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Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO

Primeira Unidade

Teologia Prática, Aconselhamento e Vida Contemporânea.

Apresentação da Unidade

Classicamente a Teologia está subdividida em três áreas bem distintas:


Teologia Bíblica, Teologia Sistemática e Teologia Prática.
A Teologia Bíblica se volta para os fundamentos e os rudimentos dos textos
bíblicos do Antigo Testamento – AT e do Novo Testamento – NT.
A Teologia Sistemática aborda, por sua vez, as elaborações filosófico-
teológicas enquanto sistema de construções e interpretações de doutrinas cristãs
sistematizadas a partir de determinados evento centrais para a Fé Cristã, como por
exemplo, a Ressurreição de Cristo ou ainda as manifestações de Deus, enquanto
Pai, Filho e Espirito Santo, a Doutrina da Trindade; bem como dialoga com outros
conhecimentos como é o caso da Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia
dentre outros.
Por fim, a Teologia Prática que tem como objetivo maior fundamentar
construções teóricas e práticas da ação evangélica. Nesse particular, em nossos
dias, há uma significativa demanda para a Teologia Prática, haja vista que vivemos
tempos de novos paradigmas, por que não dizer, os quais exigem maior rigor e
necessidades de atuação prática da Teologia.
A presente disciplina “Desafios Contemporâneos do Aconselhamento” é uma
disciplina que se coloca, portanto, no eixo da Teologia Prática. Nesse sentido esta
disciplina, com todas as suas 8 (oito) unidades, se coloca como uma reflexão teórica
do aconselhamento sobre a compreensão do mundo vivido e de suas necessidades
e desafios contemporâneos.
Posto isso, é impar ressaltar que a Teologia Prática, conforme Silva (2010)
designaria a reflexão crítica em relação à ação eclesial intra e extra muros. No
contexto da Teologia Prática, portanto, todas as ações que implicam no agir da
Igreja como a liturgia, o ensino, a diaconia, o aconselhamento dentre outras estão
nessa perspectiva.
Para Szenmártony (1999), deve-se compreende a Teologia Prática como uma
reflexão teológica sobre o conjunto das atividades nas quais a Igreja se encarna
tendo sempre presente a sua natureza – Imitadora de Jesus Cristo – e, a situação
atual desta no mundo. Especificamente, assinala-se que este mundo é distinto,
impar, único, peculiar, classicamente, reconhecimento como contemporâneo.

Objetivos da Unidade

 Conhecer as marcas da vida contemporânea;


 Identificar a comunicação e as novas tecnologias como elementos
essenciais da sociedade contemporânea;
 Ressaltar o diálogo entre os conhecimentos teológicos, sociológicos e
psicológicos como sendo necessário ao entendimento da vida
contemporânea;
 Assinalar a presença e a influência da religião no mercado como
construtora de novas mentalidades e relações sociais, na atualidade;

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Introdução

Conhecimento. Essa é a palavra que bem define nossa primeira unidade, a


qual tem como grande objetivo identificar as marcas da vida contemporânea.
Possibilitando assim, também, a identificação dos desafios contemporâneos do
aconselhamento.
É importante explicitar que o fundamento teórico utilizado para elaboração
desta unidade foi a partir da literatura especializada, sem nunca perder o tom crítico;
assim como, também, procurou relacionar os achados ao tema do aconselhamento.
Registre-se ainda que a lógica, desta unidade, é primar essencialmente pelo
diálogo e respeito entre os conhecimentos que fazem interface com a Teologia
Prática, especificamente, como o aconselhamento. Contudo foi opção respeitar as
especificidades dos conhecimentos para constituição deste estudo; ou seja,
referente ao conhecimento da sociedade atual, optou-se em estudá-lo de forma
muito peculiar dialogando com os conhecimentos sociológicos, antropológicos e
psicológicos.
Tal opção não tira em nada o brilho e a riqueza das elaborações e
contribuições da Teologia Prática para ação evangélica, nessa área em especifico.
Acredita-se que esse procedimento, na verdade, marca de forma indelével o respeito
e o entendimento que os conhecimentos devem realmente exercitar, no contexto
acadêmico e intelectual, para o melhor conhecimento do objeto de estudo comum
entre os saberes. Essa atitude, por sua vez, se coloca de antemão como um desafio
de fidelidade e lealdade à Fé Cristã, em nossos dias.
Por fim, nesse sentido, os temas que irão ser tratados são: uma chave para
leitura da vida contemporânea, a vida contemporânea é essencialmente
comunicional, as marcas da vida contemporânea e religião, novas tecnologias e
aconselhamento.

Conteúdo

Uma Chave Para a Leitura da Vida Contemporânea

Numa óptica cristológica, o ato de aconselhar é uma atitude que marca uma
relação, entre dois ou mais seres humanos. Não de superioridade, mas de
irmandade, um ato de fraternidade imbuído de serviço ao próximo. É um ato, por sua
vez, essencialmente diaconal, no sentido do serviço cristão, diaconia. Assinale-se
aqui, portanto, que esse assunto será aprofundado mais adiante como um desafio
para igreja, neste mundo contemporâneo.
Portanto, é imprescindível conhecer, compreender, entender, ou até mesmo,
se possível, decifrar a vida contemporânea, a qual se mostra cheia de
complexidade. Eis ai uma boa palavra chave para os nossos estudos: complexidade.
E isso não é mero discurso de intelectual, mas a mais pura constatação do mundo
empírico. Principalmente quem vive o dia-a-dia do aconselhamento com
adolescentes, jovens, mulheres, homens, casais, famílias. Quem vive o dia-a-dia do
cuidado ao outro.
Antes de nos voltarmos para a realidade social e cotidiana propriamente dita,
observemos filosoficamente o que tem marcado, de maneira geral, a vida
contemporânea, bem como se apresenta o universo religioso em nossos dias.
Segundo Mardones (1988), em seu livro Postmodernidad y cristianismo – El desafio
del fragmento, são três os pensamentos que predominam na contemporaneidade:

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a) um pensamento voltado para o momento. Esse pensamento assinala


que diferentemente de outros tempos onde prevalecia sempre uma vida marcada
por uma ética imperativa e que por causa desse aspecto imperativo a vida era
determinada pela razão. Hoje a ideia é viver a vida por ela mesma, viver a felicidade
do aqui e do agora, e, não mais num mundo que há vir;
b) um pensamento marcado pela diversidade. Aqui se ressalta que o
pensamento não é mais único ou dogmático. Agora o pensamento que prevalece é a
multiplicidade cultural e o saber atual que é oferecido a partir das ciências, da
técnica, da arte advinda dos novos meios de comunicação de massa e das novas
tecnológicas. Não se tem o determinismo de uma instituição sobre todas as outras,
como no período medieval; mas o desenvolvimento de uma vida plural e
democrática;
c) um pensamento marcado pela técnica moderna. Diferentemente da
valorização da razão em que a vida deve servir a um determinado fim, valores e
princípios; agora se observa a valorização de uma vida marcada pela prática
objetiva da tecnologia. Valoriza-se uma prática que dá resultado que se espera e
deseja agora.

Já no que diz respeito ao universo religioso, filosoficamente observa


Mardones (1988) o seguinte: a) Questionamento com todo e qualquer fundamento e
desmistificação radical de toda realidade global; b) A morte de Deus (Instituição)
como centro cultural e conceitual da vida; c) Enfrentamento da religião
institucionalizada e d) A descentralização e a legitimação da religião no cotidiano da
vida social.
Nessa direção, pode-se afirmar que raiou uma nova ambiência. Por exemplo,
as relações familiares do campo ou da cidade hoje, não são as mesmas do inicio do
século XX. Por isso, já vai o tempo quando a Teologia, enquanto conhecimento
constituído, não necessitava dialogar com outros conhecimentos para elaborar e
emitir suas constatações sobre a realidade humana. Não vivemos mais o período de
absolutismos, mas sim de relativismos (no sentido de que as coisas estão em
constante relação) um novo tempo, que se expressa em estilos de vida
contemporâneos bem distintos dos que já foram vivenciados antes. Compreende-se
que esse é um desafio significativo para a igreja de hoje, ou seja, viver o “agora”, o
“novo tempo” e não viver o nosso tempo com paradigmas e roupagens de outros
tempos, os quais se constituem como sendo inadequadas. É verdade que serviram
no passado, pois estavam adequadas e inseridas contextualmente, mas que não
atendem as demandas e necessidades dessa nova vida. Lembremos que na historia
da Salvação, em tempos bem distintos, Deus em Cristo sempre foi ao encontro do
ser humano, em sua realidade, e sempre o olhou com compaixão e amor.
Em outras palavras, vivemos outros tempos. Hoje, o marco interdisciplinar,
por exemplo, é uma exigência epistemológica e metodológica imprescindíveis para
conhecer o ser humano e sua realidade de vida.
O diálogo, portanto, é um caminho necessário. Sendo assim, se inaugura um
novo tempo em que deve conviver a especificidade e a diversidade dos
conhecimentos sobre uma determinada realidade e isso não é diferente como o
aconselhamento. Por isso, conhecer o nosso tempo de forma apropriada e
adequada envolvem as mais diversas áreas: social, política, econômica, cultural,
psicológica e espiritual, a fim de que possamos atuar nessa atividade tão nobre e

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necessária para os nossos dias, que é o cuidado da vida, da mente e das relações
das pessoas, principalmente, daquelas que vivem sua fé em Cristo Jesus.
Nesse sentido, temos outro desafio, em nossa disciplina, olhar a realidade
não de cima para baixo, como donos do mundo, senhores ou senhoras, mas sim
como aqueles que têm a honesta e sincera vontade de compreender as mais
diversas realidades concernentes ao indivíduo, as formações grupais, comunitárias
ou as mais diversas formas de relacionamento, como da família, da conjugalidade,
dos relacionamentos ou, em última análise, da vida em sociedade.
Quem ressalta essa questão de uma maneira apropriada é Marcelino (2006)
quando trata da questão da “Departamentalização e Unidade das Ciências Sociais”,
em seu livro. Ele afirma que os olhares dos conhecimentos estão necessariamente
voltados para um mesmo mundo social.
Portanto, afirme-se que esse mundo social é complexo, e, composto de uma
multiplicidade de aspectos e elementos que se interpenetram, de maneira
significativa e rica, na interpretação e entendimento dele mesmo.
Nessa perspectiva é que Marcelino (2006), ainda, assinala que não há como
negar uma construção teórica que descarte esse viés unitário. Portanto, dialogar. É
dialogando que se pode utilizar o conhecimento especializado; considerando,
simultaneamente, o outro conhecimento, que observa um mesmo objeto, que se
pode conhecer melhor e ainda mais. A palavra de ordem, nessa direção, é soma, é
formar rede interativa, é inclusão e não subtração, fragmentação ou exclusão. Aqui
está mais um desafio contemporâneo para o aconselhamento.
Santos (2008) destaca que é imprescindível estar ciente que há resultados
diferem conforme a área do conhecimento, por exemplo, das áreas de exatas e das
de humanas. As primeiras são mais conclusivas do que as segundas. Estas têm
diferença entre si. Por isso, em especial, há um complexidade nos estudos sobre a
humanidade, dentre os quais ressalta Santos (2008) como exemplo, a comunicação
humana, a qual se coloca como uma necessidade urgente em toda e qualquer
relação: a) a natureza do ato comunicativo pode ser interpessoais, máquinas, meios
de comunicação de massa, recursos verbais (sonoro ou escrito), gestuais ou
pictóricos (desenhos, por exemplo) e b) a interdisciplinaridade – a utilização de
conceitos forjados em outras áreas do conhecimento (sociologia, antropologia,
psicologia, física, biologia, etc.).
Por isso, de forma geral, a Teologia nesse sentido deve se encontra nessa
“comunidade dialógica” com outras áreas do conhecimento humano, como forma de
expressar significativamente seus conhecimentos para a vida humana hoje. Nessa
perspectiva, por exemplo, no que diz respeito à Teologia Prática, Sathler-Rosa
(2004) enfatiza a reciprocidade entre teologia e a ação cristã, no mundo. Isso quer
dizer que, a Teologia Prática deve abrir canais de diálogo com as ciências humanas,
sociais e outras, de forma mais ampla, e, de maneira, mais objetiva, com é o caso do
aconselhamento. Agora, não se pode é fechar os olhos à relação entre teologia e
outros conhecimentos quando, em especial, nos referimos ao âmbito eclesial ou
comunitário.
Deve ficar claro, por fim, nesta unidade, que estamos estudando fenômenos
humanos e sociais, os quais são imprescindíveis à compreensão da própria
realidade humana, pois estamos colocando em apreço também o ato de aconselhar
ou cuidar do outro. Por isso, é que devemos guardar todo o respeito no diálogo com
as Ciências Humanas e Sociais, no afã de alcançar objetivos que contribuam para o
entendimento da nossa realidade atual, e, assim, por sua vez, a aplicação dos
conhecimentos em relação com o aconselhamento cristão para essa realidade, sem

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cair, mesmo que estejamos sujeitos a extremos ou equívocos, os quais são próprios
de quem ousa buscar honestamente o conhecimento do seu tempo. Novamente
temos aqui mais um desafio contemporâneo do aconselhamento.

A Vida Contemporânea é essencialmente Comunicional.

As culturas brasileiras e planetárias se interpenetram. Comunicam-se. A


diversidade cultural se faz presente nas faixas etárias, níveis sociais, gênero,
religiosidade, nos âmbitos locais, quer rural ou urbano. Na realidade do
aconselhamento, nessa nova ambiência que se vive, parece-nos que não há mais
espaço para segregações, mas se faz necessário incluir e inserir; no campo religioso
essa tese também se faz presente através da inclusão. Por exemplo, programas
religiosos das mais diferentes tradições como católica, protestante e neopentecostal
usam a televisão ou o rádio associado às redes sócias ou o sistema de telefonia, ao
vivo, juntas para trata de temas relacionados ao aconselhamento amoroso, familiar,
conjugais, vida financeira dentre outros.
Segundo Thompson, os meios de comunicação e seu impacto são a chave
para compreender a natureza da vida contemporânea. Sem dúvida, é só fazer o
exercício de listar as características das instituições criadas pela sociedade atual
para perceber como de fato os meios de comunicação exercem presença
estruturante na constituição e formação da cultura hodierna. Nesse sentido pode-se
afirmar que:
“Na sociedade brasileira, a mídia tem um papel decisivo na vida
pessoal e no cotidiano das pessoas. Há informação e entretenimento
altamente concentrados na dinâmica da economia de mercado em
atividades culturais como música, cinema, shows, revistas, esporte,
lazer, mercado das artes.” (MATOS, SOUZ E GOMES, 2009, p.480)

No campo religioso, não é diferente. As mais diversas religiões têm utilizado


os meios de comunicação e as novas tecnologias para anunciar e divulgar as suas
mensagens com o objetivo único de fazer seguidores. Por isso, nota-se, na
atualidade, o mercado religioso em alta na mídia com shows, danças, músicas,
números artísticos sofisticados, cantores e atores religiosos que já gozam de amplo
reconhecimento nacional.
Na internet não é diferente. Como meio de comunicação de massa essa
ferramenta já está sendo utilizado, por exemplo, para orar com as pessoas como a
oração on line, ou, ainda, transmissão de eventos (cultos e shows) ou divulgações
de CDs e DVDs por tecnologia streaming ou confissões, aconselhamento de fiéis via
skype, em que se sobressai à marca gospel como uma grande grife, como uma
refinada estratégia religiosa, desse mercado que proporciona a cada dia cifras
consideráveis e expressivas, na atualidade.

“Para um produto ser vendido em círculos evangélicos na década de


1990, precisava ser rotulado com o termo gospel. Gospel é uma
tentativa de massificar uma marca, defendida como estratégia
mercadológica. Além da música gospel, vieram a moda gospel, a
igreja gospel e a linguagem gospel. Se não bastasse tudo isso,
tivemos também cosméticos gospel, prestação de serviços gospel e
até dieta gospel (Dieta de Jesus, Dieta do Criador). Tudo explorando
um nome, uma imagem criada para o consumo em massa. (MATOS,
SOUZA E GOMES, 2009, p.482).”

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No contexto brasileiro, por fim, não é diferente a influência das novas


tecnologias da informação e da comunicação na missão da Igreja. Essa influencia,
contudo, não fica somente na forma, mas tem constituído novas maneiras de fazer
essa comunicação. Tem atingido, assim, o conteúdo, ou seja, o fazer missionário da
igreja enquanto instituição tem se caracterizado também como toda e qualquer
agência atual.

As Marcas da Vida Contemporânea

Quais as marcas ou características que sobressaem do comportamento ou do


estilo de vida social¿ Que tipo de vida marca este nosso tempo¿ Em contra partida,
ressaltam-se as expectativas em relação o papel da Igreja nessa nova sociedade, a
qual tem como emblema dentre outras as novas tecnologias da informação e da
comunicação que apontam para o uso, por exemplo, do computador e da internet,
na constituição de novas relações e interações sociais. Isso mesmo. Como, por
exemplo, o avanço perene das redes sociais, na vida cotidiana e nos
relacionamentos sociais e pessoais. E isso não descarta a busca e a prática do
aconselhamento, como já frisamos acima, através das novas tecnologias, como
aconselhamento online ou via Skype, que se vê tanto no contexto profissional
psicológico, como no contexto religioso; ou seja, a clínica ou o gabinete pastoral ou
confessionário hoje não são mais físico, mas sim virtuais, e, tem atraído muitos
adeptos, que encontram comodidade e até segurança e sigilo. Essa ultima,
tipicamente deste tempo contemporâneo.
Diante disso, tem-se cunhado além de “Comunidade Virtual”, “Ciberespaço”,
“Sociedade do Conhecimento” também para expressar essa nova sociedade, a
“Sociedade da Informação”. Segundo Werthein (2000) “a expressão ‘Sociedade da
Informação’ passou a ser utilizada, nos últimos anos desse século, como substituto
para o conceito complexo de “sociedade pós-industrial” e como forma de transmitir o
conteúdo específico do “novo paradigma técnico-econômico”“.
É importante ressaltar que essas novas tecnologias da informação e
comunicação se colocam em um contexto marca indelevelmente por uma sociedade
de massa, que as necessidades e as relações do individuo são vistas sob essa
ótica. Assim pode compreender as teorias da comunicação no contexto da
sociedade de massa:

“A primeira teoria é a Hipodérmica, em que o público é comparado


aos tecidos do corpo humano, que atingido por uma substância
(informação) todo o corpo social é atingido indistintamente. O
indivíduo se comporta (age, pensa, sente) segundo os ditames dos
estímulos (informações) dos meios de comunicação. Aqui o indivíduo
é isolado (como pensar). A segunda é a Crítica, em que o
desenvolvimento da razão passa de emancipadora (autônoma,
crítica) para instrumental (técnica), na medida em que a indústria
cultural é um sistema que promove uma pseudo-individualidade, ou
seja, a identidade do indivíduo é proposta pela sociedade num
contexto regido pela cultura industrial. Aqui o indivíduo é vulnerável.
Há uma supremacia da sociedade sobre o indivíduo, bem como uma
atrofia da imaginação da espontaneidade do consumidor cultural.
Então aqui o indivíduo é atomizado (no que pensar). A terceira é a
teroria do Agendamento (Agenda setting), em que tal agendamento
determina no que o indivíduo vai pensar e não como através de uma
tematização proposta no dia-a-dia, que passa a ser o objeto de
conversa entre as pessoas, contribuindo que o indivíduo seja alienado

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(não pensar). A quarta teoria é denominada Espiral do Silêncio, em


que não há um agendamento de temas a serem conversados, mas
provoca-se o silêncio do indivíduo. Os indivíduos se silenciam para
não serem punidos quanto à discordância às opiniões dominantes.
Assim, o indivíduo fica preso no silêncio (o que silenciar).” (MATOS,
SOUZA E GOMES, 2009, pp. 479-480).

Segundo Castells (WERTHEIN, 2000) tem as seguintes características esse


novo paradigma técnico-econômico da sociedade atual:

• A informação é sua matéria-prima: as tecnologias se desenvolvem


para permitir o homem atuar sobre a informação propriamente dita, ao contrário do
passado quando o objetivo dominante era utilizar informação para agir sobre as
tecnologias, criando implementos novos ou adaptando-os a novos usos – isso
aponta um ser humano inacabado, ou em construção, aberto ao novo;
• Os efeitos das novas tecnologias têm alta penetrabilidade porque a
informação é parte integrante de toda atividade humana, individual ou coletiva e,
portanto todas essas atividades tendem a serem afetadas diretamente pela nova
tecnologia – aqui nota-se que o ser humano hoje é atingido em sua essência,
constituindo um ser que se reproduz muito rapidamente, o que antes levava anos
hoje temos mudanças muito rápidas;
• Predomínio da lógica de redes. Esta lógica, característica de todo
tipo de relação complexa, pode ser, graças às novas tecnologias em todo e qualquer
tipo de processo. Um bom exemplo: são as redes sociais de relacionamento, que
têm se alastram criando novas referências e construções de valores e de convívio
social.
• Flexibilidade: a tecnologia favorece processos reversíveis, permite
modificação por reorganização de componentes e tem alta capacidade de
reconfiguração. Aqui um dos elementos muito importantes que tem atingido o
comportamento social em cheio: o definitivo, eterno ou o para sempre não são mais
dogmas, mas se tem constituído a compreensão de que se pode viver relações ou
convivências limitadas, passageiras sem perder o prazer ou a sua busca; numa
expressão popular: “o amor é eterno enquanto dura”.
• Crescente convergência de tecnologias, principalmente a
microeletrônica, telecomunicações, optoeletrônica, computadores, mas também e
crescentemente, a biologia. O ponto central aqui é que trajetórias de
desenvolvimento tecnológico em diversas áreas do saber tornam-se interligadas e
transformam-se as categorias segundo as quais pensamos todos os processos.
Sinalizasse, portanto, aqui não mais uma visão estaque, descolada, ou localista,
mas uma coisa tem relação com outra e assim sucessivamente. Uma visão holística
tem se imposto como uma visão contemporânea.

Religião, Novas Tecnologias e Aconselhamento.

Pergunta-se o que tem a ver religião e aconselhamento? Se tomarmos as


pesquisas publicadas em Ciências da Religião, tem tudo a ver, no sentido que
aquele que busca ou desenvolve o aconselhamento está inserido num dado
contexto e hoje a vida contemporânea passa necessariamente pelas relações
religiosas ou em rede, quer no mundo presencial quer no mundo virtual,
dialeticamente.
Observe-se o seguinte. Para elaboração desse item, foi realizada uma

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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pesquisa em literatura impressa e digitalizada. O acesso à literatura impressa foi


bem mais limitado, do que a literatura digitalizada. Uma vez que muito dos livros,
artigos e obras de referência impressos especializados não os tenho, bem como não
os encontrei nas bibliotecas físicas da minha cidade; contudo, quanto à literatura
especializada digitalizada tive muito mais acesso através da internet.
Esse relato tão simples tem o objetivo de chama a nossa atenção para algo
que já está posto e é imprescindível para o entendimento desta disciplina. Que
estamos numa nova ambiência social e, porque não dizer, religiosa, que implica em
todas as atividades da Igreja, inclusive no ato de aconselhar, pois as relações se
constituem não mais fundamentalmente pela presença física, mas pela relação em
rede e virtuais.
Quem observa isso é Fausto Neto (2004, p.35) em um artigo sobre: “a religião
de contato - estratégias discursivas dos novos “templos midiáticos”” trazendo uma
ideia de Weber, “que apesar dos efeitos do pensamento racional e da modernidade,
julgava impossível viver-se num mundo desprovido de crenças, e, que não obstante
as profecias do iluminismo, os ‘braços das velhas igrejas continuariam abertos para
eles’, referindo-se àqueles que definiam os horizontes da sociedade da razão”. Nota-
se que a máxima weberiana se perdurou ao longo dos tempos e somos testemunhas
vivas que a religião nunca esteve tão presente como nos dias atuais.
A relação religião e mídia ganha espaço nas pesquisas acadêmicas, dentre
outras, de uma forma especial, com o fenômeno denominado de “Igreja Eletrônica”.
São pregadores que incialmente vindos do rádio conquistaram a mídia televisiva.
Segundo Gomes (2002) os tele-evangelistas advêm das Igrejas Cristãs, Católica e
Evangélicas, principalmente, americanas. A “Igreja Eletrónica” foi e, ainda, é objeto
de pesquisa da Teologia e das Ciências da Religião. Na década 80, o renomado
teólogo Hugo Assman (1986) e já neste novo século, o Cientista Social e da Religião
Leonildo Campos (2008) têm textos publicados sobre esse fenômeno.
Por exemplo, em um artigo, do fenômeno religião e mídia televisiva, Campos
(2008) faz um artigo onde aborda duas questões: as relações entre evangélicos e
mídia no Brasil, desde a fase da oralidade e da imprensa até o período
contemporâneo, que é o da comunicação mediada eletronicamente (inclui-se aqui a
internet) e reflexões e exemplos de como o uso da televisão, assim como a compra
de redes televisivas, provocaram alterações na maneira de os pentecostais se
comunicarem com a sociedade brasileira. Campos (2008) observa que o uso da
mídia, de uma maneira geral, pelos pentecostais é significativo e expressivo, uma
vez que tem se configurado um novo espaço religioso, pois este mesmo grupo vem,
ao longo dos tempos, sofre mudanças, hoje dominam e ocupam o mercado sócio
religioso atual, antes tinham uma postura de abandono da sociedade e de suas
“tramas diabólicas”.
A religião de hoje para Fausto Neto (2004) se apresenta como fenômeno
religioso que se descola dos templos e de suas lógicas, autonomiza-se pela
expansão e força da técnica midiática para se transformar em “marcas” e objetos
semantizados, retirando a religião dos horizontes do transcendente, que vive
submetido a um modelo de experiência do “aqui e agora”, que “troca o antigo Bem
ético pelo Bem-estar individualista, associando salvação e consumo”. Ou seja, nosso
tempo antes de romper as estruturas, as quais se notam que estão mudando
paulatinamente, como a estrutura familiar. Não há mais um tipo único de família,
mas diversas configurações. Mas ressalte-se que esse fenômeno tem mexido no
conteúdo principalmente, na compreensão à moda tipicamente capitalista. O
importante é o resultado, o que se espera ou a qualidade, não mais um valor

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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essencial idealizado, mas tem de ter uma relação com o sentir ou vivencia o prazer
aqui e agora.
A religião é mais encontra somente nos tempos ou locais físicos. Observa-se
que ela se apresenta nas mais diversas formas ou meios de comunicação, desde os
de massa (TV e rádio) como os das novas tecnologias (via internet) tem dia-a-dia
sido expressivo e significativo. Por quê? A seguir, para concluir, esta unidade, tomo
as ideias e os dados apresentados por Fausto Neto (2004) para responder, essa
pergunta e também a seguinte pergunta, no mínimo interessante: Por que evolui a
midiatização da religião no Brasil, via TV? Segundo ele por três fatores:

a) O primeiro, a característica desta indústria cultural. A atividade de


captura dos fiéis só pode ser compreendida se na esfera terrestre, pelo papel de
uma indústria cultural peculiar onde se estrutura a oferta discursiva para o mercado
religioso, ou seja, só há discursos porque lá existem complexos processos de
produção; As Igrejas Católicas e Evangélicas (não-pentecostais) adotam complexas
redes de rádio e de televisão, como é o caso da Rede Record e das 3 emissoras
católicas geradoras (Rede Vida, Canção Nova e Século XXI). Na esfera editorial,
num mercado de 17 milhões de leitores, as editoras católicas e evangélicas faturar
am, juntas, 178 milhões de reais, em 2002. A internet é também outro indicador
dessa indústria cultural, com lojas virtuais oferecendo estruturas de e-commerce
para vendas. Na atividade musical foram comercializados no mesmo ano, oito
milhões de discos, o que corresponde a 14% das vendas da indústria fonográfica,
cujo grande carro chefe são os CDs do Padre Marcelo Rossi, que ao longo dos
últimos 4 anos já comercializou mais de 6 milhões de unidades. Na esfera
cinematográfica, os católicos lideram as investidas. O lançamento do filme “Maria,
mãe do filho de Deus”, em 2002, produção orçada em 7 milhões de reais, visto por
mais de 3 milhões de expectadores. Esta indústria cultural tem também seus
protagonistas para dar visibilidade às estratégias. Marcelo Rossi é um multi-
personagem, vencedor de prêmios, personagem de filme, apresentador de tv,
cantor, além de peregrinar em entrevistas nas diferentes redes de tv. O missionário
RR Soares, além de controlar uma igreja, se apresenta diariamente em mais de
quatro estações, inclusive em horário nobre, na BAND, o “Show da Fé”, ao custo
mensal de 3 milhões de reais. Edir Macedo, autor de mais de 22 livros, controla duas
redes de tv, uma rede de rádio, o jornal Folha Universal com tiragem superior à um
milhão de exemplares diários, gráfica, editora, empresa de processamento de
dados, construtora, agência de viagem, gravadora de disco, além de associações de
negócios na área da informática e na política nacional.
b) O segundo, a existência de um mercado religioso para as ofertas
midiáticas. Ao longo das quatro últimas décadas, 1970/2000, os católicos continuam
sendo a maior população religiosa, embora se observe decréscimo nos seus
contingentes: se em 1970 ela correspondia a 91/. 8% da população religiosa, em
2002, estes percentuais caem para 73, 9%. Em igual período, a população
evangélica salta de 5, 2% para 15, 6%, o que significa dizer que, segundo dados
censitários em 2002, os católicos se constituem numa população de 125 milhões de
fiéis contra 26 milhões de perfil pentecostal. Habitando a região urbana, onde estão
mais de 80% dos domicílios do país, o neopentecostalismo avança justamente
naqueles espaços para onde foram despejados, nas últimas 4 décadas, mais de 40
milhões de brasileiros, que saíram em busca de vida mais digna, transformando-se
neste fabuloso “exército de reserva”, ou alvo das mais diferentes políticas públicas,
sociais, assistenciais e religiosas postas em práticas pelas instituições.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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c) E, o terceiro, a saída de cena de agentes estratégicos, como no caso o


Estado, faz com que o campo religioso seja convertido num protagonista na medida
em que transforma estes cenários em insumos para as estratégias que visam a
captura de segmentos de populações para as hostes das diferentes religiões, a
pretexto do desenvolvimento de novas políticas institucionais. Atuando em cima do
vácuo político-assistencial deixado pelo Estado e outras instituições, as igrejas
elegem “políticas de atendimentos”, convertendo a cultura midiática na esfera em
que as demandas temporais dos indivíduos serão transformadas e/ou capturadas
para os fins instrumentais das instituições. A religião deixa de ser uma abstração, e
pelo trabalho dela em constituir os novos coletivos, colocando-se no lugar de
contato, os horizontes de salvação deixam de ter como parâmetros a vida depois da
morte, e uma série de novas “práticas terapêuticas” é acionada como respostas à
problemática do “aqui e agora”. Nestas condições, as estratégias telerreligiosas
estruturam os espaços de curas, segundo operações de compra e venda
fundamentadas nos alicerces do marketing confessional.

