Você está na página 1de 846

Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa

Uma avaliação de dois anos de aplicação da


Lei Tutelar Educativa

Boaventura de Sousa Santos


Director Científico

Conceição Gomes (coord.)


Catarina Trincão
Jorge Almeida
Madalena Duarte
Paula Fernando

Equipa de Investigação

Fátima Sousa
Rita Silva
Susana Baptista
Taciana Peão Lopes

OBSERVATÓRIO PERMANENTE DA JUSTIÇA PORTUGUESA

CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS

F AC U L D AD E D E E C O N O M I A

UNIVERSIDADE DE COIMBRA

2004
Índice
Agradecimentos ........................................................................................................................ XIX
Introdução geral ...................................................................................................................... XXIII

Capítulo I

Os jovens, o crime e a justiça

Introdução .....................................................................................................................................1
1. A delinquência e a criminalidade juvenil: uma breve abordagem teórica ..............................3
2. Alguns factores explicativos da delinquência juvenil de hoje: a importância do contexto
e das instituições socializadoras ..........................................................................................11
A delinquência como fenómeno urbano ........................................................................13
Família e Escola: instâncias de controlo social..............................................................14
3. Os jovens e a (sua) justiça: prevenir, controlar e punir ........................................................22
3. 1. Alguns estudos sobre a justiça dos jovens que praticam factos qualificados como
crime...............................................................................................................................22
3. 2. Prevenção: agir a montante do problema...................................................................37
3. 3. O controlo formal da delinquência juvenil (controlar e punir): os modelos da
justiça de crianças e jovens ...........................................................................................40

Capítulo II

A justiça juvenil no Direito Internacional

Introdução ...................................................................................................................................53
1. A ONU e o direito internacional das crianças e jovens ........................................................56
1. 1. A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças............................56
O conceito de criança e a idade da imputabilidade penal na Convenção......................57
Os princípios de direito internacional quanto aos direitos das crianças.........................59
O artigo 40.º da Convenção e a justiça juvenil ..............................................................60
Entre a justiça penal e a justiça de crianças e jovens: os modelos previstos na
Convenção ....................................................................................................................61
1. 2. Outros instrumentos de direito internacional público relevantes em matéria de
justiça juvenil ..................................................................................................................62
1. 2. 1. As Regras de Beijing ............................................................................................63
1. 2. 2. Os Princípios Orientadores de Riade...................................................................67
1. 2. 3. As Regras para a Protecção de Menores Privados de Liberdade.......................68
2. O Direito Europeu .................................................................................................................70
2. 1. O Conselho da Europa e a delinquência juvenil.........................................................70
2. 1. 1. A Convenção Europeia sobre o Exercício dos Direitos das Crianças .................71
II Índice

2. 1. 2. A Recomendação (87) 20.................................................................................... 72


2. 1. 3. A Recomendação (88) 6...................................................................................... 74
2. 1. 4. A Recomendação (00) 20.................................................................................... 75
2. 1. 5. A Recomendação (01) 1532................................................................................ 76
2. 1. 6. A Recomendação (03) 20.................................................................................... 79
2. 2. A União Europeia e a delinquência juvenil ................................................................ 81
2. 2. 1. As necessidades e as iniciativas preventivas do século XXI .............................. 82
A Rede Europeia de Prevenção da Criminalidade.........................................................88
Os Programas de prevenção da criminalidade ..............................................................89
As necessidades actuais ...............................................................................................90

Capítulo III

A reforma da justiça juvenil em Espanha:

apresentação da lei e brevíssima reflexão sobre a sua aplicação

Introdução................................................................................................................................... 93
1. A reforma do direito de crianças e jovens em Espanha: Ley Orgánica Reguladora de la
Responsabilidad Penal de los Menores............................................................................... 93
1. 1. A evolução histórica do direito de crianças e jovens em Espanha............................ 93
1. 2. O actual direito de crianças e jovens em Espanha.................................................... 96
1. 2. 1. Os princípios gerais ............................................................................................. 96
1. 2. 2. A competência e o âmbito de aplicação da LORPM........................................... 98
A competência ...............................................................................................................98
O âmbito de aplicação ...................................................................................................99
1. 2. 3. As medidas aplicáveis aos jovens..................................................................... 100
Internamento em regime fechado ................................................................................100
Internamento em regime semiaberto ...........................................................................101
Internamento em regime aberto...................................................................................101
Internamento terapêutico .............................................................................................101
Tratamento ambulatório ...............................................................................................102
Assistência num centro de dia .....................................................................................102
Permanência em casa ou em centro durante o fim-de-semana...................................103
Liberdade vigiada.........................................................................................................103
Convivência com outra pessoa, família ou grupo educativo ........................................104
Trabalho a favor da comunidade .................................................................................105
Realização de tarefas sócio-educativas.......................................................................105
Admoestação ...............................................................................................................106
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa III

Privação da autorização para conduzir ciclomotores ou veículos com motor, ou do


direito de obter tal autorização ou das licenças administrativas para caça ou para
uso de qualquer tipo de arma ......................................................................................106
Inabilitação absoluta ....................................................................................................107
1. 2. 4. A proposta e a escolha da medida.....................................................................108
1. 2. 5. Situações de concurso, de infracções continuadas e de aplicação de várias
medidas .................................................................................................................110
Concurso de infracções ...............................................................................................110
Infracções continuadas e com pluralidade de vítimas .................................................110
Imposição de várias medidas ......................................................................................111
1. 2. 6. A modificação da medida: anulação, redução, suspensão e substituição.........111
1. 2. 7. A execução das medidas ...................................................................................112
Regras para a execução das medidas ........................................................................113
A execução das medidas privativas de liberdade ........................................................114
As relações com o mundo exterior ..............................................................................115
Segurança e ordem .....................................................................................................115
Regime disciplinar .......................................................................................................116
1. 2. 8. A polícia face à delinquência juvenil ..................................................................117
2. Brevíssima reflexão sobre a aplicação da LORPM – Ley Orgánica Reguladora de la
Responsabilidad Penal de los Menores .............................................................................117
2. 1. O regime do internamento fechado – uma medida sempre controversa .................118
2. 2. A insuficiência de orçamento para aplicação da lei: uma luta entre o Estado
central e as regiões autónomas ...................................................................................119
2. 3. As medidas aplicadas pelos tribunais ao abrigo da LORPM....................................120
2. 4. A mediação no âmbito da justiça juvenil...................................................................125

Capítulo IV

O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Introdução .................................................................................................................................127
1. Da Lei de Protecção à Infância à Organização Tutelar de Menores..................................127
2. O impacto da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças na
Organização Tutelar de Menores .......................................................................................136
3. O processo de reforma da Justiça Juvenil: os relatórios (Ministério da Justiça
/Ministério do Trabalho e da Solidariedade).......................................................................140
4. A preparação para a entrada em vigor da Lei Tutelar Educativa.......................................151
5. A Lei Tutelar Educativa: parte integrante de um Novo Direito das Crianças e Jovens......154
6. Princípios Constitucionais e a Lei Tutelar Educativa..........................................................155
7. O Regime Jurídico da Lei Tutelar Educativa: Breve descrição ..........................................156
7. 1. A entrada em vigor do novo regime..........................................................................156
7. 2. O âmbito de aplicação ..............................................................................................158
IV Índice

7. 3. As regras de competência ....................................................................................... 159


7. 4. As regras de conexão de processos........................................................................ 162
7. 5. As medidas cautelares............................................................................................. 162
7. 6. As medidas tutelares educativas ............................................................................. 164
7. 7. O Processo Tutelar Educativo: suas fases .............................................................. 170
7. 7. 1. A fase de inquérito............................................................................................. 171
7. 7. 2. A fase jurisdicional............................................................................................. 176
Da aplicação de medidas tutelares educativas ............................................................183
7. 7. 3. A fase de recurso............................................................................................... 185
7. 7. 4. A fase de execução das medidas tutelares educativas .................................... 186
A revisão das medidas tutelares educativas ................................................................189
8. O Decreto-Lei n.º 323-D/2000, de 20 de Dezembro: o Regulamento Geral e Disciplinar
dos Centros Educativos ..................................................................................................... 192
9. O Decreto-Lei n.º 204-A/2001, de 26 de Julho: a nova Lei Orgânica do Instituto de
Reinserção Social .............................................................................................................. 196

Capítulo V

Entre dois olhares: a Lei Tutelar Educativa à luz dos dados oficiais e de
um estudo efectuado nos tribunais de família e menores de Lisboa e
Coimbra

Introdução................................................................................................................................. 199

Secção I – A Lei Tutelar Educativa à luz dos dados oficiais disponíveis ........................ 200
1. O movimento dos processos tutelares educativos ............................................................ 203
1. 1. O movimento processual na fase do inquérito......................................................... 203
1. 2. O movimento processual na fase jurisdicional......................................................... 206
2. Os jovens enquanto sujeitos do novo processo jurisdicional ............................................ 210
2. 1. O sexo, a idade e a nacionalidade dos jovens ........................................................ 210
2. 2. A situação e a residência do jovem ......................................................................... 213
2. 3. O grau de instrução e a situação perante o trabalho dos jovens ............................ 217
3. O processo tutelar educativo ............................................................................................. 219
3. 1. Os mobilizadores do processo tutelar educativo ..................................................... 219
3. 2. A suspensão do processo por parte do MP............................................................. 220
3. 3. A mediação .............................................................................................................. 221
3. 4. Perícias sobre a personalidade do jovem................................................................ 223
3. 5. Factos praticados pelo jovem qualificados como crime........................................... 224
3. 6. A duração do processo tutelar ................................................................................. 229
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa V

3. 7. A aplicação de medidas e a sua revisão ..................................................................231


4. A aplicação das medidas tutelares educativas...................................................................233
4. 1. As medidas tutelares aplicadas ................................................................................233
4. 2. Momento processual da aplicação da medida .........................................................235
4. 3. As medidas tutelares aplicadas em relação ao sexo e à idade do jovem................238
4. 4. As medidas aplicadas considerando os cinco tipos de factos qualificados como
crime mais representativos ..........................................................................................242

Secção II – Os tribunais de família e menores de Lisboa e Coimbra: duas realidades


de uma mesma justiça? ...................................................................................................244
1. Os jovens ............................................................................................................................245
1. 1. O sexo, a idade e a nacionalidade dos jovens .........................................................245
1. 2. A orfandade, a situação e a residência do jovem.....................................................248
1. 3. O grau de instrução e a situação perante o trabalho dos jovens .............................249
1. 4. Processos anteriores ................................................................................................252
2. O processo tutelar educativo ..............................................................................................255
2. 1. Os mobilizadores do processo tutelar educativo ......................................................255
2. 2. O acompanhamento do jovem por advogados.........................................................256
2. 3. Factos praticados pelo jovem qualificados como crime ...........................................259
2. 3. 1. Factos ocasionais e plúrimos .............................................................................259
2. 3. 2. Os tipos de factos qualificados como crime.......................................................263
2. 4. A duração do processo tutelar ..................................................................................271
3. As medidas tutelares educativas aplicadas........................................................................275

Capítulo VI

O processo tutelar educativo: a mesma lei e práticas judiciais muito


distintas – análise do discurso dos actores judiciais

Introdução .................................................................................................................................279
1. As questões levantadas pelos olhares dos actores do processo tutelar educativo ...........280
1. 1. O Processo de Promoção e Protecção e o Processo Tutelar Educativo: duas
intervenções distintas para duas situações diferenciadas...........................................280
1. 1. 1. A ratio legis da LTE e da LPCJP........................................................................280
1. 1. 2. O consenso na bondade da diferenciação de respostas ...................................282
1. 1. 3. O dissenso na aplicação da lei: a aplicação das medidas tutelares
educativas para compensar a “falha” da lei de promoção e protecção ................285
1. 1. 4. As causas da subversão do sistema: da mentalidade dos magistrados à falta
de estruturas da Segurança Social .......................................................................288
1. 1. 5. A desadequação das medidas da LTE e da LPCJP às situações de
comportamentos desviantes não criminais ...........................................................292
VI Índice

1. 1. 6. A difícil articulação entre o processo de promoção e protecção e o processo


tutelar educativo.................................................................................................... 295
1. 1. 7. A interdependência entre os níveis de eficácia do processo de promoção e
de protecção no processo tutelar educativo ......................................................... 297
1. 2. Regras de conexão, separação e apensação de processos: a mesma lei,
práticas judiciais muito diferentes................................................................................ 300
1. 3. Uniformização de procedimentos: “cada cabeça sua sentença” ou um problema
de clarificação legal? ................................................................................................... 308
1. 3. 1. Da (ir)relevância da desistência de queixa........................................................ 309
1. 3. 2. Do (não) desconto da medida cautelar na medida tutelar educativa................ 318
1. 3. 3. Do cúmulo ou da acumulação de medidas tutelares educativas ...................... 323
1. 3. 4. Do internamento em regime de semiaberto, por período de um a quatro fins-
de-semana ............................................................................................................ 324
1. 3. 5. A difícil uniformização de procedimentos: a falta de jurisprudência, a
hierarquia do MP e as vantagens da livre interpretação e a incompreensão dos
cidadãos face a soluções diferentes para a mesma situação .............................. 326
1. 4. Tribunais de família e menores e tribunais constituídos em tribunais de família e
menores: um problema de formação e especialização dos magistrados judiciais e
do Ministério Público ................................................................................................... 329
1. 5. Os mecanismos de diversão: uma aceitação positiva ............................................. 338
1. 6. O instituto da mediação: os primeiros passos ......................................................... 343
1. 7. O defensor do jovem: um avanço ............................................................................ 348
1. 7. 1. A presença do advogado nas audições: (in)dispensável? ................................ 349
1. 7. 2. A formação dos advogados: também, ainda, os primeiros passos................... 351
1. 7. 3. O papel do defensor: um “papel” ainda em construção .................................... 355
1. 7. 4. A prestação ou a passividade dos defensores no processo ............................. 362

Capítulo VII

As medidas tutelares não institucionais: as dificuldades em encontrar


respostas adequadas

Introdução................................................................................................................................. 365
1. As medidas não institucionais na LTE e as funções do Instituto de Reinserção Social ... 366
1. 1. Admoestação ........................................................................................................... 368
1. 2. Privação do direito de conduzir................................................................................ 368
1. 3. Reparação ao ofendido............................................................................................ 369
1. 4. Imposição de regras de conduta.............................................................................. 370
1. 5. Frequência de programas formativos ...................................................................... 370
1. 6. Imposição de obrigações ......................................................................................... 371
1. 7. Prestações económicas ou tarefas a favor da comunidade .................................... 372
1. 8. A Medida de Acompanhamento Educativo.............................................................. 377
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa VII

1. 8. 1. Articulação com outras medidas ........................................................................380


2. A revisão das medidas tutelares educativas não institucionais .........................................382
3. As medidas tutelares educativas não institucionais: alguns indicadores estatísticos........383
3. 1. Caracterização das medidas não institucionais em execução em 31 de
Dezembro de 2003.......................................................................................................389
4. A execução de medidas tutelares não institucionais: a análise de dois estudos de caso .390
4. 1. Caracterização sociológica dos jovens.....................................................................391
4. 1. 1. O sexo dos jovens ..............................................................................................391
4. 1. 2. A idade dos jovens .............................................................................................392
4. 1. 3. A situação do jovem (com quem vive) ...............................................................394
4. 1. 4. Residência dos jovens .......................................................................................395
4. 1. 5. Escolaridade.......................................................................................................396
4. 1. 6. Nacionalidade.....................................................................................................398
4. 1. 7. Jovens sujeitos a processo de promoção e protecção anterior.........................399
4. 1. 8. Jovens sujeitos a processo tutelar educativo anterior .......................................400
4. 1. 9. Análise de relatórios sociais: predominância de famílias desestruturadas........401
4. 2. Os jovens e os factos qualificados como crime cometidos ......................................405
4. 3. Medidas Aplicadas....................................................................................................418
4. 3. 1. As medidas tutelares educativas não institucionais mais significativas.............421
4. 3. 2. As medidas propostas pelo IRS e a sua aceitação, em regra, pelo MP e pelo
Juiz.........................................................................................................................423
4. 4. Os tempos da justiça tutelar .....................................................................................427
5. A execução de medidas tutelares não institucionais: o olhar e o discurso dos
operadores..........................................................................................................................429
5. 1. A regulamentação das medidas tutelares educativas não institucionais: uma
necessidade? ...............................................................................................................429
5. 2. As práticas e os problemas na execução das medidas não institucionais...............434
5. 2. 1. A medida de acompanhamento educativo.........................................................434
5. 2. 2. A medida de tarefas a favor da comunidade .....................................................443
5. 2. 3. Imposição de obrigações ...................................................................................448
5. 2. 4. Imposição de regras de conduta ........................................................................454
5. 2. 5. Programas formativos ........................................................................................455
5. 2. 6. Reparação ao ofendido ......................................................................................458
5. 2. 7. Admoestação......................................................................................................460
5. 3. A Articulação do IRS com outras entidades na execução de medidas tutelares
não institucionais..........................................................................................................460
5. 3. 1. A articulação com a família do jovem.................................................................461
5. 3. 2. Articulação com os tribunais ..............................................................................467
5. 3. 3. Outras articulações necessárias: antes e depois da execução da medida .......471
VIII Índice

Capítulo VIII

As medidas tutelares educativas institucionais: entre a “contenção” e a


“educação para o direito”

Introdução................................................................................................................................. 477
1. As competências legais e a visão institucional do IRS no âmbito das medidas
institucionais....................................................................................................................... 478
1. 1. As competências do IRS.......................................................................................... 478
1. 2. A caracterização geral dos centros educativos ....................................................... 479
Equipa de Programas ..................................................................................................484
Equipa Técnica e Residencial......................................................................................484
2. As medidas tutelares educativas de internamento e os regimes de execução................. 486
2. 1. Regime Aberto ......................................................................................................... 487
2. 2. Regime Semiaberto ................................................................................................. 488
2. 3. Regime Fechado ...................................................................................................... 489
3. A organização da intervenção educativa........................................................................... 490
3. 1. Os instrumentos fundamentais da intervenção........................................................ 491
3. 1. 1. O Projecto de Intervenção Educativa ................................................................ 492
Estrutura-base do Projecto de Intervenção Educativa .................................................493
3. 1. 2. O PIE: as fases de intervenção nos centros educativos ................................... 497
A fase de acolhimento: a “Fase Regressiva” e a “Fase de Entrada”............................500
A “Fase Progressiva 1” ................................................................................................501
A “Fase Progressiva 2” ................................................................................................502
A “Fase de Saída”........................................................................................................503
3. 1. 3. O Regulamento Interno ..................................................................................... 504
3. 1. 4. O Projecto Educativo Pessoal ........................................................................... 505
3. 2. Os instrumentos auxiliares da intervenção .............................................................. 507
3. 3. Os programas educativos e terapêuticos ................................................................ 508
3. 3. 1. A formação escolar em Centro Educativo ......................................................... 508
Princípios orientadores da formação escolar ...............................................................510
Resultados escolares de jovens em centros educativos em 2001/2002......................513
3. 3. 2. A orientação vocacional e a formação pré-profissional em Centro Educativo.. 513
Os centros educativos e as ofertas de formação pré-profissional e despiste
vocacional ....................................................................................................................515
Resultados da avaliação das acções de formação pré-profissional e de despiste
vocacional de jovens em centros educativos em 2001/2002 .......................................518
3. 3. 3. Os programas terapêuticos e de educação para a saúde ................................ 520
3. 4. Os relatórios de execução da medida de internamento .......................................... 521
3. 5. O regime disciplinar ................................................................................................. 522
3. 6. A articulação dos centros educativos com outras entidades................................... 524
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa IX

Educação.....................................................................................................................525
Saúde ..........................................................................................................................526
Saúde mental...............................................................................................................527
Centro Protocolar de Formação Profissional para o Sector da Justiça........................528
Instituto de Emprego e de Formação Profissional .......................................................528
Outras articulações dos centros educativos ................................................................529
3. 7. O “Internamento como verdadeira oportunidade de mudança” no Centro
Educativo da Bela Vista ...............................................................................................529
4. Caracterização da situação e dos jovens internados nos centros educativos...................533
4. 1. Os internamentos, segundo o IRS (2001 a 2003) ....................................................533
Subtotal Masculino ......................................................................................................541
Subtotal Feminino........................................................................................................541
Total.............................................................................................................................541
4. 2. Os estudos de caso: o Centro Educativo da Bela Vista e o Centro Educativo dos
Olivais...........................................................................................................................542
4. 2. 1. Introdução e nota metodológica .........................................................................542
4. 2. 2. A caracterização sociológica dos jovens internados..........................................544
A idade ........................................................................................................................544
A nacionalidade ...........................................................................................................547
A área de residência....................................................................................................547
A situação familiar .......................................................................................................549
A situação escolar e/ou profissional ............................................................................551
O grau de escolaridade ...............................................................................................552
4. 2. 3. Outras intervenções judiciais conhecidas ..........................................................555
Processos de Promoção e Protecção..........................................................................555
Outros Processos Tutelares Educativos......................................................................556
4. 2. 4. A situação jurídica dos jovens............................................................................557
Medidas tutelares educativas de internamento ...........................................................558
A duração das medidas tutelares de internamento aplicadas .....................................559
Medidas cautelares de guarda em Centro Educativo ..................................................560
Os jovens a cumprirem medidas tutelares educativas antes sujeitos a medidas
cautelares de guarda ...................................................................................................561
A duração das medidas cautelares de guarda em Centro Educativo ..........................561
Internamento para realização de perícia sobre a personalidade .................................562
4. 2. 5. Os factos qualificados como crime.....................................................................562
Os factos praticados ....................................................................................................562
O número de factos qualificados como crime ..............................................................566
Os regimes de execução de internamento ..................................................................568
4. 2. 6. Análise dos tempos da execução das medidas de internamento......................574
Dos factos ao acolhimento em Centro Educativo ........................................................574
Do acolhimento ao envio do PEP para o Tribunal .......................................................575
X Índice

Do acolhimento ao 1.º relatório de execução de internamento....................................576


4. 2. 7. A revisão das medidas de internamento ........................................................... 576
4. 2. 8. Análise de dois casos: a “visão” dos processos de jovens sujeitos a medida
de internamento .................................................................................................... 577
Relato do Caso 1: Regime semiaberto ........................................................................577
Relato do Caso 2: Regime fechado .............................................................................582
Análise / comparação ..................................................................................................583
5. A lei e a prática das medidas executadas em centros educativos .................................... 584
5. 1. A visão de um psicólogo sobre o internamento em regime fechado ....................... 584
5. 2. A visão crítica do IRS: a lei, a prática judiciária e a falta de meios ......................... 587
5. 3. As opiniões e os olhares dos actores – análise do discurso ................................... 590
5. 3. 1. Um quase consenso à volta da LTE e das medidas tutelares .......................... 590
5. 3. 2. Uma perversão: as medidas de internamento aplicadas por necessidades
sociais ................................................................................................................... 591
A falha do sistema de protecção faz crescer o recurso à justiça tutelar ......................592
5. 3. 3. A localização dos centros educativos: a possível em 2001 .............................. 594
5. 3. 4. Os regimes de execução do internamento........................................................ 597
O regime aberto: uma aplicação em crescimento e uma “porta para o exterior” .........597
O internamento em regime fechado: a controvérsia sobre a sua necessidade............598
5. 3. 5. O internamento em fins-de-semana: o dissenso total....................................... 600
5. 3. 6. A medida cautelar não conta para a duração da medida definitiva? ................ 602
5. 3. 7. Os tribunais têm práticas muito diferenciadas na aplicação de medidas ......... 605
5. 3. 8. A operacionalização da “educação para o direito” e a formação do Projecto
de Intervenção Educativa ..................................................................................... 606
A área escolar..............................................................................................................614
A formação pré-profissional: em busca de um modelo ................................................616
O Centro Protocolar da Justiça (CPJ) e o Instituto de Emprego e Formação
Profissional ..................................................................................................................620
O regime disciplinar é muito formal: educar é poder “castigar” de imediato? ..............621
5. 3. 9. As carências na área da saúde ......................................................................... 623
A saúde mental ............................................................................................................624
5. 3. 10. A formação dos técnicos ................................................................................ 627
5. 3. 11. A escassez de articulações............................................................................ 628
A família .......................................................................................................................631
A presença de magistrados nos centros educativos....................................................632
Os advogados dos jovens internados ..........................................................................635
5. 3. 12. O pós-internamento: a falta de estruturas para o dia seguinte...................... 636
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa XI

Capítulo IX

Conclusões e propostas

Conclusões................................................................................................................................643
Propostas de reforma................................................................................................................689

Referências bibliográficas .........................................................................................................699


Índice de Quadros

Capítulo III

A reforma da justiça juvenil em Espanha:

apresentação da lei e brevíssima reflexão sobre a sua aplicação

Quadro III.1 – Medidas aplicadas ao abrigo da LORPM em 2001 - Espanha..........................121


Quadro III.2 – Medidas tutelares educativas aplicadas em 2001 – Portugal............................122

Capítulo V

Entre dois olhares: a Lei Tutelar Educativa à luz dos dados oficiais e de
um estudo efectuado nos tribunais de família e menores de Lisboa e
Coimbra

Quadro V.1 – Residência dos jovens (2001-2002) ...................................................................215


Quadro V.2 – Residência das crianças e jovens: Distritos de Lisboa e Porto (2001-2002) .....216
Quadro V.3 – Factos qualificados como crime: 10 tipos mais representativos (2001-2002) ...225
Quadro V.4 – Factos qualificados como crime agrupado (2001-2002) ....................................226
Quadro V.5 – Factos qualificados como crime por sexo (2001-2002)......................................227
Quadro V.6 – Cinco tipos de factos qualificados como crime por idade (2001-2002)..............228
Quadro V.7 – Duração dos processos tutelares (2001-2002) ..................................................230
Quadro V.8 – Revisão da medida aplicada (2001-2002)..........................................................232
Quadro V.9 – Medidas tutelares aplicadas (2001-2002) ..........................................................234
Quadro V.10 – Medidas aplicadas a jovens por sexo (2001-2002)..........................................239
Quadro V.11 – Medidas aplicadas a jovens por idade (2001-2002).........................................240
Quadro V.12 – Regimes de internamento aplicados a jovens por idade (2001-2002).............241
Quadro V.13 – Medidas aplicadas considerando os cinco tipos de factos qualificados como
crime mais representativos (2001-2002) ............................................................................242
Quadro V.14 – Grau de instrução dos jovens por idade...........................................................250
Quadro V.15 – Idade dos jovens por condição perante o trabalho ..........................................252
Quadro V.16 – Factos qualificados como crime .......................................................................264
Quadro V.17 – Duração dos processos tutelares educativos...................................................272
Quadro V.18 – Duração dos processos tutelares educativos...................................................273
Quadro V.19 – Medidas tutelares aplicadas .............................................................................276
Quadro V.20 – Regime de internamento em Centro Educativo ...............................................277
XIV Índice

Capítulo VII

As medidas tutelares não institucionais: as dificuldades em encontrar


respostas adequadas

Quadro VII.1 – Projecto Educativo Pessoal (PEP) .................................................................. 382


Quadro VII.2 – Nacionalidade do jovem................................................................................... 398
Quadro VII.3 – Jovens que tiveram algum processo de promoção e protecção ..................... 399
Quadro VII.4 – Jovens com outros processos no âmbito da Lei Tutelar Educativa ................ 400
Quadro VII.5 – Medidas tutelares não institucionais................................................................ 419

Capítulo VIII

As medidas tutelares educativas institucionais: entre a “contenção” e a


“educação para o direito”

Quadro VIII.1 – Lotação dos centros educativos em 31/12/2003 ............................................ 535


Quadro VIII. 2 – Jovens internados em 31/12/2003 segundo a situação jurídica e o regime
de execução....................................................................................................................... 537
Quadro VIII. 3 – Jovens internados, em 31/12/2003 segundo o motivo da intervenção (tipo
de ilícitos penais dominantes)............................................................................................ 538
Quadro VIII.4 – Duração das medidas de internamento em 30/04/2003................................. 540
Quadro VIII.5 – Duração das medidas cautelares de guarda – 30/04/2003............................ 541
Quadro VIII.6 – Duração das medidas de internamento por regime de execução .................. 542
Quadro VIII.7 – Área de residência antes do internamento ..................................................... 548
Quadro VIII.8 – Medidas tutelares educativas e cautelares de guarda ................................... 559
Quadro VIII.9 – Distribuição da totalidade dos factos praticados por educando, por situação
de internamento e por regime de execução – Centro Educativo dos Olivais.................... 563
Quadro VIII.10 – Distribuição da totalidade dos factos praticados por educando, por
situação de internamento e por regime de execução – Centro Educativo da Bela Vista.. 564
Quadro VIII.11 – Categorias de factos qualificados como crime – os 2 centros educativos ... 566
Quadro VIII.12 – Crimes ocasionais e plúrimos nos centros educativos dos Olivais e da
Bela Vista ........................................................................................................................... 568
Índice de gráficos e figuras

Capítulo IV

O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Mapa IV.1 – Localização dos Tribunais de Família e Menores ................................................160


Fase de Inquérito ......................................................................................................................181
Fase Jurisdicional......................................................................................................................182

Capítulo V

Entre dois olhares: a Lei Tutelar Educativa à luz dos dados oficiais e de
um estudo efectuado nos tribunais de família e menores de Lisboa e
Coimbra

Gráfico V.1 – Movimento processual – Inquérito 2001-2002....................................................203


Gráfico V.2 – Causas de extinção dos inquéritos tutelares educativos 2001-2002 .................205
Gráfico V.3 – Processos tutelares educativos pendentes, entrados e findos (2001-2002)......207
Gráfico V.4 – Motivos de extinção dos processos tutelares educativos...................................208
Gráfico V.5 – Sexo dos jovens..................................................................................................210
Gráfico V.6 – Idade dos jovens (2001-2002) ............................................................................211
Gráfico V.7 – Nacionalidade dos jovens (2001-2002) ..............................................................212
Gráfico V.8 – Situação dos jovens (2001-2002) .......................................................................214
Gráfico V.9 – Grau de instrução dos jovens .............................................................................217
Gráfico V.10 – Condição perante o trabalho dos jovens (2001-2002)......................................218
Gráfico V.11 – Mobilizadores do processo tutelar educativo (2001-2002) ...............................220
Gráfico V.12 – Processos suspensos pelo Ministério Público que chegaram à fase
jurisdicional (2001-2002) ....................................................................................................221
Gráfico V.13 – Recurso à mediação (2001-2002) ....................................................................222
Gráfico V.14 – Perícias sobre a personalidade do menor (2001-2002) ...................................223
Gráfico V.15 – Casos de aplicação e de revisão da medida aplicada (2001-2002).................232
Gráfico V.16 – Medidas aplicadas na audiência preliminar e na audiência de julgamento
(2001)..................................................................................................................................236
Gráfico V.17 – Medidas aplicadas na audiência preliminar e na audiência de julgamento
(2002)..................................................................................................................................236
Gráfico V.18 – Idade dos jovens ...............................................................................................246
Gráfico V.19 – Nacionalidade dos menores .............................................................................247
Gráfico V.20 – Situação dos menores ......................................................................................248
XVI Índice

Gráfico V.21 – Grau de instrução dos menores....................................................................... 249


Gráfico V.22 – Condição perante o trabalho dos jovens.......................................................... 251
Gráfico V.23 – Processos tutelares educativos e/ou de promoção e protecção anteriores .... 253
Gráfico V.24 – Mobilizadores do processo tutelar educativo ................................................... 255
Gráfico V.25 – A escolha de Advogado ................................................................................... 257
Gráfico V.26 – Quem defende o jovem: Advogado estagiário ou Advogado?......................... 258
Gráfico V.27 – Número de factos qualificados como crime, relativo a cada jovem, constante
nos requerimentos de abertura da fase jurisdicional ......................................................... 260
Gráfico V.28 – Percentagem de factos ocasionais ou de factos plúrimos por jovem .............. 261
Gráfico V.29 – Factos ocasionais ou plúrimos por grau de escolaridade Coimbra ................. 262
Gráfico V.30 – Factos ocasionais ou plúrimos por grau de escolaridade Lisboa .................... 263
Gráfico V.31 – Factos qualificados como crime agrupado (Coimbra - Lisboa)........................ 266
Gráfico V.32 – Factos qualificados como crime por grau de escolaridade Coimbra ............... 267
Gráfico V.33 – Factos qualificados como crime por grau de escolaridade Lisboa .................. 268
Gráfico V.34 – Factos qualificados como crime por jovem com processo de promoção e
protecção e/ou outro processo tutelar educativo anterior Coimbra................................... 269
Gráfico V.35 – Factos qualificados como crime por jovem com processo de promoção e
protecção e/ou outro processo tutelar educativo anterior Lisboa...................................... 270

Capítulo VII

As medidas tutelares não institucionais: as dificuldades em encontrar


respostas adequadas

Gráfico VII.1 – Medidas tutelares educativas não institucionais executadas pelo IRS (2001) 384
Gráfico VII.2 – Medidas tutelares educativas não institucionais executadas pelo IRS (2002) 385
Gráfico VII.3 – Medidas tutelares educativas não institucionais executadas pelo IRS, por
Direcção Regional (2002) .................................................................................................. 386
Gráfico VII.4 – Medidas tutelares educativas não institucionais executadas pelo IRS (2003) 387
Gráfico VII.5 – Medidas tutelares educativas não institucionais executadas pelo IRS, por
Delegação Regional (2003) ............................................................................................... 388
Gráfico VII.6 – Medidas tutelares educativas não institucionais em execução pelo IRS em
31 de Dezembro de 2003 .................................................................................................. 389
Gráfico VII.7 – Sexo dos jovens ............................................................................................... 391
Gráfico VII.8 – Idade do jovem à data dos factos .................................................................... 393
Gráfico VII.9 – Idade do jovem à data da aplicação da medida .............................................. 394
Gráfico VII.10 – Situação do jovem.......................................................................................... 395
Gráfico VII.11 – Grau de escolaridade do jovem antes da intervenção................................... 396
Gráfico VII.12 – Situação do jovem antes da intervenção ....................................................... 397
Gráfico VII.13 – Denúncia do facto qualificado como crime feita por (Centro) ........................ 406
Gráfico VII.14 – Denúncia do facto qualificado como crime feita por (Lisboa e Vale do Tejo) 407
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa XVII

Gráfico VII.15 – Distribuição dos factos qualificados como crime por tipo (Centro).................408
Gráfico VII.16 – Distribuição de factos qualificados como crime por tipo (Lisboa e Vale do
Tejo)....................................................................................................................................409
Gráfico VII.17 – Distribuição da criminalidade (agregada) .......................................................410
Gráfico VII.18 – Número de factos qualificados como crime cometidos pelo mesmo jovem ...411
Gráfico VII.19 – Número de factos qualificados como crime cometidos pelo jovem................413
Gráfico VII.20 – Medida tutelar educativa não institucional simples (mais significativa)..........421
Gráfico VII.21 – MP segue sugestão do IRS ............................................................................424
Gráfico VII.22 – Juiz segue a proposta do MP .........................................................................426
Gráfico VII.23 – Tempo decorrido desde os factos até à abertura do processo ......................427
Gráfico VII.24 – Tempo decorrido entre o pedido do relatório social pelo TFM e o seu envio
pelo IRS ..............................................................................................................................428

Capítulo VIII

As medidas tutelares educativas institucionais: entre a “contenção” e a


“educação para o direito”

Mapa VIII.1 – Localização dos Centros Educativos e classificação por regimes de


execução.............................................................................................................................482
Gráfico VIII.1 – Idade à data dos factos (centros educativos dos Olivais e da Bela Vista) ......545
Gráfico VIII.2 – Idade à data do internamento ..........................................................................546
Gráfico VIII.3 – Situação antes da intervenção em Centro Educativo......................................550
Gráfico VIII.4 – Situação escolar e/ou profissional antes da intervenção.................................552
Gráfico VIII.5 – Grau de escolaridade antes da intervenção ....................................................553
Gráfico VIII.6 – Grau de escolaridade / Idade de internamento - Centro Educativo dos
Olivais .................................................................................................................................554
Gráfico VIII.7 – Grau de escolaridade / Idade de internamento - Centro Educativo da Bela
Vista ....................................................................................................................................554
Gráfico VIII.8 – Existência de Processos de Promoção e Protecção .......................................556
Gráfico VIII.9 – Outros processos no âmbito da Lei Tutelar Educativa ....................................557
Agradecimentos

O trabalho que se apresenta neste relatório foi desenvolvido no Centro de


Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra no
âmbito do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. É um dos vários
projectos de investigação previstos, para o período de 2001 a 2004, no contrato
assinado entre o Centro de Estudos Sociais e o Ministério da Justiça, destinado
a actualizar e a desenvolver a investigação sócio-jurídica sobre os tribunais e
sobre a aplicação do direito na sociedade portuguesa.

O objecto central deste estudo é trazer para o debate os principais


problemas que se colocam na aplicação e execução do novo Direito Tutelar
Educativo.

Para a sua execução, contámos com a colaboração e as ideias de


senhores magistrados, advogados, responsáveis e técnicos do Instituto de
Reinserção Social, em especial dos centros educativos e das equipas junto dos
tribunais de família e menores onde fizemos trabalho de campo, e de outros
operadores ligados a esta problemática.

Um especial agradecimento é devido à Dra. Maria Clara Albino,


Presidente do Instituto de Reinserção Social (IRS); à Dra. Dulce Rocha,
Presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em
Risco; ao Dr. Fernando Tordo, Presidente do Centro Protocolar de Formação
para o Sector da Justiça; aos Senhores Magistrados Judiciais, Drs. José Sousa
Pinto, Olga Maciel e Paulo Correia; aos Senhores Magistrados do Ministério
Público, Joana Marques Vidal e José António de Carvalho; aos senhores
Advogados, Drs. Isabel Cunha Gil e José Augusto Ferreira da Silva; e à
Senhora Dra. Ana Maria Rodrigues, em representação do Director da
Delegação do Centro Distrital de Solidariedade e Segurança Social de
Coimbra, que, com generosidade, prescindiram do seu tempo para virem
debater connosco, num painel, algumas questões sobre a aplicação da nova
Lei Tutelar Educativa.
XX Agradecimentos

Agradecemos, também, o tempo, a disponibilidade, a documentação


cedida, mas, sobretudo, os importantes contributos para este trabalho que nos
foram dados nas entrevistas que realizámos com os Senhores Magistrados
Judiciais, Drs. Helena Bolieiro, Maria Ermelinda Carneiro, Paula Cristina
Guerreiro, Paulo Correia, Paulo Guerra e Teresa Sá Lopes; com os Senhores
Magistrados do Ministério Público, Drs. Fernando Queiroz, Isabel Jordão,
Lucília Gago, Maria Olímpia Pimentel, Pedro Branquinho e Teixeira de Sousa;
bem como, no âmbito do IRS, com os Senhores Drs. José Ricardo Nunes e
Paula Guimarães, Vice-Presidentes desse Instituto, com o Dr. Branco Mendes,
Director Regional de Lisboa e Vale do Tejo, com o Dr. Joaquim Fernandes,
Director Regional do Centro; com o Senhor Dr. Rogério Canhões, Director do
Centro Educativo Navarro de Paiva, bem como com as Senhoras Dras. Carla
Delgado, Edite Abreu, José Martins Carlos, Ofélia Borges e Rita Matos, desse
Centro Educativo; e com as Dras. Paula Barreiros e Sandra Borba, do Centro
Educativo Padre António de Oliveira

Agradecemos, ainda, a disponibilidade de todo o corpo dirigente, técnico


e administrativo do Instituto de Reinserção Social, designadamente aos
Senhores Drs. Albina Sousa Rosa, Ana Diogo, Cristina Carvalho, Eugénia Lé,
Eva Fernandes, Fátima Araújo, Fátima Lacerda, João Paulo Vaz, Natália
Colaço, Susana Castela, e Viana.

Pelo contributo essencial para a nossa investigação, não podemos deixar


de fazer um agradecimento aos Senhores magistrados e funcionários dos
tribunais, dirigentes e técnicos dos centros educativos e das equipas do IRS,
onde realizámos trabalho de campo. Assim, agradecemos de forma especial
aos Senhores magistrados, secretários e funcionários dos Tribunais de Família
e Menores de Coimbra e de Lisboa; à Senhora Dra. Cecília Campos,
Coordenadora da Equipa do IRS junto do Tribunal de Família e Menores de
Coimbra, e aos técnicos da equipa, Senhoras Dras. Júlia Silva, Lurdes Matias,
Manuela Ferreira, Margarida Faria e Teresa Miller; à Senhora Dra. Filomena
Nobre, Coordenadora da Equipa do IRS junto do Tribunal de Família e
Menores de Lisboa e aos técnicos dessa equipa; aos Senhores Director e
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa XXI

Subdirectora do Centro Educativo da Bela Vista, Dr. Marcos Marinheiro e Dra.


Carolina Garcia; à Senhora Dra. Ana Maria Matos, Directora do Centro
Educativo dos Olivais, bem como aos Senhores Drs. Amadeu Baptista, Isabel
Campos e Susana Matos, daquele Centro Educativo.

Agradecemos, ainda, ao Gabinete de Política Legislativa e Planeamento


do Ministério da Justiça a pronta colaboração, sempre que solicitada,
designadamente na disponibilização de dados estatísticos.

Um agradecimento especial é devido ao Senhor Dr. João Pedroso que,


com a sua experiência e conhecimento nestas matérias, nos ajudou a definir o
objecto e âmbito da investigação, bem como a formular as propostas que
apresentamos.

Por último, agradecemos aos Drs. Salomé Gouveia, Patrícia Branco,


Liliana Simões e Pedro Abreu, pela sua colaboração na execução do relatório.
Introdução geral

As transformações ocorridas na sociedade, com a emergência de novas


formas de criminalidade juvenil, e nas estruturas do Estado, bem como a
publicação de um conjunto de instrumentos de direito internacional sobre os
direitos das crianças e sobre a administração da justiça juvenil determinaram
alterações significativas nas respostas dos Estados, quer à situação das
crianças e jovens em perigo, quer à questão da criminalidade juvenil. Essas
respostas podem ser mais ou menos condicionadas pela combinação, num
determinado momento conjuntural, de um conjunto complexo de diferentes
forças e factores sociais. Por exemplo, no caso português, a mediatização de
alguns casos de criminalidade juvenil em finais da década de noventa
constituiu um factor decisivo para a aceleração do processo de reforma do
Direito dos Menores.

Face às muitas posições que defendiam a caducidade do modelo de


justiça juvenil previsto na Organização Tutelar de Menores, quer no âmbito
legislativo, quer no âmbito da aplicação e execução das normas jurídicas, e em
consonância com um conjunto de directrizes emanadas de instrumentos de
direito internacional, que Portugal ratificou, o Governo português iniciou, em
1996, um processo de reforma de todo o sistema tutelar de menores, que
distinguisse situações de risco, carência social ou de para-delinquência de
outras relacionadas com a prática de crimes, mas que, neste último caso,
respeitassem os direitos fundamentais dos cidadãos menores.

Com esse objectivo, e depois de um processo que decorreu durante


alguns anos e envolveu várias comissões, foi aprovada legislação sobre
protecção de crianças e jovens em perigo (Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro);
relativa aos processos tutelares cíveis (Lei n.º 133/99, de 28 de Agosto) e, pela
Lei n.º 166/99, de 14 de Setembro, a actual Lei Tutelar Educativa. A avaliação
desta última lei constitui o objecto central deste projecto de investigação.

Apesar de publicada em 1999, a sua entrada em vigor foi precedida da


publicação de legislação que regulamentasse a criação, organização,
XXIV Introdução geral

competência e funcionamento dos centros educativos e que aprovasse o seu


regulamento geral e disciplinar, o que determinou que a nova lei só viesse a
entrar em vigor em 1 de Janeiro de 2001, mais de um ano depois da sua
publicação. Trata-se, portanto, de uma lei com um período de vigência de
pouco mais de três anos.

Para alguns, esta circunstância poderá ser considerada como um factor


que aconselharia a dilação da sua avaliação. Não foi essa, contudo, a posição
do Governo, através do Ministério da Justiça, que a quis avaliar, nem é aquela
que, no âmbito do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa,
consideramos defensável. Nesta avaliação não está em causa a matriz, os
princípios ou os objectivos da lei. Para uma avaliação dessa natureza seria, por
certo, necessário um período de vigência mais longo. O que se pretende neste
estudo é, tão só, mapear e analisar eventuais problemas ou bloqueios
condicionantes da eficácia da reforma.

No âmbito do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa temos


vindo a defender que as principais reformas introduzidas no ordenamento
jurídico deveriam prever um período experimental e serem devidamente
monitorizadas e avaliadas. Só assim se podem conhecer os desajustamentos
ou bloqueios que a aplicação e execução da reforma fazem emergir, muitos
deles facilmente evitáveis desde que rapidamente conhecidos e solucionados.
A sua resolução atempada evita a “rotinização” de efeitos indesejáveis e
mesmo perversos, ajudando a diminuir e, em muitos casos, a eliminar as
disjunções existentes entre os princípios e objectivos normativos e a sua
prática.

O paradigma do novo Direito dos Menores não está, assim, em causa,


neste estudo. Pelo contrário, o que pretendemos é dar conta de um conjunto de
problemas e bloqueios de carácter normativo, cultural ou organizacional que, à
luz da nossa investigação, são determinantes para as disjunções existentes
entre os princípios orientadores e os objectivos que enformam a reforma do
Direito dos Menores, em especial, a nova Lei Tutelar Educativa e a sua
concretização prática.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa XXV

Muitos dos aspectos da nova reforma tutelar já estão suficientemente


“consolidados” para, com segurança, se propor a sua alteração. Outros há,
como veremos, ao longo dos vários capítulos, relativamente aos quais apenas
poderemos identificar alguns problemas que, a manterem-se, devem ser
rapidamente solucionados. Esta limitação se, nalguns aspectos, pode resultar
do escasso período de tempo de vigência da lei, para outros, resulta,
sobretudo, da ausência de avaliação do Direito dos Menores globalmente
considerado. Na verdade, a avaliação da Lei Tutelar Educativa não pode ser
dissociada da avaliação da Lei de Promoção e Protecção das Crianças e
Jovens em Perigo, como, aliás, é opinião de muitos operadores entrevistados.
Há problemas identificados, quer a montante, quer a jusante do processo
tutelar educativo, cuja solução depende de um eficaz funcionamento daquela
lei, bem como da existência, na prática, de fortes mecanismos de articulação
entre o sistema tutelar educativo e o sistema de promoção e protecção.

Metodologia

A recolha de dados do estudo que agora se apresenta neste relatório foi


feita com recurso a métodos quantitativos e qualitativos e foi, simultaneamente,
intensiva e extensiva. Compreendeu, desde logo, a recolha e tratamento de
legislação - quer no âmbito do Direito Internacional, quer, naturalmente, no
âmbito nacional - de doutrina, de estudos e outros documentos sobre
delinquência juvenil. Ainda que de forma breve, considerámos importante trazer
para o debate alguma informação no âmbito da experiência comparada.
Interessou-nos, em particular, o caso espanhol por ser um país com uma
tradição jurídica próxima do nosso e com uma recente reforma sobre esta
matéria.

A análise da aplicação da lei começou por ser feita com recurso à base de
dados das estatísticas oficiais da jurisdição tutelar do Gabinete de Política
Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça. Analisamos o volume de
processos pendentes, entrados e findos durante os anos de 2001 e 2002,
XXVI Introdução geral

assim como os motivos que determinaram o fim, quer dos inquéritos, quer dos
processos tutelares educativos que chegaram à fase jurisdicional. A análise
destes dados permite-nos, ainda, conhecer outras características da justiça de
menores, designadamente quem mobiliza o processo, quais os factos
qualificados como crime predominantemente praticados pelos jovens, qual a
duração do processo tutelar educativo na fase jurisdicional, qual a percentagem
de revisão das medidas aplicadas e em que sentido é efectuada essa revisão,
quais as medidas tutelares educativas mais aplicadas e qual o perfil social dos
jovens sujeitos desses processos.

Os dados estatísticos foram, ainda, importantes na avaliação da fase de


execução da lei. Neste caso, recorremos a dados do Instituto de Reinserção
Social (IRS) que nos permitiram ter uma visão global do universo de medidas
em execução pelo IRS.

Com o objectivo de tornar possível uma análise sociológica mais fina da


aplicação da Lei Tutelar Educativa procedemos à recolha de um conjunto de
dados dos processos - considerámos as mesmas variáveis avaliadas na
análise estatística a nível nacional - que se encontravam na fase jurisdicional
nos Tribunais de Família e Menores de Lisboa e de Coimbra: um tribunal
situado num contexto hiperurbano e outro numa cidade de média dimensão. A
análise incidiu sobre uma amostra aleatória de cerca de 55% dos processos
entrados na fase jurisdicional, em cada um daqueles tribunais, entre 2001 e
2003, considerando, quer os processos que já tinham uma decisão em primeira
instância, quer os que se encontravam ainda pendentes. A análise destes
dados permite-nos, considerando as variáveis acima identificadas, aquilatar
das diferenças entre os dois tribunais analisados. Permite-nos, ainda, avaliar o
desempenho dos advogados no processo tutelar educativo.

Com objectivo semelhante para a fase de execução, quer das medidas de


internamento, quer das medidas não institucionais, analisámos, através de uma
amostra aleatória de cerca de 50%, os processos individuais dos jovens a
quem foi aplicada uma medida em dois centros educativos- o Centro Educativo
da Bela Vista (Lisboa) e o Centro Educativo dos Olivais (Coimbra)- e nas
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa XXVII

equipas de família e menores do IRS correspondentes. Esta análise tem um


duplo objectivo: conhecer o perfil social e “criminal” dos jovens a quem foi
aplicada uma medida, bem como o seu enquadramento sócio-familiar; e quais
os objectivos e as estratégias definidas e executadas tendo em vista o
cumprimento do fim último da Lei Tutelar Educativa: “a educação do menor
para o direito”.

Para complementar a nossa análise era fundamental ouvir os operadores


directamente envolvidos nesta questão. Para tal, realizámos várias entrevistas
semi-estruturadas com magistrados judiciais e do Ministério Público, dirigentes,
coordenadores e técnicos do IRS. Com o objectivo de promover uma discussão
mais alargada realizámos, ainda, um painel com magistrados judiciais e do
Ministério Público, advogados e representantes de instituições como a
Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, o Instituto de
Reinserção Social, o Instituto da Solidariedade e Segurança Social e o Centro
Protocolar de Formação para o Sector da Justiça. Este painel, com a
autorização de todos os participantes, foi integralmente gravado e
posteriormente transcrito. As transcrições, depois de ligeiramente revistas,
foram enviadas para eventuais correcções a cada um dos intervenientes. A sua
publicação inclui todas as correcções que os próprios entenderam fazer. Neste
relatório incluem-se alguns excertos dessas entrevistas e desse painel de
modo a que pudéssemos caracterizar o olhar e o discurso dos operadores
sobre esta temática.

Apresentação do Relatório

Este relatório é composto por um volume e um anexo. O relatório está


dividido em nove capítulos. No primeiro capítulo, fazemos uma breve
abordagem teórica do fenómeno da delinquência juvenil. Nesta abordagem
consideramos dois vectores principais: a importância do contexto social e das
instituições socializadoras como factores explicativos da delinquência juvenil e
os seus modelos formais de prevenção e controlo.
XXVIII Introdução geral

No Capítulo II, procedemos a uma análise do direito internacional em


matéria de justiça de menores, dando conta dos principais instrumentos
jurídicos e das acções desenvolvidas no âmbito das Nações Unidas e do
Conselho da Europa. Terminamos este Capítulo com uma análise das acções
mais relevantes desenvolvidas pelas instituições da União Europeia em matéria
de criminalidade juvenil.

No Capítulo III, lançamos um breve olhar sobre o novo Direito de Menores


em Espanha, analisando a Ley Orgánica Reguladora de la Responsabilidad
Penal de los Menores e a sua aplicação.

A evolução do Direito dos Menores em Portugal no último século é


traçada no Capítulo IV, destacando-se as principais características do regime
jurídico da Lei Tutelar Educativa.

No Capítulo V, analisamos a aplicação da Lei Tutelar Educativa pelos


tribunais de família e menores à luz das estatísticas oficiais do Gabinete de
Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça e dos dados
recolhidos pelo Observatório Permanente da Justiça Portuguesa nos Tribunais
de Família e Menores de Lisboa e de Coimbra.

Como já referimos, a reforma do Direito de Menores, globalmente


considerada, pretendeu imprimir uma mudança de orientação normativa e,
consequentemente, de prática, neste âmbito do direito. No Capitulo VI
procuramos trazer para o debate a visão dos operadores que trabalham
directamente com estas questões (magistrados judiciais e do Ministério Público
(MP), advogados e técnicos do Instituto de Reinserção Social (IRS) e da
Segurança Social), ressaltando as disjunções entre os objectivos da lei e sua
aplicação prática.

Os Capítulos VII e VIII dizem respeito à fase de execução da lei. No


Capítulo VII, centramos a nossa análise na execução das medidas não
institucionais dando conta, para cada medida, dos principais problemas
identificados na sua execução. Análise semelhante é feita no Capítulo VIII para
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa XXIX

a medida tutelar educativa institucional, distinguindo-se nela os regimes de


internamento aberto, semiaberto e fechado. Em ambos os capítulos são
apresentados estudos de caso.

O Capítulo IX inicia-se com as conclusões da análise efectuada nos


capítulos anteriores. À luz dessas conclusões apresentamos um conjunto de
propostas que consideramos fundamentais para melhorar o desempenho da
Lei Tutelar Educativa.

O volume em anexo corresponde à transcrição na íntegra do debate do


painel. Todas as identificações dos intervenientes são ocultadas em
publicação. A identificação faz-se apenas pela menção da letra P seguida de
um número atribuído a cada um dos participantes em função da ordem da sua
primeira intervenção no painel.
Capítulo I

Os jovens, o crime e a justiça

Introdução

As transformações sociais, económicas, políticas, tecnológicas, entre


outras, vividas nas últimas décadas nas sociedades contemporâneas,
evidenciam a incerteza e o risco que governam os nossos dias. Embora toda a
sociedade tenha que lidar com essa incerteza, há grupos mais frágeis que
ficam especialmente vulneráveis a essas mudanças no tecido social. As
crianças e os jovens constituem um desses grupos, sobretudo quando estão
inseridos num contexto social marcado pela mudança na composição do
núcleo e das dinâmicas familiares, pelo desemprego, pelo alcoolismo, pela
toxicodependência e pelo crime. Para vários autores, a juventude é o espelho
da sociedade e, consequentemente, todos os problemas sociais se reflectem
de imediato nos jovens, levando a que estes sejam avassalados por um vazio
psicossocial e cultural e por uma falta de referências e valores para a sua
existência (Queloz, 1994).

Em Portugal, nos finais da década de noventa, e em boa medida devido a


alguns casos mediáticos de criminalidade juvenil, começou a surgir uma
preocupação crescente com o fenómeno da delinquência juvenil. Imagens
violentas veiculadas diariamente pelos media levaram a que o cidadão comum
sentisse que podia estar sujeito a agressões permanentes, aumentando o seu
sentimento de insegurança. A mediatização deste fenómeno contribuiu para
que, de acordo com Maria João Carvalho (2000), a opinião pública em Portugal
começasse a acreditar que a sociedade actual é, de facto, mais violenta que as
2 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

que lhe antecederam levando, consequentemente, a uma diminuição da


capacidade de tolerância perante comportamentos desviantes e delinquentes1.

Este sentimento de insegurança fomentado pelos media, “ascendeu à


categoria de preocupação nacional em todos os países industrializados”
(Lourenço, 1998: 51). Analisando a criminalidade cometida por jovens na União
Europeia, a Presidência da União Europeia considera que esta se caracteriza,
em termos gerais, pelo aumento do número de factos violentos cometidos por
jovens (sendo muita desta violência gratuita); pela existência de grupos de
jovens delinquentes um pouco por todos os Estados-membros; pelo aumento
do número de práticas reincidentes; pelo aumento do número de jovens do
sexo feminino envolvidas em práticas delituosas; pela diminuição do nível
etário dos jovens delinquentes; pelo acentuar das ligações entre delinquência
juvenil, consumo e tráfico de drogas, e criminalidade de adultos; pelo aumento
da gravidade dos actos de violência racial e xenófoba; e pelo facto de muitos
dos factos qualificados como crime praticados por jovens terem como vítimas
outros jovens, o que leva a que sejam os jovens os mais expostos à violência
da delinquência juvenil (Figueiredo, 2001a). Olhando para este cenário, importa
reflectir sobre a relação entre os jovens, a delinquência e a justiça.

1
Os dados relativos a esta questão parecem não ser consensuais e registam uma tendência
diferente consoante a natureza da criminalidade. Com efeito, se os dados da Polícia Judiciária,
que investiga a criminalidade mais grave, evidenciam um rejuvenescimento dos autores do
crime, no que se refere aos dados da GNR e da PSP, o escalão que pode ser conotado com a
delinquência juvenil - actos praticados por menores de 16 anos - vai diminuindo de 1993 a
1996 e tem uma maior incidência nas Áreas Metropolitanas, sobretudo na de Lisboa (Lourenço,
1998: 56-57). Em 2000, um relatório da Procuradoria-geral da República demonstrava que os
actos criminosos praticados por menores não têm vindo a aumentar. Em sentido contrário, o
Relatório de Segurança Interna, referente a 2000, refere que a delinquência juvenil assume um
papel cada vez mais importante na pequena criminalidade, tendo tido uma evolução crescente
nos últimos anos.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 3

1. A delinquência e a criminalidade juvenil: uma breve abordagem


teórica

Os problemas relacionados com as crianças e jovens foram objecto de


diversos estudos, nomeadamente nos domínios da criminologia, da sociologia
e da psicologia. Parte desses estudos abordam, de forma directa ou indirecta, o
fenómeno da criminalidade e da delinquência juvenil, bem como o papel da
comunidade na prevenção desse fenómeno.

O estudo da delinquência juvenil2 começou a desenhar-se no início do


século XIX, chegando esta a constituir-se como área privilegiada de actuação
estatal em diversos países europeus e nos EUA.

As teorias culturalistas apareceram nos EUA na década de 20 com a


“Escola de Chicago”, como resultado da proliferação de fenómenos, ditos
urbanos, como os bairros problemáticos e os gangs de adolescentes. As
teorias culturalistas abordam a questão da delinquência através da aquisição,
por parte dos indivíduos, de um sistema de valores, ou seja, é a aquisição de
uma dada cultura que vai determinar os seus comportamentos: se os sistemas
de valores adquiridos são favoráveis à delinquência, os indivíduos tornar-se-ão
delinquentes; se, pelo contrário, os sistemas de valores são hostis à
delinquência os indivíduos não se tornarão delinquentes. Há várias teorias que
se inserem nas teorias clássicas culturalistas e que importa aqui mencionar.

A teoria da associação diferencial de Sutherland é a principal teoria


“clássica” da sociologia da delinquência. Esta teoria desenvolve dois princípios.
O primeiro é o princípio da aprendizagem que defende que o comportamento
criminal é apreendido, ou seja, é o resultado da aprendizagem que se verifica
no quadro de pequenos grupos íntimos que transmitem técnicas que permitem
realizar actos delinquentes. O segundo princípio é o da associação diferencial
que diz que: “uma pessoa torna-se delinquente devido a um excesso de

2
Para a abordagem destes estudos, seguimos de perto Fillieule, 2001.
4 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

definições favoráveis à violação da lei” (Fillieule, 2001). Quanto mais a


associação a um certo grupo é frequente, durável e intensa, mais o julgamento
desse grupo sobre a delinquência pesará na determinação do comportamento
do indivíduo.

As teorias da tensão defendem a ideia que os delinquentes potenciais são


colocados em situações onde são submetidos a fortes contradições. Essas
forças contraditórias criam um conflito interior (uma tensão) cuja resolução
implica que o indivíduo adopte um comportamento delinquente. A delinquência
é definida não apenas como uma simples série de actos efectuados por um
indivíduo, mas como um verdadeiro papel no sentido da teoria
estrutural-funcionalista.

As teorias mistas, cujo autor mais célebre é Cohen, operam uma síntese
entre as teorias culturais e as teorias da tensão. Estas teorias admitem que a
delinquência juvenil constitui uma subcultura e que essa se transmite no seio
de gangs delinquentes, dos membros mais velhos para os mais novos.
Admitem, também, que a delinquência tem a sua fonte numa “tensão”, num
problema de ajustamento sofrido pelo futuro ou pelo potencial delinquente.

A teoria da rotulagem (estigmatização) considera que as formas de


reacção social não são eficazes para combater a delinquência, uma vez que
são elas próprias que possibilitam o aparecimento da delinquência. Esta teoria
focaliza-se na reacção social, isto é, nas reacções dos familiares do
delinquente, da instituição judiciária ou do público em geral, aos actos
delinquentes praticados pelo indivíduo. O enfoque é, portanto, nos processos
pelos quais as pessoas são definidas pelos outros como desviantes.

Embora sofrendo várias críticas, foram aqueles quadros teóricos que


predominaram na década de 50, estando os sociólogos da delinquência
sobretudo mobilizados para explicar a constituição dos gangs de adolescentes
nos bairros pobres das grandes cidades.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 5

A partir de 1960 surgem várias críticas ao paradigma culturalista,


preconizadas, entre outros, por David Matza. Para este autor existe uma
subcultura da delinquência mas não uma subcultura delinquente. David Matza
mostra que as teorias culturalistas repousam sobre duas hipóteses: (1) os
valores do delinquente estão em oposição directa com os do não-delinquente;
(2) o delinquente age de acordo com os seus valores. Cada uma destas
hipóteses pode ser posta em causa, uma vez que, para Matza, é possível que
o delinquente tenha os mesmos valores que os outros e aja de acordo com os
valores comuns. Para este autor é necessário distinguir entre “subcultura
delinquente” e “subcultura de oposição”, sendo esta última definida como um
sistema de valores anti-conformistas que é reivindicado pelos grupos
minoritários. Quando os indivíduos aderem a uma “subcultura de oposição” e
são apanhados pela polícia no quadro das suas actividades desviantes, eles
continuam a reclamar o seu próprio sistema de valores e consideram a prisão
injusta. Numa “subcultura delinquente” a reacção do jovem delinquente quando
é preso, também é pautada pela indignação porque acredita que é acusado
injustamente. No entanto, a sua reacção demonstra implicitamente que ele
aceita que os actos delinquentes de que é acusado sejam punidos, afirmando
sempre que é inocente e que não os cometeu.

A década de 60 representa, assim, um importante marco nos estudos da


delinquência. Em primeiro lugar, o recurso a novas metodologias contribui para
o aparecimento de novos eixos de análise nesta matéria: os chamados
inquéritos auto-revelados, através dos quais os adolescentes revelam a
natureza e a frequência dos seus eventuais actos delinquentes e as sondagens
de vitimação, que consistem em estudar uma amostra representativa da
população questionando-a sobre quais foram os actos delinquentes de que
foram vítimas durante um determinado período de tempo. Em segundo lugar,
os países ocidentais confrontam-se com uma explosão das diversas formas de
delinquência. O facto de esta explosão surgir durante um período de
crescimento económico, com um baixo nível de desemprego e com uma
tendência para diminuição das desigualdades sócio-económicas, levou a que
as teorias tradicionais se tornassem desadequadas. É neste contexto que a
6 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

teoria do controlo social atinge o seu auge. Esta teoria funda-se na ideia de
que, uma vez que todo o indivíduo é um potencial delinquente - basta ceder à
tentação -, não é a delinquência que precisa de ser explicada, mas sim a sua
ausência. De acordo com esta teoria, cujo principal autor é Travis Hirschi, um
indivíduo torna-se delinquente se os laços que o ligam a outros membros da
sociedade, nomeadamente a família e a escola, estão enfraquecidos ou
quebrados. Quando um indivíduo está nessa situação (“sem controlo”) os
obstáculos que o poderiam impedir de realizar um acto delinquente estão
excluídos. Só resta agora o cálculo racional que o pode incitar a respeitar as
leis e as regras morais. Mas como a acção delinquente permite obter certas
gratificações mais rápida e facilmente que o respeito pelas leis, a racionalidade
instrumental pode levar o indivíduo a cometer actos delinquentes. A
delinquência pode, deste modo, surgir logo que o “laço” que liga o indivíduo à
sociedade se afrouxa ou quebra.

Ainda na década de 60, surge um outro paradigma explicativo: o


paradigma multifactorial, que se funda na análise empírica de grupos de
delinquentes ou adolescentes. Essas observações permitem evidenciar uma
multiplicidade de variáveis (biológicas, psicológicas e sociais) que se
relacionam com a delinquência e podem constituir factores explicativos. O
paradigma multifactorial procura explicar a sucessão de fases de delinquência
na vida de um indivíduo e, para isso, apoia-se no conceito de “carreiras
delinquentes”. “Carreira delinquente” consiste na sequência longitudinal de
infracções cometidas por um delinquente que tem uma taxa de delinquência
detectável durante um certo período, o que não significa que esse indivíduo
faça da delinquência uma profissão. Como variáveis descritivas deste conceito
temos a participação e frequência (podem ser medidas através de dados
oficiais ou a partir de inquéritos de auto-revelação); o início da carreira
delinquente (idade em que é cometido o primeiro acto delinquente); o fim
(idade em que é cometido o último acto delinquente); e a duração da carreira.
Estas variáveis são importantes porque permitem saber quais os factores que
permitem um aumento ou uma diminuição da duração da carreira.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 7

Na década de 70, desenvolve-se um novo paradigma explicativo, o


paradigma da acção (fundado sobre a análise da acção delinquente). Trazendo
consigo a noção de “actor racional”, este paradigma procura explicar o enigma
da explosão da delinquência não através da motivação do delinquente (que foi
o principal sujeito do estudo das teorias culturalistas), mas pela multiplicação
das ocasiões de delinquência. As concepções preventivas são renovadas pelo
desenvolvimento de técnicas de prevenção situacional. Um dos autores deste
paradigma é Maurice Cusson que elaborou uma tipologia dos objectivos da
acção delinquente. Para este autor, a acção delinquente consiste em cometer
um delito para manifestar energia e para ter a sensação de viver intensamente.
A actividade delinquente não é, neste caso, um meio em vista de outro fim,
como um roubo, mas é, ela própria, o fim. O prazer que provoca ao seu autor é
intrínseco aos próprios actos. É o prazer de viver momentos intensos numa
“sucessão rápida de episódios excitantes”. Para Cusson, os delinquentes, mais
que os outros, precisam de sensações fortes, pois as actividades delinquentes
opõem-se às actividades rotineiras sem risco e que visam um benefício no
longo prazo. Este autor introduz, também, o conceito de apropriação, isto é,
roubar para aproveitar o bem do outro; de agressão, que pode ser utilitária,
defensiva ou vingativa; e de dominação, ou seja, cometer um delito para obter
supremacia sobre alguém. Defende, ainda, que qualquer um dos fins é
escolhido porque as oportunidades legítimas são poucas. Quanto maiores são
as oportunidades legitimas que se oferecem a qualquer um, menos tendência
haverá para escolher uma actividade delinquente, e contrariamente, quanto
maiores são as oportunidades criminais que se oferecem a alguém, mais
tendência haverá para escolher uma actividade delinquente (Fillieule, 2001).

Nos anos 80, a teoria do vidro partido conduz ao aparecimento de novas


formas de intervenção policial baseadas na prisão e na aplicação restrita das
leis, mas principalmente na manutenção de uma ordem de proximidade
destinadas a evitar espirais de deterioração (Fillieule, 2001).
8 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

Nos dias de hoje, a problemática da delinquência permanece, sobretudo,


associada ao conceito de desvio social3, que é um conceito amplo e complexo
e, por isso, de difícil definição. Podemos dizer que o desvio “aplica-se às
condutas individuais ou colectivas que transgridem as normas de uma dada
sociedade, ou de um grupo. Refere-se à ausência ou falha de conformidade
face às normas ou obrigações sociais” (Ferreira, 1995: 459). Assim, se “o
desvio é constituído por uma transgressão a uma norma social”, a delinquência
“é uma forma particular ou um sub-conjunto do desvio” que “é constituída por
uma infracção a uma norma penal” (Queloz, 1994).

São várias as perspectivas teóricas sobre os diferentes tipos de


delinquência juvenil e mesmo sobre a definição desse conceito, o que
demonstra que este está longe de ser um conceito homogéneo. Como refere
Maria João Leote de Carvalho, seguindo na esteira de Binder4, há três grandes
categorias explicativas do fenómeno de delinquência juvenil: uma primeira que
engloba as sustentadas pela opinião pública, reflexo de crenças sobre a
natureza humana e ordem social na qual cada indivíduo está inserido; uma
segunda que abarca as explicações produzidas pelas autoridades como
políticas de controlo legal; e, por fim, uma terceira categoria que compreende
explicações teóricas decorrentes de investigações por parte de cientistas
sociais (2002: 37).

Referimos, de seguida, algumas definições de delinquência juvenil desde


finais dos anos 80.

Dickes e Hausman (1986) propõem uma definição abrangente de


delinquência que abarca todos os comportamentos problemáticos que se
manifestam no decurso da transição dos jovens para a vida adulta, isto é,

3
Giddens alerta-nos que, uma vez que a vida em sociedade é constituída por normas, qualquer
um de nós pode, em qualquer momento, transgredir uma norma. Refere, ainda, que “aquilo que
é visto como «desviante» pode variar ao longo do tempo e do espaço. O que é definido como
comportamento «normal» num determinado contexto cultural pode ser rotulado como
«desviante» noutro contexto” (1998: 28).
4
Ver Binder, Arnold (1987). “An historical and theoretical introduction” in QUAY, Herbert (ed.),
Delinquency and crime, current theories. New York: Cambridge University Press, pp. 149, 198.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 9

“comportamentos de quebra das condutas sociais convencionais que o


indivíduo manifesta decorrentes de um processo de socialização juvenil”
(Carvalho, 2002: 37). De acordo com esta definição, as infracções legais são
apenas uma parte da totalidade desses comportamentos.

Para Emler e Reicher, a delinquência não decorre de carências


cognitivas, sociais ou morais, mas sim de uma relação de confronto com a
autoridade legal. Durante a adolescência acciona-se uma nova fase da relação
entre o indivíduo e a ordem institucional, sendo no decorrer desta fase que
alguns adolescentes se orientam para uma rejeição da regulação social formal
em proveito de uma gestão informal dos laços sociais. A percepção negativa
dos representantes da autoridade formal e as condutas delinquentes são dois
fenómenos que traduzem a preferência por uma gestão informal das relações
sociais. Desenvolver uma reputação delinquente seria, portanto, uma escolha
deliberada, podendo constituir um critério de pertença a um grupo, um meio de
impressionar os pares ou de se fazer respeitar (Bégue, 2000).

Sebastien Roché (2000), por seu lado, avança uma definição de


delinquência juvenil que combina três factores: acção, intenção e reacção. No
que se refere à acção, o autor diz-nos que a realização de um acto depende da
existência física de um alvo e da sua acessibilidade que se verifica na sua
existência, na sua exposição e na sua vulnerabilidade.

O segundo factor refere-se à intenção apoiada numa motivação. De


acordo com esta perspectiva, não se realizam actos contra a vontade da
pessoa, ou seja, não temos todos os dias de roubar ou agredir. Para este autor,
a questão do acesso aos alvos é fundamental para a motivação e a acção
delinquente. A emergência e consolidação da classe média provocaram
grandes alterações no estilo de vida, aumentando fortemente o consumo dos
bens. Os veículos difundiram-se, os domicílios encheram-se de objectos de
valor, os circuitos de distribuição mudaram da mercearia para o supermercado,
isto é, os alvos multiplicaram-se estando cada vez menos protegidos, tal como
as vítimas potenciais (cada vez mais apetrechadas de livros de cheques e
cartões de crédito). A motivação do jovem pode também estar relacionada com
10 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

a função dos laços humanos, especialmente da família, na sua vida – as


gratificações ligadas à realização de um acto podem ser materiais mas também
podem ser simbólicas, como quando a acção se liga ao prestígio, ao
reconhecimento do sucesso num grupo ou face a um público maior. Surge
aqui, por exemplo, o conceito de “cultura de rua”, que favorece as práticas
delinquentes.

O terceiro factor mencionado por este autor é a reacção, que pode


consistir numa sanção, numa reprovação simples ou numa acção de
prevenção. O resultado da transformação das intenções em acções pode,
ainda, depender da reacção social ao acto praticado, em especial por parte da
família e da escola, os dois pilares da socialização.

Pedro Moura Ferreira defende que é “um erro assumir que a maior parte
dos delinquentes são diferentes dos não-delinquentes” (1997: 917), até porque,
como mostram os inquéritos de delinquência auto-revelada, a adolescência é
caracterizada por um estado que não é nem de dependência absoluta nem de
responsabilidade completa, é um continuum entre a liberdade e o controlo.
Assim, “para a maior parte, a delinquência é, quando muito, uma experiência
esporádica e transitória e nunca um modo de vida” (Ferreira, 1997: 917). Deste
modo, o autor caracteriza a delinquência juvenil recorrendo a duas imagens: a
de delinquente subsocializado e a de delinquente socializado. O conceito de
delinquente subsocializado resulta das teorias do controlo social que apontam
como causa da delinquência a ausência de laços fortes entre o indivíduo e a
sociedade, nomeadamente no que se refere às relações com os outros e com
as instituições convencionais e à crença na legitimidade da ordem legal. A
manutenção destes laços inibe as práticas delinquentes uma vez que assegura
um controlo externo e interno do indivíduo, diminuindo as possibilidades de
este cair na delinquência (Ferreira 1997: 918).

No delinquente socializado a delinquência explica-se pela aprendizagem


de comportamentos socialmente desviantes através da exposição às acções
dos outros, isto é, o jovem toma essas acções como modelos para as suas
próprias acções. Esta exposição a comportamentos delinquentes é mais
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 11

comum em populações mais vulneráveis a sentimentos de frustração e de


injustiça pelo facto de não terem acesso legítimo a objectivos e oportunidades
culturalmente determinados. A existência desses sentimentos leva à rejeição
dos objectivos convencionais da sociedade e ao envolvimento com meios
ilegítimos de os obter (Ferreira 1997: 918-919).

Também para o psicólogo Eduardo Sá, a problemática da delinquência


juvenil não pode ser confundida com um diagnóstico clínico. Considera que,
“são raras as vezes em que se fala das circunstâncias traumáticas a que estes
jovens foram sendo expostos, em consequência das famílias sem qualidades
onde cresceram, e dos ambientes onde terão vivido múltiplos episódios de
violência e de maus-tratos cumulativos” (2002: 64).

2. Alguns factores explicativos da delinquência juvenil de hoje: a


importância do contexto e das instituições socializadoras

Decorre do que já se deixou dito no ponto anterior que a delinquência


juvenil dificilmente pode ser analisada como se de uma categoria fechada se
tratasse. Qualquer abordagem à delinquência juvenil procura ter em conta o
contexto social em que o jovem está inserido, bem como as dificuldades que
afectam o percurso da criança ou jovem. Com efeito, embora não exista uma
única explicação para o facto do jovem ter comportamentos delinquentes,
vários autores defendem que estes se prendem, hoje, na grande maioria dos
casos, “com os espaços e com as dinâmicas sociais onde se [vêm] a
desenrolar, no seio de comunidades fragmentadas e onde as instituições
tradicionais de controlo social, designadamente a família e a escola, se vêem
sem grande eficácia sendo, também elas, alvos preferenciais dessa mesma
violência no que são acusadas de disfuncionamentos de diversa ordem”
(Carvalho, 2000: 36).

