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CARTAS A SÃO LUCAS

- 9 CARTAS SOBRE NOSSA SENHORA


PARA REZAR NA NOVENA -
“Cartas a São Lucas”
9 textos baseados no livro de Don Diego Zabidea.
Estas cartas, fruto da sua imaginação, foram escritas
para ajudar a sonhar e a rezar.

O autor imaginou o que diriam da Mãe de Deus aqueles


que conviveram com Ela mais de perto.

E tu, o que dizes de Maria?


30
Novembro

A BELEZA DE MARIA
CARTA DE JOSÉ
Querido Lucas,

Se calhar ficas surpreendido ao receber uma carta com este


remetente. Soube que estavas a tentar que alguns conhecidos
te contem coisas de Maria e não resisti a escrever-te umas
letras.
Tive a sorte de conhecer e disfrutar muito da Rainha do Céu
e sinto-me em dívida com todos os seus filhos. Obtive a
permissão do Arcanjo São Miguel para te fazer chegar esta
carta através de um amigo.
Quero contar-te uma coisa que nunca partilhei com ninguém.
Maria sempre foi a criatura mais formosa do mundo, mas
parecia que ninguém se apercebia. Nem sequer Joaquim ou
Ana, os seus pais. Logicamente achavam a sua filha muito
bonita e acontecia-lhes o mesmo que a todos os pais, que
olham para os filhos com carinho: ficavam entusiasmados.
No entanto, para mim, ela desde o primeiro dia foi
deslumbrante. Tanto assim é que nunca sonhei que poderia vir
a ser minha esposa: de certeza que toda a gente a procuraria
como o melhor presente para a sua família. 3
Quando aparecia Maria, tudo o resto se tornava difuso. Não
conseguia afastar o meu olhar dela. A beleza de Maria era um
sussurro. Não esmagava, insinuava uma nobreza e bondade
como nunca imaginei que existissem. Podia deixar de olhar
para ela, mas não queria. O meu coração batia mais forte e
tinha vontade de cantar e gritar ao mesmo tempo.
Depois de conhecê-la, durante vários dias não consegui dormir,
ou melhor, não queria dormir. Não suportava a ideia de poder
acordar e que tudo tivesse sido um sonho. O mais incrível é
que no dia seguinte não tinha sono e só tinha mais vontade
de voltar a vê-la.
A minha mãe viu logo que eu estava apaixonado, mas eu
negava profundamente. Não me atrevia a enfrentar uma
possível recusa sua e por isso não dava o passo em frente. As
minhas pernas tremiam só de pensar que ela pudesse dizer
que não. Como ia viver o resto dos meus dias sem ela?
Maria era especialista em ocultar a sua beleza. Era muito
consciente de si, mas muito discreta. Não gostava que as
pessoas se referissem a ela e dirigia sempre a Deus os elogios
que recebia. Foi Ele Quem lhe deu essa aparência.
Vestia-se com o gosto de uma rainha do Oriente, embora as
suas roupas fossem as normais de uma rapariga de Nazaré.
Mas vestia-se com tanta dignidade que não era comparável
com nenhuma mulher.
Como disse, querido Lucas, parecia que ninguém se apercebia
daquilo que os meus olhos não deixavam de contemplar: uma
obra-prima do Criador. Por isso cheguei a pensar que o
Senhor só me permitia a mim vê-la tão bela, porque eu seria
o seu esposo, o seu guardião. Quando lhe perguntei, ela
entusiasmou-se com a ideia e abraçou-me dizendo que lhe
tinha tirado um peso de cima. Que não podia compensar o

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bom que eu era para ela. Eu nem sabia o que dizer. Era como
uma menina pequena a abrir o seu presente, mas com a
maturidade de uma mãe que luta sem cessar para levar os
seus filhos para a frente.
A sua decisão de permanecer virgem comoveu-me e fez-me
perceber que estava diante de uma mulher muito especial, a
mais simples do mundo. Imagina como me senti feliz por
poder proteger tal tesouro. Dei por mim a dar saltos de
alegria, porque Deus me tinha dado a melhor mulher que
alguém podia sonhar. Era a sua obra perfeita e eu podia
cuidar dela e amá-la e, sobretudo, ela amava-me.
Maria era linda e simples, deslumbrante e próxima,
impressionante e terna, bonita e discreta, brilhante e ténue.
Estando diante da criatura mais perfeita, não me sentia
pequeno, mas sim o homem mais sortudo do mundo.
Obrigado, Lucas, pelo que vais escrever, e não tenhas medo
de exagerar: não corres esse perigo com Maria.

