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Doutrinas Políticas Contemporâneas

MÓDULO 2
O Argumento Neoliberal
Página em branco
Doutrinas Políticas Contemporâneas UNIDADE I
Liberalismo

MÓDULO 2
O ARGUMENTO NEOLIBERAL

Para o exame do argumento neoliberal usaremos como guia a obra mais conhecida de Friedrich
Hayek, “O Caminho da Servidão”. O livro data de 1944 e constitui uma das exposições mais coerentes
dos argumentos levantados pelos liberais contra a economia planejada e a favor da livre iniciativa
individual nesse campo. O autor é considerado precursor da onda neoliberal que se apossa dos governos
europeus e norte-americano a partir dos últimos anos da década de 1970.

Depois do diagnóstico inicial e das definições básicas com que o autor trabalha, vamos examinar
o conjunto de argumentos que a obra apresenta: primeiro, a refutação dos argumentos em favor do
socialismo; e, em segundo lugar, a exposição dos argumentos contrários ao socialismo, que dariam
justificativa à alternativa liberal.

Sobre o argumento neoliberal, estudaremos, portanto, no Módulo 2:

1) diagnóstico do momento histórico à época da segunda guerra mundial;

2) definições de socialismo e liberalismo.

Em seguida, o autor apresenta uma série de argumentos.

A favor do socialismo
3) inevitabilidade;

4) racionalidade.

Contra o socialismo
5) déficit democrático;

6) fim do estado de direito.

A favor do liberalismo
7) justiça;

8) segurança;

9) moral.

Anotações

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Liberalismo

1 – Diagnóstico

É preciso, em primeiro lugar, fazer menção às circunstâncias políticas presentes no momento


em que a obra foi escrita, com clara influência sobre o seu desenvolvimento. O texto foi elaborado nos
anos da segunda guerra mundial, o que implica dizer que o nazismo e as diversas formas de fascismo
constituíam opções políticas de grande importância prática. O período entre as duas guerras mundiais,
de 1918 a 1939, foi, aliás, bastante desfavorável ao ideário liberal, acossado simultaneamente pelas
extremas esquerda e direita. Essa realidade reflete-se na obra e explica seu tom geral, de polêmica e
proselitismo.

O campo político em que o autor se encontra é esse: um mundo em que três grandes correntes
– liberalismo, fascismo e comunismo – disputam a hegemonia, política, intelectual e até bélica. No
entanto, o seu diagnóstico sobre a própria época parte de uma visão das relações entre essas correntes
muito diferente da que prevalecia no senso comum da época e também de hoje. Ao invés de postular
uma oposição radical entre os extremos da esquerda e da direita, entre nazistas e comunistas, deixando
aos liberais um espaço no centro político, Hayek sustenta que a verdadeira oposição se dá entre liberais,
de um lado, e totalitários, de outro, estes últimos divididos nas facções de esquerda e direita. Para ele,
portanto, o nazismo não foi uma reação ao comunismo, com base nas classes médias empobrecidas,
alimentada pelos capitalistas temerosos da revolução. Foi, sim, um resultado político específico da
mesma tendência geral que produzia, na época, o fortalecimento do socialismo.

O argumento é explorado ao longo de todo o livro. Supõe, no entanto, uma visão da história
exposta, em poucas palavras, no diagnóstico apresentado de início. Liberalismo é um desdobramento
político e econômico de uma idéia maior: o individualismo, no sentido de respeito pela pessoa, por suas
preferências e opções. Essa atitude mais ampla tem seu marco histórico inicial na Renascença. Ali as
amarras que tolhiam a espontaneidade humana começam a ser retiradas e a coerção sobre os indivíduos
começa a retroceder. O resultado foi um período de enorme criatividade artística, científica e tecnológica,
com efeitos sobre a economia e a política.

Na seqüência histórica do processo, a Inglaterra assume sua liderança e produz


. o pensamento que
explica e justifica as vantagens da nova ordem, o pensamento liberal, nos campos da filosofia, da política
e da economia. A irradiação dessa influência intelectual avançou pelo continente europeu até a década
de 1870, momento em que se começa a notar uma perda de confiança no ideário liberal e uma inversão
da relação de influência intelectual entre as diversas regiões da Europa.

