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CAPA

RAINHAS MEDIEVAIS DE PORTUGAL

17 MULHERES, 2 DINASTIAS, 4 SÉCULOS DE HISTÓRIA

Ana Rodrigues Oliveira


Badana da Capa

Ana Maria Rodrigues Oliveira é professora de História, com especialização na área de História
Cultural e das Mentalidades. Doutorou-se em 2004 na Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Tem desenvolvido estudos nas áreas da mulher e da criança e participado em vários congressos
e seminários. Entre outros trabalhos, publicou: «Mulheres e fronteira na cronística medieval
dionisina», in As Relações de Fronteira no Século de Alcanices, Porto, 1998; As Representações
da Mulher na Cronística Medieval Portuguesa, Patrimónia Histórica, Cascais, 2000 (tese de
mestrado), «A imagem da mulher nas crónicas medievais», in Faces de Eva, Edições Colibri,
Lisboa, 200I; «O corpo infantil nos tratados médicos Hispano-Árabes», in O Corpo e o Gesto
na Civilização Medieval, Edições Colibri, Lisboa, 2006; A Criança na Sociedade Medieval
Portuguesa, Teorema, Lisboa, 2OO7 (tese de doutoramento), «A criança», in História da Vida
Privada em Portugal—A Idade Média, Círculo de Leitores, Lisboa, 2010 e «A mulher» na
mesma obra, em co-autoria.

E co-autora de manuais escolares para o ensino da História e membro do Instituto de Estudos


Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Badana da Contracapa

A Sociedade Medieval Portuguesa Aspectos de vida quotidiana

A. H. de Oliveira Marques

A Esfera dos Livros apresenta A Sociedade Medieval Portuguesa um clássico da historiografia


portuguesa, uma obra de referência que traça o retrato vivo da vida quotidiana entre os séculos
XII e XV. Através destas páginas, amplamente ilustradas, ficamos a conhecer o que comiam e
vestiam os homens e mulheres medievais, como eram as suas casas, os seus costumes, em que
trabalhavam, as suas crenças e afectos. Uma obra única e fundamental.

A.H. de Oliveira Marques. Historiador e professor catedrático. Em 1956 licenciou-se em


Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentando
uma dissertação intitulada A Sociedade em Portugal nos séculos XII a XIV. Iniciou funções
docentes em 1957 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou em
História em 1960, com a dissertação Hansa e Portugal na Idade Média. Em 1997 recebeu o
doutoramento honoris causa pela Universidade de La Trobe, Melbourne, Austrália. Em 1998 foi
condecorado pelo presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

O seu livro mais famoso é a História de Portugal, que atingiu já 14 edições em língua
portuguesa.

www. esferadoslivros.pt
Capa

De D. Teresa de Leão e Castela que, embora filha e mãe de rei,

foi casada com um conde e um condado governou, passando por

D. Isabel de Aragão, a Rainha Santa, D. Inês de Castro, falecida

ANTES DA ENTRONIZAÇÃO DO SEU amado D. Pedro I, a D. Filipa de

Lencastre, mãe da ínclita Geração, até D. Leonor, mulher de Portugal

Numa época em que as fontes escasseiam, os silêncios e as omissões são frequentes e em que as
mulheres, mesmo sendo rainhas, eram vistas através, e em função, dos seus maridos, os reis,
Ana Rodrigues Oliveira, baseada numa pesquisa exaustiva e numa investigação rigorosa,
consegue trazer-nos as biografias destas mulheres, desvendam o seu papel, a sua acção, o seu
sentir e a sua voz no fluir dos acontecimentos da família, da sua corte, dos seus reinos de
nascimento e de casamento.

Nesta obra original e única, ficam a conhecer estas mulheres que deixara marcas no imaginário
dos Português e, através delas, viajamos ao longo quatro séculos de um período fascinante da
História de Portugal.

A esfera dos livros


Página de rosto

Ana Rodrigues Oliveira

RAINHAS MEDIEVAIS DE PORTUGAL

Dezassete mulheres, duas dinastias, quatro séculos de História

A esfera dos livros


Ficha Técnica

A Esfera dos Livros

Rua Barata Salgueiro, nº 30, 1º Esq.

Tele. 213 404 060

Fax 213 404 069

Distribuição: Sodilivros, S. A.

Travessa Estêvão Pinto 6ª

1070-124 Lisboa

geral@sodilivros.pt

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor

Ana Rodrigues Oliveira, 2010

A Esfera dos Livros, 2010

1ª edição: Novembro de 2010

Capa: Compañia

Imagem da capa: O encontro de Santa Úrsula e o Príncipe Conan;

Museu Nacional de Arte Antiga, Divisão e Documentação Fotográfica - Instituto dos Museus e
da Conservação, I. P.

Revisão: Constança Boléo

Paginação: Segundo Capítulo

Impressão e acabamento: Tilgráfica


Depósito legal nº 318 217/10

ISBN 978-989-626-261-7
Índice

Agradecimentos 9

Nota Prévia 11

Introdução 15

1. Teresa de Leão e Castela (1078/91? - 1130)

A que deu por casamento o Condado Portucalense 21


11. LEONOR TELES (c. 1350-c. 1405)

A rainha de má memória................................ 305

12. D. BEATRIZ (1371-1420/31?)

Rainha de facto, depois de jure, depois esquecida................ 365

13. FILIPA DE LENCASTRE (1360-1415)

A rainha portadora dos bons costumes....................... 391

14. LEONOR DE ARAGÃO (P-1445)

A rainha triste....................................... 433

15. ISABEL DE LENCASTRE (1432-1455)

A sereníssima e ilustríssima princesa......................... 481

16. JOANA DE CASTELA (1462-1530)

A Excelente Senhora ou A Beltraneja....................... 501

17. LEONOR DE LENCASTRE (1458-1525)

A Princesa Perfeitíssima................................. 521

CONCLUSÃO........................................... 555

CRONOLOGIA......................................... 563

MAPAS .............................................. 599

NOTAS............................................... 605

BIBLIOGRAFIA.......................................... 651
À Madalena e à Maria Ana, as minhas pequenas Rainhas

Escrever este livro obrigou-me a contrair algumas dívidas de gratidão. Quero aqui deixar o meu
reconhecimento a essas pessoas.

Ao Professor Bernardo Vasconcelos e Sousa, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da


Universidade Nova de Lisboa que, pacientemente, e rodeado dos seus múltiplos afazeres, leu,
sugeriu, corrigiu e me ouviu nas muitas dúvidas que ao longo da redacção foram surgindo.

Às Professoras Maria Helena da Cruz Coelho, da Faculdade de Letras da Universidade de


Coimbra e Ana Maria Rodrigues, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quero
agradecer a disponibilidade evidenciada nas sugestões bibliográficas que me fizeram.

A minha amiga Isabel Catarino agradeço a leitura atenta que fez da maior parte da obra, bem
como o interesse demonstrado e as sugestões propostas.
NOTA PRÉVIA

Antes de entrar propriamente nos esboços biográficos das rainhas medievais de Portugal,
consideramos ser importante uma breve introdução ao que foi o Condado Portucalense. De
facto, a importância histórica conferida à nossa primeira biografada resulta, não só de ter sido
graças ao seu casamento que se formou o Condado Portucalense, mas também de ter sido o seu
filho Afonso Henriques que o tornou no reino independente de Portugal.

Para se compreender as origens e a estruturação deste condado há que remontar à organização


administrativa das Astúrias e aos movimentos contra o islamismo. Comecemos pelo princípio.
Dentro do primitivo reino das Astúrias, ou de Leão, como passou a ser designado depois do
século x, as grandes unidades administrativas eram, para além das Astúrias/Leão, Galiza e
Castela. Continuando a antiga tradição romana e visigoda, estas unidades, chamadas terrae ou
provinciae, eram governadas por um conde (comes), também chamado duque (dux). Havia, no
entanto, muitos outros condes que administravam parcelas mais pequenas, chamadas,
igualmente, terrae ou territoria. Dux e província aplicavam-se, sempre, ao governador da maior
unidade e à maior unidade.

Ao longo dos tempos, a Galiza, fruto de discórdias ou de testamentos, por várias vezes se
tornou «independente». Esta separação não tinha, contudo, um grande significado, não
implicando quaisquer objectivos permanentes de autonomia nem resultando de esforços
independentistas.
12

Em finais do século IX, o território para sul do Lima e para norte do Douro foi separado da
Galiza e entregue a outro dux. Esta nova unidade política tinha por sede a cidade de Portucale.
A terra ou província de Portucale estava também dividida em pequenos condados.

A sul do Douro, os territórios conquistados formavam outra província, chamada Coimbra.

Sobre estes reinos ibéricos sempre esteve latente o desejo de uma monarquia hispânica unida.
Com base neste ideal, os reis de Leão, teoricamente herdeiros dos monarcas visigodos,
adoptaram o título de imperador. Foram os casos de Fernando I (1037-1065), do seu filho
Afonso VI (1072-1109) e do seu neto Afonso VII (1126-1157).

Quando Fernando morreu, repartiu os seus reinos pelos seus três filhos, havidos de Sancha de
Leão: Sancho, o primogénito, herdou o poderoso reino de Castela; Afonso, segundo filho,
herdou o reino de Leão; Garcia, o mais jovem, herdou o reino da Galiza. Afonso VI teve de
lutar contra os desejos expansionistas do seu irmão Sancho, pois logo que a rainha-mãe morreu,
em 1067, este disputou o testamento do pai e tentou apoderar-se dos territórios herdados pelos
seus irmãos. Garcia foi o primeiro a ceder (1071), devido ao acordo dos dois irmãos mais
velhos em repartir o seu reino. Mas pouco depois estes enfrentaram-se e Afonso foi feito
prisioneiro de Sancho, que assumiu também a Coroa leonesa. Depois de encarcerado em
Burgos, fugiu para se refugiar no reino taifa de Toledo de Al-Mamun. Sancho acabou por ser
assassinado por um nobre de Zamora, sem deixar herdeiro, o que permitiu a Afonso recuperar
Castela e assumir a Coroa de Leão e a Garcia recuperar a Galiza. Após a morte deste, em 1090,
Afonso VI apoderou-se assim de toda a herança do pai. Intitulou-se a si próprio «imperador de
toda a Hispânia» visto não só ter reunido sob a sua autoridade os três reinos, reconstituindo,
assim, a unidade do seu pai Fernando I, mas também porque conseguiu alcançar enorme
supremacia sobre as taifas (os reinos islâmicos independentes do sul), obrigando-as a pagar-lhe
pesados tributos em ouro e tornando-se um dos mais ricos e poderosos monarcas da
Cristandade de então.

Como «imperadores» podiam e deviam ter reis como vassalos. Esta relação contribuiu para o
nascimento de Portugal como um reino autónomo. (Nota 1)
13

Recordemos agora um pouco do que foi a política de combate ao islamismo e a sua expansão
desde a Palestina e o Próximo Oriente, em geral, até ao sul da Itália, Sicília e Península Ibérica
levada a cabo através de sucessivos apelos do papado, principalmente a partir do século xi
quando o avanço dos turcos na Ásia Menor, na segunda metade deste século, semeou a
insegurança nas rotas de peregrinos à Terra Santa. Algumas ordens religiosas, como a de Cluny,
e vários senhores feudais da Europa ocidental predispuseram-se a este combate. Neste lado
europeu, o surto demográfico favorecera a proliferação de filhos segundos, normalmente
destituídos de terra, de património e de glória. França, onde o feudalismo se desenvolvera
muito, era disso um exemplo. O inimigo muçulmano, mas também a concessão de feudos
(terras) e de cargos que era vulgar fazer-se a quem viesse prestar o seu valioso contributo na
luta contra o infiel, atraíram à Península Ibérica muitos filhos secundogénitos franceses na
procura de proveito e glória. A pesada derrota infligida a Afonso VI de Castela e Leão, em
1085, pelos almorávidas (Nota 2) na batalha de Zalaca e o consequente pedido de ajuda aos
príncipes franceses, trouxe a este reino, entre muitos outros nobres cavaleiros, primeiro
Raimundo, o quarto filho do conde de Borgonha, em 1087 e, cerca de três anos mais tarde, o
seu parente afastado Henrique, também ele quarto filho-família.

O correr dos anos e as vitórias nas batalhas recompensou-os com aquilo que ambicionavam: a
doação de um feudo. Os casamentos com as filhas do rei Afonso VI reforçaram não só a
posição destes nobres franceses na Península Ibérica, como também o seu parentesco, tornando-
se, assim, cunhados. Como era norma na época, e continuaria a ser ainda por vários séculos nos
meios nobres, o casamento resultava de um contrato entre famílias, raramente estabelecido por
motivos afectivos ou sentimentais.
<Página em branco>
INTRODUÇÃO

Não é preciso ser historiador profissional para perceber que não de pode traçar a biografia, de
uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação. Os dados documentais são
quase sempre escassos e fragmentários.

Assim começa José Mattoso a sua biografia sobre D. Afonso Henriques.

Não poderia estar mais de acordo!

Sendo a biografia, na sua definição etimológica, a história da vida de uma só pessoa e que fazê-
la «implica a crença na capacidade de se chegar à individualidade e à personalidade da
personagem», (Nota 1) a escassez de dados e os «silêncios» da História são, frequentemente,
obstáculos intransponíveis.

O objectivo de dar a conhecer, embora de uma forma sucinta e genérica, as rainhas das quais se
tecem estes esboços biográficos, as suas alegrias e tristezas, o seu sentir e agir como rainha,
mas também como mulher, esposa e mãe é um objectivo ao qual dificilmente se pode dar
resposta. A documentação coeva é esparsa e lacónica. Não existem retratos, representações
iconográficas ou descrições da época que forneçam imagens físicas destas rainhas.
Desconhecemos a estatura, a cor dos cabelos, dos olhos, a forma da face, tudo, afinal! Os
«rostos» que apresentamos ao longo desta obra são meras figurações convencionais que não se
baseiam em nenhuma descrição concreta. São parte da construção da sua memória, uma vez que
ilustram como, em determinada época, a rainha era imaginada. Tal como as imagens, também
as fontes narrativas que a elas se referem, fazendo breves descrições físicas ou psicológicas,
são, de uma maneira geral, tardias.
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A própria vida destas mulheres (quando não dos reis, seus maridos), inicia-se, nos relatos, no
momento em que começaram a reinar, praticamente nada se referindo sobre as suas datas e
locais de nascimento, a forma como decorreu a sua infância e adolescência, a educação que
tiveram ou a sua vivência antes de contrair os matrimónios que as tornaram rainhas de Portugal.
Mesmo dos filhos que deram à luz, à excepção, por vezes, do futuro monarca, não se refere o
local e a data de nascimento. Os registos históricos centram-se nos feitos considerados dignos
de registo e de memória e não em factos de «menor» importância. Se, para os soberanos, para
além das crónicas, existem muitas outras fontes como leis e diplomas de vária ordem, registos
da chancelaria régia, documentos das cortes, legislação avulsa compilada em várias
publicações, acordos, tratados e bulas que, mesmo assim, dão mais a conhecer sobre o rei do
que sobre a pessoa que detém esse cargo, das suas rainhas, pouco consta nesta variada
documentação. Paira um enorme silêncio sobre a vida destas mulheres, não só a «pública» mas
também, e principalmente, a «pessoal». Mesmo tratando-se de rainhas que detiveram um papel
de algum relevo no reino, ou que ganharam o privilégio de serem bem-vistas e enaltecidas, há
sempre aspectos da sua personalidade dos quais não ficaram testemunhos ou que foram,
consciente ou inconscientemente, esquecidos. Zonas de absoluta escuridão perpassam, pois, na
sua vida e actuação. Nada se sabe, dos seus sentimentos, angústias, ambições, desejos...

No entanto, os silêncios e as omissões da História são. por vezes, tão ou mais importantes do
que aquilo que é contado. O laconismo das fontes não significa que estas mulheres tenham
permanecido apagadas e sem qualquer voz ou acção no fluir dos acontecimentos da época.
Significa, unicamente, a valorização do elemento masculino, das suas qualidades políticas e
guerreiras de acordo com a subalternização do papel da mulher, confinada, mesmo que rainha, a
um espaço mais íntimo e privado. Estes silêncios devem por isso mesmo ser interpretados,
muitas vezes através de informações indirectas, de deduções ou de estudos mais especializados.
É, pois, muito difícil elaborar uma biografia histórica das rainhas dos primeiros tempos da
monarquia portuguesa sem tentar, por vezes, reconstituir hipoteticamente as suas vidas,
preencher e unir factos e acontecimentos e tentar perceber por que razão deixaram marcas
(positivas ou negativas) no imaginário colectivo dos portugueses transmitidas através das várias
gerações.
17

Para este trabalho, recorreu-se a um vasto e diversificado conjunto de memórias históricas


(diplomáticas, pontifícias, linhagísticas...) bem como a estudos e opiniões de vários
historiadores, uns mais antigos, outros contemporâneos, por vezes coincidentes, por vezes
contraditórios. E isto levou-nos, inevitavelmente, às crónicas e aos cronistas que escreveram
muitos anos depois da ocorrência dos acontecimentos narrados e tendo por base escritos e
materiais de outros autores. Como qualquer historiador, os cronistas interpretaram criticamente
esses documentos e construíram o seu relato.

Frequentemente mais preocupados com a imagem que pretendiam transmitir, deturpam, omitem
ou alteram factos ou situações em função de um comportamento que se pretendia censurar,
denegrir, «apagar» ou, pelo contrário, exaltar. E quando a narrativa se referia à mulher, mesmo
que rainha, a imagem que se pretendia transmitir era mais importante do que relatar o que
efectivamente acontecera. A distorção das fontes narrativas agrava-se quando se trata de
personalidades mais marcantes ou cujo comportamento se afastou dos cânones definidos pela
sociedade da época, práticas rebeldes às representações masculinas da História. Não pode
esquecer-se serem as crónicas encomendadas pelos poderes públicos, construindo-se, por isso, à
sua medida e satisfação. Claros instrumentos de formação e domínio da memória colectiva,
tiveram a função de legitimar pela tradição os interesses e os poderes dos grupos dirigentes,
narrando o passado para ordenar e modelar o presente daqueles ao serviço dos quais se
colocavam os cronistas.

Também aqui a infância e a juventude das nossas rainhas são esquecidas pelos cronistas cujos
relatos se centram exclusivamente nos acontecimentos mais marcantes. É provável que eles
próprios se debatessem já com falta de elementos para compor as suas narrativas, mas é verdade
também que estas fases iniciais da vida eram consideradas pouco importantes, dificilmente
entendidas como significativas ou relevantes num percurso biográfico.
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Para além do exposto, no que respeita à isenção com que é noticiado o passado das mulheres,
foi determinante o facto de essas crónicas terem sido escritas por homens, eclesiásticos ou não,
geralmente afastados e ignorantes em relação aos interesses e quotidianos próprios do mundo
feminino.

Com as suas limitações, as crónicas constituem, no entanto, um acervo valiosíssimo de


abundantes e variadas informações que, de outro modo, não teríamos; através delas podem
abordar-se, para além das representações masculinas do feminino, os condicionalismos em que
decorreram os quotidianos das mulheres, já que alguns cronistas não se inibiram de relatar os
sentimentos e acções que elas protagonizaram. Nesta perspectiva, as crónicas foram, na
presente obra, analisadas criticamente como qualquer outra fonte documental, sem o estatuto de
«verdade histórica» mesmo que, inevitavelmente, nos deixemos, por vezes, arrastar pela
sedução e magia da bela prosa de Fernão Lopes e pelo extraordinário fresco histórico que ele
reconstitui nas suas descrições.

Procurou-se ligar e sistematizar materiais dispersos em diversos suportes e publicações e


integrar o muito que se tem descoberto nas últimas décadas. De todo este longo processo de
heurística e hermenêutica fez-se uma leitura interpretativa e tentou encontrar-se um fio
condutor nas vidas destas biografadas. Elaborou-se, então, uma narrativa sequencial,
conciliando o rigor científico da veracidade das fontes com a sua interpretação e com a
integração na conjuntura nacional e internacional. De facto, a história nacional, sobretudo nos
seus primeiros séculos, teve uma relação estreita com a história dos outros reinos ibéricos,
começando pelos turbulentos anos da independência e consolidação do jovem reino de
Portugal, continuando pela fixação da fronteira com Castela no tratado de Alcanices, pela
batalha do Salado, pelas invasões castelhanas dos finais de 1383, pela guerra empreendida por
Afonso V para defender os interesses da sua sobrinha. Se muitos destes episódios históricos são
bem conhecidos, o mesmo não acontece com as mulheres que neles, directa ou indirectamente,
estiveram envolvidas ou participaram quer como moeda de troca nos acordos de paz quer como
defensoras dos interesses nacionais, quer, ainda, como garantes da procriação de herdeiros, sem
dúvida o maior desafio e a função mais importante atribuída a qualquer rainha, pois a sucessão
do rei assim o exigia.
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Todas as nossas rainhas medievais foram rainhas consortes ou viúvas, e não soberanas por
direito próprio, pois sempre houve herdeiros masculinos para o trono. O único caso em que essa
situação não se verificou foi com D. Beatriz, a única descendente do rei Fernando e de D.
Leonor Teles que, embora rainha de Castela, por casamento, foi aclamada em Portugal. O
descontentamento popular e a invasão feita pelo seu marido, precisamente reivindicando os
direitos de sua mulher ao trono português, acabaram por inviabilizar o exercício do poder por
uma mulher, tal como anteriormente havia acontecido com sua mãe, a rainha-regente, forçada a
abandonar o seu reino. Também mais tarde outra Leonor, a de Aragão, viúva de Afonso V, não
resistiu mais de dois anos às pressões exercidas e abandonou Portugal. Afastadas do governo do
reino de facto, e não de direito, o que é verdade é que a historiografia tradicional, que tanto
interesse tem mostrado pelas figuras dos reis e pelos acontecimentos históricos que eles
protagonizaram, escassa atenção tem dedicado às rainhas suas consortes.

A presente obra é, assim, um ensaio de reconstrução biográfica das rainhas medievais de


Portugal, desde D. Teresa (século XII) até D. Leonor, mulher do rei D. João II (século XV).
Nem todas, porém, foram rainhas. Não o foi D. Teresa que, embora filha de rei e mãe de rei, foi
casada com um conde e um condado governou. Não chegaram a sê-lo, porque faleceram antes
da entronização dos seus maridos, D. Constança Manuel e D. Inês de Castro, mulheres do
mesmo infante - D. Pedro I. Considerámos, no entanto, importante incluí-las, até porque fazem
parte da memória e do imaginário colectivo português.

O passado das rainhas medievais de Portugal, no contexto da sua família, da sua corte, dos seus
reinos de nascimento e de casamento, dos reinos da Península, da Europa ocidental e, mesmo,
no contexto da Cristandade, é trabalhado neste livro de uma forma criteriosa e rigorosa,
interpretando os factos e os acontecimentos à luz dos efeitos que provocaram, mas também à
luz do seu contexto épocal. Como era previsível, a procura de informações forneceu resultados
pouco homogéneos.
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Se, para algumas régias figuras femininas pouco mais conseguimos do que efemérides - datas
de nascimento, de casamento, de morte, número de filhos, viuvez ou repúdio, outras houve em
que são muitas, e fidedignas, as informações que chegaram aos nossos dias. De algumas temos
até a sorte de poder conhecer o seu rosto, que ficou fixado para sempre na estátua jacente dos
seus túmulos primitivos, alguns deles das mais importantes obras da arte tumular medieval
portuguesa. De D. Isabel de Aragão conhece-se um numeroso conjunto de cartas pessoais, na
sua maioria enviadas a seu irmão, o rei D. Jaime de Aragão, descobertas e publicadas só em
meados do século xx, espólio de grande importância para conhecer a personalidade e a acção
desta rainha.

Tratando-se de biografias sucintas tentaremos fornecer aos leitores imagens das rainhas fiéis ao
que a historiografia conseguiu até ao momento apurar, mas que constituam momentos de
reflexão sobre as personalidades referidas e a respectiva época. Tentaremos trazer de volta,
ainda que por breves momentos, aquilo que de melhor e de pior essa personagem nos deixou.

Sendo, à partida, uma obra destinada principalmente ao grande público, são remetidas para
notas finais esclarecimentos mais aprofundados de algumas situações, indicação de bibliografia
complementar ou mais exaustiva e informação sobre estudos recentes. A leitura foi facilitada
por uma actualização dos textos históricos, principalmente no que diz respeito à grafia. Também
com o objectivo de uma melhor compreensão do exposto foram elaboradas genealogias
correspondentes a cada uma das rainhas analisadas. Nelas, e para um mais perceptível
entrecruzamento das várias personalidaaes, nem sempre foi respeitada a ordem cronológica pelo
que, sempre que considerado necessário, as várias personalidades são acompanhadas das
respectivas datas de nascimento.

Propomos-vos, então, uma viagem pelas vidas das nossas rainhas medievais, esperando que
essa viagem vos seja tão agradável de ler quanto a nós o foi de fazer.
1

TERESA DE LEÃO E CASTELA

(1078/91? -1130)

A que deu por casamento o Condado Portucalense


Recorreu às armas de que a sua fraqueza mulheril podia tirar tanta vantagem como o marido do
esforço e perícia militar: empregou a astúcia.

Alexandre Herculano (Nota 1)

Origens

Teresa era filha ilegítima e, ao que parece, favorita de Afonso VI, rei de Leão e Castela, e da
«mui nobre» e sua «mui amada», Ximena Nunes (ou Ximena Muniz ou Gimena Muñoz, filha
dos condes de Bierzo, da alta nobreza), e neta de Fernando I, o Magno.

Desconhece-se a data do seu nascimento. Alguns autores situam -no entre 1078 e 1079, anos de
viuvez do rei entre o seu casamento com Inês (Agnès), filha de Guilherme VI, conde de
Poitiers, e o seu casamento com Constança, (Nota 2) filha do duque de Borgonha, tia de
Henrique que virá de França e será seu marido; outros autores referem, no entanto, datas bem
posteriores.

De facto, a falta de documentos, a vivência de um período conturbado e em constante mutação


a todos os níveis e a quantidade de mulheres e casamentos que Afonso VI teve, tornam difíceis
a datação e a compreensão de alguns acontecimentos. Fruto disto é a própria ilegitimidade de
Teresa que, embora aceite pela maioria dos historiadores, para outros não é considerada tão
certa. (Nota 3) A procura incessante de um herdeiro levou Afonso VI não só a situações de
consanguinidade entre as «suas» mulheres, como também a uma ligação com Zaida, uma
princesa muçulmana nora do rei de Sevilha, morto pelos almorávidas em 1091, e que se
refugiara na sua corte. (Nota 4)
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Constança, a mãe de Urraca, a única filha legítima do rei de Leão e Castela, nascida por volta
de 1079/80, é disso um exemplo, pois era parente em 4.° grau da primeira esposa do monarca,
Inês de Aquitânia, situação proibida pela Igreja católica.

Urraca, a meia-irmã de Teresa, casou, em 1091, com Raimundo, filho de Guilherme, conde de
Borgonha. Como única descendente legítima do rei de Leão e Castela era a herdeira de seu pai.
Enquanto não ascendia ao trono, foi dado ao casal o governo da Galiza.

A infância

À semelhança da maioria das infantas desta época, e, igualmente, de outras posteriores, quase
nada se sabe dos primeiros tempos da pequena Teresa. Desconhece-se como terá sido a sua
infância, onde terá vivido e com quem terá brincado. Possivelmente brincaria com Elvira, a sua
outra irmã, e estariam ambas ao cuidado de uma ama, nas proximidades da sua mãe.

O silêncio sobre este círculo familiar começa a romper-se a partir de 1092, coincidindo com um
provável agravamento do estado de saúde de D. Constança. Nesse ano, Ximena surge referida a
propósito de uma propriedade, com a prestigiada atribuição do «dona». Em Janeiro de 1093,
volta a aparecer num outro documento como titular da tenência (Nota 5) do Castelo de Ulver,
facto que constituía uma grande honra, não só porque este tipo de cargos quase nunca se
atribuía a uma mulher e muito menos a uma mulher que até esse momento pouco tinha
aparecido na documentação.

Neste testemunho se baseiam alguns historiadores para datar o nascimento de Teresa e de sua
irmã Elvira. Assim, para os que o situam antes de 1080, esta doação terá constituído uma
compensação do rei por ter sido obrigado a abandonar a «mui amada» Ximena para casar com
Constança. Por outro lado, os que consideram o nascimento das infantas por volta de 1090,
encaram a entrega da tenência como o pagamento das arras, (Nota 6) outorgado pelo rei para
dar um aspecto mais jurídico à sua união. Outros, ainda, consideram que terá sido uma espécie
de compensação económica para a «mui amada» Ximena pela separação das suas filhas, dado
que estas se deveriam ter mudado para a corte por esta época.
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Ambas se deveriam encontrar em boa idade para servir de base ao estabelecimento de


compromissos matrimoniais e alianças políticas. (Nota 7) E, de facto, logo no ano seguinte, em
1094, Elvira partiu para França, destinada a casar com o conde Raimundo de Saint Gilles, uma
das linhagens mais antigas da Cristandade.

O casamento

Quanto a Teresa, o seu casamento terá ocorrido pelo ano de 1095, com D. Henrique, 4.° filho do
duque de Borgonha, que andaria pelos 25/30 anos. (Nota 8) Henrique era proveniente de alta
ascendência - bisneto de Roberto II, rei de França, neto de Roberto, primeiro duque de
Borgonha e sobrinho-neto de S. Hugo, abade de Cluny, um dos abades mais influentes da
época. A sua tia paterna, Constança, tornara-se, como já referimos, rainha de Leão e Castela
pelo seu casamento com o próprio rei Afonso VI. Henrique era, assim, primo direito de Urraca,
a meia-irmã de Teresa.

Estrangeiro, educado de forma diferente dos nobres peninsulares, chegou à Península Ibérica no
contexto da Reconquista. As contínuas lutas entre muçulmanos e cristãos ofereciam um vasto
campo para satisfação das ambições pessoais dos que aí procuravam a sorte. A sua vinda à
Península trouxe-lhe, para além do casamento, o governo do Condado Portucalense.

Dada a incerteza da sua data de nascimento é incerta a idade que Teresa tinha quando casou.
Tanto poderia rondar os quinze anos como haver sete ou oito; neste último caso, não se trataria,
propriamente, de um casamento por «palavras de presente», mas sim esponsais ou «palavras de
futuro», visto que a união só podia ser concretizada e consumada a partir dos doze anos no caso
das meninas. Este facto não impedia, no entanto, que se fizesse o cerimonial dos esponsais,
ficando, normalmente, a futura esposa a viver em casa do futuro marido, ao cuidado dos pais
deste até perfazer a idade.
26

Na opinião de Torquato Sousa Soares, Teresa seria ainda menor quando casou com o conde,
tendo sido criada pela mulher de Soeiro Mendes da Maia. As importantes funções
desempenhadas por este e também o facto de, segundo os livros de linhagens dos séculos XII e
XIV, Gontrode Moniz, a mulher de Soeiro, ser irmã de Ximena Moniz, a mãe de Teresa,
contribuem para esta conclusão. Não admira assim, que a tia a tivesse criado e Soeiro tivesse
sido seu aio, mesmo depois de casada, até atingir a maioridade. Este nobre, chefe da linhagem
da Maia, foi o mais categorizado auxiliar de D. Henrique, responsável pessoal pela defesa de
Santarém e, durante as prolongada ausências do conde, deverá ter sido, até morrer, cerca de
1108, a autoridade máxima do condado, sendo, também, o protector de Teresa. Dado que a
maioridade nas meninas era atingida aos doze anos a hipótese de a infanta ser menor à data do
seu matrimónio é, no entanto, pouco provável, visto que pouco tempo depois deu à luz a sua
primeira filha.

A partir desta data, e durante os primeiros anos, Teresa surge ao lado do marido nos
documentos que este confirma com Afonso VI. Dos dezassete diplomas reais que o conde
assinou juntamente com o sogro, ela surge em treze com a fórmula «Teresa, filha do rei e
esposa de conde D. Henrique.» (Nota 10) Se esta fórmula denota o modo como a infante surge,
ou seja, sempre em função do pai e do marido, denota igualmente a importância que revestia
para Henrique o seu vínculo à infanta.

O Condado Portucalense

São ainda hoje um pouco nebulosos os motivos que presidiram à entrega do Condado
Portucalense a D. Henrique. A zona ocupada por este território, era, à semelhança do resto da
Península, disputada entre cristãos e muçulmanos que, sucessivamente, passavam de vencidos a
vencedores e, novamente, a vencidos. Ao que constava, Henrique era um excelente guerreiro,
melhor que Raimundo e, por isso, em melhores condições para enfrentar os perigos das
invasões almorávidas.

Do Condado Portucalense, conjunto de duas unidades distintas, faziam parte a actual faixa
litoral portuguesa correspondente ao Minho, ao Douro Litoral e ao norte da Beira Litoral.
27

Para o interior, embora englobasse Trás-os-Montes e o norte da Beira interior, estas zonas eram
escassamente povoadas e com uma incompleta organização eclesiástica e civil.

A entrega deste condado a Henrique, simultaneamente sob a forma de dote e de feudo,


significava não só o reconhecimento e o agradecimento pelos serviços prestados como
significava, igualmente, um sinal de vassalagem. Ao casá-lo com a sua filha, Afonso VI não lhe
entregou apenas o governo deste território portucalense, mas também as propriedades
regalengas (pertencentes ao rei e à Coroa) que passaram, então, a constituir bens próprios e
hereditários dos consortes. O conde ficava, no entanto, ligado ao sogro pelos habituais laços de
vassalagem, como a fidelidade, a lealdade e a ajuda e conselho sempre que necessário, bem
como a continuação da luta contra os almorávidas, principal razão que o trouxera à Hispânia.

Se esta doação tivesse sido feita por Afonso VI exclusivamente como dote concedido pela mão
da filha e segundo as antigas normas, embora a administração desses territórios pertencesse ao
marido, a propriedade continuava a ser de Teresa. Ainda segundo a legislação vigente, a infanta
mantinha as propriedades em seu poder até à sua morte, deixando-as em herança ao seu
primogénito. Talvez se deva ao carácter jurídico desta concessão a convicção com que ela
sempre reivindicou a posse destas terras, mesmo quando já quase derrotada.

A vida em comum e a descendência

Nos primeiros anos de casados Henrique e Teresa viveram na corte leonesa embora
confirmassem diplomas relativos às terras portuguesas; através destes é possível ver como os
seus colaboradores foram aumentando, passando, única e exclusivamente, do mordomo e do
alferes, os dois únicos elementos confirmantes nas primeiras cartas, até aos doze um ano
depois. A pouco e pouco, foram-se aproximando de várias instituições religiosas para conseguir
o seu apoio aos seus planos políticos. Esta estratégia é bem visível, por exemplo, na outorga e
confirmação do «conde Henrique de Portugal com o consenso da sua esposa Teresa, filha de
dom Afonso, imperador de Toledo», de algumas localidades à Igreja de Santiago de
Compostela.
28

Conscientes do litígio existente entre a sede de Braga e a de Compostela, bem como das
ambições desta, consideraram não ser conveniente cortar relações com a poderosa e influente
Igreja galega.

Durante os quatro primeiros anos de casamento, Teresa deu à luz três filhas - por volta de 1095,
nasceu Urraca, nome da tia paterna de Teresa que, provavelmente, a terá criado após a sua
chegada à corte; (Nota 11) dois anos depois nasceu outra infanta, Sancha; Teresa, veio ao
mundo cerca de 1098.

Em 1099, D. Teresa, a sua irmã D. Urraca e os respectivos maridos passaram grande parte do
ano na corte leonesa confirmando vários documentos com o rei. A terceira mulher de Afonso
VI, a rainha Alberta, vivia os seus últimos dias e temia-se que este voltasse a casar mal ficasse
viúvo. Temia-se, porque continuava a não existir filho varão legítimo, continuando a ser Urraca
a única herdeira. O que se receava, depressa se concretizou, chegando rapidamente à corte
leonesa uma princesa de nome Isabel; tão rapidamente que se supôs ser a moura Zaida que com
a sua conversão ao cristianismo havia recebido o nome de Isabel. Fosse ou não, a ameaça às
aspirações dos condes era a mesma. No entanto, as duas gravidezes da nova rainha, uma logo a
seguir à outra, resultaram em duas filhas. Se os condes e as respectivas mulheres puderam
descansar deste «perigo» depressa outro apareceu. Em Janeiro de 1103, Afonso VI fez uma
importante doação à Igreja de Astorga, confirmada por toda a família real e onde surgiu pela
primeira vez, a seguir aos nomes de Henrique e de Teresa, o de Sancho, precedido de «dom»,
tratamento que não se usava para qualquer outro membro da família. Sancho era o único varão
que Afonso VI tinha, fruto dos seus amores ilegítimos com a moura Zaida. O filho de ambos
fazia, aos dez anos, a sua primeira incursão no mundo diplomático.

Esta possibilidade de sucessão ao trono, apoiada por aqueles que não viam com muito agrado a
supremacia dos «franceses», terá sido considerada uma ameaça para os interesses de Raimundo
e de Henrique que realizaram entre si um pacto no qual o segundo reconhecia o primeiro como
o legítimo herdeiro dos reinos de Leão, Castela e Galiza e prometia defendê-lo contra qualquer
homem ou mulher, como seu vassalo.
29

Por seu lado, Raimundo prometia conceder a Henrique o território de Toledo, com um terço dos
seus tesouros, ou o reino da Galiza.

Dois anos depois veio ao mundo o primeiro e único filho de Urraca e Raimundo. O pequeno
Afonso Raimundes vinha dar mais garantias de sucessão ao partido «francófilo» mas afastava
mais Henrique e Teresa da sucessão. Esta continuava sem dar à luz um filho varão, o que devia
constituir já uma pressão sobre ela, principalmente a partir da altura em que a sua irmã já havia
dado ao marido o desejado herdeiro. A criança, como era costume, foi entregue aos cuidados de
um nobre, neste caso ao conde galego Pedro Froilaz de Trava, o que, à partida, associava
Raimundo a uma importante facção da aristocracia galega.

Em 1106, toda a família voltou a confirmar um documento de Afonso VI, surgindo, novamente,
mas com maior destaque, triufante Sancho, «filho do rei Afonso», numa posição superior e
separado das irmãs. O filho de Zaida ganhava cada vez maior importância no seio da corte
leonesa e no coração do velho rei.

Teresa e o marido continuaram a administrar os seus bens e a fazer as suas doações,


nomeadamente ao clero, visando um aumento da lealdade e fidelidade dos seus destinatários.

Ia já avançada a Primavera de 1107 e, ao contrário do que acontecia normalmente nesta estação,


a infanta e Henrique não tinham regressado aos seus territórios portugueses. Dois motivos
explicam esta ausência: o primeiro está relacionado com o pedido de ajuda, expresso por
Afonso VI aos genros, para um ataque às forças de Navarra e Aragão; o segundo consistiu
numa doação do rei à Igreja de Santiago de Compostela e onde o nome de Sancho surge
primeiro do que os dos cunhados. Era a confirmação da sua eleição como herdeiro do reino,
deixando para trás dois genros adultos e experimentados, um deles já com descendência
masculina.

A exclusão de Raimundo da sucessão poderia, no entanto, estar relacionada com a sua provável
doença, visto que faleceu em Setembro do mesmo ano. Face ao desaparecimento do conde da
Galiza, Afonso VI determinou que Urraca continuasse a deter a posse deste condado enquanto
não casasse; nesse caso esse território passaria para o filho Afonso Raimundes.
30

A partir de então, a condessa-viúva passou a intitular-se «senhora de toda a Galiza», o que


poderia colocar em risco as terras portuguesas dado que estas, de acordo com a antiga divisão
territorial, estavam incluídas na Galiza.

Este terá sido o primeiro sinal de alerta para Teresa e Henrique. Embora partindo de uma
posição muito distante do poder, até atendendo à situação de secundogénita ou mesmo ilegítima
de Teresa, a morte de Raimundo deixava entrever outras aspirações; a linha de sucessão era
ocupada, em primeiro lugar, por um filho de uma muçulmana e em segundo lugar por uma
viúva e uma criança de quase três anos. Henrique passou, então, a ser mais reivindicativo no
que foi, por certo, acompanhado, ou mesmo estimulado, pela mulher. O facto de ver a irmã
Urraca reconhecida pelo comum pai como senhora de «toda» a Galiza terá tornado Teresa
apreensiva sobre a manutenção dos seus direitos hereditários à morte de Afonso VI. As relações
entre ambas nunca foram boas e Teresa conheceria bem o feitio e a prepotência da irmã. Havia
pois que tentar convencer o pai de que seria um grave risco deixar o filho de uma muçulmana a
governar um reino que combatia muçulmanos, tanto mais que não colhia o apoio dos poderosos
da corte; a solução mais correcta, e visto que Raimundo havia falecido, seria deixar Leão e
Castela ao seu marido Henrique, homem experimentado e com provas dadas.

Em 1108, morreu Isabel, a quarta esposa de um monarca com cerca de setenta anos. Talvez pela
noção dos riscos que implicava ter como único herdeiro o infante Sancho, filho de uma
convertida e rodeado de nobres que não haviam concordado com esta escolha, a madura idade
do rei Afonso não o inibiu de procurar uma quinta esposa. E Beatriz apareceu, vinda não se
sabe bem de que reino. E Teresa e Henrique continuaram na corte leonesa, confirmando
documentos e «vigiando» o poder. E é precisamente nestes documentos que surgem invulgares
qualificações relativas a Teresa. Num primeiro, datado de Fevereiro de 1108, Henrique
apelidava a mulher de «formosíssima» e, umas linhas abaixo, a própria infanta se apelidava de
«dulcíssima»; no mês seguinte, em outro documento, o conde louvava a mulher chamando-lhe
«gloriosa» e «amada».
31

Estranha felicidade numa altura em que o poder que tanto ambicionavam andava longe!
Atendendo a que estas palavras estavam relacionadas com a maternidade, sendo utilizadas
como qualificativos da maternidade da Virgem Maria - Dulcissime Virgo Maria Mater Dei ou
Mater Gloriosíssima, Marsílio Cassotti apresenta uma interessante explicação para estes
elogios. (Nota 12) Dado que já haviam nascido as filhas e nunca estas palavras tinham sido
utilizadas na documentação anterior, este autor coloca a hipótese de estas fórmulas
comemorarem a chegada de um filho varão que daria novo alento às suas aspirações sucessórias
em relação a Leão e Castela. Esta hipótese é corroborada por uma carta de doação outorgada
pelos condes ao mosteiro do Lorvão, em Julho do ano seguinte, na qual se referia ser a doação
feita «pela redenção das nossas almas e as almas dos nossos senhores os reis Fernando e
Afonso, [o avô e o pai de Teresa] e dos nossos filhos e filhas», sendo esta a primeira alusão
explícita na documentação coeva à sua descendência. Ora continuando a ligar as pontas soltas
da História, e atendendo ao facto de já haver filhas mas o único varão conhecido, o futuro
Afonso Henriques, só ter nascido no Verão de 1109, e o documento aludir concretamente ao
plural feminino e masculino, é possível que o primeiro dos varões tivesse mesmo nascido no
princípio de 1108, justificando, assim, as felizes expressões dos documentos desse ano.
Desconhece-se se à data do referido documento este primeiro infante já havia ou não falecido,
pois nele se roga pelas almas de vivos e mortos.