Um forte abraço,

José

5
01
Dezembro

A VOZ DE MARIA
CARTA DO ARCANJO GABRIEL
Querido Lucas,

Talvez te surpreenda receber uma carta desde tão longe, mas


as comunicações melhoraram muito em pouco tempo. As
mudanças são cada vez mais rápidas. Eu estava habituado a
fazer as coisas “a voar”, mas agora toda a gente faz isso.
A voz de Maria é uma das maiores maravilhas do Senhor. O
Senhor experimentou todo o tipo de sons até que encontrou
a melodia perfeita, o tom mais suave e a vibração mais
adequada.
Quando ouves Maria todos os outros sons desaparecem, ou
melhor, integram-se nessa música que são cada uma das suas
palavras. Dei por mim mesmo a repetir durante todo o dia as
suas palavras e cantando-as como se fossem uma melodia
cativante. O melhor de tudo é que não te cansas dessa
música, como acontece com as vossas canções.
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É sempre nova e conhecida, emocionante e um pouco
melancólica, traz recordações e derrama esperança.
Maria fala baixinho, mas ouve-se sempre. É uma pena que o
aramaico tenha desaparecido, porque era a língua perfeita para
a voz de Maria. Não estraga as palavras quando as usa.
Vocaliza sem presunção. Fala rápido, mas não se perde nem
uma das suas palavras. Poderia dizer-se que as respeita e
parece que as beija quando fala. Isso nota-se principalmente
quando diz algum nome.
Qualquer nome na boca de Maria soa a majestade, ao infinito,
à eternidade, à mais alta dignidade. Quando diz o meu,
parece-me que é uma mistura de trovão e amanhecer, apesar
de parecer estranho. É como a carícia de uma mãe, ouvir o
teu nome dito por ela. Agora estou convencido de que Gabriel
é o melhor nome para um arcanjo, antes pensava que soava
muito melhor Miguel ou Rafael.
No entanto, há um nome que brilha sobre todos os outros:
quando Maria fala de Jesus, parece que se faz silêncio e, ao
mesmo tempo, ela diz tudo nessa palavra. O seu Jesus! Com
quanto carinho Maria fala Dele, narra as suas conversas ou
relata a sua infância.
A voz de Maria dá paz, mas não adormece. Mantém em
suspense, mas com a alegria de quem já sabe o final da
história. Não é nada monótona. Maria gosta muito de poesia
e ainda mais de cantar. A sua voz tem uma tal harmonia que
parece fácil repetir as suas canções favoritas.
Ela gosta muito de versos de amor humano e adapta-os para
os dedicar ao seu Pai e Senhor. No entanto, onde brilha mais
o timbre da sua voz é nas canções de embalar. São tão
ternas que nos tornamos pequenos ao escutá-las e desejamos
voltar ao berço para adormecer com elas.

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Para além disso, Maria cantarola os salmos muitas vezes,
sabe-os de cor. Não penses que ela nunca se engana a cantar,
mas é tão divertida e fica tão vermelha que até parece mais
bonita e jovem.
Por fim, cada vez que Maria abre a boca dá-nos sons que
enchem a alma e o coração de paz, levantando o ânimo a
qualquer um, até mesmo a um arcanjo desanimado.
Bom Lucas, força para o teu empreendimento, e não tenhas
medo de exagerar. Se conseguires fazê-lo discretamente e sem
se notar, talvez possas acrescentar um arquivo de som na tua
próxima biografia sobre Maria com alguma das suas músicas
preferidas. Eu já as tenho gravadas no meu cérebro, mas
muitos nunca as ouviram, nem o farão se não fizeres alguma
coisa por isso.

