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O ENSINO DO FOLCLORE NAS ESCOLAS: A PERSPECTIVA DE

DOCENTES DOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Fábio Kravec Gonçalves1 - UNESPAR


Edilene Hatschbach Graupmann2 - UNESPAR

Eixo – Sociologia da Educação


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo
Tomando como proposito o estudo do folclore nas escolas de anos iniciais do ensino
fundamental, a pesquisa visa mostrar os olhares dos professores acerca do ensino das
características folclóricas que podem ser levadas à sala de aula como proposta metodológica,
prática, de conteúdo pedagógico e de possibilidade de trabalho para a aprendizagem.
Elencado o que é o folclore, sendo a cultura implícita e caracterizadora de um povo, utilizou-
se as respostas obtidas através de questionários entregues em duas escolas de uma cidade do
sul do Paraná para criar um elo entre a prática e a teoria, esta apresentada por bibliografias de
autores como Megale (2003), Brandão (1984), Cachambu et.al. (2005), entre outros, fazendo
uma ponte entre o que já encontramos com o que ainda precisamos reforçar para que o ensino
do folclore se consolide de maneira mais aprofundada. Assim, observou-se que os professores
sabem o que é a ciência do povo, mas de maneira superficial, ou seja, reconhecem algumas
manifestações, conteúdos, características e maneiras de utiliza-las na sala de aula, mas não se
ampliam para fazer os alunos se inserirem nos contextos culturais que abrangem a temática.
Por exemplo, percebeu-se uma falha no trabalho com obras de arte e suas ramificações, visto
que no Brasil é vasta a criação artística de cunho folclórico, tanto pela história, quanto pela
relação cultural de diversas regiões. E neste como em outros pontos vistos no estudo, precisa-
se que o reconhecimento do folclore seja levado à escola como algo pertinente no meio social
que a instituição, os alunos e a demais comunidade escolar está inserida e que todos
vivenciam estes processos, necessitando do entendimento destas características.
Palavras-chave: Folclore. Ensino. Prática docente. Anos Iniciais.

Introdução

Com o intuito de analisar práticas folclóricas e reconhecer a sua importância de


estudo nas escolas, a pesquisa aqui proposta coloca os professores dos anos iniciais do ensino
fundamental como mediadores do ensino desta característica cultural nas instituições.

1
Acadêmico de Pedagogia na Universidade Estadual do Paraná – Campus de União da Vitória. E-mail:
f.kravec@yahoo.com.br
2
Mestre em Educação: Educação e Ensino pela Universidade do contestado/UNC. Professora do curso de
Pedagogia da Universidade Estadual do Paraná – Campus União da Vitória. E-mail: edihgrau@yahoo.com.br

ISSN 2176-1396
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Reconhecendo o folclore, é possível perceber que com o que lhe engloba há muitas
possibilidades de realização de práticas pedagógicas dentro de sala de aula. Se o professor
sabe sobre a temática, explora a mesma e faz das aulas mais vantajosas, tanto para suas
metodologias didáticas, quanto para o aluno e suas aprendizagens.
Neste sentido, pensou-se em buscar nos docentes seus olhares para o folclore, mas
não apenas o que eles reconhecem sobre este, e sim como o conteúdo se aplica na escola e se
é sabível a importância da mediação do mesmo, bem como de que maneira a comunidade
participa juntamente com a instituição.
Com a utilização de um questionário entregue em duas escolas de uma cidade da
região sul do estado do Paraná, obteve-se algumas respostas para as perguntas que
direcionaram os objetivos deste estudo, indo de encontro à bibliografia que conseguiu criar
um elo entre teoria e prática.
Objetivou-se, ainda, entender quais as dificuldades dos docentes para trabalhar o
folclore e tudo que lhe engloba, tentando preencher as lacunas com autores que trabalham a
temática, levando ao reconhecimento do realizado e do possível dentro do pátio escolar.
Assim, com este estudo, sabendo que a escola é parte da sociedade e importante para
debate e aprendizagem de conteúdos nela encontrados, chega-se a algumas conclusões sobre
qual caminho já temos e o que precisamos para melhorar o trabalho e o ensino do folclore nos
anos iniciais do ensino fundamental.