Idéias desenvolvidas no leste europeu, principalmente na Alemanha e, posteriormente, na Rússia,


países economicamente pouco desenvolvidos, ganham espaço no próprio ambiente britânico. A primazia
do coletivo sobre o indivíduo, do planejamento racional sobre a irracionalidade do mercado, passam a
encontrar defensores no meio intelectual e político inglês.

No plano da política, observa-se uma transformação análoga. O intervencionismo estatal na


economia inglesa ganha espaço, principalmente a partir de dois marcos: a primeira guerra mundial e o
ano de 1931, quando tem início a reação local contra a crise da economia mundial.

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Para Hayek, à perda da liberdade econômica, à intervenção desmedida do Estado na economia,
segue-se, inevitavelmente, a perda da liberdade como um todo. A Inglaterra encontrava-se, naquele
instante, portanto, trilhando o caminho da servidão. A perda da liberdade política e o controle absoluto
do Estado sobre a vida dos indivíduos era apenas uma questão de tempo.

2 – Definições

Antes da exposição sistemática de seus argumentos, Hayek procede a definições mínimas dos
dois sistemas que irá contrapor: o socialismo e o liberalismo.

O socialismo tem por fins manifestos, assumidos por seus adeptos, a promoção da justiça social,
da igualdade entre os cidadãos e a garantia de um mínimo de segurança econômica para eles. No entanto,
para o autor, mais importantes que esses objetivos são os meios que se pretende usar para alcançá-los.
No caso dos socialistas, o instrumento a ser utilizado é a interferência do Estado na vida econômica.
A interferência pode ser completa e radical, como no experimento soviético, ou gradual e localizada,
como propunha a maioria dos socialistas britânicos à época. Mas o fator comum às duas vertentes era a
intervenção do Estado para dar ordem à economia e direcioná-la à busca de um determinado fim.

O emprego desse meio, o planejamento econômico em suas diversas dimensões, caracterizaria


uma espécie mais geral, da qual o socialismo seria apenas um dos gêneros: o coletivismo. Toda tentativa
de substituir o mecanismo impessoal e anônimo das forças de mercado por alguma condução coletiva
das forças sociais em direção a objetivos previamente determinados constitui, para Hayek, uma forma
de coletivismo. O tipo de coletivismo, o gênero, no caso, seria definido pelos objetivos de cada um: a
igualdade, no caso do socialismo; a supremacia de uma raça, no caso do nazismo.

Por outro lado, no liberalismo, o sistema da livre iniciativa, o Estado nunca procura definir
objetivos comuns para o conjunto da sociedade. Sua meta é criar uma estrutura, legal e material, que
permita a cada indivíduo perseguir os objetivos que julgue mais adequados.

A grande vantagem desse sistema seria prescindir da ação da autoridade, ou seja, de um controle
social consciente das ações individuais no plano da economia. Não se trata absolutamente de um laissez-
faire, de uma postura passiva de simples abstenção, de deixar os atores agirem livremente no mercado.
A tarefa do Estado é agir no sentido de potencializar ativamente os mecanismos de concorrência e supri-
los, mediante ação planejada, nos setores em que não são adequados.

É claro que o Estado deve zelar pela liberdade de produção, compra e venda, abstendo-se de
intervir nesses processos. Deve zelar, conseqüentemente, pela livre formação dos preços, tomando todo
cuidado para não influenciá-los, por meio de subsídio ou de impostos excessivos e diferenciados. Mas
deve também garantir ativamente, com ações positivas nesse sentido, a sanidade da moeda, a liberdade
dos mercados e a prevenção do monopólio, a livre circulação das informações. Importância especial cabe
à liberdade no processo de formação de preços, uma vez que os preços são os indicadores que informam,
automática e constantemente, aos atores as variações da disponibilidade de cada bem, possibilitando a
tomada de decisões racionais.

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Deve o Estado, além disso, agir, de forma planificada, em todos os setores nos quais a concorrência
seja impossível ou inócua. O recurso ao plano, portanto, não é excluído de maneira absoluta por Hayek,
mas ganha um caráter complementar à concorrência e não substitutivo a ela.

Importa lembrar também que, na visão do autor, não é toda interferência do Estado que distorce a
concorrência. Medidas que afetam por igual a todos os atores, como a legislação trabalhista ou ambiental,
não introduzem viés algum no processo. Sua pertinência, portanto, deve ser avaliada segundo um cálculo
simples de custos e benefícios.