É nesta esteira que várias abordagens sociológicas seguem, enfatizando


os laços sociais, económicos e culturais, como estando intimamente ligados
12 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

com a problemática da delinquência juvenil: Paugam (1991) fala de dinâmica


de desqualificação social; Barel (1984) refere a sociedade do vazio; Duvignand
(1986) aborda a questão das zonas de marginalidade invisível; Bolle de Bal,
fala em sociedades estilhaçadas que conduzem uma série de
desenlaçamentos ontológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por outro lado,
estudos efectuados nos subúrbios franceses (Dubert e Lapeyrronnie, 1995) e
Suíços (Friburgo, 1991) concluem que a exclusão se configura como uma
questão central, e que duas problemáticas se acumulam: o desatar de laços
com a família, a escola, a formação profissional e o trabalho e uma situação
global de precariedade social, económica, cultural e identitária. A experiência
de “zona” (área de encontro e estadia de jovens) compreende-se como uma
estratégia de inserção face ao isolamento, do recuo face à sociedade global, de
contestação e revolta.

Walgrave (1994), que efectuou estudos sobre jovens oriundos de meios


precários e violentos sublinha o conceito de vulnerabilidade social, noção
estrutural e interaccionista, que evoca as situações de risco que podem ocorrer
entre indivíduos e grupos, geralmente minoritários, nos seus contactos com as
instituições sociais oficiais: escola, segurança social, justiça penal, etc.

Também de acordo com as conclusões de um seminário promovido pela


Presidência da União Europeia, a análise dos factores da delinquência juvenil
na Europa tem que ter em consideração, entre outros, a “relação entre a
delinquência juvenil e o crescimento urbanístico desordenado, sobretudo nas
periferias dos grandes centros urbanos”; “a relação entre a delinquência dos
menores e a exclusão social, económica e cultural, num contexto de
sociedades de elevados padrões de consumo e de ascensão e sucesso social”;
“a relação entre a delinquência juvenil e os movimentos migratórios, com as
correspondentes desadaptações sociais”; e “as fragilidades das instâncias
tradicionais de socialização (...) perante os primeiros sintomas de desvio social
e as suas dificuldades em transmitir valores fundamentais” (Figueiredo, 2001a).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 13

A delinquência como fenómeno urbano

A delinquência juvenil tem sido vista como um fenómeno essencialmente


urbano5. A desertificação dos centros das cidades aliada à desindustrialização
e ao envelhecimento demográfico levou ao crescimento desregulado das
periferias fazendo emergir uma nova realidade que é a das
“cidades-dormitório”. Nesta nova realidade crescem problemas sociais como a
pobreza, o desemprego e a proliferação de situações de economia subterrânea
que conduzem à exclusão social (Carvalho, 2000: 34-35).

Walgrave (1994) defende que a cidade com as suas zonas comerciais e


recreativas é bastante atractiva para os jovens que estão a desenvolver a sua
independência, potenciando o aparecimento de subculturas juvenis. Com o
claro objectivo de afirmarem a sua identidade, os jovens criam lugares de
encontro, canais de comunicação, expressões e códigos que não são
controlados por influências externas. A rejeição à conformidade é tolerada e até
apreciada. Estas novas vivências dos jovens potenciam a delinquência,
também ela potenciada pela existência de um grande conjunto de potenciais
alvos de vandalismo, furtos, roubos e factos mais ou menos violentos. Estes
factores fazem com que seja nas cidades que se verificam as maiores taxas de
delinquência juvenil, em especial em alguns bairros. Como sublinha Maria João
Carvalho, o facto de certos bairros estarem próximos de linhas férreas,
auto-estradas, depósitos ou equipamentos sociais, são factores que aumentam
a exclusão social, situação agravada quando se deixa para segundo plano a
construção de equipamentos básicos de saúde, educação e lazer para as
populações desses bairros (2000: 39). Quando construídos, a rápida

5
Tal não significa que não exista delinquência juvenil no meio rural ou, tão pouco, que esta não
seja revestida de uma complexidade que mereça ser estudada. No entanto, sabemos que a
delinquência juvenil que ocorre no meio rural é menos visível. Por um lado, porque este meio
tem uma grande capacidade de inclusão dos seus membros que apresentam, ocasionalmente,
um comportamento desviante, conseguindo, as instâncias socializadoras exercer um controlo
mais eficaz. Por outro lado, a grande maioria dos estudos sobre delinquência juvenil debruça-
se sobre a delinquência urbana porque é esta que é susceptível de colocar em causa a
insegurança da maioria dos cidadãos, havendo uma maior necessidade de criar e de dotar de
eficácia instâncias formais de controlo nas áreas urbanas.
14 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

degradação dos equipamentos e a sua baixa qualidade contribui para que


estes sejam objecto de vandalização, nomeadamente através de vidros
partidos e graffitis, por parte dos jovens e dos seus grupos de pertença numa
luta pela apropriação do território (Carvalho, 2000: 40).

O facto de muitos destes espaços estarem votados à marginalização por


serem identificados com guetos e comunidades de imigrantes, leva,
igualmente, a que a sua população residente seja objecto de racismo e
segregação.

O próprio espaço exterior ao bairro passa a ser alvo de cobiça por parte
destes jovens que crêem ser possível nesse espaço satisfazerem de forma
mais imediata as suas necessidades. Assim, nas palavras de Maria João
Carvalho, “a imagem do espaço onde se reside contribui, de forma significativa,
para a construção de uma identidade social; se a imagem que o exterior tem de
um determinado local é depreciativa, essa adjectivação estende-se aos seus
residentes promovendo fenómenos de estigmatização que condicionam (...) os
processos de interacção social no reforço de situações de marginalização,
exclusão e desviância” (2000: 40-41).

Família e Escola: instâncias de controlo social

Também o controlo social exercido pelas instituições socializadoras


típicas – a família e a escola6 - é insuficiente perante a complexidade e
tamanho da cidade. Para Pedro Moura Ferreira, a centralidade que a família e
a escola ganham na problemática em torno da delinquência juvenil “nasce da
nossa convicção de que a delinquência é produto da incapacidade dessas duas
estruturas de socialização de levarem, em muitos casos, a bom termo as

6
Alguns autores referem ainda a influência dos media, considerando que a “televisão, cinema,
rádio e a música têm profundos efeitos no desenvolvimento da juventude. Antes de
estabelecerem o seu próprio sistema de valores e estarem aptos a fazerem as suas opções
éticas os jovens são sujeitos a uma promoção agressiva da violência como um aceitável e,
muitas vezes desejável, modo de vida” (Cabral, 1998: 90).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 15

responsabilidades e os deveres que socialmente lhes competem realizar (...). A


falta de acompanhamento e de supervisão ao longo do desenvolvimento infantil
e juvenil justifica o aparecimento de comportamentos que muito se afastam
daqueles que aos nossos olhos exprimem o conceito ideal de infância e de
juventude” (1997: 913).

Se é verdade que a família é uma instituição que tem sofrido várias


alterações ao longo do tempo, também é sabido que “se há instituição que se
tem adaptado às diferentes formas de viver em sociedade, demonstrando a
plasticidade e a flexibilidade das suas formas de organização, ela é certamente
a família” (Almeida, 1994: 117). A família funciona, para muitos, como um lugar
de bem-estar e de realização pessoal. No entanto, as relações familiares
apresentam, também, cada vez mais, um lado menos explícito onde se
escondem histórias de negligência, desresponsabilização paterna, violência
psicológica e física e de abuso sexual. São vários os estudos que consideram
que as disfunções familiares contribuem directamente para a delinquência
juvenil.

De acordo com as teorias do controlo social, a relação entre pais e filhos


é fundamental para compreender as causas da delinquência juvenil.
Considera-se que “a influência protectora da família em relação à delinquência
estrutura-se em torno de três dimensões: a supervisão familiar, a identificação
com os pais e a comunicação íntima. A maior sensibilidade em relação às
preocupações e às orientações dos pais aumenta a probabilidade de a criança
levar em consideração essas preocupações e orientações quando se debate
com a possibilidade de vir a cometer um acto delinquente. Os laços familiares
inibem ou controlam a delinquência, porque o adolescente não quer pôr em
causa as relações positivas que mantém com os pais” (Ferreira, 1997: 920).
Quando a estrutura familiar se dissolve ou sofre alterações, o seu poder de
influência e supervisão sobre o comportamento dos jovens diminui
consideravelmente, podendo estes, mais facilmente, optar por comportamentos
desviantes.
16 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

Para Sebatien Roché (2000), os valores veiculados no meio familiar têm


uma ligação com o comportamento das crianças, sendo os pais um dos pilares
da sua socialização, as figuras da identificação (positiva ou negativa) e uma
fonte de afecto. A este respeito, um estudo efectuado por West e Farrington
demonstrou que “na gama dos comportamentos dos pais, a atitude e a
disciplina materna estão mais estreitamente associadas à delinquência do que
a atitude e a disciplina paterna ou o conflito dos pais” (apud Groenseth, 1991:
128), embora também se tenha constatado que “os pais cruéis, passivos ou
negligentes foram tão nocivos como as mães cruéis, passivas ou negligentes”
(1991: 127). Esta não é, no entanto, a conclusão de um outro estudo, realizado
por McCord,7 que indica que os maus pais são um pouco menos nocivos do
que as más mães (idem).

Deste modo, alguns autores defendem que se pode falar de diferentes


tipos e graus de delinquência consoante as situações familiares em que o
jovem se encontra inserido. Quando, por exemplo, surgem actos mais graves
de delinquência juvenil na classe média, estes podem ter origem numa
situação familiar conflituosa resultante de uma disciplina paterna demasiado
severa e restritiva imposta ao adolescente (Groenseth, 1991:134-135).

Um outro tipo de delinquência produz-se em todas as classes e culturas e


resulta mais de uma frustração afectiva do que de uma repressão autoritária.
Esta delinquência pode ir desde comportamentos marginais e relacionados
com o consumo de droga até à verdadeira violência. Quando, nestes contextos
familiares, a delinquência não surge, pode dever-se a três ordens de razões:
porque os conflitos e descontinuidades são menos graves do que o habitual;
porque o seu efeito criminógeno é combatido pela vigilância da sociedade; ou
porque nenhum comportamento delinquente a que o jovem se poderia associar
existe ao seu alcance (idem).

7
Sobre estes estudos ver Groenseth (1991).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 17

Naturalmente que a falta de vigilância ou a falta de afecto familiar são


factores mais visíveis e gravosos em contextos sócio-económicos mais
vulneráveis. Alguns estudos demonstram que quando os jovens da classe
média são delinquentes têm menos probabilidades de serem apanhados pela
polícia e condenados, uma vez que estão melhor integrados numa comunidade
que respeita a lei. Como fazem parte das redes sociais, os pais são capazes de
exercer um controlo colectivo evitando o recurso à polícia. Todos estes factores
contribuem para prevenir ou, pelo menos, conter a delinquência, aliados ao
facto de que estas famílias dispõem de recursos económicos e materiais que
lhes permitem melhorar a integração dos jovens na família, nas actividades de
tempos livres e no ensino.

Se a família é importante na socialização primária devido à intensidade


com que reforça as orientações e práticas que promovem a interiorização dos
controlos e asseguram a conformidade, este controlo começa a escapar à
família a partir da socialização secundária. A partir deste momento aumenta a
exposição à influência que as relações e acções dos outros têm nos
comportamentos dos adolescentes e jovens, sendo também esta uma das
razões para o aparecimento da delinquência. O contacto com subculturas que
rejeitam a escola pode anular ou neutralizar as orientações incutidas pela
família na socialização primária levando ao aparecimento de comportamentos
delinquentes. A escola, ao proporcionar identificações e integrações positivas,
reforça as orientações tradicionais, mesmo naqueles jovens em que a família
não cumpriu o seu papel na socialização primária (Ferreira, 1997: 923-924).

A universalização do sistema de ensino e o aumento dos níveis de


escolaridade obrigatória têm contribuído para democratizar o acesso à escola,
aos saberes e às oportunidades de vida que permitam uma mobilidade social
ascendente e uma integração social completa. A escola é vista, mesmo, com
uma instituição capaz de corrigir desigualdades sociais e ausência de controlo
familiar.

Contudo, como muitos autores reconhecem, este papel da escola nem


sempre é cumprido e o mau funcionamento escolar tem consequências na
18 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

aprendizagem e integração social por parte dos jovens, podendo mesmo levar
à delinquência ou, pelo menos, não evitando que esta surja.

Identificámos três tendências na literatura clássica sobre a relação entre a


delinquência juvenil e a escola. Uma primeira interpreta o disfuncionamento
escolar como um sinal de dissociabilidade mais global e profunda. A segunda
considera a má escolaridade e a delinquência como duas situações “normais”
das classes sociais inferiores. Para esta posição, a escola é considerada uma
instituição de manipulação e controlo e a adaptação à sociedade dominante
forçada. A terceira tendência, inspirada em concepções interaccionistas,
considera que a má escolaridade tem lugar numa cadeia marginalizante de
significados e interacções, sendo que a delinquência é uma das manifestações
mais características desta posição marginal (Walgrave, 1991: 160-161).

Para Walgrave, a escola exerce influência sobre os jovens,


nomeadamente através do conteúdo da matéria ensinada – latente e
manifesta8 – e da estrutura hierárquica de classe e da escola, sobretudo em
três níveis: cultural, político e criminológico. Ao nível cultural, a escola transmite
as normas, as crenças e os valores da cultura da classe dominante na
sociedade, contribuindo, desse modo, para que os alunos reproduzam os
valores dominantes na sociedade (Walgrave, 1991: 173). Ao nível político, a
escola incita as crianças e jovens ao conformismo uma vez que “opera ao
mesmo tempo em favor da conservação e da confirmação da estrutura
político-económica existente, das suas instituições e das relações
socioeconómicas. O sistema político é apresentado como uma necessidade no
interesse de todos; a harmonia e a paz parecem asseguradas; os conflitos
eventuais provêm de marginais que apenas visam os seus interesses pessoais”
(idem). Por fim, a escola tem influências a um nível mais estritamente
criminológico, uma vez que condiciona “as representações e as atitudes para

8
De acordo com Walgrave, existe a matéria manifesta que é aquela que se pode ler nos
manuais, o que é dito abertamente, as regras oficiais, e existe a matéria latente que é menos
directa: as rotinas de todos os dias, as pressuposições não exprimidas que estão na base da
intervenção escolar (1991: 174).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 19

com as normas sociais, as transgressões e os transgressores de normas, os


sistemas de controlo, etc...” (idem). O papel activo da escola na formação das
atitudes e comportamentos face à criminalidade e à justiça verifica-se no facto
de a escola não fornecer conhecimentos neutros e objectivos nem ensinar
valores e normas naturais ou evidentes; a escola desperta o interesse dos
alunos para determinadas imagens, estereótipos, crenças e atitudes que estão
conformes com a cultura dominante e que favorecem a manutenção das
estruturas e relações socio-económicas e políticas existentes (idem, 1991: 175-
176). No entanto, tal como acontece com a família, nem sempre a influência da
escola é eficaz, por diversas razões.

Uma delas é, sem dúvida, o insucesso escolar, causa e consequência


dessa ineficácia. No seu estudo, Elliot e Voss, que seguiram 2 617 estudantes
de 8 escolas durante 5 anos, demonstraram precisamente que os maus
resultados escolares parecem ser um bom indicador da delinquência futura e
do abandono prematuro da escola (apud Walgrave, 1991: 178). De acordo com
a teoria do controlo social, os laços que se criam entre os jovens, a escola e os
professores, o grau de empenho em relação aos objectivos educacionais, o
tempo gasto na realização dos trabalhos de casa, a percepção da importância
do currículo académico, correlacionam-se negativamente com as práticas
delinquentes (Ferreira, 1997: 922). No entanto, a escola, por ter um modelo
muitas vezes demasiado rígido, não consegue atrair o interesse de certos
jovens, levando a que estes se mostrem desinteressados e obtenham maus
resultados escolares. Uma razão para esse fracasso assenta na
“homogeneidade opressiva do modelo de adaptação apresentado, por um lado,
e na heterogeneidade da preparação, dos interesses e das necessidades dos
alunos, por outro” (Walgrave, 1991: 187). O adolescente começa
progressivamente a não gostar da escola, a rejeitar a autoridade escolar e a
mostrar-se progressivamente desinteressado por todas as actividades
escolares, libertando-se do controlo que a escola exercia sobre ele e abrindo
espaço para que cometa actos delinquentes, não por frustração, mas para se
divertir (Hirschi apud Fillieule, 2001). Esta situação é particularmente
preocupante para as crianças e jovens de classes sociais inferiores que não
20 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

encontram na escola satisfação nem para as suas necessidades, nem


tão-pouco para os seus interesses:

“Vários estudos mostraram, com efeito, que as normas, os valores,


os modos de organização e a linguagem predominantes no mundo
escolar transportam consigo uma determinada marca de classe, que
os tornam mais próximos dos padrões culturais das classes médias
e superiores do que das classes populares. Por isso, enquanto para
as crianças oriundas das classes favorecidas a escola é um mundo
onde estão relativamente à vontade, que é familiar, na medida em
que representa uma experiência de continuidade com o meio cultural
de que são provenientes, para as crianças oriundas das classes
populares ela é, muitas vezes, um universo estranho que não se
domina e com o qual se entre em ruptura” (Almeida, 1994: 125).

A escola acaba por se assumir como um espaço onde experimentam


apenas frustrações e fracassos, falhando, tal como a família, na sua vertente
socializadora. É, pois, um espaço onde se reflectem as frustrações criadas
noutros ambientes, designadamente o familiar. É isto que nos demonstra um
estudo de José Castro sobre a socialização das crianças de rua:

“A socialização familiar não preparou estas crianças para as regras


vigentes no sistema escolar. A ausência de controlo e afecto
familiares e os hábitos adquiridos na rua, onde permanecem muito
tempo por sua conta, ou sob a supervisão de irmãos pouco mais
velhos, torna-lhes penoso serem dóceis e bem comportados, como
esperam os professores, acatarem a disciplina, cumprirem horários
e, até, estarem atentos e manterem uma presença continuada nas
salas de aula, condições exigidas pelas regras elementares da
escola” (1999: 57).

Por outro lado, este fracasso escolar contribui, frequentemente, para que
a própria escola seja uma produtora de rótulos estigmatizantes, uma vez que
os alunos que experimentam o fracasso escolar são, muitas vezes,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 21

estigmatizados por esse fracasso. Nesse sentido, João Ferreira de Almeida


considera que, “é a própria instituição escolar que está a criar condições para o
sucesso dos [alunos das classes mais escolarizadas] e o insucesso dos [alunos
oriundos dos meios populares], os quais, à medida que vão sentindo
dificuldades de aprendizagem, vão interiorizando, muitas vezes, uma imagem
negativa de si próprios, que só diminui ainda mais as possibilidades objectivas
de alcançarem resultados positivos” (Almeida, 1994: 125). Para Walgrave, esta
estigmatização “amplifica socialmente a importância do fracasso escolar: de
uma contra-performance isolada conclui-se pela incapacidade global da
pessoa; de uma indisciplina escolar por uma inadaptação social total. É aí que
a escola desempenha um papel activo no processo de marginalização social de
certos alunos. É aí também que se encontra o cerne de um desvio
perseverante” (Walgrave, 1991: 188).

A escola é, ainda, o local privilegiado para a formação de grupos etários


homogéneos, com representações e interesses comuns que constituem a
subcultura juvenil que pode, muitas vezes, ser de rejeição ou oposição à
escola.

Pedro Moura Ferreira afirma que esta “rejeição e a alienação em relação


à escola conduziam anteriormente a que muitos jovens optassem pelo seu
abandono e procurassem uma rápida integração na vasta força de trabalho
pouco ou nada qualificada. O alongamento da escolaridade obrigatória e a
diminuição desses postos de trabalho fecharam essa saída e fizeram com que
muitos desses jovens mergulhassem em subculturas cujas orientações não
estão voltadas para os aspectos convencionais da adolescência. A constituição
dessas subculturas é facilitada pela presença de problemas, tais como o
insucesso escolar o fraco desempenho escolar ou a presença de sentimentos
de frustração e de alienação em relação ao quotidiano e aos enquadramentos
escolares” (Ferreira, 1997: 923). Os grupos de jovens ficam, assim, expostos a
esta “subcultura de rejeição escolar” que pode ser uma importante via para a
emergência da delinquência.
22 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

A notória importância destas subculturas na vida dos adolescentes leva a


que algumas correntes teóricas, nomeadamente a teoria do controlo social, nas
palavras de Hirschi, considere que, para além daquelas duas instâncias
socializadoras, também os amigos desempenham uma importante função de
controlo social9. Em primeiro lugar, porque a convivência com amigos
delinquentes pode, como já vimos, pouco a pouco arrastar o jovem adolescente
para a delinquência, ainda que, inicialmente, este não tendesse a enveredar
por esse caminho. Esta explicação é, aliás, uma das mais recorrentemente
utilizadas na sociedade: se um determinado jovem caiu na delinquência é
porque tem más companhias. Em segundo lugar, porque os delinquentes têm
tendência a formarem grupos constituídos por indivíduos com experiências
comuns e que, por isso, apreciam a convivência uns com os outros (Fillieule,
2001: 124).

3. Os jovens e a (sua) justiça: prevenir, controlar e punir

3. 1. Alguns estudos sobre a justiça dos jovens que praticam factos


qualificados como crime

Numa sociedade são vários os instrumentos para promover a


conformidade às normas e valores vigentes tentando, assim, controlar
comportamentos desviantes. Num sentido restrito, o controlo social implica
vigiar e punir. Prevê um conjunto de mecanismos de orientação da acção
individual e de sanções que reforçam, positiva ou negativamente, o
comportamento e que tem como objectivo adaptar os comportamentos às
normas sociais. O controlo liga-se ao desvio e tem, relativamente ao indivíduo,
uma intervenção externa e a posteriori.

9
Este é, no entanto, um dos aspectos mais criticados da teoria de Hirschi, pois segundo o
modelo de associação diferencial, o grupo de pares constitui uma parte privilegiada que
favorece a iniciação a práticas delinquentes e a aprendizagem colectiva de atitudes
desfavoráveis à autoridade legal (Bégue, 2000).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 23

Num sentido mais amplo, o controlo social tem, também, uma dimensão
interna e antecipadora. A socialização e a interiorização das normas e valores
culturais garantem, parcialmente, o controlo da sociedade sobre os indivíduos.
Nesse sentido, o controlo social é o conjunto dos mecanismos de socialização,
vigilância e sanção do comportamento. O controlo social passa, assim, também
a ser exercido pelo direito10.

O aparente fracasso das estruturas de socialização tradicionais,


designadamente a família e a escola, e o aparecimento de comportamentos
desviantes levaram à necessidade de intervenção de outras instituições de
controlo social no processo educativo dos adolescentes e jovens (Ferreira,
1997: 913). Estas instituições inserem-se no sistema de justiça juvenil.

Tal como a delinquência juvenil é alvo de múltiplas definições e


interpretações, também a relação dos jovens e crianças com a justiça é objecto
de múltiplos olhares. Em consonância com a evolução das explicações
apontadas para a delinquência juvenil, também a justiça de crianças e jovens
tem conhecido evoluções, resultado, em grande parte, de um crescente
interesse por parte de cientistas sociais.

De entre os estudos conhecidos11, importa citar os efectuados por Wilkins


(1958), Thomas (1977), Farrington et al. (1978) e Bursik (1983), que concluem
que as diversas medidas que o Tribunal de Menores aplica não têm como
consequência a diminuição da propensão do jovem a transgredir a norma legal.
Como razões apontam a influência de determinadas variáveis, tais como a
idade na primeira intervenção tutelar, o tipo de infracção, o tipo de medida
aplicada e sua execução, o tempo de permanência em instituições, o número
de detenções prévias, o consumo de droga, a escolarização, o sexo, a etnia, e
a classe social e sua ligação com variáveis sócio-demográficas.

10
Sobre a relação dos jovens com o direito ver Costa-Lascoux, Jacqueline (2001).
11
No elenco destes estudos, seguimos de perto Pedroso e Fonseca, 1999.
24 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

Breuvart et al. realizaram, em 1974, um estudo sobre o funcionamento


das instituições de protecção judiciária à infância e adolescência que, apesar
de ter, inicialmente, como objectivo apenas a avaliação da eficácia do aparelho
institucional francês, veio a assumir uma perspectiva criminológica que
englobou, por um lado, o estudo das “carreiras” criminais dos sujeitos não
readaptados e o estudo dos tipos de intervenção relativos aos «tipos de
delinquente». O estudo concluiu pela importância determinante da intervenção
judiciária, mas também que, relativamente a uma proporção importante de
sujeitos (20%), a intervenção judiciária se mostrou ineficaz, crescendo com a
idade a tendência delituosa qualitativa e qualitativamente. O estudo destaca,
ainda, que escolha entre a prossecução da actividade criminal ou o
compromisso num processo de reinserção social é particularmente importante
entre os 18 e os 20 anos (apud, Pedroso e Fonseca, 1999: 135).

São, também, de referir, na década de 70, dois estudos de Leblanc. Um


primeiro, de 1976, aborda a questão da “delinquência escondida” e a
“delinquência aparente”. O autor começou por estudar a delinquência
escondida dos jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos,
analisando diversas variáveis como, por exemplo, a idade, o sexo, o estatuto
social e a sua evolução no decurso de um determinado período de tempo. Num
segundo momento, analisou as transformações que incidem sobre o fenómeno
da delinquência escondida à medida que os actos passam a ser conhecidos
das instâncias de controlo social. Um segundo estudo, de 1978, analisou o
desenvolvimento da delinquência na adolescência face ao desenvolvimento
psicossocial ocorrido no período da adolescência.

Ainda na década de 70, Leomant (1977) apresentou um estudo sobre


jovens delinquentes com 16 e 17 anos de idade. Nesse estudo, o autor
construiu uma articulação teórica, com base em dados empíricos, baseada no
pressuposto de que “a lógica que rege a relação entre a delinquência (desvio) e
a justiça de crianças e jovens (instância de controlo social) é inseparável dos
processos de reprodução social” (apud, Pedroso e Fonseca, 1999: 133).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 25

Na década de 80, Amie et Garapon (1987) concluíram, analisando a


justiça de crianças e jovens em França, que o funcionamento destas jurisdições
permite identificar dois pólos, à volta dos quais se estruturam as suas práticas:
por um lado, a imposição autoritária/coactiva e, por outro, a negociação. Justiça
negociada quando em sede de protecção de crianças em perigo; justiça
coactiva em relação às crianças e jovens que praticam factos qualificados
como crime.

Dois estudos espanhóis merecem também, aqui, algum destaque.

Em Espanha, Giménez-Salinas (1981) realizou no Tribunal Tutelar de


Barcelona um estudo que abrangeu 4 256 crianças e jovens que praticaram
factos qualificados como crime nos anos de 1975 a 1976, analisando variáveis
como o sexo, conduta ou delito, medida e reincidência, com o objectivo de
estabelecer uma correlação entre a natureza da infracção cometida e a medida
educativa adoptada pelo Tribunal tutelar. Este estudo permitiu retirar algumas
conclusões importantes. Uma primeira conclusão foi a de que a legislação dos
Tribunais Tutelares de Menores (TTM), de 11 de Junho de 1948, estava
dominada por um critério paternalista e moralizador. Apesar dos princípios de
“protecção do menor” e de “necessidade de tutela”, os tribunais entendiam que
o jovem não era titular de direitos, privando-o das mais elementares garantias
características de um Estado de Direito. Também se concluiu que a
competência dos TTM abarca a noção ampla de “delinquência”, na qual se
inclui, quer a prática de factos qualificados como crimes, quer todos os casos
de jovens que se dedicam à mendicidade, vadiagem, libertinagem, prostituição.
A aplicação arbitrária deste critério, mostrou ser necessário distinguir de um
modo claro entre “menor delinquente” e “menor necessitado” de apoio social ou
protecção, sem que esta distinção signifique que um e outro recebam a ajuda e
o cuidado que precisam, nem que o primeiro deva ser tratado de um modo
mais repressivo. Uma terceira conclusão foi a de que as medidas da Lei dos
Tribunais Tutelares de Menores (LTTM) se caracterizavam pelo princípio da
educabilidade, aferido unicamente à sua personalidade. Por outro lado, a
liberdade de critério do juiz na escolha da medida mais conveniente e por
26 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

tempo indeterminado, significava, por vezes, que o juiz decidia unicamente de


acordo com a sua moral e os seus critérios, que podiam não coincidir com as
necessidades da criança. Verificou-se, também, que, no período analisado,
apesar das suas potencialidades, não se aplicou nenhuma medida de “libertad
vigilada” (acompanhamento educativo) com o fundamento da inexistência de
“delegados” para a execução da medida. Quanto aos centros para
internamento de crianças e jovens, havia a consciência da sua ineficácia e da
sua falta de meios, estando, porém, condenados à contradição entre o que
eram e o que deveriam ser, dado que o Tribunal, devido a uma complexidade
de razões, não intervinha no seu melhoramento efectivo. Considerando os
centros existentes em Barcelona, os seus recursos económicos e o número de
pessoal especializado, concluiu-se que aqueles se limitavam a acolher as
crianças e jovens. Assim, a grande conclusão deste estudo foi a de que, de
facto, a actuação do sistema tutelar educativo se revelava ineficaz face à
delinquência, não conseguindo conter o desenvolvimento de “carreiras”
delinquentes nos jovens.

Cea D’Ancona (1992) efectuou um estudo semelhante relativamente ao


Tribunal Tutelar de Madrid, concluindo, também, pela ineficácia da sua
intervenção, aferida pelo desenvolvimento das “carreiras” criminais dos jovens
sujeitos a intervenção. Este estudo revelou que cerca de 41% dos jovens que
foram objecto de intervenção deixaram de estar sob a tutela do Tribunal por
manifestarem boa conduta ou readaptação. Contudo, segundo o mesmo
estudo, a maioria destes “êxitos” deveram-se a outras razões: características
pessoais, ambientais ou delituosas do jovem, que levaram o Tribunal a não
entender ser conveniente a aplicação de alguma das medidas existentes; o
Tribunal não tinha provas suficientes que culpassem o jovem dos factos
denunciados; o julgamento não se chegava a celebrar por não comparência do
jovem, por se encontrar em paradeiro desconhecido ou outro; ou o Tribunal
julgava que o caso não era da sua competência e decidia passar o processo a
outro Tribunal Tutelar ou a outra jurisdição.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 27

Também a análise da reincidência punha em causa a eficácia


reeducadora e de reinserção social das medidas aplicadas pela jurisdição
tutelar. A autora procurou, igualmente, caracterizar o jovem “seleccionado” pelo
Tribunal de Menores. Já num estudo anterior (1981), a autora tinha definido
criança-tipo sujeita a processos tutelares no Tribunal como sendo proveniente
de famílias deterioradas com relações conflituosas, de baixos recursos
económicos e de baixo nível cultural e profissional, habitando em residências
pequenas, com problemas de saneamento e infra-estruturas em bairros
desorganizados e excluídos. Procurando definir a criança-tipo do Tribunal
Tutelar de Madrid, a autora identificou as seguintes variáveis sociológicas. Em
primeiro lugar, havia uma clara predominância de jovens do sexo masculino. A
população feminina era de apenas 26%. As jovens do sexo feminino eram
acusadas de insubmissão paterna e conduta irregular e os do sexo masculino
de factos qualificados como crimes contra a propriedade (roubo ou furto). No
que se refere à idade, vemos que eram principalmente jovens do sexo feminino
de 14-15 anos e que os do sexo masculino tinham uma predominância nas
idades mais baixas. A maioria era de nacionalidade espanhola e de etnia paya,
todavia tinha aumentado o número de jovens ciganos, principalmente
mulheres. A família cigana, contrariamente à paya, raramente denuncia os
seus próprios filhos por conduta irregular ou insubmissão paterna. Não
possuíam qualquer tipo de deficiências de ordem psíquica ou sensorial.
Também não se encontrou uma percentagem elevada de toxicodependentes
entre a população estudada. No que concerne ao grau de escolaridade, 77%
dos jovens não tinha escolarização. O nível de alfabetização das jovens do
sexo feminino era maior que o dos jovens do sexo masculino apesar de, entre
elas, o analfabetismo ser superior. Os jovens estudados não tinham, em geral,
qualquer tipo de actividade, laboral ou escolar, passando a maior parte do
tempo na rua em situação geral de abandono. A maioria dos jovens vivia com
os seus progenitores - família nuclear. A possibilidade do menor não viver com
os pais devido a separação, divórcio ou falecimento destes aumenta com a
idade dos jovens. Pertenciam a famílias numerosas sendo o jovem um dos
membros mais novos da família. A maior parte das mães trabalhava em casa,
28 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

exercendo, as restantes, uma actividade laboral remunerada de carácter


temporário relacionada com serviços domésticos e limpezas. Quanto à
dimensão socioespacial, constatava-se que a delinquência estava concentrada
nos bairros dormitório, nos de transição, nos bairros com grandes espaços
livres e instáveis e também nos núcleos industriais.

Em Portugal, para além dos estudos que Eliana Gersão vem fazendo
desde os anos sessenta sobre as crianças que praticam factos qualificados
como crime, só muito recentemente, Martinez (1996), Santos Castro (1997) e
João Sebastião (1998) estudaram grupos de crianças que vivem sozinhos e na
rua, com comportamentos desviantes e dedicando-se à prática de “crimes”.

Amaro (1989) e Ana Nunes de Almeida (1995) estudaram as situações de


maus tratos às crianças em Portugal. Concluíram, em síntese, que há uma
ligação estreita entre tipos de maus-tratos e os contextos familiares e sociais
envolventes; que, embora os maus-tratos sejam transversais aos diferentes
grupos sociais, as formas que assumem são específicas de uns e outros; que
há sinais reveladores da indesejabilidade destas crianças juntos dos pais; que
a visibilidade daquela varia ao longo do ciclo de vida familiar; que a idade e o
desenvolvimento psico-motor são as únicas características da criança que se
salientam na discriminação dos tipos de mau trato de que é vítima; e que é
especialmente significativo que o sexo ou o comportamento não tenham
qualquer impacto nessa distinção.

Também Moura Ferreira et al (1993), analisaram a evolução da


delinquência e criminalidade dos jovens em Portugal, elaborando uma
caracterização sociográfica da população juvenil que entra em contacto com o
sistema penal.

Mais recentemente, Maria João Leote de Carvalho (2002) procurou


identificar, analisar e compreender como é que se relacionam os factores
individuais, familiares e sociais assinalados pelos mecanismos de controlo
formal nos percursos de vida e nos contextos de socialização dos jovens que
se encontravam em colocação institucional num Colégio de Acolhimento,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 29

Educação e Formação (CAEF) do Instituto de Reinserção Social no sistema de


justiça tutelar de crianças e jovens. A autora procedeu a uma caracterização
sociográfica das crianças e jovens internados no colégio analisado. A
população estudada (masculina) tinha uma média de 15,6 anos. No que se
refere à etnia, 36,4% eram descendentes de imigrantes de origem africana,
4,5% eram de origem cigana, 59,1% de origem europeia não ciganos. Nos
jovens de origem africana predominavam os cabo-verdianos, os angolanos,
moçambicanos e, por último, os guineenses. Dos jovens internados 22,7%
possuíam nacionalidade estrangeira, embora alguns deles tivessem já nascido
em Portugal.

No que diz respeito à zona de origem, destacava-se a Área Metropolitana


de Lisboa seguida pela do Porto. Estes jovens eram oriundos ou residiam em
zonas do litoral sendo os valores das zonas do interior muito pouco
significativos.

Verificou-se, também, que 13,6% dos jovens não possuía qualquer


suporte próximo de membros da família biológica, 34,1% estavam com os dois
progenitores e cerca de 1/3 dos jovens tinham uma família monoparental.
Daqueles que não tinham suporte familiar, 5/6 encontravam-se em instituições
e apenas um jovem numa família de acolhimento, o que parece indiciar a
prevalência na aplicação de medidas de colocação institucional em detrimento
de outras opções. Em 34,1% dos casos não existia contacto entre o jovem e o
pai, 34,1% tinha uma relação conflitual e 11,4% uma relação indiferente
quando o pai estava presente. Os dados mostram grande perturbação nos
processos de vinculação do jovem à pessoa que dele cuidou nos primeiros
anos de vida, elementos considerados decisivos para a construção e
desenvolvimento equilibrado da personalidade da criança e do jovem.

A maioria dos jovens era oriunda de grupos domésticos numerosos (com


seis ou mais elementos) aquando da primeira intervenção tutelar, o que
propiciava situações de grande precariedade económica (79,5%), alcoolismo
(73%), violência doméstica (59,1%), condutas desviantes que não implicavam
necessariamente crime (por exemplo, mendicidade e prostituição),
30 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

toxicodependência e práticas criminais ou delinquentes. Quanto à relação do


jovem com a família depois da sua entrada no colégio, 68,2% apenas recebiam
a visita da família uma vez (31,8%), outros nunca (36,4%).

Como refere a autora, no seguimento de vários estudos sobre


delinquência juvenil, a falta de modelos de identificação capazes de
proporcionar um desenvolvimento psicossocial equilibrado leva os jovens a
uma autonomia demasiado cedo, escondendo uma rejeição precoce. A
qualidade dos laços familiares entre pais e filhos, na ausência de relações
próximas e intensas, tende a criar condições que colocam o jovem numa
situação de maior vulnerabilidade perante as influências desviantes do meio; a
família deixa de ser uma motivação para a conformação às normas e regras
sociais. Por seu lado, analisando a escolaridade destes jovens, constatou-se
que, antes da institucionalização, 47,7% mantinham a matrícula numa escola,
50% tinham abandonado precocemente o sistema de ensino e 2,3% nunca
tinham estado matriculados na escola.

No que diz respeito à situação jurídica do jovem, 50% foram alvo da


primeira intervenção tutelar quando tinham entre 11 e 13 anos e 36,4% com 14
a 15 anos, o que mostra que a prática de comportamentos desviantes ou
delinquentes se inicia logo na primeira fase da adolescência. A colocação em
CAEF foi a medida mais aplicada na primeira intervenção tutelar do jovem
(56,8%), o que leva a pensar que a capacidade de resposta do sistema de
justiça e de outros sistemas ligados à prevenção da delinquência seja
insuficiente face ao número de jovens que são identificados pelos mecanismos
de controlo formal. Na vigência da OTM, jovens vítimas e jovens que
praticavam factos qualificados como crime estavam, assim, colocados num
mesmo colégio: 75% dos jovens ligados à prática de infracções “criminais”,
enquanto que 18% tinham sido vítimas e não tinham nenhum sinal de práticas
desviantes.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 31

Outro estudo sobre delinquência juvenil, elaborado em 1998, foi o


Relatório do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa sobre A Justiça
de crianças e jovens: as crianças entre o risco e o crime12. A investigação
realizada no âmbito do Observatório centrou-se, num primeiro momento, na
análise da evolução da jurisdição de crianças e jovens ao longo dos últimos
cinquenta anos e, num segundo momento, na realização de estudos de caso,
que permitiram elaborar uma caracterização sócio-económica das crianças e
dos jovens e realizar uma primeira abordagem à questão do efeito produzido
pela acção dos Tribunais de Menores, determinando se conseguiam cumprir a
sua função de atenuar/eliminar o efeito de determinados factores de risco para
o desenvolvimento equilibrado das crianças e jovens e impedir o surgimento ou
a persistência de comportamentos reveladores de “inadaptação social” e, em
especial, da prática de “crimes” (Pedroso et al, 1998).

Neste estudo verificou-se que a evolução da justiça de crianças e jovens


ao longo de 54 anos (de 1942 a 1996) caracterizou-se por dois pontos de
ruptura. O primeiro, no início dos anos sessenta, a partir do qual os Tribunais
de Menores passaram a intervir, sobretudo, em situações de crianças e jovens
que praticam factos qualificados pela lei penal como crime. O segundo, nos
finais dos anos oitenta, em que, apesar do crescimento da visibilidade
mediática da criminalidade juvenil, a justiça de crianças e jovens era chamada
a intervir, essencialmente, no âmbito de crianças em risco, designadamente
maus-tratos, negligência e abandono.

Procedeu-se, ainda, a uma análise da criminalidade juvenil que chegava a


Tribunal, a partir da articulação de três níveis diferentes de observação da
realidade (estatísticas nacionais e estudos de caso no Tribunal de Menores de
Lisboa e no Tribunal de Família e Menores de Coimbra), tendo-se chegado a
algumas conclusões. Uma primeira conclusão foi a de que o número de casos
de crianças e jovens que praticavam factos qualificados como crime e que
chegavam ao Tribunal de Menores estava a diminuir, representando, em 1996,

12
Seguimos de perto Pedroso et al, 1998 e Pedroso e Fonseca, 1999.
32 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

metade dos processos findos relativamente a crianças em risco. Quanto ao tipo


de criminalidade, constatou-se que os factos qualificados como crime
praticados por crianças e jovens até aos 16 anos concentravam-se nos crimes
contra a propriedade, com especial incidência no crime de furto simples, muitas
vezes com o claro objectivo de satisfazer as necessidades do jovem (comida,
roupa, jogos) ou para vender e realizar dinheiro (peças de automóvel,
electrodomésticos). Nestes casos de pequena criminalidade, a intervenção da
justiça de crianças e jovens privilegiava a aplicação de medidas tutelares não
institucionais. Não obstante, verificou-se uma estabilidade da aplicação da
medida de internamento em estabelecimento de reeducação, que era, contudo,
proporcionalmente mais aplicada a crianças e jovens do sexo feminino.

Também este estudo procurou retratar sociologicamente as crianças e


jovens que eram objecto de processos na justiça de crianças e jovens. A
imagem obtida revelou-se muito diferente consoante a análise atendesse a
todo o universo ou focasse exclusivamente as situações em que os jovens
praticavam reiteradamente actos qualificados pela lei como crimes.

No primeiro “olhar”, verificou-se que as crianças e jovens do sexo


masculino predominavam na justiça de crianças e jovens (80%). Nas situações
de crianças em risco, surgiam maioritariamente crianças até aos 10 anos,
enquanto nas crianças e jovens que praticavam factos qualificados como crime
a idade preponderante era a de 14 e 15 anos. Neste retrato, as crianças e
jovens que contactavam com a justiça de crianças e jovens por terem praticado
factos qualificados como crime tinham grandes semelhanças com aqueles que
foram tipificados pelos estudos atrás mencionados, designadamente o de
Gimenéz-Salinas (1981) e o de Cea d´Ancona (1992): em ambos os contextos,
predominavam os jovens do sexo masculino de 14 e 15 anos, com a análise
dos padrões sócio-económicos familiares a revelar uma clara predominância
daqueles cujo pai tinha um estatuto profissional por conta de outrem,
destacando-se a situação de reformados ou funcionários públicos e de mãe
doméstica. Viviam em casas ou apartamentos pequenos para o número de
pessoas do agregado familiar (Pedroso e Fonseca, 1999: 160-163).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 33

No segundo “olhar”, com enfoque numa amostra de crianças e jovens que


contactaram com a justiça de crianças e jovens e persistiram na prática de
factos qualificados como crime após os 18 anos e, consequentemente,
transpuseram a porta da justiça penal, verificou-se que representam 6% do
universo de jovens que, tendo sido sujeito a processo tutelar no Tribunal de
Menores de Lisboa, eram, à data da recolha, penalmente imputáveis. A
caracterização sociográfica destes jovens aponta para uma grande maioria de
jovens do sexo masculino, sem a escolaridade primária, que se encontravam
inseridos em agregados familiares numerosos (mais de 6 pessoas),
monoparentais ou reconstituídos, que habitavam em bairros periféricos da
Grande Lisboa e que se caracterizavam por situações económicas precárias.
Eram jovens que, no decurso do seu processo de socialização, estiveram
expostos a diversos factores de risco, com especial incidência na violência
doméstica, prática de crimes, alcoolismo e toxicodependência no seio da
família. Embora todos estes jovens tivessem tido contacto com o Tribunal de
Menores de Lisboa pela prática de actos qualificados pela lei como crime ou
como desviantes às normas sociais dominantes, o Tribunal absteve-se de
intervir, não aplicando medidas ou não conseguindo a sua execução num
número significativo de situações. Como referem Pedroso e Fonseca, “a
intervenção da justiça de crianças e jovens, independentemente dos bloqueios
existentes à melhoria do seu desempenho (…) consegue dar resposta, em
tempo(s) e modo(s) que necessitam de vir a ser estudados, à maioria das
situações de crianças e jovens em risco ou que praticam crimes de menor
gravidade e que têm laços familiares e sociais menos frágeis, mas revela-se
incapaz de lidar com crianças e jovens que praticam crimes e estejam expostas
a situações de extrema vulnerabilidade social” (1999: 163).

Esta conclusão, vai, aliás, ao encontro dos estudos já referidos de


Breuvart et al. (1974) e de Cea D’Ancona (1992) sobre o funcionamento,
respectivamente, do sistema de justiça juvenil francês e espanhol, nos quais se
conclui que “para aquelas crianças e jovens que vivem em contextos de
acentuada vulnerabilidade social e, desde cedo, manifestam comportamentos
desviantes, o contacto com o Tribunal de Menores, neste momento, é apenas
34 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

uma ponte de passagem para uma vida adulta marcada, igualmente, pela
prática de crimes” (idem).

Em 2004 foi publicado um estudo realizado, entre Maio de 2002 e Abril de


2004, pela Fundação da Juventude, sobre Violência Juvenil: Histórias e
Percursos. Este estudo que incide sobre a realidade portuguesa, escocesa e
espanhola, pretendeu, sobretudo, “conhecer as histórias de vida de jovens
colocados em instituições de internamento e, em particular, as suas
experiências nestas instituições”. A opção pela restrição da amostra a jovens
internados em centros educativos surgiu porque os investigadores
consideraram que o ingresso em Centros Educativos procura operar uma
ruptura com o mundo habitual destes jovens. Enquanto instituições totais, “elas
produzem, através das suas práticas e procedimentos, alterações significativas
na identidade dos indivíduos aí colocados, quer em termos da representação
que estes detêm de si próprios e das suas práticas, quer da representação que
os outros - os amigos, família, a sociedade em geral - detêm deles” (2004:
165). O estudo demonstra que, embora essa modificação seja, precisamente,
um dos objectivos pretendidos pela criação dos centros educativos, os
resultados obtidos não coincidem necessariamente com aqueles que são
formalmente definidos. Até porque, como refere Becker (1973), rotular
publicamente alguém como "desviante" pode levar a que sejam postos em
acção diversos mecanismos que conspiram para moldar a pessoa à imagem
que as pessoas têm dela, contribuindo para a solidificação de tal trajectória.

Os dados estatísticos recolhidos neste estudo permitiram chegar a


algumas conclusões acerca da realidade da delinquência juvenil e da justiça de
crianças e jovens naqueles países. Em Portugal, verificou-se que, não só os
processos judiciais referentes a jovens constituem uma percentagem muito
pequena do total de processos entrados no sistema judicial, como também que,
ao contrário do que é frequentemente veiculado pela opinião pública, não se
verificou, no período considerado, um aumento do número de processos tendo
na sua base situações de infracção penal, tendo, aliás, registado um
decréscimo assinalável (61,8%, em 1948; 45,6%, em 2000). A realidade
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 35

escocesa é, neste aspecto, similar: os jovens envolvidos em actos criminosos


constituem uma percentagem muito pequena da população infantil do país e o
número de acusações manteve-se estável ao longo dos últimos dez anos. As
estatísticas mostram, assim, que a criminalidade juvenil parece não estar a
aumentar na Escócia. Em Espanha a situação é um pouco diferente. As
estatísticas referentes à década de 90 reflectem um incremento na taxa de
criminalidade entre os jovens, com excepção de 1997, ano em que o número
de detenções de jovens diminuiu em relação ao ano anterior. Em 2001, foram
detidos 22 906 jovens entre os 14 e os 18 anos, o que equivale a 10,5% do
total de detidos em Espanha durante esse ano.

No que se refere ao tipo de facto qualificado como crime cometido, os


cenários são bastante semelhantes. Em Portugal, predomina a pequena
“criminalidade”, pois os factos qualificados como crimes contra o património,
que são os mais representativos da delinquência juvenil, tendem a confinar-se
a furtos simples e a danos e os crimes contra as pessoas são,
fundamentalmente, ofensas corporais simples ou privilegiadas. O facto das
medidas impostas serem, na sua maioria, medidas não institucionais, também
espelham essa realidade. Recentemente, aliás, “e como consequência das
alterações ocorridas na filosofia de base da intervenção estatal junto dos
menores, que enfatiza a vertente educativa e reabilitadora em detrimento da
punitiva, temos assistido a um decréscimo do recurso às medidas institucionais
e a uma crescente utilização das medidas consideradas educativas e
reabilitadoras, como o acompanhamento educativo" (2004: 168). Embora o
número de factos qualificados como crimes respeitantes a estupefacientes e
substâncias psicotrópicas seja bastante residual se comparado com outros
tipos de “crime”, parece-nos ser importante referir que se tem registado um
aumento do número de jovens “acusados” principalmente pelo consumo destas
substâncias em Portugal.

Em Espanha também sobressaem os factos qualificados como crimes


contra o património, em particular os roubos (com recurso à força ou sem
intimidação). A percentagem dos factos qualificados como crimes contra as
36 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

pessoas ronda os 34%, tal como acontece com os relacionados com o tráfico
de estupefacientes. As medidas adoptadas neste país no ano de 2001
reflectem a tendência para o papel educativo e reabilitador assumido pelo
Estado. A liberdade vigiada é a medida adoptada com mais frequência (44%),
emergindo de forma crescente a opção pela prestação de serviços à
comunidade (21 %).

Já no caso escocês parece existir uma recente tendência política para


abordagens mais duras e mais punitivas no âmbito da criminalidade juvenil
que, segundo o estudo, é fruto de um sentimento generalizado de insegurança
impulsionado, quer pelos media, quer pelo actual clima social deste país. De
referir, no entanto, que, apesar da ideia disseminada na opinião pública, as
estatísticas escocesas não apontam para um acréscimo da criminalidade
juvenil. Um Projecto de Lei para Comportamentos Anti-Sociais está
actualmente em estudo e inclui referências à imposição de ordens judiciais por
comportamentos anti-sociais a jovens com menos de 16 anos e de ordens
judiciais civis aos seus pais, exigindo que estes actuem na defesa dos
interesses e bem-estar dos respectivos filhos.

Com base nos dados estatísticos e histórias de vida, o estudo faz um


conjunto de recomendações. Uma delas é a de que é fundamental a
colaboração das escolas, não só na prevenção, como também, na tentativa de
evitar que estes jovens ingressem em dinâmicas de delinquência, ou na
tentativa de os recuperar.

Considerando que existe um “subaproveitamento" da lei e das medidas


alternativas que ela oferece para tentar travar a construção de carreiras
delinquentes, os autores recomendam uma maior aposta nesse tipo de
medidas, designadamente na prestação de serviços à comunidade - como
parece estar presente, de resto, no caso da Espanha.

O estudo considerou, ainda, que os centros educativos, nos moldes em


que funcionam, “mais parecem «depósitos» temporários de jovens do que
verdadeiramente agências vocacionadas para a sua «recuperação» e cujos
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 37

resultados, ainda para mais, não parecem ser alvo de avaliação objectiva”
(2004: 168). Deste modo, é recomendada a criação de mecanismos mais
eficazes que permitissem a transição entre os Centros e a vida "real", ajudando
os jovens a procurar alternativas e facultando-lhes recursos adequados. Isso
exigiria, todavia, “um trabalho integrado entre os profissionais dos Centros, os
técnicos de serviço social e outras organizações presentes nos bairros de onde
provêm os próprios jovens, o que não se afigura muito fácil quando se procura
que estes se distanciem geograficamente dos seus espaços de residência
habituais, ignorando que de futuro aí regressarão e que é, muito
provavelmente, aí que terão que decidir a sua trajectória de vida” (idem)

As produções teóricas e empíricas que têm vindo a ser produzidas no


âmbito da justiça de crianças e jovens, têm, como vimos, incidido na eficácia
das instâncias formais de controlo da delinquência juvenil. Considera-se que é
função do Estado atacar este problema em duas frentes, sob pena de qualquer
uma delas, agindo isoladamente, se tornar ineficaz. Por um lado, agir de modo
pro-activo com vista à prevenção da delinquência juvenil e inserção dos jovens
que potencialmente se encontram a caminho da marginalidade e exclusão. Por
outro, agir reactivamente de forma a oferecer à sociedade segurança e aplicar
aos jovens que praticam factos qualificados como crime medidas tutelares.

3. 2. Prevenção: agir a montante do problema

A sociologia do desvio e a criminologia interaccionista têm considerado


que as instâncias de controlo, nomeadamente os tribunais, são altamente
selectivas só “apanhando”, em regra, aqueles jovens, ou que praticam factos
qualificados como crimes, ou que são negligenciados ou que foram vítimas de
maus-tratos, pertencentes aos grupos sociais mais desfavorecidos e, por isso,
enfatizam a necessidade de prevenção como um eixo fundamental numa
abordagem integrada de combate à delinquência juvenil.
38 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

De acordo com a Presidência da União Europeia (Figueiredo, 2001a),


qualquer resposta que surja no combate à delinquência juvenil tem de ter
sempre em conta o respeito e promoção pelos Direitos Humanos e os Direitos
das Crianças, os interesses dos jovens e as suas necessidades educativas e
de inserção social, mas também os interesses das vítimas e a protecção da
sociedade. Defende-se, ainda, que as respostas para a delinquência juvenil só
são possíveis através de uma intervenção pluridisciplinar com uma abordagem
integrada, de natureza preventiva, assistencial e judiciária possibilitando uma
melhor compreensão do fenómeno com vista à execução de programas de
prevenção.

Vários autores defendem que a prevenção de comportamentos


desviantes não deve ter como fim o desaparecimento do fenómeno da
delinquência juvenil, mas deve compreendê-lo e explicá-lo partindo do contexto
social, pois a delinquência é um processo que se desenvolve num tempo longo
e o desvio é o resultado de uma sucessão de experiências sociais do desviado
explicáveis no contexto global da sua vivência. De acordo com João Figueiredo
(2001c), a prevenção da delinquência “tem de ser baseada no conhecimento
dos problemas criminais, dos factores de risco e de protecção e das medidas
preventivas dos primeiros e de suporte dos segundos”. Para além disso, as
intervenções sobre esta questão devem ser concebidas tendo em conta os
factores de risco na vida do menor e devem ser multidisciplinares e
desenvolvidas a nível local, embora com apoio nacional, e integradas num
contexto europeu.

A prevenção da delinquência exige, assim, a definição de políticas que


tentem compreender o contexto sócio-económico do menor, os seus saberes,
formal e informalmente adquiridos, de forma a que este também possa
participar13 num processo de desenvolvimento pessoal e social. Nesta
articulação têm, necessariamente, de surgir mecanismos que envolvam a

13
Para vários autores, qualquer política de prevenção deve envolver o menor na resolução dos
seus próprios problemas, seguindo o princípio do “ajuda-te a ti mesmo” (Hollstein, 1991: 113).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 39

esfera pública e privada, o Estado e a comunidade. A prevenção, sendo uma


responsabilidade do Estado e da Sociedade, implica que outras instituições,
como a Segurança Social, autarquias, serviços de saúde, serviços de
educação e outras entidades da sociedade civil, participem no combate à
delinquência juvenil, sobretudo numa fase mais a montante, oferecendo ao
jovem respostas escolares, de formação pessoal, profissional, de ocupação de
tempos livres, entre outras, isto é, actuando também no seu contexto
sócio-económico de origem14.

14
Em Portugal existem alguns programas e associações que agem neste sentido, assumindo,
inclusive, o papel de mediadores sociais e comunitários dos conflitos. Podemos referir, a título
de exemplo, três projectos muito diferentes, mas igualmente importantes: a Associação Cultural
Moinho da Juventude, o Programa Escolhas e o Programa Escola Segura. A Associação
Cultural Moinho da Juventude, na Amadora, surgiu no início dos anos 80 e as suas actividades
desenvolvem-se a nível social, cultural e económico, envolvendo crianças, jovens e adultos.
Sendo acreditada como Centro de Formação pelo INOFOR, realizou, entre 1996 e 1998, um
curso de mediadores, com obtenção do 9º ano de escolaridade. No âmbito deste projecto,
foram estabelecidos contactos junto do Ministério da Educação no sentido de concretizar, em
termos institucionais, a presença efectiva dos mediadores numa área pouco explorada em
Portugal, as escolas, cabendo àquelas estabelecer a ponte entre a Escola, a Família e a
Comunidade, fundamental, sobretudo, quando falamos de comunidades imigrantes e culturas
minoritárias. Sabendo-se do papel fundamental da escola, nem sempre concretizado, como já
vimos, na prevenção da delinquência juvenil, o seu carácter massificador e a falta de
flexibilidade que esta, por vezes, assume ao lidar com a diferença, o papel do mediador torna-
se fundamental.
O Programa Escolhas, Programa de Prevenção da Criminalidade e Inserção dos Jovens,
aprovado mediante a Resolução do Conselho de Ministros n.º 4/2001, de 9 de Janeiro (com a
rectificação n.º 3-E/2001, de 31 de Janeiro), visava “em articulação com as medidas de política
social global e as medidas universais, formular medidas políticas selectivas para jovens que
vivem em bairros vulneráveis dos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal, de modo a aproximá-los
de medidas de formação pessoal, escolar e profissional, que evitem a sua entrada no mundo
da prática de crimes” (Preâmbulo). Com o objectivo de prevenir a criminalidade nos bairros
seleccionados, este Programa procurava “dinamizar parcerias de serviços públicos e das
comunidades dos bairros seleccionados, de modo a desenvolver as áreas estratégicas de
intervenção de mediação social, de ocupação de tempos livres e de participação da
comunidade, de modo a possibilitar a valorização da formação escolar e profissional e da
formação parental dos jovens, de modo a evitar que venham a dedicar-se à prática de factos
que a lei penal qualifica como crime” e “articular a sua acção com as comissões de protecção
de menores e outras parcerias existentes no local”(Preâmbulo).
Embora o término deste programa estivesse previsto para 31 de Dezembro de 2003, a
Resolução do Conselho de Ministros n.º 60/2004, de 30 de Abril, procedeu à sua renovação.
Como referido nesse documento, o “Governo, consciente da importância e da existência de
condições que permitam continuar a intervir, articulando iniciativas das diversas entidades e
agentes locais, junto dos jovens provindos de contextos sócio-económicos mais desfavoráveis
e problemáticos, entende dever dar continuidade às acções que têm vindo a ser desenvolvidas
no âmbito do Programa Escolhas, dando-lhe claramente um novo impulso e dinâmica, tendo
em conta a experiência anterior” (Preâmbulo). Com esta resolução, alargou-se o âmbito
territorial do Programa Escolhas e definiu-se como objectivos, desde Maio do ano corrente, a
“promoção da integração social das crianças e dos jovens dos bairros mais vulneráveis,
40 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

Quanto ao controlo formal da delinquência, bem como a sua punição,


cabe apenas ao Estado, como veremos no ponto seguinte.

3. 3. O controlo formal da delinquência juvenil (controlar e punir): os


modelos da justiça de crianças e jovens

Como vimos, têm sido numerosos os estudos sobre o controlo formal da


delinquência juvenil. Para além de procederem a uma avaliação dos
mecanismos de controlo, estes estudos vão indicando caminhos no sentido de
como o Estado e a sociedade se devem organizar para controlar e punir a
delinquência. As produções teóricas e empíricas que têm vindo a ser
produzidas no âmbito da justiça de crianças e jovens têm, deste modo,
contribuído para uma evolução dos próprios modelos de justiças nos vários
países.

incluindo daqueles que estiverem sujeitos a medidas de promoção e protecção ou a medidas


tutelares educativas”; a “formação pessoal e social, escolar e profissional e parental, com a
criação de condições para o acesso a estes valores das crianças e jovens”; e o
“desenvolvimento nas crianças e nos jovens, filhos ou familiares de imigrantes, de um sentido
de pertença e filiação à sociedade de acolhimento para que estes, sem terem que abdicar do
essencial da cultura e das tradições da sua família, se desenvolvam em igualdade de
circunstâncias com qualquer criança ou jovem pertencente à comunidade portuguesa” (artigo
2.º).
De referir, ainda, um outro programa, o Programa Escola Segura, que, embora assuma
contornos muito diferentes dos dois projectos descritos, tem vindo a ser apontado como um
importante instrumento na prevenção da delinquência juvenil. O Programa Escola Segura é
uma iniciativa conjunta do Ministério da Administração Interna com o Ministério da Educação
que, visando garantir a tranquilidade e seguranças necessárias para o normal desenvolvimento
das actividades escolares, tem como objectivos “combater, dentro e fora das escolas, os
roubos, as agressões, os atentados ao pudor e os danos sobre a população escolar e os seus
bens”; “evitar, ou minimizar, o tráfico e o consumo de drogas nas escolas”; “impedir actos de
vandalismo e furtos sobre o património escolar”; “impedir a entrada ilícita de estranhos nas
Escolas” (Moura, 2003: 316). Para a prossecução destes objectivos, as acções policiais
levadas a cabo são a vigilância das escolas e das áreas envolventes, o policiamento dos
percursos habituais de acesso às escolas e as acções de sensibilização junto dos alunos para
as questões da segurança . No entanto, como alerta Rui Filipe de Moura, é necessário atender
aos comportamentos desviantes de alguns estudantes nessas escolas e “tentar perceber qual
a envolvente familiar, a personalidade e o meio ambiente social em que os estudantes vivem,
para poder intervir de uma forma mais decisiva. Não são raros os casos em que a origem do
comportamento desviante está no seio da família, ou na própria personalidade do indivíduo, o
que leva a que os agentes policiais tenham que abordar a situação de formas variadíssimas”,
normalmente envolvendo colegas, a escola e a família (2003, 397). Apenas em casos extremos
é solicitado ao Tribunal para acompanhar ou colmatar a situação.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 41

Em Portugal, tal como em muitos outros países, a intervenção estatal em


relação aos jovens vem-se debatendo com a discussão em torno da opção por
um modelo adequado de intervenção, afirmando-se os “menores delinquentes”
e os “menores em perigo”, desde o início do século XX, como uma
preocupação autónoma do direito e dos tribunais, generalizando-se a ideia que
ao Estado cumpre intervir na sua “protecção, educação e correcção” (Pedroso,
1998: 24). Com o surgimento do Estado-Providência nos países centrais, e a
sua nova forma política de Estado, esta preocupação é assumida, de acordo
com Boaventura de Sousa Santos et al. (1996: 24), pelo Direito e pelos
tribunais, em consonância e como consequência do impacto das várias
transformações operadas no contexto do judiciário. Desta forma, a protecção
das crianças negligenciadas e a educação e correcção dos jovens que
praticam factos qualificados como crime, passaram a surgir no âmbito das
funções instrumentais dos tribunais15, designadamente de controlo social e de
resolução de litígios (Santos et al., 1996: 51-52).

Em geral, a justiça de crianças e jovens tem-se apresentado com uma


natureza dual, dada a existência de dois modelos de intervenção: o modelo de
protecção e o modelo de justiça.

O modelo de protecção considera que a criança não é responsável pelos


seus actos, mas vítima das circunstâncias, pelo que não deve ser punida. O
modelo defende que o comportamento criminal está ligado a limitações sociais,
económicas e físicas e que, por isso, qualquer intervenção do Estado não deve
ter como objectivo punir o delinquente em particular, mas ser um atenuante a
essas limitações (Tutt, 1991), isto é, a intervenção a fazer deve ser orientada
pelas necessidades e não pelo facto praticado. Gonçalves define este modelo
como sendo “o sistema de intervenção estadual segundo o qual todo o
menor-problema (numa situação desviante em relação aos padrões de

15
De acordo com Santos et al, os tribunais desempenham nas sociedades contemporâneas
três tipos de funções primordiais: funções instrumentais, funções políticas e funções
simbólicas. No que se refere especificamente às funções instrumentais, estas são as
seguintes: resolução de litígios, controlo social, administração e criação de direito (1996: 51-
42 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

normalidade da vida e desenvolvimento no tecido social) é uma pessoa


carecida de protecção e assistência” (1999: 114). Neste modelo, o menor é
encarado sob a perspectiva da compaixão, ou seja, é “vítima dos eufemismos
da reeducação e das medidas de segurança que, na prática, traduzem o
castigo e as penas e legitimam privações da liberdade sem processo, sem
garantias e, sobretudo, sem um tempo definido de duração” (Gonçalves, 1999:
114). Os actos praticados pelo menor, e tipificados na lei penal, são relegados
para segundo plano, uma vez que são considerados “sintomas de inadaptação”
(Moura, 2000: 112). O modelo de protecção caracteriza-se, fundamentalmente,
pelos seguintes aspectos: equiparação quanto à forma de processo e às
medidas aplicáveis entre crianças delinquentes e crianças que se encontrem
em situações vistas como socialmente indesejáveis ou em risco; processo
informal, conduzido em regra pelo juiz, com escassas garantias e visando
quase exclusivamente apurar a personalidade do menor e as suas condições
sócio-familiares (a observação é um ponto fundamental deste modelo); e livre
aplicação e livre revisão, pelo juiz, de medidas de protecção, de assistência
e/ou educação, de duração indeterminada (Moura, 2000).

Na segunda metade do século XX foi dada uma nova visibilidade aos


direitos das pessoas, surgindo importantes documentos internacionais nesta
matéria. Diversos países adoptaram, também, legislação que reconhecia os
direitos específicos das pessoas particularmente vulneráveis, nomeadamente
em função da idade. Esta alteração do contexto social levou à denúncia de
abusos a que estavam sujeitos jovens que não beneficiavam de qualquer
protecção processual. Muitos jovens estavam sujeitos a medidas de duração
indeterminada e a opinião pública foi sensibilizada para estas questões, não
hesitando em pôr em causa a eficácia de métodos de reabilitação utilizados
para evitar a reincidência. Foi, deste modo, posta em causa a filosofia do
modelo de protecção, constatando-se uma insuficiência flagrante de recursos
para assegurar um tratamento adequado aos jovens delinquentes16.

52).
16
Um outro elemento abalou as bases do modelo de protecção. O Supremo Tribunal dos
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 43

Concluiu-se, por fim, que os jovens não recebiam nem tratamento eficaz nem
sanções dissuasoras para combater o seu comportamento criminal
(D’Amours, 2000: 95-115).

O modelo de justiça foi progressivamente elaborado nos anos 70


realçando, não as necessidades específicas do jovem delinquente, mas sim o
acto que este praticara. O jovem deve assumir a responsabilidade das suas
escolhas e das suas atitudes e a sanção aplicada deve ser proporcional à
gravidade do delito cometido. Este modelo pretende potenciar a protecção da
sociedade sobre as necessidades do menor, tomando o comportamento
delituoso como uma escolha pessoal influenciada pela ocasião. De acordo com
este modelo, se o comportamento delituoso é uma resposta racional a
determinadas situações, então deve-se responsabilizar o indivíduo pelas suas
acções (Tutt, 1991). A intervenção, por parte deste modelo, processa-se no
âmbito do chamado “direito penal dos pequeninos”, onde é fixado um limite
etário que oscila entre os 12 e os 14 anos para aferir da responsabilidade penal
do menor17; distingue as crianças em risco ou com dificuldades de
adaptabilidade social das crianças que praticam factos qualificados como
crime; e apresenta um processo de natureza desformalizada que salvaguarda
as garantias de defesa essenciais do menor e as medidas aplicáveis, dando
prioridade à função educativa (Rodrigues, 1997: 369-372). De acordo com
Anabela Rodrigues, “as tendências actuais de recuperação da via jurídico-
penal frente à preventiva assistencial têm a sua motivação profunda no
aumento da insegurança dos cidadãos e no crescimento da delinquência
juvenil. A isto acresce a desconfiança sobre a eficácia dos trabalhadores
sociais em ordem à prevenção e tratamento da delinquência juvenil” (1997:
471).

Estados Unidos colocou em causa, em três decisões, o modelo de protecção, determinando a


aplicação de um certo número de regras de procedimento: deveria haver uma audição do
jovem; este deveria ter a assistência de um advogado; e deveria ter-se conhecimento dos
relatórios que o juiz detinha sobre o jovem (D’Amours, 2000: 95-115).
17
Anabela Rodrigues denomina esta responsabilidade penal de “meia imputabilidade” ou de
“imputabilidade diminuída”.
44 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

O debate sobre a legitimidade e a capacidade de intervenção judicial, no


que toca especialmente ao problema da juventude e da delinquência, num
momento de crise do Estado Providência e do reflexo desta no judiciário, levou
ao surgimento de um conjunto de críticas em diversos sistemas jurídicos, a
partir da década de oitenta, e à discussão em torno da opção entre o modelo
de justiça (em que se privilegia a defesa da sociedade e o respeito dos direitos,
liberdades e garantias dos jovens) e o modelo de protecção (em que se
privilegia a intervenção do Estado na defesa do interesse do menor sem que
lhe seja formalmente reconhecido o direito ao contraditório). Enquanto alguns
autores mais conservadores, invocando o aparente crescimento da
“delinquência juvenil” e a insegurança dos cidadãos, apontam ao sistema de
protecção a sua benevolência, defendendo um modelo de justiça aplicável aos
jovens onde estes possam estar sujeitos a penas criminais, através da criação
de medidas destinadas à diminuição da imputabilidade penal e da aplicação do
direito penal de adultos, outros têm vindo a criticar os “excessos” e o
“tratamento desigual” do sistema de justiça no que se refere a crianças
oriundas das classes pobres18.

Com efeito, são várias as críticas apontadas a um modelo e a outro.


Quanto ao modelo de justiça, as críticas assentam no facto de se caracterizar
como um processo marcadamente punitivo e, como tal, estigmatizador do
menor. Como defende Anabela Rodrigues, “estes modelos surgem, por vezes
«travestidos» de educativos. Mas (...) não se pode separar um procedimento
criminal das suas consequências estigmatizadoras, ainda que se colorem as
sanções de educativas” (1997: 372). A mesma autora acrescenta que “a fuga
ao «corredor da delinquência» é praticamente impossível, quando se sabe que
a alternativa à pena atenuada é apenas a pena em sentido estrito e aquilo que
o menor «é» passa indiscutivelmente para segundo plano, numa abordagem
em que a defesa da sociedade é considerada (...) como primeiro valor a

18
Segundo Eliana Gersão (1997: 3), “na prática, só às crianças e aos adolescentes das
famílias mais pobres e desorganizadas são aplicadas medidas, nomeadamente de
internamento; os das classes mais favorecidas estão praticamente imunes a uma intervenção
judiciária sensível, mesmo que cometam infracções graves”.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 45

assegurar (...). Com efeito, ao pretender defender os direitos do menor, «corre-


se o risco de que se chegue, ao fim e ao cabo, à sua mera repressão penal”
(idem).

No que toca ao modelo de protecção, se bem que, por um lado, afasta o


menor dos mecanismos penais previstos para os adultos, por outro congrega
um conjunto de factores que são alvos de fortes críticas. Uma primeira crítica
prende-se com a enorme flexibilidade no processo de escolha e aplicação da
medida. Como refere Souto de Moura, “as medidas são indeterminadas na sua
duração e a sua livre modificabilidade é a regra” (2000: 112). Uma outra crítica
prende-se com a falta de garantias processuais dos jovens, dos seus pais e
dos seus representantes. Uma terceira crítica refere-se à “falta de medidas
protectivas com exequibilidade prática” e, relacionado com esta, a aplicação
excessiva de medidas de internamento (Rodrigues, 1997: 362). Também a
finalidade maximalista e protectora do modelo conduz, por um lado, a uma
intervenção bastante selectiva, visto que as medidas aplicadas são
maioritariamente determinadas pelas necessidades familiares e sociais do
menor19 e não tanto pelos factos por si praticados, e, por outro lado, leva a
intervenções desproporcionais tanto na duração como na intensidade20. O facto
de se entender que a aplicação de uma medida visa mais a prevenção de
futuros crimes do que a resposta ao facto praticado conduz ao “alastramento
da rede de controlo”, estendendo-se um controlo judiciário de cunho parapenal
a crianças que se encontram em situações de “irregularidade social”21, mas que
não constituem crimes, ou ainda à consideração das crianças como
inadaptadas ou em “risco”, uma vez que, numa perspectiva criminológica
tradicional, essas situações são entendidas como prenunciadoras de uma
futura carreira criminal. O que acontece, na prática, é que se encaminham

19
Pode-se afirmar que o lema do modelo de protecção é “educar o menor em substituição da
família” (Gersão, 1997: 3).
20
A medida-padrão aplicada aos casos que requeiram intervenção é o internamento numa
“instituição total” que tem a duração necessária à “readaptação social” do menor (Gersão,
1997: 4).
21
Situações de irregularidade social são, por exemplo, a mendicidade, a vadiagem, o
comportamento sexual inadequado.
46 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

“para a «justiça» menores que não deveriam ter qualquer contacto com ela -
menores em risco” (Rodrigues, 1997: 367-368). Este modelo parece
secundarizar os direitos fundamentais do menor, tornando-se ineficaz num
quadro de crise do Estado Providência. No limite, o modelo de protecção “(…)
radica numa perspectiva empobrecedora da personalidade. Uma perspectiva
que vê no menor apenas um cidadão em potência, que o segrega do
ordenamento jurídico a pretexto de melhor o proteger, que o guarda à vista de
um Estado-tutor que, não podendo, pela natureza das coisas, substituir-se ao
meio familiar, cria um arsenal de meios paliativos que, em muitos casos, mais
não fazem que vigiar burocraticamente o seu crescimento” (Exposição de
motivos da Lei n.º 166/99, de 14 de Dezembro, que aprovou a Lei Tutelar
Educativa).

Importa, no entanto, sublinhar que, na maioria das ordens jurídicas, estes


modelos não se apresentam como modelos puros, relevando as suas
características de forma diferente de sistema para sistema e atendendo,
obviamente, às especificidades sociais e jurídicas de cada país.

É assim que a justiça de crianças e jovens tem vindo, por exemplo, nos
últimos tempos, em muitos Estados, a dirigir um apelo à comunidade, como
forma de superação da crise do Estado Providência e com o objectivo de criar
parcerias entre o Estado e a comunidade de forma a estabelecer redes de
desenvolvimento social (Pedroso, 1998: 26). Embora a intervenção da
comunidade seja defendida por muitos, outros há, tal como Foucault (1975),
que consideram que este apelo à intervenção comunitária pode ter uma
vertente não desejada, na medida em que o controlo comunitário poderá
comportar, em si, o efeito de alastramento da rede de controlo social, quanto à
sua dimensão e ao estreitamento das suas malhas, com uma intensidade de
filtragem mais baixa, que abrangerá sobretudo os grupos e as pessoas com
menor poder social (apud Pedroso, 1998: 26-27).

Como veremos no Capítulo II, seguindo na esteira de alguns documentos


internacionais nesta matéria, nomeadamente a Convenção das Nações Unidas
sobre os Direitos das Crianças, que defendem que o desenvolvimento da
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 47

criança implica a realização dos seus direitos sociais, culturais, económicos e


civis, alguns autores afirmam que o centro do discurso da justiça de crianças e
jovens deve passar da questão da protecção da infância (menor em perigo ou
agente de infracção criminal) para a questão da protecção e da promoção dos
direitos das crianças e dos jovens (Queloz, 1991: 40). Este é um modelo de
justiça emancipadora acompanhado de uma verdadeira pedagogia da
responsabilidade social que pressuporia a tomada em consideração da vítima,
o respeito pelos seus direitos e a abertura do sistema penal à participação da
comunidade, com a participação do menor na intervenção judicial ou social
proposta (idem: 52).

Queloz (1991) defende, assim, a construção de um “modelo


participativo/democrático” dos actores sociais na justiça de crianças e jovens,
que tivesse subjacente uma concepção global de responsabilidade e
solidariedade social dos Direitos do Homem, da Criança e do Jovem.
Consequentemente, uma justiça de crianças e jovens em construção deveria
atender a um justo equilíbrio entre a redução de danos provocados pela
criminalidade e limitação dos efeitos perversos da luta contra esta
criminalidade, implicando uma política social pro-activa que encorajasse a
autonomia e a participação das crianças e dos jovens nos vários domínios da
vida em sociedade, procurando evitar a sua marginalização e,
consequentemente, comportamentos marginais daí resultantes (Queloz, 1991:
53-55). A justiça de crianças e jovens é ilustrativa de uma coexistência de
entendimentos meramente regulatórios com movimentos emancipatórios. Os
primeiros atendem, sobretudo, à função de controlo social que cabe ao direito
exercer; os segundos defendem a construção de uma cidadania das crianças e
dos jovens, através da qual a sociedade seja capaz de definir novas relações
humanas, “como uma forma redutora de conflitos sociais” (Queloz, 1991;
Pedroso, 1998).

Reconhece-se que, em relação à organização da justiça de crianças e


jovens face à questão da delinquência juvenil, “parece conveniente que o
sistema se revele flexível, dotado de medidas múltiplas e diversificadas; a
48 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

aplicação de medidas de internamento é uma solução de último recurso; e


reconhece-se à comunidade um papel importante na aplicação de medidas
alternativas à institucionalização” (Gonçalves, 1999: 125).

Começou, assim, a desenvolver-se um outro modelo de justiça, um


modelo alternativo, que se apresenta como uma terceira via, não somente
como um sistema “bifurcado puro de justiça”, mas que “harmonize em si a
salvaguarda dos direitos do menor – o que conferirá legitimidade à intervenção
– e a satisfação das expectativas comunitárias em relação aos jovens
infractores – o que conferirá eficácia à intervenção” (Rodrigues, 1997: 373).
Para Gonçalves, esta terceira via deverá ser “capaz de reduzir o paternalismo
existente, privilegiar a clareza e a transparência e, no contraponto, a maior
autonomia hoje reconhecida aos jovens (traduzida na afirmação do direito de
ser não apenas protegido, mas também sujeito do seu próprio destino),
chamá-los a uma responsabilidade maior nas suas relações de alteridade,
perante os outros e a sociedade” (1999: 126). Um sistema como este deverá
assentar na atribuição aos jovens das mesmas garantias constitucionais,
processuais e penais dos adultos mas, também, aproveitar as virtudes do
modelo de protecção, especialmente o seu carácter educativo e a consideração
dos “interesses das crianças” ao longo do processo de aplicação e execução
das medidas. Só assim se conseguirá dar cumprimento “ao dever que ao
Estado incumbe de garantir o pleno gozo e exercício dos direitos fundamentais
à liberdade e à autodeterminação, [de que é titular o menor] e à educação e
manutenção dos filhos, titulados pelos seus progenitores (…); ao dever que ao
Estado incumbe de proteger a infância e a juventude, nomeadamente a
formação do poder de autodeterminação do menor (…); ao dever que ao
Estado incumbe de proteger a paz social e os bens jurídicos essenciais da
comunidade (…); e ao dever que ao Estado incumbe de atacar precocemente o
início de carreiras criminosas (…)” (Comissão para a Reforma do Sistema de
Execução de Penas e Medidas, 1999: 75).

Alguns autores advertem, no entanto, que os aspectos positivos do


modelo de protecção – natureza educativa e interesses das crianças – devem
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 49

ser vistos com particular acuidade, a fim de que da sua utilização não resulte a
corrupção dos princípios subjacentes a uma nova filosofia. Nesse sentido,
Eliana Gersão (1997: 4) considera que a “natureza educativa e interesses das
crianças devem ser encarados com seriedade – lembrando que, sob a capa da
«educação do menor», se tem dado guarida, ao longo dos tempos e um pouco
por toda a parte, tanto a medidas vagas de simples controlo, desprovidas de
real conteúdo, como a práticas de internamento opressivas e violadoras dos
mais elementares direitos das crianças – e reelaborados à luz do nosso
tempo”22.

Um novo direito de crianças e jovens deve, deste modo, assentar “numa


concepção de promoção dos direitos sociais, culturais, económicos e civis das
crianças e jovens, procurando um equilíbrio entre esses direitos, os dos seus
representantes legais e os bens jurídicos essenciais da comunidade, bem
como entre a privacidade das crianças e suas famílias e a legitimidade da
intervenção do Estado e da comunidade. O direito de crianças e jovens, seja
tutelar educativo de crianças que praticam factos qualificados como crime ou
de protecção de crianças em risco, tem como objectivo permitir que o menor
venha a ser um actor social, superadas que sejam as situações que o levaram
à prática de um crime e/ou o colocaram numa situação de risco” (Pedroso,
1998: 29).

Na verdade, o direito de crianças e jovens não pode ser visto como algo
composto por compartimentos estanques, em que a dimensão assistencial e a
dimensão educativa se encontram fechadas em si mesmas. Ou seja, não pode
assumir-se como um direito meramente de protecção uno que trate da mesma
forma crianças em risco e crianças que praticam factos qualificados como
crime, mas também não deve dividir-se num regime puro dual composto, por
um lado, por um direito de protecção de natureza exclusivamente civil e, por
outro, por um direito tutelar educativo sucedâneo de um direito penal de

22
Alguns autores têm questionado se o modelo de protecção tem constituído “um direito para
menores sem penas ou penas para menores sem direito” (Walgrave, 1992: 175).
50 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

crianças e jovens. Como refere Anabela Rodrigues, “a realidade é muito mais


complexa (...) e não se podem criar divisões artificiais”, o que implica que seja
necessário “colocar à disposição do juiz, para análise das situações, variados e
multifacetados meios e, em qualquer caso, proceder à sua abordagem
pluridisciplinar” (1997: 386).

Também para Souto de Moura, o novo sistema tutelar educativo “(...)


tenta conciliar um princípio incontornável de subtracção do menor ao sistema
penal e por aí se aproxima do «sistema de protecção», com uma disciplina
mais garantística do ponto de vista processual e com uma estratégia
responsabilizante, com o que cobra alguma similitude com o modelo de justiça
penal. Sistema «tutelar», porque atende aos imperativos de protecção da
infância e juventude a cargo do Estado, constitucionalmente consagrados.
Sistema «educativo», no sentido de que com ele se pretende conquistar o
jovem para o respeito pelas normas, prevenindo-se ulteriores infracções, assim
se jogando a própria segurança da comunidade” (2000: 114).

Esta pluridisciplinaridade e articulação abrem espaço à participação da


comunidade:

“O problema da delinquência juvenil é com certeza um problema


jurídico, mas é antes de mais um problema eminentemente social,
por isso é necessário uma maior implicação de toda a sociedade,
potenciando alternativas comunitárias. É necessária uma mudança
de atitude da comunidade e das instituições sociais relativamente ao
problema da delinquência, pois não se pode esquecer que a maior
parte dos infractores pertencem (não por acaso) às classes sociais
mais desfavorecidas e desprotegidas, com graves carências
psíquicas, afectivas e sociais. É preciso dar-lhes meios que
respondam às suas necessidades protectivas, preventivas e
educativas” (Rodrigues, 1997: 378).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 51

Esta articulação e legitimação da intervenção da comunidade, com o


Tribunal, podem ser visíveis, sobretudo, ao nível da execução das medidas
tutelar educativas alternativas à institucionalização.

Deste modo, o sucesso deste novo modelo que se pretende inovador e


alternativo, “depende da articulação entre o direito tutelar educativo ou de
educação social e direito de protecção e promoção dos direitos das crianças
em risco. A superação dos modelos de protecção e de justiça do direito de
crianças e jovens, que se procura, assim o exige. Só esta articulação, na
procura da cidadania das crianças, impedirá que estas duas vertentes do
direito de crianças e jovens caiam, por um lado, em intervenções paternalistas
e não-legitimadas e, por outro lado, em «procedimentos» e «medidas»
exclusivamente de controlo social” (Pedroso, 1998: 32).

Ora, é para este modelo que têm caminhado a maioria dos


Estados-membros da União Europeia. O sistema sancionatório vigente na
maioria dos Estados-membros da União Europeia caracteriza-se,
essencialmente, por dar prevalência a medidas de conteúdo reparador, do
ofendido ou da comunidade, como o trabalho a favor da comunidade, e a
medidas de conteúdo probatório e educativo, cumpridas na comunidade,
procurando aplicar-se medidas detentivas somente nos casos mais graves de
delinquência juvenil (Figueiredo, 2001a). Para além destas tendências comuns,
considera-se, ainda, importante que, na aplicação de uma medida a um menor
delinquente, se tenha em conta os seguintes aspectos: a adesão do menor ao
cumprimento da medida e a intervenção individualizada, respeitando as
características de cada menor; os factores de risco de reincidência na
preparação de programas adaptados às necessidades do menor; a celeridade
do processo judiciário; a primazia dos aspectos e conteúdos pedagógicos na
aplicação de qualquer medida; e a importância crescente dos programas de
mediação (idem). Todos estes aspectos reúnem um sólido consenso entre os
Estados-membros, podendo-se, assim, falar de uma perspectiva europeia
sobre as questões que devem ser tomadas em consideração na resposta à
delinquência. Esta perspectiva europeia considera, ainda, fundamental, “uma
52 Capítulo I – Os Jovens, o crime e a justiça

abordagem integrada, que tenha em conta uma forte vertente preventiva,


desenvolvida em articulação com as políticas sociais, designadamente as de
juventude e de desenvolvimento urbano” (idem).
Capítulo II

A justiça juvenil no Direito Internacional

Introdução

Na primeira metade do século XX assistiu-se a uma tomada de


consciência internacional sobre a necessidade de criação de regras no âmbito
do direito das crianças e jovens, independentes das normas jurídicas
destinadas aos adultos, bem como sobre a necessidade protectora do Estado
(Rodrigues, 1997). A primeira referência que se encontra a “direitos da criança”
num texto jurídico internacional data de 1924, quando a Assembleia da
Sociedade das Nações adoptou uma resolução a endossar a Declaração dos
Direitos da Criança promulgada em 1923 pelo Conselho da União Internacional
de Protecção à Infância, uma organização de carácter não-governamental
(Albuquerque, 2000). Após a Segunda Grande Guerra, em 1946, o Conselho
Económico e Social das Nações Unidas recomendou a adopção da Declaração
de 1924, a qual viria a ser conhecida por Declaração de Genebra sobre os
Direitos da Criança, por forma a atrair a atenção do mundo para os problemas
das crianças23. Nesse ano, o Conselho Económico e Social criou o Fundo de
Emergência das Nações Unidas para as Crianças (UNICEF).

Posteriormente, em 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas,


adoptou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que consistiu no
primeiro documento internacional a enunciar direitos de natureza civil, política,
económica, social e cultural de que todos os seres humanos devem beneficiar.
No artigo 25.º era referido que a maternidade e a infância “têm direito a ajuda e
a assitência especiais”.

23
A Declaração de Genebra continha cinco princípios, relacionados com o bem-estar das
crianças, o seu normal desenvolvimento, a alimentação, a saúde e a protecção contra a
exploração (Sottomayor, 2003: 12).
54 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Estes instrumentos internacionais, de cariz não vinculativo, fundavam o


direito das crianças na necessidade de protecção e de cuidados especiais.

Mais tarde, inscreveram-se referências directas aos direitos das crianças


em instrumentos jurídicos como a Declaração dos Direitos da Criança,
adoptada em 1959 pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) e que
durante largos anos constituiu o enquadramento para os direitos das
crianças24; no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 196625;
e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, de
1966.

Além da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, o Pacto


das Nações Unidas de 1966, a Convenção Europeia dos Direitos do Homem,
de 1950, e a Carta Social Europeia, de 1961, consagram especial protecção ao
direito das crianças, associando esse direito de protecção à necessidade de
assegurar o direito das crianças ao seu desenvolvimento, ao qual estão
indissociavelmente ligados um conjunto de direitos civis, económicos e sociais.

A Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou 1979 como o Ano


Internacional da Criança, com o fim de promover os direitos das crianças e de
consciencializar o mundo para as especiais necessidades da criança e para a
urgência de melhorar a sua situação. No âmbito desse Ano Internacional, a
Polónia apresentou o projecto de uma Convenção das Nações Unidas sobre os
Direitos da Criança26.

24
Como refere Maria Clara Sottomayor, na Declaração de 1959 das Nações Unidas “a criança
era vista como objecto de preocupação e de uma política social de protecção, mas não como
uma pessoa autónoma, capaz de decidir o seu próprio destino” (Sottomayor, 2003: 12).
25
Por exemplo, o artigo 10.º, n.º 2, alínea b) deste Pacto prevê a separação entre jovens e
adultos que cometam crimes, e o artigo 14.º, n.º 4, estabelece a necessidade de adoptar
procedimentos adequados à idade dos jovens, tendo em vista a sua reabilitação.
26
A Polónia apresentou esse projecto para que fosse adoptado em 1979, no Ano Internacional
da Criança. O projecto seguia de perto a Declaração de 1959, não tendo obtido reacções muito
favoráveis. Em 1979 a Comissão dos Direitos do Homem decidiu submeter a proposta a uma
análise cuidadosa. Para o efeito, foi criado um Grupo de Trabalho de Composição Ilimitada
sobre a Questão de uma Convenção acerca dos Direitos da Criança. Todos os Estados
membros da Comissão dos Direitos do Homem podiam participar no Grupo de Trabalho, assim
como “observadores” dos demais Estados membros das Nações Unidas. Estava aberta a
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 55

Em 1989, a concepção da infância como sendo um período que necessita


de protecção e de cuidados especiais, foi objecto de alterações, através da
Convenção sobre os Direitos da Criança. De facto, a Convenção sobre os
Direitos da Criança de 1989 foi um instrumento internacional que “reconheceu
à criança capacidade de auto-determinação e direito a participar e a ser ouvida
em todos os processos que lhe digam respeito” (Sottomayor, 2003: 12).

A partir da década de oitenta, começaram, assim, a operar-se, ainda que


de forma lenta, alterações muito significativas no âmbito da administração da
justiça juvenil, reconhecendo-se a necessidade de separar o tratamento dos
factos qualificados como crimes cometidos por jovens dos crimes praticados
por adultos. Este movimento reformador procurou adoptar políticas de inserção
social em detrimento das tradicionais políticas de institucionalização; distinguir
a criminalidade da delinquência juvenil; separar as formas de intervenção
relativas a jovens agentes de infracções e a crianças carecidas de protecção e
assistência por serem vítimas de maus tratos ou de situações de abandono.

Com a implementação, em diversos países, de sistemas de justiça penal


diferenciados para os jovens e para os adultos, tornou-se imperativa uma
tomada de posição a nível internacional que permitisse a construção de linhas
de orientação para as ordens jurídicas nacionais.

Nas décadas de 80 e 90, assistiu-se, pois, a uma nova tomada de


consciência internacional quanto à especificidade dos direitos das crianças,
que resultou no aparecimento de importantes documentos da ONU e de
instituições europeias, assim como na criação de leis em vários países, que se
tornariam, também, textos de referência sobre a acção social no quadro da
delinquência juvenil.

participação nas discussões do Grupo de Trabalho a Organizações intergovernamentais e não-


governamentais. Entre 1980 e 1987, o Grupo de Trabalho reuniu-se anualmente e, aquando do
10.º aniversário do Ano Internacional da Criança, em 1989, a Convenção foi então adoptada
56 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

1. A ONU e o direito internacional das crianças e jovens

1. 1. A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das


Crianças

Como já referimos, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da


Criança iniciou uma nova fase no direito internacional das crianças, pelo que
merece uma referência especial.

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança foi


adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de Novembro de
1989 (data do trigésimo aniversário da Declaração dos Direitos da Criança) e
foi aberta à assinatura e ratificação ou acessão em Nova Iorque, em 26 de
Janeiro de 1990, tendo entrado em vigor em 2 de Setembro de 1990. Até à
presente data, a Convenção foi ratificada por mais de 190 Estados, o que a
torna o instrumento de direito internacional ratificado por maior número de
Estados, tendo o processo de ratificação sido quase universal27. Portugal
ratificou a Convenção em 12 de Setembro de 1990, através do Decreto do
Presidente da República n.º 49/9028.

A principal diferença entre a Convenção, de 1989, e a Declaração dos


Direitos da Criança, de 1959, reside na circunstância da Convenção tornar os
Estados-parte juridicamente responsáveis pela realização dos direitos da
criança e pelas acções que levem a cabo, enquanto que a adopção da
Declaração implica meras obrigações de carácter moral (Albuquerque, 2000:
33). Cada Estado-parte da Convenção tem de apresentar, periodicamente, um

pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Albuquerque, 2000: 29).


27
Como é sabido, é aceite a aposição de reservas ou declarações, pelos estados partes, a
instrumentos de direito internacional. No âmbito da Convenção, tal possibilidade foi utilizada
por 68 Estados, que formularam reservas ou declarações interpretativas à Convenção, algumas
das quais consideradas violadoras do artigo 51.º. Portugal, aquando da ratificação, não emitiu
qualquer reserva ou declaração interpretativa à Convenção.
28
A Convenção foi publicada no Diário da República, 1ª Série, n.º 211, de 12 de Setembro de
1990.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 57

relatório sobre a aplicação daquela ao Comité de Peritos dos Direitos da


Criança29.

Esta Convenção das Nações Unidas procede a uma abordagem integrada


dos direitos da criança ao reconhecer que o desenvolvimento pleno da criança
implica a realização dos seus direitos sociais, culturais, económicos e civis,
procurando um equilíbrio entre os direitos das crianças e os dos seus
responsáveis legais, concedendo àquelas o direito genérico de participar nas
decisões que lhes dizem respeito. Para tanto, incute aos Estados-partes, como
vimos, a responsabilidade jurídica pela prossecução dos direitos das crianças.

O conceito de criança e a idade da imputabilidade penal na


Convenção

O âmbito de aplicação da Convenção é delimitado pelo artigo 1.º, aí se


definindo o conceito de criança: “(….) criança é todo o ser humano menor de
18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade
mais cedo”.

Reconhecendo a disparidade nas legislações nacionais relativamente à


delimitação da fronteira entre a idade menor, idade adulta e idade da
responsabilidade penal, a Convenção sobre os Direitos da Criança
estabeleceu, pois, um limite etário máximo, de 18 anos, ressalvando a
possibilidade de aplicação das leis nacionais no caso concreto.

29
De acordo com o artigo 43.º da Convenção, o Comité dos Direitos da Criança tem por função
examinar os progressos realizados pelos Estados-parte no cumprimento das obrigações que
lhe cabem e é composto por dez peritos de alta autoridade moral e de reconhecida
competência no domínio abrangido pela Convenção, eleitos por escrutínio secreto de entre
uma lista de candidatos designados por Estados Partes, podendo cada país designar um perito
de entre os seus nacionais. O texto da Convenção prevê, ainda, no artigo 45.º, a possibilidade
de Agências das Nações Unidas, incluindo a UNICEF e outros organismos competentes,
poderem contribuir com a sua experiência para o processo de monitorização e de
implementação das directrizes da Convenção.
58 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Esta noção de criança baseada na idade assume uma relevância


essencial no contexto da justiça juvenil, uma vez que a idade é condição
fundamental para aferir a responsabilidade criminal. Apesar da Convenção não
se referir explicitamente à questão da imputabilidade penal, impõe aos Estados
signatários a obrigação de promover o estabelecimento de uma idade mínima
abaixo da qual se presume que a criança não tem capacidade para infringir a
lei penal (artigo 40.º, n.º 3, alínea b)). O estabelecimento deste mínimo legal é,
contudo, discricionário, atendendo às diferenças existentes nos vários sistemas
jurídicos na fixação do limite etário mínimo30.

A construção do conceito de criança no direito internacional, relacionado


directa ou indirectamente com a idade, é considerado por alguns autores como
artificial, na medida em que pode conduzir a arbitrariedades no preenchimento
dos seus limites etários inferiores ou superiores. São, de facto, várias as
expressões utilizadas, como criança, jovem, adolescente ou menor, sendo o
termo mais frequentemente associado ao conceito de criança o de menoridade,
em oposição ao de maioridade, traduzindo a ideia de que a criança é um ser
incompleto, incapaz de se determinar e de agir com vista à satisfação dos seus
interesses. No quadro da administração da justiça juvenil, porém, o termo
menor não coincide necessariamente com o conceito de criança31.

30
No entanto, parece resultar da combinação entre as Regras de Beijing e as da Convenção
que um limite etário mínimo deverá estar intimamente relacionado com o estádio de
desenvolvimento e de maturidade da criança. Nesse sentido, a Convenção sugere a criação de
sistemas de justiça especiais para as crianças de idade inferior a 18 anos que pratiquem
crimes, que estejam em conformidade, quer com a protecção dos direitos humanos, quer com a
protecção das garantias processuais da criança, mas que sejam distintos dos sistemas penais
aplicáveis aos adultos.
31
Por exemplo, nas Regras de Beijing que adiante analisaremos, o significado da expressão
“menor” está relacionado com o tipo de sistema penal a aplicar. Assim, nos termos da Regra
2.2 a), menor “é qualquer criança ou jovem que, em relação ao sistema jurídico considerado,
pode ser punido por um delito, de forma diferente da de um adulto”. A definição, em termos
concretos, do conteúdo da expressão cabe, no entanto, a cada sistema jurídico nacional, de
forma a respeitar os sistemas económicos, jurídicos, políticos e culturais de cada Estado-parte
o que, se por um lado tem a vantagem de permitir a aplicação destas regras a um grande leque
de ordens jurídicas, traz, por outro lado, a desvantagem de uma definição circular. A Regra 4.1,
relativa à idade da responsabilidade penal acrescenta que esta “não deve ser fixada num nível
demasiado baixo”, por razões de falta de maturidade.
Por pressão de algumas organizações não governamentais, a definição do conceito de
menor foi, entretanto, concretizada no decorrer do processo de elaboração das Regras das
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 59

Os princípios de direito internacional quanto aos direitos das


crianças

Após a enunciação do conceito de criança, os artigos 2.º, 3.º, 6.º e 12.º da


Convenção elencam os grandes princípios orientadores: o princípio da não
discriminação (artigo 2.º), o princípio da salvaguarda do interesse superior da
criança (artigo 3.º), o princípio do direito à vida, à sobrevivência e ao
desenvolvimento (artigo 6.º) e o princípio da livre expressão das crianças
(artigo 12.º).

Importa realçar a forma como, no artigo 6.º, n.º 2, a Convenção se refere


ao conceito amplo de direitos de sobrevivência e desenvolvimento da criança
querendo abranger a protecção de uma multiplicidade de direitos civis e
políticos, económicos, sociais e culturais32. Por outro lado, a Convenção elege
um princípio orientador que deverá nortear a actuação dos Estados na defesa
intransigente da dignidade da criança: o princípio do interesse superior da
criança. Significa isto que, nos termos do artigo 3.º da Convenção, o interesse
superior da criança será o princípio orientador de todas as acções relativas à
infância levadas a cabo, quer por instituições de solidariedade privadas ou
públicas, quer por autoridades administrativas ou autoridades legislativas, quer,
ainda, por tribunais. Diga-se, aliás, que este princípio, desde que foi incluído na
Declaração dos Direitos da Criança de 1959, é reconhecido como princípio de
interpretação, assumindo particular importância na definição do conjunto de
preceitos que regulam a articulação entre a acção do Estado, da sociedade civil
e da família, directa ou indirectamente, e a forma como tal articulação se

Nações Unidas para a Protecção dos Jovens Privados de Liberdade, de acordo com as quais
menor “é qualquer pessoa que tenha menos de 18 anos (…)”, acrescentando, nos termos do
preceituado no artigo 11.º, alínea a), que “(…) a idade limite abaixo da qual não deve ser
permitido privar uma criança de liberdade deve ser fixada por lei”.
32
O artigo 6.º, n.º 2 da Convenção determina que os Estados parte assegurem, na máxima
medida possível, a sobrevivência e o desenvolvimento da criança. Note-se, todavia, que este
princípio é temperado pelo princípio da reserva do possível, na medida em que, face aos
direitos económicos, sociais e culturais, os Estados apenas se comprometem a tomar as
medidas legislativas, administrativas e/ou outras no limite máximo dos seus recursos
disponíveis e, se necessário, no quadro da cooperação internacional.
60 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

reflecte no âmbito dos sistemas nacionais de protecção e promoção dos


direitos das crianças em perigo e das crianças em conflito com a lei33.

O artigo 40.º da Convenção e a justiça juvenil

O artigo 40.º da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das


Crianças é dedicado, especialmente, à justiça juvenil. Segundo o artigo 40.º,
n.º1, aos Estados-parte cabe reconhecer:

“à criança suspeita, acusada ou que se reconheceu ter infringido a


lei penal o direito a um tratamento capaz de favorecer o seu sentido
de dignidade e valor, reforçar o seu respeito pelos direitos do
homem e as liberdades fundamentais de terceiros e que tenha em
conta a sua idade e a necessidade de facilitar a sua reintegração
social e o assumir de um papel construtivo no seio da sociedade”.

Partindo deste preceito, o artigo 40.º enumera, como já referimos, um


conjunto de obrigações que os Estados-parte devem cumprir
escrupulosamente no que toca à justiça de crianças e jovens, designadamente
a necessidade de promoverem a criação de leis, de processos, de autoridades
e de instituições dirigidas especificamente a crianças suspeitas ou
reconhecidas como tendo infringido a lei penal. Para a concretização desta
directriz, a Convenção determina, por um lado, “o estabelecimento de uma
idade mínima abaixo da qual se presume que as crianças não têm capacidade
para infringir a lei penal”, no artigo 40.º, n.º 3, a), e, por outro, o princípio de
recurso ao Tribunal como ultima ratio, no artigo 40.º, n.º 3, b).

Por sua vez, o n.º 2, do artigo 40.º, faz referência a um conjunto de


garantias processuais que as leis nacionais devem prever, designadamente, o
princípio de presunção da inocência; o direito a que a causa seja examinada de

33
Cf. artigos 5.º, 9.º, 18.º, 19.º, 20.º, 25.º em matéria de crianças em perigo e artigo 40.º
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 61

forma célere por uma autoridade competente, independente e imparcial ou por


um Tribunal, de forma equitativa e na presença de um defensor; o direito a
interrogar ou fazer interrogar testemunhas de acusação e a obter a
comparência e o interrogatório das testemunhas de defesa em condições de
igualdade; e o direito a recorrer da decisão e das medidas impostas na
sequência daquela.

Por fim, o n.º 4 do artigo 40.º, sugere aos Estados-partes, com o fim de
proporcionar à criança um tratamento adequado ao seu bem-estar e
proporcional à infracção e à sua situação, a criação de um conjunto de
disposições relativas à assistência, orientação e controlo, conselhos, regime de
prova, colocação familiar, programas de educação geral e profissional, bem
como outras soluções alternativas às medidas de institucionalização.

Entre a justiça penal e a justiça de crianças e jovens: os modelos


previstos na Convenção

A questão da opção pelo modelo de justiça a aplicar aos jovens que


cometem crimes constituiu uma preocupação fundamental da Convenção,
defendida nas formas de intervenção relativas a jovens agentes de crimes e a
crianças carecidas de protecção e assistência. É esta a ideia que resulta dos
artigos 19.º e 40.º da Convenção. Nos termos do artigo 19.º, n.º 1, cabe aos
Estados-parte tomarem “todas as medidas legislativas, administrativas, sociais
e educativas adequadas à protecção da criança contra todas as formas de
violência física ou mental, dano ou sevícia, abandono ou tratamento negligente,
maus tratos ou exploração, incluindo a violência sexual, enquanto se encontrar
sob a guarda de seus pais ou de um deles, dos representantes legais ou de
qualquer outra pessoa a cuja guarda haja sido confiada”. Por seu turno, o artigo
40.º estabelece, como já referimos, um conjunto de regras que devem estar

relativamente a crianças em conflito com a lei.


62 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

subjacentes à administração da justiça juvenil, prevendo um conjunto de


garantias processuais que devem assistir a qualquer jovem infractor.

Resulta, também, das disposições constantes da Convenção,


designadamente do artigo 37.º, a) e b), a ultima ratio para institucionalização,
privação da liberdade e proibição de aplicação da pena de morte ou da prisão
perpétua a crianças de idade inferior a 18 anos.

Esta nova abordagem dos direitos da criança tem como objectivo reforçar
a posição legal do jovem enquanto sujeito de direitos e deveres, englobando,
quer as suas garantias jurídicas, quer as suas necessidades e expectativas,
limitar ao mínimo a aplicação de medidas privativas da liberdade e, ao mesmo
tempo, responsabilizar os jovens.

No que respeita às garantias substantivas, são ressaltados os princípios


da culpa, da legalidade e da humanidade. O princípio da culpa assenta no facto
de não poder haver pena sem culpa e de não poderem ser aplicadas penas
que ultrapassem a medida da culpa. Nestes termos, o artigo 40, n.º 2, alínea i)
da Convenção consagra a presunção de inocência dos jovens suspeitos ou
acusados de terem cometido uma infracção penal até que “a sua culpabilidade
tenha sido legalmente estabelecida”. O princípio da legalidade (nullum crime,
nulla poena sine lege) está plasmado nos artigos 37.º, alínea b) e 40.º, n.º 2,
alínea a).

1. 2. Outros instrumentos de direito internacional público relevantes


em matéria de justiça juvenil

No contexto do direito internacional público existe, a par da Convenção


das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, um leque de instrumentos
que foram estabelecendo regras importantes face à justiça juvenil. São eles as
Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça de
Menores - Regras de Beijing - recomendadas pelo Sétimo Congresso das
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 63

Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o Tratamento de Delinquentes,


em 1985; as Directrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência
Juvenil - Princípios Orientadores de Riade; e as Regras das Nações Unidas
para a Protecção dos Jovens Privados de Liberdade, ambas recomendadas
pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o
Tratamento de Delinquentes, em 199034.

Estas normas constituem um importante marco jurídico na garantia do


respeito pela dignidade da criança, pela consideração da sua idade e pela
protecção específica de que deve beneficiar quando envolvida com o sistema
de administração da justiça.

1. 2. 1. As Regras de Beijing

As Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça


de Menores, conhecidas como Regras de Beijing, constituem um instrumento
de direito internacional dedicado à justiça juvenil. Tais regras foram adoptadas
pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1985, através da Resolução n.º
40/33, no seguimento da importância atribuída à Declaração dos Direitos das

34
Em termos gerais, também as Regras Mínimas para a Elaboração de Medidas não Privativas
da Liberdade (“Regras de Tóquio”), adoptadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas na
Resolução n.º 45/110, de 14 de Dezembro de 1990, vieram enunciar um conjunto de princípios
com o objectivo dos Estados membros introduzirem “medidas não privativas de liberdade para
proporcionar outras opções a fim de reduzir o recurso às penas de prisão e racionalizar as
políticas de justiça penal, tendo em consideração o respeito dos direitos humanos, as
exigências da justiça social e as necessidades de reinserção dos delinquentes” (Regra 1.5).
Para a concretização deste objectivo, os Estados membros deverão encorajar a colectividade a
participar mais no processo da justiça penal, especialmente, no tratamento e reinserção do
delinquente e tentar conciliar, através da aplicação destas regras, os direitos dos delinquentes,
os direitos das vítimas e as preocupações da sociedade relativas à segurança pública e à
prevenção do crime. A aplicação de medidas não privativas de liberdade obedece ao princípio
da intervenção mínima e respeita os esforços de despenalização e descriminalização. Por outro
lado, a decisão de aplicação deste tipo de medidas reveste-se de particulares garantias
jurídicas e funda-se em critérios, definidos por lei, relativos à natureza e gravidade da infracção,
à personalidade e antecedentes do delinquente, ao objectivo da condenação e aos direitos das
vítimas. A aplicação destas regras não exclui, contudo, segundo a cláusula de protecção da
Regra 4.1, a aplicação das Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da
Justiça de Menores.
64 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Crianças e do reconhecimento, a nível internacional, da necessidade de rever e


modificar as legislações, as políticas e as práticas nacionais no que dizia
respeito à justiça juvenil. A Resolução veio recomendar aos Estados-membro a
adequação das suas políticas nacionais ao conteúdo das Regras Mínimas
propostas, com o fim de, por um lado, “promover o bem-estar do menor e
reduzir a necessidade de intervenção da lei e tratar de forma eficaz, equitativa
e humanitária o jovem em conflito com a lei”, e de, por outro lado, desenvolver
e sistematizar os serviços de Justiça Juvenil, em especial os métodos, modos
de actuação e atitudes dos funcionários que trabalham nesses serviços (cf.
Orientações Fundamentais das Regras de Beijing).

As Regras de Beijing estão divididas em seis partes: princípios gerais;


princípios subjacentes à investigação e procedimento; julgamento e decisão;
regras sobre o tratamento em meio aberto; regras sobre o tratamento em
instituição; e regras sobre investigação, planificação, formulação de políticas e
avaliação.

Na primeira parte, as regras gerais enunciadas delimitam o campo de


aplicação e extensão deste instrumento e referem os objectivos da Justiça
Juvenil, aos quais subjazem os princípios da protecção social dos jovens e da
proporcionalidade das sanções.

As Regras de Beijing dirigem-se, assim, ao tratamento de delinquentes


juvenis, ou seja, de “qualquer criança ou jovem acusado de ter cometido um
delito ou considerado culpado de ter cometido um delito” (Regra 2.2 alínea c)).
A definição de jovem é-nos dada na alínea a) da Regra 2.2: “qualquer criança
ou jovem que, em relação ao sistema jurídico considerado, pode ser punido por
um delito, de forma diferente da de um adulto”. Considera-se que os limites de
idade relevantes dependem, expressamente, de cada sistema jurídico, o que,
por sua vez, faz com que a noção de jovem, neste âmbito, se aplique
indistintamente a “qualquer criança ou jovem que, em relação ao sistema
jurídico considerado, pode ser punido por um delito, de forma diferente da de
um adulto”. Assim, a Regra 4, referente à idade de responsabilidade penal,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 65

apenas estabelece que a responsabilidade penal “não deve ser fixada a um


nível demasiado baixo, tendo em conta os problemas de maturidade afectiva,
psicológica e intelectual”.

A Regra 3 estende o âmbito de aplicação das disposições deste


instrumento aos chamados “delitos de status”, ou seja, a comportamentos
específicos que não são punidos quando praticados por adultos35 (Epifânio e
Farinha, 1997: 35). No caso dos menores, este alargamento encontra o seu
fundamento na procura de um sistema mais justo, mais equitativo e mais
humano para os jovens que, de algum modo, entrem em conflito com a lei.

A Regra 7 enumera um conjunto de direitos e garantias de natureza


processual que deverão assistir o menor em todas as fases do processo: “a
presunção de inocência, o direito de ser notificado das acusações, o direito de
não responder, o direito à assistência judiciária, o direito à presença dos pais
ou tutor, o direito de interrogar e confrontar as testemunhas e o direito ao
recurso”. A Regra 8, refere-se à protecção da vida privada do menor, no
sentido de assegurar a não publicação de informações que conduzam à
identificação de um delinquente juvenil e, consequentemente, à sua
estigmatização.

Entre os princípios relativos ao julgamento e à decisão, é de salientar o


princípio segundo o qual a privação da liberdade é a ultima ratio, ou seja, a
aplicação de medidas institucionais a um menor pressupõe a prática de um
facto grave que implique violência contra outra pessoa ou a reincidência
noutros crimes graves e a inexistência, para o caso concreto, de outra solução
adequada (Regra 17.1.c)). Por outro lado, segundo a Regra 19.1, “a colocação
de um menor em instituição é sempre uma medida de último recurso, e a sua
duração deve ser tão breve quanto possível”.

35
Exemplos deste tipo de delitos são o absentismo escolar, a indisciplina escolar e familiar, a
embriaguez pública, etc.
66 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Deve, ainda, sublinhar-se o incentivo dado pelas Regras de Beijing ao


recurso a meios extrajudiciais na Regra 11.1: “Sempre que possível tentar-se-á
tratar o caso dos delinquentes juvenis evitando o recurso a um processo
judicial perante a autoridade competente”, acrescentando que “a polícia, o
Ministério Público e os outros organismos que se ocupem de casos de
delinquência juvenil poderão lidar com eles discricionariamente, evitando o
recurso ao formalismo processual penal estabelecido”, designadamente poderá
ser feito o encaminhamento para serviços comunitários ou outros competentes,
desde que haja consentimento do menor, dos seus pais ou tutor, de forma a
evitar o formalismo judicial e a consequente estigmatização.

No que toca à aplicação de medidas, a autoridade competente pode


decretar, nos termos da Regra 18.1, as seguintes medidas, “a fim de evitar,
tanto quanto possível, o internamento numa instituição”: a) medidas de
protecção, orientação e vigilância; b) regime de prova; c) medidas de prestação
de serviços à comunidade; d) multas, indemnização e restituição; e) tratamento
intermédio e outras medidas de tratamento; f) participação em grupos de
aconselhamento e outras actividades semelhantes; g) colocação em família
idónea, em centro comunitário ou outro estabelecimento; h) outras medidas
relevantes. Desta Regra ressalta a importância do papel da comunidade na
aplicação de medidas alternativas e da reeducação baseada na acção
comunitária.

A Regra 22.1 versa sobre a necessidade de formação profissional, de


formação permanente, isto é, e de formação apropriada de “todas as pessoas
encarregadas de assuntos referentes a menores”.

Merece, ainda, destaque a importância que estas regras conferem ao


papel da família, designadamente a Regra 18.2, ao exigir que os filhos não
sejam separados dos pais senão em último recurso, no seguimento do que é
afirmado no Pacto Internacional relativo aos Direitos Económicos, Sociais e
Culturais, ou seja, de que “a família é o elemento natural e fundamental da
sociedade”.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 67

1. 2. 2. Os Princípios Orientadores de Riade

Os Princípios Orientadores das Nações Unidas para a Prevenção da


Delinquência Juvenil, conhecidos por Princípios de Riade, foram adoptados e
proclamados pela Assembleia Geral das Nações Unidas na Resolução n.º
45/112, de 14 de Dezembro de 1990.

Os Princípios de Riade sublinham a importância da adopção de medidas


progressivas de prevenção da delinquência juvenil e da elaboração de medidas
que evitem criminalizar e penalizar um jovem por um comportamento que não
cause danos sérios ao seu desenvolvimento ou que prejudique terceiros. Desta
forma, os Estados-membro são exortados a criar os serviços e programas de
base comunitária para a prevenção da delinquência juvenil, tendo sempre
presente que os organismos formais de controlo social só devem ser utilizados
como instrumento de último recurso, como determina o Princípio 6.º.

No que toca aos princípios de prevenção geral previstos salienta-se,


designadamente, a necessidade de “estreita cooperação interdisciplinar entre
os Governos nacionais, estaduais, provinciais e locais, com envolvimento do
sector privado, cidadãos representativos da comunidade em causa e de
organismos responsáveis pelas questões de trabalho, protecção à criança,
saúde, educação social, aplicação das leis, assim como, instâncias judiciais
para o desenvolvimento de acções concertadas para prevenir a delinquência
juvenil” (princípio 9.º, alínea g)); e “a participação da juventude nas políticas e
processos de prevenção da delinquência, incluindo o recurso a meios da
comunidade, auto-ajuda juvenil, e programas de indemnização e assistência às
vítimas” (princípio 9.º, alínea h)).

É também referido, no Princípio 10.º, que deve ser dispensada especial


importância “às políticas preventivas que facilitem uma socialização e
integração bem sucedida de todas as crianças e jovens, em especial através
da família, da comunidade, dos grupos de jovens, das escolas, da formação
profissional e do mundo do trabalho, assim como através de organizações de
voluntários”, bem como deve ser respeitado “o desenvolvimento pessoal
68 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

próprio das crianças e dos jovens, devendo estes ser integralmente aceites
como parceiros iguais nos processos de socialização e integração”.

Os Princípios Orientadores de Riade, ao abordarem o processo de


socialização, fazem referências expressas ao papel da família, da educação,
da comunidade e dos meios de comunicação social.

No contexto de uma política social, as entidades governamentais deverão


atribuir especial destaque à promoção de planos e programas destinados aos
jovens mediante a criação de “fundos suficientes e outros recursos para o
financiamento de serviços, instalações e pessoal necessários em matéria de
cuidados médicos e mentais adequados, alimentação, habitação e outros
serviços relevantes, incluindo a prevenção do abuso de drogas e de álcool e o
tratamento dos toxicómanos, velando para que estes fundos revertam
efectivamente a favor dos jovens” (princípio 45.º).

De entre as regras enumeradas para a legislação e administração da


Justiça de Menores, é também de realçar o princípio 56.º, relativo à adopção
de legislação adequada que assegure que “(….) qualquer conduta não
considerada ou penalizada como crime, se cometida por um adulto, não seja
penalizada se cometida por um jovem”.

1. 2. 3. As Regras para a Protecção de Menores Privados de


Liberdade

As Regras das Nações Unidas para a Protecção de Menores Privados de


Liberdade, adoptadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas na Resolução
45/113, de 14 de Dezembro de 1990, declaram que “a privação de liberdade de
um menor deve ser uma medida de último recurso e pelo período mínimo
necessário e deve ser limitada a casos excepcionais” (artigo 2.º).

Estas Regras que agora analisamos, visam estabelecer “um conjunto de


regras mínimas aceitáveis pelas Nações Unidas (...), compatíveis com os
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 69

direitos fundamentais, tendo em vista combater os efeitos nocivos de qualquer


tipo de detenção e promover a integração na sociedade” (artigo 3.º).

Um dos princípios plasmados neste documento, é relativo à forma como


deve decorrer a privação da liberdade, sendo referido que os menores “devem
poder exercer uma actividade útil e seguir programas que mantenham e
reforcem a sua saúde e o respeito por si próprios, favorecendo o seu sentido
de responsabilidade e encorajando-os a adoptar atitudes e adquirir
conhecimentos que os auxiliarão no desenvolvimento do seu potencial como
membros da sociedade” (artigo 12.º).

No que diz respeito aos estabelecimentos destinados a acolher jovens


privados de liberdade, o artigo 30.º refere que estes “devem ser
descentralizados e de um tamanho que facilite o acesso e o contacto entre os
menores e as suas famílias. Devem ser criados estabelecimentos de detenção
de pequena escala e integrados no ambiente social, económico e cultural da
comunidade”.

Uma das divisões das Regras em análise, é relativa ao regresso à


comunidade. Nessa secção é referido, no artigo 79.º que os jovens “devem
beneficiar de medidas destinadas a auxiliá-los no seu regresso à sociedade, à
vida familiar, à educação ou emprego, depois da libertação. Com este fim
devem ser concebidos procedimentos, que incluem a libertação antecipada e a
realização de estágios”. O artigo seguinte acrescenta que devem existir
serviços “para auxiliar os menores a reintegrarem-se na sociedade e para
diminuir os preconceitos contra eles”.

Quanto ao pessoal afecto aos estabelecimentos de detenção, as Regras


terminam, referindo que o pessoal “deve procurar minimizar qualquer diferença
entre a vida dentro e fora da instituição de detenção que tenda a diminuir o
respeito devido à dignidade do menor como ser humano” (artigo 87.º, f)).

Com efeito, é amplamente reconhecido que os jovens privados de


liberdade são altamente vulneráveis aos maus tratos e à violação dos seus
70 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

direitos A prática demonstra que muitos sistemas não diferenciam adultos e


jovens nos vários estádios da administração da justiça, o que resulta na
detenção de muitos jovens em prisões ou em outros estabelecimentos
juntamente com adultos. Ora, dada a sua alta vulnerabilidade, os jovens
privados de liberdade requerem uma atenção e protecção especiais, devendo
os seus direitos e bem-estar ser garantidos durante e depois do período em
que estão privados de liberdade, devendo ser equacionado o seu processo de
reintegração na sociedade.

2. O Direito Europeu

As instituições europeias têm, também, demonstrado interesse pela área


dos direitos das crianças, o que é visível através dos diversos documentos que
as mesmas têm criado, como de seguida se verá.

2. 1. O Conselho da Europa e a delinquência juvenil

No âmbito do Conselho da Europa, foi adoptado um amplo leque de


Resoluções, Recomendações e Convenções em matéria de protecção e
promoção dos direitos das crianças. Como referimos de forma breve, também a
Carta Social Europeia, de 1961, ratificada por Portugal em 1991, considera que
“as crianças e os adolescentes tem direito a uma protecção especial contra os
perigos físicos e morais a que se encontrem expostos”. De um modo geral, os
instrumentos jurídicos do Conselho da Europa versam sobre os direitos
consagrados na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança,
de 1989.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 71

2. 1. 1. A Convenção Europeia sobre o Exercício dos Direitos das


Crianças

Em 25 de Janeiro de 1996, a Convenção Europeia sobre o Exercício dos


Direitos das Crianças foi aberta à assinatura dos Estados-membro do Conselho
da Europa e dos Estados não membros que participaram na sua elaboração,
tendo entrado em vigor em 1 de Julho de 2000. Esta Convenção versa sobre
os interesses superiores das crianças, contendo medidas processuais que
permitem às crianças fazer valer os seus direitos, prevendo a constituição de
um Comité Permanente e visando regular o exercício dos direitos das crianças
consagrados na Convenção das Nações Unidas.

Como se pode ler no preâmbulo: “considerando que o objectivo do


Conselho da Europa é o de alcançar maior unidade entre os seus membros
(...), tendo em atenção que a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos
da Criança requer que os Estado parte adoptem todas as medidas legislativas,
administrativas e outras adequadas à implementação dos direitos consagrados
na Convenção (...), considerando que as crianças devem ter a oportunidade de
exercer os seus direitos, em particular no âmbito de procedimentos de família
que os afectem (...), reconhecendo a importância da autoridade parental na
protecção e promoção dos direitos das crianças, mas considerando que,
sempre que necessário, os Estados devem intervir nessa protecção e
promoção (...), é adoptada esta Convenção cujo objecto é o de promover os
direitos das crianças, atribuindo-lhes direitos procedimentais e facilitando-lhes o
exercício desses direitos ao assegurar que as crianças são informadas e
autorizadas a participar nos procedimentos no âmbito das acções judiciais em
matéria de família”.

A Convenção prevê medidas com vista à promoção dos direitos das


crianças envolvidas em processos judiciais, de foro familiar, designadamente
processos relativos à guarda de crianças, sua residência, direito de visita,
estabelecimento ou impugnação da paternidade, adopção, tutela e protecção
contra tratamentos cruéis e degradantes. As medidas processuais para
72 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

observar diversos deveres, para promover o exercício dos direitos das


crianças, nos termos da Convenção, são, entre outras, o direito de ser
informado e de exprimir a sua opinião e de requerer a designação de um
representante especial. Quando estão em causa direitos das crianças, as
autoridades judiciárias e os representantes dos menores devem ter especiais
cuidados e zelar pela celeridade dos processos, nos termos da Convenção.
Entre as medidas recomendadas, é incentivado o recurso a mediação e a
outros métodos de resolução de conflitos, a apoio judicial e aconselhamento
jurídico para a representação de crianças e aplicação de outros instrumentos
internacionais relativos à protecção de crianças e suas famílias.

Como refere Clara Sottomayor, a Convenção Europeia de 1996 “não


consiste numa enumeração dos direitos das crianças, mas num programa de
promoção dos direitos das crianças à informação e à participação nos
processos que a afectem, por exemplo, a fixação de residência e o direito de
visita, prevendo-se, ainda o direito da criança nomear um representante
sempre que os seus interesses estejam em conflito com os interesses dos pais”
(Sottomayor, 2003: 12). O Conselho da Europa assumiu, assim, com esta
Convenção, de carácter sobretudo processual, uma posição de instância
regional com vocação para promover a uniformidade jurídica entre os seus
Estados membros, em matéria de direitos das crianças.

2. 1. 2. A Recomendação (87) 20

Um dos mais importantes instrumentos jurídicos do Conselho da Europa


no que diz respeito à promoção e protecção dos direitos das crianças em
conflito com a lei, é a Recomendação (87) 20 do Comité de Ministros, sobre
“Reacções Sociais à Delinquência Juvenil”, adoptada em 17 de Setembro de
1987. Esta Recomendação consagra, num primeiro nível, a importância
privilegiada das acções de prevenção da delinquência juvenil, através de
políticas sociais de apoio às crianças e aos jovens, favorecendo a sua
integração social. Relativamente a menores que praticaram crimes, a
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 73

Recomendação estabelece, com o necessário respeito pelos direitos do menor,


a natureza prioritária das medidas de diversão, de desjudicialização e
mediação, de modo a evitar que os menores entrem no sistema de justiça
criminal.

Outras preocupações da Recomendação são garantir uma justiça de


menores mais rápida, para que possa desempenhar uma acção educativa
eficaz; evitar que os menores sejam remetidos para a jurisdição de adultos,
devendo ser julgados por tribunais de competência especializada; excluir a
detenção preventiva, salvo em circunstâncias muito graves; reforçar a posição
legal dos menores ao longo de todo o processo; garantir que todas as pessoas
que intervém ao longo do processo (polícias, advogados, magistrados,
trabalhadores da área social) têm formação especializada em direito de
menores e delinquência juvenil; e assegurar a confidencialidade. A
Recomendação (87) 20, ao reconhecer também estes direitos, estabelece a
obrigatoriedade dos Governos dos Estados-membro reverem, se necessário,
as suas leis e práticas no sentido de reforçarem as garantias processuais e
prevê, ainda, o direito das crianças e jovens poderem contraditar os resultados
dos exames de personalidade ou dos inquéritos sociais realizados por decisão
do Tribunal e de se pronunciarem e pedirem a revisão das medidas que o
Tribunal lhes pretenda aplicar.

A Recomendação encoraja os Estados para que as intervenções ocorram,


de preferência, no meio natural de vida dos menores, com respeito pelo seu
direito à educação, pela sua personalidade e de modo a favorecer o seu
desenvolvimento. No caso de ser necessário o internamento em Centro
Educativo, de acordo com a Recomendação, é fundamental diversificar a
intervenção dentro das instituições, de forma a adaptá-las à idade, às
dificuldades e ao meio de origem dos jovens; criar estabelecimentos de
pequenas dimensões, bem integrados no meio sócio-económico e cultural
envolvente; zelar para que a privação de liberdade seja limitada ao mínimo
possível; e que sejam incentivadas as relações familiares. Uma das
74 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

orientações do documento é no sentido de ser dada preferência às medidas


que visem a inserção social.

2. 1. 3. A Recomendação (88) 6

Outra importante Recomendação foi adoptada, em 18 de Abril de 1988,


pelo Comité de Ministros do Conselho da Europa. Trata-se da Recomendação
(88) 6 sobre “Reacções Sociais ao Comportamento Delinquente dos Jovens de
Famílias Migrantes”. Este instrumento recomenda a necessidade dos Estados
prevenirem comportamentos delinquentes dos jovens migrantes,
designadamente dos jovens de segunda geração, oferecendo-lhes as
possibilidades dos autóctones para se integrarem no seu país de residência. A
prevenção, de acordo com a Recomendação, passará por promover o acesso
dos jovens a todas as instituições sociais disponíveis, de forma a que possam
adquirir uma posição social equivalente à dos demais jovens, começando por
aceder à nacionalidade do país de residência. A Recomendação prevê, ainda,
a necessidade de assegurar que os serviços de polícia adoptem atitudes não
discriminatórias para com tais jovens, considerando-se que deve existir um
número suficiente de polícias com formação especializada sobre os valores
culturais e as normas de comportamento dos vários grupos étnicos com os
quais contactam. Outro aspecto considerado nesta Recomendação prende-se
com a necessidade de garantir que os jovens migrantes beneficiem, tal como
os jovens autóctones, de medidas de desjudicialização inovadoras, como a
mediação. No âmbito da intervenção, a Recomendação alerta para que não se
proceda a explicações culturais, de forma automática e simplista, baseadas em
conflitos de ordem cultural e recomenda que seja evitada a colocação de
jovens da mesma origem na mesma instituição.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 75

2. 1. 4. A Recomendação (00) 20

Em 6 de Outubro de 2000 foi adoptada a Recomendação (00) 20, sobre


“O papel da intervenção psicossocial precoce na prevenção dos
comportamentos criminais”. Esta Recomendação surgiu em virtude do Comité
de Ministros estar consciente da crescente inquietude suscitada pelo aumento
da delinquência juvenil, mais violenta, e por a delinquência precoce ser
susceptível de conduzir a comportamentos criminais graves e persistentes e ter
início em faixas etárias cada vez mais baixas. Assim, a Assembleia Geral
recomendou aos governos dos Estados-membro a introdução de estratégias
nacionais de intervenção psicossocial precoce com o objectivo de prevenir os
comportamentos criminais ou encorajar o desenvolvimento das estratégias que
existem, com o fim de combater o crime em geral.

De acordo com o artigo 1.º da Recomendação, esses programas de


intervenção psicossocial deveriam ser elaborados de forma a responder melhor
aos interesses das crianças, das famílias e da sociedade e em conformidade
com a legislação existente. Tais programas deviam incluir, nos termos dos
artigos 2.º e 3.º, medidas orientadas para os factores de risco como a
hiperactividade, a negligência e violência de que a criança foi objecto, o mau
aproveitamento escolar, a discriminação racial, o desemprego de longa
duração dos pais, a prostituição juvenil e a mendicidade36.

A Recomendação, no artigo 11.º, sugere que sejam tomadas medidas


legislativas, ou outras, com o fim de implementar programas de intervenção
precoce para prevenir comportamentos criminais. O artigo 18.º acrescenta que,
para alargar a base de conhecimentos existentes, deveriam ser canalizados
fundos para a realização de projectos de investigação sobre a natureza e

36
Do artigo 4.º resulta que as medidas com o fim de promover os factores de protecção deviam
ser dirigidas, designadamente, ao reforço das competências sociais e cognitivas, aos valores e
atitudes favoráveis; a uma vida familiar orientada por princípios claros, coerentes e desprovida
de autoritarismo; a um ambiente escolar que conceda a todos os jovens oportunidades de
sucesso; e ligações à comunidade local. O documento em análise, em suma, recomenda a
tomada de medidas legislativas ou outras que prevejam programas de intervenção precoce
76 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

âmbito dos comportamentos criminais, sobre os factores de risco e de


protecção relacionados com o aparecimento desses comportamentos e a
avaliação científica da relação custo/eficácia das intervenções com o objectivo
de os prevenir. Por fim, a Recomendação incentiva, no artigo 19.º, a
cooperação internacional sobre os conhecimentos existentes em relação às
causas de aparecimento de comportamentos criminais.

2. 1. 5. A Recomendação (01) 1532

Outro importante documento do Conselho da Europa é a Recomendação


(01) 1532 sobre “Uma política Social Dinâmica em Favor das Crianças e
Adolescentes em Meio Urbano”, adoptada pela Assembleia Parlamentar em 24
de Setembro de 2001. Esta Recomendação surgiu devido à preocupação da
Assembleia Parlamentar pelo comportamento, cada vez mais anti-social, dos
jovens em meio urbano, bem como devido à ghetização dos arredores das
grandes cidades. Porém, como é referido, os fenómenos de mal-estar dos
jovens em meio urbano devem ser analisados num contexto mais lato de
mutações sociais e económicas rápidas, fontes de extrema pobreza para
numerosas famílias e crianças na Europa: o desemprego, a pobreza, a
violência entre os adultos, a falta de espírito comunitário e de solidariedade são
alguns dos elementos que têm efeitos nos comportamentos dos jovens em
meio urbano. A violência dos jovens, como a Recomendação descreve no
ponto 5, representa, com frequência, uma forma de contestação e de afirmação
e constitui um fenómeno que não pode ser analisado isoladamente, mas antes
ser considerado como um bom indicador do mal-estar, da intolerância, do medo
e da violência dos adultos. Tal violência assume diferentes formas: pode ser
dirigida contra o próprio, ter lugar no seio de grupos ou pode ter como alvo a
sociedade em sentido lato.

para prevenir os comportamentos criminais.


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 77

A Recomendação, em relação aos menores delinquentes, exorta os


Estados-membro a introduzirem outras formas de regulação de litígios, quer
alternativas aos processos judiciais, quer alternativas a medidas detentivas,
defendendo-se a tomada de medidas a nível da comunidade, medidas não
judiciais e alternativas à privação de liberdade de jovens.

A ideia de que a resposta à violência dos jovens se deve situar, não na


repressão ou na sanção, mas sim na prevenção junto de crianças
desfavorecidas e em perigo, o mais cedo possível, é reforçada pela
Recomendação, defendendo, assim, uma política social dinâmica que
contemple medidas preventivas a favor de todos os menores em perigo. Para o
efeito é necessária uma reorientação da vontade política, introduzindo medidas
pluridisciplinares que transmitam aos jovens experiências positivas de vida, o
conhecimento dos valores democráticos e civis, que favoreçam a criatividade, a
solidariedade e a participação positiva na vida em comunidade. A Assembleia
Parlamentar reconhece, ainda, que a resposta ao mal-estar dos jovens em
meio urbano passa necessariamente por uma acção concertada entre os
diversos parceiros locais e nacionais e por uma troca de experiências entre
países.

A anteceder a Recomendação (01) 1532, a Comissão para as Questões


Sociais, de Saúde e da Família do Conselho da Europa elaborou um relatório
no qual se encontra o Projecto de Recomendação. O Relatório exprime as
preocupações da Assembleia, pelas situações de violência das crianças e de
delinquência juvenil, pela detenção e circulação de armas e de droga,
designadamente nos estabelecimentos escolares, pelo número de crianças de
rua, pelo aumento preocupante de doenças entre os jovens, pelo
desaparecimento do espírito cívico e ausência de participação na vida política,
pela ausência de perspectivas e pelo mal-estar dos jovens dos arredores das
grandes cidades.

No Relatório lê-se que considerar os jovens delinquentes, apenas como


tal, leva a ignorar os fortes factores de risco que conduzem os menores, desde
78 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

tenra idade, a tais comportamentos. O aumento das taxas de desemprego e de


pobreza, bem como a falência ou precariedade dos sistemas de protecção
social têm fortes repercussões nas famílias, colocando muitos menores em
situação de perigo. Considera-se, assim, que se os Estados não tomarem
medidas face a estes factores que marginalizam numerosas famílias e as suas
crianças e as impedem de participar na vida social e democrática, gerações de
crianças continuarão a ser alvo de desigualdades sociais crescentes. A própria
estrutura de ordenação das cidades modernas, não responde, em geral, às
necessidades dos menores no que diz respeito às actividades lúdicas e de
lazer, o que provoca o aumento precoce da delinquência.

No ponto relativo à criminalidade e violência, o Relatório refere que na


Europa ocidental os dados indicam que as taxas de delinquência juvenil são
estáveis, sobretudo quanto a delitos contra o património, encontrando-se, no
entanto, cada vez mais jovens do sexo feminino ligadas a delitos com violência,
apesar dos números serem baixos e reflectirem a relativa invisibilidade das
jovens do sexo feminino nos sistemas judiciários juvenis. Contudo, nos países
da Europa central e oriental, a taxa de criminalidade subiu em flecha, tendo
também aumentado a delinquência juvenil. Um facto preocupante é que os
jovens cometem cada vez mais delitos com violência, por vezes, munidos de
armas.

A grande maioria dos sistemas judiciários europeus manifesta


preocupação pelo número de crianças delinquentes detidas em instituições,
devido à aplicação de uma pena ou em detenção provisória. Por outro lado, em
diversos países teme-se o provável aumento do número de crianças de rua,
devido à recessão económica e social, à ausência de recursos materiais e de
pessoal qualificado, ao encerramento de grandes instituições públicas sem que
outro tipo de assistência tenha surgido, devido à incapacidade de pôr em
marcha políticas e medidas que permitam dar resposta às necessidades e às
aspirações das crianças de rua, e ao aumento possível do número de crianças
deslocadas em consequência de conflitos como no caso dos Balcãs.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 79

De acordo com o Relatório, uma política social dinâmica, baseada na


Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, deve, também,
reconhecer as importantes diferenças que existem entre os sexos. É dado o
exemplo das medidas de luta contra a criminalidade e a delinquência,
concebidas para reagirem aos comportamentos dos jovens do sexo masculino.
Ora, uma política social activa deve ter em conta a diferença entre as vivências
dos jovens de ambos os sexos.

O Relatório incentiva, ainda, a adopção de programas de prevenção


precoce, implicando a colectividade e as autoridades locais na prevenção da
criminalidade, no desenvolvimento de medidas não judiciárias para os
delinquentes e na emergência de soluções locais alternativas à detenção de
jovens. Reconhece-se, em toda a Europa, que as instituições de justiça juvenil
não poderão solucionar todos os problemas que se colocam aos jovens
delinquentes ou em risco de se tornarem em tal. Há, por isso, que adoptar
programas que ataquem os factores que estão na origem dos comportamentos
delinquentes dos jovens. Tais programas não visam apenas a redução da
delinquência, pretendem também assegurar que as crianças tenham
experiências positivas de vida, ambientes social e psicologicamente sãos que
os preparem para a vida adulta. Nesse sentido, a educação e a escola têm um
papel essencial na preparação dos jovens para uma vida adulta equilibrada,
preparando-os para a entrada no mercado de trabalho, inculcando-lhes os
valores de respeito pelo outro e pela diversidade cultural, desenvolvendo a
noção de cidadania democrática. Os programas de prevenção são tidos como
eficazes a longo prazo, constituindo um importante elemento de reconstrução
social.

2. 1. 6. A Recomendação (03) 20

A Recomendação R (03) 20, adoptada pelo Comité de Ministros em


Setembro de 2003, versa sobre os novos modos de tratamento da delinquência
juvenil e sobre o papel da justiça juvenil.
80 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Para efeitos desta Recomendação, o termo menor designa os jovens que,


tendo atingido a idade da responsabilidade penal, não tenham ainda alcançado
a maioridade, com a ressalva de pessoas de idade imediatamente inferior ou
superior aos limites referidos, por a idade da maioridade legal não coincidir,
necessariamente, com a idade da maturidade, poderem estar englobadas pela
Recomendação, razão pela qual os jovens adultos delinquentes deveriam
beneficiar de certas respostas idênticas à dos jovens delinquentes. Assim,
deveria ser possível aplicar, aos jovens adultos de menos de 21 anos, o
mesmo tratamento dispensado aos adolescentes, no caso de o juiz entender
que um determinado jovem não se encontra num grau de maturidade
equiparável ao dos adultos.

Este documento recomenda que os principais objectivos da justiça juvenil


e das medidas àquela associadas sejam a prevenção da para-delinquência e
da reincidência, a (re)socialização e a (re)inserção dos delinquentes e as
necessidade e interesses das vítimas.

A Recomendação considera que a justiça juvenil deve ser considerada


como uma parte de uma estratégia mais vasta de prevenção da delinquência
juvenil, apoiada em estruturas de proximidade, tendo em conta todo o contexto
do jovem, quer familiar, escolar, de vizinhança e de grupos de pares, devendo
os recursos ser sobretudo canalizados para a luta contra as infracções graves,
as infracções com violência, as infracções repetidas e aquelas associadas a
consumos de droga e álcool.

De acordo com a perspectiva vertida nesta Recomendação, devem ser


criadas medidas mais adaptadas e eficazes para prevenir a para-delinquência
e a reincidência de jovens de minorias étnicas, de grupos de jovens que não
tenham, ainda, atingido a idade da responsabilidade penal.

Com o objectivo de lutar contra as infracções graves, violentas ou


repetidas praticadas por jovens, a Recomendação exorta os Estados ao
desenvolvimento de um maior leque de medidas e de sanções inovadoras e
mais eficazes aplicadas na comunidade, que tenham em conta as
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 81

necessidades do delinquente. O grau de culpabilidade devia estar relacionado


com a idade e com a maturidade, devendo ser estabelecida uma
correspondência entre o estádio de desenvolvimento da responsabilidade
individual do jovem e a aplicação das medidas.

Outra orientação prende-se com a conveniência em encorajar os pais ou


tutores a tomarem consciência das suas responsabilidades relativamente aos
delitos praticados pelos jovens, devendo, designadamente, estar presentes nas
audiências judiciais e, caso se justifique, serem submetidos a
acompanhamento psicossocial, a receberem formação sobre o exercício das
responsabilidades parentais ou a controlarem a assiduidade escolar do jovem.

Quanto ao processo judicial, recomenda-se a fixação de prazos curtos


nas diversas fases processuais, de forma a reagir com a maior celeridade
possível à delinquência juvenil. No que diz respeito às medidas cautelares de
internamento, não deveriam decorrer mais de seis meses até ao julgamento e,
sempre que possível, deveriam ser encontradas outras soluções para além do
internamento, como a colocação junto de famílias de acolhimento.

As orientações fornecidas pela Recomendação vão no sentido de serem


concebidas, coordenadas e implementadas respostas múltiplas pelos principais
actores públicos, como polícias, autoridades judiciárias, serviços de protecção
da infância, educação, emprego, saúde e habitação, e o sector privado e
associativo.

2. 2. A União Europeia e a delinquência juvenil

Vejamos, agora, a actividade recente das instituições da União Europeia


no âmbito da criminalidade juvenil.
82 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Ao nível da União Europeia, até 1999, as políticas de prevenção da


criminalidade haviam estado quase exclusivamente orientadas para a
prevenção da criminalidade organizada37. O Tratado de Amesterdão de 1999,
fala expressamente nas actividades de prevenção da criminalidade no âmbito
da União Europeia tiveram, então, a sua base jurídica. De facto, este Tratado
elegeu a prevenção da criminalidade como um dos meios para “facultar aos
cidadãos um elevado nível de protecção num espaço de liberdade, segurança
e justiça” (artigo 29.º).

No mesmo ano, o Conselho Europeu de Tampere, que versou sobre a


criação de um espaço de liberdade, de segurança e de justiça na União
Europeia, veio confirmar a importância do desenvolvimento de políticas
efectivas de prevenção da criminalidade. Nas Conclusões do Conselho
Europeu de Tampere foi feita expressa referência à necessidade de se criarem
políticas de prevenção da criminalidade, a implementar na União Europeia
através do reforço da rede de autoridades nacionais competentes, bem como
da cooperação entre organismos nacionais especializados nesta área. De
Tampere resultou, em 1999, que tal cooperação, antes de mais, poderia ter
como prioridades a delinquência juvenil, a criminalidade em meio urbano e a
criminalidade associada à droga.

2. 2. 1. As necessidades e as iniciativas preventivas do século XXI

No primeiro semestre de 2000, no âmbito da Presidência portuguesa da


União Europeia, teve lugar, no Algarve, a Conferência de Alto Nível sobre
Prevenção da Criminalidade, na qual foram retomadas as conclusões do
Conselho Europeu de Tampere e houve a tentativa de desenhar a definição de
uma estratégia europeia contra a criminalidade.

37
Quer o Plano de Acção Contra a Criminalidade Organizada, de 1997, quer o Plano de Acção
de Viena, de 1998, versavam sobre medidas no domínio da prevenção da criminalidade
organizada (Eur-Lex, 2004).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 83

No segundo semestre de 2000, já sob a Presidência francesa da União


Europeia, foi realizado o seminário sobre “A Justiça de Menores na Europa”.
Nessa ocasião, foram relembrados os programas e as iniciativas desenvolvidas
para a juventude, no quadro da Europa, tendo sido então partilhada informação
sobre as respostas dos Estados-membro aos problemas levantados pela
delinquência juvenil. Uma das primeiras análises foi no sentido de que,
“embora comungando valores iguais ou muito próximos, os conceitos usados
nos diferentes países, as especificidades naturais da organização interna dos
respectivos sistemas jurídicos, as categorias utilizadas, dificultam a construção
de uma linguagem comum, e, por vezes, o próprio entendimento rigoroso das
mensagens transmitidas”, o que implica que, “se, porventura, é necessário
instaurar uma nova cultura na luta contra a delinquência, é importante que
exista uma linguagem comum face a este problema”, como conclui João
Figueiredo (2001a), o relator das Conclusões do Seminário.

Nessas Conclusões, o relator procedeu à caracterização da delinquência


juvenil na Europa38, começando por referir que “não é possível fazer um retrato
rigoroso e uniforme que transmita a situação existente, em matéria de
delinquência juvenil, em toda a Europa: há variações em função de países e
regiões e as informações estatísticas e qualitativas que é possível obter não
permitem que se faça tal retrato, neste momento” (2001a). Apresentou,
contudo, algumas características a ter em conta, como já se referiu no primeiro
capítulo, como o aumento, entre os jovens, do número de crimes praticados
com violência, sendo muita desta violência gratuita, o que levava a questionar o
mal-estar que lhe estaria subjacente; o fenómeno dos grupos de jovens
delinquentes, ainda que com débil organização, registado em vários Estados; o
aumento de práticas reincidentes e plurireincidentes, apesar de limitadas a um
pequeno número de jovens; o maior envolvimento de jovens do sexo feminino,
quer através da sua participação em grupos de delinquentes, quer na prática

38
Antes de apresentar as conclusões dos debates sobre a delinquência juvenil, João
Figueiredo (2001a) apresentou dois dados (ainda sem rigor estatístico): a grande maioria dos
jovens da União Europeia não cometia crimes e a maioria dos crimes praticados por jovens
84 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

de crimes violentos; a diminuição do nível etário dos jovens delinquentes; a


relação, em alguns Estados membros, entre a delinquência juvenil, o consumo
e tráfico de drogas e a criminalidade dos adultos; a prática de actos de
violência racial e xenófoba frequentemente com grande gravidade; e a
constatação de que muitos dos crimes praticados por jovens tinham como
vítimas outros jovens, o que permitia afirmar que estes estavam mais expostos
à violência da delinquência juvenil.

Foram apresentados, de seguida, os contributos dos Estados-membro


para a compreensão do fenómeno da delinquência juvenil, com o intuito de
melhor responder ao problema. Como referimos no Capítulo anterior, as
conclusões do Seminário, que incluem esses contributos, foram as seguintes: a
delinquência juvenil é, sobretudo, um fenómeno urbano, existindo uma relação
estreita entre a delinquência juvenil e o crescimento urbanístico desordenado,
especialmente nas periferias das grandes cidades; uma forte relação entre
delinquência juvenil e exclusão social, económica e cultural; há uma relação
entre a delinquência juvenil e os movimentos migratórios, com as
desadaptações sociais associadas; verifica-se um aumento das fragilidades
das instâncias tradicionais de socialização, designadamente da família e da
escola, face aos primeiros sintomas de desvio social, às dificuldades em
transmitir valores fundamentais sociais e, também, à relação existente entre a
prática de crimes e a existência de problemas de foro psiquiátrico e de
consumo de álcool. Foi, também, referida a atenção dispensada pela
comunicação social à delinquência juvenil, dada a forte mediatização que
aquela comporta, e a contribuição que essa atitude dos media tem para o
aumento do sentimento de insegurança na sociedade.

As respostas à delinquência juvenil que resultaram do Seminário sobre A


Justiça de Menores na Europa foram as seguintes:

eram pouco graves.


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 85

Em primeiro lugar, a luta contra a delinquência juvenil tem que respeitar e


promover os Direitos Humanos e os Direitos da Criança, tal como estão
vertidos nos instrumentos jurídicos internacionais que os Estados-membro
subscreveram, devendo ter presentes os interesses dos jovens, as suas
necessidades educativas e de inserção social, a consideração dos interesses
das vítimas e a protecção da sociedade.

Em segundo lugar as respostas à delinquência juvenil requerem uma


abordagem integrada, de cariz preventivo, assistencial, policial e judiciário, não
constituindo apenas tarefa das entidades policiais e judiciárias.

É, também, fundamental uma intervenção pluridisciplinar que receba


contributos das diversas disciplinas científicas, de modo a ser compreendido o
fenómeno da delinquência juvenil e a elaboração e execução de programas e
de decisões mais adequados, quer para a prevenção primária, quer para a
reincidência.

Em quarto lugar é essencial uma articulação e coordenação sistemáticas


entre todas as entidades que intervêm.

Considera-se, ainda, que as estratégias de prevenção devem ser


conduzidas por grande número de actores e devem permitir uma intervenção
precoce, que detecte os primeiros factores de risco, devendo ter uma base
local e inserir-se em estratégias globais de desenvolvimento social e
urbanístico eficazes para contrariarem a exclusão social e a marginalização
urbana, o desemprego, a falta de oportunidades de educação e o absentismo
escolar, desempenhando o sistema educativo e os de formação profissional e
emprego um papel essencial na prevenção da delinquência juvenil.

Verificou-se que a evolução da delinquência juvenil tem levado alguns


Estados-membro a realizarem ou a prepararem reformas do direito de crianças
e jovens, sendo muito distintas as soluções encontradas, mas sempre com
uma perspectiva pedagógica, reparadora e reintegradora.
86 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

Constatou-se que as diferenças entre os Estados existem até ao nível das


idades da menoridade e da maioridade penal e da sua correspondência, ou
não, com a maioridade civil.

Existem, também, diferenças entre os Estados-membro quanto ao


sistema de medidas aplicáveis a jovens, contudo, é possível assinalar uma
tendência comum em todos os países da União Europeia na prioridade dada a
medidas de conteúdo reparador, do ofendido ou da comunidade - como é o
caso das tarefas a favor da comunidade - na prioridade atribuída a medidas de
conteúdo probatório e educativo, executadas na comunidade e na reserva de
medidas detentivas para os casos mais graves.

Do Seminário resultou, ainda, que as medidas aplicadas a jovens


delinquentes têm um cariz educativo, para prevenção da reincidência e para a
reinserção social, ainda que tenham cariz sancionatório.

Parece também ser fundamental obter a adesão do jovem ao


cumprimento da medida, havendo medidas que pressupõem tal adesão, para a
sua concretização;

Para o sucesso do cumprimento da medida, é essencial, segundo o


Seminário, uma intervenção individualizada, que tenha em conta as
características de cada jovem.

Uma outra resposta à delinquência juvenil vai no sentido de os factores de


risco da reincidência serem previstos aquando da preparação de programas
adaptados às necessidades do jovem.

Para o efeito pedagógico da medida é fundamental a celeridade do


processo judiciário de decisão, devendo também estar salvaguardados os
direitos e as garantias do jovem.

Por fim, entende-se que as experiências de desjudicialização e os


mecanismos de mediação, quer no âmbito do processo judicial quer fora dele,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 87

são soluções tidas como importantes para evitar ou para minorar o contacto do
jovem com os sistemas de justiça.

Após a referência a estas respostas à delinquência juvenil, João


Figueiredo conclui que, nesta matéria, “apesar de todas as diferenças de
abordagem a nível conceptual geral, de modalidades de reacções e de
execução das mesmas, existe um sólido consenso nos Estados da União
Europeia que permite afirmar a existência de uma perspectiva europeia nas
respostas a dar à delinquência juvenil e que favorece um modelo integrado de
intervenção que combine aspectos pedagógicos, sancionatórios, reparadores e
reintegradores, rejeitando falsos dilemas repressivos/reeducativos ou
repressivos/pedagógicos”, havendo consenso também sobre a primazia a
atribuir aos conteúdos pedagógicos, ao apoio a mecanismos de mediação, ao
incentivo a prestações de carácter reparador na comunidade, sendo as
medidas detentivas consideradas a última solução a adoptar e destacada a
importância a atribuir a programas preventivos (Figueiredo, 2001a).

Resultou, ainda, do Seminário, a necessidade de ser iniciado um caminho


comum de fixação de regras mínimas que inspirem e orientem a aproximação
dos vários sistemas jurídicos europeus e que dê consistência à perspectiva
europeia de tratamento da delinquência juvenil.

Com o fim de garantir a continuidade do caminho já iniciado, foi então


tomada a iniciativa de criação de uma Rede Europeia de Prevenção da
Criminalidade, designadamente orientada para a delinquência juvenil, iniciativa
esta inserida nas conclusões do Conselho Europeu de Tampere, em 1999, e na
Conferência de Alto Nível realizada no início de 2000. Por ocasião do
Seminário foi, ainda, proposta a criação de um Observatório Europeu sobre a
Delinquência Juvenil.
88 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

A Rede Europeia de Prevenção da Criminalidade

A Rede Europeia de Prevenção da Criminalidade (REPC) foi criada por


decisão do Conselho, em Maio de 2001, tendo por objectivo a contribuição para
o desenvolvimento dos diferentes aspectos da prevenção da criminalidade a
nível da União e o apoio de acções de prevenção da criminalidade a nível local
e nacional. Os domínios da delinquência juvenil, da criminalidade em meio
urbano e da criminalidade associada à droga constituem as áreas prioritárias
desta Rede. A REPC, que reúne uma vez por semestre por convocação da
Presidência em exercício do Conselho, tem os seguintes objectivos: facilitar a
colaboração, os contactos e a troca de informações e de experiências; analisar
as acções existentes no âmbito da prevenção da criminalidade; definir os
principais domínios de colaboração e organizar anualmente a entrega do
Prémio Europeu de Prevenção da Criminalidade39; organizar conferências
seminários e encontros; reforçar a cooperação com os países candidatos e
apresentar, todos os anos, ao Conselho um relatório sobre as actividades
desenvolvidas. A REPC estabeleceu, entretanto, relações de cooperação com
o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, de Lisboa (Jornal
Oficial, 2001).

De acordo com a comunicação da Comissão ao Conselho e ao


Parlamento Europeu – Prevenção da Criminalidade da União Europeia40 - o
Jornal Oficial da União Europeia, a REPC tem obtido resultados positivos, pois,
desde 2001, data da sua criação, representantes e peritos dos Estados-
membro realizam reuniões com regularidade, para troca de experiências e
definição de estratégias comuns e de prioridades de actuação e de

39
O Prémio Europeu de Prevenção da Criminalidade, existente desde 1997, deve-se a uma
iniciativa dos Países-Baixos, da Bélgica e do Reino Unido, com o objectivo de proporcionar um
incentivo aos intervenientes no âmbito da prevenção da criminalidade. Todos os anos são
seleccionados os dois melhores projectos de prevenção da criminalidade. Em 2003 este prémio
foi atribuído ao Programa de Prevenção da Criminalidade e Inserção dos Jovens criado em
Portugal em 2001, denominado “Programa Escolhas”.
40
Cf. Jornal Oficial da União Europeia, n.º C92, de 16 de Abril de 2004.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 89

investigação, a partir de programas anuais. Foi iniciada, entretanto, a


elaboração de um inventário de políticas de prevenção com resultados
positivos. Em 2004 está a ser preparada a aplicação de estudos sobre temas
como a delinquência juvenil. Contudo, a REPC, de acordo com a Comunicação
acima referida, debate-se também com algumas dificuldades, designadamente
relacionadas com o facto das suas potencialidades “não poderem ser
plenamente exploradas enquanto todos os Estados-Membros não se tiverem
comprometido a adoptar formalmente e a aplicar políticas gerais de prevenção
da criminalidade a nível nacional”, pois enquanto isso não se verificar, “subsiste
o risco de as actividades da Rede, por mais úteis que sejam, permanecerem
parcialmente isoladas, sem um seguimento adequado a nível da prática
nacional de prevenção da criminalidade nos Estados-Membros”.

Os Programas de prevenção da criminalidade

No âmbito da prevenção da criminalidade, a União Europeia adoptou, em


2001, o programa Hipócrates e, em 2002, o programa AGIS, com vista ao co-
financiamento de projectos de cooperação entre Estados membros.

O programa Hipócrates, criado por um período de dois anos (2001 e


2002), visava a promoção e a cooperação entre todas as organizações
públicas e privadas dos Estados da União com participação na prevenção da
criminalidade. As prioridades deste programa na prevenção geral da
criminalidade baseavam-se nos três temas prioritários identificados pelo
Conselho Europeu de Tampere, entre os quais figurava a delinquência juvenil.
Em 2002 o programa Hipócrates foi substituído pelo programa AGIS, que visa a
cooperação policial e judiciária em matéria penal, tendo sido, em 2003, co-
financiados projectos relativos à delinquência juvenil.

No Sexto Programa-Quadro da União Europeia (2002-2006) no domínio


da IDT (Investigação e Desenvolvimento Tecnológico) foi introduzido um tema
de investigação sobre a prevenção da criminalidade. Tal investigação visa
90 Capítulo II – A justiça juvenil no Direito Internacional

identificar instrumentos comuns para avaliar a dimensão e a natureza da


criminalidade de massa, para analisar as estratégias de redução da
criminalidade e para apreciar as ameaças a longo prazo.

As necessidades actuais

Em Março de 2004, a Comissão da União Europeia apresentou ao


Conselho e ao Parlamento a comunicação sobre “Prevenção da Criminalidade
na União Europeia”, na qual é enfatizada a responsabilidade que incumbe aos
Estados-membro no âmbito da prevenção, sobretudo porque a delinquência
juvenil e a criminalidade em meio urbano e a associada à droga apresentam
uma forte dimensão local, no que se refere à sua ocorrência. Nessa
comunicação é referido que a criminalidade de massa - ou criminalidade não
organizada – , que engloba a delinquência juvenil, a criminalidade em meio
urbano e a criminalidade associada à droga - constitui “a principal fonte de
preocupação dos cidadãos europeus” e “o primeiro passo que os jovens dão
antes de participarem em formas de criminalidade mais graves, incluindo a
criminalidade organizada. Desta forma, o investimento na prevenção da
criminalidade de massa contribuiria também para reduzir a criminalidade mais
grave” (Jornal Oficial, 2004). Assim, a prevenção de tal criminalidade deveria
constituir uma área política de pleno direito na União Europeia. Para reforçar
esta ideia, foram apresentados exemplos que demonstram que a prevenção da
criminalidade pode, de facto, funcionar41. Defende-se, assim, que a prevenção

41
Um dos casos relatados dá conta que “iniciativas bem documentadas e avaliadas, destinadas
aos jovens na faixa etária dos 10-16 anos, permitem concluir que programas eficazes de
desenvolvimento e de intervenção precoce produzem benefícios significativos a longo prazo.
Conclui-se, decorridos 16 anos, que o risco de prisão para os participantes no programa era
claramente inferior ao dos participantes no grupo de controlo”; outro caso relata um programa
desenvolvido nos Estados Unidos, nos anos 70, o programa pré-escolar Perry, que previa
classes pré-escolares de desenvolvimento para crianças entre os 3 e os 4 anos de idade,
oriundas de famílias de baixos rendimentos, classes essas associadas a visitas domiciliárias
realizadas pelos técnicos. Ora, constatou-se, mais tarde, que os participantes no programa,
quando jovens e adultos, apresentavam taxas de prisão bastante mais baixas e taxas de
sucesso escolar mais elevadas. Este programa, para além destes bons resultados, teve
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 91

da criminalidade de massa constitui um instrumento político relativamente


recente, mas potencialmente eficaz para a redução da criminalidade. Para
proporcionar uma prevenção mais eficaz da criminalidade em toda a União, a
Comissão entende ser essencial que os Estados-membro envolvam as
autoridades na primeira linha do desenvolvimento dessas políticas, que tenham
políticas nacionais de prevenção da criminalidade e que respeitem as normas
reconhecidas internacionalmente.

também uma avaliação positiva quanto à análise de custos-benefícios (Jornal Oficial, n.º C92,
de 16 de Abril de 2004).
Capítulo III

A reforma da justiça juvenil em Espanha:

apresentação da lei e brevíssima reflexão sobre a sua


aplicação

Introdução

No capítulo anterior procedemos à análise do direito internacional, dando


especial ênfase às normas e acções desenvolvidas no âmbito do Conselho da
Europa e da União Europeia, relativamente à criminalidade juvenil.

Tendo em vista o nosso objecto de estudo – avaliação da aplicação da


nova Lei Tutelar Educativa – lançaremos, neste capítulo, um breve olhar sobre
o novo direito de crianças e jovens em Espanha. Justifica-se esta análise por
ser, no contexto da experiência comparada, um país com características
jurídicas comuns e próximas das de Portugal e com uma recente reforma sobre
esta matéria. Daremos conta, em primeiro lugar, da nova legislação, concluindo
o capítulo com uma brevíssima e fragmentária reflexão sobre a aplicação da
referida lei (Ley Orgánica Reguladora de la Responsabilidad Penal de los
Menores).

1. A reforma do direito de crianças e jovens em Espanha: Ley


Orgánica Reguladora de la Responsabilidad Penal de los Menores

1. 1. A evolução histórica do direito de crianças e jovens em


Espanha

No século XIV surgiu em Espanha a figura do Padre de Órfãos, que tinha


como função amparar e proteger os jovens vagabundos e ociosos, órfãos e
94 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

desprotegidos encaminhando-os para a Casa Común, onde aprenderiam um


ofício. No início do século XX a justiça de crianças e jovens, em Espanha,
previa os “hospícios” para os órfãos e vagabundos e as prisões para os jovens
que infringiam a lei penal. Os sucessivos Códigos Penais, desde 1822,
restringiram a aplicação da lei penal a determinadas idades e circunstâncias.
Em 1920 foi criado o primeiro Tribunal Tutelar de Menores e no Código Penal
de 1928 foi fixada nos 16 anos a idade a partir da qual os jovens passariam a
ter responsabilidade penal (D’Ancona, 1992).

Em 1948, o Decreto de 11 de Junho, aprovou o Texto Refundido de la Ley


de Tribunales Tutelares de Menores, a qual foi inspirada nos princípios da lei
de bases de 3 de Agosto de 1918.

Em 1985 a Ley Orgánica del Poder Judicial criou os Tribunais de


Menores, em substituição dos antigos Tribunales Tutelares de Menores.

Até 1992, foi o Decreto de 1948 que regulou o sistema de justiça juvenil.
O Texto Refundido de 1948 continha uma série de medidas de segurança,
como reacções do Estado ao jovem infractor, medidas que eram aplicadas não
apenas como respostas à prática de delitos mas também a certos estados
considerados de perigosidade social.

Aquela lei foi alvo de duras críticas doutrinais e, com a entrada em vigor
da Constituição, o sistema revelou-se insustentável, pois considerava-se que
colocava em causa os mais elementares direitos e garantias do jovem e que
representava um atentado contra os princípios do Estado de Direito social e
democrático. Foram levantadas várias questões de inconstitucionalidade,
promovidas por juízes de menores, sobretudo a partir de 1991, levando a
várias decisões de inconstitucionalidade, salientando-se a sentença do Tribunal
Constitucional 36/1991, de 14 de Fevereiro, que declarou inconstitucional uma
norma daquele documento legal. Como consequência dessa sentença, em 5 de
Junho de 1992 entrou em vigor a Ley Orgánica 4/92, que revogou o anterior
regime legal.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 95

A Ley Orgánica 4/92 apresentou algumas novidades. A principal dizia


respeito ao estabelecimento de uma separação clara entre as questões de
justiça juvenil e as de protecção de crianças e jovens, passando a justiça
juvenil a estar sob a alçada do sistema judicial criminal. De entre as alterações
introduzidas, destacamos as seguintes: a ampliação do leque de medidas
aplicáveis42; as medidas passaram a ser impostas apenas como consequência
da prática de factos tipificados na lei penal; passaram a ter um prazo de
duração máximo, que não podia exceder dois anos; passou a haver notas de
flexibilidade, possibilidade de revisão, limitação temporal; e a execução das
medidas passou a estar a cargo de entidades públicas competentes,
seleccionadas tendo em conta o interesse do jovem.

Na Exposição de Motivos da Ley Orgánica 4/92, o legislador esclarecia


que o critério da escolha das medidas devia ser, precisamente, o interesse do
jovem e que o aplicador se devia nortear pelo princípio da intervenção mínima.

Em relação ao anterior sistema, a Ley Orgánica 4/92 representou um


grande avanço, tendo sido criado para os jovens um procedimento penal
paralelo ao dos adultos, com garantias idênticas às do processo penal.
Contudo, apesar de a lei ter como objectivo central o interesse do jovem, houve
quem considerasse que foi construído um modelo “penal” com todas as
vantagens mas também com inconvenientes, que decorriam, sobretudo, da
conversão das medidas, pretensamente educativas, em penas, e do processo
educativo, em processo penal. Uma importante novidade desta lei foi a
atribuição, ao Ministério Público, de um papel fundamental que, para além de
dirigir a investigação dos factos atribuídos ao jovem e de ter o monopólio do
exercício da acção penal nesta matéria, tinha, também, uma função de
protecção de crianças e jovens, passando a ser o garante dos seus direitos.

42
A Lei 4/92 previa as seguintes medidas: admoestação, internamento de um a três
fins-de-semana, liberdade vigiada, acolhimento por outra pessoa ou núcleo familiar, privação
do direito de conduzir ciclomotores ou veículos com motor, prestação de serviços em benefício
da comunidade, tratamento ambulatório ou entrada num centro terapêutico e internamento.
96 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

A Ley Orgánica 4/92 foi, contudo, como se referiu, objecto de várias


críticas. Por um lado, os partidários do sistema repressivo mostravam-se
satisfeitos por o jovem ser inserido num verdadeiro processo penal, frente a um
juiz (inserido em jurisdição ordinária, como exige a Constituição de Espanha,
mas especializada, como recomendam as Regras de Beijing, como vimos no
capítulo anterior), por ter um advogado defensor e por gozar de todas as
garantias penais e processuais de que historicamente havia estado sempre
excluído. Também as medidas aplicadas com limites, que se assemelham às
penas, e com conteúdo flexível constituíam uma boa solução para o jovem. Por
outro lado, os defensores da não utilização do Direito Penal no âmbito da
justiça juvenil repudiavam o sistema que sentava as crianças e os jovens no
banco dos réus, invocando o princípio da intervenção mínima e a
impossibilidade de prosseguir o interesse do jovem com a rigidez do processo
penal.

Neste contexto estava, pois, instalada a necessidade de proceder à


reforma da Ley Orgánica 4/92, o que veio a acontecer através da Ley Orgánica
5/2000, de 12 de Janeiro.

1. 2. O actual direito de crianças e jovens em Espanha

1. 2. 1. Os princípios gerais

A Ley Orgánica 5/2000, de 12 de Janeiro - Ley Orgánica Reguladora de la


Responsabilidad Penal de los Menores (LORPM) - tem como princípios
orientadores o superior interesse das crianças e jovens, as garantias do
ordenamento constitucional e as normas de direito internacional, em especial a
Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, de 1989.

Na Exposição de Motivos da Ley Orgánica 5/2000, o legislador elencou os


princípios, critérios e orientações subjacentes à LORPM. Esses princípios são
os seguintes: a natureza formalmente penal, mas materialmente
sancionatório-educativa do procedimento e das medidas aplicáveis aos jovens
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 97

infractores43; o reconhecimento expresso de todas as garantias que decorrem


do respeito pelos direitos constitucionais e pelas especiais exigências do
interesse do jovem44; a diferenciação de diversas faixas etárias com diferentes
efeitos processuais e sancionadores45; a flexibilidade na adopção e execução
das medidas aconselhadas para as circunstâncias do caso concreto46; a
competência das entidades das Comunidades Autónomas relacionadas com a
reforma e com a protecção de crianças e jovens para a execução das medidas
impostas na sentença; o controlo judicial da execução47; a especial incidência
na reparação do dano causado e na conciliação do delinquente com a vítima; e
a fixação de um sistema célere para o ressarcimento de danos e de prejuízos
às vítimas ou a outros prejudicados por factos diversos48.

Como o legislador refere na Exposição de Motivos, a LORPM tem


natureza sancionatória, pois exige uma verdadeira responsabilidade jurídica
dos jovens infractores, devendo, contudo, estar sempre presente a defesa do
superior interesse das crianças e jovens. Esse interesse deve ser valorado com

43
A LORPM tem a natureza de disposição sancionatória, pois desenvolve a exigência de uma
verdadeira responsabilidade jurídica dos jovens infractores, referida à prática de factos
tipificados no Código Penal e demais leis penais especiais. Ao ter também natureza educativa,
a LORPM socorre-se de outras finalidades essenciais do direito penal dos adultos, como a
proporcionalidade entre o facto e a sanção, evitando todo o efeito contraproducente para o
jovem.
44
Designadamente a especial intervenção do Ministério Público – cabe ao Ministério Público a
defesa dos direitos das crianças e jovens, assim como o controlo das acções a empreender no
seu interesse e a observância das garantias do procedimento, razões pelas quais dirige a
investigação dos factos.
45
A lei acolhe o sistema biológico puro (responsabilidade penal dos jovens entre os 14 e os 18
anos), distinguindo-se duas faixas etárias (dos 14 aos 16 anos e dos 17 aos 18 anos), por se
entender que esses estratos etários apresentam diferenças características que exigem um
tratamento distinto, do ponto de vista científico e jurídico. Por outro lado, a lei poderá também
ser aplicada a maiores de 18 anos e menores de 21 anos, atendendo às circunstâncias
pessoais e ao grau de maturidade do autor e à natureza e gravidade dos factos. Algumas
situações especiais exigem uma resposta específica, designadamente os casos de problemas
mentais ou de ocorrência de outras circunstâncias modificativas da responsabilidade, situações
em que o Ministério Público deve promover a adopção de medidas mais adequadas ao
interesse do jovem.
46
Mediante solicitação das partes e ouvidas as equipas técnicas, o juiz dispõe de amplas
faculdades para suspender ou para substituir as medidas por outras ou para permitir a
participação dos pais do jovem na sua aplicação.
47
A execução das medidas cabe a entidades públicas de protecção e de reforma de crianças e
jovens das Comunidades Autónomas, com o controlo do juiz de menores.
48
Quanto ao ressarcimento de danos e prejuízos, a lei introduziu o princípio da
responsabilidade solidária com o jovem, de seus pais, tutores ou de quem tenha a sua guarda.
98 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

base em critérios técnicos, por equipas de profissionais especializados no


âmbito das ciências não jurídicas. A lei, como já referimos, também não
esquece o interesse da vítima do facto, estabelecendo um procedimento rápido
e pouco formalista para o ressarcimento de danos (cfr. nota 7).

A LORPM possibilita, ainda, um amplo direito de participação das vítimas,


dando-lhes a oportunidade de intervir activamente. Além da especial
importância que é atribuída à reparação do dano causado, é também dada
igual importância à conciliação do delinquente com a vítima, recorrendo-se,
para o efeito, à mediação.

1. 2. 2. A competência e o âmbito de aplicação da LORPM

A competência

A competência para a aplicação da LORPM cabe ao juiz de menores do


local onde tenha sido praticado o facto. No caso do mesmo jovem ter cometido
delitos em diferentes zonas, será competente para apreciar os factos o Tribunal
do lugar da residência do jovem, sendo reunidos todos os processos
conhecidos numa única unidade de expediente.

A posição do Ministério Público, como se lê na Exposição de Motivos da


LORPM, é de grande relevância, na sua dupla condição de instituição que
detém, por atribuição constitucional, a função de promover a acção da justiça e
a defesa da legalidade, bem como os direitos das crianças e jovens, zelando
pelos interesses destes.

O advogado do jovem tem participação em todas as fases do processo,


sendo-lhe dado conhecimento do conteúdo de todo o expediente, podendo
requerer provas e intervir em todos os actos relativos à valoração do interesse
do jovem e à execução da medida, podendo solicitar a sua modificação.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 99

O âmbito de aplicação

Nos termos do ordenamento jurídico espanhol, a maioridade penal é


fixada nos 18 anos, ou seja, os menores de 18 anos que tenham cometido um
facto punido como crime não são responsáveis criminalmente, à luz do Código
Penal49.

A LORPM veio completar a ideia expressa no artigo 19.º do Código Penal,


de acordo com o qual a maioridade penal se atinge aos 18 anos e assenta no
princípio de que a responsabilidade penal dos jovens, face à dos adultos,
requer, de forma primordial, uma intervenção educativa, que transcende todos
os aspectos da sua regulação jurídica e determina consideráveis diferenças
entre o sentido e o procedimento das sanções, sem prejuízo das garantias
dispensadas. A idade que constitui o limite superior - 18 anos - precisa de um
limite mínimo a partir do qual comece a possibilidade de exigir tal
responsabilidade, limite esse que foi fixado, em Espanha, nos 14 anos, idade
abaixo da qual não se exige qualquer responsabilidade penal, sendo as
crianças e jovens apenas objecto de protecção administrativa, pois entende-se
que estes jovens carecem de capacidade para compreender o carácter ilícito
da sua conduta. Parte-se também da ideia de que as infracções cometidas por
estes jovens são, em regra, irrelevantes e que nos escassos casos em que
provocam algum alarme social as respostas de carácter familiar e assistencial
são suficientes.

A faixa etária objecto de aplicação da LORPM é, pois, dos 14 aos 18


anos, sendo aplicável às crianças e jovens o processo e as medidas previstas
na LORPM. A partir dos 18 anos o jovem é considerado imputável e
penalmente responsável. Contudo, entre os 18 e os 21 anos, atendendo à

49
Excepcionalmente, e tendo em conta a personalidade e o grau de maturidade, podem
permanecer em centros destinados a jovens aqueles que, tendo cumprido 21 anos, não
tenham ainda alcançado os 25 anos. A lei determina, ainda, que os jovens que ainda não
tiverem completado 21 anos devem cumprir as penas privativas da liberdade separados dos
adultos, em estabelecimentos distintos ou em departamentos separados.
100 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

idade e a certas características do indivíduo, é ainda possível a aplicação da


LORPM (cfr. nota 8).

1. 2. 3. As medidas aplicáveis aos jovens

A LORPM estabelece um amplo catálogo de medidas aplicáveis, partindo


da perspectiva sancionatória-educativa, tendo sempre como pressuposto o
interesse das crianças e jovens e a adopção flexível da medida mais idónea,
atendendo às características do caso concreto, da idade do jovem, da
seriedade da transgressão e da sua evolução pessoal durante a execução da
medida.

As medidas previstas na LORPM são as seguintes:

Internamento em regime fechado50

A medida de internamento em regime fechado consiste na vivência num


centro no qual se desenvolvem actividades formativas, educativas, laborais e
de tempos livres. Com esta medida visa-se a aquisição, por parte das crianças
e jovens, de competências sociais que lhes permitam um comportamento
responsável na comunidade, através de um ambiente restritivo e
progressivamente autónomo.

50
O internamento em regime fechado apenas é aplicado nos casos em que na prática dos
factos tiver havido recurso a violência ou a intimidação ou se tiver havido risco para a vida ou
para a integridade física. Esta limitação das situações em que é possível a aplicação de
internamento em regime fechado está de acordo com os princípios internacionais relativos à
privação da liberdade de jovens, inscritos designadamente na Convenção sobre os Direitos da
Criança e nas Regras de Beijing.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 101

Internamento em regime semiaberto

O internamento em regime semiaberto pressupõe a residência num


centro, mas a realização de actividades educativas, formativas e de tempos
livres no exterior. Este regime implica a existência de um projecto educativo, no
qual os objectivos substanciais se realizam em contacto com as pessoas e
instituições da comunidade.

Internamento em regime aberto

No internamento em regime aberto, todas as actividades previstas no


projecto educativo são desenvolvidas nos serviços existentes na zona,
residindo o educando no centro, com sujeição ao programa e regime interno do
mesmo. Não é um regime substancialmente distinto do regime de internamento
semiaberto.

Nos termos da LORPM, na execução das medidas de internamento


existem dois períodos distintos. O primeiro decorre no centro, num dos regimes
de execução referidos, e o período seguinte decorre em regime de liberdade
vigiada, na modalidade escolhida pelo juiz. A duração total dos dois períodos
não poderá exceder os dois anos, contudo, excepcionalmente, o legislador
determinou que, em casos de extrema gravidade, o juiz poderá impor uma
medida de internamento em regime fechado até cinco anos, acrescida de outra
medida de liberdade vigiada com acompanhamento educativo até um máximo
de outros cinco anos.

Internamento terapêutico

O internamento terapêutico é uma medida desenvolvida em centros com


características especiais para o efeito, que consiste no acompanhamento
educativo especializado ou no tratamento específico dirigido a crianças e
102 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

jovens que padecem de anomalias ou de alterações psíquicas, estados de


dependência de substâncias psicotrópicas ou alterações da percepção. Esta
medida pode ser aplicada isolada ou em complemento de outra, sendo
indicada para jovens que necessitam de um contexto estruturado para
realizarem um programa terapêutico, por não disporem de condições para
realizarem tal tratamento em regime ambulatório.

Tratamento ambulatório

Esta é uma variante da medida de internamento terapêutico, pois consiste


na assistência no centro designado, com a periodicidade necessária, de modo
a poder ser seguido o tratamento adequado à anomalia ou à alteração
psíquica. Como se lê na Exposição de Motivos da LORPM, é uma medida
adequada para casos de desequilíbrio psicológico ou de perturbações
psíquicas que podem ter resposta positiva sem internamento, bem como para
os jovens que apresentam uma dependência do álcool e de drogas e que
dispõem das condições adequadas para beneficiarem de um programa
terapêutico a decorrer na comunidade. Na execução do tratamento ambulatório
podem ser combinados diferentes tipos de assistência médica ou psicológica e
a metodologia empregue poderá ser, sobretudo, de orientação psico-educativa,
e não tanto clínica.

Também esta medida pode ser aplicada isolada ou em complemento de


outra, designadamente com a liberdade vigiada.

Assistência num centro de dia

A medida de assistência num centro de dia consiste na residência no


domicílio habitual, com deslocações a um centro plenamente integrado na
comunidade, para realização de actividades de acompanhamento, educativas,
formativas, laborais e de tempos livres.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 103

Esta medida visa proporcionar ao jovem um ambiente estruturado durante


grande parte do dia, mantendo-o ocupado com actividades sócio-educativas
que compensem as carências do seu ambiente familiar. O jovem submetido a
esta medida pode continuar a residir com a sua família ou em estabelecimento
de acolhimento.

Permanência em casa ou em centro durante o fim-de-semana

O jovem sujeito a esta medida permanece no seu domicílio ou num centro


até um máximo de 36 horas, entre a tarde ou noite de sexta-feira e a noite de
domingo, com excepção do tempo que deva dedicar às tarefas sócio-
educativas designadas pelo juiz.

Liberdade vigiada

A medida de liberdade vigiada consiste no acompanhamento da


actividade do jovem na escola, no centro de formação profissional ou no local
de trabalho, de acordo com os casos, prestando-se-lhe a ajuda de que
necessite para superar os factores que conduziram ao cometimento do delito.

O jovem submetido à medida de liberdade vigiada fica obrigado a manter


entrevistas com o técnico encarregado de o acompanhar e a cumprir as regras
de conduta impostas pelo juiz, que podem ser as seguintes: assiduidade na
escola, caso o jovem esteja em período de ensino obrigatório; submissão a
programas de tipo formativo, cultural, educativo, profissional, de educação
sexual, de cidadania ou outros similares; proibição de frequentar alguns locais,
estabelecimentos ou espectáculos; proibição de se ausentar do local da sua
residência sem autorização judicial prévia; obrigação de residir num local
determinado; obrigação de comparecer perante o juiz ou perante o profissional
que se designe para prestar informações e justificar as actividades realizadas;
quaisquer outras obrigações que o juiz, oficiosamente ou mediante proposta do
104 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

Ministério Público, considere convenientes para a reinserção social das


crianças e jovens, desde que não colidam com a sua dignidade.

Esta medida supõe a submissão do infractor a uma vigilância e


supervisão a cargo de pessoal especializado para que venha a adquirir as
capacidades e atitudes necessárias ao correcto desenvolvimento da sua
personalidade. A eficácia da medida dependerá não apenas da atitude do
próprio jovem, mas também da sua família - que deverá ser idónea - e da
existência, nas Comunidades Autónomas, das correspondentes equipas de
liberdade vigiada e de adequado controlo judicial.

Ao aplicar esta medida, o juiz deve ter em conta a valoração jurídica dos
factos praticados, a idade, as circunstâncias familiares e sociais, a
personalidade e o interesse do próprio jovem. Por essa razão é uma medida
adequada a crianças e jovens que apresentam carências escolares,
educativas, familiares e pessoais, que necessitam de uma intervenção
prolongada no tempo.

Convivência com outra pessoa, família ou grupo educativo

Com esta medida pretende-se que, durante o tempo estabelecido pelo


juiz, o jovem conviva com outra pessoa, com uma família que não a sua ou
com um grupo educativo seleccionado para orientar o jovem no seu processo
de socialização.

Esta medida visa proporcionar ao jovem um ambiente de socialização


positiva, no que diz respeito ao desenvolvimento da vertente sócio-afectiva. A
convivência será, como referimos, limitada temporalmente pelo juiz, pois
decorrido algum tempo, o jovem regressará à sua família de origem, pelo que a
medida não pode implicar uma ruptura radical com os vínculos entre o jovem e
a sua família.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 105

Trabalho a favor da comunidade

Esta medida, para a qual a lei fundamental exige o consentimento do


jovem, consiste na realização de actividades, não remuneradas, de interesse
social ou em benefício de pessoas em situação precária, durante um número
determinado de sessões. Procura-se relacionar a natureza de tais actividades
com a natureza do bem jurídico lesado pelo jovem.

A medida de prestação de trabalho a favor da comunidade é uma medida


adequada para os que cometem infracções de natureza patrimonial, sobretudo
crime de dano, e consiste em actividades de limpeza em hospitais, em
estabelecimentos psiquiátricos ou asilos, trabalhos de reparação ou de
manutenção em igrejas ou em escolas, reparação de danos praticados em
meios de transporte, mobiliário urbano, edifícios públicos ou propriedades
particulares, trabalhos de manutenção de florestas, jardins ou parques e outras
análogas, todas adaptadas à idade e às capacidades do jovem, sem
interferirem na sua actividade escolar e formativa, sempre relacionadas, de
forma preferencial, com a natureza dos factos praticados.

O objectivo da medida é que o jovem compreenda que a colectividade ou


que determinadas pessoas sofreram de forma injustificada as consequências
negativas da sua conduta delituosa e que a prestação do trabalho, que se
exige, é um acto de reparação justa.

Realização de tarefas sócio-educativas

O jovem submetido a esta medida, sem recurso a internamento nem a


liberdade vigiada, deverá realizar actividades específicas de conteúdo
educativo, com o fim de desenvolver a sua competência social e a sua
reinserção na comunidade.

Esta medida pode ser imposta de forma autónoma ou pode ser


combinada com outra medida mais complexa. Nos casos em que é aplicada de
106 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

modo autónomo, visa satisfazer necessidades concretas do jovem que


impedem o seu desenvolvimento integral, podendo consistir na assistência e
participação do jovem num programa já existente na comunidade ou num
programa criado para o efeito pelos profissionais encarregados de executar a
medida. Alguns exemplos de tarefas sócio-educativas são a frequência de
oficinas ocupacionais, de aulas de educação compensatória, de cursos de
preparação para o emprego, de actividades estruturadas de animação
sociocultural ou de oficinas de aprendizagem de competências sociais.

Admoestação

Esta medida consiste na repreensão dada, pelo juiz, para que o jovem
compreenda a gravidade dos factos praticados e as consequências que
aqueles tiveram ou que poderiam ter tido, instando-o a não voltar a praticar tais
factos.

A admoestação apenas tem sentido quando o jovem admite ter realizado


a infracção penal. A sua eficácia está dependente da sensibilidade e do
profissionalismo do juiz e da receptividade do jovem à mensagem judicial.

Privação da autorização para conduzir ciclomotores ou veículos com


motor, ou do direito de obter tal autorização ou das licenças
administrativas para caça ou para uso de qualquer tipo de arma

Esta medida pode ser imposta como acessória quando o delito tiver sido
cometido com a utilização de um ciclomotor, de um veículo com motor ou com
uma arma.

É uma medida mais dissuasória do que educativa e não implica qualquer


acompanhamento, deve ser executada pelo próprio juiz sem intervenção da
Administração da Comunidade Autónoma competente, tal como a
admoestação.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 107

Em Espanha, tal como Nieves Mulas refere (2003: 375), desde há alguns
anos, nota-se que a incidência da “era do automóvel” na delinquência juvenil é
muito elevada, designadamente a condução de ciclomotores ou de veículos a
motor sob a influência de drogas e de bebidas alcoólicas e a utilização,
sobretudo de motos, para a prática de roubo por esticão.

Inabilitação absoluta

Esta medida foi introduzida pela Ley Orgánica 7/2000, de 22 de


Dezembro, dirigida aos delitos de terrorismo, e implica a privação definitiva de
todas as honras, empregos e cargos públicos, mesmo que electivos, assim
como a incapacidade para obter os mesmos ou quaisquer outros cargos,
empregos públicos ou honras e de ser eleito para um cargo público, durante o
tempo de duração da medida.

A lei precisa, ainda, no caso da prática dos crimes de terrorismo previstos


nos artigos 571.º a 580.º do Código Penal, sem prejuizo da aplicação de outras
medidas aplicáveis no âmbito da LORPM, a imposição, também, da medida de
inabilitação absoluta a menores de 18 anos, por um período entre quatro e
quinze anos para além da duração da medida de internamento em regime
fechado, atendendo à gravidade do delito, ao número de factos e às
circunstâncias concretas. Nestes casos, até ter sido cumprida metade da
medida, não poderá ter lugar qualquer revisão. Devido à gravidade dos crimes
praticados que desencadeiam a aplicação da Lei 7/2000, a preocupação do
legislador já não incide na defesa dos interesses do jovem, mas sim, na defesa
da sociedade. De acordo com Nieves Mulas (2003: 392), a alteração
introduzida na LORPM pela Ley Orgánica 7/2000 representou uma ruptura com
a coerência interna do sistema da LORPM, pois implicou a quebra dos seus
princípios inspiradores, orientados para a integração social dos jovens. A Ley
Orgánica 7/2000 constitui uma exasperação do rigor punitivo que deixou de
lado a evolução pessoal do jovem e que, portanto, se opõe ao princípio da
ressocialização.
108 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

1. 2. 4. A proposta e a escolha da medida

Para a proposta e escolha da medida ou medidas adequadas, o Ministério


Público, o advogado do jovem e o juiz devem atender, de modo flexível, à
prova e à valoração jurídica dos factos, à idade, às circunstâncias familiares e
sociais, à personalidade e ao interesse do jovem, socorrendo-se dos relatórios
elaborados pelas equipas técnicas e, se for o caso, de informações
provenientes de entidades públicas de protecção de crianças e jovens. O juiz,
ao fundamentar a sentença, terá que referir com detalhe a razão da aplicação
de determinada medida, assim como o seu prazo de duração.

Em todo o processo “está presente uma abordagem restauradora da


justiça, considerando-se que ela pode ser mais útil tanto para a vítima como
para o transgressor”. Assim, no caso de transgressões consideradas leves, “o
procedimento pode limitar-se a uma mediação entre vítimas e transgressores,
de modo a estabelecer-se uma compensação para o mal causado, quer
através da reparação à vítima, quer da realização de trabalhos comunitários”
(Fundação da Juventude, 2004: 45)51.

A LORPM esclarece que nos casos em que os factos tiverem sido


praticados com culpa leve ou com negligência apenas podem ser impostas as
medidas de admoestação, permanência de fim-de-semana até um máximo de
quatro, prestações de trabalho a favor da comunidade até 50 horas e privação
do direito de conduzir ou de outras licenças administrativas.

A medida de internamento em regime fechado apenas pode ser aplicada


quando, pela descrição e qualificação jurídica dos factos, se conclua que, na

51
Como refere o estudo “Violência Juvenil – Histórias e Percursos”, de 2004, realizado pela
Fundação da Juventude, a mediação e a reparação são expedientes que exigem especial
formação dos técnicos e que “podem ser muito eficazes na prevenção de futuras transgressões
no caso dos mais jovens”, pois “aumentam a percepção da justiça da vítima e envolvem uma
abordagem das suas preocupações que, provavelmente, têm sido um pouco descuradas na lei
criminal tradicional” (Fundação da Juventude, 2004: 46). Outro objectivo em vista consiste em
encorajar a comunidade, através do voluntariado, para participar na elaboração de medidas e
de programas, mesmo ao nível da detenção, pois acredita-se que em alguns casos seja uma
acção muito eficaz.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 109

sua prática, foi utilizada violência ou intimidação ou que se actuou com grave
risco para a vida ou para a integridade física das vítimas. Esta grande redução
das possibilidades de aplicação da medida de internamento em regime fechado
é coerente com os princípios plasmados na doutrina internacional sobre
privação da liberdade dos jovens, os quais consideram o internamento em
regime fechado como o último recurso e apenas durante o mais curto período
de tempo possível (cf. artigo 37.º, b), da Convenção sobre os Direitos da
Criança).

A duração das medidas não poderá ser superior a dois anos - nesse
período será sempre contabilizado e descontado o tempo já cumprido em
medida cautelar. A prestação trabalho a favor da comunidade não poderá
ultrapassar as 100 horas e a medida de permanência de fim-de-semana não
pode exceder oito fins-de-semana.

Quanto aos jovens que já tenham completado 16 anos, a lei determina


que a duração da medida poderá atingir o máximo de cinco anos, sempre que
o delito tenha sido praticado com violência, intimidação ou com grave risco
para a vida ou para a integridade física de outrem e desde que a equipa técnica
aconselhe o prolongamento da medida, como expressamente refere a LORPM.
Nestes casos, também as medidas de prestação de trabalho a favor da
comunidade poderão atingir as 200 horas e a permanência em fim-de-semana
poderá estender-se até 16 fins-de-semana.

Com a reforma introduzida pela Ley Orgánica 7/2000, de 22 de


Dezembro, referente a delitos relacionados com terrorismo, no caso de factos
que apresentem especial gravidade (homicídio, violação, agressão sexual
agravada, terrorismo ou qualquer outro punido com prisão igual ou superior a
15 anos), o juiz aplicará uma medida de internamento em regime fechado de
um a oito anos, complementada por outra medida de liberdade vigiada até um
máximo de outros cinco anos.

As acções ou omissões negligentes não podem ser sancionadas com


medidas de internamento em regime fechado.
110 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

As medidas terapêuticas apenas se podem aplicar aos jovens infractores


com anomalia ou alteração psíquica que os impeçam de compreender a
ilicitude do facto ou de actuar de modo conforme a essa compreensão, nos
casos de consumo de bebidas alcoólicas, substâncias psicotrópicas ou outras
que produzam efeitos análogos, se se encontrarem sob o efeito de síndroma
de abstinência de tais substâncias ou se sofrerem alterações da percepção
desde o nascimento ou desde a infância que alterem gravemente a sua
consciência da realidade.

1. 2. 5. Situações de concurso, de infracções continuadas e de


aplicação de várias medidas

Concurso de infracções

Ao jovem responsável por uma pluralidade de factos será imposta uma ou


várias medidas, de acordo com os critérios para aplicação das medidas.
Trata-se do designado concurso real de infracções.

Quando uma conduta for constitutiva de duas ou mais infracções, ou nos


casos em que uma conduta seja o meio necessário para a prática de outra,
será apenas tida em conta a conduta mais grave para efeitos de aplicação da
medida. Esta é a situação de concurso ideal, na qual será obrigatória a
aplicação de uma medida global.

Infracções continuadas e com pluralidade de vítimas

Nos casos de crimes continuados ou de uma só infracção ter sido


praticada com pluralidade de vítimas, a LORPM determina a aplicação de uma
só medida, tendo como referência o mais grave dos factos praticados, excepto
quando o interesse do jovem aconselhar a aplicação de uma medida menos
grave.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 111

Imposição de várias medidas

Nos casos em que a um jovem tenham sido impostas várias medidas no


âmbito do mesmo processo e as mesmas não puderem ser executadas em
simultâneo, mediante proposta do Ministério Público e do advogados do jovem,
ouvido o responsável da equipa técnica e a entidade pública de protecção, o
juiz poderá substituir todas ou alguma das medidas ou pode determinar a sua
execução sucessiva, sem que, neste caso, o prazo total de cumprimento possa
ser superior ao dobro do tempo de duração da medida mais grave aplicada.

1. 2. 6. A modificação da medida: anulação, redução, suspensão e


substituição

O juiz, oficiosamente, a pedido do Ministério Público ou do advogado do


jovem, com informação da equipa técnica e, se for o caso, da equipa de
protecção, em qualquer momento poderá determinar que fica sem efeito a
medida imposta, pode reduzir a sua duração ou pode substituí-la por outra,
desde que a modificação tenha em vista o interesse do jovem e que exprima a
reprovação face à sua conduta.

A modificação no interesse do jovem não poderá consistir nunca na


imposição de uma medida mais gravosa, nem na ampliação da duração da
medida.

O juiz poderá determinar a suspensão da execução, oficiosamente, a


pedido do Ministério Público ou do advogado, ouvidos o representante da
equipa técnica e da entidade pública de protecção, se a medida imposta não
for superior a dois anos. A suspensão ocorrerá durante um tempo determinado
mas até um máximo de dois anos.

A suspensão pode estar condicionada, designadamente, a um regime de


liberdade vigiada durante o prazo de suspensão ou à obrigação de realizar
determinada actividade sócio-educativa.
112 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

Durante a execução da medida, o juiz, ouvidas as partes, a equipa


técnica, o representante da entidade pública de protecção de crianças e jovens,
o Ministério Público e o advogado, poderá determinar que a execução fica sem
efeito ou poderá substituir as medidas por outras previstas na lei que se
considerem mais adequadas, por tempo igual ou inferior ao que reste para o
cumprimento da medida substituída.

A conciliação do jovem com a vítima poderá determinar que a medida


aplicada não seja executada, nos casos em que o juiz entenda que tal acto e
que o tempo de duração da medida já cumprido exprimem suficientemente a
censura que os factos cometidos merecem.

No caso de acto de terrorismo praticado por maior de 16 anos, de acordo


com uma disposição adicional introduzida pela Ley Orgánica 7/2000, para ser
possível a modificação, suspensão ou substituição da medida, é necessário ter
sido já cumprida metade da duração da medida de internamento imposta.

1. 2. 7. A execução das medidas

A LORPM regula a execução das medidas, em especial da medida de


internamento. Nos termos da LORPM, a execução das medidas realiza-se sob
o controlo do juiz de menores, ao qual compete adoptar todas as decisões que
sejam necessárias para proceder à execução efectiva das medidas impostas,
decidir as propostas de revisão das medidas, aprovar os programas de
execução, conhecer da evolução dos jovens durante o cumprimento das
medidas através de informações dos técnicos, decidir os recursos que se
interponham contra as resoluções tomadas sobre a execução das medidas,
tomar conhecimento e actuar na sequência de petições e de queixas
apresentadas pelos jovens que afectem os seus direitos fundamentais, realizar
regularmente visitas aos centros e efectuar entrevistas com os jovens, formular
à entidade pública propostas e recomendações que considere oportunas sobre
a organização e o regime de execução das medidas.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 113

A execução das medidas é da competência das Comunidades Autónomas


e das cidades de Ceuta e Melilla em que se situe o Tribunal de Menores que
tenha aplicado a medida. Tais entidades públicas terão de criar, dirigir,
organizar e gerir os serviços, instituições e programas adequados para garantir
a correcta execução das medidas.

As Comunidades Autónomas podem celebrar acordos de colaboração


com entidades privadas (pretende-se, assim, incorporar no processo de
reeducação e reinserção social do jovem certas iniciativas já existentes na
sociedade civil), tendo em vista a execução das medidas, sendo, contudo,
desejável, na opinião de Nieves Mulas (2003: 404), que as medidas privativas
de liberdade sejam executadas em estabelecimentos públicos geridos pela
Administração.

Regras para a execução das medidas

Uma vez fixada a sentença e aprovado o programa de execução da


medida imposta, o secretário do Tribunal procede à “contagem” da medida,
indicando as datas de início e de termo, descontando o tempo já cumprido em
medida cautelar. Nessa fase é também aberto um dossier de execução, no
qual serão registados os dados relativos ao jovem, decisões judiciais,
incidentes e demais documentação. A “contagem” será notificada à entidade
pública competente para o cumprimento da medida, ao Ministério Público e ao
advogado.

Após ser recebida a sentença e a “contagem” da medida pela entidade


pública competente, esta designará, de imediato, um profissional que se
responsabiliza pela execução da medida. Se se tratar de internamento, a
entidade pública designará o centro mais adequado para a execução da
medida, entre os mais próximos do domicílio do jovem e desde que existam
lugares disponíveis. O internamento em outro centro apenas se poderá
114 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

fundamentar no interesse do jovem em ser afastado do seu ambiente familiar e


social e requer sempre a aprovação do juiz de menores.

A execução das medidas privativas de liberdade

A execução das medidas privativas da liberdade - o internamento e as


medidas cautelares de internamento – tem de respeitar dois aspectos
essenciais: os centros de internamento têm de estar completamente separados
dos estabelecimentos penitenciários destinados a adultos e, de um ponto de
vista estrutural e funcional, têm que obedecer a um princípio ressocializador, ou
seja, os centros de internamento devem assemelhar-se mais a centros de
acolhimento do que a prisões para adultos e, antes de mais, devem ser centros
de terapia social, já que a maioria dos jovens internados apresenta déficits de
socialização, cujo sintoma mais visível é o fracasso escolar (Mulas, 2003: 411).
Os centros devem estar divididos em unidades adequadas à idade, à
maturidade e às necessidades dos jovens internados. As medidas de
internamento também podem ser executadas em “centros socio-sanitarios”, nos
casos em que a medida assim exige.

Nos termos da LORPM, todas as actividades nos centros em que se


executam medidas de internamento estão orientadas pelo princípio de
ressocialização e o jovem internado é sujeito de direitos e continua a fazer
parte da sociedade. Assim, a vida no centro deve ter como referência a vida em
liberdade, reduzindo ao máximo os efeitos negativos que o internamento pode
implicar para o jovem ou para a sua família, favorecendo os vínculos sociais, o
contacto com os familiares e a colaboração e a participação de entidades
públicas e privadas no processo de integração social, em especial, as
entidades mais próximas, geográfica e culturalmente.

De acordo com o legislador, o internamento deverá proporcionar o


máximo de liberdade durante a execução da medida. Segundo Cuello Calón
(apud Mulas, 2003: 411), o internamento não se deve limitar a reconhecer os
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 115

direitos plasmados na própria lei, pois estando em causa jovens em período de


formação deve ser dada especial importância ao sentido de responsabilidade, o
que inclui aspectos muito diversos, desde o cuidado e higiene com eles
próprios até à organização do grupo, passando pela disponibilização de
dinheiro de bolso, preparação de refeições, reuniões com o grupo e
organização de tempos livres. Deve, pois, ser objecto de atenção tudo aquilo
que é fundamental para aprender a conviver em sociedade.

As relações com o mundo exterior

Os contactos com o mundo exterior são essenciais para o tratamento do


jovem. A par da liberdade total para manter conversas telefónicas com o
exterior e para receber correspondência sem ser interceptada, os contactos
sociais devem ser estimulados activamente. Como refere Nieves Mulas (2003:
413), este é um novo paradigma terapêutico, nos termos do qual os problemas
resolvem-se em família, ou seja, está implícita a substituição do modelo
psicológico-individual por outro modelo psicológico-social e dinâmico. Como
referimos, a vida no centro deve ter como referência a vida em liberdade,
devendo ser reduzidos ao máximo os efeitos negativos do internamento e
incentivados os vínculos sociais e familiares.

Segurança e ordem

Nos centros há exigências de segurança e ordem, de modo a garantir


uma convivência ordenada, pacífica e integradora. Os jovens internados têm
direito ao respeito pela sua personalidade, pela sua liberdade ideológica e
religiosa e pelos direitos e interesses legítimos não afectados pelo conteúdo da
medida52. Os jovens estão também sujeitos a deveres elencados na LORPM.

52
Os direitos dos jovens internados são, entre outros, os seguintes: direito a que a entidade
pública da qual depende o centro zele pela vida do jovem, pela sua integridade física e saúde;
116 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

Regime disciplinar

Nos termos da LORPM, aos jovens internados pode ser aplicada uma
medida disciplinar, desde que seja respeitado o regulamento disciplinar e a
dignidade dos jovens, nunca podendo estes ser privados do direito à
alimentação, ensino obrigatório, comunicações e visitas.

O regime disciplinar admite a imposição de sanções disciplinares devido à


prática de infracções muito graves, graves e leves, atendendo à violência, à
intenção, ao resultado e ao número de ofendidos.

As sanções disciplinares que podem ser impostas devido à prática de


faltas muito graves são a separação do grupo por um período de três a sete
dias em casos de evidente agressividade, violência e alteração grave do
convívio; a separação do grupo durante três a cinco fins-de-semana; a privação
de saídas de fim-de-semana de quinze dias a um mês e a privação de saídas
de carácter recreativo por um período de um a dois meses.

As infracções graves podem dar lugar à imposição das sanções acima


elencadas mas com a duração de dois dias, de um ou dois fins-de-semana, de
um a quinze dias e de um mês, respectivamente.

As infracções leves podem implicar a privação de participar em todas ou


em algumas das actividades recreativas do centro, durante um período de um a
seis dias e, ainda, a admoestação.

direito a receber uma educação e formação integral em todos os âmbitos; direito a que se
preserve a sua dignidade e intimidade, a ser designado pelo seu próprio nome e que a sua
condição de internados seja estritamente reservada frente a terceiros; direito ao exercício dos
seus direitos civis, políticos, sociais, religiosos, económicos e culturais, salvo quando sejam
incompatíveis com o objecto da detenção ou com o cumprimento do internamento; direito a
estar no centro mais próximo do seu domicílio e a não ser transferido para fora da sua
Comunidade Autónoma, excepto nos casos e com os requisitos previstos na lei; direito a
assistência sanitária gratuita, a receber formação básica obrigatória que corresponda à sua
idade, qualquer que seja a sua situação no centro e a receber uma formação educativa ou
profissional adequada às suas circunstâncias; direito dos jovens internados terem na sua
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 117

1. 2. 8. A polícia face à delinquência juvenil

Em Espanha foram criadas unidades especializadas em matéria de


crianças e jovens, na Dirección General de la Polícia, através dos Grupos de
Menores - GRUME, tendo dois tipos de funções: função protectora, quando o
jovem é vítima, designadamente de maus tratos, abusos e agressões sexuais;
função “educadora”, quando o jovem é o infractor da lei penal.

Existe uma nova orientação para a actuação da polícia com jovens,


sobretudo com uma orientação educadora e imbuída do princípio da
intervenção mínima. Quanto aos jovens de 14 anos, ao não serem
considerados responsáveis pelas infracções penais que praticam, a
intervenção policial deve limitar-se à sua protecção, isto é, à entrega do jovem
às pessoas ou entidades competentes. Quanto aos jovens com idades entre os
14 os 18 anos, a LORPM determina o respeito pelos direitos fundamentais,
exigindo-se que o tratamento legal desses jovens não seja de carácter
repressivo, mas preventivo e orientado para a efectiva reinserção e para o
superior interesse dos jovens.

2. Brevíssima reflexão sobre a aplicação da LORPM – Ley Orgánica


Reguladora de la Responsabilidad Penal de los Menores

Apesar de não ser nosso objectivo efectuar uma avaliação da aplicação


do direito juvenil em Espanha, pareceu-nos útil registar neste estudo alguma
reflexão, que nos foi possível obter a partir da informação a que conseguimos
aceder, de natureza necessariamente fragmentária e exemplificativa.

companhia os seus filhos menores de três anos, nas condições e com os requisitos que se
estabeleçam.
118 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

2. 1. O regime do internamento fechado – uma medida sempre


controversa

Na perspectiva de Nieves Mulas (2003: 419), o elenco de medidas


previstas na LORPM parece bastante adequado ao fim ressocializador, com
uma excepção – a medida de internamento em regime fechado. A Autora
considera que haverá casos em que é necessária a existência do regime
fechado para afastar, durante algum tempo, o jovem do seu ambiente habitual.
Contudo, refere que é feita uma utilização mais punitiva do que terapêutica do
regime fechado. Nieves Mulas questiona se o internamento num Centro
Educativo será levado a cabo no interesse exclusivo do jovem. Defende que
não está em causa a ressocialização do jovem, tratando-se, na verdade, de
uma verdadeira pena, de uma medida de conteúdo idêntico ao da pena de
prisão, de uma sanção, dada a sua dimensão criminógena e estigmatizadora e
o afastamento familiar que provoca. O regime é, ainda, exacerbado quando
estão em causa factos de extrema gravidade, designadamente delitos
relacionados com terrorismo, homicídio doloso e agressões sexuais, casos nos
quais aos cinco anos de internamento - um dos quais é imperativo - se somam
outros cinco anos de liberdade vigiada com acompanhamento. Se é verdade
que os crimes para os quais se prevê internamento em regime fechado são os
que provocam mais alarme social, a Autora considera que tal alarme é um
limite excessivo ao fim ressocializador da lei. O internamento deve ter em conta
o tipo de crime, mas, também, a ponderação de que nenhuma outra medida
menos grave pode satisfazer as necessidades educativas do jovem. As
medidas tutelares de internamento constituem a ultima ratio da intervenção
tutelar educativa, pois no âmbito do direito juvenil, o direito à liberdade adquire
uma relevância especial que nunca deve ser esquecida.

As maiores críticas dirigidas à lei recaem no que Nieves Mulas considera


a impossibilidade de realizar o interesse do menor a partir de um modelo que,
na sua base, tem, de forma muito especial, o interesse da segurança dos
cidadãos ou de defesa social, dado que a natureza da lei é penal, apesar do
que designa de etiquetas equívocas que pretendem ocultar que se trata de
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 119

direito penal. A lei respeita os direitos fundamentais, o que reduz os efeitos


estigmatizantes decorrentes de toda a intervenção penal do Estado,
especialmente nocivos quando estão em causa crianças e jovens. Contudo,
apesar da lei ter transportado as garantias penais e processuais dos adultos
para o âmbito do direito juvenil, a Autora considera que sem uma adaptação
prévia às especiais circunstâncias e características da justiça de crianças e
jovens está a ser violado o princípio da igualdade, já que é discriminatório
dispensar tratamentos iguais a situações distintas. Para Nieves Mulas (2003:
425), chegou o momento para que a justiça juvenil, num Estado de direito
social e democrático, ponha fim ao internamento em regime fechado.

2. 2. A insuficiência de orçamento para aplicação da lei: uma luta


entre o Estado central e as regiões autónomas

O sistema de justiça juvenil vigente em Espanha “criou uma grande


controvérsia entre o governo central e os governos das RA [regiões
autónomas] em relação aos gastos da justiça juvenil. Uma vez que a
implementação das medidas impostas aos jovens transgressores é da
competência das RA, são estas que devem suportar os custos. Contudo, os
ministros regionais afirmam que apesar de o governo central já não ter custos
com os jovens de idades compreendidas entre os 16 e 18 anos, este se recusa
a transferir essa verba para os cofres regionais. Assim, dois anos após a sua
entrada em vigor, a lei [LORPM] continua sem ratificação via decreto nacional –
já elaborado pelo governo central, mas ainda não aprovado. Esta ratificação
permitiria promover a garantia legal das questões quotidianas da justiça juvenil.
A legislação exige um número considerável de funcionários, recursos públicos
e instalações e é difícil alcançar um nível de qualidade adequado às
necessidades dos jovens transgressores. A lentidão dos procedimentos legais
pode prejudicar tanto os jovens como o sentido geral da justiça e os
programas, instalações e recursos podem ser considerados insuficientes,
especialmente em RA mais pequenas. Isto torna-se ainda mais sério se se
120 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

considerar a falta de uma estratégia nacional para a justiça juvenil ou de


programas e instalações a nível nacional. Para algumas RA torna-se realmente
difícil suportar programas regionais para lidar com jovens transgressores
persistentes ou com transgressores violentos ou sexuais”(Fundação da
Juventude: 2004, 48).

2. 3. As medidas aplicadas pelos tribunais ao abrigo da LORPM

Em 2001, a justiça juvenil espanhola aplicou 8 243 medidas de


“responsabilização penal de menores” entre os 14 e os 18 anos (com
possibilidade de abrangerem ainda jovens até aos 21 anos, conforme já
referido anteriormente neste capítulo) – cf. Quadro III.1.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 121

Quadro III.1

Medidas aplicadas ao abrigo da LORPM em 2001 - Espanha

Tipo de medida Número %

Liberdade vigiada 3 653 44,3%

Internamento∗ 2 119 25,7%

Prestações de trabalho a favor da comunidade 1 710 20,7%

Tratamento ambulatório 226 2,7%

Detenção de fim-de-semana 222 2,7%

Tarefas sócio-educativas 152 1,8%

Admoestação 128 1,6%

Assistência em centro de dia 23 0,3%

Convivência c/ família, grupo educativo 7 0,1%

Privação da carta de condução 3 0,1%

Total 8 243 100%


∗Os dados relativos ao internamento apresentam-se de forma conjunta, englobando os
vários regimes (fechado, semiaberto e aberto e o internamento terapêutico).

FONTE: MINISTÉRIO DO INTERIOR, ESPANHA, APUD “VIOLÊNCIA JUVENIL – HISTÓRIAS E


PERCURSOS, FUNDAÇÃO DA JUVENTUDE, 2004:77.

Ora, como veremos no Capítulo IV, no mesmo ano de 2001, a jurisdição


de família e menores, em Portugal, aplicou a jovens entre os 12 e os 16 anos
(com possibilidade de serem abrangidos jovens até aos 18 anos), 1 479
medidas tutelares educativas (Quadro III. 2).
122 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

Quadro III.2

Medidas tutelares educativas aplicadas em 2001 – Portugal

2001
Medidas tutelares educativos Nº %
Admoestação 814 55,0

Acompanhamento educativo 368 24,9

em regime semiaberto 34 2,3

em regime fechado 27 1,8

em regime aberto 26 1,8

Internamento
em centro
educativo
em regime semiaberto em fim de
27 1,8
semana

Total 114 7,7


Frequência de programas formativos 43 2,9

Imposição de regras de conduta 35 2,4


Imposição de obrigações 16 1,1
Realização de prestações económicas ou de
15 1,0
tarefas a favor da comunidade
Reparação ao ofendido 22 1,5
Medidas da OTM 50 3,4
Privação do direito de conduzir 2 0,1
Total 1479 100,0

FONTE: GABINETE DE POLÍTICA LEGISLATIVA E PLANEAMENTO

Como se pode ver pelo Quadro III. 1, destaca-se, em Espanha, a medida


de liberdade vigiada, que representa 44,3% do total de medidas aplicadas,
seguida da medida de internamento, com 25,7% e de prestações de trabalho a
favor da comunidade, que, em 2001, correspondeu a 20,7% das medidas
aplicadas. De notar que algumas medidas foram muito pouco aplicadas, a
saber, a convivência com outra família ou grupo educativo, a privação da carta
de condução e a assistência em centro de dia.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 123

Ora, dos dados constantes nos Quadros III. 1 e III. 2, podemos concluir
que a justiça juvenil em Espanha é mais repressiva, recorrendo muito mais ao
internamento do que em Portugal (25,7% das medidas de internamento em
Espanha para 7,7% das medidas em Portugal). Acresce que, em Portugal
aposta-se muito na aplicação da admoestação, enquanto em Espanha a sua
aplicação tem um valor insignificante (ou seja, 55% das medidas em Portugal
para 1,6% em Espanha).

Por último, refira-se que em Espanha as medidas não institucionais


aplicadas são essencialmente a liberdade vigiada (44,3%) e a prestação de
trabalho a favor da comunidade (20,7%); enquanto em Portugal predomina o
acompanhamento educativo (24,9%). A prestação económica ou tarefas a favor
da comunidade representam apenas 1%.

É certo que os jovens destinatários espanhóis são mais velhos que os


portugueses, mas parece-nos que será uma hipótese explicativa admitir que
estes dois diferentes padrões de aplicação de medidas tutelares em Espanha e
em Portugal assentam nas diferentes culturas jurídica e profissional de exercer
a jurisdição de crianças e jovens.

As medidas aplicadas em Espanha merecem, ainda, a seguinte reflexão


crítica a Nieves Mulas (2003: 369 e ss.). Segundo a Autora, a eficácia da
medida de internamento terapêutico carece de comprovação, não dando lugar
a grandes optimismos nesta matéria, dado que praticamente não existem
centros específicos para execução de internamentos terapêuticos nas
Comunidades Autónomas, o que implica o recurso aos serviços sociais e
sanitários gerais.

Já quanto à detenção durante o fim-de-semana, esta medida combina


elementos da detenção de fim-de-semana e da medida de tarefas
sócio-educativas ou de prestação de trabalho a favor da comunidade. Como
refere Nieves Mulas (2003: 371), é considerada uma solução muito adequada
para jovens que cometem actos de vandalismo ou agressões leves nos
fins-de-semana. O legislador terá tido presente, ao criar esta medida, os actos
124 Capítulo III - A reforma da justiça juvenil em Espanha

violentos dos jovens em competições desportivas e em outros espectáculos


que ocorrem, sobretudo, durante os fins-de-semana.

No que se refere à liberdade vigiada, na perspectiva de Nieves Mulas


(2003: 372), na prática, a execução desta medida colide com a falta dos
denominados delegados de liberdade vigiada e com a ausência, em alguns
casos, de uma adequada formação profissional daqueles. A sua tarefa, na
maioria dos casos, limita-se a uma mera fiscalização da conduta dos jovens e a
tarefas meramente burocráticas.

Por último, a aplicação da medida de convivência com outra pessoa,


família ou grupo educativo foi pouco utilizada em Espanha, na opinião de
Nieves Mulas (2003: 373), em grande parte devido à atitude da Administração,
que não seleccionou com diligência e seriedade as pessoas ou famílias que se
deviam ocupar dos jovens. A Autora entende, ainda, que, para esta medida ser
imposta, a lei devia exigir o consentimento do jovem para o efeito.

Nos sistemas anglo-saxónicos, esta é uma medida muito utilizada há já


bastante tempo, havendo seguimento e controlo social da sua execução e uma
certa profissionalização das famílias ou pessoas que acolhem crianças e
jovens e que são retribuídas pela sua colaboração. O êxito da medida passará,
sem dúvida, pela selecção adequada da família com a qual o jovem irá
conviver, que, de acordo com a exigência legislativa, não se deve limitar a
voluntarismo, havendo o necessário controlo e seguimento do próprio jovem e
da sua família de origem.

Já no que se refere à medida de trabalho a favor da comunidade, esta


medida tem assumido protagonismo de forma progressiva na justiça de
crianças e jovens, por acção de diversos programas que têm vindo a ser
desenvolvidos nas Comunidades Autónomas.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 125

2. 4. A mediação no âmbito da justiça juvenil

Na legislação de crianças e jovens, a mediação entre autor-vítima


tornou-se um instrumento habitual em muitos países que, de forma
progressiva, adaptaram as leis às mudanças sociais. Neste processo de
reorientação da política criminal relativamente às crianças e jovens, as Nações
Unidas e o Conselho da Europa desempenharam um papel impulsionador.

Em Espanha, o programa de mediação e reparação, no âmbito da justiça


juvenil, teve início em Maio de 1990, na Catalunha, tendo em conta as
Recomendações do Conselho da Europa de 1987. Tratava-se de um programa
de mediação vítima-autor para jovens infractores, supervisionado pela
Generalitat de Catalunya. O período experimental decorreu de 1990 a 1997.

A Ley Orgánica 4/92, de 5 de Junho, veio proporcionar uma base legal


sólida para o programa de mediação e reparação. O programa tem como
pressuposto a responsabilização dos jovens, tentando estabelecer um espaço
de participação e interacção entre autor-vítima, com vista à resolução do
conflito, sendo orientado por um mediador.

A Ley Orgánica 5/2000, de 12/01, reguladora da responsabilidade penal


das crianças e jovens, apresenta importantes novidades face ao processo
penal comum, designadamente possibilitando a mediação, evitando uma
excessiva acção acusadora da vítima, inserindo-se no modelo penal-educativo
e de orientação ressocializadora para o jovem delinquente. Tal lei oferece ao
jovem e à vítima a oportunidade de participação voluntária num processo de
mediação, centrado na reparação e na reconciliação. Pode recorrer-se à
mediação no decurso do processo, em qualquer momento antes do julgamento
e durante a execução da medida imposta. Porém, apesar da abertura da lei, o
processo de mediação tem-se desenvolvido, em regra, em simultâneo com o
processo judicial. Uma comissão do Departamento de Justiça da Catalunha
está a tentar a implementação do programa de mediação, como complementar
do processo judicial.
Capítulo IV

O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Introdução

O objectivo central deste projecto de investigação é, como já referimos, a


avaliação da aplicação do novo Direito Tutelar Educativo. Como veremos nos
capítulos seguintes, levantam-se, no âmbito desta problemática, várias
questões, algumas, embora não a sua maioria, relacionadas ou com o direito
legislado ou com a sua interpretação. É, por isso, importante lançarmos um
olhar, ainda que breve, sobre as principais características do regime jurídico da
Lei Tutelar Educativa, quer no que respeita às normas de natureza mais
substantiva, como o âmbito de aplicação da lei e o tipo de medidas, quer de
natureza processual.

Para uma melhor compreensão do novo direito tutelar educativo pareceu-


nos importante traçar, de forma muito breve, a evolução da justiça de menores
em Portugal no último século, registando as principais linhas de ruptura e de
continuidade. É com este ponto que se inicia o presente capítulo.

1. Da Lei de Protecção à Infância à Organização Tutelar de Menores

Apesar de já nas Ordenações se preverem, ainda que de forma imperfeita


e rudimentar, normas de protecção de crianças e jovens em relação ao direito
penal53 ou um direito penal de crianças e jovens, a efectiva protecção judiciária
daqueles surgiu com maior relevo e expressão com a Lei de Protecção à
Infância (LPI), aprovada pelo Decreto-Lei de 27 de Maio de 191154.

53
A título exemplificativo, veja-se o livro 3.º, título 88 das Ordenações Manoelinas, segundo o
qual “quando o dito delinqüente fôsse menor de dezassete anos compridos, em tal caso, posto
que o delito mereça morte natural, nom lhe será dada em nenhüu caso, mas ficará em seu
arbítrio dar-lhe outra menor pena”.
54
Note-se, no entanto, que é com o surgimento dos primeiros Códigos Penais (1837, 1852 e
1886) que aparece a referência à prevenção e correcção educativa dos jovens delinquentes.
128 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Este diploma foi a expressão em Portugal de um movimento que se vinha


fazendo sentir tanto na Europa como na América, “no sentido de pôr de lado a
distinção entre menores com ou sem discernimento, de rejeitar o regime
repressivo, e de o substituir por um sistema educativo em que se estudasse
profundamente o menor e se tomasse a medida que o seu caso exigisse, sem
preocupações de responsabilidade ou irresponsabilidade” (Santos, 1923-1925:
183). Entendia-se que tais exigências impunham a criação de jurisdições
especializadas. Assim, o Decreto-Lei de 27 de Maio de 1911 introduziu no
sistema judiciário português os primeiros tribunais de menores, designados
tutorias de Infância, e um direito substantivo e adjectivo para menores de 16
anos.

Inicialmente, este regime vigorou apenas em Lisboa e, com a aprovação


da Lei de 24 de Abril de 1912, também no Porto.

Em 1925, o Decreto n.º 10767, de 15 de Maio, estendeu a aplicação do


anterior diploma a todo o país, passando os tribunais de menores a funcionar
em todas as comarcas aplicando-se, desta forma, um regime tutelar e
educativo.

As tutorias de infância estavam divididas em centrais e comarcãs,


situando-se em termos geográficos, respectivamente, em Lisboa e no Porto e
nas restantes comarcas55. A sua finalidade consistia “não só na prevenção dos
males sociais que conduziam as crianças, menores de 16 anos, à perversão e
ao crime, como também remediar os efeitos desses males”, e, por outro lado,
destinavam-se a “guardar, proteger e defender os menores em perigo moral,
desamparados e delinquentes, encarados como seres carecidos de protecção”
(Furtado e Guerra, 2000: 28).

Como refere Beleza dos Santos, “obedecendo a esta nova corrente, as leis começam com
maior ou menor decisão e amplitude a desviar a aplicação da escala penal ordinária aos
menores responsáveis e a substituí-la por medidas educativas. Por outro lado, não se
desinteressam inteiramente dos menores que absolvem por falta de imputabilidade ou de
discernimento; procuram – embora com medidas deficientes, rígidas e acanhadas – remediar a
sua miséria moral, o seu abandono, a sua educação viciosa” (Santos, 1923-1925: 150-151).
55
Com o Estatuto Judiciário de 1944, as tutorias de infância passaram a designar-se tribunais
de menores.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 129

Beleza dos Santos (1923-1925: 192) aponta na Lei de Protecção à


Infância três princípios fundamentais que caracterizam e orientam o seu
regime. Em primeiro lugar, tratar-se-ia de “um direito largamente preventivo,
exercendo-se a acção jurisdicional dos tribunais antes que o menor seja
delinqüente, bastando que haja um perigo sério de que se lance ou seja
lançado no caminho do crime”. Em segundo lugar, estaríamos perante um
direito “protector, tutelar, educativo, procurando defender o próprio menor,
transformá-lo, melhorá-lo, corrigi-lo”. Por último, seria um direito
“essencialmente subjectivo, procurando adoptar medidas determinadas pela
necessidade de defender, curar e educar o menor, e por isso, adaptáveis o
mais possível à sua individualidade, livremente escolhidas pelo Tribunal,
modificáveis durante a sua execução. Numa palavra, flexíveis, individualizadas
e modificáveis”.

Segundo um estudo levado a cabo por Eliana Gersão, em 198456, que


teve por finalidade fazer uma avaliação crítica do sistema de crianças e jovens
vigente naquela data, a LPI tinha um carácter bastante inovador no contexto da
tradição jurídica portuguesa e europeia. Com efeito, distinguia os menores em
perigo moral57 dos agentes de crimes, previa algumas garantias processuais,
os factos praticados por crianças e jovens assumiam relevo para a escolha da
medida das penas e a aplicação de medidas apresentava-se com uma
finalidade maioritariamente educativa, fixando a lei, relativamente a algumas
delas, limites de duração ou a possibilidade de serem substituídas.

Em 1962, a necessidade de reunir num só texto legal as normas


respeitantes às crianças com comportamentos delinquentes ou com outro tipo
de problemas ligados à infância levou à aprovação da Organização Tutelar de
Menores (OTM), através dos Decretos-Leis n.º s 44 287 e 44 288, de 20 de
Abril, de acordo com os quais a intervenção do Estado em relação aos jovens

56
Este estudo intitula-se “Menores agentes de infracções criminais – que intervenção?
Apreciação crítica do sistema português”.
57
A referência à categoria de menores em perigo moral manteve-se com a entrada em vigor,
em 1962, da Organização Tutelar de Menores, tendo, no entanto, sido afastada em 1967, pelo
Decreto-Lei n.º 47 727. O Decreto-Lei n.º 314/78, de 27 de Outubro, que operou uma revisão
da OTM, reintroduziu aquela categoria.
130 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

passa a orientar-se por um modelo de welfare, ou seja, por um modelo de


“protecção” maximalista (Rodrigues e Duarte-Fonseca, 2000: 5). Contudo, a
aprovação da OTM não determinou uma alteração substancial do modelo
adoptado. Segundo Leonor Furtado e Paulo Guerra, “os princípios
informadores da Lei de 27 de Maio de 1911 mantiveram-se e foram reforçados
nesta profunda reforma do sistema de justiça tutelar resultante da publicação
dos diplomas de 1962 atrás citados. Com efeito, estes diplomas
consubstanciam uma compilação de legislação relativa à justiça de menores e
uma sistematização de um regime jurídico especialmente previsto para
menores” (2000: 29).

O regime instituído por aqueles diplomas sofreu uma reforma em 1978,


operada pelo Decreto-Lei n.º 314/78, de 27 de Outubro. Segundo o preâmbulo
deste último Decreto-Lei, “a revisão da Organização Tutelar de Menores
impunha-se pela necessidade de a ajustar às novas disposições” da Lei n.º
82/77, de 6 de Dezembro, que “introduziu profundas alterações à organização
dos tribunais judiciais. Entre elas, as que se referem à competência dos
tribunais de família e dos tribunais de menores”. No entanto, aproveitou-se “a
oportunidade para proceder a alterações mais profundas”, designadamente no
que diz respeito aos estabelecimentos tutelares e aos centros de observação e
acção social, assim como “no âmbito da assessoria técnica, intentou-se dar-lhe
a operacionalidade que nunca teve”, no respeitante às medidas tutelares,
saliente-se a instituição de “uma medida – a da alínea c) do artigo 18.º
[imposição de determinadas condutas ou deveres] que, apelando para a
capacidade imaginativa do juiz, acentua o carácter protector e educativo que se
pretende imprimir à jurisdição tutelar”.

O modelo assumido pela entrada em vigor da OTM, em 1962, continuou a


vigorar mesmo após a reforma de 1978, até à entrada em vigor das Leis
Tutelar Educativa e de Protecção das Crianças e Jovens em Perigo, em 2001.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 131

Na verdade, a lei de 1962 manteve-se no essencial, ao arrepio das questões


entretanto levantadas relativamente àquele modelo de protecção58.

O modelo de protecção português, assente judicialmente em tribunais de


menores de competência especializada59, tinha como objectivo a protecção
judiciária no domínio da prevenção criminal, através da aplicação aos jovens
com dificuldades de adaptação a uma vida social dita normal ou que
revelassem tendências para a mendicidade, vadiagem, prostituição ou
delinquência, de medidas cujo fim essencial assentava na protecção e
reeducação do jovem e não na sua punição ou reprovação social (Furtado e
Guerra, 2000: 29), não distinguindo na aplicação destas medidas as crianças e
jovens em perigo dos agentes de crimes (artigo 1.º da OTM).

Os factos praticados não eram valorados por si, o que fazia com que as
medidas aplicadas às crianças e jovens agentes de crimes fossem, por um
lado, determinadas exclusivamente pela personalidade e circunstâncias de vida
e, por outro, indeterminadas quanto à duração e à possibilidade da sua
substituição. As situações previstas na lei só tinham valor enquanto sintoma de
inadaptação ou da existência de tendências criminosas, e todo o processo se
caracterizava pela insuficiência de garantias processuais que assistiam ao
jovem. Com efeito, raramente o jovem ou os seus pais e/ou representantes
eram ouvidos; o jovem não tinha a possibilidade de requerer diligências de
prova ou de indicar testemunhas, violando-se assim o princípio do contraditório;
e não lhe era reconhecido o direito de constituir advogado60.

58
Segundo Anabela Rodrigues (1997: 6), “a consagração da finalidade de ‘protecção’ a orientar
a intervenção judicial dos menores nos termos maximalistas em que o faz o nosso direito não é
a solução em geral seguida na Europa”.
59
Estes tribunais também tinham competência em matéria cível, designadamente quanto ao
exercício e regulação do poder paternal.
60
Note-se, todavia, que o Tribunal Constitucional, através do Acórdão n.º 870/96 (publicado no
Diário da República, I série – A, de 3 de Setembro de 1996), declarou inconstitucional esta
norma do artigo 41.º da OTM com força obrigatória geral, por violar os artigos 20.º, n.º 2, e 18.º,
n.ºs 2 e 3 da Constituição da República Portuguesa, na parte em que não admite a intervenção
de mandatário judicial fora da fase de recurso. A questão da inconstitucionalidade do artigo 41º.
da OTM já havia sido levantada através dos Acórdãos n.ºs 488/95, de 27 de Setembro, 556/95,
de 17 de Outubro, de 611/95, de 8 de Novembro.
132 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Em suma, o processo tutelar de menores era um processo informal que


esquecia os direitos fundamentais do jovem de natureza constitucional e que
não garantia os meios de defesa adequados (Rodrigues, 1997: 6).

Os aspectos positivos deste modelo resumiam-se, à “impossibilidade


absoluta de se aplicarem penas, designadamente a pena de prisão, ou
medidas de coacção próprias do processo penal, como a prisão preventiva, a
menores de 16 anos, à menor estigmatização pela opinião pública dos
menores delinquentes e à melhoria das condições de funcionamento dos
estabelecimentos tutelares, nomeadamente pelo que diz respeito à sua
abertura ao exterior, em virtude de albergarem ao mesmo tempo «menores em
risco»” (Rodrigues, 1997: 7).

Por outro lado, à reforma de 1962 é apontada uma importante alteração


ao atribuir ao Ministério Público a função de representante das crianças e
jovens, competindo-lhe, nessa missão, velar pelos seus interesses (Furtado e
Guerra, 2000: 29-30).

Tal como já foi referido supra, as características de um modelo de


protecção, presente de forma mitigada em sistemas de outros países61, nos
quais não se distinguiam os regimes previstos para jovens em perigo e para os
que praticassem crimes, começaram a ser alvo de duras críticas,
especialmente no que toca às questões da legitimidade de intervenção do
Estado na protecção e educação das crianças e jovens e do tratamento unitário
dos casos de jovens em perigo, de maltratados, de inadaptados, de meninos
de rua, de toxicodependentes, de rebeldes, de infractores ou de delinquentes.

Este tratamento unitário de situações encontrava a sua justificação no


princípio da inimputabilidade das crianças e jovens, que equiparava para

61
Em Espanha desde 1948, na Bélgica, a partir de 1965, e no Luxemburgo, desde 1971.
Entretanto, no contexto de um movimento de evolução e alteração de algumas legislações em
matéria de juventude e delinquência, alguns destes países alteraram as suas legislações: a
Bélgica, através das Leis de 24 de Dezembro de 1992, de 2 de Fevereiro de 1994 e de 30 de
Junho de 1994, que vieram alterar a anterior Lei de Protecção da Juventude; a Espanha, com a
Lei Orgânica 4/1992, de 5 de Junho, sobre a competência dos julgados dos menores. Também,
no Canadá, a Loi sur les jeunes contrevenents/Young Offenders Act, de 1986; e no Brasil, a Lei
n.º 8 069, de 13 de Julho de 1990, que aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 133

efeitos de protecção face a uma sociedade imperfeita, os delinquentes aos


jovens vítimas de crimes ou de exclusão.

Com o surgimento de novas formas de delinquência e de rebeldia juvenil,


sobretudo a partir da década de sessenta, o tratamento unitário dos jovens em
perigo e dos jovens delinquentes, que caracterizava o ideário proteccionista,
começou a ser alvo de fortes críticas, questionando-se a legitimidade da
intervenção estadual.

Neste quadro, o Ministério da Justiça do I Governo Provisório nomeou


uma Comissão Interdisciplinar com o intuito de proceder à reforma do sistema
de justiça juvenil. Do conjunto de propostas apresentadas pela Comissão é de
destacar aquela que apontava no sentido de articular os tribunais de menores
com comissões administrativas de protecção de crianças e jovens, nos casos
de jovens inadaptados62, cuja intervenção social seria prioritária face à
judiciária.

No entanto, como já se referiu, a revisão de 1978 veio unicamente


reforçar o sistema de protecção existente, com a novidade de introduzir, como
alternativa à protecção judiciária, uma protecção de natureza social destinada a
crianças de idade inferior a 12 anos63, que viria a ficar a cargo de comissões de
protecção. Nos termos do preâmbulo do diploma que veio regulamentar as
comissões de protecção (Decreto-Lei n.º 189/91, de 17 de Maio), pretendia-se
que estes organismos constituíssem “uma intervenção interdisciplinar e
interinstitucional, articulada e flexível, de base local, que traduzisse a sentida
exigência de responsabilização de cada comunidade local pelas suas crianças
e jovens”. Nos termos da OTM, em casos de jovens vítimas de maus tratos ou
em perigo até à idade de 18 anos e naqueles outros, que pudessem
desencadear a intervenção do Tribunal, de crianças de idade inferior a 12 anos

62
Nesta categoria incluíam-se os jovens agentes de crimes, desde que os pais consentissem
na intervenção, e os jovens com idade inferior a 14 anos.
63
Segundo o disposto no artigo 14.º da OTM, “a competência dos tribunais de menores é
extensiva a menores com idade inferior a 12 anos quando: a) os pais ou o representante legal
não aceitem a intervenção tutelar ou reeducativa de instituições oficiais ou oficializadas não
judiciárias; b) as instituições referidas na alínea anterior admitam que o menor agiu com
discernimento na prática de facto qualificado pela lei penal como crime”.
134 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

que cometessem crimes ou que se encontrassem em situação de


marginalidade ou de inadaptação a uma vida social normal, àquelas comissões
era-lhes reconhecida a competência para aplicarem medidas tutelares, excepto
as de internamento em estabelecimentos da justiça. Esta intervenção estava
condicionada ao consentimento dos detentores do poder paternal, em
consonância com o imperativo constitucional que reconhece aos pais o direito e
o dever de educação dos filhos64, só admitindo que estes sejam afastados
daqueles quando não cumpram os seus deveres fundamentais para com eles e
sempre mediante via judicial.

De acordo com os ditames da OTM, o Estado “é o grande tutor que


substitui os pais, a família e os educadores e que pretende dominar
prescientemente a causa das coisas” (Rodrigues e Duarte-Fonseca, 2000: 7). A
intervenção do Estado, cuja herança histórica foi inspirada pelas ideias
positivistas do início do século XX, que propugnavam a sua intervenção
protectora em determinadas matérias do direito, encontrava a sua legitimação,
no contexto de um modelo de protecção, na prossecução do interesse do
jovem, tarefa que lhe é incumbida por força da lei constitucional (artigos 60.º e
70.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa) e de várias normas
constantes de diversos instrumentos de direito internacional público, relativas à
protecção das crianças e dos jovens, ratificados pelo Estado português.

Anabela Rodrigues critica veementemente este modelo protectivo ou de


Welfare, por assentar numa “visão paternalista do estado, como entidade
esclarecida que tudo pode impor em nome do verdadeiro bem dos cidadãos”,
considerando que esta visão “sucumbiu irremediavelmente perante a
instauração do Estado de direito material e a organização constitucional da
democracia participativa, com os inerentes direitos e garantias, não podendo
subsistir pelo simples facto de a concreta actividade estadual se dirigir a
cidadãos menores” (1997: 358).

64
Cf. artigos 36.º n.ºs 5 e 6 da CRP.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 135

A partir da década de oitenta, foram surgindo algumas críticas que


conduziram ao insucesso do modelo de protecção tal qual se apresentava no
sistema jurídico português. Segundo Anabela Rodrigues e Duarte-Fonseca
(2003: 9), “ele caducou quanto aos seus objectivos e finalidade, por estar em
oposição aos valores democráticos e por não se adequar a princípios de
diferenciação moral, social e educacional. Mostrou a vulnerabilidade de certos
grupos sociais, mais expostos à selecção das instâncias formais de controlo,
levando à perversão da filosofia que inspira o modelo [65]. O alastramento da
‘rede’ de protecção está indissociavelmente ligado a uma abordagem
preventiva da criminalidade (…) com a consequência algo absurda de se
encaminharem para a «justiça» menores que não deviam ter qualquer contacto
com ela (os menores em perigo). Quando o sentido do caminho deve ser o
inverso: menores delinquentes obterem resposta ao nível protectivo, por si só
ou em acumulação com a resposta ao nível da «justiça»”.

No entanto, como referem Vera Jardim e Ferro Rodrigues (1999: 4),


“inexplicavelmente, a reforma do direito de menores passou à margem das
reformas levadas a efeito no nosso país após o 25 de Abril”, acrescentando
que, por essa razão, naquela altura constituía “uma reforma urgente,
absolutamente necessária e justificada, quer do ponto de vista constitucional,
quer do ponto de vista institucional e de aplicação da lei, que o Governo
inscreveu, desde a primeira hora, nas suas prioridades fundamentais”. No
mesmo sentido, Lopes da Mota (1999: 11) afirma que a OTM “representa um
modelo inspirado pelo ideário da época, que passou ao lado das profundas
reformas levadas a efeito após o 25 de Abril, desfasado da Constituição e das
normas de direito internacional em vigor no nosso país (…) e incapaz de dar
resposta aos problemas actuais, no quadro de um Estado de direito social e
democrático, quer no que respeita a menores que praticam factos qualificados
por lei como crime”.

65
Segundo Anabela Rodrigues (1997: 367), a OTM depara-se com uma perversão do modelo,
por força da selecção feita dos jovens carecidos de intervenção protectiva: “não os que
cometem factos tipificados pela lei penal como crime, o que pouco interessa para legitimar
essa intervenção; mas os marginais, os carecidos de apoio familiar, os mais desfavorecidos do
ponto de vista sócio-económico”.
136 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

2. O impacto da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das


Crianças na Organização Tutelar de Menores

Como já deixámos dito no Capítulo II, a Convenção das Nações Unidas


sobre os Direitos da Criança, adoptada pela Assembleia Geral das Nações
Unidas a 20 de Novembro de 1989, aberta à assinatura e ratificação em Nova
Iorque a 26 de Janeiro de 1990, resultou da intervenção Grupo de Trabalho de
Composição Ilimitada sobre a Questão de uma Convenção sobre os Direitos da
Criança, criada em 1979, pela Comissão dos Direitos do Homem, e que
elaborou a redacção final da Convenção, tendo por base a proposta de
Convenção apresentada pela Polónia, em 1978.

A adopção desta Convenção, apesar da existência de outros instrumentos


internacionais na área dos direitos da criança, assumiu grande relevo,
porquanto “a Convenção sobre os Direitos da Criança consiste no primeiro
instrumento de direito internacional a conceder força jurídica internacional aos
direitos da criança. A diferença fundamental entre este texto e a Declaração
dos Direitos da Criança, adoptada 30 anos antes, consiste no facto de a
Convenção tornar os Estados que nela são Partes juridicamente responsáveis
pela realização dos direitos da criança e por todas as acções que tomem em
relação às crianças, enquanto que a Declaração de 1959 impunha meras
obrigações de carácter moral” (Albuquerque, 2000: 33).

Portugal foi um dos países que participou activamente no processo de


elaboração e aprovação da Convenção, tendo sido um dos primeiros Estados a
ratificar este instrumento que vigora, entre nós, desde 199066. A participação de
Portugal no processo de elaboração da Convenção permitiu aos vários actores
envolvidos com os direitos das crianças consciencializarem-se da necessidade
da adequação da legislação nacional sobre crianças e jovens aos princípios
plasmados na Convenção.

66
A Convenção sobre os Direitos da Criança foi ratificada por Portugal, através do Decreto do
Presidente da República n.º 49/90, de 12 de Setembro.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 137

Uma das consequências para os Estados-parte da ratificação da


Convenção das Nações Unidas, consiste na obrigação de apresentar ao
Comité dos Direitos da Criança67 relatórios periódicos contendo informação
sobre a forma como a Convenção é aplicada: um relatório inicial, dois anos
após a entrada em vigor da Convenção no país, e os seguintes de cinco em
cinco anos, informando sobre o modo como a Convenção tem sido aplicada
(artigo 42.º da Convenção).

O primeiro relatório foi apresentado ao Comité dos Direitos da Criança,


em 1994, por uma Comissão constituída no âmbito do Ministério da Justiça,
composta por Eliana Gersão, Manuela Baptista Lopes, Miguel Andrade e Rosa
Clemente68. Nesse relatório eram referidas as insuficiências e anacronismos da
legislação em vigor e os aspectos negativos resultantes da sua aplicação, e
também a intenção do novo executivo, que acabara de tomar posse, de
proceder à revisão da legislação em vigor.

A primeira avaliação do Comité ao sistema de administração da Justiça


de Menores português, simbolizado pela Organização Tutelar de Menores de
197869 (OTM), relatou algumas preocupações e insuficiências contrárias aos
princípios defendidos na Convenção. As observações finais apresentadas pelo
Comité enumeravam os aspectos mais preocupantes do sistema português de
Justiça de Menores: a carência das garantias processuais das crianças e
jovens previstas no artigo 40.º, parágrafo 2.º, alínea b) da Convenção70; a não

67
Nos termos do artigo 43.º da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito das Crianças, o
Comité “é composto por dez peritos de alta autoridade moral e de reconhecida competência no
domínio abrangido pela Convenção, eleitos por escrutínio secreto de entre uma lista de
candidatos designados por Estados Partes, podendo cada país designar um perito de entre os
seus nacionais”. No entanto, a Assembleia Geral das Nações Unidas, através da Resolução n.º
50/155, de 21 de Dezembro de 1995, adoptou uma emenda àquele normativo, aumentando o
número de membros do Comité de 10 para 18, sob proposta do Governo da Costa Rica.
68
O relatório foi entregue ao Comité dos Direitos da Criança, em 16 de Setembro de 1994, e a
sua discussão ocorreu a 9 e 10 de Novembro de 1995.
69
O regime de então, como já referimos, estava regulamentado na Organização Tutelar de
Menores de 1978, aprovada pelo Decreto-Lei n.º 314/78, de 27 de Outubro.
70
Segundo este artigo, “(…) os Estados Partes garantem que: b) A criança suspeita ou
acusada de ter infringido a lei penal tenha, no mínimo direito às garantias seguintes: i)
presumir-se inocente até que a sua culpabilidade tenha sido legalmente estabelecida; ii) a ser
informada pronta e directamente das acusações formuladas contra si ou, se necessário,
através de seus pais ou representantes legais, e beneficiar de assistência jurídica ou de outra
138 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

distinção entre as formas de intervenção relativas aos jovens agentes de


crimes e ás crianças necessitadas de protecção; a ausência de um organismo
coordenador e monitorizador que reunisse todos os indicadores e informações
estatísticas sobre o funcionamento do sistema; e a falta de uma política de
informação relativamente às crianças e aos operadores do sistema sobre os
princípios plasmados na Convenção.

Assim, o Comité veio recomendar a adopção de medidas que se


compatibilizassem com o preceituado na Convenção, sugerindo,
designadamente, a revisão das normas sobre a institucionalização e detenção
dos jovens, no sentido da sua aplicação ser sempre de ultima ratio.

Em Outubro de 1998, foi apresentado um segundo relatório, por uma


Comissão autorizada para o efeito, por despacho da Alta Comissária para as
Questões da Promoção da Igualdade e da Família71 - Comissão Nacional dos
Direitos da Criança -, cujo conteúdo fazia referência às propostas de reforma
do sistema judiciário de crianças e jovens que entretanto estava a ter lugar em
Portugal72, e deixava transparecer a intenção do legislador português em
conciliar as vantagens de um modelo de protecção, presente na OTM, com o
modelo de justiça, através de uma terceira via que pretendia conceder aos
jovens todos os direitos inerentes à cidadania (Gersão, 1997: 8).

assistência adequada para a preparação e apresentação da sua defesa; iii) a sua causa ser
examinada sem demora por uma autoridade competente, independente e imparcial ou por um
Tribunal, de forma equitativa nos termos da lei, na presença do seu defensor ou de outrem,
assegurando assistência adequada e, a menos que tal se mostre contrário ao interesse
superior da criança, nomeadamente atendendo à sua idade ou situação, na presença de seus
pais ou representantes legais; iv) a não ser obrigada a testemunhar ou a confessar-se culpada;
a interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de acusação e a obter a comparência e o
interrogatório das testemunhas de defesa em condições de igualdade; v) no caso de se
considerar que infringiu a lei penal, a recorrer dessa decisão e das medidas impostas em
sequência desta para uma autoridade superior, competente, independente e imparcial, ou uma
autoridade judicial nos termos da lei; vi) a fazer-se assistir gratuitamente por um intérprete, se
não compreender ou falar a língua utilizada; vii) a ver plenamente respeitada a sua vida privada
em todos os momentos do processo”.
71
Despacho de 13 de Dezembro de 1996 publicado no Diário da República n.º 301, II série, de
30 de Dezembro de 1996.
72
O processo de reforma no sistema judiciário de menores português, justificado em grande
parte pelas orientações presentes na Convenção sobre os Direitos das Crianças, será tratado
de forma autónoma no ponto seguinte.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 139

Neste segundo relatório surge, desde logo, o intento de diferenciar as


formas de intervenção relativas a jovens, através da implementação de um
sistema de protecção para os menores de 12 anos de idade que cometem
crimes e um sistema educativo ou formativo para menores em risco carecidos
de protecção e assistência em virtude de situações de abandono ou
desamparo. Segundo as propostas da Comissão de Reforma73, estas duas
diferentes formas de intervenção deveriam ser regulamentadas em leis
diferentes mas sujeitas à jurisdição de um mesmo Tribunal – o Tribunal de
Menores –, que pautaria a sua actuação de acordo com o respeito pelo
interesse superior da criança, devendo ainda defender-se o princípio da
subsidiariedade no que toca à intervenção judiciária e, prever-se pontes de
passagem da intervenção judiciária para a administrativa (Gersão, 1997: 10).

De acordo com este segundo relatório, as propostas formuladas no


âmbito da reforma do direito de crianças e jovens português orientaram-se não
só pelos princípios plasmados na Convenção das Nações Unidas sobre o
Direito das Crianças, como também pelas normas constantes de outros
instrumentos de direito internacional público, como as Regras Mínimas das
Nações Unidas para a Administração da Justiça de Menores (Regras de
Beijing); as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Elaboração de Medidas
não Privativas da Liberdade (Regras de Tóquio); as Directrizes das Nações
Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil (Directrizes de Riade); as
Regras das Nações Unidas para a Protecção dos Jovens Privados da
Liberdade; e as regras da Resolução R (87) 20, do Conselho da Europa.

No momento posterior à apresentação e discussão do relatório português,


o Comité, em Novembro de 200174, nas suas observações finais, veio felicitar o
Estado português pela reforma levada a cabo no sistema de administração da
justiça de crianças e jovens e no sistema de solidariedade e segurança social.
No entanto, também considerou que a Convenção ainda não estaria totalmente

73
A Comissão para a Reforma do Sistema de Execução das Penas e Medidas. Para mais
informações ver infra.
74
Documento CRC/C/15/Add.162, de 6 de Novembro de 2001.
140 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

transposta para o direito interno português e, assim, recomendou que o Estado


português continuasse comprometido com a reforma do sistema de justiça de
crianças e jovens, de forma a que esta viesse a abranger efectivamente todas
as crianças, a respeitar as normas da Convenção, as Regras de Beijing e os
Princípios Orientadores de Riade e, ainda, a assegurar que os jovens com
idade igual ou superior a 16 anos beneficiassem de total protecção dos seus
mais elementares direitos.

3. O processo de reforma da Justiça Juvenil: os relatórios (Ministério da


Justiça /Ministério do Trabalho e da Solidariedade)

Para alguns Autores, em Portugal, a justiça de crianças e jovens foi, de


início, alvo de um “triunfalismo acrítico que reinou (…) com base no qual as
nossas instituições se fecharam no seu autismo, ignorando ou subvalorizando
toda a experiência estrangeira” (Gersão, 1997: 7).

Face às críticas que apregoavam a caducidade do modelo de protecção


presente no sistema de justiça juvenil português plasmado na OTM e a
ratificação por Portugal de directrizes elaboradas por alguns instrumentos de
direito internacional público, durante o mandato do XIII Governo Constitucional,
o então responsável pelo Ministério da Justiça, Vera Jardim, fez inscrever a
revisão da OTM no Plano de Governo75, onde se defendia que, “no tocante à
política de protecção judiciária de menores deveriam ser aperfeiçoadas e
diversificadas as formas de apoio/tratamento (…), distinguindo situações de
disfuncionalidade ou carência social de outras que se relacionam com a
delinquência juvenil”76, e incumbiu, através do Despacho 20/MJ/96, de 30 de
Janeiro77, uma Comissão – a Comissão de Reforma do Sistema de Execução

75
A intenção de proceder à execução de uma nova política em matéria de Justiça de Menores
já constava do programa do XII Governo Constitucional, tendo, contudo, somente sido dado o
primeiro passo durante o mandato do XIII Governo.
76
Cf. Plano do XIII Governo Constitucional.
77
Despacho publicado no Diário da República, II Série, n.º 35, de 10 de Fevereiro de 1996.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 141

das Penas e Medidas (CRSEPM)78 - de rever o sistema de execução de penas


e de justiça crianças e jovens.

Nos termos da introdução deste Despacho, considerava-se essencial


“obter uma visão integrada do sistema de execução de penas e medidas, em
matéria penal e de justiça de menores, utilizando como critério fundamental o
fornecido pelo quadro legal em vigor, os princípios internacionalmente
estabelecidos e as experiências conduzidas noutros países”, tudo com o
objectivo de “apreciar a forma como estava a ser conduzida a execução das
penas (…) e das medidas aplicadas a jovens e menores, procurando uma
maior transparência perante toda a sociedade e conduzindo a nossa
administração de penas e medidas, (…) a um acerto de passo com o de outras
administrações reconhecidamente mais avançadas”.

Assim, de acordo com o ponto 3 do referido Despacho, o trabalho a


desenvolver pela Comissão tinha como objectivos: “a) fazer uma análise da
situação actual do sistema de execução de penas e medidas, partindo dos
princípios jurídicos básicos que se deduzem dos textos legais e avaliando a
forma como se tem desenvolvido a acção do Estado e das organizações
sociais privadas que com ele cooperam neste domínio; b) analisar a
experiência de outros países em matéria de execução de penas e medidas e
dela colher dados e ensinamento que possam ser úteis para a formulação e
execução da política criminal; c) proceder a uma avaliação das actuais
discussões doutrinais sobre os vários temas em que se desdobra a matéria da
execução das penas e medidas, clarificando as alternativas hoje defendidas e
sujeitando-as a um exame crítico aprofundado, designadamente face à
situação portuguesa e às experiências acima referidas; d) apresentar
propostas, de natureza legislativa e institucional, com base nas avaliações
feitas, que visem aprofundar a conformidade legal e a coerência, efectividade e
eficácia do sistema de execução de penas e medidas; e) apresentar propostas

78
Desta Comissão faziam parte a Prof. Doutora Anabela Rodrigues, que presidia, o Juiz
Conselheiro Dr. J. Gonçalves da Costa, o Juiz Desembargador Dr. J. V. Soreto de Barros, o
Procurador-Geral Adjunto Dr. Rui Epifânio, o Dr. Pedro Caeiro, o Dr. António Ganhão e a Dra.
Eliana Gersão.
142 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

em domínios em que o Ministério da Justiça deva ter iniciativa e que


ultrapassem o sistema de execução de penas e medidas, mas que o
condicionam no seu desenho e dinâmica de funcionamento; f) emitir parecer
(…) sobre reformas que, por razões de urgência ou pelo seu âmbito restrito,
devam ser introduzidas no sistema, sem aguardar pelas propostas finais da
Comissão”.

No decurso dos trabalhos, a Comissão devia proceder a audições de


entidades públicas e privadas que reputasse adequadas, e à elaboração de
relatórios (cf. ponto 6 do Despacho mencionado).

O primeiro relatório da Comissão, apresentado em Julho de 1996,


constituiu o “resultado da análise teórico-dogmática do sistema tutelar de
menores, enriquecida pelo conhecimento possível da experiência do seu
funcionamento real” (1999a: 47).

Nesse relatório, a Comissão começa por afirmar que “a primeira


impressão de quem contacta com os agentes do sistema de menores (…) é a
de um profundo e generalizado mal-estar”, mal-estar esse que “advém da
incapacidade de resposta que atravessa verticalmente todo o sistema: ao nível
legislativo, o enquadramento da intervenção junto de menores apresenta
deficiências profundas e da mais diversa ordem; ao nível da aplicação do
direito, a acção dos intervenientes encontra-se fortemente bloqueada por
factores da mais variada natureza; ao nível da execução das decisões
proferidas, as expectativas que o sistema procura satisfazer esbarram com a
carência de recursos e com a ausência de uma estratégia de utilização racional
dos recursos disponíveis” (1999a: 47).

As conclusões finais presentes neste relatório apontavam diversas


inadequações e ineficiências do sistema, que levaram a Comissão a considerar
urgente a necessidade de reformular de raiz o sistema tutelar de crianças e
jovens, começando pela legislação.

Segundo o relatório da Comissão, “para além das dificuldades de


funcionamento com que deparou, entende a Comissão que os próprios
alicerces sobre os quais assenta a intervenção junto dos menores se
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 143

encontram irremediavelmente atingidos. Assim, uma futura remodelação da


matéria não poderá reduzir-se a meras reformas pontuais dos vários níveis em
que aquela se desdobra. Parece imprescindível repensar toda a questão,
prestando particular atenção à identificação dos fins que devem guiar a
intervenção junto de menores” (1999a: 47). A Comissão tomou, assim, por
base a discussão da legitimação da intervenção estadual no âmbito da
jurisdição de crianças e jovens, criticando violentamente o modelo de protecção
escolhido pela OTM e a sua definição de “interesse do menor”79.

Entre as inadequações referidas é de salientar, designadamente, o facto


das necessidades e das expectativas relativas ao problema dos jovens
desprotegidos serem diferentes das que se prendem com os agentes de crimes
e equiparados; o desrespeito do processo tutelar pelas injunções
constitucionais e de direito internacional, em matéria de garantias das crianças
e jovens; desobediência das medidas tutelares e da sua aplicação a uma
política concertada e racional com vista a certos fins; e o facto do direito tutelar
português não respeitar a função de prevenção criminal, enquanto prevenção
especial, através da responsabilização do jovem autor de um facto qualificado
pela lei como crime80.

No final do ano de 1996, a Comissão entregou um Relatório Final


composto por uma proposta destinada a “instituir um sistema de intervenção
junto de menores jurídico-constitucionalmente legítimo, teleologicamente
ordenado aos problemas sociais que visa resolver, e dotado de coerência
dogmática e de eficácia funcional” (1999b: 70).

Este Relatório é composto por oito secções e uma conclusão que versam
sobre: a) a legitimação, os fins e os pressupostos da intervenção estadual junto
de menores; b) as medidas tutelares educativas; c) processo tutelar educativo;

79
Nas palavras da Comissão: “há que lembrar que o actual modelo de protecção assenta numa
visão paternalista e monolítica do chamado ‘Interesse do menor’ como algo de dado. Assim, à
luz dessa perspectiva, se a intervenção é imposta pelo ‘Interesse do menor’, a oposição do
visado ou de quem o represente não pode prosseguir, logicamente, esse interesse. Desta
forma, a concreta posição do titular do interesse perante a intervenção é pouco relevante, pois
que esta é determinada, precisamente, em atenção ao seu próprio bem” (1999a: 48-49).
80
Cf. Conclusões Gerais do 1.º Relatório da Comissão.
144 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

d) linhas gerais sobre a execução das medidas tutelares; e) a organização e o


sistema judiciário em matéria tutelar educativa; f) os serviços auxiliares da
administração da justiça em matéria tutelar educativa; g) as Comissões de
Protecção; e h) o regime especial dos jovens adultos.

A primeira secção faz uma apresentação do modelo de protecção


subjacente à OTM e dos seus limites, concluindo pela incapacidade de um
modelo monolítico que responda eficazmente ao tratamento de situações de
crianças em risco e crianças infractoras.

De acordo com o entendimento da Comissão, “a inadequação do modelo


vigente [da OTM] deve-se, por um lado, à desatenção a que vota alguns
direitos fundamentais dos cidadãos menores – factor que põe em causa a
legitimidade da intervenção – e, por outro, à sua incapacidade de dar resposta
aos problemas postos pelos menores que praticam condutas socialmente
danosas – factor que põe em causa a eficácia da intervenção” (1999b: 71).

Assim, por um lado, a Comissão defende que a intervenção estadual, ao


se traduzir numa restrição de direitos fundamentais das crianças e jovens, “não
pode deixar de ser vista como excepcional e sujeita aos princípios da
necessidade e proporcionalidade”. Para tanto, “o «Interesse do menor» não
pode hoje conceber-se como categoria cuja densificação pertence por inteiro à
discricionaridade do Estado. A visão paternalista do Estado, como entidade
esclarecida que tudo pode impor em nome do verdadeiro bem dos cidadãos,
sucumbiu irremediavelmente perante a instauração do Estado de direito
material e a organização constitucional da democracia participativa, com os
inerentes direitos e garantias, não podendo subsistir pelo simples facto de a
concreta actividade estadual se dirigir a cidadãos menores” (1999b: 72).

Por outro lado, afirma-se que o sistema de crianças e jovens


representado pela OTM “(…) por não assentar em fundamentos com clara
conformidade constitucional, não tem um desempenho eficaz na satisfação das
expectativas comunitárias. (…) essa incapacidade provém, em larga parte, do
facto de as expectativas da comunidade em relação aos menores infractores
não se satisfazerem hoje com uma resposta de pura protecção, sobretudo em
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 145

virtude do abaixamento do limiar inicial da maturidade” (1999b: 72). Foi


também neste sentido que os operadores jurídicos se pronunciaram nas
audições efectuadas pela Comissão.

Pronunciando-se positivamente acerca de um tratamento diferenciado dos


casos de crianças e jovens em perigo, que necessitariam de uma intervenção
de protecção de forma a desenvolver o seu poder de autodeterminação,
daqueles outros de jovens infractores, a apelarem por uma intervenção
estadual educativa, a Comissão fundamentou a legitimidade desta última em
imperativos constitucionais. Nas palavras da Comissão, “encontrando-se a
personalidade do menor ainda em formação, o Estado tem o direito e o dever
de intervir correctivamente nesse processo sempre que o menor, ao ofender os
valores essenciais da comunidade e as regras mínimas que regem a vida
social, revele uma personalidade hostil ao dever-ser jurídico básico. Torna-se
então necessário responsabilizar o menor pelo dano social provocado,
mostrando-lhe que essa conduta não é tolerada pela sociedade em que se
insere, educando-o para o direito de forma a que a sua personalidade-em-
formação interiorize o respeito pelas normas e valores fundamentais da
comunidade” (1999b: 74-75).

Assim, a aplicação de uma medida tutelar educativa justifica-se, por um


lado, pela prossecução de outros interesses constitucionalmente protegidos,
como aqueles que fazem parte da política de juventude plasmada
constitucionalmente81, por outro, pelas exigências comunitárias de segurança e
paz social e, por último, pela necessidade de uma intervenção estadual
preventiva no início das carreiras criminosas dos jovens (1999b: 75).

A par da questão da legitimação para a intervenção estadual, o relatório


aponta ainda os princípios e pressupostos em que essa intervenção tutelar
educativa deve assentar. Assim, como princípio orientador de toda a
intervenção junto de jovens indica-se “o princípio da mínima intervenção

81
A CRP dispõe no artigo 70.º, n.º 2, que “o desenvolvimento da personalidade dos jovens, a
criação de condições para a sua efectiva integração na vida activa (…) e o sentido de serviço à
comunidade”.
146 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

possível”, justificando-se a aquela intervenção tão-somente “quando o exercício


do poder de autodeterminação por parte do menor viola os limites que definem
o correlativo direito, ofendendo de forma particularmente grave os bens
jurídicos da comunidade” (1999b: 75-76).

Deste modo, indicam-se dois pressupostos para a intervenção tutelar


educativa: a ofensa grave aos bens jurídicos fundamentais da comunidade,
devendo o Tribunal “estabelecer se aquele facto concretamente praticado pelo
menor é susceptível de um juízo de desvalor objectivo pelo menos análogo ao
que é vertido na incriminação típica” e a conclusão em concreto, pelo Tribunal,
da necessidade de corrigir a personalidade deficiente no plano do dever-ser
jurídico que se manifestou na prática do facto. Este último pressuposto,
segundo a Comissão, oferece-nos o conceito agora adoptado de interesse das
crianças e jovens: “interesse fundado no seu direito às condições que lhe
permitam desenvolver a sua personalidade de forma socialmente responsável,
ainda que, para esse efeito, a prestação estadual implique uma compressão de
outros direitos que titula” (1999b: 77).

Para a Comissão, a determinação do conceito normativo que


consubstancia a “necessidade de correcção da personalidade documentada no
facto” não se reveste de um especial melindre para o julgador, uma vez que,
por um lado, “trata-se de corrigir uma personalidade que apresenta deficiências
perante o dever-ser jurídico mínimo e essencial (corporizado na lei penal) e não
meras deficiências no plano moral ou educativo em geral”, e, por outro, nos
termos das propostas da Comissão, “o julgador disporá de um leque alargado
de meios que lhe permitam investigar a necessidade de correcção da
personalidade” (1999b: 77).

A ordenação da intervenção tutelar ao interesse das crianças e jovens,


entendido agora com o sentido supra referido, impõe que aquela, nas palavras
da Comissão, “só deve produzir-se quando a necessidade de correcção da
personalidade subsista no momento da aplicação da medida. Quando tal não
aconteça, a ausência de intervenção representará uma justificada prevalência
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 147

do interesse do menor sobre a defesa dos bens jurídicos e das expectativas da


comunidade” (1999b: 77).

São, também, estes os fundamentos para a não equiparação entre os


jovens que praticam crimes e os jovens em estados de delinquência e de
para-delinquência (por exemplo, abuso de bebidas alcoólicas, prostituição e
consumo de drogas). Na verdade, a Comissão considerou que os “menores em
estados de delinquência e de para-delinquência necessitam da intervenção
assistencial do Estado que contribua para a sua integração social – mas não de
uma intervenção que os eduque para o respeito pelas normas e valores
jurídicos essenciais que nunca desrespeitaram (…) nestes casos, não havendo
prática de um facto ilícito tipificado na lei penal, o comportamento desviante
traduz-se numa autolesão, e não na heterolesão típica do ilícito jurídico”
(1999b: 79). Ainda segundo a Comissão, “admitir o ingresso daqueles menores
no sistema tutelar educativo constituiria uma distorsão dos seus princípios
rectores e uma cedência à tentação de confundir personalidades socialmente
desajustadas com personalidades hostis ao dever-ser jurídico” (1999b: 79).

Na secção relativa às medidas tutelares educativas, a Comissão afirma


que “atendendo à diversidade de situações a que as medidas tutelares podem
dirigir-se, parece conveniente prever um leque alargado de medidas, sem que
o seu número, de excessivo, dificulte as operações de escolha e determinação
no momento da sua aplicação”, defendendo, ainda, que “as medidas tendentes
à reparação efectiva ou simbólica dos danos provocados devem possuir um
âmbito de aplicação bastante alargado, pois, para além de poderem ser
suficientes para o efeito educativo que se pretende, permitem realizar um outro
fim do processo tutelar, qual seja, a pacificação do conflito social” (1999b: 83).

Tendo em conta os pressupostos e fins adoptados para a intervenção


tutelar, a Comissão entendeu indicar quatro critérios para a escolha da medida
a aplicar. Assim, defendeu-se que “o juiz terá em conta a necessidade de
correcção da personalidade do menor manifestada no facto que subsista no
momento da decisão e a concreta gravidade do facto ilícito típico praticado”,
que “a medida deve ser adequada à necessidade de correcção dessa
148 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

personalidade e não pode ser desproporcionada à concreta gravidade do


facto”. Acrescentando que respeitados estes critérios, “o Tribunal escolherá
a(s) medida(s) que signifique(m) a menor intervenção possível” e que “dentro
dos limites dos critérios anteriormente fixados, o Tribunal deve optar pela(s)
medida(s) que obtenha(m) maior adesão do menor, dos seus pais,
representantes legais ou curador especial, oferecendo por isso maiores
garantias de sucesso na sua execução” (1999b: 86).

Na secção do Relatório que trata o processo tutelar educativo, a


Comissão reconhece a semelhança entre o processo tutelar proposto e o
processo penal, advertindo, no entanto, para a divergência dos fins que uma e
outra intervenção procuram alcançar. Assim, afirma-se que “o processo penal
serve de fonte ao processo tutelar por constituir um ordenamento que realiza
de forma particularmente activa as garantias constitucionais da pessoa em face
de pretensões de intervenção estadual na esfera dos direitos fundamentais”
(1999b: 91).

No entanto, a reconformação dos institutos do processo penal não é


dotada de plena elasticidade, devendo, sempre que a diversidade da natureza
da intervenção o imponha, instituir-se “princípios específicos do processo
tutelar – v.g., o princípio do interesse do menor -, claramente incompatíveis
com um processo penal” (1999b: 92). Exemplo claro desta divergência entre
um e outro processo é o da não aplicação do princípio in dubio pro reo no
processo tutelar, que se justifica pela inexistência de um reo no processo
tutelar e também por, no processo tutelar, não se por “a questão da inocência
versus culpabilidade”, ideia à qual está associado aquele princípio no âmbito do
processo penal. Assim, segundo a Comissão, “no caso de o Tribunal se
deparar com uma dúvida insanável sobre a prática, pelo menor, de um facto
típico e ilícito (…), deverá antes adoptar o princípio do interesse do menor e
decidir, de acordo com a avaliação da necessidade de correcção da
personalidade, qual das soluções (a intervenção ou a ausência dela) realiza
melhor, no caso concreto, o interesse do menor” (1999b: 95).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 149

No que diz respeito à execução das medidas tutelares aplicadas, a


Comissão indica como seus princípios orientadores o da “maior
jurisdicionalização da execução” e da “vinculação legal dos termos da
execução” (1999b: 134).

Em 2 de Outubro de 1996, os Ministérios da Justiça e da Solidariedade e


Segurança Social, afirmando a “necessidade de intervir conjunta e
articuladamente na concepção, desenvolvimento e execução de diversas
políticas sociais, nomeadamente de protecção de crianças em risco, de
adopção, de prevenção criminal de jovens e de reinserção”, por despacho
conjunto82, determinaram, “de modo a racionalizar e a tornar mais eficiente a
actuação dos dois Ministérios”, “a constituição de uma comissão
interministerial[83], para estudo da articulação entre os Ministérios da Justiça e
da Solidariedade e Segurança Social”, com a tarefa de apresentar um relatório
preliminar no prazo de 45 dias e um “relatório final e as propostas que entender
por convenientes no prazo de 90 dias”.

Esta Comissão “entendeu que no desenvolvimento do seu trabalho


deveria apreciar, nos termos do seu mandato e face ao enquadramento legal
vigente, a actuação dos dois Ministérios nas seguintes áreas: a) Crianças e
jovens em risco; b) Crianças e jovens com comportamentos desviantes; c)
Jovens agentes de factos ilícitos tipificados como crime; d) processos tutelares
cíveis; e) adopção; f) regime penal especial dos jovens adultos; g) reinserção
de adultos condenados” (1999: 174).

Posto à discussão pública o relatório final elaborado pela Comissão para


a Reforma do Sistema de Execução de Penas e Medidas, o Ministério da
Justiça entendeu urgente “concretizar, em termos legislativos, as propostas
apresentadas em sede de intervenção tutelar educativa, aplicável a menores
agentes de factos ilícitos tipificados como crime e do regime especial dos

82
Despacho conjunto publicado no Diário da República, II série, n.º 262, de 12/11/96.
83
A comissão foi composta pelos Drs. João Pedroso, Maria Cândida Duarte e António Santos
Luís, em representação do Ministério da Solidariedade e Segurança Social, e os Drs. Eliana
Gersão, Gonçalo Melo Breyner e Rosa Clemente, em representação do Ministério da Justiça.
150 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

jovens adultos”. Assim, pelo Despacho n.º 1021/9884, constitui-se uma


comissão de reforma da legislação sobre o processo tutelar educativo85, com o
objectivo de elaborar projectos legislativos sobre o processo tutelar educativo e
sobre o regime especial aplicável a jovens adultos, que deveriam ser
apresentados até 31 de Março de 1998.

Segundo o despacho mencionado, esta “reforma da legislação sobre


processo tutelar educativo” dever-se-ia enquadrar “na reforma mais ampla,
[então] em curso, de direito de menores, envolvendo a legislação de protecção
de crianças e jovens em risco, objecto dos trabalhos da comissão[86] constituída
pelo Despacho Conjunto n.º 524/97[87] dos Ministérios da Justiça e da
Solidariedade e Segurança Social, de 18 de Novembro de 1997, devendo ser
adoptadas as formas de articulação necessárias à harmonização das soluções
legislativas de acordo com os princípios orientadores resultantes do relatório
final da Comissão para a Reforma do Sistema de Execução de Penas e
Medidas”.

O trabalho realizado pela CRSEPM deu origem à Proposta de Lei n.º


266/VII, que na sua Exposição de Motivos optou claramente pelos princípios
orientadores já definidos pela Comissão para a Reforma do Sistema de
Execução de Medidas e Penas no seu Relatório Final.

Apresentada à Assembleia da República sob proposta do Governo, a Lei


Tutelar Educativa foi aprovada em 2 de Julho de 1999, promulgada em 26 de

84
Despacho publicado no Diário da República, II série, n.º 13, de 16/01/98.
85
Esta Comissão foi constituída pela Prof. Doutora Anabela Miranda Rodrigues, que a presidiu,
pelas Dras. Joana Marques Vidal, Eliana Gersão, Manuela Baptista Lopes e Maria Teresa
Rapazote Trigo de Sousa e pelo Dr. António Carlos Rodrigues Duarte Fonseca.
86
A Comissão de Reforma da Legislação de Protecção de Crianças e Jovens em Risco era
composta pelo Prof. Doutor Guilherme Oliveira, pelos Drs. Rui Epifânio, João Pedroso e
António Amaro Rodrigues e pelas Dras. Eliana Gersão, Maria do Rosário Correia de Oliveira,
Maria Carla Fonseca Costa Oliveira e Rosa Clemente. Tinha como objectivo, nos termos do
Despacho Conjunto n.º 524/97, “a elaboração da proposta de lei de protecção das crianças e
jovens em risco”, “a reforma da legislação relativa aos processos tutelares cíveis”, “a reforma
do regime jurídico das comissões de protecção de menores”, “a revisão do enquadramento
legal das famílias de acolhimento e dos lares para crianças e jovens desprovidos de meio
familiar” e “a elaboração do quadro legal de aprovação e implementação de programas e
projectos destinados ao apoio de crianças e jovens em risco”.
87
Despacho publicado no Diário da República, II Série, de 22/12/1997.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 151

Agosto, referendada em 2 de Setembro e publicada em 14 de Setembro,


entrando em vigor em 1 de Janeiro de 2001.

4. A preparação para a entrada em vigor da Lei Tutelar Educativa

Em 27 de Julho de 2000, foi aprovada a Resolução do Conselho de


Ministros n.º 108/200088. O Conselho de Ministros, considerando “urgente a
entrada em vigor da legislação já aprovada de protecção de crianças e jovens
em perigo e tutelar educativa”, resolveu “aprovar o Programa de Acção para a
Entrada em Vigor da Reforma de Direito de Menores”, com a finalidade de
“assegurar a criação de condições jurídicas, técnicas, humanas e físicas que
permitam a integral aplicação: a) Da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em
Perigo, assim contribuindo para a promoção do seu bem-estar e
desenvolvimento integral; e b) Da Lei Tutelar Educativa, assim promovendo a
educação e inserção social de jovens que, tendo cometido factos qualificados
pela lei como crime, tenham revelado necessidade de uma intervenção tutelar,
e prosseguindo objectivos de prevenção da delinquência juvenil e de protecção
da sociedade”.

Ao mencionado Programa foram atribuídas, entre outras, as seguintes


funções: “a regulamentação da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em
Perigo e da Lei Tutelar Educativa”; “a criação de condições para uma aplicação
prioritária das medidas tutelares educativas não institucionais e a sua execução
numa perspectiva de prevenção da reincidência”; “a reestruturação das
instituições de menores do Ministério da Justiça, visando a criação de centros
educativos e o desenvolvimento de programas educativos visando a sua
inserção social e a prevenção da reincidência” e “a condução do processo de
transição entre o actual sistema e o que é enformado pela reforma legislativa”.

No seguimento da adopção deste Programa de Acção, foi aprovado o


Decreto-Lei n.º 190/2000, de 16 de Agosto, que, no seu preâmbulo, salienta a
“necessidade urgente de readaptação dos estabelecimentos existentes, por

88
Resolução publicada no Diário da República, I Série – B, n.º 191, de 19/08/2000.
152 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

forma a possibilitar a criação, a curto prazo, dos centros educativos” e de se


proceder “à aquisição de bens necessários ao funcionamento dos referidos
centros, bem como ao recrutamento do pessoal imprescindível para assegurar
uma eficaz execução das novas medidas”. Assim, dada a urgência em dotar o
sistema de condições mínimas indispensáveis para a entrada em vigor do novo
regime jurídico previsto na Lei Tutelar Educativa, o referido diploma aprovou
medidas especiais, dispensando a realização de algumas formalidades, para a
celebração de contratos para a realização de obras em prédios do Instituto de
Reinserção Social ou a ele afectos, destinados a centros educativos, e para a
aquisição de bens e serviços (cf. artigo 1.º e 2.º). Previu-se, ainda, a
possibilidade de um recrutamento de pessoal não vinculado à função pública
para o Instituto de Reinserção Social, sob a forma de um processo de selecção
sumário, no caso de não ser possível o preenchimento normal dos quadros dos
centros educativos e das equipas de reinserção social para apoio aos tribunais
de família e menores (cf. artigo 3.º).

De modo a “preparar a transição para o regime previsto na Lei Tutelar


Educativa” (cf. preâmbulo), foi publicada, ainda, a Portaria n.º 799-A/2000, de
20 de Setembro, por força da qual se ordenou, “até à conclusão da adaptação
dos actuais colégios de acolhimento, educação e formação ao modelo de
centros educativos em regime fechado, aberto e semi-aberto”, a desafectação
do serviço prisional da área da Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária,
colocando-a na dependência do Instituto de Reinserção Social, “destinando-se
exclusivamente ao acolhimento dos menores que lhe estão confiados e quando
razões especiais de segurança o justifiquem” (cf. ponto 1.º).

Como se referiu, a Lei Tutelar Educativa, aprovada pela Lei n.º 166/99, de
14 de Setembro, não entrou imediatamente em vigor, dispondo desse diploma
que o momento da sua entrada em vigor coincidiria com a da legislação que
regulamentasse a criação, organização e competência dos órgãos dos centros
educativos e seu funcionamento, e que aprovasse o regulamento geral e
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 153

disciplinar dos centros educativos89 (cf. artigo 6.º da Lei n.º 166/99, e 144.º, n.º
4, da Lei Tutelar Educativa).

A criação e classificação dos centros educativos, a praticar até 31 de


Dezembro de 2000, foi realizada com a aprovação e entrada em vigor, em 1 de
Janeiro de 2001, da Portaria n.º 1200-B/2000, de 20 de Dezembro, que criou
os seguintes centros educativos: Centro Educativo de Santa Clara, em Vila do
Conde, com regime aberto e semiaberto; Centro Educativo de Santo António,
no Porto, com regime aberto e semiaberto; Centro Educativo Dr. Alberto Souto,
em Aveiro, com regime aberto e semiaberto; Centro Educativo do Mondego,
em Cavadoude, Guarda, com regime semiaberto e fechado; Centro Educativo
de São Fiel, em Louriçal do Campo, Castelo Branco, com regime semiaberto;
Centro Educativo dos Olivais, em Coimbra, com regime semiaberto e fechado;
Centro Educativo da Bela Vista, em Lisboa, com regime aberto e semiaberto;
Centro Padre António de Oliveira, em Caxias, Oeiras, com regime semiaberto e
fechado; Centro Educativo Vila Fernando, em Vila Fernando, Elvas, com
regime semiaberto, todos destinados a acolher jovens do sexo masculino;
Centro Educativo Navarro de Paiva, em Lisboa, com regime semiaberto,
destinado a acolher jovens de ambos os sexos90; Centro Educativo Corpus
Christi, em Vila Nova de Gaia, com regime aberto e semiaberto; Centro
Educativo de São José, em Viseu, com regime aberto e semiaberto; e Centro
Educativo de São Bernardino, em Atouguia da Baleia, Peniche, com regime
aberto, semiaberto e fechado, destinados a acolher jovens do sexo feminino91
(cf. ponto 1.º).

Consideramos que o referido Programa foi ao mesmo tempo positivo e


tímido. Por um lado, representou a consciência de que a aplicação de uma lei
implica condições políticas, económicas e sociais que devem ser

89
O Regulamento Geral e Disciplinar dos Centros Educativos foi aprovado pelo Decreto-Lei n.º
323-D/2000, de 20 de Dezembro, tendo entrado em vigor em 1 de Janeiro de 2001 (cf. artigo
4.º). Sobre este diploma falaremos mais especificamente adiante.
90
A referida Portaria previa que o Centro Educativo Navarro de Paiva se destinaria, até 31 de
Março de 2001, a acolher, ainda, jovens do sexo feminino em regime fechado (cf. ponto 4.º).
91
Relativamente ao Centro Educativo de São Bernardino, a referida Portaria previa que o
mesmo se destinava a acolher, até ao dia 31 de Março de 2001, também jovens do sexo
masculino em regime semiaberto (cf. ponto 4.º).
154 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

implementadas. Mas, por outro lado, tal Programa ficou aquém do necessário,
como parece resultar dos capítulos seguintes do presente estudo.

5. A Lei Tutelar Educativa: parte integrante de um Novo Direito das


Crianças e Jovens

Na sequência das propostas avançadas pelas Comissões constituídas


para a avaliação e reforma do Direito de Menores, às quais já se fez referência,
a Assembleia da República aprovou, em 1999, três importantes diplomas legais
neste âmbito92, a saber:

- A Lei n.º 133/99, de 28 de Agosto, que alterou o Decreto-Lei n.º 314/78,


de 27 de Outubro, na parte respeitante aos processos tutelares cíveis;

- A Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro, que aprovou a Lei de Protecção de


Crianças e Jovens em Perigo (LPCJP); e

- A Lei n.º 166/99, de 14 de Setembro, que aprovou a Lei Tutelar


Educativa (LTE).

A Lei Tutelar Educativa e a Lei de Protecção de Crianças e Jovens em


Perigo “constituem os textos fundamentais da reforma do direito dos menores”
(Rodrigues, 2003: 55).

Como se referiu supra, esta alteração legislativa veio substituir, no


essencial, o regime de intervenção estadual previsto na Organização Tutelar de
Menores e, consequentemente, os mecanismos de intervenção do Estado
relativamente aos jovens.

Neste sentido, Eliana Gersão (1997: 150) afirma que a Lei Tutelar
Educativa rompeu profundamente, do ponto de vista processual, com o
estabelecido na Organização Tutelar de Menores, que previa um processo
muito desformalizado, privando os jovens de garantias fundamentais, o que era

92
Norberto Martins chama a atenção para a importância do Direito dos Menores, uma vez que
estes são “(...) os verdadeiros actores sociais (...) cuja protecção deve ser sinónimo de
promoção dos seus direitos individuais, económicos e culturais (...)” (2002: 175).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 155

incompatível com os princípios de um Estado de Direito Democrático e com os


textos internacionais ratificados pelo Estado Português.

Segundo Souto Moura, o novo sistema tutelar educativo pretendia ser


uma terceira via entre o anterior modelo de protecção vigente em Portugal e o
modelo de justiça que se desenvolveu nos anos oitenta e “(...) tenta conciliar
um princípio incontornável de subtracção do menor ao sistema penal dado, e
por aí se aproxima do «sistema de protecção», com uma disciplina mais
garantística do ponto de vista processual e com uma estratégia
responsabilizante, com o que cobra alguma similitude com o modelo de justiça
penal. Sistema «tutelar», porque atende aos imperativos de protecção da
infância e juventude a cargo do Estado, constitucionalmente consagrados.
Sistema «educativo», no sentido de que com ele se pretende conquistar o
jovem para o respeito pelas normas, prevenindo-se ulteriores infracções, assim
se jogando a própria segurança da comunidade” (2000: 114).

6. Princípios Constitucionais e a Lei Tutelar Educativa

A Constituição da República Portuguesa (CRP) de 1976 consagra


algumas normas de natureza programática relativas ao Direito da Família,
postulando a protecção da família como elemento fundamental da sociedade, e
ao Direito dos Menores.

Assim, a Constituição garante o direito de constituir família (cf. artigo 36.º)


e o direito das próprias famílias à protecção da sociedade e do Estado, bem
como à efectivação das condições propícias da realização pessoal dos seus
membros (cf. artigo 67.º).

Quanto ao Direito dos Menores, a CRP, no seu artigo 69.º, sob a epígrafe
“Infância”, estabelece que “as crianças têm direito à protecção da sociedade e
do Estado, com vista ao seu desenvolvimento integral, especialmente contra
todas as formas de abandono, de discriminação e de opressão e contra o
exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições” (n.º 1);
que “o Estado assegura especial protecção às crianças órfãs, abandonadas ou
156 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

por qualquer forma privadas de um ambiente familiar normal” (n.º 2); e que “é
proibido, nos termos da lei o trabalho de menores em idade escolar” (n.º 3)93.

Assim, a norma mencionada consagra o direito das crianças à protecção,


visando o seu desenvolvimento integral, ou seja, a garantia da sua dignidade
como pessoa em formação, que impõe ao Estado e à sociedade uma
intervenção social, no sentido de realização, prestação e concretização de
diversos deveres e actividades (Canotilho e Moreira, 1993: 354 e ss.).

Esta ideia de protecção de crianças e jovens consagrada pelo legislador


constituinte foi reconhecida pela Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º
266/VII, de 11 de Março de 1999, nos termos da qual aquela “justifica-se
quando o gozo ou o exercício de direitos cívicos, sociais, económicos ou
culturais do menor são ameaçados por factores que lhe são exteriores (incúria,
exclusão social, abandono ou mais tratos)” (apud Moura, 2000: 97 e 98).

7. O Regime Jurídico da Lei Tutelar Educativa: Breve descrição

7. 1. A entrada em vigor do novo regime

A Lei Tutelar Educativa, aprovada pela Lei n.º 166/99, de 14 de Setembro,


possuiu um período de vacatio legis superior a um ano, tendo entrado em vigor
apenas em 1 de Janeiro de 2001.

O diploma legal mencionado foi dotado de aplicabilidade imediata,


ressalvando, no entanto, por um lado, a validade dos actos realizados na
vigência da lei anterior e, por outro, as situações em que da aplicação de
disposições processuais constantes da lei nova pudesse “resultar quebra de
harmonia e unidade dos vários actos do processo” (artigo 2.º, n.ºs 1 e 2).

O procedimento a adoptar por forma a dar cumprimento à aplicabilidade


imediata da Lei Tutelar Educativa encontra-se consagrado nos n.ºs 3 a 5, e 8 a
10 do artigo 2.º da Lei n.º 166/99. Assim, com a entrada em vigor da Lei Tutelar

93
Sobre a questão da compatibilização dos direitos constitucionalmente consagrados ver Souto
Moura, 2000: 107 e ss.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 157

Educativa, os processos tutelares que se encontrassem pendentes naquele


momento que tivessem por objecto a prática de facto qualificado pela lei penal
como crime, praticado por jovem com idade compreendida entre os 12 e os 16
anos, deveriam ser reclassificados como processos tutelares educativos pelas
secretarias dos diversos tribunais, com vista ao Ministério Público para a
eventual aplicação de medidas cíveis ou de protecção94 (cf. n.º 3 do artigo 2).
Os restantes processos tutelares deveriam ser reclassificados como processos
de promoção e protecção, passando a reger-se pela nova Lei de Protecção de
Crianças e Jovens em Perigo (cf. n.º 5 do artigo 2.º, da Lei nº 166/99, e n.º 3 do
artigo 2.º, da Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro).

Reclassificados os processos em tutelares educativos, as medidas aí


aplicadas deveriam ser revistas, quando formulado um juízo de necessidade
relativamente à generalidade das medidas ou obrigatoriamente no caso de
“medidas de internamento, bem como as situações de menores colocados para
observação ou acolhidos em instituições” (cf. n.º 4 do artigo 2.º, da Lei n.º
166/99).

Quanto às medidas tutelares já aplicadas em processos pendentes com


base na legislação anterior, o legislador equiparou a medida de colocação em
lar de semi-internato prevista na OTM à medida de internamento em Centro
Educativo em regime aberto e as medidas de colocação em instituto médico-
psicológico e de internamento em estabelecimento de reeducação previstas na
OTM à medida de internamento em Centro Educativo em regime semiaberto.

O legislador previu, ainda, que os processos pendentes em Tribunais que,


por força das novas regras de competência previstas na LTE, deixariam de ser
competentes, deveriam ser remetidos para o Tribunal territorialmente

94
Na reclassificação dos processos, a lei manda aplicar o disposto no artigo 43.º da LTE,
segundo o qual “em qualquer fase do processo tutelar educativo, nomeadamente em caso de
arquivamento, o Ministério Público: a) participa às autoridades competentes a situação do
menor que careça de protecção social; b) toma as iniciativas processuais que se justificarem
relativamente ao exercício ou ao suprimento do poder paternal; c) requer a aplicação de
medidas de protecção” (n.º 1). Em caso de urgência, as medidas de protecção “podem ser
decretadas provisoriamente no processo tutelar educativo, caducando se não forem
confirmadas em acção própria proposta no prazo de um mês” (n.º 2).
158 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

competente, ou seja, para o Tribunal da residência do jovem no momento em


que fosse instaurado o processo para apreciação dos factos e aplicação da
medida tutelar (artigo 2.º, n.º 10, da Lei n.º 166/99, e 28.º, 29.º e 31.º da LTE).

Relativamente aos jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 16


anos que tivessem praticados factos punidos pela lei como crime antes da
entrada em vigor da LTE, previu-se a possibilidade de aplicação das medidas
tutelares educativas previstas na LTE ou das medidas tutelares previstas na
OTM, com excepção da medida de colocação em instituto médico-psicológico95.

Uma outra preocupação do legislador foi estabelecer que, mesmo nesta


fase de transição, a medida a aplicar ao jovem - quer consagrada na
Organização Tutelar de Menores, quer consagrada na Lei Tutelar Educativa –,
seria aquela que, no caso concreto, se mostrasse mais favorável ao interesse
educativo do jovem. Para tal, o Tribunal teria de ter em consideração a
gravidade do facto praticado e a necessidade de educação do jovem para o
direito, que fora manifestada no momento da prática do acto e que subsistisse
no momento da decisão (artigo 2.º, n.º 7).

7. 2. O âmbito de aplicação

O legislador português consagrou um tratamento diferenciado consoante


a criança ou o jovem tenha 12, 16 ou 21 anos de idade, considerados como
“(...) marcos etários que originam reacções diversas, reacções que atendem ao
diferente desenvolvimento psicossomático da criança, do jovem e do
jovem-adulto. Traduz-se pois na lei o que é um dado empírico indiscutível: a
evolução da capacidade adaptativa do menor” (Moura: 2000, 102). Segundo
Souto Moura, o legislador português optou por “(...) atender à gradação da

95
As medidas tutelares previstas na Organização Tutelar Educativa eram as seguintes:
admoestação; entrega aos pais, tutor ou pessoa encarregada da sua guarda; imposição de
determinadas condutas ou deveres; acompanhamento educativo; colocação em família idónea;
colocação em estabelecimento oficial ou particular de educação; colocação em regime de
aprendizagem ou de trabalho junto de entidade oficial ou particular; submissão a regime de
assistência; colocação em lar de semi-internato; colocação em instituto médico-psicológico;
internamento em estabelecimento de reeducação (artigo 18.º da OTM).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 159

formação da personalidade do menor, recorrendo a medidas não penais mas


mesmo assim responsabilizantes.” (Moura, 2000: 106).

A Lei Tutelar Educativa é aplicada a todo e qualquer jovem com idade


compreendida entre os 12 e os 16 anos de idade, que pratique, em Portugal,
um facto qualificado pela lei como crime e passível de aplicação de medida
tutelar por lei anterior ao momento da sua prática (cf. artigo 1.º e 3.º da LTE)96.
Deste modo, a prática por um jovem de 15 anos de um facto qualificado, pela
lei, como contra-ordenação determina que não lhe seja aplicada a Lei Tutelar
Educativa97 98.

Pese embora a distinção entre crianças em perigo e jovens delinquentes,


o legislador não deixou de criar pontes de articulação entre as duas situações.
Assim, cabe ao Ministério Público participar às entidades competentes a
situação do jovem que careça de protecção social, bem como tomar as
medidas que se justifiquem relativamente ao exercício ou suprimento do poder
paternal e requerer a aplicação de medidas de protecção (artigo 43.º, n.º 1, da
LTE). Nesta última situação, e em caso de urgência, pode ser decretada
provisoriamente no processo tutelar uma medida de protecção, que caduca se
não for confirmada em acção própria proposta no prazo de 1 mês (artigo 43.º,
n.º 2, da LTE).

7. 3. As regras de competência

É ao Tribunal de Família e Menores que compete “a prática de actos


jurisdicionais relativos ao inquérito”; “a apreciação de factos qualificados pela

96
Estes jovens são, nos termos do disposto no artigo 19.º do Código Penal, considerados
inimputáveis para efeitos criminais. Os jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 21
anos que pratiquem factos qualificados pela lei penal como crime ficam sujeitos ao regime
especial dos jovens adultos, previsto no Decreto Lei n.º 401/82, de 23 de Setembro.
97
Este é o caso, designadamente, do consumo de estupefacientes e de substâncias
psicotrópicas. A LTE previa, no artigo 78.º, n.º 2, o arquivamento liminar se o facto qualificado
como crime fosse de consumo de estupefacientes. No entanto, com a descriminalização
superveniente deste tipo de ilícito, aquela norma deixou de fazer sentido.
98
No âmbito da legislação anterior, as medidas tutelares eram aplicadas a jovens agentes, não
só de algum facto qualificado pela lei como crime, mas também como contravenção (cf. artigo
13.º, al. c), da OTM).
160 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

lei como crime, praticados por menor com idade compreendida entre os 12 e os
16 anos, com vista à aplicação de medida tutelar”; “a execução e a revisão das
medidas tutelares”; e “declarar a cessação ou a extinção das medidas
tutelares” (artigo 28.º, n.º 1, da LTE). Esta competência cessa sempre que ao
jovem for aplicada uma pena de prisão efectiva ou quando o jovem completar
18 anos de idade antes da data da decisão em primeira instância. Nestes caso,
quando já haja um processo a correr, o mesmo é arquivado (cf. artigo 28.º, n.º
2 e 3, da LTE).

Mapa IV.1
Localização dos Tribunais de Família e Menores

Fonte: OPJ
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 161

Conforme se pode ver pelo Mapa IV.199, presentemente existem 18


tribunais de família e menores em Aveiro, Barreiro, Braga, Cascais, Coimbra,
Faro, Funchal, Lisboa, Loures, Matosinhos, Ponta Delgada, Portimão, Porto,
Setúbal, Seixal, Sintra, Vila Franca de Xira, Vila Nova de Gaia. A maioria
destes tribunais tem competência na área do respectivo círculo judicial100.

Fora das áreas abrangidas pela jurisdição dos tribunais de família e


menores, aquela competência cabe aos tribunais de comarca, que se
constituirão em Tribunal de Família e Menores (artigo 29.º, n.s 1 e 2).

O Tribunal da residência do jovem no momento em que for instaurado o


processo tutelar é o competente para apreciação dos factos e aplicação e
execução da medida tutelar, sendo irrelevantes as modificações
supervenientes ao momento da instauração do processo (artigo 31.º, n.º 1, e
32.º da LTE)101. Porém, compete ao Tribunal do local da prática do facto
ordenar a realização das diligências urgentes, bem como a realização das
diligências probatórias que entenda como necessárias naquele momento,
independentemente de ser ou não o Tribunal competente. Do mesmo modo o
Tribunal do local onde o jovem for encontrado pode ordenar a realização de
todas as diligências que entenda urgentes (artigo 33.º da LTE).

99
O Mapa IV.1 não contem a representação da competencia territorial dos Tribunais de Família
e Menores do Funchal e de Ponta Delgada por, de momento, não termos tido acesso aos
ficheiros vectoriais cartograficos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores.
100
Com excepção dos tribunais de família e menores de Cascais, com competência nos
círculos judiciais de Cascais e Oeiras; de Faro, com competência no círculo judicial e na
comarca de Loulé; do Funchal, com competência somente na área da respectiva comarca; de
Lisboa, com jurisdição nas comarcas de Amadora e de Lisboa; de Ponta Delgada, com
jurisdição nas comarcas de Lagoa, Ponta Delgada, Ribeira Grande e Vila Franca do Campo; de
Portimão, com competência no círculo judicial e comarca de Albufeira; do Porto, com
competência nas comarcas de Gondomar, Maia, Porto e Valongo; e do Seixal, com
competência para o círculo judicial de Almada (cfr. Mapa VI anexo ao Decreto-Lei n.º 186-A/99,
de 31 de Maio, sucessivamente alterado pelos Decreto-Leis n.ºs 27-B/2000, de 3 de Março,
178/2000, de 9 de Agosto, 332/2000, de 30 de Dezembro, 246-A/2001, de 14 de Setembro,
148/2004, de 21 de Junho, e 219/2004, de 26 de Outubro).
101
No caso de ser desconhecida a residência do jovem, o Tribunal competente é, conforme as
situações,ou o da residência dos titulares do poder paternal, ou da pessoa à guarda de quem o
jovem estiver confiado, ou da pessoa com quem resida. Nas situações em que não seja
possível determinar nenhum daqueles casos, o Tribunal competente é o do local da prática do
facto ou, caso este não esteja determinado, do local onde o jovem for encontrado (cf. artigo
31.º, n.º 2 a 4, da LTE).
162 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

O Tribunal competente para a execução das medidas tutelares é o


Tribunal que as aplicou (artigo 38.º da LTE).

7. 4. As regras de conexão de processos

A Lei Tutelar Educativa consagrou, como regra, a organização de um


processo único por cada jovem, relativamente a tantos factos quanto os que
haja notícia, independente do lugar da sua prática, desde que se encontrem
simultaneamente na mesma fase processual (fase de inquérito, fase
jurisdicional ou fase de execução) (artigo 34.º da LTE).

No entanto, nos casos em que vários jovens tenham cometido um ou


diversos factos, em comparticipação ou que tenham entre si uma relação de
causa ou efeito uns dos outros, ou destinando-se uns a continuar ou a ocultar
os outros, o legislador optou pela organização de um só processo
relativamente aos vários jovens, desde que, também aqui, estejam na mesma
fase processual (artigo 35.º da LTE).

Contudo, quando razões de celeridade e de protecção do interesse do


jovem o exijam, a autoridade judiciária pode determinar a separação dos
processos (artigo 36.º da LTE). Nos casos em que não seja possível a
organização de um único processo relativo a um jovem, após o trânsito em
julgado da decisão, os processos são apensados àquele cuja decisão tenha
transitado em primeiro lugar (artigo 37.º, n.º 2, da LTE).

Por último, o legislador determina, ainda, a apensação dos processos,


quando os jovens forem irmãos ou estiverem sujeitos à guarda de facto da
mesma pessoa (artigo 37.º, n.º 1, da LTE).

7. 5. As medidas cautelares

Em qualquer fase do processo tutelar educativo podem ser aplicadas


medidas cautelares, com o objectivo de prevenir a fuga do jovem ou o
cometimento, por aquele, de novos factos qualificados pela lei como crime. A
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 163

aplicação de uma medida cautelar exige o preenchimento cumulativo dos


seguintes pressupostos: “a existência de indícios do facto”; “a previsibilidade de
aplicação de medida tutelar”; e “a existência fundada de perigo de fuga ou de
cometimento de outros facto qualificados pela lei como crime” (artigo 58.º, n.º 1,
da LTE).

As medidas cautelares estão taxativamente previstas na Lei Tutelar


Educativa, podendo consistir na “entrega do menor aos pais, representante
legal, pessoa que tenha a sua guarda de facto ou outra pessoa idónea, com
imposição de obrigações ao menor”, na “guarda do menor em instituição
pública ou privada”, ou na “guarda em Centro Educativo” (artigo 57.º, da LTE).
Assim, requerida a aplicação de uma medida tutelar pelo Ministério Público na
fase de inquérito, ou oficiosamente pelo juiz na fase jurisdicional, cumpridos os
pressupostos para a sua aplicação, o Tribunal, ouvido o Ministério Público, o
defensor do jovem e, sempre que possível, o representante do jovem,
determina a aplicação daquela que, em concreto, se mostre mais adequada às
“exigências preventivas ou processuais que o caso requer” e seja
proporcionada “à gravidade do facto e às medidas tutelares aplicáveis” (artigos
56.º e 59.º da LTE).

No que respeita à medida cautelar de guarda em Centro Educativo, para


além da obediência ao princípio da proporcionalidade e da adequabilidade, e
da necessidade de verificação dos pressupostos gerais de aplicação das
medidas cautelares, o legislador exigiu a verificação de um pressuposto
adicional. O Tribunal só poderá optar pela sua determinação quando o haja
indícios suficientes que o jovem tenha cometido facto qualificado como crime a
que corresponda pena máxima, abstractamente aplicável, de prisão superior a
cinco anos ou que tenha cometido dois ou mais facto qualificados como crimes
contra as pessoas a que corresponda pena máxima abstractamente aplicável
superior a três anos, devendo a medida cautelar ser executada em Centro
Educativo semiaberto quando o jovem tenha menos de 14 anos ou em regime
semiaberto ou fechado quando o jovem tenha idade igual ou superior a 14 anos
(artigo 58.º, n.º 2 e 3, da LTE).
164 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

O prazo máximo desta medida é de três meses, prorrogável por mais três
meses em casos de especial complexidade, devidamente fundamentados
(artigo 60.º, n.º 1, da LTE). Nos restantes casos, o prazo de duração é de seis
meses até à decisão do Tribunal de primeira instância e de um ano até ao
trânsito em julgado da decisão (artigo 60.º, n.º 2, da LTE).

A medida cautelar aplicada é, oficiosamente, revista de dois em dois


meses, podendo o juiz, oficiosamente ou a requerimento, substitui-la se
concluir que a mesma não está a realizar as finalidades para que foi aplicada e
cessando assim que se deixarem de verificar os pressupostos da sua aplicação
(artigos 61.º e 62.º da LTE).

7. 6. As medidas tutelares educativas

Por força do princípio da legalidade consagrado na Lei Tutelar Educativa,


o legislador indicou, de forma expressa e taxativa, as medidas tutelares
educativas que podem ser aplicadas. Para tal, distinguiu medidas não
institucionais – admoestação; privação do direito de conduzir ciclomotores ou
de obter permissão para conduzir ciclomotores; reparação ao ofendido;
realização de prestações económicos ou de tarefas a favor da comunidade;
imposição de regras de conduta; imposição de obrigações; frequência de
programas formativos; acompanhamento educativo; da medida institucional –
internamento em Centro Educativo102. A execução da medida de internamento
em Centro Educativo é aplicada segundo um dos seguintes regimes de
execução: regime aberto103; regime semiaberto104; regime fechado105 (artigo 4.º
da LTE).

102
O artigo 18.º do Decreto Lei n.º 314/78, de 27 de Outubro (OTM), consagrava as seguintes
medidas tutelares: admoestação, entrega aos pais, tutor ou pessoa encarregada da sua
guarda; imposição de determinadas condutas ou deveres; acompanhamento educativo;
colocação em família idónea; colocação em estabelecimento oficial ou particular de educação;
colocação em regime de aprendizagem ou de trabalho junto de entidade oficial ou particular;
submissão a regime de assistência; colocação em lar de semi-internato; colocação em instituto
médico-psicológico; internamento em estabelecimento de re-educação.
103
Nas medidas de internamento em regime aberto, os jovens, apesar de residirem e serem
educados dentro do Centro Educativo, frequentam no exterior as actividades previstas no seu
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 165

Quanto às medidas não institucionais, a admoestação é a sanção mais


leve e consiste na repreensão solene feita pelo juiz ao jovem. Nessa
advertência, o juiz exprimirá o carácter ilícito da conduta do jovem, bem como o
seu desvalor e consequências, “exortando-o a adequar o seu comportamento
às normas e valores jurídicos e a inserir-se, de forma digna e responsável, na
vida em comunidade” (artigo 9.º da LTE).

A medida de privação do direito de conduzir (ou seja, cassação da


licença) ciclomotores ou de obter permissão para conduzir (isto é, proibição de
obter tal licença) ciclomotores pode ser aplicada por um período mínimo de 1
mês e máximo de 1 ano (artigo 10.º da LTE)106.

A medida tutelar de reparação ao ofendido pode revestir uma das


seguintes modalidades: apresentação de desculpas ao ofendido; compensação
económica do ofendido, totalmente ou parcialmente, pelo dano patrimonial que
sofreu; realização, em benefício do ofendido, de uma actividade que se ligue
com o dano, sempre que for possível e adequado (artigo 11.º, n.º 1, da LTE).

A lei regula a forma de realizar cada uma das modalidades. Assim, a


apresentação de desculpas ao ofendido, que consiste na expressão de pesar
pelo facto, pode ser realizada através da “manifestação, na presença do juiz e
do ofendido, do propósito de não repetir factos análogos” ou “satisfação moral
ao ofendido, mediante acto que simbolicamente traduza arrependimento”
(artigo 11.º, n.º 2, da LTE). A segunda modalidade – compensação económica
do ofendido – pode ser efectuada através do pagamento de uma quantia

projecto educativo pessoal. Podem, ainda, ser autorizados a sair dos centros educativos e a
passar períodos de férias ou fins-de-semana com os seus pais ou representante legal (artigo
167.º da LTE).
104
Nas medidas de internamento em regime semiaberto, os jovens, para além de residirem e
serem educados dentro do centro, desenvolvem as suas actividades também dentro do Centro
Educativo. No entanto, podem ser autorizados a desenvolver certas actividades fora do centro,
normalmente acompanhados por pessoal de intervenção educativa. Podem ainda ser
autorizados a passar fins-de-semana e períodos de férias com os seus pais ou representantes
(artigo 168.º da LTE).
105
A medida de internamento em regime fechado exclui, em regra, qualquer possibilidade de
saída do Centro Educativo, com excepção das estritamente necessárias para cumprimento de
obrigações judiciais, para satisfação de necessidades de saúde ou por outros motivos
ponderosos, sempre sob acompanhamento (artigo 169.º da LTE).
106
Esta medida tutelar não institucional pode ser cumulada com outra medida tutelar educativa
(artigo 19.º, n.º 2, da LTE).
166 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

pecuniária em prestações. Para todos os efeitos, apenas pode ser considerada,


para fixação do montante compensatório e para o montante das prestações, a
capacidade disponibilidade económica do jovem (artigo 11.º, n.º 3, da LTE). A
terceira modalidade não pode exceder dois dias por semana e três horas por
dia, devendo respeitar sempre o período de repouso e de frequência escolar do
jovem, bem como de outras actividades que o Tribunal entenda relevantes para
a formação da sua personalidade. Esta medida não pode exceder doze horas,
distribuídas, no máximo, durante quatro semanas (artigo 11.º, n.º 4 e 5, da
LTE). As segunda e terceira modalidades exigem sempre o consentimento do
ofendido (artigo 11.º, n.º 6, da LTE).