Um abraço muito forte e volátil,

Gabriel

8
02
Dezembro

OS OLHOS DE MARIA
CARTA DE MARIA DE CLEÓFAS
Querido Lucas,

Tanto tempo sem te ver! Já deves estar um médico feito,


mas como te conheci nos braços de tua mãe, não te
preocupes: não me vão impressionar os teus medicamentos e
as tuas poções…
O que é que me deu agora para te escrever? Para ser sincera,
tenho pensado muitas vezes que alguém teria de recolher
tudo o que temos vivido nestes anos, para que não se perca.
Aqueles que olhem para trás, não nos vão perdoar que caia no
esquecimento o mais pequeno detalhe e, por isso, escrever-te
uma carta, para te contar como são os olhos de Maria, é
para mim uma alegria imensa e sinto-mo uma privilegiada.
Não saberia dizer-te de que cor são os seus olhos, nem se são
grandes ou pequenos, escuros ou claros, encovados ou
salientes. Parece mentira, poder-te-ia dizer muitas outras
coisas, porém, não sei concretizar nenhuma destas.
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Talvez os olhos de Maria mudassem em função do que via, ou
melhor, poderia ser que os seus olhos te fizessem contemplar
o que ela acariciava com o olhar.
Parece que a estou a ver semicerrar as pálpebras e observar-
me com aquele sorriso amável, fazendo-me perceber que se
deu conta de um detalhe. Nada lhe escapava. Descobria até o
mínimo pormenor sem que te desses conta. No entanto,
nunca ninguém se sentia vigiado por Maria. Era tão discreta
que parecia que os seus olhos acariciavam todas as coisas,
especialmente os corações sofredores, como o meu. Só Maria
conseguia olhar-me e dar-me paz à alma. Só ela sabe olhar
sem julgar, compreendendo, apercebendo-se do que se passa e
dizendo o que ninguém sabe dizer.
O olhar de Maria nunca se poderia traduzir por um “Não te
preocupes, filha, que isso são coisas tontas.”. Quanta dor
terão causado essas palavras ao longo da história e que mal as
entendemos sempre. No entanto, era isso que Maria
transmitia. Debaixo do seu olhar, as coisas perdiam
importância: a seus olhos, tudo é mais compreensível, mais
proporcional e menos dramático. Parece que os seus olhos
transmitiam esperança. Dir-se-ia que olha para o futuro e te
conta que o final de cada história, também a tua, será belo.
Contei-o mil vezes às outras Marias e a Marta. Maria é
muito normal, mas junto dela sentes-te seguro. Podes estar
no meio de uma situação dificílima, mas ela transmite-te a
confiança de que tudo sairá bem. Tive a sorte de acompanhá-
la ao Calvário, quando morreu o seu Filho e, nesse momento,
o seu olhar era mais profundo do que nunca. Parecia que
olhava por detrás da Cruz, mais além, para o Céu, e que via
algo que, sem Lhe secar as lágrimas, a enchia de esperança.

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Maria chora muito, mas não é chorona. Muitas vezes caem
lágrimas dos seus olhos, sem soluçar. A cor dos seus olhos fica
realçada, torna-se brilhante; diria mesmo resplandecente.
Já dirás que isto são coisas de mulheres, mas sei que vocês
também sabem ver estes detalhes e que os olhos de Maria
vos fascinariam.
Vou-te dizer uma coisa que para além de te parecer vulgar e
infantil me vais dizer que não entendes (já o imagino). Não
te culpo, porque tu sempre foste calmo e racional: tu é que
ficas a perder. Quando Maria te olha, é como se visses o teu
coração refletido nos seus olhos. Sabes perfeitamente que te
conhece, que se dá conta e que procura levar por ti a tua
dor, a tua preocupação ou a tua alegria. Todavia, esse olhar
faz com que mude, pouco a pouco, o teu ânimo, e faz com
que te enchas de paz e dos melhores desejos. É como se
brotasse uma fonte de água limpa, fresca e revoltosa, desde
as profundezas. Depois de estar com Maria, tenho sempre
vontade de viver, de rir, de cantar e parece que me esqueço
de todas as coisas tontas que habitualmente me preocupam.
Bem, Lucas, não deixes de estudar e não te fies de todos os
teus êxitos como médico, porque já sabes que estamos nas
mãos do Senhor.
Não tenhas medo de louvar excessivamente Maria. Sempre
será pouco o que escrevas em comparação com a realidade.
Podes atribuir-me todos os exageros, se isso te der paz.

