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O Aconselhamento

Bíblico É Legalista?

Edward T. Welch

Uma das mais antigas tensões da vida cristã. Muitos ensinam distorções do ver-
cristã é entre a libertinagem e o legalismo. dadeiro evangelho do Senhor, isentas de
Por um lado, a libertinagem é convidativa. graça. A vida da igreja legalista é autoritá-
Muitos cristãos vivem versões moralmen- ria e mal-orientada quanto ao discipulado;
te descuidadas e descaradamente ela alimenta a fidelidade a códigos e pa-
egocêntricas da vida cristã. Muitos ensi- drões humanos como prova de salvação.
nam uma graça barata, distorcendo o ver- O legalismo despreza a graça de Deus e
dadeiro evangelho do Salvador que é o exalta os desejos da carne — uma
nosso Senhor. A vida da igreja libertina é performance hipócrita, o perfeccionismo,
descuidada quanto ao discipulado e ali- a auto-expiação e o julgamento. A carne
menta a indulgência ao invés da resiste ao evangelho de Cristo e vive para
autonegação. A libertinagem despreza as atuar de acordo com padrões humanos.
regras de Deus e exalta os desejos da car- Os cristãos costumam oscilam entre
ne — prazer, poder, liberdade, autonomia, viver como pecadores descuidados ou
entre outros. A carne resiste às leis de fariseus compulsivos. É provável que você
Deus e vive para fazer aquilo que quer. conheça alguns cristãos que estão despre-
Por outro lado, o legalismo oprime. ocupados com a santidade, absortos em si
Muitos cristãos vivem versões compulsi- mesmos e olhando para Deus como o “ga-
vas e extremamente escrupulosas da vida roto de recados de seus desejos incons-
tantes”. Provavelmente, você conhece
Tradução e adaptação de Is Biblical- também cristãos que estão obcecados com
Nouthetic Counseling Legalistic? suas próprias versões de santidade, absor-
Publicado em The Journal of Pastoral tos em sucesso ou fracasso — pessoal ou
Practice, v. IX, n. 1, 1992, p. 4-21. de outros — e em autodisciplina, olhando
Edward Welch é diretor da área de para Deus como um tirano que deve ser
aconselhamento da Christian Counseling agradado. Você ainda conhece, provavel-
and Educational Foundation. mente, cristãos que reúnem um pouco de
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ambos os lados: eles vêem a vida cristã Será que o aconselhamento bíblico é
como um legalismo do qual não estão à legalista? Será que o aconselhamento bí-
altura e, portanto, desistem de tentar e blico cria de alguma maneira aconselha-
passam a viver na libertinagem. O dos legalistas? Talvez a melhor resposta
aconselhamento moldado nas Escrituras seja mostrar como o aconselhamento bí-
lida tanto com o legalismo quanto com a blico trata e ajuda os aconselhados
libertinagem. O conselho sábio proclama legalistas.
que o amor e a graça de Deus em Cristo, Esse artigo considera três perguntas
recebidos pela fé, produzem obediência. entrelaçadas. Primeiro, o que é legalismo?
A situação complica-se quando con- Segundo, como você aconselha os acon-
sideramos o cenário atual do aconse- selhados legalistas? As respostas a essas
lhamento. As psicologias de maior acei- duas perguntas permitirão responder a
tação, que estão invadindo a Igreja, ten- uma terceira questão: o aconselhamento
dem à libertinagem de modo geral. Elas bíblico é legalista?
torcem a Bíblia para ajustá-la às “neces-
sidades”, desejos, anseios profundos e Estudo de caso: Karen e seus supos-
exigências de que Deus e Seu universo tos ajudadores
satisfaçam o ego. As psicologias Karen é uma moça solteira de vinte
“cristianizadas” tendem a resistir ao que e seis anos, que procurou aconselhamento
elas interpretam como legalismo, ou seja, apresentando um problema de depressão
a qualquer tentativa de estabelecer a lei com longo histórico, datando da infância,
específica de Deus sobre os seres huma- mas que se intensificara nos últimos cinco
nos.1 Elas costumam definir o processo anos. Proveniente de um lar cristão nomi-
como “cura” ou “satisfação de necessi- nal de classe média, ela era a segunda de
dades”, não arrependimento. Visto que o três filhos (com um irmão mais velho e
aconselhamento bíblico insistiu em afir- um mais novo). Suas memórias mais
mar que a vida cristã é caracterizada por freqüentes da infância eram de uma garo-
fé, arrependimento e obediência, ele foi tinha que tentava agradar ao pai, sem nun-
visto como legalista pelos psicólogos cris- ca conseguir. Uma lembrança particular-
tãos. Os conselheiros bíblicos percebe- mente viva era a do pai, um bebedor
ram com exatidão que o objetivo do inveterado na época, batendo em Karen
aconselhamento deve ser produzir boas sem razão aparente enquanto ela se en-
obras em obediência à vontade revelada colhia em um canto. No esforço tanto de
de Deus. Isso tem sido freqüentemente agradar ao pai, como de parar com a sur-
mal-interpretado nas críticas dos psicó- ra, Karen começou a gritar “Papai, eu sou
logos e identificado como legalismo. Es- má, eu sou má”, e a surra parou. Curiosa-
sas críticas acusam que os conselheiros mente, à medida que Karen relembrava
bíblicos não apenas falham na ajuda aos aquele evento, ela percebeu como ele
aconselhados legalistas, mas promovem, marcou seu estilo de vida. Muito de sua
na verdade, o legalismo. vida foi gasta aterrorizada pelo senso de
que algo horrível aconteceria ou, então,
1
Veja, por exemplo, Graça de Deus e Saúde envolvida na prática de um ritual de peni-
Humana, de Harold Ellens (São Leopoldo: tência quando ela sentia que não estava à
Sinodal, 1982). altura do esperado.
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Na adolescência, Karen depositou o psiquiatra trabalhou durante meses com
sua fé em Cristo e demonstrou certo cres- Karen para desenvolver uma transferên-
cimento cristão. Em seguida, ela foi para cia que pudesse ajudá-la na cura. Seu
a faculdade de administração e se saiu alvo era que pelo processo de transfe-
muito bem. Durante a faculdade, Karen rência Karen chegasse a um novo senso
era uma trabalhadora dedicada, com pa- de propósito à medida que fosse capaz
drões morais altos em todas as áreas da de dizer basicamente: “Eu quero ser como
vida. Foi em seu primeiro emprego que os meu terapeuta/pai”. Karen, entretanto,
problemas apareceram. Embora ela fizes- não respondeu bem ao processo. Pelo
se bem o seu trabalho, algumas práticas contrário, ela se tornou cada vez mais ira-
não-éticas do seu supervisor imediato cul- da com o psiquiatra, acreditando que ele
minaram na demissão de Karen. No final, a superestimava e que sua atuação era
ela foi isentada de culpa e seu chefe foi inútil.
demitido; entretanto, o incidente a jogou Karen começou a procurar compre-
em uma espiral de depressão. O proble- ensão e ajuda em sua igreja. Lá, ela en-
ma: ela se sentia um zero à esquerda caso controu três diferentes tipos de conselhei-
falhasse em estar à altura das expectati- ros. Seus amigos mais próximos ofereci-
vas dos outros, e essas expectativas eram am-lhe bastante apoio e empatia. Eles a
de que ela deveria ser um sucesso total no ouviam durante horas, aceitando sua ira
trabalho. Um problema secundário era que e simpatizando com seus sentimentos de
o dinheiro havia-se tornado uma maneira fracasso e depressão. Porém, sua depres-
de obter controle, segurança e prestígio, e são crescia ainda mais. Os “exortadores”
perder seu emprego significava uma per- da igreja também se envolveram. Eles
da temporária da renda. Em outras pala- ouviam o que Karen tinha a dizer, mas
vras, embora ela tivesse depositado sua tentavam lhe dar instruções. Exortaram-
fé em Cristo, muitas coisas competiam na a ter mais fé e esperança, compare-
com a fé. Primeiro, a sua lei egocêntrica cer assiduamente à igreja e às atividades
de que ela tinha que agradar a todos e to- para solteiros, ser mais disciplinada na
dos tinham que estar satisfeitos com ela. leitura bíblica e praticar a gratidão. Esse
Mas tanto Karen como seu chefe tinham aconselhamento era formalmente coeren-
violado essa lei, resultando em depressão te com o que se esperaria de exortação
e ira. Segundo, seu amor sutil pelo dinhei- em um aconselhamento baseado nas Es-
ro e o senso de prestígio e segurança que crituras. Mas ele era simplista e falho
o acompanhava. A perda da renda habitu- tanto na profundidade bíblica como em
al ocasionou ansiedade e reforçou seu sen- passos específicos que ensinassem Karen
so de fracasso e ira. a crescer na fé. Além disso, faltavam-
O pastor de Karen sugeriu que ela lhe três ingredientes essenciais de um bom
procurasse um psiquiatra cristão, que ime- conselho: ele ignorou o coração exigente
diatamente receitou-lhe uma medicação e legalista de Karen; ignorou Jesus e a
anti-depressiva e a diagnosticou como centralidade do evangelho para motivar
“personalidade borderline”. Operando arrependimento e mudança, e também fa-
com um modelo neo-freudiano e acredi- lhou ao fazer da mudança comportamental
tando que os problemas eram muito pro- o fruto do arrependimento. A depressão e
fundos para um aconselhamento bíblico, a ira de Karen apenas aumentaram.
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A essa altura, um casal que havia sido psiquiatra cristão nunca alcançou as ex-
muito influenciado pelos ensinos de liber- pectativas dela. “Ele me superestimava e
tação espiritual envolveu-se no sua atuação era inútil”. Ela ficou irada com
aconselhamento de Karen. Eles sugeriram a igreja local: “Eles pioraram a minha de-
a Karen que seus problemas eram o re- pressão e não entenderam o que eu esta-
sultado de uma batalha espiritual e lhe ex- va passando”. Nem o grupo de apoio nem
plicaram que somente expondo e expul- o pastor ofereceram uma estabilidade su-
sando os demônios haveria esperança de ficiente. Finalmente, Karen tentou o suicí-
mudança. Marido e esposa tiveram duas dio usando uma medicação antidepressiva.
longas sessões com Karen onde eles ten- Após sua desintoxicação no hospital,
taram conduzi-la em uma batalha espiritual Karen consolidou gradualmente uma nova
rumo à libertação. Essas sessões, entre- lei. Inicialmente, a lei de Karen era razoa-
tanto, deixaram Karen confusa e mais velmente pequena: as pessoas tinham que
deprimida. estar satisfeitas com ela. Se não estives-
Karen acreditava que sua única es- sem, ela ficaria deprimida e irada. Agora,
perança seria o pastor, uma figura ideali- entretanto, sua lei tornou-se maior e mais
zada cuja aceitação paternal tornou-se uma exigente: “As pessoas devem satisfazer as
corda de salva-vida. Karen via nele um minhas necessidades”.
deus, fundamentando sua identidade pes- Uma confusão complexa de proble-
soal nas opiniões e na aceitação do pas- mas. Karen experimentava um senso
tor. No aconselhamento, o pastor evitou difuso de fracasso, ansiedade constante
usar a Bíblia porque ele cria que a ênfase e depressão, um desejo de controle, uma
da Bíblia em obediência apenas aumenta- ânsia insaciável por aprovação, uma con-
ria a culpa e o perfeccionismo de Karen, vicção de que ela era extremamente ne-
aprofundando sua depressão. Além disso, cessitada, uma ira que podia se tornar
reconhecendo a dependência de Karen, raiva. Ela vivia em um mundo onde to-
sugeriu gentilmente que ela considerasse dos usavam uma máscara de seu pai (a
participar de um grupo de apoio para fi- quem ela queria tanto julgar como agra-
lhos adultos de alcoólatras e co-dependen- dar). Ela estava constantemente irada e
tes. Embora tenha participado do grupo de era crítica para com todos, exceto aque-
apoio apenas três vezes, ela começou a les que ela transformava temporariamen-
falar sobre suas “feridas interiores” e “ne- te em uma figura idealizada, cuja apro-
cessidades de amor não satisfeitas”. vação a ajudava a cumprir sua lei de ser
O problema apresentado por Karen perfeita e bem sucedida. Ninguém con-
era depressão, mas a depressão não era a seguia satisfazer suas expectativas.
totalidade de sua experiência. Sua vida Além do mais, ela parecia fechar a por-
tornou-se cada vez mais cheia de ira e ta para a maioria das questões espiritu-
reclamações. Ela alternava entre se dei- ais ao dizer que, mesmo tendo lutas oca-
xar consumir por um senso de fracasso sionais, ela estava orgulhosa com o fato
pessoal e um senso de ira diante das fa- de que havia atravessado períodos difí-
lhas dos outros para com ela. Ela estava ceis com sua fé ainda intacta. Como re-
desanimada consigo mesma: “Eu fracas- sultado, Karen resistiu à maioria das su-
sei”. Ela estava irada com seus chefes: gestões de que havia raízes espirituais em
“Eles me traíram”. Sua ira aumentava. O seus problemas.
