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A crise econômica: entre a queda e o naufrágio

Resumo: o presente artigo pretende compreender os semantismo da crise econômica


brasileira através das imagens obsessivas do naufrágio e da queda como alicerces pelos
quais os discursos jornalísticos constroem seus discursos sobre esses acontecimentos.
Utilizaremos o método mitocrítico e analisaremos vídeos de dois telejornais brasileiros.

Palavras-chave: jornalismo econômico, simbolismo, discurso, crise

Abstract: this article intends to understand the semantics of the Brazilian economic crisis
through the obsessive images of shipwreck and the fall as the foundations by which the
discourses of journalism build their discourses on these events. We will use the
mitochritic method and analyze videos from two Brazilian news programs.

Keywords: economic journalism, symbolism, discourse, crisis


INTRODUÇÃO

O nosso artigo articula a hipótese de que o discurso do jornalismo econômico, em


particular, do financeiro apresenta a crise econômica a partir de 2014 como um discurso
que é orientado pelo simbolismo da queda e do naufrágio. Compreendemos o discurso
jornalístico como um discurso racional que perseguiu as ciências exatas durante a
Modernidade e tenta a todo o momento apresentar as verdadeiras razões para todos os
fatos ao percorrer esse objetivo como fosse algo que por si mesmo precisasse ser
desvendado.
Compreendemos que o conceito de discurso é sempre assumido em um interdiscurso, isto
é, “o discurso não adquire sentido a não ser no interior de outros discursos, através do
qual ele deve abrir um caminho” (CHARAUDEAU e MAINGUENEAU, 2006, p. 172).
Cada discurso gera as múltiplas condições pelo qual mantém relações com outros
discursos, e o próprio gênero no qual o discurso está inserido implica em condições pelo
qual o discurso mantém relações com os demais discursos.

Compreendemos o interdiscurso como o espaço no qual se constrói a coerência dos


enunciados que provêm de uma formação discursiva. “Uma formação discursiva não é
um espaço fechado, já que ela é constitutivamente ‘invadida’ por elementos provenientes
de outros lugares [...] que nela se repetem, fornecendo-lhes suas evidências discursivas
fundamentais. (PÊCHEUX apud CHARAUDEAU e MAINGUENEAU, 1983, p. 297).

Assim, compreendemos que os elementos estruturantes do discurso do jornalismo


financeiro são fornecidos pelos discursos econômicos, em especial, o do liberalismo
econômico.
Ressaltamos também que as “estratégias simbólicas mais refinadas jamais poderiam
produzir completamente as condições de seu próprio êxito (...) caso não pudessem contar
com a cumplicidade de todo um corpo de defensores da ortodoxia” (HEIDDEGER apud
BOURDIEU, 1996, p. 151). Ou seja, por mais que apresentam posições diferentes dentro
do campo financeiro, o discurso jornalístico tende a reiterar as suas falas numa
cumplicidade explícita ao discurso financeiro.
Assumimos que o discurso jornalístico tenta desprezar os limites impostos, ultrapassar é
seu objetivo na sua denúncia e crítica da realidade. O discurso jornalístico trabalha pela
lógica de exclusão, separação dos elementos da narrativa para explicar o acontecimento.
É um padrão similar ao do discurso científico, de dividir, separar, afastar para melhor
explicar os fatos.

CONSIDERAÇÕES SOBRE O DISCURSO DO JORNALISMO FINANCEIRO

Entendemos a dinâmica da economia pós-industrial sob a perspectiva de Manuel Castells


(2005). A hipótese que guia o artigo e compartilhada na obra de Castells é que o
surgimento da economia informacional global se caracteriza pelo desenvolvimento de
uma nova lógica organizacional que está relacionada com o processo atual de
transformação tecnológica, mas não depende dele. São a convergência e a interação entre
um novo paradigma tecnológico e uma nova lógica organizacional e de comunicação que
constituem o fundamento histórico da economia informacional.