Um abraço muito forte e que o


Senhor te bendiga pelo que fazes,

Maria de Cleófas

11
03
Dezembro

OS OUVIDOS DE MARIA
CARTA DE LÁZARO
Querido Lucas,

Fiquei um pouco atordoado quando recebi a tua carta


pedindo-me que te falasse de Maria.
Marta e Maria, minhas irmãs, voltaram a repetir-me o
mesmo de sempre: que sou tonto. Eu acabei por acreditar
nelas, mas não deixo que me suba demasiado à cabeça. Dizem
que eu era o preferido de Maria, a mãe de Jesus, e não me
dou conta: “Estás a dormir Lázaro, acorda de uma vez.”
Não entendo porque Maria me escolheu a mim, mas estou
certo de que elas não me mentem, pelo menos não de
propósito. Nunca a minha saúde ou os meus talentos
despertaram a inveja de alguém. Isto, mesmo que não pareça,
é uma vantagem. Só Maria parecia entusiasmada comigo.
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Nunca vi ninguém agradecer como ela. Não sei o que tem, mas
faz-te sentir a pessoa mais importante do mundo. Quando
estou com ela sinto-me elevado. Sem ela não sou nada.
Queres que te fale dos seus ouvidos, das suas pequenas
orelhas... Muitas vezes perguntei-me porque eram tão
pequenas e, mesmo assim, podiam escutar até os sussurros
mais suaves. Às vezes tinha a sensação de não ter dito nada,
só nos meus pensamentos, e ela parecia tê-lo ouvido
perfeitamente. Olhava-me com o seu sorriso amável e travesso,
assumindo o controlo da situação, como mais ninguém no
mundo.
Maria sempre ouvia quando alguém a chamava, lhe pedia ajuda
desde a cozinha, ou quando eu não conseguia dormir. Por várias
noites apareceu de madrugada no meu quarto trazendo-me um
chá. Perguntava-lhe como sabia que estava acordado e
respondia: “Ouvido de Mãe”.
Além disto, Maria era a pessoa que mais escutava de todas as
que conheço. Ficava com tudo o que lhe dizias, recordava até
ao mínimo detalhe, ainda que estivesse a trabalhar e a tivesses
interrompido. Tudo lhe interessava se fizesse parte da tua
vida. Até as piadas a que as minhas irmãs não achavam graça,
faziam-na rir.
Por outro lado, a ela não se ouvia. Quando caminhava não se
fazia notar. Fechava tão suavemente as portas que nem davas
conta de que tinha saído. Nunca a ouvi levantar a voz. Era
muito doce. No fundo, não se impunha.

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Sempre estava à escuta. Todas as palavras ficavam guardadas
no seu coração, isso notava-se.
Quanta paz me dava falar com ela. Não dizia nada:
simplesmente escutava, compreendia e acompanhava.
Acabava sempre tudo “solucionado”, os meus problemas
dissolviam-se nos seus ouvidos ainda que não me dissesse mais
que um “Pobre Lázaro, como te deve ter custado”. Queria
tê-la sempre perto!
Muitas vezes sinto, neste preciso momento também, que me
ouve mesmo quando não falo. É como se escutasse o meu
coração e ouvisse qualquer palpitação. Tu, querido Lucas,
deves saber destas coisas do pulso e da tensão. Mas Maria
parece que adivinhava.
Bem Lucas, quando passares por aqui, não te esqueças de me
trazer essas ervas que me ajudam a dormir tão bem.
Toma conta de ti e obrigado por tudo o que estás a fazer.
Nunca te poderemos pagar!

Um abraço forte do teu amigo,

Lázaro

14
04
Dezembro

O SORRISO DE MARIA
CARTA DE TIAGO
Querido Lucas,

Que espetáculo estares a escrever alguma coisa sobre Maria.


Nunca teria pensado em tal coisa, e no entanto, já tenho
imensa vontade de ler o que possas vir a recolher… Parece-me
que foi a melhor ideia que alguma vez tiveste na vida. Não
quero com isto dizer que no resto não sejam boas as tuas
ideias, mas estou certo de que desta iniciativa não te vais
arrepender. Maria é um poço sem fundo!
Pedes-me que te fale do seu sorriso. Nada mais fácil e nada
tão complicado ao mesmo tempo... Creio que poderia dizer
que Maria sorri permanentemente. Também se ri às vezes e o
seu riso é muito contagioso, chegando inclusivamente a
gargalhadas, mas o mais comum é que sorria suavemente.

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Fica com as bochechas um bocadinho enrugadas e se olhares
bem podes ver que as suas maçãs de rosto têm um pouco
mais de cor do que o resto da cara. É como se estivesse a
recordar-se de algo muito bonito ou divertido. Creio que a
alegria lhe recorda imediatamente Jesus, e o feliz e alegre
que Ele era e é.
Quantas vezes Maria conseguiu desarmar-me apenas com um
sorriso.
Ela nunca me disse que não me preocupasse ou que o que lhe
estava a contar era uma estupidez sem importância alguma.
Pelo contrário, ela mostrava que acreditava a pés juntos em
tudo o que lhe dizia e às vezes até se assustava com algum
dos relatos que lhe fazia. No entanto, sempre tinha uma
palavra oportuna e despedia-se com um sorriso. Dava-me a
entender que fazia seu o que lhe dizia e que tudo acabaria
bem, mais cedo ou mais tarde.
Enquanto tudo acontecia, ela assegurava-me, com um sorriso
que me acompanhava, que eu não estava sozinho. Que paz
dava vê-la sorrir! Sorrir em situações difíceis, tão intensas,
tão incómodas. Maria não era nada ingénua, dava-se conta
dos problemas como eu nunca vi. Encarregava-se da mínima
circunstância possível, muitas vezes até antes do próprio
implicado ou interessado. Não obstante, nunca aparentava
saber tudo ou controlar a situação. Jamais se vangloriava ou
ficava convencida pelo facto de estar a par de alguma coisa
que os outros só descobriam depois.