Regressemos ao ano de 1108 e a dois acontecimentos significativos para o monarca Afonso VI -


o seu quinto casamento, em Abril, com Beatriz, e a morte do seu herdeiro, em 30 de Maio.
Apesar da sua jovem idade, o rei nomeara-o responsável pela defesa de Toledo; morreu vítima
de um ataque almorávida. O desaparecimento daquele em que o velho monarca depositava
todas as esperanças de sucessão foi um golpe de tal forma terrível que nunca mais recuperou.
Quase no fim da vida tinha de designar novo sucessor, tarefa difícil atendendo a que o neto
contava apenas três anos. Embora os direitos de Urraca fossem inquestionáveis, o facto de ela
se encontrar viúva e ter um filho de tão tenra idade fazia reacender as ambições de Henrique e
Teresa, até porque, sendo ela a escolhida podia acarretar graves riscos para o casal portucalense.
32

Intensificaram, então, a política de doações a importantes eclesiásticos tentando encontrar


novos apoios para as suas posições. De facto, do ponto de vista ibérico, Henrique continuava a
ser considerado um estrangeiro, apoiado para tentar fazer o sogro mudar de ideias mas não
quanto à sua própria candidatura ao trono. Os grandes magnatas dividiam-se entre o apoio dado
a Afonso Raimundes, como era o caso do seu aio, Pedro Froilaz de Trava, um dos mais
importantes nobres do reino, ou o bispo Gelmírez de Santiago de Compostela, tutor do menino,
e o conde de Lara, candidato de grande parte da nobreza cortesã.

Em Junho de 1109, Afonso VI declarou sua filha Urraca como legítima herdeira de Leão e
Castela, com a imposição de casar com o rei aragonês Afonso I, conhecido como o Batalhador.
Considerando que este tinha os atributos necessários para governar o reino, Afonso VI
estabeleceu que Leão e Castela seria herdado pelo filho que de ambos nascesse e, na sua falta,
por Afonso Raimundes, filho do seu anterior marido Raimundo de Borgonha. No caso de haver
descendência deste novo casamento, Afonso Raimundes seria proclamado rei da Galiza, reino
que fora atribuído, sob a forma de condado, a seu pai. Este ficava, assim, numa situação
claramente inferior aos seus meios-irmãos, futuros filhos de Urraca e de Afonso.

O projecto político do soberano de Aragão encontrara eco em Afonso VI. Para ambos, unir os
quatro reinos cristãos do norte peninsular garantiria ganhos consideráveis no plano político e
militar. Por outro lado, a união ao monarca aragonês teria, também, como objectivo «neutralizar
as ambições do marido da sua outra filha, Teresa de Portugal. Com efeito, o maior opositor a
esse casamento foi o conde de Portugal (...) que com esta boda via desbaratadas as suas
esperanças de conseguir o reino». (Nota 13) Esta entrega do reino ao monarca de Aragão
desagradou, igualmente, a grande parte da nobreza galega e leonesa, bem como à quase
totalidade da classe eclesiástica, dada a proximidade de parentesco entre os noivos. De facto, os
cônjuges eram ambos bisnetos de Sancho III. Igualmente desagradados ficaram os partidários
dos «franceses» (o falecido conde Raimundo e Henrique de Borgonha) que procuraram obter da
Santa Sé a anulação deste casamento.
33

Se, até à morte do velho monarca, o xadrez político de luta pelo poder se centrava em torno do
partido pró-francês (apoiante de Afonso Raimundes) e de outro castelhano-leonês (apoiante do
falecido infante Sancho), surgiu a partir de então um terceiro grupo de apoiantes em torno de
Afonso I de Aragão, recrutando adeptos principalmente nos meios urbanos.

Pouco tempo após ter determinado os seus sucessores, uma das decisões mais polémicas do seu
governo, Afonso VI faleceu, no final de Junho, aos setenta anos, idade muito avançada à época.
Nascera, entretanto, Afonso Henriques, o herdeiro de Teresa e Henrique. O nome dado a este
infante seria, simultaneamente, uma homenagem ao avô Afonso VI, mas também uma forma de
recordar que neste neto corria igualmente sangue do «imperador de toda a Hispânia». Teresa e o
marido não deixavam dúvidas sobre as suas pretensões.

É desta altura o documento em que são referidos os filhos dos condes, datado de 29 de Julho de
1109, ao qual já aludimos. Este documento de doação do Mosteiro do Lorvão à Sé de Coimbra
iniciava um novo tipo de acção política com vista a conseguir mais autonomia da monarquia
leonesa. Sabendo das más relações entre a Igreja e o novo monarca, dado o ilegítimo
casamento, Teresa e Henrique apoiaram cada vez mais as sés episcopais portuguesas
consagradas por Roma. Esta cerimónia de doação a favor de uma estratégica sede eclesiástica
relacionada com a defesa dos territórios limítrofes em poder dos muçulmanos contou com a
presença de grande quantidade de influentes e poderosos magnatas de Guimarães, Coimbra e
Viseu. Dando à cerimónia um cariz simultaneamente político e religioso, (o conde intitulou-se
«Henrique, pela graça de Deus, conde e senhor de todo o Portugal.» Invocar a vontade de Deus
relativamente a uma possessão territorial significaria que esse poder dependia unicamente da
divindade. A negação do pai e sogro às pretensões dos condes portucalenses levou-os a iniciar
claramente o objectivo da autonomia. Entre os confirmantes deste documento estava Pedro
Froilaz de Trava, aio do infante Afonso Raimundes, grande prejudicado em todo este processo.

Os condes continuaram a recompensar generosamente as pessoas que os apoiavam e a outorgar


cartas de foral (Nota 14) a povoações localizadas estrategicamente; essas pessoas ficavam,
assim, ligadas por normas de vassalagem, sendo obrigadas a armar-se e a prestar ajuda quando
Henrique delas necessitasse.
34

No segundo semestre de 1110, os documentos da chancelaria são assinados unicamente por


Teresa. Seriam períodos em que ela se responsabilizaria pelo governo do condado enquanto o
conde combatia os ataques dos almorávidas, se deslocava a outros reinos ou intervinha nos
conflitos que se desenrolavam em Leão após a morte do sogro. Um dos documentos assinados
por Teresa, em Outubro desse ano, foi a confirmação à Sé de Braga do feudo que o seu bisavô,
Afonso V de Leão, havia concedido a essa igreja. Neste documento, «a escrava de Deus e
humilíssima serva Teresa» explicava que o fazia como reparação pelas agressões que os seus
meirinhos (administradores) tinham feito na igreja e no respectivo claustro. Ao longo do seu
governo, Teresa sempre tentou exercer sobre esta igreja um controlo especial dada a
importância que ela detinha relativamente a todas as outras dos seus territórios. Uma vez que,
de uma maneira geral, se associava incapacidade política com sexo feminino, não aceitando o
governo em mãos de mulheres até porque, como referia a Historia Compostelana (Nota 15) elas
só o conseguiam fazer «tirânica e efeminadamente», a condessa teve, por vezes, de usar a força
para enfrentar quem não queria aceitar o seu governo. Em Novembro do mesmo ano, a infanta
voltou a fazer outra doação à Sé de Braga sem a confirmação do conde, desta vez de uma
povoação que tinha recebido de seu pai. Seria, de certa forma, o assumir de que era a
depositária directa dos direitos que pertenciam ao marido através dela, dado que lhe tinham sido
concedidos pelo seu pai. (Nota 16)

Urraca - a rainha-irmã

O reinado de Urraca foi conturbado e conflituoso. Tentando alianças e protecções contra as


pressões internas e as constantes e complicadas intrigas e sendo muito permeável a influências,
não conseguiu manter a autoridade no seu reino. O casamento, em Outubro de 1109, com
Afonso I, rei de Aragão, que poderia ter unido as duas Coroas e reforçado o cristianismo contra
o Islão, fracassou por desentendimento total entre a rainha e o seu novo marido e pelas intrigas
do clero e da nobreza galegas que procuraram elevar quanto antes ao trono o jovem Afonso
Raimundes, filho da rainha e do conde Raimundo.
35

Apesar de decretada a anulação do matrimónio entre os dois soberanos, D. Urraca e o marido


não se separaram, ora se guerreando, ora se reconciliando. Para além das insinuações de que o
rei preferia a companhia dos soldados à das mulheres ou das afirmações de que o rei tinha posto
à esposa «as mãos na cara e os pés por todo o corpo», Urraca não suportaria a sua intromissão
no governo de Leão e Castela. O seu reinado, desde o seu segundo casamento até à data da sua
morte (1126), tornou o território num palco de guerra civil quase permanente entre a nobreza
leonesa, castelhana, aragonesa e galega.

Na tentativa de obter concessões de ambos os lados, D. Henrique não se comprometeu com


qualquer dos intervenientes, começando por se aliar ao rei de Aragão contra a sua cunhada
Urraca, invertendo depois a sua aliança a favor desta. Neste contexto, se em Outubro de 1110
combatia as tropas da rainha, já no mês seguinte cercava o rei de Aragão em Penafiel ao serviço
de Urraca. Segundo as Crónicas Anónimas de Sahagún, foi durante este cerco que Teresa
chegou ao acampamento, vinda de Coimbra, e instou o marido a exigir a entrega imediata das
terras que Urraca lhe havia prometido. Talvez verificando o prejuízo que o acordo com o
cunhado lhe podia trazer, ou pressionada pelos seus vassalos, Urraca mandou levantar o cerco e
reconciliou-se, novamente, com o rei Afonso. Entregou Zamora e Astorga ao conde como
recompensa dos seus serviços e juntou-se, em Leão, ao marido.

Em Setembro de 1111, o infante Afonso Raimundes foi coroado rei da Galiza, em cerimónia
solene na Igreja de Santiago de Compostela, por acordo entre o arcebispo Gelmirez e o seu aio
Pedro Froilaz. Dado que as terras portuguesas se incluíam nesta jurisdição, Teresa e Henrique
voltaram a aliar-se a Afonso, o Batalhador. Depois de derrotarem as forças de Urraca, Henrique
voltou a romper a aliança com aquele e a unir-se a Urraca, tentando, juntos, prendê-lo, o que
não conseguiram. Face a este fracasso, Teresa deixou Coimbra e partiu para Palência, onde se
encontrava o marido e a irmã; aí tê-la-á instado para que efectivasse a divisão da herança de seu
pai.
36

Urraca ter-lhe-á concedido Palência e uma zona a norte de Sahagún. Enquanto Henrique partiu
para tomar posse da primeira cidade, Teresa, porque não confiava na irmã e queria controlá-la,
acompanhou Urraca até Sahagún. Aí chegadas separaram-se, ficando Teresa no mosteiro e
partindo Urraca para Leão. Esta conseguiu, então, fazer chegar uma mensagem ao marido para
que tomasse Palência e aprisionasse Teresa. Por pouco esta não foi presa. Os condes
portucalenses voltaram a aliar-se a Afonso e, no final de 1111, este confirmava um documento
no qual Henrique se intitulava «conde em Zamora e em Astorga, bem como em Portugal».
(Nota 17)

Teresa, demonstrando o quanto estava convencida da legitimidade dos seus direitos a parte da
herança do pai, continuou a pressionar a irmã para fazer a «divisão do reino». Desta altura
(entre 24 de Abril e 22 de Maio de 1112) existe um documento da Catedral de Braga no qual «a
rainha D. Urraca jura amizade fiel à sua irmã D. Teresa e concede-lhe vários lugares e terras,
obrigando-se a infanta, por sua parte, a defender tanto esta "honra" como a que já possui».
(Nota 18) Na assinatura deste documento D. Henrique não esteve presente, dividindo-se os
historiadores sobre se a elaboração do mesmo terá sido feita antes ou depois da sua morte, dado
que faleceu em 22 de Maio desse ano. Embora divididos sobre a data, é, no entanto, unânime a
opinião de que a iniciativa das negociações partiu de D. Teresa, tendo sido ela «quem mais
urgiu pela partilha» e acrescentando alguns que «na agitada quadra política em que as duas
filhas de Afonso VI exerceram o governo dos seus Estados, ora congraçadas era inimizadas, não
se descobrem com evidência as causas determinantes deste pacto». Independentemente do pacto
entre as duas irmãs, sabe-se que D. Teresa queria reter Zamora, Salamanca, Ávila e a província
da Estremadura, todas na posse do conde antes da sua morte. (Nota 19)

A viuvez

À morte de D. Henrique, em 1112, ficou sua mulher, a «formosíssima e dulcíssima Tharasia», a


governar o Condado Portucalense. Vejamos, sucintamente, a realidade com que D. Teresa se
debateu.
37

A Galiza era dominada por duas forças hegemónicas: a do arcebispo Diego Gelmírez de
Compostela e a do tutor do infante Raimundo, Pedro Froilaz de Trava, rodeado de um
importante grupo de nobres. A rainha D. Urraca, tentando não perder autoridade nas diversas
regiões dos seus Estados e receando a independência da Galiza ou o excessivo papel dos
galegos na política do reino, ora se aliou com uns, ora com outros, ora ainda com os nobres
castelhanos.

Qual a relação de tudo isto com D. Teresa e com o Condado Portucalense? O pacto
anteriormente celebrado entre os dois condes franceses atribuíra a Raimundo a sucessão do
trono leonês e a Henrique o reino da Galiza; por outro lado, a Cúria Régia de 1108 atribuíra a
Afonso Raimundes a Galiza, autonomizando-a de Leão, que caberia aos descendentes de Urraca
e Afonso de Aragão. Ora os Trava, na pessoa de Pedro Froilaz, pretenderiam que Afonso
Raimundes herdasse a totalidade dos territórios entregues a seu pai, em 1091, o que colidia com
os interesses portucalenses.

Foi neste mundo de forças contraditórias que Teresa iniciou o seu governo: os barões
portucalenses reivindicando para a sua «rainha» um lugar paralelo ao da irmã Urraca ou, pelo
menos, a autonomia em relação à Galiza; os magnatas galegos preconizando a reunificação
entre a Galiza e Portugal.

Durante a sua vida de casada, Teresa acompanhou, quase sempre, o marido nas suas
deslocações entre Leão e o condado, interessando-se por todos os assuntos a ele inerentes. Após
a morte de Afonso VI, e das disposições testamentárias que a afastavam a si e ao marido de
qualquer pretensão às Coroas do pai, a condessa passou a desempenhar um papel de maior
destaque na governação do condado e na defesa dos seus interesses, surgindo, normalmente,
como adversária da sua meia-irmã. Este papel agudizou-se quando ficou viúva e com quatro
filhos, dos quais o único varão, Afonso, andaria pelos 3 anos de idade.

A partir daqui, duas mulheres, num mundo de homens, partilharam o poder e dividiram entre si
territórios com uma desenvoltura e uma sabedoria que se acreditava não ser possível ao sexo
feminino. A relação entre estas duas mulheres e irmãs foi pautada pela ambição e pelo interesse
político, ora se unindo, quando os interesses assim o ditavam, a maior parte das vezes se
afastando e confrontando.
38

E neste confronto pode encontrar-se, afinal, aquilo que as unia - a luta pelo poder, assunto
próprio de homens, desafiando, assim, todos os cânones e normas da mulher desta época. Os
objectivos de autonomia e independência defendidos por Teresa para o Condado Portucalense
eram incompatíveis com o reino de Leão e Castela forte e íntegro preconizado por Urraca.

Entretanto, talvez por pressões exercidas ou porque estivesse novamente em guerra com o seu
marido e precisasse do apoio da irmã, Urraca concedeu-lhe as cidades de Arévalo, Olmedo,
Sanabria, Talavera, Coria e Simancas além das que já havia obtido antes da morte de D.
Henrique.

Tendo perfeita consciência de que o direito à posse e governo do seu território não era
reconhecido se não fosse amplamente acompanhado de recompensas, tanto mais complicado
por ser uma mulher a exercer esse poder, D. Teresa prosseguiu a sua política de captação de
lealdades, à semelhança do que fazia com o marido, outorgando bens e privilégios a pessoas
influentes das suas terras. Os tempos que se seguiram à morte de D. Henrique foram cruciais
para fazer valer o seu poder, mostrar que podia e sabia governar como um homem e conservar
unido o território que um dia o seu filho viria a herdar. Sozinha no poder, sem pai, marido,
filhos ou irmãos varões que a apoiassem, num mundo de constantes guerras e ameaças, Teresa
revelou-se, sem dúvida, uma mulher forte.

Tal como acontecera com a sua irmã, viúva, ainda jovem e com um filho herdeiro de pouca
idade, Teresa representava uma hipótese muito desejável para os grandes nobres portucalenses
ou galegos, que nela viam a possibilidade de conseguir o governo do condado. Surgiram, assim,
pressões para um novo casamento. Os partidários da reunificação da Galiza com o Condado
Portucalense, agrupados em torno do jovem Afonso Raimundes, exigiam um matrimónio com
um fidalgo galego; pelo contrário, os nobres portucalenses e coimbrões, cada vez mais
interessados na autonomia do condado, preferiam ver a condessa casada com um deles ou,
simplesmente, manter a viuvez, prevendo assim que na prática seriam eles a controlar o poder.
39

A Teresa política

Numa primeira fase, sensivelmente até 1121, D. Teresa satisfez as pretensões dos segundos,
mantendo-se sozinha. Nos dezasseis anos em que acompanhou o marido no governo do
condado adquiriu experiência e astúcia. Conforme o costume da época, terá entregue o infante
herdeiro à criação por uma das mais influentes famílias nobres da sua corte, os Riba Douro, e
dedicou-se à governação do seu condado. Dotada de forte personalidade, ambiciosa e amante
do poder, prosseguiu a luta pela independência do condado e o alargamento do território
iniciados pelo marido. Desde esta altura os documentos emitidos passaram a conter apenas a
sua assinatura, declarando-se, frequentemente, como filha do «grande rei e imperador» Afonso
VI, numa prova de afirmação e autoridade.

Teresa prosseguiu a sua política de favorecimento aos homens que tinham servido o marido,
conservando a lealdade das suas antigas relações, e concedendo forais a cidades e lugares com o
objectivo de favorecer o seu repovoamento e crescimento. Os documentos de doação passaram
a ser elaborados recorrendo à forma jurídica tradicional que implicava o consenso dos seus
filhos Urraca, Sancha e Afonso. A infanta Teresa nunca é mencionada pelo que se pode inferir
do seu falecimento em data incerta. Em Abril de 1113, numa doação à Sé de Coimbra, D. Teresa
demonstrou, novamente, a vontade de incorporar os filhos nas formalidades do governo, sendo
este o primeiro documento da sua chancelaria confirmado «com a sua própria mão pela infanta
Urraca, «filha do conde e da infanta Teresa». (Nota 20) É possível que esta infanta, a
primogénita das filhas de Teresa, já se encontrasse na corte com a mãe tendo terminado a sua
educação e criação em casa de famílias nobres. Em documentos posteriores começa também a
surgir a infanta Sancha, continuando a verificar-se a ausência do infante Afonso, por certo ainda
em «criação».

Enquanto Teresa continuava a governar as suas terras em paz e tentando o consenso de todos, a
irmã e o cunhado continuavam a digladiar-se e a guerra civil tomava conta da Galiza. D. Urraca
e o ex-marido, mesmo já depois de sancionada pelo papa a sua separação, ora se reconciliavam
ora se combatiam, e a própria rainha, procurando manter-se no cargo, ora se aliava ao marido
ora ao filho.
40

D. Teresa, à semelhança de D. Henrique, passou então a uma complexa política de alianças.


Com o objectivo de reforçar a sua posição perante a irmã, dirigiu-se a Astorga e, querendo fazer
pleitesia e concórdia, apoiou Afonso de Aragão, ao mesmo tempo que, com un saver astuto e
yngenioso (Nota 21), aproveitou para o indispor contra a mulher, inventando (ou talvez não)
que esta o queria matar. As crónicas referem várias situações de maus-tratos perpetradas pelo
monarca aragonês contra a mulher pelo que esta probabilidade não seria tão inverosímil. Afonso
acreditou na cunhada e partiu em direcção ao local onde Urraca se encontrava. Esta, que
entretanto se tinha retirado, deu definitivamente por terminado o seu casamento, dispondo-se a
governar as terras deixadas por seu pai como «rainha proprietária».

A partir daqui, havia o perigo de que Urraca tirasse à sua irmã as povoações que lhe havia
concedido ou mesmo que a expulsasse das suas terras de Portugal.

Urraca enfrentou finalmente Afonso e com o apoio de galegos, leoneses e castelhanos, obrigou
o ex-marido a retirar-se para Burgos. A conquista desta cidade por Bermudo Peres, filho do aio
de Afonso Raimundes, fez entrar em cena um personagem que irá cruzar-se com Teresa, e
desempenhar um importante papel na sua vida.

Sozinha em Astorga e sem forças suficientes para defrontar a irmã, não restou a D. Teresa senão
submeter-se. Em 1115, reconheceu a autoridade da rainha na Cúria Régia de Oviedo. Mas,
pouco depois, em 1116, aceitando a sugestão do arcebispo de Santiago, Diego Gelmírez,
apoiou, com o seu exército, o sobrinho Afonso Raimundes contra a sua irmã Urraca sitiada no
Castelo de Sobroso. Urraca querendo ver reconhecida a sua autoridade na Galiza, dirigira-se a
Santiago, à frente de um exército castelhano-leonês, obrigando Pedro Froilaz e Afonso
Raimundes a sair da cidade e o arcebispo a pactuar com ela. Dirigiu-se, depois, a Tui para
submeter o condado de Toronho, também apoiante de Afonso Raimundes. Embora cercada pela
coligação de nobres portucalenses e galegos, a rainha conseguiu fugir e regressar a Leão sem,
no entanto, ter podido submeter as províncias ocidentais do seu reino. Teresa terá iniciado, neste
confronto, o seu relacionamento com a família Trava.
41

Nesse mesmo ano, a notícia de que os almorávidas atacavam as fronteiras sul dos seus
domínios, havendo já destruído os castelos que defendiam Coimbra, Miranda, Santa Eulália e
Soure, fê-la rumar a Coimbra. Este ataque representava um risco acrescido dadas as divisões
internas que enfraqueciam a capacidade de defesa e de coordenação das forças cristãs ao
serviço de D. Teresa. Sozinha, ou com a ajuda de cavaleiros galegos, assumiu de tal forma a
defesa da cidade que os muçulmanos acabaram por retirar sem haver conseguido apoderar-se de
Coimbra. Os mortos contaram-se, no entanto, aos milhares e os sobreviventes, que caíram em
poder do inimigo, foram acorrentados e enviados para o Norte de África para serem vendidos
como escravos. (Nota 22) A defesa contra este ataque, que parece não ter tido qualquer
colaboração de sua irmã Urraca nem daqueles que com ela partilhavam a responsabilidade de
defesa do reino, trouxe ao território português alguns nobres galegos que vieram colaborar com
os cavaleiros que defendiam a cidade. Neste conjunto de galegos vieram os dois filhos do conde
Pedro Froilaz - o primogénito Fernão Peres de Trava e o seu irmão Bermudo. Os bons
resultados da defesa da cidade mondeguina terão potenciado a união entre os membros da corte
condal.

A vitória contra os almorávidas e os importantes apoios obtidos, nomeadamente uma carta do


papa Pascoal II dirigida à «rainha Teresa» terão, talvez, contribuído para que, a partir de Maio
de 1117, passasse a assinar os documentos com o título de rainha (Nota 23) (o próprio marido
chamava-lhe mea illustri Regina), palavra que tinha, no entanto, um significado diferente do
que actualmente tem. Na Espanha dos séculos XI e XII, as palavras rex (rei) e regina, o seu
feminino, eram títulos que correspondiam a situações muito elevadas, pois só os detentores de
regna (reinos), suas mulheres e filhos os podiam usar. Afonso VI era rex, não só porque seu pai
o fora mas porque ele próprio era governante real de um Estado independente, um regnum
(reino). Urraca e Teresa, suas filhas, eram, por isso, reginas mesmo não governando um reino.
O mesmo não aconteceria com Afonso Henriques, que não seria rex, visto que nem seu pai nem
sua mãe tinham possuído regnum algum. (Nota 24)

Teresa aproveitou o reconhecimento papal para tirar novos benefícios face à eterna contenda
com a sua irmã.
42

Até aí a rivalidade existente entre esta e o seu filho, «rei da Galiza», tinha permitido à condessa
tirar partido da situação. No entanto, a «firmíssima aliança de fidelidade, amizade e ajuda
mútua por três anos» que, segundo a Historia Compostelana, os negociadores de Urraca tinham
levado a cabo com os representantes de Afonso Raimundes, podia unir mãe e filho desavindos e
prejudicar Teresa. Esta considerou então que a melhor forma de se precaver era fazer uma
declaração pública dos direitos que lhe correspondiam por herança, como filha do «imperador»
Afonso VI.

Como é entendível, a utilização deste título por Teresa não foi bem aceite pela irmã, não só pelo
uso de um título que só ela detinha na Península como também porque o pacto com o seu filho
não estava a correr como ela desejava.

Entretanto, nova invasão de almorávidas, segundo as crónicas, tão numerosos como «a areia
dos mares», voltou a cercar Coimbra durante três semanas (Nota 25) e, mais uma vez, Teresa
conseguiu sair-se bem.

Menos propícios se mostravam os acontecimentos com a rainha Urraca ao ver o filho entrar em
Toledo, cidade que, segundo a recente partilha feita entre ambos, pertencia à mãe. A partir da
tomada desta localidade, em Novembro de 1117, Afonso Raimundes passou a assinar os seus
documentos como «imperator». Urraca passou, então, a apoiar-se visivelmente no conde Pedro
Gonçalves de Lara, precisamente o candidato preferido por grande parte da nobreza cortesã
aquando da escolha de sucessor por parte de Afonso VI. É provável que tivesse havido mesmo
uma relação sentimental entre este conde e Urraca.

Os atritos e as contendas entre as irmãs continuavam a ocorrer, estendendo-se também ao plano


religioso, ou não fosse a Igreja um dos grandes poderes à época. Corria o mês de Junho do ano
de 1118 quando foi sagrado o novo arcebispo de Braga, em Burgos. O cargo recaiu sobre Paio
Mendes, oriundo de uma importante família de nobres portugueses e cujas capacidades têm
dividido os historiadores. Ao que parece, Teresa nada teve a ver com esta escolha que terá
estado a cargo de Urraca, tendo em conta a grande actividade desenvolvida e documentada por
esta nessa região no decorrer desse Verão.
43

Para o historiador inglês Reilly, esta nomeação «evidencia o crescimento do poder de Urraca
nos assuntos portugueses e a prática debilidade de sua irmã Teresa». (Nota 26) Talvez como
resposta a esta intromissão da rainha leonesa, em Novembro do mesmo ano, um documento de
Afonso Raimundes para a cidade de Toledo levava a confirmação de dois homens muito
vinculados a Teresa; se a irmã lhe impunha para a «sua» sede de Braga um homem que não
contava com a sua complacência, ela apoiava a posição do sobrinho numa cidade teoricamente
pertencente a Urraca.

Novos revezes esperavam Urraca. À morte do papa Gelásio II, em Janeiro de 1119, os cardeais
elegeram o arcebispo Guido de Vienne, que tomou o nome Calisto II. O novo pontífice era,
precisamente, o seu cunhado, irmão de Raimundo de Borgonha e um dos grandes defensores
dos direitos do seu sobrinho ao reino de Leão e Castela. Pouco tempo depois desta eleição, o
novo papa, por influência do bispo do Porto, antigo cónego de Santiago, elevou Compostela a
arcebispado em detrimento de Braga, o que desagradou a Teresa. Gelmírez, o prelado de
Santiago, terá convencido o papa, através do bispo do Porto, de que ele era o melhor protector
de Afonso Raimundes, o seu sobrinho, conseguindo, assim, os ambicionados privilégios.
Sabedora de que o novo pontífice era desde há muito amigo do bispo Gelmírez decidiu usar da
astúcia e não entrar em oposição. Assim, mal o bispo do Porto regressou da sua missão, e
mostrando que não existiam ressentimentos, agraciou-o com uma doação do burgo do Porto a
seu favor e dos seus sucessores. A carta de doação é datada de 18 de Abril de 1120 e, pela
primeira vez, é feita com o consenso dos três filhos. Afonso estaria prestes a cumprir os doze
anos e Teresa foi cumprindo as formas jurídicas da época no que se refere à alienação de bens
patrimoniais. Numa carta de feudo ao Mosteiro da Pendorada introduz a expressão gratia Dei in
sublimitatis culmine electa que a relaciona com o máximo poder alcançado por um governante
e a elevação ao trono por vontade divina, bem como a «eleita de Deus» para desempenhar o
cargo anteriormente desempenhado por seu pai «o grande e sereníssimo rei dom Afonso». (Nota
27) Teresa relembrava, mais uma vez, a sua condição de filha de «imperador». Por esta época,
exercia já o seu domínio em algumas zonas a norte do rio Minho, como era o caso de Torono.
44

Em 1120/21, as hostes de D. Urraca acompanhadas por Gelmírez, invadiram e saquearam o


território portucalense, obrigando D. Teresa a refugiar-se no Castelo de Lanhoso, a cerca de dez
quilómetros a norte de Braga. (Nota 28) Poucos dias depois a rainha leonesa fez uma doação à
igreja desta localidade, através do seu arcebispo, numa demonstração de até onde chegava o seu
poder.

Esta situação terá, segundo alguns historiadores, constituído um marco para o início do
afastamento de alguns barões portucalenses bem como do próprio infante Afonso Henriques,
chegando inclusivamente a aceitar a soberania de Urraca em terras portucalenses com o
objectivo de impedir que a aristocracia apoiante de Teresa se tornasse forte na Galiza. (Nota 29)
Teresa «não só se tinha apoderado de território fora da sua jurisdição, como também se tinha
oposto, à mão armada, aos soberanos de Leão e Castela, a quem, como sua vassala, devia
lealdade, incorrendo no crime de felonia, perdendo assim ipso facto o senhorio de Portugal»,
situação considerada muito grave não só pela perda dos direitos senhoriais que isso implicava,
mas também em relação à posição de Afonso Henriques. (Nota 30) Ao ter invadido as terras
galegas, baseada em direitos territoriais que a irmã anteriormente lhe havia reconhecido, Teresa
não conseguiu ganhar a adesão e o apoio dos «seus» barões que, sem grande dificuldade,
manipulavam o infante. Sabendo que os nobres portucalenses tinham chegado a um acordo com
Urraca, Teresa mais uma vez usou a sua astúcia; enviou, então, uma mensagem ao arcebispo
Gelmírez, advertindo-o de que, por aquilo que sabia da sua irmã, se não se pusesse a salvo seria
também ele preso pela rainha, e ofereceu-lhe os seus castelos para ele se proteger. (Nota 31)
Não acreditando na condessa, o arcebispo regressou a Santiago e imediatamente foi mandado
prender, tendo Urraca dado ordens para que o seu património revertesse para as arcas reais e se
procedesse à expropriação dos seus castelos. Afonso Raimundes uniu-se a Pedro Froilaz, o seu
antigo aio, e juntos levantaram-se contra Urraca que teve de se refugiar na catedral para não ser
presa. Ao ver os seus adversários aliados contra ela, a rainha regressou a Leão. No seu caminho
conhece-se uma doação por ela feita ao mosteiro galego de Samos tendo como confirmante
Gelmírez, o que pode indiciar um acordo entre eles.
45

Igualmente uma doação feita a Cluny em nome da rainha pode sugerir uma possível solicitação
para que esta importante abadia interviesse no conflito entre as duas irmãs. (Nota 32)

No ano seguinte, a reentrada do ex-marido de Urraca em Leão, favoreceu a resposta de D.


Teresa aos agravos da irmã. As suas hostes voltaram a invadir o sul da Galiza, as mesmas terras
de onde tivera de recuar no Verão anterior. Rapidamente voltou a exercer o seu domínio em
importantes cidades galegas como Tui e Orense, voltando a expandir os seus territórios para
além do rio que sempre servira de fronteira entre as terras das duas irmãs. A contínua exigência
de Teresa em obter terras e supremacia em zonas que não lhe tinham sido doadas pelo pai foi
novamente sentida como uma afronta pela rainha de Leão que, de imediato, se retirou para
Lugo, uma das poucas cidades galegas que sempre estiveram do seu lado. Aí reuniu-se com os
bispos das cidades ocupadas pela irmã e com o bispo de Coimbra que, possivelmente, terá
servido de representante de Teresa nestas conversações. Talvez todos a tenham aconselhado a
fazer a paz com esta, dado que Urraca saiu de Lugo sem responder militarmente aos abusos da
irmã; também o bispo de Orense, ao regressar, outorgou aos habitantes desta cidade uma carta
«pela graça de Urraca, do seu filho, Afonso Raimundes, e da rainha Teresa». (Nota 33)

A paz entre as duas meias-irmãs desavindas não se fez tardar, recebendo a condessa o senhorio
de Orense mas submetendo-se aos seus deveres de feudalidade, prestando homenagem à rainha
em 1121.

A Teresa incestuosa

Durante este período, Teresa ter-se-á aproximado, como já referimos, dos galegos da família
Trava, união que lhe trouxe importantes consequências. Sobre os factos que motivaram esta
aproximação, bem como quem a iniciou, pairam dúvidas, dada a escassez de documentos. Terá
sido Teresa um instrumento dos interesses dos ambiciosos condes de Trava ou terá sido ela
própria que os atraiu para servir os seus objectivos autonomistas?
46

Tentemos uma explicação. Como referimos no início, a Galiza, após as partilhas à data da morte
do rei Fernando, foi governada por um monarca independente, tornando-se um reino. E como
reino permaneceu mesmo depois da morte do rei Garcia, da sua anexação, por Afonso VI, aos
reinos de Leão e Castela, e de passar a ser governado por um conde, Raimundo de Borgonha, o
primeiro marido da rainha Urraca. A própria sucessão desta passaria, conforme já explicámos,
para o hipotético filho que viesse a ter de Afonso de Aragão, ficando o primogénito Afonso
Raimundes como rei da Galiza. A não existência de um outro filho, e as intrigas e pressões para
que Afonso recuperasse uma dignidade semelhante à do avô Afonso VI, tornaram-no legítimo
detentor dos reinos de Leão e Castela. Restava saber se a Galiza continuaria a gozar de uma
certa autonomia.

E foi a partir daqui que entrou em cena a família dos Trava, com o conde Pedro Froilaz a apoiar
as pretensões de Teresa a governar o reino da Galiza. Terá sido ele que, considerando garantida
a sucessão de Afonso Raimundes como rei de Leão e Castela, terá decidido apoiá-la, vendo
nesse apoio a possibilidade de ascensão social e de consolidação da sua preponderância na
Galiza, tanto mais que este acordo implicava o casamento com o seu filho Fernão? Assim, caso
Afonso Raimundes viesse a ocupar o trono leonês, um descendente dos Trava teria
possibilidade de se tornar rei da Galiza; se ele permanecesse apenas como rei deste território,
conforme as anteriores decisões de seu avô e da Cúria Régia de 1108, consolidaria a
importância dos Trava e garantiria a Afonso o domínio também sobre Portugal. Ou teria partido
de Bermudo, que terá ficado magoado com Urraca, visto que pouco depois de a ter ajudado a
recuperar a fortaleza de Burgos, ela voltou, mais uma vez, a reconciliar-se com o ex-marido?
Ou, pelo contrário, terá sido Teresa, que sempre reivindicara o direito a herdar pelo menos uma
parte do reino de seu pai, que terá persuadido o mais poderoso magnata da Galiza a apoiá-la na
sua pretensão de soberana independente? Possivelmente nunca o iremos saber, mas a verdade é
que o projecto interessava a ambas as partes e ambas partilhavam os mesmos inimigos. (Nota
34) Os Trava eram elevados ao nível da filha do glorioso imperador Afonso VI e,
simultaneamente, esta união conferia a Teresa mais poder e autoridade.
47

O que é facto é que para Teresa seria, por certo, confortante ter a seu lado a apoiá-la os
poderosos Trava, principalmente em períodos em que a sua autoridade era posta em causa.
Surge, primeiro, a sua ligação (não se sabe se mesmo casamento) a Bermudo Peres de Trava,
filho de Pedro Froilaz, referido no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro como seu marido e
mais tarde seu genro, casado com sua filha Urraca Henriques em 1121. Neste mesmo ano, D.
Teresa uniu-se a Fernão, irmão daquele, figurando o nome de Fernão Peres de Trava ao lado do
de Teresa em muitos documentos relativos à administração do condado, tendo sido contemplado
com extensas doações patrimoniais. Logo a partir de Janeiro de 1121 surge com o título de
«cônsul em Coimbra e Portugal», (Nota 35) cargo que se justificava pela necessidade de
reforçar o comando guerreiro da fronteira mondeguina, depois das anteriores incursões
almorávidas.

Mulher de objectivos, foi com ele que prosseguiu a sua ideia de autonomia. Casados ou não,
(Nota 36) parece que tiveram, pelo menos, uma filha de nome Sancha. Esta infanta nunca é
referida na documentação da rainha surgindo uma única vez na documentação de Fernão.
Assim, em 1131, na confirmação do mosteiro galego de San Martin de Jouve, embora sem a
nomear, ele refere a existência de «uma filha minha e da rainha dona Teresa». (Nota 37) Será a
própria que, num documento assinado com o seu marido, se qualificou como «Infanta Dona
Sancha (...) filha do conde dom Fernão Pérez e da Rainha Dona Teresa.»

Na obra A Vida de São Teotónio, 1.° prior de Santa Cruz de Coimbra, narram-se dois episódios
condenatórios desta ligação e do comportamento desta «pecadora». Refere-se, assim, como em
Viseu Teotónio mandou sair do templo Teresa e Fernão porque estavaõ mal cazados, o que
estes, talvez pela vergonha da sua «pecadora» ligação, fizeram sem qualquer repreensão. Conta-
se ainda que, em outra ocasião, à entrada da missa, Teresa comunicou ao prior que despachasse
bem depressa o culto, ao que este respondeu que no céu havia uma outra rainha bem mais digna
e era em sua honra que ele celebrava a missa, portanto Teresa podia ir-se embora. Segundo se
refere, Teresa ter-se-á lançado aos pés do religioso, pedindo perdão e implorando-lhe que
rezasse por si a Deus.
48

De facto, as fontes narrativas de origem clerical consideram esta união como adulterina ou
ilegítima, tendo em conta o facto não só de o conde ser já casado, pelo que a sua união a D.
Teresa não podia ser aceite pela Igreja, como ainda porque o casamento com o irmão de alguém
com quem já se tivera relações sexuais era considerado impeditivo grave pelo Direito Canónico.
A situação seria, pois, duplamente incestuosa. (Nota 38)

Detenhamo-nos um pouco sobre esta situação e sobre a contradição das fontes. Os documentos
da chancelaria condal atribuem vários títulos a Fernão Peres; para além da autoridade sobre
Coimbra e Portugal, funções equivalentes às outrora desempenhadas pelo conde D. Henrique e
que só lhe podiam ter advindo por concessão de D. Urraca ou por casamento com D. Teresa,
chamam-lhe fidelis, ou seja, senhor ligado à rainha por um compromisso de fidelidade e
declaram-no senhor dos castelos de Seia, Coja, Santa Eulália e Soure. Também um documento
do Mosteiro de Montederramo, na Galiza, falso ou falsificado, mas redigido no final do século
XII a partir de um documento autêntico (o que permite levar em consideração o seu
testemunho), refere um verdadeiro elo matrimonial entre a «rainha» e o conde, ao usar as
expressões conjux e viro meo. Estes dados revelam, como vimos, pontos de vista opostos: o dos
clérigos que lutavam para impor o modelo de casamento monogâmico e exogâmico (ou seja,
excluindo o divórcio e a união consanguínea ou «incesto») e o modelo «civil» que admitia a
separação dos cônjuges e, assim, um novo matrimónio, mesmo em vida do cônjuge anterior.
Dado que o conde estava ligado por um casamento precedente, a sua união com Teresa nunca
poderia ser aceite pela Igreja. (Nota 39)

Em Junho de 1121, o papa Calisto II confirmou os direitos da Sé de Braga sobre todas as


<igrejas?> de Portugal e da Galiza, não existindo na carta qualquer referência à conduta da
rainha. Atendendo a que este papa, pelas suas ligações familiares, estava perfeitamente
informado de tudo o que se passava na Península Ibérica e que, inclusivamente, pouco tempo
depois reprovou a conduta de Urraca com o conde de Lara, ameaçando mesmo tomar medidas
drásticas se esta não interrompesse a sua relação sentimental com o conde, é estranho que não o
tenha feito com Teresa.
49

Marsílio Cassotti, refere várias citações em documentos de doação que indiciariam uma atitude
expiadora dos seus pecados supostamente relacionada com o arrependimento pela sua conduta
incestuosa, (Nota 40) como, por exemplo, pro remedio anime mee et pro remissione
peccatorum meorum (Nota 41) referindo inclusivamente que, por esta altura, deixou de aparecer
a confirmação do Trava nos documentos. A ausência desta assinatura bem como a fórmula
utilizada pela «rainha» são para este autor sinais do seu arrependimento. Não nos parece que
assim tenha sido, atendendo a vários motivos. Primeiro, porque Fernão Peres reaparece na
documentação anos mais tarde. (Terá Teresa entendido que a sua conduta não merecia censura e
terá reatado relações? Terá sido porque sabia que compromissos como o seu acabavam por ser
aceites, inclusivamente pelo papa? Terá a estreita amizade que o Trava detinha com Afonso
Raimundes, futuro rei de Leão e Castela, e a influência que daí poderia advir para Teresa sido
um motivo? Ou terá Teresa, como mulher, cedido mais à paixão do que à razão?) Depois,
porque estas fórmulas de invocação à salvação da alma e à remissão dos pecados são usuais em
muitos documentos de doação como veremos em outras biografias de rainhas castas. O medo da
morte era uma constante, a influência da Igreja muito grande (mesmo em mulheres que
desafiavam o «pecado») e o avançar da idade lembrava o fim dos dias, até porque, como dirá a
rainha Beatriz anos mais tarde, nom ha cousa tam certa como a morte embora a hora dela seja
nom certa. (Nota 41) Não podemos afirmar que Teresa tivesse muita idade mas a preocupação
com o perdão dos pecados começava bem cedo; atendendo ao desconhecimento da data do seu
nascimento, por altura destas fórmulas «expiatórias» tanto poderia rondar os 45 anos como os
32, idades em ambos os casos, mas particularmente no primeiro, já propícias para ir pensando
no passamento para o outro reino. Um último motivo tem a ver com o facto de este tipo de
documentos não ser o mais indicado para expor a sua vida e neles aparecer como penitente
arrependida; não nos parece, também, por aquilo que já «conhecemos» de Teresa, que fosse
mulher para o fazer.
50

O afastamento da aristocracia

A pouco e pouco, a mais respeitosa nobreza de Entre Douro e Minho e da região do Douro foi
deixando de figurar como confirmante dos diplomas emanados da chancelaria de D. Teresa. O
primeiro grupo destes ricos-homens da corte a afastar-se fê-lo a partir de 1122, cerca de dois
anos após a entrada de Fernão Peres de Trava na vida, na corte e no leito da «rainha». O
território em que esta nobreza exercia a sua autoridade, para além de cobrir grande parte do
Condado Portucalense, situava-se nas zonas mais densamente povoadas e com maiores recursos
naturais. Eram importantes personalidades pela vastidão e prosperidade dos seus domínios, pela
quantidade de homens de armas que podiam reunir, pela riqueza dos mosteiros que
patrocinavam, pelo número de servos e dependentes que possuíam. Esta nobreza constituía o
núcleo prestigiado da corte de D. Henrique que, depois da sua morte, manteve fidelidade a D.
Teresa. Cerca de três anos depois, nova vaga de deserções se verificou. Novos dignitários da
corte e governadores de terras deixaram de confirmar os documentos emitidos pela chancelaria
portucalense. Num pequeno espaço de tempo, D. Teresa e os Trava ficaram quase
completamente isolados.

