Você está na página 1de 4

A VIGILÂNCIA NO AMOR

– Com as lâmpadas acesas.

– A luta nas coisas que parecem sem importância manter-nos-á vigilantes.

– Estar atentos contra a tibieza.

I. ESTEJAM CINGIDOS os vossos rins, tende nas vossas mãos lâmpadas


acesas, e fazei como os homens que esperam o seu senhor quando volta das
bodas, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram, lemos no
Evangelho da Missa1.

“Cingir os rins” é uma metáfora baseada nos costumes dos hebreus, e em


geral de todos os habitantes do Oriente Médio, que cingiam as suas amplas
vestes antes de começarem uma viagem para poderem caminhar sem
dificuldade. No relato do Êxodo, narra-se como Deus queria que os israelitas
celebrassem o sacrifício da Páscoa: Cingireis os vossos rins e tereis as
sandálias nos pés e o bordão na mão2, porque ia começar a peregrinação até à
Terra Prometida. Do mesmo modo, ter as lâmpadas acesas indica uma atitude
atenta, própria de quem espera a chegada de alguém.

O Senhor recomenda-nos uma vez mais que a nossa atitude seja como a
daquele que está a ponto de começar uma viagem ou de quem espera uma
pessoa importante. A situação do cristão não pode ser de sonolência e de
descuido. E isto por duas razões: porque o inimigo está sempre à
espreita, como um leão que ruge, buscando a quem devorar3, e porque quem
ama não dorme4. “Vigiar é próprio do amor. Quando se ama uma pessoa, o
coração está sempre vigilante, esperando-a, e cada minuto que passa sem ela
é em função dela e transcorre em vigilância [...]. Jesus pede amor. Por isso
solicita vigilância”5.

Na Itália, muito perto de Castelgandolfo, há uma imagem de Nossa Senhora,


colocada numa bifurcação de estradas, que tem a seguinte inscrição: Cor
meum vigilat. O Coração da Virgem está sempre vigilante por Amor. Assim
deve estar o nosso: vigilante por amor e para descobrir o Amor que passa perto
de nós. Santo Ambrósio ensina que, se a alma está adormecida, Jesus passa
por nós sem bater à nossa porta, mas, se o coração está desperto, bate e pede
que lhe abramos6. Muitas vezes ao longo do dia, Jesus passa ao nosso lado.
Que pena se a tibieza nos impedisse de vê-lo!

“Eu te amo, Senhor, minha fortaleza, meu baluarte, meu libertador! (Sl 17, 2-
3). Tu és o mais desejável e o mais amável de todos os seres que se possa
imaginar. Meu Deus, minha ajuda! Eu te amarei na medida do que me
concederes e do que eu puder, muito menos do que o devido, mas não menos
do que posso... Poderei mais se aumentares a minha capacidade, mas nunca
chegarei ao que mereces”7. Não permitas que, por falta de vigilância, outras
coisas ocupem o lugar que só Tu deves ocupar. Ensina-me a manter a alma
livre para Ti e o coração preparado para quando chegares.

II. FICAREI DE SENTINELA e montarei guarda para perscrutar o que o


Senhor me vai dizer e o que hei de responder à sua chamada8. São Bernardo,
comentando estas palavras do Profeta, exorta-nos: “Estejamos também nós
vigilantes, irmãos, porque é a hora do combate”9. É necessário lutar todos os
dias, frequentemente em pequenos detalhes, porque todos os dias
encontraremos obstáculos que nos podem separar de Deus.

Muitas vezes, o empenho por manter-nos nesse estado de vigília, bem


oposto à tibieza, concretizar-se-á em sermos suficientemente fortes para
cumprirmos com toda a delicadeza os nossos actos de piedade, esses
encontros com o Senhor que nos enchem de força e de paz. Devemos estar
atentos para não os abandonarmos por qualquer imprevisto e não nos
deixarmos levar pelo estado de ânimo desse dia ou desse momento.

Outras vezes, a nossa luta estará mais centrada no modo de viver a


caridade, corrigindo formas destemperadas do carácter (do mau carácter),
esforçando-nos por ser cordiais, por ter bom humor...; ou teremos que
empenhar-nos em realizar melhor o nosso trabalho, em ser mais pontuais, em
empregar os meios adequados para que a nossa formação humana,
profissional e espiritual não estanque...

Este estado de vigília, como o da sentinela que guarda a cidade, não nos
garantirá sempre a vitória: juntamente com as vitórias, teremos derrotas (metas
que não pudemos alcançar, propósitos que não pudemos levar à prática
totalmente...). Ordinariamente, muitos desses fracassos não terão importância;
outros, sim. Mas o desagravo e a contrição aproximar-nos-ão ainda mais do
Senhor, e dar-nos-ão forças para recomeçar... “O grave – escreve São João
Crisóstomo a uma pessoa que se tinha separado da verdadeira fé – não é que
quem luta caia, mas que permaneça caído; o grave não é que alguém seja
ferido na batalha, mas que se desespere depois de ter recebido o golpe e não
cuide da ferida”10.