Conclusão

Para fecharmos esta primeira unidade, assiná-lo os seguintes achados que


possibilitam compreender e caracterizar a vida contemporânea:
Para compreender a vida contemporânea, como uma chave de leitura, é
necessária ter uma atitude de servir ao próximo à moda de Jesus Cristo, nosso
maior exemplo de serviço, que agiu marcado pela compaixão (Atitude do Bom
Samaritano). Por isso é que propomos o diálogo como caminho necessário numa
visão interdisciplinar, entre os conhecimentos teológicos, sociológicos, psicológicos
dentre outros como forma de aprofundar a compreensão do nosso tempo, que de
antemão, sinaliza a valorização da experiência do momento e não da razão, a
aceitação da diversidade de pensamentos e a valorização da técnica moderna e não
mais o valor absolutista da religião cristã institucionalizada como senhora que
determina a vida social e privada das pessoas. Aqui reiteramos que tal situação se
nos coloca como um desafio contemporâneo, não somente para esta unidade, mas
para a nossa disciplina.
Outra questão que se coloca para compreendermos a vida contemporânea,
decorrente das considerações acima, é que a visa social é complexa. Tal máxima
carece de uma metodologia para entender esta vida. Aqui também ressaltamos que
é necessário compreender o mundo da comunicação, no sentido amplo, enquanto
relação interpessoal, por isso ressaltou-se a comunidade dialógica, com especial
atenção para o tema do aconselhamento.
Foi enfatizado que a nova ambiência de diversidade, como se mostra, por
exemplo, o mundo religioso, tem sido determinado essencialmente pela
comunicação e esta por um espirito de inclusão e não de segregação. Um bom
exemplo é diversidade de religiões que utilizam os meios de comunicação e as
novas tecnologias para anunciar e divulgar as suas mensagens como realização de
sua missão. Não se pode desconsiderar, contudo, que a religião esteja descolada do
mercado (Capitalista), mas faz parte deste, no seu sentido mais amplo possível,
como temos presenciado o mercado religioso musical, ou, o mundo gospel, por
exemplo.
Nesse sentido é que as marcas que caracterizam a vida contemporânea
estão sob o emblema da sociedade da comunicação e informação, que tem sido
produzida a partir de uma nova realidade social, como o avanço das redes sociais,

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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na vida cotidiana e nos relacionamentos sociais, e, pessoais. Nessa perspectiva, a


prática do aconselhamento tem sido também atingida, como o aconselhamento
online ou via Skype, no lugar dos gabinetes pastorais ou confessionário; quando
não, também, em vídeo-palestra em que o internauta escolhe o que necessita e quer
ouvir. A vida contemporânea, por sua vez, vive uma nova ambiência social e, porque
não dizer, religiosa, que implica em todas as atividades da Igreja, inclusive no ato de
aconselhar, pois as relações se constituem não mais fundamentalmente pela
presença física, mas pela relação em rede e virtuais.
Tal compreensão e caracterização, observados acima, atinge em cheio toda e
qualquer prática religiosa que se tenha hoje, inclusive o aconselhamento. Por isso
olhar cuidadosamente nossas próprias elaborações e construções teóricas, como
nossa prática e desenvoltura do conselheiro é fundamental para enfrentar os
desafios que têm marcado a vida, bem como a própria ação institucional do
aconselhamento.

Referências Bibliográficas

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Desacertos. São Paulo: Revista de Estudos da Religião - REVER, 2008.

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Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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19652000000200009&lng=en&nrm=iso>. access on 01 Aug. 2015.
http://dx.doi.org/10.1590/S0100-19652000000200009.

__________ Bíblia Online.com. br. Almeida Corrida e Revisada. Disponível:


<http://www.bibliaonline.com.br/> acesso em 25 junho de 1015.

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Segunda Unidade

Aconselhamento Psicológico: Contribuições Teóricas e Práticas para o


Aconselhamento Cristão.

Apresentação da Unidade

Dialogar. Contribuir. São verbos fundamentais para esta disciplina, pois


quando se está diante de um desafio ou de uma necessidade tem-se que reunir
todas as condições para poder desenvolver o melhor trabalho possível. Isso quer
dizer que se o objetivo maior é possibilitar que a atividade do aconselhamento
exerça sua missão da melhor maneira, nada mais acertado do que se
instrumentalizar de forma teórica e prática com os conhecimentos teológicos, mas
também com outros conhecimentos que fazem interface com o aconselhamento.
Como já vimos e pontuamos, para se enfrentar os desafios que foram
inicialmente observados, na unidade anterior, e, que ainda vão ser sinalizados em
outras unidades, é fundamental que aja um congraçamento entre os conhecimentos
das áreas sociais, humanas e da saúde.
De uma maneira específica, entende-se que o diálogo entre as duas
modalidades de aconselhamento, como é o psicológico e o cristão contribui em
muito para o universo cristão. Principalmente, nos fundamentos teóricos e práticos
do exercício do aconselhamento, como conceito, teorias, processo e características
de um conselheiro eficiente. Tem-se, por sua vez, nesse diálogo mais um desafio
contemporâneo do aconselhamento.

Objetivos da Unidade

• Conceituar aconselhamento psicológico.


• Conhecer as teorias de aconselhamentos em Psicologia.
• Identificar as fases do aconselhamento.
• Apontar as características do conselheiro eficiente.
• Assinalar as contribuições do aconselhamento psicológico para com o
aconselhamento cristão.

Introdução

Esta unidade vai ser dedicada, em especial, ao estudo conceitual do


Aconselhamento Psicológico, o qual guarda as origens históricas e as características
fundamentais do aconselhamento em seus primórdios.
Reservamos um espaço para tratar sobre os métodos de aconselhamento
com a finalidade de orientar e estruturar as ações em aconselhamento, bem como
vamos ver algumas das principais teorias de aconselhamento em psicologia, como:
aconselhamento centrado no aconselhando; aconselhamento gestáltico;
aconselhamento psicanalítico e aconselhamento behaviorista.
Independente da teoria adotada o aconselhamento tem as fases necessárias
que devem ser observadas ao longo do processo; nesse sentido, vamos estudar as
fases: descoberta inicial, exploração em profundidade, preparação para a ação e,
por fim, término.

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Por fim, vamos estudar as características do conselheiro eficiente para a


realização do ato de aconselhar.

Conceito de Aconselhamento Psicológico

A palavra aconselhamento, segundo Patterson e Eisenberg (1995), é um


termo usado para descrever várias atividades, desde as comerciais às psicoterapias.
Contudo, neste texto, estar-se-á tratando desse conceito no campo da Psicologia
especificamente, pois conforme Scheeffer (1989), a partir da década de 80, o termo
tornou-se um campo próprio da Psicologia. Assim como há Psicologia
Organizacional, Experimental, Escolar, Esportiva, Hospitalar dentre outras.
Conforme Scheeffer (1989), historicamente o termo surge com os movimentos
psicológicos renovadores: a) Orientação infantil e juvenil; b) Orientação profissional;
c) Serviços de higiene mental para adultos envolvendo a questão conjugal e d)
Atuação na área da assistência social e nas empresas.
Segundo Patterson e Eisenberg (1995) o aconselhamento teve sua origem,
especificamente, no trabalho de Frank Parsons (1909), que tinha a preocupação de
ajudar pessoas jovens a fazer escolhas profissionais efetivas. Contudo é com Carl
Rogers, em 1942, que o aconselhamento ganha sentido de um serviço de ajuda
humana, principalmente na assistência social e na educação. A abordagem
rogeriana enfatizava o potencial de cada indivíduo e definia o papel do conselheiro
como facilitador do crescimento pessoal (PATTERSON e EISENBERG, 1995).
Quem faz uma boa síntese histórica do termo é a estudiosa do assunto,
Scheeffer ao afirmar:

Tradicionalmente, o termo aconselhamento foi usado em conexão a


varias situações, tais como: fornecer informações, dar conselhos,
criticar, elogiar, encorajar, apresentar sugestões e interpretar ao
aconselhando significado do seu comportamento. Na realidade, a
palavra aconselhamento foi empregada na sua evolução para
designar atividades que variam de punição e coerção a relação
permissiva que proporciona a liberação emocional do indivíduo e
facilita o seu desenvolvimento. À medida que as suas técnicas se
tornaram mais elaboradas e a sua aplicação ampliada, constituindo,
como já dissemos um novo ramo da psicologia científica, as
definições de aconselhamento sofreram idêntica evolução
(SCHEEFFER, 1989, p. 12).

Aconselhamento enquanto uma atividade do campo da psicologia deve se


distinguir, o que nem sempre é fácil fazê-lo na prática, da entrevista por ser uma
conversa com objetivos, da orientação educacional por ser um processo de ajuda e
da psicoterapia por ser o processo de ajuda a indivíduos que têm conflitos no âmbito
da normalidade. Deve-se ressaltar, mais uma vez, que não é simples distinguir
principalmente, aconselhamento de psicoterapia, segundo Scheeffer (1989).
Conduto, em uma perspectiva didática, tenha-se o referencial de níveis entre
aconselhamento e psicoterapia, sendo que o primeiro está no campo, segundo os
padrões aceitos, da normalidade, no entendimento de Robinson (in: SCHEEFFER,
1989, p.13), que compreende “como uma ajuda às pessoas normais a obter um nível
mais elevado de ajudamento que se manifesta através de maturidade crescente,
independência, integração pessoal e responsabilidade”.

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Nesse sentido, Erickson (SCHEEFFER, 1989) apresenta as seguintes


características próprias da entrevista de aconselhamento: 1. É uma relação
entre duas pessoas; 2. Um dos participantes (o entrevistador) assumiu ou foi
levado a assumir a responsabilidade de ajudar o outro participante; 3. O
entrevistando tem possíveis necessidades, problemas, bloqueios ou frustrações que
deseja tentar satisfazer ou modificar; 4. O bem-estar do entrevistando constitui o
interesse central da situação; 5. Ambos os participantes desejam e estão
interessados em tentar encontrar soluções para as dificuldades apresentadas pelo
entrevistando.
Segundo Patterson e Eisenberg (1995) o aconselhamento é um processo
interativo, caracterizado por uma relação única entre conselheiro e aconselhando,
que leva este último a mudanças em uma ou mais das seguintes áreas: a)
Comportamento; b) Construções pessoais ou preocupações emocionais
relacionadas a essas percepções; c) Capacidade de ser bem-sucedido nas
situações da vida, e, d) Conhecimento e habilidade para tomada de decisão.
Por fim, os autores assinalam que o aconselhamento deve resultar em
comportamento livre e responsável, sendo acompanhado de capacidade para
compreender e controlar a ansiedade.

Os métodos de aconselhamento

É fundamental ressaltar que nesta área há um aspecto dinâmico. Há métodos


e não simplesmente um método de aconselhamento. Scheeffer (1989) sistematiza
os métodos de aconselhamento como uma evolução: “os métodos de
aconselhamento têm sofrido, durante a sua evolução, acentuadas modificações nas
suas técnicas, nos princípios que a norteiam e na sua dinâmica” (p. 19). Vejamos a
seguir de forma sintética uma brevíssima definição e caracterização, a partir de
Scheeffer dos seguintes métodos de aconselhamento: Método Autoritário; Método
exortativo; Método sugestivo; Catarse; Método diretivo; Método interpretativo;
Método Não diretivo e Método eclético.

Síntese das Características Gerais dos Métodos de Aconselhamento

Método autoritário o Ordenar;


o Proibir;
o Repreender;
o Ameaçar.
Método exortativo o Termo de compromisso e
promessas formais como estímulo
para modificação de atitudes.
Método sugestivo o Repressão da problemática através
de encorajamento e suporte.
Cartase o Verbalização de problemas e de
vivências emocionais conscientes e
inconscientes a alguém que
proporcione aceitação e
compreensão.
Método Diretivo O orientador:

o Dirige a entrevista;
o Seleciona os tópicos;
o Define os problemas;
o Sugere soluções e planos de ação;

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o Baseia-se na orientação médica.


Método Interpretativo o Esclarecimentos a respeito das
motivações (às vezes inconsciente)
do comportamento e atitudes.
Método não-diretivo O orientando:

o Dirige a entrevista;
o Visa ao amadurecimento emocional
e não apenas solução de
problemas,
o Focaliza o conteúdo emocional
expresso pelo cliente,
o Proporciona atmosfera propicia para
autodeterminação por parte do
orientando.
Método eclético o Emprega, simultaneamente ou não,
os vários métodos, de acordo com a
natureza do problema e a
necessidade do cliente.
Fonte: Scheeffer, 1989

Teorias em Aconselhamento Psicológico

Já se tem como consenso, a ideia de aconselhamento, segundo Patterson e


Eisenberg (1995), onde se apresentam elementos próprios como a construção do
relacionamento, descoberta inicial, exploração em profundidade e planejamento da
ação; todavia, há diferenças nas ênfases teóricas advindas das abordagens mais
usuais em aconselhamento.
Atualmente, existe literatura clássica que aborda sobre o assunto, em língua
portuguesa, dentre as quais se destacam os seguintes autores: Scheeffer (1980 e
1985), Corey (1983) e Patterson e Eisenberg (1988). O texto a seguir estará
fundamentado nas ideias de Patterson e Eisenberg (1988) onde serão destacados
os referenciais teóricos das abordagens, dentre os quais: Aconselhamento Centrado
no Aconselhando; Aconselhamento Gestáltico; Aconselhamento Psicanalítico e
Aconselhamento Behaviorista.
A forma de apresentação destacará as origens históricas, a concepção de
natureza humana e o processo de aconselhamento de cada uma dessas
abordagens e no final um quadro sinóptico das abordagens tendo como referência a
relação conselheiro/aconselhando.
Fica a indicação, todavia, de uma leitura mais aprofundada no que concerne a
prática em aconselhamento, o texto de Corey (1983), o qual de forma sistemática
apresenta técnicas associadas às devidas abordagens teóricas, possibilitando o
devido aprofundamento inicial.

a) Aconselhamento Centrado no Aconselhando

O fundador dessa abordagem é o psicólogo, norte-americano, Carl Ranson


Rogers (1902-1987). Sua prática foi considerada uma reação às concepções já
estabelecidas da Psicanálise e do Behaviorismo, a chamada terceira força da
Psicologia, a Psicologia Humanista.
Essa visão de ser humano é eminentemente positiva, no sentido otimista do
termo. Pois vê o ser humano como possuidor de valores positivos e de desejo de vir
a aturar integralmente, portanto, viver o mais efetivamente possível. Essa visão é

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bem diferente da psicanálise, que compreendia que o ser humano era refém de
impulsos negativos e se não fosse socializado adequadamente dariam origem a
comportamentos destrutivos para ele próprio e para os outros.
Essa abordagem, segundo Patterson e Eisenberg (1988), esta baseada em
uma teoria da personalidade chamada teoria do eu (self theory). Essa concepção
advoga que o que a pessoa tem do próprio eu no contexto de seu meio determina
seu comportamento e sua satisfação pessoal, isso devido à forma que as relações
foram se constituindo, ou amigável ou hostil. Nessa teoria, ressalta que as
percepções que a pessoa faz do eu e das outras pessoas são a realidade para ela,
ou seja, se uma pessoa se vê como incompetente independente que haja uma
situação favorável para a estima ele agirá como um incompetente.
O processo de aconselhamento parte do princípio que os seres humanos são
positivos e autorrealizadores por natureza. Nessa direção, o conselheiro deve
proporcionar condições que permitam a autodescoberta e encorajem a tendência
natural do aconselhando para o crescimento pessoal.
Segundo Patterson e Eisenberg (1988) para encorajar a descoberta, o
conselheiro deve estabelecer condições que promovam confiança no aconselhando.
São essas as condições como características da relação de ajuda ao
crescimento propostas por Rogers: a) Empatia – compreender a experiência do
outro como se fosse a própria, sem jamais esquecer a condição “como se”; b)
Coerência ou autenticidade – ser como você parece, sempre coerente, digno
de confiança no relacionamento; c) Consideração positiva – interessar-se por
seu aconselhando; d) Incondicionalidade – não estabelecer condições para seu
interesse; e) Concreção – usar linguagem clara para descrever a situação de vida
do aconselhando.
É fundamental destacar que o conselheiro nessa perspectiva atua
fundamentalmente como um modelo operacional para orientar a pessoa como deve
viver integralmente os relacionamentos com outras pessoas.
A abordagem centrada no aconselhando emprega técnicas menos condutivas
no processo de aconselhamento, utilizando respostas de silêncio, aceitação,
reafirmação e clarificação, sendo o aconselhando que conduz a discussão e é
responsável pelos resultados (PATTERSON e EISENBERG, 1988).

b) Aconselhamento Gestáltico

Esta maneira de conceber o aconselhamento foi uma elaboração inicial de


Frederick Perls (1893-1970), segundo Ballone (2005)
A chamada Gestalt-terapia surge no início da década de 50, a partir das
reflexões de Friederich Perls, um psicanalista nascido em Berlim em 1893, que
emigrou durante a década de 40 para a África do Sul e posteriormente para os
Estados Unidos da América, onde juntamente com um grupo de intelectuais norte-
americanos desenvolveu esta nova abordagem (Ballone, 2005).
Inicialmente, o conceito central é a ideia de todo. Essa ideia traduz o termo
Gestalt, de forma bem elementar. Nesse sentido, o todo é mais importante que a
soma das partes para essa abordagem. O ser humano funciona como um todo
sempre em busca de equilíbrio. O desequilíbrio é proveniente das ameaças externas
e pelos conflitos internos. Sendo, assim, cabe ao aconselhamento preservar o
equilíbrio entre todas as áreas da vida de uma pessoa, dentre elas, as fisiológicas e
as psicológicas e, ainda, nessa abordagem não há comportamento “ruim” ou “bom”,
mas comportamento “efetivo” ou “inefetivo”.

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O aconselhamento gestáltico tem caráter afetivo e centrado no aconselhando,


por que os sentimentos são enfatizados e o aconselhando é responsável por sua
atuação na vida. Nessa perspectiva, o conselheiro é um facilitador de um
aconselhando em direção à autorresponsabilidade.
No processo de aconselhamento da gestalt, o objetivo é estimular o
crescimento pessoal, o qual se desenvolve em uma sequência que passa da
experiência para a sensação, desta para a experimentação e, então, para a
formação da Gestalt. Perls, Goodman e Hefferline (MARTÍN, 2007), foram os
primeiros que descreveram as etapas do processo de contato retiradas ou o ciclo de
excitação no qual se vê envolvido o indivíduo quando satisfaz suas necessidades:
etapa de pré-contato. Sensação-excitação; etapa de tomada de contato. Em um
primeiro momento há excitação e no segundo escolha ou rejeição das possibilidades
de acordo com as necessidades emergentes; Etapa de contato final. Nesta fase a
percepção, a ação e o sentimento caminham juntos, e, por fim, etapa de pós-
contato. A excitação desaparece e se transforma em relaxamento.
A neurose é considerada uma interrupção (bloqueio) do processo de
crescimento e os mecanismos de defesa, dispositivos que enfraquecem o viver
efetivo. Segundo Martín (2008), na pessoa neurótica, há três forças que determinam
esse bloqueio:
Primeiro: se a pessoa, por seu insuficiente contato com o ambiente, não olha
para a pessoa com quem fala, nem olha para os objetos que descreve e, em geral,
lhe passam despercebidos todos os seus gestos, seus movimentos, seu tom de voz;
consequentemente, seu contato com o ambiente fica reduzido e sem dar conta, por
meio de um dos mais importantes sentidos com a vista, lhe passa despercebida.
Segundo: há um bloqueio e incapacidade de expressar abertamente as
necessidades e, consequentemente, a satisfação das mesmas não se realiza e a
pessoa permanece enganchada e pendente.
Terceiro: a repressão – quando a pessoa, por diversos motivos inibe a sua
expressão, a qual se dá por meio do seu organismo, mediante o processo muscular.
A repressão é um dos principais mecanismos que impedem a formação de gestalt.
Ainda, conforme Martín (2008), estes sintomas se sobressaem na constituição
da neurose: percepção distorcida da realidade; angústia, que pode somatizar-se
corporalmente e influir no aparecimento de doenças; comportamentos negativos
para a pessoa: autopunitivos ou destrutivos; isolamento, com a consequente perda
nos intercâmbios com o entorno, e a insatisfação que isto cria em todos os níveis.
Cabe ao aconselhamento da gestalt frustrar as tentativas do aconselhando de
evitar novas experiências mediante comportamentos defensivos (PATTERSON e
EISENBERG, 1988).
Por fim, as técnicas usadas pelo conselheiro da Gestalt visam trazer
experiências “passadas e distantes” para o “aqui e agora”, como a dramatização,
jogos de exageração e do “eu assumo responsabilidade” dentre outras. É importante
ressaltar que não compete ao conselheiro chamar a atenção do aconselhando para
as tentativas de defesas como imposturas, mas sim incentivá-lo a ter uma postura
autêntica que reflita seu estado interior, o que não é algo simples, por sua vez.

c) Aconselhamento Psicanalítico

A Psicanálise foi uma criação de Sigmund Freud (1856-1939) nasceu em


Freiberg, Moravia, no império austro-húngaro (hoje Pribor, Checoslováquia).

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Estudou na Universidade de Viena em 1873, primeiro fez filosofia e depois medicina,


e se especializou em fisiologia nervosa.
Inicialmente, a Psicanálise não estava voltada para o aconselhamento, após
Rogers ela toma um novo rumo. Nesse sentido, a psicanálise se constitui um
processo de ajuda minucioso e longo que colocava bastante ênfase no
desenvolvimento psicossexual do aconselhando. Patterson e Eisenberg (1995)
afirmam que o aconselhamento e a psicoterapia orientados psicanaliticamente são
as práticas mais adotadas de ajuda humana.
Para essa concepção a pessoa é um ser biológico dirigido por um desejo
instintivo para o prazer pessoal (gratificação). A força vital ou libido é a fonte de
energia que os impulsiona para comportamentos que satisfazem o motivo do prazer.
O comportamento humano é pautado pelo princípio do prazer, por isso é de
fundamental importância o processo de socialização, onde os comportamentos são
redirecionados para uma forma de vida que não seja destrutiva ou inaceitável para
os outros.
As principais elaborações da psicanálise advêm de Freud como as seguintes:

a) As fases do desenvolvimento psicossexual: oral, anal, fálica, de latência e


genital. O ser humano ao se desenvolver tem necessidades que se satisfeitas
permitem crescimento em direção à maturidade psicológica.
b) O inconsciente que é uma das ideias mais importantes da teoria
psicanalítica onde o indivíduo não tem consciência de grande parte do seu processo
mental e que a atividade mental pode ser inconsciente.
c) A estrutura da personalidade, a qual é constituída de três componentes
interagentes: id, ego e superego:

I. O primeiro é a fonte da energia psíquica e a origem do instinto.


II. O segundo é considerado o “executivo” da personalidade, sede do
pensamento racional, que media os desejos instintivos e as exigências do meio.
III. O terceiro, superego que são normas de certo e errado e que advêm do
meio exterior, da cultura.

d) Por fim, os mecanismos de defesa, estes são responsáveis em “proteger” o


ego quando este não dá conta. É quando a pessoa se encontra em estado de
ansiedade, o qual ameaça a sua estrutura psíquica. Por fim, os mecanismos de
defesa atuam para reduzir e suavizar a tensão do ego diante das incursões das
energias do id e do superego. Os mecanismos de defesa são: racionalização,
projeção, sublimação, formação reativa, negação, regressão, repressão,
deslocamento, isolamento.
O processo de aconselhamento na linha psicanalítica ressalta que o
aconselhando traz um comportamento inconsciente onde suas atuações se fazem,
principalmente, na utilização dos mecanismos de defesa. Cabe ao conselheiro, ao
interpretar encorajar o aconselhando a enfrentar o material inconsciente e resolver
os conflitos contidos nele. Nesse sentido, o aconselhando pode abordar esses
conflitos por meio da livre associação, discussão de problema ou relato de sonho.
Diante disso, cabe ao conselheiro compreender os motivos do aconselhando e
interpretar o comportamento dele com o objetivo de o próprio aconselhando produza
o devido insight necessário para uma autocompreensão e, assim, o alívio de seu
sofrimento psíquico.

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d) Aconselhamento Behaviorista

Historicamente, segundo Patterson e Eisenberg, (1995), o desenvolvimento


do aconselhamento behaviorista deveu-se aos estudiosos B. F. Skinner (1971), John
Krumboltz e Carl Thoresen (1969, 1976) e Donald Meichenbaum (1977).
O aconselhamento behaviorista baseia-se na teoria da aprendizagem, onde
todo comportamento é aprendido e, portanto, pode ser mudado. Tal elaboração é o
pressuposto fundante dessa abordagem. O objetivo do aconselhamento behaviorista
é mudar o comportamento inefetivo.
Para os behavioristas, o comportamento humano é produto da
hereditariedade e do meio. Uma típica visão determinista. Não há a ideia que o ser
humano tende a ser bom ou mau. Dependendo das condições do meio e das
características herdadas, o ser humano pode ser bom ou ruim. O ser humano é
dotado da capacidade de aprender e este aprender se faz mediante o
condicionamento.
O processo de aconselhamento behaviorista tem sua ênfase na definição
clara dos objetivos como, por exemplo: se uma pessoa quer ter um melhor
relacionamento com os pais, então, um objetivo claro seria: “jantarei em casa pelo
menos quatro noites por semana e farei tudo o que posso para ter, em boa parte de
minha vida, conversas agradáveis com eles”.
Em geral, os conselheiros behavioristas trabalham para mudar
comportamentos indesejáveis sem necessariamente tratar de questões afetivas. É
possível, ainda, identificar e calcular comportamentos-alvo específicos que devem
ser eliminados ou reforçados como resultado do aconselhamento.
Fundamentalmente, as estratégias de aconselhamento behaviorista baseiam-
se nos princípios de aprendizagem, o aconselhando aprende a pensar de modo
diferente sobre o seu comportamento ou simplesmente é condicionado a comportar-
se de maneira diferente. Nessa perspectiva, desenvolver o condicionamento
operante por meio de técnicas de reforço, quer na obtenção ou extinção de
comportamentos. Outras técnicas são: a dessensibilização para a redução de medos
irracionais ou fóbicos, por exemplo, e mostrar um modelo de comportamento onde o
aconselhando vê o comportamento adequado dentre outras.

Fases do Processo de aconselhamento

Aconselhamento é um encontro. Esse encontro, por sua vez, para que se


torne efetivamente um aconselhamento psicológico deve ter uma dinâmica própria.
O aconselhamento psicológico é bem compreendido quando se usa o termo
“processo”. Essa expressão sinaliza uma sequência, lógica, de certa forma
harmônica, que tenha uma estrutura, que se podem chamar fases. Assim entendem
Patterson e Eisenberg:

No aconselhamento também existe um conjunto previsível de etapa


as que ocorrem numa sequência completa. Inicialmente, o
conselheiro e o aconselhando devem estabelecer contato, definirem
juntos “em que ponto o aconselhando está” em relação a sua vida, e
identificar os problemas. Segue-se uma conversa, que leva a uma
compreensão mais aprofunda das necessidades e desejos do
aconselhando, no contexto de seu mundo interpessoal, com objetivos
de mudança emergindo lentamente; por fim, há o planejamento das

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ações apropriadas para realizar alguns objetivos identificados


(PATTERSON e EISENBERG, 1995, p.27).

Vejamos, a seguir, as três fases propostas por Patterson e Eisenberg, (1995),


as quais sejam: 1) Descoberta Inicial; 2) Exploração em Profundidade; 3)
Preparação para a ação e 4) Término.

1. Descoberta inicial – como todo encontro, existe o primeiro. Onde as


pessoas não são conhecidas. Por isso, logo de início deve ser assinalado, que cabe
ao conselheiro toda a atenção do mundo. Carkhuff e Ergan (PATTERSON e
EISENBERG, 1995) observam que prestar a atenção é um importante
comportamento do orientador no começo do aconselhamento.
Destaca-se certamente, nesse contexto, o ato de ouvir na relação entre
conselheiro e aconselhando. Conforme Amatuzzi (1990) ouvir vem antes de falar.
Nesse sentido, o diálogo está garantido, pois a fala só tem sentido quando de fato se
ouve primeiro. Mas é imprescindível afirmar que não basta ser um bom observador;
o que ajuda bastante, mas não é essencial nessa relação. Quem de uma maneira
apropriada ressalta o sentido de ouvir é Amatuzzi (1990, p.4) ao afirmar: “ouvir é
mais que observar, é estar em relação, e, portanto, tornar-se presente”.
Por isso, devemos sempre assinalar que ouvir não pode ser de qualquer
maneira ou forma, mas se deve ouvir com esmero e com dedicação com o nobre
objetivo de capturar o que de fato a pessoa está querendo dizer, ou seja, o que
significa as suas palavras. Nessa perspectiva, Amatuzzi faz a seguinte ressalva
sobre o significado da palavra dita:

Há uma distinção que também me ajuda a compreender isso. É a


distinção entre mero significado e significado pleno. O mero
significado fica ao nível das palavras, enquanto que o significado
pleno se prende a toda presença significante tornada efetiva por
essas palavras ditas. Penso que existem três dimensões na fala
(enquanto dizer). Uma semântica: a que se refere ao significado.
Outra política: que se refere ao tipo de relação de poder que esta fala
realiza ou propõe. E outra, a semiológica: que se refere àquilo que a
fala indica ou sinaliza para além de seu significado. Essas três
dimensões estão presentes na fala como ato concreto, mas elas só
são claramente separáveis (quando a fala não é instrumento de uma
atualização ou integração da pessoa, e consequentemente não
veicula um poder como poderia; não compromete nem envolve a
pessoa como um todo. Quando a fala faz isso, tem essa força, então
fica mais difícil separar o significado, o poder e o indicado por ela, e
então aparece mais claramente sua dimensão simbólica que é
justamente a de integrar essas três dimensões face ao interlocutor. A
isso chamo de fala autêntica. Na fala autêntica o significado não é
separado do poder e nem daquilo que se faz presente por ela. E isto
é o significado pleno. Ora, todas as falas são potencialmente
autênticas, quer dizer, por alguma raiz se prendem a um solo de
autenticidade (mesmo quando são falsas, inautênticas ou
automatizadas). Portanto em qualquer caso posso estar aberto para
o significado pleno, disponível para recebê-lo. Creio que é isso a
disposição de ouvir realmente. E de fato receber o significado pleno e
não apenas o mero significado, é ouvir. E a resposta que brota de um
semelhante ouvir (como uma necessidade), bem poderia ser
chamada de interpretação simbólica, pois coloca junto aquilo que
eventualmente esta separado (AMATUZZI, 1990, p. 2).

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Nessa fase, cabe ainda ao conselheiro exercer a continência para auxiliar o


aconselhando em suas articulações de forma que fique clara qual a sua real
preocupação que o trouxe à sessão. Nesta etapa, ainda, é indispensável que se já
tenha construído os devidos vínculos que possibilitem encorajamento ao
aconselhando. Para isso, as ideias rogerianas sobre a relação de ajuda inicial e
durante todo o processo são imprescindíveis: a) A empatia – compreender a
experiência do outro; b) A coerência – ser digno de confiança; c) A consideração
positiva – mostrar-se interessado pelo aconselhando; d) A incondicionalidade –
interesse incondicional pelo aconselhando, e, e) A concreção – usar linguagem clara
para ajudar o autoentendimento do aconselhando.