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Maria ajudou-me muito a rir-me de mim próprio. Ela nunca
se riu de mim, embora tenha feito com que eu me risse
muito e quando o conseguia unia-se ao meu riso e às minhas
gargalhadas. Podia dizer que tivemos vários ataques de riso
os dois.
Sempre tinha uma saída muito divertida quando eu ficava
bloqueado, coisa que me acontece com bastante frequência.
Fá-lo com naturalidade e dessa forma não nos sentimos
disparatados, ainda que possamos sê-lo e talvez precisássemos
que alguém nos dissesse e fizesse ver esse facto. Mas de
certeza que não será ela a dizê-lo. Maria usa outros
caminhos, outras formas, outra delicadeza.
Mesmo que Maria estivesse aflita - e tenho a certeza que às
vezes acontecia - não desaparecia nunca, mas nunca mesmo,
o sorriso na sua cara! (Impressionante, não é?). Quando
chorava, algo que me acontecia com frequência, o seu sorriso
mudava tudo: desapareciam as nuvens, os problemas, o
medo... tudo perde muita importância perto do sorriso de
Maria. Melhor dito, tudo parece adquirir uma verdadeira e
imensa relevância junto dos seus olhos. É espetacular!
Pronto Lucas, não quero chatear-te mais com os meus
relatos. Depois já me dizes quando tiveres tudo pronto para
eu poder ler.

Um abraço muito forte e toma conta de ti,

Tiago

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04
Dezembro

AS MÃOS DE MARIA
CARTA DA MÃE DO BOM LADRÃO
Querido Lucas,

Demorei muito até conseguir ter tempo para escrever com


calma o que me pedes. Não tenho desculpa para não o ter
feito antes. Já sabes que me distraio com qualquer coisa e
acabo por fazer sempre tudo à última da hora, numa correria.
Pedes-me que te conte como são as mãos de Maria. São
sobretudo pequenas. Conheci Maria no Calvário. Nunca a tinha
visto antes. Tivemos de subir àquele lugar tremendo, mais ou
menos ao mesmo tempo, mas enquanto subíamos, não me
lembro de me ter fixado em mais nada que não em Dimas.
Coincidimos ali por acaso. As duas tínhamos o nosso filho
cravado na cruz. Porém, havia uma diferença abissal. O meu
filho era culpado e o seu absolutamente inocente. O meu filho
teria utilizado, se pudesse, as suas habilidosas mãos de ladrão
para se livrar daquele tormento.
Por outro lado, o seu Filho tinha as Suas mãos cravadas no
madeiro porque não queria separar-se da Vontade de Seu Pai.
Eu estava desesperada e Maria, embora chorasse e sofresse
tanto como eu, parecia cheia de esperança. Então, sucedeu
algo de que nunca me esquecerei: ao chegar ao Clavário, Maria
pousou a sua mão sobre o meu ombro. Abraçou-me e eu senti
que o solo desaparecia debaixo dos meus pés. 18
Ao chegar ao cimo do Calvário, contemplando semelhante
crueldade, quase caía para trás, mas Maria susteve-me com as
suas mãos. Imediatamente sucedeu algo que não consigo
explicar como deve ser. Ao ver a sua mão sobre o meu
ombro, perdi o equilíbrio. Maria segurava-me, mas eu não
podia mais. Tinha tentado ser forte até esse momento. Tinha
um nó na garganta desde que ouvi a sentença que condenava
o meu filho. Frequentemente custava-me respirar, mas não o
tinha dito a ninguém. Sentia um peso que me comprimia os
pulmões e se me cravava no coração. Acompanhei o meu filho
e dei-lhe forças, mas nesse momento, fui-me abaixo.
Alguém me ajudava e eu não o tinha pedido; senti-me
pequena. Percebi que tinha necessidade de que alguém me
consolasse. Era urgente que alguém me dissesse que o meu
filho não era um criminoso, que os juízes do mundo não
conhecem o coração dos filhos e que eu não era culpada do
que ali estava a acontecer. Pesava-me muito ter sido uma má
mãe para o Dimas, não estar à altura, não ter dado tudo por
tudo.
A mão de Maria colocou-se diante de todos os meus piores
medos, libertando-me deles. Senti-me pequena, mas também
compreendi que Maria estava ali na mesma situação que eu.
As suas mãos diziam tudo: eram pequenas, suaves, com dedos
longos.
Não eram as mãos de uma princesa: Maria tinha lavado
muitas vezes roupa e tinha amassado pão com toda a
firmeza. Eram mãos calejadas, e no entanto, belas. Eram as
mãos de uma rainha. Fui-me deixando cair e Maria susteve-me
com os seus pequenos mas fortes braços. Senti-me suspensa,
como que no ar, com infinita doçura.