Entendendo folclore e suas aplicações

Entender sociedade como agrupamento de cultura, linguagem, costumes, instituições


sociais e conteúdos que agrupam sujeitos para que se sintam inseridos e parte de um social, é
compreender que os indivíduos se adaptam a determinadas cargas de conhecimento e
construções que permeiam na formação do meio que vivem.
Englobando o homem, peça chave para que os processos sociais aconteçam, é
repassado uma carga de conceitos que podem ser transformados por ele mesmo e que o
inserem num processo de transição de individuo – sociedade – individuo, como modo de vida
social.
Dentre várias características possíveis para entender o sujeito como participante do
que lhe envolve, as manifestações culturais tomam grande importância. Das danças, comidas,
linguagens, costumes, tradições, crenças que caracterizam grupos, o folclore faz parte desse
conjunto, possibilitando a ligação histórica com suas influências vivenciadas hoje.
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O folk-lore, termo designado por William John Thoms, tem como significância o
entender processos de cultura do conhecimento de um povo, levando em conta a perspectiva
de Megale (2003, p. 11), “[...] folk, significando povo, e lore, que quer dizer conhecimento ou
ciência. Portanto, o folclore pode ser definido como ciência que estuda todas as manifestações
do saber popular. ”
Contudo, o reconhecimento da ciência do povo como parte importante do saber
social não é algo novo. Quando se percebeu que estamos condicionados a determinados
costumes, iniciaram pesquisas sobre as diversas influências no ser humano. Gomes (2008,
p.48) diz que o “folclore já foi visto como uma ciência humana, um ramo autônomo da
Antropologia. Significava a pesquisa, a descrição, o registro e a sistematização dos costumes
populares, rurais, em geral. ”
Assim, como estudo de um povo, tornou-se ponto de análise de diversas áreas de
conhecimento, seguindo vários caminhos até chegar ao que se reconhece hoje, dando rumos
aos pensamentos culturais.

Muito antes de haver surgido o nome “folklore”, havia historiadores, literatos,


músicos eruditos, arqueólogos, antropólogos, antiquaristas, linguistas, sociólogos,
outros especialistas e alguns curiosos estudando os costumes e as tradições
populares, a que mais tarde se deu o nome de folclore. (BRANDÃO, 1984, p. 26)

Sendo caracterizado como costumes e tradições, os pontos de partida são os resgates


históricos e a observação de práticas sociais contemporâneas que tem suas raízes em alguma
fonte antiga, não sendo suficiente partir do agora para suprir o mesmo. Frade (1997, p. 22)
completa que “[...] vários folcloristas consideram quatro os principais elementos definidores
do Folclore: a antiguidade, também chamada de tradição, a persistência, a oralidade e o
anonimato. ” Quando percebidos os elementos, cria-se o folclore, que pode ser percebido e
vivenciado em qualquer meio social.
Para isso, busca-se a história do conteúdo pesquisado e quais seus aspectos
determinantes, como ele se solidificou no contexto a partir do compartilhamento de sujeito
social para outros e se há ou não um criador e mantedor de tal.
Ainda se completa este pensamento utilizando Marconi e Presotto (1985) onde diz
que estudar cultura folclórica é entender fatos que permanecem no seio do povo mesmo com a
passagem do tempo, voltando os olhares à necessidade do estudo da história para que isto seja
possível.
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E permanecendo com o povo, tornam-se parte deles. Se há o processo de relação


social, de vivência e de convívio, fica sabível que não há povo sem cultura e sem folclore.
Mesmo que sejamos subjetivos, ainda estamos inseridos em um todo e “isto porque tudo
aquilo que, existindo como forma peculiar de sentir e pensar o mundo, existe também como
costumes e regras de relações sociais. ” (BRANDÃO, 1984, p. 30).
Em suma, o folclore cria um significado único a um povo e todos os seus festejos,
alimentações, crendices, bem como as lendas e histórias contadas de geração para geração.
Fazendo parte do grande âmbito cultural, caracteriza grupos e suas relações, pois cultura,
desse modo, é “tudo aquilo que o homem vivencia, realiza, adquire e transmite por meio da
linguagem. ” (GOMES, 2008, p. 35).
A linguagem aqui entendida é toda a forma de expressão: danças, a comunicação
oral, a escrita, o desenho, as manifestações subjetivas ou de grupos e a música. Dentre outras,
partem de emissor para receptor e se fortificam na sociedade. Ou seja, parte do mais velho ao
mais novo, do já constituído ao que se encontra em processo de formação.
Entende-se também que a cultura no geral é criada automaticamente e de maneira
não-intencional, bem como a “ciência do povo”, que se aplica no contexto. Há, também, por
questões sociais pertinentes e imutáveis, a necessidade do folclore. A caracterização de uma
sociedade é algo que lhe torna única, indo de acordo com Frade (1997, p. 18) que diz:

[...] elementos folclóricos [...] passam a agir [...] como um dos veículos de
uniformização dos padrões de comportamento, contribuindo para tornar possível a
vida em sociedade, criar uma mentalidade característica dessa sociedade tomada
como um todo, pelo menos quanto aos seus valores essenciais, e perpetuar a
configuração sociocultural em que esses valores são integrados.

Neste sentido, o ser folclórico é o ser que vive em sociedade e que segue mediações
do próprio meio, que se insere nas características que o social lhe impõe e que o acompanha
do seu nascimento até o fim da vida, enfatizado por Megale (2003, p. 12) que diz que “o
folclore, apesar de não percebermos, acompanha a nossa existência e tem grande influência na
nossa maneira de pensar e agir. ” Assim, os indivíduos são guiados pela sociedade, fazendo
dos mesmos inseridos no seu meio.
A participação do indivíduo no meio folclórico que vive e o reconhecimento das
manifestações pertinentes nestes contextos é garantido como direito pela Constituição Federal
que expressa em seus artigos 215 e 216 o seguinte:
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Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso
às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das
manifestações culturais. Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens
de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto,
portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira nos quais se incluem:

I - As formas de expressão;

II - Os modos de criar, fazer e viver;

III - As criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV - As obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às


manifestações artístico-culturais;

V - Os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,


arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. (BRASIL, 1988)

Sujeitos sociais e culturais, vivemos de maneira constante na sociedade com todas as


ramificações nela encontradas e o folclore se insere neste agrupamento como característica
subjetiva de regionalidade e proporciona conceituações aos indivíduos participantes do
processo. Assim, a sociedade só existe pelos homens e o folclore provem da vivência social
como reflexo do contato de sujeito para sujeito, seus atos e o que lhe caracterizam.
Para tornar mais claro e fazer os cidadãos observarem e estabelecerem maiores
vínculos com o folclore brasileiro cria-se o dia do folclore, 22 de agosto, onde as
características culturais do povo são estudadas de maneira mais festiva, principalmente nas
escolas, trazendo um conteúdo ampliado de sociedade para aluno/sujeito social.

Folclore e a escola

A escola se insere na sociedade acolhendo tudo que lhe abrange, incluindo aí as


culturas e o folclore. Tendo como objetivo a educação formal, de maneira científica e
elaborada, trabalha com os estudantes da instituição o que pode ser encontrado no meio em
que vive.
Como conteúdo implícito fortemente no contexto escolar, visto que a diversidade
humana participante da educação formal é infinita e as políticas educacionais conceituam o
direito e o dever de se reconhecer as diferenças, o folclore como manifestação social deve ser
considerado como ponto de grande importância na elaboração de planejamentos.
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Sabendo das várias possibilidades para trabalhar qualquer conteúdo em sala de aula,
planejar de maneiras diversificadas atividades que levem os alunos a entender processos
culturais é papel do professor. O folclore, por si só, compreende um amplo campo de
manifestações. Ora, como dito, as festas, músicas, danças, textos, e quaisquer outras
características que possam mesclar história com o contemporâneo e surgir efeito implícito no
povo, pode ser considerado folclore.
Cachambu et.al. (2005, p. 56) coloca que:

Primeiramente há diversão nas atividades folclóricas: os jogos, brinquedos e


brincadeiras são atividades básicas que, por um lado, contribuem para o
desenvolvimento físico, motor, emocional e social do indivíduo e, por outro, podem
servir como uma espécie de laboratório onde se praticam e se aprendem as regras da
sociedade com a qual vivemos e para a qual devemos apresentar a nossa parcela de
contribuição aprendendo a agir com um ser social que coopera e sabe competir.