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Resumindo, Karen apresentava um ções. Se houvesse obediência, Deus pro-
paradoxo peculiar. Por um lado, havia ele- metia bênção e vida; se houvesse desobe-
mentos dramáticos em sua história. Ela diência ou rebeldia, Ele advertia da morte.
fora tratada duramente pelo pai: ansiou ser Mas Deus, o Rei Divino, fez uma ali-
amada por ele, porém nunca recebeu amor. ança diferente de qualquer outro acordo
Ela havia sido traída em seu trabalho: tra- da antiguidade. Em um ato de amor sem
balhou com afinco, mas foi demitida. precedentes, Deus prometeu tomar para
Karen aprendeu como os modelos da Si as maldiçoes da infidelidade (cf. Gênesis
psicoterapia e da psicofarmacologia expli- 15, Isaías 53). Se houvesse desobediên-
cavam e solucionavam seus problemas. A cia, Ele pagaria o preço final. Deus pro-
terapia reforçou a autopercepção de que veria o cordeiro para ser sacrificado. Isso
ela era fundamentalmente necessitada e é exatamente o que Jesus fez. Por meio
traumatizada; a medicação a deixou per- da sua “obediência passiva”, Ele quebrou
suadida de que sua depressão era biológi- a maldição da morte para os pecadores.
ca. De fato, Karen havia sido abusada, O tribunal de Deus tem um meio de punir
traída e enganada. Mas sua história era o pecado e de perdoar ao mesmo tempo
mais do que tragédia. Havia também ele- (Rm 3.26). Além disso, por meio de sua
mentos de responsabilidade pessoal. Ela “obediência ativa”, Jesus cumpriu a lei em
era uma mulher que colocou muitas exi- nosso favor. O tribunal de Deus tem um
gências nos outros, em Deus e em si meio de nos dar a excelência — o desem-
mesma. Karen era uma legalista orgulho- penho de Jesus.
sa. Essas promessas amorosas e graciosas
Contra esse pano de fundo da natu- certamente não aboliram a lei. Pelo con-
reza complexa dos problemas pessoais, trário, elas destituíram a lei do seu poder
das críticas ao aconselhamento bíblico e condenatório sobre os pecadores compra-
dos usos simplistas da Bíblia no dos pelo sangue do Cordeiro de Deus. Elas
aconselhamento, examinaremos o ensino deram ao povo de Deus a liberdade de
bíblico sobre legalismo. seguir a lei de todo coração e sem medo.
Mas os usos da lei bíblica foram rapida-
O tribunal de Deus e a bondade da lei mente distorcidos. Desde que Deus esta-
Para entender o legalismo precisa- beleceu Sua aliança graciosa, as pessoas
mos entender a linguagem legal que a Bí- têm preferido olhar para a justiça que vem
blia usa e sua coerência com o funciona- de manter a lei ao invés de olhar para a
mento do coração humano. A metáfora do graça. Temos um instinto farisaico de co-
tribunal é uma das que predominam nas locar de lado “os mandamentos de Deus”
Escrituras. No começo do Antigo Testa- e segurar as “tradições dos homens” (Mc
mento, somos conduzidos ao tribunal divi- 7.8). Identificado como “obras da justiça”
no onde Deus fez um acordo legal ou ali- ou “legalismo”, esse é um exemplo de
ança com o Seu povo. Deus disse: “To- como o pecado toma posse de algo honra-
mar-vos-ei por meu povo e serei vosso do e santo (a lei) para transformar em um
Deus” (Ex 6.7). Esse acordo tinha certos veículo de auto-adoração.
requisitos. O povo deveria imitar a Deus e Significados diferentes têm sido atri-
ser santo porque Deus era santo. A alian- buídos à palavra “lei”, o que requer que
ça legal também trouxe bênçãos e maldi- sejamos cuidadosos ao definir aquilo de que
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estamos falando. “Lei” é um termo bíbli- cer algum grau de favor divino. A base do
co, que pode ter uma aplicação louvável legalismo é o desempenho humano: “Eu
ou abominável. Quatro diferentes signifi- posso fazer isso”. A fórmula do legalismo,
cados do termo se destacam. Primeiro, que geralmente aparece só na prática e
“lei” refere-se à lei moral, universal e per- não em uma crença declarada, é “justifi-
manente. Resumida por “ame a Deus e cação = fé + lei”. No contexto de Gálatas,
ao seu próximo”, essa lei é algo santo e a fórmula era “justificação = fé + circun-
bom porque revela o caráter de Deus e cisão” (cf. Gl 5.2,4).
Seu conselho sábio e verdadeiro. Assim, o À primeira vista, a repugnância do
salmista diz: “Com efeito, os teus teste- apóstolo Paulo por esse mau uso da lei é
munhos [leis] são o meu prazer, são os assustadora. Afinal de contas, os legalistas
meus conselheiros” (Sl 119.24). têm um bom desempenho e suas vidas são
Segundo, a “lei” é o tutor que nos leva raramente pontuadas por imoralidade gra-
a Cristo. Ao revelar o caráter e o conse- ve. Ainda assim, Paulo afirmou, sem equí-
lho de Deus, a lei revela o caráter do ho- vocos, a inadequação total da lei como for-
mem: “De maneira que a lei nos serviu de ma de salvação. Em Gálatas, após uma
aio para nos conduzir a Cristo, a fim de breve saudação, ele logo acrescentou: “Eu
que fôssemos justificados por fé” (Gl 3.24). estou espantado com o que vocês estão
Sem a lei, teríamos apenas uma vaga cons- fazendo”. Quanto aos pregadores da cir-
ciência da santidade de Deus e da nossa cuncisão, ele gostaria que “se mutilassem”.
pecaminosidade. Sentiríamos pouca neces- Por que Paulo considerou o legalismo tão
sidade de um salvador. A lei deixa claro o ofensivo?