19
A minha vida e a do meu filho já não me pesavam. Maria
sustentava-me; não havia razão para voltar ao chão.
Levantava-me, dizia-me que não éramos culpados: nem Dimas,
nem eu, nem ninguém. Que o único culpado tinha querido ser
Jesus, seu Filho, e que iria libertar todos dos seus pecados.
Nunca compreendi como umas mãos tão pequenas podem
oferecer tanta segurança. Maria é mais baixa do que eu, mas
segurou-me. As suas mãos levantaram-me, renovaram-me as
forças, mas sobretudo, devolveram-me a esperança e a alegria.
Dimas era um bom filho e eu uma boa mãe. Os dois nos
tínhamos enganado muitas vezes. Também o seu pai, que em
paz descanse, confundiu muitas vezes o carinho e a liberdade.
Mas Maria fez-me esquecer tudo isso. Fez-me recordar tantos
sacrifícios e tanto amor, por ele, guardado no meu coração.
Graças a Maria, por me ter segurado, pude ouvir que Jesus
prometia a Dimas que o levaria nessa mesma tarde para o
Paraíso. Nesse momento tinha a certeza que já ali me
encontrava.
De repente vi que Maria também necessitava de que eu a
segurasse. Éramos como duas cartas de um baralho que se
apoiavam uma na outra. Eu nunca tinha tido tanta força,
mas o Senhor deu-me a força suficiente para segurar Maria,
que caía. Parecia incrível ter sido eu, segundos antes,
confortada por ela . Estivemos ali o tempo todo que durou a
agonia de Jesus e Dimas. De mãos entrelaçadas, ombro a
ombro, sem falarmos, nem olharmos uma para a outra, mas
partilhando totalmente o nosso sofrimento e o deles. A
morte de Dimas, toda a sua vida, tinha agora uma cor
diferente. De certeza que eu não teria sido a melhor mãe,
mas Jesus tinha convertido Dimas no melhor filho e levá-lo-ia
nessa mesma tarde a disfrutar do Céu para sempre. Que mais
poderia pedir uma mãe?
Bem, Lucas, já me dirás se precisares de mais alguma coisa ou
se isto é suficiente.

Cumprimentos carinhosos e cuida-te muito,


A mãe de Dimas
20
06
Dezembro

A IMAGINAÇÃO DE MARIA
CARTA DE MARIA MADALENA
Querido Lucas,

Fico muito contente por quereres saber mais coisas de Maria.


O mais importante é que é a minha melhor amiga. Diria ainda
mais, é minha mãe, minha irmã e minha rainha. Quando a
conheci eu estava muito longe de Deus. Não imaginava o que
a amizade com Maria me poderia dar ao longo destes anos.
Pensava que era mais uma amiga, como tantas outras.
Passava ótimos momentos com ela. Era dessas amigas com
quem se pode contar. Depois de conversarmos ficava sempre
mais feliz e bem-disposta. Diria que Maria tinha e tem uma
imaginação fantástica.
Talvez isto te pareça muito estranho, mas Maria era uma
mulher com uma grande imaginação e uma grande capacidade
de ver o lado bom das coisas e das pessoas.

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Quando falávamos de outras amigas, ela nunca dizia nada que
não fosse um elogio. Quando entre amigas começávamos a
fazer uma crítica, construtiva claro, mas uma crítica, ela
conseguia sempre desviar a conversa de uma forma inteligente
e muito natural. Quando começávamos a falar de futilidades,
ela encaminhava-nos para uma boa conversa. Sabia transmitir
segurança e dar-nos um bom rumo. Que paz, que horizontes,
quanto amor nos fazia sentir pelas nossas vidas e pelo nosso
futuro.
Que boa pessoa que é! Não podes imaginar!
Sempre que combinávamos alguma coisa, ou ia ter com ela
sem combinarmos, dava a entender que já estava à espera da
minha visita e que naquele momento o mais importante era
ouvir-me. Isto não me acontece com mais ninguém!
Voltando à imaginação… Onde se notava que Maria tinha uma
imaginação prodigiosa era ao falar do Messias. Parecia que O
conhecia pessoalmente, mas nós achávamos que era uma
simples sonhadora.
Maria sonhava com devolver ao mundo a paz, a alegria, a
felicidade junto de Deus. Ninguém como ela era capaz de se
dar conta do mais pequenino detalhe.