Além disso, Castells conceitua a economia informacional/global como distinta da


economia industrial, mas ela não se opõe à lógica da última. A primeira abrange a segunda
mediante o aprofundamento tecnológico, incorporando conhecimentos e informação em
todos os processos de produção material e distribuição, com base em um avanço
gigantesco em alcance e escopo da esfera de circulação. “Em outras palavras: à economia
industrial, restava tornar-se informacional e global ou, então sucumbir” (CASTELLS,
2005, p. 141).

Segundo Castells (2005), a economia é global porque as principais atividades produtivas,


o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-
prima, administração, informação e tecnologia e mercados) estão organizados em escala
global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos.

Tomamos a noção de crise de Castells (2008), que compreende esse fenômeno como um
momento de corte ou redução de fluxos globais de capital, de tecnologia, de serviços em
direção a Estado capitalista devido ao seu comprometimento (agravamento da
capacidade) das atividades econômicas em relação à economia global. A crise na obra de
Castells (2008) é, antes de tudo, uma crise do Estado-nação em dirigir sua política
econômica e atuar numa economia global que esvazia o papel do Estado como principal
agente econômico. “o Estado-nação vem sendo cada vez mais submetido a uma
concorrência mais sutil e problemática de fontes de poder [...] Trata-se de redes de capital,
produção, consumo, crime, instituições internacionais” (CASTELLS, 2008, p.353).

Ao considerar o jornalismo financeiro como sendo parte da estrutura das tecnologias da


informação pela qual a transformação do paradigma econômico teria condições de se
realizar, permite observar o jornalismo financeiro sob uma perspectiva de que se constitui
como um dos fatores cruciais subjacentes dentro do impacto da inovação tecnológica.
Portanto, o cerne da transformação em que estamos vivendo refere-se às tecnologias da
informação, processamento e comunicação.

O campo do jornalismo financeiro é um universo privilegiado de significações,


principalmente, se pensarmos que estamos localizados num modo de produção pós-
industrial em que o sistema financeiro é o principal vetor de dinamismo econômico.

Não podemos desconsiderar dois fatores. O primeiro é a supremacia do campo financeiro


sobre as outras atividades econômicas e depois a centralidade das ideias liberais dentro
do discurso econômico.
Desse modo, o discurso do jornalismo financeiro reflete este sistema de diferenças sociais
ao classificar países e empresas como mais ou menos seguros para investimento e adotar
uma escala que representa de maneira próxima os lugares que estas entidades estão no
sistema social. Se não apresentasse tal similaridade com o sistema social, este código não
seria legítimo.
O discurso desenvolve também estratégias como instrumento de poder como ao definir a
capacidade de fala de seus agentes. A “capacidade de fala refere-se à competência
necessária para falar a língua legítima que por, depender do patrimônio social, retraduz
distinções sociais na lógica propriamente simbólica (...) da distinção” (BOURDIEU,
1996, p. 42).
Assim podemos entender o discurso do jornalismo econômico-financeiro como sendo
como um discurso que adquire sentido no interior do discurso do capitalismo pós-
industrial baseado numa lógica de que a informação serve para a geração de
conhecimentos, capital e de dispositivos de processamento/comunicação da informação,
em um ciclo de realimentação cumulativo.
De modo mais específico, compreendemos o discurso do jornalismo econômico-
financeiro como um discurso que faz circular sentidos que mantém sob uma posição
legítima o capitalismo pós-industrial e o mercado financeiro.
É interessante que pela perspectiva de Foucault da formação discursiva podemos crer que
o discurso do jornalismo econômico-financeiro também é um conjunto de regras não
expressas que detém certas situações de enunciação do que pode e deve ser dito no plano
econômico-financeiro global.

Como aponta Bourdieu

O processo de constituição de uma instância especificamente organizada com


vistas à produção, à reprodução e à difusão de bens (...), bem como a evolução
(...) no sentido de uma estrutura mais (...) complexa, se fazem acompanhar por
uma sistematização e de moralização das práticas e das representações
(BOURDIEU, 1974, p. 37).