Se então o papel da escola é ensinar, elaborar planejamentos, projetos, objetivos para


determinada temática incluindo diversas características pedagógicas, além de ampliar o
repertório de atividades, haverá aprendizagem em sua totalidade no educando.
E se faz necessário aprender na escola a formação do meio que se insere e as diversas
outras formações culturais que permeiam na sociedade. No Brasil, país onde a grande
diversidade cultural é reconhecida, é preciso aprender ainda mais sobre as diferenças, levando
ao entendimento da miscigenação e indo contra qualquer possiblidade de xenofobia. Assim,
“o mundo do folclore é atraente, rico e variado, por isso constitui uma fonte inesgotável de
motivação didática. ” (MEGALE, 2003, p. 132).
É possível, ainda, enfatizar:

Muitas ciências, disciplinas e artes estão intensamente ligadas ao folclore, e assim o


ensino primário dele pode e deve servir-se, como excelente meio de transmissão de
conhecimentos, ao mesmo tempo revelador da cultura do povo (MEGALE, 2003, p.
133).

Com isso, se percebe a transversalidade do trabalho folclórico em sala de aula, sendo


a cultura no geral neutra e possível de adaptação para diferentes estudos e trabalhos docentes,
indo de encontro a qualquer disciplina planejada para diferentes turmas de conteúdos
subjetivos e possibilidades distintas.
Fica sabível ainda que os rumos do conhecimento científico tomaram partida do
conhecimento do povo. O senso comum, assim denominado, tem uma carga de saber sobre as
coisas a partir do contato com o seu meio. As pessoas aprendem vivendo. O folclore, então,
sendo parte da cultura social e esta compreendendo o saber, nos volta ao conhecimento da
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ciência para entender e explicar de forma elaborada o que se vivencia, mas as respostas para
possíveis perguntas sobre o conhecimento cultural folclórico são embasadas no que já foi
descrito, ou seja, são peças de formação social humana.
Partindo desses conceitos, agora direcionando olhares para as instituições de ensino,
percebemos algumas quebras entre o entendimento do que é o folclore e o que se estuda na
sala de aula sobre este assunto. Cachambu et.al. (2005, p. 55) diz que “há uma falta de
conhecimento por parte dos professores, diretores e corpo docente sobre a especificidade do
tema” e o que não é de conhecimento da comunidade escolar dificilmente será aplicado
corretamente no mesmo âmbito. E é preciso reconhecer as dificuldades para sana-las,
trazendo novas expectativas e mudanças para o campo educacional.
Tendo como base a descrição do significado a respeito do folclore, se ficar
compreendido que todos os costumes, até mesmo os vistos na escola, são de origem cultural,
haverá melhor presença de trabalho sobre os temas que competem.

Os professores e o ensino sobre o folclore

Tendo como objetivo principal analisar a visão de professores de anos iniciais do


ensino fundamental acerca do folclore, um questionário com perguntas abertas e descritivas
sobre a visão dos docentes ao folclore foi criado.
As perguntas elencaram alguns pontos mais conhecidos do folclore, como quais
personagens são os mais conhecidos, quais as manifestações culturais na escola e demais
comunidade escolar que coloquem o folclore como temática, o que seria o folclore e qual a
importância do seu trabalho dentro da instituição escolar e a última pergunta foi criada para
deixar os professores livres para escreverem considerações que achassem necessário para
contribuir com a pesquisa.
Entregues em duas escolas de anos iniciais do ensino fundamental da região sul do
estado do Paraná, o estudo levou a trazer dos docentes como eles mesmos entendem as
manifestações folclóricas e tudo que lhe envolve.
Não foram muitos os resultados obtidos, isto porque em uma escola era semana de
prova e apenas três professores encontraram tempo para responder os questionários. Em outra
instituição, o retorno das perguntas demorou mais tempo, mas os dados respondidos servem
para ter uma ideia do que se espera com a pesquisa.
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Seguindo uma linha de questionamentos, a primeira pergunta seria relacionada ao


reconhecer o real sentido do folclore. Para análise das respostas podemos utilizar a visão de
Brandão (1984, p. 23), que diz:

Na cabeça de alguns, folclore é tudo o que o homem do povo faz e reproduz como
tradição. Na de outros, é só uma pequena parte das tradições populares. Na cabeça
de uns, o domínio do que é folclore é tão grande quanto o do que é cultura. Na de
outros, por isso mesmo folclore não existe e é melhor chamar cultura, cultura
popular o que alguns chamam folclore.

