Você está na página 1de 4

Caminhos entre os genes e o comportamento

O genoma é o conjunto de todo o material genético que compõe um ser vivo,


sendo representado principalmente pelo DNA.
O Projeto Genoma Humano reuniu vários cientistas de diversas nacionalidades e
especialidades com o intuito de decifrar a seqüência de nucleotídeos do DNA humano, e
assim desvendar os mistérios do código genético. Com isso seria possível entender
principalmente as mutações, que são eventos que até hoje a ciência não encontrou uma
explicação consistente.
O bom êxito desse projeto possibilitaria um salto em diversos ramos da medicina
e da ciência como um todo. Certas doenças poderiam ser diagnosticadas com mais
rapidez, antes mesmo do aparecimento dos primeiros sintomas; auxiliaria na indústria
farmacêutica, pois essas doenças teriam tratamentos mais específicos e eficazes. São
inúmeras as aplicações e vantagens de se conhecer a fundo o código genético humano.
“Proteoma” foi um termo utilizado primeiramente pelo pesquisador Marc Wilkins
e nada mais é do que um conjunto de proteínas (compostos orgânicos formados por
aminoácidos mais abundantes na matéria viva da célula) que são expressas a partir do
genoma. Porém, diferentemente do genoma, o proteoma muda constantemente, pois há
variações nas reações do organismo aos diversos estímulos.
Um gene, que não muda (exceto no caso de mutações), é capaz de codificar vários
tipos de proteínas com diversas funções, e essas mesmas proteínas podem sofrer muitas
modificações durante todo seu trajeto; por isso a diferenciação celular se deve ao seu
proteoma (variável) e não ao seu genoma (não varia).
Assim como o projeto genoma, o projeto do proteoma humano representa um
esforço colaborativo entre pesquisadores de diferentes institutos de pesquisa. Estes
grupos já identificaram com sucesso as proteínas codificadas por mais de 18.000 genes,
o que representa aproximadamente 90% de todos os genes que atualmente conhecemos
como codificadores de proteínas em humanos.
Entretanto, decodificar o proteoma não é tão simples como ler genes. No caso da
decodificação do genoma, é possível usar qualquer célula de um organismo (com
exceção dos gametas), pois todas possuem os mesmos genes. No entanto, decodificar o
proteoma requer o uso de vários tipos de células, pois cada um terá seus genes ativados
conforme sua necessidade, ou seja, cada célula terá seu proteoma específico de acordo
com as proteínas que estão sendo produzidas. Por exemplo, as células da mucosa do
estômago devem gerar proteínas para quebrar as moléculas dos alimentos, mas não
precisam produzir proteínas que possibilitam a visão das cores. Até mesmo as proteínas
onipresentes, que desempenham funções de rotina na maior parte dos tecidos humanos,
podem variar na sua abundância, criando, assim, alterações fisiológicas importantes
dentro de tecidos e órgãos. Para produzir uma imagem completa do proteoma humano,
os pesquisadores utilizaram amostras de 30 tecidos diferentes: 17 tecidos adultos, 7
tecidos fetais, e 6 de células-tronco do sangue, na medula óssea.
A fim de decodificar o proteoma de um organismo, as proteínas são em primeiro
lugar extraídas dos tecidos escolhidos. A seguir, são quebradas em vários fragmentos
pequenos, chamados peptídeos, que são analisados. Estes peptídeos são identificados
com base na sua composição de aminoácidos (que é a unidade básica que forma as
proteínas). Finalmente, a identidade do peptídeo é revelada através da comparação com
bases de dados que possuem as sequências das proteínas humanas já conhecidas ou
previstas com base no genoma (proteínas hipotéticas ou identificadas em outros
organismos).
O mapa do proteoma, assim denominado por mencionar em quais tecidos certas
proteínas se encontram, pode também ser pensado como um catálogo, que contém
informação sobre a abundância e as variantes de todas as proteínas que juntas formam
um ser humano. O catálogo em si representa apenas o início de uma melhor
compreensão do corpo humano. Porém, alguns resultados são surpreendentes, pois
identificam novas proteínas que, aparentemente, são produzidas a partir de segmentos
não usados do genoma, conhecidos como regiões não codificantes.
Por outro lado, ainda falta identificar aproximadamente 2.000 proteínas que, de
acordo com o genoma, devem existir. Talvez estas proteínas estejam em outros tecidos e
necessitem simplesmente serem descobertas, mas também é possível que os genes em
questão sejam relíquias do passado evolutivo, não sendo utilizadas atualmente. Em
qualquer caso, estes resultados surpreendentes indicam que a codificação do genoma e
do proteoma humano é mais complexa do que anteriormente calculado, ainda mais se
pensarmos que as proteínas podem sofrer modificações nos tecidos. Isso faz com que o
número de proteínas originalmente idênticas, mas com funções diferenciadas nos
tecidos, seja muito maior do que o número de genes conhecidos. Então, ainda temos um
longo caminho pela frente até entendermos o proteoma “real” ou, melhor dizendo, o
proteoma humano funcional.
Tendo os dados de identificação de proteínas em mãos, são feitos então os mapas
do proteoma a partir do escaneamento dos géis dimensionais corados e análise das
imagens por meio de programas especiais. Esses mapas permitem que as proteínas
afetadas por diversos fatores biológicos sejam rapidamente detectadas, como, por
exemplo, o efeito de fármacos no organismo.
Embora o Genoma e o Proteoma sejam os mais conhecidos, há também um
projeto de estudo que mesmo não sendo tão grande, é de muita importância: o estudo
dos transcriptomas, ou seja, conjunto de mRNAs.
A análise dos transcriptomas é um novo caminho para se chegar ao proteoma,
pois, como o mRNA é sintetizado com base em uma molécula de DNA por meio da
transcrição e antes da tradução, se o transcriptoma for estudado e conhecido com
detalhes, conseqüentemente também seriam conhecidas as proteínas que são produzidas
por ele.
A pesquisa genética quantitativa mostra que a genética contribui de forma
importante para as diferenças individuais. A genética molecular, por sua vez, tenta
identificar genes específicos pela herdabilidade dos comportamentos e as pesquisas
mais recentes sugerem que as herdabilidades de traços complexos e mesmo transtornos
comuns se devem a muitos genes de pequeno efeito.
O objetivo da genética do comportamento, no entanto, não é apenas encontrar os
genes associados ao comportamento, mas também entender as interações entre ambos e
os mecanismos pelos quais os genes afetam o comportamento, às vezes chamado de
genômica funcional.
Se colocássemos os caminhos entre os genes e o comportamento em níveis de
análise teremos o DNA sendo o genoma; O RNA na expressão gênica de todos os genes
de uma só vez, denominada transcriptoma; todas as proteínas codificadas pelo
transcriptoma sendo o proteoma; após estes níveis temos o cérebro sendo o neuroma e o
comportamento em si relacioando com a mente, chamado de fenoma.