Assim, o discurso do jornalismo econômico-financeiro, consideramos como um


conjunto de regras de enunciação que se encontra dentro do discurso de uma economia
pós-industrial numa situação de legitimidade e de hegemonia. Mas isso, não dispensa o
discurso do jornalismo econômico-financeiro de relações de antagonismo, de aliança ou
de dominação que acontecem dependentemente das condições históricas de cada
formação discursiva.
Outro aspecto que desenvolve a legitimidade do discurso do jornalismo financeiro
é a forma ou estilo. É através da forma do que se anuncia que tal discurso constitui um
discurso autorizado. Esta autorização apoia-se na autoridade de um corpo especializado
de assegurar este capital simbólico. Portanto, a legitimidade do discurso do jornalismo
financeiro apoia-se na sua própria forma e estilo (não que haja forma própria e distintiva
de outros segmentos do jornalismo), mas detém uma autorização apoiada na autoridade
dos agentes pertencentes às instâncias financeiras.

Entendemos que o discurso do jornalismo financeiro contribui para um


favorecimento das posições de classes e das instituições com um maior capital financeiro,
isto é, aos agentes internacionais do mercado financeiro e às instituições como a agência
de classificação de risco.

Consequentemente, o discurso do jornalismo financeiro reforça uma relação


desigual de capital (simbólico e econômico) entre agentes com uma posição privilegiada
no campo que é o caso da agência de classificação de risco (bem como de outros órgãos
internacionais) e dos agentes com uma posição subordinada que é o caso da economia
brasileira.

Desse modo, existe uma “relação entre o sistema de diferenças linguísticas e o


sistema de diferenças econômicas e sociais (...) acrescenta-se o fato de se lidar com um
universo hierarquizado” (BOURDIEU, 1996, p. 43) que garante sua reprodução, mas não
garante sua perpetuação. Assim, o campo está em permanente luta em disfarçar os
objetivos e princípios do jogo.

Além disso, como destaca Medina (2003), o jornalismo por se situar numa zona
intermediária entre as artes e as ciências, deveria apresentar uma narrativa que
contemplasse do humano (e suas particularidades) até as formas de abstração mais
elevadas. Neste sentido, “a expansão informativa no espaço social e no tempo histórico
quase sempre vinha revestida por um estilo comunicativo e vibrante, o que facilitava a
revelação do real cifrado” (MEDINA, 2003, p. 128). Entendemos que o jornalismo e seus
valores de racionalidade, abstração e disjunção serviram às necessidades que pretendiam
revelar as dimensões do real.

METODOLOGIA
Selecionamos dois vídeos sobre a crise econômica brasileira,

QUEDA: SÍMBOLOS E IMAGENS OBSESSIVAS

Pressupomos que é através do discurso jornalístico que a sociedade toma consciência


sobre a crise institucional (política e econômica) brasileira e, principalmente, através do
discurso do jornalismo financeiro que a crise é apresentada aos cidadãos brasileiros.
Assim, compreender os símbolos que guiam o discurso do jornalismo sobre a crise
econômica é entender em profundidade os esquemas que orientam não apenas o
jornalismo, mas também os sentidos pelos quais a crise é percebida.
Desse modo, desejamos compreender quais os simbolismos que guiam a noção de crise,
ao revelar em que condições uma arquitetura do símbolo da queda orienta e é constitutiva
da crise.
Desse modo, desenvolveremos os semantismos da queda como um elemento central do
discurso do jornalismo financeiro sobre a crise. Acreditamos que a partir dos sentidos da
queda e do naufrágio que a crise é construída discursivamente, principalmente, há uma
moralização que está ligada ao vetor da queda.

Na definição de Durand, “o sentido da queda e da gravidade acompanha


todas as nossas primeiras tentativas autocinéticas e locomotoras”
(DURAND, 2002, p. 113). Acima de tudo, é na consequência desse
movimento de manter-se de pé que se encontra nossa “experiência
dolorosa fundamental e que constitua para a consciência dinâmica de
qualquer representação do movimento e da temporalidade” (DURAND,
2002, p. 113).