2. Exploração em Profundidade – nesta fase do aconselhamento, o


aconselhando deve desenvolver uma capacidade de precisar suas preocupações e
apontar um novo senso de direção. Para isso, é necessário que os objetivos do
aconselhamento comecem a se tornar mais claro o quanto possível.
Deve o conselheiro começar a trazer, de forma sutil, suas impressões
diagnósticas sobre as dinâmicas e os comportamentos de luta do aconselhando
para o debate, bem como apresentar suas reações às afirmações do aconselhando.
Deixando claro, que o “conselho” dado não é uma crítica pela crítica, mas tem uma
razão de ser, por isso ao conselheiro sempre a advertência de desenvolver um
comportamento pautado nas características de ajuda de Rogers.
Portanto, nesta segunda etapa, é necessário que o aconselhando se depare
com seus comportamentos inadequados, ou não familiares, é uma fase de
confrontação, por isso esta fase é considerada de profundidade, pois tem o objetivo
de ajudar o aconselhando a perceber melhor os seus conflitos.
3. Preparação para a ação – chegou a hora de agir. Nesta fase, o
aconselhando tem de precisar os objetivos a seguir, ou seja, o que fazer diante das
preocupações que foram definidas como sendo as fundamentais em seu conflito
vivenciado. Agora é decidir quais as ações abertas, se houver alguma, para minorar
as preocupações identificadas.
Nessa fase deve desenvolver com o aconselhando um senso de
responsabilidade, onde as decisões tomadas têm cursos possíveis e onde o
aconselhando deve escolher e julgar em termos de probabilidade dos resultados.
Isso deve ser feito de maneira conjunta. Assim como, deve haver de maneira
conjunta os passos inicias de mudança.
Portanto, nesta fase deve haver a tomada de decisão e ação. É o
aconselhando que deva considerar as ações possíveis e escolhe uma para colocar a
prova. Ao conselheiro, cabe apoiar a experimentação de novos comportamentos e
ajudar o aconselhando a avaliar a eficácia dos mesmos – ou de novas concepções
da realidade – à medida que possam se relacionar à redução da tensão. Segundo
Patterson e Eisenberg, (1995), quando o aconselhando percebe que os novos
comportamentos estão sendo satisfatórios, o aconselhamento está terminando.
4. Término - quando o aconselhamento se sente em condições de
desenvolver uma vida equilibrada e adequada diante das situações que a
desestruturavam, deve-se pensar no término desse processo. Para que isso ocorra
é imprescindível que se faça as verificações necessárias sobre as mudanças
ocorridas, por exemplo, conforme Patterson e Eisenberg, 1995: a) desenvolvimento
de perspectivas mais claras e mais enaltecedoras sobre o próprio eu, os outros e o
ambiente; b) redução das emoções desagradáveis, como ansiedade, tristeza, raiva e
falta de confiança em si; c) aquisição de novos comportamentos interpessoais e

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habilidades para lidar com a tensão; d) construção de planos de ação para seu
futuro pessoal.
Contudo é necessário observar ainda os seguintes itens sobre o término do
aconselhamento tanto para o conselheiro quanto para o aconselhando: a) Deve ser
uma decisão mútua e b) Observar os níveis de resistência à separação tanto por
parte do conselheiro quanto do aconselhando.
Esse processo deve ter um término positivo. Patterson e Eisenberg (1995)
listam os seguintes princípios que devem ser observados pelo conselheiro para a
finalização positiva do aconselhamento: 1. Esteja claramente consciente das
necessidades e desejos do cliente; 2. Esteja claramente consciente de suas próprias
necessidades e desejos; 3) Esteja consciente de suas experiências anteriores de
separação e de suas reações interiores a essas experiências; 4) Peça ao cliente
para dizer como se sente quanto ao término da experiência; 5) Diga a seu cliente,
sinceramente, como você se sente quanto a essa experiência de aconselhamento;
6) Faça uma revisão dos acontecimentos principais da experiência de
aconselhamento; 7) Reconheça aprobativamente as mudanças que o cliente
efetuou, e, 8) Diga ao cliente para mantê-lo em dia sobre o que está acontecendo na
vida dele.
Por fim, é importante ressaltar que um aconselhamento pode terminar porque
o conselheiro não reúne condições para atender o aconselhando. Isso pode ser
observando quando não há avanço no processo de aconselhamento. Diante disso, é
preciso que este profissional faça os devidos encaminhamentos ao aconselhando.
Sobre essa fase, Patterson e Eisenberg (1995) observam:
O término é uma fase integrante do processo de ajuda. O término eficaz
proporciona um encerramento positivo para a experiência e encoraja o cliente a
continuar usando sua nova aprendizagem. Por ser uma experiência de separação
após um relacionamento intenso, os sentimentos de perda podem algumas vezes
originar resistências. As diretrizes para o conselheiro incluem a consciência de suas
próprias emoções e das do cliente, a comunicação sincera sobre as emoções atuais
do aconselhamento. Se o aconselhamento não foi bem-sucedido, o
encaminhamento pode ser adequado. As diretrizes para ajuda o cliente a trabalhar
sua tendência incluem dar apoio, apresentar a ideia no momento oportuno e ter
informações fidedignas sobre o recurso envolvido (p. 107).

Quadro - Fases do processo de aconselhamento

Descoberta inicial Exploração em Preparação para a ação


profundidade

 Comunicar a natureza  Desenvolver  Testar alternativas e


das preocupações, compreensão mais construir planos para
abrangendo conteúdo, profunda dos significados conseguir objetivos
sentimentos e contexto; de preocupações desejados;
Trabalho  Clarificar significados pessoais e formulação de  Desenvolver
espontâneos das tentativa de objetivos. confiança
do
preocupações durante a suficientemente forte,
aconselhando descoberta. nesses planos, para
sustentar a ação.
 Proporcionar condições  Ampliar os instrumentos  Ajudar a traçar um
para desenvolver uma do aconselhando para conjunto de
relação de confiança e compreender o próprio alternativas;
trabalho: eu, através de empatia,  Estruturar o processo
o Compreensão empática; imediação, confrontação, da tomada de

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o Coerência ou interpretação e decisão;


autenticidade; dramatização;  Estimular avaliação e
Trabalho o Consideração positiva;  Comunicar percepções verificação da
o Interesse incondicional; diagnósticas ao realidade.
do o Concreção. aconselhando, de modo
conselheiro experimental;
 Engajá-lo num processo
de auto-diagnóstico.
Fonte: Patterson e Eisenberg (1995)

As características do Conselheiro Eficiente

Como este material tem como objetivo maior formar ou capacitar pessoas
para a atividade de aconselhamento; se faz necessária abordar a figura do
conselheiro propriamente dito. As ideias a seguir foram sistematizadas e resumidas
do texto “O processo de aconselhamento” de Patterson e Eisenberg (1995),
especificamente do item que trata das características dos conselheiros.
A forma de apresentação será em sinopse conforme proposta original do
texto:
1. O conselheiro eficiente é hábil em levar à extroversão, quando encoraja
a outros a se comunicarem aberta e sinceramente com ele. Ouve de modo atento e
envolvido.
2. O conselheiro eficiente inspira sentimentos de segurança, credibilidade
e confiança nas pessoas a quem ajuda, pois é sentido pelo aconselhando
rapidamente que pode compartilhar suas preocupações e sentimentos abertamente.
3. O conselheiro eficiente é capaz de introversão e extroversão, pois está
ciente dos sentimentos que experimentam e das origens dos mesmos. São capazes
de dominar a ansiedade e responder a pergunta “quem sou eu?”.
4. O conselheiro eficiente transmite interesse e respeito pelas pessoas
que estão procurando ajuda, quando age colocando-se junto a elas nos seus
momentos de felicidade ou de tristeza, sendo uma presença que pode ser acima de
tudo sentida como real.
5. O conselheiro eficiente gosta de si mesma, respeita-se, e não usa as
pessoas, a quem está tentando ajudar, para satisfazer suas próprias necessidades,
pois estão cientes da sua missão e profissionalismo.
6. O conselheiro eficiente tem conhecimento específico em alguma área
que será de especial valor para a pessoa que está sendo ajudada, pois utiliza os
seus conhecimentos para auxiliar e não manipular a favor de seus próprios dogmas.
7. O conselheiro eficiente procura compreender o comportamento das
pessoas a quem tenta ajudar, sem impor julgamento de valor, mas procuram agir
sem pré-julgamentos, ao contrário, aceita o comportamento do aconselhando como
uma forma que ele encontrou para poder dar conta da realidade que o assola.
8. O conselheiro eficiente é capaz de pensar em termos de sistemas, não
de uma forma pontual ou estaque. Prima por uma visão holística, inter-relacional em
que um determinado comportamento de uma pessoa sempre tem a ver com os
comportamentos, os quais também apontam, por sua vez, outras relações que
guardam, consequentemente, os seus significados.
9. O conselheiro eficiente é contemporâneo e tem visão global dos
acontecimentos humanos. É conhecedor do seu tempo, pois o vive integralmente
seu momento. Tem ciência em profundidade das preocupações sociais atuais e
consciência de comum esses fatos afetam as concepções de aconselhandos.

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10. O conselheiro eficiente é capaz de identificar padrões de


comportamento contraproducentes e procura ajudar as pessoas a substituí-los por
padrões mais gratificantes, pois possui um modelo das qualidades e padrões de
comportamento de um indivíduo saudável e dos modos eficazes e ineficazes de
dominar situações cotidianas de tensão.
11. O conselheiro eficiente consegue ajudar o outro a olhar par si mesmo
e responder não defensivamente à pergunta, pois tem na sua própria dinâmica de
vida a abertura para a aprendizagem e o crescimento, de forma sincera.

Conclusão

Acredito que ao final desta segunda unidade devemos destacar alguns pontos
sobre o aconselhamento psicológico, e, suas contribuições para o aconselhamento
cristão:
1. O aconselhamento tem suas origens no ato de ajudar e orientar jovens em
suas decisões profissionais e escolhas. Nesse sentido, o acúmulo dos
conhecimentos do aconselhamento psicológico pode ajudar em muito o conselheiro
cristão, pois há também assuntos e situações que vivenciam e que as pessoas que
necessitam de ajuda buscam orientação espiritual para os seus problemas, e, este
conselheiro cristão deve está apto e ciente de seu papel nesses momentos tão
importantes para tomada de decisão.
2. O aconselhamento é um processo interativo, caracterizado por uma relação
única entre conselheiro e aconselhando, que leva este último a mudanças em
diversas áreas da vida. Aqui se tem uma contribuição impar para a relação entre
conselheiro e aconselhando, onde a ciência dessa atividade já enriquece em muito o
trabalho do conselheiro cristão, e, assim cria condições necessárias para o bom
desempenho dessa atividade junto a quem busca mudanças.
3. Ao longo dos tempos, foram sendo desenvolvidos os mais diversos
métodos de aconselhamento, como o método diretivo e não diretivo, os mais
conhecidos. Têm-se aqui as formas ou maneiras que um conselheiro pode exercer
sua atividade. Isso contribui em muito para o trabalho do conselheiro, pois tendo um
método ou procedimento, o conselheiro sente-se mais seguro e pode propor
atividades mais organizadas, e, assim, avaliar o processo como um todo. Ressalte
que esse tema referente aos métodos de aconselhamento cristão será abordado em
uma unidade específica.
4. Há um consenso no processo e procedimentos no aconselhamento
psicológico. Suas fases são: descoberta inicial, exploração em profundidade,
preparação para a ação e o término do aconselhamento. Sem dúvida, sabe-se que
os procedimentos estão relacionados a uma concepção determinada, ou linha, ou
abordagem ou concepção, mas o fato de haver fases que se colocam como
estruturantes, que possibilitam organizar a relação com o aconselhando para que se
possa extrair o melhor, com vistas aos objetivos dessa atividade, é primordial.
5. Para que um conselheiro exerça as suas funções enquanto tal são
necessárias as seguintes características: proporcionar comunicação do
aconselhando; ouvir com atenção; proporcionar um ambiente de segurança
credibilidade e confiança; dominar a ansiedade e procurar se conhecer; manifestar
interesse e respeito pelas pessoas; gostar de si mesma, respeitar-se e a outras; ser
profissional; ter conhecimento; não fazer pré-julgamentos; ter uma visão sistêmica
sobre a vida humana; identificar padrões de comportamentos contraproducentes e
ter como função ser um suporte para o aconselhando. De forma objetiva essas

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características contribuem em muito para o exercício do conselheiro, uma vez que


são muitas as questões que envolvem seu papel e as expectativas das pessoas que
buscam ajuda.

Referências Bibliográficas

AMATUZZI, M. M. O que é ouvir. PUCCAMP: 1990. Publicado em “Estudos de


Psicologia”, número 2, agosto/dezembro.

BALLONE, G. J.; MOURA, E. C. Friederich Perls. acesso: <www.psiqweb.med.br>.


Acesso em: 23 maio. 2015.

COREY, G. Técnicas de aconselhamento e psicoterapia. Rio de Janeiro:


Campus, 1983.

MARIANO, R. A. Noções Básicas de Filosofia e de Ética: aprendendo a pensar


de maneira crítica os principais temas da filosofia e da ética para a vida
pessoal, escolar e profissional. Maringá/PR: Liceu, 2007.

MARTIÍN, A. Manual Prático de Psicoterapia Gestalt. Petrópolis: Vozes, 2008.

NALINI, J. R. Ética geral e profissional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001.

PATTERSON, L. O processo de aconselhamento. São Paulo: Martins Fontes,


1995.

SCHEFFER, R.. Aconselhamento Psicológico. São Paulo: Atlas, 1989.

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Terceira Unidade

Servir e Cuidar: uma leitura bíblica para enfrentar os desafios


contemporâneos do aconselhamento.

Apresentação da Unidade

Quando inicie a apresentação desta unidade fiquei pensando na ordem das


duas palavras chaves, que justamente são dois verbos: servir e cuidar. Fiquei
pensando que poderia colocar em ordem alfabética, sendo assim ficaria primeiro
“cuidar” e depois “servir”. Mas deixei dessa maneira porque a presente unidade tem
o grande objetivo de fazer uma exposição bíblico-teológica. Sendo assim o “servir”
realmente deve vir primeiro, não só neste contexto, mas porque biblicamente “servir”
é uma palavra carregada de importância e significado fundamental para a Fé Cristã.
Como vamos estudar, essa palavra advém de um termo caro e muito rico, “diaconia”.
Esta palavra, por sua vez, é crucial para a história do Novo Testamente, para a
tradição dos primeiros cristãos e, consequentemente para o ministério cristão, que
dentre outras atividades tem o aconselhamento.
Já a palavra “cuidar” procede daquela, contudo “cuidar” nos remete também a
um universo riquíssimo e imprescindível, como você poderá constar, caro aluno (a),
ao se envolver com a exposição que será realizada. Nesse sentido, o ato de
aconselhar se coloca como um ministério de tantos outros que estão fundamentados
no cuidar e, por procedência, no servir biblicamente.
O desafio contemporâneo do aconselhamento, nesse contexto, é desenvolver
fundamentos e elaborações teóricas do universo bíblico que possibilitem robustez
para enfrentar os diversos desafios que se colocam, os quais muitos estão
identificados como sendo complexos, como as crises que assolam os
relacionamentos conjugais, a relação pais e filhos, comportamentos e atitudes em
diversos contextos em que se encontram a pessoa, como o próprio ambiente de
trabalho.

Objetivos da Unidade

• Apontar os fundamentos bíblico-teológicos do Ministério, Cuidado,


Poimênica e Aconselhamento;
• Ressaltar os aspectos fundamentais do Aconselhamento;
• Destacar os significados do termo “diaconia”, na Bíblica;
• Conscientizar que o fazer aconselhamento cristão é próprio do serviço
cristão;
• Conhecer os fundamentos bíblico-teológicos da poimênica.

Introdução

A Bíblia é uma das fontes fundamentais e necessárias para o bom


desenvolvimento da Fé Cristã, assim compreende a boa tradição cristã, de corte
Protestante. Nesse sentido, a presente unidade busca evidenciar os fundamentos
bíblico-teológicos do Ministério Cristão, o qual dentre outros se encontra a prática do
aconselhamento cristão.

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Espera-se desenvolver, nesta unidade, por um lado, uma genuína tradição


cristã e, por outro, um diálogo com os desafios e, por que não dizer, as
necessidades de nosso tempo.
Nesse sentido é que atentamos para os fundamentos bíblicos e teológicos do
próprio Ministério Cristão em que se destacaram os seguintes temas: diaconia,
ministério, poimênica e cuidado.
Nossa fundamentação teórica é a partir do latino Gattinoni (CASTRO, 1973)
sobre “As bases do ministério pastoral no Novo Testamento” e do americano
Clinebell (2000) sobre “O aconselhamento pastoral modelo centrado em libertação e
crescimento no universo bíblico”, dentre outros. Em ambos os autores citados, bem
como nos outros autores, temos o objetivo maior de fundamentar biblicamente o
aconselhamento cristão, como uma das expressões da ação cristã na sociedade de
hoje à luz de Jesus como servo que “... esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma
de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Filip. 2:7).
Como se pôde observar na primeira unidade, os estudos teológicos
classicamente estão subdivididos em Teologia Bíblica, Teologia Sistemática e
Teologia Prática. Esta última, a Teologia Prática, tem como objetivo fundamentar
construções teóricas e práticas da ação evangélica. Nesse particular, em nossos
dias, há uma significativa demanda para a Teologia Prática haja vista as
necessidades do nosso tempo, as quais diferem de outros; há a necessidades de
novos paradigmas, por que não dizer; os quais exigem novas elaborações e ações
da Teologia em sua modalidade prática.
Assim nota-se uma demanda significativa para os mais diversos ministérios
da igreja hoje, dentre eles, em especial, o do aconselhamento. Ele aponta para as
necessidades: individual, grupal, comunitária, familiar, conjugal, social, dentre
outras. Essas necessidades cobram respostas da igreja urgente.
Contudo, essas repostas precisam de fundamentação também Teológica para
que esses ministérios, ações, vocações da igreja hoje estejam em consonância com
a Palavra de Deus e, assim, possam ser eficazes, do ponto de vista bíblico.

Conteúdo

Diaconia, Ministério, Aconselhamento Cristão.

O exercício do aconselhamento cristão está na mesma perspectiva do


ministério cristão, uma vez que o ato de servir, diaconia é o ponto de partida e de
chegada de toda e qualquer ação cristã. Isso pode ser evidenciado quando voltamos
nosso olhar para o universo neotestamentário, o qual ressalta como fundamento
essencial do ministério cristão, o serviço; Portanto, servir se constitui
fundamentalmente no próprio ser e agir do ministério cristão que tem no ato de
cuidar, uma de suas faces fundamentais.
Inicialmente, Gattinoni (CASTRO, 1973) informa que o sentido etimológico, do
termo “diákonos” indica uma tarefa de condutor de camelos no pó (poeira): diá =
através kónos = pó, portanto diácono é um servente, um servidor. Exemplo maior é o
próprio Jesus quando lava os pés dos discípulos (Jo. 13:1-17); O serviço é a
definição própria da missão de Jesus, portanto; ele veio para servir, pois é um servo
(Lc. 22:27 e Mc. 10:45).
Compreende Gattinoni (CASTRO, 1973) que o ministério cristão não pode
deixar de evidenciar essa atitude serviçal. Tal atitude é imprescindível, conforme Mt.

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20:25-28; 25:31-46; 10:24. Nesse perspectivo, o aconselhamento deve está inserido


nessa visão bíblica, ou seja, servir.
Gattinoni (CASTRO, 1973) apresenta outro significado para a palavra
diaconia, a palavra grega “doulos”, no sentido “escravo”, que serve. A ideia
fundamental desse vocábulo é ressaltar o espírito serviçal como sendo inerente ao
ministério e a todo e qualquer cristão (intra e extra comunidade). O próprio Jesus
Cristo recebeu esse título como sendo “O servo por excelência” (Fil. 2:5-11; Atos
3:13,26; 4:27). Este é título é também conferido aos autores dos livros bíblicos: João
1:1, atos 16:17, 2Cor. 4:5; 9:19; Em 2ª Ti. 2:24, o ministro como sendo servo; Todos
os cristãos assim o são: servo (Atos 2:18 e 4:29). Esse significado é designado
universalmente válido a todo o corpo de Cristo (1ª Cor. 7:22 e 1ª Pedro 2:16);
Portanto, os cristãos são chamados a servir a Cristo e o seu Reino ( Ro. 7:6;
Col. 3:24; 1 Ts. 1:9; 1:1; 2:20; 7;3); Nesse sentido, o serviço aos homens é
entendido como servir ao Senhor Jesus Cristo (Ro. 14:18; Gá. 5:13; Ef. 9:9); A ideia
de servir os seres humanos como parte do serviço a Cristo (1ª Cor 16:15; 2ª Cor. 6,
8:4; 9:1, 12; Atos 20:28, 34, 35; 2ª Ti. 1:18; Fim. 13); ou ainda, o servir às pessoas
como sendo uma ação ao próprio ao Cristo (Mat. 25:31-46). Diaconia, nesse sentido,
por fim, evoca de forma categórica que todo e qualquer ministério da igreja, com
destaque para aconselhamento é um ato de serviço ao próximo no mundo. Uma
ação missionária que nasce do ministério de Jesus Cristo como identidade da Igreja.
Por fim, outro sentido para “diaconia” é um expressão, conforme Gattinoni
(CASTRO, 1973), que assim pode ser entendida: “Diaconia como um ministério da
Igreja, a serviço da obra de Deus, no mundo”. Diaconia como ministério de toda a
igreja e de toda a comunidade cristã, bem como de cada comunidade em particular
– Ef. 4:12; Ap. 2:19; I Co.12 e Ro. 12:1-8; em outras palavras, toda e qualquer
comunidade que se diz cristã tem uma identidade comum: ser sinal de Deus através
do serviço da igreja às pessoas. Essa expressão coroa e assinala a riqueza dos
sentidos para “diaconia” já observados acima.
Compreende-se, sem dúvida, que os sentidos de “diaconia” abordados até o
presente ressaltam biblicamente o serviço como fundamento para o exercício do
ministério cristão, ou, os mais diversos ministérios da igreja, com destaque para o
aconselhamento e seus enfrentamentos, ao longo da história.

Poimênica e Aconselhamento.

Do ponto de vista bíblico-teológico, uma das imagens mais marcantes é o


testemunho do cuidado de Deus pela humanidade. Assim, no Antigo Testamento,
surge a imagem e a memória do Deus - Pastor, como Aquele que conduz o seu
Povo, como faz um bom pastor ao conduzir suas ovelhas. Tal tradição faz parte da
própria experiência existencial e de subsistência de todo um povo.
A vida do povo hebreu dependia do cultivo do rebanho de ovelhas. Este
animal era a principal fonte de subsistência. Nesse sentido, a experiência pastoril e a
subsistência humana que gira ao redor do rebanho não são exclusivas de Israel,
mas contemplam todos os povos do mundo bíblico. Assim também para os povos
mesopotâmicos. Por sinal, foram estes os primeiros a metaforizar a imagem do
“pastor” (CASTRO, 1973).
Javé, portanto, é compreendido como o único e verdadeiro Pastor de Israel.
Essa alegoria é celebrada no AT, especificamente, no Sl 23.1: “O Senhor é meu
pastor, nada me faltará” ao lado Dele não há outro (CLINEBELL, 2000). Este Salmo
revela a poimênica, pois ele refere-se ao centro vital do ser humano, que é sua

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relação com Deus. Uma relação concretizada a partir da fé humana em Deus,


enquanto Criador e Pastor da vida. Então, a poimênica, nesse contexto, remete para
aquilo que permite e ajuda o ser humano a continuar a respirar, a manter a sua vida
saudável, afinal a morte para o semita é a falta da relação com Deus. Nesse sentido,
Hoepfner comenta:

“Assim a poimênica, no mundo semita, está muito próxima da luta


constante do ser humano para manter ou resgatar a sua relação com
Deus por meio das diferentes articulações da vida em comunidade,
como o culto e o sacrifício a Deus. Entretanto, compreende
igualmente a busca por uma plena e justa integração social do
indivíduo que cai no abismo do isolamento, que negligencia a sua
relação com Deus e, conseqüentemente, não mais se considera parte
integrante do povo de Deus. Ali onde o ser humano petrifica o seu
coração, onde vive exclusivamente a partir do seu próprio ar, da sua
exclusiva respiração, - isto é, vive ao redor do seu próprio ser -, a
nefesh sucumbe, já não encontrará fôlego de vida e, por fim, clamará:
“Como suspira a corça pelas correntes de água, assim, por ti, ó Deus,
suspira a minha alma” (Sl 42.1). A tradução de Lutero é mais enfática,
pois translada “suspira” por “gritar” (schreit). Quer dizer, em meio ao
abandono de Deus, o ser humano grita, geme, se desespera, pois
enxerga com profundidade e dor o abismo em que sua aparente auto-
suficiência o levou. “No culto se articulavam o grito, a lamentação e a
prece por ajuda da pessoa que se encontrava fora da relação com
Deus, que não conseguia mais enxergar o seu rosto”. (HOEPFNER,
2008, p.55)

Nessa perspectiva, a poimênica tem a ver com o clamor e o louvor da criatura


perante o seu Criador. O ser humano clama pelo sopro de vida que provém de Deus
e o louva por este hálito que o mantém, como afirma o último salmo: “Todo ser que
respira louve ao Senhor. Aleluia!” (Sl 150.6). Hoepfner afirma ainda que:

“Os principais agentes da poimênica eram, sobretudo, os Sacerdotes


(Lv 12ss.; 1 Sm 1.9ss.), os anciãos e juízes que tomam decisões em
casos de conflito (Rt 4), os profetas que desenvolvem na sua prática
a admoestação e a consolação individual e coletiva (2 Sm 12; Is
40.1ss.) e, em primeiro lugar, os sábios, homens do povo que
transmitiam como pais de família os conselhos da sabedoria popular
para os filhos (Pv 4ss.).” (HOEPFNER, 2008, p.56)

Por fim, é oportuno enfatizar que a poimênica, no AT, é a luta humana por
resgatar tudo aquilo que torna plena a vida concedida por Deus. Bem por isso, ela
não trata de questões abstratas e distantes do dia-a-dia, mas lida com as concretas
e palpáveis condições de vida do povo hebreu, condições intrinsecamente
arraigadas na fé dos semitas em Javé, como postula o Sl 23.
Para tanto, interessa reconhecer Deus no coração, a fim de amá-lo, temê-lo e
louvá-lo como Deus Criador e mantenedor da vida. A partir do descrito no capítulo
anterior, é possível traduzir o objetivo da poimênica nestes termos: é voltando a leb
ao ruah de Deus, que a nefesh permanecerá saudável e encontrará futuro. Pois,
apenas na relação direta com Deus, que se manifesta a solução também para Jó.
Só assim, a identidade como filho saudável de Javé pode novamente vir a ser
celebrada por ele, com Deus e os/as demais irmãos (ãs).
Já no novo testamento, a poimênica encontra o seu berço na ação e doação
libertadora de Cristo. Ele é a expressão perfeita do que significa pastorear. O filho de
Deus, com sua fraterna forma de agir, com sua consciência interior e com o efeito

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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que causou sobre o meio de sua época, pode ser visto como o inaugurador do
comportamento poimênico.
Já no NT a poimênica encontra no termo grego “paraclein”, “paraclesis”, o seu
conceito chave que aponta para a oferta de salvação e de vida em abundância
oferecida por Cristo em sua vida e cruz. A “paraclesis” remete ao consolo da
salvação que Cristo oferece através de sua graça (2 Ts 2.16); entretanto, igualmente
admoesta às pessoas a transformarem suas vidas cotidianas, desafiando-as a
realizar uma identificação com Jesus Cristo também no decurso de um sofrimento (2
Co 1.5-7). Após a reflexão acima acerca do ministério de Cristo, viu-se que Ele
guiou, vigiou, providenciou a vida e sentiu profunda afetividade pelo povo do seu
Pai.
Nesse sentido, pode-se definir poimênica a partir dessas quatro funções
pastorais que, no ministério de Cristo, se materializaram em plenitude, conforme
destaca Hoepfner (2008):

• Poimênica é vigiar, num sentido de observar atentamente. Isto é,


perceber a situação existencial do/a irmão/ã, por conseguinte, ir ao encontro dele/a.
Bem por isso, é solidarizar-se com o/a outro/a em sua necessidade, em sua dor. Na
passagem de Lc 19.1-10, Jesus demonstra o amor que sente por Zaqueu, este que
estava em busca de um sentido de vida diferente, visitando-o em sua casa e assim
indo ao encontro dele;
• A poimênica consiste em constituir relacionamentos afetivos entre
iguais. Estabelece-se, então, uma atitude de reconhecer e, sobretudo, de importar-
se com o outro. Tal atitude principia no acolher o/a outro/a a partir da escuta, do
ouvir. Nos 15 relatos de cura do evangelho de Marcos, o que desencadeia a cura
não é o poder e a fala de Jesus, mas a fala e o desejo da pessoa enferma ou de
seus amigos. “A explicitação do desejo do doente antecede a ação salvífica de
Cristo”.
• Poimênica é guiar. É tatear, em conjunto, novos caminhos, novas
trilhas. Uma trilha, por vezes, rodeada de escuridão e de medo, alcantilada e
circundada de pedras, mas que encontra na sensibilidade de um olhar, de um toque,
de uma palavra verbalizada ou não, uma chama. Uma chama que não evita e muito
menos anula as dificuldades, mas guia, pois traz luz, calor e ajuda a transpor
espinhos e obstáculos conjuntamente. Assim também, Jesus conforta os
desanimados discípulos em sua fala de despedida no evangelho de João. O Filho de
Deus entrega a sua psyche, o seu fôlego de vida, ao Pai, a fim de que os discípulos,
assim como o mundo, o recebam em abundância. Cristo guia, leva a novas
esperanças; a um novo caminho.
• Não por último, poimênica é a afirmação da vida alheia, da dignidade
desta vida. Ali, onde a vida periga, ela se faz presente, se entristece, compadece e
age. É uma disposição de encontrar meios apropriados para afirmar e providenciar a
vida. Assim, ela caminha ao lado da diaconia. O ministério de Jesus elucida tal
intrínseca ilação. É impossível desassociar a ajuda psicológica e espiritual da ação
social. Afinal, seria uma contradição cínica do Evangelho, oferecer consolo espiritual
a uma pessoa faminta.
Portanto, podemos concluir por ora, que tanto a teoria quanto a prática da
poimênica não encontram o seu alicerce em prolixos conhecimentos e métodos
humanos. O relacionamento pastoral tem o seu paradigma no relacionamento do
próprio Deus com o seu povo. Um relacionamento expresso na passagem de Mt
1.23: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e ele se será chamado pelo

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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nome de Emanuel, que quer dizer: Deus conosco”. É o “Deus conosco”, - que se
relaciona com o seu povo, que se torna igual em meio à alegria e ao sofrimento; que
compartilha e dá vida -, a Boa Nova do Evangelho. É o Evangelho o esteio da
poimênica cristã e Cristo o seu paradigma. Agora, a poimênica não deve ser vista
como uma expressão individual, entretanto comunitária.
Ainda, sobre os fundamentos bíblico-teológicos da poimênica, Clinebell (2000)
afirma reiteradamente as notáveis potencialidades dos seres humanos:

a) O ser humano é um pouco menor que Deus (Sl 8.5);


b) O ser humano foi criado a imagem e semelhança de Deus, imago Dei,
(Gn 1:17);
c) Jesus veio para conceder vida e vida em abundância (Jo. 10:10), o ser
humano tem condições de desenvolver seus potenciais de sabedoria e de vida,
segundo a parábola dos talentos (Mt. 25:14-30) e as admoestações de Paulo a
Timóteo para acender a chama do dom de Deus que há em ti(...) pois o espírito de
Deus deu é (...) para inspirar poder, amor e autodisciplina (2 Tm. 1:6).
É importante, ressaltar, por fim, que a concepção bíblica nessa perspectiva
deixa claro que os seres humanos apesar de terem potencialidades não são
onipotentes, mas somos seres finitos, limitados e que somos marcados pelas
condições efêmeras da nossa humanidade;
Outra ideia bíblica, que Clinebell (2000) observa é a compreensão hebraica
das pessoas era essencialmente não dualista; ou seja, a Bíblia assinala que a vida
humana deve ser entendida de forma integral, unidade de dimensões, dentro de
uma visão holística, numa visão comunitária:

a) É assim que a Bíblica reafirma que o sentido de glorificar a Deus no


corpo (1Cor. 6:19) e não fora dele ou desconsiderando-o;

b) Que se deve amar a Deus com todas as dimensões humanas (Mc.


12:30);
c) Que se deve viver a vida alimentando os relacionamentos; em paz,
shalom, do Antigo Testamento, ou, em comunhão, koinonia, na perspectiva do Novo
Testamento;
d) O respeito à Criação (ecologia) como ato único da vida. E viu Deus que
tudo era bom;
e) A libertação é tanto pessoa quando social. Tanto o pecado quanto a
salvação são comunitários e sociais, assim como individuais, onde o Novo
Testamento afirma “Conheceres a liberdade e a verdade vos libertará” (Jo. 8:32).

Nota-se que o ser humano é compreendido pelas escrituras numa dimensão


holística e integral para o crescimento, conforme Clinebell (2000).
Essa visão deve mobiliar positivamente o fazer do aconselhamento cristão,
pois ressalta tanto as condições existenciais da humanidade, suas potencialidade
advindas do Criador, quanto os propósitos cristãos para essa humanidade, ou seja,
em Cristo, essa humanidade tem vida e vida em abundância!
Pode-se concluir por enquanto, que o marco bíblico-teológico aponta tanto o
termo “diaconia” quanto “poimênica” como palavras-chaves da ação cristã, da
própria Igreja no mundo, ou seja, como expressão própria do mistério cristão;
podemos assinalar, portanto, que todo e qualquer ministério da igreja, como o
aconselhamento é uma ação da Missão de anunciar a Boa Nova, do cuidado que

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Deus tem pelo ser humano, e, por outro lado, evidenciam-se também as
potencialidades do ser humano, criadas pelo próprio Deus, as quais revelam as suas
possibilidades para um desenvolvimento de forma integral, em Cristo.