Não existe documentação que justifique o descontentamento destes magnatas e o seu


afastamento, não se conhecendo, portanto, as divergências que opuseram a nobreza à «rainha».
Sabe-se, unicamente, que deixaram de confirmar os documentos condais, o que significa o seu
abandono da corte. E sabe-se também que entre as duas vagas de deserção, Fernão Peres não
esteve junto de Teresa ou, pelo menos, não se conhecem documentos com a sua assinatura. A
última confirmação conjunta data de 3 de Novembro de 1122, voltando a surgir a 4 de Março de
1125, aquando da elevação a vila de Ponte de Lima. Neste documento é mencionada, pela
primeira vez, a criação de uma feira em território português. (Nota 43) Três anos mediaram
entre a presença do galego Trava e as provas de descontentamento da nobreza portucalense.
Não será, talvez, de excluir o desagrado perante os poderes e a autoridade concedidos por D.
Teresa ao seu valido galego, até porque este afastamento, como referimos, se iniciou pouco
tempo após a sua chegada à corte.
51

José Mattoso coloca a hipótese de, uma vez adquirida a tenência de Coimbra, fronteira sul do
Condado Portucalense, Fernão Peres ter excluído estes senhores da chefia no combate ao Islão
retirando-lhes, assim, a glória da participação na guerra santa e as consequentes vantagens
materiais e simbólicas que daí advinham. (Nota 44) Não podemos esquecer que esta era uma
actividade inerente à posição social desta nobreza que acumulava episódios de guerra contra os
mouros. Estes senhores, e os seus antepassados, sempre haviam desempenhado importantes
funções nas actividades militares da conquista e na posterior defesa e governo dos territórios
conquistados.

Embora Fernão Peres seja descrito como o melhor homem d'Espanha que rei nom fosse, os
senhores portucalenses considerariam, igualmente, que esta união fazia «descer» a sua rainha ao
nível da nobreza galega, por mais importante e prestigiada que ela fosse, relegando para
segundo plano as principais famílias nobiliárquicas portucalenses. (Nota 45) Ao verem-se
afastados e excluídos destas nobres funções, subordinando Teresa os seus interesses aos dos
galegos e colocando um estranho à frente do condado, o desagrado tornou-se evidente e o
gérmen da revolta terá começado a levedar.

A ascensão do infante Afonso Henriques

Descontentes, os senhores portucalenses encontraram causa e unidade na defesa dos direitos à


chefia condal do único filho varão do conde D. Henrique, D. Afonso Henriques. Situação
idêntica acontecera na Galiza com o primo Afonso Raimundes.

Qual o papel do infante em todo este processo e qual a sua relação com o «padrasto»? Terá o
apoio dado pelo infante a esta causa sido motivado por condições naturais, sabendo que o
governo destas terras lhe pertenceria, ou por influências e pressões da nobreza portucalense?
Terá ele pactuado na perspectiva de mais rapidamente aceder ao poder e simultaneamente se
libertar da regência da mãe e do Trava? São questões que permanecem em aberto, até porque
todas as respostas são possíveis.
52

Sabe-se que o infante passou a viver na corte a partir de 1120. Surge, a partir de então, a sua
subscrição nos documentos da mãe, quer como outorgante juntamente com ela quer como
confirmante numa posição superior à do conde Fernão Peres, (Nota 46) o que coloca algumas
dúvidas. Teria o infante pactuado com esta ligação de sua mãe? Atendendo a que ele ainda não
teria os catorze anos exigíveis para a maioridade, tê-lo-á a mãe forçado, hipótese, no entanto,
pouco provável num período tão conturbado. O infante andaria pelos 11/12 anos. E, aquando da
primeira vaga de deserções, em 1122, era ainda muito jovem para ter comandado ou incitado a
estes acontecimentos. A sua investidura como cavaleiro, em 1125, terá, no entanto, tido
repercussões, constituindo esta cerimónia, na opinião de alguns autores, um acto de rebeldia e o
início do afastamento de sua mãe. (Nota 47)

O novo rei de Leão e Castela

Entretanto, em Castela, a morte da rainha D. Urraca, em 1126, levou à coroação de seu filho
como Afonso VII de Leão e Castela. O desaparecimento daquela que foi sempre a sua eterna
rival terá, por certo, deixado em D. Teresa um misto de perda e alívio. Afinal o que as separava
eram as suas semelhanças. Ambas eram orgulhosas, inteligentes, astutas, ambas estiveram por
trás de muitas das atitudes dos seus maridos, ambas foram, após a morte destes, capazes de
governar, actividade que, à época, só aos homens competia, ambas tiveram conflitos com os
seus filhos, ambas foram conotadas com amores ilícitos, ambas eram ambiciosas lutando até ao
fim por aquilo que desejavam - o poder, poder esse que as tornou rivais, comprazendo-se cada
uma com as perdas e humilhações da outra. Ambas, por fim, puseram em causa todos os
estereótipos comportamentais da mulher medieval - a fraqueza, a submissão, a permanente
necessidade da viril custódia e protecção e, por isso mesmo, ambas deixaram memórias
negativas no imaginário colectivo da historiografia coeva. (Nota 48) Por certo, com a morte da
afinal meia-irmã, Teresa terá perdido um pouco de si; mas terá também ganhado novo ânimo
para continuar a sua luta por aquilo que sempre se achou com direito - a Galiza.
53

Segundo a Historia Compostelana, logo após a morte de Urraca, as tropas de Teresa invadiram
os lugares limítrofes da Galiza submetendo-os violentamente ao seu poder. (Nota 49) Tentando
tirar partido da sua relação com o sobrinho, D. Teresa encontrou-se com ele, fazendo-se
acompanhar por Fernão Peres e pelo seu irmão Bermudo, companheiros de criação de Afonso
VII, como filhos do seu aio. Foi, então, assinado um «acordo de paz por tempo determinado»
no qual o sobrinho lhe concedeu o título de Regina Portugalinsium. Sobre este acordo e os seus
intervenientes, dividem-se as opiniões. Para uns, estas pazes constituíram uma vitória da
Regina, pois para além de conservar a independência de facto de Portugal, manteve o seu título
de rainha unicamente em troca do reconhecimento da coroação do sobrinho. O novo rei terá
percebido que era já demasiado tarde para travar um processo de independência que já vinha de
longa data. Para outros nada teve de importante, visto que, pouco tempo depois, Teresa teve de
acatar a supremacia leonesa. Também quanto ao papel dos Trava, se para uns foi determinante a
sua intervenção, para outros, como aliados do rei de Leão, nunca poderiam ter ido contra os
interesses da sua própria linhagem na Galiza nem favorecer uma política de alheamento do
trono leonês.

Quanto ao infante português e aos barões que o rodeavam, não devem ter visto com muito
agrado D. Teresa, com os seus fiéis galegos, a tomar decisões com o rei de Leão e Castela, sem
sequer os consultar. O destino de Portugal decidia-se, afinal, entre galegos e leoneses, sem a
intervenção dos mais directos interessados.

Embora admitindo a paz, Teresa fez presumir que não reconhecia a autoridade do novo rei na
Galiza. Aproveitando o conflito entre este monarca e Aragão, no qual ele procurava recuperar a
sua autoridade sobre as cidades castelhanas que ainda permaneciam em mãos aragonesas,
Teresa passou as suas tropas para norte do Minho para defender os seus domínios na Galiza.
Segundo a Historia Compostelana «a rainha de Portugal (...) envaidecida com a altivez da
soberba, ultrapassava os limites da justiça e não se dignava prestar nenhum serviço a quem de
direito, e antes, poderosa em homens, armas e riquezas, atacava com um exército armado as
fronteiras da Galiza e as cidades e fortalezas que estavam junto a Portugal, como Tui e outras,
as quais submetia violentamente ao seu poder e domínio.
54

Para além do mais, fazia edificar novas fortificações nessas terras para inquietar e devastar a
pátria e para se rebelar contra o rei».

Afonso VII, como novo monarca, exigiu vassalagem a sua tia Teresa, que recusou. Como
resposta a esta recusa, o rei invadiu o condado «e ali permaneceu durante seis semanas [...]
devastando vilas, sitiando e tomando castelos e cidades, com grandes esforços e perigos».
(Nota 50) Esta invasão terá ocorrido por volta de Setembro de 1127 e terá sido aqui o conhecido
cerco a Guimarães, onde se encontrava Afonso Henriques. Desta invasão restam os pormenores
da lenda de Egas Moniz, forjada um século mais tarde, ao que tudo indica, pelo trovador João
Soares Coelho que se apresentava como trineto do «Aio». Sabe-se que Afonso VII regressou a
Leão mas o estigma da revolta terá ficado a germinar no jovem Afonso Henriques.

Depressa, no entanto, D. Teresa fez as pazes com o sobrinho, tendo estado presente com o
conde na corte de Afonso VII para assistir ao seu casamento com Berengária, filha do conde de
Barcelona, em Novembro de 1127. (Nota 51) O mesmo não aconteceu com Afonso Henriques
que parece não ter comparecido, situação estranha dada a proximidade de parentesco e a
importância dos nubentes.

D. Teresa terá permanecido por estas terras algum tempo, pois no dia 26 de Março de 1128
confirmou, em Zamora, um documento do seu sobrinho. (Nota 52) Neste encontro talvez D.
Teresa tenha solicitado a Afonso VII ajuda para submeter o infante e os nobres revoltados
contra a sua autoridade, bem come tentado esclarecer, definitivamente, a questão dos seus
direitos como sucessora de Afonso VI. No entanto, o sobrinho que já havia recebido a
homenagem do infante após o cerco de Guimarães devia ter considerado preferível não
hostilizar o primo, de quem já tinha o juramento de fidelidade, do que ajudar a tia que
reclamava uma parte dos seus territórios. D. Teresa deixava, assim, de constituir uma ameaça ao
rei de Leão sobre a Galiza e Portugal dado que com o poder nas mãos de Afonso Henriques a
questão da Galiza era distinta da de Portugal.

No seu regresso às terras portuguesas fez a doação de uma propriedade perto de Vila Nova de
Paiva. O conde Fernão figurava no documento como lugar-tenente de Coimbra, o seu irmão
Bermudo como lugar-tenente de Viseu.
55

Também Afonso Henriques assinava sendo, no entanto, este o último diploma que Teresa e o
filho confirmaram conjuntamente. A partir daqui, começaram a surgir documentos simultâneos
de Afonso Henriques e de sua mãe, levando a crer que esta exerceria a sua autoridade a sul do
Douro e o filho a norte. E daqui, talvez, o surgimento de dois blocos de apoio - o do infante,
congregando fidalgos minhotos e beirões a norte do Douro, e o de D. Teresa, constituído,
principalmente, pelos fidalgos galegos a sul deste rio, criando uma divisão entre a nobreza
galega e a portucalense.

Logo no mês seguinte, o infante confirmou o foral da cidade de Guimarães, sendo o primeiro
pergaminho do registo oficial da sua chancelaria com data certa. Consistindo na reedição do
primeiro documento outorgado por seus pais em terras portuguesas havia cerca de trinta anos, o
facto de não conter a confirmação da mãe demonstrava claramente a autonomia do infante, até
porque deixava bem explícito que era ele quem, a partir de então, «autorizava»os vimaranenses
a usufruírem de direitos que no passado tinham sido concedidos por D. Teresa e por D.
Henrique. Além deste facto, os motivos invocados por Afonso Henriques no referido
documento são igualmente significativos - os serviços que lhe tinham prestado os «homens-
bons» no cerco de Guimarães, ou seja, quando o ajudaram a enfrentar os resultados da política
errada de sua mãe. (Nota 53)

Se, de início, as suas ambições terão sido encorajadas pela nobreza revoltada contra D. Teresa, a
pouco e pouco, o infante foi-se apropriando do governo do condado contra a vontade da mãe.

A batalha de São Mamede

A 24 de Junho de 1128, deu-se o desfecho de uma crise que já se começara a desenhar com o
afastamento da nobreza portucalense da corte de D. Teresa. Nobreza essa que se encontrava ao
lado de Afonso Henriques quando este que, de maneira nenhuma sofria esta afronta
demasiadamente vergonhosa, levou os seus exércitos ao campo de São Mamede (próximo de
Guimarães), pois sobremaneira preferiam o governo dele ao da mãe.
56

Aí defrontou e derrotou as hostes de sua mãe e de Fernão Peres de Trava. A nobreza


portucalense recuperava o prestígio e o protagonismo que tanto ambicionava, terminando,
assim, a influência de «indignos estrangeiros que usurpavam o governo de Portugal, com o
consentimento da rainha D. Teresa, querendo ela própria presunçosamente governar no lugar do
seu marido, afastando o filho dos negócios do reino». (Nota 54)

Esta batalha uniu a grande maioria da nobreza portuguesa num grupo bastante homogéneo,
independentemente das diferenças hierárquicas existentes entre ela. E esta união não teve como
objectivo substituir os detentores do poder, mas apropriar-se dele para o entregar ao chefe por
eles escolhido, rejeitar a política de vinculação com a Galiza, levada a cabo por Teresa e pelo
conde de Trava e expulsar este, considerado intruso. Por isso, como salienta— José Mattoso,
esta batalha teve um significado nacional, na medida em que se pode classificar como
«nacional» um movimento que está na própria origem da nação. Este confronto foi o primeiro
acto de um movimento irreversível que explica, mais do que qualquer outro acontecimento, as
razões imediatas da independência do Condado Portucalense, como entidade política que
precedeu o reino de Portugal. (Nota 55)

Voluntária ou involuntariamerte, Afonso Henriques assumiu-se como chefe dos descontentes e a


sua vitória marcou a sua chegada ao teatro político do nascente reino de Portugal.

O dia em que a batalha se desenrolou, dia de S. João Baptista, augurava e propiciava mudanças.
A mutação cósmica do solstício e a veneração, nesse dia, do santo que anunciara a vinda de
Cristo, proclamavam a mudança e a chegada de um novo rei que, pela sua intrépida acção,
afastava do poder os pecadores e incestuosos, dando lugar a um reino que teria na Cristandade e
no combate ao infiel um papel de relevo. Iriam, assim, cumprir-se as profecias da Virgem ao
famoso Egas Moniz, aquando da cura de Afonso Henriques, e que veremos mais em pormenor
na memória cronística de D. Teresa.
57

Fora, por certo, uma intervenção divina, tal como outras que iriam acompanhar os feitos
heróicos do rei que agora nascia.

Quando a batalha terminou, terminaram com ela os sonhos de D. Teresa de um reino unido que
englobasse a Galiza e «Portugal». Com ela terminaram, igualmente, as suas ambições políticas,
não chegando a conhecer o seu condado independente.

Ventos de mudança sopravam no futuro reino de Portugal que D. Teresa e Fernão Peres de
Trava abandonaram para se refugiarem na Galiza, acompanhados pelas duas ainda muito
pequenas filhas que entretanto tiveram, Sancha e Teresa Fernandes. (Nota 56)

Parece que depois da sua saída de Portugal Teresa se instalou na cidade de Limia, local onde a
situa um documento datado de 23 de Novembro de 1128. Nesse documento é também citado o
nome do conde Fernão que já não viveria maritalmente com Teresa dado que voltara para a sua
anterior esposa, Sancha Gonçalves, da qual teria uma nova descendente que viria a falecer em
1199, o que prova a sua concepção tardia. A presença do conde a seu lado seria mais como
manifestação de um profundo afecto ou como gratidão de um vassalo à mulher a quem, em
grande parte, devia a sua posição. (Nota 57)

A morte

Em 1130, dois anos passados sobre a sua derrota nos campos de S. Mamede, D. Teresa terá
falecido. Desconhece-se a data concreta da sua morte. Em 20 de Julho do mesmo ano, Fernão
Peres confirmou um documento de doação de Afonso Henriques à Sé de Braga, e em 18 de
Setembro do mesmo ano, voltou a confirmar outra doação do infante de bens situados na
província de Orense, prova de que os mesmos se haviam reconciliado, e no qual não se fazia
qualquer menção a Teresa. Teria já falecido? Segundo o livro de óbitos de Santa Cruz o seu
passamento teria ocorrido no primeiro dia do mês de Novembro. Em 23 de Julho de 1131,
Fernão Peres, novamente com Afonso Henriques presente, fez doação de algumas terras à Sé de
Coimbra «pela alma da rainha D. Teresa». (Nota 58) O diploma termina com um conjunto de
insólitas expressões que evidenciam o quanto lhe era cara a memória desta mulher. (Nota 59)
58

A reconciliação entre o filho e o marido de Teresa deu-se antes da sua morte, o que, de certa
forma, prova a não existência dos cronísticos ressentimentos entre eles.

Três anos antes da sua morte recebeu um pedido do arcebispo Gelmírez de Santiago de
Compostela que muito a terá honrado. Dizia a carta: «Venerável rainha, pela presente damos a
conhecer a V. Excelência que o nosso senhor o rei D. Afonso [VII de Leão e Castela], e a sua
irmã, a infanta [Sancha], velando pelas suas almas e seguindo o nosso conselho concederam os
seus corpos (...) para serem enterrados e prometeram parte dos seus senhorios à mesma igreja
pela salvação e remédio das suas almas. Por tal rogamos, exortando a tua prudência, que,
seguindo o seu exemplo, prometas o teu corpo à referida igreja para ser enterrado e cumpras o
prometido.» Este tipo de solicitações aos soberanos não era raro, tendo em conta que os restos
mortais das régias personagens prestigiavam a abadia ou a catedral onde estavam enterrados e
favoreciam as doações. Esta pretensão, vinda de um arcebispo com o qual teve vários conflitos
ao longo da sua vida e que a chamava rainha, terá agradado a D. Teresa que «com ânimo e rosto
alegre o concedeu na presença de um dos cardeais de Santiago e de outras muitas pessoas e
prometeu diante de todos que doaria grande parte do seu senhorio à mesma igreja na hora da
sua morte». (Nota 60)

D. Teresa encontra-se sepultada na Sé de Braga, ao lado do conde D. Henrique, desconhece-se


se por vontade própria. Atendendo a que repousa junto ao seu companheiro de muitos anos,
com o qual compartilhou ambições e desilusões, e numa igreja que ela sempre protegeu
defendendo a sua primazia sobre todas as outras igrejas do reino de Portugal, terá conseguido,
neste local, alcançar a paz que nunca em vida conseguiu.

Desconhece-se, igualmente, o seu testamento. As referências mais explícitas às suas últimas


vontades são, talvez, as que se incluem num documento da sua chancelaria, datado do ano de
1127, no qual se doava o Mosteiro do Vimeiro à Ordem de Cluny. Nesta doação, com fins
exclusivamente espirituais, Teresa deixava definido que, post obitum meum, no trigésimo dia
após o seu falecimento e em cada ano seguinte, se entregasse uma significativa quantidade de
moedas de prata aos monges para cantarem missas pela remissão dos seus pecados.
59

Este documento contava com as confirmações do infante Afonso, em primeiro lugar, seguido do
arcebispo de Braga e depois de Fernão. A rubrica de Teresa é, na opinião dos especialistas, a
mais elaborada de todas as que se conhecem - um cruz rodeada por um monograma em forma
de trevo de quatro folhas. (Nota 61)

A personalidade

Como é comum nesta época, nada se sabe dos seus atributos físicos ou psicológicos. A sua
beleza recebeu elogios de várias fontes pois, mesmo aquelas que lhe foram adversas,
descrevem-na como bela e maléfica. No entanto, nada de mais concreto é possível saber, já
sobre o seu temperamento a historiografia dá-nos várias pistas que têm de ser trabalhadas e
desmistificadas dado que, preocupada com a glória dos heróis portugueses, o que nos dá de
Teresa são, normalmente, acontecimentos e situações menos agradáveis.

Na memória colectiva, a vida e a história de D. Teresa, particularmente a sua relação com os


Trava e a batalha de S. Mamede, estão envoltas numa carga negativa que é preciso analisar com
serenidade e isento de preconceitos e simplificações. O lendário cenário desta batalha tem sido,
mais do que um campo de confronto, um campo de suposições e ilações sobre a ingratidão filial
ou a falta de amor de uma mãe que esquece o próprio filho em prol do amante. Mulher polé
mica e decidida, a sua personalidade, o seu governo e a sua actuação suscitaram (e continuam,
de certa forma, a suscitar) as mais diversas e contraditórias opiniões, sem que haja muitas
certezas acerca dos motivos que nortearam as suas decisões e intervenções políticas. Se alguns
a denigrem, considerando-a responsável pelos malefícios que ocorreram no reino, outras
exaltam-na, considerando-a a mãe da nação portuguesa. A explicação prende-se com a
proveniência dos textos e dos interesses particulares daqueles que os produziram. Entre os
primeiros, contam-se os clérigos, autores de grande quantidade dos textos aqui utilizados e que
são, à partida, pessimistas quanto às consequências de um governo em mãos femininas.
60

E, mesmo nestes, a importância conferida às rainhas, e a Teresa neste caso concreto, varia,
ainda, conforme os interesses em jogo, conforme sejam textos de origem episcopal ou
provenientes dos scriptoria monásticos. Talvez o exemplo máximo desta parcialidade seja a dos
autores da Historia Compostelana, contemporâneos de Teresa, cuja imagem negativa que
pretendem transmitir não está só relacionada com o facto de ser mulher, mas também com o
facto de se ter oposto ao arcebispo Gelmírez, clérigo que esta obra pretende enaltecer. A
situação de, depois de viúva, ter coabitado, sucessivamente, com dois irmãos sem Deus e sem
dereito62 não a fazia muito bem vista aos olhos moralistas e condenatórios dos clérigos.
Orgulho e paixão libertina, dois defeitos femininos de sempre!

Opinião diferente tinha, no século xix, Fonseca Benevides, ao referir D. Teresa como uma
mulher «de inteligência clara, ânimo corajoso e espírito robusto e cheio de ambição» que
«soube prosseguir na política de seu marido e conseguiu, arrostando com as maiores
dificuldades, firmar a independência do novo Estado, que seu filho deveria elevar à categoria de
reino». «Grande política (...) não só conservou como aumentou a extensão do território, e deu
mais unidade e força à administração do país.» (Nota 63)

Igualmente a moderna historiografia reconhece a importância desta mulher e da sua actuação


salientando, por exemplo, Oliveira Marques que o seu governo «merece ser olhado com mais
atenção do que aquela que normalmente suscita, de simples trânsito entre dois «grandes»
governantes», o marido e o filho. (Nota 64) Afinal, um dos problemas de Teresa no imaginário
colectivo é, precisamente, a sua vida entre «grandes» homens que alcançaram grande
protagonismo na História - o pai, prestigiado e consagrado «imperador» da Hispânia; o marido,
hábil guerreiro oriundo de uma das mais importantes linhagens medievais europeias; o filho, o
fundador de Portugal e seu primeiro monarca.

A imagem que dela nos fica é, sem dúvida, a de uma mulher ambiciosa, determinada e lutadora,
plenamente convencida do seu direito a herdar pelo menos uma parte do reino de Afonso VI, à
semelhança do que acontecera, em 1065, com a partilha dos reinos pelos filhos de Fernando, o
Magno.
61

Digna herdeira da antiga estirpe de mulheres rainhas de Leão, (Nota 65) considerando-se e
intitulando-se a si própria rainha, nunca se contentou com o facto de a irmã Urraca ter sido a
herdeira paterna. Não podendo continuar o trabalho guerreiro de seu marido, encontrou meios
alternativos para continuar a sua obra, tanto no plano estratégico como territorial. Sem pôr de
lado a ideia da autonomia, tentou fortalecer o condado e a sua administração não descurando
ainda a sua expansão e luta contra o perigo muçulmano. Continuou a política de povoamento da
zona beirã interior já iniciada no tempo de D. Henrique. Entregando uma parte dos assuntos
governativos a barões portucalenses reuniu, pelo menos por três vezes, uma Cúria alargada que
incluía um conjunto significativo de prelados. Paralelamente a uma eficaz atenção dada aos
assuntos internos do condado, soube seguir o princípio henriquino da procura de alianças com
as diversas facções que dominavam a complexa cena política leonesa de forma a obter
vantagens territoriais e materiais para a consolidação e aumento das terras que governava.
Soube não só conservar o condado como ainda lhe acrescentou pequenos feudos, em Leão,
Castela e Galiza, quer em terras quer em rendas. Num mundo masculino de guerreiros, nobres e
poderosos clérigos soube pactuar e manipular com astúcia e inteligência, exercer o poder com o
à-vontade de um homem e comandar um reino até então inexistente.

A memória cronística

A imagem cronística de Teresa foi talhada numa memória épica construída em tempos já
distantes dos verdadeiros inícios da realeza afonsina. Sacrificando o rigor histórico à
intensidade dramática, a mãe do rei perdeu serenidade e veracidade memorialística, começando
logo pouco tempo depois do nascimento do infante com a Lenda de Egas Moniz. Este texto,
elaborado no século XIII com o objectivo de melhor demonstrar a importância do contributo
fidalgo para a génese da realeza afonsina, abordando, nesse sentido, a acção e a protecção dada
pelos nobres portucalenses à infância e à adolescência do infante, teve grande acolhimento nas
crónicas. (Nota 66)
62

Como seria de esperar, a matéria presta-se a considerações sobre o fraco interesse demonstrado
pela mãe-madrasta e tirana no acompanhamento e assistência aos primeiros tempos de vida do
filho, opondo-o ao carinho e à protecção revelados por fidalgos gratos e fiéis ao conde. Assim,
Fernão Lopes e Duarte Galvão acolhem a narrativa que afirma que Teresa parira hum filho,
grande e fermoso, saluo que naçeo com as pernas tão emcolheytas, que ao parecer de mestres e
de todos, julgarom que numqua poderia ser sam delas, o que não impediu que a criança fosse
alegremente recolhida pelos fidalgos a quem o conde prometera entregar, para criar, qualquer
filho ou filha que a rainha parise. (Nota 67) Comfiando em Deos, o aio do infante, então
agraciado por uma celestial visão, colocou a criança sobre o altar da igreja do Mosteiro de
Cárquere, seguindo as indicações dadas pela Virgem Maria para o milagre da cura do protegido.

De uma forma geral, esta lenda não só posiciona o futuro rei na dependência do sam e
verdadeiro amor que lhe devotaram os nobres portucalenses, como lhe atribui uma superior e
sagrada protecção, dado que a Virgem anunciara, na visão atribuída ao aio, dever este bem criar
e guardar o infante, porque meu Filho quer por ele destruir muytos imigos da fee. (Nota 68)

De condessa corajosa que assumiu, à morte de Henrique de Borgonha, a difícil chefia do feudo
dado em dote pelo pai ao marido, transformou-se em lasciva madrasta que espoliou o filho da
herança paterna e, face à sua justa indignação, alentou o padrasto a prendê-lo e clamando numa
fúria, tanto maii odiosa quanto supostamente deturpadora, que Mynha he a terra, ca meu padre,
el rey dõ Affomso, ma leyxou, pouco importando Afonso Henriques a reivindicar como terra de
meu padre que elle ganhou aos mouros. (Nota 69) E, quando após a batalha de S. Mamede o
príncipe prendeo e meteo em ferros a mãe-madrasta logo ela lhe lançou uma maldição nos
seguintes termos:

«Afonso Anriques, meu filho, prendestes-me e metestes-me em ferros (...) e quitastes-me de o


marido; rogo a Deus que preso sejades, assi como eu sou, e porque me metestes nos meus pés
ferros, quebrantadas sejam as tas pernas com ferros. E mande Deus que se compra esto.» (Nota
70)
63

Nas crónicas, o cumprimento da praga terá ocorrido em Badajoz, em 1169, quando, ao tentar
fugir a um cerco, partiu as pernas no ferrolho da porta da cidade. A maldição materna foi
essencial para o desfecho da narrativa, justificando não só o desastre desta batalha mas também
o ferimento e a prisão de Afonso e a sua desresponsabilização da derrota sofrida. (Nota 71)
Mesmo que, após Badajoz, Afonso Henriques nunca mais tivesse podido montar a cavalo, a
maldição de Teresa acabara por ser ultrapassada uma vez que não provocara o total e imediato
fim político do filho. Para além do referido acidente, é pouco provável que tudo o resto tenha
acontecido, até porque este tipo de atitudes não se enquadrava no espírito da época
relativamente ao tratamento que era suposto dar às mulheres e, muito menos, às mães, tanto
mais que se tratava de um infante, à partida com uma educação cuidada e de acordo com os
valores morais da época.

Esse era um sinal de esperança, mostrando como o reino e a realeza acabariam por encontrar as
forças e os meios que permitiriam afastar as ameaças que pareciam contrariar a sua existência.
Nesta batalha era afastada a condessa do governo e o filho assumia o título condal que só mais
tarde transformaria em régio. Mas isso foi já nove anos após a morte de Teresa.

Desvalorizada na sua capacidade de condicionar o destino político do predestinado filho, Teresa


perde realidade histórica à medida que a realeza afonsina se considera cada vez mais
dependente do contributo paterno e fidalgo. A condessa passa a simbolizar um tempo caótico e
primordial, dominado pela desordem, pela traição e pelo pecado. De facto, ao noticiar como ela
desposou Bermudo Peres de Trava e, depois de dele se divorciar e o casar com a filha, se casou
com o irmão Fernão Peres de Trava, as crónicas atribuem-lhe não só uma traição aos objectivos
políticos henriquinos, como a infamante prática de actos incestuosos e tiranos, já que teria
proscrito o filho, o legítimo herdeiro. Ou seja, uma viuvez e uma maternidade que subvertiam
as sagradas obrigações familiares e corrompiam o exercício dos poderes por ela usurpados,
manchando-lhe legitimidade e aceitação social. Um mundo feminino e matricial que será
domesticado e afastado pela instauração da viril realeza afonsina.
<Página em branco>
2 - MAFALDA DE SABÓIA

(1125?- 1157/58)

A rainha que veio de longe


<Quadro genealógico de Mafalda de Sabóia: Omitido>
Senhora muito fermosa, de grande Linhagem, de muitas virtudes e bondades.

Chronica de El Rei D. Affonso Henriques (Nota 1)

Origens

Mafalda, filha de Amadeu III, conde de Sabóia, Piemonte e Maurienne, (Nota 2) e da condessa
Matilde (ou Mahaut) d'Albon, nascida por volta do ano de 1125 é considerada a primeira rainha
de Portugal. A escolha para mulher do primeiro rei de Portugal desta longínqua donzela,
oriunda de um condado não muito conhecido nas cortes peninsulares, tem dividido as opiniões
dos historiadores e dos vários autores que se têm debruçado sobre o assunto. Segundo
Alexandre Herculano, o facto de existirem quase permanentes laços familiares entre os
territórios vizinhos de Sabóia e Borgonha, consumados em sucessivas gerações de casamentos,
terá sido uma razão. (Nota 3) Na realidade, por parte de seu pai, Afonso Henriques pertencia à
Casa de Borgonha. Portugal seria, a partir de então, um novo aliado destas duas Casas. Para
Veríssimo Serrão, para além da aliança luso-saboiana poder contribuir para ajudar à expulsão
dos infiéis do território português, visto o conde de Sabóia ter já participado na II Cruzada do
Oriente, também a própria Santa Sé se poderia ter empenhado neste matrimónio. Na opinião
deste historiador, aquando do tratado de Zamora, em 1143, o cardeal Guido de Vico, legado
pontifício à Península Ibérica, poderá ter referido o nome da infanta, proveniente de uma
prestigiada e reconhecida família da Cristandade, ao novo rei português, (Nota 4) mais uma vez
numa perspectiva de conjugação de esforços contra os mouros.
68

De facto, o matrimónio da filha de um empenhado participante na expulsão dos infiéis da Terra


Santa com um rei que, noutras paragens, combatia vigorosamente os inimigos da fé cristã, só
podia ser bem aceite e apoiado pelo papa. Afonso Henriques, por seu lado, ao esperar o
reconhecimento de Roma para o seu reino, deveria obedecer para agradar. Segundo José
Mattoso, a decisão de procurar esposa fora da Península, mas no sul da Europa e numa
descendente de Borgonha, teria sido do próprio Afonso Henriques, coadjuvado pelos seus
conselheiros, em especial D. João Peculiar, arcebispo de Braga. Este, personalidade culta,
viajada e com contactos e conhecimentos nos centros europeus de poder, esteve fora do país
durante grande parte do ano de 1144. A sua demorada ausência pode significar que, aquando da
sua estadia em Roma para tratar da resposta do papa Lúcio II ao pedido de vassalagem de
Afonso Henriques, tenha proposto ao conde Amadeu III a união entre a filha deste e o rei
português. Esta decisão exprimia claramente o desejo de independência política e de
distanciamento em relação ao seu primo, o imperador Afonso VII, bem como o de reatar
relações com a região de proveniência de seu pai. Porque o conde de Sabóia, seu futuro sogro,
era, ainda, vassalo do imperador da Alemanha, estando, por isso, ligado à zona de influência
política da Santa Sé, o facto de o rei de Portugal se unir matrimonialmente com a filha de um
vassalo do imperador romano-germânico não só o distanciava do imperador hispânico, como o
prestigiava. (Nota 5) Outra hipótese referida pelo mesmo historiador terá sido a dificuldade em
encontrar uma Casa real da Península Ibérica interessada em casar uma sua princesa com
alguém que afinal se chamava rei mas que era apenas duque, conforme o papa Lúcio II o havia
recentemente considerado. (Nota 6)

Na opinião de Freitas do Amaral, autor de um estudo biográfico sobre Afonso Henriques, ao


escolher uma noiva fora do âmbito e influência da monarquia leonesa, «saltando-se», assim, por
cima do Império das Espanhas e procurando uma longínqua aliança além-Pirenéus, o rei Afonso
e os que o rodeavam demonstraram o verdadeiro sentido de Estado e de independência. (Nota
7)

Por imposição, sugestão ou mera decisão, a escolha recaiu na filha de uma Casa reinante de um
condado autónomo, mas nem por isso menos importante, como alguns cronistas da época
julgavam, por certo por desconhecimento.
69

Nos Anais de D. Afonso pode, por exemplo, ler-se a este respeito: «D. Afonso (...) escolheu
antes receber uma mulher de condição humilde (...) do que casar com uma mulher da sua
família e, assim, pecar (...) por isso recebeu-a, apesar de ser indigna [de condição inferior], para
não cair em pecado (...).» (Nota 8) Ora, para além de a Casa de Sabóia ser detentora de
importantes e independentes territórios, localizados entre a França e a Itália, uma tia de Mafalda
era rainha de França, por casamento com Luís VI, e mãe do novo rei Luís VII. Afonso
Henriques, iria, afinal, casar com a sobrinha de um dos reis mais poderosos da Cristandade.
Desconheciam ainda que, para além do conde Raimundo de Borgonha, outro tio-avô de
Mafalda, tinha sido papa entre 1119 e 1124, com o nome Calisto II.

Os amores régios

Por estes tempos, e enquanto corriam as escolhas e negociações, Afonso Henriques ter-se-á
perdido de amores por Châmoa (ou Flâmula) Gomes, uma jovem da melhor nobreza galega,
filha de Gomes Nunes e de Elvira Peres de Trava. Consideram alguns autores, embora sem
qualquer prova documental, que Afonso Henriques terá tentado casar com Châmoa, mas não o
terá conseguido, pois vários e importantes obstáculos se colocaram a esta pretensão. A jovem
Châmoa era, precisamente, a sobrinha dos galegos Bermudo e Fernão Peres de Trava e, como é
fácil compreender, a sua ascendência materna em nada agradava aos senhores portucalenses que
temiam a união do jovem Afonso com uma linhagem que já bastante influenciara a rainha sua
mãe. (Nota 9) Outro entrave a este casamento, tinha a ver com o facto de Châmoa Gomes,
depois de enviuvar do seu primeiro marido, Paio Soares, de quem teve três filhos, ter
professado no mosteiro beneditino de Vairão, sendo, por esse facto, Devota (Deo vota,
consagrada a Deus) e impedida de casar. Sabe-se que, entretanto, teve um outro filho de Mem
Rodrigues de Tougues e só depois terá conhecido Afonso Henriques. (Nota 10)

Fernando Afonso, o primeiro varão do futuro rei de Portugal e o primeiro filho desta ilegítima
paixão, terá nascido por volta de 1140, e foi educado na corte portuguesa onde veio a
desempenhar um importante papel político, tanto em vida de seu pai como após a sua morte.
(Nota 11)
70

Este ano, bem como o anterior, foram, sem dúvida, anos de consagração e felicidade para
Afonso Henriques quer a nível pessoal, com o nascimento do primeiro filho, quer a nível
político com a vitória na batalha de Ourique e a assunção do título de rei. (Nota 12) Pouco mais
de um ano depois, nasceu um segundo filho, de nome Afonso.

O casamento

Talvez por culpa destes amores, o primeiro rei de Portugal continuava celibatário à tardia idade
de 30 anos, acontecimento invulgar no contexto dos costumes régios da época. De facto, o
contrato de casamento entre Mafalda e o candidato a rei de um lugar onde grassava a guerra
terá sido firmado por volta dos seus 12 anos, mas só 9 anos mais tarde, em 1145, esta futura
rainha partiu de Piemonte para estabelecer a l.a aliança entre Sabóia e esse longínquo e recém-
formado reino de Portugal. (Nota 13) A mudança de reino trouxe-lhe, também, a mudança de
nome - de Mahau: ou Matilde passou a Mafalda. Ela tinha cerca de vinte e um anos e veio
encontrar-se e casar com um homem com cerca de 36, já com dois filhos, que havia partilhado a
sua vida com outra mulher durante quase dez anos e que, pelos rumores da corte, continuava a
amar. A política e os seus interesses não se compadecem com o amor e o rei Afonso desposou
Mafalda, tentando, talvez, esquecer a mulher amada que se recolhera ao Convento de Grijó. A
época não era propícia a ligações ilegítimas. D. Afonso continuava a aguardar do papa Lúcio II
o reconhecimento e a protecção do jovem reino de Portugal, pelo que lhe prometera vassalagem
e o pagamento anual de quatro onças de ouro. Era, pois, imperativo que Afonso Henriques se
assumisse como um monarca católico e bem comportado aos olhos da Santa Sé. O papa, em
1144, aceitara o tributo; mas porque não estava na sua política em relação a Espanha apoiar
tentativas de separação e sim de união para conjugar esforços contra o Islão, louvou o seu acto
mas chamou-lhe apenas dux portugalensis e, a Portugal, terra.
71

Afonso Henriques tinha, por isso, que tudo fazer para agradar à Santa Sé. Para além de uma
maior oferta económica, o casamento com Mafalda, jovem sensata e bem firmada na fé, (Nota
14) seria outra forma de o agraciar.

Este casamento ocorreu, presumivelmente, em 1146, três anos depois do acordo entre Afonso
Henriques e o primo Afonso VII, rei de Leão e Castela, pois no relatório da tomada de
Santarém aos mouros, em 15/3/1147, o rei acrescentou não haver ainda um ano que era casado
com a rainha Mafalda. O certo é que só em Julho de 1146 figura nos diplomas públicos o nome
da soberana, (Nota 15) com a forma de Mahada, tradução de Mahaut, o seu nome de
nascimento.

A descendência

Durante os doze anos de casamento, Mafalda deu à luz, pelo menos, sete filhos e criou, junto
com os seus, os filhos de seu marido e de Châmoa, nomeadamente o seu primeiro filho
Fernando Afonso. O primogénito herdeiro, a quem foi dado o nome de Henrique, em
homenagem ao avô, nasceu a 5 de Março de 1147, fruto de um parto difícil e complicado, como
foram todos os seis seguintes. Sucederam-se Urraca (1148), Teresa (1151) e Mafalda (1153),
cujos nomes invocavam, respectivamente, a tia leonesa, a avó paterna e a mãe.

Em 1154, veio ao mundo Martinho, por ter nascido a 11 de Novembro, dia do santo do mesmo
nome - S. Martinho de Tours, santo muito venerado não só em França, mas também na
Península Ibérica. Martinho nasceu, assim, num dia auspicioso, marcado por uma personalidade
que, ao longo da sua vida, tanto soube lutar pela expansão da fé cristã, como soube ser generoso
e caritativo com os necessitados. Também a vida do pequeno Martinho, 2.° filho varão do rei de
Portugal, se deveria pautar pela luta contra os infiéis e pela virtude. Quis o destino que deste
Martinho nunca mais se ouvisse falar. Pouco depois do seu nascimento, morreu Henrique, o
irmão mais velho e futuro herdeiro, com a idade de 8 anos, deixando um vazio na primogenitura
masculina da sucessão régia. Martinho tornou-se, então, Sancho, nome considerado mais
apropriado para rei e continuador da linhagem.
72

Na realidade, à época, o nome do herdeiro real tinha uma importância significativa, colocando-
se especial cuidado na sua escolha, (Nota 16) não sendo mesmo raras as mudanças de nome.
Porquê Sancho ao ex-Martinho? Para além do registo do scriptorium de Santa Cruz de Coimbra
que refere «Sancho I nasceu na noite da festa de São Martinho, foi baptizado como Martinho,
mas depois foi chamado Sancho [cognomento Sanctius] (Nota 17)» nada mais consta na
cronística posterior ou na documentação régia. O que é facto é que nos reinos peninsulares da
época abundavam os reis «Sanchos» conotados com a valentia e a actividade guerreira. (Nota
18) Tal como Martinho o fora, Sancho seria, também, um nome auspicioso para um futuro rei.

Depois de Martinho/Sancho, a rainha ainda foi mãe por mais duas vezes - João, nascido em
1156, (Nota 19) e Sancha, nascida em 1157, a qual quase não chegou a ver, pois morreu dez
dias após o seu nascimento, sem ter conseguido recuperar do parto,!,) Além de Henrique,
também não chegaram a adultos Mafalda, João que morreu com 7 anos e Sancha antes de
completar os 10. À idade adulta chegaram apenas Sancho, o futuro rei, que só conviveu com a
mãe cerca de três anos, Urraca e Teresa.