3 – Primeiro argumento a favor do socialismo: a inevitabilidade

Uma vez apresentado o diagnóstico e as definições fundamentais, o autor passa a examinar


os argumentos favoráveis e contrários ao socialismo. É claro que, para ele, destruir os argumentos
favoráveis ao socialismo e mostrar, por outro lado, a correção daqueles contrários a esse sistema é
argumentar a favor do sistema alternativo, o liberalismo.

O primeiro argumento analisado pelo autor, a favor do socialismo, é a suposta inevitabilidade


histórica da economia centralmente planejada. O argumento, apresentado, entre outros, por Marx, postula
que o progresso tecnológico exige unidades de produção cada vez maiores para a obtenção dos ganhos
de escala ótimos. Quanto mais avançada a tecnologia, maiores seriam as unidades mínimas de capital
necessárias ao investimento, maiores as fábricas, maiores as empresas. As empresas menores, incapazes
de conseguir o mínimo de capital necessário aos investimentos que as novas tecnologias demandam,
estariam condenadas à falência, deixando espaço aberto para poucas e grandes empresas. Num mercado
dominado por poucas empresas, a tendência inexorável, portanto, seria a substituição, com o tempo, da
competição entre os grupos empresariais por acordos, por uma economia de monopólios e cartéis.

Alcançado esse estágio, o passo natural seria a substituição do monopólio privado pelo público.
Afinal, se os benefícios da concorrência desaparecem, não há razão para permitir a imposição de lucros
extraordinários por agentes privados em prejuízo dos consumidores. Melhor do que deixar as empresas
gigantes explorarem a população seria estatizar a produção e transferir a definição de preços e lucros ao
planejamento racional.

Os socialistas, portanto, não aceitam a acusação de que seu objetivo é dar fim à concorrência na
economia. Para eles o próprio capitalismo está fazendo esse trabalho e caberá ao socialismo apenas a
substituição do monopólio privado, que tem como objetivo o lucro de poucos, pelo monopólio público,
que tem por fim a perseguição, racional, do bem comum.

Para Hayek, a falha desse argumento consiste em supor que os resultados do desenvolvimento
tecnológico levam sempre a uma única direção: a eficiência maior das grandes unidades. Para ele,
o avanço da tecnologia pode vir a exigir unidades de investimento maiores, mas esse não é o único
resultado possível. Ao contrário, pode ser até previsível que, em certos casos, a maior capacidade técnica
faça inclusive cair, em montante absoluto, o ponto ótimo, em termos de retorno, da escala de produção.
O resultado, nesse caso, seria o contrário: tornar viáveis empresas menores, que antes não tinham como
concorrer com as maiores.

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Mas, se esse argumento procede, se não existe determinismo tecnológico, qual seria a razão do
progresso evidente dos monopólios nas economias capitalistas? Na opinião de Hayek, as causas desse
fenômeno seriam essencialmente políticas. A ação do Estado, na forma de favorecimentos e facilidades
variadas, principalmente tarifas protecionistas contra produtos estrangeiros, põe obstáculos ao processo
de concorrência e cria, assim, as condições do surgimento e prosperidade dos monopólios. Grandes
empresas só excluem sistematicamente as menores e substituem a competição pelos acordos quando o
Estado cria as condições políticas para isso.

Portanto, o primeiro argumento dos socialistas, a inevitabilidade da substituição da concorrência


pelo monopólio privado e, num segundo momento, pelo controle estatal, é, na opinião de Hayek, falso.

4 – Segundo argumento a favor do socialismo: a racionalidade

O argumento da racionalidade é recorrente na tradição socialista. Aponta a irracionalidade


do funcionamento do mercado, como conseqüência da falta de coordenação das ações dos diferentes
agentes econômicos. Num regime de livre iniciativa, no qual a propriedade dos meios de produção é
pulverizada nas mãos de capitalistas individuais, não existe mecanismo de coordenação eficiente das
decisões de produtores e consumidores. O ajuste para solucionar qualquer descompasso entre produção
e consumo é feito posteriormente, pelo mercado. Se algum bem falta, o preço sobe e sua produção é
estimulada. Se existe sobra de outro, seu preço cai e a produção diminui.

O problema do ajuste pelo mercado era a ocorrência de crises econômicas periódicas. Os


capitalistas individuais aumentavam sua produção sempre que podiam, a economia passava por um
ciclo de expansão até o momento em que os mercados saturavam-se, ou seja, havia mais mercadoria
que consumidores. Tinha início então um ciclo recessivo, com retração da atividade econômica e a
proliferação de falências.

