Você está na página 1de 4

O império farmacêutico que gerou milhares

de viciados em um analgésico
Martín Caparrós

Arthur Sackler, fundador do império farmacêutico Sackler e mecenas artístico.

4 DEZ 2018 - 19:08 BRST

Os Sacklers estão na origem de milhares de dependências, mas


eles conseguiram lavar seu nome com o golpe do dinheiro
Eles venceram. Seu nome brilha nas fachadas mais prestigiadas do mundo:
Sacker está esculpido, por incentivo da doações de milhões, em salas e
institutos do Louvre, do Guggenheim, do Metropolitan, de Harvard, Columbia,
Stanford, Oxford e dezenas de outros; se nada o alterar, eles existirão por
séculos. Ou não.

MAIS INFORMAÇÕES
A crise dos opiáceos: veneno para a economia norte-americana

EUA cercam farmacêuticas em tribunais após milhares de mortes por opiáceos

Os primeiros Sackler foram três filhos de imigrantes poloneses que


nasceram no Brooklyn entre 1914 e 1920, estudaram medicina e fundaram na
década de 1950 uma pequena empresa farmacêutica, Purdue Pharma. O
mais velho, Arthur, era um grande vendedor: suas técnicas de marketing
mudaram a forma de comercializar medicamentos e encheram os cofres dos
três irmãos. Mas seu maior sucesso começou em 1995, sete anos após a sua
morte: foi então que os dois filhos, Raymond e Mortimer, lançaram a Oxy-
Contin — que desde então já produziu mais de 30.000 milhões de euros (algo
em torno de 120.000 milhões de reais).

PUBLICIDADE

Ver novamente

inRead invented by Teads

O Oxy-Contin é uma invenção inteligente: uma pílula que libera lentamente


um opiáceo conhecido, a oxicodona, muito eficaz como analgésico. O
mecanismo permite que a droga atue por oito, dez, doze horas; sua difusão
foi rápida e seus efeitos discutidos: muita literatura médica o acusa pela
epidemia de dependência que voltou a sacudir os Estados Unidos nas
últimas décadas. Porque o Oxy-Contin é usado para o tratamento prolongado
e, como todas as drogas, você precisa de doses crescentes para produzir os
mesmos efeitos. E porque há quem descobriu que, abrindo a cápsula e a
moendo, era possível inalar ou injetar — e que doses massivas, liberadas de
seu mecanismo de regulação, provocava uma tremenda viagem. Agora, um
estudo do Instituto Nacional Americano sobre Abuso de Drogas diz que 10%
dos usuários desses analgésicos se tornam viciados e metade deles migram
para a heroína. Aprendemos a pensar que o tempo é uma flecha lançada para
a frente, que o que ficou para trás ficou para trás — e na verdade volta muitas
vezes. Há 30 anos, a heroína era uma epidemia; 15 anos atrás parecia
superada; nos Estados unidos, agora, todos os dias mata 115 pessoas e 50
bebês nascem viciados.

A Purdue Pharma e a Sackler viram de lado. A empresa patrocina institutos,


médicos e estudos que dizem que a culpa não é deles, mas dos
consumidores. E, apesar da enxurrada de reclamações, ela nunca foi
condenada, porque seus advogados sempre chegam a acordos por muito
dinheiro antes do julgamento. Enquanto isso, seus donos continuam
limpando seus nomes com o golpe dos milhões. Como dizia mais de cem
anos atrás um diretor do Museu Metropolitan de Nova York — citado por um
artigo excelente da The New Yorker — para pedir doações aos milionários de
então: "Pensem que a glória pode ser sua se vocês seguirem nossos
conselhos e converterem porcos em porcelana, grãos em cerâmica antiga, o
rude dinheiro em mármore esculpido".

Então se chamava beneficência ou, melhor, filantropia, agora se chama


responsabilidade social. De "fazer o bem" ou "amar os homens" passamos a
"assumir a responsabilidade". Os nomes mudam e designam a mesma coisa:
alguém que consegue se apropriar de grandes riquezas entrega um pouco
para dourar sua imagem. Petroleiros que aquecem a atmosfera, financistas
que empobreceram milhões, fabricantes de medicamentos que matam
dentro da lei impõem seus nomes à cultura, à solidariedade, à ajuda
humanitária.

É um sistema destes tempos: os muito ricos não controlam apenas os


mercados; também controlam os trabalhos que buscam reparar os danos
causados por esses mercados. Que alguém possua bilhões é monstruoso: que
o use de decidir quem é ajudado é a cereja do bolo. É dinheiro que deveriam
entregar em impostos para o Estado definir, de acordo com mecanismos
democráticos, que vidas melhorar com eles, como. E, em vez disso, graças ao
descrédito desses Estados e seus batalhões de advogados fiscais, o decidem
Gates, Soros ou Sackler. E esperam, só faltava essa, que os agradeçamos.
Adere a Mais informação >

ARQUIVADO EM:

Martín Caparrós - Mecenato - Indústria farmacêutica - Farmácia - Medicina - Cultura


- Indústria - Saúde

Recibe el boletín de EL PAÍS Semanal APÚNTATE

CONTENIDO PATROCINADO

Trabaje menos y viaje Una experta en lingüística Curso Grátis: Como Espere para ver como a
más alquilando su casa. explica como hablar un investir na Bolsa de “Barbie Humana” está
nuevo idioma con solo 15 Valores? atualmente
(BOOKING.COM) (BABBEL) (TORO RADAR | (ICE POP)
INVESTIMENTOS,
AÇÕES, ANÁLISE
TÉCNICA,
FUNDAMENTALISTA)

Y ADEMÁS...

Una luchadora de UFC Emily Ratajkowski, la Esta pelea entre dos Desmontando mitos: el
sufre la fractura del extraña 'deformación' en hombres se convierte en cochinillo sólo tiene 35
hueso orbital tras la su cuerpo viral por ser de todo gramos de grasa
(MÁS DEPORTE EN (DEPORTE Y VIDA) (EPIK) (DEPORTE Y VIDA)
AS.COM)

recomendado por

© EDICIONES EL PAÍS, S.L.


Contato Venda de Conteúdos Publicidade Aviso legal Política cookies Mapa EL PAÍS no KIOSKOyMÁS Índice RSS