O cuidado como tarefa comum do Aconselhamento Cristão.

Um dos desafios contemporâneos do aconselhamento está na própria


dinâmica dessa atividade. Aconselhar tem de ser entendido como uma ação mesma
da missão da Igreja como já frisamos, mas também ser entendida como uma atitude.
Inicialmente, a palavra que melhor expressa bíblica e teologicamente o
aconselhamento é o termo “cuidado” ou verbo “cuidar”.
Vejamos o trabalho realizado por Hoepfner (2008) sobre a análise que faz
sobre o termo “cuidar”, em que o referido autor faz um estudo sobre o termo, em seu
sentido etimológico e bíblico. Registre-se que as ideias e o texto, em sua grande
totalidade, a seguir são de autoria de Hoepfner (2008) com alguns poucos
acrescimentos ou considerações.
Nos estudos, observa Hoepfner (2008), o termo cuidar advém do latim cura, -
em sua forma arcaica se escrevia coera -, sendo utilizado num contexto relacional
de amor e amizade, expressando uma atitude de cuidado, de desvelo, de
preocupação e de inquietação em relação a alguém ou a algo estimado. Já outros
derivam cuidado de cogitare-cogitatus, apesar de seu sentido não se distanciar do
de cura, isto é, significa cogitar, pensar, mostrar atenção e interesse, revelar uma
atitude de desvelo e de preocupação. Tal propósito surge quando a existência de
alguém ou de algo passa a ter importância pessoal, existencial, e, por consequência,
estabelece-se uma dedicação e uma preocupação frente à vida do/a outro/a ou
frente a algo.
Para Hoepfner (2008), a partir desse breve apanhado etimológico, revela-se a
profundidade de uma atitude de cuidado. Como bem afirma Boff, em seu livro “Saber
cuidar”, o cuidado é “mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que
um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de
ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o
outro”, pois uma atitude perfaz uma fonte, pela qual descendem muitos atos.
Hoepfner (2008) exemplifica da seguinte maneira essa questão: quando uma
mãe afirma: “Estou cuidando do meu filho adoentado!”, subentendem-se, nesta
afirmação, múltiplos atos. Atos como: estar preocupado com seu filho; levá-lo ao
médico; dar a ele, não apenas remédios, mas, igualmente carinho; orar com e por
ele, enfim, estar próximo dele por meio de ações diversas que compreendem uma
atitude de cuidado.
Nesse sentido, compreende Hoepfner (2008), pode-se afirmar que uma
atitude de cuidado abarca o ser humano em sua totalidade de vida. No que se refere
ao relacionamento humano, tanto a pessoa que toma uma atitude de cuidar de
alguém, quanto o indivíduo para o qual é dirigida tal atitude, há um contato não
meramente físico; mas também afetivo-emocional, concretizando uma relação de
sujeito para sujeito, e, não de sujeito para sujeito-objeto, ou seja, o cuidado
possibilita a dignidade, pois abre mão do poder dominador e afirma uma comunhão
entre seres reais. “A relação não é de domínio sobre, mas de com-vivência. Não é
pura intervenção, mas interação”. Por conseguinte, pode-se reiterar que só
recebemos zelo se cuidarmos de outras pessoas; portanto, nessa dimensão, apenas
nos tornamos pessoa no encontro com outra, conclui Hoepfner (2008).

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Diante do exposto, Hoepfner (2008) conclui diante de algumas seguintes


considerações:

“Explicitando, o cuidado vê os contornos concretos dos problemas, da


realidade, enxerga e abraça o ser em sua integralidade vital e,
portanto, não se resume a apenas fidelidade a princípios profissionais
e a deveres morais impostos por uma sociedade deveras injusta.
Perceptivelmente esclarecedor é o vocábulo alemão Sorge,
comumente traduzido ao vernáculo pátrio como “cuidado”,
“preocupação”, “aflição”. Se por um lado, a Sorge remete para o
cuidado de si, por alguém ou por algo (Fürsorge), por outro, remete,
igualmente, para uma situação existencial de aflição, ou seja, o de
estar preocupado consigo mesmo, por alguém ou com algo (sich
sorgen um). O termo inglês care, da mesma forma, traz consigo a
idéia de um cuidar solícito, bem como o de um cuidar ansioso e aflito
junto a alguém ou a algo. Conclui-se que, uma atitude de cuidado
frente a pessoas, requer envolvimento, pois “o cuidado é aquela
relação que se preocupa e se responsabiliza pelo outro, que se
envolve e se deixa envolver com a vida e o destino do outro, que
mostra solidariedade e compaixão”. Tal atitude é a condição prévia
para o eclodir da amorosidade humana, afinal, quem cuida, ama e,
quem ama, cuida” (HOEPFNER, 2008, p. 50)

Hoepfner (2008) faz ainda um estudo sobre expressões correlatas ao termo


“cuidar” no Antigo Testamento e Novo Testamento.
No Antigo Testamento, Hoepfner (2008) ao estudar os correlatos bíblicos de
cuidar observa que o principal correlato do termo cuidar no Antigo Testamento (AT)
é o verbete shãmar. Ao longo do testamento hebraico, ele aparece 420 vezes. A
idéia básica da raiz deste termo, conforme o Dicionário Internacional do Antigo
Testamento, é a de “exercer grande poder sobre”, significado que permeia as várias
alterações semânticas sofridas pelo verbo. Combinado com outros verbos, o sentido
expresso é o de “fazer com cuidado”, “fazer diligentemente”, por exemplo, como
aparece em Nm 23.12: “(...) Porventura, não terei cuidado de falar o que o Senhor
pôs na minha boca”. O verbo pode vir a exprimir também a atenção cuidadosa que
se deve ter com as obrigações contidas em leis e na própria aliança de Deus com o
seu povo, como expresso em Gn 18.19 ou Êx 20.6. Freqüentemente, o verbo ainda
é utilizado para designar a necessidade de ser cuidadoso frente às próprias ações;
frente à própria vida (Sl 39.1; Pv 13.3), ou ainda, designar a atitude de alguém de
dar atenção ou reverenciar Deus, outras pessoas ou ídolos (Os 4.10; Sl 31.6). O
verbo shãmar abrange ainda os sentidos de “preservar”, “armazenar” e “acumular” a
ira (Am 1.11), o conhecimento (Ml 2.7), o alimento (Gn 41.35) ou qualquer coisa de
valor (Êx 22.7). Um último desdobramento da raiz exprime a idéia de “tomar conta
de” ou “guardar”, ou seja, envolve manter ou cuidar de um jardim (Gn 2.15), de um
rebanho (Gn 30.31) ou de uma casa (2 Sm 15.16). É nessa ótica que Davi admoesta
Joabe a cuidar de Absalão: “Guardai-me o jovem Absalão” (2 Sm 18.12), ou quando
Davi, nos Salmos 34.20; 86.2; 121.3-4 e 7, utiliza o termo para falar do cuidado e da
proteção divina.
Para Hoepfner (2008), no NT, o principal correlato de cuidar é o verbete grego
merimna. Assim como o termo alemão sorge e o inglês care, merimna pode remeter
a dois significados.
Num sentido negativo, é traduzido por “preocupação” ou “ansiedade” do ser
humano. É nesse parâmetro que merimna é empregado no Sermão do Monte (Mt
6.25-34). Jesus, nessa homilia, critica a demasiada preocupação do ser humano em

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torno de questões materiais que o afastam de Deus. Paralelamente, a passagem de


Lc 21.34, adverte para as fúteis preocupações concernentes à vida diária.
Já o sentido positivo de merimna, remete ao “ter cuidado de” ou “preocupar-
se com” alguém ou algo. Em 2 Co 11.28, o apóstolo Paulo se vê como aquele que
deve preocupar-se com as igrejas. Já em 1 Co 12.25, a Igreja é vista como “corpo
de Cristo”, no qual todos os membros cuidem e cooperem uns a favor dos outros.
Em 1 Pd 5.7, o ser humano é chamado a lançar toda a sua ansiedade aos cuidados
de Deus.
Outras tantas passagens bíblicas poderiam ser aqui arroladas. Perícopes que,
dependendo do testamento, utilizam os termos shãmar ou merimna, para
expressarem a ampla idéia do cuidado humano ou de Deus por sua criação.
Entretanto, ressalta-se, a partir dessa breve investigação acerca dos correlatos
bíblicos do termo cuidar, que em muitas passagens nas quais os termos shãmar e
merimna são empregados, eles compreendem, ao menos indiretamente, uma atitude
que lida com a própria condição de vida do ser humano. Atitude esta, profundamente
arraigada na fé dos inspirados escritores bíblicos em Deus.
Ainda nessa direção, Oliveira (2004, p. 25), afirma, a partir das elaborações
teológicas de Leonardo Boff sobre o cuidado com o ser humano no contexto maior
que é o cuidado com a natureza, o seguinte: “cuidar da aula implica cuidados
sentimentos dos sonhos, dos desejos, das paixões contraditórias, do imaginário, das
visões e utopias que guardamos dentro do coração”. Tal elaboração aponta o cuidar
como um ato integral da existência humana.
Oliveira (2004) tomando afirmação de Brakemeier destaca que o cuidado com
o ser humano está justamente na afirmação doutrinaria da Imago Dei, ou seja, que o
ser humano é imagem e semelhança de Deus. Portanto, há uma dignidade no ser
humano que lhe é atribuída, concedida sem merecimento que provem de Deus e
que se manifesta no si - mesmo.
Teologicamente, observa Oliveira (2004) que os atos de misericórdia e
compaixão testemunhados por Jesus Cristo em sua prática revelam o próprio amor
de Deus dispensado ao ser humano. Enquanto os atos de poder coisificavam o ser
humano escravizando-o, Jesus testemunhava do amor de Deus que transforma a
dor, a escravidão e amor em saúde e vida, vida em abundância.
Oliveira (2004) assinala que a desesperança e o pessimismo podem ser
revestidos pela ressurreição de Cristo, pois ela apresenta uma nova condição
antropológica para a existência humana; bem como, com pela cruz que não nega o
sofrimento, mas assinala que todos estão suscetíveis nesta condição humana; Jesus
também recebeu cuidados quando de sua morte.
Por fim, o aconselhamento cristão também é uma experiência construída e
contextualizada pela riqueza do serviço cristão que se explicita no ato de cuidar do
ser humano numa perspectiva bíblica. E essa tradição bíblica tem como eixo
fundante e articulador, o Cristo da Fé e o Jesus Histórico. No primeiro, se evidencia
a celebração da Vida e o segundo ressalta as contradições existenciais da Vida.
Nessa dinâmica é que se encontra relacionada fundamentalmente o
aconselhamento cristão, a qual tem como desafio inserir esses valores, princípios e
construções bíblico-teológicas e sistemáticas.

Conclusão

Nesta terceira unidade, fomos desafiados a resgatar os fundamentos bíblico-


teológicos. Nele visitamos e revisitamos textos clássicos e fundamentais da Fé

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Cristã que são imprescindíveis não só para os nossos intentos, mas para todo e
qualquer objetivo para quem queira fundamentar o testemunho cristão.
Em nosso caso, olhamos firmemente para o campo da Teologia Prática, ou
mais especificamente, para a área do Aconselhamento. Nesse sentido, quando
estudamos o termo “diaconia”, vimos como este termo é rico e diverso, bem como
apontou indelevelmente para o ser próprio do Cristianismo: servir ao mundo.
Destacou o nome e o sobrenome dessa essência diaconal: Jesus Cristo, o servo por
excelência. Assim ficou límpido que o ministério cristão, guarda-chuva maior que
abarca o Aconselhamento, como sendo um instrumento de serviço no mundo.
Observou ainda o termo poimênica. Esse termo é caro e deve ser entendido
como ponto de partida e de chegada do aconselhamento cristão também? Claro que
sim! Este termo alimenta essa atividade que do ponto de vista bíblico-teológico é um
instrumento para possibilitar ajuda e crescimento a todo aquele que se encontra
necessitado. Contudo, esse termo guarda também as potencialidades inerentes ao
ser humano; isso não se pode esquecer quando se faz Aconselhamento nessa
perspectiva, pois o aconselhando não é um mero objeto, mas sujeito em
crescimento e isso atestado pela valorização do sujeito hoje. Contudo, isso deve ser
compreendido radicalmente como um mote da ética da ajuda cristã, a qual se
configura como um desafio, uma vez que outras leituras que também fundamentam
práticas em aconselhamento olham a pessoa do aconselhando como um objeto, que
deve apenas receber os benefícios para quem busca essa atividade cristã.
Por fim, vimos de maneira detalhada o verbo “cuidar” ou o substantivo
“cuidado”. O “cuidar” e o “cuidado” são palavras, sem dúvida, que melhor
interpretam em última instância toda e qualquer ação cristã. Nesse sentido, o
oxigênio afetivo do Aconselhamento e é justamente nessa perspectiva a boa nova
de Salvação a todo aquele que crê: “Por que Deus amou (cuidou) do mundo de tal
maneira que enviou o seu filho unigênito para que todo o que nele crê não pereça
mais tenha vida eterna” (João 3:16).

Referências Bibliográficas

CASTRO, E. Pastores del Publo de Dios na America Latina. La aurora: Buenos


Aires, 1974.

CLINEBELL, H. J.; SCHLUPP, Walter O.; SANDER, Luís M. Aconselhamento


pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulus, 2000.

CLINEBELL, H. J. Los Elementos Comunes a todo Tipo de Asesoramento. In:


Simposio de Psicologia Pastoral. La aurora: Buenos Aires, 1976.

HOEPFNER, D. Fundamentos Bíblico-Teológicos da Capelania Hospitalar: Uma


contribuição para o cuidado integral da pessoa. EST/PPG: São Leopoldo, 2008.

OLIVEIRA, R. M. K. Cuidando de quem Cuida. São Leopoldo, 2004.

____________Bíblia Sagrada; Nova Tradução na linguagem de Hoje. Barueri (SP):


Sociedade do Brasil, 2000.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Quarta Unidade

Os Fundamentos do Aconselhamento Cristão para a Vida


Contemporânea.

Apresentação da Unidade

Quando se pensa em desafios contemporâneos do aconselhamento há uma


ideia que é dominada pelo senso comum: “os desafios contemporâneos estão foro
do meio cristão”. Tal ideia é profundamente equivocada e esconde a possibilidade
de renovação do pensamento e do enfrentamento dos possíveis desafios existentes.
Equivocada, pois todo ser humano é falho e pode desenvolver uma
compreensão errônea, quer de uma leitura teórica, ou de uma determinada prática.
Esconde uma possibilidade de renovação do pensamento, pois quando as
práticas de qualquer grupo ou seguimento não conseguem falar ou atingir mais o
seu próprio meio, ela perde a sua capacidade de atualização e de eficácia de sua
mensagem. E não olhar (no sentido crítico) para dentro, ou para as suas próprias
construções teóricas ou praticas não ajuda a tratar e enfrentar os desafios que
surjam quer do lado de fora ou de dentro da Igreja.
Nesse sentido, entendo que um dos nossos desafios contemporâneos do
aconselhamento cristão é justamente superar compreensões inadequadas ou
preconceituosas que são carregas de um fundamentalismo totalmente desmedido e,
como diria, e, no sentido dado por Paul Tillich (2010), de um fundamentalismo
diabólico. Temos que ter urgência na reformulação de nossos fundamentos teóricos
e práticos para atender as necessidades do nosso tempo, mesmo que não
concordemos com outros estilos de vida práticos na sociedade, mas não podemos é
fechar os nossos olhos, e, vemos que a igreja ou aqueles que se aproximam dela
tem necessidades e a Igreja não procura tratar ou dar uma resposta transformadora,
mas o que se tem visto apenas é um discurso cheio de jargões apologéticos. Diante
disso, não temos autorização para fechamos os olhos e virar as costas às diversas
necessidades das pessoas, hoje, mas sim devemos seguir o Mestre sempre indo ao
encontro das pessoas para servir e cuidar de suas feridas (como o Bom
Samaritano).
Por isso, estudaremos os fundamentos do aconselhamento numa perspectiva
de construir outros entendimentos e compreensões que possam nos ajudar nessa
atividade que considero nobre e rica para a Igreja de hoje.

Objetivos da Unidade

• Conhecer as origens históricas do Aconselhamento Cristão;


• Assinalar os aspectos fundamentais das teorias em Aconselhamento
Cristão;
• Apontar atitudes em Aconselhamento Cristão;
• Identificar os objetivos principais do Aconselhamento Cristão.

Introdução

No contexto religioso, de corte cristão, são diversas as práticas consideradas


importantes, como é o caso do aconselhamento. Tal atividade é marcada pelo termo

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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“ajuda”, a qual se encontra no campo da Teologia Prática, bem como a capelania e o


cuidado com os necessitados (diaconia).
Especificamente, como bem ressalta Barrientos (1991) o tema do
aconselhamento é bastante amplo. Nessa área há questões polêmicas como a
utilização ou não de técnicas ou procedimentos do aconselhamento psicológico para
o aconselhamento cristão. Contudo, este texto tem o objetivo de ser didático, ou
seja, ser uma introdução aos temas do aconselhamento para quem busca se
especializar na área. Não obstante, o leitor atento e interessado deve buscar na
literatura especializada, seu aprofundamento.
Diante disso, esta unidade desenvolve estudos nos campos da história e das
teorias puras, bem como das teorias sobre as práticas do Aconselhamento.
Importante ressaltar que foram tratados conceitos, a natureza, os objetivos, o
intento, as dimensões, os procedimentos, as atitudes, os instrumentos e os
comportamentos em Aconselhamento Cristão à luz de diferentes autores, uns mais
conhecidos, outros menos conhecidos do público especializado.

Apontamentos históricos sobre o Aconselhamento Cristão.

Acompanhar, ajudar e fortalecer na fé sempre foi uma atividade própria da


Igreja de Cristo. Flor (2010) observa três modelos básicos de aconselhamento
cristão durante o período Antigo e Medieval:

a) poimênica como instrumento a serviço da disciplina eclesiástica” (cuidado


com a fé para que ninguém se afastasse do reto caminho);
b) “poimênica como caminho de aperfeiçoamento da vida monástica”
(cuidado com a vida interior e experiência mística de união com Deus);
c) “poimênica como função terapêutica” (na visão de luta entre poderes, era
comum a busca de cura de males atribuídos aos espíritos imundos).

Outra referencia histórica dessa atividade pode ser encontrada logo nos
primeiros cem anos da Igreja Cristã. A história registra textos cuidadosos, como, por
exemplo, a Carta a uma Jovem Viúva, escrita por João Crisóstomo em 380; o “Livro
de Cuidado Pastoral”, de Gregório, o Grande, no final do século VI ou a carta
Catorze Consolos Para os Exaustos e Sobrecarregados, escrito por Martinho Lutero
em 1520. Em cada um destes há demonstração de um tempo na Igreja cristã em
que o cuidado era parte integrante do ensino e da vivência pastoral. (Flor, 2010).

Fundamentos e Teorias em Aconselhamento Cristão

A compreensão tradicional de aconselhamento cristão pode ser identificada


nas palavras de Cunha ao tratar sobre o tema cintando Mack:

“O aconselhamento para ser chamado cristão precisa possuir quatro


características: 1. Ser realizado por um cristão; 2. Ser centrado em
Cristo (Cristo não é um adendo ao aconselhamento, mas é a alma e o
coração do aconselhamento, a solução para os problemas. Isto
contrata com o caráter antropocêntrico das psicologias modernas); 3.
Ser alicerçado na Igreja (a Igreja é meio principal pelo qual Deus trás
as pessoas ao seu convívio e as conforma ao caráter de Cristo); 4.
Ser centrado na Escritura Sagrada (a Bíblia ajuda a compreender os
problemas das pessoas e prover solução para os mesmos).”
(CUNHA, 2004, p.1)

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Contudo, tomemos, em termos, o conceito advogado por Clinebell (2000, p


25) que vê aconselhamento, o qual constitui uma dimensão da poimênica, como a
“utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as
pessoas a lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducentes ao
crescimento e, assim, a experimentar a cura de seu quebrantamento”. Nesse
sentido, aconselhamento tem a função reparadora quanto ao crescimento de uma
pessoa.
É importante inicialmente nos localizar que modalidade de aconselhamento
nós estamos nos referindo ou tratando aqui. Barrientos (1991) apresenta quatro
tipos de aconselhamento:

1. Aconselhamento popular - É que ocorre nos relacionamentos diários das


pessoas que trocam problemas e conselhos entre si;
2. Aconselhamento comunitário - Em muitos grupos latino-americanos,
especialmente os de cultura indígena, existe essa prática de aconselhar em grupo.
Se uma pessoa tem dificuldade em seu lar recorre aos lideres da tribo, então eles,
em grupo, escutam e aconselham;
3. Aconselhamento pastoral - É uma prática exercida por um pastor junto a
sua comunidade. Precisa de preparo e muita competência para tratar os mais
diversos temas, como: problemas matrimoniais, relacionamentos entre pais e filhos,
disputas entre irmãos na fé, dificuldades econômicas, dificuldades sobre a fé, falta
de sentido na vida, homossexualidade, alcoolismo e vicio de drogas, prostituição e
problemas emocionais mais profundos;
4. Aconselhamento profissional - Esse tipo de aconselhamento é exercido por
conselheiros, psicólogos e psiquiatras. Estes são profissionais que o pastor pode e
deve trabalhar junto, pois há problemas na comunidade mais profundos e por isso
necessitam de um cuidado maior.

Nossos estudos assinalam o aconselhamento pastoral primeiramente, bem


como o aconselhamento profissional, com destaque para o aconselhamento
psicológico. Nossa perspectiva é um diálogo. Esse diálogo está imbuído pelo
respeito e consideração entre os conhecimentos da Teologia e Psicologia.
Avançando um pouco mais, Barrientos (1991) apresenta cinco objetivos do
aconselhamento, e, ainda, destaca que o mesmo não está indicado somente para os
momentos de crise, mas como um meio de ajuda, com isso corrobora-se a idéia
acima de Clinebell (2000), vejamos os cinco objetivos: 1. Relatar a situação que
está enfrentando; 2. Ter uma visão global do problema, e não reparar apenas
em detalhes; 3. Descobrir as causas; 4. Tomar decisões e 5. Amadurecer para
que, em situações futuras, possa resolvê-los por si mesma.

Mannóia (1985) também corrobora ao apresentar os seguintes objetivos:

a) Auxiliar o indivíduo a alcançar o conhecimento e a aceitação de si


mesmo;
b) Auxiliar o indivíduo a analisar rumos de ação alternativos;
c) Oferecer oportunidades ao individuo de escolher um modo de proceder
que seja viável;
d) Oferecer ao individuo uma situação na qual tome iniciativa e aceite a
responsabilidade pelas mesmas.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Para Collins (1995) o aconselhamento tem os seguintes objetivos:

a) Estimular o desenvolvimento da personalidade;


b) Enfrentar mais eficazmente os problemas da vida, os conflitos íntimos e
as emoções prejudiciais;
c) Promover encorajamento e orientação para aqueles que tenham
partido alguém querido ou estejam sofrendo uma decepção;
d) Assistir as pessoas cujo padrão de vida lhes cause frustração e
infelicidades;
e) Levar o indivíduo a uma relação pessoal com Jesus Cristo.

Collins (1995) ressalta, ainda, os seguintes alvos do aconselhamento:

a) Auto-compreensão – compreender a si mesmo é o primeiro passo para


a cura;
b) Comunicação – é essencial para a pessoa. Isso envolve a expressão
da pessoa e a capacidade de receber mensagens corretas por parte de outras;
c) Aprendizagem e Modificação de comportamento – desenvolver
comportamentos adequados e abandonar aqueles comportamentos inadequados é
essencial para o aconselhando;
d) Auto-realização – desenvolver uma vida realizada em Cristo, na força
do Espírito Santo, em que nota-se o amadurecimento espiritual do aconselhando;
e) Apoio – o aconselhando em situações de crise pode necessitar de
apoio para enfrentá-las.

Já Clinebell (2000) apresenta o seguinte quadro de áreas funcionais onde há


oportunidades, dentre as quais, o aconselhamento se desenvolve de maneira
efetiva:

Função Expressões históricas Expressões atuais em poimênica e


poimênica aconselhamento
Unção, exorcismo, santos e Psicoterapia pastoral, cura espiritual,
 Cura relíquias, curandeiros aconselhamento e terapia matrimonial.
carismáticos.
Preservar, consolar e Poimênica e aconselhamento de apoio,
 Sustentação consolidar. aconselhamento em caos de crise,
poimênica e aconselhamento em casos de
luto ou perda.
Dar conselhos, exorcismo, Aconselhamento educativo, tomada de
 Orientação escutar. decisões em curto prazo, aconselhamento
de confrontação, orientação espiritual.
Confissão, perdão, Aconselhamento matrimonial,
 Reconciliação disciplinamento. aconselhamento existencial (reconciliação
com Deus).
Treinamento de membros, Aconselhamento educativo, grupos de
 Nutrição novos na vida cristã, crescimento, enriquecimento do
educação religiosa. matrimonio e da família, assistência para a
possibilatação de crescimento através de
crises desenvolvimentais.

Por fim, Clinebell (2000) observa que o fim último do aconselhamento é o


crescimento espiritual integral das pessoas. Para isso, o conselheiro deve utilizar

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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dos instrumentos que são próprios ao cristianismo, como: a bíblia; a oração; a


visitação; a meditação; a exortação; o perdão e a comunhão, dentre outras.
Se assim podemos nos referir, esses instrumentos, por sua vez, têm o
objetivo de potencializar esse crescimento espiritual integral à luz da ação do
Espírito Santo. Nessa perspectiva, Clinebell (2000) observa, ainda, seis dimensões
da integralidade da vida de uma pessoa:

1. Avivar a sua mente;


2. Revitalizar seu corpo;
3. Renovar e enriquecer seus relacionamentos íntimos;
4. Aprofundar sua relação com a natureza e a biosfera;
5. Crescer em relação às instituições significativas em sua vida;
6. Aprofundar e vitalizar seu relacionamento com Deus.

Castro (1974, p.182) faz a seguinte pergunta: qual será a meta da atividade
pastoral? Ele mesmo responde da seguinte maneira: “logicamente como todo
conselheiro, procura ajudar a recuperar a saúde plena da personalidade do
aconselhando”. Nessa direção, Castro (1974) destaca as seguintes questões do
aconselhamento:

a) A capacidade de uma pessoa de ter o controle sobre seu próprio


destino;
b) Fazer suas próprias escolhas;
c) Ser responsável tanto no desenvolvimento de suas ações como nos
resultados das mesmas.

É fundamental ressaltar, que Castro (1974, p. 183) assevera que tais


questões do aconselhamento que se apresentam como objetivos devem ser
tomados numa perspectiva como ele mesmo diz: “vão acompanhados normalmente
por uma militância serviçal, uma atitude vicária em relação com o mundo, com o
exemplo de Zaquel”, ou seja, servir ao Senhor Jesus Cristo.

O conselheiro Schipani assevera nessa mesma direção quando observa que:

O aconselhamento pastoral é um oficio e uma forma especial do


ministério do cuidado pastoral na Igreja. No aconselhamento pastoral,
o emergir humano é promovido de maneira especial por meio de uma
forma distinta de caminhar com as pessoas, casais e membros de
famílias ou pequenos grupos, no momento em que enfrentam
desafios e dificuldades na vida. O objetivo maior, termos simples, é
que vivam sabiamente à luz do Deus.” (SCHIPANI, 2004, p.97).

Por isso para Schipani (2004) aconselhamento pastoral deve ser entendido
teologicamente como:

a) adotar a sabedoria à luz de Deus como a metáfora fundamental que


reconstrói a estrutura teórica e os fundamentos teológicos do aconselhamento
pastoral em solo firme;
b) Integrar as perspectivas psicológicas e teológicas à luz da sabedoria de
Deus como principio digno para orientar, compreender e realizar um tipo de

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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aconselhamento pastoral ao mesmo tempo plenamente aconselhador e plenamente


pastoral;
c) À luz de Deus define a natureza e a orientação de forma de ministério
cristão, prontamente reconhecemos as dimensões éticas e o contexto moral do
aconselhamento;
d) À luz de Deus orienta os aconselhadores pastorais a caminharem com os
outros na esperança de construir uma sociedade de liberdade, justiça, paz, amor e
integridade e os chama, de forma singular, a se tornar terapeutas para um mundo
melhor.
Schipani (2004) observa ainda que em aconselhamento pastoral é
imprescindível que se tenha claro que cada situação requer uma formulação de
objetivos específicos; bem como, em cada situação se aplique estratégias
específicas. Contudo há também de que se reconhecer que há muitas situações em
comum que aponta um propósito geral ou fundamental, o qual, nesse caso, “é a
sabedoria à luz de Deus”. Portanto, o propósito mais amplo de crescer em sabedoria
inclui três aspectos inseparáveis para se buscar o alivio e resolução, advoga
Schipani (2004):

1. Crescimento na visão

A experiência do aconselhamento pastoral tem de ser orientada para ajudar o


aconselhando a encontrar novas e melhores formas de conhecer e compreender a
realidade, incluindo as dimensões da sua própria pessoa, o mundo social, as
ameaças do vazio, e, a realidade da graça do Sagrado.

2. Crescimento em virtude

A experiência do aconselhamento deve ser convidar o aconselhando para


descobrir maneiras de ser e amar mais satisfatoriamente, com particular ênfase na
sua relação com outras pessoas - especialmente amigos, familiares e colegas de
trabalho - com o Espírito de Deus, e consigo mesmo.

3. Crescimento em vocação

A experiência de aconselhamento pastoral procura capacitar o aconselhando


para tomar boas decisões e investir energias novas em relacionamentos
interpessoais, trabalhos, descanso e lazer, alimento espiritual e serviço, e, encontrar
formas de apoiar essas decisões com integridade. É fundamental encontrar uma
orientação para a vida que seja mais livre e mais esperançosa, em meio à situação
social que vive.
Portanto, Schipani (2004) entende que o propósito geral do aconselhamento
pastoral é ajudar ao aconselhando a se descobrir como viver uma vida mais íntegra,
moral e plena.
Brister (1980) ao tratar da natureza do aconselhamento pastoral observa que
há muitos problemas, dos mais diversos possíveis entre as pessoas hoje. Tal
realidade assinala a necessidade de um melhor preparo por parte de pastores e
pastoras, bem como liderança religiosa como um todo, incluindo entendimento
técnico e a busca de resultados efetivos. Deve-se reconhecer que o aconselhamento
pastoral não é uma atividade nova, por mais que tenha ganhado visibilidade

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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atualmente, como nos cursos de formação teológica e na própria comunidade cristã,


mas ele é muito antigo.
Brister (1980) em seu estudo pela compreensão da natureza do
aconselhamento pastoral destaca os seguintes elementos:

a) O aconselhamento pastoral pressupõe um diálogo entre Deus e o ser


humano, numa perspectiva da Fé Cristã; seja em que situação for, Deus sempre se
fará presente nessa relação (Mt. 18:20), por isso em certo sentido, do ponto de vista
teológico, a experiência do aconselhamento deve ser compreendida como uma
oração; uma conversa com Deus na presença de outra pessoa. Que
responsabilidade nossa, você não acha?
b) O aconselhamento pastoral tem um contexto de um ambiente cristão e
recursos ou fontes únicos. Ou seja, sempre está relacionada à igreja e o contexto
tipicamente comunitário. Como por exemplo, na visão dos membros da comunidade
quando estão diante de um conselheiro pastor é entendê-lo como um guia espiritual.
Ele pode até não usar desse poder, mas tal realidade é difícil de se desvencilhar.
Por isso, cabe ao conselheiro possibilitar ajuda adequada à pessoa oportunizando
que esta pessoa tenha um melhor entendimento da sua situação e das condições
proporcionadas por essa relação de ajuda.
c) O aconselhamento pastoral é distinto das outras modalidades de
aconselhamento profissional, por exemplo, pois ele é um processo de conversação
entre um pastor responsável e um indivíduo preocupado ou grupo íntimo, com a
intenção de permitir que tais indivíduos resolvam as suas preocupações, e, assim
possa atingir uma ação construtiva. Nesse sentido, é fundamental a criação de
vínculos antes mesmo de qualquer utilização de técnica.