Nessas condições, o argumento socialista diz que sem uma forma de coordenação prévia, que só
o planejamento central poderia garantir, o descompasso entre as decisões de vendedores e compradores
apresenta efeitos acumulativos, que culminam na eclosão de uma crise, no decorrer da qual boa parte das
forças produtivas é destruída e o desemprego e a miséria são multiplicados.

Na percepção dos socialistas um sistema como esse, que alterna momentos de expansão e
crise, representa um desperdício enorme de recursos materiais e humanos. O planejamento, adequando
periodicamente produção e consumo, permitiria um crescimento econômico continuado, na medida das
necessidades sociais. Para tal bastaria substituir a iniciativa de um grande número de capitalistas pela
iniciativa do Estado, transferindo a propriedade de mãos privadas para o controle público.

Para Hayek, o argumento deve ser invertido. O ônus da irracionalidade deve pesar não sobre
o mercado, mas sobre o planejamento centralizado. Numa economia complexa, a quantidade de
informações em circulação necessárias a seu bom funcionamento é enorme e sua atualização, constante.
É impossível um único agente gerir a totalidade dessas informações, sempre em mudança. Qualquer
tentativa de fazê-lo tem como conseqüência, portanto, alguma medida de ineficiência econômica.

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Apenas o mercado teria condições de operar essas economias complexas. Em primeiro lugar,
as decisões, no sistema de mercado, são descentralizadas, de responsabilidade de uma multiplicidade
de agentes econômicos. Em segundo lugar, a coordenação de suas ações se dá de maneira impessoal
e automática, por meio do sistema de preços. Os preços constituem os mostradores que sinalizam as
informações necessárias aos agentes. Por isso é tão importante sua formação livre: qualquer interferência
do Estado distorce a formação de preços e leva os agentes a tomarem decisões com base em informações
equivocadas.

A concorrência é, portanto, dotada de racionalidade maior que qualquer tipo de planejamento.


Aciona, automaticamente, mecanismos de correção de todos os desequilíbrios momentâneos que
provoca. O planejamento, por sua vez, seria tanto mais ineficiente quanto maior fosse a complexidade
da economia.

Na avaliação de alguns autores, o argumento de Hayek não tinha fundamentos empíricos na


época em que foi elaborado. Afinal, até a década de 1950, economias centralmente planificadas, como
a soviética, mostraram desempenho superior, em termos de crescimento, ao do mundo capitalista. No
entanto, a evolução tecnológica recente teria aumentado em muito a complexidade dos ambientes
econômicos, de maneira a conferir, hoje, validade ao argumento.

Em síntese, Hayek descarta, também, o segundo grande argumento apresentado em defesa do


socialismo.

5 – Primeiro argumento contrário ao socialismo: o déficit democrático

A seguir, Hayek desenvolve os argumentos contrários ao socialismo. O primeiro a ser abordado


sustenta a existência, em algum grau, de um déficit democrático em toda forma de socialismo.

A razão, para o autor, é simples. A eficiência de todo planejamento decorre da adequação entre os
fins procurados e os meios empregados. Portanto, o sucesso do planejamento centralizado da economia
exigiria uma clara definição dos fins pretendidos pelo conjunto da sociedade e a mobilização de todos
os esforços sociais para o seu alcance. De uma maneira ou outra, trata-se de definir um objetivo,
supostamente mais relevante que os demais, e impô-lo à sociedade. Com a promessa de redução da
incerteza, do risco, procura-se conseguir uma maior uniformidade entre os cidadãos, pelo menos no que
diz respeito a esse objetivo primeiro.

Alguns poderiam argumentar que não se trata de produzir a uniformidade em todos os objetivos e
finalidades que os cidadãos possam ter. Apenas os objetivos maiores, como a igualdade e a prosperidade,
seriam definidos previamente e exigiriam a aprovação de toda a sociedade. Abaixo desses, todos os fins
da atividade humana seriam definidos livremente.