A personalidade

As deficientes condições em que, à época, se dava à luz, bem como as dificuldades em minorar
o sofrimento de muitas mulheres cujos partos se prolongavam por vários dias terminando, não
raras vezes, na sua morte ou na das crianças que estavam para nascer, faziam com que todo este
processo fosse encarado com medo e insegurança. A fé e a invocação aos santos protectores da
ajuda celestial para as dificuldades terrenas, eram situações comuns às parturientes. (Nota 21)
Conta-se, então, a propósito de um dos muitos e complicados partos desta rainha, uma situação
envolvendo um clérigo do Mosteiro de Santa Cruz. Estando a rainha entre a vida e a morte, em
grande dor e aflição, pediu para chamarem o padre Teotónio, primeiro prior deste mosteiro,
acreditando que, com a sua bênção, tudo se resolveria em bem.
73

De facto, assim aconteceu e, mal o padre lhe fez o sinal da cruz e a benzeu (...), deu à luz um
filho (...) e, logo depois, cheia de alegria pelo êxito do nascimento (...) se restabeleceu
admiravelmente. (Nota 11) Tempos depois, estando a rainha já recomposta, resolveu ir
directamente a Santa Cruz agradecer a intervenção divina feita em seu favor; viu, então, serem-
lhe vedadas as portas do mosteiro por S. Teotónio. Este, que se guardava das mulheres como se
fossem inimigas, considerando-as mesmo um instrumentum diaboli causador e provocador dos
males e tentações dos homens, nunca falando com elas sem ser na presença de outras pessoas,
não lhe permitiu a entrada, argumentando que o mosteiro era um local de reclusão de homens e
que, por isso, era louuauel costume molher algua entrar na morada dos que fogiaõ ao mundo
senaõ se por ventura fosse morta. Evocando o seu estatuto de rainha, Mafalda tentou impor-se,
mas o prior foi firme, preferindo sucumbir ao ódio da fúria dela do que infringir a regra do
mosteiro deixando-a entrar. (Nota 23)

Este incidente com o prior de Santa Cruz, S. Teotónio, deixou, para alguns autores, a ideia de
que esta rainha não teria muito bom feitio, teria até mesmo mau génio, justificando-o, de certa
forma, pelo estigma de infelicidade que pairou sobre o seu casamento, pela vivência que o
marido lhe proporcionou, amando outra mulher de quem já havia dois filhos, bem como pela
morte de Henrique, o seu filho primogénito, que educara para ser rei. (Nota 24)

Na nossa opinião, estas afirmações não fazem muito sentido se atendermos aos valores da
época. É verdade que Mafalda não deixou em Santa Cruz uma memória muito edificante. Há,
no entanto, que ter em conta a mentalidade dos autores das fontes coevas, sendo frequente, na
literatura religiosa da época, referências pouco lisonjeiras a mulheres que ousavam destacar-se
enfrentado o poder, fosse civil ou religioso. Durante toda a Idade Média as vidas dos santos
insistiram na ideia de que a mulher constituía um perigo para o homem religioso, pois que lhe
proporcionava a oportunidade de nele desencadear instintos, que, a não serem reprimidos, o
fariam cair no pecado carnal; consideravam-na, mesmo, um dos seus principais inimigos,
porque o podia conduzir à luxúria e à consequente perdição.
74

Neste sentido, a mulher, como mediadora da tentação e da luxúria, era a pior inimiga do homem
espiritual, passando a salvação deste pela renúncia a tal «objecto», antes que o pecado e a morte
o viessem buscar. Ora até que ponto a memória negativa desta rainha neste cenóbio não estará
relacionada com o medo da tentação, em presença de uma senhora muito fermosa?

Também, e de um modo geral, em toda a cronística medieval, tanto clerical como leiga, a
mulher é remetida para uma esfera privada e doméstica, na qual se deve manter. Quando isso
não acontece, a narrativa do passado torna-se bem atenta às perturbações causadas, reflectindo
o repúdio pelo abandono da suposta natural e ordeira matriz masculina. O facto de uma mulher,
mesmo de estirpe régia, tentar infringir uma regra feita pelos homens e penetrar num meio
masculino e eclesiástico, sendo um desvio à norma estabelecida, nunca poderia ser nem bem
visto, nem sequer tolerado.

Quanto às justificações do mau feitio que lhe é apontado, parecem--nos algo desajustadas à
mentalidade e ao conceito do relacionamento entre casais no século XII. Reflectindo à luz da
época, no âmbito das relações matrimoniais linhagísticas, os casamentos eram uniões decididas
entre as Casas reinantes com o objectivo de reforçar ou criar alianças político-militares entre os
respectivos países; o amor ocupava um lugar marginal e, não sendo uma impossibilidade, tendia
a existir e a expressar-se como fruto da convivência entre duas pessoas obrigadas a levar uma
vida em comum, teoricamente para toda a existência. Com efeito, na sociedade feudal e
cavaleiresca, «au lieu de se marier parce qu'on s'aime, on s'aime parce qu'on est marié», (Nota
25) ou «El amor no es causa, sino consequência del matrimónio». (Nota 26) Talvez por este
motivo a maioria das esposas desta época, principalmente as da estirpe régia, sabiam da
existência das mancebas dos seus maridos, tal como já tinham ouvido falar das mancebas dos
seus pais, e criavam os bastardos reais tal como já, anteriormente, tinham convivido com os
seus irmãos bastardos. A vulgarização do hábito da mancebia não significaria, contudo, a sua
aceitação por vontade própria mas, por certo, suavizaria a situação.
75

Também a elevada mortalidade infantil era vulgar à época, mesmo entre os grupos
privilegiados, pelo que, independentemente do enorme desgosto que, sem dúvida, o falecimento
de um filho causava, (Nota 27) o tempo e a necessidade de acarinhar e confortar os outros filhos
encarregavam-se de, a pouco e pouco, suavizar a perda e a dor.

Talvez a causa principal do referido mau feitio de D. Mafalda, ou da sua provável infelicidade
como sustentam alguns autores, estivesse relacionada com o génio belicoso (Nota 28) ou com o
temperamento colérico de Afonso Henriques, sujeito a excessos, violências e brutalidade, bastas
vezes repetido por vários cronistas. (Nota 29) Também Oliveira Martins considerava este rei
como «frio e seco», o que não abona muito em prol de uma boa convivência conjugal.

A acção assistencial

Embora na documentação régia se encontrem poucas referências ao papel de Mafalda como


rainha, o seu nome surge junto ao do rei na maioria dos diplomas passados pela chancelaria
através de fórmulas que evidenciam a sua régia categoria. Em dois documentos de toda a
chancelaria de Afonso Henriques, a rainha aparece expressamente como outorgante. Ambos se
relacionam com a Ordem de Cluny, evidenciando uma especial devoção aos cluniacenses. O
primeiro, datado de 23/5/1146, confirma a doação, anteriormente feita por D. Teresa, do
Mosteiro do Vimieiro à referida Ordem. O outro, em data incerta, confirma a doação, por D.
Henrique e D. Teresa, dos bens e dízimos do Mosteiro de S. Pedro de Rates à mesma Ordem

Educada num meio cristão influenciado pela Ordem de Cister (Nota 30) são-lhe atribuídas
muitas fundações de piedade e penitência, como o Mosteiro da Costa, em Guimarães e o
hospital/albergaria de Marco de Canaveses. Este, referido no seu testamento, era destinado ao
acolhimento de peregrinos, pobres e doentes, devendo estar

«sempre limpo e bem reparado de telha e madeira. E com boas portas fechadas (...) e ter camas
boas e limpas em que se possam bem albergar nove peregrinos, aos quais serão dadas rações de
entrada ou de saída e lume e água e sal quanto lhe fizer mester. E finando se algum desses
peregrinos seja enterrado com três missas. E com pano e cera».
76

A rainha deixou mesmo definido no seu testamento o valor da portagem a pagar pela entrada de
mercadorias numa povoação que cedia à dita albergaria para fazer face às respectivas despesas
e da qual ninguém estava isento, visto a obra seer pêra bem dos mingados [necessitados]:

«(...) Pagarão de besta maior que passar com carga XIIII dinheiros e de besta pequena que seja
asno VII dinheiros boi ou vaca que vem de feira ou de mercado XVI dinheiros e de porco XI
dinheiros e de carneiro ou cabra III dinheiros, coelho ou púcara de manteiga I dinheiro (...) e de
casa movida VII soldos e II dinheiros (,..).» (Nota 31)

Para além destas instituições, Mafalda teve também outras preocupações em prol da
comunidade, assegurando a comunicação entre diversos povoados. É-lhe atribuída a iniciativa
da construção de uma ponte sobre o rio Tâmega e outra sobre o rio Douro, em Mesão Frio.
Terá, ainda, proporcionado a travessia deste rio através de dois barcos que mandou para Moledo
e Porto de Rei. Este serviço seria gratuito para os seus passageiros, recebendo os barqueiros,
pelo seu serviço, as rendas de algumas propriedades locais pertencentes à rainha. (Nota 32)

O medo do Juízo Final e da morte em pecado fazia com que as doações ou fundações deixadas
em testamento constituíssem uma forma de expiação e remissão dos males feitos em vida.
Exemplos desses actos de natureza expiatória eram a fundação ou protecção de albergarias e
hospitais, bem como a contribuição para a construção de pontes, feitas pro anima, ou seja, pela
salvação da alma do doador/ /fundador e, por vezes, também da sua família. É o caso da rainha
Mafalda que, no seu testamento, refere serem as suas obras em prol das almas do rei, da sua e
dos reis e rainhas que se lhes seguissem.

A morte

D. Mafalda terá falecido a 3 de Dezembro de 1157 ou de 1158, (Nota 33) em Coimbra, com
cerca de 32 anos, sendo sepultada na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz desta cidade junto do
marido, que lhe sobreviveu mais vinte e sete anos.
77

Deixou órfãos seis filhos com idades compreendidas entre os nove anos da filha Urraca e os
poucos dias da recém-nascida Sancha. Porque os cronistas e biógrafos medievais nunca
compreenderam a importância dos primeiros anos como tempos de formação e educação pouco
se sabe da vida destas crianças. Como terá sido a sua infância, os brinquedos e brincadeiras que
tiveram, a relação entre os irmãos, o que lhes ensinaram ou o que aprenderam. Sabe-se que,
como era costume na época, os infantes, eram entregues a alguém da nobreza que se
encarregava da respectiva educação. (Nota 34) Para quem os recebia, era uma honra, acabando
este tipo de parentesco artificial por gerar e desenvolver situações de vassalagem e fidelidade
muito fortes. À semelhança do que acontecera com Afonso Henriques, segundo a tradição
criado por Egas Moniz de Riba Douro foi de novo na casa deste, apesar de já falecido, que
foram criados e educados alguns dos filhos da rainha Mafalda. Teresa Afonso, a viúva de Egas
Moniz, senhora da alta nobreza tradicional, criou, não só o herdeiro régio Sancho, mas também
as irmãs Urraca e Teresa, (Nota 35) os únicos filhos que chegaram à idade adulta.

A descendência que lhe sobreviveu - a infanta Urraca

Falecida a primeira rainha de Portugal, debrucemo-nos, um pouco, sobre Urraca, a infanta mais
velha. Em 1157, no mesmo ano do falecimento de sua mãe, morria, em Castela, o imperador
Afonso VII. Este dividira o reino entre o filho mais velho, Sancho III, que passou a governar
Castela e o mais novo, Fernando II, a quem coube o reino de Leão, que incluía a Galiza, as
Astúrias e as cidades de Astorga, Leão, Toro, Salamanca e Zamora, alguns deles territórios
limítrofes com o novo reino de Portugal. A separação destes dois reinos deu início ao período
vulgarmente conhecido como dos «cinco reinos» - Portugal, Leão, Castela, Navarra e Aragão
-período de um certo equilíbrio de forças entre as cinco entidades políticas cristãs hispânicas
assegurado por confrontos, rivalidades e alianças entre elas evitando que algum destes reinos
atingisse uma posição de supremacia.
78

De acordo com esta política de equilíbrio de forças, foram precisamente confrontos entre o rei
de Leão e o de Portugal que determinaram a união deste com o rei de Aragão. (Nota 36) Assim,
na cidade leonesa de Tui, conquistada por Afonso Henriques, este recebeu, em 30 de Janeiro de
1160, Raimundo Berenguer IV, conde de Barcelona, para com ele negociar o casamento da
infanta Mafalda, com cerca de sete anos, com o filho do conde, também ele de nome Raimundo.
Dava-se então início a uma política de aproximação entre os dois reinos dos extremos oriental e
ocidental da Península (Catalunha ou Aragão e Portugal), várias vezes repetida quando surgia a
necessidade de repelir e resistir às tentativas expansionistas de Leão e Castela. (Nota 37)

Após novos conflitos entre Afonso Henriques e Fernando II, um tratado de paz entre os dois
reinos foi assinado em Pontevedra, em 1165, e selado com a promessa de casamento do rei de
Leão com Urraca Afonso, a primeira filha da rainha Mafalda. A infanta rondava os 17 anos e
Fernando os 28.

Se, como referia o redactor dos Anais de D. Afonso, o rei tinha casado com uma mulher de
condição humilde para não cair no pecado de se unir a alguma sua consanguínea, essa
preocupação deixou de existir em relação a sua filha, quando não hesitou em casá-la com um
primo em 2.° grau (as respectivas avós, Urraca e Teresa, eram irmãs). Servindo os interesses de
seu pai e de seu primo e futuro marido, Urraca casou com o rei Fernando II sem a necessária
dispensa papal que tornaria válida esta união. De facto, nesta época, a Igreja católica proibia os
casamentos entre parentes até ao 7.° grau de consanguinidade, proibição que podia ser anulada
pela solicitação de uma dispensa emanada da Santa Sé, pagando por ela uma determinada
importância que variava, normalmente, em função do grau de parentesco e do estatuto social
dos contraentes. Conseguir a paz entre os dois reinos desavindos era, por certo, mais urgente do
que solicitar um documento que, à partida, não apresentava grandes dificuldades de obtenção.

Em 1171, Urraca deu à luz um filho, cujo nome, Afonso, unia as famílias dos dois cônjuges - o
avô paterno, o falecido Afonso VII de Castela e Leão, e o materno, Afonso Henriques, rei de
Portugal.
79

Em 1175, e após dez anos de casamento, Urraca viu a sua união ser anulada pelo papa
Alexandre III, dado o próximo parentesco existente entre os dois cônjuges. Urraca Afonso foi,
assim, a primeira infanta portuguesa a ser rainha de outro reino, mas foi também a primeira a
quem o papa dissolveu o casamento.

Após a separação, e mesmo após o seu ex-marido ter, entretanto, voltado a casar, (Nota 38)
Urraca permaneceu em Leão, talvez para não se afastar do seu único filho então com quatro
anos. Professou numa Casa da Ordem de S. João, em Zamora, uma das vilas que tinha recebido
por arras. Aqui manteve dignidade de antiga rainha, mesmo após a morte do rei Fernando, em
1188, e a subida ao trono do comum filho que, apesar de ter sido gerado por um casal que vivia
«em concubinato», manteve os seus direitos à sucessão ao trono.

O último documento que se conhece assinado por esta infanta-rainha data de 1211 e confirma a
doação da vila de Castro Torafe (Zamora) à respectiva catedral. Tinha então 63 anos. (Nota 39)

Teresa, a terceira dos 7 filhos havidos por Mafalda recebeu o nome da sua avó paterna, a
condessa-rainha Teresa de Leão. Tal como esta, a infanta Teresa foi filha de rei e mulher de
conde.

Em 1184, já com 33 anos, foi pedida em casamento pelo conde Filipe de Alsácia e Flandres, o
mais importante nobre da França ao tempo do rei Filipe Augusto. O conde, com 45 anos, viúvo
e sem descendência, procurava novo matrimónio de forma a conseguir um herdeiro legítimo.

A portuguesa Teresa tornou-se, então, a condessa Matilde para os flamengos e Mahaut para os
franceses. Este casamento com uma importante personalidade do palco político europeu do
século XII abriu significativas oportunidades de relacionamento entre Portugal e a Flandres, de
colaboração militar e comercial. Não foi, no entanto, um enlace fecundo. Em 1190, Filipe
participou na III Cruzada, tendo morrido de peste um ano depois. Sem filhos, não foi fácil à
infanta portuguesa manter o domínio do condado.

Matilde voltou a casar, em 1194, com seu primo Eudo III, duque de Borgonha, união anulada
pelo papa logo no ano seguinte, dada a proximidade de parentesco, pois ambos descendiam dos
duques de Borgonha. (Nota 40)
80

Regressada à Flandres, governou como rainha-viúva durante cerca de 20 anos.

Em 1218, com 67 anos, faleceu a formosa e intelligente Senhora que foi uma das mais notáveis
mulheres do seu tempo. (Nota 41)

A memória cronística

Manifestamente, os cronistas foram perturbados pelas origens de D. Mafalda, considerando-as


pouco apropriadas a um marido recordado como monarca superior e predestinado. Nas crónicas
analisadas, todas elas justificam esta escolha pelo facto de não haver na península molher que
da linhajem dos Reis viese, que a ele nom fose muy chegada em paremtesquo, tendo, por isso,
que aceitar noiva condal. (Nota 42)

Para além da sua condição de eficaz reprodutora da régia prole, Mafalda permanece
cronisticamente ausente. O cronista, sentindo esse vazio textual, já expresso quando lamenta
não poder informar as cousas do matrimónio de Mafalda por não as achar como forrom, (Nota
43) encontrou, no entanto, um pretexto para associar a rainha à recordação dos feitos do esposo.
Trata se de mencionar Mafalda como privilegiada ouvinte de um relato ;m que o marido,
regressado ao Paço de Coimbra, após a conquista de Santarém, lhe anuncia o feito praticado,
associando-a a preces congratulatórias pelo muy grande prazer (Nota 44) dado ao reino e aos
seus senhores. Sabendo que a rainha tinha dado à luz o infante primogénito há poucos dias, a
cena desenvolvida no paço visa mais que valorizar o espaço doméstico e familiar como lugar de
partilha e exaltação dos êxitos masculinos alcançados na guerra da fronteira; era também uma
forma de mostrar como o rei associava a fertilidade e fecundidade da rainha à obtenção dos
bens e riquezas alcançados em Santarém, a ponto de a tornar a primeira e feliz ouvinte das boas
notícias que soubera propiciar.
DULCE DE ARAGÃO

(1160-1198)

A rainha doce e fecunda


<Quadro genealógico de Dulce de Aragão: omitido>
Formosa e excellente denhora, tranquilla e modesta, condizente no carácter com o nome.

Luciano Cordeiro (Nota 1)

Origens e casamento

Dulce, Doce ou Aldonça, nascida por volta de 1160, (Nota 2) foi mais uma das muitas jovens
nobres que cumpriu o seu destino de moeda de troca numa Idade Média em que a forma mais
comum de selar tratados, pazes, acordos ou pactos entre famílias, era casar os respectivos
filhos. Dulce, filha de Petronilha, rainha de Aragão e do conde de Barcelona, Raimundo de
Berenguer IV, seguiu as pisadas de sua mãe, prometida aos dois anos a um homem cerca de
vinte anos mais velho. (Nota 3) Casada por palavras de futuro aos 11 anos, Dulce foi entregue
ao marido, o ainda infante Sancho, com cerca de catorze anos, constituindo um novo elo da
hábil política de relações internacionais iniciada com o casamento não concretizado de
Mafalda, filha de Afonso Henriques com o infante Raimundo de Aragão. Chegava, agora, a vez
de Dulce, irmã do então já rei Afonso II de Aragão, (Nota 4) servir a conjugação de interesses
que visava fortalecer Portugal e conter o expansionismo castelhano-leonês.

De facto, e como já vimos para o primeiro rei de Portugal, a escolha de uma esposa e futura
rainha não era nunca feita de uma forma inocente. Em 1173, Afonso II de Aragão atingira a
maioridade e afirmava-se não só como rei, mas também como conde de Barcelona e marquês de
Provença, território acrescentado, por seu pai, ao reino de Aragão e Catalunha.
84

Tanto para Portugal como para Aragão esta aliança interessava; tinham em comum o facto de
serem dois pequenos reinos, situados nos extremos opostos da Península Ibérica, que
enfrentavam dificuldades com vizinhos maiores, mais agressivos e com tentações hegemónicas.
Estarem geograficamente longe um do outro favorecia a paz e a união entre eles visto não haver
fronteiras ou territórios passíveis de passar e/ou conquistar. Para Portugal acrescia, ainda, a
situação de esta aliança ser feita com um reino censitário da Santa Sé, pois Aragão vira o seu
estatuto de reino independente reconhecido desde 1095. Ter como esposa uma filha de rainha e
irmã de um rei que beneficiara do privilégio de ter sido ungido pelo papa aquando da sua
emancipação, só podia trazer uma boa ajuda à causa do rei português, cujo reconhecimento
pontifício tardava em chegar. Unindo-se a uma princesa da linhagem real de Aragão, Sancho I
prestigiava a sua própria linhagem que urgia fazer reconhecer como régia.

Pouco se sabe da jovem Dulce até à sua chegada a Portugal, bem como do dote que trouxe ou
das arras que lhe foram concedidas. (Nota 5) Tal como as mulheres nobres da sua época, nada
pôde dizer contra o noivo que a mãe e o irmão escolheram, o homem de meã estatura, mui
dobrado de membros, rosto grande, boca grossa e grande, olhos pretos e grandes, cabello
castanho mui tirante a preto. (Nota 6)

A descendência

O casamento celebrou-se no ano de 1174, com a idade de catorze anos e, nos vinte e quatro
anos que esteve casada, Dulce cumpriu o seu papel de esposa, enchendo a corte de uma vasta
prole. Logo em 1176 nasceu a primeira filha, Teresa, cujo nome evocava a bisavó e a tia que se
tornou condessa de Flandres, dois paradigmas da mulier fortis do seu tempo. Foi a primeira
filha do casal e a primeira neta de Afonso Henriques que, anos antes, houvera um neto-filho de
Urraca Afonso e Fernando II de Leão. Embora primos direitos, Teresa e o futuro Afonso IX não
se deveriam conhecer e, muito menos, conviver. Em 1180, nasceu Sancha e, em 1182,
Constança que deverá ter falecido antes de 1186, visto nunca aparecer mencionada nos
documentos da chancelaria de Sancho I que começa nessa data. (Nota 7)
85

Porque o herdeiro varão tardava em aparecer, e talvez receando que não aparecesse mesmo, em
1183, o avô Afonso Henriques levou Teresa, a neta mais velha, com sete anos de idade, para a
sua corte com o propósito de se ocupar da sua educação «sem permitir que os pais interferissem
fosse no que fosse».8 Desde pequena, esta infanta começou a revelar não só um «juízo e uma
discrição superior à sua idade», como também um forte espírito caritativo e religioso,
praticando, com alguma frequência, «jejuns e devoções». (Nota 9) Quando, após onze anos de
casamento, Sancho I já ansiava pelo nascimento de um herdeiro masculino que assegurasse a
sucessão, nasceu, em 1186, o infante Afonso. O ansiado varão chegou ao mundo no dia 23 de
Abril, dia de S. Jorge, santo que a iconografia cristã tinha consagrado como vencedor de um
perigoso dragão e a Igreja como padroeiro dos cavaleiros cristãos. Conforme salientou José
Mattoso, o aparente bom augúrio do nascimento nesse dia parecia vaticinar-lhe um feliz destino
militar. Talvez relacionado com esse provável destino, Dulce e Sancho I puseram-lhe o nome de
Afonso, como o avô Afonso Henriques, induzindo-o a imitar os feitos gloriosos do avô que não
chegou a assistir ao tão desejado nascimento deste neto varão. (Nota 10) Afonso Henriques
tinha já partido para a sua viagem eterna, em Dezembro do ano anterior, deixando para trás um
longo e marcante reinado. Ironia do destino, este duplo augúrio e protecção que conjugava o
nascimento do santo padroeiro dos cavaleiros cristãos com o nome do avô, guerreiro vitorioso,
irá produzir um fraco guerreiro, incapaz de seguir as pisadas militares dos seus antecessores que
tanto brilho deram à realeza e à guerra como elemento de legitimação.

Dulce vira, então, o marido ser aclamado rei, embora desde 1169 governasse em nome do pai.
Em 1187, terá nascido o infante Pedro, futuro rei de Maiorca e, logo no ano seguinte, o infante
Fernando. Sucederam-se os infantes Henrique e Raimundo que faleceram em criança. Entre
1195 e 1196, será a vez da infanta Mafalda vir ao mundo, cujo nome honraria a sua avó paterna,
Mafalda de Sabóia. Por último terão nascido as provavelmente gémeas (Nota 11) Branca e
Berengária, não tendo D. Dulce sobrevivido muito tempo às complicações do parto.
86

Por estes tempos já Sancho I havia feito o seu primeiro testamento (1188/89), no qual doou os
rendimentos de Alenquer, terras do Vouga, de Santa Maria da Feira e do Porto, à sua mulher, D.
Dulce de Aragão. A rainha ainda adquiriu outras propriedades na Beira, adquiriu Ervedel, que
doou à albergaria de Poiares, perto de Coimbra, comprou dezanove casais em Travanca (de
Lagos) e as herdades de Sameice e de Seia. (Nota 12)

Dos quinze filhos que os historiadores referem apenas são conhecidos estes onze. Esta extensa
prole permitiu implementar uma boa rede de pactos e alianças matrimoniais de grande alcance,
quer intra-hispânicos quer além-Pirenéus com diferentes cortes europeias.

A descendência que lhe sobreviveu

Teresa, a filha mais velha, foi o primeiro trunfo jogado por Sancho I no hábil jogo da
diplomacia matrimonial de finais do século XII. No referido testamento, Sancho I doara-lhe as
vilas de Montemor-o-Velho e Esgueira iure hereditario perpetue, ou seja, com todos os seus
direitos para sempre, bem como a quantia de dez mil maravedis de ouro e cento e cinquenta
marcos de prata, (Nota 13) o que correspondia, respectivamente, a cerca de quarenta quilos de
ouro e vinte de prata, doações que a privilegiavam em relação aos seus irmãos, à excepção do
herdeiro Afonso que ficaria com o governo do reino. Neste testamento era, ainda, referido ser
esta filha a herdar a Coroa se, por morte dos herdeiros varões, não existisse descendência.
Mantinha-se, assim, a tradicional sucessão varonil e agnática em que a mulher só herdaria o
governo do reino depois de esgotadas todas as hipóteses varonis. De facto, não obstante a
tendência para a subalternização do ramo feminino na hierarquia da sucessão ao trono, a
hipótese não se encontrava afastada. Bem perto no tempo havia a memória da rainha Urraca,
tia-avó de Sancho I, herdeira do reino de Leão à morte do pai Afonso VI. Teresa rondava os
doze anos, idade em que as meninas alcançavam a maioridade e, pela lei canónica, se podiam
consumar os matrimónios. Este testamento tão avultado poderia, eventualmente, ter funcionado
como uma espécie de dote.
87

Foi, no entanto, necessário esperar mais três anos para que o futuro cônjuge surgisse.

Porque a guerra, a paz e o casamento andavam interligados (e por muito tempo, ainda,
continuaram a andar), constituindo uma forma de os reis huns com hos outros se liar, e
confederar por pazes (Nota 14) mais duradouras, Teresa foi, aos quinze anos, casada com o
jovem «alto, forte, ruivo, com muita força e de aspecto imponente» (Nota 15) Afonso IX de
Leão, seu primo direito. Corria o ano de 1191. Anos antes, a tia, e agora sogra, Urraca Afonso
havia sido separada de seu marido por imposição papal, devido a proximidade de parentesco.
Agora, para este casamento, cuja consanguinidade era bem mais próxima, não houve qualquer
preocupação com os interditos eclesiásticos. Depois da aliança com Aragão, a nova aliança com
o reino de Leão fortalecia Portugal contra o temido inimigo castelhano. O facto de Portugal,
pela mão de Teresa, receber de Afonso IX importantes castelos em território leonês era outro
atractivo.

Este foi o único casamento em que Dulce participou, pois todos os outros ocorreram já após a
sua morte. Todos estavam cientes da ilegitimidade desta união. Existiam, no entanto, razões
importantes para que Roma legitimasse o matrimónio dando a necessária dispensa papal: ela era
por uma boa causa visto ser geradora de paz e do reforço da Reconquista cristã. Assim, criar
laços entre dois reinos fronteiriços seria um bom meo de paz serrarem guerras, e diferenças, que
antre elles Reys de Portugual, e de Liam entam se aparelhavam, (Nota 16) e também de os
unirem contra o inimigo almóada.

Foi, no entanto, um casamento de curta duração. Como seria de esperar, a queixa à Santa Sé
sobre a ilegalidade desta união tão próxima não tardou. Afonso VIII, rei de Castela, conhecia
bem a importância e a perigosidade deste casamento e o consequente fortalecimento destas
alianças políticas. Logo em 1192, no Concílio de Salamanca, foi determinada a sua dissolução e
a separação dos dois cônjuges.

Teresa, após ter permanecido na corte de seu pai durante algum tempo, terá, talvez, sentido
necessidade de algum recolhimento relacionado não só com a sua condição de ex-rainha de
Leão como também com a sua vocação religiosa e as doações que o pai lhe havia feito.
Pretendeu, então, fundar o primeiro convento cisterciense feminino da Península Ibérica onde,
mais tarde, se haveria de recolher.
88

Cister era, à época, a Ordem das famílias régias e da grande nobreza peninsular, principalmente
feminina. Não pretenderia a infanta, viver em clausura, mas fundar uma instituição religiosa
que acolhesse as mulheres da realeza e da alta nobreza, a exemplo do que existia em Leão, no
Mosteiro de Santa Maria de Gradefes ou em Castela, onde Afonso VIII e sua esposa Leonor
haviam fundado o Mosteiro das Huelgas de Burgos. Nessas abadias, ricamente dotadas e
possuidoras de grande influência laica e eclesiástica, podiam acolher-se, ou mesmo professar, as
mulheres da família real e da mais alta nobreza castelhana da época. Aí detinham um poder
quase ilimitado, devido ao seu papel de patronas, levando, por vezes, consigo membros das
mais importantes famílias do reino. (Nota 17) Em Portugal, as donas da recente monarquia não
tinham ainda sentido esse apelo pela vida religiosa, faltando, por isso, uma instituição
semelhante.

O local escolhido foi o antigo Mosteiro do Lorvão, um dos mais imponentes edifícios das
cercanias de Coimbra, habitado pelos monges beneditinos, que se recusaram a sair. (Nota 18)

No entanto, passada uma década sobre o seu regresso a Portugal, a ex-rainha de Leão já se
encontrava instalada no convento. Com ela, foram as irmãs Mafalda, Sancha, Branca e
Berengária e a pequena Dulce, sua filha. Foram, também, religiosas estrangeiras que vieram
instruir as mulheres portuguesas nesta nova observância religiosa. As monjas de branco da
Ordem de Cister substituíram, assim, os frades negros da Ordem de S. Bento no Mosteiro do
Lorvão, assinalando a entrada deste movimento espiritual nas instituições monásticas
portuguesas femininas.

Grande parte da vida de Teresa ficou muito ligada a este mosteiro, não tendo, no entanto, sido
nem freira nem abadessa. Embora assumindo o controlo do mosteiro e aí permanecendo longas
temporadas, manteve uma vida à parte, revelando os seus documentos pessoais a existência de
vassalos, procurador, clérigos e, ainda, selo próprio, símbolo da sua autoridade. (Nota 19)

O protagonismo que alcançou nos reinos a que pertenceu por nascimento e por casamento
tornou-a, na opinião de alguns autores, na maior das figuras femininas do século em que viveu.
(Nota 20)
89

No Lorvão, onde sempre regressou na procura de um local calmo e recatado para a sua
turbulenta e complicada vida, plena de realizações mas também de desgostos e perdas acabou
os seus dias. A pouco e pouco, foi vendo partir, uns após outros, aqueles que amava - a mãe
Dulce, o pai Sancho, o filho Fernando, herdeiro da Coroa de Leão, uma das irmãs mais novas,
Berengária, na distante Dinamarca, o rei-irmão Afonso, com quem muitos problemas teve mas
que, por certo na hora da partida, deixou mágoa, o outro irmão Fernando, conde da Flandres, o
ex-marido, com quem sempre teve uma relação não muito vulgar entre cônjuges apartados, as
irmãs Sancha, a mais próxima e querida, e Branca, a sua pupila e, por último, as próprias filhas.
Dedicou-se até à morte, em 1250, à sua vocação religiosa. Foi sepultada no Mosteiro do
Lorvão, junto da irmã Sancha, continuando na morte a solidariedade e a amizade que as uniu
em vida. Foi beatificada em 1705. (Nota 21)

Sancha a segunda filha de D. Dulce, muito devota e tocada pelas novas correntes de
espiritualidade, defensora da austeridade e do despojamento dos bens mundanos e materiais,
fundou o Mosteiro de Celas, perto de Coimbra, para onde chamou religiosas do Lorvão a fim de
transmitirem a sua experiência de vida como monjas. Chamou, também, outras mulheres
devotas de Alenquer que, porque faziam «vida áspera» vivendo encerradas e em clausura nas
suas celas, eram conhecidas por «Emparedadas» ou «Enceladas». (Nota 22)

Dedicada à oração, às vigílias, ao trabalho, exacerbando nos castigos, jejuns e mortificações,


esta infanta viveu no Mosteiro de Celas até à morte. Faleceu no ano de 1229, com cerca de
quarenta e nove anos. O seu corpo voltou ao Mosteiro do Lorvão levado por sua irmã Teresa.
Sancha foi, à semelhança de sua irmã Teresa, beatificada em 1705 pelo papa Clemente XI.

Afonso, o primeiro filho varão de Dulce, e o sucessor, será referido na biografia seguinte.

Pedro, o segundo filho varão de Dulce e Sancho, acolheu-se à protecção da irmã Teresa, então
rainha de Leão, aí tendo exercido os ofícios de mordomo-mor e de alferes. À morte do cunhado,
Afonso IX, partiu para Marrocos, onde prestou serviços militares ao emir, em cuja corte viveu e
recebeu honras, ocasião em que fez trazer a Portugal os restos mortais dos cinco Mártires de
Marrocos.
90

Daí passou a Aragão onde, em 1229, dando sequência à tradição familiar de procurar casamento
na Catalunha, contraiu matrimónio com Aurembiax, condessa de Urgel, divorciada de Álvaro
Peres de Castro.

Fernando, o filho que se lhe seguiu, buscou em França, junto de sua tia Teresa, casada primeiro
com Filipe da Alsácia, conde da Flandres, e, depois, com Eude III, duque de Borgonha, o
sucesso num reino onde outros seus familiares tinham já percursos bem sucedidos. Elevado a
conde da Flandres através de um casamento habilmente tecido por sua tia com a condessa
Joana, herdeira deste condado, a sua união aos revoltados contra o rei francês, Filipe Augusto,
levou-o a longos anos de prisão.

A antepenúltima filha de Dulce, a infanta Mafalda, nasceu numa fase complicada da vida
familiar e num ambiente pouco propício a festas. O reino encontrava-se excomungado pelo
papa devido ao casamento pecaminoso de sua irmã Teresa com seu primo Afonso IX de Leão e
à sua insistência em não obedecer às ordens da Santa Sé.

Porque a ideia de seguir a vida religiosa não lhe desagradaria, ter-se-á juntado às quatro irmãs
que viviam no Mosteiro do Lorvão. Senhora de grande fortuna, (Nota 23) esta infanta muy
acabada em perfeyções, e bondades do corpo, e dalma (Nota 24) empregou grande parte dos
seus bens ao serviço dos necessitados e de várias comunidades religiosas das quais foi
protectora.

Afonso, o irmão-rei, fez-lhe, entretanto, uma proposta que não seria do seu inteiro agrado.
Tratou-se do casamento com o ainda criança Henrique I de Castela. As relações do rei
português com o rei de Leão andavam tensas num momento em que os exércitos leoneses de
Afonso IX atacavam Portugal para a defesa dos interesses da sua ex-mulher, a infanta-rainha
Teresa, e era bom ter em Castela um aliado. A subida ao trono do rei-menino provocava o
confronto entre os seus tutores, Berengária, irmã mais velha do rei, e a poderosa família dos
Lara que temia não só a crescente influência da régia irmã como também que a mesma
aproveitasse a menoridade de Henrique para favorecer a união com o reino de Leão, de cujo
soberano, Afonso IX, tivera um filho. Este receio teria estado na base da proposta de casamento
do pequeno Henrique com Mafalda, a irmã do rei de Portugal.
91

Embora não fosse essa a vontade de Mafalda, e possivelmente consciente da união


«pecaminosa» que iria fazer, perante as garantias de negociação que seu irmão lhe dava, como
filha e irmã de reis, entendeu que não poderia subtrair-se à sua obrigação. Servindo a estratégia
político-militar do irmão, anuiu a este casamento. Decorriam as negociações com a Santa Sé (os
nubentes eram primos em 5.° grau) por parte de Afonso II tentando a necessária dispensa, (Nota
25) quando Mafalda desposou, em 1214, na cidade de Medina dei Campo com festas pubriquas,
e honradas (Nota 16) Henrique I de Castela. Ela tinha cerca de dezanove anos e ele doze, uma
situação não muito vulgar à época, pois o marido era, normalmente, bem mais velho do que a
jovem esposa.

Em 1217, o casamento acabou dissolvido, sem chegar a ser consumado. Berengária, a


duplamente cunhada de Mafalda (irmã do jovem Henrique e, simultaneamente, irmã de Urraca
Afonso, casada com Afonso II, irmão de Mafalda) não aceitou bem esta aliança e conseguiu a
anulação do casamento junto da Santa Sé. No mesmo ano, Henrique, o rei-menino, andaua
fugando a pella como minino com seus criados quando uma telha lhe caiu em cima e causou a
morte. (Nota 27)

A jovem viúva Mafalda, por estas épocas com 22 ou 23 anos, tal como a irmã Teresa, regressou
a Portugal, continuando a adoptar o título de rainha. Dedicou-se, então, àquilo que mais gostava
- os seus mosteiros. No de Arouca, habitado só por mulheres e regido desde o século XII pela
regra beneditina, após a sua reestruturação conseguiu instalar a Ordem de Cister onde, mais
uma vez à semelhança do que fizera a irmã Teresa no Mosteiro do Lorvão, pudessem ser
acolhidas mulheres da alta nobreza que se quisessem afastar do mundo. Também o de Bouças
foi transformado numa comunidade cisterciense. Em Arouca acabou onesta, e santamente sua
vida. (Nota 28) Como o Lorvão, em relação à irmã Teresa, o mosteiro acabou por sinalizar a
segunda vida das duas irmãs a quem foi retirado o direito à realeza, nele expiando os pecados
dos seus régios passados.

Até à sua morte, em 1256, com cerca de sessenta anos, dedicou a sua vida à religião. Faleceu no
Mosteiro de Rio Tinto, perto de Gondomar, quando ia em peregrinação a Nossa Senhora da
Silva.
92

O seu corpo foi levado ao «seu» mosteiro onde foi vestido com o hábito da Ordem de Cister.

A semelhança das suas irmãs, foi beatificada em 1792 pelo papa Pio VI.

Os três mosteiros fundados por estas três irmãs - Lorvão, Arouca e Celas - tomaram idêntica
feição. Neles professaram mulheres oriundas das mais poderosas famílias do reino,
possivelmente atraídas pela presença das infantas. Cister desenvolveu-se, assim, na linha de
uma religiosidade de prestígio e poder feminino, própria das grandes senhoras que, nos seus
mosteiros, continuavam a desempenhar activos papéis tanto políticos como de gestão. Gerindo
activamente «mosteiros de luxo», as três irmãs, sem terem chegado a professar, uniram
elementos de difícil harmonização como a religião, o poder, o prestígio político e a gestão dos
seus vastos patrimónios.

Em comum, estas três filhas da rainha Dulce, Teresa, Sancha e Mafalda, tiveram ainda a
protecção aos franciscanos e dominicanos. O apoio dado a estas Ordens mendicantes não
significou, no entanto, no Cister feminino português do século XIII, nem um ideal de renúncia,
nem uma vertente caritativa e de solidariedade social para com os mais desfavorecidos. Grande
parte das protecções concedidas aos religiosos era feita num espírito «senhorial», pouco se
baseando na doutrina religiosa das referidas Ordens. (Nota 29)

Das presumivelmente gémeas Branca e Berengária, cujo nascimento poderá ter originado a
morte de Dulce, sabe-se que passaram os primeiros anos da sua vida em Coimbra, na corte do
pai que vivia com Maria Pais Ribeira, a bela Ribeirinha. Entre os oito e os dez anos foram, por
ordem do papa, enviadas para o Mosteiro do Lorvão, onde já se encontravam as restantes irmãs
tuteladas por Teresa, a mais velha.

Branca professou no Convento de Guadalajara. Sensibilizada, também, pelas novas correntes


espirituais que floresciam na Europa do século XIII, favoreceu os dominicanos, especialmente
os de Coimbra, fundando, juntamente com a irmã Teresa, o Mosteiro de S. Domingos. Faleceu
por volta de 1240 e está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra.
93

De Berengária sabe-se que, após a morte do pai, viajou até à Flandres, condado onde vivia a sua
poderosa tia Teresa, Mahaut para os flamengos. Talvez com a ajuda desta tia, Berengária casou
com o rei Valdemar da Dinamarca, viúvo e com um único herdeiro. Filha de reis, sobrinha e
irmã de condes, e, segundo as crónicas dinamarquesas, «extraordinariamente formosa» (Nota
30) constituiria uma boa aliança, tanto mais que, se fosse tão fértil como a mãe o havia sido, iria
colorir a corte do rei com os necessários frutos dessa união.

O casamento realizou-se em 1214, na cidade de Ripen, à época uma das mais desenvolvidas da
Dinamarca. O marido andava pelos 44 anos e a futura rainha pelos 18.

A capacidade de procriação desta infanta-rainha foi significativa, por certo uma herança da mãe
Dulce. Nos cerca de sete anos que esteve casada, deu à luz quatro crianças, uma menina, Sofia,
e três rapazes, Eric, Abel e Cristóvão, que viriam todos a ser reis da Dinamarca, mas cujo
crescimento não acompanhou pois faleceu em 1221, com pouco mais de vinte anos.

Terminemos a história da infeliz luso-dinamarquesa Berengária com as belas palavras que sobre
ela José Mattoso escreveu:

«É, afinal, como um símbolo feminino por excelência: uma beleza que o seu cadáver revela e
oculta ao mesmo tempo, portadora da fecundidade e da morte, mensageira da ligação entre duas
nações tão longínquas, tão exóticas uma para a outra. Símbolo, na verdade, da diferença, ao
mesmo tempo sedutora e perturbante de tudo o que separa o homem e a mulher, o Norte e o Sul,
o frio e o calor. Símbolo da fronteira, da distância que Valdemar II ousou transpor, abrindo o
caminho à desordem que os partidários da semelhança, da ordem e da uniformidade, os
subjugados pelo medo, a maioria dos homens, atribuíram à mulher portadora da morte.» (Nota
31)

As mancebas de D. Sancho I

De D. Sancho são conhecidas várias mancebas sendo hoje difícil saber se as ilegítimas paixões
do rei coincidiram com a vida de D. Dulce. Os livros de linhagens elucidam que Sancho I só
tomou amigas depois do falecimento da legítima esposa e que primeiro teve uma manceba e
depois outra.
94

Também Rui de Pina refere que as mancebas dElRey foram tomadas por Sancho I após a morte
da rainha. (Nota 32) Autores contemporâneos afirmam, no entanto, o contrário, identificando
mesmo algumas das gravidezes da esposa como momentos propícios ao aparecimento de outros
amores, ou que os mesmos teriam surgido nos últimos anos de vida da rainha. (Nota 33) Nada
disto é de estranhar, tendo em conta os parâmetros da época.

