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EAD

Diálogo entre a Religião e


a Ciência

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1. OBJETIVOS
• Compreender as especificidades entre Religião e Ciência,
bem como as principais contribuições de cada uma no
campo do saber.
• Interpretar a autonomia de cada campo do conhecimento
e buscar um diálogo efetivo entre ambas, sem partir de
apriorismos e posições fechadas.
• Analisar o processo de secularização e seus desdobra-
mentos, o encontro da ciência com a religião, as princi-
pais fases de relacionamento entre ambas.

2. CONTEÚDOS
• Religião e ciência.
• Processo de secularização.
• Quando a Ciência encontra a Religião.
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3. ORIENTAÇÃO PARA O ESTUDO DA UNIDADE


1) Para saber mais sobre o período da Idade Média, sugerimos que
você pesquise sobre Jacques Le Goff, um Importante historiador
da Idade Média, que escreveu várias obras importantes, dentre as
quais destacamos:

LE GOFF, J. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média.


Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2007.

______. A civilização do Ocidente medieval. Tradução de Manuel


Ruas e José Rivair de Machado. 2. ed. Lisboa: Estampa/EDUSC,
2005. v. 1.

______. A civilização do Ocidente medieval. Tradução de Manuel


Ruas. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1995. v. 2.

______. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier.


Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2007.

LE GOFF, J.; MONTREMY, J. M. de. (colaboração). Em busca da Idade


Média. Tradução de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2005.

LE GOFF, J.; SCHMITT, J. C. Dicionário temático do Ocidente medie-


val. Tradução de Hilario Franco Junior. São Paulo: Imprensa Oficial
do Estado/EDUSC, 2002. v. 1.

______. Dicionário temático do Ocidente medieval. Tradução de Hi-


lario Franco Junior. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/EDUSC,
2002. v. 2.
2) Para aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto
aqui abordado, sugerimos que você pesquise sobre Wil-
liam James (1842-1910). Ele foi um filósofo norte-ame-
ricano que fundou o primeiro laboratório de Psicologia
em Harvard, em 1876, e é o defensor do pragmatismo,
que se trata de uma concepção filosófica fundamentada
nos valores práticos, imediatos, utilitaristas. Podemos
afirmar que esse é um dos valores preponderantes da
sociedade atual, que adota o que se pode denominar
“valores descartáveis”, utilitários e imediatistas.
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4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Na Unidade 4, tivemos a oportunidade de conhecer o ponto
de partida da Bioética moderna, além de analisarmos a Bioética e
a interdisciplinaridade, bem como suas fronteiras epistemológicas.
Com tais conhecimentos, iremos, nesta unidade, aprofundar
nossos estudos e aprender sobre o diálogo entre religião e ciência,
bem como o processo de secularização.
Bom estudo!

5. RELIGIÃO E CIÊNCIA
Até agora, tangenciamos a temática do diálogo entre religião
e ciência. Vamos, então, aprofundar um pouco mais esse proble-
ma.
Durante todo o percurso do conteúdo que trabalhamos até
agora, você percebeu que a Bioética provoca dois sentimentos
contraditórios nas pessoas: ou de fascínio ou de repulsa.
A primeira tendência, que tem uma ala significativa, apoia-
-se na concepção pragmática que defende que tudo pode ser feito
desde que traga benefícios e melhoria para os seres humanos. É
pensar que, quase como num passe de mágica, os problemas po-
derão ser resolvidos pelos avanços da ciência e da tecnologia.
A segunda tendência (que tem muitos adeptos) é a da re-
cusa na discussão de qualquer tema que envolva a eutanásia,
o aborto ou a clonagem, no sentido de posicionar-se contra a
adoção de experiências que se relacionam com a vida e a morte
do ser humano.
O diálogo entre a ciência e a religião é um tema complexo e
abrangente e requer uma análise histórica contextual ampla para
abranger as diversas dimensões que precisam ser consideradas no
caso.

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Comecemos com as chamadas religiões históricas: o Judaís-


mo, o Islamismo e o Cristianismo. Estas são instituições milenares
que nasceram, expandiram-se e consolidaram-se em quase todas
as regiões do mundo. Os seus adeptos e seguidores baseavam a
sua vida num corpo doutrinário, nas tradições, nos símbolos, nos
princípios e valores que cada uma delas pregava e cultuava.
Essas religiões, com ênfase no Cristianismo, tornaram-se ins-
tituições fortes, influentes, diríamos, mesmo, hegemônicas. Elas
são portadoras de uma cosmovisão própria, têm regras e normas
e defendem o que é certo ou errado, bem como o que se pode e o
que não se pode fazer.
Na Idade Média, prevaleceu uma concepção teocêntrica, de
tal maneira que toda a vida humana girava em torno da Igreja, que
era construída no centro do vilarejo ou cidade, no ponto mais alto
da topografia (acrópole), tinha uma torre e, no alto da torre, um
sino que tocava para acordar as pessoas, para acorrer ao templo
para as orações e missas; tocava, também, para avisar seus habi-
tantes quando ocorria uma invasão ou saque.
Tudo isso não era pouco, pois a Igreja exercia uma dupla fun-
ção: a presença física, arquitetônica em torno da qual tudo con-
vergia e, além disso, ela ditava as normas e as leis, as regras e os
comportamentos que eram esperados pelos seus fiéis seguidores.
Ao mesmo tempo, vale salientar que as religiões sempre
tiveram oposições, dissidências e críticas contra a imposição de
dogmas e normas que não podiam ser questionados.
A Inquisição fez-se presente na maior parte do período me-
dieval, visto que as fogueiras e prisões testemunharam as sanções
atribuídas aos que não partilhavam e seguiam as determinações
da doutrina da Igreja.
Thomas Morus (1478-1535), chanceler de Henrique III, ten-
do desaprovado o rei quando de seu divórcio, foi obrigado a re-
nunciar ao cargo. Preso, foi depois executado. Deixou uma obra de
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capital importância, a Utopia (1516), que, sob o disfarce de ficção,


é uma ousada descrição de um sistema ideal de governo, total-
mente contrário à monarquia absoluta existente na Inglaterra.
Assim, o Renascimento não significou apenas a recuperação
da valorização dos pensadores clássicos da Grécia, mas foi uma
construção de uma nova concepção de mundo e do destino do
homem.
As transformações por que passa o Ocidente nos séculos 15
e 16 vão, aos poucos, promovendo rupturas profundas que ope-
ram entre o passado e o presente.
A expansão marítima, as descobertas geográficas e científi-
cas são responsáveis por gerar o início do processo de globaliza-
ção, que vai se consolidar apenas quatro séculos depois.
No aspecto do surgimento e ampliação da ciência, iniciamos
com Renée Descartes (1596-1650), filósofo e matemático francês,
que escreveu Discurso sobre o Método (1637). Preocupou-se com
o acesso ao conhecimento claro e distinto, ligando a experiência
ao conhecimento.
Leonardo da Vinci (1452-1519) era artista e sábio italiano.
Foi quase que um enciclopedista: estudou Geologia, a flora e a
fauna, Anatomia, Arquitetura, Mecânica e Hidráulica, Desenho,
Matemática e Música. Sem exagero, podemos dizer que ele foi a
expressão emblemática no campo científico-natural.
No campo político, tivemos Niccolo Maquiavel (1469-1527),
que foi filósofo, escritor e político italiano. Escreveu O Príncipe, em
1513, e Arte da Guerra, entre 1519 e 1520.
Ele propunha uma ordem política inteiramente nova, ou
seja, uma moral livre e laica, subordinada à razão de Estado em
que os mais habilidosos utilizassem a religião para governar.
Dessa forma, o ambiente silencioso, de contemplação e de
oração medieval “ora et labora” vai sendo substituído, gradativa-

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mente, pelo mundo do trabalho, dos negócios, da exploração da


natureza e do próprio homem. De um teocentrismo centralizador,
passa-se, aos poucos, com muita resistência da Igreja e das forças
conservadoras, a um antropocentrismo em que a prioridade é o
mundo dos negócios e o lucro desenfreado.

6. PROCESSO DE SECULARIZAÇÃO
A primeira vez que a palavra “secularização” foi enunciada
fora dos muros e dos textos da Igreja Católica foi para nomear o
processo jurídico-político de desapropriação dos bens eclesiásti-
cos em favor dos poderes seculares.
Um retorno às fontes do conceito de secularização pode nos
ajudar no debate atual em torno da fermentação contemporânea
de religiosidades. De um lado, surge o Estado nacional moderno e,
de outro, a progressiva secularização das instituições públicas em
sociedades cada vez mais pluralistas em matéria de religiosidade.
Max Weber (1864-1920) estudou a história social do Oci-
dente no apogeu da racionalidade num mundo desencantado, em
que o sagrado se exilou. A Europa, no final do século 19 e início do
século 20, passou por um processo intenso de industrialização e
urbanização, que gerou, entre outros fatores, o processo de secu-
larização e, assim, as religiões foram perdendo a sua hegemonia,
sua força, seus espaços centrais mais importantes e significativos.
Assim, o sucesso da ciência foi total, pois ela está, supostamen-
te, ao lado da verdade, identifica-se com ela, a única verdade, basea-
da na mais rigorosa objetividade, segundo os adeptos do Positivismo.
Nessa perspectiva, Weber aborda o processo de seculariza-
ção como a perda gradual cultural da religião no nascedouro e,
sobretudo, na consolidação da moderna cultura capitalista.
Ele publicou A Ética Protestante, em 1904, e utilizou o con-
ceito “desencantamento” em vez de secularização. Para Weber,
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o desenvolvimento ocorre justamente em sociedades profunda-


mente religiosas e é um processo essencialmente religioso, por-
quanto são as religiões éticas que operam a eliminação da magia
como meio de salvação.
Secularização, em contrapartida, implica abandono, redução
e subtração do significado religioso. Assim, a secularização é um
processo mais rápido e perceptível, enquanto o desencantamento
tem uma duração histórica mais longa, mais extensa.
Quando a religião se deparou, pela primeira vez, com a ciên-
cia moderna, no século 17, o encontro foi amigável. Os principais
fundadores da ciência, na sua maioria, eram devotos que diziam
estudar, em seu trabalho científico, a obra do Criador.
Já no século 18, alguns cientistas acreditavam num Deus que
havia planejado o Universo, e não mais num Deus pessoal envolvi-
do ativamente no mundo e na vida humana.
No século 19, já aparecem pensadores e cientistas hostis à
religião. No século 20, a interação da Religião com a Ciência apre-
senta diferentes formatações, que analisaremos a seguir.
Na virada do milênio, o que se pode observar é que houve
um recrudescimento de interesse da discussão da Religião e da
Ciência, em especial, os temas relacionados à Ética e à Bioética,
que cruzam as dimensões da Ciência e da Religião.
A Ciência preocupa-se com relações causais entre os fatos,
enquanto a Religião se preocupa com o sentido e o propósito da
existência humana.
A relação entre a Ciência e a Religião é conflitante, funda-
mentalmente, pelo fato de ambas adotarem metodologias dife-
renciadas e específicas: uma tem como ponto de partida a crença
no Deus e em valores sobrenaturais, sendo subjetiva, pessoal e
íntima; em contrapartida, a Ciência é racional, objetiva, rigorosa,
mensurável, devendo apresentar uma farta documentação com-
probatória.

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Podemos entender a racionalidade científica como conhe-


cimento dos limites, e a racionalidade teológica como aquela que
se encontra com ela num plano mais profundo da intencionalida-
de última e da responsabilidade ética em todos os níveis: pessoal,
histórico, social e ecológico. Assim, a teologia é capaz de dialogar
com as ciências e a Filosofia, mantendo, cada uma das áreas do
conhecimento, a sua especificidade.

7. QUANDO A CIÊNCIA ENCONTRA A RELIGIÃO


Ian G. Barbour é professor emérito de Física e Religião no
Carleton College em Northfiel, no Estado Minnesota, e escreveu
o livro Quando a ciência encontra a religião: inimigas, estranhas
ou parceiras?. Nesse livro, o autor classifica a grande variedade de
maneiras que os estudiosos relacionam ciência e religião, divide-
-as em quatro etapas: a fase de conflito, a fase da independência,
a fase de diálogo e a fase da integração.
Vejamos, a seguir, cada fase resumidamente:
1) Primeira fase – conflito: a relação da Religião com a
Ciência, no período histórico dos séculos 18 e 19, pode
ser descrita como difícil, antagônica, conflitante e exclu-
dente.
2) Segunda fase – independência: a partir do fim do século
19 e início do século 20, vão sendo criadas concepções
de autonomia, de independência em termos teórico-
-metodológicos sobre a Ciência e a Religião.
3) Terceira fase – diálogo: mais ou menos na metade do
século 20, inicia-se a construção de um novo paradigma,
no qual a concepção mecanicista vai cedendo lugar a
uma visão holística da realidade, adotando-se o método
interdisciplinar, inclusive entre a Ciência e a Religião.
4) Quarta fase – integração: as décadas de 1960 e de 1970
geraram uma série de movimentos sociais que busca-
vam uma mesma direção e convergência.
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Edgar Morin, já citado na Unidade 4, é o principal respon-


sável pela defesa da tese de que todas as coisas no planeta Terra
estão profundamente interligadas e conectadas por meio do con-
ceito da transdisciplinaridade.
Vivemos, cada vez mais, num mundo globalizado econômica,
política e culturalmente, em que os fenômenos biológicos, psicoló-
gicos e ambientais estão todos marcadamente interdependentes
entre si.
Vamos, agora, descrever mais detalhadamente cada uma
das fases.

Primeira fase: conflito


A Idade Média teve como preocupação principal a com-
preensão das coisas e não a de exercer ou buscar interpretações
ou algum tipo de predição ou controle sobre o Universo. Os cien-
tistas medievais, ao investigar os desígnios subjacentes aos vários
fenômenos naturais, consideravam do mais alto significado as
questões referentes a Deus, à alma humana e à ética.
Nos séculos 17 e 18, com o surgimento da ciência coadjuva-
do pela Filosofia, a noção de um universo orgânico, vivo e espiri-
tual foi substituída pela concepção de um mundo como se fosse
uma máquina.
Esse desenvolvimento foi ocasionado por mudanças revolu-
cionárias na Astronomia, na Física, culminando nas realizações de
Copérnico, Galileu e Newton.
Não se tratava de negar a existência de Deus, porém, fazia-se
necessário encaminhá-lo para bem longe, de tal maneira que não
atrapalhasse ou interferisse no mundo do trabalho, do comércio e
dos negócios.
A tendência dominante defendida por Karl Marx e Sigmund
Freud era a de que a religiosidade estaria com os dias contados,
uma vez consolidado o processo de secularização. Foi um longo

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período de críticas agudas ao papel da religião como mecanismo e


instrumento de manipulação e de alienação.
Marx, ao abordar a expansão do cristianismo, atribui-lhe o
poder de controlar e de anestesiar a própria consciência humana.
Freud, em se livro Totem e tabu, afirma que a religião presen-
te na sociedade deverá ser passageira, uma vez que sua influência
maior se registra nas sociedades primitivas.
Podemos, com isso, constatar que as divergências maiores
não residiam apenas no que se refere à abordagem metodológica,
mas, sobretudo, às questões de fundo, da cosmovisão de mundo,
do ser humano e da realidade que ambas construíam.
Muitos exegetas bíblicos acreditam que a teoria evolucionis-
ta se choca contra a fé religiosa, enquanto os cientistas ateus ale-
gam que a prova científica da evolução é incompatível com qual-
quer forma de teísmo.
Para ambos, exegetas e cientistas, Ciência e Religião são ini-
migas, antagônicas e conflitantes.
Esses dois grupos opostos ainda existem atualmente e ga-
nham maior notoriedade na mídia, uma vez que os debates aca-
lorados e, muitas vezes, fanatizados produzem maior audiência e,
infelizmente, não ajudam a construir uma mentalidade mais re-
ceptiva e respeitosa na sociedade.

Segunda fase: independência


Nos primeiros anos do século 20, inicia-se uma nova etapa
de construção de paradigmas e de teorias explicativas sobre o Uni-
verso, os seres humanos e a realidade histórica. Podemos denomi-
nar essa fase como de autonomia e de independência do próprio
pensamento.
Os teólogos e cientistas, após décadas de divergências, che-
garam à conclusão de que cada qual tem a sua especificidade de
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campo de estudo, e cada setor tem sua prioridade, abrangência e


o contexto a ser respeitado.
Cria-se uma consciência que cada um tem o direito de ex-
pressar-se, interpretar e construir sua teoria, com autonomia inte-
lectual. Foi um período de grandes avanços em todas as áreas de
conhecimento. Gastou-se menos tempo em defender-se, em ata-
car, em divergir e canalizou-se o esforço de produzir explicações
sobre os problemas e desafios prementes da sociedade.
Nesse período, as ciências, em geral, e as humanas, em es-
pecial, foram aprofundadas e especificadas em termos de especia-
lização. Houve descobertas significativas nos campos da Biologia,
da Anatomia, da Fisiologia com o estudo das células, da microbio-
logia e na descoberta das leis da hereditariedade.
Destacamos a Genética, que se tornou uma das áreas mais
ativas na pesquisa biológica, atingindo êxito na biologia molecular,
integrando pesquisas e estudos biológicos com avanços na Medi-
cina.
Paralela e concomitantemente, a chamada Teologia Bíblica
passa por importantes revisões histórico-críticas e surgem, ainda
que esporadicamente, Centros Teológicos de Ciências da Religião,
que estudam e debatem as múltiplas dimensões do processo de
secularização; e o revigoramento da religiosidade em múltiplos
formatos e manifestações.
Assim, o ponto central que fundamenta a postura de inde-
pendência é que a Ciência investiga e explica os fatos objetivos e
comprovados; a Religião procura explicar o que a Ciência não dá
conta nos assuntos que se referem aos valores e ao sentido último
do ser humano.
Segundo Barbour (2004), uma outra versão da tese da in-
dependência afirmaria que os dois gêneros de investigação forne-
ceriam perspectivas complementares do mundo, as quais não se
excluiriam mutuamente.