Não esqueçamos que, nesta luta em pequenas coisas, a alma se fortalece e


se prepara cada vez melhor para ouvir as contínuas inspirações e moções do
Espírito Santo. E, em sentido contrário, é também no descuido dos pormenores
que parecem sem importância, que o inimigo se torna perigoso e difícil de
vencer. “Devemos convencer-nos de que o maior inimigo da rocha não é a
picareta ou o machado, nem o golpe de qualquer outro instrumento, por mais
contundente que seja: é essa água miúda, que se infiltra, gota a gota, por entre
as fendas do penhasco, até arruinar a sua estrutura. O maior perigo para o
cristão é desprezar a luta nessas escaramuças que calam pouco a pouco na
alma, até a tornarem frouxa, quebradiça e indiferente, insensível aos apelos de
Deus”11.

III. É TÃO GRATA a Deus a atitude da alma que, dia após dia e hora após
hora, aguarda vigilante a chegada do seu Senhor, que Jesus exclama na
parábola que nos propõe: Bem-aventurados aqueles servos a quem o seu amo
achar vigilantes quando vier. Esquecendo quem é o servo e quem é o senhor,
o amo fará o criado sentar-se à mesa e ele mesmo o servirá. É o amor infinito
que não teme inverter os postos que cabem a cada um: Na verdade vos digo
que se cingirá e os fará sentar-se à mesa, e, passando por entre eles, os
servirá. As promessas de intimidade superam qualquer coisa que possamos
imaginar. Vale a pena permanecermos vigilantes, com a alma cheia de
esperança, atentos aos passos do Senhor que chega.

O coração de quem ama está alerta, como a sentinela na trincheira; quem é


tíbio, dorme. O estado de tibieza é semelhante a uma ladeira que cada vez nos
separa mais de Deus. Quase insensivelmente, nasce uma certa preocupação
por não cometer exageros, por ficar num ponto de equilíbrio suficiente para não
cair em pecado mortal, ainda que frequentemente se aceite o venial.

E justifica-se essa atitude de pouca luta e de falta de exigência pessoal com


argumentos de naturalidade, de eficácia, de saúde..., que ajudam o tíbio a ser
indulgente com os seus pequenos afectos desordenados, com o apego a
pessoas ou coisas, com a tendência para o comodismo e com os caprichos...,
que chegam a apresentar-se como uma necessidade. As forças da alma vão-
se debilitando cada vez mais, até se chegar, se não se põe remédio, a pecados
mais graves.

A alma adormecida na tibieza vive sem verdadeiros objectivos na luta


interior, sem objectivos que atraiam e animem. “Vai-se vivendo”. Abandona-se
o empenho por melhorar ou trava-se uma luta fictícia e ineficaz. Fica no
coração um vazio de Deus que se tenta preencher com coisas que, não sendo
Deus, não satisfazem. Toda a vida de relação com o Senhor passa a estar
impregnada de um desalento bem característico. Perde-se a prontidão e a
alegria na entrega a Deus, e a fé fica apagada, precisamente porque o amor
esfriou. O estado de tibieza sempre é precedido por um conjunto de pequenas
infidelidades cujo peso influi nas relações da alma com Deus.

Estejam cingidos os vossos rins e tende nas vossas mãos lâmpadas


acesas... É um apelo para que nos mantenhamos atentos aos passos do
Senhor, fixando a luta diária em pontos bem concretos. Ninguém esteve mais
atento à chegada de Cristo na terra do que a sua Mãe Santa Maria. Ela nos
ensinará a manter-nos vigilantes se alguma vez sentimos que a sonolência
espiritual começa a apossar-se de nós.

“Senhor, como és bom para quem Te busca! E como serás então para quem
Te encontra?”12 Nós já o encontramos. Não o percamos.

(1) Lc 12, 35-38; (2) Êx 12, 11; (3) cfr. 1 Pe 5, 8; (4) cfr. Cant 2, 5; (5) Chiara
Lubich, Meditações; (6) cfr. Santo Ambrósio, Comentário ao Salmo 18; (7) São
Bernardo, Tratado sobre o amor de Deus, VI, 16; (8) Hab 2, 1; (9) São Bernardo, Sermão 5, 4;
(10) São João Crisóstomo, Exortação II a Teodósio caído, 1; (11) São Josemaría Escrivá, É
Cristo que passa, n. 77; (12) São Bernardo, Tratado sobre o amor de Deus, VII, 22.

Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI