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Somos muitos, podemos ser fortes

Le Monde – Diplomatique Edição - 136 | Brasil, novembro 5, 2018


por Silvio Caccia Bava

As manifestações em defesa da democracia e da Constituição, as mobilizações de rua,


a discussão com o povo sobre o impacto das políticas que serão implementadas e a
disputa das narrativas nas mídias sociais são o caminho para organizar a resistência
democrática

Cinquenta e oito milhões de brasileiros e brasileiras elegeram Jair Bolsonaro presidente


da República. Isso representa 39% do total de 147 milhões de pessoas aptas a votar.
Temos então que 89 milhões de brasileiros e brasileiras, ou 61% dos eleitores, não
votaram nele. Destes que não votaram em Bolsonaro, 47 milhões votaram em Haddad;
quase 30 milhões não compareceram às urnas; votos brancos e nulos somaram 14
milhões de eleitores. Está dada uma ampla base potencial para a organização de um
bloco de defesa da democracia e dos direitos sociais, configurando a possibilidade de
criação de uma forte oposição política ao governante eleito.
Pela visão autoritária e repressiva do governo eleito, que se propõe a destituir direitos
por atacado no começo de seu governo, a enquadrar os movimentos sociais como
terroristas e a tratar com violência a oposição, não faltarão motivos para que a
oposição se articule.
Como Bolsonaro não tem experiência de gestão nem equipe de governo e demonstrou
não se entender nem com seus principais assessores, também é previsível que surjam
crises internas já no início da gestão. Essas crises dificultarão a implementação de
estratégias de crescimento e governabilidade, prenunciando que a retomada do
crescimento e a redução do desemprego não serão conquistadas a curto prazo. Ao
contrário, com os cortes previstos na área social, Bolsonaro vai encurtar o cobertor de
proteção social das políticas públicas justamente quando os mais pobres delas mais
necessitam, o que vai aumentar a pobreza e a exclusão e elevar a tensão social e
política.
A política como narrativa midiática tem seus limites; não terá como enfrentar a
realidade de crescente exclusão que será imposta às maiorias. Muitos daqueles que
votaram em Bolsonaro como expressão de sua crítica ao conjunto do sistema político
vão encontrar “mais do mesmo”, uma verdadeira continuidade do governo Temer em
suas tentativas de compor maiorias no Congresso e impor suas políticas neoliberais.
As instituições democráticas estarão sob tensão. O presidente eleito e seus assessores
mais próximos já declararam que, se não conseguirem operar suas políticas no cenário
democrático, não terão dificuldades em adotar a via autoritária. Assim, tanto o
Judiciário como o Parlamento poderão se tornar frentes de conflito importantes e
angariar eventuais aliados ao bloco de oposição. É até pertinente se perguntar se
Bolsonaro, como foi com Fernando Collor, o caçador de marajás, terminará seu
mandato.
Particularmente as últimas semanas da campanha eleitoral apresentaram inovações
importantes na busca da eleição de Haddad, todas de aproximação com o povo e com
respeito à diversidade de opiniões, buscando um ambiente solidário e de diálogo.
Vimos em muitos lugares iniciativas para tentar virar votos. Em muitas praças e
logradouros públicos do país, militantes pela democracia armavam mesas e cadeiras e
faziam o convite: “Se você vai se abster ou anular seu voto, venha comer um pedaço de
bolo, tomar um cafezinho e conversar com a gente”.
Talvez esteja embutida nessas práticas uma crítica importante aos partidos de
oposição, especialmente ao PT, de que o jogo só muda se os militantes políticos se
aproximarem do povo, buscando sua participação e seu envolvimento na defesa da
democracia.
Em pouco tempo, o apoio ao governo poderá se esvair. Se hoje já é possível identificar
que as eleições foram manipuladas pela difusão maciça de falsidades e mentiras nas
redes sociais, pelo uso de tecnologias digitais para impulsionar mensagens financiadas
ilegalmente por empresas ou mesmo por grupos no exterior, é preciso denunciar esses
acontecimentos para todos os brasileiros e impedir que essas estratégias de
convencimento continuem.
Não há como deixar de considerar a possibilidade de que os militares, seja por meio do
vice, seja por decisão do alto comando, diante de uma crise que se agudize, entendam
que é sua responsabilidade assumir diretamente o governo. Várias declarações
recentes de generais da reserva respaldam essa possibilidade.
Neste cenário, as manifestações em defesa da democracia e da Constituição, as
mobilizações de rua, a discussão com o povo sobre o impacto das políticas que serão
implementadas e a disputa das narrativas nas mídias sociais são o caminho para
organizar a resistência democrática e ampliar, para além dos partidos de oposição, uma
frente democrática, um amplo leque de solidariedades que possa vir a mobilizar
energias de mudança e recuperar a democracia, sacrificada neste momento pelo
impacto das fake news.
Não se trata, porém, de olhar para trás e recuperar o modelo da democracia liberal,
assinando outra vez um cheque em branco para o candidato que se elege. É preciso
criar uma nova democracia, na qual o cidadão e a cidadã se reapropriem do poder de
decidir sobre sua vida, sobre o destino de seus territórios e sobre o futuro do Brasil.