Para Hayek, não é possível sustentar que apenas o fim maior, o objetivo mais importante
seria predefinido pelo plano. A eficiência do planejamento será tão mais completa quanto maior for a
possibilidade de previsão posta à disposição do planejador. Daí que, uma vez definido o objetivo maior
a ser perseguido, todos os objetivos secundários devem passar a hierarquizar-se entre si, de uma única
maneira, válida para todos. Na verdade, o controle por meio do plano supõe um código moral completo,
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aceito pela sociedade. Nesse sentido, o planejamento centralizado supõe um Estado “moral”, que persegue
determinadas formas de vida consideradas “boas” e reprime ou desvaloriza aquelas outras consideradas
“indesejáveis”. Um Estado moral que tenderia sempre, por conseguinte, ao fundamentalismo. Um estado
liberal, por sua vez, seria neutro em relação às diferentes formas de vida presentes na sociedade, seria
não moral, mas “laico”.

Num contexto de sociedades complexas, a possibilidade de se obter, pela persuasão, consenso


sobre um código moral completo, qualquer que seja ele, é nula. O plano exige, portanto, um grau de
consenso maior do que o existente e do que seria possível nas sociedades contemporâneas. O déficit
necessário de consenso deve, portanto, sempre ser suprido por algum grau, maior ou menor, de
coerção.

Isso pode ocorrer de diversas formas. A coerção pode ser aberta, como nos regimes autoritários,
ou velada, como acontece em muitas democracias. Nesse último caso, uma das maneiras mais freqüentes
de implementar alguma estrutura de objetivos hierarquizados consiste em retirá-la da apreciação do
parlamento. Conjuntos de decisões relevantes são delegadas pelos parlamentares à regulamentação
posterior. Deixam, assim, o âmbito da política e passam ao da simples “técnica”.

Para o autor, esse processo, que ocorre todos os dias em vários países, é perfeitamente lógico.
A forma de governo adequada a uma sociedade que adota coletivamente alguns objetivos como mais
importantes não passa pela representação dos cidadãos, mas por equipes de peritos, encarregadas
da produção dos meios mais eficientes, subordinadas a um líder, guardião dos objetivos últimos da
coletividade. Mesmo quando o autoritarismo não é aberto, uma situação com essa representa um passo
no caminho da servidão.

É importante lembrar que, para Hayek, uma situação de fim da democracia ou de risco alto de sua
perda, não exige o controle estatal da totalidade da economia. Altos percentuais de controle público são
suficientes para pôr em risco a democracia. Numa situação como a que vivia a Alemanha em 1928, na
qual o Estado controlava diretamente 53% da vida econômica, as decisões privadas nos 47% restantes
dependiam sempre de alguma decisão no âmbito do monopólio público. O caminho estava aberto para o
sacrifício completo da democracia, que veio a ocorrer somente em 1933, com a ascensão dos nazistas.

6 – Segundo argumento contrário ao coletivismo: o fim do estado de direito

No entanto, o controle da economia por meio de planos centralizados não seria incompatível
apenas com a democracia, mas com o próprio estado de direito. Em outras palavras, Hayek afirma que
a adoção de toda inclinação socialista não apenas leva o Estado a tomar decisões fora das instâncias
democráticas, mas o leva, também, a uma tendência a violentar os limites da lei.

Num regime que respeita a concorrência, o Estado é limitado. As leis têm como característica
principal seu aspecto formal. Em outras palavras, definem formas e procedimentos necessários à
consecução de uma ação.

No momento em que o Estado ultrapassa esse limite e pretende definir objetivos a serem
alcançados e as ações necessárias para tanto, adquire, na legislação, mais importância seu aspecto

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material. A pretensão de incidir sobre casos particulares, de previsão impossível em seus pormenores,
deixa necessariamente margem para decisões arbitrárias por parte do Poder Público.

Maior margem de arbítrio do Estado equivale a imprevisibilidade maior de suas ações e,


conseqüentemente, menor liberdade para o cidadão. Conforme o exemplo extremado do autor, no Estado
limitado as leis são comparáveis a um código de trânsito: dizem como o cidadão deve se locomover; no
Estado intervencionista, as leis dizem aonde o cidadão deve ir.

Segundo o autor, portanto, a intervenção do Estado na economia, em busca de objetivos


previamente fixados, gera perdas perigosas, em termos de democracia e de legalidade.

7 – Argumento a favor da concorrência: a justiça

A favor da concorrência, Hayek levanta, em primeiro lugar, o argumento da justiça. O processo


seria justo por ser impessoal e automático. Nenhum dos agentes envolvido dispõe da possibilidade de
conferir um viés de maneira a prever o resultado final de uma operação, ou seja, concretamente, quem
será beneficiado e quem será prejudicado. O resultado depende da quantidade de recursos com que conta
cada um dos envolvidos, do seu desempenho e de uma dose variável de sorte. A concorrência, portanto,
é fundamentalmente não discriminatória.