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Terceira fase: diálogo


A partir da metade do século 20, inicia-se um período his-
tórico novo e fecundo entre a ciência e a religião, de diálogo, de
intercâmbio de paradigmas. A formação humana e profissional
caminhou por décadas na busca da especialização e, também, da
compartimentalização dos saberes.
A pesquisa científica aplicada à economia e à produção vai
gerar um novo paradigma que é a tecnologia. Agora, os seres hu-
manos têm à sua disposição os mais variados recursos e ferramen-
tas da tecnociência, que permitem construir uma concepção holís-
tica da realidade.
Enquanto a Ciência, ao realizar pesquisa, delimita, fragmen-
ta e reparte a realidade, a Filosofia busca analisar a realidade a
partir de três princípios: o rigor, a profundidade e a cosmovisão.
No que se refere especificamente ao diálogo entre Ciência
e Religião, destaca-se a realização do Concílio Vaticano II, entre
1963 e 1965, que lançou profundas raízes de interlocução entre
as diferentes religiões, com pesquisas e estudos interdisciplinares.
Amplia-se, também, uma consciência da necessidade de se
buscar soluções globais aos problemas econômicos, políticos e so-
ciais cada vez mais complexos e desafiadores, por meio de estudos
interdisciplinares, estabelecendo laços mais próximos entre a Ci-
ência e as Religiões.
Em contrapartida, o excessivo crescimento tecnológico gerou
um meio ambiente no qual a vida se tornou física e mentalmente
doentia. Ar poluído, ruídos irritantes, enormes congestionamen-
tos diários de tráfego urbano, poluentes químicos por toda parte;
as preocupações com o trabalho, a saúde, bem como o futuro in-
certo para quem quer entrar no mercado de trabalho e permane-
cer nele são fontes inesgotáveis de stress físico e psicológico e que
passaram a fazer parte da vida cotidiana da maioria das pessoas
que vive aglomerada nas metrópoles.
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Nessa linha de pensamento, discordamos bastante de Bar-


bour com relação ao diálogo. Na verdade, o que estamos chaman-
do de diálogo foi, e continua sendo, um “pseudodiálogo”, na me-
dida em que estudiosos e pesquisadores de diferentes áreas se
reúnem e discutem caminhos possíveis dentro das suas “gaiolas”
ou “jaulas”, isolados, e cada qual com o seu referencial teórico.
Cada um fica no seu lugar, no seu mundo, na sua concepção.
Quer dizer, fala-se dos outros, fala-se para os outros, mas não se
fala com eles. (grifo meu)
Em nossa modesta visão, o verdadeiro diálogo exige um des-
pojamento, um desarmamento teórico-conceitual e o reconheci-
mento da legitimidade do outro. O diálogo não exige de nós, que,
na maioria, somos adeptos de um neopositivismo arraigado e cris-
talizado, mas exige a humildade de valorizar e incorporar a verda-
de do outro como verdadeira e legítima.
Em nível teórico, somos capazes, por meio de um esforço
eventual, de aceitar as diferenças; entretanto, no momento de ela-
borar um projeto de pesquisa transdisciplinar, não temos tempo,
disponibilidade nem interesse para que a hipótese seja realizada
e concretizada.

Quarta fase: integração


Estamos cada vez mais em vias de construir uma nova visão
da realidade. Esta baseia-se na consciência do estado de inter-rela-
ção e interdependência de todos os fenômenos físicos, biológicos,
psicológicos, sociais, culturais e espirituais.
Essa concepção holística transcende as atuais fronteiras dis-
ciplinares e conceituais. Não há, no momento, uma estrutura bem
estabelecida, conceitual ou institucional que abranja a formulação
desse novo paradigma, mas as linhas principais de tal visão já estão
sendo formuladas por cientistas, pesquisadores, organizações e co-
munidades que estão desenvolvendo novas abordagens transdisci-
plinares com base em princípios epistemológicos abrangentes.

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Da mesma forma, podemos afirmar que a separação entre o


pensamento científico e religioso é artificial se adotarmos a con-
cepção holística que não se refere apenas a uma justaposição ou
somatória das partes entre si, mas sim a um todo conectado, plu-
gado, interligado.