A jovem Maria Aires de Fornelos, oriunda de uma família da nobreza média, terá sido a
primeira manceba. Dela teve dois bastardos - Martim e Urraca. Mais tarde, uma outra jovem
apareceu na vida de Sancho que tratou, então, de arranjar marido para Maria Aires; casou-a com
Gil Vasques de Soverosa, nobre de uma importante família peninsular, que desempenhou um
importante cargo nas cortes de Afonso II e Sancho II. A nova paixão régia, de nome Maria Pais
Ribeira, a Ribeirinha, era descendente de duas das famílias mais antigas e influentes da área de
Entre-Douro e Minho - os Bragança e os Ribeira e Cabreira. Muito mais jovem que o monarca
e, ao que parece, dotada de grande beleza, desempenhou um influente papel cortesão na Cúria
dos últimos anos do reinado do soberano. Em sua honra, é atribuída a Sancho I a composição,
em 1199, da famosa cantiga de amigo A Ribeirinha, (Nota 34) considerado o mais antigo texto
conhecido de poesia portuguesa. (Nota 35) Estes versos seriam destinados a ser cantados por
Maria Pais numa tentativa de minorar as ausências de Sancho quando se deslocava pelo reino,
nesse ano, em especial, pela cidade da Guarda à qual concedera foral. Maria acompanhou o rei
até à sua morte e dele houve seis filhos. A Ribeirinha voltou a casar, depois de ter sido
simuladamente raptada e de continuar a «enfeitiçar» muitos homens do seu tempo. Mas essa é
já uma outra história! (Nota 36)

A morte

D. Dulce passou a maior parte da sua vida envolta em constantes gravidezes e em complicados
e perigosos partos. Suportou, ainda, as ausências do marido, ocupado em novas guerras e
conquistas e as suas infidelidades; sofreu os surtos de fome e as epidemias que afligiram o reino
nesta altura e que terão prejudicado a saúde do primogénito Afonso, o futuro rei leproso.
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Com efeito, é assinalado no Livro dos Milagres de Santa Senhorinha de Basto um voto feito a
esta santa pelas melhoras do seu filho Afonso que se encontrava muito doente, temendo-se
mesmo a sua morte. O rei, peregrino e suplicante, ter-se-á deslocado ao local onde repousava o
corpo da santa e invocado o milagre da cura. (Nota 37) Data de 29 de Maio de 1200 uma carta
de doação à Igreja de Santa Senhorinha. Sancho e, mais tarde, o próprio Afonso II, assumir-se-
ão como protectores deste culto e desta instituição. (Nota 38) Por esta altura já Dulce não
existia. A peste, num corpo enfraquecido e debilitado por sucessivos partos, terá sido a causa
provável da sua morte. Faleceu em 1198, com cerca de 38 anos de idade. Está sepultada no
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

A memória cronística

Tendo vivido em Portugal vinte e quatro anos, Dulce, a infanta aragonesa, só mereceu aos
cronistas a constatação de bem ter cumprido as suas funções de régia reprodutora, listando-se os
nove filhos e filhas legítimos que saudavelmente procriou, e que, à ora da sua morte eram todos
vivos. (Nota 39) Depois, enquanto a IVª Crónica Breve de Santa Cruz menciona a interessada
notícia que Dulce se mandou sepultar no Mosteiro de Santa Cruz, na capeela dos Reis, (Nota
40) Fernão Lopes e Rui de Pina apenas a lembram na narrativa do mais celebrado dos feitos
militares do reinado de Sancho I, a conquista de Silves, informando que a catedral da cidade
fora mandada erigir pelo soberano um anno despois que a Rainha D. Doce faleceo. (Nota 41)

Como referiu Luciano Cordeiro, gostando de acrescentar e administrar a sua Casa, a rainha
parece ter-se conservado indiferente à política.42 As memórias de Dulce enquadram-se
perfeitamente na teoria proposta pelo rei castelhano Afonso X no Especulo, de que la rreyna es
tenuda para criar e casar, pois de facto, as principais referências historiográficas a esta rainha
são o casamento, a procriação e a morte. Numa época que se identifica com uma sociedade
guerreira onde o homem detém o principal papel e em que a mulher só é visível no quadro
familiar, mais não seria de esperar.
96

Nesta perspectiva, Dulce configura a esposa que cumpre pacata e internamente o ciclo de vida
típico da mulher medieval: casa, tem filhos e morre. Mais que qualquer outra mulher, a rainha
tem de estar ao serviço da geração e zelar pela manutenção da linhagem. Dulce foi disto um
bom exemplo, pois que a maternidade definiu a sua vida e foi a tarefa central da maior parte dos
seus anos portugueses. Se dar à luz era, simultaneamente, um fardo e um privilégio, a
capacidade de procriação desta rainha foi considerado o seu indispensável contributo para a
preservação da família e da dinastia dos reis de Portugal.
4

URRACA AFONSO DE CASTELA

(1187-1220)

A rainha cheia de virtudes


<Quadro genealógico de Urraca Afonso de Castela: omitido>
Tem esta rainha cara que mostra ser em seu tempo mui formosa; seus cabelos enastrados,
compridos, ainda agora parecem um fio de ouro.

Frei António Brandão (Nota 1)

Origens

Urraca Afonso era bisneta, neta e filha de reis. Nascida em 1187, era filha do rei Afonso VIII de
Castela e da sua esposa Leonor Plantageneta, filha do rei Henrique II de Inglaterra. Esteve para
ser rainha de França mas, ou porque os emissários franceses tivessem considerado o nome feo e
preferido o nome de Branca, a sua irmã, ou porque esta era um ano mais nova do que o futuro
marido, o futuro Luís VIII, ao contrário de Urraca, que era mais velha, (Nota 2) ou porque não
teria «passado» no teste às capacidades de procriação que as damas da corte francesa faziam às
pretendentes reais, desnudando-as, (Nota 3) ou ainda porque a escolha da avó Leonor de
Aquitânia terá recaído sobre Branca para consorte do rei francês, (Nota 4) acabou por vir a ser a
terceira rainha de Portugal, um país com o qual o destino de sua irmã mais velha, Berengária, já
se cruzara. Fora esta infanta castelhana que, já viúva aos dezasseis anos, ocupara, em 1197, o
lugar de Teresa, irmã de Afonso II, no trono de Afonso IX de Leão, quando estes cônjuges, dois
anos antes, foram separados por imposição papal.

À semelhança de Sancho I, também o casamento de Afonso VIII de Castela foi profícuo, não só
no número de filhos como nos casamentos habilmente tecidos da sua vasta prole com os
herdeiros das principais Casas peninsulares e europeias.
100

Para além de Berengária que manteve até à sua morte, em 1246, um papel decisivo na política
peninsular, da filha Leonor, futura mulher de Jaime I de Aragão, e de Urraca que casou com
Afonso II de Portugal, a teia de alianças estendeu-se também à França por intermédio de
Branca, esposa do rei Luís, evidenciando a importância de Castela no contexto político
internacional da época. Branca, filha, sobrinha, esposa, irmã, tia e mãe de reis, (Nota 5)
desempenhou um papel não menos importante que Berengária na política do seu tempo. (Nota
6) A política matrimonial de Afonso VIII e Leonor Plantageneta pintou, assim, com cores
castelhanas algumas das principais cortes do Ocidente - Sancho II e Afonso III em Portugal,
Fernando III em Castela e Leão, Luís IX em França, todos eles seus netos, filhos das suas filhas
Urraca, Berengária e Branca.

Também para Sancho I o casamento do seu herdeiro foi cuidadosamente planeado. Fracassadas
que foram as alianças com Leão (desde a irmã Urraca casada com Fernando II à filha Teresa,
casada com Afonso IX) procurava, agora, casar o seu primogénito com uma das filhas de
Afonso VIII, unindo-se, assim, a uma Casa reinante que não só excedia em importância e poder
todas as da Península Ibérica como estava ligada, por parentesco próximo, à nata política e
cultural da Cristandade latina. (Nota 7) Esta viragem em direcção a Castela foi, mais uma vez, o
sinal das conveniências e interesses políticos da época. A união não estava, porém, isenta de
obstáculos. A proximidade de parentesco entre os noivos, a significativa oposição de muitos dos
seus nobres, tradicionalmente mais ligados a Leão por laços familiares e de dependência, e
ainda a conhecida tendência expansionista do rei castelhano, são alguns exemplos. Não havia,
no entanto, dúvidas de que esta aliança com o rei mais poderoso de toda a Hispânia constituía
um seguro de vida para um reino tão jovem, tão pouco consolidado e com fronteiras tão pouco
estáveis como era o português, à mercê tanto dos vizinhos cristãos como das incursões
muçulmanas. Com este casamento Portugal entrou na órbita da hegemonia matrimonial
castelhana, na qual se manteve até aos finais do século XIV, com a única excepção da rainha
Isabel de Aragão, esposa do rei Dinis.
101

O casamento

O casamento de Urraca Afonso com o herdeiro do trono português, o gordo infante Afonso que
em 1211 subiu ao trono sob o nome de Afonso II, deverá ter sido realizado em 1208. Em
Outubro de 1207 ainda se encontrava em Castela, testemunhando um acto relacionado com a
abadia das Huelgas de Burgos onde sua irmã Constança professou. Em Fevereiro de 1209
surge, pela primeira vez, referida na documentação portuguesa, fazendo, com o marido e o
sogro, doação da villa de Cervela ao filho do chanceler Julião Pais, personalidade importante na
corte portuguesa já desde os tempos de Afonso Henriques. A partir daqui são nítidos os
vestígios da sua presença, aparecendo, quase sempre, nas subscrições ao lado do marido,
mesmo ainda em vida do sogro. Sancho I deveria considerar importante e prestigiante o
aparecimento da nora na documentação régia, tanto mais que a inserção dos nomes do jovem
casal excluía, frequentemente, os nomes dos outros filhos do monarca, tanto femininos como
masculinos, reduzidos, unicamente, à fórmula «os outros meus filhos». (Nota 8)

Este casamento foi motivo de fortes discórdias em Portugal, primeiro elo da cadeia de lutas
entre a autoridade real e o clero, designadamente o bispo do Porto, Martinho Rodrigues, que se
opôs ao enlace, alegando o parentesco entre os noivos. (Nota 9) Eram, de facto, primos em 4.°
grau mas esta situação, para além de não ser rara na Europa cristã, não era das mais notórias,
tanto que, para além do prelado do Porto, nem o clero castelhano nem o português levantaram
quaisquer problemas durante os mais de dez anos que durou. Embora os matrimónios mais
recentes tivessem sido dissolvidos por imposição papal e por um parentesco bem mais próximo
do que o que ligava Urraca Afonso de Castela a Afonso II de Portugal, (Nota 10) na verdade,
também os novos cônjuges partilhavam um antepassado comum - Afonso VI, trisavô de Afonso
e tetravô de Urraca - que, embora remoto, não podia ser ignorado.
102

A descendência

D. Urraca foi mãe de Sancho, entre 1209 e 1210 e de Leonor, em 1211. Nasceu, depois, Afonso,
entre 1212 e 1217.

Uma passagem do seu testamento lança algumas dúvidas sobre uma possível doença da rainha
ou, talvez, um nascimento com outra data. Nele, datado de 15 de Junho de 1214, Urraca coloca
a hipótese de poder morrer até ao dia 1 de Agosto seguinte. Desconhece-se qualquer doença
grave de que a rainha padecesse e que lhe pudesse vaticinar um fim a tão breve prazo.
Atendendo ao facto de que uma gravidez significava, com frequência, risco de vida, não sendo
raras as mulheres dos vários estratos sociais que faleciam em trabalho de parto, (Nota 11)
Leontina Ventura coloca a hipótese de a rainha estar grávida, possivelmente mesmo uma
gravidez de risco como seriam quase todas à época, e a mês e meio de ter a criança. Seria a
gravidez do infante Afonso? Teria ele nascido neste ano e entre Junho e Agosto? Ou, pelo
contrário, teria já nascido e Urraca preparava-se para, em acção de graças pelo feliz
acontecimento, se deslocar em peregrinação a Santiago de Compostela, temendo sim pela
viagem? (Nota 12) De facto, é incerta a data de nascimento deste infante. Se Figanière a
assinala depois de Junho de 1212 (Nota 13) os primeiros documentos oficiais em que o mesmo
surge referido datam de 1216/1217. (Nota 14) Sendo um filho segundo, à partida afastado da
corrida ao poder, o registo do seu nascimento não mereceu ser considerado nem sequer pelos
cronistas que escreviam a história do reino.

Urraca viveu, ainda, mais seis anos após a redacção do seu testamento, o tempo de dar ao
mundo mais outro filho, o infante Fernando nascido em 1218.

A vida, a obra e os bens

Muito pouco se sabe sobre a vida desta rainha. O seu nome, juntamente com o do marido,
encabeça a maior parte dos documentos régios durante os anos em que reinou, mas nada se sabe
sobre as personalidades que a rodeavam e o conjunto de servidores e oficiais que constituiriam
a sua Casa.
103

Além de João Pais, identificado como tesoureiro de Braga e de Teresa de Trandeiras, aia
identificada por Figaniére como tendo acompanhado Urraca aquando da sua vinda para
Portugal, (Nota 15) mais nada se sabe sobre possíveis nobres trazidos com a infanta do seu país
de origem ou que a servissem em Portugal.

Conviveu com as lutas em que o marido se envolveu com as irmãs, com o clero e com os
principais senhores da nobreza; (Nota 16) soube do grave confronto do pai contra os mouros e
da não participação do seu marido na batalha de Navas de Tolosa, considerada por muitos como
um momento de viragem no processo de Reconquista e na decadência do poder almóada.
Temeu pela vida de ambos, sobretudo pela do marido, cuja doença se agravava, deformando
cada vez mais o seu corpo e limitando-o fisicamente. Assistiu à morte dos dois progenitores no
mesmo ano e mês, com escassos dias de intervalo. O seu testamento, mandado redigir em 1214
(ano do falecimento dos pais) é, assim, o documento mais próximo do seu sentir e querer, dos
seus últimos desejos e vontades.

Por esta altura a rainha teria cerca de 27 anos. Porque a morte era certa, mas incerta a sua hora,
era necessário preparar o «passamento» para o outro Mundo, pois a morte preparada podia abrir
as portas da eternidade. O testamento era, antes de mais, um acto religioso, considerado um
«passaporte para o céu» (Nota 17) e tendo como principal objectivo o perdão dos pecados e o
garante da salvação. Através da esmola e da oração encomendadas redimiam-se erros e culpas
do passado. Assim o acto de redigir as últimas disposições enquadrado na perspectiva de
preparação da «boa morte» era feito não só quando se sentia aproximar o momento da partida
mas, muitas vezes, em plena força da vida. No caso particular de D. Urraca já atrás
mencionámos a dúvida em relação a uma possível doença, gravidez complicada ou eventual
peregrinação com os inerentes perigos.

Numa breve análise ao seu testamento, constatamos que as missas e as pitanças (distribuição de
alimentos aos pobres) foram os meios escolhidos para a remissão dos pecados. Assim,
privilegiou as colegiadas de Braga, Lisboa, Coimbra e Porto, legando-lhes importantes quantias
em dinheiro e encarregando-as de celebrar aniversários por sua alma nas respectivas igrejas
bem como missas quotidianas.
104

Ao Mosteiro de Alcobaça, onde mandou que a sepultassem, deixou também significativa


quantia para celebração do seu aniversário e de uma missa quotidiana pela sua alma. Dar
esmola aos pobres era um das obras de misericórdia que Deus prometera premiar no dia do
Juízo Final. Para esse efeito, a rainha declarava ainda que destas importâncias se deveriam
comprar herdades em que houvesse pitança nos dias do seu aniversário. (Nota 18)

Dos bens móveis e de raiz que o marido lhe concedera, D. Urraca determinava que dois terços
fossem divididos pelos filhos, para que os repartissem entre si, e que do resto fossem pagas as
suas dívidas. Quatro mil áureos (moeda de ouro) eram deixados ao pessoal de sua Casa, ficando
os testamenteiros (D. Estêvão, arcebispo de Braga, D. Soeiro, bispo de Lisboa e João Pais,
tesoureiro de Braga) com o arbítrio de os aplicar. Uma pequena referência à sua arca, onde
deveria ser guardada uma das quatro cópias do testamento, atesta a existência de um possível
arquivo documental da rainha. (Nota 19)

Sobre as terras ou vilas que lhe pertenciam, Figanière menciona a existência de um documento
bastante deteriorado, onde estão referidas, entre outras cuja escrita é imperceptível, as
localidades de Torres Vedras, Óbidos e Lafões. Na opinião do autor não se pode, no entanto,
aferir se as referidas vilas pertenceram à rainha ou se apenas tivera algumas propriedades no
seu termo por doação do rei. (Nota 20)

A sua vida ficou ligada aos Mártires de Marrocos, os frades assassinados em território
muçulmano. Conseguiu do rei seu marido licença para que a Ordem dos Frades Menores,
instituída por S. Francisco de Assis, se estabelecesse em Lisboa e Guimarães, ajudou a cunhada,
a infanta Sancha, a obter as licenças necessárias para fundar um convento da mesma Ordem em
Alenquer, o primeiro a ser edificado no reino, tendo ainda contribuído para a fundação de Santo
António dos Olivais, em Coimbra. (Nota 21) As relíquias destes mártires, depositadas no
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, vieram a ser objecto de um culto profundo e difundido por
todo o reino. (Nota 22) Embora uma das suas primeiras devotas, a rainha Urraca já não assistiu
à difusão deste culto.

Sobre a chegada destas relíquias a Coimbra, António Brandão e Figanière narram um


acontecimento que, embora sem qualquer comprovação documental, não resistimos a
transcrever.
105

Contam estes autores que, quando os frades passavam por Coimbra, em direcção aos estados
dos sarracenos, encontrava-se a corte nesta cidade, tendo-os a rainha recebido com todas as
atenções.

A curiosidade feminina ter-lhe-á despertado o desejo de saber quem morreria primeiro, se ela,
se o rei seu marido. Apesar de se terem escusado a responder, perante a insistência da rainha e
conhecedores do martírio que lhes iria acontecer, responderam que dos dois morreria aquele
que primeiro visse os seus restos mortais chegarem de África. Satisfeita a curiosidade, a rainha
recomendou-os à cunhada Sancha, que residia em Alenquer, para que lhes ministrasse os meios
necessários para a continuação da sua viagem de Lisboa a Sevilha.

Quando, tempos mais tarde, os restos mortais dos infelizes frades se achavam perto de Coimbra
e todos se preparavam para ir, em procissão, ao seu encontro, a rainha pediu ao rei que fosse à
frente e que ela em breve o seguiria. D. Afonso pôs-se, de facto, a caminho mas, após pouco ter
andado, deparou-se-lhe um porco montês e, apesar da solenidade do acto, o rei não conseguiu
resistir à tentação de o caçar; seguindo o animal, desviou-se completamente do caminho que
devia ter tomado. Ao fim de três horas de espera, a rainha, crendo que o amado esposo já teria
tido tempo de presenciar o cortejo fúnebre, resolveu ir ter com ele. Qual não foi, porém, o seu
terror ao aproximar-se da procissão e ver que o marido não estava lá. Então, com voz submissa
e resignada, terá exclamado: «Ai, que ninguém pode fugir ao juízo de Deus, e eu que cuidava
enganar é que fui enganada, e hei-de morrer antes que o meu caríssimo esposo o rei.» E assim
aconteceu. Acabadas as exéquias no Mosteiro de Santa Cruz, pouco tardou que a rainha não
falecesse. (Nota 23)

A morte e o túmulo

Urraca faleceu em Novembro de 1220, com cerca de 33 anos, possivelmente em Coimbra. Está
sepultada no Mosteiro de Alcobaça, num túmulo expressamente construído para ela e que frei
António Brandão, no século XVII, referia como o mayor entre todos tirando o delRey Dom
Pedro, & Dona Inês de Castro dos que estavam em Alcobaça. (Nota 24)
106

O marido, que ainda viveu mais três anos, que morreu excomungado e que jaz a seu lado, não
parece ter respeitado as suas últimas vontades, tal como já o fizera antes com o testamento de
seu pai em relação às suas irmãs.

Quase quatro séculos depois, por desejo do rei Sebastião, o túmulo de Urraca Afonso foi aberto.
Segundo testemunhas, a rainha continuava bonita e os cabelos eram compridos e louros.
Calçava humas botinas vermelhas apantufadas, & tinha no peito do pé em partes as armas
antigas de Portugal douradas (...) & as botinas, ou çapatas estão tão frescas como se fossem
agora calçadas. (Nota 15)

Ocupando um lugar de destaque na tumularia medieval portuguesa, esta urna tem sido objecto
de estudo de diferentes investigadores e alvo de diferentes opiniões, sendo atribuída por uns a
Urraca Afonso e por outros a Beatriz de Gusmão, a viúva de Afonso III, também enterrada em
Alcobaça, em 1304, numa tradição sancionada por uma inscrição moderna gravada na moldura
do túmulo em 1675. O sarcófago, soerguido por quatro pilares, tal como os túmulos dos
infantes, em Alcobaça, de grande formato e realizado em calcário branco, apresenta cada um
dos lados estruturado por seis arcos de volta perfeita enquadrando, cada um deles, a figura de
um Apóstolo, num total de doze. Na cabeceira está iconografado o Pantocrator - Cristo sentado
no trono, de vestes compridas, abençoa com a mão direita e segura o Livro da Vida na mão
esquerda. Na face oposta a esta representação está esculpida uma cena de lamentação com um
rei rodeado por cinco personagens. A tampa do monumento apresenta o jacente de uma jovem
rainha, primeiro jacente que se conhece, representada no seu leito de morte, de mãos cruzadas
sobre o peito, olhos fechados e com a cabeça repousando numa almofada. Está coroada, com
véu soqueixado, com trajo e manto comprido caindo com finas pregas até aos pés. Estas pregas,
finíssimas e essencialmente verticais, apresentam, na zona das pernas e para dar a noção de
volume, linhas curvas que se vão, progressivamente, convertendo em pregas angulosas com a
forma de V. A escultura da rainha estende-se a todo o comprimento da longa tampa.

Para Mário Barroca este túmulo, é sem dúvida, o de Urraca Afonso e terá sido fruto de uma
encomenda de seu marido, o rei Afonso II.
107

Terá, por isso, sido executado entre 1220, ano da morte da rainha, e 23 de Março de 1223, data
do falecimento do monarca. A pertencer à rainha Beatriz, portanto elaborado nos inícios do
século XIV, seria incompreensivelmente arcaico, pois, comparado com outros túmulos criados
pouco depois de 1245, representaria um retrocesso inconcebível no túmulo de uma rainha de
Portugal, destinado ao Panteão Real. Pelo contrário, atribuindo esta obra a uma encomenda do
marido da rainha Urraca, demonstra-se qualidade e vanguardismo com era próprio do túmulo de
uma chorada rainha colocado num Panteão Real. Este jacente representa, ainda, uma mulher
jovem, pelo que nunca poderia ser atribuído à rainha Beatriz que faleceu já idosa.

Rebatendo esta opinião, e baseado em anteriores testemunhos, José Custódio Vieira da Silva,
afirma que esta arca tumular pertencerá à rainha Beatriz, viúva de Afonso III. De acordo com
este autor, o facto de o jacente representar uma mulher jovem está relacionado com a sua
idealização em função da imagem social da personagem representada, sendo que a figuração
mais adequada a uma rainha seria, por certo, a de uma mulher jovem e bela. Justificando o
arcaísmo e a rigidez das esculturas, mais próprios do século XIII do que do seguinte, José
Custódio Vieira da Silva afirma que o sarcófago não terá forçosamente sido realizado aquando
ou após a morte da rainha, podendo, pelo contrário, e à semelhança do que irá acontecer com o
filho Dinis e a nora Isabel de Aragão, ter sido encomendado pela própria ainda em vida e
durante o longo período de viuvez por que passou, enquadrando-se, assim, numa obra da
segunda metade do século XIII. Reforçando esta ideia, o mesmo autor refere, ainda, a não
existência, à data da morte da rainha Urraca, de outros exemplos de túmulos nem com jacentes
nem com trabalhos figurativos tão complexos, não parecendo, ainda, muito credível, à luz da
mentalidade da época, que o monarca Afonso II tivesse encomendado um túmulo desta
envergadura para a mulher e não tivesse feito o mesmo para si. De facto, o rei optou por um
enorme sarcófago de calcário, sem qualquer ornamentação e onde apenas foi gravada uma
simples epígrafe.

Retomando Mário Barroca, a cena de lamentação do facial dos pés, para além de não deixar
margem para dúvidas sobre a identificação do monumento, ganha todo o sentido e coerência.
108

Nela, o monarca coroado chora a morte da rainha, juntamente com os jovens infantes, o que
revela que o rei sobreviveu à rainha e que tinha filhos ainda jovens. Ora a rainha Beatriz faleceu
vinte e cinco anos depois do marido e com todos os filhos já adultos, pelo que o considerado
primeiro «retrato» da família real portuguesa nunca poderia pertencer a esta rainha. (Nota 26)
Nesta cena, ao centro, o rei, coroado e sentado no trono, exterioriza a sua dor, levando a mão
direita ao peito e puxando a barba com a esquerda. À sua volta estão representados os infantes.
À direita do rei, em pé e em segundo plano, identifica-se o futuro Sancho II; sentado, e em
primeiro plano, o futuro Afonso III. (Nota 27) Entre este e o pai, uma pequena figura
representara, talvez, o infante Fernando que contava então cerca de três anos de idade. Do outro
lado do rei está a infanta Leonor, e, por trás, uma outra figura feminina, talvez Teresa Martins
de Riba de Vizela, a ama de Sancho.

Embora os pedagogos e pensadores da Baixa Idade Média Ocidental atribuíssem uma reduzida
importância à expressão dos afectos infantis, considerando-os confusos e volúveis, (Nota 28) o
túmulo de Urraca Afonso constitui um importante documento iconográfico sobre a dor, o pranto
infantil e o sentimento da infância à morte da mãe. Nesta cena familiar, os infantes são
representados numa expressão de grande sofrimento pelo desaparecimento da mãe, conforme
sugerem os gestos de puxar os cabelos, bater na cabeça ou arranhar as faces. Todas estas
manifestações de descontrolo emocional pela morte da progenitora foram consideradas
suficientemente dignas para serem esculpidas num túmulo do Panteão Régio de Alcobaça,
destinado a prestigiar a memória de uma rainha a cultuar e a recordar enquanto merecido alvo
de tão pungentes afectos filiais.

A descendência que lhe sobreviveu

Dos quatro filhos que lhe sobreviveram, três tornaram-se reis. Sancho, o primogénito e futuro
Sancho II, recebeu o nome do seu avô, enquanto Afonso, filho segundo (embora terceiro na
ordem de nascimento) e futuro Afonso III, herdou o nome do pai, conforme era costume nas
famílias reais de Castela e França. Leonor, rainha da Dinamarca, herdou o nome da sua avó e
bisavó.
109

Sancho, que rondava os dez anos de idade à morte da mãe, «foi no princípio de sua idade mui
enfermo, em tanto que ninguém cuidou que chegasse a tempo de reinar, e sendo a Rainha sua
mãe mui triste por suas indisposições, vendo que não valiam remédios humanos se socorreu aos
Divinos tomando por medianeiro com Deus o glorioso Doutor Santo Agostinho, a que fez voto
de trazer o Infante vestido em seu habito até idade de doze anos». (Nota 29)

Este hábito monástico usado para favorecer a protecção celeste à qual fora encomendado,
poderá ter dado origem ao popular cognome de «o Capelo».

O infante Afonso, terceiro filho de D. Urraca terá sido criado como filho por sua tia, Branca de
Castela, terá convivido e brincado com os seus primos Afonso de Poitiers e São Luís, este
último praticamente da sua idade, e, nessa corte francesa, terá completado a sua educação.
Educação que deve ter sido cuidada e esmerada e, através da qual Branca lhe terá inculcado as
regras de comportamento e governo que ela considerava essenciais. (Nota 30)

Em França, Afonso casou e enriqueceu, e daí regressou ao seu país para ser rei. Retomaremos
este assunto.

Embora D. Urraca estivesse relacionada, através das suas irmãs, com as principais cortes
europeias, nada transparece da documentação sobre estas relações ou ligações. É possível no
entanto que, pressentindo a sua morte, tivesse cometido a tutela dos seus filhos à rainha e
efectiva senhora de França, Branca de Castela e à não menos influente irmã Berengária, rainha
de facto de Castela, procurando assegurar aos filhos uma educação cuidada, em especial a
Sancho, o futuro rei. Após a morte de Urraca, estas irmãs poderão ter agido como cabeças de
linhagem e assumido a tarefa do casamento dos seus sobrinhos. Os casamentos de Sancho II e
Afonso III e os conselhos e influência das suas tias, retomaremos em biografia própria.

Leonor, a única filha de D. Urraca, ficou órfã de mãe aos nove anos. À semelhança de sua tia
Berengária, segunda mulher do rei Valdemar da Dinamarca, Leonor casou, em 1229, com
Valdemar III, precisamente o enteado de sua tia.
110

No entanto, ao contrário desta, o casamento com a infanta portuguesa acabou por se revelar
uma fraca escolha para assegurar a sucessão do trono dinamarquês, pois no mesmo ano de
1231, dois anos após a sua chegada a este reino, faleceram o futuro Valdemar III, de acidente de
caça, e Leonor de parto, bem como o respectivo filho. A exumação das ossadas desta infanta,
feita em Oitocentos, revelou que ela sofria, já aos vinte anos, de uma doença degenerativa dos
ossos, em estado bastante avançado. Tendo em conta que o pai era gafo e o avô Sancho I
«morbo chronico», parece evidente que a doença rondou a família real portuguesa desta época.
(Nota 31)

A Coroa dinamarquesa passou, então, para os irmãos que o defunto monarca havia do segundo
casamento do seu pai, precisamente com Berengária, a tia da falecida rainha: Eric, Abel e
Cristóvão I da Dinamarca. (Nota 32)

Fernando, o último filho de D. Urraca que lhe sobreviveu, envolveu-se em graves conflitos
travados em Portugal. Passou, depois, a Castela, onde esteve, como vassalo de seu primo
Fernando III, entre 1240 e 1243. Aí casou com Sancha Fernandes de Lara, uma filha do conde
Fernando Nunes de Lara, da qual não teve descendência. Regressado a Portugal, participou na
guerra civil que aí se desenvolvia, militando no partido contrário ao do irmão Sancho II.
Morreu em 1246, tendo ficado conhecido, principalmente, pela bravura demonstrada nas
guerras contra os sarracenos.

A memória cronística

Em todo o contexto do reinado de Afonso II - o de um monarca que contesta poderes e


privilégios senhoriais, que se envolve em lutas fratricidas, que é excomungado e que se alheia
da santa guerra da fronteira contra os infiéis - as memórias cronísticas do reino, em contraste
com um rei do qual se nom acha feyto que elle fizesse, nem cousa dina de memoria, referem a
rainha que se entregava a colóquios sobre as cousas de Deos e a devotíssimas preces ditas com
111

muytas lágrimas, (Nota 33) acentuando como a memória contrastava positivamente com a do
régio esposo. Numa época em que os cronistas narram glórias militares nos combates contra os
mouros pouco há a referir de um soberano que não participara directamente na conquista de
Alcácer do Sal, nem estivera no feito das Navas de Tolosa, a coroa de glória do sogro e uma
façanha da Reconquista. Aliás esta vitória é lembrada nas crónicas sempre que introduzem a
genealogia da rainha Urraca, dela credenciando a sua condição de filha do herói que vemçeo a
batalha alem do Porto de Muradal, açerqua do castelo que chamam as Naues. (Nota 34)
Cresceu, assim, o protagonismo da rainha, sendo a ela, em última análise, que o reino devia
gratidão e realinhamento com a missão da Reconquista, uma vez que Urraca fora a principal
interlocutora e apoiante da missão confiada por S. Francisco aos frades que deviam, a partir de
Portugal, tentar a conversão dos infiéis marroquinos, fazendo-os renderem-se pela fé à verdade
crista.

Rezam as crónicas que, por volta de 1214, S. Francisco terá passado por Guimarães, no seu
caminho para Santiago de Compostela e terá pedido à rainha chea de virtudes, que fundasse
uma casa dedicada à sua comunidade religiosa e ela assim o fez. Anos mais tarde, é a própria
rainha que, nos encontros havidos com os cinco franciscanos destinados a seguir para
Marrocos, os incentiva à sua santa jornada. Maravilhada pelo tão grande desprezo do mundo e
tamanho fervor de morrer por amor de Jesu Christo mostrados pelos frades, roga-lhes que lhes
revelem ho derradeyro termo da sua vida, o que lhe é predito para muy sedo: logo que os corpos
dos frades, depois do martírio marroquino, regressem como relíquias à cidade. Tal como aos
frades, a profecia não a abalou, antes lhe fortaleceu a fé e o espírito sacrificial da missão.
Depois, quando se cumpria o revelado, e as relíquias dos santos Mártires de Marrocos eram
recebidas em Coimbra, Urraca ahy estava com ho povo junto. Falecia poucas horas depois.
112

E, à hora da sua morte, o cónego de Santa Cruz, D. Pedro Nunes, viu innumeraveis Frades
Menores entrar no mosteiro e atónito perguntou a um deles o que ali vinham fazer e como
entraram, visto todas as portas estarem fechadas, «o qual lhe respondeu: Nós todos que aqui vez
fomos Frades Menores, e agora reinamos com Cristo e aquele que (...) precede aos outros, é S.
Francisco, (...) e aqueles cinco (...) são os Frades, que em Marrocos por Cristo receberam
Martírio, e neste Mosteiro são sepultados, e sabe que a Rainha Dona Urraca nesta hora passou
desta vida, e porque ela de todo coração amou nossa Ordem, Nosso Senhor Jesus Cristo nos
enviou cá todos, porque por sua honra disséssemos aqui Matinas, e porque tu eras seu
Confessor, quis Deis que tu visses estas coisas.»

Segundo Rui de Pina, entre a conquista de Alcácer do Sal e a morte de Afonso II, de 1217 a
1223, a única cousa digna de memoria foi a chegada a Coimbra dos ossos dos sinquo frades
Menores, (Nota 35) as relíquias que incentivavam ao castigo dos ímpios opressores dos
cristãos. E aqui esteve Urraca, a rainha associada à bem-aventurança dos milagres franciscanos
ocorridos em Santa Cruz. Um tal protagonismo feminino no reino, simbolizava uma estrutural
fraqueza da viril acção do monarca.
5

MÉCIA LOPEZ DE HARO

(c. 1215-1271)

A rainha raptada
<Quadro genealógico de MÉCIA LOPEZ DE HARO: omitido>
La reina doña Mencía, es en la historia de esos rudes tiempos, una flor de leyenda, una heroína
de un épico poema trenzado por andantes caballeros com gestas y pasiones, amores y pesares.

Mercedes Gaibrois de Ballesteros (Nota 1)

Origens

Mécia, filha de Lopo Diaz de Haro, 11.° senhor de Biscaia e de sua mulher Urraca Afonso, filha
ilegítima do rei Afonso IX de Leão e da sua manceba Inês de Mendonza, nasceu,
provavelmente, antes de 1215. Pertencia, pelo pai, a uma importante linhagem da velha nobreza
castelhana, que, na segunda metade do século XIII, competiu com os Lara em influência
política, sobretudo durante os reinados de Afonso X (1252-84) e Sancho IV (1284-95) e que,
com estes e os de Castro, protagonizou a oposição senhorial à realeza de Fernando III de Leão e
Castela. Pela mãe, participava da linhagem real. Mécia misturava, assim, sangue português e
castelhano, real e da velha nobreza de Castela.

Ao que parece, bela, arrogante, cativante e inspiradora de paixões, a sua história continua, ainda
hoje, envolta num halo de mistério e dúvida. A significativa falta de documentos que gera
muitos silêncios e longos hiatos na sua biografia, bem como os turbulentos e complicados
tempos que viveu em Portugal como rainha, tornam difícil perceber se foi a historiografia
tradicional que a converteu em maléfica personagem ou se ela própria terá contribuído para
isso. Ao correr dos tempos, vários cronistas e historiadores discorreram sobre a bela castelhana,
esgrimindo argumentos, opiniões e interpretações. A polémica instaurou-se logo com o seu
estatuto de rainha de Portugal.
116

Para Rui de Pina, embora com grande escândalo, e nojo dos do Regno, D. Sancho casou com a
dona fermosa. (Nota 2) O cisterciense frei António Brandão recusa a existência deste
casamento, considerando que o rei a teve como amiga e não como molher legitima. (Nota 3) Na
sua esteira continuaram, no século XVIII, José Barbosa, que a exclui do seu Catálogo das
Rainhas de Portugal e Caetano de Sousa. No século XIX, Alexandre Herculano rebateu estas
opiniões, baseando-se na bula Sua nobis de Inocêncio IV, onde consta que, pelo menos no
princípio de 1245, Sancho era casado com Mécia. (Nota 4) Posteriormente, Figanière e
Benevides corroboraram esta afirmação. (Nota 5)

Mas, comecemos pelo princípio. A história de Mécia, conhecida e documentada, gira à volta de
dois períodos principais que condizem com os seus dois casamentos.

O primeiro casamento

Mécia conheceu aquele que seria o seu primeiro marido, Álvaro Peres de Castro, nobre
castelhano, por altura do cerco a Paredes de Nava, na região de Palência, em 1227. Álvaro fora
incumbido da missão de medianeiro das tréguas entre o monarca Fernando III e os mouros,
visto anteriormente se ter aliado a estes, situação frequente à época quando os nobres se
desentendiam com o seu rei. Álvaro era conhecido como um cavaleiro audaz tendo no seu
historial vários feitos e glórias guerreiras. Era considerado um dos principais e poderosos
nobres do reino de Castela.

Ora no acampamento em que se encontrava, estava também Lopo Diaz de Haro, o Cabeza
Brava, juntamente com a sua jovem filha, Mécia. Álvaro depressa se interessou pela bela
jovem, mas ele era tam gramde e tam gordo (Nota 6) que, dificilmente, a sua figura inspiraria a
mesma atracção. Sobre o encontro deste par, o conde D. Pedro, bastardo do rei Dinis dá no seu
Livro de Linhagens, uma versão cortês. Segundo ele, durante o referido cerco Álvaro Peres terá
visto Martim Sanches, filho bastardo de Sancho I de Portugal, que se desentendera com Afonso
II e se exilara em Castela, e a jovem Mécia a jogar xadrez (Nota 7) numa tenda perto das
muralhas.
117

Porque ele andava dela mui namorado, ficou dela tão enciumado que arremeteu contra o par.
No entanto, ao ver que Martim Sanches se encontrava desarmado, só em manto e saio, num
rasgo cavaleiresco, acabou por não continuar a contenda. (Nota 8) Talvez tenha sido esta atitude
de D. Álvaro, ou, quem sabe, o prestígio da sua fama, que deslumbraram a donzela, pois que
outros atractivos não podia ter o corpulento e obeso divorciado. De facto, o nobre castelhano
tinha já sido casado com Aurembiax, condessa de Urgel que casou depois com o infante Pedro,
filho de D. Sancho I.

Teve, então, lugar o casamento de Mécia com Álvaro Peres de Castro. Fernando III, tio da
noiva, não apreciou esta união, alegando que os cônjuges eram primos em 4.° grau e, por isso,
inválida pelas leis canónicas. Esta não seria a razão principal do desagrado do monarca, pois
também ele era filho e neto de familiares próximos que o papa havia separado. O próprio clero,
reunido na Catedral de Burgos, declarou ilegítima esta união fulminando-os com pública e
solene excomunhão. (Nota 9) A comprovar, de certa forma, este desagrado régio, cerca de
1234/35 Álvaro, associando-se às linhagens dos Lara e dos Haro, revoltou-se contra Fernando
III.

Esta é uma das versões do encontro entre Mécia e o primeiro marido. Noutra versão o cenário é
o mesmo, mas a história é contada de outra forma. Assim, como represália pelo facto de
Fernando III não ter concordado com o casamento e ter retido na sua corte a jovem esposa, que
não considerava legalmente casada, Álvaro, irado e separado à força da sua mulher, dirigiu-se
com os seus homens à vila de Paredes de Nava, que lhe pertencia mas que havia sido ocupada
pelo rei. Este, quando soube, mandou cercar a localidade para submeter o rebelde. Terá sido
durante este cerco que ele viu Mécia, do lado de fora, numa tenda a jogar xadrez com Martim
Sanches e se terá dado o já referido episódio. A partir de então o romântico enamorado deixou
de resistir, colocando «barreiras de seda» à volta das muralhas da sua vila e referindo que nunca
outro muro meteria antre si e aqueles que a ele quisesem vir. Subtilmente, preferia entregar-se a
opor resistência aos sitiadores visto que, entre eles, estava a dama dos seus pensamentos. (Nota
10) Independentemente da estoria, D. Álvaro terá dado ouvidos aos conselhos das rainhas
Berengária e Beatriz, mãe e mulher de Fernando III (quem sabe prometendo-lhe o
reconhecimento do casamento) que temiam a ira deste nobre e as suas possíveis alianças contra
o rei, tendo também interposto junto deste para que D. Álvaro voltasse ao seu serviço.
118

O que é facto é que, em 1237, após novas conquistas aos mouros com a ajuda do intrépido
nobre, o rei acabou por aprovar o casamento que tanto contestara, ao sancionar um documento
em que D. Álvaro entregava a Mécia Paredes de Nava e as terras à volta, e que não era mais do
que o documento das arras.