A medida tutelar de prestações económicas ou tarefas a favor da


comunidade concretiza-se na entrega, pelo jovem, de uma determinada quantia
pecuniária ou no exercício de uma actividade a favor de uma entidade, pública
ou privada, de fim não lucrativo, não podendo tal tarefa, contudo, exceder um
total de sessenta horas, distribuídas por um período máximo de três meses.
Também no que diz respeito a esta medida tutelar educativa o montante
pecuniário pode ser pago em prestações, atendendo sempre à disponibilidade
financeira do jovem, e as tarefas têm de respeitar, por exemplo, o período de
repouso do jovem, bem como a frequência da escola e de outras actividades
de formação que o Tribunal considere importantes (artigo 12.º da LTE).

Se for aplicada medida de realização de prestações económicas ou


tarefas a favor da comunidade, o Tribunal fixa, na sua decisão, a modalidade
da medida, o montante e a forma de prestação ou a actividade, a sua duração
e forma de prestação; a entidade que acompanha a execução da medida ou a
entidade a quem deve ser prestada a medida tutelar. O Tribunal pode, no
entanto, deferir ao Instituto de Reinserção Social a definição da forma de
prestação da actividade (artigo 20.º da LTE).

A medida de imposição de regras de conduta visa criar ou fortalecer as


condições para que o jovem se comporte de forma adequada às normas e
valores essenciais da vida em comunidade. A lei enuncia algumas regras de
conduta que o Tribunal pode impor, a saber: “não frequentar certos meios,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 167

locais ou espectáculos”; “não acompanhar determinadas pessoas”; “não


consumir bebidas alcoólicas”; “não frequentar certos grupos ou associações”;
“não ter em seu poder certos objectos". Estas regras podem ser aplicadas por
um período máximo de dois anos, não podendo representar uma limitação
abusiva ou não razoável da autonomia de decisão e de condução de vida do
jovem (artigo 13.º da LTE).

A medida tutelar de imposição de obrigações visa o fomento do


aproveitamento escolar ou de formação profissional do jovem, bem como o
fortalecimento das condições psicobiológicas necessárias ao desenvolvimento
da sua personalidade, tendo a duração máxima de dois anos. Esta medida
pode consistir na imposição ao jovem de alguma das seguintes obrigações:
frequência de um estabelecimento de ensino, com controlo de assiduidade e
aproveitamento; frequência de um centro de formação profissional ou de uma
formação profissional; frequência de sessões de orientação em instituição
psicopedagógica e seguimento das orientações prescritas; frequência de
actividades de clubes ou associações juvenis; submissão a programas médicos
(por exemplo, médico-psiquiátricos), em instituição particular ou oficial, em
regime de internamento ou ambulatório. Estes programas direccionam-se,
nomeadamente, para o tratamento de casos de habituação alcoólica, consumo
habitual de estupefacientes, doença infecto-contagiosa ou sexualmente
transmissível ou anomalia psíquica, exigindo o consentimento do jovem,
quando tenha mais de 14 anos e idade (artigo 14.º da LTE).

A medida de frequência de programas formativos que se consubstancia


na participação do jovem em programas de ocupação de tempos livres, de
educação sexual, de educação rodoviária, de orientação psicopedagógica, de
despiste e orientação profissional, de aquisição de competências pessoais e
sociais, ou em programas desportivos. A duração máxima desta medida é de
seis meses, excepto quando o programa tenha uma duração maior, que não
pode, exceder, contudo, o máximo de um ano. Se o Tribunal considerar
relevante para a execução da medida pode, a título excepcional, decidir que o
168 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

jovem resida junto de pessoa idónea ou em instituição em regime aberto107, que


lhe forneça “o alojamento necessário para a frequência do programa” (artigo
15.º da LTE).

O acompanhamento educativo, por seu turno, concretiza-se na execução


de um projecto educativo pessoal (PEP), elaborado pelos serviços de
reinserção social e homologado pelo juiz, que abranja as áreas de intervenção
fixadas pelo Tribunal e tem a duração mínima de três meses e máxima de dois
anos (artigo 16.º, n.ºs 1, 3 e 5, da LTE). Segundo o disposto no artigo 16.º, n.º
2, da LTE, “o Tribunal pode impor ao menor sujeito a acompanhamento
educativo regras de conduta ou obrigações, bem como a frequência de
programas formativos”.

No que diz respeito à medida institucional – a medida de internamento –


consiste no afastamento temporário do jovem do seu meio habitual e na
utilização de programas e métodos pedagógicos, de forma a proporcionar ao
jovem “a interiorização de valores conformes ao direito e a aquisição de
recursos que lhe permitam, no futuro, conduzir a sua vida de modo social e
juridicamente responsável”. Esta medida é executada em Centro Educativo
próprio, de acordo com o regime de funcionamento e grau de abertura ao
exterior (artigo 17.º, n.º 1 e 2, da LTE).

Ao contrário das demais medidas tutelares previstas na Lei Tutelar


Educativa, as medidas de internamento em Centro Educativo em regime
semiaberto ou fechado possuem o seu âmbito de aplicação delimitado à prática
de determinado(s) facto(s) e, naquele último caso, pela idade do jovem. Assim,
a medida de internamento em regime semiaberto é aplicável ao jovem que
tenha praticado um “facto qualificado como crime contra as pessoas a que
corresponda pena máxima, abstractamente aplicável, de prisão superior a três
anos” ou que tenha “cometido dois ou mais factos qualificados como crimes a
que corresponda a pena máxima, abstractamente aplicável, superior a três
anos” (artigo 17.º, n.º 3, da LTE). Por seu lado, a medida de internamento em

107
Esta instituição não pode ser dependente do Ministério da Justiça.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 169

regime fechado só é aplicável quando cumulativamente se encontrem


preenchidos o seguintes pressupostos: “ter o menor cometido facto qualificado
como crime, a que corresponda pena máxima, abstractamente aplicável, de
prisão superior a cinco anos, ou ter cometido dois ou mais factos contra as
pessoas qualificados como crimes a que corresponda a pena máxima,
abstractamente aplicável, de prisão superior a três anos”; e “ter o menor idade
superior a 14 anos de idade à data da aplicação da medida” (artigo 17.º, n.º 4,
da LTE).

A Lei Tutelar Educativa fixou ainda a duração mínima e máxima das


medidas de internamento, fixando-a, no que diz respeito à medida de
internamento em regime aberto e semiaberto entre os três meses e os dois
anos, e no que respeita à medida de internamento em regime fechado, entre os
seis meses e os dois anos, podendo atingir os três anos de duração máxima,
quando o jovem tenha praticado um facto qualificado como crime, a que
corresponda a pena máxima abstractamente aplicável superior a oito anos, ou
tenha cometido dois ou mais crimes contra as pessoas a que corresponda a
pena máxima abstractamente aplicável superior a cinco anos (artigo 18.º da
LTE).

Com a entrada em vigor da Lei Tutelar Educativa passou a vigorar o


princípio da duração determinada das medidas tutelares, ao contrário do que
ocorria no regime anterior, dado que no âmbito da Organização Tutelar de
Menores vigorava o princípio da duração relativamente indeterminada das
medidas tutelares de protecção. No que diz especificamente respeito à medida
de internamento em Centro Educativo, a determinação da medida
concretamente aplicável encontra outra baliza, para além do princípio da
proporcionalidade – o da limitação da duração da medida de internamento em
Centro Educativo ao limite máximo da pena de prisão prevista para o crime
correspondente ao facto (artigo 7.º da LTE).
170 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

7. 7. O Processo Tutelar Educativo: suas fases

Como se defende na Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º


266/VII, “a primeira nota que ressalta do modelo [processual] adoptado é a sua
semelhança com o processo penal”, servindo o processo penal “de fonte ao
processo tutelar por constituir um ordenamento que realiza de forma
particularmente activa as garantias constitucionais da pessoa em face de
pretensões de intervenção do Estado na esfera dos direitos fundamentais”108.

O processo tutelar educativo é, assim, à semelhança do processo penal,


constituído por duas fases ou momentos principais109, que, nas palavras de
Eliana Gersão, se pautam por “um grau máximo de informalidade, consenso e
discrição” (1997: 150).

A primeira fase – a fase de inquérito –, dirigida pelo Ministério Público110,


inicia-se, por determinação daquele, com a notícia do facto111. Nesta fase,
incumbe ao Ministério Público, assistido por órgãos de polícia criminal e por
serviços de reinserção social, investigar a prática do facto e determinar a
necessidade de educação do jovem para o direito, visando a decisão sobre a
aplicação de medida tutelar (artigo 75.º, n.º 2, da Lei Tutelar Educativa). Esta
fase deverá ter a duração máxima de três meses, prorrogáveis por mais três,
em casos de especial complexidade (cf. artigo 75.º, n.º 3, da LTE). A fase de
inquérito é encerrada pelo Ministério Público com o arquivamento ou com um
requerimento de abertura de fase jurisdicional, quando se entenda que o
processo deve prosseguir (artigos 86.º e 89.º da LTE).

108
Rui do Carmo Fernando indica, no âmbito do inquérito, algumas diferenças e
especificidades relativamente ao processo penal: a prova; o reforço do princípio da imediação
(nomeadamente através da presença obrigatória do juiz), a cooperação das entidades de
mediação (a elaboração e execução do plano de conduta do jovem), a existência de uma
ampla fase de contraditório (relativamente aos factos e à personalidade do jovem) (2000: 126 e
ss.).
Outro elemento relevante consiste no facto de o processo ser secreto até ao despacho que
designar data para audiência (artigo 41.º).
109
Como diferença fundamental de estrutura entre o processo penal e o processo tutelar
educativo destaca-se, desde logo, a ausência, neste último, da fase facultativa de instrução.
110
Artigo 40.º, n.º 1, al. a), da LTE.
111
Artigo 74.º da LTE.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 171

A segunda fase – a fase jurisdicional – é dirigida pelo juiz e compreende a


comprovação judicial dos factos, a avaliação da necessidade de aplicação de
medida tutelar, a determinação da medida tutelar e a sua execução (artigo 92.º
da LTE).

Por último, o processo tutelar educativo pode comportar uma facultativa


fase – a fase de recurso – e uma fase eventual – a fase de execução da
medida tutelar –, caso haja lugar à aplicação de uma medida tutelar educativa.

7. 7. 1. A fase de inquérito

Como se referiu supra, o processo tutelar educativo inicia-se com a


abertura de inquérito, logo que o Ministério Público tenha notícia do facto. A
denúncia pode ser realizada por qualquer pessoa, ao Ministério Público ou a
um órgão de polícia criminal112, sem que haja lugar a qualquer formalismo,
devendo, se possível, indicar os meios de prova (artigo 72.º, n.º 1 e 3, da LTE).
Contudo, relativamente a factos qualificados como crime cujo procedimento
dependa de queixa ou acusação particular, só tem legitimidade para apresentar
a denúncia o ofendido (artigo 72.º, n.º 2, da LTE)113.

Fora daqueles casos, a denúncia é obrigatória para os órgãos de polícia


criminal e para os funcionários públicos, estes últimos relativamente a factos
que tenham tido conhecimento no exercício das suas funções (artigo 73.º, n.º 1,
da LTE).

As denúncias apresentadas aos órgãos de polícia criminal deverão ser


acompanhadas dos dados disponíveis sobre a conduta do jovem e a sua
situação familiar, educativa e social (artigo 73.º, n.º 2, da LTE).

Durante o inquérito, o Ministério Público pode pedir a colaboração dos


órgãos de polícia criminal – em especial quanto aos factos – e dos serviços de

112
Segundo o disposto no artigo 72.º, n.º 4, da LTE, “a denúncia apresentada a órgão de
polícia criminal é transmitida, no mais curto prazo, ao Ministério Público”.
113
Nos termos do artigo 113.º, n.º 1, do Código Penal, considera-se ofendido “o titular dos
interesses que a lei especialmente quis proteger com a incriminação”.
172 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

reinserção social – quanto à conduta, personalidade e inserção familiar,


educativa e sócio-económica do jovem (artigo 75.º, n.º 1 e 3, da LTE)114. A
solicitação de qualquer tipo de informação pode, também, ser feita a quaisquer
serviços públicos ou privados (artigo 76.º da LTE).

O artigo 77.º, n.º 1, da Lei Tutelar Educativa estabelece que após a


abertura do inquérito, o Ministério Público deve ouvir o jovem, no mais curto
espaço de tempo. Contudo, o n.º 2 deste dispositivo legal esclarece que a
audição do jovem “(...) pode ser dispensada quando for caso de arquivamento
liminar e pode ser adiada no interesse do menor”.

A audição do jovem, no actual regime jurídico, apenas pode ocorrer


perante autoridade judiciária, podendo ser designado um técnico que o
acompanhe e lhe dê o adequado apoio psicológico (artigo 47.º da LTE). A
audição perante autoridade judiciária é erigida em direito do jovem, figurando
entre o catálogo, meramente exemplificativo, de direitos constante do artigo
45.º da LTE. Outro dos direitos do jovem – contrariamente ao previsto na
Organização Tutelar de Menores – é ser assistido por defensor em todos os
seus actos processuais (artigo 45.º, n.º 2, al. e), da LTE).

A Lei Tutelar Educativa conferiu grande relevo à assistência jurídica do


jovem, prevendo não só a possibilidade de o jovem, os seus pais,
representantes legais ou pessoa que tenha a sua guarda de facto constituírem
advogado ou requererem a nomeação de defensor a todo o tempo, como
impôs a obrigatoriedade de nomeação de defensor, no caso de ainda não ter
sido constituído nenhum, pela autoridade judiciária “no despacho que

114
Segundo o disposto no artigo 75.º, n.º 3, a assistência dos serviços de reinserção social ao
Ministério Público durante a fase de inquérito tem por objecto a realização de informação e
relatório social, que constituem meios de obtenção da prova. Nos termos do artigo 71.º da LTE,
tanto a informação como o relatório social “têm por finalidade auxiliar a autoridade judiciária no
conhecimento da personalidade do jovem, incluída a sua conduta e inserção sócio-económica,
educativa e familiar” (artigo 71.º, n.º 2, da LTE). Aquela é solicitada quer aos serviços de
reinserção social quer a outros serviços públicos ou privados, “devendo ser apresentada no
prazo de 15 dias” (artigo 71.º, n.º 3, da LTE). O relatório social, por outro lado, é solicitado aos
serviços de reinserção social, “devendo ser apresentado no prazo máximo de 30 dias”,
podendo “solicitar-se a sua actualização ou informação complementar e ouvir-se, em
esclarecimentos e sem ajuramentação, os técnicos que o subscreveram” (artigo 71.º, n.º 4, da
LTE).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 173

determine a audição ou detenção do menor” (artigo 46.º, n.º 1 e 2, da LTE). O


defensor do jovem deverá ainda ser, sempre que possível, advogado, e no
caso de ser nomeado, a escolha “deve recair preferencialmente entre
advogados com formação especializada, segundo lista a elaborar pela Ordem
dos Advogados” (artigo 46.º, n.ºs 3 e 4, da LTE).

Para além da audição do jovem – acto obrigatório, salvo nas situações


acima identificadas – o Ministério Público, na fase de inquérito, deverá
promover todas as diligências que tiver por convenientes de forma a prover às
finalidades do processo, definindo, de acordo com critérios de conveniência, a
ordem dos actos de inquérito e indeferindo os “(...) actos que não interessem à
finalidade do inquérito ou sirvam apenas para protelar o andamento do
processo” (artigo 80.º da LTE).

Um dos actos de inquérito facultativos é a sessão conjunta de prova, que


“tem por objectivo examinar contraditoriamente os indícios recolhidos e as
circunstâncias relativas à personalidade do menor e à sua inserção familiar,
educativa e social, com a finalidade de fundamentar a suspensão do processo
ou o despacho final” (artigo 81.º da LTE).

A sessão conjunta de prova realizar-se-á com a presença obrigatória do


jovem e dos seus pais, representante legal ou quem tenha a sua guarda de
facto, podendo o Ministério Público determinar que o ofendido, os técnicos de
serviço social e de reinserção social, bem como outras pessoas, possam
também estar presentes, quando tal se mostre pertinente para as finalidades
do acto (artigo 82.º da LTE).

O Ministério Público pode, na fase de inquérito, suspender o processo,


quando se mostrem preenchidos quatro requisitos: a necessidade de medida
tutelar; que o facto qualificado pela lei como crime que seja punível com pena
de prisão não superior a cinco anos; apresentação pelo jovem de um plano de
conduta; e que o plano de conduta evidencie a vontade de evitar, no futuro, a
prática de factos qualificados pela lei como crime (artigo 84.º, n.º 1, da LTE).

O legislador indicou, de forma exemplificativa, em que pode consistir o


plano de conduta: “a) na apresentação de desculpas ao ofendido; b) no
174 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

ressarcimento, efectivo ou simbólico, total ou parcial, do dano, com dispêndio


de dinheiro de bolso ou com a prestação de uma actividade a favor do ofendido
(...); c) na consecução de certos objectivos de formação pessoal nas áreas
escolar, profissional ou de ocupação de tempos livres; d) na execução de
prestações económicas ou tarefas a favor da comunidade (...); e) na não
frequência de determinados lugares ou no afastamento de certas redes de
companhia” (artigo 84.º, n.º 4, da LTE).

O plano de conduta a apresentar pelo jovem pode ser elaborado em


cooperação com os serviços de mediação, podendo estes colaborar ainda na
sua execução (artigo 84.º, n.º 3, da LTE).

A suspensão do processo tem a duração máxima de um ano (artigo 84.º,


n.º 6, da LTE). Se durante o período de execução o jovem cumprir o plano de
conduta, o processo é arquivado. Se, pelo contrário, o plano não for cumprido o
Ministério Público determina o prosseguimento dos autos, com a promoção das
diligências a que houver lugar. É determinado o prosseguimento dos autos,
ainda, nos casos em que seja recebida denúncia, durante o período de
suspensão, da prática de facto qualificado como crime pela lei. Nestes casos, a
denúncia é junta aos autos e o inquérito prossegue, alargando-se o seu objecto
aos factos novos (artigo 85.º da LTE).

A fase de inquérito termina com um despacho de arquivamento ou com


um requerimento de abertura de fase jurisdicional (artigo 86.º da LTE).

O Ministério Público pode pôr termo ao processo tutelar na fase do


inquérito, através do arquivamento liminar, nos casos de crimes de pequena
gravidade – puníveis com pena de prisão de máximo não superior a 1 ano – e
quando se mostrar, perante informação sobre a conduta anterior do jovem e a
sua situação sócio-educativa e familiar, “desnecessária a aplicação de medida
tutelar face à reduzida gravidade dos factos, à conduta anterior e posterior do
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 175

menor e à sua inserção familiar, educativa e social”115 (artigo 78.º, n.º 1, da


LTE).

Para além do arquivamento liminar, que pode ser determinado antes


mesmo da audição do jovem, prescindindo-se dela com base nas informações
recolhidas sobre o jovem, o Ministério Público arquiva o inquérito nos seguintes
casos: quando conclua pela inexistência do facto; pela insuficiência de indícios
da prática do facto; ou quando conclua pela desnecessidade de aplicação de
medida tutelar, desde que o facto qualificado como crime seja punível com
pena de prisão de máximo não superior a três anos (artigo 87.º, n.º 1, da LTE).

Como se referiu supra, o processo tutelar educativo não prevê uma fase
semelhante à fase de instrução no processo penal. No entanto, à semelhança
daquele direito adjectivo, prevê a possibilidade de intervenção do superior
hierárquico do Ministério Público, no sentido de, “no prazo de 30 dias contado
da notificação do despacho de arquivamento, determinar o prosseguimento
dos autos, indicando as diligências ou a sequência a observar” (artigo 88.º da
LTE). Como referem Anabela Rodrigues e Duarte-Fonseca “este preceito
introduz um meio de reapreciação hierárquica (...). A hierarquia pode
determinar que as investigações prossigam – indicando as diligências a
efectuar – ou determinar que o Ministério Público formule o requerimento para
abertura da fase jurisdicional” (2000: 204).

Fora daqueles casos de arquivamento do inquérito, o Ministério Público


deve determinar o prosseguimento do processo, requerendo abertura da fase
jurisdicional (artigo 89.º da LTE). Para tal, deve apresentar requerimento que
contenha, nomeadamente, os seguintes elementos: a identificação do jovem; a

115
Antes da descriminalização do consumo, aquisição e detenção de estupefacientes para
consumo próprio operada pela Lei n.º 30/2000, de 29 de Novembro, que entrou em vigor em 1
de Julho de 2001, a LTE previa que se o facto qualificado pela lei como crime fosse de
consumo de estupefacientes ou substâncias psicotrópicas, o Ministério Público deveria arquivar
liminarmente o processo (artigo 78.º, n.º 2, da LTE). Como refere Rui do Carmo Fernando, “o
facto de o consumo, aquisição e detenção para consumo próprio de estupefacientes ou
substâncias psicotrópicas passarem a ser qualificados como contra-ordenação terá como
consequência a derrogação deste preceito da LTE, que apenas se continuará a aplicar no caso
de cultivo para consumo próprio. É que a inexistência do pressuposto prática de facto
qualificado pela lei como crime, deixa de ser legítimo o procedimento tutelar educativo baseado
apenas no perigo do seu cometimento” (2002: 133-134).
176 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

descrição dos factos e a sua qualificação jurídico criminal; a descrição da sua


anterior conduta e da sua condição familiar, educativa e social; a indicação da
medida a aplicar ou das razões porque se torna desnecessária e os meios de
prova (artigo 90.º da LTE).

O regime jurídico da Lei Tutelar Educativa optou pelo princípio da não


adesão ao pedido civil, devendo o mesmo ser “(...) deduzido em separado
perante o Tribunal competente”, nos termos do artigo 91.º da Lei Tutelar
Educativa.

7. 7. 2. A fase jurisdicional

O segundo momento do processo tutelar educativo – a fase jurisdicional –


inicia-se depois de requerida, pelo Ministério Público, a sua abertura. Nesta
fase, presidida pelo juiz, praticar-se-ão os actos necessários para a
“comprovação judicial dos factos”; “a avaliação da necessidade de aplicação de
medida tutelar”; “a determinação da medida tutelar”; e para “a execução da
medida tutelar” (artigo 92.º, da LTE)

Este segundo momento é sempre iniciado por um despacho inicial do juiz,


no qual, em primeiro lugar, verifica “se existem questões prévias que obstem
ao conhecimento da causa” (artigo 93.º, n.º 1, alínea a), da LTE). Neste acto, o
juiz pode pôr termo ao processo, designar dia para audiência preliminar, “se,
tendo sido requerida a aplicação de medida não institucional, a natureza e
gravidade dos factos, a urgência do caso ou a medida proposta justificarem
tratamento abreviado”, ou determinar o seu prosseguimento, notificando o
jovem, seus pais ou representante legal e defensor para no prazo de 10 dias,
requererem diligências ou indicarem os meios de prova a produzir em
audiência e para alegarem ou diferirem as alegações para audiência (artigo
93.º, n.ºs 1 e 2, da LTE).

Como já referimos supra, o Ministério Público, quando conclua pela


desnecessidade de aplicação de medida tutelar, só pode determinar o
arquivamento dos autos quando o facto seja qualificado como crime punível
com pena de prisão de máximo não superior a três anos. Nos restantes casos,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 177

ou seja, quando o facto seja qualificado pela lei como crime punível com pena
de prisão de máximo superior a três anos, está vedado ao Ministério Público
arquivar os autos, devendo requerer a abertura de fase jurisdicional, indicando
no respectivo requerimento “as razões por que se torna desnecessária” a
aplicação de medida tutelar (artigo 90.º, al. e), da LTE). Recebido o
requerimento de abertura da fase jurisdicional, o juiz, caso concorde com a
proposta do Ministério Público no sentido da desnecessidade de aplicação da
medida tutelar, arquiva, pondo, deste modo, termo ao processo (artigo 93.º, n.º
1, alínea b), da LTE).

Prosseguindo os autos, como já referimos, o processo pode seguir duas


formas distintas: uma forma tendencialmente mais célere, com a realização de
uma audiência preliminar, no termo da qual pode ser acordada a aplicação de
uma medida tutelar, e uma outra mais demorada.

Assim, nos casos em que o Ministério Público propõe no seu


requerimento para abertura da fase jurisdicional a aplicação de medida não
institucional e se justifique um tratamento abreviado do processo face à
natureza e gravidade dos factos, à urgência do caso ou à medida proposta, o
juiz designa dia para audiência preliminar, para a data mais próxima possível,
através de despacho onde devem constar, nomeadamente, a indicação dos
factos que são imputados ao jovem, os pressupostos de conduta e de
personalidade que justificam a aplicação de medida tutelar (artigo 94.º, n.ºs 1 e
3 da LTE).

O despacho que designa a data de realização de audiência preliminar é


notificado ao Ministério Público, ao jovem, seus representantes legais e seu
defensor, com a referência de que os meios de prova podem ser apresentadas
na audiência (artigo 94.º, n.ºs 1, 2, 5 e 6, da LTE). A audiência preliminar é
realizada com a presença obrigatória do Ministério Público e do defensor do
jovem, devendo ser convocadas para a mesma o jovem, os pais ou
representante legal, o ofendido ou qualquer outra pessoa quando a sua
presença se mostre necessária com vista a atingir as finalidades da audiência
(artigo 101.º, n.ºs 1 e 2, da LTE).
178 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

No caso de o jovem não comparecer à audiência, esta é adiada, e sendo


“necessário para assegurar a realização da audiência, o juiz emite mandados
de detenção do menor e determina as diligências necessárias para a realização
da audiência no mais curto prazo que não pode exceder doze horas” (artigos
102.º e 103.º, n.º 1, da LTE). No entanto, o juiz pode, oficiosamente ou a
requerimento, dispensar a presença do jovem em audiência, se for justificado
pelo interesse do jovem (artigo 101.º, n.º 3, da LTE).

O legislador revestiu-se de especiais cuidados na regulamentação da


audiência preliminar, dotando o seu regime de maleabilidade suficiente para a
adaptação às finalidades do processo e para a protecção dos interesses do
jovem. Assim, a título de exemplo, “o juiz pode determinar que a audiência
preliminar decorra fora das instalações do Tribunal, tendo em conta,
nomeadamente, a natureza e gravidade dos factos e a idade, personalidade e
condições físicas e psicológicas do menor” (artigo 96.º, n.º 1, da LTE), pode
restringir a “assistência do público ou determinar que a audiência preliminar
decorra com exclusão da publicidade” (artigo 97.º, n.º 1, da LTE), e “assegura
que a prova seja produzida de forma a não ferir a sensibilidade do menor ou de
outros menores envolvidos e que o decurso dos actos lhes seja acessível,
tendo em conta a sua idade e o seu grau de desenvolvimento intelectual e
psicológico”, podendo “determinar a assistência de médicos, de psicólogos, de
outros especialistas ou de pessoa da confiança do menor e determinar a
utilização dos meios técnicos ou processuais que lhe pareçam adequados”
(artigo 99.º da LTE). Em todo o processo deve ser utilizada uma linguagem que
o jovem entenda e devem ser adoptados os mecanismos para minimizar ao
máximo os inconvenientes trazidos com a produção da prova.

O jovem e os seus representantes legais são inquiridos pelo juiz, contudo


este pode autorizar o Ministério Público e o defensor a interrogarem
directamente os representantes legais do jovem, caso o solicitem e o interesse
deste o não desaconselhe (artigo 107.º, n.ºs 1 e 2, da LTE). As restantes
pessoas são inquiridas directamente pelo juiz, Ministério Público e defensor do
jovem (artigo 107.º, n.º 3, da LTE).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 179

Como se referiu, a audiência preliminar tem como objectivo um desfecho


mais expedito do processo, mas também é um espaço de procura de um
justiça consensual, durante o qual, caso o juiz não considere a medida
proposta pelo Ministério Público desproporcionada ou desadequada, procura
obter consenso na aplicação da mesma, ouvindo o jovem, os pais ou o
representante legal, o defensor e o ofendido (artigo 104.º, n.º 2, da LTE). Caso
não seja obtido o consenso procurado, abre-se uma nova tentativa de
consenso, podendo o juiz procurar consenso para uma outra medida não
institucional adequada, ou “determinar a intervenção de serviços de mediação
e suspender a audiência por prazo não superior a 30 dias” (artigo 104.º, n.º 3,
da LTE).

No caso de o juiz considerar “desproporcionada ou desadequada a


medida proposta pelo Ministério Público ou não existir consenso sobre ela”,
ordena a produção dos meios de prova apresentados. Após a sua produção, se
o juiz estiver na posse de todos os elementos necessários à prolação de
decisão, profere-a, fundamentando-a, com “enumeração dos factos provados e
não provados, indicação da sua qualificação e exposição (…) das razões que
justificam o arquivamento ou a aplicação da medida tutelar” (artigo 104.º, n.º 5,
e 110.º da LTE)116. Caso contrário, o juiz ordena o prosseguimento dos autos,
notificando o jovem, os pais ou representante legal e o defensor para, no prazo
de 10 dias, requererem as diligências que considerem pertinentes ou indicarem
os meios de prova a produzir em audiência, e para, no mesmo prazo, alegarem
ou diferirem alegação para audiência (artigos 104.º, n.º 5, alínea b), 115.º e
93.º, n.º 2, da LTE).

Assim, a audiência realizar-se-á em três situações: quando pelo Ministério


Público tenha sido proposta medida tutelar institucional; quando apesar de o
Ministério Público ter proposto uma medida não institucional, a natureza e
gravidade dos factos, a urgência do caso ou a medida proposta não justifiquem

116
A decisão deve conter obrigatoriamente, sob pena de nulidade, a designação das entidades
a quem é deferida a execução da medida tutelar e o seu acompanhamento (artigo 110.º, n.º 3,
al. b), e 111.º, al. a), da LTE.
180 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

um tratamento abreviado; ou quando, realizada a audiência preliminar, não se


tendo chegado a consenso quanto à medida a aplicar, e produzidas as provas,
o juiz entenda não estar na posse de todos os elementos necessários à
decisão final.

Deste modo, nos casos em que haja lugar a audiência, realizam-se as


diligências que se mostrem adequadas, designando-se posteriormente a data
de realização daquela, disso sendo notificado o jovem, os seus pais,
representante legal ou quem tenha a sua guarda de facto e o seu defensor117,
que podem, no prazo de 5 dias, indicar as testemunhas, peritos ou técnicos de
reinserção social e outros meios de prova (artigo 116.º, n.ºs 1, 2 e 5, da LTE).

No início da audiência, o juiz expõe as questões relevantes, em especial


as que se mostram controvertidas, produzindo-se, de seguida, os meios de
prova indicados e as complementares oferecidas pelo Ministério Público e pelo
defensor do jovem (artigo 117.º da LTE).

Após a realização da audiência, o Tribunal reúne-se para decidir,


competindo ao presidente voto de qualidade, bem como lavrar a decisão, que,
sempre que possível, é lida em acto contínuo à deliberação (artigo 118.º, n.ºs
1, 2 e 3, da LTE). Quando o Tribunal aplique medida de internamento, o
Tribunal deve indicar o respectivo regime de execução (artigo 118.º, n.º 4, da
LTE).

No que diz respeito a esta audiência o legislador teve as mesmas


preocupações de adaptabilidade e maleabilidade às finalidades do processo e
aos interesses do jovem, aplicando-se subsidiariamente as disposições
relativas à audiência preliminar (artigo 120.º da LTE).

Em regra, o Tribunal competente para a decisão no âmbito de processos


tutelares educativos é composto por um único juiz. No entanto, quando esteja
em causa a aplicação de medida tutelar de internamento, “o Tribunal é
constituído pelo juiz do processo, que preside, e por dois juízes sociais” (artigo

117
Os juízes sociais também são notificados deste despacho, juntamente com o requerimento
de abertura da fase jurisdicional, nos casos em que devam intervir (artigo 116.º, n.º 2, da LTE).
Sobre a intervenção dos juízes sociais no processo tutelar ver infra.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 181

30.º da LTE). Nestes casos, a deliberação é tomada por maioria (artigo 119.º,
n.º 1, da LTE).

Assim, e em síntese, podemos esquematizar em traços gerais da


seguinte forma os actos que compõem o processo tutelar educativo:

FASE DE INQUÉRITO

- Denúncia, acompanhada, se possível, de informação sobre a conduta anterior do


jovem e da sua situação sócio-familiar e educativa

- Abertura do Inquérito

- Audição do jovem

- Realização de diligências necessárias para investigar a existência do facto, para


determinar a necessidade de educação do jovem para o direito e para obtenção
dos meios de prova (designadamente, solicitação de informação e relatório social
sobre o jovem)

Suspensão do Requerimento de
Arquivamento Arquivamento
processo abertura de fase
Liminar
jurisdicional

Cumprimento do plano Não cumprimento do plano


de conduta de conduta
182 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

FASE JURISDICIONAL

Despacho inicial com verificação de questões prévias que haja de conhecer

Arquivamento Designação de Determinação do


audiência preliminar prosseguimento dos autos

Aceitação da
Audiência preliminar
proposta do
Ministério Público ou

Não aceitação da Juiz considera


proposta do desproporcionada
Ministério Público ou ou desadequada a Homologação da

de outra medida proposta do proposta do

Ministério Público Ministério Público


ou aplicação da
medida proposta
Mediação

Produção dos meios da


prova

Prosseguimento dos
autos

Audiência

Decisão final
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 183

Da aplicação de medidas tutelares educativas

Segundo o disposto no artigo 2.º, n.º 1, da LTE, as medidas tutelares


educativas têm como objectivo “a educação do menor para o direito e a sua
inserção, de forma digna e responsável, na vida em comunidade”.

A aplicação de uma medida tutelar educativa exige o preenchimento de


quatro requisitos: “que o menor não tenha completado 18 anos até à data da
decisão em 1.ª instância”; “que não tenha sido aplicada pena de prisão
efectiva, em processo penal, por crime praticado por menor com idade
compreendida entre os 16 e os 18 anos”; “a existência de uma ofensa a um
bem jurídico fundamental, ou seja, a prática de facto que a lei considera crime”;
“sendo a finalidade educar o menor para o direito e não a retribuição pelo
crime, só se aplicará medida tutelar se se concluir que aquele adolescente (…)
tem necessidade de ver corrigida a sua personalidade” (Martins, 2002: 107)118.

Assim, cumpridos estes pressupostos, será de aplicar uma medida tutelar


educativa, escolhida de entre as medidas taxativamente enunciadas na Lei
Tutelar Educativa com base no critério, fixado pelo artigo 6.º e 7.º, n.º 1, da
LTE, segundo o qual ao jovem deve(m) ser aplicada(s) a(s) medida(s)
tutelar(es) educativa(s) que represent(em) uma “menor intervenção na
autonomia de decisão e de condução de vida do menor” e que suscite(m) maior
adesão do jovem, dos seus pais, representante legal ou pessoa que tenha a
guarda de facto do jovem, devendo ser proporcionada(s) face à gravidade do(s)
facto(s) e à “necessidade de educação do menor para o direito manifestada na
prática do facto e subsistente no momento da decisão”. Assim, a Lei Tutelar
Educativa apresenta como princípios fundamentais de aplicação da medida
tutelar os princípios de adequabilidade, intervenção mínima, da adesão (dos
jovens e dos pais), da proporcionalidade e da legalidade.

118
Rui do Carmo Fernando refere, também, que “a aplicação de uma medida tutelar educativa
tem (…) como pressupostos: a prova da prática de um daqueles factos [qualificados pela lei
como crime]; a necessidade de educação do menor para o direito, subsistente no momento da
decisão; não ter o menor completado 18 anos até à data da decisão em 1ª instância; e,
relativamente a menor com idade compreendida entre os 16 e os 18 anos, não lhe ter sido
aplicada pena de prisão efectiva em processo penal (arts. 1.º, 7.º, n.º 1, 28.º, n.º 2, 87.º, n.º 1, e
110.º, n.º 2)” (2002: 122-123).
184 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Em homenagem àquele princípio da menor intervenção, o legislador


revestiu-se de especiais cautelas no que respeita à aplicação de uma medida
de internamento. Assim, exige-se a realização, pelos serviços de reinserção
social, de perícia sobre a personalidade do jovem, quando for de aplicar
medida de internamento em regime fechado (artigo 69.º da LTE), e de relatório
social com avaliação psicológica, quando for de aplicar medida de
internamento em regime aberto ou semiaberto (artigo 71.º, n.º 5, da LTE).

Segundo o disposto no artigo 19.º da LTE, que enuncia o princípio geral


da não cumulação de medidas tutelares educativas, por um mesmo facto não
pode ser aplicada, de forma cumulativa, ao mesmo jovem mais do que uma
medida tutelar educativa, com excepção do previsto para a medida de
acompanhamento educativo que pode comportar a imposição de regras de
conduta ou obrigações, assim como a frequência de programas formativos, e
para a medida de privação de conduzir ou de obter permissão para conduzir
ciclomotores, que pode ser cumulado com qualquer outra medida. Assim, a um
mesmo jovem, num dado processo tutelar educativo, podem ser aplicadas mais
do que uma medida tutelar, desde que tenha praticado mais do que um facto
qualificado pela lei como crime e tal se ache necessário para promover a
educação do jovem para o direito.

Nestes casos, quando haja aplicação de mais do que uma medida tutelar
educativa a um jovem, “o Tribunal determina o seu cumprimento simultâneo,
quando entender que as medidas são concretamente compatíveis”, ou, quando
assim não entenda, ouvido o Ministério Público, “substitui todas ou algumas
medidas por outras ou determina o seu cumprimento sucessivo”, não podendo,
no entanto, o tempo de duração total de cumprimento das medidas exceder o
“dobro do tempo de duração da medida mais grave aplicada” (artigo 8.º, n.ºs 1,
2 e 5, da LTE).

Para além de determinar o regime de execução das medidas tutelares, a


decisão que a(s) aplique deve determinar ainda qual a entidade responsável
pelo acompanhamento da execução da medida aplicada (artigos 110.º, n.º 3,
al. c) e 130.º da LTE). No que diz respeito à medida de prestações económicas
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 185

ou tarefas a favor da comunidade, o Tribunal determina, ainda, na decisão, o


conteúdo da mesma, definindo qual a modalidade da medida, o montante e a
forma da prestação pecuniária ou a actividade, duração e forma da sua
prestação, bem como a entidade que acompanha a execução ou a entidade
destinatária da prestação, conforme os casos (artigo 20.º da LTE). Também no
que concerne às medidas de imposição de obrigações, frequência de
programas formativos e acompanhamento educativo, o Tribunal define o seu
conteúdo concreto, podendo para tal “pedir aos serviços de reinserção social
informação sobre instituições ou entidades junto das quais o menor deve
cumprir a medida, respectivos programas horários, condições de frequência e
vagas disponíveis” (artigo 21.º, n.º 1, da LTE)119.

7. 7. 3. A fase de recurso

O processo tutelar educativo pode, ainda, comportar uma fase de recurso,


que pode ser ordinário ou extraordinário para fixação de jurisprudência ou de
revisão (artigos 121.º e 127.º da LTE).

Assim, a decisão proferida em primeira instância que “ponha termo ao


processo”, “aplique ou mantenha medida cautelar”, “aplique ou reveja medida
tutelar”, “recuse impedimento deduzido contra o juiz ou Ministério Público”,
“condene no pagamento de quaisquer importâncias” ou “afecte direitos
pessoais ou patrimoniais do menor ou de terceiro”, pode ser objecto de recurso
ordinário, interposto para o Tribunal da Relação – última instância de recurso
que decide de direito e de facto –, pelo Ministério Público, pelo jovem, seus
pais, representante legal ou quem tenha a guarda de facto, ou por “qualquer
pessoa que tiver a defender direito afectado pela decisão” (artigos 121.º e 123.º
da LTE).

O regime de recurso consagrado na Lei Tutelar Educativa é dotado de


especial celeridade, devendo o mesmo ser interposto no prazo de 5 dias. Os

119
Os serviços de reinserção social devem prestar estas informações ao Tribunal num prazo
máximo de 20 dias (artigo 21.º, n.º 2, da LTE).
186 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

recursos interpostos de decisões que apliquem ou mantenham medidas


cautelares devem ser julgados no prazo máximo de 15 dias (artigos 122.º e
125º, n.º 2, da LTE).

Como se referiu, para além do recurso ordinário, o legislador português


admitiu os recursos extraordinários para fixação de jurisprudência e de revisão,
aplicando-se, subsidiariamente, o regime consagrado para aqueles recursos no
Código de Processo Penal (artigos 127.º e 128.º, n.º 1, da LTE)120.

7. 7. 4. A fase de execução das medidas tutelares educativas

A fase de execução da(s) medida(s) tutelar(es) educativa(s)


concretamente aplicada(s) inicia-se após o trânsito em julgado da decisão final
que a(s) aplique (artigo 129.º da LTE), competindo ao Tribunal que as aplicou
(artigo 38.º da LTE). A lei consagrou o princípio da jurisdicionalização da
execução das medidas tutelares (artigo 28.º, n.º 1, alínea c), e 39.º da LTE),
atribuindo ao juiz uma série de competências fiscalizadoras e participativas
durante a execução das medidas aplicadas, nomeadamente, “ordenar os
procedimentos que considere adequados face a ocorrências que comprometam
a execução a execução e que sejam levadas ao seu conhecimento”,
“acompanhar a evolução do processo educativo do menor através dos
relatórios de execução das medidas”, “decidir sobre os pedidos e queixas
apresentados sobre quaisquer circunstâncias da execução das medidas
susceptíveis de pôr em causa os direitos dos menores” e “realizar visitas aos
centros educativos e contactar com os menores internados”. Acresce que,

120
O recurso extraordinário para fixação de jurisprudência é admitido quando, no domínio da
mesma legislação, forem proferidos dois acórdãos de tribunais superiores que estejam em
oposição. Assim, o fundamento do recurso será, somente, a oposição com acórdão
anteriormente transitado em julgado (artigo 437.º do Código de Processo Penal). O recurso
extraordinário de revisão tem como fundamento a existência de factos ou circunstâncias
supervenientes ao momento da prolação da sentença e do trânsito em julgado, como, por
exemplo, a existência de uma outra sentença que tenha considerado falsos os meios de prova
determinantes para a decisão, que tenha provado crime cometido por juiz ou jurado e
relacionado com o exercício da sua função no processo, a descoberta de factos novos que, de
per si ou combinados com os apreciados no processo, suscitem graves dúvidas sobre a justiça
da condenação (artigo 449.º do Código de Processo Penal).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 187

qualquer decisão tomada durante a fase de execução que imponha ao jovem


restrições superiores às decorrentes da decisão judicial, constitui objecto de
recurso, que será decidido, em último grau, pelo juiz do Tribunal competente
para a execução (artigo 134.º da LTE).

De modo a permitir o acompanhamento pelo Tribunal da execução das


medidas tutelares aplicadas, as entidades escolhidas para assegurar a
execução têm o dever de informar o Tribunal, periodicamente, sobre a
execução da medida, a evolução do processo educativo do jovem e todas as
circunstâncias susceptíveis de fundamentar a revisão da medida aplicada
(artigo 131.º, n.º 1, da LTE).

Como se referiu anteriormente, ao jovem pode ser aplicada mais do que


uma medida tutelar educativa, que podem ser executadas, se assim for
determinado pelo Tribunal, sucessivamente. Nestes casos, o Tribunal fixa a
ordem pela qual deverão ser executadas as medidas. No entanto, o legislador
fixa como regra a execução por ordem decrescente do grau de gravidade121,
admitindo excepções quando o Tribunal entenda que “a execução prévia de
uma determinada medida favorece a execução de outra aplicada” ou que “a
situação concreta e o interesse do menor aconselham execução segundo
ordem diferente” (artigo 133.º, n.º 1 e 2, da LTE).

A Lei Tutelar Educativa regula com mais pormenor a execução da medida


de acompanhamento educativo e de internamento em Centro Educativo. Para
estes casos, é organizado um único dossier (dossier individual), que
acompanha o jovem sempre que haja transferência ou mudança de Centro
Educativo, e onde consta toda a informação sobre o educando. Este dossier é

121
O legislador fixou o critério a atender para a determinação da hierarquia do grau de
gravidade das medidas tutelares educativas. Assim, segundo o disposto no artigo 133.º, n.º 3 e
4, da LTE, consideram-se, por um lado, mais graves as medidas institucionais relativamente às
não institucionais, sendo que de entre aquelas são mais graves as medidas institucionais com
regime mais restritivo. Por outro lado, a hierarquia entre as medidas não institucionais
estabelece-se pela “ordem crescente da sua enumeração no n.º 1 do artigo 4.º, e relativamente
às modalidades de cada uma, pelo grau de limitação que, em concreto, impliquem na
autonomia de decisão e de condução de vida do menor”.
188 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

obrigatoriamente destruído logo que sejam decorridos cinco anos após o jovem
perfazer vinte e um anos de idade(artigo 132.º da LTE).

No que diz especificamente respeito à medida de acompanhamento


educativo, o Tribunal deve enviar ao Instituto de Reinserção Social, no prazo
de três dias após o trânsito em julgado, cópia de todos os elementos essenciais
à sua execução. Perante tais elementos, esta entidade procederá, no prazo de
30 dias, à elaboração do projecto educativo pessoal do jovem – que deverá,
sempre que possível, envolver a participação do jovem e seus representantes –
e, após isso, enviá-lo-á ao Tribunal, para homologação (artigo 142.º da LTE).

Relativamente à medida de internamento em Centro Educativo, são os


serviços de reinserção que têm competência para a definição do Centro
Educativo onde a mesma irá ser executada, tendo em atenção as
necessidades educativas do jovem e a proximidade do Centro Educativo com a
sua residência. Para tal, o Tribunal deve, no prazo de três dias a contar do
trânsito em julgado da decisão, remeter àqueles serviços cópia da decisão,
bem como de todos os elementos necessários a uma correcta avaliação da
situação que se encontrem no processo, designadamente, relatórios sociais,
com avaliação psicológica e perícias sobre a personalidade do jovem. Num
prazo máximo de cinco dias a contar da recepção destes documentos, os
serviços de reinserção social devem informar o Tribunal do Centro Educativo
escolhido (artigo 150.º, n.º 1, 2 e 3, da LTE).

O legislador fixou duas situações diferentes para a apresentação do


jovem no Centro Educativo, atendendo ao regime de execução da medida de
internamento. Assim, se ao jovem tiver sido aplicado medida de internamento
em regime fechado, o mesmo é conduzido ao Centro Educativo por entidades
policiais, munidas de mandados de condução emitidos pelo Tribunal para o
efeito. Caso contrário, se ao jovem tiver sido aplicada medida de internamento
em regime semiaberto ou aberto, incumbe aos pais ou representante legal a
apresentação do jovem no Centro Educativo, recorrendo-se à intervenção das
entidades policiais somente quando o jovem não se apresente voluntariamente
por causa a si imputável ou ao seu representante (artigo 151.º da LTE).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 189

Segundo o disposto no artigo 162.º da LTE, “cada Centro Educativo


dispõe de projecto de intervenção educativa próprio que deve, sempre que
possível, permitir a programação faseada e progressiva da intervenção,
diferenciando os objectivos a realizar em cada fase e o respectivo sistema de
reforços positivos e negativos”. Após a admissão de um jovem em Centro
Educativo, é elaborado, no prazo máximo de 30 dias, um projecto educativo
pessoal, tendo em atenção “o regime e duração da medida, bem como as suas
particulares motivações, necessidades educativas e de reinserção social”, que
deve especificar “os objectivos a alcançar durante o tratamento, sua duração,
fases, prazos e meios de realização”. Elaborado o projecto educativo pessoal,
este é enviado ao Tribunal para homologação, no prazo máximo de 45 dias
após a admissão do jovem (artigo 164.º da LTE).

Durante a execução da medida de internamento, o Tribunal é informado,


periodicamente, da execução da medida e da evolução do processo educativo
do jovem. Para tal, o director do Centro Educativo elabora relatórios trimestrais,
no caso de medidas de duração de seis meses a um ano, e semestrais, no
caso de medidas de duração superior a um ano. Quinze dias antes da
cessação da medida tutelar, deve, ainda, enviar ao Tribunal relatório final da
execução da mesma (artigo 154.º da LTE).

O Tribunal é, ainda, informado da ausência não autorizada do jovem do


Centro Educativo, que determina a suspensão da execução da mesma, não
contando para a determinação da sua duração o tempo de ausência do jovem
(artigo 155.º da LTE).

A medida de internamento cessa com a comunicação do Tribunal ao


director do Centro Educativo da sua cessação, na data prevista de acordo com
a decisão que a aplicou (cf. artigo 158.º da LTE).

A revisão das medidas tutelares educativas

A Lei Tutelar Educativa consagra que as medidas tutelares devem ser


revistas sempre que se verifique, por um lado, impossibilidade superveniente
da sua execução por facto não imputável ao jovem; onerosidade excessiva
190 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

superveniente da execução da medida aplicada; desajustamento da medida ao


jovem, no decurso da sua execução, de forma a que se frustrem
manifestamente os seus fins; desnecessidade da continuação da execução por
força dos progressos educativos alcançados pelo jovem (artigo 136.º, n.º 1, al.
a) a d), da LTE). Nestas situações, e tratando-se de execução de medidas não
institucionais, o Tribunal pode: manter a medida aplicada; substituir a medida
aplicada por outra mais adequada, “igualmente não institucional, desde que tal
não represente para o menor uma maior limitação na sua autonomia de
decisão e de condução da sua vida”; reduzir a duração da medida aplicada; ou
pôr termo à medida (artigo 138.º, n.º 1, da LTE). Quando se trate de revisão de
medida de internamento, o juiz pode: “manter a medida aplicada”; “reduzir a
duração da medida”; “modificar o regime da sua execução, estabelecendo um
regime mais aberto”; “substituir a medida de internamento por qualquer medida
não institucional, por tempo igual ou inferior ao que falte cumprir”; “suspender a
execução da medida, por tempo igual ou inferior ao que falte para o seu
cumprimento, sob condição de o menor não voltar a praticar qualquer facto
qualificado como crime”; ou “pôr termo à medida aplicada, declarando-a
extinta” (artigo 139.º, n.º 1, da LTE).

Por outro lado, as medidas tutelares aplicadas devem, ainda, ser revistas
quando ocorra um outro conjunto de situações, a saber: colocação intencional
por parte do jovem em situação de impossibilidade de cumprimento da medida;
violação, de modo grosseiro ou persistente, pelo jovem dos deveres inerentes
ao cumprimento da medida; ou cometimento pelo jovem com idade superior a
16 anos de infracção criminal (artigo 136.º, n.º 1, al. e) a g) da LTE). Nestes
casos – com excepção do último enunciado –, quando se trate de revisão de
medidas não institucionais, o juiz pode: “advertir solenemente o menor para a
gravidade da sua conduta e para as eventuais consequências daí decorrentes”;
“modificar as condições da execução da medida”; “substituir a medida por outra
mais adequada, igualmente não institucional, mesmo que tal represente para o
menor uma maior limitação na sua autonomia de decisão e de condução da
sua vida”; ou “ordenar o internamento em regime semiaberto, por período de
um a quatro fins-de-semana” (artigo 138.º, n.º 2, da LTE). Quando se trate de
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 191

revisão de medida institucional, o juiz pode: “advertir solenemente o menor


para a gravidade da sua conduta e para as eventuais consequências daí
decorrentes”; “prorrogar a medida aplicada, sem alteração do respectivo
regime, por um período até um sexto da sua duração, nunca excedendo o
limite máximo legal de duração previsto”; “modificar o regime de execução,
substituindo-o por outro de grau imediatamente mais restritivo, pelo tempo que
falte cumprir”, desde que a aplicação da medida de internamento resulte da
prática pelo jovem de facto(s) qualificado(s) pela lei como crime a que possa
ser aplicada um medida de internamento em regime semiaberto ou fechado,
conforme os casos (artigo 139.º, n.ºs 2 e 3, da LTE).

A medida tutelar aplicada deve, ainda, ser obrigatoriamente revista, “para


efeitos de avaliação da necessidade da sua execução” nos seguintes casos:
aplicação de medida institucional ou não institucional a jovem maior de 16 anos
que esteja a cumprir pena de internamento em centro de detenção, pena de
colocação por dias livres em centro de detenção ou pena de colocação em
centro de detenção em regime de semi-internato; aplicação de pena de
internamento em centro de detenção, pena de colocação por dias livres em
centro de detenção ou pena de colocação em centro de detenção em regime
de semi-internato a jovem maior de 16 anos que esteja a cumprir medida
tutelar institucional; aplicação de prisão preventiva a jovem maior de 16 anos
que esteja a cumprir medida tutelar de internamento; e absolvição do jovem
maior de 16 anos em processo penal sujeito a prisão preventiva, a quem foi
aplicada medida tutelar de internamento (artigo 136.º, n.º 2, 25.º, e 27.º, n.º 6,
da LTE).

O legislador fixou, ainda, a obrigatoriedade de revisão da medida tutelar,


oficiosamente, decorrido um ano do início da sua execução, da anterior
revisão, ou da aplicação da medida, nos casos em que a sua execução não se
iniciou imediatamente, assim que forem cumpridos os mandados de condução
do jovem ao local que o Tribunal tiver determinado (artigo 137.º, n.º 2, da LTE).
Para as medidas de internamento em regime semiaberto e fechado, o
legislador estabeleceu prazos mais curtos de revisão obrigatória das medidas.
192 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Assim, o Tribunal deve proceder à sua revisão seis meses após o início da
execução ou a anterior revisão (artigo 137.º, n.º 4, da LTE).

A revisão das medidas tutelares pode, ainda, ter lugar a requerimento do


Ministério Público, do jovem, dos pais ou representantes legais, do defensor do
jovem, mediante proposta dos serviços de reinserção social ou, oficiosamente,
a qualquer momento (artigo 137.º, n.º 1, da LTE).

8. O Decreto-Lei n.º 323-D/2000, de 20 de Dezembro: o Regulamento Geral


e Disciplinar dos Centros Educativos

A Lei Tutelar Educativa remete a regulamentação de algumas matérias


para o Regulamento Geral dos Centros Educativos (a título de exemplo,
veja-se, artigo 144.º, n.º 2, e 185.º, n.º 1, da LTE). O Regulamento Geral e
Disciplinar dos Centros Educativos (RGDCE), aprovado pelo Decreto-Lei n.º
323-D/2000, de 20 de Dezembro, que entrou em vigor na mesma data da
entrada em vigor da LTE, regulamenta dois conjuntos de questões. Por um
lado, este diploma regula minuciosamente a organização, competência e
funcionamento dos centros educativos. Por outro, consagra o regime disciplinar
a que a que os jovens internados em centros educativos estão sujeitos.

Como se refere no preâmbulo do RGDCE, “a importância desta


regulamentação foi realçada pelo legislador, ao fazer depender da sua entrada
em vigor o início da vigência das leis que marcam a reforma dos direito de
menores: Lei Tutelar Educativa, aprovada pela Lei n.º 166/99, de 14 de
Setembro, e Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, aprovada pela
Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro”.

Nos termos deste diploma, o internamento em Centro Educativo tem


como finalidade “proporcionar ao educando, por via do afastamento temporário
do seu meio habitual e da utilização de programas e métodos pedagógicos, a
interiorização de valores conformes ao direito e a aquisição de recursos que lhe
permitam, no futuro, conduzir a sua vida de modo social e juridicamente
responsável” (artigo 1.º, n.º 1, do RGDCE), sem, no entanto lhe retirar a sua
qualidade de titular de direitos e deveres (artigo 2.º, n.º 1, do RGDCE). Para
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 193

além destes valores, o centro tem o dever de defender a ordem e a paz social
(artigo 1.º, n.º 2, do RGDCE).

Assim, toda a actuação do Centro Educativo, quer a nível de programas,


quer a nível de métodos pedagógicos e terapêuticos, está subordinada ao
princípio da adequação, que terá em consideração a finalidade e a duração do
internamento e as necessidades do jovem (artigo 2.º, n.º 2, do RGDCE).

O Centro Educativo deve disponibilizar, logo que possível, ao educando


“informação completa e esclarecedora sobre os seus direitos e deveres,
incluindo as formas do seu exercício e as consequências do incumprimento dos
deveres” (artigo 5.º, n.º 1, do RGDCE). Essa mesma informação deve também
ser fornecida aos seus representantes legais, aos quais cabe, por seu lado, um
dever de colaboração com o Centro Educativo, devendo, assim,
designadamente: apresentar o educando no Centro Educativo na data e hora
fixadas pelo Tribunal para o cumprimento da medida; ajudar o educando a
compreender e a aceitar a decisão judicial e demais normas e regulamentos;
prestar todas as informações que lhe forem solicitadas pelo Centro; avisar o
Centro de todas as circunstâncias que se mostrem relevantes para o processo
educativo, saúde e estabilidade do educando; cumprir as normas relativas a
visitas e contactos com o educando; colaborar com o Centro durante o período
das saídas autorizadas e na recondução do educando quando este esteja
ausente sem autorização; e responsabilizar-se por eventuais danos ocorridos
durante as saídas (artigo 7º do RGDCE).

Os centros educativos são estabelecimentos inseridos na orgânica do


Instituto de Reinserção Social, competindo-lhes, nos termos dos artigos 8.º, n.º
2, e 9.º, executar a medida de internamento; executar a medida cautelar de
guarda em Centro Educativo; internar para a realização de perícia sobre a
personalidade, quando compete aos serviços de reinserção social; cumprir a
detenção; internar em fins-de-semana; e executar as decisões judiciais através
de desenvolvimento de métodos e programas adequados.

Os centros educativos classificam-se em abertos, semiabertos ou


fechados, consoante o regime de execução das medidas de internamento e
194 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

grau de abertura ao exterior. Podem, ainda, classificar-se em especiais, se se


destinarem a desenvolver projectos de intervenção educativa e terapêutica
destinados a grupos especiais de educandos (saúde ou comportamento
delinquente). No mesmo Centro Educativo podem coexistir diferentes unidades
residenciais (artigo 10.º do RGDCE).

A execução dos internamentos em regime aberto ou semiaberto pode ser


realizada por entidades particulares sem fins lucrativos, desde que celebrados
os respectivos acordos de cooperação com o Instituto de Reinserção Social.
No entanto, nestes casos, o IRS mantém a responsabilidade no
acompanhamento da execução da medida, designadamente afectando uma
equipa técnica (artigo 8º, n.ºs 3 e 4, do RGDCE).

Cada Centro Educativo tem, ainda, uma lotação máxima, que será fixada
no acto da sua criação, tendo em conta as condições físicas, os meios
humanos disponíveis, e o regime de execução a que se destina. Assim,
segundo o disposto no artigo 11.º, n.º 2, do RGDCE, as unidades residenciais
de regime aberto não podem exceder os 14 lugares, as de regime semiaberto
12, e as de regime fechado, bem como as unidades especiais, não podem
exceder o número de 10 lugares.

O regime de execução é fixado pelo Tribunal e diferencia-se pelo grau de


limitação da liberdade e da autonomia dos educandos, como, por exemplo,
com o seu meio exterior (artigo 12.º, n.º 1, do RGDCE). A intervenção dentro
de cada regime ocorre por fases progressivas ”as quais são definidas no
projecto de intervenção educativa de cada centro e possibilitam ao educando,
de acordo com o grau de cumprimento do seu projecto educativo pessoal,
adquirir maior liberdade e autonomia” (artigo 12.º, n.º 2, do RGDCE).

Caso o educando não cumpra os objectivos que lhe foram definidos, pode
regredir dentro do mesmo regime ou ser proposta ao Tribunal a revisão da sua
medida (artigo 12.º, n.º 3, do RGDCE).

Aquela ideia de progressividade na execução da medida de internamento


surge ainda no grau de abertura ao exterior dentro de um determinado regime.
Assim, no regime aberto, as possibilidades de frequência de actividades no
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 195

exterior depende “das efectivas oportunidades existentes no meio social,


considerando as necessidades educativas específicas do educando, a fase do
seu projecto educativo pessoal e o grau de responsabilização que consegue
assumir” (artigo 13.º, n.º 2, do RGDCE). Do mesmo modo, as saídas para a
realização de actividades no exterior, férias e fins-de-semana são autorizadas
de forma gradual, consoante a evolução do jovem, podendo ser-lhe fixadas
nesse período determinadas obrigações (artigo 13.º, n.º 3, do RGDCE).

Também no que respeita à execução de medida de internamento em


regime semiaberto, consagra-se a possibilidade, se houver uma evolução
positiva do educando, de autorização de férias junto dos seus representantes
legais, podendo-lhe ser fixadas determinadas obrigações (artigo 14.º, n.º 3, do
RGDCE).

No regime fechado, o educando só poderá sair do Centro quando motivos


ponderosos e excepcionais o justifiquem, como, por exemplo, para
cumprimento de obrigações judiciais e necessidades de saúde, sendo sempre
acompanhados por funcionários do Centro, limitados ao tempo estritamente
necessário e sempre precedida de autorização escrita do director do centro
(artigo 15.º, n.º 1 e 4, do RGDCE). No entanto, ainda para estes casos, foi
prevista a possibilidade de “em fase avançada da execução do projecto
educativo pessoal e verificando-se condições que permitam experimentar uma
flexibilização do regime com vista a avaliar da possibilidade de revisão da
medida, (…) os educandos ser [em] autorizados pelo Tribunal a sair, sem
acompanhamento, por períodos limitados, mediante proposta fundamentada do
director do centro” (artigo 15.º, n.º 5, do RGDCE).

Cada Centro desenvolve a sua actividade no âmbito do seu projecto de


intervenção educativa, que identifica, “sempre que possível, a programação
faseada da intervenção, diferenciando os objectivos a realizar em cada fase e o
respectivo sistema de reforços positivos e negativos, dentro dos limites fixados
pela lei e pelo presente Regulamento e de harmonia com o regulamento
interno” (artigo 17.º, n.º 2, do RGDCE).
196 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

A execução da medida tutelar de internamento é pensada e realizada com


base no projecto educativo pessoal do educando (artigo 21.º do RGDCE e
artigo 164º da Lei Tutelar Educativa). A participação do educando na
preparação e avaliação do seu projecto educativo deve ser incentivada, de
modo a que este se empenhe na execução do projecto (artigo 21.º, n.º 2, do
RGDCE). O empenho do jovem na execução da sua medida tutelar pode ainda
ser reconhecida pelo Centro Educativo, através da atribuição de prémios (artigo
33.º do RGDCE).

9. O Decreto-Lei n.º 204-A/2001, de 26 de Julho: a nova Lei Orgânica do


Instituto de Reinserção Social

Na sequência da Lei Orgânica do Ministério da Justiça, aprovada pelo


Decreto-Lei n.º 146/2000, de 18 de Julho, que atribuiu ao Instituto de
Reinserção Social (IRS), entre outras atribuições, o apoio técnico aos tribunais
na tomada de decisões do processo tutelar educativo (artigo 19.º, n.º 3, al. b)),
e a execução das medidas tutelares educativas (artigo 19.º, n.º 3, al. c)), e na
sequência do Programa de Acção para a Entrada em vigor do Direito de
Menores, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 108/2000, de
19 de Agosto, nos termos do qual se assumia o compromisso de reorganizar o
IRS até Dezembro de 2000, foi aprovada a nova Lei Orgânica do IRS (LOIRS)
(Decreto-Lei n.º 204-A/2001, de 26 de Julho). Nas palavras do próprio
legislador, “nesta nova lei orgânica dos serviços de reinserção social mantém-
se basicamente o modelo estrutural existente”, reforçando-se, no entanto, “a
sua organização, para dar resposta a desafios essenciais precisamente no
âmbito (…) da execução da reforma do direito de menores, consubstanciada
pela Lei de Protecção das Crianças e Jovens em Perigo e, com especial
impacte nos serviços de reinserção social, a Lei Tutelar Educativa, que
entraram em vigor em Janeiro de 2001” (preâmbulo do Decreto-Lei n.º 204-
A/2001, de 26 de Julho).

Assim, ao IRS, como “órgão auxiliar da administração da justiça


responsável pelas políticas de prevenção criminal e reinserção social,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 197

designadamente nos domínios da prevenção da delinquência juvenil, das


medidas tutelares educativas” (artigo 2.º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º 204-A/2001),
compete, entre outras atribuições: conceder aos tribunais o apoio técnico
necessário à tomada de decisões no âmbito do tutelar educativo; assegurar a
execução de medidas tutelares educativas; assegurar a gestão dos centros
educativos de jovens; e contribuir para um maior envolvimento da comunidade
na administração da justiça penal e tutelar educativa (artigo 3.º, n.º 1, do
Decreto-Lei n.º 204-A/2001).

No âmbito da execução das medidas tutelares educativas, as actividades


do IRS devem sempre respeitar os princípios da proporcionalidade, da
intervenção mínima e de adequação às suas finalidades, nomeadamente no
respeito pela vida privada do jovem, bem como da sua dignidade e da sua
família (artigo 3.º, n.º 3, da LOIRS).

O Instituto de Reinserção Social é composto pelos seguintes órgãos:


presidente, conselho de gestão, conselho superior de reinserção social,
conselho coordenador e fiscal único (artigo 4.º da LOIRS).

O Presidente do IRS tem competência, nomeadamente, para “emitir


orientações técnicas sobre a actividade operativa, designadamente orientações
pedagógicas para os centros educativos” (artigo 5.º, n.º 1, al. e), da LOIRS).

O IRS possui, ainda, serviços centrais e serviços desconcentrados (artigo


12.º da LOIRS). Os serviços centrais dividem-se em serviços de coordenação e
apoio à actividade operativa e serviços de apoio à gestão e de administração.

Nos serviços de coordenação e apoio à actividade operativa, integra-se o


Departamento de Coordenação da Actividade Técnico Operativa, que
compreende a Divisão de Apoio ao Funcionamento dos Sistemas de Execução
de Penas e Medidas e a Divisão de Execução de Penas e Medidas não
Institucionais, e que tem como função coordenar “a actividade operativa
desenvolvida em apoio técnico, na tomada de decisões no âmbito [do
processo] (...) tutelar educativo (...) e na execução (...) das medidas educativas
não institucionais” (artigo 14.º, n.º 1, da LOIRS).
198 Capítulo IV - O “novo” direito tutelar educativo em Portugal

Ao Departamento de Coordenação dos Serviços de Execução das


Medidas Tutelares de Internamento, serviço central de coordenação e apoio à
actividade operativa, que integra a Divisão de Apoio ao Funcionamento dos
Sistemas de Execução das Medidas Tutelares de Internamento e a Divisão de
Execução das Medidas Tutelares de Internamento, incumbe a coordenação da
“actividade do Instituto na gestão técnica dos centros educativos, em execução
de medida tutelar de internamento e de outros internamentos que devam ser
realizados naqueles centros” (artigo 15.º, n.ºs 1 e 2, da LOIRS).

A Lei Orgânica do IRS prevê, ainda, os seguintes serviços


desconcentrados: direcções regionais; núcleos de extensão; direcção dos
serviços de reinserção social nas regiões Autónomas dos Açores e da Madeira;
e centros educativos (artigo 24.º, n.º 1, da LOIRS).
Capítulo V

Entre dois olhares: a Lei Tutelar Educativa à luz dos dados


oficiais e de um estudo efectuado nos tribunais de família e
menores de Lisboa e Coimbra

Introdução

Neste capítulo analisamos a aplicação da Lei Tutelar Educativa pelos


tribunais de família e menores à luz das estatísticas oficiais do Gabinete de
Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça e dos dados
recolhidos pelo Observatório Permanente da Justiça Portuguesa nos tribunais
de família e menores (TFM) de Lisboa e de Coimbra.

O Capítulo está, assim, dividido em duas secções. Na primeira secção,


considerando o universo de todos os tribunais de família e menores do país,
analisamos a aplicação da Lei Tutelar Educativa, quer na fase de inquérito,
quer na fase jurisdicional, à luz dos dados oficiais disponíveis. Na segunda
secção esta análise é feita considerando os dados de uma amostra recolhida
pelo Observatório Permanente da Justiça Portuguesa através da consulta de
processos tutelares educativos, na fase jurisdicional, nos tribunais de família e
menores de Coimbra e de Lisboa.
200 Capítulo V - Entre dois olhares

Secção I
A Lei Tutelar Educativa à luz dos dados oficiais disponíveis

Como já referimos, nesta primeira secção iremos analisar o movimento do


processo tutelar educativo durante a vigência da Lei Tutelar Educativa, quer na
fase de inquérito, quer na fase jurisdicional. A análise destes dados
permitir-nos-á determinar o volume de processos pendentes, entrados e findos
durante os anos de 2001 e 2002, assim como os motivos que determinaram o
fim, quer dos inquéritos, quer dos processos tutelares que chegaram à fase
jurisdicional.

Após a análise do que convencionámos denominar por movimento


processual procedemos à caracterização do perfil social dos jovens aos quais
foi aplicada uma medida tutelar educativa. Analisaremos a distribuição por
sexo, idade e nacionalidade dos jovens, com quem habitam e onde residem,
qual o seu grau de instrução e qual a sua situação perante o trabalho.

Interessa-nos, também, face aos dados disponíveis, conhecer outros


componentes do processo tutelar educativo, designadamente, quem mobiliza o
processo; quais as taxas de sucesso do novo instituto da suspensão do
processo por parte do Ministério Público (MP) e da mediação; qual o grau de
utilização das perícias sobre a personalidade do jovem enquanto instrumento
auxiliar à decisão; quais os factos praticados pelo jovem qualificados como
crime; qual a duração do processo tutelar na fase jurisdicional; e qual a
percentagem de revisão das medidas aplicadas e em que sentido é efectuada
essa revisão.

O processo tutelar termina com a aplicação de uma medida tutelar e com


a sua execução. Interessa-nos, por isso, estudar, também, quais as medidas
tutelares aplicadas e analisar se existem divergências significativas na
aplicação de medidas tutelares por sexo e idade dos jovens e por tipo de facto
praticado qualificado como crime.

A análise do movimento da fase de inquérito dos processos tutelares


educativos foi elaborada tendo por base os dados da jurisdição tutelar
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 201

disponíveis, publicados no site da Procuradoria Geral da República (PGR)122


referentes aos anos de 2001 e 2002.

A análise do movimento da fase de jurisdicional dos processos tutelares


foi elaborada com base nos dados da jurisdição tutelar educativa recolhidos
pelo Gabinete de Política Legislativa e Planeamento (GPLP) do Ministério da
Justiça, através do mapa de movimento mensal – Modelo 228 – que regista o
movimento processual tutelar.

A caracterização dos processos tutelares findos com a aplicação de uma


medida tutelar educativa foi efectuada tendo por base os dados recolhidos pelo
Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça
(GPLP), com base no boletim de notação estatística para o processo tutelar
educativo – Modelo 329.

Na caracterização dos processos tutelares educativos encontrámos


algumas dificuldades que condicionam a análise efectuada e que passamos a
realçar.

Em primeiro lugar, não dispomos, e, do nosso conhecimento, não


existem, dados referentes aos processos tutelares educativos que, tendo
chegado à fase jurisdicional, findam por outro motivo que não a aplicação de
uma medida tutelar educativa. O boletim de notação estatística para o processo
tutelar educativo – Modelo 329 – é apenas preenchido “para os processos
findos com aplicação de medida”, sendo que relativamente ao mapa do
movimento mensal de processos tutelares educativos, modelo
228/GPLPMJ/DSEJ, “apenas os processos findos com aplicação de medida (1ª
medida ou revisão de medida aplicada – colunas 9 e 10 do quadro III do mapa
modelo nº 228/GPLPMJ/DSEJ) determinam o preenchimento do boletim para
processos tutelares educativos”123. Assim, dos 4 954 processos tutelares
educativos dados como findos, em 2001, as bases de dados correspondentes

122
http://www.pgr.pt/portugues/grupo_soltas/pub/relatorio/indice.htm, consultado em Julho de
2004.
123
http://www.gplp.mj.pt/estjustica/pdfs/metainf/inqueritos/judiciais/Just%20Tutelar/329.pdf,
consultado em Julho de 2004.
202 Capítulo V - Entre dois olhares

ao Modelo 329 apenas contêm a caracterização de 1 387 processos, a que


correspondem 1 399 sujeitos processuais. Em 2002, dos 1 905 processos
dados como findos na base de dados referente ao movimento processual
existe apenas a caracterização de 1 034 processos findos nesse ano, a que
correspondem 1 137 sujeitos processuais.

Em segundo lugar, a construção do boletim de notação estatística para o


processo tutelar educativo – Modelo 329 – apresenta alguns problemas que
dificultam a análise das variáveis. Por exemplo, os casos em que houve
“aplicação da medida” e aqueles em que houve “revisão da medida” são
registados na mesma variável. Este facto, em conjunto com a possibilidade de
preenchimento múltiplo da variável referente à medida aplicada, sem distinguir
se é a medida aplicada pela primeira vez ou a medida aplicada após a revisão,
não permite, a quem analisa, determinar se foram aplicadas várias medidas em
conjunto, ou se a medida foi substituída e, sendo substituída, qual a primeira
medida aplicada e qual a medida aplicada após a revisão (cf. números 6 e 7 do
boletim – Modelo 329).

Em terceiro lugar, devido ao facto de existirem apenas dados relativos à


justiça tutelar referentes aos anos de 2001 e 2002, a análise da aplicação da
Lei Tutelar Educativa está limitada àqueles dois anos.

Apesar destas limitações, a análise possível da caracterização social dos


jovens, do processo e das medidas aplicadas vale como indicador da realidade
da criminalidade juvenil portuguesa, da utilização dos instrumentos ao dispor
do MP e dos tribunais para lidar com essa criminalidade quando ela é
conhecida e, em última análise, como, quando e em relação a quem o sistema
utiliza os meios de reacção que tem ao seu dispor.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 203

1. O movimento dos processos tutelares educativos

1. 1. O movimento processual na fase do inquérito

O Gráfico V.1 mostra os dados do movimento dos processos tutelares


educativos entrados, pendentes e findos, em 2001 e 2002, na fase de inquérito.

Gráfico V.1
Movimento processual – Inquérito
2001-2002

9321
10000

9000
7526
7316
8000 6996

7000

6000
2001
5000 2002

4000 3021
2826

3000

2000

1000

0
Pendentes em 01/01 Entrados Findos

Fonte: Relatórios anuais da PGR

Em 2001, após a entrada em vigor da Lei Tutelar Educativa (LTE) - Lei n.º
166/99, de 14 de Setembro - o Ministério Público iniciou 9 321124 processos
tutelares educativos, finalizou 6 996 e tinha pendentes 3 021, dos quais 107
(3,5%) por aplicação da suspensão do processo (artigo 84.º e ss. da LTE).