nosso fracasso e nos leva a encontrar nos- A indignação de Paulo surgiu do seu
sa justiça somente em Cristo. discernimento quanto às maquinações do
Um terceiro uso do termo “lei” diz coração legalista. A pressuposição implíci-
respeito ao cerimonial mosaico cumprido ta do legalismo é que, na verdade, temos
em Jesus. Essa é uma variação do tema alguma justiça inata, como se fôssemos
da lei como tutor. As leis cerimoniais, tais moralmente fracos ao invés de rebeldes
como o sistema de sacrifício e a circunci- incorrigíveis que necessitam de graça. Ape-
são, enfatizavam a santidade de Deus, Seu sar de ser sutil e às vezes ter um aspecto
ódio pelo pecado e Sua misericórdia. Elas muito religioso, há uma profunda arrogân-
prefiguravam o Sumo Sacerdote, que fa- cia no coração legalista. Portanto, não deve
ria um sacrifício final pelo pecado e a cir- nos surpreender que o apóstolo Paulo de-
cuncisão do coração. Quando Jesus com- nunciasse duramente o legalismo. Enten-
pletou Sua expiação pelo pecado, o pro- dendo a corrupção do pecado em sua ple-
pósito daquelas leis concretizou-se. As leis nitude e apreciando a expiação definitiva
cerimoniais foram abolidas em Cristo. de Jesus, ele não poderia tolerar o orgulho
que presume que podemos trabalhar pela
Um tribunal de nossa autoria: o nossa justiça. Ele deixou claro que estar fir-
legalismo orgulhoso mado em Cristo e em nossas próprias obras
Um quarto e último uso da palavra não proporciona firmeza alguma e não passa
lei é como sinônimo de legalismo. É a prá- de um eufemismo para justiça própria.
tica insidiosa de usar a lei como uma for- O orgulho ateou a depressão de
ma para atingir a justiça própria e mere- Karen. Por trás do seu senso de fracasso
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estava a expectativa traduzida por “Eu desespero. Miller comentou com perspi-
posso fazer isso”. Embora ela continuas- cácia a penitência em nossos dias.
se a proclamar sua fé em Cristo, na práti- A penitência não é meramente
ca Jesus era um acréscimo ao seu senso um sacramento da Igreja Católica
pessoal de mostrar-se à altura da lei. Ela Romana. Pelo contrário, é uma ati-
buscou propositada e instintivamente adi- tude religiosa profundamente
cionar sua obra à obra completa de Cris- enraizada no coração humano que
to. Entretanto, seu novo e distorcido siste- motiva os homens a tentar pagar pe-
ma legal era muito diferente da lei de Deus. los seus próprios pecados por meio
Para que fosse possível cumprir a lei, Karen de suas boas obras e sofrimentos....
a reduziu a um código comportamental a O homem que faz penitência está
ser seguido, divorciado da fé dependente tristemente equivocado. As coisas
em Deus. Ela reconfigurou o tribunal divi- não podem dar certo para ele. Ele
no. Na função de legislador, Karen esta- não pode pagar pelos seus pecados
beleceu uma série de padrões funcionais: porque envenena todos os belos dons
ganhar certa quantia de dinheiro, ser res- de Deus....Em seus sentimentos mais
peitada profissionalmente, ser cortês mes- secretos, ele é orgulhoso – infinita-
mo estando muito irada com a outra pes- mente orgulhoso – talvez sem ter a
soa, ser apreciada pelos outros e assim por menor idéia de seu problema básico.2
diante. Karen também incluiu a lei bíblica, A penitência é o princípio operante
mas sua reconfiguração dos Dez Manda- central no tribunal do legalismo.
mentos e da lei do amor a convenceu de O legalismo não traz apenas implica-
que o seu desempenho estava conforme o ções pessoais, mas também sociais. Por
que Deus tencionava. exemplo, o princípio “se eu falhar, eu pago”
O legalismo, entretanto, complica é seguido de perto por “se você falhar,
nossas vidas imensamente. O tribunal de- você paga”. Dessa forma, Karen sancio-
turpado, onde nós somos os legisladores, nou um julgamento em forma de depres-
não nos permite sermos legalistas “bem- são para ela mesma e um julgamento em
sucedidos” para sempre. Karen não po- forma de ira para aqueles que falharam
dia nem estar à altura de suas leis. Ela com ela. Ela acreditava que os outros eram
permanecia condenada; ela era uma fra- devedores para com ela: seu pai devia-lhe
cassada. Com o verdadeiro evangelho re- amor; seu chefe devia-lhe um pedido de
legado a uma condição de mero desculpas, seu psiquiatra devia-lhe uma
expectador, Karen descobriu um outro terapia perfeita e sua igreja devia-lhe acei-
princípio em seu tribunal: “Se eu falhar, eu tação, entendimento e aconselhamento
suporto ou eu conserto. Eu devo pagar perfeitos. Uma vez que a lei estava cons-
pelos meus próprios pecados e fracassos”. tantemente na mente de Karen, pronta
No novo tribunal, em lugar do arrependi- para julgar, ela era aplicada como regra
mento que confia na misericórdia da cruz, também nos relacionamentos pessoais. De
o fracasso deve ser acompanhado por uma fato, a autorização para julgar os outros,
penitência centrada no homem. No caso
2
de Karen, a própria depressão se tornou Miller, C.J. Repentance and Twentieth Cen-
uma forma de penitência. Isto é, ela con- tury Man, Fort Washington, PA: Christian Lit-
sertaria seu fracasso pelo sentimento de erature Crusade, 1980, p. 19-20.
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especialmente seu pai, era a principal “gra- antigo pelo menos queria a retidão diante
tificação” que tornava o legalismo tão atra- de Deus! O novo legalismo secularizado
ente para Karen. Era como se Karen es- quer a retidão diante de mim mesmo! Mas
tivesse disposta a aceitar as dificuldades o diagnóstico bíblico e a dinâmica central
de viver sob a lei enquanto ela pudesse são os mesmos. As pessoas ainda querem
colocar os outros em uma posição seme- encontrar algo em si mesmas em que pos-
lhante. sam se gloriar e confiar.