Mulher decidida e corajosa, conta-se de Mécia um episódio que demonstra, também, a sua
astúcia. Corria o ano de 1238 e Fernando III, recuperando o esforço castelhano da Reconquista,
tomava grande parte de Al-Andalus, o equivalente à moderna região da Andaluzia, excepto os
reinos de Granada e Niebla. Depois da conquista de Córdova, o monarca regressou a Toledo,
deixando Álvaro Peres de Castro no comando militar dos arrabaldes do distrito. O abandono em
que se encontrava a agricultura devido à guerra, a fome e as consecutivas doenças que surgiram
naquele território levaram o nobre castelhano a procurar o rei para lhe pedir ajuda, deixando a
esposa no Castelo de Pena de Martos, hoje na Andaluzia. Para a proteger, deixou uma guarnição
de cerca de quarenta homens, chefiados pelo seu sobrinho Telo. Jovem e pouco experiente, este
resolveu sair com os seus homens, deixando no castelo praticamente só Mécia e as suas damas
de companhia. A vulnerabilidade em que a fortaleza ficou chegou rapidamente aos ouvidos do
rei de Granada, Alhamar que, sem perda de tempo, resolveu atacá-la. Ao que parece, Mécia não
se intimidou e, numa demonstração de força e coragem, ou, como diz Figanière, animo varonil,
e natural subtilesa do seu sexo, juntou as suas damas e criadas, armou-as e mandou que todas se
vestissem de cavaleiros e aparecessem nas ameias do castelo, enviando, entretanto, um
mensageiro ao sobrinho a contar-lhe o que se passava. A tentativa de enganar o inimigo surtiu
efeito e, ao chegar ao forte com os seus homens, o chefe mouro encontrou, afinal, uma
guarnição militar com a qual não contava. Confundido, teve de reorganizar o seu exército. Este
foi o tempo suficiente para que chegassem os homens de Telo e os obrigassem a bater em
retirada. Ao saber da notícia, e do perigo que a sua amada tinha corrido, Álvaro pôs-se a
caminho da Andaluzia, falecendo antes de chegar, por volta de 1240.
119

O segundo casamento

Mécia ingressou, então, como dama na corte de Berengária, viúva de seu avô Afonso IX. Terá,
por essa altura, sido negociado o seu casamento com o rei de Portugal, Sancho II, sobrinho-neto
da sua bisavó materna Urraca Afonso, por razões e meios um pouco desconhecidos. Terão sido
os de Haro que, na procura de novos aliados contra o rei de Leão e Castela, terão visto no rei de
Portugal um possível aliado? Terá sido a beleza de Mécia que encantou Sancho II, visto este
casamento não trazer quaisquer vantagens políticas ao reino? Ou terão sido os amaníos ou
feitiços (Nota 11) feitos pela futura soberana, tanto mais credíveis quanto os de Haro se
reivindicavam descendentes da prodigiosa Dama Pé de Cabra, a alma penada que seduziu um
dos antigos senhores da Biscaia? (Nota 12) De facto, Sancho pensou em casar-se numa idade já
um pouco tardia para um rei, principalmente tendo em consideração que o seu reinado era
atravessado por conflitos de vária ordem com o clero e a nobreza, por uma situação de tumulto
e desordem permanente, revelando-se o rei incapaz de exercer a justiça. (Nota 13) A ausência
de um herdeiro enfraquecia, ainda mais, a sua já frágil posição política. No entanto, se o seu
celibato tornava complicada a sua situação, o seu casamento teve repercussões tão grandes nas
cortes hispânicas que acabou por desempenhar um papel relevante na queda do próprio rei e
constituir, de certa forma, o ponto de ruptura do seu reinado.

Sancho II terá conhecido Mécia aquando das suas estadias com a tia materna, Berengária, viúva
de Afonso IX, e ela própria não terá gostado deste encantamento, tendo mesmo tentado
convencer o sobrinho a não se unir à dama biscainho-leonesa. Possivelmente, Berengária teria
outros planos para o sobrinho, ou para o próprio reino de Portugal, ou consideraria que não era
digno de um rei casar com uma mulher que já fora de outro (Nota 14) e que não era filha, mas
sim neta, e por via ilegítima, de rei. Mécia era, assim,

«moça na idade, e de grande formosura, mas menos na geração (posto que mui nobre) do que
pedião as esperanças dos Portugueses». (Nota 15)
120

De facto, o casamento, uma das preocupações dominantes da cultura nobiliárquica, era


considerado uma forma de ascensão social, à qual o próprio Sancho não tinha sido alheio ao
casar a sua irmã Leonor com o rei da Dinamarca e ao invocar orgulhosamente a sua
ascendência de Afonso VIII de Castela, resultado da sua agressiva política matrimonial.
Berengária consideraria, ainda, que esta união iria fortalecer a oposição interna, visto Mécia
pertencer a uma família que já se revoltara contra o seu próprio filho, o monarca Fernando III.
Pelas armas, ou pelo casamento, a poderosa Casa dos de Haro da Biscaia sairia reforçada em
prestígio e em poder, elevando-se ao nível dos reis. José Mattoso considera mesmo este
casamento como uma eventual estratégia da nobreza castelhana para obter algum apoio
português contra o rei, e daí a oposição da rainha-mãe. (Nota 16)

«Loucamente enamorado», Sancho II não deu ouvidos à sua tia e rainha-mãe de Castela, e o
casamento realizou-se por volta de 1241. (Nota 17) Sancho tinha 31 anos e a esposa um pouco
menos. Mécia recebeu, como arras, as vilas e castelos de Torres Vedras, Ourém, Sintra,
Abrantes, Penela, Lanhoso, Aguiar de Sousa, Celorico de Basto, Lindoso, Faria, Vila Nova de
Cerveira, Leiria e Vermoim. Alguns destes lugares foram palco de dramáticos confrontos e de
decisivas lutas durante o conflito que opôs Sancho II e o irmão Afonso.

O reinado

O reinado de Mécia foi curto e conturbado. Sancho II, ainda criança quando tomou conta do
governo, revelou-se incapaz de seguir a política de centralização régia e de repressão dos
abusos dos poderosos iniciada pelo seu antecessor.

Ricos-homens e cavaleiros causavam o medo e a destruição, provocando roubos, delapidação


de bens, violações e raptos de mulheres, crimes e mortandade, devastações e o consequente
despovoamento de casais, campos e vilas. A nobreza senhorial aumentava as suas jurisdições,
apropriando-se dos direitos régios e dos de outros, preocupando-se unicamente com os
interesses da sua linhagem e cada linhagem lesada recorria à guerra privada para recuperar o
perdido ou satisfazer a sua vingança.
121

A simplicidade (Nota 18) de Sancho II, ou a ausência da verdadeyra fortaleza que pêra Rey era
muy necessária, (Nota 19) impediram-no de exercer o poder judicial e de zelar pela manutenção
da ordem pública. (Nota 20) Tudo isto abalou os já muito abalados poder e prestígio do
monarca, contribuindo para que Sancho fosse ficando dependente de alguns poucos magnatas,
tornando previsível o seu afastamento do trono.

E o reino dividiu-se acompanhando a luta fratricida. Preocupados em retirar Sancho II do poder


e em evitar descendência legítima, os prelados portugueses e o irmão do rei (futuro Afonso III)
solicitaram, então, ao papa Inocêncio IV uma bula de dissolução do casamento por serem os
cônjuges parentes até ao 4.° grau de consanguinidade. (Nota 21) Amanhecia o ano de 1245 e a
acção da Santa Sé não se fez esperar. Em Fevereiro, surgiu a ordem papal de dissolução do
casamento e separação de Sancho II e Mécia Lopez de Haro (Mentia Lupi, como figura em
latim, na bula), invocando a costumeira situação da consanguinidade entre os parentes e
referindo mesmo que a fonte desta informação/queixa havia sido o irmão Afonso, então conde
de Boulogne (Nota 22) por casamento. Cabe aqui recordar o primeiro testamento feito por D.
Sancho II, para perceber melhor a atitude do futuro Afonso III. Nele ficava definido que em
caso que não tenha filho ou filha legítimos, mando que meu irmaõ, o Infante Dom Afonso aja o
meu Reyno inteiramente sem contradição (Nota 23) e em caso de morte deste, os irmãos
Fernando e Leonor sucessivamente. Ora o monarca tinha chegado à década dos trinta solteiro, o
que era raro à época num rei, fazendo, por isso, aumentar as esperanças do irmão vir a suceder-
lhe. Possivelmente, Afonso alimentaria também a ideia de sobreviver ao irmão, que fora vítima
de grave doença em pequeno e só por milagrosa intercessão se havia salvo. O casamento tardio
de Sancho II veio, assim, estragar-lhe os planos e não foi por acaso que as primeiras
manifestações de hostilidade do Bolonhês coincidiram com a época do casamento.

Em Março, na bula Inter alia desiderabilia, o papa responsabilizou Sancho II pela anarquia que
grassava em Portugal e pelos ataques perpetrados às pessoas e bens dos clérigos no reino de
Portugal.
122

Em Julho, face às acusações dos bispos portugueses declarou-o, na bula Grandi nom immerito,
rex inutilis, depondo-o do governo do reino mas não da Coroa e indicando Afonso, irmão do
rei, para «visitador» ou «curador» do reino. Sancho II era, assim, afastado do trono pela sua
incapacidade para exercer a justiça e suster a anarquia que inundava o reino. Porque nada
resultara e Portugal continuava cada vez mais arruinado, sem defesa e exposto à devastação dos
infiéis sem que o rei tomasse medidas, a única solução para salvar o reino era depor o rei e
exortar todos a obedecer ao irmão do rei, o conde de Boulogne, prestando-lhe fidelidade,
homenagem e juramento como se fosse o próprio rei. A bula enaltecia as qualidades do infante
Afonso, por certo já conhecidas por Inocêncio IV. Ordenava ainda que, mal o conde entrasse em
Portugal, fosse bem recebido em todas as cidades, castelos e fortalezas do reino. Temendo
algumas resistências e oposições, ameaçava todos os que permanecessem ao lado do rei com as
censuras eclesiásticas. Escreveu também ao infante Pedro Sanches, tio de Sancho II e Afonso
III, para que ajudasse este último com seu conselho e favor.

A bula mencionava que o conde não sucedia ao irmão-rei, mas apenas exerceria o seu poder
para restabelecer a ordem durante o impedimento de Sancho II, enquanto o filho legítimo deste
(se o viesse a ter) o não pudesse exercer sozinho. Morrendo ele sem descendência legítima
seria, então, Afonso o natural sucessor, tal como anteriormente fora estipulado no testamento. O
papa, ao incapacitar Sancho mas não a sua eventual descendência, limitava as ambições do
irmão e daqueles que o apoiavam.

No reino a luta continuava, embora com forças desiguais. A lealdade sucumbia ao medo e à
pressão pontifícia e eram cada vez menos os que ousavam resistir. Pelo povo que, alheio à luta
política, sofria na pele a destruição e a fome, perpassavam irónicas cantigas de escárnio que
documentam, de certa forma, a situação que se vivia. Diziam elas, por exemplo:

«Salvos são os traidores pois bem ysopados ficam

Melhor é ser traidor que morrer excomungado.

Dai o castelo ao Conde, pois vo'lo manda o Papa.» (Nota 24)


123

Sancho II e Mécia tinham, entretanto, recusado a separação. Embora a rainha não tivesse ainda
dado herdeiros ao rei, a situação poderia mudar a qualquer momento e suscitar graves
problemas à pretensão do irmão Afonso ao trono.

O rapto

Sucedeu, então, um curioso e controverso episódio que envolveu directamente a rainha e


enfraqueceu ainda mais o pouco poder que Sancho II conservava. Aproximava-se o final de
1245 e Afonso chegara a Lisboa obtendo o apoio não só da mais importante cidade do reino,
como de muitas outras à sua volta - Alenquer, Santarém, Torres Novas e Tomar. Para o norte, as
forças dividiam-se. Se Leiria, Alcobaça, Montemor-o-Velho (senhorio da sua tia Teresa
Sanches) e Óbidos apoiavam o conde, já em Coimbra se apoiava o rei deposto. Foi então que,
durante o Verão de 1246, um nobre de nome Raimundo Viegas de Portocarreiro conseguiu
entrar no Paço Real de Coimbra e arrancar a rainha do leito onde se recolhia com o monarca,
levando-a para o Castelo de Ourém, localidade que lhe pertencia por arras. Este nobre era irmão
do arcebispo de Braga, João Viegas de Portocarreiro, um dos principais agentes que obtivera do
papa a bula de deposição do rei. Assim sendo, ou pertenceria ao séquito real tendo, por essa
altura, passado para o partido contrário, ou ter-se-ia introduzido nesse séquito para levar a cabo
os seus intentos. Sancho II que os perseguiu não conseguiu entrar no castelo e recuperar a
rainha.

D. Pedro de Barcelos, filho bastardo do rei Dinis, conta, no seu Livro de Linhagens, que

«Reimom Veegas de Portocarreiro, (...) sendo vassalo d'el rei dom Sancho Capelo, e natural de
Portugal, veio uma noite a Coimbra com companhias de Martim Gil de Souerosa, (Nota 25) (...)
onde el Rei jazia dormindo em sua cama e filharam-lhe a rainha Dona Mécia, sua mulher d'a
par dele e levaram-na para Ourem sem seu mandado, e sem sua vontade. E quando isso el Rey
soube, lançou-se atrás deles e não os pode alcançar salvo em Ourém, que era então mui forte, e
tinha a rainha Dona Mécia em arras.
124

E chegou el Rei ai e disse lhes que lhe abrissem as portas, ca era el Rei dom Sancho, e ele
levava seu preponto vestido de seus sinais e seu escudo, e seu pendão ante si. E deram-lhe mui
grandes setadas e mui grandes pedradas no seu escudo e no seu pendão, e assim se houve ende
a tornar.» (Nota 26)

Revelou-se uma incógnita a atitude assumida pela rainha neste rapto. Transportada para uma
localidade de que era senhora por arras, não opôs qualquer resistência e, pelo contrário, aí
residiu pacificamente durante a guerra civil que confrontou os dois irmãos, fazendo até doações
de propriedades. De facto, num documento datado de Setembro de 1246, Mécia concedeu a
Paio Peres e sua mulher um moinho em Torres Novas, outros moinhos no termo de Ourém e um
reguengo também nessa localidade, como compensação de alguns bens perdidos por Paio Peres
em Leiria, ao serviço da rainha. Também esta doação levanta algumas dúvidas sobre os motivos
que estiveram na sua origem, acentuando, igualmente, a incerteza quanto à posição tomada pela
rainha neste conflito fratricida. Se, por um lado, os bens de Paio Peres, localizados em Leiria,
território dominado pelas forças do Bolonhês, tivessem sido destruídos pelos inimigos da rainha
(daí a compensação por ela feita), tudo parece significar que ela estaria fiel ao marido, o rei
Sancho II. Por outro, se os bens perdidos se localizassem não em Leiria, mas nos seus
arredores, poderiam ter sido destruídos durante uma das incursões feitas pelas tropas de
Coimbra (fiéis a Sancho II), ou até mesmo ter sido o próprio rei a mandar fazê-lo como
vingança por ter de regressar a Coimbra, sem a poder trazer consigo. (Nota 27) Poderá inferir-
se, de tudo isto, que houve conivência com o infante? Na verdade, esta personalidade que urdiu
toda uma teia conspirativa para pôr termo ao reinado do irmão Sancho II não era totalmente
desconhecida de Mécia. A rainha deveria tê-lo conhecido anos antes, quando, ainda mulher do
nobre castelhano Álvaro Peres, e, talvez associada a esta corte, se deslocou à corte francesa de
Branca de Castela, na Primavera de 1234, para participar nos festejos da maioridade do futuro
rei Luís IX. Aí vivia aquele que viria a ser conde de Boulogne, por essa época educado com
Afonso de Poitiers, o irmão de Luís. Historiadores como Figanière, Benevides, Herculano ou
mais recentemente Mattoso colocam a hipótese de conluio com o Bolonhês, se não no rapto,
depois nas contrapartidas, que, por esse facto, lhe terá deixado o domínio de Ourém e de outras
propriedades que integravam as suas arras.
125

Opinião discordante tem a historiadora Gaibrois de Ballesteros, considerando mesmo esta


hipótese uma grave acusação, baseando-se em dois factos principais: primeiro, porque se a
rainha estivesse de acordo com o seu cunhado, os seus leais servidores não haviam sofrido
qualquer perda ou dano, nem ela teria tido necessidade de os recompensar, pois Afonso, já
apoderado de Leiria, respeitaria as propriedades dos seus partidários; depois, porque Diogo
Lopes de Haro, irmão de Mécia, combateu a favor de Sancho II no séquito do infante Afonso de
Castela. (Nota 28)

O amor e o testamento régio

Entretanto, após o desaire do rapto da rainha, Sancho II pedira ajuda ao seu primo Fernando III
de Castela. Foi Afonso, o infante herdeiro, que veio em auxílio do primo português com um
importante grupo de homens. Corria o ano de 1246. Esta ajuda castelhana reduziu-se, no
entanto, a uma incursão nas proximidades de Leiria que se saldou em vários mortos e muitos
danos. Por volta de Março de 1247, o infante Afonso regressava a Castela levando consigo o
deposto rei português.

Voluntária ou involuntariamente, Mécia serviu os intentos do cunhado Afonso, que se tornou


regente afastando o irmão do poder e se fez rei após a morte de Sancho II, no ano de 1248.
Talvez porque o abandono da rainha tenha sido um dos mais duros golpes sofridos por Sancho
II, (Nota 29) este não a mencionou sequer no seu testamento feito em Toledo, cidade para onde
se retirou, em 1247. Se os historiadores divergem quanto à personalidade e influência de Mécia
em todo este processo, no amor que o rei lhe tinha todos estão de acordo; isso mesmo é referido
por Benevides, acrescentando que D. Sancho II se achava loucamente enamorado da viuva de
D. Álvaro de Castro. (Nota 30) Também Alexandre Herculano salienta que «a tradição atribuiu
ao monarca um amor ardente por essa mulher». (Nota 31)
126

A ingratidão por este tão grande amor, justificativa da não inclusão do seu nome no último
testamento do rei seu marido, é igualmente salientada por Figanière da seguinte forma:

«(...) é certo, que o ter abandonado seu marido na adversidade foi um acto de ingratidão que
nada pode justificar, mostrando que a heroína de Martos sabia melhor defender um castelo
sitiado pelo inimigo, do que retribuir o amor extremoso que lhe consagrara um príncipe infeliz,
ou ao menos cercear-lhe os amargores do exílio e as saudades do trono perdido». (Nota 32)

Esta justificação não é, novamente, aceite por Gaibrois de Ballesteros que, referindo-se à não
citação de Mécia no último testamento régio, a considera uma frágil base para uma hipótese
acusadora. O silêncio de Sancho é explicado por esta autora de uma forma completamente
diferente, na sua opinião mais provável e verosímil. Segundo ela, sendo redigido quase à beira
do túmulo, visto que faleceu poucos dias depois, o rei não quis sobrecarregar a sua consciência
com inúteis rebeldias ao Sumo Pontífice. Por isso, não fala nem do reino, nem do irmão, nem
de Mécia, pois em cada uma destas situações havia o perigo de se chocar com as disposições
pontifícias. Legalmente, à face da Igreja, não podia aludir à formosa Haro como esposa, visto
que Inocêncio IV considerava pecaminosa a sua consanguinidade; ao nomeá-la no testamento,
faltaria aos preceitos eclesiásticos. Na opinião desta historiadora, foram pois os escrúpulos de
consciência de um moribundo vencido e oprimido que o fizeram prescindir do nome da sua
amada rainha bem como de outras importantes personalidades que o rodearam. (Nota 33)

O regresso a Castela e os bens

Assim que pôde, Mécia retirou-se para Castela. E se não o fez antes, acompanhando o marido
no exílio, foi porque, segundo a mesma autora, o Bolonhês a impediu, não podendo expor-se à
probabilidade de finalmente aparecer o temido herdeiro que tanto tinha evitado.
127

Aliás, um confronto havido entre tropas castelhanas e os partidários do conde, perto de Leiria,
no princípio de 1248, quando o deposto rei português já se encontrava no reino vizinho, poderia
ter como objectivo uma tentativa dos de Haro para resgatar a sua irmã que se encontrava em
Ourém, a poucos quilómetros de Leiria.

Só depois da morte de Sancho II e da subida ao trono de Afonso III, a ex-rainha saiu de


Portugal. Cedeu os seus direitos às vilas recebidas por arras em troca de Villaerrin de Campos,
que adquiriu por escambo aquando da paz entre os reis de Castela e Portugal, no ano de 1253.
Este documento dá conhecimento da composição da Casa desta rainha sem reino; aí assinaram
o seu mordomo-mor, os dois capelães, os dois clérigos, o despenseiro, o chefe de cavalaria e o
alfaiate, para além do seu irmão Diogo Lopes de Haro que, como sombra protectora, sempre
esteve a seu lado. Alguns destes servidores acompanharam-na de Portugal. Na localidade
castelhana de Paredes de Nava34 terá residido até 1257, pois nesta data conhece-se um outro
documento no qual restitui uma aldeia, que dizem Ferreruela, ao Mosteiro de Benbibre.

Durante estes anos preocupou-se em ordenar os seus bens, nomeadamente as suas propriedades.
Logo após a sua vinda de Portugal, teve uma questão com o prior de S. Miguel de Escalada que
lhe disputava a posse de uma aldeia pertencente às arras do seu primeiro marido. A disputa
gerou tal controvérsia que, segundo testemunhas do prior, este desistiu da dita aldeia porque
Mécia ameaçou que o matariam. Ao que parece a aldeia estivera na posse do prior que a der; a
D. Álvaro Peres, entrando, posteriormente, na posse de D. Mécia. Anos mais tarde, por volta de
1255, conhece-se um documento do abade de Aguilar de Campo concedendo à rainha D. Mécia
o Mos teiro de Santo Agostinho com todo o senhorio e um outro do mestre de Calatrava,
outorgando-lhe umas casas em Padilla, Ablanca e Villa Ramiro, a rogo do rei Afonso X de
Castela.

A morte

D. Mécia faleceu em Palência, possivelmente no final do ano de 1271. Deixou por executores
do seu testamento o seu irmão Diogo e Diego Roiz «Doutor dos Frades Menores de Palência».
128

Pela salvação da sua alma mandava que se cantasse, na sua capela, uma missa todos os dias até
ao fim do mundo. (Nota 35) Foi sepultada no mosteiro beneditino de Santa Maria la Real, em
Nájera, na Capela da Cruz, que mandara construir a expensas suas. O seu túmulo assenta em
quatro leões de prata que ostentam no peito o escudo de Portugal. Agora muito deteriorado, o
jacente mostra uma mulher jovem e bela, coifada e envolta num manto. Nas faces do sarcófago
exibem-se de cada lado as armas dos Haro e de Portugal.

Até à morte continuou a intitular-se rainha de Portugal, desse reino onde a sua memória ficou
envolta na negatividade da sua má influência sobre o apaixonado rei e marido que em poder
della enfeytiçado, e ceguo do juízo não conseguiu dela se poder apartar caminhando,
fatalmente, para a sua deposição e para o seu fim. Talvez involuntariamente, pareceu trazer com
ela todos os problemas que no reino aconteceram. O seu casamento com um rei de um reino
mergulhado no caos e na confusão, monarca solteiro, sem filhos e pouco hábil para governar
acabou por despoletar ambições escondidas, riscos, medos e situações que talvez não tivessem
existido sem este casamento. Como escreveu Hermenegildo Fernandes:

«Ao escolher mulher ultrapassados já os 30 anos e ao fazê-lo como e com quem o fez, o rei
abrira a caixa que continha as suas últimas provações, instalada a possibilidade de vir a nascer
um herdeiro, que não parecia interessar a ninguém senão ao próprio: nem ao longínquo Afonso,
nem ao mapa da Hispânia que Berenguela laboriosamente forjava. A de Haro seria o último
capítulo do rei.» (Nota 36)

Como acontece com tantas outras rainhas, a escassa documentação conhecida não permite
grandes rasgos sobre a sua personalidade. Terá sido, por certo, uma mulher corajosa e arrogante
(basta lembrar a forma como enfrentou o exército mouro no Castelo de Martos ou como se
mostrou altiva para com o prior de Escalada), ambiciosa (os seus dois casamentos foram com
homens com assinalada importância política e até ao fim utilizou o título de rainha) e apegada
aos bens materiais (pela forma como lutou e conservou as suas terras e possessões).
129

A memória cronística

Nas memórias cronísticas, Mécia casou com Sancho II com grande escândalo, e nojo dos do
regno, sendo este «assalto» nobiliárquico à realeza visto como o grande responsável pela
instabilidade do reino. Assim, para Rui de Pina, a desordem pública radicava no maao conselho,
daquelles, que sostinham ha parte da rainha Dona Mecia, por cujo favor a esse tempo havia ho
poder, e authoridade e elles tomavam e destruyam do Regno todolo que queriam (...) hos quaaes
maa-les ElRey por fraqueza de coraçam nom castiguava. Mas, se a rainha era a fonte dos
problemas do reino, o facto de o rei nom querer, nem a poder leyxar por molher, apesar de
muitas vezes requerido, amoestado, e aconselhado, que se apartasse desta mulher, e recebesse
outra quaal, aa sua honra, e conciencia convinha, (Nota 37) revelava em Mécia a existência de
superiores poderes, considerando, para mais, incestuoso este casamento, visto por ser seu diujdo
aquém do quarto grão e não aver por elo despemçação. (Nota 38)

Para a estoria da guerra civil de 1245-1248 nas crónicas medievais Mécia desempenha um
papel semelhante ao atribuído à condessa Teresa nas narrativas da realeza afonsina. De facto,
Sancho II começou de seer muy boo Rey e de Justiça Mais ouue maãos conselheiros. E despois
da alli em diante Nom foy Justiçosso. E saiu-se do mando da rainha Berenguela. E cassoosse
com Miçia Lopez. E dês alia foi pêra mal. (Nota 39) Neste contexto interpretativo, para a
cronística medieval portuguesa, Mécia representa o mal de um rei, o onde matauom e
roubauom, furtando e poendo foguo, asy os grandes como os pequenos, (Nota 40) perante um
rei impotente e encantado. De acordo com tal leitura, a deposição de Sancho II e a subida ao
trono do irmão, o conde de Boulogne, seriam fruto da reacção do país à ilegítima e impune
usurpação da realeza por parte da rainha. De facto, se são enigmáticos os contornos deste
enlace, os cronistas evidenciam bem a reacção provocada por este casamento nas várias
camadas da sociedade e as suas funestas consequências. Mécia, qual Pandora, trouxera consigo
a destruição, o roubo, a morte, a ruína e o caos, privando o rei e o seu reino da sucessão e da
prosperidade material.
130

No entender dos cronistas, pouco importava que as intervenções do clero junto do papado
tivessem procurado legitimar juridicamente a deposição de Sancho II, ou que a rainha tivesse
sido raptada por partidários do cunhado com o objectivo de evitar a possibilidade de um
herdeiro da Coroa, se não mesmo ter a própria soberana pactuado com os representantes da
nova ordem emergente, sacrificando o marido pelo reconhecimento do estatuto e direitos, para
isso apontando a sua pacífica residência em Ourém durante a guerra civil. Fundamental
tornava-se desresponsabilizar o monarca dos maales, e danos passados, (Nota 41) atribuindo-os
a uma perniciosa e maléfica desordem feminina do poder régio. O que, afinal, também permitia
ladear o problema da traição feita pelo futuro rei e seus apoiantes a Sancho II.

A fatídica acção desta mal amada rainha leva Rui de Pina a fazer desaparecer a sua morte das
memórias cronísticas, afirmando nada se saber do que della se depois fez (Nota 41) após a sua
ida para a Galiza. Um fim parecido com o relatado pelo conde de Barcelos para a Dama Pé de
Cabra: a nom viraom mais. (Nota 43) Ao contrário de «dádiva de Deus», significado
etimológico do seu nome que vem do hebraico Matathias, (Nota 44) para os cronistas
portugueses Mécia terá sido antes uma nefasta dádiva demoníaca.
6

BEATRIZ DE GUSMÃO

(1244 -1300)

A rainha que deu por casamento a terra dos Algarves


<Quadro genealógico de BEATRIZ DE GUSMÃO: omitido>
Dotada de corpo elegante, e de espírito distinto, avisado e discreto.

João Gil de Zamora (Nota 1)

Origens

Beatriz de Gusmão era filha natural do rei de Castela Afonso X e de Maria Guillén de Gusmão,
neta materna de Maior Gonzalez Giron e de Guillén Peréz de Guzmão. Nasceu em Saragoça,
algures no ano de 1244, visto seu pai, no último dia de Dezembro desse ano, lhe ter feito
doação da localidade de Elche, com reserva de usufruto vitalício para sua mãe. (Nota 2)

O futuro marido

Em meados de Maio de 1253, em Chaves, sendo Beatriz ainda criança, foi prometida por seu
pai ao monarca português Afonso III, que se havia tornado rei por morte de seu irmão Sancho
II. Afastemo-nos, por momentos, de Beatriz para relembrar o percurso ambicioso do seu futuro
marido, considerado por muitos historiadores o verdadeiro fundador do Estado medieval
português, aquele que transformou a monarquia feudal num Estado moderno. (Nota 3)

Filho secundogénito de Afonso II e, por esse facto, afastado à partida do trono saiu ainda jovem
de Portugal. Rumou a França onde viveu cerca de 15 anos na corte de sua tia Branca de Castela,
uma das cortes mais importantes e cultas da Europa coeva.
134

Esta corte terá sido uma verdadeira escola para o então jovem infante, transmitindo-lhe as
novas ideologias que se desenvolviam no reino, contribuindo para a sua formação política,
intelectual e moral e influenciando as reformas político-administrativas que levou a cabo uma
vez alcançado o trono português. (Nota 4)

Com seu primo, o futuro rei São Luís, terá participado em várias operações militares em
território francês. (Nota 5) O eco destas batalhas e da valentia aí demonstrada terão contribuído
para que os grupos descontentes em Portugal, um reino habitado pelo caos e pelo desacerto,
varrido pela guerra e comandado por um rei fraco, o tenham eleito para cabeça da sua revolta e
para repor a ordem e a paz onde grassava a anarquia. O feliz acaso de o rei-irmão não ter tido
descendentes, facilitou a sua ambição de se tornar rei, visto que o respeito pela linhagem se
manteria e o princípio da estrutura familiar não seria lesado. Os bons contactos que Afonso
detinha nos meios afectos à Santa Sé foram muito importantes em todo este processo.

Entretanto, por influência de seu primo, Luís IX, ou mais provavelmente de sua tia, a rainha-
mãe Branca de Castela, casara com a condessa Matilde de Boulogne-sur-Mer (Nota 6) esposa
de elevado grau que traria à França vantagens políticas e a ele estatuto económico e
descendência. Matilde era filha única da condessa Ida de Boulogne e do conde Reinaldo de
Dammartin, pelo que este casamento reforçaria o controlo sobre este território localizado no
noroeste do reino. A noiva era já viúva de Filipe de Hurepel, filho de Filipe Augusto, rei de
França. Viúva e com mais cerca de quinze anos do que Afonso, Matilde detinha um dote
apreciável, sendo vista como a mais rica princesa do seu tempo. (Nota 7) O casamento com
Afonso ter-se-á realizado entre 1238 e 1239 (Nota 8), assumindo, então, o infante o título
condal que guardou durante muito tempo, mesmo após a ter repudiado. Depois do seu regresso
a Portugal (1245/46) e de se ter tornado rei a partir de 1248, nunca a condessa Matilde foi
considerada rainha deste reino. Não se sabe se ela não quis vir ou se ele não a quis trazer. O que
é facto é que o seu casamento deixou de cumprir os objectivos para o qual tinha sido pensado -
o controlo da Coroa capetíngea sobre o seu condado e a impossibilidade de garantir
descendência, dada a sua idade avançada.
135

Os objectivos do casamento

Regressemos a Beatriz e ao seu casamento com Afonso III. Se o primeiro casamento do rei
português havia sido negociado por sua tia Branca, este foi decidido pelo próprio Afonso III. A
necessidade de perpetuar a dinastia, os desejos de criar uma aliança com uma importante
família real e de consolidar a paz, eram os objectivos principais. A pequena Beatriz trazia-lhe
tudo isto e ainda a resolução, com sérias vantagens para Portugal, de um conflito latente entre
este reino e Castela pela posse das terras algarvias. (Nota 9) O facto, também, de Afonso X de
Castela, aquando ainda infante, ter tomado o partido de Sancho II, o soberano deposto, faz
pressupor que as relações entre o rei castelhano e o então rei português não seriam as melhores.

Com este matrimónio, que constituía uma das condições do acordo entre os dois monarcas,
Afonso X ficaria com o usufruto do Algarve até que o primeiro filho varão do casal atingisse os
sete anos de idade, altura em que voltaria à Coroa portuguesa o domínio pleno da região sul.
Dois impedimentos recaíam sobre esta união: para além de Afonso III ser ainda casado com a
condessa Matilde, iniciando uma situação de bigamia, o seu parentesco com Beatriz era muito
próximo, sendo parentes em quarto grau. (Nota 10) Ninguém pareceu, no entanto, preocupar-se
com este duplo impedimento. Alá vam leis onde querem reis, rezava um provérbio popular da
época. Se os reis faziam as leis, não se importavam muitas das vezes em cumpri-las. O próprio
Afonso III, que para conseguir o trono denunciara a consanguinidade existente entre seu irmão
Sancho II e Mécia Lopes, não se importou com os impedimentos consanguíneos e a bigamia.

Matilde, a esposa rejeitada

Uma única voz se fez ouvir - a de Matilde, a esposa repudiada que, denunciando a ilegitimidade
deste casamento, apelou ao papa para fazer valer os seus direitos de esposa legítima.

A historiografia diz que Matilde veio a Portugal quando soube que seu marjdo reynaua em
Portugal, em companhia de cavaleyros e escudeyros, incluindo fidalgos que andarom sempre na
guerra com ele, quando ele era em Framça, para além do filho que ouuera do Comde.
136

Só depois das naos terem aportado a Cascais teria a condessa sabido que o marido era casado
com outra molber. Entre espamtada e incrédula, Matilde enviou então a Afonso III, dois
cavaleiros, registando-se como eles, depois de recebidos e conversados pelo rei, teriam trazido à
sua senhora o marital recado que tornase pêra sua terra, e não fose ousada de sajr em seu
Regno, o que ela, vexada, acabou por fazer, não sem antes, como hums comtom, deixar em
terra o filho que foy trazido a seu padre e sayo muj bom cavalejro. (Nota 11) Rui de Pina,
embora repita esta estoria, duvida de Matilde ter trazido um filho havido de Afonso III, visto o
seu nome, vida e feytos afirmar não achar declaradamente escritos. (Nota 11)

Em Maio de 1255, Matilde conseguiu da Santa Sé uma bula convocando Afonso III para juízo
na Cúria Romana, (Nota 13) o que, como não foi cumprido, originou o interdito sobre Portugal
que se manteve até 1262. Em Maio desse ano, por solicitação dos bispos de Coimbra e de
Lisboa, dos reis de Navarra e de França e de outros elementos da nobreza, o novo papa Urbano
IV levantou o interdito. O clero português apoiava, assim, um casamento celebrado com uma
consanguínea em quarto grau, ainda sem idade núbil e à custa do abandono da mulher legítima,
«esquecendo» uma situação de evidente bigamia para resolver o conflito surgido com a
conquista do Algarve. Em 1258/59 morrera a condessa Matilde e, em 1261, o papa que lançara
o interdito, Alexandre IV. Os prelados portugueses solicitaram, também, a dispensa dos
impedimentos canónicos ao casamento de Afonso III e Beatriz, para que se pudesse validar a
união e legitimar os filhos já existentes e os que entretanto viessem a nascer até à concessão da
dispensa. A bula Qui celestia, de 19 de Junho de 1263, veio legitimar o matrimónio e os três
descendentes já nascidos.

O casamento

Recuemos, agora, aos primórdios desta união. Beatriz não teria mais de nove anos. O seu
marido, Afonso III, andava pelos quarenta.
137

Teria a pequena infanta ficado impressionada com este homem de estatura agigantada, porte
majestoso, olhos pequenos e muito vivos, tez branca e rosada e negros cabelos? (Nota 14)
Obviamente nada lhe foi perguntado, não só pelos seus verdes anos mas, porque a sua opinião
em nada interessava neste tipo de assuntos políticos. Este terá sido, por certo, um dos muitos
casos em que a futura rainha, crescendo nos paços do rei, veria naquele que lhe foi destinado
para casar mais um pai do que um marido. Os primeiros anos terão sido mais de criação e
educação do que de matrimónio, mais de uma relação de pai e filha do que de marido e mulher.
A sua pouca idade mais não o permitiria ou, como escreve António Brandão, não chegaua aos
annos competentes a matrimonio. (Nota 15) Tal como Beatriz, muitas jovens infantas eram
objecto de uma cruel dupla ruptura familiar, não só da família de origem como daquela na qual
as tinham inserido visto que, de um momento para o outro, as figuras quase paternas que as
faziam saltar nos joelhos antes de as mandar brincar, transformavam-se em esposos exigentes.
Chegado o tempo da procriação, e atendendo à já madura idade do marido e rei Afonso III,
havia que rapidamente começar a partilhar o leito conjugal e a fazer filhos para assegurar a
transmissão da Coroa. O tempo urgia!

Beatriz aparece citada nos documentos régios como esposa e rainha de Portugal desde Maio de
1253, (Nota 16), mesmo adhuc infra annos nubiles constitutam, (Nota 17) altura em que
tiveram lugar os esponsórios. Maio era, normalmente, o mês escolhido pelas famílias reais e da
alta nobreza para a celebração dos esponsais e das núpcias. (Nota 18) Desde este ano a Casa da
Rainha (Nota 19) passou também a constar dos documentos régios. Conhecem-se como oficiais
da rainha, dois chanceleres-mores, (Nota 20) dois mordomos-mores, (Nota 21) um almoxarife,
(Nota 22) um porteiro-mor, um reposteiro-mor, (Nota 23) um copeiro-mor, um uchão-mor,
(Nota 24) um saquiteiro-mor, (Nota 25) três capelães, um médico e um escrivão. (Nota 26)

O casamento só terá ocorrido, cinco anos depois, novamente em Maio, do ano de 1258, em
Chaves. A infanta teria feito catorze anos. Apesar de a mulher poder contrair matrimónio
legalmente aos doze anos, ela tinha de esperar pela primeira menstruação para se tornar fértil e
poder procriar. Já o enciclopedista Avicena (980-1037) escrevia que «a mulher precisa da
menstruação para a gravidez, tal como as árvores florescem antes de dar fruto».
138

Assim, quando em algum casamento real a rainha era tão jovem que ainda não tinha
«florescido», o rei esperava para consumar a união. Talvez tenha sido essa a razão do
casamento «tardio» de Beatriz.

Nada chegou até nós sobre a cerimónia nem sobre os convidados. No entanto, atendendo a que
Afonso III assistira à grande festa do casamento de seu primo Luís IX com Margarida da
Provença, na corte francesa, (Nota 27) por certo teria tentado fazer para si uma celebração
semelhante. Por certo Chaves se terá engalanado para receber a pequena rainha, como era
costume à época. Por certo terão havido jogos de cavaleiros, espectáculos de jograis e terão
estado presentes todos os nobres e prelados que faziam parte da sua comitiva.

A descendência

A primeira filha veio ao mundo em Fevereiro de 1259, o que parece comprovar a consumação
do casamento no ano anterior. Afonso III esperara cinco anos que a esposa crescesse para dar ao
reino herdeiros. Nasceu em Santarém (Nota 28) e chamou-se Branca como a sua tia-avó, rainha
de França, a quem Afonso III ficara a dever a sua educação e formação. Dois anos depois,
nasceu em Lisboa o primeiro filho varão e herdeiro do reino, Dinis, assim chamado por ter
nascido a 9 de Outubro, dia de Saint-Denis, o santo patrono e protector dos reis e do reino
francês. Mais uma vez se recordavam antigas vivências do pai em França. O facto de ser um
nome único entre a monarquia portuguesa é talvez a prova do seu amor pela pátria que o
adoptara. Sucederam-lhe, em 1263, o infante Afonso que recebeu o nome do avô paterno,
normalmente atribuído ao primogénito, em 1264, a infanta Sancha e em 1265, a infanta Maria
que faleceu antes de completar um ano. Em 1268, veio ao mundo o infante Vicente, nascido no
dia consagrado ao Santo que será, mais tarde, o padroeiro de Lisboa; faleceu no mesmo ano,
como atesta a inscrição no seu túmulo em Alcobaça. Dois outros filhos são ainda referidos em
algumas fontes embora com pouca informação. São os casos dos infantes Fernando e
Constança.
139

Quanto ao primeiro, Figanière afirma ter falecido em 1262 e estar sepultado em Alcobaça;
(Nota 29) no entanto, a única vez que é referido na documentação reporta-se ao ano de 1269,
pelo que terá nascido e morrido no mesmo ano. (Nota 30) Sobre Constança, Figanière refere
que, embora lembrada em alguns escritos antigos, não há provas da sua existência. (Nota 31)
Por seu lado, António Brandão, embora mencione não ter visto o nome desta infanta em
nenhuma escritura, não coloca em dúvida a afirmação de outros historiadores que declaram ter
Constança morrido muito nova em Sevilha e ter sido trazida para Alcobaça. (Nota 32) Esta
referência deve, no entanto, aplicar-se à infanta Sancha visto os dois nomes surgirem nas
crónicas reportando-se aos mesmos acontecimentos. Sancha e Constança devem, embora com
diferentes nomes, ter sido uma única infanta. (Nota 33)

À data do nascimento do último filho, Beatriz era ainda jovem (andaria pelos vinte e quatro
anos) mas o rei era já praticamente sexagenário e doente. Beatriz cumpriu, generosamente, a
função que lhe estava destinada e pela qual o régio marido tanto esperara. Uma prole numerosa
e também masculina.

Em 1265, Beatriz deslocou-se a Castela com o filho Dinis, que foi conhecer o avô. Este ter-se-á
rendido aos encantos da criança que, pela sedução dos seus verdes anos e enlevo dos laços
afectivos, contabilizou a sua primeira vitória diplomática. O avô mandou, então, retirar do
Algarve o pequeno exército que ali mantinha. A posse do Algarve transformou Portugal,
definitivamente, num reino independente dos reinos peninsulares, de forma a tornar-se um
indispensável aliado nas estratégias geo-políticas entre o Mediterrâneo e o Atlântico. (Nota 34)
Em troca, Afonso III deu-lhe os castelos de Aroche e Aracena, do outro lado do rio Guadiana.

A morte do rei e marido

Corria o ano de 1279 quando Beatriz, à idade de trinta e cinco anos, viu partir aquele que fora
seu tutor, marido e companheiro durante cerca de vinte e seis anos. Recordado como um bom
administrador, Afonso III pôs em prática uma série de medidas que visavam o fortalecimento
económico e financeiro do Estado.
140

O exercício da justiça e a preservação da paz foram duas das suas grandes preocupações ao
longo do seu reinado. (Nota 35)

No final da sua vida, viu-se envolvido em conflitos com a Igreja, tendo sido ameaçado de
excomunhão em 1268 pelo arcebispo de Braga e pelos bispos de Coimbra e Porto, para além do
próprio papa Clemente IV, à semelhança dos reis que o precederam. À morte, Afonso III jurou
obediência à Igreja e a restituição de tudo o que lhe tinha tirado. O abade de Alcobaça levantou-
lhe a excomunhão.

Beatriz foi nomeada sua testamenteira, juntamente com alguns privados do rei. As quase três
décadas que viveu e conviveu com Afonso III terão deixado, se a diferença significativa de
idades mais não permitiu, pelo menos algum afecto. O mesmo se terá passado com o monarca
que, embora casando com Beatriz para firmar o seu controlo sobre o Algarve, ao recebê-la
ainda criança e terminando ele próprio a sua criação terá, para além da estima, nutrido por ela
um sentimento de confiança. A ela se referiu no seu testamento de 23 de Novembro de 1271, e
aí expressou o quanto a prezava:

«E rogo à Rainha D. Brites, minha mulher, pela criação que nela fiz, & por ter nela mais
confiança que em nenhuma coisa da vida (...) que assim o Senhor lhe conceda quem do próprio
modo faça bem por sua alma, & lhe dê bom grado de seus filhos, & veja deles prazeres, que ela
conserve este meu testamento, & faça cumprir bem & do próprio modo que tenho mandado.»
(Nota 36)

Homem de muitas paixões, «vergou indignamente as suas coxas a mulheres de seitas


diferentes», como referiu o autor coevo João Gil, (Nota 37) alegando, possivelmente, à moura
que foi mãe do bastardo Martin Afonso Chichorro e a alguma judia que Afonso III também terá
tido. De facto, foram-lhe conhecidas várias barregãs e filhos bastardos. Se estes amores e
desamores foram, ou não, do conhecimento e do tempo de casado com Beatriz, não se sabe. Das
nove barregãs conhecidas, três, pelo menos, tê-lo-ão sido já depois do casamento. São os casos
de Aldonça Anes da Maia, Teresa Fernandes de Seabra e Marinha Peres de Enxara.