Para os professores entrevistados através do questionário entregue em duas escolas


de uma cidade do sul do Paraná, as perguntas variam em conceitos que se aproximam de
Brandão e outros autores já citados e outros que seguem outras linhas de pensamento.
Os professores entrevistados que colocaram respostas complementadoras ao estudo
serão descritos como professor Um, professor Dois, professor Três e assim por diante, para
que seja possível um parecer mais subjetivo das respostas sem a quebra do anonimato.
Assim, os professores Um e Dois elencaram que o folclore é passado de geração para
geração, completado pelo um e cinco que suas características são vistas em manifestações na
sociedade. O professor Três corrobora com o reconhecimento das manifestações e completa
lembrando-se das tradições, crenças, lendas, canções, danças.
Se evidenciado o conceito de folclore já descrito nesta pesquisa, fica claro que os
professores têm uma base de conhecimento sobre a temática. Ora, sabendo o que é, o ‘o que
fazer’ está próximo. Sabendo o que fazer, o estudo folclórico na sala de aula se torna amplo e
com várias possibilidades. Entretanto, um dos professores colocou que o folclore são fatos
que fizeram parte de uma cultura popular de regiões. Nota-se que é preciso reconhecer que o
folclore é agora, ou seja, ele se modifica e caracteriza o hoje, tomando novas características e
perdendo umas na história. Cachambu et.al. (2005, p. 57) ilustra que “é importante ressaltar
que os fatos folclóricos não são estáticos; pelo contrário, estão em constante transformação. ”
Mas para que se ensine o folclore na sala de aula, é preciso reconhecer o qual a
importância da apresentação e mediação deste conteúdo como meio didático e pedagógico.
Neste sentido, perguntou-se aos professores qual a importância dada para o estudo da
temática.
Alguns professores colocaram que o folclore ajuda na alfabetização e no letramento,
visto o acervo rico em textos, memórias que existem nesse tema. Outros disseram que estudar
o tema faz os alunos entrarem em contato com suas raízes e outras culturas. De fato, se for
explorado, não só para o letramento ou, como disse outra professora, para ajudar no ensino e
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na aprendizagem na Educação Infantil, ou ainda para conhecer a diversidade cultural, é


possível realizar o trabalho com muita atividade diferenciada.
A resposta pode ser completa com a perspectiva de Megale (2003, p. 19) que
corrobora:

A pedagogia tem como objetivo principal o de fazer com que a criança siga o ritmo
espiritual de seu povo e alcance uma compreensão melhor da comunidade em que
vive. O estudo do folclore em si contém preciosos ensinamentos que devidamente
selecionados e aproveitados serão de valor inestimável na educação do povo.