Conclusão

Nossos estudos, nesta unidade, nos revelaram que o Aconselhamento Cristão


remonta a uma datação longínqua, contudo mais recentemente tem tomado à forma
que temos nos estudos clássicos. Esses estudos seguem a mais pura tradição cristã
de ajuda aos necessitados e aos que sofrem.
Vimos conceitos, objetivos, finalidades, bem como teorias sobre
Aconselhamento Cristão. Vimos que algumas teorias ora enfatizaram os
fundamentos e outras ora enfatizaram as finalidades. Riqueza de argumentos
puramente teóricos e teorias sobre a prática, bem como argumentação rica
teologicamente.
Por fim, esta unidade teve como objetivo tornar mais evidente ao leitor, os
fundamentos teóricos e práticos do Aconselhamento Cristão e assim possibilitar
informações básicas, fundamentais e técnicas que sem as quais essas áreas ficam
apenas no campo do voluntarismo e desprovido de toda sorte de competências para
poder enfrentar as demandas e necessidades do nosso tempo, as quais se nos
colocam como desafios significativos e complexos, como temos já ressaltado
reiterada vezes.

Referências Bibliográficas

BARRIENTOS, A. Trabalho Pastoral – Princípios e alternativas. Caribe: San José,


Costa Rica, 1991.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Brister, C. W. El cuidado pastoral en la iglesia. El Paso, Texas: Casa Bautista de


Publicaciones, 1980.

CASERE, D. Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Paulinas: São Paulo, 1985.

CASTRO, E. Pasotres del Publo de Dios na America Latina. La aurora: Buenos


Aires, 1974.

CHIPANI, D. S. O caminho da Sabedoria no Aconselhamento Pastoral. Sinodal: São


Leopoldo, 2004.

CLINEBELL, H. J.; SCHLUPP, Walter O.; SANDER, Luís M. Aconselhamento


pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulus, 2000.

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revgladston@bol.com.brhttp://www.lideranca.org/cgi-
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FLOR, A. V. Possibilidades da Gestalterapia no Aconselhamento Cristão. EST/PPG:


São Leopoldo, 2004.

MANNÓIA, V. J. Aconselhamento Pastoral. São Bernardo do Campo/SP: Imprensa


Metodista, 1985.

TILLICHI, P. Teologia Sistemática. Sinodal: São Leopoldo, 2010.

____________Bíblia Sagrada; Nova Tradução na linguagem de Hoje. Barueri (SP):


Sociedade do Brasil, 2000.

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Quinta Unidade

Práticas Necessárias para Enfrentar os Desafios Contemporâneos do


Aconselhamento.

Apresentação da Unidade

Quem já tem alguma experiência na vida, sabe que no início de qualquer


carreira profissional se tem mais boa vontade do que ciência técnica ou precisão nas
habilidades para tratar da melhor maneira o que tem que ser realizado; em outras
palavras, no início, somos mais transpiração do que inspiração.
Assim como as novas tecnologias têm proporcionado novas formas de
relacionamento, como as mais diversas redes sociais. Assim, também são
necessários termos práticas, em aconselhamento, contextualizadas para responder
as mais diversas necessidades que surjam. Contudo, o que vemos, em
aconselhamento hoje, é muito boa vontade por parte de quem inicia. Observa-se,
portanto, que muitos conselheiros tomam conteúdos e práticas já consagradas sem
submetê-las às críticas necessárias; principalmente quando se deparam com
questões desconhecidas ou que não têm respostas fáceis.
Já foi dito pelo Senhor Jesus, nos Evangelhos, que não podemos remendar
ou misturar vinho velho com o novo, essas observações pode sugerir que devemos,
como homens e mulheres de Deus, do nosso tempo, contribuir na elaboração e
construção de novas práticas ou de práticas mais sistematizadas e adequadas para
os desafios que se colocam diante de nós.
Por isso, esta unidade quer abordar procedimentos e técnicas de intervenção,
bem como a natureza do aconselhamento cristão para a nossa realidade e não
outra. Nesse sentido, o que iremos tratar está relacionado ao nosso contexto atual.
Levar em conta, da maneira que estamos considerando, dá sentido sobre os
assuntos tratados aqui, bem como ajuda na construção teórica apropriada do
aconselhamento face aos desafios hodiernos.

Objetivos da Unidade

• Listar procedimentos adequados do conselheiro em Aconselhamento;


• Identificar a natureza do Aconselhamento Cristão;
• Conhecer técnicas de intervenção em Aconselhamento Cristão;
• Descrever as técnicas diretivas e não diretivas.

Introdução

Esta unidade tem como objetivo maior abordar os procedimentos adequados


do conselheiro, bem como refletir sobre a natureza do próprio Aconselhamento
Cristão com vistas a fundamentar práticas necessárias para o enfrentamento dos
desafios contemporâneos nessa área.
Esta unidade também tem uma missão de desenvolver as técnicas de
intervenção como forma de lembrar a todos os nossos leitores, que a arte de
aconselhar hoje necessita muito mais do que boa vontade como temos frisado; hoje
se faz necessário conhecimento, ou como, diz um amigo meu pastor e doutor em
Psicologia, é necessário hoje ter tecnologia para aconselhar. Pois, quem está do
outro lado são pessoas que vivem em estado de sofrimentos ou que precisam de

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orientações muitas vezes e não podem continuar sofrendo mais o que estão o
passando. Portanto, cabe aquele que se sente chamado a exercer o
aconselhamento; cuidar de sua formação, se preparando de forma adequada para
essa atividade. Esta unidade quer singelamente contribuir nesse processo que
considero um árduo desafio.
Portanto, fundamentalmente são abordas técnicas de intervenção em
aconselhamento cristão, com destaque para os métodos diretivos e não diretivos.

Propostas, Técnicas e Comportamentos em Aconselhamento Cristão.

Quando se pensa na atuação do conselheiro cristão necessariamente se deve


pensar em propostas, técnicas e atitudes em aconselhamento.
A seguir estar-se-á expondo algumas propostas, técnicas e atitudes em
aconselhamento cristão, as quais não são inéditas, mas que procuramos identificar
de maneira básica e fundamental quais devem ser os procedimentos e ações do
conselheiro no contexto pastoral.
Observe-se, ainda, que essas propostas, técnicas e atitudes guardadas as
devidas proporções, servem também de base para o trabalho da capelania e suas
mais diversas atividades, em especial, quando esse capelão atuar na condição de
conselheiro.
É importante observar que há muitos escritos sobre o assunto,
especificamente, com teorias e métodos devidamente elaborados. Há também
diversos textos sobre o aconselhamento cristão e a aconselhamento psicológico,
que observam seus vínculos, contribuições, limites e críticas, como: Mannóia (1985),
Casera (1985), Collins (1995), Barrientos (1991), Szentmartoni (1999), Clinebell
(1976 e 2000), Schipani (2004), Sathler-Rosa (2004) e Pereira (2007).
Há certo consenso na literatura acadêmica pesquisada Szentmartoni (1999),
Collins (1995), Barrientos (1991), Casera (1985), Clinebell (2000), Pereira (2007),
dentre outros, que ao tratar do tema do aconselhamento cristão observam, de uma
maneira ou de outras, as ideias de Carl Rogers, método não diretivo, principalmente,
aquelas relacionadas à prática do aconselhamento, as quais já foram vista acima.
Por isso, nessa direção, uma proposta de aconselhamento passa
necessariamente pelo estabelecimento de vínculos entre o conselheiro e o
aconselhando, sem os quais é impossível, um bom desenvolvimento do
aconselhamento. Mannóia (1985) coloca como premissa do aconselhamento cristão
as relações pessoais e a centralidade da pessoa, no aconselhando.
Da mesma forma Szentmartoni (1999) também o faz, contudo ressalta ainda
as marcas da natureza do aconselhamento cristão, o que se pode inferir:

a) Contextualizada à missão e à evangelização da Igreja;


b) Na ajuda, desempenha um trabalho bíblico-teológico do anúncio
cristão;
c) Uma atividade religiosa (conselheiro e aconselhando) que deve ser
observada a pessoa e seu relacionamento com Deus;
d) Limites da atuação e da atividade do aconselhamento cristão e suas
interfaces com outras atividades de aconselhamento.

É imprescindível que o conselheiro tenha as atitudes de empatia,


autenticidade e não ser possessivo, segundo Szentmartoni (1999). Tais atitudes já

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são consideradas, na literatura especializada, como sendo ponto fundamental para o


sucesso de todo e bom aconselhamento que tem um propósito de ajuda genuína.
Barrientos (1991) lista os seguintes aspectos que o conselheiro deve ter
durante a entrevista de aconselhamento:

• Proporcionar um clima de confiança;


• Que a pessoa se sinta ao nível do conselheiro. Para isto é melhor usar
um par de cadeira ou poltronas, ou um de frente para o outro em uma mesa;
• Que o conselheiro tenha em mente, e transmita à pessoa, que é
possível enfrentar a situação e até resolvê-la;
• Escutar com muita atenção. Há pessoas que se sentem aliviadas de
sua carga pelo simples fato de que alguém as escuta com interesse e amor;
• Ir captando, entre os detalhes do relato, os possíveis assuntos ventrais
relacionados;
• Não dar opinião como: “que mau...” “que horror...”
• Não interromper o relato a não ser que seja para fazer alguma
pergunta esclarecedora ou que falte para completar o quadro.
• Discernir em silencio aspectos que a pessoa poderia encobrir r que
correspondem a seu modo de ver o assunto;
• Ao final do relato, ajudar a pessoa a ver o problema como um todo,
sem reparar em detalhes, a menos que seja necessário.
• Levá-lo a reconhecer os fatores centrais que entram em Jô;
• Ajudá-la a encontrar as causas. Aqui é necessário dar oportunidade
para que a pessoa opine e que ambos dialoguem até que concordem;
• Ajudar a pessoa a fazer um plano ou propor-se um alvo realista que
tentará alcançar nos dias seguintes.
• Quando necessário, levar a pessoa a colocar seu problema diante do
senhor em oração, pedir libertação e dar graças por ela;
• Caso a pessoa não saiba orar, o pastor deve fazer a oração com a
pessoa;
• Por fim, o pastor pode fazer uma seleção de textos bíblicos e indicar
para a pessoa ler e meditar sobre eles e relacioná-los aos seus problemas.

Szentmartoni (1999) apresenta as seguintes técnicas de intervenção no


aconselhamento, levando em consideração o principio da não-diretividade, as quais
sejam:
a) A reformulação – é quando o conselheiro se expressa claramente verbal ou
não-verbal ao aconselhando, as principais formas são: a reiteração, a resposta-eco,
as expressões equivalentes e a recapitulação;
b) O reflexo do sentimento – com o objetivo de criar um ambiente de emoção
genuína, onde possa haver o contacto sincero da pessoa com sua afetividade, os
principais sinais são: pausas, choro, contradições entre expressões verbais e não
verbais etc.;
c) A reestruturação do campo – intervenção com a finalidade de fazer
reestruturações do campo perceptivo da pessoa, referente à sua pessoa (ego) ou a
imagem de si. A partir dos conceitos da Gestalt, as intervenções devem ser:
ressaltar a “figura” (tema explicito) como é percebido pela pessoa, esclarecer uma
posição entre os vários conteúdos expostos, poder ampliar o significado do que foi
dito ou mudar a ordem de importância dos elementos pela pessoa.

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Por fim, Szentmartoni (1999) observa que o conselheiro tem de ter os devidos
cuidados em sua atividade, deve evitar colocações ou expressões que não
contribuem para o objetivo principal do aconselhamento, segundo Mannóia (1985,
p.103), que “é o de facilitar o crescimento da personalidade ao máximo nível de
maturidade”. São observações que o conselheiro passa ao aconselhando como
sendo as suas conclusões, de forma moralista e não observa as manifestações do
seu aconselhando. Segundo Szentmartoni (1999) isso denota falta de confiança nos
recursos do outro, por parte do conselheiro e impede que o objetivo maior do
aconselhamento seja atingido.
Para desenvolver uma relação adequada no aconselhamento Clinebell (1976)
em um texto denominado “Os elementos comuns a todo aconselhamento” trata de
dois itens fundamentais e necessários para o exercício do aconselhamento, o qual
pode ser exercido no contexto do gabinete pastoral ou de um leito, no hospitalar: o
desenvolvimento de uma relação terapêutica, e, como facilita comunicação do
aconselhando.
Outro exemplo de procedimento ou técnicas de aconselhamento vem de
Collins (1995), com seu texto clássico, o livro: “O aconselhamento Cristão”. Nessa
obra, o referido autor apresenta técnicas de aconselhamento, que considera como
sendo as mais básicas numa situação de ajuda; antes, porém, de apresentá-las ele
faz a seguinte ressalva, que nessa relação de aconselhamento, ela é uma relação
necessariamente de ajuda, mas de uma relação de ajuda que deve ser desenvolvida
num formato profissional. Vejamos as técnicas:
1. Atenção – O conselheiro deve tentar conceder atenção integral ao
aconselhando:

• Contatos de olhos;
• Postura relaxada, não tensa e interessada;
• Gestos naturais.

2. Ouvir – Isso significa muito mais do que uma recepção passiva da


mensagem. Ouvir envolve:

• Percepção suficiente;
• Evitar expressões verbais e não verbais dissimuladas de desprezo ou
juízos antecipadas;
• Aguardar pacientemente o funcionamento do aconselhando;
• Ouvir não somente o que o aconselhando diz, mas as suas reais
necessidades;
• Estar atento a fala e o comportamento;
• Analisar as reações do aconselhando diante das suas intervenções;
• Senta-se imóvel;
• Limitar o numero de execuções mentais às próprias fantasias;
• Não julgar antecipadamente através da manifestação de sentimentos
em relação ao aconselhando;
• Praticar a aceitação da pessoa do aconselhando.

3. Responder – o bom conselheiro é um bom ouvinte, mas também é sua


competência agir e responder especificamente ao aconselhando. Por isso, compete
ao conselheiro em suas respostas ao aconselhando:

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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• Orientar ou liderar dialogicamente;


• Refletir conjuntamente e de maneira presente;
• Perguntar com o objetivo único de buscar informações úteis;
• Confrontar ideias ou comportamento que não sejam percebidas;
• Informar de maneira abrangente fatos relevantes;
• Interpretar comportamentos e ventos;
• Apoiar e encorajar sempre.

4. Ensinar – todas essas técnicas acima são verdadeiras formas


especializadas de educação psicológicas. Nesse contexto:

• O conselheiro é um educador;
• O aconselhando é aprendiz;
• O aconselhamento é um espaço para a discussão;
• O aconselhamento é um espaço para uma relação sincera e honesta.

Diante dessas propostas com suas respectivas técnicas é importante que o


conselheiro desenvolva a capacidade de conversar com vista à criação de vínculo
com o aconselhando. A seguir vejamos algumas ideias de Clinebell sobre essa
matéria.

Clinebell (1976) orienta os procedimentos ou atitudes durante a primeira


sessão de aconselhamento:

1. Estabelecer o rapport como base para a relação terapêutica;


2. Escutar de forma disciplinada, bem como refletir sobre os sentimentos
do aconselhando;
3. Adquirir uma compreensão aproximada do “marco de referência
interna” da pessoa do aconselhando a partir do seu mundo pessoal;
4. Fazer um primeiro diagnóstico sobre a natureza do problema do
aconselhando, ou seja, como suas relações estão fracassando para satisfazer as
suas necessidades e quais são os recursos e limitações para fazer frente a sua
situação;
5. Tendo como base nesse primeiro diagnóstico, o conselheiro sugere
uma aproximação para dar ajuda;
6. Se houver a necessidade um aconselhamento continuado, deverá
proceder a uma estruturação dessa relação de ajuda.

Para facilitar a expressão dos sentimentos do aconselhando, Clinebell (1976)


faz as seguintes considerações:

1. Evitar muitas perguntas, mas fazer o mínimo requerido para obter


apenas os dados essenciais;
2. Fazer perguntas sobre seus sentimentos, por exemplo: como se sente
quando é ignorada?
3. Responder a sentimentos que conteúdos intelectuais;
4. Observar os caminhos que levam a nível emocional da comunicação;
5. Estar particularmente alerta para descobrir sentimentos negativos;
6. Evitar tanto interpretação prematura de como funciona a pessoa ou
suas formas determinadas sentir como dar conselhos prematuro.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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No aconselhamento é fundamental ao conselheiro desenvolver a capacidade


de promover o diálogo com o aconselhando. Portanto, saber ouvir e entender o
aconselhando é imprescindível para o bom exercício desta função. Clinebell (1976)
citando Portes Filho, o qual descreve cinco atitudes que possibilitam diferentes
características de respostas do conselheiro para dar mais sensibilidade no trato com
o aconselhando, observa as seguintes perguntas:

1. Evolutiva – uma resposta que indica que o conselheiro tem capacidade


de fazer um juízo de relativa bondade, apropriação, efetividade e correção. Tem
condição de compreender em certo forma o que o aconselhando pode e deve fazer;
se há grandes consequencias ou profundas;
2. Interpretativa – uma resposta que indica o intento do conselheiro por
ensinar, por apresentar ou mostrá-lo um significado ao aconselhando. Tem
compreendido de certa forma o que o aconselhando pode ou deve pensar;
3. De apoio – uma resposta que indica que o conselheiro intenta
assegurar, reduzir a intensidade emotiva do aconselhando (acalmá-lo). Essa
pergunta possibilita de certa forma ao aconselhando sentir-se não como se encontra
nessa situação de desequilíbrio;
4. Indagatória – uma resposta que indica que o conselheiro intenta obter
mais informações, insistir na conversação, sobre uma linha determinada; Isso faz o
conselheiro chegar à conclusão de certa forma que o aconselhando deve ou pode se
desenvolver beneficiando mais a cerca de um ponto determinado;
5. Compreensão – uma resposta que indica que há a intenção do
conselheiro a perguntar ao aconselhando se tem compreendido corretamente o que
“disse”, como “sente” isto, como “impacta” nele; como o “vê”.

Para fechar essa parte, o próprio Clinebell, assim interpreta essas cinco
perguntas, ao dizer:

A resposta evolutiva é aquela que contem o valor crítico do


conselheiro; uma resposta interpretativa tende a ensinar ou explicar a
dinâmica do comportamento de uma pessoa (porquê); uma resposta
de apoio é aquela que tranquiliza, inspira o aconselhando a pessoa;
uma resposta indagatória é aquele que pergunta; e uma resposta
compreensiva é aquela que reflete os sentimentos e atitudes do
aconselhando. (CLINEBELL, 1976, p. 107)

Diante disso, temos afirme convicção da importância que é saber ouvir e


responder no aconselhamento. Pois saber ouvir e falar de forma adequada são
virtudes indeléveis do conselheiro. Tamanha é a importância dessas duas
habilidades que existe muita literatura especializada em psicologia e em
aconselhamento sobre esses assuntos.
A seguir apresentamos as ideias e a estrutura de um texto em espanhol que
trabalha essas habilidades de autoria Faber e Shoot (TINÃO, 1976) denominado
“Escuchar y responder em la conversación pastoral”.
Para desenvolveu na área do aconselhamento cristão é imprescindível saber
ouvir e responder ao aconselhando. Faber e Shoot observam inicialmente que o
conselheiro deve desenvolver uma atitude de aceitação na relação, na mesma
direção de Rogers:

A relação conselheiro-aconselhando é um contato no qual a


cordialidade de aceitação e a falta de coerção por parte do

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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conselheiro permite o máximo de expressão de sentimentos, atitudes


e problemas por parte do aconselhando... nesta experiência única de
completa liberdade emocional, dentro de um marco de referência bem
delimitada, o aconselhando está livre para reconhecer e compreender
seus impulsos e padrões de consultas positivas e negativas como não
poderia fazê-lo em nenhuma outra relação” (TINÃO, 1976, p.199)

Nota-se que a própria relação entre o aconselhando e conselheiro é ponto


importantíssimo no processo terapêutico. Nesse sentido, o método adota por Rogers
(TINÃO, 1976) é o não diretivo segundo o qual compreende que o ser humano tem
condições e possibilidades para enfrentar e desenvolver sua vida de forma
equilibrada e saudável. Nesse particular Faber e Shoot comentam:

Um dos aspectos mais importantes desse método é que o terapeuta


deve ser não diretivo com respeito ao cliente. Somos de opinião de
que devemos estar prevenidos desde o principio que Rogers usa esta
frase como marco de referencial da relação terapêutica. O que ele
chama de não diretivo aponta aquelas escolas terapêuticas nas quais
o terapeuta diagnostica e comunica interpretações de sintomas.
Rogers rechaça uma relação na qual o aconselhando se transforma
em um paciente, e assim se torna um objeto. Sobre essa base
também rechaça uma relação na qual o psicoterapeuta “moraliza” e
“dogmatiza”. O aconselhando deve seguir sendo responsável pela
sua própria vida de maneira que não pude seguir nem um tipo de
perguntas que puderam pressionar ou formar, se não é uma maneira
de direcionamento. (TINÃO, 1976, p.199).

Nessa perspectiva, cabe ao conselheiro acolher a pessoa do aconselhando


como um ser responsável e não objeto de sua “sabedoria”, uma vez que o próprio
Deus em Cristo também acolhe a todos os seres humanos. Nessa perspectiva o
conselheiro cristão deve, como servo de Deus, também proceder. Contudo, Faber e
Shoot (TINÃO, 1976) ressaltam que esta aceitação não é o único elemento dessa
relação.
Outra ideia que Faber e Shoot (TINÃO, 1976) desenvolvem é a da reflexão
dos sentimentos significativos. Para Rogers cabe ao conselheiro proporcionar uma
relação positiva. Para isso, ele compreende que a reflexão é fundamental. Tal
dinâmica é possível numa relação não diretiva em que aconselhando, numa relação
de aceitação, desenvolver uma reflexão de significado de seus sentimentos, que tão
somente nesse contexto, ou melhor, justamente, nesse contexto de aceitação faz
toda a diferença. Nessa perspectiva assim entende Rogers:

Na experiência terapêutica, um vê as suas próprias atitudes,


confusões, ambivalência, sentimentos e percepções expressadas
exatamente pelo outro; porém livre das próprias complicações
emocionais, e, assim se vê a si mesmo objetivamente o que abre
caminho para aceitação do seu eu, de todos aqueles elementos que
agora se percebem claramente. Assim se avança no caminho da
organização e do funcionamento mais integrado do eu. (TINÃO, 1976,
p.p.120-121)

Associada a essas duas ideias está outra ideia: a empatia. Faber e Shoot
(TINÃO, 1976, p. 121) observam que “simpaticamente sintonizados nos sentimentos
do nosso interlocutor. Com a ajuda de uma simpatia saudável projetamos sobre ele,
e, estamos particularmente preocupados com os seus sentimentos”.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO

Nesse sentido, ouvir e responder numa relação de aconselhamento cristã


deve passar por uma relação de aceitação, de uma significativa reflexão dos
sentimentos e empatia. Tal ambiente na compreensão de Rogers proporciona as
condições terapêuticas para que a pessoa veja suas reais condições e necessidade;
possibilita ainda ao aconselhando seu desenvolvimento e crescimento saudáveis.
Brister (1980) ao tratar sobre a natureza do aconselhamento pastoral em sua
obra: “El cuidado pastoral en la Igreja” observa que há basicamente dois métodos,
um diretivo e o outro não diretivo. A seguir transcrevo o diálogo entre os
conselheiros e seus respectivos aconselhando, como ilustração dos dois métodos,
vejamos o primeiro diretivo e o segundo não diretivo:

1. Aconselhamento diretivo

Sra. P: olá pastor, desde muito tempo as coisa não vão muito bem em minha
casa... (coloca-se muito sentida).
Pastor: Veja bem, estou seguro de que as circunstancias não tão mal como
parece ser, e estou seguro que podemos ver melhor para ajuda à luz da Palavra de
Deus.
Sra. P: pastor, o senhor não sabe como é tão mal a minha situação.
Pastor: penso que você veio se socorrer em seu pastor, não é isso? Falemos
agora sobre o seu problema abertamente e inicie desde o começo e me diga tudo.
OK.
Sra. P: tenho tanto vontade de conversar com alguém...

2. Aconselhamento não diretivo

Sr. B: É como quando tive o acidente com o caminhão. Tudo de ruim me


aconteceu, mas agora eu me sinto limpo. Quando sofremos nos eximimos de tudo
que temos dentro nós. Quando perguntaram se a minha perna estava quebrada, eu
falei: “quebrada, quebrado, quebrado", e assim foi. Disse-lhes que o meu sofrimento
tinha me feito sentir mais perto do céu.
Pastor: Então, você sente que o seu sofrimento teve um propósito?
Sr. B: Na verdade, tenho uma vida muito dura. Eu não sei por que minha
esposa age assim desta forma; logo agora quando tenho tanta necessidade... Estou
só... ninguém se preocupa com a minha situação ... Com algo que eu quero, mas só
pensa em si mesmo. Ela acha que eu sou louco.
Pastor: por que você acha que ela pensa isso?
Sr. B: porque estive em um hospital psiquiátrico ... Isso foi antes de
casarmos...

Segundo Brister (1980), no primeiro, o conselheiro demonstra rigidez e


controlar o rumo da entrevista em cada momento apesar de se esforça por aparentar
imparcialidade. Nota-se que ele não percebe a necessidade da aconselhando.
Contudo, já o segundo conselheiro esforçasse em se aproximar e permanecer com
os sentimentos do aconselhando, o qual expressa uma variedade de sentimentos,
mas deles se destacam o sentimento de rechaço e dependência. Portanto, nesse
segundo exemplo, observamos essa condição como sendo imprescindível para a
criação de vínculo e entendimento do caso, pois o próprio aconselhando dá o tom,
ou melhor, dá o significado para os seus sentimentos, bem como os temas que quer
tratar; basta ao conselheiro estar atento.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Conclusão

Esta unidade foi estruturada para fundamentar o ato do Aconselhamento


Cristão propriamente dito. Aqui foram tratadas propostas, técnicas e procedimentos
em Aconselhamento Cristão face aos desafios no campo teórico e prático.
Nesse sentido destacou-se o tema da natureza do Aconselhamento Cristão, o
qual pela literatura consultada sobressai o método não diretivo como sendo uma das
opções mais usadas pela grande maioria dos especialistas consagrados na
atualidade. Essa fundamentação contou com Szentmartoni (1991) e Brister (1980).
Nas propostas apresentas ficaram por conta de Szentmartoni (1991) e Collins
(1995). Do primeiro, as técnicas de procedimento denominadas: a reformulação, o
reflexo do sentimento e a reestruturação do campo. Do segundo, os seguintes
procedimentos: a atenção, o ouvir, o responder e o ensinar.
Foi destacada a conversação como uma das técnicas imprescindíveis para o
exercício do Aconselhamento Cristão. Saber entrevistar, ouvir e responder o
aconselhando é essencial para o sucesso dessa atividade.
Foram trabalhadas as ideias de Barrientos (1991) e de Clinebell (2000) sobre
entrevistas iniciais. Sobre saber ouvir e responder ficaram por conta de dois
clássicos do aconselhamento cristão, Faber e Shoot (TINÃO, 1976) e Clinebell
(1985). Este deu destaque para as repostas: evolutiva, interpretativa, de apoio,
indagatória e compreensão. Enquanto aquele á luz de Carl Rogers destacou: a
aceitação, a reflexão dos sentimentos significativos e a empatia. Ambos foram
categóricos em afirmar que ouvir e responder não são um ato simplesmente
mecânico, mas envolve toda uma relação afetiva, comportamental e espiritual.

Referências Bibliográficas

BRISTER, C. W. El cuidado pastoral en la iglesia. El Paso, Texas: Casa Bautista de


Publicaciones, 1980.

BARRIENTOS, A. Trabalho Pastoral – Princípios e alternativas. Caribe: San José,


Costa Rica, 1991.

CASERE, D. Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Paulinas: São Paulo, 1985.

CLINEBELL, H. J.; SCHLUPP, Walter O.; SANDER, Luís M. Aconselhamento


pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulus, 2000.

CLINEBELL, H. J. Los Elementos Comunes a todo Tipo de Asesoramento. In:


Simposio de Psicologia Pastoral. La aurora: Buenos Aires, 1976.

COLLINS, G. R. Aconselhamento Cristão. Vida Nova: São Paulo, 1995.

MANNÓIA, V. J. Aconselhamento Pastoral. São Bernardo do Campo/SP: Imprensa


Metodista, 1985.

PEREIRA, E. S. Benefícios do Aconselhamento Pastoral aliado a práticas da


psicoterapia. Maringá/Pr: 2007 (monografia -Cesumar – Centro Universitário de
Maringá)

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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SATHALER-ROSA. Cuidado Pastoral em tempos de insegurança: uma


hermenêutica contemporânea. Aste: São Paulo, 2004.

SCHIPANI, D. S. O caminho da Sabedoria no Aconselhamento Pastoral. Sinodal:


São Leopoldo, 2004.

SZENTMÁRTONI, M. Introdução à Teologia Pastoral. Loyola: São Paulo, 1999.

TINAO, D. Simposio de Psicologia Pastoral. La Aurora: Buenos Aires, 1976.

____________Bíblia Sagrada; Nova Tradução na linguagem de Hoje. Barueri (SP):


Sociedade do Brasil, 2000.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Sexta Unidade

O perfil e o papel do conselheiro de hoje.

Apresentação da Unidade

Esta unidade tem como grande objetivo abordar o perfil e papel do


conselheiro cristão para os nossos dias. Como já nos referimos tal intento se coloca
de antemão como um desafio, uma vez que observamos dificuldades em se
construir ou reelaborar novas teorias ou práticas nessa área. Principalmente quando
se trata de abordar a pessoa do conselheiro.
Reitero que chegamos a um dos temas mais delicados e fundamentais da
nossa disciplina. Um verdadeiro desafio contemporâneo do aconselhamento.
Delicado porque se voltar para si mesmo, ser autocrítico não é uma tarefa das
mais fáceis. Reconhecer dificuldades ou necessidades que se tenham ou devam ser
tratadas na própria vida, quando se tem o poder de ajudar e transformar outras vidas
ou relacionamentos, parece uma tarefa muito simples, mas não é. E isso pode ser
constatado à luz das inúmeras situações de conflitos, de comportamento ou de falta
de ética que estão envolvidos os conselheiros, na atualidade, por exemplo.
Fundamental porque muitos conselheiros e muitas conselheiras
compreendem que é só ter capacidade intelectual ou habilidades para desenvolver
esse ministério. Uma boa formação resolve isso; ledo engano, a sensibilidade e o
reconhecimento dos seus próprios limites e necessidades são pedras de toque que
qualificam e capacitam de fato quem exerce esse ministério.
Por isso, foi pensado também para esta disciplina abordar de forma mais
aprofundada a questão da ética face ao ambiente social que vivemos, o qual
apresenta inúmeros desafios e que o conselheiro não está isento ou imune. Nesse
sentido, é que nossos estudos querem provocar, num bom sentido, essa reflexão,
pois o ministério do aconselhamento é imprescindível para a missão da Igreja como
um todo.

Objetivos da Unidade

• Assinalar as atitudes inadequadas do conselheiro cristão


• Identificar o perfil do conselheiro cristão;
• Caracterizar o papel do conselheiro cristão;
• Conscientizar o conselheiro das competências necessárias para o
desenvolvimento de suas atividades.