É certo que não há igualdade de oportunidades. A propriedade privada é requisito do processo


e sua distribuição é desigual. No entanto, a escassez relativa de oportunidades é compensada, segundo
o autor, pelo maior grau de liberdade que beneficia a todos, ricos e pobres. Daí que o pobre inglês seja,
para ele, mais livre que um empresário de pequeno porte ou o executivo de uma grande empresa em um
país como a Alemanha nazista.

O direito de herança, responsável por desigualdades de recursos que não dependem do mérito
individual, não é indispensável ao bom funcionamento do sistema. O direito à propriedade privada,
contudo, é seu fundamento. Na sua ausência, as decisões sobre rendimentos individuais diferenciados
poderiam caber apenas ao Estado, o que bastaria para nos mergulhar no mundo da servidão.

Mesmo no caso de concorrência fraca ou inexistente, como a que se verifica numa economia
dominada por monopólios, a propriedade privada seria preferível, do ponto de vista da liberdade, ao
monopólio público, na visão do autor. Num mundo dominado por um número pequeno de corporações,
a margem de autonomia dos indivíduos, embora pequena, ainda é maior que numa situação de controle
absoluto da vida econômica em seu todo por um só agente: o Estado. Um sistema em que os ricos são
poderosos é preferível a outro, em que só os poderosos são ricos.

O centro do argumento está na impessoalidade da concorrência. Ao contrário do Estado, o


mercado, quando opera em condições livres, não pode ser apropriado por indivíduos e posto ao serviço
de seus interesses. A liberdade dos atores e a justiça do resultado está no caráter indeterminado do
processo.

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8 – Os argumentos da segurança

No que respeita à questão da segurança individual, liberais e coletivistas afirmam a superioridade


de suas propostas. Evidentemente, este debate funda-se, na maior parte das vezes, em concepções
distintas do que seja a segurança do indivíduo.

Para Hayek, o coletivismo promete a segurança do indivíduo contra as vicissitudes do mercado.


A garantia da manutenção de seu emprego, em qualquer circunstância, e, mais ainda, a da manutenção
de sua renda, de seu salário, mesmo que as condições que tornavam seu trabalho mais valorizado tenham
desaparecido.

Ambas as garantias, quando implementadas, geralmente por força das corporações sindicais,
redundam, para os liberais, em prejuízo dos consumidores e dos trabalhadores menos protegidos: os
desempregados e aqueles integrantes de categorias não organizadas.

As tentativas de manter artificialmente empregos tornados obsoletos pelo progresso tecnológico


privam a sociedade dos benefícios econômicos desse progresso. Bens e serviços que poderiam ser
ofertados a custo menor, passam a onerar desnecessariamente o consumidor. O efeito acumulado de
decisões dessa ordem traduz-se em perda de competitividade e de crescimento econômico, em perda de
novos empregos, portanto. Do outro lado da balança, os ganhos da decisão concentram-se na categoria
beneficiada pela decisão de preservá-la.

Da mesma forma, mudanças que reduzam o custo do trabalho de alguns setores não devem
ser reprimidas. Se o salário puder refletir, nesses casos, exatamente o que a sociedade está disposta a
pagar por ele, esses trabalhadores passarão a ganhar menos, mas outros poderão conseguir, por sua vez,
emprego ou salários melhores.

O problema punha-se com toda atualidade à época do livro de Hayek, em razão dos empregos
criados pela economia de guerra que iriam desaparecer ou pagar salários menores depois da paz. Alguns
socialistas propunham a continuidade da economia de guerra mesmo em tempo de paz. O autor defendia,
coerentemente, o exercício exclusivo da concorrência para a definição dos novos patamares de salários.

Os defensores do liberalismo, por sua vez, apresentavam um conceito mais restrito de segurança.
O Estado liberal não ofereceria proteção contra o mercado, mas poderia garantir toda forma de segurança
compatível com o sistema de seguros; a segurança previdenciária, custeada pelos beneficiários; a
assistência social em casos de calamidade pública; e alguma forma de auxílio para sobrevivência, no
caso de desemprego. Nenhuma dessas medidas fere, segundo o autor, os princípios do liberalismo. A
questão a ser discutida, na sua opinião, é se esses cidadãos, enquanto durasse a situação de dependência
para com o Estado, poderiam dispor de seus direitos políticos. Em outras palavras, o problema, clássico
para os liberais, está em saber se a pessoa que não provê a própria subsistência pode emitir um voto
autônomo ou não.