A resposta do professor Dois que lembrou da educação infantil abre um novo


caminho para a pesquisa. Mesmo que o foco seja os anos iniciais do ensino fundamental, as
temáticas podem abranger toda e qualquer série do sistema de ensino, desde educação infantil
(obrigatório para crianças a partir de quatro anos de idade) até o ensino médio, visando um
pleno conhecimento do estudado, adaptando para as faixas etárias e níveis de conhecimento.
E seguindo esta ideia, os docentes e instituições de ensino em geral podem trabalhar
com projetos, semanas pedagógicas, oficinas, aulas temáticas, exposições, comemorações ou
qualquer meio que faça o aluno entrar em contato ao proposto de maneira significativa para
que haja aprendizagem.
A pergunta seguinte do questionário indagou os professores sobre quais personagens
folclóricos eles conhecem e os mitos e lendas mais pertinentes quando exploramos a temática
apareceram. São eles o Saci-pererê, Iara, Boto cor-de-rosa, mula-sem-cabeça, Curupira e
Boitatá. Para Megale (2003), estes seres são mitos, nos quais são símbolos e características,
que tem em seus fundamentos manifestos que dão exemplo ou temor às pessoas de tribos e
povos. A autora ainda completa que os mitos mais conhecidos são “Saci, Lobisomem,
Curupira, Boitatá, Mula-sem-cabeça, Corpo-Seco, etc.” (MEGALE, 2003, p. 49), como
citados pelos professores.
Todavia, é preciso reconhecer a grande abrangência do que se denominam
personagens folclóricos. Ou seja, sabendo que a cultura popular de cada região “cria” e vive
histórias onde mitos e lendas são subjetivas e caracterizam estes lugares, é preciso ir além do
Boitatá, da Mula-sem-cabeça, do Curupira e outros personagens já fixados no folclore de
maneira geral.
Se estudados os personagens regionais, é possível fazer as crianças reconhecerem
ainda mais onde e o que vivem, chegando mais próximo do objetivo do estudo deste âmbito
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da cultura, que é fazer cada vez mais os alunos entenderem o seu meio para fazer que então
descubram as formações sociais que caracterizam seu povo.
E como o folclore é trabalhado? A pergunta teve respostas fechadas com
possibilidade de complementação discursiva. Textos, Dobraduras, Obras de arte, Jogos e
brincadeiras, músicas, filmes e vídeos, festas dentro e fora do ambiente escolar
proporcionadas pelas instituições foram as respostas que poderiam ser assinaladas.
A opção obras de arte foi a menos marcada, tanto porque não se reconhece o grande
valor artístico que representa o folclore quanto falta o acesso para que este meio de conteúdo
de ensino seja explorado.
As obras de arte podem ser trazidas de grandes artistas para a sala, mas também
produzidas com as crianças como prática metodológica na classe. Ora, se na resposta anterior
as professoras responderam nomes de vários mitos folcloricamente conhecidos, por que não
os explorar e estimular a criatividade com obras artísticas?
E falando de obras artísticas, não podemos prender-se a somente quadros ou
imagens, isto porque o vasto conteúdo do folclore brasileiro nos dá a oportunidade de
trabalhar com artesanatos, cerâmicas, bijuterias e outros objetos que fazem parte desse
movimento cultural. Para isto, podemos seguir a ideia de Megale (2003, p. 120), que coloca:

Tanto a arte como os artesanatos folclóricos nacionais são ricos em suas variedades,
visto que, além dos elementos formadores de nossa nacionalidade, fomos
colonizados por povos provenientes de todos os quadrantes da Terra e em vários
estados brasileiros eles constituem a técnica de subsistência de populações inteiras,
como no Nordeste. Muitas vezes a aparência dos objetos entra em conflito com os
nossos preconceitos artísticos, mas precisamos lembrar que eles são o retrato do
nosso povo, que coloca em sua confecção grande parte de sua vida e de suas
esperanças, demonstrando muitas vezes peculiaridades regionais.