22
Agora já todos sabemos, mas antes ninguém suspeitava que
Maria era a Mãe de Deus. Ela era uma mulher tão normal…
Nunca nos cansávamos quando ela estava por perto.
Com o passar dos anos, e ao sermos cada vez mais amigas, as
nossas conversas foram ficando mais profundas. Falávamos
sobre as nossas famílias, a opressão dos romanos, sobre Deus,
a Primavera e o sentido da Páscoa… Mil coisas…!
Maria nunca nos deixava mal se nos enganássemos nas nossas
escolhas. Tinha sempre uma criatividade particular, uma saída
mais divertida e um sentido profundo para todas as situações.
Eu avisei que falava muito, Lucas… Vou ficar por aqui no meu
relato, mas há muitas mais coisas que te poderia contar.
Maria continua a ser a minha melhor amiga e ensinou-me a
dilatar o coração. Agora cabem muito mais pessoas e quero-as
mais, graças a Maria. Ela abriu-me horizontes incríveis na
minha pobre vida. Com ela aprendi que o meu coração não
tem fronteiras e que nele cabe Deus e, por isso, cabem todos
os homens e mulheres do mundo.
Pronto Lucas, fico à espera de um exemplar do teu livro.
Não temas dizer coisas demasiado bonitas.

A paz esteja contigo e com os teus,

Maria Madalena

23
07
Dezembro

AS LÁGRIMAS DE MARIA
CARTA DE PEDRO
Querido Lucas,

Que alegria receber a tua carta a pedires para te contar as


lembranças que tenho de Maria, a Mãe de Jesus! Faço-o feliz
da vida, ainda que saiba que as minhas palavras não são
capazes de explicar o que uma pessoa sentia quando a via e
estava com ela. Ainda hoje, basta-me fechar os olhos e pensar
nela para me encher rapidamente de uma alegria que não sei
como explicar. Não se pode expressar por palavras. Vou-me
desafiar a tentar contar-te por carta… mas não sei se vou
conseguir exprimir tudo o que sinto! Sou um pouco bruto,
muito intenso e apaixonado, e este pergaminho vai ser curto
para tanta coisa.
Um segundo com ela vale como milhares de desenhos e
retratos. Mesmo que a visse só por um instante, ficar-me-ia
gravada a sua imagem no coração. É tão boa e perfeita que
basta um segundo para conhecê-la. Ela é a pura imagem do
seu Filho Jesus!
24
Pedes-me que te fale das suas lágrimas e escolheste a melhor
pessoa para o fazer. Já sabes que sou um pobre pescador e
não muito letrado, mas tive que aprender um pouco de
tudo, até a ser o primeiro Papa.
De todas as formas, para te falar das lágrimas de Maria só
tenho que me lembrar que fui um dos seus primeiros
motivos. Fui eu quem entregou o seu Filho, traí-O e neguei
que O conhecia. Quando o galo cantou, fez-se-me um nó na
garganta e lembrei-me de tudo o que me tinha dito Jesus.
Então, chorei e chorei, até que vi as lágrimas de Maria. Não
saberia dizer-te se eram grandes ou pequenas, eram normais,
como as de qualquer pessoa. Não chorava como eu, de forma
desconsolada e exagerada, mas sim de uma forma muito
suave. Dei-me conta de que sofria muito mais do que eu e
que não me repreendia nem um bocadinho. Apesar dos nossos
sofrimentos serem diferentes, dei-me conta de que ela os
compreendia perfeitamente e procurava aconchegar o meu
coração partido e humilhado. Eu sofria por mim, pela minha
miséria, pela minha humilhação. Ela sofria pelo seu Filho e eu
diria que também lhe doía ver-me a mim tão desolado.
Ao mesmo tempo, compreendi que ela tinha paz, que
aceitava tudo o que se estava a passar e que se unia com
alegria ao sacrifício de Jesus. As lágrimas iam caindo
lentamente pela sua cara e entretive-me a ver como caiam
no seu vestido e chegavam ao chão. Essas lágrimas sim,
valiam a pena; essa dor sim, tinha sentido; esse amor sim,
valia qualquer dor. As minhas lágrimas desapareceram
imediatamente e vi-me a oferecer a Maria um lenço para
secar as suas, dizendo-lhe que não se preocupasse, que tudo
ia correr bem.

