem sobre o objeto ou o meio, manifestam uma corres~ondenC1a c?~ as
cognitivo e afetivo se transforma e a cada etapa haverá uma maneira especial
estruturas cognitivas que lá estão em seu interior, em seu SIstema cogrutlV~ e
de captar o objeto a ser conhecido e a educação deverá estar atenta a isto. que estas mesmas a~ões. ~orrespondem a significações tanto no sentl o
Devemos olhar e dar mais importância às estruturas que assimilam esses inteligente como no sImbolico. .
A cada açãohaver:a um esquema que lhe corresponde e que serIa
objetos, que a eles próprios,
informação. valorizando, assim, mais o pensamento que a
revelado por ela mesma. Haverá, então, sempre um conteúdo ~~e corres~o~~:
Com isto queremos dizer que a educação deverá se voltar à gênese dos mesma medida a esses mesmos atos. Isto quer dizer que ~ urna maq.
na . iI I b ue alem do maIS se
objetos "metabolizados" (assimilados e reconstruídos), dando, assim, justa que "pensa" um pensamento, que aSSim a, ~ a ora e q

34

35
Uma cxiucação para o próximo séculc
Afecividade & Inteligência

Para um belo e sedoso tecido é necessário um tear bem construído e um2


automodifica, se auto-estrutura, se reorganiza a serviço de um conhecimento
e de uma adaptação cada vez mais eficaz; de um real cada vez mais discriminado mão-de-obra especializada, apropriados para a delicadeza da confecção desse
e verdadeiro, mesmo estando a energética submissa a um mundo simbólico. fio. A matéria-prima é importante, pois é sobre ela que iremos trabalhar, ela,
Tentaremos mostrar agora, por meio de uma metáfora de transformação, porém, está lá à disposição na natureza. Não esquecendo que o homem sempre
que há um envolvimento de estruturas e de ações sobre o meio. Onde vemos uma marcou sua época histórica em função de como elaborou e transformou essas
transformação, lá existe uma ação que corresponde a uma operação mental que, matérias-primas. A capacidade de transformar um objeto sempre ficou
por sua vez, se funda sobre uma estrutura, um esquema, um sistema cognitivo. diretamente ligada ao conhecimento que se tem dele e ao desenvolvimento da
A coordenação das ações, do pensamento ou mesmo das operações inteligência que o manipula.
mentais, forma um sistema estruturado como uma espécie de máquina. Não podemos deixar de verificar que a elaboração de um objeto complexo,
Queremos dizer, com isto, que O pensamento é uma elaboração, uma como poderia ser o caso de uma nave espacial ou mesmo de um computador,
metabolização, o trabalho de uma máquina pensante sobre os elementos que resulta não somente de uma combinação de elementos elaborados, mas de
ela absorva e abstrai, os quais nos penetram por intermédio dos sentidos e são verdadeiras estruturas e microestruturas cada uma com suas leis que funcionam
paulatinamente trabalhados e construídos (via invenção e descobertas). obedecendo tanto às necessidades do produto como à natureza dos elementos
A metáfora que pretendemos elaborar é na realidade a análise de uma naturais ali engendrados. Eis aí o pensamento vivo e concretizado: se queremos
fábrica de produtos de consumo concretos com seu respectivo trabalho de ver concretamente o que é a inteligência, como atua e no que resulta, basta olhar
transformação das matérias primas em produtos finais. Focalizaremos nossa para os objetos (prédios, máquinas) que estão ao nosso redor e observar o trabalho
atenção sobre uma entidade fabril industrial, evidenciando que a fábrica por si imenso que o homem fez para aí chegar. Aqui temos um trabalho de invenções,
só é o continente, o loms de transformações específicas de matérias primas em descobertas, construções e adaptações ao mundo da cultura e suas necessidades,
produtos finais. Diríamos que este é o lugar onde serão introduzidas tais matérias transformando, sempre, natureza em cultura ou natureia em natureza aculturada.
primas fornecidas pela natureza, objetos disponíveis no próprio meio natural Essas imagens de invenções são a nítida expressão do pensamento do
Gá construídos pela própria natureza); que a indústria é o lugar que, ao absorver homem que transforma e reorganiza o produto sobre a matéria-prima, isto é,
essas matérias, tem por meta um trabalho de transformação, produzindo dessa assim como a mão atua sobre a natureza, o pensamento atua sobre as
forma os objetos para uma cultura com necessidades e consumos, formando informações fornecidas pela cultura, que nada mais são que a propriedade dos
assim um meio histórico construído pelo homem. Devemos admitir antes de próprios objetos. Imerso nas relações das leis da natureza, o pensamento é a
mais nada que o homem é a principal máquina de transformação. máquina transformadora por excelência, que, sobre os possíveis, vai em busca
Entre os objetos naturais ou seminaturais disponíveis na natureza e os de um necessário.
necessários de uma dada cultura, teremos a transformação que marcará a O pensamento vai sempre em busca da harmonia e de uma nova ordem
existência do homem. Entre um e o outro, teremos uma construção que possa satisfazer e solucionar os problemas de sua cultura nunca podendo
(transformação), auxiliados pela estrutura de uma máquina (instrumento), da ser alheio a sua natureza interna e externa. Os objetos finais dessa "fabricação"
mão-de-obra (a invenção) e da energia. Isto quer dizer que todo esse processo de nosso espírito respondem constantemente à solução de problemas que a
é o resultado de uma dinâmica de transformações, de invenções, de busca de vida nos impõe na trajetória do meio concreto em que vivemos. Resolvemos
soluções de problemas e de descobertas. Os objetos criados pela natureza problemas que poderiam traduzir-se como soluções de condutas num mundo
com o auxílio da energia solar e das estruturas bioquímicas nela encontradas moral, assim como os re~olvemos criando objetos necessários ao nosso mundo
com suas leis próprias, ficam à disposição do homem que, por sua vez, atuará cultural de necessidades.
sobre elas com S'las próprias estruturas cognitivas e energia afetiva. Teremos objetos, "soluções" para os homens, para a sociedade, para o
A transformação será tanto de melhor qualidade dentro de uma fábrica, conjunto da hwnanidade; são objetos de diversas naturezas e com diversos fins.
quanto mais perfeita for sua mão-de-obra e bem aperfeiçoadas suas máquinas.

37
36
Afetividade & Inteligência
Uma educação para o próximo século

Quando trabalhamos, resolvemos muitos problemas; quando inventamos


Ao responder a estas questões nos damos conta de que o mais importante
resolvemos problemas; quando damos um curso ou pintamos um quadro estamo; na educação é que a criança possa construir suas próprias máquinas de produção
seu:pre resolvendo problemas do nosso mundo interno e humano, sejael~estético e de transformação e que ela própria esteja segura de que pode ser proprietária
ou eoco o~ mesmo da h~rmonia que criamos e buscamos através da comunicação e construtora do seu próprio pensar. Como diz Piaget,
c~m o meIO.Isto quer dizer que nossas idéias, discursos e ações sobre o mundo
~ao sempre o pr~dut~ e o fruto de um intenso processo de transformação. o papel do mestre deve ser aquele de incitar à pesquisa, de fazer tomar consciência
erguntamos, entao, diante de tal metáfora: dos problemas e não aquele de ditar a verdade. Não podemos nos esquecer que
uma verdade imposta não é mais uma verdade: compreender é inventar e reinventar,
- QUAL SERIA A FUNÇÃO DA EDUCAÇÃO? e dar uma lição prematuramente é impedir a criança de inventar e redescobrir as
soluções por si mesma (1972, Discurso).
d . Seria por aca~o doar as matérias-primas ao nosso pensamento ou seria o
e aJud~ra constrUIr essas fabulosas máquinas do pensar' ou mesmo de d Ora, perguntamos se o objetivo da escola é o de criar simples máquinas
cada c 'd d . " ar a de repetição ou espíritos criativos e inteligências construtivas?
nança q~ant1 a es Imensas de objetos acabados (informações) para
que ela poss.a VIvercom u~ grande estoque desses elementos armazenados? Parece que a vida nos impõe continuamente novas construções. A escola
que aí .está deverá repensar a importância de uma educação que não poderá
Acreditamos qu_ea SImples e imensa quantidade de informações que a
c~ltura nos fornece, nao resolverá jamais as adaptações q~e necessitamos ara fundamentar-se apenas no fornecimento das matérias-primas, mas
principalmente, em como elaborar, metabolizar, e transformar essas matérias-
vIver.e ~ara.resolver os problemas da vida ou das relações. As encicloPé~ias
por SIsos, Jamais resolveram problemas. ' primas diante de problemas e necessidades. Esse processo é mais importante
. Necessitamos na verdade de máquinas pensantes suficientemente que a própria matéria-prima, porque as informações estão aí à disposição de
todos e de formas cada vez mais explícitas, próximas e ao alcance de todos a
~erfe~t~se capazes
ora leIto antes que possam criar relações construindo
ou pensado. - aquilo que jamais
qualquer momento.
A ~ida nos propõe atitudes de constante transformação, compreendendo Não dióamos que poderemos viver sem matérias-primas, mas a nossa
as necessIdades do momento e do tempo dos indiVI'd uos perante os problemas escola acredita fielmente já há séculos cluea simples informação poderia resolver
sempre novos que se apresentam. toda a questão.
Devemos admitir que a escola nunca nos induziu a analisar uma
A educaçã~ deverá ter uma certa sensibilidade com isso, pois quando
nos c~locamos. diante de uma criança devemos pensar em como pre ará-Ia informação, a decompô-Ia e jamais nos colocou em frente aos objetos para
~ara VIver.daqUIa vinte ou trinta anos. Não podemos encaminhá-Ia para~ ões que pudéssemos abstrair seus atributos e com eles trabalhar para a solução de
IOformaçoes e soluções que são válidas somente para hoje. ç , problemas.
A criança esta lá, diante de seus próprios problemas, nunca, porém,
I Perguntamos, então, se nossa consciência como educadores se propôs
a guma vez essa questão. daqueles que são mostrados pelos livros de matemática, física ou química.
Re~ortando.nos à metáfora enunciada anteriormente: Estamos sempre diante de problemas seja qual for a disciplina, não
.. Sera que ao fabricar um objeto para os dias de hoje o mesmo seria esqueçamos, porém, que jamais estes serão resolvidos com o discurso de nossos
válido para daqui a vinte anos? ' professores, mas sempre com a coordenação do nosso pensamento.
As máquinas, a mentalidade, as necessidades mudam, tudo enfim está Por exemplo: tomemos a geografia. Acreditamos ser uma disciplina que não
em c~~stante mudança. Então como podemos acreditar que as lições os apresenta muitos problemas para os alunos, pois não propõe exercícios, nem
incógnitas; ler, pensar um pouco e olhar um atlas, tudo nos parece muito
veXáli'~rdclclods
e ~s VInte
os aqUIa p~oblemas
anos? que estamos dando hoje às nossas crianças s~rão simples. Observamos, no entanto, que numa disciplina tão ingênua em
termos de dificuldades problemáticas estão encobertos grandes problemas.
38
39
Afetividade & Inteligência
Uma educação para o próximo século

~o~~::~:~:~~,
~:::::~:,:~::~~.'::~::
:~~'::
montar e coordenar em sua . _ bd~,::~
" !e'::;:';:~:O
er
um intestino que absorve as macromoléculas de proteínas, aminas, vitaminas
e leva alimento às células do corpo.
Assim como há instrumentos e estruturas que transformam o alimento
compreender a geografia? mente a orgamzaçao espacial, como poderá
Verificamos então que al di' lin para que o corpo possa dar continuidade a sua vida, assim também
nos vemos inserid~sou r:lacio~~o;u~r sep a nos interessa na medida em que encontraremos máquinas que transformam as informações e a isto podemos
estruturas es a . '. u mesmo por outro lado, quando possuímos dar o nome de "digestão da informação". Assim como a alimentação digerida
enten damos Pumço-temporaIs
. e, caUSaIS
,suficientes para compreendê-Ia. para que fará com que a célula contin~e sua vida dentro de um organismo complexo,
contendo países eC~~~I:n:~n:;~c;ssariO c~7reendê-Io espacialmente como assim nosso pensamento com as informações digeridas ,manterá também a
com ree did _ or um g o o terrestre. Um povo é sempre organização social que há entre o eu e o mundo externo.
e empfunn_
çao dO
eem funçao de suas
guerras' - relações
d - estabelecidasao longo de sua histo'n'a, Outro fator que acreditamos começará a pesar sobre a nova educação,
U. ' Invasoes,pro uçao de bens e comércio aí estabelecidos é o aspecto ecológico, pois' se abre uma nova consciência sobre o mundo. Isto
m no corre em relação aos altos e baixos das .
o conduzem. Não h'a pOSSI 'bili'dades de ser entenclid·
. montanhas e os. vales que quer dizer que o planeta e os animais que o habitam, ou seja, a parte viva que
I
relações contextuais que a ide tifi. ,a qua quer COIsasem as forma o contexto no qual vivemos, torna-se cada vez mais,.diante de nós, uma
que im n l~am, e pensar e estabelecer relações. Eis aí o entida?e a ser respei;:ada, assim como nós mesmos.
UPm°rtan~ processo
proressor de g educauvo:
fi' aprender
. a aprender e aprender a pensar . Acreditamos que a educação jamais nos deu consciência de habitarmos
alUI J ter coordenações e;gra ~a.JamaIspensaria que fosse necessário ao seu um planeta, vivo e pulsante, e estarmos imersos em uma natureza que
desenvolvimen '. spa:IaIs ou mesmo temporais ou até mesmo o deveríamos conservllr viva para dar continuidade a nossa própria vida.
substância e ba:~ pd:r:Igruumfipcaçoes
e rep~efisentaçõesque pudessem então dar Um novo nível de consciência pesa sobre nossa época, isto é, que este
ensar geogra lCO.
Quando poderíamos imagin . planeta tem uma vida própria (uma grande nave espacial caminhando pelo
distâncias e alturas fossem estrutu ar q~e.a geometna espacial, a percepção de universo) e em não havendo respeito, não poderemos conviver ou mesmo
simples geografia? Dizer cinco ~SAtao Importantes na c?mpreensão de uma continuar a nossa própria vida. Torna-se então, necessário considerarmos esta
nada, mas dizer oito quilômetro; d;~::~sdentre uma CIdade e. o~tra não é harmonia e continuidade que existe entre nosso corpo, seu interior e a natureza
que é a mais alta do mundo. e uma montanha sIgrufica dizer na qual estamos envolvidos.
A esta coordenação do pensam . . COMO FAZER ENTÃO PARA QUE POSSAMOS PROMOVER EM NOSSAS CRL~ÇAS
e relações é que deveremos da ~n.to com suas relatIvas SIgnificações
r a necessana atenç- N- d A CONsCltNCIA DE QUE DEVEMOS RESPEITAR o AR QUE RESPIRAMOS, OS ANIMAIS
preencher o aluno com um funil e atraves 'd' este Introd
ao. ao. pod eremos. t: entupir e QUE VIVEM A NOSSA VOLTA E A VEGETAÇÃO QUE PRODUZ OXIGtNIO PARA A
possíveis e depois deduzir I UZIrto as as Inrormações CONTINUIDADE DA VIDA?
num momento . _ que e e mesmo, tendo seu "estômago" repleto, possa
N' de avaliaçao saber pensar e resolver questões de conhecimentos Como dar essa consciência a essas crianças de tal contexto ecológico
os esquecemos que os alimentos ue 1 •
terrivelmente complexo?
somente após uma digestão e metaboli ~ co ocamQs na nossa boca,
Acreditamos serem fatores sobre os quais deveremos pensar
apropriados para esse fim alimentará t:1~0 adequada através de órgãos
continuidade da vida.' nosso corpo, promovendo a profundamente em termos de educação, pois não é suficiente a criação de
Portanto devemos d" t:
novas leis ou escrever "é pt;üibido" em cada canto, para que possamos implantar
digestã " '
1
Igenr, transLOrmar com nossas" maqUInas
,. de a clara visão dos valores ecológicos.
Pensamos que a criança deveria ter uma ligação cultural e educacional
que m;st'igCao~~::I::a~ ~:m~s~~t:agP:rq:árias ~dstruturas,o~ s.eja:uma boca
e agn e com os aCIdos e digere; com os animais e com os vegetais que aí estão, para nossa sobrevivênci.a.