124
De acordo com os dados da PGR, o MP recebeu, do ano 2000, 302 inquéritos de processos
tutelares educativos. Dado que só em 2001 entrou em vigor a LTE é de supor que, em bom
rigor, aos 9 321 inquéritos entrados se devem somar estes 302 que, se admite, serão,
provavelmente, conversões dos chamados “processos administrativos” em processos tutelares,
o que necessitará de posterior confirmação.
204 Capítulo V - Entre dois olhares

Em 2002, em consequência do aumento de 7,6% dos inquéritos findos


(de 6 996, em 2001, para 7 526, em 2002) e da diminuição de 21,5% dos
inquéritos entrados (de 9 321, em 2001, para 7 316, em 2002), verificou-se
uma diminuição de 6,5% de inquéritos pendentes (de 3 021, em 2001, para
2 826, em 2002).

Embora não tenha sido objecto de estudo neste relatório, a diminuição de


inquéritos entrados em 2002 pode ser um sintoma relevante no contexto da
justiça de menores. Será importante verificar, em primeiro lugar, se essa
diminuição do volume de inquéritos abertos se manteve e, em segundo lugar,
se se deveu a uma diminuição espontânea da criminalidade juvenil registada
nas instâncias formais, a uma diminuição da criminalidade juvenil provocada
pelos mecanismos preventivos que foram iniciados em 2000125, ou, ainda, a
uma diminuição da intervenção policial enquanto mobilizadores dos inquéritos
tutelares educativos.

Em ambos os anos, a larga maioria dos processos tutelares de inquérito


abertos terminaram com o arquivamento. Em 2001, 79% (5 522) dos processos
de inquérito findaram por arquivamento e apenas 9% (631) por remessa para a
fase jurisdicional e, em 2002, 67,9% (5 113) e 15,5% (1 169), respectivamente.
Há, portanto, uma diminuição do peso relativo dos arquivamentos no total de
processos de inquérito findos (de 79% (5 522), em 2001, para 68% (5 113), em
2002) e um aumento, num ano, de 85,3% no número de processos de inquérito
findos por remessa para a fase jurisdicional.

125
Como já referimos no Capítulo I, em Portugal existem alguns programas e associações que
agem no sentido de prevenir a criminalidade juvenil, assumindo, também, o papel de
mediadores sociais e comunitários de determinados conflitos. Podemos referir, a título de
exemplo, três projectos muito diferentes, mas igualmente importantes: a Associação Cultural
Moinho da Juventude, o Programa Escolhas e o Programa Escola Segura (cf. Capítulo I).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 205

Gráfico V.2
Causas de extinção dos inquéritos tutelares educativos
2001-2002

5522
6000
5113

5000

4000

3000

2000 1244
1169

843
631
1000

0
Remessa para tribunal Arquivado Remetido para outro MP

2001 2002

Fonte: Relatórios anuais da PGR

Nesta fase, é de salientar o aumento muito pouco significativo de


suspensões provisórias no número de processos pendentes em 2002, (de 3,5%
(107), em 2001, para 3,9% (110), em 2002), o que denota alguma resistência
na aplicação deste instituto.

Podemos concluir, assim, em primeiro lugar, que não se verificou um


aumento significativo, de 2001 para 2002, da criminalidade juvenil registada;
pelo contrário, de acordo com os dados da PGR, em 2002, diminuiu o número
dos inquéritos iniciados.

Em segundo lugar, e apesar da quase duplicação do número de


inquéritos tutelares educativos findos por remessa para a fase jurisdicional,
cerca de 70% dos inquéritos terminaram, em 2002, por arquivamento, o que
parece indiciar a pequena gravidade da larga maioria dos actos registados
como criminalidade juvenil ou, eventualmente, a insuficiente recolha de provas
206 Capítulo V - Entre dois olhares

da prática do acto qualificado como crime, por parte das polícias e do Ministério
Público.

Em terceiro lugar, em consequência do elevado número de


arquivamentos, é de notar que, em 2001, 9% e, em 2002, 15,5% dos processos
findaram por remessa para a fase jurisdicional (o que representa, contudo,
como vimos, um aumento de 85,3%).

O conhecimento das razões desta situação exige um estudo


especialmente direccionado para tal, tendo em atenção que toda a lógica do
“novo” sistema processual da justiça tutelar educativa assenta na resolução
dos casos o mais breve possível e sem recurso à via judicial. É importante, por
isso, apurar se, nesta matéria, existe e em que medida uma disjunção entre os
objectivos da lei e a sua prática. Exemplo dessa disjunção, que nos parece
importante realçar, é a escassa utilização dos mecanismos de diversão
previstos na lei. Os dados existentes sobre a suspensão provisória do processo
mostram que os números são muito pouco significativos (como referimos, 107
casos, em 2001, e 110, em 2002).

1. 2. O movimento processual na fase jurisdicional

Como já deixámos dito, a LTE determinou a reclassificação dos


processos tutelares pendentes, classificando como processos tutelares
educativos aqueles que tinham por objecto a prática, por um jovem com idade
compreendida entre os 12 e os 16 anos, de actos qualificados pela lei penal
como crime; e como processos de promoção e protecção os restantes.

Neste ponto, iremos proceder à análise do volume dos processos


tutelares educativos entrados, pendentes e findos que chegaram à fase
jurisdicional durante os dois anos de vigência da referida Lei relativamente aos
quais temos informação estatística oficial.

O Gráfico V.3 mostra o número de processos tutelares educativos na fase


jurisdicional, em 2001 e em 2002.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 207

Gráfico V.3
Processos tutelares educativos pendentes, entrados e findos
(2001-2002)

7000
6030

6000
4954

5000

4000

2470
3000
1905
1731
1495
2000

1000

0
Entrados Findos Pendentes

2001 2002

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Como vimos no ponto anterior, o número de inquéritos findos, de acordo


com os dados da PGR, por remessa para a fase jurisdicional aumentou 85,3%
de 2001 para 2002, contudo, atendendo aos dados do GPLP disponíveis
relativamente à fase jurisdicional, apenas se registou um aumento de 15,8%
(de 1.495 em 2001, para 1.731, em 2002)126.

O elevado número de processos pendentes no início de 2001 poderá ter


como explicação a maior duração dos processos ao abrigo da Organização
Tutelar de Menores (OTM) e a conversão daqueles que se referiam a jovens
que houvessem cometido factos qualificados como crime, por força da lei, em
processos tutelares educativos.

126
Note-se que a discrepância entre os dados da PGR relativos aos inquéritos findos por
remessa para fase jurisdicional e os dados do GPLP relativos aos processos tutelares
educativos entrados na fase jurisdicional em 2001 apresentam uma diferença de 136,9% (de
631 para 1 495) e, em 2002, de 48,1% (de 1 169 para 1 731). Haverá, por isso, que analisar,
em detalhe, quais as razões desta discrepância e, se for esse o caso, realizar um esforço de
harmonização destes dados.
208 Capítulo V - Entre dois olhares

O Gráfico V.4 mostra os motivos de extinção dos processos tutelares


educativos nos anos de 2001 e 2002.

Gráfico V.4
Motivos de extinção dos processos tutelares educativos

2001 2002
Arquivamento Liminar Arquivamento Liminar
579 47
12% 2% Arquivamento
Aplicação de Medida 390
1444
20%
29%

Arquivamento
1498
30%
Aplicação de Medida
1071
Remessa para outro 57% Remessa para outro
Tribunal Tribunal
1433 397
29%
21%

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Como se pode ver pelo Gráfico V.4, regista-se, igualmente, um elevado


número de processos findos, que se pode justificar pelo número também
elevado de processos findos por remessa para outro Tribunal e por
arquivamento liminar (a variação de 2001 para 2002 relativa a processos
arquivados liminarmente e a processos findos por remessa para outro Tribunal
foi de menos 91,9% (de 579 para 47 processos) e de menos 72,3% (de 1 433
para 397 processos, respectivamente).

É ainda de notar, em 2002, o aumento do peso relativo da extinção dos


processos tutelares educativos por aplicação de medidas (de 29%, em 2001,
para 57%, em 2002).

Uma primeira conclusão que podemos retirar da análise destes dados é


que há na justiça tutelar educativa, devido às regras de competência, uma
elevada percentagem de processos que finda por “remessa para outro
Tribunal”, podendo representar um sinal de elevada mobilidade dos jovens. O
tratamento estatístico desta variável poderá, ainda, implicar uma
sobrerepresentação da criminalidade juvenil registada. A não existir filtragem,
num mesmo ano são dados como findos processos que continuam a correr
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 209

termos noutro Tribunal, ocupando o sistema de justiça, e são dados como


entrados processos que já estão incluídos nos números oficiais. Embora se
reconheça que, em cada Tribunal, a contabilização destes processos deva ser
feita para aferir o volume do seu trabalho, em termos nacionais, tem de se ter
em consideração esta realidade para a correcta representação da criminalidade
juvenil registada. Esta situação implica, ainda, naturalmente, um maior volume
de trabalho dos tribunais.

Uma segunda conclusão que se pode retirar dos dados apresentados é


que se, como já vimos no ponto 2.1, apenas 15,5% (em 2002) da criminalidade
juvenil registada pelo MP chegou a Tribunal, e se desses 15,5% só a um pouco
mais de metade é aplicada uma medida tutelar, a uma grande percentagem
(cerca de 90%) da criminalidade juvenil registada não é aplicada medida.
Consequentemente, só a cerca de 10% da criminalidade juvenil registada pelo
MP é aplicada uma medida tutelar na fase jurisdicional. Como veremos adiante,
esta percentagem de 10% de criminalidade juvenil registada a que é aplicada
uma medida tutelar, é decidida, em grande parte, de forma consensual, na
audiência preliminar, sendo esta uma questão que tem que ser estudada em
detalhe.
210 Capítulo V - Entre dois olhares

2. Os jovens enquanto sujeitos do novo processo jurisdicional127

2. 1. O sexo, a idade e a nacionalidade dos jovens

No âmbito de aplicação da LTE, a grande maioria de jovens que foram


objecto de um processo tutelar educativo que chegou à fase jurisdicional e aos
quais foi aplicada uma medida tutelar é do sexo masculino (88%) (Gráfico V.5).

Gráfico V.5
Sexo dos jovens

2001 2002

172 136
12% 12%

1227 1001
88% 88%

Feminino Masculino Feminino Masculino

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Nos anos de 2001 e de 2002, de entre os jovens aos quais foi aplicada
uma medida tutelar, é manifesta a prevalência daqueles que, à data do início
da fase jurisdicional do processo tutelar, tinham 14 ou 15 anos (51,8%, em
2001, e 52,1%, em 2002) (Gráfico V.6).

127
Como já referimos no início desta secção, a caracterização dos jovens sujeitos de um
processo tutelar educativo em fase jurisdicional findo em 2001 e em 2002 foi realizada através
dos dados recolhidos pelo Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da
Justiça, com base no boletim de notação estatística para o processo tutelar educativo (Modelo
329). Conforme já referimos, este boletim, contudo, é apenas preenchido “para os processos
findos com aplicação de medida”, sendo que relativamente ao mapa do movimento mensal de
processos tutelares educativos, modelo 228/GPLPMJ/DSEJ, “apenas os processos findos com
aplicação de medida (1ª medida ou revisão de medida aplicada – colunas 9 e 10 do quadro III
do mapa modelo nº 228/GPLPMJ/DSEJ) determinam o preenchimento do boletim para
processos tutelares educativos”. Assim, dos 4 954 processos tutelares educativos findos em
2001, as bases de dados do GPLP correspondentes ao Modelo 329 apenas contêm a
caracterização de 1 387 processos, a que correspondem 1 399 sujeitos processuais. Em 2002
a discrepância é já menor. Dos 1 905 processos dados como findos na base de dados
referente ao movimento processual é possível fazer a caracterização de 1 034 processos
findos em 2002 a que correspondem 1 137 sujeitos processuais.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 211

Gráfico V.6
Idade dos jovens
(2001-2002)

35,0
31,3

29,0
30,0

25,0 22,8
20,8

20,0 17,7 18,0

15,6
14,1
15,0
11,2
9,2
10,0
6,5

3,7
5,0

0,0
12 13 14 15 16 17 ou mais

2001 2002

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Como se pode ver pelo Gráfico, o peso relativo dos jovens que à data do
início da fase jurisdicional do processo tutelar tinham 12 ou 13 anos é ainda
relevante (em média, cerca de 28%) embora, num ano, diminua 10% (de
33,3%, em 2001, para 23,3%, em 2002).

Contudo, é de assinalar que essa diminuição do peso relativo dos jovens


com 12 ou 13 anos não se manifestou num aumento do número de jovens com
14 ou 15 anos mas no aumento do número de jovens com 16, 17 ou mais anos
da idade128. Em 2001, 11% dos jovens tinham 16 anos e 3,7%, 17 ou mais
anos; enquanto que, em 2002, o seu peso relativo subiu para 18% e 6,5%,
respectivamente. Um dos aspectos da nova LTE, que consideramos positivo, é
a possibilidade de acompanhamento dos jovens “mais velhos”, através deste
sistema, ainda que se tenham tornado criminalmente imputáveis.

128
A LTE aplica-se também aos menores de 18 anos à data da decisão em primeira instância,
desde que os factos classificados como crime tenham sido cometidos antes de completar os 16
anos (artigo 28.º da LTE).
212 Capítulo V - Entre dois olhares

No âmbito de aplicação da LTE, a grande maioria de jovens, que foram


objecto de um processo tutelar educativo que chegou à fase jurisdicional e aos
quais foram aplicadas medidas tutelares, é de nacionalidade portuguesa
(97,6%, em 2001, e 97%, em 2002).

Gráfico V.7
Nacionalidade dos jovens
(2001-2002)

97,6 97,0
100,0

90,0

80,0

70,0

60,0
Portuguesa
50,0 Estrangeira

40,0

30,0

20,0
2,4 3,0
10,0

0,0
2001 2002

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

De acordo com um estudo do Observatório da Imigração, de 2003, de


Maria João Valente Rosa, Hugo Seabra e Tiago Santos, “a população de
nacionalidade estrangeira equivale a 2,2% (Censo de 2001) do total de
residentes em Portugal. À escala regional (NUTS III), apenas três regiões
apresentam percentagens de estrangeiros superiores àquele valor nacional.
São elas a Grande Lisboa (5%), a Península de Setúbal (4%) e o Algarve (6%)”
(Rosa, Seabra e Santos, 2003:48). Atendendo a estes números, a
representação de menores de nacionalidade estrangeira no total de processos
tutelares educativos em fase jurisdicional e a quem foi aplicada uma medida
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 213

tutelar é semelhante à percentagem de população estrangeira a residir em


Portugal (de acordo com os dados de 2001).

Considerando, por seu lado, os dados referentes aos jovens estrangeiros,


sujeitos de um processo tutelar educativo findo em 2001 ou 2002, residentes
na área da Grande Lisboa, aos quais foi aplicada uma medida tutelar
educativa, verificamos que o seu número (16, por ano, em média) representa
cerca de 8% do total de jovens, residentes nessa área, sujeitos de um processo
tutelar educativo findo em 2001 ou 2002, aos quais foi aplicada uma medida
tutelar educativa (196 jovens, em média, por ano) (cf. Quadro V.10). Os dados
parecem, assim, indiciar, uma sobrerepresentação de jovens estrangeiros,
residentes na área da Grande Lisboa, em relação à percentagem de população
estrangeira aí residente.

2. 2. A situação e a residência do jovem

De acordo com os dados do GPLP, a grande maioria dos jovens (92,4%,


em média) sujeitos de processos tutelares educativos findos nos anos de 2001
e 2002, e aos quais foi aplicada uma medida tutelar não era órfão e apenas
1,8% era órfão de ambos os pais. Assim, em regra, a grande maioria dos
jovens que foram objecto de um processo tutelar educativo que chegou à fase
jurisdicional e aos quais foi aplicada uma medida tutelar estava a viver com
ambos ou apenas com um dos progenitores (83,6%, em 2001, e 81,6%, em
2002) (Gráfico V.8).
214 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.8
Situação dos jovens
(2001-2002)

83,6
90,0 81,6

80,0

70,0

60,0

50,0

40,0

30,0

20,0 9,5
7,4
4,5 3,1 4,8
1,5 2,4 1,7
10,0

0,0
2001 2002

A viver com o pai e/ou a mãe Internado em estabelecimento / centro educativo


A viver com outra pessoa de família Abandonado
A viver com outra pessoa

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Contudo, os dados estatísticos revelam que, de 2001 para 2002, houve


uma subida, ainda que ligeira, do número de jovens internados em
estabelecimento ou Centro Educativo. Se esta situação se mantiver pode
significar um crescimento da prática de factos qualificados como crime entre os
jovens que, à data do início da fase jurisdicional129 e aos quais é aplicada uma
medida tutelar já se encontram internados em estabelecimento ou Centro
Educativo. Esta situação pode, por sua vez, indiciar, no seu lastro o, eventual,
aumento de medidas cautelares de guarda ou a insuficiência da intervenção
dos organismos de Segurança Social aquando da aplicação de medidas de
promoção ou de protecção de internamento em instituição.

De acordo com os dados do GPLP relativos aos jovens sujeitos de


processos tutelares educativos findos e aos quais foi aplicada uma medida

129
Cf. alínea h) das instruções de preenchimento do boletim de notação estatística referente à
caracterização dos processos tutelares educativos findos (Modelo 329): “Preencher reportando
a informação à data do início do processo”.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 215

tutelar nos anos de 2001 e 2002, a residência da grande maioria dos jovens
delinquentes situava-se no litoral do país (73,4%) (Quadro V.1).

Quadro V.1
Residência dos jovens
(2001-2002)

2001 2002 Total


Nº % % acum Nº % % acum Nº % % acum

Porto 236 17,5 17,5 234 20,8 20,8 470 19,0 19,0
Lisboa 218 16,2 33,7 249 22,2 43,0 467 18,9 37,9
Setúbal 107 7,9 41,6 76 6,8 49,8 183 7,4 45,3
Faro 103 7,6 49,3 67 6,0 55,7 170 6,9 52,2
Braga 96 7,1 56,4 66 5,9 61,6 162 6,6 58,8
Aveiro 97 7,2 63,6 52 4,6 66,3 149 6,0 64,8
Coimbra 43 3,2 66,8 67 6,0 72,2 110 4,5 69,2
Leiria 70 5,2 72,0 33 2,9 75,2 103 4,2 73,4
Funchal 39 2,9 74,9 63 5,6 80,8 102 4,1 77,5
Ponta Delgada 55 4,1 78,9 15 1,3 82,1 70 2,8 80,4
Outros 284 21,1 100,0 201 17,9 100,0 485 19,6 100,0
Total Geral 1348 100 1123 18 2471 20
N.a. ou n.e. 51 14 65

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Como seria de esperar devido à sua densidade populacional, os distritos


com o maior número de jovens julgados em processo tutelar educativo aos
quais foi aplicada medida tutelar são os distritos do Porto (236 casos, em 2001,
e 234, em 2002) e de Lisboa (218, em 2001, e 249, em 2002). Em termos
percentuais, 5 distritos representaram cerca de 60% da criminalidade juvenil
julgada: Porto, Lisboa, Setúbal, Faro e Braga.

Dos jovens julgados em processo tutelar educativo findo e aos quais foi
aplicada uma medida tutelar, em 2001 ou 2002, residentes em Lisboa, a maior
percentagem (29,6%) residia no concelho de Lisboa, 12,6% em Loures, 11,4%
na Amadora e 10,5% em Cascais. No que se refere ao distrito do Porto, 33,8%
residia no concelho do Porto, 14% em Matosinhos e 8,7% em Vila Nova de
Gaia.
216 Capítulo V - Entre dois olhares

Quadro V.2
Residência das crianças e jovens – Distritos de Lisboa e Porto
(2001-2002)

2001 2002 Total


Nº % Nº % Nº %
Lisboa 65 29,82 73 29,32 138 29,55
Loures 27 12,39 32 12,85 59 12,63
Amadora 19 8,72 34 13,65 53 11,35
Cascais 17 7,80 32 12,85 49 10,49
Lisboa Oeiras 13 5,96 28 11,24 41 8,78
Sintra 18 8,26 6 2,41 24 5,14
Vila Franca de Xira 20 9,17 4 1,61 24 5,14
Outros 39 17,89 40 16,06 79 16,92
Total 218 100,00 249 100,00 467 100,00

Porto 81 34,32 78 33,33 159 33,83


Matosinhos 30 12,71 36 15,38 66 14,04
Vila Nova de Gaia 23 9,75 18 7,69 41 8,72
Gondomar 15 6,36 8 3,42 23 4,89
Amarante 13 5,51 9 3,85 22 4,68
Porto
Felgueiras 5 2,12 16 6,84 21 4,47
Maia 11 4,66 9 3,85 20 4,26
Paços de Ferreira 4 1,69 14 5,98 18 3,83
Outros 54 22,88 46 19,66 100 21,28
Total 236 100,00 234 100,00 470 100,00

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

A criminalidade juvenil registada130 é, em termos absolutos, de origem


urbana, em especial, sedeada nas maiores cidades, confirmando-se, assim, a
urbanização desta criminalidade juvenil. Como já referimos no Capítulo I, é nas
grandes cidades e, designadamente, nas suas periferias que as instâncias
sociais de integração dos jovens “à beira de pisar o risco da criminalidade”
(nomeadamente, a família, as relações pessoais entre a família do jovem e o
ofendido, a escola e, eventualmente, a igreja) são mais desestruturados,
inexistentes ou têm pouca influência em relação aos jovens. Esta situação
pode levar a que os factos que são registados como criminalidade juvenil nas
grandes cidades, chegando às instâncias jurisdicionais de resolução de litígios,
podem não ser sequer entendidos como criminalidade em meios mais

130
Consideramos criminalidade juvenil registada como o número de jovens aos quais, sendo
sujeitos de um processo tutelar educativo, foi aplicada uma medida tutelar educativa.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 217

pequenos, ou sendo-o, não necessitam de ser resolvidos por instâncias


formais131.

2. 3. O grau de instrução e a situação perante o trabalho dos jovens

Em 2001 e 2002, os jovens julgados em processo tutelar educativo e aos


quais foi aplicada uma medida tutelar educativa tinham ou frequentavam, na
sua grande maioria, o ensino básico (72%, em 2001, e 69%, em 2002) (Gráfico
V.9).

Gráfico V.9
Grau de instrução dos jovens

2001 2002
Sabe ler Não sabe ler, nem escrever
38 13 Não sabe ler, nem escrever
Sabe ler 15
3% 1%
47 1%
4%

Ensino Secundário
329
24% Ensino Secundário
295
26%

Ensino Básico Ensino Básico


1019 780
72% 69%

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

131
É possível ainda que, embora sejam resolvidos por recurso ao Tribunal, devido às normas
de preenchimento dos boletins Modelo 329, por findarem sem a aplicação de uma medida
tutelar educativa esses processos não figurem nas estatísticas oficiais de caracterização de
processos tutelares findos.
218 Capítulo V - Entre dois olhares

Contudo, é de assinalar a subida de 3% para 4% dos jovens que apenas


sabiam ler. Se, embora diminuto, este aumento do número de jovens
“delinquentes” sem o ensino básico continuar poderá ser um sintoma do cada
vez maior abandono escolar precoce por parte dos jovens com consequências
na sua actividade criminal.

Por outro lado, dado que o ensino básico compreende 9 anos de


escolaridade, e não existem dados mais detalhados em relação a este facto,
não podemos saber se os jovens que praticam factos qualificados como crime
e aos quais é aplicada uma medida tutelar educativa têm um grau de
escolaridade inferior ou não ao que seria adequado para a sua idade.

Quanto à condição perante o trabalho, no período 2001-2002, em média,


67,6% dos jovens estudava, situação esperada atendendo à sua idade; 9%
estava a trabalhar; e 3,3% a trabalhar e a estudar.

Gráfico V.10
Condição perante o trabalho dos jovens
(2001-2002)

70,0

60,0

50,0

40,0

30,0

20,0

10,0

0,0
A estudar A trabalhar e a estudar A trabalhar Outras, ignoradas ou n.e.

2001 2002

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 219

É de notar, todavia, a falta de informação concreta sobre a condição


perante o trabalho dos jovens sujeitos a um processo tutelar educativo, dado
que em cerca de 20% dos casos o jovem tinha outra condição perante o
trabalho ou esta é ignorada ou não existente. Assim, traçando um breve perfil
sociológico dos jovens julgados em processo tutelar educativo e aos quais foi
aplicada uma medida tutelar educativa em 2001-2002, estes eram, na sua
maioria, nacionais portugueses, do sexo masculino, tinham entre os 14 e os 15
anos, viviam com ambos ou apenas um dos progenitores, em Lisboa ou no
Porto, e tinham e/ou frequentavam o ensino básico e, como veremos mais
adiante, praticaram factos qualificados como crimes contra a propriedade.

3. O processo tutelar educativo

3. 1. Os mobilizadores do processo tutelar educativo

Actualmente, como já referimos, o processo tutelar educativo inicia-se


com a abertura de um inquérito logo que o Ministério Público tenha
conhecimento da prática, por um jovem, de um facto qualificado pela lei como
crime132.

Como podemos ver pelo Gráfico V.11, em 2001 e 2002, os mobilizadores


do processo tutelar educativo foram, de uma forma bem destacada, as
autoridades policiais.

132
Cf. artigo 74.º da LTE.
220 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.11
Mobilizadores do processo tutelar educativo
(2001-2002)

70,0 67,3 64,7

60,0

50,0

40,0

30,0

20,4
20,0 17,4

10,4
10,0 7,9
6,0
2,9
1,4 1,6

0,0
Partic. de autoridade Partic. de outras Partic. de outra pessoa Partic. da CP de Partic. dos pais ou de
policial entidades Menores familiares

2001 2002

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Comparando os dados de 2001 com os de 2002, parece existirem duas


tendências em formação e que, a confirmarem-se, podem significar um maior
peso das participações por parte de outras entidades e de outras pessoas, em
especial, das escolas e dos ofendidos133, e, em sentido contrário, uma
diminuição das participações efectuadas pelas Comissões de Protecção de
Menores.

3. 2. A suspensão do processo por parte do MP

Quando analisámos os números da PGR relativos à suspensão do


processo tutelar educativo por iniciativa do Ministério Público verificámos que o
número de processos que se encontravam pendentes devido a suspensão foi,

133
Cf. infra, secção II, em relação aos dados recolhidos pelo Observatório Permanente da
Justiça Portuguesa no estudo efectuado nos tribunais de família e menores de Lisboa e de
Coimbra.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 221

em 2001 e em 2002, muito reduzido (107 e 110, respectivamente). Embora não


possamos comparar os dados por se reportarem a realidades distintas, o
número de processos entrados na fase jurisdicional, que findaram com a
aplicação de uma medida tutelar educativa, e que haviam antes sido
suspensos é ainda relevante (93, em 2001, e 68, em 2002), o que parece
significar uma taxa de sucesso reduzido da referida medida, pelo menos nestes
dois primeiros anos de aplicação da LTE.

Gráfico V.12
Processos suspensos pelo Ministério Público que chegaram à fase jurisdicional

2001 2002

93
68

1306
1069

Proc. suspensos Proc. não suspensos


Proc. suspensos Proc. não suspensos

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

3. 3. A mediação

A LTE estabelece a possibilidade do recurso à mediação, no decorrer do


processo tutelar educativo, com vista à realização das finalidades do processo,
isto é, educar o menor para o direito e inseri-lo de forma digna e responsável
na sociedade. Deste modo, o juiz ou o Ministério Público podem, por sua
iniciativa, do jovem ou dos seus pais, determinar a cooperação de entidades
públicas ou privadas de mediação (artigo 42.º da LTE).
222 Capítulo V - Entre dois olhares

O Gráfico V.I.13 mostra os indicadores estatísticos sobre a utilização do


instituto da mediação nos anos de 2001 e 2002.

Gráfico V.13
Recurso à mediação
(2001-2002)

100% 3,7
6,9
90%

80%
96,3
70%
93,1

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

2001
2002

Não Sim

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Se é certo que os dados estatísticos ainda são muito recentes, os que


existem revelam um fraco recurso à mediação. Em 2001, em 3,7% do total dos
processos entrados na fase jurisdicional que terminaram com a aplicação de
uma medida tutelar educativa houve recurso à mediação, aumentando para
6,9%, em 2002. É importante acompanhar esta, eventual, alteração, assim
como estudar as condições do seu funcionamento e avaliar a sua eficácia. É,
contudo, de referir que esta matéria não foi, ainda, regulamentada nem
desenvolvida e nem sequer foram, do nosso conhecimento, criadas entidades
de mediação específicas para o Direito de Menores.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 223

3. 4. Perícias sobre a personalidade do jovem

As perícias sobre a personalidade do jovem podem representar um


auxiliar precioso para o processo de tomada de decisão por parte do juiz134.
Considerando os 1 399 jovens sujeitos a processo tutelar educativo findo em
2001, foram pedidas 1 164 perícias, 998 ao IRS e 176 a outro serviço ou
entidade, ou seja, foram pedidas perícias sobre a personalidade do jovem em
83% dos casos. Em 2002, relativamente a 1 137 jovens foram pedidas 986
perícias sobre a personalidade, tendo o seu peso relativo aumentado para
86%.

Gráfico V.14
Perícias sobre a personalidade do menor
(2001-2002)

988

1000
863

900

800

700

600

500

400

300 176
124
200

100

0
2001 2002

Por serviço do Instituto de Reinserção Social Por outro serviço ou entidade

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

134
Os artigos 68.º e 69.º da LTE definem o regime dos exames e das perícias, referindo que as
perícias sobre a personalidade do menor são ordenadas pelo juiz aos serviços do instituto de
reinserção social “quando for de aplicar medida de internamento em regime fechado”.
224 Capítulo V - Entre dois olhares

Os dados estatísticos mostram uma generalização dos requerimentos de


perícias sobre a personalidade do jovem. Pode-se questionar a necessidade
destas perícias quando constatamos que, em 81% dos casos em que ao jovem
foi aplicada uma medida de admoestação135 foi, também, requerida perícia
sobre a personalidade136. Da aparente rotinização do requerimento de perícia
sobre a personalidade parece resultar a necessidade de, em estudo posterior,
se aprofundar a necessidade ou pertinência de uma maior selectividade na
mobilização de recursos do Instituto de Reinserção Social, por parte dos
tribunais, para este fim.

3. 5. Factos praticados pelo jovem qualificados como crime

De acordo com o boletim de notação para processos tutelares educativos


(Modelo 329), os dados referentes à “prática de acto qualificado como crime”
devem ser recolhidos considerando apenas o acto correspondente ao tipo de
crime mais grave. Esta limitação do boletim não permite uma análise de todos
os factos praticados pelos jovens aos quais foi aplicada uma medida tutelar
educativa que são qualificados como crimes e não permitirá, depois, ao estudar
as medidas aplicadas aos jovens, determinar se a medida foi aplicada apenas
pela prática de um facto qualificado como crime ou por vários factos.

Atendendo a esta limitação, iremos analisar os factos correspondentes


aos tipos de crime mais graves praticados pelos jovens. O Quadro V.3 mostra
os dez tipos de factos qualificados como crime mais representativos praticados
por jovens sujeitos de um processo tutelar educativo aos quais foi aplicada uma
medida tutelar, em 2001 e 2002.

135
Embora o boletim (Modelo 329) permita o preenchimento múltiplo da variável “medida
aplicada”, a diferença entre medidas aplicadas, revisões de medida em que aquela foi
substituída e o número de jovens não é relevante para a análise em questão.
136
Embora não existam dados oficiais podemos questionar se, para os processos tutelares
educativos findos por outro motivo que não a aplicação de medida tutelar, também são pedidas
perícias sobre a personalidade e se o seu número é, também, tão relevante como para os
casos em que é aplicada uma admoestação.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 225

Quadro V.3
Factos qualificados como crime – 10 tipos mais representativos
(2001-2002)

2001 2002 TOTAL


Prática de Actos Qualificados como Crime
Nº % Nº % Nº %
Furto simples e qualificado 694 49,6 545 47,9 1239 48,9
Dano simples e qualificado 182 13,0 67 5,9 249 9,8
Ofensa à integridade física simples e privilegiada 140 10,0 95 8,4 235 9,3
Condução sem habilitação legal 141 10,1 93 8,2 234 9,2
Roubo ou violência depois da subtracção 53 3,8 154 13,5 207 8,2
Tráfico de estupefacientes e consumo 33 2,4 34 3,0 67 2,6
Crimes contra a liberdade sexual 31 2,2 21 1,8 52 2,1
Outros crimes contra a honra 18 1,3 18 1,6 36 1,4
Violação de domicílio, introdução lugar vedado público 18 1,3 12 1,1 30 1,2
Ameaça ou coacção 17 1,2 9 0,8 26 1,0
Outros crimes 72 5,1 89 7,8 161 6,3
Total: 1399 100 1137 100 2536 100

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Os factos qualificados como crimes de furto simples e qualificado foram


os tipos de crime mais praticados (49,6%, em 2001, e 48,9%, em 2002). Os
factos qualificados como crime de dano foram os segundos mais
representativos –– integrando-se, ainda, na categoria de crimes contra o
património. Os factos qualificados como crimes de ofensa à integridade física
simples e privilegiada e como crime de condução sem habilitação legal, foram
os terceiro e quarto mais representativos, respectivamente, com pesos relativos
próximos (9,3% e 9,2%, em média, respectivamente). De notar que os factos
qualificados como crimes relacionados com o tráfico de estupefacientes
apresentam um peso relativo bastante baixo, (em média, 2,6%), assim como os
qualificados como crimes de violação de domicílio e introdução em lugar
vedado ao público (em média, 1,2%). Merece, ainda, referência o aumento, de
2001 para 2002, do peso relativo dos factos qualificados como crimes de roubo
ou violência após a subtracção (de 3,8%, em 2001, para 13,5%, em 2002).

Analisando os tipos de factos qualificados como crime agrupados137 mais


praticados pelos jovens sujeitos a medida tutelar educativa, cujo processo

137
O agrupamento dos tipos de crime foi realizado tendo em atenção a sistematização do
Código Penal, individualizando-se o crime de condução sem habilitação legal devido ao seu
peso relativo.
226 Capítulo V - Entre dois olhares

tutelar educativo findou em 2001 ou 2002, podemos referir que três categorias
englobam, em média, cerca de 87% da criminalidade juvenil: crimes contra a
propriedade (67,8%), crimes contra a integridade física (9,7%) e crime de
condução sem habilitação legal (9,2%).

Quadro V.4
Factos qualificados como crime agrupado
(2001-2002)

Prática de Actos Qualificados como Crime 2001 2002 Total


Nº % Nº % Nº % % acum
Crimes contra a propriedade 937 67,0 782 68,8 1719 67,8 67,8
Crimes contra a integridade física 144 10,3 103 9,1 247 9,7 77,5
Condução sem habilitação legal 141 10,1 93 8,2 234 9,2 86,8
Crimes respeit. a estupefacientes e subst. psicotrópicas 33 2,4 34 3,0 67 2,6 89,4
Crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual 33 2,4 21 1,8 54 2,1 91,5
Outros crimes ou não especificados 111 7,9 104 9,1 215 8,5 100,0
Total 1399 100 1137 100 2536 100

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Em 2001 e 2002, os factos qualificados como crimes de furto simples e


qualificado são os mais praticados, quer pelos jovens do sexo masculino
(46,6%, em média), quer do sexo feminino (49,4%, em média) (Quadro V.5).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 227

Quadro V.5
Factos qualificados como crime por sexo
(2001-2002)

Masculino
2001 2002 TOTAL
Tipo de Crime
Nº % Nº % Nº %
Furto simples e qualificado 607 49,5 480 48,0 1087 46,6
Dano simples e qualificado 165 13,4 64 6,4 229 10,7
Condução sem habilitação legal 127 10,4 87 8,7 214 10,0
Ofensa à integridade fisica simples e privilegiada 115 9,4 79 7,9 194 9,1
Roubo ou violência depois da subtracção 52 4,2 130 13,0 182 8,5
Outros crimes 161 13,1 161 16,1 322 15,1
Total 1227 100 1001 100 2228 100
Feminino
2001 2002 TOTAL
Tipo de Crime
Nº % Nº % Nº %
Furto simples e qualificado 87 50,6 65 47,8 152 49,4
Ofensa à integridade fisica simples e privilegiada 25 14,5 16 11,8 41 13,3
Roubo ou violência depois da subtracção 1 0,6 24 17,6 25 8,1
Dano simples e qualificado 17 9,9 3 2,2 20 6,5
Condução sem habilitação legal 14 8,1 6 4,4 20 6,5
Outros crimes 28 16,3 22 16,2 50 16,2
Total 172 100 136 100 308 100
Total Geral 1399 1137 2536

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Surge, todavia, uma diferença quanto à segunda categoria de factos


qualificados como crimes mais praticados por cada um dos sexos. Em ambos
os anos, os factos qualificados como crimes de ofensa à integridade física
foram os segundos factos mais praticados pelos jovens do sexo feminino
(14,5%, em 2001s e 12,8%, em 2002) enquanto que em relação aos jovens do
sexo masculino, os segundos factos qualificados como crime mais praticados
são os crimes de dano simples e qualificado, seguidos pelos factos qualificados
como crimes de condução sem habilitação legal (em média, 10,7% e 10%,
respectivamente). Os factos qualificados como crimes de ofensa à integridade
física surge em quarto lugar.

Como podemos ver pelo Quadro V.6, e considerando os cinco tipos de


factos qualificados como crimes mais representativos em 2001 e 2002,
verificamos que, quer os factos qualificados como crimes de furto simples e
qualificado, quer como crimes de ofensa à integridade física, foram mais
cometidos por jovens entre os 14 e os 15 anos de idade (21,3% e 26,7%;
228 Capítulo V - Entre dois olhares

21,3% e 29,8%, em média, respectivamente), embora a percentagem se


distribua sem grandes diferenças por todas as classes etárias, com excepção
da faixa etária “17 anos ou mais”.

Quadro V.6
Cinco tipos de factos qualificados como crime por idade
(2001-2002)

2001 2002 TOTAL


Tipo de Crime Idade
Nº % Nº % Nº %
12 133 19,2 65 11,9 198 16,0
13 133 19,2 74 13,6 207 16,7
14 151 21,8 113 20,7 264 21,3
Furto simples e
15 177 25,5 154 28,3 331 26,7
qualificado
16 74 10,7 100 18,3 174 14,0
17 anos ou mais 26 3,7 39 7,2 65 5,2
Total: 694 100 545 100 1239 100
12 32 17,6 8 11,9 40 16,1
13 41 22,5 17 25,4 58 23,3
14 48 26,4 15 22,4 63 25,3
Dano simples e
15 40 22,0 23 34,3 63 25,3
qualificado
16 17 9,3 3 4,5 20 8,0
17 anos ou mais 4 2,2 1 1,5 5 2,0
Total: 182 100 67 100 249 100
12 19 13,6 14 14,7 33 14,0
13 28 20,0 9 9,5 37 15,7
Ofensa à
14 28 20,0 22 23,2 50 21,3
integridade fisica
15 38 27,1 32 33,7 70 29,8
simples e
privilegiada 16 18 12,9 15 15,8 33 14,0
17 anos ou mais 9 6,4 3 3,2 12 5,1
Total: 140 100 95 100 235 100
12 4 2,8 2 2,2 6 2,6
13 11 7,8 5 5,4 16 6,8
14 35 24,8 18 19,4 53 22,6
Condução sem
15 65 46,1 40 43,0 105 44,9
habilitação legal
16 25 17,7 24 25,8 49 20,9
17 anos ou mais 1 0,7 4 4,3 5 2,1
Total: 141 100 93 100 234 100
12 12 22,6 9 5,8 21 10,1
13 5 9,4 18 11,7 23 11,1
Roubo ou violência 14 12 22,6 32 20,8 44 21,3
depois da 15 21 39,6 53 34,4 74 35,7
subtracção 16 2 3,8 32 20,8 34 16,4
17 anos ou mais 1 1,9 10 6,5 11 5,3
Total: 53 100 154 100 207 100

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 229

Já o facto correspondente ao crime de dano é menos praticado por jovens


com 16 anos ou com “17 anos ou mais” concentrando-se nas faixas etárias dos
12 aos 15.

Os factos correspondentes ao crime de “condução sem habilitação legal”


e ao crime de “roubo ou violência depois da subtracção” foram mais praticados
por jovens com 15 anos (44,9% e 35,7%, em média, respectivamente).

Resulta, assim, da análise dos dados que os factos qualificados como


crime de furto simples e qualificado foram praticados por cerca de metade dos
jovens sujeitos de processos tutelares educativos findos em 2001 e 2002 com
aplicação de uma medida tutelar. Três categorias de factos qualificados como
crimes (contra a propriedade, contra a integridade física e condução sem
habilitação legal) constituem cerca de 90% da criminalidade juvenil. Embora
não haja diferença significativa nos cinco tipos de “crimes” mais praticados
pelos jovens do sexo masculino e pelos jovens do sexo feminino, os jovens do
sexo masculino praticam, em termos relativos, mais factos qualificados como
crimes de dano e de condução sem habilitação legal. Quanto à idade, verifica-
se que os factos qualificados como crime de roubo e violência após a
subtracção e a condução sem habilitação legal são mais praticados por jovens
com 15 ou 16 anos.

3. 6. A duração do processo tutelar

A duração de um processo tutelar educativo assume grande importância,


uma vez que os sujeitos processuais são jovens (entre os 12 e os 16 anos) e o
tempo para um jovem adolescente tem uma dimensão muito diferente da que
tem para um adulto.

Como se pode ver no Quadro V.7, cerca de 24% dos processos tutelares
educativos em que foi aplicada uma medida tutelar e que findaram em 2001 ou
2002 demoraram, desde o início da fase jurisdicional até à aplicação da
230 Capítulo V - Entre dois olhares

medida138, menos de 3 meses, 17,6%, entre 3 e 6 meses, e 19,1% entre 6


meses e 1 ano, ou seja, cerca de 60% dos processos demoraram menos de 1
ano. Se considerarmos a duração dos processos em geral concluiremos que a
tramitação de uma parte considerável destes processos é razoavelmente
célere. Contudo, se consideramos, por um lado, que só estamos a ter em conta
a duração da fase jurisdicional e, por outro, que mais de 55% destes processos
demoraram mais de 6 meses, a questão da celeridade tem outra leitura,
denunciando os dados, outrossim, alguma ineficácia do sistema no tratamento
desta questão.

Acresce que é preocupante, pelas consequências nefastas que este


período de tempo pode causar no desenvolvimento psicossocial do jovem, a
elevada percentagem de processos que duraram mais de 2 anos (18,6%).

Quadro V.7
Duração dos processos tutelares
(2001-2002)

2001 2002 TOTAL


Duração
Nº % % acum Nº % % acum Nº % % acum
[0, 3 meses[ 214 15,4 15,4 355 34,3 34,3 569 23,5 23,5
[3 meses, 6 meses[ 239 17,2 32,7 188 18,2 52,5 427 17,6 41,1
[6 meses, 1 ano[ 296 21,3 54,0 167 16,2 68,7 463 19,1 60,3
[1 ano , 2 anos[ 333 24,0 78,0 179 17,3 86,0 512 21,1 81,4
[2 anos , 3 anos [ 156 11,2 89,3 90 8,7 94,7 246 10,2 91,6
[3 anos , 4 anos [ 79 5,7 95,0 28 2,7 97,4 107 4,4 96,0
[4 ou mais anos 70 5,0 100,0 27 2,6 100,0 97 4,0 100,0
Total 1387 100,0 1034 100,0 2421 100,0

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Como sinal positivo, analisando a variação de 2001 para 2002, parece


desenhar-se uma diminuição da duração destes processos, tendo mais que

138
Seria interessante analisar, embora não disponhamos de dados oficiais a esse respeito qual
a duração do processo tutelar educativo desde o início do inquérito até à decisão em primeira
instância, dado que é esse o tempo em que o jovem está em contacto com o sistema de justiça
sem que a sua situação se encontre resolvida (cf. infra secção II).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 231

duplicado a percentagem de processos que findou em menos de 3 meses (de


15,4%, em 2001, para 34,3%, em 2002). Assim, em 2002, mais 14,7% dos
processos findaram em menos de 1 ano comparativamente a 2001.

Também em 2002, a percentagem dos processos com duração superior a


2 anos cai para 14%, quando, em 2001, tinha sido de 22%. Esta maior
celeridade poderá dever-se, como veremos adiante, ao uso mais frequente, em
2002, do novo instituto jurídico que permite a aplicação de medidas tutelares na
audiência preliminar (cf. Gráficos V.16 e V.17). A LTE, como qualquer nova lei
que entra em vigor, necessitou de um período de ajustamento e de adaptação
por parte dos tribunais para que os novos procedimentos se tornassem mais
céleres e mais “mecanizados”, o que poderá justificar a diminuição da duração
dos processos tutelares educativos em 2002.

Esta situação, a confirmar-se, parece indiciar que a LTE estará a


conseguir uma das suas finalidades: encurtar o prazo entre o início da fase
jurisdicional do processo tutelar educativo e a aplicação de uma medida tutelar,
evitando que estes se arrastem sem que se aplicasse uma medida (cf.
Pedroso, 1998:199 ss.).

3. 7. A aplicação de medidas e a sua revisão

Do universo de 1 399 jovens, em 2001, aos quais foi aplicada uma ou


mais medidas tutelares educativas, 384 (27%) viram a medida aplicada revista.
Em 2002 houve, comparativamente a 2001, um decréscimo de 3% no número
de jovens com revisão das medidas aplicadas.
232 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.15
Casos de aplicação e de revisão da medida aplicada

2001 2002

Aplicação e revisão da Aplicação e revisão da


medida medida
384 275
27% 24%

Aplicação simples de
medida(s) Aplicação simples de
1015 medida(s)
73% 862
76%

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Das medidas revistas, em média, cerca de 50% foram extintas após


revisão, 23% mantidas e 13% suspensas (Quadro V.8).

Quadro V.8
Revisão da medida aplicada
(2001-2002)

2001 2002 Total


Nº % Nº % Nº %
Revisão: Extinção da medida 184 47,9 140 50,9 324 49,4
Revisão: Manutenção da medida 101 26,3 53 19,3 152 23,2
Revisão: Suspensão da medida 51 13,3 34 12,4 84 12,8
Revisão: Prorrogação da medida 25 6,5 20 7,3 45 6,9
Revisão: Substituição da medida 17 4,4 23 8,4 40 6,1
Revisão: Mod. das cond. de execução 4 1,0 5 1,8 9 1,4
Revisão: Redução da duração da medida 2 0,5 0 0,0 2 0,3
Total 384 100,0 275 100,0 656 100,0

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 233

4. A aplicação das medidas tutelares educativas

4. 1. As medidas tutelares aplicadas

A LTE indica, de forma expressa e taxativa, o elenco das medidas


tutelares que podem ser aplicadas ao jovem que praticou um facto qualificado
pela lei como crime. Estas medidas dividem-se, como já referimos no
Capítulo IV, em duas categorias: medidas não institucionais e medida
institucional.

Esta Lei criou um conjunto de medidas específicas para os processos


tutelares educativos, diferentes das medidas previstas na OTM, com excepção
da admoestação e do acompanhamento educativo139.

O legislador português veio, também, estabelecer um critério de escolha


na aplicação das medidas, procurando que seja dada, sempre que possível,
preferência à medida não institucional relativamente à medida institucional.
Neste sentido, a medida tutelar aplicada deve, por um lado, ser adequada e
suficiente para permitir uma maior adesão do jovem, dos pais, do representante
legal ou da pessoa que detém a sua guarda, e por outro, implicar uma
intervenção mínima na condução de vida do jovem e a sua socialização140.

Uma outra inovação da LTE consiste no princípio jurídico da não


cumulação da aplicação de várias medidas tutelares por um mesmo facto ao
mesmo jovem, à excepção da medida de privação de direito de conduzir
ciclomotores ou de obter permissão para conduzir ciclomotores e da medida de
acompanhamento educativo, podendo esta ser apenas aplicada
cumulativamente com a imposição de regras de conduta ou obrigações, bem
como com a frequência de programas formativos141.

O Quadro V.9 mostra as medidas tutelares educativas aplicadas nos anos


de 2001 e 2002.

139
Cf. Capítulo IV.
140
Cf. artigo 6.º da LTE.
141
Cf. artigos 19.º e 16.º n.º 2 da LTE. A OTM consagrava a aplicação isolada ou cumulativa
das medidas tutelares previstas no seu artigo 18.º.
234 Capítulo V - Entre dois olhares

Quadro V.9
Medidas tutelares aplicadas
(2001-2002)

2001 2002 Total


Nº % Nº % Nº %
Admoestação 814 55,0 444 35,0 1258 45,8

Acompanhamento educativo 368 24,9 344 27,2 712 25,9

em regime semiaberto 34 2,3 52 4,1 86 3,1


em regime fechado 27 1,8 41 3,2 68 2,5
Internamento
em centro em regime aberto 26 1,8 34 2,7 60 2,2
educativo em regime semiaberto em fim de
27 1,8 18 1,4 45 1,6
semana
Total 114 7,7 145 11,4 259 9,4
Frequência de programas formativos 43 2,9 91 7,2 134 4,9

Imposição de regras de conduta 35 2,4 54 4,3 89 3,2


Imposição de obrigações 16 1,1 67 5,3 83 3,0
Realização de prestações económicas ou de
15 1,0 61 4,8 76 2,8
tarefas a favor da comunidade
Reparação ao ofendido 22 1,5 49 3,9 71 2,6
Medidas da OTM 50 3,4 6 0,5 56 2,0
Privação do direito de conduzir 2 0,1 6 0,5 8 0,3
Total 1479 100,0 1267 100,0 2746 100,0

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Como se pode ver pelo Quadro V.9, a um universo de 1 399 jovens, em


2001, foram aplicadas 1 479 medidas tutelares, na sua grande maioria, de
admoestação (55%). A segunda medida mais aplicada foi a medida de
acompanhamento educativo (24,9%) e a terceira, o internamento em Centro
Educativo (7,7%). Em 2002 é de registar que, num universo de 1 267 medidas
tutelares educativas aplicadas a 1 137 jovens, o peso relativo da admoestação
decresceu para 35%, o acompanhamento educativo subiu para 27,2% e a
medida de internamento em Centro Educativo sofreu também um aumento de
cerca de 4%, tendo sido aplicada em 11,4% dos casos.

O aumento, ainda que discreto, em 2002, da aplicação de medidas


tutelares que obrigam a um acompanhamento ou a um acto ou omissão por
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 235

parte dos jovens142 e a consequente diminuição da aplicação de medidas


simbólicas, como a admoestação (que desceu 20%) pode evidenciar uma
atitude, por parte do Tribunal, mais pró-activa no objectivo da educação do
jovem para o direito e na tentativa de facilitar a sua reinserção social ou, por
outro lado, resultar meramente de alguma alteração, ainda que pequena, na
estrutura dos factos qualificados como crime, no modo da sua prática ou nas
condições psicossociais dos jovens. Merece, também, reflexão, o facto de o
peso relativo do internamento em regime fechado - a medida tutelar
considerada mais gravosa -, ter aumentado para quase o dobro, de 1,8%, em
2001, para 3,2%, em 2002. Não sabemos se esta situação é, sobretudo,
resultado de alterações na estrutura dos factos praticados pelos jovens
considerados crime143 ou, como resulta da informação de alguns operadores,
pela “exigência” da situação sócio-familiar de alguns jovens a par da
insuficiência de respostas da Segurança Social.

4. 2. Momento processual da aplicação da medida

Ao receber o requerimento de abertura da fase jurisdicional, o juiz, não


decidindo pelo arquivamento do processo pode designar dia para a realização
de uma audiência preliminar144 ou determinar o prosseguimento do processo
com vista à realização da audiência. Em ambas as fases, poderá ser decidida a
aplicação de uma medida tutelar educativa.

Os Gráficos V.16 e V.17 ilustram o momento processual da aplicação das


medidas tutelares em 2001 e em 2002.

142
De 2001 para 2002, a aplicação da medida tutelar de acompanhamento educativo cresceu
1%, a frequência de programas formativos, 2%, a imposição de regras de conduta, a imposição
de obrigações, 2,9%, a realização de prestações económicas e a prestação de trabalho a favor
da comunidade, 1,8%, a reparação ao ofendido, 1,1% e o internamento em Centro Educativo,
1,7%.
143
Como se referiu no ponto 3.5, registou-se um aumento muito significativo dos factos
qualificados como crime de roubo.
144
A audiência preliminar ocorre quando tiver sido solicitada a aplicação de uma medida não
institucional, e “a natureza e gravidade dos factos, a urgência do caso ou a medida proposta
justificarem tratamento abreviado” (artigo 93.º n.º 1, alínea c) da LTE).
236 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.16
Medidas aplicadas na audiência preliminar e na audiência de julgamento
(2001)
Audiência
Audiência preliminar - Por
19%
decisão do juíz (Sem
consenso)
2%

Audiência preliminar - Por


decisão do juíz (Com
consenso)
26%

Audiência preliminar - Por


homologação da proposta do
MP
53%

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Gráfico V.17
Medidas aplicadas na audiência preliminar e na audiência de julgamento
(2002)
Audiência preliminar - Por
decisão do juíz (Sem Audiência
consenso) 16%
1%

Audiência preliminar - Por


decisão do juíz (Com
consenso)
19%

Audiência preliminar - Por


homologação da proposta do
MP
64%

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 237

A maioria das medidas tutelares aplicadas aos jovens, quer em 2001,


quer em 2002, foram decididas na audiência preliminar: 81%, em 2001 e 84%,
em 2002. Como referimos, o recurso frequente a esta forma abreviada do
processo tutelar, inexistente na Lei anterior, pode explicar a diminuição da
duração dos processos tutelares educativos em fase jurisdicional. É de notar,
contudo, que a audiência preliminar permite a aplicação de medidas tutelares,
em regra, quando haja a concordância de todos os participantes, em especial,
do jovem, considerando esta participação indispensável a uma execução
eficiente e eficaz da medida aplicada visando a educação do jovem para o
direito.

Na audiência preliminar o juiz procede à audição do jovem, dos seus pais


ou representantes legais, do defensor e, se estiver presente, do ofendido, a fim
de obter o consenso sobre a medida proposta. Se não houver consenso sobre
a medida proposta pelo MP, o juiz pode sugerir a aplicação de uma outra
medida por si determinada ou solicitar a intervenção dos serviços de mediação.
Se não for possível chegar a um consenso quanto à medida a aplicar, o juiz
pode proferir decisão quanto à aplicação efectiva de uma medida ou ordenar o
prosseguimento do processo para a fase da audiência145.

Os dados revelam, também, que a maioria das medidas tutelares


aplicadas em 2001 e 2002 foi decidida por homologação da proposta do MP
durante a audiência preliminar (53%, em 2001, e 64%, em 2002) e que só uma
percentagem reduzida de casos é decidido em audiência preliminar sem o
consenso de todos (2%, em 2001 e em 2002).

Parece, assim, poder inferir-se, pelos dados apresentados, que a justiça


tutelar, para além de ser “decidida” pelo MP na fase de inquérito, é, também,
fortemente influenciada pela acção destes operadores na fase jurisdicional.
Relativamente aos casos em que são aplicadas medidas tutelares, é uma
justiça que recorre, nesta fase, com frequência, à decisão por consenso, o que

145
Cf. artigo 104.º da LTE.
238 Capítulo V - Entre dois olhares

terá, por certo, consequências positivas, não só na eficácia das decisões, mas
também na celeridade processual.

4. 3. As medidas tutelares aplicadas em relação ao sexo e à idade do


jovem

Considerando o sexo dos jovens aos quais foi aplicada uma medida
tutelar em processo tutelar educativo findo em 2001 ou 2002, constatamos que
há duas grandes diferenças (cf. Quadro V.10).

Em primeiro lugar, considerando autonomamente o grupo dos jovens do


sexo feminino e o grupo dos jovens do sexo masculino aos quais foi aplicada
uma medida tutelar educativa, aos jovens do sexo feminino quase não é
aplicada a medida de “realização de prestações económicas ou de trabalho a
favor da comunidade” (0,6%, em média, contra os 3,1% dos jovens do sexo
masculino).

Em segundo lugar, aos jovens do sexo masculino é aplicada mais a


medida de internamento do que aos jovens do sexo feminino (9,9%, em média,
contra 6,4%). O nosso estudo não nos permite tirar qualquer conclusão segura
sobre esta situação. É, contudo, interessante verificar que os jovens do sexo
feminino praticaram, em média, 57,5% do total de factos qualificados como
crimes de furto simples e qualificado e de roubo, contra os 55,1% dos factos
praticados pelos jovens do sexo masculino (cf. Quadro V.5) e que foi a estes
dois tipos de factos qualificados como crime que esta medida foi mais aplicada
(em média, em 10,3% das medidas aplicadas aos factos qualificados como
crime de furto simples e qualificado e, em média, em 17,9% das medidas
aplicadas aos factos qualificados como crime de roubo) (cf. Quadro V.13).

Confrontando estes dados com os do Quadro V.10, concluímos que aos


jovens do sexo masculino são aplicadas mais frequentemente medidas de
internamento em Centro Educativo (9,9%) do que aos jovens do sexo femnino
(6,4%) o que parece indiciar que, pelo menos nalguns casos, para aquela,
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 239

eventual, diferença na aplicação da medida de internamento parece contribuir o


sexo do jovem a quem é aplicada a medida.

Quadro V.10
Medidas aplicadas a jovens por sexo
(2001-2002)

Masculino
2001 2002 TOTAL
Medidas Aplicadas
Nº % Nº % Nº %
Admoestação 715 55,0 390 35,4 1105 46,0
Acompanhamento educativo 319 24,5 283 25,7 602 25,1
em regime semiaberto 33 2,5 46 4,2 79 3,3
em regime fechado 26 2,0 35 3,2 61 2,5
Internamento em em regime aberto 24 1,8 33 3,0 57 2,4
centro educativo em regime semiaberto em fim
23 1,8 17 1,5 40 1,7
de semana
Total 106 8,1 131 11,9 237 9,9
Frequência de programas formativos 39 3,0 79 7,2 118 4,9
Imposição de regras de conduta 32 2,5 46 4,2 78 3,2
Realização de prestações económicas ou de
15 1,2 59 5,4 74 3,1
trabalho a favor da comunidade
Imposição de obrigações 14 1,1 60 5,4 74 3,1
Reparação ao ofendido 20 1,5 42 3,8 62 2,6
Privação do direito de conduzir 2 0,2 6 0,5 8 0,3
Medidas da OTM 39 3,0 6 0,5 45 1,9
Total 1301 100 1102 100 2403 100

Feminino
2001 2002 TOTAL
Medidas Aplicadas
Nº % Nº % Nº %
Admoestação 99 55,6 54 32,7 153 44,6
Acompanhamento educativo 49 27,5 61 37,0 110 32,1
em regime semiaberto 1 0,6 6 3,6 7 2,0
em regime fechado 1 0,6 6 3,6 7 2,0
Internamento em em regime semiaberto em fim
4 2,2 1 0,6 5 1,5
centro educativo de semana
em regime aberto 2 1,1 1 0,6 3 0,9
Total 8 4,5 14 8,5 22 6,4
Frequência de programas formativos 4 2,2 12 7,3 16 4,7
Imposição de regras de conduta 3 1,7 8 4,8 11 3,2
Reparação ao ofendido 2 1,1 7 4,2 9 2,6
Imposição de obrigações 2 1,1 7 4,2 9 2,6
Realização de prestações económicas ou de
0 0,0 2 1,2 2 0,6
trabalho a favor da comunidade
Medidas da OTM 11 6,2 0 0,0 11 3,2
Total 178 100 165 100 343 100
Total Geral 1479 100,0 1267 100,0 2746 100,0

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


240 Capítulo V - Entre dois olhares

No que respeita à distribuição das medidas tutelares pelas idades dos


jovens sujeitos de processos tutelares educativos findos em 2001 e 2002,
constatámos que, em 2001, a admoestação foi a medida mais aplicada em
todos os grupos etários, representando, em todos, mais de metade das
medidas aplicadas (cf. Quadro V.11).

Em 2002, o peso relativo de admoestações aplicadas em cada um dos


grupos etários é menor do que em 2002 (em média, 35%). Em consequência, o
peso relativo das outras medidas aumentou. Contudo, embora a percentagem
de internamentos tenha aumentado, de 2001 para 2002, na quase totalidade
dos grupos etários, é de notar a diminuição de aplicação em relação aos jovens
com 12 anos. A idade em que esta medida apresenta um peso relativo mais
elevado é a dos 13 anos.

Quadro V.11
Medidas aplicadas a jovens por idade
(2001-2002)
2001
12 13 14 15 16 17 ou + Total
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
Admoestação 117 51,8 144 53,3 189 56,3 238 55,7 95 57,2 31 57,4 814 55,0
Acompanhamento educativo 48 21,2 77 28,5 87 25,9 107 25,1 33 19,9 16 29,6 368 24,9
Internamento em centro educativo 31 13,7 24 8,9 18 5,4 27 6,3 11 6,6 3 5,6 114 7,7
Frequência de programas formativos 7 3,1 10 3,7 5 1,5 15 3,5 6 3,6 0 0,0 43 2,9
Imposição de regras de conduta 4 1,8 8 3,0 8 2,4 9 2,1 5 3,0 1 1,9 35 2,4
Reparação ao ofendido 4 1,8 1 0,4 5 1,5 9 2,1 3 1,8 0 0,0 22 1,5
Imposição de obrigações 4 1,8 1 0,4 6 1,8 3 0,7 2 1,2 0 0,0 16 1,1
Realização de prestações económicas ou
1 0,4 2 0,7 5 1,5 6 1,4 1 0,6 0 0,0 15 1,0
de tarefas a favor da comunidade
Privação do direito de conduzir 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 2 1,2 0 0,0 2 0,1
Medidas da OTM 10 4,4 3 1,1 13 3,9 13 3,0 8 4,8 3 5,6 50 3,4
Total 226 100,0 270 100,0 336 100,0 427 100,0 166 100,0 54 100,0 1479 100,0

2002
12 13 14 15 16 17 ou + Total
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
Admoestação 45 38,8 48 26,8 98 38,0 148 37,2 75 32,3 30 35,7 444 35,0
Acompanhamento educativo 38 32,8 53 29,6 69 26,7 100 25,1 63 27,2 21 25,0 344 27,2
Internamento em centro educativo 7 6,0 24 13,4 28 10,9 49 12,3 29 12,5 8 9,5 145 11,4
Frequência de programas formativos 7 6,0 13 7,3 13 5,0 27 6,8 22 9,5 9 10,7 91 7,2
Imposição de obrigações 4 3,4 18 10,1 9 3,5 20 5,0 11 4,7 5 6,0 67 5,3
Realização de prestações económicas ou
4 3,4 7 3,9 11 4,3 18 4,5 15 6,5 6 7,1 61 4,8
de tarefas a favor da comunidade
Imposição de regras de conduta 7 6,0 8 4,5 11 4,3 13 3,3 11 4,7 4 4,8 54 4,3
Reparação ao ofendido 4 3,4 7 3,9 17 6,6 16 4,0 4 1,7 1 1,2 49 3,9
Privação do direito de conduzir 0 0,0 0 0,0 0 0,0 5 1,3 1 0,4 0 0,0 6 0,5
Medidas da OTM 0 0,0 1 0,6 2 0,8 2 0,5 1 0,4 0 0,0 6 0,5
Total 116 100,0 179 100,0 258 100,0 398 100,0 232 100,0 84 100,0 1267 100,0

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 241

Em 2002, o padrão de aplicação da medida tutelar educativa de


internamento em Centro Educativo foi o seguinte: aos jovens com 12 anos o
regime de internamento mais aplicado é o regime aberto, aos jovens dos 13
aos 16 anos o regime de internamento mais aplicado é o semiaberto, enquanto
que aos jovens com 17 anos ou mais o regime mais aplicado é o regime
fechado.

Quadro V.12
Regimes de internamento aplicados a jovens por idade
(2001-2002)
2001
12 13 14 15 16 17 ou + Total
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
em regime semiaberto 11 35,5 6 25,0 7 38,9 7 25,9 3 27,3 0 0,0 34 29,8
em regime fechado 5 16,1 5 20,8 3 16,7 9 33,3 3 27,3 2 66,7 27 23,7
Internamento em em regime aberto 5 16,1 6 25,0 3 16,7 7 25,9 4 36,4 1 33,3 26 22,8
centro educativo em regime semiaberto
10 32,3 7 29,2 5 27,8 4 14,8 1 9,1 0 0,0 27 23,7
em fim de semana
Total 31 100,0 24 100,0 18 100,0 27 100,0 11 100,0 3 100,0 114 100,0

2002
12 13 14 15 16 17 ou + Total
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
em regime semiaberto 1 14,3 12 50,0 11 39,3 14 28,6 12 41,4 2 25,0 52 35,9
em regime fechado 2 28,6 4 16,7 9 32,1 14 28,6 8 27,6 4 50,0 41 28,3
Internamento em em regime aberto 3 42,9 4 16,7 6 21,4 14 28,6 6 20,7 1 12,5 34 23,4
centro educativo em regime semiaberto
1 14,3 4 16,7 2 7,1 7 14,3 3 10,3 1 12,5 18 12,4
em fim de semana
Total 7 100,0 24 100,0 28 100,0 49 100,0 29 100,0 8 100,0 145 100,0

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça

Em suma, a medida de admoestação foi, em média, a mais aplicada a


ambos os sexos e em todos os grupos etários. Comparando o peso relativo das
medidas tutelares de admoestação e de acompanhamento educativo por sexo,
concluiu-se que estas têm um peso maior se considerarmos os jovens do sexo
feminino (76,7%) do que se considerarmos os jovens do sexo masculino
(71,1%). A medida de internamento, consequentemente, é mais aplicada aos
jovens do sexo masculino (9,9%, em média) do que aos jovens do sexo
feminino (6,4%, em média).

Em relação à idade, é de referir que, em 2002, foram mais aplicados


regimes mais “brandos” (regime aberto e semiaberto) aos jovens mais “novos”
e regimes mais “duros” (regime fechado) aos jovens mais “velhos”, sendo
242 Capítulo V - Entre dois olhares

interessante verificar se esta situação se mantém nos próximos anos. Esta


situação, contudo, poderá estar relacionada com o padrão da criminalidade por
grupo etário que, como vimos, parece agravar-se com aumento da idade do
jovem.

4. 4. As medidas aplicadas considerando os cinco tipos de factos


qualificados como crime mais representativos

Analisamos, de seguida, as medidas tutelares aplicadas aos cinco tipos


de factos qualificados como crime mais representativos em 2001 e 2002. Como
já referimos, os jovens cujos processos tutelares educativos findaram, em 2001
e 2002, com a aplicação de uma medida, praticaram mais factos qualificados
como crime de furto simples e qualificado, de dano simples e qualificado, de
ofensa à integridade física simples e privilegiada, de condução sem habilitação
legal e de roubo ou violência depois da subtracção.

Quadro V.13
Medidas aplicadas considerando os cinco tipos de factos qualificados como crime mais
representativos
(2001-2002)

Fonte: Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 243

Como também já foi referido, as medidas tutelares mais aplicadas, em


2001 e 2002, foram a admoestação e o acompanhamento educativo. A
situação não se altera se considerarmos aqueles cinco tipos de crime. Nos dois
anos, foram aquelas as medidas mais aplicadas com percentagens médias de
aplicação entre os 80,6%, em relação aos factos qualificados como crimes de
condução sem habilitação legal, e os 60,4%, em relação aos factos qualificados
como crimes de roubo ou violência após a subtracção.

Como seria de esperar, no âmbito da criminalidade juvenil, os tipos de


factos qualificados como crimes que registaram percentagens mais elevadas
de internamentos em centros educativos foram os qualificados como crimes de
roubo e violência após a subtracção (20,7%, em 2001, e 17%, em 2002) e
como crime de furto simples e qualificado (10,1%, em 2001, e 10,6%, em 2002)
– os tipos de factos que, de entre os praticados por jovens, são penalmente
considerados mais gravosos. Será de apontar, ainda, o aumento da aplicação,
no que se refere aos factos qualificados como crimes de condução sem
habilitação legal, dos programas formativos (de 0,7%, em 2001, para 18,6%,
em 2002) e da privação do direito de conduzir (de 0,7%, em 2001, para 4,1%,
em 2002).

No que diz respeito à medida institucional internamento em Centro


Educativo, regista-se um ligeiro aumento na sua aplicação, em 2002, aos
factos qualificados como crimes de furto simples e qualificado, dano simples e
qualificado, e ofensa à integridade física simples e privilegiada. Contra o que
seria de prever, o mesmo não sucede quanto aos factos qualificados como
crimes de roubo ou violência depois da subtracção, aos quais foram aplicadas
um menor número de medidas de internamento em Centro Educativo em 2002,
à excepção da medida de internamento em Centro Educativo em regime
aberto. O enfoque parece, pois, ter incidido na aplicação de outras medidas
não institucionais como a imposição de obrigações (7,7%, 14), a imposição de
regras de conduta (7,1%, 13) e a frequência de programas formativos (6%, 11),
medidas quase não aplicadas em relação a este tipo de factos qualificados
como crimes, em 2001.
244 Capítulo V - Entre dois olhares

Secção II
Os tribunais de família e menores de Lisboa e Coimbra: duas
realidades de uma mesma justiça?

Como já deixámos dito, com o objectivo de tornar possível uma análise


sociológica mais fina da aplicação da Lei Tutelar Educativa, procedemos à
recolha, por amostragem, de um conjunto de dados dos processos, na fase
jurisdicional, nos tribunais de família e menores de Lisboa e de Coimbra.

A análise incidiu sobre uma amostra aleatória de cerca de 55% dos


processos entrados na fase jurisdicional, em cada Tribunal, entre 2001 e 2003,
considerando, quer os processos findos, quer os que se encontravam ainda
pendentes. A amostra foi constituída aleatoriamente tendo por base uma lista
facultada pelos respectivos tribunais onde constavam todos os processos
tutelares educativos entrados entre Janeiro de 2001 e Julho de 2003.

Assim, no Tribunal de Família e Menores de Lisboa foram consultados


cerca de metade dos processos entrados em cada uma das três secções dos
quatro juízos do Tribunal, num total de 260 processos. Foram, assim,
analisados 149 (57,3%) processos tutelares educativos (correspondentes ao
julgamento de 262 jovens). No Tribunal de Família e Menores de Coimbra
(constituído por dois juízos com uma secção cada um) foram analisados 49
processos (correspondentes ao julgamento de 75 menores), num total de 88
processos (55,7%).

Dos 149 processos tutelares educativos analisados no Tribunal de Família


e Menores de Lisboa, à data do trabalho de campo, 43% encontravam-se
pendentes e 57% encontravam-se findos. No Tribunal de Família e Menores de
Coimbra a situação era a seguinte: 62% dos 49 processos analisados
encontrava-se pendente e 38%, findos.

Os dados recolhidos permitem-nos caracterizar os jovens aoss quais


aqueles processos dizem respeito, considerando o sexo, a idade, a
nacionalidade, com quem habitam e onde residem, qual o seu grau de
instrução e qual a sua situação perante o trabalho. Recolhemos, ainda, dados
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 245

que nos permitem conhecer os seguintes aspectos da justiça tutelar educativa:


quem são os mobilizadores do processo tutelar educativo, qual a actuação do
advogado, quais os factos praticados pelo jovem qualificados como crime, as
medidas tutelares educativas aplicadas, a quem foram aplicadas e a que tipo
de factos qualificados como crimes foram aplicadas e qual a duração da fase
jurisdicional do processo tutelar educativo nos tribunais analisados.

É a análise destes dados, depois de devidamente tratada, que


apresentamos nesta secção.

1. Os jovens

1. 1. O sexo, a idade e a nacionalidade dos jovens

Passando a uma observação mais detalhada dos dados, começamos por


caracterizar sociologicamente os jovens que mobilizaram a actividade judicial
daqueles tribunais. No que diz respeito ao sexo, idade e nacionalidade dos
jovens não há diferenças significativas quando comparamos os dados dos
estudos de caso com o perfil sócio-jurídico a nível nacional analisado na
secção anterior.

A grande maioria dos jovens que foram sujeitos de um processo tutelar


educativo que chegou à fase jurisdicional, quer no Tribunal de Família e
Menores de Lisboa, quer no de Coimbra, era do sexo masculino (cerca de
90%, em ambos).

Cerca de 60% dos jovens da nossa amostra, quer no Tribunal de Família


e Menores de Lisboa, quer no de Coimbra tinham idades, à data do início da
fase jurisdicional, entre os 14 (34,7%, em Coimbra, e 32%, em Lisboa) e os 15
anos (25,3%, em Coimbra, e 34,4%, em Lisboa).
246 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.18
Idade dos jovens

34,7 34,4
35,0
32,0

30,0
25,3

25,0
21,6
21,3

20,0
16,0

15,0

9,7
10,0

5,0
1,3 1,2 1,3
0,0 0,8 0,4

0,0
10 11 12 13 14 15 16

Tribunal de Coimbra Tribunal de Lisboa

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Em Coimbra, regista-se, contudo, um peso relativo mais acentuado de


jovens sujeitos de um processo tutelar educativo que chegou à fase
jurisdicional com 12 anos (21,3% de Coimbra contra os 9,7%, de Lisboa).

No que se refere à nacionalidade verifica-se que, ao contrário do que


acontece em Coimbra em que a percentagem de estrangeiros é diminuta
(1,3%), no Tribunal de Família e Menores de Lisboa a percentagem de jovens
estrangeiros é significativa, 21,3%.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 247

Gráfico V.19
Nacionalidade dos jovens

98,7

100,0

90,0 78,7

80,0

70,0

60,0

50,0

40,0
21,3
30,0

20,0 1,3

10,0

0,0
Portuguesa Estrangeira

Tribunal de Coimbra Tribunal de Lisboa

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Esta diferença resultará da diferente composição social das zonas de


competência territorial dos dois tribunais, sendo que na Grande Lisboa, ao
contrário de Coimbra, o peso relativo de estrangeiros é maior (5%) do que a
média nacional de 2,2%146. Contudo, comparando esses valores com a
percentagem de menores estrangeiros sujeitos de um processo tutelar
educativo que chegou à fase jurisdicional no Tribunal de Família e Menores de
Lisboa (20,9%), verifica-se que há, neste Tribunal, uma
sobrerepresentatividade marcante de estrangeiros na fase judicial dos
processos tutelares educativos.

De entre os estrangeiros, há uma forte representatividade (81%, 43 em


54) dos jovens dos Países Africanos de Lingua Oficial Portuguesa, 34%
cabo-verdianos, 24,5% angolanos e 22,6% guineenses.

146
De acordo com um estudo do Observatório da Imigração, de 2003, de Maria João Valente
Rosa, Hugo Seabra e Tiago Santos, “a população de nacionalidade estrangeira equivale a
2,2% (Censo de 2001) do total de residentes em Portugal” (Rosa, Seabra e Santos, 2003:48).
248 Capítulo V - Entre dois olhares

As condições sócio-económicas em que muitos daqueles jovens vivem e


a falta de respostas institucionais de natureza multicultural serão, por certo,
factores fortemente indutores desta situação.

1. 2. A orfandade, a situação e a residência do jovem

À data da abertura do processo, os jovens da nossa amostra eram, na


sua grande maioria, não órfãos: no Tribunal de Família e Menores de Lisboa,
92% e no Tribunal de Família e Menores de Coimbra, 87%.

