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As dez lições cariocas

10. Para as mulheres, não dá para fazer planos durante os jogos mais
importantes de futebol.  Não adianta sair para boate ou filme; os homens
recusam sair da frente de uma TV para poder assistir ao jogo. Não adianta
sair com as amigas para um restaurante ou um bar; os garçons estarão
distraídos pelo jogo. Não adianta dormir; os gritos te deixarão acordada até o
final do jogo. Como dizemos em inglês, If you can’t beat em,’ join em,’ ou
seja, se não pode vencê-los, junte-se a eles. O melhor plano durante os
jogos é assisti-los!

9. Têm regras sutis porém muito importantes no comportamento durante as


refeições. Em meu caso, o mais difícil é não poder comer com as mãos,
especialmente sanduíche, pizza, hambúrguer, bolinho, até às vezes batata
frita! Sem talher, guardanapo ou palito, não é civilizado no Rio, porém nos
Estados Unidos, é aceitável e esperado. Às vezes vejo as pessoas limpando
a boca depois de cada gole de bebida, mas não tenho paciência para isso;
porém aprendi a limpar a boca depois de comer, ainda que fosse só um
salgadinho na esquina. Não é comum ver os cariocas comendo ou bebendo
enquanto andam, como é normal nos Estados Unidos, e isto é especialmente
difícil para mim, já que gosto de multitask, ou seja, fazer mais de uma coisa
na mesma hora para poupar tempo. Aqui, comer é um tempo sagrado, um
momento separado do resto do dia.

8.  Os cariocas são muito afetuosos e dão um beijo não só quando


cumprimentam uma pessoa, mas também quando se despedem. Isso não é
muito comum com os americanos, a menos que sejam parentes, porque não
gostamos muito de nos tocar. Por isso, levei muito tempo para me acostumar
com isso. Mas ainda não sei como deveria cumprimentar uma pessoa, já que
é normal para os cariocas dar dois beijos, mas às vezes as mulheres só dão
um e se abraçam. Nesse caso, fico confusa e acabo com a boca arranhando
no nariz da pessoa. E depois de ficar toda incomodada, tenho que dar beijo
de novo justo depois do encontro, mesmo que seja curto!

7. Os cariocas reprimem os barulhos do corpo a qualquer custo.  Agora nem


penso em tirar um lenço de papel para limpar o nariz na mesa do almoço;
tenho que ir no banheiro, mesmo se eu limpar em silêncio total. Se fizer
barulho (ainda no banheiro) as pessoas me olham com puro nojo.  Sempre
tenho que cobrir a boca quando tossir, mesmo se estiver sozinha, porque se
uma pessoa entrar e me ver, vai fazer cara feia. Mas por isso estranhei o
costume do espirro.  Nos Estados Unidos, é bem-educado falar “saúde”
quando uma pessoa espirra, até para as pessoas que não conhecemos. No
Rio, não é assim. Tanto que os cariocas não aguentam os barulhos do corpo,
a maioria das vezes me ignoram quando eu espirro, fingindo não escutar. Os
arrotos e as flatulências? Jamais--não tenho vontade de ser banida do Rio!

6. Os cariocas se vestem de um jeito mais formal do que os americanos


quando saem de casa. As únicas exceções são quando vão para a praia ou
fazem exercícios. Por isso, só nessas ocasiões  é “permitido” para as
mulheres andar de Havaianas ou de tênis. Nos Estados Unidos, muitas
vezes ando de sweatpants ou calça de ioga, mas aqui nem me atrevo. Não
entendo como as cariocas andam de salto alto com tanta freqüência sem
ficar com bolhas nos pés e dor nas costas, e fico muito impressionada em
ver elas andarem assim na cidade inteira. Eu não aguento, e a maioria do
tempo ando de chinelo (mas, pelo menos, de Havaianas Slims). O costume
de se vestir bem é um dos costumes cariocas de que mais gostei e quando
estava em Nova Iorque em Julho, minha mãe comentou comigo, “Por que
está de vestido? Só vamos ao shopping!”

5. Os americanos temos um conceito que se chama personal space (espaço


pessoal) porque não gostamos de ficar encostados nos outros e evitamos
tocar as pessoas. Ao meu ver, os cariocas adoram estar em multidão e de
ficar perto, seja na praia, em um show, ou em um churrasco. Estão muito
mais cômodos em se tocar e ficar mais próximos do que os americanos. Meu
pesadelo carioca é ficar no metrô durante a hora do rush, como em uma lata
de sardinhas. Fico perplexa quando uma pessoa senta ao meu lado no
ônibus mesmo que tenha assento livre, e também quando uma mulher para
um centrímetro atrás de mim em uma fila.

4. Os cariocas têm uma espécie de honestidade muito única relacionada com


a aparência física. São muito mais abertos para apontar diferenças ou
problemas, até com pessoas que não conhecem. Várias vezes, me falaram
que fiquei mais gorda. O único americano que falasse assim teria um desejo
de morte! Mas muitas vezes, apontam coisas para poder ajudar, como
mostrar uma mancha no rosto ou uma sujeira na roupa. Uma vez, estive
numa loja procurando brincos. O vendedor se aproximou de mim e disse,
“Tem algo no seu cabelo,” e enquanto falava, foi tirar um pedaço de algodão
do meu cabelo. Fiquei sem palavras porque no meu país, fazer uma coisa
assim com um desconhecido (e até cliente!) é impensável.

3.  Acredito que muitos cariocas acham que os melhores lugares da cidade
são os mais caros. Mas para mim, são os gratuitos. Adoro os parques daqui,
como o Parque Lage, o parque da casa do Rui Barbosa, e a Floresta da
Tijuca. Ė tão bom escapar da cidade para passear na mata e nos jardins. Ir à
praia ainda é novidade para mim, depois de crescer longe do mar. Gosto de
andar na orla, seja em Ipanema ou em Botafogo, e de correr na Lagoa. O
Centro Cultural Banco do Brasil é meu museu preferido da cidade, que
sempre tem exposição gratuita.  Até o coração e alma do Rio, como os
blocos de Carnaval e alguns ensaios das escolas de samba são de graça.
Adoro andar de bonde em Santa Teresa, onde sempre assisto dramas 
cariocas.

2.  O que mais me incomoda no Rio é a injustiça, que praticamente forma


parte da vida. Não se pode escapá-la, porque estará presente aonde for. Não
aguento ver nenens famintos, nem garotinhos sujos, descalços e
desesperados, nem as velhinhas pedindo esmola. Apesar das pessoas às
vezes darem dinheiro e comida para os mais pobres, fico incomodada com a
atitude indiferente de muitos cariocas, como “sempre foi assim, é assim
agora, e não posso mudar nada.”  Talvez eu seja ingênua ou idealista, mas
eu concordo com o Machado de Assis que “a indiferença é o pior de todos os
males.”

1.  A coisa que mais valorizo sobre os cariocas é que se você cair, sempre
terá alguém para te segurar. Os cariocas são umas das pessoas mais
solidárias e generosas que encontrei e sempre fico surpreendida como eles
tratam bem os desconhecidos. Cada vez que tive um problema sério, os
cariocas sempre me trataram com paciência, respeito e muito carinho, me
deixando muito mais calma e muito agradecida. Uma vez, estava no trem
indo para um jogo no Maracanã com meu marido e o carro ficou muito
quente e abafado. Comecei a passar mal e desmaiei. Quando acordei na
plataforma, um grupo de pessoas preocupadas me rodeou, me oferecendo
água, gelo e conselho.  Continuei enjoada e mareada, mas me senti
estranhamente amada, despertada pelo calor humano.