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COLUNA

Monica de Bolle
DIRETORA DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS E MERCADOS
EMERGENTES DA JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

30/11/2018 12:35

Não fossem o gogó e os


pés...
O rechaço à chamada ideologia de gênero vem se
espalhando na América Latina com o fervor
ultraconservador que se alastra como epidemia de
fé e de rejeição à ciência

Sai a figura oculta que é um cachorro atrás, entra o marxismo cultural.


Sai a saudação à mandioca, entra a ideologia de gênero. Ricardo Veléz

Rodríguez, filósofo, teólogo e futuro ministro da Educação do governo


Bolsonaro, condena a tal da ideologia de gênero, que, segundo ele e todos
os ultraconservadores de sua estirpe que hoje pipocam mundo afora, é
uma afronta aos valores tradicionais cristãos. Trata-se, segundo ele, de
ideologia “destinada a desmontar os valores tradicionais de nossa

sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da cidadania,


em soma, do patriotismo”. Assim como o novo chanceler de Bolsonaro, o
futuro ministro da Educação mantém, desde 2009, um blog em que
expõe suas ideias. Apropriadamente, o blog chama-se “Rocinante”, cavalo

virtual em que monta Vélez Rodríguez para lutar batalhas quixotescas


contra moinhos de vento como a “doutrinação de esquerda nas escolas”.
Vélez Rodríguez, quem poderia imaginar, quer estocar o vento da

ideologia de gênero, trancando-o num armário bem fechadinho.

Mas o que é ideologia de gênero? De acordo com alguns estudos e

análises — sérios — da área de gender studies, a ideologia de gênero


condenada por setores ultraconservadores mundo afora seria a visão de
que gênero não tem relação com diferenças biológicas e de que pode ser
simplesmente fruto de uma escolha individual. Segundo os detratores da

ideologia de gênero — expressão cunhada por eles —, ela seria linha de


pensamento perigosa que poderia contaminar as crianças e destruir a

democracia. O movimento antigênero e anti-ideologia de gênero marcou


presença nos ataques à visita da filósofa Judith Butler ao Brasil há pouco

mais de um ano, no repúdio ao referendo sobre o acordo de paz do ex-


presidente colombiano Juan Manuel Santos com as Farc em 2016, nas

campanhas pela reforma da constituição distrital no México em 2017 e

durante a votação final sobre a lei que acabaria com a proibição da


interrupção da gravidez promulgada por Augusto Pinochet no Chile,

também em 2017. Esses são apenas alguns exemplos de como o rechaço à


chamada ideologia de gênero vem se espalhando na América Latina com

o fervor ultraconservador que se alastra como epidemia de fé e de rejeição

à ciência.

Sobre a ciência, não resisti e fui reler trechos do fabuloso livro da


antropóloga Margaret Mead publicado em 1935, Sexo e temperamento.

Para escrever sua obra, Mead viajou para a Papua-Nova Guiné, espécie de
paraíso dos antropólogos devido à imensa diversidade étnica e cultural do

arquipélago ao norte da Austrália. Meu interesse pelo país é antigo — o

visitei em quatro ocasiões diferentes no ano de 2001 e lá permaneci


durante um mês a cada visita. Portanto, passei quatro meses na Papua-

Nova Guiné, país que muitos brasileiros provavelmente não saberão

localizar no mapa. Fui parar lá pois na época trabalhava no Fundo


Monetário Internacional e precisávamos monitorar o empréstimo que
havíamos dado ao governo da Nova Guiné. Foi o país mais fascinante que

visitei, mas divago.

Margaret Mead foi para lá no início dos anos 30 e ficou por dois anos
para conduzir uma pesquisa pioneira sobre a consciência de gênero. Seu

objetivo era descobrir em que medida diferenças de temperamento entre

os sexos eram culturalmente, não biologicamente, determinadas.

A Papua-Nova Guiné é o país ideal para estudar culturas isoladas, pois o


terreno montanhoso da ilha principal, a densa floresta e a falta de

infraestrutura — até hoje, só há estradas num raio de cerca de 20


quilômetros da capital, Port Moresby — tornavam muito difícil o contato

entre diferentes povos primitivos. Ao estudar três culturas diferentes,

Mead encontrou divergências significativas nos padrões de


temperamento observados em homens e mulheres. Em um dos povos,

homens e mulheres mostravam-se dóceis, gentis e cooperativos. Em


outro, a mulher era agressiva, dominadora, enquanto o homem era

submisso e emocionalmente dependente. No terceiro, tanto homens

quanto mulheres mostravam-se violentos e agressivos, em luta constante

por poder e posição hierárquica. O trabalho pioneiro de Mead revelou as


profundas diferenças entre o sexo biológico e a construção cultural do que
entendemos por gênero. Desde então, a literatura científica corroborou

sua pesquisa e a ampliou enormemente.

Concluo esse artigo com duas reflexões. A primeira: como seria bom se o
novo ministro da Educação passasse dois anos na selva da Nova Guiné. A
segunda: “Super vitamina dos reflexos, tão complexos de ambos os
sexos”. Dá um Close nela.

Monica de Bolle é diretora de estudos latino-americanos e mercados

emergentes da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do


Peterson Institute for International Economics