O Diálogo entre todos os Homens–––––––––––––––––––––––


Em virtude de sua missão, que é iluminar o mundo inteiro com a mensagem
evangélica e reunir em um único Espírito todos os homens de todas as Nações,
raças, culturas, a Igreja torna-se o sinal daquela fraternidade que permite e con-
solida um diálogo sincero [...]
O desejo de tal diálogo, que é guiado somente pelo amor à verdade, observada
a devida prudência, de nossa parte não exclui ninguém nem os que, honrando os
bens admiráveis do engenho humano, contudo não admitem ainda o seu Autor,
nem aqueles que se opõe à Igreja e a perseguem de várias maneiras. Sendo
Deus Pai o princípio e o fim de todas as coisas, somos todos chamados a ser
irmãos. E por isso, destinados à única e mesma vocação humana e divina, sem
violência e sem dolo, podemos e devemos cooperar para a construção do mundo
na paz verdadeira. A Igreja no Mundo de Hoje- Constituição (PASTORAL GAU-
DIUM et Spes. 1966, p.115).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

8. QUESTÃO AUTOAVALIATIVA
Sugerimos, neste tópico, que você procure responder às
questões a seguir, que tratam da temática desenvolvida nesta uni-
dade, bem como que as discuta e as comente.
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
testar seu desempenho. Se encontrar dificuldades em responder
a essas questões, procure revisar os conteúdos estudados para
sanar suas dúvidas. Este é o momento ideal para você fazer uma
revisão do estudo desta unidade. Lembre-se de que, na Educação
a Distância, a construção do conhecimento ocorre de forma coo-
perativa e colaborativa. Portanto, compartilhe com seus colegas
de curso suas descobertas.
1) O Concílio Vaticano II realizado em Roma entre os anos de 1963-
1965 elaborou e promulgou diversos Documentos Pontifícios com
vistas ao diálogo da Igreja com a sociedade, em especial a Consti-
© U5 - Diálogo entre a Religião e a Ciência 101

tuição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) e publicado


pela Editora Vozes. Como atividade complementar, procure esse Do-
cumento valioso e atual e leia, pelo menos, a parte conclusiva que
fala do Diálogo entre todos os Homens.

9. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, você teve a oportunidade de conhecer a Re-
ligião e a Ciência, o processo de secularização e ver o que ocorre
quando a Ciência encontra a Religião.
Lembre-se, entretanto, da importância de consultar a biblio-
grafia indicada para ampliar seus conhecimentos.

10. EͳREFERÊNCIA
MUNDODOSFILOSOFOS. O Positivismo: Auguste Comte. Disponível em: <http://www.
mundodosfilosofos.com.br/comte.htm>. Acesso em: 9 ago 2010.

11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALVES, R. O que é religião? São Paulo: Loyola, 2003.
BARBOUR, I. G. Quando a ciência encontra a religião: inimigas, estranhas ou parceiras?
São Paulo: Cultrix, 2004.
BUZZI, A. R. Introdução ao pensar: o ser, o conhecimento, a linguagem. Rio de Janeiro:
Petrópolis: Vozes, 2004.
CAPRA, F. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergentes. São Paulo:
Cultrix, 1982.
FORTE, B. Teologia em diálogo. São Paulo: Loyola, 2002.
GEBARA, I. O que é teologia? São Paulo: Brasiliense, 2006.
KÜNG, H. O princípio de todas as coisas. Rio de Janeiro: Petrópolis: Vozes, 2007.
______. Religiões do mundo: em busca dos pontos comuns. Campinas: Verus, 2004.
LE GOFF, J. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média. Tradução de Marcos de
Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
______. A civilização do Ocidente medieval. Tradução de Manuel Ruas e José Rivair de
Machado. 2. ed. Lisboa: Estampa/EDUSC, 2005. v. 1. e 2.
______. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier. Tradução de Marcos
de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

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MORIN, E. O pensar complexo: a crise da modernidade. São Paulo: Garamond, 1999.
PETERS, T.; BENNET, G. (Org.). Construindo pontes entre a ciência e a religião. São Paulo:
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QUEIRUGA, A. T. Diálogo das religiões. São Paulo: Paulus, 2004.
SANZOVO, J. V. Repensando o universo: uma nova visão cosmológica. São Paulo: Rudyard,
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