Introdução

Para Clinebell (2000) o ato de aconselhar se inicia na própria pessoa do


conselheiro. Esta unidade que se inicia tem como grande objetivo abordar o perfil e
papel do conselheiro cristão. Como já nos referimos, tal intento se coloca como um
desafio, uma vez que observamos que há muita dificuldade em construir ou de
reelaborar novas teorias ou praticas nessa área.
Contudo, vamos destacar inicialmente a questão da ética em
aconselhamento, bem como algumas atitudes inadequadas dos conselheiros quanto
aos seus procedimentos em aconselhamento.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Sobre o perfil do conselheiro é estudado principalmente as habilidades


necessárias para o exercício dessa atividade, as quais devem está aclimadas pelo
ambiente social e os desafios que se colocam hoje.
Também foi tratado do papel do conselheiro, aqui destaque para as
competências esperadas, nesse ambiente que vivemos. Destacaram-se mais uma
vez as práticas, principalmente, a relação do conselheiro com o aconselhando.

Conteúdo

Ética e Aconselhamento

Como vimos, e, se pode inferir, por sua vez, são muitas as exigências para
garantir um bom desempenho profissional de conselheiro. Nesse sentido, torna-se
caminho comum e necessário, o tema da ética. Ela está em alta.
É bom observar que esse assunto não é mais um modismo, ou seja, uma
coisa que só tem valor agora, depois passa. É o mesmo que acontece quando surge
um fenômeno televisivo que faz moda de um dia para o outro: com um penteado, de
uma roupa ou de um jeito de ser que impacta a massa, mas rapidamente também se
vai. Cai no esquecimento ou saudosismo. Ética profissional não é nada disso. Não é
modismo. Pelo contrário, é uma questão necessária e urgente para a sociedade e
para a vida de quem quer ser realmente um profissional (MARIANO, 2007).
Afirmar a necessidade da ética no exercício profissional é uma abrupta
redundância que agride não só a nossa língua, mas principalmente o ser
profissional. Sabe por quê? Porque profissão, segundo Nalini (2001, p.15) “é uma
atividade pessoal, desenvolvida de maneira estável e honrada, a serviço dos outros
e a benefício próprio, de conformidade com a própria vocação e em atenção à
dignidade da pessoa humana”. Isto quer dizer que ninguém é profissional para si
mesmo. A finalidade do exercício profissional é estar a serviço do bem comum, ou
seja, a serviço do outro, em harmonia com sua autorrealização, objetivos de uma
mesma ação que tem como grande beneficiada a sociedade.
A seguir serão apresentadas questões éticas relacionadas à prática do
conselheiro. Essas questões foram extraídas do livro Corey (1983) “Técnicas de
Aconselhamento e Psicoterapia”, onde são ressaltadas as atitudes principais do
conselheiro. Este livro é um excelente texto para aprofundamento das abordagens,
uma vez que há uma riqueza teórica e prática.
Responsabilidade – quem exerce a atividade de conselheiro tem a
responsabilidade sobre o aconselhando, além dos membros de sua família, à própria
função de conselheiro, à instituição da qual depende, à sociedade e à profissão. É
função central do conselheiro o bem-estar do aconselhando e não a satisfação das
suas necessidades próprias. Tal exigência reivindica, caso isso ocorra, que encerre
a relação terapêutica;
Competência – o conselheiro deve reconhecer os limites de sua competência
e limitações pessoais, não podendo aplicar tratamentos ou diagnósticos que
ultrapassem o alcance de seu tratamento. Deve-se então consultar colegas,
supervisor ou fazer encaminhamentos. Quando o aconselhando queixa-se de
sintomas físicos é essencial encaminhar para um médico para saber se é de fundo
orgânico;
Relação terapeuta aconselhando – deve-se deixar claro para o aconselhando
as limitações da relação, além do mais, o aconselhamento só é suficiente quando o
aconselhando deseja cooperar com o conselheiro no trabalho;

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Confidencialidade – devem-se definir os parâmetros da confidencialidade,


devendo considerar as exigências da instituição onde trabalha e aconselhando a
quem serve. O conselheiro tem responsabilidade com o aconselhando e com os
outros, desta forma, quando se torna evidente que o aconselhando deseja ferir
alguém, o orientador deve então dar conhecimento do perigo àqueles aos quais se
refere e às autoridades competentes, e estes limites devem ser informados ao
aconselhando. Deve-se informar também ao aconselhando que certos detalhes do
atendimento vão ser discutidos com um supervisor ou colega, ou que o atendimento
pode ser gravado. Em trabalhos com grupos há a necessidade de se estabelecer
com os integrantes a importância da privacidade das sessões;
Os valores e a filosofia de vida do terapeuta – aconselhamento não é
sinônimo de pregação ou ensino, mas isso não quer dizer que o conselheiro deva
ficar indiferente às comunicações do aconselhando, e sim discutir os valores de seus
aconselhandos, e ao sentir a destrutividade de tais comportamentos, confrontar seus
aconselhandos e convidá-lo a examinar os custos e as consequências de seus atos.
Um conselheiro ético é aquele que se conscientiza de seus valores, estimula o
aconselhando a desenvolver os seus próprios valores, e avalia quais os possíveis
efeitos dos seus valores sobre as decisões do aconselhando.
A influência da personalidade e das necessidades do terapeuta – não é
possível excluir as necessidades e personalidade do conselheiro, mas deve-se
haver a conscientização do conselheiro às suas necessidades, conflitos, defesas,
vulnerabilidades. Se não ocorre a ampliação da autoconsciência do conselheiro, o
aconselhamento deixa de referir-se a satisfação do aconselhando, mas passa a
satisfazer o conselheiro;
Autoconsciência – evitar exercer qualquer atividade em que seus problemas
pessoais possam resultar em prejuízo ao aconselhando, e se estiver envolvido na
atividade, ao perceber tais problemas procurar assistência profissional competente.
O conselheiro deve conhecer sua própria intimidade para conhecer a
intimidade de seu aconselhando, por isso a necessidade de entrar em processo de
terapia antes de iniciar o aconselhamento em outra pessoa. O conselheiro deve
reconhecer o valor de assumir para si que o que oferecem é valioso para o
aconselhando, e que passando por alguma forma de experiência de crescimento
pessoal, estarão mais bem qualificados no sentido de evitarem prejuízos para seus
aconselhandos.
Áreas específicas da personalidade do conselheiro que podem ter reflexos
sobre o aconselhando:

1) poder do conselheiro e o uso feito por ele do controle;


2) necessidade de servir de apoio sentido pelo conselheiro.

Corey (1983) afirma que a motivação de ajudar é decorrente da necessidade


de poder, de se sentir útil e de reforçar sentimentos de inadequação, e que não são
problemas essas necessidades do terapeuta, porém, é essencial que o terapeuta
inicie a relação como alguém integrado. Pois, se o conselheiro necessita dos outros
para manter/alimentar o seu ego e reforçar a sua adequação pessoal, ele irá manter
uma relação de dependência nos seus aconselhandos.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Perfil e atitudes do Conselheiro Cristão

Quando lançamos nosso olhar para a realidade humana e suas


necessidades, ficamos cientes da enorme necessidade do papel do conselheiro
cristão no contexto da Igreja tanto no sentido intra quanto extra eclesial. Hoje mais
do que nunca, a figura do conselheiro cristão é necessário e urgente. Contudo, nota-
se que ainda há produção de literatura destinada ao grande público que continua a
construir um perfil e papel de conselheiro cristão que não atendem às reais
necessidades do nosso momento. Como afirma Coelho Filho:

Não basta dizer-se vocacionado para o ministério pastoral ou para o


ministério do aconselhamento para ser bem sucedido nestas
atividades. Ser vocacionado não é uma garantia de que as coisas
darão certas. Prova disso é o grande número de ministérios que dá
errado e de igrejas com problemas muitas vezes causados por
pastores. E, da mesma forma, de conselheiros que não conseguem
ajudar as pessoas. Há algo mais além da chamada e da boa vontade
em fazer a obra. (COELHO FILHO, 2015, p.1)

Contudo, antes de avançarmos na direção da apresentação do perfil e papel


do aconselhamento cristão, faz-se necessário ressaltar algumas ações do
conselheiro que demonstram equívocos nesse papel. A seguir listamos os seguintes
comportamentos, nessa área, que revelam inadequação, pautados em Wagner in:
Lino (1998):

• A visita em vez de aconselhamento gera confusão do momento da


atuação de aconselhamento pastoral;
• A falta de tempo do conselheiro pode ser entendida pelo aconselhando
como desinteresse de sua parte;
• Rotular em vez de respeito pela diferença é um equívoco que afasta e
não possibilita novos encontros entre conselheiro e aconselhando;
• A condenação em vez de imparcialidade gera uma relação de
desconfiança por parte do aconselhando, pois este se fecha e não fica disponível
para a relação de aconselhamento;
• Querer resolver tudo num só momento revela a ansiedade da relação
entre conselheiro e aconselhando e, ainda, gera interpretações apressadas e
cansaço, pois é comum ser encontros longos;
• Ser diretivo por parte do conselheiro é uma atitude que revela uma
concepção de negação das potencialidades do ser humano, as quais são
fundamentais para agir de forma adequada e saudável por si só;
• Envolvimento emocional do conselheiro com aconselhando é a
manifestação mais viva que o foco da relação terapêutica está equivocado e que ele
deve buscar ajuda. Cabe ao conselheiro também cuida da sua saúde emocional
buscando ajuda, ou para si, num processo de aconselhamento individual onde deve
tratar as suas próprias questões espirituais e emocionais; ou para quem lhe procura
para ser ajudado. O conselheiro deve fazer uma análise honesta e serena quando
não reunir as devidas competências para tratar o caso. Cabe, portanto, ao
conselheiro buscar ajuda junto a outros conselheiros experientes, bem como outros
profissionais da área da psicologia ou da psiquiatria para fazer supervisão ou para
encaminhamento do caso atendido.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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• Distanciamento em vez de empatia quando o conselheiro por algum


conteúdo da relação com o aconselhando procede se distanciando quando deveria
está presente na relação como facilitador.

Não poderíamos deixar de expor uma lista do perfil ou atitudes do conselheiro


cristão, neste texto, contudo é salutar que registremos que há muitos perfis
espalhados pelas literaturas especializadas, na atualidade. Não tivemos pretensão
de construir uma determinada ou advogar determinadas atitudes, mas sim expos de
maneira básica ou fundamental algumas delas necessárias para a construção de um
perfil do conselheiro que atenda as nossas necessidades hoje, e, que do ponto vista
didático possibilitassem abrir discursos e reflexões sobre o trabalho de conselheiro
cristão.
Nesse sentido, passo a transcrever um artigo de autoria de Coelho Filho
(2011), que aborda o perfil e os atributos do conselheiro bíblico. Um trabalho
expressivo, com toque todo especial de sabedoria, e com um bom suporte de
fundamentação, informações e reflexões sobre o conselheiro cristão. Ainda, é
necessário registrar, tal transcrição sofreu, em alguns momentos, supressão ou
acréscimo, contudo fique também registrado que toda e qualquer interpretação do
texto apresentado abaixo, resguardado o seu sentido original, é de intera
responsabilidade nossa.

Coelho Filho (2015) inicia seu artigo abordado o perfil do conselheiro cristão,
como segue:
O primeiro deles é empatia. A palavra vem da mesma raiz de “simpatia” e
de “antipatia”. Simpatia é sentir na mesma direção, sentir com. Antipatia é sentir
contra. Sobre empatia, o prefixo grego en nos esclarece: é “sentir dentro”, “sentir
como se fosse à pessoa”. A simpatia pode ser entendida como uma ternura, mas a
empatia é uma profunda compaixão que nos faz colocar-nos no lugar daquela
pessoa. O fundador do cristianismo foi a maior manifestação de empatia que o
mundo já viu: “O Verbo se fez carne” (Jo 1.14). Deus foi empático conosco, na
pessoa de Jesus. Empatia tem a ver com compaixão. O Salvador era profundamente
empático, porque era profundamente compassivo: “Vendo ele as multidões,
compadeceu-se delas, porque andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que
não têm pastor” (Mt 9.36). E este é um conselho bíblico para todos os cristãos:
“Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram” (Rm 12.15). Somos
exortados a experimentar e partilhar os sentimentos dos irmãos. O autor de Hebreus
aconselhou a comunidade cristã nos seguintes termos: “Lembrai-vos dos presos,
como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos
também no corpo” (Hb 13.3). O conselheiro cristão deve ter este sentimento bem
aguçado. Ele não é juiz nem um crítico, mas um ajudador. E um ajudador com
compaixão.
Não somos profissionais que atendem a pessoa, ouvem-na sem experimentar
emoção alguma (algumas vezes bocejando de indiferença), e depois apenas
perguntam: “Sim, o que você pensa em fazer sobre isso?”. Somos pessoas que
amam a Deus, que amam o povo de Deus e que servem a Deus servindo a seu
povo. E mostramos nosso amor a Deus no amor ao seu povo. Empatia é mais uma
postura que adotamos que um sentimento que experimentamos. É sentir com a
pessoa. A frieza ou a indiferença é mortal no trabalho do conselheiro. Como bem
frisou Collins: “É possível ajudar as pessoas mesmo sem compreendê-las
inteiramente, mas o conselheiro que consegue transmitir empatia (principalmente no

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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início do processo terapêutico) tem maiores chances de sucesso”. Ouvi um pastor


psicólogo criticar um pastor que chorou no sepultamento de uma de suas ovelhas,
dizendo que ele era um amador e que não sabia controlar as emoções. O pastor que
chorou não se descontrolou, não surtou nem se mostrou histérico. E merece elogios
exatamente porque não foi um profissional de religião, mas um amador. Benditos
sejam os amadores assim!
O segundo é respeito. Por vezes a pessoa chega e abre o seu coração,
contando-nos um pecado que julgamos ser escabroso (e às vezes é mesmo). Então
ficamos chocados com a revelação e mostramos à pessoa que não esperávamos
aquilo da parte dela. Ou ela nos ataca ou ataca alguém da igreja. O conselheiro,
muitas vezes, é machucado pelo aconselhando. Qual deve ser a reação numa
circunstância dessas? Kaller, em uma obra sobre aconselhamento cristão, usa esta
figura: uma pessoa não crente se aconselha com o pastor, e lhe diz: “Os membros
de sua igreja fazem pior do que as pessoas que não são crentes”. Ele alista quatro
possíveis respostas do conselheiro, e entre elas duas bem curiosas. O conselheiro
poderá dizer: “Você não sabe nada; pior que você não há nenhum” ou “Os crentes
têm suas falhas, mas as falhas dos não crentes são piores”. Diz Kaller: “Esta reação
não facilitará a continuação da conversa, mas é o início de uma discussão”. Ele
mostra duas respostas que seriam mais viáveis: “Você acha que muitos crentes não
vivem de acordo com suas crenças?” ou “Você acha os não crentes melhores que
os crentes?”.
Na primeira resposta viável, o conselheiro circunscreveu a questão a uma
opinião pessoal do aconselhando, e não a deixou como um absoluto. Na segunda,
deixou a porta aberta para o aconselhando continuar a expor sua mágoa. Em
nenhum dos dois casos ele deixou a questão descambar para o bate-boca.
Respeito significa valorizar a pessoa, não a vendo como uma coitadinha ou
uma leprosa moral ou espiritual. É vê-la como sendo uma pessoa, imagem e
semelhança de Deus, valiosa aos olhos do Senhor, que no momento passa por uma
crise e veio lhe pedir ajuda. Não esfregue sal e pimenta nas feridas dela. Respeite
seu desabafo, suas atitudes, e sua postura. Isto é diferente de aceitar um
comportamento errado. É respeitar a pessoa que está querendo ajuda como pessoa.
Não é um traste. Lembremos que Paulo recomendou que apoiássemos aqueles que
estão fracos.
O terceiro é sigilo. O que um conselheiro ouve deve morrer com ele. Ele não
passa para frente nem mesmo com pessoas interessadas no assunto. Muitas vezes
alguém me procura e depois uma pessoa da família ou do relacionamento com esta
pessoa vem me perguntar o que foi dito. Geralmente me nego, dizendo que o que a
pessoa me contou pertence ao sigilo. Se quiser saber, que meu indagador lhe
pergunte. Lembre-se que comentar o que lhe foi dito em confiança acabará não
apenas com sua atividade, mas com seu caráter. E você terá traído quem confiou
em você. Poucas coisas são tão ruins para um pastor ou para um conselheiro que
ser conhecido como fofoqueiro, como alguém que passa para frente coisas que
ouviu em confidência. Há pastores que contam de púlpito experiências de gabinete.
Não citam o nome da pessoa, mas deixam pistas claras de quem sejam. Isto é muito
ruim.
Abrir o coração com alguém é tarefa difícil. Muitas vezes é um desnudar da
alma, e é doloroso para a pessoa. Já ouvi muitos casos tristes e dolorosos em
gabinete, desde violência sexual que uma criança sofreu por parte de pai até o uso
de drogas por líderes da igreja. Por vezes, o peso era esmagador e eu me sentia
deprimido, querendo um buraco para me enfiar. Mas sabia que não podia partilhar

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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com ninguém. Um conselheiro deve ser sigiloso. Por isso que deve ser uma pessoa
que cuide de sua vida espiritual e se fortaleça, sempre, com o Grande Conselheiro,
Deus. É a vinha dele que ele deve guardar.
O quarto é sobriedade. O Novo Testamento faz várias referências à
sobriedade. Nós é que pouco mencionamos esta virtude cristã. Há líderes que
amam holofotes ou são pouco discretos. Têm grande necessidade de atenção.
Jesus exortou à discrição na vida espiritual, quando deixou recomendações sobre a
oração e o jejum. Sobriedade tem a ver com discrição. Não se faz alarde de que
estamos ajudando alguém. O trabalho do conselheiro é um trabalho de bastidores,
que se faz nos bastidores, e não em público. Como o aconselhamento envolve
questões emocionais, e por vezes delicadas, o conselheiro deve lembrar que a
imagem do aconselhando deve ser poupada. Repreensão pública ou conselhos
dados em voz alta prejudicam muito. Ninguém precisa ouvir a conversa. Por isso,
quando atender, fale baixo. Uma das tarefas do conselheiro é ajudar a pessoa a ser
madura e tomar decisões por si, orientada pelo Espírito Santo. Outra tarefa é
levantar a pessoa. Neste sentido, expô-la em público, como alguém tutelado, é
prejudicial. Somos conselheiros e não pais de criancinhas travessas que devem ser
chamadas à atenção.
Há conselheiros que gostam de publicidade para que os demais vejam como
ele é importante ou como está sendo usado por Deus. Remo Machado, psicólogo
cristão, faz esta afirmação, em uma de suas obras: “Caso Deus seja o centro de
nossa vida, ele tem um plano para nossa existência, e se ele nos delegou a posição
de psicoterapeutas, devemos usá-la para enaltecimento do nome de Deus, e não
para o nosso engrandecimento pessoal”. Sobriedade é esta característica assumida
de que somos apenas instrumentos, a glória é de Deus, fazemos o que temos que
fazer e saímos de cena, sem esperar aplausos ou reconhecimento. O conselheiro
não faz alarde do seu trabalho. A vaidade sempre é notada, sempre desgasta o
vaidoso e geralmente cobra um preço muito elevado. E as pessoas que
aconselhamos não devem ser vistas como troféus a exibir.
O quinto é desprendimento. Isso significa que o conselheiro não deve levar
vantagem na tarefa de aconselhar. Por vezes, o conselheiro é profissional, um
psicólogo ou outro tipo de terapeuta. Neste caso, ele cobrará consultas. O levar
vantagem, neste contexto, significa que o conselheiro não usa as informações que
recebe, nem antes nem depois do processo de aconselhamento. Suponhamos que
o conselheiro seja o pastor ou o líder de um trabalho. Um irmão o procura e lhe
revela um problema e pede ajuda. Não será justo o conselheiro divulgar
publicamente uma possível incapacidade da pessoa para o exercício de uma função
para a qual ela vier a ser indicada. Evidentemente que se for um caso grave, como
uma pessoa que tenha tendências pedófilas sendo indicada para cuidar de crianças,
o conselheiro precisará agir. Mas isso exige cautela. A questão principal é de ordem
pessoal: não levar vantagem. Não impugnar a pessoa para um cargo ou função
porque tem outro nome que é seu preferido ou porque o ambiciona, etc. Deve se
lembrar também que Cristo pode transformar uma vida e que um pecado que uma
pessoa cometeu no passado não será, necessariamente, cometido outra vez pela
pessoa.
O sexto é capacitação. Já tangenciamos este aspecto anteriormente. Trata-
se da capacitação para o serviço a desempenhar e da capacitação espiritual para
poder desempenhar o serviço. Precisamos ter em mente que nenhum de nós, como
líder cristão, é um produto acabado. No que se presume ser sua última carta, já
idoso, Paulo pede a Timóteo: “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade,

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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em casa de Carpo, e os livros, especialmente os pergaminhos” (2Tm 4.13). Os


especialistas distinguem entre “livros” e “pergaminhos”. O primeiro termo aludiria a
obras seculares, e o segundo teria o sentido de livros canônicos, isto é, os escritos
sagrados. Ele está detido na cadeia, e prestes a ser executado, mas ainda quer os
livros. O obreiro cristão em geral e o conselheiro em particular sempre devem querer
crescer. Adquirir livros, ouvir palestras, fazer cursos, tudo isso ajuda muito o
conselheiro. Mas o preparo espiritual nunca pode ser negligenciado. O Pr. Falcão dá
como sendo um dos aspectos mais importantes na vida do conselheiro ao ajudar
alguém em crise: “Orar por si mesmo e colocar-se nas mãos de Deus para prestar
uma ajuda afetiva”. Desempenhamos uma atividade espiritual e nunca podemos nos
esquecer disso. A autoridade espiritual que vem da comunhão com Deus e da
submissão à sua Palavra é sempre notada na vida de quem a tem. E quem a tem
não precisa alardear.
Quem também apresenta um perfil do conselheiro cristão é Clinebell quando
trabalha a questão das habilidades de poimênica e aconselhamento para o pastor,
em especial. Para este autor a chave para ser bem sucedido no aconselhamento
está na própria pessoa do conselheiro. Diante disso, Clinebell lista seis
características, qualidades ou habilidades que tipificam um perfil de conselheiro
cristão.
Clinebell (2000) começa sua lista trazendo as ideias rogerianas, as quais são:
congruência, calor humano não possessivo (solicitude e respeito pela pessoa) e
compreensão empática, e, depois apresenta mais três de sua autoria.

1. Congruência – significa que o conselheiro deve desenvolver


autenticidade interior, integridade e abertura. Nesse sentido deve proceder a
comportamentos que expressem autenticidade e transparência. O posto a essa
característica é a impostura, “fazer de conta” e “fingir”. Sendo, assim, compreende
Clinebell (2000) que a pessoa que esconde seus reais sentimentos, mais cedo ou
mais tarde perde a noção de muitos de seus próprios sentimentos, produzindo
pontos cegos emocionais, principalmente nas áreas de hostilidade, agressividade,
sexualidade e carinho.
2. Calor humano não possessivo (solicitude e respeito pela pessoa) – é o
equivalente humano à Graça de Deus em Cristo. Graça é o amor que não se precisa
granjear, por que já está existente num relacionamento. Segundo Clinebell (2000)
“consideração positiva incondicional é uma mescla de calor humano, gostar da
pessoa, preocupa-se com ela, interessar-se por ela, aceitá-la e respeitá-la” (p.406).
3. Compreensão empática – significa entrar no mundo interior de
significados e sentimentos profundos da pessoa, escutando com a atenção e
interesse. Diferentemente, observa Clinebell (2000) que um das barreiras para o
desenvolvimento da compreensão empática é o narcisismo defensivo, pois não
consegue olhar para o outro, mas apenas para sim; nesse sentido, Clinebell (2000)
em tom pastoral afirma: “a oração continua do pastor-aconselhador poderia muito
bem ser o verso de hino: ‘afasta de mim o obscurecimento de minha alma’” (p.406).

As outras três características, Clinebell (2000) acrescenta:

4. Uma robusta noção da própria identidade como pessoa - é quando o


conselheiro desenvolve firmemente sua identidade e valor próprio de sua
personalidade e vida. São centrados. Certamente, observa Clinebell (2000: p.406)
que quando há essa condição, o conselheiro é capaz de responder com

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sensibilidade necessária às necessidades de outros na medida em que possui está


consciência centrada de seu próprio valor e personalidade.
5. Sarador ferido - esta é uma expressão usada por Clinebell (2000) que
evoca a atitude terapêutica descrita por Henri Nouwen. Essa atitude provém de uma
consciência vivida de familiaridade com a doença e o pecado, a solidão, alienação e
o desespero da pessoa com distúrbio e, fundamentalmente, quando a pessoa do
conselheiro se coloca também nesse plano e o reconhecimento da ação superior de
Deus na vida daquela pessoa, pois ela mesma (conselheiro) também é suscetível e
frágil, necessitado; no dizer de Clinebell (2000) é necessário que o conselheiro
apesar de suas condições intelectuais como um de seus aconselhando,
principalmente, os que sofrem distúrbios, por isso Clinebell (2000) afirma: “pela
graça de Deus”, como afirmação de fé necessária para o exercício do
aconselhamento cristão.
6. Vivacidade pessoal – essa característica é quando se matem o vigor e
a energia sempre presente. Contudo, Clinebell (2000) destaca que tal atitude não é
simples, mas necessita de aprendizado constante. Pois quando se fala em
vivacidade, está se pensando naquela que é contagiante. Contudo, não é fácil
manter essa atitude, lembra Clinebell (2000), ao solicitar ao leitor que observe o seu
próprio comportamento após atender certas pessoas, como a pessoa do conselheiro
fica diferente; como a vivacidade interessada oscila.

Vejamos agora algumas atitudes necessárias ao conselheiro cristão, que são


apresentadas por Coelho Filho (2015):

Primeiro: ele deve proceder sem preconceito quando aconselha.

Pode ser que a pessoa aconselhada esteja em pecado e deva ser orientada
quanto a isso, mas não compete ao conselheiro, como conselheiro, condená-la. No
aconselhamento não se prega. Conversa-se e se mostra à pessoa a situação em
que ela se encontra e as alternativas a tomar na sua vida. Em outras ocasiões, o
conselheiro administrará conflitos de relacionamentos entre partes. Deve evitar se
posicionar contra um ou contra outro. Ele deve ser uma ponte e não um juiz. Pode
ser que a questão esteja bem clara e ele tenha uma posição bem definida, mas deve
se lembrar que está ali para conciliar partes.
Já me aconteceu, em passado remoto, aconselhar um líder da igreja com
problemas de drogas. No íntimo, por dentro, fiquei muito indignado com este
comportamento vindo de um líder em que eu e a igreja confiávamos, mas sabia que
perderia a pessoa se manifestasse este sentimento. Ela já estava bastante frustrada
e envergonhada. Não manifestei minha postura de censura. Ela já sabia que estava
errada. Tratamos de como superar a situação. Mostrei-lhe empatia. A pessoa
superou o problema e até hoje está na liderança (pedi permissão a ela para citar o
evento, sem nomear e localizar, e ela me concedeu). Precisamos ter muita cautela e
lutar para impedir que nossos sentimentos pessoais de aceitação ou rejeição nos
levem a tomar atitudes que bloqueiem o processo de aconselhamento.

Segundo: ele deve evitar dar ordens.

Inconscientemente, o conselheiro tem o desejo de dominar e exercer controle


na vida da pessoa aconselhada. Até porque se sente em condições de orientar a
outra parte. Nosso papel é levar a pessoa a ver a vontade de Deus para sua vida. E

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precisamos ser humildes para reconhecer que nem sempre a vontade de Deus é a
nossa, como conselheiros. Podemos mostrar à pessoa as opções e as
consequências das opções, mas deve ser deixada com ela a decisão a tomar. É
assim que ela amadurecerá. Quando dizemos às pessoas o que fazer, elas criam
dependência emocional. E isto não é bom. O conselheiro poderá dizer que executou
bem sua função quando a pessoa chegar a um ponto em que o aconselhado não
mais precisar mais dele como orientador. Essa ideia de “guru” ou de um mentor que
tutoreia a pessoa a por toda sua vida não é uma medida salutar. É antibíblica.
Conforme Efésios 4.13, o exercício de dons na igreja é para que os crentes
cheguem “ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo”
(Ef 4.13). Conduzir alguém pela mão por toda a vida não faz desse alguém uma
pessoa neste patamar de adulto em Cristo. Há muito manipulador querendo ser
mentor.

Terceiro: o conselheiro deve cultivar objetividade e não ser envolvido


emocionalmente.

Não confunda as coisas nem tente fazer “pegadinhas”, dizendo que isto é o
oposto da empatia mostrada como necessária. Terapeutas profissionais não devem
aconselhar parentes ou pessoas a eles ligadas emocionalmente. Sua análise
sempre será prejudicada porque terá envolvimento emocional. Há uma linha
divisória entre empatia e envolvimento emocional. A empatia é produto da
misericórdia cristã. O envolvimento sucede quando o conselheiro se sente
perturbado porque aquilo o atinge diretamente. Por vezes, ele está passando por um
problema semelhante ao que a pessoa que lhe procura está passando e sente
desnorteado, ou sem condições de fazê-lo. Não é errado um conselheiro ter
problemas e passar por lutas, é preciso dizer neste contexto. O problema é quando
o aconselhando está numa situação idêntica e o conselheiro sente que está sem
condições.
A eficácia do aconselhamento, neste caso, será reduzida. Ao mesmo tempo,
em contrapartida, o conselheiro poderá ver nesta situação como a pessoa está
sofrendo. Mas sua orientação poderá ser apenas um reflexo do que ele faria. E as
pessoas reagem de maneira diferente. O conselheiro poderá mostrar um caminho
que ele tem condições de percorrer, mas talvez a outra pessoa não tenha. Ele
precisará refletir bastante, orar e ter humildade para, se for o caso, dizer à pessoa
que naquele momento não poderá ajudá-la. Se tiver certeza de que estará mais
capacitada exatamente por estar vencendo o problema, deve ajudar. Mas se estiver
sendo abatida pelo problema, terá pouco o que dizer. E deverá ter a humildade de
reconhecer isto.

Quarto: Saber filtrar o que está sendo dito.

Nem sempre as palavras revelam. Por vezes mascaram. Para filtrar bem, o
conselheiro precisa de um bom filtro (ou um coador). É oportuno lembrar que
vivemos numa sociedade massificada pelo egoísmo e que as pessoas, em sua
maior parte, têm motivações egoístas. Até mesmo na área espiritual. O conselheiro
precisa ter um bom parâmetro para avaliar e orientar. Por exemplo: qual é a
finalidade da vida? É a busca de felicidade? É o que as pessoas buscam, e o que
muitas pregações sinalizam. Mas é este o propósito de Deus para nós?