Essas são as qualidades essenciais No caso de Karen, ser justificada
do tribunal reconfigurado, legalista: (1) o perante Deus para louvar Sua glória não
coração orgulhoso nega a obediência ativa era a motivação predominante. Embora
a Cristo e diz: “Eu posso fazer isso”; (2) sua profissão de fé subsistisse, ela se co-
as leis de Deus são destituídas de seu po- locou em um papel central em todos os
der ilimitado e novas leis são adicionadas; aspectos do drama do tribunal. Seu objetivo
(3) a obediência expiatória de Cristo é era ser respeitada, admirada e adorada
substituída pela auto-expiação legalista que pelos outros. Ela queria se sentir bem con-
diz: “se eu falhar, eu pago”, e (4) em lugar sigo mesma. Sua vida resumia-se assim:
da ira de Deus como o verdadeiro Juiz, o “Sentir-me bem comigo mesma = estar à
legalista traz julgamento e ira sobre os altura de todas as leis (especialmente as
demais, lembrando-os de que “se você minhas e as dos outros)”. Com isso, seu
falhar, você [me] paga”. Esses princípios tribunal deturpado estava completo. A voz
apareceram em todos os tribunais de Deus não era mais claramente audível.
legalistas, desde os tempos do Antigo Tes- A equação legalista dominava a vida de
tamento até o presente. Entretanto, pare- Karen.
ce ter havido algum desenvolvimento des-
sa tradição em nossos tempos O reino da escuridão
psicologizados. Talvez estejamos testemu- Uma das características mais notá-
nhando um desenvolvimento do legalismo veis do legalismo é ser imperceptível ao
judaico “religioso” para um legalismo se- legalista. Os legalistas tendem a ser ce-
cularizado. gos ao próprio legalismo. As pessoas nun-
Na nossa atual cultura psicologizada, ca procuram aconselhamento chamando
aconteceu uma secularização da equação o seu problema de legalismo obstinado;
legalista. Muitas pessoas não reconhece- legalismo parece ser sempre o problema
rão a si mesmas na fórmula “justificação = de outra pessoa ou de outra igreja. Em
fé+ ______”, pois a justificação foi substi- parte, trata-se do resultado da tendência
tuída por um contentamento psicológico. A legalista de seguir as leis de autoria pes-
justificação perante Deus tornou-se secun- soal. Por exemplo, Karen vê a si mesma
dária a um desejo de significado, identida- como trabalhadora – e, de fato, ela é uma
de, auto-estima, propósito, prazer ou felici- moça trabalhadora. Ela vê a si mesma
dade. A fórmula foi reduzida a essa versão: como alguém que guardou a sua fé em
“sentir-me bem comigo mesmo = desem- circunstâncias difíceis – e, de fato, ela a
penho pessoal ou a maneira como os ou- guardou à medida que continua a declarar
tros satisfazem minhas necessidades”. Isso verbalmente sua fé em Cristo. Quando
certamente parece um eco distante do tema essas leis e outros estatutos possíveis de
do legalismo do apóstolo Paulo. O legalismo serem cumpridos passam a fazer parte do
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nosso código, pouco a pouco chegamos a al dos legalistas. Mas o uso que Paulo
acreditar que somos pessoas moralmente faz do termo escravidão lembra-nos de
boas que ocasionalmente fazem coisas que o legalismo não é apenas uma re-
más. Com esse fundamento, Karen não beldia orgulhosa; é também uma servi-
tem uma necessidade prática de Jesus. dão lastimável. Enquanto os legalistas
Ainda há uma outra razão para sua ce- reconfiguram a lei ao seu próprio gosto,
gueira aparente. O que Karen e outros embora sem um propósito deliberado,
legalistas experimentam é uma escuridão eles estabelecem um sistema ao qual
que revela a natureza cegante e secreta eles mesmos devem servir. Karen deve
do pecado. ser agradável às outras pessoas... às
A verdade é que o legalismo é uma pessoas desagradáveis! Isso é uma es-
praga que afeta a todos nós. Cada um cravidão horrível. Além do mais, junto
de nós tem alguma tendência remanes- com as conseqüências das suas própri-
cente de “querer estar sob a lei” (Gl as leis, eles mantêm uma percepção,
4.21). O legalismo é uma “tentação que embora abafada, da natureza divina de
é comum ao homem” (1 Co 10.13). Ele Deus e uma consciência acusadora (Rm
não é eliminado por ocasião da conver- 1.18-29; 2.15). Vivem diante de um tri-
são. Embora sejamos pecadores perdoados bunal. Logo descobrem que estão cer-
e capacitados para lutar contra o peca- cados por padrões (deles mesmos, de
do, nossos pecados continuam a se ma- outros ou de Deus) que eles nunca con-
nifestar. Uma forma persistente de seguem atingir. O pecado do legalismo
pecado é procurar alguma justiça fun- engana; ele promete liberdade pela lei,
damental em nós mesmos, mesmo que mas ele nos mantém prisioneiros e nos
seja só um pouco de justiça. A verdadei- escraviza; ele distribui miséria. Ficamos
ra lei e o evangelho estão em constante sozinhos, presos e tomados pelo medo
batalha com nosso desejo de glória pes- (Rm 8.15). Conforme Gálatas mostra, o
soal que surge de uma justiça legalista. legalismo deixa-nos escravos ao invés
Implícita na graça que recebemos está de nos fazer filhos. Com essa perspec-
a necessidade constante de nos humi- tiva adicional do legalismo, os conselhei-
lharmos perante Deus (Mt 5.3). O or- ros agora têm duas perspectivas sobre
gulho residual que há em todos nós con- os legalistas – eles são rebeldes e são
tinua a estremecer diante dessa idéia. escravos – e ambas as perspectivas são
Portanto, o legalismo está tecido na necessárias para que se tenha uma
malha de todo pecador; todos nós vive- metodologia de aconselhamento repleta
mos em níveis diferentes de cegueira a tanto de verdade como de compaixão.
ele. Como podemos vê-lo e nos arrepen- À primeira vista, a escravidão pode
der? Freqüentemente, ele pode ser de- não parecer uma boa maneira de expli-
tectado ao notar algumas das suas con- car a experiência humana. Afinal, a maioria
seqüências mais óbvias. Os legalistas po- de nós nunca testemunhou a escravidão.
dem reconhecer uma experiência à qual Entretanto, nossa linguagem é salpicada
o apóstolo Paulo se refere como escra- de imagens de escravidão. Por exem-
vidão (cf. Gl 2.4, 5.1). Essa metáfora plo, considere como as seguintes expe-
de escravidão pode inicialmente confun- riências associadas à escravidão estão
dir à luz da postura de exaltação pesso- presentes em nossa sociedade:
Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4 36
- O medo reina. que encontram expressão no viver diário,
- A intimidade é impossível. contrariando as proposições teológicas de-
- Não se pode confiar em ninguém. claradas. A figura 1 resume a natureza e as
- Não há segurança nem esperança. conseqüências do legalismo.
- A punição e a condenação O legalismo contém dois aspectos. O
assomam-se. legalismo “bem-sucedido” (n.1, Figura 1) diz
- O chefe nunca está satisfeito. “Eu estou OK”. O legalismo “mal-sucedi-
Devemos ser orientados para o do” (n.2, Figura 1) diz “Eu não estou OK”.
desempenho. Ambos costumam estar presentes. As pes-
- Há um senso de impotência. soas encontram simultaneamente significa-
- A escravidão, na forma de vários do pessoal e justiça própria ao satisfazer os
vícios, sobeja. requisitos de suas leis distorcidas; também
- A dor pode ser evitada apenas por manifestam depressão, desespero ou falta
meio de algum escape (como as drogas). de esperança à medida que sabem que não
- Você deve se associar às pessoas atingem os padrões dos outros ou a verda-
certas. deira lei de Deus.
