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Le Monde Diplomatique/Brasil – ed.

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Negros e mídia: invisibilidades

Em: 27/03/2017 Por Ana Claudia Mielke

Há cerca de um ano a imagem do pequeno Matias Melquíades,


fotografado pelos pais, feliz da vida ao lado de um boneco do Finn,
personagem de Star Wars, ganhava as redes sociais. A foto não apenas
viralizou nas redes brasileiras, como chegou a John Boyega, ator norte-
americano que interpretou o herói no filme O despertar da Força.
Essa historinha consolida o que os negros já vem há muito tempo
dizendo: representatividade importa, sim! Não apenas na televisão e no
cinema, como também na publicidade, na literatura e na própria produção dos
brinquedos. Afinal, Matias, de apenas quatro anos, quis comprar o boneco
porque “se parecia com ele”.
A questão da representatividade do negro na mídia brasileira é algo que
vira e mexe recebe holofotes em pesquisas e debates. Não é para menos, a
indústria cultural midiática ainda é pouco permeável à ideia de ter o negro em
papel protagonista e segue reproduzindo estereótipos, colocando o negro em
papéis que configuram, quase sempre, subalternidade.
Os velhos papéis se repetem. Do lado negativo, o escravo, a “mulata”
lasciva, a empregada doméstica, o preto bobo ou ignorante que faz a gente rir
e o bandido. Do lado positivo, o jogador de futebol, o sambista ou aquele
personagem que interpreta a exceção: o moço de família humilde que lutou
muito e “venceu na vida”. Figuras que não são exclusividade dos produtos de
ficção, visto que são assim também apresentados em programas de auditório e
em quadros do jornalismo.
Até três anos atrás, a TV Globo veiculava nas noites de sábado, em seu
programa humorístico Zorra Total, a personagem Adelaide, uma negra, pobre e
desdentada, retratada como alguém sem higiene, que dividia a casa com uma
ratazana e pedia dinheiro nos vagões do metrô, embora carregasse consigo
aparelhos celulares de última geração – uma definição de seu caráter. E por
que não mencionar a polêmica charge do Jaguar publicada na edição 111
deste Le Monde Diplomatique Brasil? Polêmica que, aliás, rendeu debates e
provocou a produção deste especial sobre negros e mídia, que ocupará as
páginas do jornal ao longo de 2017.
A eleição de certos atributos dos negros como metonímia para definir e
consolidar determinado olhar negativo sobre a negritude vem sendo há muito
tempo uma das mais contundentes estratégias para fixar sentidos e inviabilizar
a diferença racial. O indiano Homi Bhabha (2007) identificou essa estratégia ao
estudar o discurso do colonialismo. Segundo ele, a diferença é reconhecida
como parte da cultura, mas ao mesmo tempo é repudiada em nome da
construção de uma identidade unificadora e idealizada. Dessa forma, mantém-
se o controle sobre determinadas raças e culturas por meio do alijamento de
suas próprias identidades.
No Brasil, o “espetáculo das raças” orientou a construção do mito da
democracia racial, que por sua vez elaborou a ideia de miscigenação e
convivência racial pacífica para forjar o sujeito social mestiço denominado
“brasileiro”. Enquanto isso, violentamente produzia o apagamento sistemático e
sistêmico da cultura e identidade negras, o que ocorreu pari passu a uma
política de exclusão dos negros (do trabalho e dos centros urbanos) no Brasil
pós-abolição.
O problema é que esses apagamentos e exclusões seguiram sendo
reproduzidos – antes como política e violência, agora como discurso. E em
uma sociedade midiatizada são as mídias de massa as principais responsáveis
por isso. É como se algo estivesse sempre no mesmo lugar e, ao mesmo
tempo, tivesse de ser exaustivamente repetido em uma relação ambivalente
entre manutenção e repetição. E os estereótipos são, segundo Bhabha,
exatamente isso, um modo de representação complexo, ambivalente e
contraditório.
A característica da ambivalência é que dá ao estereótipo a garantia de
