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ESPAÇO ABERTO

Márlon Herbert Flora Barbosa Soares e Éder Tadeu Gomes Cavalheiro

Este artigo apresenta um jogo didático para introduzir conceitos de Termoquímica. Utiliza-se um tabuleiro
de um jogo conhecido como Ludo. O objetivo desta proposta é mostrar que a utilização de atividades lúdicas
pode ser uma alternativa viável em sala de aula, auxiliando a aprendizagem no que se refere à manipulação
efetiva do conceito, além da melhora significativa do aspecto disciplinar em sala de aula.


jogo didático, Termoquímica, atividade lúdica

Recebido em 24/6/05, aceito em 23/3/06

A
lguns materiais exteriores à Química Nova na Escola (Rocha-Filho, Ludo pode ser observada no Qua- 27
sala de aula, e sua conse- 1996; Beltran, 1997; Soares et al., dro 1.
qüente manipulação, facilitam 2003; Oliveira e Soares, 2005).
a aquisição de conceitos e introdu-
Relações entre o jogo e o conceito
zem a experimentação de diversos Jogos de tabuleiro e o Ludo (Pachisi) de Termoquímica
materiais concretos, subsidiando a Segundo Antunes (1999), os jogos A palavra energia tem origem gre-
prática docente. Há experiências com de tabuleiro exercem fascínio em cri- ga (energéia) e significa força ou tra-
cordões para se fazer hipérboles, anças e adultos. As origens dos jogos balho, podendo ser definida como a
brinquedos de construção para sim- de tabuleiro remontam a milhares de capacidade para realizar trabalho,
bolizar ações, bolas de isopor para anos e parecem es- conceito que é hoje
representar compostos e moléculas, tar ligadas às primei- O jogo educativo tem duas amplamente utiliza-
entre outros (Soares, 2004). ras cidades de que funções: a lúdica, do. Os processos
Segundo Kishimoto (1996), o jogo se tem notícia, nas propiciando diversão e o envolvidos em todas
educativo tem duas funções. A primei- regiões do antigo prazer quando escolhido essas transforma-
ra é a função lúdica, propiciando Egito e Mesopotâ- voluntariamente, e a ções podem ser estu-
diversão e o prazer quando escolhido mia (hoje Iraque). educativa, ensinando dados em um ramo
voluntariamente. A segunda é a fun- Objetos e dese- qualquer coisa que da Química chamado
ção educativa, ensinando qualquer nhos que parecem complete o indivíduo em de Termoquímica,
coisa que complete o indivíduo em fazer referência a jo- seu saber e sua que, em primeira
seu saber e sua compreensão de gos de tabuleiro vêm compreensão de mundo análise, já envolve
mundo. sendo encontrados outros conceitos, co-
O equilíbrio entre essas duas fun- em escavações arqueológicas desde mo energia, calor e temperatura, con-
ções seria o objetivo do jogo educa- o começo do século XIX. Há indícios ceitos bem próximos do cotidiano.
tivo. Se uma dessas funções é mais de que os jogos tenham aparecido De acordo com Mortimer e Amaral
utilizada do que a outra, ou não há em vários lugares do mundo antigo, (1998), os conceitos como energia,
mais ensino, ou elimina-se o ludismo tais como Índia, China, Japão, Pérsia, calor etc. não têm o mesmo signifi-
(Soares, 2004; Kishimoto, 1996). Al- África do Norte e Grécia. Depois, os cado na Ciência e na linguagem co-
guns trabalhos que buscam esse jogos de tabuleiro chegaram até mum, o que acarreta dificuldades no
equilíbrio, utilizando-se de jogos e ati- Roma e outros países da Europa (Ra- ensino de Química, pois na maioria
vidades lúdicas, foram publicados em mos, 1990). A regra básica do jogo das vezes o professor trabalha con-
ceitos mais avançados, tais como
A seção “Espaço aberto” visa abordar questões sobre Educação, de um modo geral, que sejam de interesse dos calor de reação, Lei de Hess e outros,
professores de Química. sem uma revisão dos conceitos mais

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térmicos e exotérmicos, para que a
Quadro 1: Regras básicas do Ludo reação ocorra, nos dois sentidos,
Ludo é uma versão ocidental popular do jogo hindu Pachisi. É jogado por dois, três quando possível. Para isto, um jogo
ou quatro jogadores (no caso de quatro, é possível formar duas duplas). O tabuleiro é proposto, baseado originalmente no
quadrado tem um percurso em forma de cruz e cada jogador tem quatro peões. Um Ludo, apresentando-se o seu desen-
dado define os movimentos. Os peões de cada jogador começam na base de mesma
volvimento e sua posterior aplicação
cor. O objetivo do jogo é ser o primeiro a levar seus quatro peões a dar uma volta no
tabuleiro e a chegar no ponto final marcado com sua cor. Os peões movem-se pelo para explorar conceitos introdutórios
percurso no sentido horário. de Termoquímica.
Para transportar um peão de sua base para seu ponto de partida é necessário sortear
6. Quando o jogador já tem pelo menos um peão no percurso, ele pode mover o Material necessário
peão do número de casas sorteado no dado. Se sortear 6, além de usar esse resultado • Papel cartão, para a confecção
ele pode jogar novamente o dado. do tabuleiro. O uso de cartolina
Se um jogador chegar a uma casa já ocupada por um peão adversário, o peão também é possível, porém o
adversário deve voltar para sua base. Mas se dois peões da mesma cor ocuparem tabuleiro perde a firmeza.
uma mesma casa, eles não podem ser capturados e nenhum adversário pode passar
• Cartolina para a confecção das
por essa casa, tendo seus peões bloqueados.
Após dar a volta no tabuleiro o peão avança pela reta final, de sua própria cor. A cartas com as equações quími-
chegada ao ponto final só pode ser obtida por um número exato nos dados. Se o cas e seus valores termoquí-
jogador sortear mais do que o necessário, ele deverá aguardar sua próxima jogada. micos de energia.
O vencedor é o primeiro a levar seus quatro peões ao ponto de chegada da sua cor. • Tesoura, lápis de cor ou tinta
Este número da revista contém um encarte deste jogo. guaxe, o que depende da dispo-
nibilidade da escola ou do alu-
básicos. Esses autores concluem di- em processos químicos, seja na for- no.
zendo que o resultado é um amálga- ma de acumulação ou liberação, • Os peões podem ser de papel
ma indiferenciado de conceitos mostrando ao aluno que certos pro- cartão, ou respeitosamente em-
científicos e cotidianos, sem que o cessos químicos só são possíveis de prestados de outros jogos, tais
28 aluno perceba claramente os limites ocorrer caso haja energia suficiente como banco imobiliário ou o
e os contextos de aplicação de um para tal fim. próprio Ludo, que vem com
ou de outro. peões muito bem feitos.
Em uma aplicação preliminar do A Termoquímica e o jogo proposto • Dados, para o deslocamento
jogo proposto neste trabalho obser- O objetivo principal desta propos- dos peões.
vou-se que os alunos concebiam dois ta é o de iniciar o aluno ao conceito
tipos de energia, sendo elas “positi- de variação energética nas reações Regras implícitas e explícitas
vas” e “negativas”. Os alunos acredi- químicas. Como exemplo pode-se Como regra implícita, surge a idéia
tavam que havia dois tipos de energia citar a variação de entalpia (∆H). da utilização do tabuleiro em um jogo
distintas, uma “fria” e uma “quente”, Foi proposta uma atividade que amplamente conhecido pelos alunos,
o que corrobora a noção cotidiana de contemplasse primeiramente a “mani- os quais prontamente perguntam ao
que o calor está ligado a uma tempe- pulação” da energia tão somente. professor qual a utilidade e o objetivo
ratura elevada e o frio a uma tempera- Durante o jogo, o aluno teria contato de se jogar Ludo em sala de aula. Não
tura baixa. Um dos objetivos era mos- com cartas e pontos no tabuleiro que há outra possibilidade de regra implí-
trar que a energia nesses casos é o incentivassem a cita neste caso, pois
uma só e o sinal, bem como a termi- entender como é a Preliminarmente, observou- o tabuleiro de Ludo é
nologia, é um referencial para que se ação da energia nos se que os alunos concebiam muito conhecido e
mostre a transferência dessa energia processos endotér- dois tipos de energia: divulgado. Qualquer
em uma reação, ora necessitando mico e exotérmico. “positivas” e “negativas”. pacote de jogos tra-
dessa energia para formar produto, À medida que o Eles acreditavam que havia dicionais vendidos
ora liberando essa energia com o jogo iria se desenro- dois tipos de energia em bazares e maga-
mesmo fim. lando, o aluno teria distintas, uma “fria” e uma zines conta com a
Esses aspectos levaram a propor contato com a acu- “quente”, o que corrobora a presença do Ludo,
primeiramente uma atividade em que mulação e perda da noção cotidiana de que o logicamente com de-
o aluno manipulasse a energia e a energia e o posterior calor está ligado a uma sign diferenciado,
utilizasse para cumprir certos objeti- “gasto” dessa ener- temperatura elevada e o frio mas com a confor-
vos. No caso do jogo, o objetivo é for- gia em uma tarefa. A a uma temperatura baixa mação característi-
mar o maior número de reações quí- tarefa consiste basi- ca, quadrada e de
micas possíveis, envolvendo ganho camente em utilizar essa energia na quatro cores, como representado na
ou perda de energia, necessária para aquisição de cartas, nas quais estão Figura 1.
uma reação. descritas equações químicas com Em se tratando de regras explíci-
Como resultado final, discute-se seus valores termoquímicos de ener- tas, apesar de se utilizar basicamente
as formas de utilização dessa energia gia, representando processos endo- a regra geral do Ludo (Quadro 1),