Depois de negar a necessidade histórica do socialismo, de negar sua validade em nome da


racionalidade, da democracia, da legalidade e da justiça, Hayek ataca o conceito de segurança individual
compatível com o socialismo e o contrapõe ao entendimento liberal de segurança.

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9 – Os argumentos morais

É preciso esclarecer, de início, o que se entende, neste curso, por argumentos morais, uma vez
que o autor estudado não utiliza essa expressão em sua obra. Incluímos neste tópico os argumentos
que dizem respeito ao tipo de cidadão e de sociedade que uma economia regida pelo planejamento
centralizado produz. Todos eles estão fundados em premissas valorativas a respeito do que constitui,
para o autor, o ideal de cidadão e de sociedade.

Em primeiro lugar, temos o tipo de cidadão que cada sistema produz, em sua aplicação continuada.
Uma sociedade liberal, em que o Estado cria as condições para o exercício da livre iniciativa do cidadão,
preza um tipo específico de virtudes: a autonomia, a responsabilidade e a tolerância. O reconhecimento
social é devido ao cidadão que exerce sua autonomia, toma decisões, assume os ônus e benefícios delas
decorrentes.

Uma sociedade regida por uma ideologia coletivista, por sua vez, preza outro tipo de qualidades:
o altruísmo, o desprendimento individual, especialmente se em benefício do coletivo; a obediência; o
respeito à hierarquia; a segurança. O protótipo do indivíduo digno de respeito é o burocrata, o servidor
público que tem seus honorários assegurados para sempre, cujo código de valores exige a obediência
cega e impessoal à norma.

Esse tipo de valores é adequado a algumas instituições, cuja própria finalidade é incompatível
com o regime da concorrência, como as burocracias civil e militar. No entanto, diz Hayek, o ponto
liberal consiste justamente em resistir à organização da sociedade como um todo em moldes militares
ou burocráticos.

O segundo argumento diz respeito ao tipo de militante que os partidos de ideário coletivista
recrutam. Convencidos da superioridade dos fins por que se batem, esses partidos se organizam à
maneira militar. Buscam criar fileiras de partidários numerosas, homogêneas e disciplinadas. Seu apelo
é maior junto aos menos instruídos, para quem a homogeneidade de idéias é mais palatável; aos mais
dóceis e simplórios, que aceitam com mais facilidade a disciplina rígida; aos mais particularistas, que
respondem aos apelos de mobilização contra os pretensos inimigos da causa; e aos mais intolerantes.

O tipo humano que faz carreira partidária nessas organizações é o pior que se pode encontrar na
sociedade, na opinião do autor. Além disso, a própria lógica do código moral completo e absoluto deixa
pouco espaço para considerações sobre regras de comportamento situadas acima dos fins perseguidos. A
tendência é, enfim, a de todo e qualquer meio ser julgado válido, se eficaz em termos dos fins procurados.
A liderança desses partidos seria selecionada entre aqueles que melhor percebessem e aplicassem essa
máxima.

Finalmente, uma sociedade em que a planificação econômica haja substituído por completo a
iniciativa individual, com todas as conseqüências políticas desse fato, assistiria ao fim da verdade. Para
o autor, a verdade, na ciência como na política, resulta do contraditório, da oposição de argumentos
entre dois atores, entre ego (eu) e alter (outro). Uma sociedade sujeita a uma única escala de valores,
indiscutível, é uma sociedade onde só há ego e não existe alter. Sem possibilidade de diálogo, de crítica,
a verdade passa a ser uma questão de propaganda. À estatização da produção segue-se a estatização da
consciência.
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Neste módulo, examinamos o diagnóstico que o autor apresenta da conjuntura política em que
a obra apareceu; as definições que oferece de socialismo e liberalismo; as refutações que apresenta aos
argumentos mais importantes em defesa do socialismo, a saber, a sua inevitabilidade e racionalidade
superior; e, finalmente, os argumentos que levanta contra o socialismo e a favor do liberalismo, relativos
à democracia, à legalidade, à justiça, à segurança e à moralidade.

Anotações

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