“repetibilidade em conjunturas históricas e discursivas mutantes” (Bhabha,
2007, p.106) e faz muitos estereótipos continuarem sendo reproduzidos no
cinema e na TV, e que estes sejam, por sua vez, temas provocadores de
debates acalorados.
Ao mapear a evolução da presença negra na teledramaturgia e no
cinema brasileiro, Joel Zito Araújo (2008) concluiu que a telenovela não dava
visibilidade à verdadeira composição racial do país e reproduzia a ideologia da
branquitude como padrão ideal de beleza. Segundo ele, compactuando
“conservadoramente com o uso da mestiçagem como escudo para evitar o
reconhecimento da importância da população negra na história e na vida
cultural brasileira” (p.982).
A análise é precisa, basta lembrar que a primeira protagonista negra
numa telenovela da TV Globo foi vivida pela atriz Taís Araújo em Da cor do
pecado, no recentíssimo ano de 2004 – a mesma atriz havia interpretado Xica
da Silva numa novela de época na extinta TV Manchete, nos idos de 1996, e
voltou ao protagonismo a representar Helena na novela Viver a vida, em 2009.
E a primeira protagonista negra de Malhação é de 2016.
A ausência de negros é, ao lado da reprodução de estereótipos, uma
forma também de inviabilizar a diferença, apagá-la. Há o “trabalho do silêncio”
(Orlandi, 1997), que se produz pela não presença de negros nas produções
audiovisuais. Ausência essa que é, em alguma medida, deliberada, visto que
seguimos vivendo no regime da normatividade branca, da branquitude como
padrão. Então, o negro é ausentado, já que sua cor marca uma presença que
produz estranhamentos dentro dessa normatividade branca.
O audiovisual é onde os silenciamentos são mais sentidos, visto que
lidam com imagem. Para não ficar apenas nos exemplos das telenovelas, vale
jogar luz sobre o que acontece no campo das séries de TV. Nos Estados
Unidos, a presença de sitcons e seriados protagonizados por negros é uma
realidade desde os anos 1970. No Brasil, por outro lado, as tentativas de
produzir séries com protagonistas negros são muito recentes, datam da última
década: na TV Globo, Antônia (2006), Suburbia (2012), Sexo e as negas
(2014) e Mister Brau (2015).
Os exemplos mostram que existem avanços, impulsionados em sua
maioria pelas ações históricas do movimento negro e pelo empoderamento dos
jovens negros da periferia nos últimos quinze anos (graças ao hip hop ou a
movimentos mais ligados à arte urbana e à estética). A adoção de cotas nas
universidades, as organizações de cursinhos populares negros nas periferias e
a produção de políticas de inclusão em âmbito federal corroboram neste
cenário.
Mas estes avanços ainda são pequenos do ponto de vista da qualidade
– é preciso garantir maior representatividade positiva do negro nos meios de
comunicação – e também do ponto de vista da quantidade, visto que esta
representatividade ainda está bem distante da proporção numérica da
presença do negro na sociedade brasileira.
Saindo da esfera da ficção, é possível perceber que os silenciamentos
operam também nos produtos jornalísticos. São raros os casos de especialistas
negros entrevistados em matérias de economia e política. A lógica dos
comentaristas segue sendo a da meritocracia: escreve sobre um tema ou
responde sobre determinadas questões apenas aqueles que alçaram um nível
de elevada qualidade “técnica” ou “intelectual” – nada mais conveniente para
uma sociedade que sempre alijou seus negros do acesso a essa suposta
qualificação.
Nas matérias de cotidiano, que pautam família, educação, transporte,
saúde, moradia etc., quase nunca os negros são personagens das situações
ordinárias. Contraditoriamente, estão sempre estampando os cadernos policiais
e as imagens deletérias dos programas policialescos que promovem
autoritarismo na TV, associando violência, pobreza e negritude.
Mantém-se, assim, tudo exatamente como está: naquela “repetição
demoníaca” dos estereótipos descrita por Bhabha. E assim a repetição do