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Cabem aqui as oportunas palavras de Crabb Jr.:


Veja os títulos de tantos livros cristãos da atualidade: “O segredo
cristão de uma vida feliz”; “Desenvolva todo o seu potencial”; “A
mulher total”; “A mulher completa”. Muitos contêm conceitos
excelentes e verdadeiramente bíblicos, mas sua mensagem, clara ou
implícita, às vezes nos dirige mais à preocupação com a auto-
expressão e menos a um interesse em conformar-nos com a imagem
de Cristo. A Bíblia, porém, ensina que, seu eu permanecer em
obediência na verdade, a fim de tornar-me mais com Deus e assim
torná-lo mais conhecido, o resultado será finalmente a minha
felicidade. Um problema muito sério é que os crentes estão buscando
felicidade, e não mais santidade, como se pudessem ser felizes à
parte de sua comunhão com Deus. Com esta visão, a vida cristã
passa a ser a busca de satisfação de necessidades pessoais
(algumas irrelevantes e supérfluas). É um conceito mundano. Assim,
o trabalho do conselheiro passa a ser mais o de um terapeuta
secular, levando as pessoas a se aceitarem como são e a buscarem
necessidades muitas vezes mundanas, que um servo cristão que
ajuda os crentes na sua caminha a uma vida mais profunda com
Deus. Muitos dos problemas espirituais e emocionais não estão
ligados à área espiritual ou da vontade de Deus, mas a projetos
pessoais que os indivíduos têm, muitos deles modelados pelo padrão
do mundo. Eles não alcançam tais projetos e se frustram. Tenho
observado, em quarenta anos de ministério (o que não me torna
infalível, mas me faz entender muitas coisas) que grande parte da
aflição dos crentes é por coisas das quais não precisam e sem as
quais pode viver. Mas deixam-se modelar pela massificação mundana
de uma sociedade materialista que espiritualmente é decadente. Eles
querem ser como o mundo. E querem as coisas que o mundo quer.
(CLABB JR, 2013, p.1-2)

O conselheiro deve ter em conta que lidará com muitas pessoas que têm
problemas por causa de necessidades que não devem ser atendidas. Cito Crabb Jr.,
a respeito:
Os conselheiros cristãos devem ser sensíveis à profundidade do
egoísmo na natureza humana. É temerosamente fácil ajudar alguém
a atingir um alvo não-bíblico. É nossa responsabilidade, como
membros do mesmo Corpo, continuamente recordar e exortar uns
aos outros a fim de manter em vista o alvo de todo verdadeiro
aconselhamento: libertar as pessoas para que possam melhor adorar
e servir a Deus, ajudando-as a se tornarem mais semelhantes ao
Senhor. Em suma, o alvo é maturidade. A atividade de aconselhar
biblicamente não é a de dar pirulitos a crianças frustradas, mas ajudar
as pessoas a entenderem o propósito de Deus para a vida delas. Há
uma diferença enorme entre desejos e necessidades. É preciso saber
a distinção entre os dois. E o conselheiro, algumas vezes, terá que
levar a pessoa a entender isso. (CLABB JR, 2013, p. 60)

Concluo essa parte também, apresentado o pensamento de Coelho Filho que


ressalta e comenta as palavras de Collins:

Muitos conselheiros ficam desanimados e até ansiosos quando não


veem progresso imediato em seus aconselhandos. Os problemas
geralmente levam muito tempo para se desenvolverem e presumir
que eles desaparecerão rapidamente por causa da intervenção do
conselheiro não é uma postura muito realista. Mudanças instantâneas
acontecem, mas são raras. O mais comum é levar um tempo até que
o aconselhando abandone sua maneira de pensar e seu

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comportamento anteriores, substituindo-os por algo novo e melhor.


Assim sendo, não se culpe se não vir resultado imediato ou se a
pessoa custar a aceitar sua orientação. Sua missão não é produzir
resultados, mas fazer o melhor que puder, na dependência do
Espírito Santo. O resto compete a Deus, que fará a obra no tempo
dele. Que sempre é o certo. (COELHO FILHO, 2015, p.3)

Conclusão

Como já observamos anteriormente, nesta unidade foi aprofundada


teoricamente a prática do conselheiro como forma de instrumentaliza-lo diante dos
desafios do nosso tempo.
No tema da ética e aconselhamento, identificamos comportamentos éticos
necessários para um bom desempenho profissional de um conselheiro, os quais
sejam: responsabilidade; competência; relação sincera com o aconselhando;
confidencialidade; reconhecer os valores e a sua filosofia de vida; identificar as suas
necessidades e limites, bem como quando necessitar de ajuda procurar assistência
profissional competente para si. Aqui as contribuições são diversas para a formação
do conselheiro, pois são muitos os problemas, nesse campo. Que muitas vezes o
olhar de quem pratica esse exercício está voltado para o conteúdo e esquece ou não
desenvolve comportamentos fundamentais que negam o próprio ato do
aconselhamento, como respeitar a vida e autonomia da pessoa que se encontra
necessitada, bem como o próprio cuidado com a própria vida do conselheiro, onde
se esquecendo de cuidar de si mesmo, o qual também necessita de ajuda, em
muitas áreas e momentos de sua vida comprometendo, muitas vezes, a própria
atividade de conselheiro frontalmente.
Nessa mesma direção ainda, foram assinaladas algumas atitudes
inadequadas do conselheiro cristão, como: visitação informal, desinteresse no
atendimento; rotular o aconselhando; condenação precipitada; negação das
potencialidades do aconselhando; relacionamento informal e envolvimento
emocional e distanciamento.
Sobre o perfil do conselheiro cristão a partir de Coelho Filho (2015) e Clinebell
(2000), destacaram-se do primeiro autor: empatia, respeito, sigilo, sobriedade,
desprendimento e capacidade. Enquanto do segundo autor: congruência, calor
humano não possessivo, compreensão empática, uma robusta noção da própria
identidade como pessoa; sarador ferido e vivacidade pessoal.
Com relação às atitudes do Conselheiro fundamentadas em Coelho filho
(2015) são: não ser preconceituoso, não ser controlador, ser objetivo, não se
envolver emocionalmente e saber filtrar o que ouve.

Referências Bibliográficas

CLINEBELL, H. J.; SCHLUPP, Walter O.; SANDER, Luís M. Aconselhamento


pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulus, 2000.

COELHO FILHO, De perfil e a tributos do conselheiro bíblico. Acesso: < http://icpb-


pira.blogspot.com/2011/12/o-perfil-e-atributos-do-conselheiro.html > 25 de junho de
2015.

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CRABB JR, L. El arte de aconsejar biblicamente. Espanhol: Logoi, 2013.

GOREY, G. Tecnicas de aconselhamento e Psicoterapia. Rio de Janeiro: Campus,


1983.

LINO, J. M. B. Os desafios do acouselling pastoral – na perspectiva da abordagem


centrada na pessoal. Lisboa: APPCPC, 1998. Revista “A pessoa como centro –
Revista de estudos rogerianos. Outubro –Novembro. Acesso: <
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MARIANO, R. A. Noções Básicas de Filosofia e de Ética: aprendendo a pensar de


maneira crítica os principais temas da filosofia e da ética para a vida pessoal,
escolar e profissional. Maringá/PR: Liceu, 2007.

NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2001.
____________Bíblia Sagrada; Nova Tradução na linguagem de Hoje. Barueri (SP):
Sociedade do Brasil, 2000.

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Sétima Unidade

Temas e Procedimentos Atuais: desafios e ações práticas em


Aconselhamento.

Apresentação da Unidade

Inicio esta unidade ressaltando uma ideia simples e fundamental: “não se


pode mais hoje se ter procedimentos, em aconselhamento, de formas inadequadas”.
Sabe por que¿ Não temos mais tempo. Urge, cada vez mais, ser eficaz. Contudo,
isso pode ainda ser constatado quando conselheiros procedem, no ato de
aconselhar, como se estivesse aconselhando uma pessoa do século passado, ou do
período medieval. A compreensão teológica, filosófica, antropológica, sociológica,
psicológica que pauta essa compreensão é uma ideia de ser humano
descontextualizado do nosso tempo, de uma sociedade contemporânea.
Contudo, apesar de os temas ainda serem os meus que afligem as pessoas,
como a necessidade de apoio, crises das mais diversas ordens, quer no campo
individual ou grupal, ou da vida de solteiro ou casado. A forma de vê-los e de
proceder não pode ser em hipótese alguma ser uma réplica cabal de um passado
distante, mas necessita de novos procedimentos e técnicas que atendam esses
temas, os quais têm se configurado com novas roupagens que influenciam
essencialmente a vida das pessoas hoje.
Por isso, as atitudes dos conselheiros devem levar em conta procedimentos e
metodologias mais recentes, por exemplo, que primem essencialmente por uma
relação dialógica não diretiva, pois se considera que a pessoa de hoje é um ser mais
autônomo e que tem responsabilidades sociais e pessoais. Nesse sentido, é que os
procedimentos apresentados, nesta unidade, apesar terem o tom de orientação, não
são deterministas ou fechados em si mesmos, mas devem ser compreendidos como
procedimento-mestre para servir como indicadores, sinalizadores ou referencias.
Não se quer apresentar um manual, mas fundamentalmente procedimentos básicos
para proceder no enfrentamento desses temas que se têm apresentados na
atualidade como desafios para quem exerce esse ministério.

Objetivos da Unidade

• Conhecer os procedimentos e técnicas de aconselhamento de apoio,


de perda pessoal e de crise matrimonial;
• Identificar procedimentos e metodologias necessárias para o
desempenho em Aconselhamento;
• Conscientizar-se dos comportamentos do aconselhando, individual ou
em grupo, em situação de crise.

Introdução

Certa vez ouvi de um dos meus alunos, em uma das aulas de


aconselhamento pastoral, a seguinte afirmação: “o nosso problema, no
aconselhamento, não é falta de conhecimento bíblico, mas sim falta de conhecer a
pessoa do aconselhando, seu comportamento”. Essa afirmação remete sem dúvida
aos conhecimentos de métodos e técnicas sobre o ato de aconselhar.

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Tenho notado que o grande interesse das pessoas é como proceder quando
uma pessoa precisa de apoio, ou quando está em crise; diante de uma separação;
de uma perda pessoal; de uma crise matrimonia ou como aconselhar toda uma
família em crise.
Hoje, temos um número considerável de literatura cristã que tem dado conta
dessa demanda, lembro aqui alguns clássicos, como: “Aconselhamento Cristão” e
“Ajudando uns aos outros pelo Aconselhamento” de Collins; “Aconselhamento
Pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento” de Clinebell; El arte de
aconsejar biblicamente de autoria de Crabb Jr, e, um dos textos mais recentes
nessa área, do conhecido argentino psicólogo e pastoralista Schipani: “O caminho
de sabedoria no Aconselhamento Pastoral”.
Diante disso, nesta unidade, estaremos apresentando alguns dos temas em
aconselhamento, bem como os métodos e técnicas que podem ser utilizados para o
enfrentamento dessas situações. Aqui fizemos uma opção em trabalhar com as
ideias e casos apresentados pelo conselheiro Clinebell, em seu livro
Aconselhamento Pastoral. Fizemos uma seleção de alguns temas e procedimentos
sugeridos pelo referido autor, são eles: a) Aconselhamento de apoio; b)
Aconselhamento em casos de perda pessoal; c) Aconselhamento em casos de
crise matrimonial;
Esperamos que este texto não fosse encarado como um receituário, mas um
guia introdutório teórico-prático para o enfrentamento dos temas abordados aqui.
Ao final de cada tema estudado, tem-se uma sessão denominada de atividade
de exercício prático de aconselhamento sobre o tema abordado. Objetivo é bem
simples, caro aluno, possibilitar uma reflexão sobre a prática. Essas atividades são
todas elaboradas a partir do livro de Aconselhamento Pastoral de Clinebell (2000).

Conteúdo

a) Aconselhamento de apoio

Apoio. Essa é uma palavra muito comum no meio cristão. Afinal as pessoas
procuram igrejas, muitas das vezes, para enfrentar situações que as desestabilizam,
pois se encontra atribuladas quer no âmbito pessoal, conjugal ou grupal. Diante
disso, é fundamental que o conselheiro cristão desenvolva métodos e técnicas que
possibilitem: a) Estabilidade; b) Alicerce; c) Alimento; d) Orientação.
Portanto, cabe ao conselheiro desenvolver, naquele que procura ajuda, as
condições ou capacidades para enfrentar, manejando de forma adequada, os seus
problemas e os seus relacionamentos mais construtivamente, dentro de limites que
lhes são impostos pelos recursos de sua personalidade e pelas circunstancias
oferecidas.
No aconselhamento de apoio, o conselheiro faz uso de: 1. Orientação; 2.
Informação; 3. Tranquilização; 4. Inspiração; 5. Planejamento; 6.Fazer e
responder perguntas; 7. Encorajar ou desencorajar certas formas de
comportamentos, os quais devem ser observados de forma cuidadosa e muito
atenta.
A seguir vejamos sete procedimentos sugeridos por Clinebell (2000) para o
aconselhamento de apoio:

1) Satisfazer necessidades de dependências – deve ser uma atitude que


comunique solicitude a uma pessoa atribulada. Há muitas formas de satisfação de

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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dependência: a) confortar; b) sustentar; c) alimentar (emocional ou fisicamente); d)


Inspirar; e) Orientar; f) Proteger; g) Instruir; h) Colocar limites seguros para evitar
comportamento prejudicial à própria pessoa ou outras.
2) Catarse emocional – compete ao conselheiro realizar a aceitação dos
sentimentos opressivos de uma pessoa inicialmente. Quando uma pessoa se sente
aceita pode liberar sentimentos que estão guardados e contidos em seu ser. Sentir
que outra pessoa conhece sua dor interior e se importa com ela dá as pessoas
atribuladas à força que provem do fato de terem suas vidas alicerçadas.
3) Exame objetivo da situação de estresse - quando as pessoas
atribuladas são apoiadas podem imprimir objetividade para ver seu problema a partir
de uma perspectiva um tanto mais ampla e para explorar alternativas viáveis. Podem
tomar decisões mais sabia a respeito do que podem e devem fazer.
4) Promover as defesas do ego – é quando diante de uma situação que
pode desestruturar totalmente a pessoa, por exemplo, após um acidente de carro
em que essa pessoa foi há única sobrevivente, mas foi também foi justamente a
culpa pela morte dos passageiros; no momento do funeral, ela começa explicar que
foi o outro motorista e não ela a culpada. Deve-se compreender que esse
funcionamento, negando e projetando, é defensivo e que aos poucos, ao longo do
tempo, deve-se trabalhar essa questão.
5) Mudanças da situação de vida – o conselheiro pode ajudar o
aconselhando a fazer mudanças ou, se isso não for possível, providenciar para que
sejam feitas mudanças nas circunstancias (físicas, econômicas ou interpessoais)
que estão produzindo distúrbios deliberados em suas vidas.
6) Encorajar ação apropriada – quando as pessoas estão aturdidas ou
paralisadas por sentimentos de ansiedade, derrota, fracasso, auto-estima
prejudicada ou por uma perda trágica é útil que o conselheiro prescreva alguma
atividade que as mantenha em funcionamento e em contato com outras pessoas; um
tipo de “tarefa para casa”. Por exemplo; leituras relevantes para o problema que a
pessoa enfrenta.
7) Usar subsídios religiosos – Oração, Bíblia, literatura devocional, a Ceia
do Senhor, etc. constituem valiosos recursos de apoio, que são características
singulares do aconselhamento pastoral.

Por fim, Clinebell (2000) alerta para os perigos no aconselhamento de apoio.


Faz uma comparação oportuna quando compara o aconselhamento ao aparelho
ortopédico. Ele tem duas funções: a primeira dá um suporte temporário. Contudo
existe o perigo desse aparelho se tornar uma muleta (no sentido negativo)
bloqueando o crescimento através de uma dependência persistente. Por exemplo,
quando o conselheiro faz alguma coisa que cabe ao aconselhando fazer, por isso é
fundamental que o conselheiro esteja atendo a pessoa e o contexto em que está
inserida.

Atividade de exercício prático de aconselhamento de apoio

Orientações:

1. Você pode apenas refletir sobre essa situação tentando visualizar toda
essa situação proposta como as cenas aconteceriam e como você procederia, na
qualidade de pastor, por exemplo;

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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2. A proposta propriamente dita é você e mais duas pessoas ou com mais


outras pessoas, fazerem uma dramatização ou teatralização. Os personagens são
apenas dois. Você necessariamente tem que seguir as sugestões propostas para o
exercício. Lembre-se de estudar e revisar os conteúdos e procedimento do
aconselhamento de apoio.
3. Caso queira faça uso de gravador para ouvir partes desta atividade de
exercício prático de aconselhamento de apoio.
Papel do aconselhando

Você é a Sra. V., uma viúva de 81 anos, acamada em consequencias de uma


queda que resultou na fratura de um punho e da clavícula. Você mora com seu filho
e a esposa dele. Sua fé foi seria mente posta a prova por seu acidente. Você não
pode compreender por que Deus parece tão distante. Muitas de suas amigas já
morreram e você se sente extremamente solitária. Você sabe que pode não lhe
restar muito tempo de vida (deite-se para assumir esse papel).

Papel do Pastor

Você é o pastor da sra. V. ela é o membro mais velho de sua congregação.


Você tem um solido relacionamento pastoral com ela, profundos com você.
Enquanto ela fala durante a visita, você percebe a oportunidade de fazer
aconselhamento de apoio como parte de seu ministério poimênico para com ela.
Enquanto você fala, fique atento aos sentimentos dela e faça com que ela saiba que
você está consciente, refletindo o que você acha que ela está dizendo e sentido.
Experimente os métodos de apoio descritos neste capitulo na medida em que sejam
pertinentes. Seja sensível à possível presença de tensão entre os membros da
família.

Papel do observador-monitor

Sua função é ajudar a sra. V, e o pastor a aumentarem sua consciência do


que está ocorrendo entre eles e sua consciência do tom de sentimentos da relação
de aconselhamento. Sinta-se à vontade para interromper o aconselhamento
ocasionalmente a fim de dar sugestões de como ele poderia tornar-se mais
proveitoso. Seja franco. Como observador, você percebera coisas importantes que
eles talvez não vejam.

b) Aconselhamento em casos de perda pessoal.

A perda pessoal é uma crise universal entre os seres humanos. O pesar está
presente: em todas as mudanças, perdas e transições importantes na vida, não só
por ocasião da morte de uma pessoa amada.
Diante das perdas que são as mais diversas, Clinebell (2000) propõe um
esquema de cinco tarefas nesse processo e o tipo de ajuda que facilita a realização
de cada tarefa:

Tarefa de elaboração do pensar Ajuda necessária


1. Experimentar o choque, o entorpecimento, Ministério de solicitude e presença; ajuda
a negação e a gradativa aceitação da prática e conforto espiritual.
realidade de perda.
2. Experimentar, expressar e digerir Ministério de apoio e escuta responsiva para

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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sentimentos dolorosos, por exemplo culpa, estimular catarse plena.


remorso, apatia, raiva, ressentimento, anseio,
desespero, ansiedade, vazio, depressão,
solidão, pânico, desorientação, perda da
identidade clara, sintomas físicas, etc.
3. Aceitação gradativa da persa e Ministério de apoio e escuta responsiva para
remontagem da vida da pessoa sem quilo que estimular catarse plena.
se perdeu, tomando decisões e enfrentando a
nova realidade; desaprendendo antigas
maneiras de satisfazer as próprias
necessidades e aprendendo novos modos de
satisfazê-las. Dizer “adeus” a reinvestir a
energia vital em outros relacionamentos.
4. Situar a perda da pessoa num contexto Ministério de facilitação do crescimento
mais amplo de sentido e fé; aprender com a espiritual.
perda.
5. Dirigir-se a outros que estão Ministério de capacitação para entrar em
experimentando persas semelhantes, para contato com outros.
ajuda recíproca

É importantíssimo ressaltar que há perdas que podem ser difícil de serem


enfrentadas. A ambivalência é esperada, mas quando a pessoa continua, por
exemplo, a superidealizar o falecido, ele estão usando das defesas da negação e
repressão. É necessário que a pessoa saiba lhe dar com os sentimentos reprimidos.
Clinebell (2000) destaca alguns perigos:

a) Retraimento cada vez maior de relacionamentos e atividades normais;


b) Ausência de luto;
c) Estado de luto que não tende a se amenizar;
d) Profunda depressão que não desaparece;
e) Problemas psicossomáticos graves;
f) Desorientação;
g) Alterações na personalidade;
h) Sentimentos de culpa;
i) Indignação;
j) Fobias muito fortes e que não tendem a desaparecer;
k) Perdas de interesse na vida;
l) Fugas constantes por meio de drogas e álcool;
m) Sentimentos de mortificação interior.

Por fim, é importantíssimo ressalta que o pesar em si não é doença. Trata-se


de um processo normal de cura; somente quando o pesar passa a ser um processo
patológico que requer aconselhamento ou psicoterapia especializado.

Atividade de exercício prático de aconselhamento de apoio

Orientações:

1. Você pode apenas refletir sobre essa situação tentando visualizar toda
essa situação proposta como as cenas aconteceriam e como você procederia na
qualidade de pastor, por exemplo;

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2. A proposta propriamente dita é você e mais duas pessoas ou com mais


outras pessoas, fazerem uma dramatização ou teatralização. Os personagens são
apenas dois. Você necessariamente tem que seguir as sugestões propostas para o
exercício. Lembre-se de estudar e revisar os conteúdos e procedimento do
aconselhamento de apoio.

3. Caso queira faça uso de gravador para ouvir partes desta atividade de
exercício prático de aconselhamento de apoio.

Papel do aconselhando

Se você teve uma perda dolorosa em sua vida (talvez aquela que você
reviveu acima), dirija-se ao pastor, pedindo que o ajude. Ou: procure mergulhar nos
sentimentos de alguém que você conhece bem e que está em pleno processo de
digerir uma perda grave. Desempenhe o papel daquela pessoa buscando a ajuda do
pastor.
Ou: você é Jane Carone, uma mulher de uns 45 anos, cujo marido Ricardo
faleceu inesperadamente a 2 meses, de ataque cardíaco. Você sente
profundamente a perda
E acha quase impossível enfrentar contatos sociais, principalmente na igreja,
onde vocês participam ativamente como casal. Você se sente muito deprimida e
gostaria de se esconder das pessoas.

Papel do Pastor

Utilize o que você aprendeu neste capitulo sobre a facilitação do trabalho de


pesar, fazendo aconselhamento com um desses membros. Lembre-se da
necessidade que a pessoa tem de ajuda através de tarefas especificas de trabalhar
o pesar.

Papel do observador-monitor

Interrompa a sessão periodicamente para fornecer ao pastor feedback sobre


sua eficiência do processo de elaboração do pesar, principalmente e no que tange à
vazão de sentimentos inacabados.

c) Aconselhamento em casos de crise matrimonial.

Principalmente no contexto religioso, o casamento é tido como uma benção


para a vida amorosa e sexual do homem e da mulher. Contudo o relacionamento no
contexto conjugal não é tão simples assim. Uma vez que quando homem e mulher
se unem produzem uma identidade conjugal própria. E muitos casais e, pior, muitos
conselheiros não sabem disso.
Segundo Clinebell (2000) o homem e a mulher se atraem porque cada um
espera que o relacionamento satisfaça várias necessidades suas. Cada qual traz par
dentro do casamento uma constelação singular de necessidades da personalidade.
Essas necessidades precisam receber ao mesmo o mínimo de satisfações, para que
a pessoa seja capaz de satisfazer as necessidades do parceiro e dos filhos.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Collins (1995) observa que a origem dos problemas, do ponto de vista bíblico,
é justamente quando o casal se afasta dos princípios bíblicos, os quais são
transformados consequentemente em problemas conjugais. Vejamos alguns deles:

a) Comunicação defeituosa – este é um dos principais problemas da causa de


discórdia conjugal. É quando um não consegue ouvir ou responder ao outro. E isso
se dá pelas mensagens verbais e não-verbais, em nosso dia-a-dia. Por exemplo,
quando um marido diz: “eu te amo” para a sua esposa, faz isso compra um presente;
mas sua esposa, não o entende, pois quer ouvir literalmente de sua boca.
b) Atitudes egocêntricas defeituosas – se aproximar de alguém é um risco. Há
uma tendência de não nos abrirmos para as criticas e possível rejeição quando
permitimos que outra pessoa nos conhecesse intimamente, sinta nossa insegurança
e perceba nossas fraquezas. É bem mais fácil fazer críticas ao outro do que aceitar
ou reconhecer as atitudes defensivas e egocêntricas que estão provocando tensão.
c) Tensão interpessoal – quando nos casamos já temos um repertório de
habilidades sociais desenvolvidas, pois temos duas a três décadas de vida; já
estamos bem “treinados” num modo de vida, ou seja, viver “solteiros”; quando nos
casamos temos que interagir e buscar conviver com o outro, aqui são fundamentais
entendimento e os processos de síntese para a construção madura de uma
conjugalidade; quando isso não ocorre e há má vontade da parte de um dos
cônjuges certamente os problemas conjugais vão aparecer. Esses problemas muitas
vezes se configuram nessas áreas: sexo, papéis no relacionamento, religião,
valores, necessidades e dinheiro.
d) Pressões externas – elas acontecem devido pessoas ou situações, como:

• Sogros e filhos que interferem no relacionamento;


• Amigos que fazem exigências sobre o tempo do casal;
• Crises que interrompem os relacionamentos familiares;
• As exigências profissionais.

e) Tédio – à medida que vão se passando os anos, os casais se estabelecem


na rotina, acostumando-se um ao outro e sem se perceber caminham para a auto
absorção, autossatisfação e auto piedade, desaparecendo o prazer de viver a dois e
isso também é desestimulante e rotineiro, os casais começam a buscar em outros
lugares variedades e desafios.
Vejamos a seguir os objetivos do aconselhamento de crise matrimonial,
conforme enumerado por Clinebell (2000), para ajudar os casais a aprender como
fazer com que seu relacionamento proporciona e maior satisfação mutua de
necessidades e por isso fomente melhor seu crescimento:

1. A reabrir suas linhas de comunicação bloqueadas e aprender habilidades


de comunicação mais efetivas;
2. A interromper a escalada do ciclo autoperturbador de ataque mutuo e
retaliação, desencadeada pela frustração profunda das satisfações mutuas de
necessidade;
3. A se conscientizar dos pontos fortes e dos recursos não utilizados em si
próprios e em seu relacionamento, os quais podem usar para efetuar mudanças
construtivas em si próprias e em seu matrimonio;

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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4. A identificar áreas especificas em que crescimento e/ou mudança precisa


acontecer na conduta de cada um, a fim de interromper sua crise e tornar seu
casamento mais compensador de necessidades recíprocas;
5. A negociar e então executar planos viáveis e justos de mudanças, nos
quais cada pessoa assume a responsabilidade de mudar a sua parte na interação
entre os dois;
6. A experimentar o reavivamento da energia-para-mudança em esperança
realista. Mudança construtiva gera esperança realista, e esperança gera mais
mudança. São três as maneiras que se manifesta essa esperança no
aconselhamento:
a) capacidade que o casal demonstra empaticamente de mudar e de
crescimento;
b) conscientização maior dos pontos fortes e dos seus recursos;
c) mudança de comportamento autolesivo dentro de si próprios e entre os
dois.
7. Descobrir, explorar e até certo ponto exorcizar as raízes subconsciente ou
inconsciente de imagens conflitantes do papel a ser desempenhado e de
necessidades neuróticas aprendidas principalmente pelos seus pais; lidar com
fantasias, temores e raiva que comprometem o relacionamento. Pode haver
necessidade de aconselhamento individual entre a sessões do casal.
8. Renegociar e revisar aspectos de maior importância na relação matrimonial
que sejam injustos e ou inviáveis.
Assim como é necessário que o conselheiro disponibilize de técnicas e
habilidades para conversar com o aconselhando também é fundamental que o
conselheiro de casal desenvolva também uma metodologia na primeira sessão para
garantir o sucesso do processo de aconselhamento conjugal, vejamos os seguintes
procedimentos do conselheiro, conforme Clinebell (2000):
1. Comunicar calor humano, demonstrar solicitude e disposição para ajudar,
bem como certificar o casal da validade de sua iniciativa de vir buscar ajuda;
2. Descobrir como cada um está se sentindo por se encontrar ali;
3. Ajudar a motivar o parceiro menos motivado, estabelecendo sintonia com o
mesmo e despertando esperança realista de maior satisfação e menos dor no
casamento;
4. Descobrir a quanto tempo a crise ou os problemas vêm se desenvolvendo;
5. Proporcionar oportunidade comparável para cada pessoa descrever os
problemas do casal;
6. Após expressar a dor e o sofrimento, descobrir o que cada pessoa ainda
aprecia no casamento e no outro; e quais os pontos fortes e os recursos potenciais
que eles tenham para fortalecer seu matrimonio pelo aconselhamento;
7. Fazer uma escolha provisória (com base nos ponto 2 e 4) entre tentar
aconselhamento de curto prazo para crise matrimonial ou encaminhar o casal ao
terapeuta conjugal;
8. Caso houver sinais de que aconselhamento de curto prazo provavelmente
será útil, pedir ao casal que venha três a quatro sessões adicionais para poder
decidir sobre o encaminhamento;
9. Ajudar o casal a decidir e comprometer-se com certas tarefas a serem
efetuadas em casa entre as sessões; alguma pequena ação construtiva que
empreenderão no sentido de contribuir para que o quanto antes seu relacionamento
se tornar mais satisfatório reciprocamente;

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10. Verificar e aceitar, perto do final da sessão, quais sentimentos negativos


que possam ter;
11. Somente use da oração ou de outros recursos religiosos quando for
claramente apropriado para o casal em questão;
12. Após a sessão, reflita sobre o que ficou sabendo e faça planos de
tentativos de ajudar o casal; entre em contato com um colega aconselhador, caso a
situação for complicada ou confusa.

O trabalho com casais vai bem além da boa vontade ou de boa intenção. É
necessário ter uma metodologia que contribua para a identificação e precisão do que
de fato tem gerado conflitos e problemas no casal. A falta de comunicação é um dos
primeiro sintomas: deixa de haver ou apresenta muitos ruídos, como se diz na
linguística moderna. Vejamos a seguir duas propostas de intervenção em
aconselhamento conjugal uma elaborada por Clinebell (2000) e outra de Collins
(1995).
A primeira proposta metodológica é de Clinebell (2000), ela a desenvolve no
subitem denominado: “o método de relacionamento intencional ou método de
matrimonio intencional”. Esse método tem quatro passos:

Primeiro passo:

Identifiquem e afirmem os pontos fortes do seu relacionamento, contemplando


um de vocês a sentença: “em você eu aprecio...” tantas vezes quantas puder.
A tarefa de quem ouve é de ouvir e receber esses atributos.
Após ambos ouvirem um ao outro, devem anotar tudo o que ouviram em um
caderno denominado de crescimento.

Segundo passo:

Identifique à frente de crescimento da sua relação completando um de vocês


a sentença: “De você eu preciso...” tantas vezes quantas quiserem. Declarem suas
necessidades/desejos correspondidos ou parcialmente correspondidos em termos
de comportamento da parte do outro.
Depois de um completar a lista, outro deve repetir o que ouviu, para garantir
que as necessidades foram bem entendidas.
Depois que ambos declararam suas necessidades e verificaram o que um
entendeu do que o outro disse, tirem um tempo para anotar as necessidades de
cada um em seu caderno do crescimento.

Terceiro passo:

Aumentem intencionalmente a satisfação mutua do seu relacionamento e


fomente assim o seu amor, pela escolha de uma das necessidades de cada um (ou
uma necessidade conjugal) à qual vocês corresponderão.
Elaborem um plano concreto e viável, com uma programação cronológica, de
corresponder a essas necessidades.
Anotem também isso em seu caderno do crescimento.

Quarto passo:

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Executem o seu plano de mudança.


Depois escolham outro par de necessidades, elaborando e executando um
plano de supri-las intencionalmente.
Convém repetir o primeiro passo com regularidade ao colaborarem no sentido
de fazer com que seu relacionamento faça mais jus às suas necessidades.
Anotem seu progresso em seus cadernos individuais de crescimento.

Por fim, é importante ressaltar que esse método pode ser aplicado não
somente com casais, mas família, amizade, colega, relacionamentos de equipe de
trabalho, por exemplo. O objetivo é aumentar a satisfação mutua de necessidades e
assim reduzir frustração e conflitos, como afirma Clinebell (2000).
Collins (1995) apresenta os procedimentos de aconselhamento conjugal que
tanto o conselheiro tem de ter quanto o aconselhando em seu livro “Aconselhamento
Cristão”; esse método tem quatro estágios, que os denomina respectivamente:
início; manifestação de problemas básicos; desenvolvimento e aplicação de
soluções tentativas e final. Vejamos

Estagio I – Início

Conselheiro:

• Atitudes cordiais e de aceitação;


• Mostrar confiança;
• Não fazer críticas;
• Ajudar a vencer os temores iniciais do aconselhando.

Aconselhando:

• Contas suas razões iniciar para procura de ajuda;


• Vencer seus medos e dúvidas relacionadas a esta iniciativa.

Estagio II - Manifestação de problemas básicos

Conselheiro:

• Suscita questões ou faz comentário para estimular mais pensamentos;


• Esclarece tanto as questões como os sentimentos;
• Continua a dar apoio e encorajamento.

Aconselhando:

• Dar mais detalhes através da expressão de sentimentos e frustrações;


• Aprender a construir um relacionamento de segurança e confiança com
o conselheiro.