O primeiro passo sistemático nos caminhos entre genes e comportamento é a


expressão dos genes. Os efeitos genéticos sobre o comportamento só podem acontecer
na medida em que os genes sejam expressos, um processo que se inicia com a
transcrição do DNA em RNA. O transcriptoma se refere à expressão de todos os genes
no genoma, que agora pode ser avaliado usando-se microarranjos (técnica para análise
de material genético) que identificam tanto o RNA codificador quanto o não codificador
. As diferenças individuais na expressão dos genes devem ser consideradas como um
traço fenotípico que pode ser causado por fatores genéticos e ambientais. Os estudos de
genética que quantificam a expressão dos genes como um fenótipo sugerem que as
diferenças individuais na expressão podem não ser altamente herdáveis. O
transcriptoma pode oferecer uma fundamentação biológica para os estudos do ambiente.
O segundo passo nos caminhos entre genes e comportamentos é o proteômico,
todas as proteínas criadas pelo transcriptoma. O proteoma é consideravelmente mais
complexo do que o transcriptoma e mais difícil de medir. No entanto, alguns mapas
proteômicos já estão disponíveis e a pesquisa relacionando o proteoma ao genoma está
em expansão. Ainda resta muito a ser aprendido sobre as diferenças individuais no
proteoma e sobre suas origens genéticas e ambientais.
O próximo foco é o cérebro, órgão central nos caminhos entre genes e ambiente
por isso, os fenótipos cerebrais são também chamados endofenótipos. Os genes que
estão associados aos fenótipos cerebrais e sua relação com o comportamento são
importantes para a genética do comportamento. Quando se descobrirem os genes
associados aos traços cerebrais, a dimensão em que eles estão associados aos traços
comportamentais terá de ser avaliada e não presumida.
Três exemplos das complexidades do nível de análise cerebral incluem os ritmos
circadianos (ciclos diários de sono e vigília); a aprendizagem e ou memória; e as
emoções. Na espécie humana, a neurogenética começou a usar neuroimagem para
investigar a estrutura e a função cerebral e sua relação com a cognição e com a emoção.
Estudos recentes revelam que existem múltiplos fenótipos cerebrais relacionados
ao TDAH e que há semelhanças destes fenótipos em indivíduos com QI abaixo ou
acima da média.
Sobre o desenvolvimento cerebral, é reconhecida a plasticidade cerebral
(capacidade do sistema nervoso para alterar sua estrutura e função ao longo da vida, em
resposta à diversidade ambiental) predominante na infância, mas também na
adolescência, período em que a rede cerebral está em progresso.

O texto foi construído com adaptação e partes idênticas às obras abaixo:


Nascimento, A., Silva, B., Cristina, B., Guimarães, T., Cavalcante, Y. (2010). Projeto
Genoma e Projeto Proteoma. Brasília – D.F.
Stimamiglio, M. A., (2014). Nasce o primeiro mapa das proteínas do corpo humano!
Disponível em: https://cientistasdescobriramque.com/2014/07/09/nasce-o-primeiro-
mapa-das-proteinas-do-corpo-humano/ Último acesso: 17/03/2017.
Plomin, R., DeFries, J. C., McClearn, G. E., & McGuffin, P. (2011). Genética do
Comportamento-5ª Edição. Artmed Editora.