estereótipo vai negando a articulação da ideia de raça como elemento cultural,
histórico, identitário, permitindo que esta apareça tão somente em sua fixidez
como racismo, conforme destaca o filósofo.
O frisson causado pela presença da jornalista Maria Júlia Coutinho no
quadro fixo do Jornal Nacional é um bom exemplo da negação da diferença e
da produção do racismo. Parte da sociedade não assume enxergar a diferença
dela, a sua negritude. Mas bastou ela ocupar um lugar ao qual não era
historicamente “destinada” para enxergarem a sua pretidão.
Na publicidade não é diferente. Conforme pesquisa de Carlos A. M.
Martins (2010), em 1995 apenas 7% dos anúncios veiculados tinham a
presença de modelos negros, número que subiu para 10% em 2000 e para
13% em 2005. Além disso, embora seja visível o aumento progressivo de
negros escritores, ainda há limitações e barreiras inexplicáveis à entrada
destes no mercado editorial tradicional ou, como afirmou certa vez Fernanda
Felisberto, “a literatura negra é rotulada como fundo de catálogo”.
Evitar a repetibilidade dos estereótipos e dos apagamentos da diferença
produzidos na mídia é algo que requer política pública. Nesse sentido, a
regulação dos meios, especialmente das mídias eletrônicas de massa (rádio e
TV), que no país são objeto de concessão pública, é essencial para garantir a
diversidade racial e a participação efetiva dos negros. Não se trata apenas de
um debate sobre o consumo, mas do entendimento de que a não
representatividade produz consequências devastadoras para a construção da
identidade de um povo.
Na ausência de identificações positivas com negros na TV, nas revistas,
nos livros, nos brinquedos, “a criança negra afasta-se de si própria, de sua
raça, em sua total identificação com a positividade da brancura que é ao
mesmo tempo cor e ausência de cor” (Bhabha, 2007, p.118). E são muitas as
gerações que passaram por isso no Brasil (eu mesma tive dificuldade outro dia
em me lembrar dos personagens negros que marcaram minha infância e
adolescência).
A regulamentação do artigo 221 da Constituição Federal seria um
primeiro passo na promoção da diversidade, visto que trata, entre outras
coisas, da necessidade de garantir a regionalização da produção. Esta, por sua
vez, possibilitaria que identidades e culturas regionais (dentre elas a negra, a
quilombola) fossem mais bem representadas. Além disso, parece ser
necessário retomar o debate sobre as políticas de ações afirmativas nos meios
comerciais de comunicação, como inicialmente se previa com a elaboração do
Estatuto da Igualdade Racial (Lei n. 12.288/2010) ou como se pretendia com o
PL n. 4.370/1998.
Por fim, se as mudanças são poucas diante da amplitude do problema,
podemos dizer que elas seguem persistentes, à revelia daqueles que não
aceitam a diferença e não querem promover a inclusão. Felicidade seria ver,
daqui para frente, outras crianças podendo se identificar com personagens
negros no cinema e na TV, tal como Matias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARAÚJO, Joel Zito. O negro na dramaturgia, um caso exemplar da


decadência do mito da democracia racial brasileira. Revista Estudos
Feministas, Florianópolis, v.16, n.3, p. 970-985, set./dez. 2008.

BHABHA, Homi K. A outra questão: o estereótipo, a discriminação e o discurso


do colonialismo. In: ______. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2007.

FRANKENBERG, Ruth. The Social Construction of Whiteness: White Women,


Race Matters [A construção social da branquitude: mulheres brancas, raça
importa]. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1995.

MARTINS, Carlos A. M. Racismo anunciado: o negro e a publicidade no


Brasil. 2010.

ORLANDI, Eni. As formas dos silêncios: no movimento dos sentidos.


Campinas: Unicamp, 1997.

Esta reportagem foi publicada em 27/03/2017 no site Le Monde diplomatique Brasil. Todas as
informações nela contida são de responsabilidade da autora.