Gráfico V.20
Situação dos jovens

80,0 73,2
70,7

70,0

60,0

50,0

40,0

30,0
18,7
17,2
20,0
10,7
6,8
10,0
0,0 1,6 0,0 1,2

0,0
a viver com pai e/ou internado em a viver com outro abandonado a viver com outra
mãe instituição familiar pessoa

Tribunal de Coimbra Tribunal de Lisboa

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Cerca de 70% dos jovens da nossa amostra - no Tribunal de Família e


Menores de Lisboa (73,3%) e no Tribunal de Coimbra (70,7%) – viviam, assim,
com, pelo menos, um dos progenitores. Merece referência ainda, a
percentagem significativa de jovens (perto de um quinto), que à data da
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 249

abertura do processo tutelar educativo se encontravam internados numa


instituição (18,7% no Tribunal de Coimbra e 17,2%, no Tribunal de Lisboa).

1. 3. O grau de instrução e a situação perante o trabalho dos jovens

No que se refere ao grau de instrução, e como se pode ver pelo Gráfico


V.21, 46% dos jovens da nossa amostra, sujeitos de um processo tutelar
educativo que chegou à fase jurisdicional no Tribunal de Família e Menores de
Lisboa, tinham ou frequentavam o 2.º ciclo do ensino básico (5.º e 6.º anos de
escolaridade).

Gráfico V.21
Grau de instrução dos jovens

50,0 46,2

45,0
38,7
40,0

35,0
28,0
30,0 26,7
25,3

25,0

20,0

12,2
15,0 11,1
8,0
10,0

5,0 1,9 1,9


0,0 0,0

0,0
ensino básico (1.º ensino básico (2.º ensino básico (3.º outro ou não sabe ler nem ensino recorrente
ciclo) ciclo - 5.º e 6.º ciclo - 7.º 8.º e 9.º desconhecido escrever
anos) anos)

Tribunal de Coimbra Tribunal de Lisboa

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Também os jovens que tinham ou frequentavam o 2.º ciclo do ensino


básico representam a maior percentagem (38,7%) no Tribunal de Família e
Menores de Coimbra. Contudo, note-se que no Tribunal de Coimbra, 28% dos
250 Capítulo V - Entre dois olhares

jovens tinham ou frequentavam o 3.º ciclo, em contraposição com os 12,2% no


Tribunal de Família e Menores de Lisboa. Há, assim, um maior grau de
escolaridade entre os jovens sujeitos de um processo tutelar educativo que
chegou à fase jurisdicional no Tribunal de Família e Menores de Coimbra
(cerca de 67% dos jovens tinha ou frequentava o 2.º ou 3.º ciclos, enquanto
que, no Tribunal de Lisboa apenas 58% tinham ou frequentavam esse grau de
instrução).

Quadro V.14
Grau de instrução dos jovens por idade

COIMBRA

Idade 12 13 14 15 Total

Grau de instrução Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %

não sabe ler nem escrever 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0,0 0,0

ensino básico (1.º ciclo) 4 25,0 4 33,3 3 11,5 8 42,1 19,0 25,3

ensino básico (2.º ciclo - 5.º e 6.º anos) 7 43,8 4 33,3 11 42,3 7 36,8 29,0 38,7

ensino básico (3.º ciclo - 7.º 8.º e 9.º anos) 3 18,8 4 33,3 11 42,3 3 15,8 21,0 28,0

ensino recorrente 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0,0 0,0

outro ou desconhecido 2 12,5 0 0,0 1 3,8 1 5,3 4,0 8,0

Total 16 100,0 12 100,0 26 100,0 19 100,0 73 100,0

Idade 12 13 14 15 Total
Grau de instrução Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %

Menores com grau de instrução adequado à idade 10 62,5 4 33,3 11 42,3 3 15,8 28,0 38,4

Menores com grau de instrução não adequado à idade 6 37,5 8 66,7 15 57,7 16 84,2 45,0 61,6

Total 16 100,0 12 100,0 26 100,0 19 100,0 73 100,0

LISBOA

Idade 12 13 14 15 Total

Grau de instrução Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %

não sabe ler nem escrever 0 0,0 1 1,8 2 2,4 2 2,2 5 1,9

ensino básico (1.º ciclo) 12 48,0 19 33,9 21 25,3 14 15,7 66 27,0

ensino básico (2.º ciclo - 5.º e 6.º anos) 9 36,0 23 41,1 41 49,4 47 52,8 120 46,7

ensino básico (3.º ciclo - 7.º 8.º e 9.º anos) 0 0,0 5 8,9 13 15,7 14 15,7 32 12,4

ensino recorrente 0 0,0 1 1,8 2 2,4 2 2,2 5 1,9

outro ou desconhecido 4 16,0 7 12,5 4 4,8 10 11,2 25 10,0

Total 25 100,0 56 100,0 83 100,0 89 100,0 253 100,0

Idade 12 13 14 15 Total

Grau de instrução Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %

Menores com grau de instrução adequado à idade 9 36,0 5 8,9 13 15,7 14 15,7 41 16,2

Menores com grau de instrução não adequado à idade 16 64,0 51 91,1 70 84,3 75 84,3 212 83,8

Total 25 100,0 56 100,0 83 100,0 89 100,0 253 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 251

Como se pode ver pelo Quadro V.14, dos jovens da nossa amostra, com
idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos, um número significativo não
tinha ou frequentava o grau de instrução adequado à sua idade. Esta
percentagem é menor no Tribunal de Família e Menores de Coimbra.

O Gráfico V.22 mostra os dados da nossa amostra relativos à condição


perante o trabalho dos jovens sujeitos de um processo tutelar educativo que
chegou à fase jurisdicional.

Gráfico V.22
Condição perante o trabalho dos jovens

80,0 73,3

67,6
70,0

60,0

50,0

40,0

30,0
20,6
17,3
20,0
9,5
5,3
10,0 4,0
1,9
0,0 0,4

0,0
a estudar sem ocupação desconhecida a trabalhar a estudar e trabalhar

Tribunal de Coimbra Tribunal de Lisboa

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

No Tribunal de Família e Menores de Lisboa, aqueles jovens


encontravam-se, na sua maioria, cerca de 68%, a estudar. No Tribunal de
Família e Menores de Coimbra, a percentagem é um pouco mais elevada
(73,3%), aliás, em consonância com a maior escolaridade dos jovens sujeitos
de processos tutelares educativos neste Tribunal.
252 Capítulo V - Entre dois olhares

Quadro V.15
Idade dos jovens por condição perante o trabalho

COIMBRA

Idade 10 11 12 13 14 15 16 Total

Condição perante o trabalho Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %


a estudar 0 0,0 0 0,0 12 75,0 10 83,3 25 96,2 8 42,1 0 0,0 55 73,3

a estudar e trabalhar 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0

a trabalhar 0 0,0 0 0,0 1 6,3 0 0,0 0 0,0 3 15,8 0 0,0 4 5,3

sem ocupação 0 0,0 0 0,0 2 12,5 2 16,7 1 3,8 7 36,8 1 100,0 13 17,3

desconhecida 0 0,0 1 100,0 1 6,3 0 0,0 0 0,0 1 5,3 0 0,0 3 4,0

Total 0 0,0 1 100,0 16 100,0 12 100,0 26 100,0 19 100,0 1 100,0 75 100,0

LISBOA

Idade 10 11 12 13 14 15 16 Total

Condição perante o trabalho Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %

a estudar 1 50,0 1 33,3 21 84,0 40 71,4 56 67,5 57 64,0 1 100,0 177 68,3

a estudar e trabalhar 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 1,2 0 0,0 0 0,0 1 0,4

a trabalhar 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 5 5,6 0 0,0 5 1,9

sem ocupação 0 0,0 1 33,3 2 8,0 11 19,6 21 25,3 19 21,3 0 0,0 54 20,8

desconhecida 1 50,0 1 33,3 2 8,0 5 8,9 5 6,0 8 9,0 0 0,0 22 8,5

Total 2 100,0 3 100,0 25 100,0 56 100,0 83 100,0 89 100,0 1 100,0 259 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

De notar, contudo, que uma percentagem significativa dos jovens nos dois
tribunais (17,3% em Coimbra), mas, em especial, no Tribunal de Família e
Menores de Lisboa (20,8%, em Lisboa), embora em idade escolar,
encontrava-se desocupada. Esta diferença é, também, provavelmente,
indiciadora de uma das causas da divergência do grau de instrução entre os
jovens do Tribunal de Coimbra e do Tribunal de Lisboa. Neste Tribunal
regista-se uma percentagem mais elevada de jovens sujeitos de processos
tutelares educativos que tinham entre os 13 (19,6%) e os 14 (25,3%) anos e
que se encontrava desocupada, do que no Tribunal de Coimbra, 16,7% e 3,8%,
respectivamente.

1. 4. Processos anteriores

Interessou-nos conhecer qual o número de jovens que, anteriormente ao


processo em causa, já tinham tido um ou mais processos tutelares educativos
e/ou de promoção e protecção. Os dados recolhidos mostram que a
percentagem de jovens com processos anteriores é, em ambos os tribunais,
bastante elevada (60%, no Tribunal de Família e Menores de Coimbra, e 65%,
no de Lisboa).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 253

Gráfico V.23
Processos tutelares educativos e/ou de promoção e protecção anteriores

45

45 40

40 35

35 31

30

25

16 16
20
13
15

10
4

0
Coimbra Lisboa

com PPP & PTE com PPP com PTE sem PPP ou PTE

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Note-se, todavia, que a percentagem de jovens apenas com processos de


promoção e protecção anteriores é menor em Lisboa (4%) do que em Coimbra
(13%), ao contrário da percentagem de menores apenas com processos
tutelares educativos (45% e 31%, respectivamente). Estas diferenças podem
indiciar ou um menor recurso aos processos de promoção e protecção em
relação aos jovens julgados em Lisboa, ou, pelo contrário, uma menor eficácia
desses processos, com o consequente “arrastamento” de mais jovens para a
alçada da Lei Tutelar Educativa. Como poderemos ver nos capítulos seguintes,
há, também, a hipótese, de o processo tutelar educativo ser utilizado para
“proteger” jovens que, de outra forma, não poderiam ser ajudados, quer por
falta de mecanismos legais que possibilitem uma intervenção eficaz, quer por
falta de meios humanos e materiais.
254 Capítulo V - Entre dois olhares

Do presente estudo resulta, assim, que o perfil sociológico dos jovens da


nossa amostra sujeitos de processos tutelares educativos que chegaram à fase
judicial diverge um pouco ao compararmos os tribunais de família e menores
de Coimbra e de Lisboa.

No Tribunal de Família e Menores de Coimbra, os jovens sujeitos de


processos tutelares educativos que chegaram à fase judicial são, na sua
grande maioria, do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 14 e
os 15 anos, embora se registe uma percentagem significativa de jovens mais
novos. São de nacionalidade portuguesa e vivem com um ou ambos os pais,
embora cerca de um quinto se encontre internado numa instituição. São jovens
que, em regra, encontram-se a estudar e têm ou frequentam, na sua maioria, o
segundo ciclo do ensino básico, tendo uma escolaridade adequada ou quase
adequada à sua idade. De referir, ainda, que a percentagem de jovens com
processos anteriores era, bastante elevada (60%). Cerca de 16% dos jovens
tinham processos de promoção e protecção e processos tutelares educativos
anteriores, 13% apenas processos de promoção e protecção e 31% apenas
processos tutelares educativos.

No Tribunal de Família e Menores de Lisboa, os jovens sujeitos de


processos tutelares educativos que chegaram à fase judicial são, também na
sua grande maioria, do sexo masculino. Têm, também, em regra, 14 ou 15
anos. Mas, cerca de um quinto são estrangeiros, registando-se uma
sobrerepresentatividade de jovens estrangeiros, em relação à população
estrangeira residente na área da Grande Lisboa. Vivem com um ou ambos os
pais, embora, à semelhança do que acontece no Tribunal de Família e
Menores de Coimbra, cerca de um quinto se encontre internado numa
instituição. Têm ou frequentam, na sua maioria, o segundo ciclo do ensino
básico, embora apresentem, numa percentagem significativa, uma
escolaridade desadequada à sua idade. Embora a grande maioria se encontre
a estudar, regista-se, contudo, uma percentagem considerável de
“desocupados”. Quanto aos jovens com processos anteriores a sua
percentagem é elevada (65%), sendo que destes, 45% tinham apenas
processos tutelares educativos, 16% processos de promoção e protecção e
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 255

processos tutelares educativos anteriores e 4% apenas processos de


promoção e protecção.

2. O processo tutelar educativo

2. 1. Os mobilizadores do processo tutelar educativo

Os processos analisados no Tribunal de Família e Menores de Lisboa


foram iniciados, na sua maioria, pelas polícias (53%), enquanto que,
relativamente aos processos analisados no Tribunal de Família e Menores de
Coimbra, os principais mobilizadores foram os ofendidos (41,3%).

Gráfico V.24
Mobilizadores do processo tutelar educativo

60,0
53,0

50,0
41,3
37,3
40,0 35,2

30,0

20,0 16,0

10,0 4,0 4,7


4,0
2,4
1,3 0,0 0,8

0,0
polícias ofendido denúncia feita por escola outro pais
mais de uma
entidade/pessoa

Tribunal de Coimbra Tribunal de Lisboa

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Verifica-se, assim, uma diferença assinalável relativa à importância das


polícias enquanto mobilizadoras nos processos tutelares analisados em ambos
os tribunais (53%, em Lisboa, e 37,3%, em Coimbra). É possível que para esta
256 Capítulo V - Entre dois olhares

diferença (de 15,7%) contribua o facto de os “crimes” públicos147 que constam


no requerimento de abertura da fase jurisdicional relativamente aos menores
sujeitos de um processo tutelar que chegou à fase jurisdicional no Tribunal de
Família e Menores de Lisboa terem um peso relativo superior em cerca de 13%
em relação ao peso relativo dos “crimes” públicos que constam do
requerimento de abertura da fase jurisdicional relativamente aos processos
analisados no Tribunal de Coimbra (33,4% e 20,6%, respectivamente). A nossa
hipótese de trabalho é que será a natureza da criminalidade subjacente o
principal factor indutor desta situação.

2. 2. O acompanhamento do jovem por advogados

A Lei Tutelar Educativa refere que os jovens necessitam de um


acompanhamento jurídico especializado148. Resulta do nosso estudo que, em
ambos os tribunais, a esmagadora maioria das vezes, o advogado do jovem é
nomeado pelo Tribunal, tratando-se, portanto, de um advogado de nomeação
no âmbito do patrocínio judiciário.

147
Os crimes públicos são aqueles em que “a notícia de um crime dá sempre lugar à abertura
de um inquérito" (artigo 262.º n.º 2 do Código de Processo Penal) ao contrário dos crimes
vulgarmente designados por semi-públicos e particulares em que o exercício da acção penal
está dependente de queixa para os primeiros e de acusação particular para os segundos.
148
Cf. artigo 45.º e 46.º da Lei Tutelar Educativa, em especial, os n.ºs 4 “O defensor é
advogado ou, quando não seja possível, advogado estagiário” e 5 “A nomeação de defensor
deve recair preferencialmente entre advogados com formação especializada, segundo lista a
elaborar pela Ordem dos Advogados”.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 257

Gráfico V.25
A escolha de Advogado

100%

90%

80%

70%

60%
97,2 97,5
50%

40%

30%

20%

10%
2,8 2,5
0%
Coimbra Lisboa
Constituído Oficioso

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Como se pode ver pelo Gráfico V.26 e, apesar de a Lei, como já se


referiu, determinar que o jovem deve ter um acompanhamento especializado,
observamos que numa parte significativa dos casos o defensor do jovem é um
advogado estagiário e, por isso, não especializado em questões de Direito dos
Menores.
258 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.26
Quem defende o jovem: Advogado estagiário ou Advogado?

69,4

70,0 58,5

60,0

41,5
50,0

30,6
40,0

30,0

20,0

10,0

0,0
Coimbra Lisboa

Estagiário Advogado

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Como podemos ver pelo Gráfico, dos jovens sujeitos de um processo


tutelar educativo que chegou à fase jurisdicional no Tribunal de Família e
Menores de Lisboa, 41,5% foram defendidos por advogado estagiário, sendo
que, em relação ao Tribunal de Família e Menores de Coimbra essa
percentagem baixou cerca de 11%, situando-se nos 30,6%.

Para além da defesa ser assegurada, numa percentagem significativa, por


advogados estagiários, acresce que alguns jovens, especialmente do Tribunal
de Família e Menores de Coimbra (40,8%), não são defendidos pelo mesmo
advogado desde o início até ao fim do processo, havendo mesmo uma
percentagem significativa (19,7%, em Coimbra, e 6,7%, em Lisboa) que foram
defendidos por três advogados diferentes ao longo do processo.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 259

2. 3. Factos praticados pelo jovem qualificados como crime

2. 3. 1. Factos ocasionais e plúrimos

A análise dos dados da nossa amostra é, como já referimos na introdução


a este Capítulo, referente aos factos qualificados como crime pelos quais os
jovens, sujeitos dos processos tutelares estudados, foram indiciados como
autores no requerimento de abertura da fase jurisdicional (podendo os
processos estar pendentes ou já terem findado) e não, como na análise das
estatísticas oficiais efectuada na Secção I, referente aos factos qualificados
como crimes pelos quais os jovens foram condenados (processos que findaram
com a aplicação de uma medida tutelar educativa). Também, ao contrário das
estatísticas oficiais, que permitem apenas analisar dados relativos a um facto
qualificado como crime por jovem (o crime mais grave), confrontámo-nos, nesta
análise, com uma média de 2,1 crimes por jovem relativamente aos jovens
sujeitos de processos tutelares educativos no Tribunal de Família e Menores de
Lisboa (539 factos qualificados como crime para 262 jovens sujeitos de
processos tutelares educativos) e uma média de 1,4 crimes por jovem
relativamente aos jovens cujos processos foram analisados no Tribunal de
Família e Menores de Coimbra (102 factos qualificados como crime para 75
jovens sujeitos de processos tutelares educativos).
260 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.27
Número de factos qualificados como crime, relativo a cada jovem, constante nos
requerimentos de abertura da fase jurisdicional

Coimbra Lisboa
5 ou +
4 2,7 5 ou +
2,7 9,9
3
2,7
4
4,7
2
12,2

3
10,7

1
60,5

2
14,2
1
79,7

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Como resulta do Gráfico, dos jovens da nossa amostra que foram sujeitos
de um processo tutelar educativo que chegou à fase jurisdicional no Tribunal de
Família e Menores de Lisboa, 40% foram indiciados, no requerimento de
abertura da fase jurisdicional, pela prática de mais do que um facto qualificado
como crime relevante para o processo em causa; enquanto que no Tribunal de
Família e Menores de Coimbra essa percentagem foi apenas de 20%. É de
notar que, em Lisboa, uma percentagem ainda significativa de jovens (10%) foi
indiciada, no requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela prática de
cinco ou mais factos qualificados como crime, havendo mesmo 5 jovens que
foram foram indiciados, no requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela
prática de 10, 11, 12, 16 e 20 factos qualificados como crime, respectivamente.

Para uma análise mais fina desta situação, dividimos a nossa amostra de
cada Tribunal em jovens indiciados, no requerimento de abertura da fase
jurisdicional, pela prática de apenas por um ou dois factos qualificados como
crime (facto ocasional) e em jovens indiciados, no requerimento de abertura da
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 261

fase jurisdicional, pela prática de pela prática de três ou mais factos


qualificados como crime (factos plúrimos).

Gráfico V.28
Percentagem de factos ocasionais ou de factos plúrimos por jovem

91,9

100,0

90,0 74,7

80,0

70,0

60,0

50,0

40,0 25,3

30,0
8,1
20,0

10,0

0,0
Coimbra Lisboa

ocasional plúrimos

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

A nossa análise mostra que a percentagem de jovens que foi indiciada, no


requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos plúrimos é
mais elevada em Lisboa (25,3%) do que em Coimbra (8,1%). Quanto ao sexo
dos jovens, destaca-se o facto de no Tribunal de Família e Menores de
Coimbra nenhum jovem do sexo feminino ter sido indiciado, no requerimento
de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos plúrimos, ao contrário
do Tribunal de Família e Menores de Lisboa, em que 3% do total de jovens da
nossa amostra naquela situação eram jovens do sexo feminino.

Quanto à idade, no Tribunal de Família e Menores de Coimbra, os jovens


sujeitos de um processo tutelar educativo que foram indiciados, no
requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos plúrimos
262 Capítulo V - Entre dois olhares

têm, predominantemente, 11, 12 ou 14 anos. Em Lisboa, os jovens sujeitos de


um processo tutelar educativo que foram indiciados, no requerimento de
abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos plúrimos têm,
predominantemente, 12, 13 ou 14 anos, notando-se, ao contrário do que
acontece em Coimbra, uma diminuição dos factos plúrimos pelos quais os
jovens foram indiciados no requerimento de abertura da fase jurisdicional à
medida que aumenta a idade dos jovens.

Quanto ao grau de escolaridade, verifica-se uma diminuição, à medida


que o grau de escolaridade do jovem aumenta, relativamente aos jovens
sujeitos de um processo tutelar educativo que foram indiciados, no
requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos plúrimos
no Tribunal de Família e Menores de Coimbra. No Tribunal de Família e
Menores de Lisboa, verifica-se que quando constam no requerimento de
abertura da fase jurisdicional factos plúrimos estes não são “influenciadas” pelo
grau de escolaridade dos jovens (Gráfico V.30).

Gráfico V.29
Factos ocasionais ou plúrimos por grau de escolaridade
Coimbra

93,1 95,2
100,0 89,5

90,0

80,0

70,0

60,0

50,0

40,0

30,0

20,0 10,5
6,9
4,8
10,0

0,0
primeiro ciclo segundo ciclo terceiro ciclo

crime ocasional crime plúrimo

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 263

Gráfico V.30
Factos ocasionais ou plúrimos por grau de escolaridade
Lisboa

73,5 73,3 75,0


80,0

70,0

60,0

50,0

40,0
26,7
26,5 25,0
30,0

20,0

10,0

0,0
primeiro ciclo segundo ciclo terceiro ciclo

crime ocasional crime plúrimo

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

A variável nacionalidade não tem influência nos dados. A percentagem de


jovens portugueses e estrangeiros sujeitos de processos tutelares educativos
que foram indiciados, no requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela
prática de factos plúrimos no Tribunal de Família e Menores de Lisboa é
idêntica.

Em consonância com o que já deixámos dito, é de salientar o facto de a


maioria dos jovens indiciados, no requerimento de abertura da fase
jurisdicional, pela prática de factos plúrimos ter sido anteriormente sujeito de
um processo tutelar educativo e ou de um processo de promoção e protecção.

2. 3. 2. Os tipos de factos qualificados como crime

Considerando os processos em que foi possível recolher este dado, no


Tribunal de Família e Menores de Coimbra os jovens sujeitos de processos
tutelares educativos que chegaram à fase jurisdicional praticaram 16 tipos de
264 Capítulo V - Entre dois olhares

factos qualificados como crimes. Em comparação, no Tribunal de Família e


Menores de Lisboa, esse número foi de 26.

Quadro V.16
Factos qualificados como crime

TFM Coimbra TFM Lisboa

Nº % Nº %

Roubo ou violência depois da subtracção 6 5,9 289 53,6

Furto 28 27,5 52 9,6

Furto qualificado 29 28,4 47 8,7

Ofensa à integridade física grave,


2 2,0 20 3,7
agravada e qualificada

Dano simples e qualificado 7 6,9 15 2,8

Furto de uso de veículo 4 3,9 17 3,2

Condução sem habilitação legal 10 9,8 11 2,0

Ofensa à integridade física simples e


6 5,9 12 2,2
privilegiada
Violação de domicílio e introdução em
1 1,0 15 2,8
lugar vedado ao público

Injúria 0,0 13 2,4

Tráfico de quantidades diminutas, de


1 1,0 9 1,7
menor gravidade ou tráfico-consumo

Ameaça ou coacção 0,0 8 1,5

Substâncias explosivas ou análogas e


1 1,0 7 1,3
armas

Burla simples e qualificada 1 1,0 4 0,7

Contrafacção de moeda ou titulo de


2 2,0 3 0,6
crédito, depreciação do seu valor,
Tráfico e actividades ilícitas, simples ou
1 1,0 4 0,7
agravado ( inclui precursão)
Receptação ou auxilio material ao
2 2,0 1 0,2
criminoso
Incêndios, explosões e outras condutas
0,0 2 0,4
especialmente perigosas
Condução perigosa de veículo rodoviário
0,0 2 0,4
simples e agravada

Resistência e coacção sobre funcionário 0,0 2 0,4

Sequestro, rapto e tomada de reféns 0,0 1 0,2

Violação simples e agravada 1 1,0 0,0

Apropriação ilegítima em caso de acessão


0,0 1 0,2
ou de coisa achada
Crimes contra os sentimentos religiosos e
0,0 1 0,2
o respeito devido aos mortos
Falsificação de documentos ou de notação
0,0 1 0,2
técnica, sua danificação ou subtracção e
Falsidade de depoimento, declaração,
0,0 1 0,2
testemunho, perícia, interpretação ou

Crimes fiscais aduaneiros 0,0 1 0,2

Total 102 100,0 539 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM


Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 265

Para uma análise mais perceptível agrupámos os vários tipos de factos


qualificados como crimes praticados pelos jovens da nossa amostra em “crimes
contra as pessoas”, “crimes contra a sociedade”, “crimes contra o Estado”;
“crimes contra o património (sem violência)”; “crimes contra o património (com
violência)”; e “outros crimes” de acordo com as listas de tipos de crime
agregados, do Gabinete de Política legislativa e Planeamento149 (Gráfico V.31).

149
Na categoria dos “crimes contra as pessoas” considerámos os factos qualificados como
crimes de ofensa à integridade física simples e privilegiada, ofensa à integridade física grave,
agravada e qualificada, ameaça ou coacção, sequestro, rapto e tomada de reféns, violação
simples e agravada, injúria e violação de domicílio e introdução em lugar vedado ao público. Na
categoria “crimes contra o património sem violência”, englobámos os factos qualificados como
crimes de furto, furto qualificado, furto de uso de veículo, apropriação ilegítima em caso de
acessão ou de coisa achada, dano simples e qualificado, burla simples e qualificada e
receptação ou auxilio material ao criminoso. Na categoria de “crimes contra o património com
violência”, incluímos os factos qualificados como crimes de roubo ou violência depois da
subtracção. Na categoria dos “crimes contra a sociedade” incluímos os factos qualificados
como crimes contra os sentimentos religiosos e o respeito devido aos mortos; como crimes de
falsificação de documentos ou de notação técnica, sua danificação ou subtracção e atestados
falsos; de contrafacção de moeda ou titulo de crédito, depreciação do seu valor, passagem e
aquisição de moeda falsa; de incêndios, explosões e outras condutas especialmente perigosas;
de substâncias explosivas ou análogas e armas; de condução perigosa de veículo rodoviário
simples e agravada; de tráfico e actividades ilícitas, simples ou agravado e de tráfico de
quantidades diminutas, de menor gravidade ou tráfico-consumo; e, por fim, os factos
qualificados como crimes de condução sem habilitação legal. Na categoria de “crimes contra o
Estado” englobámos os factos qualificados como crimes de resistência e coacção sobre
funcionário e de falsidade de depoimento, declaração, testemunho, perícia, interpretação ou
tradução. Na categoria “outros crimes” incluímos apenas os factos qualificados como “crimes
fiscais e aduaneiros”.
266 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.31
Factos qualificados como crime agrupado
Coimbra Lisboa

crimes contra o património crimes contra o estado


crimes contra a vida em (com violência) 0,6
sociedade 5,9 outros crimes
14,7 crimes contra a vida em
0,2
sociedade
7,4

crimes contra as pessoas


9,8 crimes contra as pessoas
12,8

crimes contra o património


(com violência)
53,6

crimes contra o património crimes contra o património


(sem violência) (sem violência)
69,6 25,4

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Ao analisarmos o tipo de factos qualificados como crime agrupados pelos


quais os jovens da nossa amostra foram indiciados, no requerimento de
abertura da fase jurisdicional, verificamos que no Tribunal de Família e
Menores de Coimbra predominam os factos qualificados como crimes contra o
património sem violência (cerca de 70%); enquanto que, em Lisboa
predominam os factos qualificados como crimes contra o património com
violência (cerca de 54%). Assim, em Lisboa, os factos pela prática dos quais os
jovens foram indiciados no requerimento de abertura da fase jurisdicional foram
qualificados como tipos de crime mais gravosos (53,6%, crimes contra o
património com violência; 12,8%, crimes contra as pessoas) do que em
Coimbra (5,9% e 9,8%, respectivamente).

Devido à grande maioria dos jovens ser do sexo masculino, não há, em
relação a estes, diferenças significativas em relação à percentagem total dos
factos qualificados como crime em cada Tribunal.

Já quanto à idade, constatámos que, quer no Tribunal de Família e


Menores de Coimbra, quer no Tribunal de Família e Menores de Lisboa, à
medida que aumenta a idade dos jovens diminui o peso relativo dos factos
qualificados como crimes contra as pessoas e aumenta o peso relativo dos
factos qualificados como crimes contra o património com violência e como
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 267

crimes contra a vida em sociedade. Ainda considerando o Tribunal de Família e


Menores de Lisboa, o peso relativo dos factos qualificados como crimes contra
o património com violência regista algum crescimento com o aumento da idade
dos jovens.

Os Gráficos V.32 e V.33 mostram a distribuição do peso relativo dos


diferentes factos qualificados como crimes considerando o grau de
escolaridade.

Gráfico V.32
Factos qualificados como crime por grau de escolaridade150
Coimbra

100% 8,3
19,4 17,9

80%

60%
79,2
64,5 66,7

40%

20% 5,1
12,9
10,3 12,5
3,2
0%
primeiro ciclo segundo ciclo terceiro ciclo

crimes contra as pessoas crimes contra o património (com violência)

crimes contra o património (sem violência) crimes contra a vida em sociedade

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

150
Analisamos apenas os jovens que tinham ou frequentavam o ensino básico (primeiro,
segundo e terceiro ciclo) porque só em relação a esses temos um número adequado de jovens
em ambos os tribunais para que possamos comparar os dados.
268 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.33
Factos qualificados como crime por grau de escolaridade151
Lisboa

1,2 0,4 0,0


7,4 5,5
100%
20,3
13,5
30,5
80%

35,6
60%
58,3

40% 55,5

37,3

20%
19,6
8,2 6,8

0%
primeiro ciclo segundo ciclo terceiro ciclo
crimes contra as pessoas crimes contra o património (com violência)
crimes contra o património (sem violência) crimes contra a vida em sociedade
crimes contra o estado

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

A variável “grau de escolaridade” tem, na nossa amostra, influencia,


sobretudo, nos factos qualificados como crimes contra o património com
violência e contra as pessoas. Como se pode ver nos Gráficos anteriores, em
ambos os tribunais, à medida que aumenta a escolaridade dos jovens, diminui
o peso relativo dos factos qualificados como crimes contra o património com
violência.

Ao contrário do que se verifica no Tribunal de Família e Menores de


Coimbra, no Tribunal de Família e Menores de Lisboa, à medida que aumenta
o grau de escolaridade regista-se uma diminuição dos factos qualificados como
crimes contra as pessoas.

Quanto à nacionalidade, só analisável na amostra dos processos do


Tribunal de Família e Menores de Lisboa, a única diferença significativa

151
Cf. nota anterior.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 269

regista-se em relação aos factos qualificados como crimes contra as pessoas.


Cerca de 14% dos factos constantes do requerimento de abertura da fase
jurisdicional relativos aos jovens de nacionalidade portuguesa tiveram por base
factos qualificados como crimes contra as pessoas, enquanto que apenas 7,8%
dos factos constantes dos requerimentos de abertura da fase jurisdicional
relativamente aos jovens de nacionalidade estrangeira foram baseados em
factos qualificados como crimes da mesma natureza.

Os Gráficos V.34 e V.35 mostram, para cada um dos tribunais, e tendo


como referência os tipos de factos qualificados como crimes, o peso relativo
dos jovens que tinham tido um processo de promoção e protecção e/ou outro
processo tutelar educativo anterior.

Gráfico V.34
Factos qualificados como crime por jovem com processo de promoção e protecção e/ou
outro processo tutelar educativo anterior
Coimbra

80,0 77,8
73,8

70,0

57,1
60,0

50,0
42,9
40,0
40,0

30,0
30,0

20,0
20,0
11,9
11,1 10,0
7,1 7,1 8,3
10,0
2,8
0,0 0,0 0,0 0,00,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
0,0
crimes contra as crimes contra o crimes contra o crimes contra a crimes contra o outros crimes
pessoas património (com património (sem vida em estado
violência) violência) sociedade

com PPP & PTE com PPP com PTE sem PPP ou PTE

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM


270 Capítulo V - Entre dois olhares

Gráfico V.35
Factos qualificados como crime por jovem com processo de promoção e protecção e/ou
outro processo tutelar educativo anterior
Lisboa

70,0

60,5
60,0 55,3

50,0 47,1

40,0

29,9
27,3 27,3 27,3
30,0 25,8 25,6

18,1 18,2
20,0

8,4
10,0 6,6 7,8 7,0
6,2
0,6 0,00,8 0,0 0,0 0,4 0,0
0,0
0,0
crimes contra as crimes contra o crimes contra o crimes contra a crimes contra o outros crimes
pessoas património (com património (sem vida em estado
violência) violência) sociedade

com PPP & PTE com PPP com PTE sem PPP ou PTE

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Analisando os Gráficos V.34 e V.35, verificamos que, na nossa amostra,


os jovens sujeitos de processos tutelares educativos que chegaram à fase
jurisdicional no Tribunal de Família e Menores de Coimbra, e que foram ou
eram sujeitos de processos de promoção e protecção, foram indiciados, no
requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos
qualificados como crimes contra as pessoas e contra o património com
violência em percentagens (30% e 20%, respectivamente) bastante superiores
às dos jovens que não foram ou não eram sujeitos de processos de promoção
ou protecção ou de outros processos tutelares educativos (11,1% e 2,8%,
respectivamente).

No Tribunal de Família e Menores de Lisboa verifica-se, também, que há


uma grande percentagem de jovens que eram ou foram sujeitos de processos
de promoção e protecção (27,3%) ou de processos de promoção e protecção e
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 271

processos tutelares educativos (25,8%) que foram indiciados, no requerimento


de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos qualificados como
crimes contra as pessoas. Estes últimos foram, igualmente, indiciados, no
requerimento de abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos
qualificados como crime numa percentagem maior do que o resto dos jovens
por actos qualificados por crimes contra a vida em sociedade.

2. 4. A duração do processo tutelar

Como se sabe, uma das questões com se confrontam os tribunais


portugueses em geral é a questão da morosidade processual. Interessou-nos,
também, analisar esta questão à luz dos dados da nossa amostra. Dos
processos em que foi possível recolher dados que permitissem esta análise,
resulta que, em ambos os tribunais, desde a abertura do processo no Ministério
Público até à data da audiência em que é aplicada uma medida, ou à data da
comunicação ao IRS da medida tutelar aplicada152 a duração de mais de
metade dos processos tutelares é inferior ou igual a um ano, (59,3% em
Coimbra, e 57,4% em Lisboa), embora, destes, a maioria tenha durado mais de
6 meses.

152
Durante a recolha de dados nos tribunais de família e menores de Coimbra e de Lisboa,
deparámo-nos com algumas lacunas referentes às datas da audiência em que é decidido o
processo, assim como às datas da comunicação ao IRS da medida tutelar aplicada. Desta
forma, utilizámos as datas da audiência, quando existentes, e as datas da comunicação ao
IRS, quando aquelas não existiam.
272 Capítulo V - Entre dois olhares

Quadro V.17
Duração dos processos tutelares educativos

TFM Coimbra TFM Lisboa

Nº % Nº %

Até 3 meses 0 0,0 3 3,0

3 a 6 meses 11 20,4 17 16,8

6 meses a 1 ano 21 38,9 38 37,6

1 a 2 anos 21 38,9 34 33,7

Mais de 2 anos 1 1,9 9 8,9

Total 54 100,0 101 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Acresce que há uma percentagem significativa de processos em ambos


os tribunais, (38,9% e 33,7%, respectivamente) que tem uma duração entre um
e dois anos, o que, considerando o desenvolvimento da personalidade de um
jovem, é um tempo demasiado longo para que a sua situação não esteja
definida. Foi, ainda, possível registar, na nossa amostra, alguns processos no
Tribunal de Família e Menores de Lisboa que demoram mais de dois anos.

O Quadro V.18 mostra a duração daqueles processos desde a data dos


factos até à data de abertura do processo de inquérito, na fase de inquérito e
na fase jurisdicional.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 273

Quadro V.18
Duração dos processos tutelares educativos

Da abertura do processo à abertura da fase


Da data dos factos à abertura do processo
jurisdicional
TFM Coimbra TFM Lisboa TFM Coimbra TFM Lisboa

Nº % Nº % Nº % Nº %

Até 15 dias 22 29,7 54 21,3 Até 3 meses 9 12,2 27 14,3

15 dias a 1 mês 13 17,6 71 28,1 3 a 6 meses 30 40,5 50 26,5

1 a 3 meses 22 29,7 66 26,1 6 meses a 1 ano 30 40,5 62 32,8

3 a 6 meses 8 10,8 35 13,8 1 a 2 anos 4 5,4 48 25,4

Mais de 6 meses 9 12,2 27 10,7 Mais de 2 anos 1 1,4 2 1,1


Total 74 100,0 253 100,0 Total 74 100,0 189 100,0

Da abertura da fase jurisdicional à comunicação ao


IRS153
TFM Coimbra TFM Lisboa

Nº % Nº %

Até 3 meses 30 55,6 53 53,0

3 a 6 meses 17 31,5 35 35,0

6 meses a 1 ano 7 13,0 11 11,0

1 a 2 anos 0 0,0 1 1,0

Mais de 2 anos 0 0,0 0 0,0

Total 54 100,0 100 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Como podemos ver pelo Quadro V.18, o tempo que medeia entre a
prática do facto e a abertura do processo é, na grande maioria dos casos,
inferior ou igual a três meses e, em cerca de metade, inferior a um mês. Esta
situação estará relacionada com as circunstâncias do cometimento do facto,
muitas vezes em flagrante delito, e com o exercício do direito de queixa, que
pode ser mais ou menos tardio.

Na fase de inquérito, isto é, considerando a actividade do Ministério


Público, a investigação dos factos praticados por jovens qualificados como
crimes tem uma duração que não podemos deixar de considerar longa. Em
Coimbra, 47,3% e, em Lisboa, 59,3% dos processos que chegaram à fase

153
Cf. nota de rodapé anterior.
274 Capítulo V - Entre dois olhares

jurisdicional demoraram mais do que seis meses na fase de investigação. É,


ainda, de salientar que em Lisboa, 25,4% dos processos da nossa amostra
demoraram entre 1 a 2 anos para chegarem à fase jurisdicional.

Na fase jurisdicional, os processos analisados comparativamente à fase


anterior, registaram durações menos elevadas. A grande maioria dos
processos findaram até 6 meses (mais de metade em três meses - 55,6%, em
Coimbra, e 53%, em Lisboa).

Resulta, assim, do exposto que a análise dos dados da nossa amostra


revela, quanto às variáveis mobilizadores do Tribunal, intervenção de
advogado, factos qualificados como crime de que os jovens são indiciados, no
requerimento de abertura da fase jurisdicional e duração do processo tutelar
educativo, as seguintes divergências, ao compararmos os tribunais de família e
menores de Coimbra e de Lisboa. No Tribunal de Família e Menores de
Coimbra, os maiores mobilizadores do processo tutelar são os ofendidos,
enquanto que no Tribunal de Família e Menores de Lisboa são as polícias.

Se bem que em ambos os tribunais os jovens sejam, na grande maioria


dos casos, patrocinados por advogados nomeados oficiosamente, e, em
percentagem significativa, por advogados estagiários, no Tribunal de Família e
Menores de Coimbra uma percentagem significativa de jovens (cerca de 40%)
é acompanhada por mais do que um advogado em todo o processo.

Neste Tribunal, os jovens foram indiciados, no requerimento de abertura


da fase jurisdicional, pela prática de, em média, 1,4 factos qualificados como
crime, sendo que cerca de 20% foram indiciados, no requerimento de abertura
da fase jurisdicional, pela prática de mais do que um facto qualificado como
crime. Se atendermos à classificação realizada de “factos ocasionais” e “factos
plúrimos”, verifica-se que apenas 8,1% dos jovens, em Coimbra, foi indiciada,
no requerimento de abertura da fase jurisdicional, por factos plúrimos. No
Tribunal de Família e Menores de Lisboa esta situação regista algumas
diferenças. Os jovens foram indiciados, no requerimento de abertura da fase
jurisdicional, pela prática de, em média, 2,1 factos qualificados como crimes,
sendo que cerca de 40% foram indiciados, no requerimento de abertura da fase
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 275

jurisdicional, pela prática de mais do que um facto qualificado como crime


relevante para o processo em causa. Acresce que uma percentagem ainda
significativa (10%) foi indiciada, no requerimento de abertura da fase
jurisdicional, pela prática de cinco ou mais factos qualificados como crime. Em
Lisboa, o peso relativo de jovens que foram indiciados, no requerimento de
abertura da fase jurisdicional, pela prática de factos plúrimos é cerca de três
vezes mais que em Coimbra (cerca de 25%).

Quanto à duração dos processos, a diferença mais significativa,


comparando os dois tribunais, regista-se na fase de investigação. Em Lisboa, o
peso relativo dos processos que, nesta fase, demoraram entre um e dois anos
é superior: cerca de 25%, contra 5,4% em Coimbra.

3. As medidas tutelares educativas aplicadas

O nosso estudo nos tribunais de família e menores de Coimbra e de


Lisboa incidiu, como já referimos, nos processos entrados naqueles tribunais
entre Janeiro de 2001 e Julho de 2003. Dos jovens sujeitos desses processos,
apenas a 202 tinham sido aplicadas medidas tutelares educativas: 67, em
Coimbra, e 135, em Lisboa. O Quadro V.19 mostra quais as medidas tutelares
educativas aplicadas.
276 Capítulo V - Entre dois olhares

Quadro V.19
Medidas tutelares aplicadas

TFM Coimbra TFM Lisboa

Nº % Nº %

internamento em centro educativo 6 9,0 44 32,6

medidas tutelares combinadas 25 37,3 15 11,1

acompanhamento educativo 9 13,4 25 18,5

admoestação 2 3,0 20 14,8

imposição de obrigações 8 11,9 12 8,9

realização de prestações económicas ou


8 11,9 8 5,9
de tarefas a favor da comunidade

reparação ao ofendido 5 7,5 10 7,4

frequência de programas educativos 2 3,0 1 0,7

imposição de regras de conduta 2 3,0 0 0,0

Total 67 100,0 135 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM

Como se pode ver pelo Quadro, há uma grande diferença entre o peso
relativo das medidas tutelares educativas aplicadas aos jovens sujeitos de um
processo tutelar educativo no Tribunal de Família e Menores de Coimbra e de
Lisboa. Essa diferença, resulta, em larga medida, do número e do tipo de facto
qualificado como crime pelos quais são “condenados” os jovens, dado que em
Lisboa, como já vimos, há uma percentagem maior de “condenados” por factos
qualificados como crimes plúrimos e por factos qualificados como crimes contra
o património com violência (roubo) o que implica, por si só, uma adequação da
medida à maior gravidade das infracções. Não surpreende, por isso, que o
peso relativo das medidas de maior gravidade (internamento em Centro
Educativo e acompanhamento educativo) seja maior em Lisboa.

Merece, também, referência o facto de no Tribunal de Família e Menores


de Coimbra os juízes aplicarem mais medidas combinadas, sendo residual o
peso relativo da medida de admoestação, que, em Lisboa, tem uma
percentagem de cerca de 15%.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 277

Em ambos os tribunais é notória a subutilização de medidas como a


reparação ao ofendido, a frequência de programas formativos, a imposição de
regras de conduta e a realização de trabalho a favor da comunidade, embora,
em Coimbra, essas medidas sejam mais aplicadas em conjunção com outras,
nomeadamente, com o acompanhamento educativo.

No que respeita ao tipo de medidas combinadas aplicadas, em ambos os


tribunais implicam, na sua maioria, a frequência de programas formativos.

Das medidas tutelares educativas de internamento em Centro Educativo


aplicadas aos jovens sujeitos de um processo tutelar educativo nos tribunais de
família e menores de Coimbra e de Lisboa, a grande maioria foi aplicada em
regime semiaberto, registando-se um peso maior do regime fechado em
Lisboa.

Quadro V.20
Regime de internamento em Centro Educativo

TFM Coimbra TFM Lisboa

Nº % Nº %

Regime Aberto 2 20,0 1 2,3

Regime Semi-Aberto 8 80,0 34 77,3

Regime Fechado 0 0,0 9 20,5

Total 10 100,0 44 100,0

Fonte: OPJ/Amostra processos TFM


CAPÍTULO VI

O processo tutelar educativo:

a mesma lei e práticas judiciais muito distintas

– análise do discurso dos actores judiciais

Introdução

A reforma do Direito de Crianças e Jovens, globalmente considerada,


pretendeu imprimir uma mudança de orientação normativa e,
consequentemente, de prática, neste âmbito do direito. Esta mudança de
caminho, no entanto, depende não só de alterações legislativas, que se
procuraram solucionar com a aprovação dos correspondentes diplomas legais,
mas, sobretudo, de mudança de procedimentos induzidos pela mudança das
correspectivas normas legais.

Neste Capítulo procuraremos trazer para o debate a visão dos operadores


que trabalham directamente com estas questões (magistrados judiciais e do
Ministério Público (MP), advogados e técnicos do Instituto de Reinserção Social
(IRS) e da Segurança Social), ressaltando aqueles pontos que se foram
revelando ao longo da nossa investigação, de maior importância para a
compreensão do “estado das coisas” no que diz respeito especificamente à
aplicação da Lei Tutelar Educativa.

O conteúdo deste Capítulo não contempla, naturalmente, a opinião dos


autores deste relatório, mas pretende unicamente conduzir-nos pelo olhar e
discurso dos operadores sobre o tema em análise. Limitar-nos-emos a
sistematizar o discurso proferido sobre as diversas questões abordadas, de
modo a que se possam, sobre cada um desses pontos, comparar as diversas
opiniões.
280 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

1. As questões levantadas pelos olhares dos actores do processo tutelar


educativo

1. 1. O Processo de Promoção e Protecção e o Processo Tutelar


Educativo: duas intervenções distintas para duas situações
diferenciadas

1. 1. 1. A ratio legis da LTE e da LPCJP

Com a entrada em vigor dos novos diplomas que regulam o Direito de


Crianças e Jovens, passaram a prever-se dois tipos de intervenções distintas
para duas situações diferenciadas, justificadas pela “legitimidade e a eficácia
do sistema de intervenção estadual junto de menores” (Rodrigues e Duarte-
Fonseca, 2003: 56). Segundo a Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º
265/VII, de 17 de Abril de 1999, da Assembleia da República, que deu origem à
Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo (LPCJP) (Lei n.º 147/99, de
1 de Setembro), tendo a comissão constituída por força do despacho do
Ministro da Justiça n.º 20/MJ/96, de 30 de Janeiro de 1996 diagnosticado “que
a ineficácia da intervenção estadual junto de menores [era] conatural à
indistinção dos fenómenos sociais a que se dirige, tornou-se claro que a
intervenção relativa aos menores infractores não pode ser idêntica à que se
adequa às situações de menores em risco”.

Assim como se referiu no Capítulo IV, o legislador distinguiu situações em


que se torna necessária uma intervenção tutelar educativa (para jovens com
idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos de idade, que sejam agentes
da prática de facto qualificado pela lei como crime) de outras em que a
intervenção necessária é uma intervenção tutelar de protecção (para os jovens
que se encontrem em situação de perigo). “A ideia central é distinguir a
situação dos menores agentes da prática de facto qualificado pela lei como
crime da dos menores em perigo e diferenciar as respostas” (Rodrigues e
Duarte-Fonseca, 2003: 55).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 281

As exposições de motivos das Propostas de Lei n.º 266/VII e 265/VII da


Assembleia da República (que deram origem, respectivamente, à Lei Tutelar
Educativa e à Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo) foram
explícitas nas causas que legitimariam uma intervenção num e noutro sentido.

Assim, uma intervenção tutelar de protecção impor-se-ia nas “situações


de risco que ponham em perigo a segurança, a saúde, a formação, a educação
ou o desenvolvimento da criança ou do jovem”, fundando-se tal intervenção,
“desde logo, no artigo 69.º da Constituição, que confere à sociedade e ao
Estado o dever de os proteger contra todas as formas de abandono, de
discriminação e opressão e contra o exercício abusivo da autoridade, com vista
ao seu desenvolvimento integral” (Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º
265/VII).

Por outro lado, a Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º 266/VII,


que deu origem à Lei Tutelar Educativa (LTE), refere que “a intervenção
protectora do Estado justifica-se quando o gozo ou o exercício de direitos
cívicos, sociais, económicos ou culturais do menor são ameaçados por factores
que lhe são exteriores (incúria, exclusão social, abandono ou maus tratos)”,
enquanto que a intervenção tutelar educativa “deve confinar-se aos casos em
que o Estado se encontra legitimado para educar o menor mesmo contra a
vontade de quem está investido no poder paternal, o que apenas pode admitir-
se quando se tenha manifestado uma situação desviante que torne clara a
ruptura com elementos nucleares da ordem jurídica”. Deste modo, como
referem Anabela Rodrigues e Duarte-Fonseca, a intervenção educativa “só
pode admitir-se quando se manifesta uma situação desviante que torne clara a
ruptura com o núcleo de valores essenciais da comunidade representado pelas
normas penais. Estas representam o quadro de referência e o mínimo de
obediência devida por qualquer cidadão. O Estado tem, pois, o direito – e o
dever – de intervir correctivamente sempre que o menor, ao ofender as normas
penais, revele uma personalidade hostil ao dever-ser jurídico. Torna-se então
necessário educá-lo para o direito, por forma a que interiorize as normas e os
valores jurídicos (…). Além do mais, esta solução diferenciadora de respostas
282 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

junto dos menores tem a virtualidade de se conformar com exigências


comunitárias de segurança e de paz social, de que o Estado não pode alhear-
se só porque a ofensa provém de um cidadão menor” (2003: 56).

1. 1. 2. O consenso na bondade da diferenciação de respostas

Esta diferenciação de tratamento foi bem acolhida pelos operadores


judiciários e técnicos que, de uma maneira geral, a viram como uma inovação
positiva da nova legislação, considerando que era necessário acabar com o
indiferenciamento de processos:

“[Os processos] andavam aí a «rolar» com relatórios sucessivos sem


nada de concreto (…). Tanto quanto me recordo, os processos
«rolavam» com relatórios sucessivos, com acompanhamentos que
não eram acompanhamentos. Se os miúdos estavam em regime de
internamento também estavam todos misturados, sem nada que os
distinguisse uns dos outros, sem medidas concretas, sem uma
intervenção eficaz (…). E agora parece-me que não” (Ent. 10) 154.

Há, assim, um consenso generalizado de que “foi um passo


fundamental a distinção entre a situação da criança que é vítima da
que é delinquente” (Ent. 45).

Alguns operadores salientam o facto de a LTE ter tornado os jovens em


sujeitos processuais:

“Eu diria como princípio de conversa, que o formalismo é


absolutamente indispensável para nós conseguirmos ajudar os
jovens a ter uma noção de que o direito funciona e de que as regras

154
A identificação dos operadores judiciários faz-se pela expressão Ent., seguida de um
número atribuído a cada um dos entrevistados, de forma a garantir o anonimato.
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 283

da vida em sociedade têm princípio meio e fim. E, portanto, quem


trabalhou com jovens antes da LTE e quem trabalha depois da LTE,
e que os ouvia antes e que os ouve depois, percebe que o ganho foi
estrondoso do ponto de vista de os tornar sujeitos processuais (…),
de lhes reconhecer direitos como cidadão e como pessoa e de os
fazer perceber o drama em que eles estão envolvidos. Os menores
não percebiam o drama em que estavam envolvidos. Na OTM eles
entravam no Centro Educativo aos 12 anos e sabiam que, fizessem
o que fizessem, só saiam de lá aos 18 anos, na maioridade. Não
havia duração de medidas, não eram ouvidos, não havia nada disto
e, portanto, quanto a isto eu diria que, eventualmente, precisamos
de ajustar algum formalismo, o formalismo visto na perspectiva de
zelar por garantias processuais e direitos dos menores é uma
conquista irrecusável e eu acho que não podemos andar para trás,
sob pena de, digamos assim, voltarmos a um registo em que o
interesse do menor, não é o interesse do menor, é aquilo que o
adulto entende em cada momento na sua convicção e, se calhar, no
seu moralismo, que é o interesse do menor. Eu estou na lógica do
núcleo duro do formalismo. E, portanto, o núcleo duro do formalismo,
para mim, acho que tem que ser o menor como sujeito de direitos,
com direito a contraditar, com direito a ser ouvido, com direitos
iguais aos adultos” (P-6).

A LTE combina adequadamente o direito com a equidade:

“Em relação à minha experiência anterior [com a OTM] (…), o que


eu notava era o seguinte: nesta área a equidade sobrepunha-se à
legalidade, desde que houvesse bom-senso chegava-se lá, hoje a
Lei é mais formalista (…), mas também tem um campo muito grande
para a equidade (…), para alguma criatividade. Embora mais
formalista, porque é uma Lei com grande pendor de
284 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

regulamentação, deixa um campo para a equidade e para a


criatividade” (Ent. 11).

E se a situação é de um jovem que necessita de protecção e que praticou


um crime, os processos apensam-se:

“A separação entre a LTE e a LPCJP é correcta porque há diferença


entre as situações que cada lei aborda, na maioria dos casos,
apesar de em outros casos não haver grande diferença, por haver
um ponto comum: crianças abandonadas a si próprias e que
enveredam pelo crime. Nestes casos apensam-se os PTE e os PPP”
(Ent. 42).

Um outro magistrado do Ministério Público referia que, apesar de não ter


muito “tempo de experiência com esta Lei, (…) a experiência é muito positiva.
Sei onde vou encaixar na Lei aqueles factos, aquelas providências que
requeiro, aquelas medidas” (Ent. 11).

Todavia, um outro entrevistado, apesar de reconhecer vantagens na nova


legislação de crianças e jovens, entende que a anterior OTM já permitia a
separação entre jovens vítimas e os que praticavam crimes:

“A ideia de tratar de forma diferente realidades diferentes foi-nos


muito cara aquando da aceitação desta «separação de águas».
Apesar de eu entender que a OTM não obrigava à não separação
porque, evidentemente, a um miúdo vítima de maus tratos era
aplicável o artigo 19.º que era uma medida parecida com a inibição
do poder paternal. Era uma medida que visava afastar aquela
criança do meio familiar que lhe era hostil e, portanto, aplicava-se
uma medida limitativa do exercício do poder paternal; ao passo que,
se o miúdo andasse com um comportamento delinquente
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 285

poder-se-ia aplicar desde a admoestação, passando pelo


acompanhamento educativo, até ao internamento em
estabelecimento do IRS, decisão esta precedida de uma audiência
com juízes sociais, o que não sucedia no primeiro caso. Portanto, na
OTM, o que havia era uma forma de processo que se iniciava de
forma igual, mas acabava de forma diferente. Agora, é a própria Lei
que nos empurra para uma situação em que podem estar miúdos
com problemáticas diferentes e que reclamariam tratamentos
diferentes dentro da mesma estrutura” (P-10).

1. 1. 3. O dissenso na aplicação da lei: a aplicação das medidas


tutelares educativas para compensar a “falha” da lei de
promoção e protecção

Apesar de no plano do direito positivo, o legislador ter sido bem claro nas
opções que tomou, e de tal opção ser bem aceite pela generalidade dos
operadores, da investigação por nós levada a cabo notaram-se na aplicação
concreta desvios à orientação definida por lei.

Alguns operadores judiciários evidenciaram, precisamente, esta


subversão do sistema positivado. Um magistrado do Ministério Público,
relatando um caso concreto, refere que requereu a abertura da fase
jurisdicional em que propõe uma medida de internamento por ser a mais
adequada à protecção do jovem:

“Muitas vezes a Lei Tutelar Educativa também acaba por funcionar


como uma Lei de Promoção e Protecção. Estou a pensar que ainda
ontem requeri a abertura da fase jurisdicional relativamente a dois
menores a quem propus medidas de internamento no âmbito da Lei
Tutelar Educativa não propriamente pela gravidade dos crimes que
eles cometeram, sendo certo que também não é esse o critério com
que se deve aplicar o internamento, mas a minha ideia ao propor
286 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

aquela medida era mais no sentido de também os promover e os


proteger e sobretudo isso (…). O crime que um dos miúdos cometeu
foi assaltar uma barraca da feira popular, tirou de lá uma bicicleta e
um rádio, tudo no valor de cerca de cinquenta contos e, portanto,
isso será um furto qualificado, mas dos mais severos com uma pena
até cinco anos. (…) Por ter entrado numa barraca, entrou num
estabelecimento comercial. Não tenho, pelo menos aqui,
conhecimento de outros factos que ele tenha cometido, mas este
miúdo quando cometeu estes factos estava no Colégio (…) onde já
tinha sido colocado pela comissão de protecção de (…). Do Colégio
(…) fugiu e nunca mais o conseguimos encontrar. Antes de estar no
Colégio (…), estava numa família de acolhimento que inicialmente
pensou adoptá-lo, mas a partir de determinada altura, como o
menino começou a dar problemas, «Acabou-se a adopção vai-te
embora e vai mas é para o Colégio de (…) que é lá que estás bem.»

O miúdo fugiu daqui para (…), onde terá estado, mas agora
perguntei pelo paradeiro dele e ninguém sabe. O único relatório que
lá tenho - nem sequer consigo fazer o relatório oficial porque não o
conseguimos localizar - é o último relatório que eu pedi à Comissão
de (…). O último relatório social que lá havia do acompanhamento
daquele menor e onde claramente se diz que é previsível que o
caminho daquele miúdo, se não for enquadrado num ambiente
estruturante com algumas regras, vai ser o caminho da
marginalidade e da delinquência. Ele não tem alternativa, porque
não tem nenhuma espécie de família. Portanto, ontem quando
estava a fazer aquele requerimento pensei: a única hipótese que
tenho de fazer alguma coisa por este miúdo, é metê-lo num regime
aberto num Centro Educativo do Ministério da Justiça, porque se
esse miúdo tivesse uma família normal, estável, não precisava de ir
para uma medida de internamento, nem iria. Mas a este miúdo, cujo
paradeiro se desconhece e que, quando for localizado, vai
desaparecer outra vez, estar-lhe a aplicar uma medida de
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 287

acompanhamento educativo, por exemplo, é a mesma coisa que não


lhe estar aplicar coisa nenhuma porque ele não vai cumprir nada”
(Ent. 10).

Do mesmo modo, um outro magistrado do Ministério Público,


reconhecendo embora as finalidades distintas das duas leis, afirma que “é
evidente que a partir do momento que o processo de promoção e protecção
não deu uma resposta adequada tivemos que ir para a LTE (…). Esticou-se a
corda para aplicar uma medida cautelar de guarda. Era o melhor para o menor”
(Ent. 46).

Um magistrado judicial entrevistado refere, ainda, que:

“nós somos confrontados com situações em que nos surge um


menor, por hipótese, com 14 anos de idade, com uma vivência
familiar dita má, onde até nalguns casos é vítima de maus-tratos e
que terá roubado uns telemóveis. Nalgumas dessas situações
somos tentados a subverter a Lei e a fazer a «justiça» que deveria
ter sido feita em sede de promoção e protecção. O menor deveria ter
sido protegido a tempo. Quando é depois confrontado perante o
Tribunal, este tem o dever de o responsabilizar pelos ilícitos que
praticou, de lhe aplicar uma medida que vise educá-lo para o direito.
Porém, o Tribunal, sabendo do seu enquadramento sócio-familiar,
tende a sobrevalorizar a vertente protectora – que aliás também
deve ser considerada em sede tutelar educativa – e acaba por
subverter a própria Lei, designadamente no âmbito da escolha da
medida e da sua duração. É, por isso, que encontraram (…)
admoestações para furtos vários e internamentos para reduzido
número de crimes menores. Há aqui uma espécie de tentativa de
protecção do menor” (P-4).
288 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

1. 1. 4. As causas da subversão do sistema: da mentalidade dos


magistrados à falta de estruturas da Segurança Social

Os operadores judiciários apontaram causas diversas para esta situação.


Um magistrado do Ministério Público indica a necessidade de “conformar a
mentalidade dos magistrados ao que se pretende com a LTE” (Ent. 23).

No entanto, a causa mais fortemente apontada para a utilização do


processo tutelar educativo como protecção foi, por um lado, a ausência de
medidas eficazes no âmbito de um processo de promoção e protecção:

“A Lei Tutelar Educativa, nesta minha curta experiência aqui, é muito


mais eficaz do que a Lei de Promoção e Protecção, até pelas
medidas que podem ser executadas e as instituições responsáveis
pela sua execução” (Ent. 10).

Acrescentando que as medidas adoptadas no âmbito de um processo


tutelar educativo têm mais hipóteses de eficácia:

“Porque se eu tiver uma criança de doze anos ou treze anos que,


voltando ao crime de furto, que não tem processo tutelar educativo
porque não houve queixa, mas que precisaria de algum
acompanhamento, se eu lhe instaurar um processo de promoção e
protecção que medida lhe vou aplicar? O apoio junto dos pais, em
princípio, se correr tudo bem. (…) Se eu lhe vou aplicar essa medida
- que habitualmente será essa porque na Lei de Promoção e
Protecção também poucas mais me restam - do apoio junto do pai,
do apoio junto do tio, etc, em que é que isto se traduz na prática?
Em que é que se traduz na prática o apoio junto de uns pais deste
género?” (Ent. 10).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 289

Também outro operador salienta a “inexistência de alternativas” no âmbito


da Lei de Promoção e Protecção:

“Se estamos ou não a distorcer ligeiramente o processo tutelar


educativo, é um problema que se coloca ao magistrado. O que é que
é melhor para aquela criança se, apesar de tudo, é o internamento
ou a situação em que está? (…)

E é esta a realidade com que nós nos debatemos. Podemos admitir


que subvertemos, nessas circunstâncias, a Lei mas porque o
sistema subverteu a forma como as coisas estão estruturadas. (…)
se eu peço à Segurança Social: Indique-me uma instituição para
acolher este miúdo com problemas comportamentais gravosos (…) a
Segurança Social diz-nos: “Sr. Dr. não tenho. Nós não temos
instituições vocacionadas...” ou então tenho casos que, aquilo que
vimos, obviamente, é que não aceitam este miúdo porque irá
estragar, irá contribuir para problemas. (…)

De facto, tem de haver um esforço. Não temos resposta e é este o


problema. Portanto, não se trata aqui de darmos a primazia ao
processo tutelar educativo como se ele estivesse a ser utilizado de
forma grosseira para atingir determinados objectivos, é que nós
precisamos que funcione com outro sistema para deixarmos de
continuar a ter estes processos” (P-2).

Por outro lado, é consensual entre os actores judiciários que a Segurança


Social não tem estruturas contentoras para “jovens difíceis”:

“Eu penso que a Segurança Social em Portugal tem que caminhar


para uma situação em que terá de criar estruturas próprias para
miúdos difíceis, ou seja, em que não se permita que no mesmo
espaço estejam miúdos com práticas de consumos, miúdos que
andam na rua e crianças maltratadas. Tem que haver estruturas
290 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

diferentes e a Segurança Social não se pode demitir. No entanto, os


adolescentes que já iniciaram um percurso delinquente deverão
estar noutro tipo de estrutura, no âmbito da Justiça” (P-10).

No mesmo sentido, outro operador chama a atenção para o seguinte


facto:

“A Lei de Promoção e de Protecção não prevê acolhimento


institucional em regime fechado, apenas em regime aberto. Por isso,
não se consegue que o jovem fique na instituição em que é acolhido.
A LPCJP parte da ideia que o jovem em situação de perigo quer
protecção, o que nem sempre é verdade. Esta intervenção não é
nada, devia ser mais contentora – nos Colégios de Acolhimento os
jovens saem quando querem, depois há mandados e regressam (…)

Em casos mais complicados de menores que estão numa instituição


da Segurança Social e fogem, a Segurança Social contacta o
Tribunal para saber se há algum inquérito pendente, para o menor
ser encaminhado para um Centro Educativo” (Ent. 22).

Defende-se, assim, que:

“O que era fundamental é que na promoção e protecção houvesse


uma medida na qual houvesse alguma contenção. Por falta de
estabilidade não se consegue trabalhar com as crianças (…). Podia
ser equacionada a hipótese de no âmbito da LPP haver instituições
com alguma capacidade de contenção na Segurança Social. O
Estado gasta rios de dinheiro a conduzir crianças que fogem
continuamente” (Ent. 45).
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 291

Alguns entrevistados assumem a subversão do sistema devido à


representação de que os Centros Educativos funcionam bem, e de que não
existem medidas e instituições de contenção para os jovens com
comportamentos paradelinquentes:

“Esta subversão, que eu continuo a achar que existe, da minha parte


e de alguns colegas, é porque, de facto, o processo tutelar não tem
que ser eminentemente um processo protector e, portanto, nós
subvertemos a Lei quando damos a tónica a essa noção de
protecção. Agora, eu faço-o assumidamente. As razões que me
levam a isso são, precisamente, o facto de nós, em sede de
promoção e protecção, acabarmos por verificar que nem sempre
essas medidas apresentam a eficácia desejada, nem sempre se
mostram adequadas a algumas realidades pré-delinquenciais,
enquanto que os centros educativos revelam-se eficazes. Porque é
que os recomendamos? Porque os centros educativos funcionam
(…).

Esses centros educativos funcionam e estão preparados e


vocacionados para tratarem com menores em situação limite; de
facto, conseguem dar uma resposta muito melhor do que qualquer
outro colégio no âmbito da protecção. Passa-se seguramente isto.
Normalmente, em casos extremos de promoção e protecção em que
o menor furta em casa (não havendo apresentação de queixa por
parte dos familiares), anda a noite toda por fora, mas não tem apoio
familiar estruturado, interrogamo-nos: “ O que é que nós fazemos a
este fulano?”, até parece que estamos à espera que ele seja
apanhado pela polícia para a partir daí intervir. Isso aconteceu. E
depois, é claro: vai para o centro e depois acalma. (...) Dá-me ideia
que em sede de promoção e protecção, para determinadas
situações, devia haver hipótese também de aplicação de medidas
que previssem alguma contenção” (P-4).
292 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

A necessidade de previsão de uma medida que permita maior contenção


no âmbito dos processos de promoção e protecção não gera, no entanto,
unanimidade.

Um magistrado do Ministério Público, apesar de afirmar que “há


efectivamente, a utilização do processo tutelar educativo com intuito de
protecção” e de entender que tal “acontece, fundamentalmente porque (…) as
estruturas de protecção não correspondem adequadamente às necessidades –
estou a falar, designadamente, daqueles casos mais problemáticos, os casos
fronteira, que não são casos em que seja possível aplicar o tutelar educativo”,
defende que “ao nível da promoção e protecção não devem existir instituições
fechadas, ainda que possam ser mais contentoras” (P-5).

1. 1. 5. A desadequação das medidas da LTE e da LPCJP às


situações de comportamentos desviantes não criminais

Outros operadores entrevistados indicaram, ainda, como ponto crítico da


reforma do Direito de Crianças e Jovens, a existência de situações não
acauteladas nem pela Lei de Promoção e Protecção de Crianças e Jovens em
Perigo nem pela Lei Tutelar Educativa.

“Há menores que praticam factos que não cabem na LTE, por não
terem idade ou por não terem cometido crimes graves, nem na
LPCJP, por ser um regime muito aberto. É preciso um regime
intermédio, talvez no âmbito da LPCJP, mas mais fechado. Fica aqui
uma zona de ninguém. As medidas de promoção e protecção não
são suficientes e as da LTE também não são as adequadas” (Ent.
42).

O que leva a que, segundo alguns dos entrevistados, se fique à espera


que o jovem pratique um crime:
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 293

“Todas aquelas condutas que os jovens adoptam e ainda não


consubstanciam a prática de factos classificados na lei como crime,
mas que são um anúncio de (…) comportamentos, esses sim,
delinquentes. E, de facto, e isso é a constatação que se faz (…),
falha a intervenção porque não há resposta ao nível da promoção e
protecção para essa franja de para-delinquência e que é o problema
mais grave, quanto a mim, na área da promoção e protecção (…).
Isto acaba, depois, por passar para a intervenção tutelar educativa
porque o problema vai crescendo, as condutas vão sendo mais
graves e acabam por comprometer a lei penal e, nesta medida, dá
origem à intervenção tutelar educativa. E daquilo que eu tenho
ouvido nos vários tribunais é que, de facto, há situações em que o
Tribunal, as entidades, o IRS, enfim, as polícias, acabam por estar à
espera que o menor cometa factos qualificados na lei penal como
crime e, desta feita, factos mais graves...” (Ent. 47).

Para este magistrado judicial, como consequência desta ausência de


eficácia no âmbito da protecção,

“A intervenção precoce, mínima intervenção, enfim, tudo aquilo que


é apregoado em todo o sistema, cai por terra (…). Acaba por se ver
também já na própria intervenção tutelar educativa, de certa
maneira, esta realidade, embora noutro prisma, que é: quando o
jovem começa a cometer crimes, enfim, factos qualificados na lei
penal como crimes, menos graves, enfim, condutas mais ligeiras
mas que já estão tipificadas na lei como crime, porque as respostas,
como por exemplo, o acompanhamento educativo e outras medidas
não institucionais não estão ou não são muito eficazes (…), logo a
educação para o direito também não se faz convenientemente, e
acabamos por descambar na última medida que é a medida de
internamento” (Ent. 47).
294 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

Segundo o mesmo magistrado esta situação deve-se a uma falta de


“previsão adequada das consequências desta reforma porque, de facto, esta
cisão nas intervenções, coisa que não acontecia na velha OTM, (…) impunha
em sede de promoção e protecção uma resposta que não se queria... Mas
acho que foi falta de previsão, parece-me que nunca houve verdadeira noção
daquilo que representava este tipo de comportamentos que tinham resposta ao
nível da intervenção do IRS.... dos vários CAEFs. E, portanto, não se percebia
muito bem, embora houvesse estudos já, e se percebesse que muitos dos
jovens que estavam nos Centros, nos CAEFs eram jovens que não tinham
cometido factos qualificados na lei penal como crime. Estavam naquele limbo e
que depois tiveram que sair com a reforma. Porque o que estavam era em
situação de perigo.” (Ent. 47).

De acordo com a opinião manifestada por aquele magistrado, a solução


para esta ausência de resposta da Lei de Promoção e Protecção de Crianças e
Jovens em Perigo não passa pela alteração legislativa, defendendo a
necessidade de criar estruturas adequadas para os jovens para-delinquentes:

“( …) implementar convenientemente a lei, criando estruturas. Eu sei


que é uma tarefa difícil, mas é necessário estruturas de resposta a
essas necessidades no âmbito da promoção e protecção e resposta
desde logo institucional, instituições voltadas para essa camada de
jovens (…) com comportamentos para-delinquentes ou com
problemas de consumos e outras práticas que os colocam em
perigo, não só perigo físico mas também na sua formação e que
acabam fazer enveredar por comportamentos delinquentes a breve
trecho. E aí (…) é preciso criar uma resposta ao nível da Segurança
Social, que é ao fim e ao cabo quem deve actuar nesta matéria da
promoção e protecção. Mas não me parece que estejam criadas as
condições para dar uma resposta a este nível. E, então, no plano
das instituições que existem, instituições, enfim, centros de
acolhimento, instituições de acolhimento voltadas para essa camada
Os Caminhos Difíceis da “Nova” Justiça Tutelar Educativa 295

de jovens, são muito poucas e acabamos por ter imensos problemas


que passam por isso” (Ent. 47).

1. 1. 6. A difícil articulação entre o processo de promoção e


protecção e o processo tutelar educativo

A Lei Tutelar Educativa prevê, expressamente, a possibilidade de


existirem, relativamente ao mesmo jovem, simultaneamente processos tutelar
educativo e de promoção e protecção (cf. artigo 43.º, n.º 3). O Ministério
Público pode, ainda, em qualquer fase do processo tutelar educativo participar
“às entidades competentes a situação de menor que careça de protecção
social”; tomar “as iniciativas processuais que se justificarem relativamente ao
exercício ou ao suprimento do poder paternal”; e “requerer a aplicação de
medidas de protecção” (cf. artigo 43.º, n.º 1).

Segundo a Exposição de Motivos da Proposta de Lei n.º 266/VII, de 17 de


Abril de 1999, “pela noção de intercorrência entre exigências educativas e
necessidades de protecção, estimula-se uma comunicabilidade permanente
entre sistema de justiça e instâncias de protecção, prevendo-se a aplicação, no
processo, de medidas provisórias de protecção e habilitando-se o Ministério
Público a desencadear iniciativas com vista a assegurar a protecção social do
menor ou a efectivar o exercício ou o suprimento do poder paternal. Não existe,
de resto, qualquer antinomia entre o sistema de protecção e o de justiça”.

Alguns magistrados afirmaram fazer uso destes mecanismos legais de


articulação entre a promoção dos direitos e protecção e o processo tutelar
educativo:

“Os meus processos tutelares educativos têm todos, quase todos ao


lado um processo de promoção e protecção apensado” (P-2).
296 Capítulo VI – Análise do discurso dos actores judiciais

“Se da matéria que temos resulta indiciada uma situação de perigo


(comportamento reiterado de infracção de determinadas normas),
convertemos em processo de promoção e protecção e comunicamos
a outras instâncias – CPCJP” (Ent. 45).

No entanto, um magistrado judicial afirma que, em concurso, é mais


adequado que os jovens continuem nos Centros Educativos:

“O problema é que quando se é confrontado com algumas situações


tem que se resolver o problema do crime e nessa fase já é difícil
encontrar medida de promoção e protecção que se adeque ao
menor (...). Repare, muitas vezes faz-se isso conscientemente e até
com o acordo do próprio menor. Nas situações em que o menor
esteve já com medida cautelar e que sabe o que é um Centro
Educativo, tendo tido já contactos com educadores e colegas seus,
pergunta-se-lhes como é que as coisas se estão a passar; qual é a
relação dele com a instituição, com os seus pares e, em metade,
posso garantir, em metade dos julgamentos que realizei, esses
menores verbalizam-me preferir continuar na instituição” (P-4).

Um magistrado do Ministério Público não foge à auto-crítica profissional e


aponta causas para a falta de recurso a estes mecanismos de articulação com
a promoção e protecção, como sejam a falta de uma visão integrada e o facto
de o Ministério Público não exercer as suas competências de articulação:

“Ao nível da protecção, a Lei, desde que seja regulamentada, pode


criar estruturas adequadas, com perspectivas adequadas para a
problemática (…). Porque é que não existe essa ligação do tutelar
educativo e do processo de promoção e protecção? Nuns casos, já
vimos que é porque, no fundo, os magistrados não acreditam nas
medidas de promoção e protecç