25
Dei-me conta (uma vez mais) de que sou um idiota e que o
demonstro melhor em situações difíceis. Sempre a querer ser
forte e ter o controlo de toda a situação. Mas Maria deixou
de chorar. Foi como se as minhas palavras a tivessem
consolado. Agradeceu-me e apoiou-se em mim como se fosse
desmoronar-se. Eu sustentei-a com medo de magoá-la, mas
rapidamente retomou as forças e partiu daquele local com
João até ao Calvário.
Quis acompanhá-la mas não fui capaz… Pensei novamente nas
suas lágrimas e isso deu-me forças para resistir à dor que
oprimia o meu coração. Jesus estava a ser crucificado e eu
era um cobarde, mas tinha Maria. Ela tomava conta de mim.
Assim o fez e assim continua a fazê-lo! Não voltei a vê-la
chorar, mas não me sai da cabeça a sua imagem e os seus
olhos chorosos, mais bonitos e luminosos que nunca. Maria é
fortaleza para todos, mas pensar que naquele dia fui capaz
de consolá-la e que se apoiou em mim é a melhor recordação
que tenho, é um refúgio para os dias cinzentos ou mais
difíceis.
Pronto Lucas, força! Isto não é tarefa fácil, mas todos os
seguidores de Jesus vão ficar eternamente agradecidos por
cada palavra que escrevas sobre Maria. Não te preocupes que
a imaginação fará o resto e compreenderão que as palavras
não podem aproximar-se nem de longe à obra mestra de
Deus.

Um abraço e um sincero obrigado pelos medicamentos,

Pedro

26
08
Dezembro

O CORAÇÃO DE MARIA
CARTA DE JOÃO
Querido Lucas,

Lucas, Lucas…! Não ias dizer nada. Que sorte tive em poder
estar com Maria e escrever sobre ela.
Uma carta dá-me muito medo, bem sabes como andam as
redes e como qualquer coisa pode ser mal-interpretada.
Escrever alguma coisa sobre Maria é pouco. Tudo o que se
diga será pouco e nem com estas advertências será o
suficiente. De qualquer forma, sinto-me muito privilegiado
por ter tido a oportunidade de tomar conta dela durante
todos estes anos e o teu pedido obriga-me a fazer um
esforço.
Ainda por cima, pedes-me que te conte como era o coração
da Mãe de Jesus! Que difícil, mas se calhar até é o mais fácil
de explicar.

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Maria é uma pessoa muito sensível, tem um coração enorme.
Não se vê mas sente-se ao estar ao seu lado. Percebes que se
dá conta de tudo perfeitamente. É como se ela te conhecesse
desde sempre.
Ao mesmo tempo, como percebes que é sensível, compreendes
que qualquer coisa a afeta muito. Isto fez com que eu
procurasse cuidá-la e dar-lhe todo o carinho que podia,
parecendo isto pouca coisa…
Ainda assim, a Mãe de Jesus dava-me empurrões para eu sair
de mim próprio. Quando estava com ela (agora acompanha-me
de outra maneira), só pensava em cuidá-la e encher-lhe o
coração. Sentia-me útil, generoso, prestável. Esquecia-me das
minhas coisas, porque ela enchia-me o coração e esvaziava-o
do meu ego. Estando Maria por perto, eu era capaz de coisas
que nunca tinha imaginado. Todos pensam que eu fui à Cruz
porque estava muito perto de Jesus, mas foi Maria que me
levou até lá. Bastou um só pedido de ajuda para não pensar
no medo que tinha.
Assim era e é Maria: parece que pede e lá no fundo está a
oferecer todo o seu coração. Pede-te que o enchas e isso fará
que saias de ti próprio. Diante de um coração como este não
há quem resista. Nunca tinha pensado nestas coisas antes e
escrevê-las faz-me muito bem! Estou a pensar escrever
algumas coisas que vejo que as pessoas não dizem sobre Jesus
e sua Mãe...
Assim sendo, Lucas, cuida bem de ti! Sei que isto não te dá
nem para um parágrafo e bem sabes que tudo isto se pode
resumir numa só palavra: amor.

Um grande abraço e dá recordações minhas aos de


Antioquia,

João
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- A Jesus sempre se vai e se “volta”
por Maria –
#495 Caminho, S.Josemaria

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