Note como a penitência, um dos prin- Legalismo Frutos do Legalismo
cípios do legalismo, ajusta-se com facilidade n.1 Superioridade
ao contexto maior de escravidão. Os Eu tenho vivido à altura dos Ira
Espírito crítico
requisitos da minha lei (Mc
legalistas/escravos acreditam que devem 7:8). Portanto, eu mereço Perfeccionismo
__________, e eu julgarei Autoconfiança
pagar qualquer dívida de desobediência ou aqueles que não estão à
altura.
imperfeição. Como resultado, eles praticam
n.2 Desespero
a penitência em lugar do arrependimento. Na Eu não tenho vivido à altura dos Miséria
padrões dos outros ou de Deus. Raiva
penitência, o orgulho toma várias formas, Portanto,
(a) as outras pessoas também
Inveja
Anorexia / Bulimia
algumas das quais até parecem religiosas: não estão à altura,
(b) eu farei penitência, e/ou Medo do fracasso
Temor ao homem
remorso pelo pecado, depressão, fracasso (c) eu buscarei a afirmação dos
outros e farei uma figura Inferioridade
proposital ou mesmo suicídio. No entanto, idealizada (isto é, um deus)
daqueles que me afirmarem
“Co-dependência”

sua raiz ainda é o compromisso com a justi- melhor.

ça-própria em lugar da fé depositada em Figura 1 – Um Modelo de Legalismo


Cristo. A lista de “frutos” do legalismo certamente
A penitência, como a escravidão, tam- não é exaustiva, mas realça as conseqüên-
bém inclui o aspecto duplo do pecado. De cias comuns do legalismo moderno. Consi-
um lado, a penitência prova a falsidade do dere o perfeccionismo. Peça a um grupo de
coração que exalta a si mesmo e expõe o cristãos para lhe dizer como eles são como
orgulho que crê na justiça pelas obras; mas pessoas. Sem dúvida, você ouvirá
por outro lado, a penitência é uma condição “perfeccionista” como um traço comum. O
muito triste. Os penitentes estão cegos às significado pode variar. Por exemplo,
verdades sobre eles mesmos e Deus. perfeccionismo pode significar simplesmen-
te que uma pessoa gosta de fazer seu traba-
Um modelo de legalismo lho o melhor possível. Freqüentemente, po-
O legalismo é uma expressão univer- rém, é um resumo de uma crença legalista
sal de orgulho que opera de acordo com cer- subjacente que diz: “Meu fundamento na
tos princípios e tem várias conseqüências. É vida é igual a fé mais obra sem erro (ou
a raiz para uma multidão de lutas modernas ser visto como alguém bem-sucedido)”.
37 Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4
“Perfeccionista” pode ainda significar que outros. Em outras palavras, em seu orgu-
eu sou muito exigente comigo mesmo e com lho elas devem fazer algo para encontrar
outros ou altamente crítico do fracasso. Nes- uma identidade nelas mesmas, independen-
se caso, o perfeccionismo é apenas uma temente da graça de Deus. Como os
palavra moralmente neutra para legalismo. fariseus, elas estão substituindo o evange-
Como esse perfeccionismo poderia se ma- lho pelo seu desempenho e pela aprova-
nifestar? Sintomas comuns incluem transtor- ção humana.
nos alimentares e depressão. A linguagem que usamos revela
O medo do fracasso é um outro sinal de freqüentemente o legalismo. Por exemplo,
legalismo. Na verdade, nenhum outro tema considere as seguintes frases:
nas Escrituras descreve tão bem a experi- “Eu tenho o direito de
ência de medo do fracasso quanto o _____________________”.
legalismo. O medo do fracasso aponta para “Eu dei duro para fazer o que é certo;
uma preocupação com nosso desempenho não sei por que Deus permite esse
e reputação. Ele revela uma teologia que diz: sofrimento na minha vida”.
“Eu devo estar à altura do esperado para “Eu o perdoarei quando ele começar
que eu possa encontrar significado pessoal a agir de maneira diferente”.
em mim mesmo. Além disso, eu devo estar Quase todas as vezes que você ouve es-
à altura do esperado para que os outros pen- sas expressões, o orgulho legalista é a for-
sem que eu sou bem-sucedido”. ça motivadora. As pessoas sentem como
A barganha sutil com Deus e a ira re- se tivessem algum direito adquirido. Elas
sultante também são sinais de que o orgu- acreditam que já satisfizeram os requisi-
lho do legalismo está à espreita abaixo da tos da lei e, como resultado, sentem-se no
superfície. “Eu sou um dizimista fiel. Como direito de julgar aqueles que falharam para
o Senhor poderia deixar os meus negócios com elas ou suas leis.
fracassarem? O Senhor está em dívida Uma outra linguagem reveladora co-
para comigo”. “Eu irei ao campo missio- munica o senso de que algo ou alguém está
nário se o Senhor me der uma esposa”. acima da pessoa, julgando implacavelmen-
Essas declarações refletem uma crença te, sem conceder graça alguma.
subjacente de que as pessoas têm alguma “A vida é uma obrigação constante”,
justiça nelas mesmas com a qual elas po- “Eu sou um fracasso”,
dem barganhar com Deus. “Eu não consigo estar à altura das ex-
As pessoas críticas são facilmente pectativas dos meus pais”,
entendidas pelas lentes do legalismo. Tais “Eu não agüento a pressão”,
pessoas reivindicam estar à altura de al- “Estou cansado, pressionado”.
gum padrão legalista. Suas obras de justi- Esses não são os únicos sinais que in-
ça as colocam em uma posição em que dicam a presença do legalismo. Com cer-
elas se sentem autorizadas para julgarem teza, o legalismo pode ser um componen-
os outros. te na maioria dos problemas espirituais.
A idéia atual de “co-dependência” pode Suas possíveis manifestações são inúme-
ser reformulada biblicamente como uma ras. Mas quando essas experiências ou
forma de legalismo. As pessoas co-depen- comportamentos estão presentes, os con-
dentes são descritas como aquelas cujo selheiros perceptivos dirão que o diagnós-
autoconceito está ligado às opiniões dos tico bíblico de legalismo “parece certeiro”
Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4 38
e condiz com as experiências descritas. forma de obras. Não somos salvos pela
Esse diagnóstico provê um meio sob me- qualidade ou quantidade da nossa fé. A fé
dida para conduzir os aconselhados a uma em si mesma não é a base ou a causa da
fé viva em Cristo e à liberdade para obe- justificação; ela simplesmente aponta para
decer. Aquele em quem a justificação repousa.