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de processos endotér-
micos ou exotérmicos,
suficientes para o valor
expresso na carta, ne-
cessário para que a
reação representada se Figura 2: Exemplo de carta com uma
processe. equação química e seu respectivo valor
4. Cada reação, de- de energia. Neste caso, representando
pendendo do valor de um processo exotérmico.
energia necessário para
que ela ocorra, vale uma 1 mol; além disso, pode-se utilizar
quantidade diferente de kcal mol-1, pela caloria ser uma uni-
pontuação. Ou seja, dade comum aos livros de Ensino
equações que tenham Médio, apesar do Sistema Internacio-
uma grande variação de nal e a IUPAC recomendarem o uso
energia, seja de forma- da unidade joule (J).
ção ou liberação, valem A carta na qual estão represen-
Figura 1: Tabuleiro tradicional de Ludo, adaptado à variante mais pontos. tados os valores, em energia, que se-
proposta. 5. Vence(m) o(s) jo- rão utilizados para a aquisição de
gador(es) que che- outras cartas com equações quími-
permite-se algumas variantes nas gar(em) ao centro do tabuleiro com cas, é apresentada na Figura 3. É
regras, para que se possa adaptar o os quatro peões e que conseguir(em) interessante que se faça pelo menos
jogo tradicional à nova proposta. realizar o maior número de pontos 10 cartas para cada valor de energia,
Estabeleceu-se um conjunto de re- referentes às reações que conse- variando entre 1 e 100 kJ mol-1. O
gras gerais: guiu(ram) formar, “comprando” as mesmo tipo de pesquisa sugerido
1. Cada jogador faz com que seus cartas com a energia adquirida no ta- para as cartas da Figura 2 pode aqui
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peões percorram uma volta completa buleiro, dentre as cartas de equações ser realizado.
no tabuleiro, terminando o percurso disponíveis para o jogo.
em seu centro. O avanço na trilha é Considerando-se o número de Resultados e discussão
feito com pontos obtidos por um alunos presentes em sala de aula, Uma regra básica é proposta, po-
dado. À medida que caminha pelo ta- cada grupo de alunos pode ficar res- rém, a critério do professor, pode-se
buleiro, o jogador vai acumulando ponsável por quatro peões. Essa pos- propor inúmeras variações. No entan-
pontos nas casas pelas quais passa, sibilidade é interessante na formula- to, sugere-se a aplicação do jogo,
que podem ser convertidos em ener- ção de estratégias de acúmulo das antes da exploração do conceito,
gia, que por sua vez pode ser utili- cartas com valores de pontos que para que haja um melhor aproveita-
zado em processos exotérmicos, serão convertidos em energia, que mento didático, possibilitando a cons-
∆H < 0, ou endotérmicos, ∆H > 0. podem ser discutidas em grupo. trução do conceito no decorrer do
2. As casas de cor vermelha possi- Na regra, é importante constar que jogo.
bilitam cartas com valores de pontos os valores energéticos conseguidos Em relação ao uso do jogo em
positivos (para serem convertidos em pelos alunos ao longo do jogo se re- sala de aula, notou-se que a variante
energia, usável em processos endo- ferem a variações da mesma energia, proposta é uma eficiente alternativa
térmicos) e as casas azuis valores de ora com ganho, ora com perda. na discussão de acumulação, perda
pontos negativos (para serem conver- Um modelo de como podem ser e ganho de energia em uma reação
tidos em energia, usável em proces- confeccionadas cartas contendo as química, notando-se uma visível me-
sos exotérmicos). As casas negras equações químicas que representam lhora no aspecto disciplinar com um
dão ao jogador a opção de escolher as reações químicas, utilizadas no envolvimento maior entre alunos e do-
como converterá seus pontos, ou em jogo, é apresentado na Figura 2. O centes, havendo divertimento e cons-
valores positivos ou em negativos. professor pode sugerir aos alunos trução do conhecimento e fortificação
Essa energia acumulada durante o que essas cartas sejam feitas por eles
andamento do jogo é utilizada para mesmos, pesquisando em livros didá-
adquirir cartas com equações quí- ticos ou na Internet.
micas, as quais têm valores de ener- Cabe salientar que, nas atividades
gia definidos. realizadas com este jogo, utilizou-se
3. O jogador só pode adquirir es- kJ mol-1 como unidade, porém não se
sas cartas com equações químicas, descarta a mudança de unidade de Figura 3: Exemplo de carta com valor nu-
colocadas no centro do tabuleiro, energia em futuras aplicações. Em mérico positivo, representando um pro-
quando tiver em mãos valores con- um outro aspecto, é importante sa- cesso endotérmico de variação de ener-
vertidos em energia, representativos lientar que o ∆H descrito se refere a gia.

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de laços afetivos entre professor e A atividade lúdica proposta em ní- As principais dúvidas diziam res-
alunos. vel superior funcionou bem se consi- peito ao encaminhamento das regras
Deve o professor observar que, no derado, principalmente, o aspecto e ao fato de que certas reações ne-
jogo, o aluno estará tratando ora com relativo a discussões de classificação cessitavam de mais energia do que
processos endotérmicos, ora com e tipos de energia. Pôde-se notar que, outras e, também, por que algumas
processos exotérmicos, e que tais mesmo em nível superior, ainda per- absorviam energia (processos endo-
denominações podem levar o aluno manece em uma minoria a idéia de térmicos) e outras liberavam energia
a pensar que a energia ora pode ser que há energia negativa e positiva. (processos exotérmicos) e se havia
“negativa”, ora “positiva”; por isso, é Neste caso, deve-se considerar que diferença na energia envolvida em
importante que essa questão conste os alunos já contavam com os con- cada caso.
na regra. Passa a ceitos prévios neces- Nesta oportunidade, o professor
ser de extrema im- Como as equações sários ao entendi- novamente realimentava o conceito
portância que o pro- químicas presentes nas mento das definições de que não há energias de sinais dife-
fessor esclareça que cartas se encontram em um relacionadas à Ter- rentes, que o sinal era apenas uma
quando se submete nível representacional, moquímica e que, forma de representação para facilitar
o valor de energia a facilita-se a transposição mesmo assim, detec- o entendimento do andamento de
sinais matemáticos, conceitual do uso de taram-se idéias errô- uma reação. Em relação ao fato de
tal fato nada mais é modelos que representem neas. que certas reações necessitavam de
do que uma forma o que acontece em uma No caso do Ensi- mais energia do que outras, se pu-
de representar que reação química, reforçando no Médio, aplicou-se deram relembrar conceitos relaciona-
houve variação de a idéia de que os símbolos o jogo, estabelecen- dos à formação de moléculas, liga-
energia e que esta e fórmulas não são a do as regras, sem no ções inter e intra-moleculares, entre
estará sendo ora própria reação química entanto ministrar o outros conceitos correlatos.
consumida, ora libe- conteúdo anterior- O aspecto disciplinar esteve nova-
rada, em uma reação química. Se o mente. Considerando-se esta situa- mente presente, sendo um dos resul-
30 jogo for corretamente aplicado, ele ção, notou-se que o jogo é eficiente tados mais significativos das ativi-
contribui para desmistificar essa idéia. em vários aspectos. dades lúdicas propostas. Como a ati-
Um exemplo que corrobora com Um deles é que o jogo incentiva a vidade exige a participação de todos
isto é que, em uma das aplicações, o participação do aluno, considerando- em volta do tabuleiro, os alunos se
professor não esclareceu que os si- se o aluno como construtor do próprio concentram em jogá-lo, não ocorren-
nais referentes a cada valor relacio- conhecimento e valorizando a intera- do dispersão, atraindo-os sobrema-
nado a uma carta eram uma forma ção do aprendiz com seus colegas e neira para o conceito, principalmente
de representação, em que a energia com o próprio professor. Este resul- no quesito novidade e motivação.
ora estava sendo liberada, ora estava tado não é diferente do obtido em re- Outra alternativa que foi utilizada
sendo acumulada. Entretanto, como lação ao uso de bolas de isopor após o jogo também se mostrou efi-
esse aspecto constava da regra, foi (Soares et al., 2003), o que confirma ciente. Solicitou-se aos alunos que
facilmente entendido. Essa concep- que a utilização do lúdico independe transcrevessem as reações obtidas
ção errônea, se não observada pelo da espécie do jogo. ao final do jogo, em uma folha sepa-
professor, pode vir a ratificar concep- Durante o jogo, o professor tam- rada, e observassem que cada rea-
ções de calor e temperatura apresen- bém visitou cada grupo observando as ção necessitava de um valor de ener-
tados por estudantes, tais como: reações dos alunos, esperando per- gia específico para se realizar. Tal
“calor e energia são substâncias”; “há guntas pertinentes ao atitude pode ser uti-
dois tipos de calor: quente e frio”; “a jogo e ao conteúdo É de extrema importância lizada para introduzir
energia é positiva e negativa”. explorado. Tal ação que o professor esclareça o conceito ou a trans-
Esta última alternativa é bem tra- foi necessária, por- que quando se submete o posição do jogo para
balhada com o jogo, pois fica claro que, nas primeiras valor de energia a sinais o conceito.
ao aluno, desde o início do jogo e aplicações, pergun- matemáticos, tal fato nada Como as equa-
descrita na regra, que a energia é uma tas variadas sobre mais é do que uma forma ções químicas pre-
só e é ele quem atribui valores positi- energia, direção de de representar que houve sentes nas cartas se
vos e negativos, dependendo do mo- reações e mudanças variação de energia e que encontram em um ní-
mento do jogo ou de como a reação nas regras foram for- esta estará sendo ora vel representacional
se processa na carta. muladas. Orientou-se consumida, ora liberada, (tanto no que diz res-
A variante do Ludo descrita neste o professor que per- em uma reação química peito aos símbolos e
trabalho foi testada por alunos do corresse a sala, visi- fórmulas químicas
Ensino Médio da rede pública e par- tando grupo por grupo, respondendo descritas na carta, como no fato delas
ticular de Goiânia - GO, além de uma às perguntas e interagindo com o jogo, estarem presentes nas cartas do
turma de Química Geral para Enge- como meio de debates e conversas jogo), facilita-se a transposição con-
nharia de Alimentos da UFG. sobre as dúvidas que surgiam. ceitual do uso de modelos que repre-

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sentem o que acontece em uma rea- alunos são adolescentes na faixa de utilizar o lúdico em sala de aula, uma
ção química, o que pode vir a escla- 14-15 anos de idade e, no caso dos brinquedoteca na escola.
recer e reforçar a idéia de que os universitários, a faixa é de 17-19 anos.
símbolos e fórmulas não são a própria Um outro detalhe importante refe- Márlon Herbert Flora Barbosa Soares (marlon@
quimica.ufg.br), licenciado em Química pela Univer-
reação química, mas sim sua repre- re-se ao fato de que, além da aula,
sidade Federal de Uberlândia, mestre em Química
sentação. um pequeno grupo de alunos teve e doutor em Ciências (Química) pela Universidade
Um percentual de 95% dos alunos interesse em levar os jogos para casa, Federal de São Carlos, é docente do Instituto de
estava completamente envolvido na mostrando, neste caso, que se assu- Química da Universidade Federal de Goiás. Éder
atividade. A porcentagem restante, mem como lúdicas as atividades em Tadeu Gomes Cavalheiro (cavalheiro@iqsc.usp.br),
licenciado e bacharel em Química pela USP
quando perguntada sobre o porquê sala de aula, independentemente do
(Ribeirão Preto), mestre em Química Analítica e dou-
da não participação na atividade, res- conteúdo. A partir desses fatos, pode- tor em Ciências (Química Analítica) pela USP (São
pondeu com um sonoro: “isso é coisa se tentar formar, juntamente com Carlos), é docente do Instituto de Química de São
de criança!”. Cabe salientar que os outras disciplinas que possam vir a Carlos da USP.

Referências bibliográficas OLIVEIRA, A.S. e SOARES, M.H.F.B. Júri 2004. Tese de Doutorado, 195 p.
ANTUNES, C. Jogos para a estimula- químico: Uma atividade lúdica para dis- SOARES, M.H.F.B.; OKUMURA, F. e
ção das múltiplas inteligências. 11ª ed. cutir conceitos químicos. Química Nova CAVALHEIRO, E.T.G. Um jogo didático
Petrópolis: Editora Vozes, 1999. na Escola, n. 21, p. 18-24, 2005. para ensinar o conceito de equilíbrio
BELTRAN, N.O. Idéias em movimento. RAMOS, E.M.F. Brinquedos e jogos no químico. Química Nova na Escola, n. 18,
Química Nova na Escola, n. 5, p. 14-17, ensino de Física. São Paulo: Universidade p. 13-17, 2003.
1997. de São Paulo, 1990. Dissertação de
Mestrado, 230 p. Para saber mais
KISHIMOTO, T.M. O jogo e a educa-
ção infantil. São Paulo: Pioneira, 1996. ROCHA-FILHO, R.C. Os fulerenos e sua CHATEAU, J. O jogo e a criança. Trad.
MORTIMER, E.F. e AMARAL, L.O.F. espantosa geometria. Química Nova na G. de Almeida. São Paulo: Summus
Quanto mais quente melhor: Calor e Escola, n. 4, p. 7-11, 1996. Editora, 1987.
temperatura no ensino de Termoquímica. SOARES, M.H.F.B. O lúdico em Química: HUINZIGA, J. Homo Ludens: O jogo
Química Nova na Escola, n. 7, p. 30-34, Jogos e atividades lúdicas aplicados ao como elemento de cultura. São Paulo: 31
1998. Ensino de Química. São Carlos: UFSCar, Editora Perspectiva, 1980.

Abstract: Pachisi as a Game to Discuss Thermochemistry Concepts – This paper presents a didactic game for introduction of thermochemistry concepts. A board of the game known as pachisi
is used. The goal of this proposal is to show that the use of ludic activities can be a viable alternative in the classroom, helping learning by the effective manipulation of the concept, beside causing
a significant improvement of classroom disciplinary aspects.
Keywords: didactic game, thermochemistry, ludic activity

Errata
Recebemos carta do leitor Wilmo E. Francisco Jr., autor de artigo neste
número da revista (vide p. 49), sobre um erro no artigo “Diet ou light: Qual a
diferença?”, de Rejane Maria G. da Silva e Sandra Terezinha de F. Furtado,
publicado em QNEsc n. 21, p. 14-16, 2005. Na p. 15 do artigo, no 1° parágrafo
sobre o que é um alimento diet, consta:

...os sem o aminoácido fenilcetonúria, para os fenilcetonúricos etc.

Segundo Francisco Jr., com o que concordam as autoras do artigo, “a forma


escrita no texto leva ao errado entendimento de que a fenilcetonúria é um
aminoácido. Na realidade, a fenilcetonúria é uma doença cuja causa mais
comum é o elevado nível do aminoácido fenilalanina no plasma sanguíneo. O
excesso deste aminoácido provoca defeito no sistema nervoso e pode levar ao
retardo mental. A origem da fenilcetonúria é um defeito genético na enzima
fenilalanina hidrolase, responsável pelo primeiro passo na via catabólica da
fenilalanina. Este primeiro passo consiste na conversão da fenilalanina em
tirosina”.
Portanto, a redação correta para o trecho do artigo é:

...os sem o aminoácido fenilalanina, para os fenilcetonúricos etc.

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