Podemos destacar esse mitema, pois é a partir dele que toda a narrativa mítica se
desenvolve e que as representações midiáticas tomam emprestadas, isto é, sob a dinâmica
do movimento de estar de pé e cair que se encontra a potência da experiência humana do
movimento e do tempo.
Devido a isso, as quedas (econômica, de prédios, aviões, etc) atualizam de modo vicário
nossos primeiros passos e a ideia de tempo, ou seja, a queda é o tempo que se esgota,
termina de modo abrupto, é a gravidade que define nossa relação do mal-estar de não
podermos segurar ou interromper a temporalidade.
Desse modo, a representação da queda da atividade econômica e sua constituição pelo
discurso midiático são uma tentativa do “bloqueamento psíquico e moral” (DURAND,
2002, p. 113) do fenômeno vertiginoso que a gravidade submete os corpos. Assim, a
própria imagem da queda torna-se símbolo triunfante das primeiras imagens brutais que
temos experimentado, como o parto e é memória da nossa “brutal da nossa humana e
presente condição terrestre” (DURAND, 2002, p. 112).

O homem distingue-se dos demais animais terrestres por


sua posição ereta: por ser seu corpo todo uma investida
rumo ao espaço aberto. Tal posição permite ao homem
"conquistar o espaço" a partir do plano. (O pássaro não
precisa conquistar o espaço, está nele.) Mas a posição ereta
humana não resulta na libertação do corpo humano todo
em direção ao espaço (FLUSSER, 2011, p. 35).

Mas o que ressaltamos no discurso jornalístico ao se referir à queda da atividade


econômica e seus correlatos (dentro do panorama da crise econômica) encontra-se
na moralização do fenômeno. Como define Durand (2002, p. 114), toma a queda
como uma psicopatologia, “a queda é confundida com a “possessão” pelo mal”. A
queda da atividade econômica e consequente crise não apenas é representada
como um símbolo de nossos pecados de incompetência econômica ou decisões
políticas. Além disso, o discurso jornalístico assume um caráter moralizante que
tende a nos julgar como se não tivéssemos preparados, principalmente quando uma
‘crise econômica’ acontece no país. Seria uma punição pela incapacidade de
controle dos gastos públicos, má gestão, etc. De acordo com Durand (2002, p. 114),
a queda “é exatamente o tema do tempo nefasto e moral, moralizando sob a forma
de punição”.
Ao analisar os três vídeos sobre a crise econômica e as referências ao símbolo da
queda consideramos a lógica do campo do jornalismo financeiro, no qual o capital
simbólico é o compromisso com as informações e análises que vão interferir no processo
do campo financeiro. As informações deste campo estão sempre baseadas em condições
materiais e decisões que são apresentadas pelas próprias instâncias financeiras.
Assim, o jornalismo financeiro e suas instâncias (imprensa) servem à lógica de
reprodução do campo financeiro, pois atuam na sua conservação do seu capital e dos
grupos ou instâncias que são mobilizados por este campo.
Um dos elementos fundamentais para análise de imagens é investigar as condições
míticas em que se fundam essa imagem. Como um dos símbolos máximos de uma cultura
industrial são o PIB, a taxa de desemprego, e outros índices que compõem esse cenário
macroeconômico que atingiu seu apogeu durante o período de 2009-2013. Houve um
domínio dos semantismos aéreos e seu uso tanto jornalístico quanto comercial. Um
símbolo de um imaginário mítico heroico no qual a ascensão, elevação e conquista dos
céus eram um dos seus principais objetivos. Dentre esses semantismos pode-se verificar
o uso do avião como um referente do avanço econômico recente obtido na economia
brasileira. Persiste sobre o avião e seus vetores como voar, planar, decolar, uma série de
imagens obsessivas sobre o domínio da terra através do olhar aéreo. Do afastamento que
interpreta e age. Da suspensão das condições da terra para o voo de liberação. O avião
alia os fundamentos míticos de ascensão baseados no mito de Ícaro com o
desenvolvimento tecnológico do início do século XX que via o domínio aéreo como a
última fronteira a ser conquistada. Assim, a queda de qualquer avião (da economia) põe
em suspensão nossa capacidade técnica e inicia-se um complexo jogo de encontrar
elementos que apontem a causa. A caixa preta é um pequeno elemento mítico de nossa
relação com o dispositivo avião. A caixa como guardião de todos os segredos. Uma caixa
de Pandora que só é permitida abrir sob condições extremas e nunca bem-vindas. Como
se sua abertura anunciasse os males da técnica.
O avião é um dos maiores símbolos do regime diurno da imagem, isto é, corresponde aos
valores semânticos do céu, sol, luz e que gravitam sobre a ideia do divino purificado. O
avião corresponde ao vetor de voar e, consequentemente, estabelece uma intricada relação
com as aves, como descreve Durand (2002) a ascensão e o voo que o pássaro compartilha
com a flecha. Durand (2002) analisa que a escolha do animal no imaginário sobre o
bestiário reflete aos impulsos eleitos pelo seu grupo social. O avião como símbolo da
ascensão econômica corresponderia ao desafio imposto pelas sociedades modernas
baseadas no avanço e supremacia da técnica, é exemplar, nesse período, um conjunto de
inventores (economistas, políticos, agentes econômicos) que usam os elementos dos
corpos das aves e outros animais voadores como uma metáfora para alcançar seu objetivo
do voo através de um dispositivo técnico. A zoolatria, de acordo com Durand (2002),
sempre esteve em todos os grupos humanos, entretanto, nas sociedades modernas a
zoolatria é deixada de lado por uma abstração espontânea do arquétipo animal. Assim, o
voo torna-se uma abstração do arquétipo dos animais voadores numa tentativa de
interpretação dos sentimentos de bestialidade e de agressividade, como define Durand
(2002).
De acordo com Durand (2002), o poeta não faz mais que recuperar os símbolos primitivos
e reorganizar sobre seu tempo, também acreditamos que os avanços técnicos seguem a
mesma lógica de recuperação dos símbolos primitivos e seus vetores ao organizar para
satisfazer as necessidades humanas. Assim, o domínio do espaço aéreo como necessidade
de uma sociedade tecnificada do final do século XIX e início do século XX torna-se um
motor para recuperação dos vetores dos animais aéreos numa tentativa de interpretação
desse impulso agressivo do homem. O avião, rapidamente, torna-se um dispositivo de
guerra que oferece vantagens sobre os inimigos (sobre as economias adversárias numa
economia global).
De acordo com Durand (2002), os vetores de ascensão sempre são imaginados com a
queda, esse esquema de esforço verticalizante sempre vem acompanhado de um
sentimento de contemplação, de ambição, de exaltação sobre o gigantesco. Assim, os
vetores ascensionais ressignificam a exaltação e glorificação sobre a grandeza das
sociedades modernas ocidentais como um trunfo sobre as demais sociedades colocadas
numa escala de evolucionismo darwinista. Conforme o autor, essa dicotomia entre luz e
sombras e ascensão e queda são sentidas de modo a privilegiar as figuras ascensionais
numa espécie de luta, de batalha, criando uma série de imagens uranianas. Portanto, a
queda de um avião (símbolo da força econômica), em geral, pressupõe uma relação
dicotômica na qual nos julgamos derrotados frente à nossa capacidade de dominação. E
o registro de uma economia em queda frente ao caos que se instaura, em particular,
desenvolve ainda mais esse sentimento de derrota e, no mínimo, um alerta sobre nossos
impulsos de conquista. O avião corresponde, em nossas narrativas contemporâneas, como
heróis solares (como define Durand) de uma sociedade no qual os dispositivos técnicos
traduzem nossas ansiedades.
Figura 45 –

Fonte: G1 (2016).

A imagem de gráficos tipo barra, no contexto do jornalismo econômico, também cumpre


o mesmo papel semântico da ascensão e da queda, como uma realização ascensional sobre
o conjunto de vida econômica em determinado setor, como um elemento estruturador de
nossa contemporaneidade. Os gráficos, em particular as barras, cumprem o papel de
definir as leituras do cenário econômico como desenvolvidos ou não desenvolvidos, como
um parâmetro do desenvolvimento dos grupos sociais. Essa narrativa baseia-se em mitos
como a Torre de Babel, como a torre que alcançaria Deus. Entretanto, a Torre de Babel,
pelo mito bíblico, é resultado de nossa ambição e orgulho de nossa capacidade técnica
frente às condições naturais. Assim, os gráficos (e as barras) cumprem o papel de
punctum, como descrito por Barthes, isto é, o ponto decisivo no qual a narrativa
fotográfica (no caso, videográfica) se desenvolve, o gráfico surge como elemento que
registra o cenário econômico e traz à cena a imagem da queda como simbolismo fundante.
Além disso, acreditamos que esse fascínio que o discurso do jornalismo financeiro tem
sobre os esquemas ascensionais está baseado nos mitos nos quais a liberdade aérea é
experimentada.
As barras são simbolicamente representadas pelos braços em ascensão e descenso do
ministro da fazenda, do governo Temer (figura 1), os gestos representam esse simbolismo
da queda ao serem metáforas de barras numa espécie de gráfico simbólico.

Figura 2: SBT Brasil reportagem intitulada PIB fecha 2015 com queda de 3,8%

Fonte: Youtube (2016)

Na figura 2, a seta vermelha direcionada para baixo também exerce o mesmo sentido das
barras ao denunciar a queda das atividades econômicas no período de 2015. O vermelho
no plano simbólico é um índice de alerta, de atenção e de cuidado que os sujeitos devem
ter.
Outro mito que revela toda nossa relação moralizadora com os esquemas verticais é o
mito de Ícaro. O mito que deriva nosso fascínio pela queda é o mito de Ícaro, uma
narrativa de nosso simbolismo metafísico das alturas que deseja alcançar os céus através
da técnica. No mito grego de Ícaro, somos desafiados pela metáfora ascensional da beleza
da verticalidade. A proposta mítica em Ícaro é de impedir a conquista do que apenas
pertence aos deuses, o céu, que foi reapropriado pela tradição cristã como elemento
fundador de lógica toponímica, isto é, o dualismo entre o céu e a terra. O céu, como
elemento redentor e o abrigo da imortalidade dos deuses do Olimpo, e a terra, como sendo
o espaço onde os humanos (os mortais) deveriam habitar até o momento de sua morte. A
técnica, em Ícaro, as asas de cera, acabam derivando em dois sentidos prioritários. O
primeiro refere-se à possibilidade de atingir o objetivo com os meios técnicos encontrados
e elaborados pelo exercício da criatividade humana ao tentar imitar o movimento das
aves, criar asas que fossem equivalentes à dos pássaros e pudessem ser leves como a cera.
O segundo sentido refere-se à fragilidade dos materiais empregados na técnica, isto é, a
cera como um elemento maleável, ao ser exposta à alta temperatura quando atingida certa
altura. Neste sentido, percebemos uma forma alegórica de punição, ou seja, o homem, ao
tentar igualar-se aos deuses em alcançar os céus, estaria sujeito à queda, e, é a queda a
punição mais eficaz, pois rebaixa a pretensa superioridade alcançada pelo homem ao nível
do solo.
A mítica da queda está entrelaçada à nossa tradição ocidental com muitos exemplos: a
queda de Lúcifer e seus anjos decaídos para o inferno, sendo o inferno o espaço
subterrâneo criado a partir do impacto da queda desses anjos sobre o solo.

MERGULHO E NAUFRÁGIO

Outro mitema que levantamos é do mergulho/naufrágio na definição de


Durand (2002, p. 200), “os sonhos de descida são sonhos de retorno e
aclimatação ou consentimento da condição temporal [...] necessitará de mais
precauções que a da ascensão”.
Do mesmo modo, é definido por Durand (2002), que na descida (no nosso
caso, o naufrágio) inicia-se todo um complexo que tem o ventre como símbolo
principal. Não apenas há uma mudança de esquema de símbolos, mas também
de valores, uma dimensão moralizadora.
De acordo com Durand (1999), o vídeo assume um espaço não apenas
alegórico na mídia atual, mas ela potencializa a ideia de cognitivismo (fazer
crer pelo olhar) que as imagens atuais demonstram, o que é uma moralização
na medida em que diz ao sujeito que tudo que pode ser visualizado, pode ser
crível e pode ser destruído por nossos impulsos iconoclastas já que são apenas
imagens.

[...] na confluência desta corrente dupla poderosíssima e


contínua do iconoclasmo ocidental e da afirmação do papel
“cognitivo” (que produz consciência) da imagem — esta
muito mais esporádica e dominada por aquela —
explodirá, passado mais de meio século, sob nossos olhos,
o que podemos denominar de “a revolução do vídeo”
(DURAND, 1999, p. 11).

A descida como mitema envolve esse aspecto mais poderoso da dimensão da


imagem que é a possibilidade moralizadora de compreender a realidade através de
imagens que consumimos (deglutir, engolir, fazer descer para que se torne algo de
nós) e quando se integra a nós torna-se algo crível e, portanto, bom. O nadador,
aquele que é engolido e submerso pelas águas e a sua imagem tem um caráter moral
tal qual descrito por Durand (2002) do complexo de Jonas.
Compreendemos que essa descida ou mergulho tem um caráter menos dramático
em relação ao vetor da queda, mas não menos fantasmático, ao acionar esquemas
moralizadores e imagens relacionadas ao obscuro, à dimensão uterina e aquática.
Um mito importante para compreender essa dimensão moralizadora do mergulho
ou naufrágio como elemento constitutivo do discurso jornalístico é o mito de Jonas
e os símbolos derivados (engolimento, descida, verticalidade e viscosidade).
De acordo com Durand (2002), o gesto é o de engolimento, que se relaciona ao
universo mítico místico. Esse gesto corresponde às imagens de descida, escavação,
interiorização. Esse universo de imagem está ligado ao universo simbólico
feminino, noturno e da natureza, o que corresponde às imagens de fecundidade,
prudência, lentidão e abundância. Esse gesto se manifesta por reflexos de sucção
labial e de orientação da cabeça que os recém-nascidos apresentam. Essa dominante
digestiva no ato de deglutição age como princípio de organização, como uma
estrutura sensório-motora.
Como destaca Bachelard (1989), o mito bíblico de Jonas exerce um fascínio sobre o
aspecto do devaneio interior, da intimidade da gruta, esse devaneio é parte simbólica
da compreensão sobre a crise, como um momento de retorno às bases interiores, de uma
descida às profundezas e de uma verticalidade engolidora.
O mito de Jonas, uma matéria simbólica capaz de revelar as condições pelas quais o
discurso televisivo produz sobre a crise. As imagens de Jonas no ventre de uma baleia
são elementos que nos auxiliam a compreender a crise e seus valores relacionados ao
desastre, queda, profundidade e seus devaneios.
Bachelard (1989), apoiado na leitura de Carl Gustav Jung, compreende que o mito de
Jonas se configura como narrativa alquímica, expressa numa ordem decrescente entre
a matéria uterina e a água primitiva. Uma escala de valor para a qual o princípio de vida
desce em direção ao mercúrio considerado como princípio feminino e de escoamento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOURDIEU. Pierre. Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Ed. Perspectiva,
1974.
BOURDIEU. Pierre. Economia da Trocas Lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede: A Era da Informação: Economia,
Sociedade e Cultura.Volume 1, São Paulo: Paz e Terra, 2005.
CHARAUDEAU, Patrick. Langue et Discours. Eléments de sémiolinguistique
(Théorie et pratique). Paris: Hachette, 1983.
KUCINSKI, Bernardo. Jornalismo Econômico. São Paulo: Edusp, 1996.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas Tendências em Análise do Discurso. Campinas:


Pontes, 1993.