tO

41

M
Afetividade & Inteligência
'",' Uma educação para o próximo século

É de certa forma até engraçado que a criança para tomar consciência do


A educação deveria fazer compreender, já durante a escola, qu: o
respeito para com a natureza devesse desde a mais tenra idade manipular conhecimento deveria colocar-se sempre ao nosso serviço (do homem), ISto
pequenas plantações Gardins, hortas etc.) e trabalhar com pequenos animais
ou, melhor dizendo, interagir familiarizando-se com este meio chamado é, um conhecimento a ser transformado em sabedoria. . .
Natureza e pouco a pouco criar uma representação com ela a qual mais tarde Há portanto, desta forma, uma transformaçã,o de obj.e~vos _educa.clon~s
poderia vir a respeitá-Ia. quando transferimos a ênfase que sempre d~mos as especI~zaçoes (blOlo~a,
Não é necessário dar-lhe um curso de biologia, nem de agronomia, nem geografia ou história) para a integração dos diversos campo~ do saber, ou seja,
compreender a vida e o desenrolar da história em sua totalidade.
mesmo de zoologia. Poderíamos colocar a criança em contato com seus próprios
interesses relativos à natureza, interesses válidos por si mesmos; colocaríamos Eis aqui uma mudança na perspectiva do conhecimento, quand~ nos
em interação essa criança com o meio natural constituído de plantas e animais perguntamos a que serve este objeto para mim. Há uma transformaça.o da
relação objeto-homem e do homem para si mesmo. O ponto de apoIO se
domésticos e aos poucos manteríamos um diálogo apresentando-lhe questões
transfere do objeto para o sujeito. . .
ou mesmo provocando diálogos e debates entre elas mesmas para que possam A nova educação consideraria o sujeito como sendo mais Importante
chegar a conclusões sobre os porquês do respeito à natureza se quisermos
continuar a viver saudavelmente. Isto quer dizer que a 'ecologia neste instante que o objeto, isto é, o objeto só valeria enquanto funcionasse. para ~ homem.
Quando o homem estabelece uma relação, ou seja, entra em tnteraçao com o
passaria a ser mais uma "ecologia de respostas" que busca a harmonia de todo o
planeta e que ao mesmo tempo responderia à continuação da vida do homem objeto, o que importa é a interação que se estabelece, como .0 homem atua
sobre esse objeto e que respostas ele mesmo obtém deste objeto ou mesmo
sobre a Terra, isto é, uma bio-ego-eco-harmonização.
A ecologia passaria via educação a ter um signijicado' de que ela não existe que uso ele faz dele. . _ .
Queremos dizer que a ecologia pela ecologta nao tem nenhum valor,
somente lá onde a deverei respeitar, porém, existe aqui no respeito que deverei ter por mim
mesmo.
porém, a ecologia para o homem tem um valor pre:iso, pois este f~z p~~e
dela. Na educação tradicional o que temos observado e que o homem e satelite
Se temos o desejo de dar continuidade à espécie à qual pertencemos; se
do objeto e este é mais importante que o homem, encontrando-se num
a criança tiver consciência de que a Natureza que se encontra fora dela nada
verdadeiro altar. .
mais é do que a continuidade daquela que possui em seu interior, então, ela O renas cimento da educação se fundamentaria provavelmente nos
poderá vir a tomar consciência de que a contaminação que colocamos no ar,
nas plantas ou na água, pert"ence à mesma contaminação que poderemos sofrer princípios da educação grega, em que o homem é mais importante ~ue o objeto;
quando ingerirmos tóxicos ou drogas. A educação deveria fazer compreender O objeto estará lá para ser construido pelo ser e este so se tur?ara
importante na medida em que valorizar a ação do homem, quando podera ser
que se podemos st:.jar o meio em que vivemos do ponto de vista externo, parte dele e estar a serviço dele.
então poderemos da mesma forma fazê-Io com nossos órgãos, contaminando-
Acreditamos que estamos no átrio de uma nova e profunda transforma
os com as drogas ou mesmo com alimentos inadequados.
Não poderíamos dar continuidade ao nosso sistema vivo senão ção da educação e que nos cabe a responsabilidade de iniciar esse tra?alho,
pois 'hoje somos conscientes de que a Terra deixou de ser o centro do uruverso
preservando-o; tanto o nosso mundo interno biotlsiológico, quanto o contexto
em que vivemos na Natureza. já há muito tempo ...

A educação não deveria ter como objetivo o conhecimento pelo


conhecimento, ou mesmo, o conhecimento como cultura geral, ou mesmo com
vistas cultura.
nossa a uma profissão qualquer totalmente desligada de nós mesmos e de

42
43

Você também pode gostar