Assim, a arte está inserida no folclore brasileiro historicamente, sendo necessário que
os professores compreendam esse grande número artístico e levem à sala de aula para estudo e
mediação. Já nos outros itens que podiam ser assinalados pode-se perceber que todos os
professores trabalham com produções textuais, jogos e brincadeiras e músicas de cunho
folclórico.
Para Brandão (1984, p. 35), “[...] são propriamente folclóricas as toadas, cantos,
lendas, mitos, saberes, processos tecnológicos [...]” e tudo se torna conteúdo de grande valia
aos alunos, possibilitando então se aproveite e aprenda mais conteúdos sobre o tema estudado.
A penúltima pergunta do questionário, depois de obter dos professores qual a
necessidade do trabalho com o folclore, o significado e como é trabalhado, foi a de citar uma
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manifestação folclórica mais pertinente no ambiente escolar e no meio social que a instituição
está inserida.
Um dos professores respondeu que as superstições e simpatias do povo são relações
folclóricas encontradas nesse contexto de escola e sociedade. Já outros lembraram que as
festas juninas com todas as suas características são comemoradas e muito trabalhadas em sala
de aula com música, dança, comidas típicas, entre outros. Outro docente não respondeu.
As festividades são sim um tipo de manifestação folclórica, incluindo aí a festa
junina. Ora, tem todo um pacote de costumes que é representado e fortificado nas
comemorações de São João. Para Megale (2003, p. 65), “as grandes festas populares estão
geralmente ligadas à religião e ao trabalho. ” E São João, Santo Antônio, Dia da padroeira,
são alguns exemplos a ser citados.
E as escolas devem trabalhar com estas festividades, que além da festa junina podem
ser o carnaval, a páscoa, o natal, o ano novo, dias do pai, da mãe e da criança etc. Porque tudo
faz parte da cultura e a cultura deve ser estudada como prática constante no meio social
reproduzido na instituição escolar.
Já a última questão entregue aos professores, que vai de encontro a todas as outras já
elencadas, foi totalmente aberta, possibilitando que os docentes contribuíssem com a pesquisa
de forma livre, abrindo espaço para sugestões e ideias, críticas e qualquer outra nota
construtiva.
Infelizmente nenhum professor se pronunciou. Os campos de preenchimento ficaram
vagos e é nesse ponto que precisamos focar: as respostas anteriores tiveram uma linha para
ser respondida, estas sendo sobre personagens, tipos de práticas pedagógicas, manifestações
folclóricas e até mesmo sobre o folclore. Já esta não.
Se contribuído com a pesquisa, seria possível perceber que eles sabem mais do que o
já esperado, abrindo caminhos para o estudo e mostrando que reconhecem o valor folclórico
por mais perspectivas. Entretanto, ficou falho, mostrando que se faz necessário sim levantar
apontamentos folclóricos com mais frequência com os docentes.
Em nenhuma das respostas foi citado o dia do folclore (22 de agosto) e como ele é
utilizado para dar mais forças a esta temática de ensino. Não que seja necessária a data, pois,
como visto, o tema pode ser trabalhado em qualquer dia do ano, dependendo da organização
docente acerca do seu planejamento, contudo, o dia existe para lembrar ainda mais que a
sociedade tem várias caracterizações culturais que devem ser lembradas como formação do
seu povo e estilo de vida.
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Considerações finais

O caminho para o ensino das manifestações folclóricas já tem um longo percurso


andado, pois há o reconhecimento do que precisa ser estudado e que são várias as
possibilidades para que o trabalho em sala de aula seja válido, entretanto ainda se faz
necessário que um aprofundamento do conteúdo da temática seja estudado, que é vasto e
muitas vezes não explorado em sua totalidade.
Os autores utilizados para dar complemento às perspectivas dos docentes dos anos
iniciais do ensino fundamental mostraram a essência folclórica que vai ou não de acordo com
os professores, em diferentes perguntas, deixando mais claro o reconhecido e o que não é
sobre a temática.
Entende-se, também, que o folclore é a ciência do povo e com ele podemos explicar
características sociais pertinentes no âmbito social que consequentemente são encontradas na
escola, visto que a instituição faz parte e reflete o encontrado na sociedade.
Assim, a escola precisa trabalhar com o folclore, tanto para seus alunos quanto para a
comunidade escolar em geral, pois é nela que os indivíduos aprendem formalmente vários
conteúdos e tem a possibilidade de fazer uma reflexão sobre suas vivências subjetivas e/ou
coletivas no seu meio.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.

CACHAMBU, Adriane et al. O folclore e a Educação. Cadernos FAPA. Porto Alegre, v.1,
n.1, p.53-59, 2005. Disponível em: <http://www.portal.educacao.salvador.
ba.gov.br/site/documentos/espaco-virtual/espaco-escola/apoio/Folclore-e-educacao.pdf>
Acesso em: 23 mar. 2017

FRADE, Cáscia. Folclore. 2.ed. São Paulo: Global, 1997.

GOMES, Mércio Pereira. Antropologia: ciência do homem: filosofia da cultura. 1.ed. São
Paulo: Contexto, 2008.

MARCONI, Marina de Andrade. PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma


introdução. São Paulo: atlas, 1985.

MEGALE, Nilza Botelho. Folclore Brasileiro. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 2003.