Conforme Martinho Lutero escreveu em
Um modelo de fé seu comentário de Gálatas, nós somos re-
Contraposta a esse pano de fundo, a cipientes de uma “justiça passiva”. A fé
fé destaca-se com todo vigor. A fé e seus não deixa espaço para nos orgulharmos
sinônimos — o amor a Deus, a segurança de nós mesmos e da própria fé. Além do
em Deus, a confiança em Cristo, a obedi- mais, a fé em si é um dom de Deus; ela
ência a Deus, o serviço a Deus e o temor não surge dos nossos insights.
do Senhor – opõem-se ao legalismo. O Da mesma forma que o legalismo e a
legalismo inclina-se para a autoconfiança, escravidão andam juntos, a fé é compa-
glorificação de si mesmo e autojustificação, nheira inseparável da liberdade e da
enquanto que a fé centraliza a cruz de filiação. A filiação é o contraste predileto
Cristo e o poder do Espírito Santo. A fé de Paulo para a escravidão do legalismo.
opõe-se aos esforços distorcidos da justi- Aqueles que eram escravos da lei rece-
ça legalista. Ela permite que a lei seja um beram agora “a adoção de filhos.... De
tutor que nos conduz a Cristo. A fé está sorte que já não és escravo, porém filho;
baseada no poder e no desempenho de e, sendo filho, também herdeiro por Deus”
Deus (cf. Rm 4.18-22). Ela se regozija (Gl 4.5,7). A justaposição é dramática. A
com o fato de que todas as dívidas foram experiência de um filho adotivo inclui:
pagas na cruz e todos os padrões da lei — Um relacionamento permanen-
foram atingidos por Jesus. Isso nos dá li- te caracterizado pelo amor;
berdade para vermos nosso pecado, — a aceitação baseada no desem-
arrependermo-nos e seguirmos em frente penho de Cristo, não no nosso;
no poder do Espírito. — perdão ao invés de retribuição;
A fé é o conhecimento que passa a — ser conhecido e entendido;
ser convicção, e a convicção que — a promessa de coisas maiores
passa a ser confiança. A fé não (uma herança eterna), que elimina a
pode recusar um compromisso com necessidade de uma preocupação
Cristo, uma transferência da confi- com o futuro;
ança em nós mesmos e em todos — transformação à imagem do Fi-
os recursos humanos para uma con- lho operada pelo Espírito que habita
fiança somente em Cristo para a sal- nos filhos de Deus;
vação... é o engajamento de uma Em contraste com a escravidão da pe-
pessoa com outra Pessoa, o nitência, o estilo de vida da fé/filiação é
engajamento do pecador perdido caracterizado pela liberdade do arrepen-
com a pessoa do Salvador capaz e dimento. De fato, o arrependimento e a fé
disposto a salvar... não é simples- caminham juntos; ambos incluem dar as
mente acreditar nele; é crer e con- costas ao próprio eu e encontrar miseri-
fiar nele.1 córdia somente em Cristo. A fé pressupõe
A fé não é simplesmente uma outra uma dissuasão com respeito ao pecado e
39 Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4
uma ênfase na confiança em Cristo e Sua crítica e ficar irada com aqueles que não
obra completa; o arrependimento pressu- tinham um desempenho à altura do espera-
põe uma confiança em Jesus e uma ênfa- do.
se na dissuasão com respeito ao pecado. Como uma legalista mal-sucedida (n.2,
Em contraste com a penitência, o arrepen- Figura 1), Karen viveu as conseqüências
dimento tem por motivação o senhorio de de seu pecado. Ela sabia que não estava à
Jesus e como ponto final a pessoa de Je- altura das leis de Deus, das suas leis ou dos
sus, nunca nós mesmos. Enquanto a peni- padrões que as outras pessoas tinham es-
tência revela uma atenção centrada no pró- tabelecido para ela (pai, professores, che-
prio eu, o arrependimento é caracterizado fes, líderes da igreja etc). Em lugar de ir à
por uma visão de Cristo que é maior do cruz de Cristo, pela fé, e saber que a lei
que a visão do nosso próprio pecado (cf. condenatória foi abolida, ela escolheu um
Is 6.1-8). E enquanto a penitência culmi- caminho centrado nela mesma: (a) encon-
na em escravidão e miséria, o arrependi- trou em seu fracasso a autoridade para jul-
mento culmina em alegria (veja Figura 2). gar os outros; (b) usou sua depressão como
forma de penitência ou auto-expiação; de-
Fé Frutos da Fé
pressão era a sua expressão adulta de “Pa-
Eu não estou à altura da Liberdade pai, eu sou má”, de forma que tendo expia-
glória de Deus; Alegria
portanto, colocarei minha Amor do seu fracasso por meio da depressão, ela
esperança em Jesus, o Paciência
Único capaz de um Bondade poderia julgar os outros; (c) para “sentir-se
desempenho Domínio-próprio bem consigo mesma”, buscou sua identi-
à altura, em meu favor. Humildade
Tratarei os outros como dade em outras pessoas. Aqueles que
tenho sido tratado em
Cristo. estavam prontos a lhe oferecer afirmação
Eu não serei mais um tornaram-se figuras idealizadas, ou seja, as-
legislador nem um juiz.
sumiram o lugar de Deus.