Estagio III - Desenvolvimento e aplicação de soluções tentativas

Conselheiro:

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• Continua a dar apoio;


• Fica alerta quanto a novas informações;
• Encoraja e orienta na consideração de soluções tentativas tais como
mudanças de atitude, modificação de comportamento, confissão, perdão,
reavaliação das percepções, etc.
• Guia e encoraja à medida que as soluções são tentadas, avaliadas e
tentadas novamente.

Aconselhando:

• Aprender a formular;
• Agir com relação a...
• Avaliar soluções;
• Expressar frustrações e temores;
• Experimentar algumas vitórias.

Estagio IV - Final.

Conselheiro:

• Encorajar a agir independente;


• Recapitular o progresso feito no passado;
• Expressar sua disponibilidade ao aconselhando caso necessário.

Aconselhando:
• Manifestar dúvidas e temores pelo termino do aconselhamento;
• Reavaliar o progresso;
• Examinar seus recursos espirituais e pessoais.

Proposta de exercício prático de aconselhamento de apoio

Orientações:

1. Você pode apenas refletir sobre essa situação tentando visualizar toda
essa situação proposta como as cenas aconteceriam e como você procederia na
qualidade de pastor, por exemplo;
2. A proposta propriamente dita é você e mais duas pessoas ou com mais
outras pessoas, fazerem uma dramatização ou teatralização. Os personagens são
apenas dois. Você necessariamente tem que seguir as sugestões propostas para o
exercício. Lembre-se de estudar e revisar os conteúdos e procedimento do
aconselhamento de apoio.
3. Caso queira faça uso de gravador para ouvir partes desta atividade de
exercício prático de aconselhamento de apoio.

Papel dos aconselhandos


(Requer duas pessoas): como casal, vocês estão experimentando doloroso
conflito e frustração em seu relacionamento. (Use um relacionamento como o qual

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um de vocês dos está bem familiarizado para definir a dinâmica dois papéis)
Procurem a ajuda de seu pastor.

Papel do Pastor
Utilize o que você aprendeu ao ler e refletir sobre este capítulo ao fazer
aconselhamento com este casal. Experimente adaptação do MRI descrito para
aconselhamento neste caso.

Papel do observador-monitor
Procure dar ao pastor feedback sobre o quanto ele se concentra na interação
do casal como diretriz primordial do aconselhamento.

Conclusão

Esta unidade foi desenvolvida com o objetivo de expor uma teoria da prática,
em aconselhamento cristão, que pudesse atender os desafios e as necessidades
atuais de procedimentos diante de alguns temas muito comuns que sempre
desafiam quem desenvolve essa atividade de ajuda.
Foram expostos, por sua vez, procedimentos e técnicas de aconselhamento
de apoio, de perda pessoal e de crise conjugal.
Também vimos procedimentos e metodologias necessárias para o
desempenho em Aconselhamento cristão, ou seja, para ter resultados é necessário
desenvolver procedimentos que de fato possibilitem uma condição adequada para o
exercício dessa atividade, no caso específico, vimos duas formas de intervenção
para agir em casos de crise matrimonial, por exemplo, uma com Collins (1995) e a
outra com Clinebell (2000). A primeira ressaltou estágios: início, manifestação de
problemas básicos, desenvolvimento e aplicação de soluções, tentativas e final, e, a
segunda, é um método denominado relacionamento ou matrimônio intencional o
qual tem como objetivo provocar o aumento da satisfação mútua de necessidades e
assim reduzir frustração e conflitos através de quarto passos: 1) A tarefa de quem
ouve é de ouvir e receber esses atributos; 2) neste passo destacam-se as
necessidades/desejos correspondidos ou parcialmente correspondidos em termos
de comportamento do casal; 3) o objetivo neste passo é aumentar intencionalmente
a satisfação mutua do relacionamento e fomentar assim o amor, pela escolha de
uma das necessidades de cada um (ou uma necessidade conjugal) e isso é feito
com a elaboração de um plano concreto e viável, com uma programação
cronológica, que corresponda a essas necessidades do casal e 4) após a execução
do plano de mudança, deve-se executar outros planos para atender outra
necessidade e assim sucessivamente.
Por fim, observaram-se os comportamentos do aconselhando em situação de
crise e como interpretá-las para melhor atuação do conselheiro.

Referências Bibliográficas

CLINEBELL, H. J.; SCHLUPP, Walter O.; SANDER, Luís M. Aconselhamento


pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Paulus, 2000.

COLLINS, G. R. Aconselhamento Cristão. Vida Nova: São Paulo, 1995.

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_________. Ajudando uns aos outros pelo Aconselhamento. Vida Nova: São Paulo,
1993.

CRABB JR, L. El arte de aconsejar biblicamente. Espanhol: Logoi, 2013.

SCHIPANI, D. S. O caminho da Sabedoria no Aconselhamento Pastoral. Sinodal:


São Leopoldo, 2004.

____________Bíblia Sagrada; Nova Tradução na linguagem de Hoje. Barueri (SP):


Sociedade do Brasil, 2000.

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Oitava Unidade

Família e Dependência Química: desafios e práticas em aconselhamento.

Apresentação da Unidade

Não é redundante afirmar, ainda nesta nossa última unidade, que são muitos
os desafios contemporâneos do aconselhamento. Creio que outras pessoas também
fazem coro comigo. Esses desafios advêm de diversas áreas e atingem o ser
humano, em suas mais diversas faixas etárias: na infância, na adolescência, na
juventude, na fase adulta e nas terceira e quarta idades. E também atingem nas
principais relações das pessoas, como na vida conjugal, na família, na educação dos
filhos e relacionamentos interpessoais dentre outras.
Nesse sentido, a família é um espaço que tem sido atingido por diversas
situações novas, as quais surgem como resultado das mudanças existências,
culturais e sociais da sociedade contemporânea.
Um desafio mais amplo, onde se coloca o problema da dependência química,
é justamente o cuidado com a família, e, esta tem sido atingida proporcionando
sofrimento e desestruturação em suas relações e manutenção.
A presente unidade se propõe chamar a atenção de quem trabalhar na área
do aconselhamento para as informações e as considerações sobre o tema da
dependência química no contexto familiar dos nossos dias.
Tal tema se justifica porque não são poucas as vezes que conselheiros e
conselheiras são procurados para auxiliar, e, assim cuidar de dependentes químicos
(alcoolistas e usuários de drogas), bem como de seus familiares, quando também
têm que administrar conflitos que surgem no seio familiar, e, desenvolver um
processo de aconselhamento aos dependentes e seus familiares periodicamente.

Objetivos da Unidade

 Conhecer as causas, os processos e as dinâmicas da relação familiar


com as drogas;
 Identificar e apresentar os modelos terapêuticos para famílias de
dependentes químicos;
 Abordar formas de tratamento e prevenção de dependência química e
sua relação com a família.

Introdução

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu a dependência química


como doença. Segundo, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
– DSM IV, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana (2000), a
característica primordial da dependência de substâncias (álcool e/ou droga)
corresponde à presença de um conjunto de sintomas cognitivos,
comportamentais, fisiológicos e sociais. Nessa perspectiva, a OMS assinala e
considera que tenha uma visão biopsicossocial sobre a dependência química hoje.

As principais teorias e modelos sobre as causas da dependência química, na


atualidade são, conforme Mariano (2000):

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1. Teoria Organicista – uma determinação biológica, genético, neurobiológica;


2. Teoria da Personalidade – um traço de personalidade de dependente
químico;
3. Teoria sociocultural – uma determinação social e cultural.
4. Modelos – moralista, temperante, degenerativo neurológico, de
aconselhamento confrontativo, naturais, espirituais, de saúde pública e ecletismo
informal.
É importante pontuar, que a família é a primeira unidade social à qual o
indivíduo pertence, e é onde estabelece suas primeiras interações. Assim, a família,
como um todo, é de fundamental importância para a estruturação do comportamento
do indivíduo: limites, comportamentos adequados, organização, socialização e
habilidade social.
No que diz respeito à dependência química, observa-se a necessidade da
presença da família no tratamento do usuário de drogas, pois a família tanto afeta
como é afetada nessa relação; pois a família procede como um sistema total, e, que
qualquer um elemento desse sistema familiar está relacionado com as outras partes;
e qualquer alteração em uma delas provocará mudanças nas demais, e,
consequentemente, no sistema total.
Portanto, o atendimento familiar tem o objetivo de observar os efeitos que a
droga gera na família, e, como as ações e interações dessa repercutem no
dependente. O dependente químico, na maioria das vezes, tem vínculos afetivos
com seus familiares, sendo comum que as pessoas mais atingidas pelos
dependentes são justamente seus pais, ou cônjuge ou ainda seus filhos.

Conteúdo

Compreendendo a família hoje

Deve-se entender por família uma instituição privada, passível de vários tipos
de arranjos, os quais têm amparo na lei, e, outros ainda não, mas a realidade da
formação familiar hoje já é bem diversificada, de outros tempos, com destaque para
a presença da mulher como chefe de família, bem como sua acessão no mercado
de trabalho, conforme DIEESE (2004).
A família deve ser compreendida, inicialmente, como o lugar próprio da
socialização primária cuja proposição principal é a garantia de comportamentos
normalizados pelo afeto e pela cultura. Segundo Silva (2007), a família influencia as
crenças, atitudes e comportamentos de seus membros sobre os temas da saúde e
enfermidade. Como também hábitos saudáveis, tais como a alimentação e os
exercícios físicos, por um lado, e, por outro, observa-se que há hábitos não
saudáveis que a família influencia como a presença do uso e abuso de tabaco e
álcool.
Como afirma ainda Silva (2007), a família tem se tornado, na atualidade,
como eixo estratégico de organização da socialização e da sobrevivência cotidiana e
pelas quais passam, necessariamente, ações de controle social, no sentido de
conformidade ou da emancipação de seus membros. Por isso, é que a família é
elemento imprescindível e fundamental do tratamento do uso e do abuso de drogas.

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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Ambiente familiar e funcionamento de familiares de dependentes

Como se constitui o momento do surgimento das drogas, no sistema familiar¿


Observa-se que há um ambiente interligado ao próprio ciclo de vida do indivíduo e
da família, ou seja, trata-se de uma fase de transição da família. De filhos pequenos
para filhos adolescentes. Em que há mudanças estruturais dos papéis, seja dos pais
e/ou dos filhos.
A fase de passagem da infância para a adolescência está relacionada com a
fase adolescente da família, que se caracterizam pela presença de aspectos
adaptativos e de preocupação ocasionados pelas transições, mudanças de
emprego, de local de moradia, dentre outros, provocando uma licenciosidade ou
rigidez nas regras familiares, abrindo espaço para a entrada da droga.
Nota-se, neste particular, um mecanismo de negação possibilitado pelo
encobertamente da atitude de dependência dos familiares e do sistema social, pela
distorção do significado da droga dentro e fora do contexto familiar, e o aspecto de
minimização da conduta dependente;
Observa-se ainda a predominância do sentimento de negação, vergonha,
presença da mentira e da cumplicidade entre alguns membros, instaurando-se assim
um clima de segredo. Constatou-se, por sua vez, o empobrecimento na relação
familiar, em termos de comunicação, sustentado de certa maneira a negligências
parentais no sentido da omissão de uma conduta que acolhesse esse tema sob
outra visão.
Observa-se nitidamente que há uma relação entre o beber pelo modelo dos
progenitores, e, o consumo de drogas pelos seus filhos. Nota-se a formação
paradigmática de uma relação da dependência química, a qual se refere ao fato dos
membros dependentes coabitarem, mesmo depois de casados, na mesma
residência de seus pais, ou no mesmo terreno, ou na mesma quadra, mostrando
assim uma aglutinação, sendo que tal fato confirma a dificuldade de diferenciação
dos modelos parentais.
Outro ponto presente, que pode possibilitar a manutenção do comportamento
de dependência é a questão de gênero no aspecto do cuidar, ou seja, como em
outras doenças, as mulheres (mãe, irmã, cunhada) eram as mais envolvidas com o
dependente e o tratamento deste, tornando-se cuidadoras emocionais responsáveis
nas famílias.
Percebe-se ainda uma situação de estresse no sistema familiar causado por
conflitos, desavenças, baixíssima tolerância e facilidade de adaptação em função da
droga. Nesse sentido, Orth e Moréb (2008) ressaltam as alianças entre os membros
da família e, dentro dos sistemas familiares. Um bom exemplo é quando há uma
relação de apego excessivo entre a mãe e o filho, irmãs. Tal relação era, com
frequência, muito explícita nas famílias de dependentes. Nesse sentido, ainda, a
forma de convivência, quer afetiva ou geográfica; mitos familiares; sentimentos
individuais e familiares; perdas materiais e afetivas; medo de mudanças ou
desesperança de que não haja mais jeito; descréditos e ambiguidades nas atitudes;
crenças religiosas.
A correlação entre a dor familiar e a responsabilidade do dependente; as
condutas antissociais; a desestruturação familiar; a alienação dentro do sistema
familiar; a baixa coesão e autoestima familiar são aspectos que se evidenciam. Há
uma fragilização dos laços familiares, antes e depois da descoberta da droga.
Compreende-se, por fim, a impossibilidade de tratar somente o indivíduo
dependente, sem incluir o sistema familiar no tratamento, de forma que todos os

Texto de autoria de RUBEM ALMEIDA MARIANO


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membros da família são, na realidade, “vítimas” de um jogo infindo, onde a presença


da droga só irá perpetuar seus efeitos e consequências (ORTH e MORÉB, 2008).

A família e a dependência química

A família pode ser entendida como um sistema aberto, no sentido de uma


relação de trocas com o meio, cujos participantes têm contato direto, em que se
firmam vínculos emocionais e uma história tipicamente compartilhada.
Conforme Medeiros et. al. (2013, p. 270) “As drogas são um grande foco de
preocupação mundial: grave problema de saúde pública. O uso abusivo de drogas é
considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma doença crônica
e recorrente, que acarreta sérias consequências pessoais e sociais para o futuro dos
jovens e de toda a sociedade (família)”.
Portanto, desenvolvendo essa relação de confluência com a droga, em que se
nota perdas e destruições, ela afeta não somente o dependente, mas em especial
sua família, pois proporcionam perdas e prejuízos a saúde física, mental e social da
família como um todo.
Observa-se que o adoecimento da prole atinge a auto-estima dos pais ou
responsáveis, isso é entendido muitas por esses com o significado que houve falhas
na educação, como se afirma teoricamente, no sistema familiar. É comum notar
conflitos emocionais, o sentimento de medo, a depressão, e as insegurança
relacionadas ao tratamento e ao prognóstico, propiciando uma quebra no
desenvolvimento da dinâmica familiar, sobrecarregando os seus membros.
Observa-se, na literatura especializada e no discurso dos profissionais da
área, na assistência aos dependentes químicos, que há influência sim da família no
desenvolvimento da utilização abusiva da droga. Contudo, é importante ressaltar
que nem todas as famílias de dependentes químicos não funcionais, ou seja, tem
uma dinâmica que propicia ao uso abusivo. Por sua vez, deve-se ressaltar, que em
diversas famílias com dependentes, ocorre um processo de circularidade entre a
não-funcionalidade e o abuso de drogas (ORTH e MORÉB, 2008).
No que diz respeito ao inicio do uso de drogas, a adolescência é apontada
pela literatura científica como uma fase do desenvolvimento do indivíduo em que
ocorre em meio às mudanças, as quais essas são decorrentes do ciclo vital
individual de transição próprio do desenvolvimento.
O uso da droga na adolescência pode se caracteriza como um ritual em
busca de sua independência dos seus pais, por exemplo. A socialização e afirmação
com há utilização das drogas como álcool, maconha e cocaína.
Por sua vez, sobre os relacionamentos e sua dinâmica na família, estudos
apontam que nas famílias que tenham dependentes do sexo masculino, por
exemplo, a mãe mantém uma atitude de superproteção, apego e permissividade
com o filho dependente, e este, por sua vez, desempenha uma posição de franco
favorito em relação aos outros filhos. Já os pais são notados como figuras distantes,
ausentes e comportamento de fraqueza, e por sua vez, com um ambiente sem
disciplina e totalmente incoerente, e as relações afetivas estabelecidas. (ORTH e
MORÉ, 2008).

A família e a Co-dependência

Inicialmente, é importante ressaltar a dependência química como uma


questão que envolve os aspectos biológico, psicológico e social, que chamamos de

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biopsicossocial. Nessa perspectiva que queremos abordar o tema da Co-


dependência, portanto.
A Co-dependência é pode ser entendida como uma doença de emocional
que foi "diagnosticada“ nos Estados Unidos por volta das décadas de 70 e
80, em uma clínica para dependentes químicos, através do atendimento a
seus familiares (HUMBERG, 2010).
Conforme observa Humberg (2010) afirma que se tem ressaltado na
atualidade que a Co-dependência pode ser entendida como um transtorno
emocional típico de pessoas que se relacionam diretamente com dependentes
químicos e ainda que a Co-dependência produz sofrimento psíquico que advém de
um conjunto de padrões de conduta e pensamentos patológicos.
Contudo, a própria Humberg (2010) ressalta que o conceito de Co-
dependência deve ser entendido no sentido que os familiares de dependentes
químicos também desenvolvem uma dependência, não das drogas, mas do vínculo
que têm com os dependentes químicos, o qual se torna patológico.
Assim, por se dizer que é um transtorno que se transforma em angustia e
sofrimento para a vida dos familiares do Co-dependente; da mesma forma que a
droga atinge o dependente químico, se torna, portanto, impensado não possibilitar
qualquer tipo de cuidado profissional para com o Co-dependente que sejam como
formar as suas atitudes, ou por defesa, mudança de estilo de vida, em relação com o
dependente, ou com as pessoas ao seu derredor, como a família e o trabalho.
Outra questão ainda é, assim como o dependente químico, o Co-dependente
torna-se inseguro ou culpado, em qualquer situação, se sentindo o causador até
pelo sofrimento do dependente ou da situação em que passa toda a sua família.
Nesse sentido, a família Co-dependente desenvolve até sentimentos de vitimização
diante do dependente químico. Observa-se, portanto, um sentimento de
responsabilidade desses familiares junto ao adicto.
É importante ressaltar que esse quadro de responsabilidade assinala:
ansiedade, angústia, medo, pena, culpa, baixa autoestima e insegurança pela
situação que passa o seu familiar, em diferentes momentos, por exemplo, de um
processo de internação.
E ainda, observa-se um comportamento marcado por um sentimento de
vergonha de sua própria vida, pois as pessoas falavam mal de seu filho. Um tipo de
fracasso toma conta dos familiares.
Destacam-se atitudes de permissividade ou rigidez (controle) e agressividade
vão se fazendo presente na relação de Co-dependência, ou seja, entre dependente
e seus familiares.
Conforme ressalta Humberg (2010) as características da Co-dependência
surgem em ambientes familiares estressantes; pensamentos e sentimentos Co-
dependente aparecem como uma maneira de sobrevivência e de lidar com o
ambiente, que sendo hostil, não ajuda o indivíduo a sentir-se seguro para fazer suas
próprias escolhas. Este, fragilizado, não consegue controlar a si próprio, e, sem se
dar conta, fica controlado pela sua preocupação com os outros.
As principais características de Co-dependência levantadas em relação ao
familiar dependente químico foram (HUMBERG, 2010):

 Raiva;
 Ressentimentos;
 Descrédito das promessas de parar;

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 Angústia;
 Impotência;
 Preocupação;
 Dizem sim mesmo quando querem dizer não;
 Tentam agradar o dependente mesmo que isso os desagrade;
 Buscam amor e aprovação;
 Tolerando qualquer tipo de abuso e responsabilidade pelo mesmo.
 Preciso a prender a só ser

Fases do Processo de Co-dependência à luz da Teoria de Kubler-Rossi

O processo pelo qual a família passa ao descobrir que um de seus membros


está envolvido com álcool ou outras drogas é um dos mais difíceis e “devastadores”
da unidade familiar. O relacionamento entre a família e o dependente é
extremamente doloroso, e as dores do fracasso, da vergonha e do preconceito são
sentidas e vivenciadas pelos dois lados. E ambos buscam desesperadamente, um
meio eficaz de fugir desses sentimentos (negação).
Para Kubler-Ross (MONASTERO, 2010) o fato de se perder qualquer coisa
ou pessoa querida, seja em vida por separação, mudanças e outras situações, ou
pela própria morte em si leva a pessoa a sofrer todos os processos inerentes a essa
perda. Essa autora, por sua vez, defende classificação das fases do processo
psicológico de enlutamento, e esse entendido como perda, que é muito semelhante
à experiência vivenciada pelas famílias que se defrontam com aquele “novo
membro” que é o dependente.
Quem bem expressa essas fases em um trabalho sobre a relação família e
dependência química, é Monastero ao tratar sobre as cinco fases da tese de Kubler
Ross:

A negação - Perceber os primeiros sinais, quando aquele ser


querido, começa a ter atitudes agressivas e descontroladas,
totalmente gratuitas, alternadas com momentos de grande intimidade
conciliatória, em que é reconhecido como parte do sistema, leva a
família a viver momentos de grande conflito e a negar que tais
situações sejam realmente comprometedoras. A autora descreve o
Isolamento como parte dessa fase, que identificamos nas famílias que
se fecham em si mesmas, numa tentativa de retorno à homeostase
ou de correção frente ao feedback negativo que a situação
causou...[...]
A raiva - Nesta fase, da raiva, a tendência por parte da família é de
muita agressividade e de muitas cobranças. A revolta, o
ressentimento, a culpa, a humilhação fazem parte de um turbilhão de
sentimentos presentes e que aumentam com o passar do tempo,
sendo a decepção e a raiva o que permeia toda cobrança e
queixume. Surgem as primeiras perguntas auto punitivas: “aonde foi
que errei?”, “porque isso está acontecendo comigo, com meus filhos,
com a minha família?”. Perguntas que tentam encontrar um culpado
ou uma explicação, mas que mais confundem do que realmente
trazem alternativas para entender o que está acontecendo. A raiva
pode se manifestar de duas maneiras: a primeira é quando a família
está com muita raiva, sem o saber. Os pais, às vezes, ficam
profundamente ressentidos com o dependente, mas disfarçam esse
sentimento, dando-lhe carinho excessivo e agindo com uma sensatez
disciplinada. Afirmação do tipo: “nós o amamos como você é” pode,
na realidade, esconder decepção e raiva. A outra é, quando os pais

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acham que já fizeram tudo que lhes fora possível e partem então para
a agressividade contra o dependente, muitas vezes chegando à
violência física ou psicológica, como forma de corretivo. ...[...]
A barganha - Na Barganha, a família tenta tirar seu ente querido das
drogas, estabelecendo regras e acordos, com promessa de presentes
e recompensas no cumprimento delas. Tudo vale a pena para ele
abandonar a droga e voltar a ser como antes. O dependente
concorda com as barganhas e se torna exigente, mas não consegue
cumprir seu trato, quebrando todas promessas de abandonar as
drogas, os amigos, “essa vida”. ...[...]
A depressão - Junto com a constatação da família de que todas as
tentativas não tiveram sucesso, vem a quarta fase que é a da
Depressão. Uma angústia e tristeza profunda, muitas emoções
negativas, uma fase que atinge em cheio o dependente e pode
impulsioná-lo a pensar na possibilidade de tratamento, que a família
apóia totalmente, ou o que é mais provável, levá-lo ainda mais para o
fundo do poço. ...[...]
A aceitação - essa fase é como uma fuga dos sentimentos. A dor
parece ter desvanecido, a luta parece que cessou e que é chegado o
momento do repouso derradeiro antes da longa viagem. Para o
dependente e a família, este é o momento para “iniciar” a longa
viagem do tratamento. Finalmente o adicto é visto como doente, a
dependência como uma doença, a família para de vê-lo como um
delinquente, marginal e começa a aceitar sua própria Co-
dependência. A partir da aceitação, a família poderá rever seus
valores e tentar outras formas de comunicação e de relacionamento
com o dependente, ressignificando sua história e a de seus membros.
Nesse momento, ela poderá buscar ajuda com pessoas capacitadas e
sair de seu isolamento e vergonha. (MONASTERO, 2010 pp. 52 e 53)

Abordagens e Modelos de terapêuticas para a família no contexto da


dependência química

Dentro deste contexto, três abordagens teóricas têm dominado a


conceptualização das intervenções familiares em dependência química, conforme
Figlie (2013): a abordagem da doença familiar; a abordagem sistêmica; a
abordagem comportamental. A própria autora comenta:

O modelo de doença familiar - considera o alcoolismo ou o uso


nocivo de drogas como uma doença que afeta não apenas o
dependente, mas também a família. Mais recentemente, estudos têm
focado que a doença do alcoolismo manifesta sintomas específicos
nas esposas e companheiros de dependentes químicos, dando
origem ao conceito de Co-dependência. [...] A abordagem sistêmica
- O modelo sistêmico considera a família como um sistema, em que
se mantém um equilíbrio dinâmico entre o uso de substâncias e o
funcionamento familiar. Na perspectiva sistêmica, um dependente
químico exerce uma importante função na família, que se organiza de
modo a atingir uma homeostase dentro do sistema, mesmo que para
isso a dependência química faça parte do seu funcionamento e
muitas vezes, a sobriedade pode afetar tal homeostase. [...] A
abordagem comportamental - O modelo comportamental baseia-se
na teoria da aprendizagem e assume que as interações familiares
podem reforçar o comportamento de consumo de álcool e drogas. O
princípio é que os comportamentos são apreendidos e mantidos
dentro de um esquema de reforçamento positivo e negativo nas
interações familiares. Inclui a teoria da aprendizagem social, modelo
do comportamento operante e condicionamento clássico, incluindo os
processos cognitivos. Este modelo tem propiciado a observação de

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alguns padrões típicos observados nas famílias, tais como:


Reforçamento do beber como uma maneira de obter atenção e
cuidados; amparo e proteção do dependente de álcool quando relata
consequências e experiências negativas decorrentes do hábito de
beber; punição do comportamento de beber. [...] (FIGLIE, 2013, pp.1-
2)

Fases para o Tratamento

Figlie informa que A American Society of Addiction Medicine propõe três fases
para o tratamento de famílias de dependentes químicos:

A fase I tem como objetivo o dependente a atingir a abstinência. Para


tal é importante auxiliar as pessoas a assumir a responsabilidade
sobre seus comportamentos e sentimentos. Por vezes, alguns
membros podem ser atendidos conjuntamente, enfatizando a
diminuição da reatividade do impacto de um familiar nos outros. Ao
pensar no modelo de doença, nesta fase é trabalhado o conceito de
co-dependência. No referencial sistêmico, o foco centra-se na esposa
definir uma posição de modo a quebrar o circulo repetitivo do
funcionamento familiar e desta forma, auxiliar o dependente em sua
recuperação. O referencial comportamental trabalha com a
perspectiva de visualizar comportamentos do cônjuge que reforcem o
comportamento aditivo, almejando a substituição por comportamentos
que reforcem a sobriedade. Na fase II, o foco é identificar padrões
disfuncionais na família como um todo, tanto na família de origem,
quanto da família de procriação. Nesta fase é importante retomar
rituais familiares e conforme o grau de dificuldade, o encaminhamento
para uma psicoterapia familiar especializada pode ser realizado. A
fase III é definida como uma nova fronteira no tratamento da
dependência química, sendo uma das áreas menos exploradas e
talvez uma das mais controversas. Muito tempo após a cessação do
consumo de substâncias, alguns relacionamentos continuam
desgastados. Nesta fase o tratamento tem como meta aumentar a
intimidade do casal e a participação de ambos no processo é
fundamental. (FIGLIE, 2013, p. 3)

Por fim, Figlie observa que há as seguintes modalidades de tratamento na


atualidade:

Grupos de Pares: Nesta modalidade os membros da família são


distribuídos em diferentes grupos de pares: dependentes químicos,
pais, mães, irmãos, cônjuges, etc. A interação entre pares é
facilitadora de mudanças uma vez que escutar de um par não é o
mesmo que escutar de um profissional, porque o par passa por
situação semelhante e não é alvo de fantasias e idealizações como o
terapeuta. Grupos de Multifamiliares: através de um encontro de
famílias que compartilham da mesma problemática, cria-se um novo
espaço terapêutico que permite um rico intercâmbio a partir da
solidariedade e ajuda mútua, onde as famílias se convocam para
ajudar a solucionar o problema de uma e de todas, gerando um efeito
em rede. Todas as famílias são participantes e destinatárias de ajuda.
Psicoterapia de Casal: Casais podem ser atendidos individualmente
ou também em grupos, uma vez que o profissional tenha habilidades
para conduzir as sessões sem expor particularidades que não sejam
adequadas ao tema focado. Psicoterapia Familiar: abordagem mais
especializada segundo um referencial teórico de escolha do
profissional para a compreensão do padrão familiar e intervenção.

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Nesta modalidade se reúne a família e o dependente químico


(FIGLIE, 2013, p.4)

Conclusão

Para enfrentarmos os desafios contemporâneos do aconselhamento não


podemos mais abrir mão dos conhecimentos das mais diversas áreas disponíveis
hoje. É urgente que conselheiros cristãos se firmem, cada vez mais, nos
conhecimentos teológicos e bíblicos, e, outros conhecimentos que podem contribuir
para ter uma melhor compreensão dos problemas e questões que se são próprios
do nosso tempo.
Diante disso, foi que se propôs abordar um tema tipicamente atual. O tema
família e dependência química, sem dúvida, é um dos grandes desafios
contemporâneos do aconselhamento. De uma maneira, especial, o alcoolismo e o
uso de drogas por chefes de família e jovens respectivamente, bem como famílias
de dependentes químicos, de uma forma geral, têm demandado sempre
significativos trabalhos para os conselheiros cristãos na atualidade.
Nesta disciplina tem-se optado, ressaltamos mais uma vez, pelo diálogo entre
os conhecimentos; nesse sentido, têm-se informação que família, em nosso
contexto, é compreendida como uma instituição privada, passível de vários tipos de
arranjos, como o lugar próprio da socialização primária e normalizadora pelo afeto e
pela cultura, influenciadora das crenças, das atitudes e dos comportamentos de
seus membros sobre os temas da saúde, enfermidade, espiritualidade e
religiosidade.
Outro achado necessário para o trabalho do conselheiro é reconhecer os
conhecimentos sobre o ambiente familiar e funcionamento de familiares de
dependentes. Como vimos acima esse ambiente familiar tem sido marcado por uma
dinâmica própria de mudanças, de crises; mecanismo de negação possibilitado pelo
encobertamente da atitude de dependência dos familiares e do sistema social onde
há predominância do sentimento de negação, vergonha, presença da mentira;
manutenção do comportamento de dependência entre pais e filhos; uma situação de
estresse no sistema familiar causado por conflitos, desavenças, baixíssima
tolerância e facilidade de adaptação em função da droga; a correlação entre a dor
familiar e a responsabilidade do dependente; as condutas antissociais; a
desestruturação familiar; a alienação dentro do sistema familiar; a baixa coesão e
autoestima familiar são aspectos que se evidenciam. Há uma fragilização dos laços
familiares, antes e depois da descoberta da droga. Tudo isso tem de ser
considerado e analisado quando nos colocamos na condição de conselheiros hoje.
É fundamental ao conselheiro cristão ainda está ciente que a dependência
química não é uma questão para ser compreendida tendo apenas a família como o
único contexto. É imprescindível considerar a família como um sistema aberto, no
sentido de uma relação de trocas com o meio social.
Outro conhecimento importantíssimo, por sua vez, é o tema da Co-
dependência. Esta unidade ressaltou as características e fases respectivamente de
comportamentos, situações, emoções e sentimentos que envolvem a família, os
transtornos emocionais típicos de pessoas que se relacionam diretamente com
dependentes químicos, e, o desenvolvimento de uma dependência não das drogas,
mas do vínculo que têm com os dependentes químicos, o qual se tem tornado uma
relação patológica.

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Por fim, o conselheiro tem a sua disposição abordagens e modelos


terapêuticos e de intervenção que podem auxiliá-lo no acompanhamento da família
que vivenciam a dependência química.

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