Embora, à época do falecimento de D. Afonso III, Dinis já fosse maior de idade, Beatriz terá
presidido, segundo alguns autores, a um conselho de regência composto por alguns privados de
Afonso III durante um curto espaço de tempo.
141

Segundo António Brandão pareceo bê a muitos que ella gouernasse juntamente com seu filho,
que era ainda muito mãcebo [porque] no Reyno todos tinham um bom conceito da Raynha visto
ser Princesa de singular perfeição & prudência e El-Rey Dom Afonso a admitir a negócios de
muita importância. Acompanhou depois o filho em parte do caminho na primeira viagem que
ele fez pelo reino.38 Permaneceu até 1282 no seu Paço de Torres Vedras, que havia mandado
construir, de onde expediu variada documentação, como a ordem de proibição do embargo da
albergaria da Asseiceira doada à Ordem do Templo. (Nota 39)

Os bens

Além de Torres Vedras, Afonso III doara a Beatriz as vilas de Alenquer e Torres Novas. A
primeira foi-lhe doada em 1253, talvez aquando do casamento. No mesmo ano o rei concedeu-
lhe Alenquer com as suas rendas e direitos, à excepção da alcaidaria que reservou para si. A 28
de Junho de 1277, o rei, a pedido da esposa, doou-lhe o direito do respectivo padroado. A 22 de
Janeiro de 1279, confirmou-lhe o mesmo padroado e cedeu-lhe a alcaidaria. Usufruía, ainda,
das rendas de Arruda, por concessão da Ordem de Santiago e de Vila do Conde e era detentora
de propriedades em Lisboa. (Nota 40)

Também sua mãe, Maria Guillén, ao terminar a sua vida no Mosteiro de Santa Maria la Real de
Alcocer, que havia fundado, deixou a Beatriz, a sua única filha, então com dezoito anos, todos
os bens da família e aqueles que Afonso X lhe havia doado durante a vida, com a condição de
ser a filha de ambos a herdeira.

Mandou construir a Igreja de S. Francisco em Alenquer, no local dos Paços Reais onde a infanta
Sancha, tia-avó do marido recebera os Mártires de Marrocos. Não chegou a ver a obra
concluída. O filho Dinis terminou-a e, sem esquecer a fundadora, ali mandou colocar uma
lápide em honra da muy nobre rainha Dona Beatrix. (Nota 41)
142

Sevilha e o amor pelo velho pai

Em finais de 1282 partiu para Sevilha, para junto do pai Afonso X, que, enfrentando graves
problemas sucessórios, fora deposto nas Cortes de Valladolid desse ano. O seu primogénito
legítimo, e herdeiro do trono, Fernando de La Cerda, morrera em 1275 e Afonso X defendia os
direitos sucessórios do neto Afonso de La Cerda, primogénito de Fernando. Sancho, seu
segundo filho e irmão de Fernando, reclamou a sucessão para si e, recebendo poderosos apoios
à sua causa, revoltou-se contra o pai. Afonso X retirara-se para Sevilha, cidade onde viveu
durante os seus últimos meses, bastante isolado e secundado apenas por um pequeno número
dos seus antigos colaboradores. Apesar de ter deserdado o seu filho Sancho, por decreto, a 8 de
Novembro de 1282, este viria a ser coroado após a sua morte.

Beatriz já estava junto do pai nesta altura. Terá falado com a sua cunhada Maria de Molina na
tentativa de controlar o irmão rebelde, mas a conversa não surtiu efeito. Antes, terá tentado
convencer o filho Dinis a acompanhá-la a Sevilha e apoiar o avô, mas este terá preferido não se
imiscuir num conflito alheio a Portugal. Esta recusa de seu filho terá de tal forma magoado
Beatriz que ela não terá assistido ao seu casamento com Isabel de Aragão em Trancoso. (Nota
42)

O apoio dado por Beatriz ao velho rei, na fase final da sua vida e num momento de solidão e
grande tristeza, foi por ele reconhecido e recompensado. A 4 de Março de 1283, Afonso X fez à
filha doação post mortem, vitalícia, de Moura, Serpa, Nodar, Mourão e ainda da villa de Niebla
com todo o seu reinado e com todos os lugares dos termos, com a condição de que ela não os
doasse ou alienasse de qualquer forma, a Igreja, Ordem ou homem de religião ou a outro
homem de fora do seu senhorio ou a outro alguém. (Nota 43) Teria, vitaliciamente, as
respectivas rendas e direitos que, à sua morte, ficariam àquele que o rei designasse seu herdeiro
em Sevilha. Deveria também (ela ou quem por ela detivesse esses lugares) fazer guerra e paz a
quem herdasse o reino de Sevilha, o qual deveria guardar Beatriz e este privilégio, sob pena de
traição. Isto mesmo pediu ao papa e ao rei de França que lho confirmassem. A importância
desta doação e a preocupação que a mesma não se perdesse comprovam que, embora sendo
uma filha ilegítima, Beatriz seria a mais amada dos seus descendentes como, aliás, o próprio rei
refere, justificando estas concessões:
143

«catando el grande amor e verdadero que falíamos en nuestra filia la mucho onrrada domna
Beatriz por essa misma gratia reyna de Portugal e dei Algarve e la lealdat que siempre mostro
contra nos e de como nos fue obediente e mandada en todas cosas como Bona fiia e leal deve
ser a padre e senaladamente por que a la sazon que los otros nuestros fiios e la mayor parada de
los ornes de nuestra tierra se alçaron contra nos por cosas que les dixieron e les fizieron
entender como no eran. El qual levantamiento fue contra Dios e contra derecho e contra razon e
contra senor natural e veyendo ella esto e conosciendo lo que elles desconocieron desamparo
fiios e heredamentos e todas las otras cosas que avie e veno padecer aquello que nos
padeçiemos para morar connosco. E como quier que era mereçiesse todo el bien que nos fazer
le pudiessemos. Pêro porque luego tan complidamente no lo podemos fazer como nos queremos
daquello que tenemos en nuestro poder damos le por heredat depues de nuestros dias para en
toda su vida...» (Nota 44)

Beatriz esteve presente aos dois testamentos paternos (8 de Novembro de 1283 e 22 de Janeiro
de 1284), tendo sido nomeada sua testamenteira no segundo, ao mesmo tempo que lhe foram
confirmadas as doações anteriormente feitas, estipulando ainda as rendas de Badajoz que ela
receberia em vida. (Nota 45)

Enquanto permaneceu em Sevilha, agraciou alguns dos seus vassalos, como Abril Peres, a quem
doou a granja de Vila Verde de Ficalho, no concelho de Serpa, a 25 de Dezembro de 1283, em
troca dos muitos serviços recebidos e ainda esperados, e Vasco Martins Serrão a quem, a 8 de
Janeiro de 1284, doou o Castelo de Moura pelos serviços que

«(...) mi figerom e todos os mesteres de caminhos que fige nestes reinos de Castella e nos de
Portugal em que mi sempre acompanharom, e os acimados serviços que o dito Dom Vasco e
seus irmãos figerom ai Rey meo marido e Senhor que deus perdoe, ajudando o a deitar os
mouros do Allgarve, no que figerom grandes despezas do que aviam per nosso serviço e
consirando mais como don Álvaro Roiz e seu avo dom Pedro Ruiz façendo guerra aos mouros
tomarom o castello de Moura (...), o qual teve e defendeo com seus amigos e soldados». (Nota
46)
144

A 12 de Março de 1284, doou Mourão a D. Raimundo de Cardona reservando a quinta parte das
rendas durante a vida. (Nota 47)

O regresso a Portugal

Após a morte do pai, ocorrida em Abril de 1284, regressou, cerca de um ano depois, ao seu
Paço de Torres Vedras onde terá vivido até ao final dos seus dias. Aí sofreu o desgosto de ver os
seus filhos Dinis e Afonso defrontarem-se numa guerra civil entre os anos de 1287 e 1299. Aí
comprou casas e campos à volta do seu paço, (Nota 48) aí concedeu e revogou prestamos de
algumas das suas propriedades, fazendo concessões a «criados» seus e a instituições religiosas
em troca de serviços prestados e para salvação da sua alma e de seu defunto marido.

Pelos monges de Alcobaça terá mostrado uma predilecção especial, isentando do pagamento da
jugada (Nota 49) os que lavrassem terras do mesmo mosteiro e fossem sujeitos a esse tributo no
termo de Torres Vedras e concedendo a Igreja de S. Pedro desta localidade ao abade do referido
mosteiro, (Nota 50) bem como a Igreja de S. Miguel também na mesma localidade. Renunciou,
ainda, ao padroado da Igreja de Alenquer, para que o rei seu filho a pudesse outorgar ao
Convento de Odivelas que acabara de fundar. (Nota 51)

Entretanto, em 1289, dez anos depois de ter ficado viúva, por sua iniciativa e do filho Dinis, o
corpo do rei, inicialmente sepultado em São Domingos de Lisboa, foi trasladado para Alcobaça,
para junto de seus pais, de uma sua ama de leite (Elvira Peres) e dos filhos Vicente e Fernando,
já falecidos. (Nota 52) Cumpria, assim, a derradeira vontade testamentária de Afonso III.

Os seus últimos documentos, datados do ano de 1300, consistem na doação da sua quinta da
Rabaldeira à Ordem de Santiago, com todas as suas pertenças e perpetuamente, para remissão
dos seus pecados (Nota 53) e na doação de 300 libras à sua criada Maria Nunes para a compra
de um herdamento vitalício até à morte da dita criada, passando depois para a enfermaria do
Mosteiro de Almoster. (Nota 54)
145

Beatriz terá fundado o primeiro Hospital dos Meninos, (Nota 55) instituição especialmente
dedicada a crianças que não tinham onde se abrigar. Criado em Lisboa, era reservado à
assistência de meninos órfãos, enjeitados ou expostos, que assim deixavam de se misturar -
conforme ocorria até aí noutras instituições de caridade existentes na cidade - com pobres,
mendigos, peregrinos, incapazes e doentes adultos. (Nota 56) Note-se que, à época, um hospital
não era um local de tratamento ou de internamento de doentes, mas mais uma instituição de
assistência aos pobres, independentemente de precisarem, ou não, de cuidados médicos.

A morte

A rainha terá falecido em 1300 (Nota 57), com quase 60 anos, e está sepultada no Mosteiro de
Alcobaça. (Nota 58) Não se lhe conhece a existência de testamento (Nota 59) o que é de
estranhar dada a sua avançada idade, à época. No entanto, as doações anteriormente feitas, quer
a da Igreja de S. Pedro, quer a da quinta da Rabaldeira, são já doações pro anima, dado que são
bens deixados em favor da sua alma. Assim, no texto da doação da igreja é referido que a
mesma se destina pro remédio pecatorum meorum et pro anima, mencionando-se na segunda a
qual quinta eu dou aa sobreditta Ordem por mha Alma e en remymento de meos pecados.

Tanto as doações pro anima como os testamentos faziam parte da preparação individual para a
passagem para o outro Mundo. Mais do que temer a morte, uma realidade familiar e por demais
presente no quotidiano medieval, temia-se a morte súbita sem a preparação recomendada pela
Igreja e que assegurava a salvação eterna. Numa época de grande religiosidade, e dada a
ignorância do dia da passagem para o Além, a parábola das dez virgens conscientes e das dez
virgens néscias, citada nos Evangelhos, devia estar bem presente: «Vigiai, pois, porque não
sabeis em que dia virá o vosso Senhor» (Nota 60) ou «Vigiai e orai, porque não sabeis quando
será o tempo.» (Nota 61)
146

O medo da morte inesperada e a procura da salvação eterna originaram a frutificação dos


testamentos e dos legados aos estabelecimentos eclesiásticos, aos seus clérigos e monges, para
que a lembrança do doador permanecesse sempre viva nas suas orações. O bem material
trocava-se pelo bem espiritual, e surgia associado a várias formas de intercessão salvífica
configuradas na oração, na celebração de missas, na prática de esmolas, afinal no não
apagamento da sua memória.

A própria fundação do Hospital dos Meninos seria também uma fundação pro anima, contendo,
em si, um duplo objectivo - uma função social e uma função espiritual convertida na salvação
da alma do doador. Dar para receber - uma troca de bens entre o homem e Deus, que passava
pelo próximo, neste caso as crianças, mediadoras na terra da salvação da ofertante. Era, pois, a
materialização da caridade da instituidora com fins específicos no post mortem e no pro anima.
(Nota 61)

O dominicano frei António de Fala esteve presente na abertura do seu túmulo, por ordem do rei
D. Sebastião, a 1 de Agosto de 1531, e do corpo de D. Beatriz narra o seguinte:

«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o primeiro dia de Agosto, e jaz inteira como
aquela hora que ali a sepultaram, jaz mirrada segundo parece, a roupa com que foi sepultada
está como aquele dia que ali a puseram, ao menos o lençol, que a colcha que tem debaixo do
lençol estava algum tanto danificada, e já pode ser que o fosse ao tempo que ali a lançaram; jaz
enfeitada, e a cabeça apertada, tem uns cabelos castanhos que parece que foram formosos,
mostra que foram cortados estando doente, porque estão em uma parte mais compridos, que na
outra, e estão mal cortados; tem um lenço na cabeça sobre os cabelos asaz novo; tem calçadas
umas sapatas pretas apantufadas, como naquela hora que lhas calçaram, do pé ainda estão quase
justas ao menos do comprimento: finalmente ela parece ser reverenda mulher em seu tempo.
Alguns dizem que ela tinha hum rabo, e que vinha por parte da mãe, de uma casta que em
Castela nasciam com rabos. Dizem que S. Bernardo lhe tirou este rabo, e mostram um manto
que ela lhe deu por isso. O manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou não, não o acho escrito,
nem menos que ela tivesse rabo, mais que afirmaram-me pessoas lidas nestas historias, que o
leram, que se chamava a Rainha rabuda: ao menos ela agora não tem sinal disto, porque não
faltou fazer sobre isso diligencias para saber a verdade disto.» (Nota 63)
147

Na opinião de Figanière, este boato absurdo terá tido origem no facto de ter sido esta rainha que
introduziu na corte portuguesa a moda das cotas caudatas, ou seja, das saias plissadas que
avolumavam o corpo. Segundo Oliveira Marques, a estátua jacente desta rainha é um exemplo
deste tipo de vestuário. (Nota 64)

A descendência que lhe sobreviveu - Branca, a primogénita

Dos quatro descendentes que ultrapassaram os primeiros tempos de vida, nem todos
sobreviveram a Beatriz.

Branca, a primeira dos sete filhos, nasceu quando o pai tinha quase 50 anos e a mãe 15. Pouco
depois do seu nascimento, Afonso III, por intenção da sua saúde e vida longa, concedeu o
direito de padroado da Igreja de Santa Maria Madalena de Portalegre ao Mosteiro de São Jorge
de Coimbra. Esta doação seria um misto de acção de graças pelo nascimento do primeiro filho
legítimo e pelo perdão dos seus pecados, visto viver em bigamia. Passava pouco dos dois anos
de idade quando o pai lhe fez doação vitalícia, jure hereditário, do Castelo de Montemor-o-
Velho, que havia pertencido a sua tia-avó Teresa, com todos os seus direitos e pertenças. Se
casasse fora de Portugal, ou à sua morte, todos estes bens reverteriam para a Coroa. Em 1277, e
por proposta da abadessa, Branca foi recebida como senhora do Lorvão e todos os seus
pertences, à semelhança do que Teresa anteriormente havia sido. Se a infanta por lá habitou
algum tempo, o que é certo é que entre essas paredes nunca professou. Em 1282, quando
rebentou a guerra civil em Castela, entre o seu avô Afonso X e o seu tio Sancho, acompanhou a
sua mãe para junto do avô em Sevilha. Com a quantia de 100 000 marcos deixada em
testamento pelo avô terá, provavelmente, adquirido a Sancho IV o senhorio do Mosteiro das
Huelgas de Burgos, à frente do qual esteve até à sua morte. Ao longo dos 16 anos em que aí
viveu são muitos os documentos que permitem acompanhar a sua actuação, quer a nível
individual quer como senhora do mosteiro, no qual se empenhou em deixar obra, mandando-o
ampliar e criando, inclusivamente, um hospital.
148

Após a morte do avô regressou com a sua mãe a Portugal, acompanhando-a nos seus últimos
dias, no Paço de Torres Vedras. Interveio por diversas vezes como apaziguadora nos conflitos
que opuseram os seus dois irmãos, Dinis e Afonso, na luta fratricida pelo poder régio, quer em
1287 quer em 1299, e, a pedido de Dinis, foi para junto da rainha Maria de Molina durante a
menoridade de Afonso XI (filho da sua sobrinha Constança e do seu primo Fernando IV de
Castela), demonstrando assim o prestígio e a influência de que gozava junto dos seus familiares.
Desse perfil mundano, o cronista Rui de Pina reproduz a fama de alguns pecados, como o da
existência de um filho bastardo de nome João Nunes do Prado que terá sido cavaleiro e depois
mestre da Ordem de Calatrava, percurso natural para um filho de mãe nobre e solteira. Também
o historiador espanhol Moxó refere a existência de um presumível bastardo desta infanta. (Nota
65)

Almeida Garrett dedicou-lhe o poema D. Branca, e o compositor Alfredo Keil nela se inspirou
para a criação da ópera D. Branca, estreada no teatro lisboeta S. Carlos, em 1888.

Faleceu em Abril de 1321 e está sepultada no Mosteiro das Huelgas de Burgos, local onde
sempre procurou o sossego necessário à reflexão e o conforto amigo da comunidade. (Nota 66)

A Dinis, o infante herdeiro, e a Afonso, o filho que seguiu a Dinis, nos referiremos na próxima
biografia.

A segunda filha de D. Beatriz, a infanta Sancha, nasceu a 2 de Fevereiro de 1264. Aquando da


guerra civil em Castela, foi, juntamente com a mãe e a irmã, a infanta Branca, para junto do avô
em Sevilha, onde acabou por morrer antes de 1284, visto já não ter sido contemplada no último
testamento do avô. Trasladada para Portugal em 1302, está sepultada no Mosteiro de Alcobaça,
junto dos pais.

A memória cronística

Para os cronistas portugueses, Beatriz identifica uma rainha promotora da paz e dispensadora de
territórios que, para além do Algarve, compreendem as terras de várias vilas da fronteira
alentejana dadas em dote pelo pai, Afonso X de Castela e Leão.
149

Segundo Fernão Lopes e Rui de Pina, o aumento do reino permitido pelo casamento de Afonso
III com Beatriz, acabaria por compensar as desprestigiantes origens bastardas da nova rainha e
o facto de o monarca a ter desposado ainda em vida da primeira e efectiva esposa, a condessa
Matilde, expondo-se, desse modo, às censuras eclesiásticas. Para Rui de Pina, em Portugal,
quando se concertou, o casamento com Beatriz, e se fez foy assaas maravilha dos homens que
ho sabiam, assi pela grandeza do dote delle, nom sendo ha Rainha filha legitima, como
principalmente por casar em tempo que ha Condessa de Boulogne ainda era viva. (Nota 67) A
razão, segundo Fernão Lopes, teria sido dada pelo próprio monarca: se em outro dia achase
outra molher que lhe dese outra tanta terra no Regno, pêra o acreçentar loguo casarja com ela.
(Nota 68)

Se ambos os cronistas não deixam de ter cavaleirescas considerações sobre a aspereza com que
o rei repudiara a primeira mulher, em que avia singulares boondades, e vertudes e com quem já
o rei se muito contentara, e honrara de cazar, (Nota 69) o argumento do crescimento do reino
acabou por vingar, contabilizando-se nas terras entradas pacifiquamente na posse da Coroa,
para além de ainda crecerem mais aho Reyno de Portugual, ho Reyno do Alguarve. (Nota 70)
Para Fernão Lopes e Rui de Pina, é neste contexto que se insere a estoria da intervenção da
rainha, atribuindo-lhe um papel central na efectiva incorporação do reino do Algarve na Coroa
portuguesa. Atropelando por vezes a cronologia e deturpando o real significado de alguns dos
factos relatados, acabam por ladear e silenciar qualquer sujeição de Afonso III à vassalagem de
Afonso X.

Beatriz apresenta-se, na cronística, como o inverso de outra transmissora de territórios e


poderes soberanos, a rainha-condessa Teresa, perfilando-se o infante Dinis como um novo e
afortunado Afonso Henriques, graças a uma mãe caracterizada pela generosidade e pela piedade
familiar cuja ausência tão notada e criticada fora na mãe--madrasta do rei fundador.
Mencionada como promotora de boa paz, e concórdia e vista em relação ao marido como
ambos em hum dezejo, (Nota 71) Beatriz é principalmente exaltada nas crónicas de
Quatrocentos e Quinhentos, como filha e mãe modelar.
150

No que diz respeito ao pai, é recordada como a filha a quem

«mostrou ele querer mor bem, e a que mais se devia por serviço e benefícios, e socorros que
dela em suas tribulações mais que doutro algum tinha recebidos, e a que mais desejou
galardoar, e dar muito de seu se pudera».

Elogiosamente, Rui de Pina lembra como ela permaneceu junto de Afonso X até à sua morte,

«para em tantas suas adversidades, e infortúnios, como padecia, ela o socorrer, e confortar, e
aconselhar, utilizando todo o dinheiro de sua fazenda, e com todas as jóias de sua pessoa, e com
todas as rendas, e gentes, que tinha, e podia haver de Portugal». (Nota 72)

Quanto ao filho, a Rainha virtuosa, e aguardecida que para ele obtivera do avô a definitiva
posse do reino do Algarve, recorda-se como zeladora da sua régia honra e dignidade familiar.
Assim, em 1281, quando Dinis governava há três anos e comemorava o seu vigésimo
aniversário, idade asáas conveniente para cazar, atribui-se a D. Beatriz o conselho de um rápido
matrimónio, para teer esperança de lhe dar Deos erdeyro legítimo, que ho socedesse. (Nota 73)

É essa a última memória cronística da rainha. Apesar de ter vivido mais vinte e dois anos, foi
esse o momento escolhido para o seu apagamento na estoria dos reis de Portugal. Começava
então o protagonismo de uma nova soberana, Isabel Peres de Aragão, a primeira rainha de
Portugal pós-Reconquista.
7

ISABEL DE ARAGÃO

(1270- 1336)

A Rainha Santa
<Quadro genealógico de ISABEL DE ARAGÃO: omitido>
Por suas muitas bondades, e grande fremosura

era nas cortes dos Reys,

e Príncipes christãos muyto louvada.

Dona de muy singulares virtudes, era liberal,

piedoza, muy armada de paciência,

muy mansa, sem soberba e sanha.

Rui de Pina (Nota 1)

Origens

Isabel provém do entrelaçamento de várias linhagens reais e imperiais europeias. Oriunda da


prestigiada corte de Aragão, foi a filha mais velha do rei Pedro III e de D. Constança da Sicília.
Foram seus avós paternos D. Jaime e D. Violante da Hungria. O primeiro, dito o Conquistador,
notabilizou-se na conquista dos reinos de Valência e de Múrcia e das ilhas Maiorca e Minorca.
D. Violante era filha de André II da Hungria.

Por via materna, era descendente do Sacro Imperador Romano-Germânico Frederico II da


Germânia, pois o seu avô materno era Manfredo de Hohenstaufen, rei da Sicília, filho de
Frederico II.

Teve cinco irmãos, entre os quais os reis aragoneses Afonso III e Jaime II, para além de outro
monarca reinante, Frederico II da Sicília, e da irmã Violante, rainha de Nápoles pelo seu
casamento com o rei Roberto. Procedia ainda de estirpes de santos. Para além de contar com
uma tia avó homónima, irmã de D. Violante, Santa Isabel da Hungria, modelo de santidade e de
milagres, na sua ascendência mais remota encontram-se outras familiares canonizadas, como
Santa Inês da Boémia, Santa Margarida da Hungria ou Santa Edviges.

Independentemente do prestígio da sua geração, Isabel teve uma ascendência que integrou
personalidades complexas e algo tumultuosas, de tal forma que, no dizer caricatural de Júlio
Dantas, sobre ela pesava «toda a fatalidade doentia da raça, a loucura da Casa de Courtenay, a
degeneração tumultuosa da estirpe de Hohenstaufen (Nota 2), as alucinações de Santa Isabel da
Hungria, o delírio de Humberto, o Santo de Sabóia, a fúria da avó bizantina Eudóxia, a ascese
de Ramiro, o Monge...» (Nota 3)
154

Também Rui de Pina refere a sua ascendência em termos pouco recomendáveis, contando como
o seu trisavô paterno, D. Pedro II, por sua natural condigam, ou por seu vicio era muito dado ás
mulheres estranhas, e muito pouquo á Rainha sua molher, de tal forma que esta só conseguiu
conceber dele através de um estratagema. Com a cumplicidade do camareiro do monarca,
tomou secretamente o lugar da amante na cama do rei... O fruto destes amores de uma noite foi,
precisamente, Jaime I, o avô de Isabel. Igualmente pelo lado materno o cronista não dá uma
imagem muito positiva. Pedro III casou contra a vontade dos pais com D. Constança, filha de
Manfredo, bastardo de Frederico II, imperador da Alemanha, excomungado pelo papa Gregório
IV. Segundo Rui de Pina, Manfredo afogou o seu pai Frederico II para assim se apossar das
riquezas e do trono paterno e esforçou-se por destruir todos os descendentes legítimos de
Frederico II que pudessem pôr em risco as suas ambições. Foi assim que o avô materno de
Isabel se apoderou da herança que pertencia ao irmão Conrado. Também a Frederico II o
cronista considera herege, homem de baixos instintos, cruel e perseguidor da Igreja, digno
sucessor de seu avô, o célebre Frederico I Barba Ruiva, imperador da Alemanha. Numa
ascendência de várias personalidades canonizadas, o bisavô Frederico II, o avô Manfredo e o
pai Pedro III, foram, sucessivamente, excomungados. (Nota 4)

Isabel terá nascido em Saragoça, a 11 de Fevereiro de 1270, no Palácio de Aljafería. (Nota 5)


Para além do profético nome da tia santa com que os seus pais a quiseram honrar, segundo
narra a sua Vida, terá nascido envolta e coberta por uma pele que, após o parto, a mãe mandou
guardar numa caixa de prata que trazia nas suas arcas. (Nota 6)

A infância

As virtudes da sua tia-avó viriam a servir-lhe de modelo.


155

Extremamente devota, desde criança rezava as horas canónicas, fazia jejuns, dava esmolas,
revelando já especial gosto pelo isolamento e meditação. Como que antecipando a sua
tendência pacificadora, o seu nascimento pôs fim às discórdias que lavravam na corte de
Aragão onde o avô, que a apelidava de «rosa da Casa de Aragão», fez as pazes com o filho, pai
da pequena infanta. Assim, como narra o Livro que Fala da Boa Vida que Fez a Raynha de
Portugal, Dona Isabel e dos Seus Bõos Feitos e Milagres em Sa Vida e Depoys Sa Morte,

«quando esta rainha dona Isabel nasceu (...) havia grande discórdia entre elrey D. Jaime e o
infante D. Pedro, seu filho, padre desta Dona Isabel, em tanto que elrey não queria ver seu filho
D. Pedro, nem algum de seus filhos, pêro que, em vivendo elrey D. Jaime, eram já todos os que
houve nados, e escolheu esta Dona Isabel, e criava-a e amava-a muito, dizendo por vezes dela,
que sua criada e neta havia de ser a melhor mulher que sairá da casa de Aragão; e foi em aquele
tempo havido do infante D. Pedro com elrey D. Jaime, seu padre». (Nota 7)

Como já vimos referindo em anteriores biografias, da sua infância pouco mais se sabe, para
além da sua precoce religiosidade narrada na sua lenda. Alguns autores, provavelmente com
base na anterior citação, indicam que a pequena infanta terá vivido os seus primeiros anos em
Saragoça, sob a tutoria do avô, Jaime I; durante esse período, Isabel terá tido os seus primeiros
contactos com os frades franciscanos que mantinham uma relação muito próxima com a corte
aragonesa. Após a morte do avô, em 1276, Isabel terá passado aos cuidados dos pais,
continuando a receber uma formação educacional e religiosa segundo os princípios
franciscanos.

O casamento

Isabel foi desde cedo pretendida por vários herdeiros das Casas reais, como foram os casos de
Inglaterra, de Nápoles e da Sicília.
156

Também em Portugal, «havendo dois anos que elRey D. Dinis reinava, (...) ouvindo a fama e
bondade da Infante, desejou de a haver por mulher. E estando em Estremoz, ordenou seus
procuradores (...) a pedir a elRey de Aragão seu padre». (Nota 8)

Para Portugal, a aliança com Aragão era valiosa, visto este reino deter uma importância
fundamental na política e na economia mediterrânicas. Para além disso, se Portugal estava
definido para sul, para lá da difusa linha fronteiriça afirmava-se o poder do rei de Leão e
Castela senhor do mais poderoso reino em extensão e em recursos militares da Península. A
aliança com Aragão dificultaria as ambições do rei vizinho em dirigir a sua política
expansionista para Portugal, ao mesmo tempo que iria alterar os rumos das forças e do poder na
Península Ibérica. De facto, Dinis era fruto da aliança de seu pai, Afonso III, com Afonso X, rei
de Castela, quando o monarca português se casou com Beatriz, a filha bastarda do rei
castelhano.

Independentemente destes factores de natureza político-económica, também D. Dinis preferiria


ter junto de si uma esposa que fosse formosa, culta, inteligente e virtuosa, como dela constava
ser. Não era ele também um rei culto e trovador? Ora Rui de Pina refere-se a Isabel como a

«Infanta que por suas muitas bondades e grande formosura, era, nas Cortes dos Reis e
Príncipes, muito louvada, e por isso se requeria deles, grandes e mui altos casamentos.» (Nota
9)

Se para Portugal essa aliança significava uma possibilidade de se unir a um reino de forte
presença no Mediterrâneo, vejamos, os interesses de Aragão. Escreve a Vida de D. Isabel que,
dos pretendentes à sua mão, foi Dinis o escolhido por D. Pedro, ao considerar que o rei
português reunia melhores condições que os outros visto que

«era já rei e que sua filha de sua casa partiria com nome de rainha, e considerando em como
elrey D. Dinis e ele não haviam tanto de parentesco, nem d'outro divido, porque de direito se
embargar pudesse este casamento, nem cumprisse para tal casamento dispensa do papa, e que
assim casar podiam sem embargo». (Nota 10)
157

De facto, os laços de consanguinidade entre ambos remontavam ao tetravô Frederico I, Barba


Ruiva, antigo imperador da Alemanha, conforme se pode observar na respectiva genealogia.
Para além disso, se a filha que então entregava se prestigiava pelos feitos da Reconquista e pelo
carisma da santidade, D. Dinis prestigiava-se por ser herdeiro de uma estirpe fundadora de um
reino.

O casamento da filha de Pedro III com o rei Dinis deve ser entendido também no contexto dos
projectos políticos do monarca aragonês e das dificuldades que atravessava. De facto, para D.
Pedro, essa aliança trazia-lhe vantagens políticas, uma vez que o seu reino estava envolvido em
vários conflitos, principalmente com a França e com o papado. Concretizemos, resumidamente,
esta situação.

Quando Pedro III assumiu o governo do reino de Aragão, em 1276, continuou as profundas
alterações iniciadas durante o reinado de seu pai, Jaime I, possibilitando ao reino aragonês um
significativo desenvolvimento económico e político. No plano externo, o seu reinado centrou-se
na expansão da Coroa de Aragão no Mediterrâneo, aproveitando o seu matrimónio com
Constança da Sicília para reivindicar a Coroa siciliana. Constança era filha e herdeira de
Manfredo, o último descendente do imperador Frederico II Hohenstaufen a intitular-se Rey
dambas as Cezílias, isto é, do reino formado pela ilha propriamente dita e pelos territórios
meridionais italianos que fariam parte do posterior reino de Nápoles. Enquanto senhor do Reino
das Duas Sicílias, Manfredo teve um poderoso opositor em Carlos de Anjou, o irmão de Luís
IX de França cujos direitos aos territórios antes governados pelo imperador eram apoiados pelo
papado. Quando Manfredo foi derrotado e morto (1266), os angevinos tornaram-se senhores de
Nápoles e da Sicília, com o apoio do papa Clemente IV, que não desejava nenhum soberano
Hohenstaufen no sul da Itália. Porém, numa revolta contra o poder dos de Anjou, seguida da sua
expulsão, Constança fez valer os seus direitos sucessórios. (Nota 11)
158

Não nos vamos alongar sobre esta questão, até porque se afasta da nossa biografada. O rei
aragonês conseguiu manter a sua linhagem no reino da Sicília, face às agressões de Carlos de
Anjou e do papado, que o excomungou em 1282, defendeu os seus territórios das agressões
francesas, e, por este facto, acabou por se envolver directamente na sucessão do rei castelhano
Afonso X. Como já em outras situações referimos, em Castela grassavam os conflitos entre o
rei Afonso X e o seu filho Sancho, opondo os partidários deste aos apoiantes dos filhos do
infante Fernando de La Cerda, primogénito falecido de Afonso X. Aqui terá o rei aragonês visto
em Dinis o mediador ideal para o conflito, com o objectivo de travar a aproximação de Afonso
X com a França, que apoiava os infantes de La Cerda, e dificultar o projecto do rei de Castela.
A união entre Aragão e Portugal, com apoio deste último reino ao infante Sancho IV de Castela,
anularia as tentativas de estabelecimento de uma aliança castelhana, dirigida por Afonso X, com
os inimigos declarados de Pedro III. Como também anteriormente referimos, D. Dinis desde
cedo apoiou o primo Sancho em desfavor do avô Afonso X, apoio que lhe valeu o desagrado da
sua mãe, a rainha D. Beatriz de Gusmão.

Para além destes factos, há ainda a destacar a constante ameaça muçulmana, que exigia uma
Península apaziguada, unida e controlada.

Tudo isto terá, provavelmente, estado na base da aproximação com Portugal, ao casar sua filha
Isabel com Dinis, mas igualmente com a Inglaterra, ao casar seu filho, o infante herdeiro
Afonso, com Leonor, filha de Eduardo I.

As negociações para o casamento foram demoradas, com a troca de embaixadas entre os dois
reinos. Iniciadas em 1280, o casamento por procuração realizou-se em 11 de Fevereiro de 1281,
em Barcelona. (Nota 12) A infanta prestou o seu consentimento nos seguintes termos:

«Eu, Isabel, filha do ilustríssimo D. Pedro, por graça de Deus, Rei de Aragão, entrego o meu
corpo como legítima esposa a D. Dinis, Rei de Portugal e do Algarve ausente como se estivesse
presente, e presto o meu consentimento para este matrimónio a vós mencionados
procuradores.» (Nota 13)
159

Desde a data do casamento em Barcelona até à chegada a Trancoso passaram-se um ano e 4


meses aproximadamente. Apesar da distância e dos preparativos da viagem e da comitiva, a
complicada situação em Castela fez com que D. Pedro de Aragão fosse demorando a viagem da
filha para o seu futuro reino. O trajecto apresentava-se problemático, já que ocorria numa altura
em que o rei de Castela, Afonso X, lutava contra o filho, o infante Sancho, sendo este apoiado
pelo monarca de Aragão, seu tio materno. Num tal contexto, em que a travessia de Castela era
desaconselhada a régias e numerosas comitivas aragonesas, foi com grande apreensão que
Pedro III se despediu da filha, a cousa do mundo a que melhor queria e mais amava. No dia da
partida, acompanhou-a até à fronteira da Catalunha. E ao deixá-la abraçava-a chorando, por ver
partir a filha da sua grande affeyçam. Acompanhavam-na, na sua viagem para o novo reino,
cavaleyros, os milhores de sua terra, e donas e donzelas, aquelas que lhe compriam, para além
de riqua e grande bayxela de prata. Recebeu, ainda, de seu pai um dote de cem mil maravedis e
jóias. Isabel foi, assim, a primeira rainha de Portugal a receber dote de seu pai. (Nota 14)

Portugal e Aragão firmaram, entretanto, com D. Sancho de Castela um acordo de paz e


amizade. Também aqui, o matrimónio da infanta Isabel com o rei Dinis significou uma aliança
política entre Pedro III de Aragão, o monarca português e Sancho de Castela, com vantagens
para os três intervenientes. A Coroa aragonesa procurava aliados que dessem sustentação legal à
política de dominação sobre o reino da Sicília e o Mediterrâneo, contra a França, que, como já
referimos, disputava igualmente aqueles territórios com apoio do papado. Para Castela, essa
aliança atendia às ambições políticas do infante castelhano, assegurando-lhe a sucessão do
trono contra as pretensões da rainha-mãe D. Violante, viúva de Afonso X, que preferia os netos
infantes de La Cerda, apoiados pela França. Para D. Dinis, o acordo trazia-lhe potenciais
aliados na luta contra o seu irmão Afonso, representante máximo das revoltas da nobreza contra
o rei português. De facto, nas negociações do casamento, tanto o rei aragonês como o infante
castelhano D. Afonso, solicitaram a D. Dinis que colocasse um fim às ingerências do irmão na
política do reino.
160

O casamento da infanta inseria-se, assim, num conjunto de estratégias familiares, dinásticas e


políticas pela hegemonia ibérica nos finais do século XIII e início do XIV, revelando, também,
uma disputa a nível internacional envolvendo o reino francês, o conde de Anjou e o papado.

Regressando à viagem da infanta do seu reino de nascimento para o seu reino de casamento, o
rei de Castela tudo fez para que a nova rainha de Portugal atravessasse o seu território com toda
a segurança e comodidade. Para isso, veio ao seu encontro e incumbiu o seu irmão, D. Jaime, de
o representar e de continuar com os seus homens no séquito da rainha. Prenunciando já o cariz
apaziguador que se irá revelar em outros episódios da sua pública carreira de rainha, narram as
crónicas como, contra todos os receios, a infanta não encontrou guerras nem combates na sua
viagem, antes a homra, o bom trato e o serviço prestado pelos castelhanos, como se as
violências e os perigos esperados tivessem dado lugar a um festivo cortejo matrimonial
hispânico. (Nota 15)

Acompanhada das arcas com o seu enxoval, dos seus confessores, das suas camareiras e dos
seus criados, Isabel de Aragão entrou em Portugal pela fronteira perto de Bragança, onde foi
recebida pelo infante D. Afonso, irmão de D. Dinis, com muitos cavaleiros e prelados.
Dirigiram-se, então, para Bragança, onde D. Isabel e a comitiva estiveram o tempo suficiente
para descansar e se prepararem para o trajecto até Trancoso onde o rei os esperava. Não se sabe
exactamente a data da chegada, referindo alguns biógrafos o dia 24 de Junho, festa de S.
Bartolomeu. Não se conhecem, no entanto, documentos. Sabe-se que no dia 26 já lá se
encontravam, pois nesse dia o rei publicou um documento de doação de Trancoso à rainha
como presente daquilo que ele referiu na primeira vista que tivemos vossa.

Embora as igrejas estivessem fechadas e os fiéis se encontrassem privados das bênçãos e dos
actos solenes, devido ao interdito papal que impendia sobre o reino (que explicaremos mais à
frente), fizeram-se

«bodas grandes e ruidosas, com os velhos ricos-homens trovadores e os moços trovadores,


criados com o moço rei, à compita nos jogos de armas e cantares, nas alegrias e folguedos. E os
festejos prolongaram-se em Trancoso por todo o mês de Julho». (Nota 16)
161

O povo comeu, bebeu e comemorou pelas ruas da vila, em volta das fogueiras e dos animais
assados durante dias e noites a fio. Houve festas em honra dos reis mas, principalmente, da
jovem rainha que despertava grande curiosidade e os populares ansiavam ver.

Nesta vila esteve o régio casal até ao fim de Junho. Partiram, depois, para a Guarda, onde se
detiveram até fins de Setembro. Seguiram, então, para Viseu e a 15 de Outubro já se
encontravam em Coimbra.

D. Isabel de Aragão recebeu como arras as vilas de Abrantes, Óbidos, Alenquer e Porto de Mós.
Posteriormente deteve ainda os castelos de Vila Viçosa, Monforte, Sintra, Ourém, Feira, Gaia,
Nóbrega, Santo Estêvão de Chaves, Monforte do Rio Livre, Portel e Montalegre, para além de
rendas em numerário e das vilas de Leiria e Arruda (1300), Torres Novas (1304) e Atouguia
(1307). Eram ainda seus os reguengos de Gondomar, Rebordões, Codões, para além de uma
quinta em Torres Vedras e da lezíria da Atalaia. Ao contrário do que era comum até aí, D. Dinis
concedeu à rainha a jurisdição civil e criminal em todas as terras de doação, havendo, no
entanto, apelação para o rei no caso de pena de morte. (Nota 17)

Os dois descendentes de um longo matrimónio

A 3 de Janeiro de 1290, provavelmente em Coimbra, nasceu Constança, a primeira filha de


Isabel e Dinis. A infanta nasceu sob os melhores auspícios. O pai, para além de ter voltado a
derrotar uma rebelião armada do seu irmão Afonso, tomara conhecimento da bula do papa
Nicolau IV, datada desse mesmo ano, aceitando a criação dos Estudos Gerais de Lisboa, raiz da
futura universidade.

Com o baptismo, a infanta não só recebeu o nome da sua prestigiada e riquíssima avó materna,
Constança de Hohenstaufen, rainha de Nápoles e da Sicília, como também uma rica bagagem
cultural herdada do lado materno. O segundo e último descendente de Isabel e Dinis, o infante
Afonso, nasceu a 8 de Fevereiro de 1291, em Coimbra. O reino esperara dez anos para ver
nascer o tão ansiado herdeiro. Os interesses político-diplomáticos das monarquias portuguesa e
castelhana convergiram para os casamentos dos respectivos filhos.
162

Assim, logo no ano seguinte ao nascimento de Constança, num encontro entre seu pai e o rei de
Castela na povoação leonesa de Ciudad Rodrigo, combinou-se o seu matrimónio com o
herdeiro da Coroa castelhana, o infante Fernando, então com quase 7 anos.

Como garantia deste futuro matrimónio, Sancho IV de Castela prometeu a Dinis que deixaria
em mãos portuguesas vários e importantes castelos e vilas, como os de Moura, Serpa e Cáceres.
Por seu lado, o rei português cedia as cidades da Guarda e de Pinhel. A concretização desta
aliança sofreu sérios riscos com a morte de Sancho IV e com a crise de sucessão que se lhe
seguiu. Fernando, então com dez anos de idade, e Constança com cinco, ainda não percebiam
nem se preocupavam com os conflitos dos adultos. Após dois anos de guerra, foi ratificado o
compromisso matrimonial de Constança de Portugal com o rei de Castela em Alcanices, a 12 de
Setembro de 1297 e do infante Afonso de Portugal com a infanta Beatriz de Castela, irmã de
Fernando.