Figura 2 – Um Modelo de Fé Como forma de lidar com a resistência
Aplicações de Karen para enfrentar a verdade, o con-
Karen certamente se encaixa no qua- selheiro investiu tempo no entendimento de
dro legalista. O conceito de legalismo reu- sua história. Sem dúvida, o pai de Karen
niu seus sintomas de ira e depressão em havia pecado contra ela, e era importante
um tema bíblico maior. que ela conhecesse a perspectiva de Deus
Como uma legalista bem-sucedida (n.1, a respeito dela como alguém que tinha sido
Figura 1), Karen reformulou continuamen- oprimida ou vitimada. Na verdade, era algo
te a lei até que ela se tornou um código novo para Karen descobrir que Deus vinha
aparentemente possível de ser cumprido: ao seu alcance como um Deus de compre-
“Seja inteligente, cortês (mesmo que você ensão e compaixão pelos aflitos, bem como
odeie a pessoa), profissionalmente respei- um Deus que julgaria os pecadores com
tada, financeiramente estável, responsável, justiça. Isso começou a derrubar as suas
bem vestida e dona do controle”. O cum- perguntas acusatórias sobre a razão de
primento dessas leis, dentro de um modelo Deus “permitir” o comportamento pecami-
comportamental, garantiu-lhe um senso de noso do pai.
significado pessoal e afirmação por ter um A conversa moveu-se, então, para seu
desempenho à altura do esperado. Portan- senso de fracasso e como Jesus já havia
to, ela estava “autorizada” a ser altamente satisfeito as exigências da lei em seu fa-
Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4 40
vor. A essa altura, porém, ela parecia im- percebeu que seus problemas vinham de
passível. Na verdade, sempre que seu con- uma falta de fé e a libertação poderia vir
selheiro falava da graça de Deus por ela, apenas se ela tirasse os olhos de si mesma
ela ficava absolutamente insensível, pare- e olhasse para Cristo.
cendo indiferente. Por que havia uma apa- Gradualmente, o aconselhamento re-
rente frieza ao encarar verdades tão cheias velou as obras de justiça que estavam por
de vida, especialmente em sua situação? trás da depressão e da ira, levou Karen a
Poderia ser que, na verdade, Karen não encontrar a libertação pela fé e, em segui-
quisesse saber da graça? O conselheiro da, a caminhar rumo à obediência a Deus.
tentou propor essa consideração: “É pos- Karen passou a reconhecer sua carência
sível que haja algo desagradável para você espiritual e a inclinação rebelde do seu
na graça de Deus? Às vezes parece que coração; ela viu que sua depressão e ira
você a evita propositadamente”. Imedia- eram essencialmente expressões legalistas
tamente, em um flash de insight sem pre- do seu orgulho. Ela começou a se voltar
cedentes, ela respondeu: “Se eu crer real- para Jesus com confiança humilde e a
mente que Deus me perdoou, então eu abandonar seu compromisso de ser supe-
devo perdoar meu pai – e eu não o farei”. rior ao outros ou confiar em uma figura
Em outras palavras, tomada pelo orgulho, idealizada (um ídolo).
Karen preferia viver sob a lei porque, Em alguns casos, esses insights levam
embora a lei a levasse a uma profunda a mudanças rápidas e radicais. No caso
depressão, também a autorizava a julgar de Karen, o processo foi mais gradual. Por
seu pai ou qualquer outra pessoa que não exemplo, às vezes até mesmo o seu arre-
satisfizesse seu senso de necessidade. Ela pendimento do pecado era deturpado em
conhecia as implicações de confiar em uma estrutura legalista. Quando Karen
Cristo: seria necessário parar de brincar elevou indevidamente o arrependimento à
de Deus. Com esse insight, Karen sabia equivalência da obra de Cristo, sua cren-
que sua batalha não era contra os sinto- ça funcional passou a ser: “Justificação =
mas da depressão. Sua batalha era contra fé na obra completa de Jesus + meu pró-
seu próprio orgulho. prio arrependimento”. Resultado: o arre-
Karen começou a enxergar o legalismo pendimento foi transformado em penitên-
disseminado em sua vida. Embora sua boca cia centrada no homem e a depressão veio
falasse que a justificação perante Deus era logo a seguir. À medida que Karen se
por meio da graça e pela fé, sua vida con- conscientizou dessa tendência, ela passou
tinuava falando de outro modo. De acor- a ficar cada vez menos desanimada. Ela
do com suas ações, ela afirmava: “vida pôde perceber como seria o processo de
verdadeira = atingir certos padrões e ser sua santificação. À semelhança do que
louvada por cumprir esses padrões”. Ela acontece com cada um de nós, sua cami-
viu que sua tendência natural constituía- nhada na fé precisava de exortações diá-
se em abraçar a lei porque, em sua mente, rias (de outros, dela mesma e das Escritu-
apenas o seu desempenho de acordo com ras) para estar ciente do engano do peca-
a lei poderia lhe dar significado pessoal. do, fixar seus olhos em Jesus e servir ao
Nesse contexto de convicção de pecado, Senhor que a amava.
a fé começou a ter um significado central. Houve também um outro bom fruto na
Antes orgulhosa de sua fé, Karen agora vida de Karen. Ela passou a ser muito
41 Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4
menos crítica com seu namorado. Tornou- que penetrou nas profundezas do coração
se rápida para orar quando o medo pare- humano. Ele definiu o legalismo como a
cia esmagador; passou a buscar o perdão tendência humana de manipular e distorcer
pela sua ira ao invés de justificá-la. Ela a lei e o evangelho para atender nossos
perdoou seu pai, os chefes e alguns con- próprios propósitos. Suas muitas variações
selheiros da igreja. Percebeu que havia podem ser geralmente reduzidas à fórmu-
julgado erradamente vários amigos da igre- la: “justificação a meu ver, aos olhos dos
ja, do passado e do presente, e começou a outros ou aos olhos de Deus = obra (no
servi-los em amor. Finalmente, sua depres- caso de incrédulos) ou fé + obras”. A ra-
são foi substituída por fé, amor e alegria zão do legalismo é o nosso orgulho huma-
crescentes. no, enquanto que seu alvo é a justiça pes-
soal, defesa própria ou “valor pessoal”.
Resumo O tratamento do legalismo começou
Será que o aconselhamento de Karen por expor a natureza deturpada do tribu-
foi legalista? Ele enfatizou obediência à cus- nal de Karen e de sua perspectiva de Deus,
ta da graça? Lidou superficialmente com da lei, dela mesma e de Cristo. Em segui-
as questões do seu coração, moldando um da, ele apresentou Cristo como o objeto
fariseu compulsivo? Creio que não. A da fé verdadeira – o Senhor ressuscitado
nouthesis bíblica significa literalmente que pagou a penalidade uma vez por to-
“colocar diante da mente” a Verdade de das. Qualquer tratamento sem esse foco
Deus que dá vida. Essa verdade ensina, explicitamente cristocêntrico é legalista.
convence e transforma os aconselhados Uma abordagem bíblica chama os
licenciosos e legalistas em discípulos — legalistas a exaltarem a justiça de Cristo e
homens e mulheres que vivem “a obedi- a se arrependerem das estratégias para
ência que vem da fé” (Rm 1.5). Esse era encontrar justiça própria. Em seguida, eles
o alvo com Karen. O aconselhamento bí- aprendem a obedecer à lei de Deus que é
blico providenciou uma estrutura bíblica libertadora.

Coletâneas de Aconselhamento Bíblico vol. 4 42