«Pouca era a idade dos contraentes. Deles o que mais anos tinha, era elRey Dom Fernando, que
então perfazia onze e nove meses. A Infanta Dona Brites sua irmã não tinha quatro anos
perfeitos, sendo seu nascimento na cidade de Toro no ano de mil duzentos e noventa e três. O
nosso Infante Dom Afonso não chegava a sete completos. Sua irmã a Infanta Dona Constança
um ano tinha mais, mas não enchia ainda os oitos perfeitamente. ElRey Dom Fernando se
desposou por si com a Infanta Dona Constança, e o Infante Dom Afonso por procuradores com
a Dona Brites, na forma que nestes casos dispõem o direito.» (Nota 18)

Oito meses passados sobre o seu sétimo aniversário, Constança foi entregue aos cuidados da
sua futura sogra, a rainha-mãe e regente de Castela, D. Maria de Molina. Com efeito, ao
contrário dos rapazes, que mantinham a patrilocalidade ao serem prometidos em esponsórios,
nas raparigas nobres era frequente o abandono da casa paterna quando atingiam a idade
requerida para o permitir, ou seja, a partir dos sete anos para os prometimentos ou esponsórios,
por vezes mesmo antes, ou desde os doze para um já efectivo casamento.
163

Para tentar minorar as perturbações afectivas que esse corte vivencial acarretaria, prevalecia o
princípio de as procurarem confiar aos cuidados de mulheres de uma mais ou menos próxima
parentela, ao mesmo tempo que as faziam acompanhar, na sua transferência familiar, por alguns
daqueles que lhes haviam seguido os primeiros tempos, como era o caso das amas, aias ou
serviçais. Constança levou consigo, como camareira-mor, Vataça Lascaris, grande amiga de sua
mãe.

Em meados de 1301, enquanto em Castela a peste fazia estragos, chegavam de Roma as bulas
de legitimação do nascimento dos infantes castelhanos e dos respectivos matrimónios, dado
serem primos em 2.° grau e a lei canónica, segundo o estabelecido no IV Concílio de Latrão,
em 1215, proibir casamentos até ao 4.° grau de consanguinidade. Assim, para além de Sancho
IV e Maria de Molina serem primos (união agora legitimada), também o príncipe herdeiro de
Portugal, D. Afonso, e D. Beatriz, assim como D. Fernando de Castela e a infanta portuguesa D.
Constança eram primos segundos, uma vez que eram bisnetos do rei de Aragão, Jaime I, o
Conquistador, avô da rainha Santa Isabel. D. Afonso e D. Constança, assim como D. Beatriz e
D. Fernando eram bisnetos de Fernando III, pois D. Beatriz, mãe do rei D. Dinis e Sancho IV,
rei de Castela, eram irmãos por parte do pai, Afonso X.

Em Janeiro de 1302 realizou-se, a boda, em Valladolid, tendo Constança a idade de 12 anos e


rondando Fernando os 16.

Com 17 anos de idade, deu à luz a sua primeira filha, a infanta Leonor de Castela, que não viu
crescer nem pôde ajudar nos difíceis momentos pelos quais passou. Quatro anos mais tarde, a
11 de Agosto de 1311, nascia o desejado infante herdeiro, futuro Afonso XI de Castela.
Constança não tinha, no entanto, muitas razões para estar contente. D. Fernando encontrava-se
gravemente doente e, se morresse em breve, como tudo fazia prever, havia grandes
possibilidades de ela vir a tornar-se presa fácil das várias facções nobiliárquicas cujos interesses
se entrecruzavam e digladiavam. As conjuras e conspirações internas levaram o régio casal a
acordar o casamento da pequena Leonor com o herdeiro do monarca de Aragão, tio de
Constança. Em Janeiro de 1312, confrontando-se com a incerteza do que poderia ocorrer após a
morte do marido, Constança viu-se obrigada a entregar a filha, com cerca de 4 anos de idade, à
família aragonesa de sua mãe para que fosse levada para o seu novo reino, onde seria criada e
casada.
164

Enviuvou nesse mesmo ano, em Setembro. Afonso, com um ano de idade, era o herdeiro do
trono. A rainha foi nomeada regente mas não conseguiu impor-se num reino em alvoroço.
Novamente se abriu um conflituoso período de regência, disputando-se a tutoria deste rei-
menino.

Completamente isolada pediu ajuda ao pai e, com a orientação da rainha D. Isabel que
influenciava a filha através de D. Vataça, escreveu repetidas vezes ao tio, Jaime II de Aragão,
pedindo-lhe apoio na defesa dos interesses de seu filho Afonso sabendo como ele iria ser alvo
fácil para todos os que dele se queriam apoderar. (Nota 19) Entregara a sua pequena filha ao tio
e dele esperava, agora, ajuda. As imbricadas teias do poder e da ambição levaram a que nem o
pai nem o tio a apoiassem a tempo. Por doença física ou por desgosto, isolada e passando
mesmo por dificuldades materiais, Constança, infanta de Portugal e rainha de Castela, acabou
por falecer, triste e desamparada, a 18 de Novembro de 1313, com 23 anos apenas, deixando à
sua sogra a educação do jovem Afonso, nesse tempo com 3 anos de idade. (Nota 20)

A rainha culta

Foi D. Isabel uma mulher inteligente e culta. Soube tomar conta do vasto património que lhe
pertencia e dela se conhece uma significativa epistolografia na qual, entre outros assuntos,
viabilizava negócios e reclamava dívidas e penhoras. (Nota 21)

Na administração das suas propriedades soube, igualmente, rodear-se de competentes


funcionários, sem esquecer o corpo feminino que a coadjuvava, as camareiras e as aias. (Nota
22) Neste séquito merece especial destaque a sua fiel amiga e confidente Vataça Lascaris, filha
de uma princesa bizantina, que acompanhou Isabel na sua vinda para Portugal. Mais tarde
encarregada da educação da infanta Constança, com esta viajou para Castela aquando do seu
casamento só regressando a Portugal após a sua morte.
165

Durante a sua estadia em Castela continuou sempre a manter contacto com D. Isabel,
informando-a do que lá se passava. (Nota 23)

Isabel dominava oralmente, e por escrito, o castelhano, o catalão e o português. Entendia o


latim e teria conhecimentos de música, chegando a corrigir os clérigos quando estes se
enganavam nas leituras ou no canto.

Teria conhecimentos de engenharia e arquitectura, idealizando, orientando e vigiando algumas


das suas obras, nomeadamente a construção do seu túmulo e do da sua homónima neta. Refere
Sebastião Rodrigues que era ela que fazia o traçado do projecto, corrigia o trabalho feito, dava
instruções precisas e ensinava os mestres-de-obras de tal forma que eles se admiravam do saber
da rainha. O próprio rei a encarregou de orientar a construção de nobres moradas para si e para
os seus fidalgos.

Igualmente saberes sobre medicina e enfermagem não lhe seriam estranhos. O contacto da
rainha com os físicos da Casa real, bem como a sua apetência pelo saber, proporcionou-lhe a
aquisição de conhecimentos para tratar doentes. O mesmo autor relata uma cura documentada
perante o bispo de Lisboa, na qual a rainha estancou a hemorragia de uma ferida na cabeça de
um leproso, mandando aplicar clara de ovo, substância que tem uma acção aceleradora da
coagulação sanguínea e que isola feridas. (Nota 24) Também com o marido foi solícita e
carinhosa enfermeira aquando da sua doença, referindo Rui de Pina como a rainha esteve
sempre presente e nas couzas de sua cura, e remédios era deligente, tendo-se apercebido que
has afiquadas dores, e payxoens da doença delRey pareciam mortaaes. (Nota 25)

Uma mezinha para as mulheres conseguirem ter leite para amamentar era, já após a sua morte,
dada pelas freiras de Santa Clara em nome da Rainha Santa, feita à base de pelo de uma
gallinha branca. (Nota 26)

A rainha devota

A rainha era também piedosa e devota. Crescida numa corte que, para além de possuir ligações
a dinastias da Europa Central onde floresceram santas e beatas entre as rainhas e princesas,
tinha uma forte influência franciscana, a sua educação reflectiu esses ideais religiosos.
166

Jaime de Aragão, seu avô, patrocinou uma primeira tentativa de canonização dos Mártires de
Marrocos. Seguindo o modelo de santidade da sua homónima tia-avó, a caritativa soberana da
Hungria, D. Isabel comungou dos ideais de espiritualidade franciscana. Votada ao serviço de
Deus, nele se compreendia, como especificam as crónicas, múltiplas e absorventes tarefas. Lia
o breviário e outros livros de cousas devotas, per que orava a meude, com muitas lágrimas, com
as suas donas e donzelas, rezando em conjunto as horas canónicas. Ouvia diariamente missa na
sua capela própria, comemorava os santos, jejuava três vezes por semana e ainda pelas
festividades de calendário litúrgico, ordinário e santoral, o que representava uma prática
sacrificial a pam e aguoa duas partes do ano. Embora se confessasse frequentemente,
comungava apenas no Natal, na Páscoa e no Pentecostes, como era comum à época. Na
Quaresma tentava reviver o sofrimento e sacrifício de Cristo; na Quinta-Feira Santa dava
comida e roupa a gafos e pobres e lavava os pés a treze molhe-res pobres enverguonhadas; na
Sexta-Feira lavava os pés ha doze homens, hos mais leprozos que se podiaõ achar, e esto fazia
assi secretamente que Elrey particularmente ho nom soubesse. Estas cerimónias, invocando o
momento em que Cristo cumpriu este ritual com os seus discípulos, invertendo as hierarquias
sociais, constituíam um dos mais propagados rituais de penitência dos poderosos e de exaltação
dos humildes; na Sexta-Feira Santa a rainha distribuía esmolas vestida com os panos mais
rudes. Durante todc o ano fazia peregrinações a pé a muitas igrejas distribuindo esmolas pelos
caminhos, ao mesmo tempo que repartia o pão dos seus celeiros por humildes e religiosos. Uma
tal entrega espiritual, traduzida numa postura social onde a omildade e a paciência
neutralizavam qualquer manifestação de ira ou de sanha, tinha ainda como complemento uma
valorizada assistência a pobres, veuvas e orfrãs. Suavizando-lhes carências, sofrimentos e
dores, a rainha por eles adquiria a condição de piedosa madre dos necessitados e
desfavorecidos, neles se incluindo os doentes, mesmo os leprosos, hos mais danados que
podiam achar, a quem lavava pústulas, beijava chagas e dispensava milagrosas curas, negando-
se a ouvir quaisquer louvores ou agradecimentos. (Nota 27)
167

A sua devoção foi também visível na arquitectura religiosa. Em Almoster acabou o mosteiro
cisterciense que Berengária Aires não conseguira completar antes de morrer, dotando-o do
claustro, da enfermaria e de outras casas. (Nota 28)

Na margem esquerda do Mondego, em frente à cidade de Coimbra, D. Isabel mandou erguer,


em 1314, o Mosteiro de Santa Clara, no local do primitivo núcleo de monjas clarissas fundado
em 1283 por D. Mor Dias. Este templo inscreve-se numa conjuntura de gradual influência e
aceitação da Ordem dos franciscanos na corte e na sociedade em geral, e à qual, como já
referimos, D. Isabel era particularmente dedicada. Contíguo ao mosteiro mandou igualmente a
rainha construir um paço para si onde, após a morte de D. Dinis, se recolheu, desenvolvendo à
sua volta uma corte muito ligada às práticas das clarissas. Santa Clara de Coimbra cedo se
tornou um local de eleição para damas nobres, muito devendo à presença da rainha. Neste local
mandou, ainda, D. Isabel construir um hospício para recolhimento de pobres de ambos os
sexos, podendo albergar até 30 pessoas, número muito elevado para a época. Os doentes eram
aí tratados não só do corpo, com alimentação e cuidados adequados, mas também da alma,
através da presença de um capelão e da visita frequente da sua padroeira. (Nota 29) A relação
entre o paço da rainha e o hospital era de tal forma próxima que a comunicação entre ambos se
fazia através de um arco. Através desse arco a Rainha por vezes vinha visitar os que em este
Espital erom enfermos, e per si apresentava a eles o que haviam de comer. (Nota 30)

A caridade e a assistência - gestos de uma rainha medieval

Na Cristandade sempre se compreendeu a assistência ao pobre como um dever de religião e


piedade. Cristo Redentor foi pobre do presépio até à cruz e sepultura, e na sua doutrinação
transfigurou o pobre na sua própria pessoa: «O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim
o fazeis: dando-lhe de comer e beber, a mim matais a fome e a sede; vestindo-o na sua nudez, a
mim agasalhais; visitando-o quando enfermo ou na prisão, a mim visitais.» (Nota 31)
168

Durante grande parte da Idade Média, a assistência aos mais necessitados da sociedade não era
entendida como uma função régia mas sim como uma obra reservada à Igreja regular ou secular
e por ela assumida numa perspectiva caritativa. Os séculos XII e XIII foram na Europa cristã
época de intenso revivescer do espírito religioso e de piedade pelo Cristo pobre e sofredor, cujo
ideal de ajuda ao próximo se deveria imitar. Portugal que, por então, se consolidava e crescia
com a reconquista das regiões do centro e do sul, alinhou neste movimento de espiritualidade e
de misericórdia cristãs. As primeiras instituições de assistência que se conhecem no território
português estão ligadas a mosteiros. Ao longo destes séculos, surgiram por todo o reino
pequenos estabelecimentos assistenciais dos mais diversos tipos e nos mais diversos lugares.
Paralelamente, começou a verificar-se a crescente intervenção dos leigos, quer particulares quer
através de confrarias, na fundação destes estabelecimentos. Este processo culminou nos séculos
xm e xiv, fruto não só da acção da teologia mendicante, especialmente da franciscana, mas
também da conjuntura recessiva de Trezentos que fez aumentar o número de pobres,
principalmente nos centros urbanos, situação sempre propícia à religiosidade e à entreajuda.
(Nota 32) A assistência traduzida na fundação de hospitais e albergarias só por volta dos
últimos séculos medievais foi entendida como uma função inerente ao poder real.

Em biografias anteriores já referimos a fundação de instituições assistenciais por parte de


algumas rainhas; constituíam, no entanto, fundações ou doações pro anima transformadas em
obras de misericórdia que cumpriam, simultaneamente, uma função social, ao dirigir as dádivas
para os mais necessitados, e uma função redentora, competindo aos beneficiados «apagar o
pecado» do doador, através de missas e orações pela sua sobrevivência eterna. Se era uma
dádiva despojada de recompensas materiais, não o era quanto às espirituais.

Foi neste contexto de ideias e de factos que D. Isabel viveu. A sua avultada fortuna e a sua visão
mais ampla e caritativa levou-a a preocupar-se com a instituição de formas mais duradouras de
assistência aos desvalidos. Com uma parte das rendas das suas vilas e de outros bens, dedicou-
se à realização de obras caritativas e de assistência, numa atitude coerente com os seus ideais
franciscanos.
169

Vestia os pobres e dava-lhes de comer e de beber, visitava os doentes, remia os cativos, protegia
os desprotegidos e resgatava os insolventes. Estes actos individuais foram acompanhados de
outros mais colectivos e de maior visibilidade.

O exercício da caridade e da assistência é, sem dúvida, um dos atributos mais exaltados na vida
desta rainha. Concedeu a sua caridade a muitas igrejas e mosteiros aquando das suas
deslocações pelo reino. Mas foram igualmente muitos os homens, as mulheres e as crianças
necessitados que beneficiaram da sua acção.

Para pobres, doentes e caminhantes fundou, para além do já referido hospício em Santa Clara
de Coimbra, uma albergaria em Odivelas e uma outra em Alenquer, no seu paço. No que se
refere à protecção às mulheres salientam-se especificamente três grupos distintos: as prostitutas,
as mulheres «envergonhadas» e as filhas de nobres. Para as primeiras, teve a rainha um projecto
pioneiro de protecção e assistência. Mandou construir, em Coimbra e Torres Novas, casas de
regeneração, ou recolhimentos, para onde eram encaminhadas as que se arrependiam do seu
comportamento e tentavam a sua reintegração na sociedade. Era-lhes dada comida, vestuário e a
possibilidade de lá residirem pêra se partirem daquele publico pecado, mas tudo lhes era
retirado se tornassem a pecar. Para as segundas, criou em Leiria um hospital que acolhia e dava
também comida e roupa a mulheres «envergonhadas» que, tendo possuído fortuna, haviam
perdido todos os seus haveres.

Em sua Casa criava muitas filhas de nobres e de cavaleiros e outras que não tinham a
possibilidade de se manterem por si em vida independente. Educava-as, alimentava-as e dava-
lhes dote para o casamento. Preocupada com o seu futuro, preparava-as para a sua vida de
esposas e mães, ensinando-as a sartar (enfiar contas em forma de cordão) e a aljôfar (bordar
com pequenas pérolas). Fugindo aos ócios e aos lazeres, as mulheres da rainha encontram-se
caracterizadas como grupo entregue a cousas onestas e devotas, sempre ocupado em algum
virtuoso officio, como seja o de por suas mãos lavrar, e fazer cousas douro, seda e prata. (Nota
33) Procurava-lhes, depois, marido entre a vassalidade da corte de D. Dinis. Isto aconteceu, por
exemplo, com D. Vataça Lascaris, a estimada aia que já referimos.
170

Se a umas casava, a outras, se Deus chamava, abria-lhes as portas dos mosteiros fundados com
recursos precisos para as assistir.

Para além das donas da sua Casa, a rainha preocupou-se ainda com as suas criadas e mancebas
mais pobres, dotando-as para que pudessem conseguir um matrimónio que lhes desse uma vida
honrada. Para que estes casamentos lhes trouxessem a felicidade almejada a rainha emprestava
a estas noivas, como um amuleto protector, uma santa que as haveria de proteger na sua futura
vida de mulheres casadas.

É interessante salientar a atenção especial dedicada pela rainha às mulheres, não só na fundação
de instituições próprias para receber as «envergonhadas», como no ensinamento e casamento
das suas donzelas e criadas. Esta protecção feminina prolongou-se aos seus milagres, quer em
vida quer depois de morta, continuando a ser mulheres a maioria das miraculadas no inquérito
de canonização iniciado em 1576.

Quanto às crianças, foram as rainhas de Duzentos que tomaram a iniciativa da fundação de


instituições urbanas especialmente dedicadas a recolher as que não tinham onde se abrigar, ou
seja, os chamados Hospitais dos Meninos. O mais antigo foi criado em Lisboa, a então principal
cidade do reino, pela rainha Beatriz de Gusmão, como já referimos na sua biografia. Protegido
pela Coroa, este hospital foi largamente beneficiado pela realeza de Trezentos. Com efeito,
tanto o rei Dinis como a rainha Isabel legaram-lhe importantes quantias nos seus testamentos,
sendo as 300 libras que o soberano lhe testamentou em 1322 destinadas aos esforços para
criarem hi meninos engeytados e pêra lhis manteer amas. (Nota 34)

Em 1321, a rainha Isabel, em conjunto com o bispo Martinho, da Guarda, fundou em Santarém
um outro Hospital dos Meninos, o Hospital de Santa Maria dos Inocentes, especificamente
destinado a receber as crianças

«que algumas mulheres conceberam e tanto que os parem com medo e com vergonha ou outros
seus grandes pecados querendo ante perder as almas que lhe ao saberem e mandam nos deitar
pelas águas e pelas carreiras e pelas carcouas e pelos Rios e em outros lugares onde os não
possam achar senão de ventura», ou seja, uma instituição de assistência social integralmente
dedicada à protecção dos expostos.
171

Os filhos dos mais necessitados, como os dos pedintes e dos jornaleiros rurais, os pobres
cavooes, não deviam aí ser recebidos mas antes enviados para outros centros de acolhimento
social existentes na cidade. Este número devia ser grande, pois que era declarado não ser
possível manteer ospitall em que todos estes pobres se criassem. (Nota 35)

De acordo com o regulamento de 1321, o Hospital de Santa Maria dos Inocentes contava com a
presença de várias amas de leite, responsáveis pelas crianças de colo, e de dois capelães que
nele asseguravam uma missa diária, devendo os enjeitados permanecer na instituição até aos
catorze anos de idade, pelo que antes lhes era facultado o começo da aprendizagem de uma
qualquer profissão de que pudessem viver após a sua saída. Esta obra de protecção infantil foi
outro projecto inovador e precursor para a época, dado que transcendia a simples recolha de
crianças enjeitadas, congregando também uma preparação para a sua futura vida profissional.
Após terem saído, se um dia caíssem na indigência ou na enfermidade, o hospital recebia-os de
novo para os manter e tratar. E esto dizia que mandava fazer porque a estes em aquelle logar
criados nom eram sabudos padres, nem madres, nem parentes. E era de razão que na
necessidade houvessem acorrimento a este logar que os criara em logo de madre. (Nota 36)

Para manter o dito hospital, a rainha dotou-o com possessões, rendas e casas. No caso de os
bens virem a aumentar, fruto de outras doações, e se sobrasse alguma coisa do sustento e da
criação dos meninos, deviam aí albergar de seis a doze pobres envergonhados que comeriam e
beberiam em comum, e onde, além dos leitos, receberiam de vestir. (Nota 37)

A rainha política - a pacificação e a diplomacia

Feito um pouco do percurso pelo espaço mais privado, caritativo e assistencial da rainha,
abordemos, agora, o seu espaço público e o seu protagonismo político, frequentemente
esquecido quando se fala desta rainha.
172

Como irmã, esposa, mãe, avó ou sogra Isabel foi uma incansável perseguidora da harmonia e da
concórdia entre os seus parentes e entre os vários dirigentes dos reinos peninsulares, com ela
relacionados por laços de parentesco, matrimónio ou aliança, actuando inclusivamente junto da
Santa Sé através de enviados e de missivas, não se eximindo a fazer tudo o que estivesse ao seu
alcance. Desempenhou, igualmente, importante papel, não só nas negociações entre o seu reino
de origem e o de casamento, como também na protecção aos aragoneses que passaram a viver
em Portugal. O Arquivo da Coroa de Aragão (ACA) conserva várias cartas nas quais a sua
participação e influência estão bem documentadas.

De facto, de todas as rainhas analisadas até este reinado, foi D. Isabel a que mais intervenção
política teve. O historiador José Augusto Pizarro relaciona, de certa forma, este papel
interventivo com o escasso número de gestações da soberana, atendendo a que as anteriores, à
excepção de D. Mécia, passaram grande parte da sua vida de rainha grávidas ou com filhos
pequenos, o que lhes ocuparia muito tempo. (Nota 38) Hábil diplomata e intermediária,
interveio em diversas situações e ocasiões como pacificadora de conflitos quer a nível familiar
quer a nível nacional ou peninsular. No reino, empenhou-se na concretização da paz entre o
marido e a Igreja, que se saldou pela assinatura das concordatas de 1289. (Nota 39)

A nível familiar, Isabel desdobrou-se em iniciativas tendentes a promover a paz entre o marido
e o irmão, e depois entre o marido e o filho. (Nota 40) Embora num primeiro momento esses
conflitos possam parecer querelas familiares, eles foram eminentemente políticos, revelando
uma luta entre o processo de centralização do poder, representado por D. Dinis, e os sectores da
nobreza contrários a tal centralização. Nobreza essa que fazia do irmão e do filho do rei seus
representantes máximos na tentativa de manter importantes privilégios económicos e políticos
em detrimento da Coroa.

Os conflitos entre os dois irmãos marcaram os primeiros desafios que a rainha Isabel enfrentou
após o seu casamento. Cotejando-se os documentos da época, verifica-se que a mediação da
rainha, recém-chegada a Portugal, contribuiu para o apaziguamento das tensões entre D. Dinis e
o seu irmão Afonso.
173

«E esta rainha, vendo esta discórdia e este mal entre eles, e cercando elrey alguns lugares que o
infante tinha e filhando-os, para não recrescer discórdia maior e dano na terra, tratou esta rainha
por si e por seu Conselho e por prelados e outros homens bons avença entre elrey e o infante,
seu irmão, e, para fazer a paz e concórdia entregou a elrey a vila de Sintra, que ela tinha delrey,
e deu elrey outros lugares ao infante, para se manter com eles...» (Nota 41)

Narram, igualmente, as crónicas como Isabel desempenhou o papel de virtuoso meyo surgindo,
mais uma vez, como rainha empenhada em fazer amiguos e trazer a paz, tanto entre os grandes
do Reyno como amtre quasquer partyculares. (Nota 42)

Com o contributo da rainha chegou-se a um acordo - D. Afonso trocava Arronches por


Armamar, Marvão por Ourém, Portalegre por Sintra e ele próprio saía de Portugal e acolhia-se a
Castela. Terminava, assim, o conflito fratricida e o perigo da implantação castelhana em terras
fronteiriças.

O envolvimento da rainha na procura da paz entre os dois irmãos levou a que o infante
procurasse o seu apoio junto do rei pela legitimação das suas filhas, de modo a que estas
pudessem herdar os bens que lhes pertenciam. A proximidade de parentesco existente entre D.
Afonso e D. Violante tornara ilegítimo o seu casamento, visto ela ser filha de D. Manuel, irmão
de Afonso X, avô do infante.

Este pedido encontrou eco contrário na rainha, que saiu em defesa desses bens como património
do reino e herança dos seus próprios filhos, afirmando que

«elRey sabia bem quanta perda, e quanto dano viera já ao seu Reino da doação que fizera a
elRey Dom Afonso seu padre ao dito Dom Afonso dos Castelos de Marvão, de Portalegre, e de
Aronche».

E reforçava a sua não concordância, argumentando que

«D. Afonso perdera o direito que em eles havia, movendo tal guerra contra elRey; e dizendo, e
protestando que elRey sabia bem, que na doação que elRey Dom Afonso seu padre fizera ao
Infante Dom Afonso era conteúdo e mandara que depois da morte desse Dom Afonso, que se
tornasse todo à Coroa do Reino, se Dom Afonso não houvesse filho lídimo & que el Rey sabia
bem que os não havia.»
174

Ao tomar conhecimento que o rei estava na disposição de legitimar os sobrinhos para não ir
contra a doação que seu pai fizera, D. Isabel alegou ainda que conceder a legitimação e permitir
a herança dos bens

«era alheamento, e perda do Reyno, e que o não podia fazer de direito. Que direito, e costume
era do Reyno de não poder alhear castelo nenhum de si, sem os Prelados, e Ricos homens, e os
outros homens bons, e que o não podia fazer sem outorgamento seu dela, e de seus filhos;
dizendo em prostestamento por si, e por seus filhos, e por todo o Reyno, que o contradizia; e
pedindo-lhe por mercê, que se o quisesse fazer, que houvesse antes conselho com sua Corte, e
com os do seu Reyno». (Nota 43)

Apesar dos protestos da rainha, D. Dinis legitimou os sobrinhos em 6 de Fevereiro de 1297.


Ficou, no entanto, bem visível a posição de D. Isabel contra a legitimação, baseando-se na
defesa dos direitos do infante-herdeiro, nos problemas que essa legitimação poderia acarretar
para Portugal e, ainda, no facto de o irmão do rei e os seus herdeiros haverem perdido o direito
aos bens quando declararam guerra ao monarca e se aliaram aos nobres opositores de D. Dinis.
Outro relevante argumento de D. Isabel foi demonstrar que a ausência de um herdeiro varão do
cunhado abria a possibilidade às filhas do infante para transferirem parcelas significativas do
território português para outros domínios.

Esta posição de D. Isabel, face às exigências e cobiça do património real iniciadas pelo cunhado
e continuadas, mais tarde, por uma das suas filhas, deu a conhecer uma outra face da nova
rainha que, embora pugnando pela paz e pela harmonia, estava atenta ao que ocorria no cenário
político português e sabia esgrimir as suas armas na defesa dos interesses da sua descendência e
do seu reino.

Igualmente a nível peninsular a rainha envidou esforços de pacificação, tanto em colaboração


com o marido como também já depois de viúva.
175

No primeiro caso, Isabel desempenhou um importante papel no contexto do conflito entre


Portugal e Castela.

A este conflito, que teve por base a revolta, em 1282, do infante Sancho contra seu pai, Afonso
X, já nos referimos na biografia anterior. Apesar de D. Beatriz, a mãe de D. Dinis, ter apoiado o
pai e ter inclusivamente ido para junto dele, o monarca português preferiu apoiar o filho
rebelde. Afonso X morreu em 1284 e o filho fez-se proclamar rei e coroar em Toledo. A partir
daí foram visíveis várias situações de apoio mútuo defendendo interesses de parte a parte que
envolveram mesmo o casamento da infanta Constança de Portugal com Fernando, o príncipe
herdeiro de Castela.

Dois anos depois, a protecção dada por D. Dinis a D. João Nunes de Lara, um fidalgo em litígio
com o rei castelhano, foi motivo para este decidir romper o noivado e para o esfriamento da
aliança luso-castelhana. Após a morte de Sancho IV, em 1295, a situação em Castela
complicou-se mais. O herdeiro da Coroa era menor e a tutoria de sua avó, a rainha Maria de
Molina, foi contestada por vários fidalgos do reino, como os infantes Henrique (irmão de
Afonso X), João (irmão de Sancho IV) e os infantes de La Cerda. D. Dinis começou por apoiar
o infante João, virando-se depois para Henrique que, para além de lhe prometer a entrega de
várias povoações e a demarcação da fronteira luso-castelhana, lhe renovou a proposta de
casamento do herdeiro castelhano com Constança. Embora o monarca português tenha firmado
este compromisso na presença de Maria de Molina, em 1295, no ano seguinte voltou a apoiar o
infante João em nova tentativa para retirar o trono a Fernando IV, agora com o apoio dos
aragoneses. Para conseguir os seus objectivos, Afonso, o filho mais velho do falecido Fernando
de la Cerda, pediu ajuda ao tio, o rei francês Filipe IV, e ao rei aragonês, Jaime II, oferecendo-
lhe mesmo o reino de Múrcia como recompensa pelo seu apoio. Com a ajuda dos adversários
do rei castelhano, D. Dinis ocupou territórios neste reino. A diplomacia da rainha regente
castelhana evitou novos combates entre castelhanos e portugueses e o acordo assinado entre os
dois soberanos, em Alcanices e ratificado com os compromissos matrimoniais dos infantes
régios Fernando IV de Castela, com Constança de Portugal, e Afonso de Portugal com Beatriz
de Castela, ficou ligado, na história dos dois países, ao estabelecimento da fronteira que os
separa, a mais antiga da Europa. (Nota 44)
176

O acordo, assinado em 1297, só foi legitimado em 1301, com a publicação das bulas papais
dispensando o grau de parentesco que havia entre eles e legitimando o infante, visto que seus
pais, Sancho IV e Maria de Molina eram também primos. E aqui o reconhecimento papal terá
sido facilitado pela acção da rainha Isabel junto de seu irmão Jaime II, que, naquele momento,
embora estivesse numa situação de confronto com o rei castelhano, se encontrava num período
de boas relações com o papa Bonifácio VIII (1294-1303). Os contactos entre Portugal e Roma,
mediados por Aragão, ficaram registados em várias cartas trocadas entre Isabel e o irmão. (Nota
45)

A legitimação de Fernando IV foi importantíssima para Castela e teve uma influência


extraordinária na posterior evolução da política peninsular. (Nota 46) A estabilidade da política
portuguesa e a consolidação da paz entre Portugal e Castela, celebrada com o recebimento
destas bulas, proporcionou ao reino português uma participação mais directa nos assuntos
internos castelhanos e levou a que este monarca e o aragonês recorressem a D. Dinis para
arbitrar os acordos entre os dois reinos que tinham por base a disputa sobre a posse de Múrcia e
de Alicante, ocupadas pelos aragoneses em 1296, bem como o apoio dado por estes ao infante
de La Cerda em desfavor de Fernando IV O ano de 1303 foi de grande actividade diplomática,
destacando-se o papel da soberana que jogou todas as peças diplomáticas que conseguiu, desde
influências de familiares e conhecidos a emissários e embaixadores, para além de várias cartas
dirigidas ao irmão, tentando persuadi-lo da necessidade da paz. Algumas das cartas encontradas
revelam como D. Isabel, aproveitando a presença da filha como rainha de Castela e do irmão
como rei de Aragão, realizou um triângulo diplomático peninsular. Os portadores iam a Aragão,
tratavam dos assuntos, passavam por Castela, conversavam com a rainha ou, mais vulgarmente,
com D. Vataça, a sua aia de confiança em Castela, e regressavam a Portugal. A rainha estudava
os assuntos, dava as respostas e os mensageiros eram enviados de regresso. Completava-se,
assim, a trilogia entre os três reinos peninsulares.
177

O parentesco que ligava Isabel aos dois reinos, tornou-a um elo essencial na concertação destes
acordos. Vejamos o excerto de uma carta enviada pelo monarca aragonês à irmã, onde é bem
evidente a consideração que por ela nutria, bem como a noção da importância que ela detinha
neste processo:

«Rainha irmã: sabei que neste assunto nós não faríamos tanto por nenhum homem do mundo
como pelo rei de Portugal. E pensamos que isso é grande honra sua. E rogo-te que exerças todo
o teu poder para que nos possamos todos encontrar que é a coisa em todo o mundo que mais
desejo. Rainha irmã: sei o quanto passaste com o rei de Portugal e com os do seu Conselho
sobre os nossos feitos e os do rei de Castela, e acho que o fizeste muito bem, e agradeço-te
muito. E o que pretendemos fazer é muito, e por várias razões, porque vemos que é serviço de
Deus e grande honra e prestígio do rei de Portugal e um grande bem para toda a Hispânia. E se
o rei de Portugal nestes feitos tem vontade de ajudar, convém que nos vejamos, ele, vós e nós
em lugar conveniente.»

Numa das missivas de resposta ao irmão, escrita pela própria rainha, para além de lhe prometer
que fará tudo o que estiver ao seu alcance para o sucesso das negociações, comprova a amizade
que existia entre ambos, acrescentando:

«E, irmão, sabei que o arcediago me deu da vossa parte uma jóia muito boa, e disse-me que fora
da rainha minha mãe, e agradeço-vos muito, porque como quer que a mim não faltem pedras
nem outras coisas, desejava muito ter alguma coisa das que a minha mãe trazia.» (Nota 47)

Para suportar os gastos militares que se avizinhavam por conta da luta com a facção
nobiliárquica que antagonizava o monarca castelhano, D. Dinis concedeu-lhe um milhão de
maravedis. Também nesta ajuda financeira, a rainha terá tido papel determinante:

«El Rey D. Dinis acudiu ao genro com o dinheiro, e dizem que rogos da Rainha Santa puderam
fazer com seu marido oferecer hum conto, ou milhão de maravedis, de que deu logo a metade a
El Rey D. Fernando.» (Nota 48)
178

Em todo este longo processo, D. Isabel tentou evitar o deflagrar de uma guerra entre Castela e
Aragão, insistindo para que os conflitos fossem resolvidos pela diplomacia e não pela luta
armada. Numa das muitas cartas escritas ao irmão, provavelmente em Setembro de 1303, a
rainha informava-o sobre os encontros realizados entre D. Dinis e Fernando IV e fazia um apelo
à necessidade de um encontro entre os três monarcas para as negociações de paz:

«Rey Irmão, el Rey D.Fernando enviou dizer ao Rey de Portugal por muitas vezes, que se veria
com ele, quiséramos falar sobre vista de el Rey D. Fernando, e vossa, e de el Rey de Portugal;
que vos vísseis todos três; e que vissem vosso feito, e o dei Rey D. Fernando a bom caminho. E
isto tenho eu que seria grande serviço de Deus, e grande prol vossa, e da vossa honra, e da sua
dei Rey Dom Fernando; de si & entendo, que seria a grande prazer dei Rey de Portugal. E se
tudo isto fizesse, querendo Deus, a mim tomaria tão grande prazer, se vontade de Deus de se
fazer. (...) E rogo-vos, Irmão que assim o façais sempre, o que vós poderdes fazer, e fazer-nos-
eis muito grande prazer.» (Nota 49)

Em Julho de 1304, D. Dinis dirigiu-se à fronteira castelhano-aragonesa seguido de uma


comitiva que incluía mais de mil homens. A rainha acompanhava-o.

Os três reis encontraram-se no local de Torellas, situado entre Agreda e Tarazona, tendo D.
Dinis pronunciado a sua sentença acerca das questões em litígio. Fizeram, depois, um pacto de
amizade entre si. Seguiram-se os correspondentes festejos pela paz alcançada tendo primeiro o
rei de Castela e sua mãe, Maria de Molina, oferecido um banquete aos reis de Portugal e de
Aragão, repetindo-se a mesma situação no dia seguinte, então oferecido pelo rei de Aragão. Em
ambos os casos houve distribuição de presentes. D. Isabel recebeu de seu irmão dois pares de
luvas, um com a insígnia do rei de Aragão e as águias e o outro de ouro e seda, ambos forrados
a vermelho, dois panos de seda com o signo real, uma touca tecida a ouro e seda, um relicário
Agnus Dei de prata cinzelada, um copo de cristal com o bordo e o pé em prata dourada e um
jarro de nácar com o pé, o gargalo, a asa e o bico também em prata dourada. (Nota 50)
179

O papel exercido pelo régio casal português na política peninsular constitui uma importante
marca do prestígio deste reinado. O facto de ter sido considerado um interlocutor essencial no
conflito que opôs os outros reinos peninsulares e de a sua decisão e a sua autoridade terem sido
respeitadas por todos, poucas vezes se repetiu.

Ainda a nível familiar é, também, possível conhecer a intervenção da rainha através da sua
correspondência como, por exemplo, no contexto da negociação dos casamentos de alguns
bastardos régios ou de donzelas da sua Casa. As negociações matrimoniais, procurando
constituir uma rede de influência política e de alianças nobiliárquicas, são o tema de algumas
cartas conhecidas. Numa delas, datada de Março de 1308, D. Dinis escreve ao cunhado, Jaime
II, afirmando enviar para Aragão Raimundo de Cardona, alferes do reino, para debater, a pedido
da rainha Isabel, as possibilidades de negociação de casamentos de nobres aragoneses com
nobres portugueses. (Nota 51)

Também sobre a realização do segundo casamento de Pedro Afonso, um dos bastardos de D.


Dinis, com a aragonesa Maria Ximenez Cornei, uma das damas do reino de Aragão que
acompanhara Isabel quando esta veio para Portugal, existem várias cartas enviadas pela rainha a
Jaime II, solicitando que este pagasse a Maria a importância do dote devido. Na primeira delas,
datada de 12 de Janeiro de 1310, pode ler-se:

«Rey Irmão, já sabeis como foi posta a dar a Dona Maria Ximenez, mulher de Dom Pedro filho
delRey uma soma de dinheiros e agora diz que lhe fizestes dar deles porque vos eu rogo Rey
Irmão que lhe façais dar aquilo porque lhe ficaram assim como lhe foi posta, em guisa que ela
haja cumprimento de todo o seu, e agradeço-vos muito.» (Nota 52)

O não cumprimento dos acordos motivou-a a escrever uma outra carta ao irmão, em 10 de
Novembro do mesmo ano. Porém, desta vez enviou, também, um representante seu ao reino de
Aragão para que recebesse pessoalmente do rei o dote devido, com a recomendação especial de
que não prolongasse mais a dívida, mesmo tendo o irmão justificado o atraso no pagamento
com os gastos da guerra contra os muçulmanos.
180

Embora o rei aragonês tivesse prometido à irmã, nessa mesma carta, que pagaria a dívida até à
próxima festa de S. João Baptista, o assunto ainda foi tratado em cartas até ao ano de 1312.
(Nota 53) A intervenção da rainha neste tipo de assuntos é revelador da sua participação nos
assuntos financeiros do reino.

Apesar de Félix Lopes afirmar que a dívida deve ter «morrido» e que o casamento do conde
Pedro com a aragonesa foi um «casamento infeliz» pelas calúnias levantadas contra Maria
Ximenez e pelo abandono que sofreu do conde, ela permaneceu em Portugal com favores
propiciados pela corte portuguesa. A presença desta dama representaria os estreitos contactos e
o apoio mantidos com a corte aragonesa, mais do que a presença da esposa de um bastardo de
Dinis. Numa das cartas endereçadas a Jaime II, D. Isabel solicita também ao irmão que envie
outras mulheres da sua corte para a corte portuguesa. (Nota 54) Essa persistência da rainha em
manter uma estreita relação diplomática entre os seus dois reinos volta a repetir-se quando, nos
anos de 1312 e 1313, solicitou ao irmão Jaime II, em diferentes missivas, uma das suas filhas,
talvez a mais nova, para que fosse criada aos seus cuidados na corte portuguesa. (Nota 55) As
preocupações da rainha Isabel em trazer para a sua corte a infanta seriam, talvez, motivadas
pela morte de Branca de Anjou, esposa do rei aragonês, quando deu à luz a última filha;
possivelmente, também as sobrinhas fariam parte dos seus projectos políticos, até tendo em
conta que os motivos apresentados por Jaime II para não as enviar eram a idade avançada da
mais velha, a doença da segunda que, segundo ele, nenhum homem ousaria levar a parte
alguma, o facto de a terceira já haver vestido o hábito e a última ainda ser muito pequena (Nota
56). Seria vontade da soberana estreitar mais os laços entre Portugal e Aragão casando a sua
sobrinha mais nova com algum familiar mais próximo? O filho herdeiro Afonso havia já casado
com a infanta castelhana Beatriz, enlace assinado aquando do tratado de Alcanices e deste filho
ainda não existiam netos. O facto de os seus dois descendentes terem contraído matrimónio
com infantes castelhanos não representaria uma aliança muito alargada entre Portugal e Castela
em desfavor de Aragão? Não o sabemos, mas o monarca aragonês sempre negou o envio de
qualquer das suas filhas.

A morte do genro Fernando IV, em 1312, e a coroação de seu filho, Afonso XI, com um ano de
idade, abriu, novamente, um período de grande turbulência política em Castela, enfrentando,
mais uma vez, a monarquia as ambições da nobreza e as disputas familiares pela tutoria do rei-
menino.
181

A actuação da rainha Isabel em relação à protecção dos interesses do seu neto e da sua filha
Constança é visível nas várias cartas escritas ao irmão, tentando sensibilizá-lo para a causa da
sobrinha-viúva.

«(...) creio que bem sabeis já da morte delRey Dom Fernando de Castela e a perda e o dano que
se ende segue à Rainha minha filha porque vos rogo Rey Irmão que vós sejais por ela assim
como vos deveis em aquelas cousas que virdes que lhe mester são assim como eu confio de vós
e sou certa que o fareis...»57

O falecimento da filha Constança, em 1313, e dos tutores do pequeno Afonso XI, Pedro e João,
numa expedição contra os mouros em Granada, em 1319, marcaram, gradualmente, o fim da
influência de Isabel e Dinis em Castela.

Nos últimos anos da sua vida, D. Dinis entrou novamente em conflito e mesmo em guerra
aberta, agora com o filho, o infante Afonso.53 As hostilidades entre ambos foram marcadas por
uma longa disputa, iniciada em 1319, e que perdurou até ao ano de 1324. Face ao agravamento
do conflito entre o marido e o filho, a rainha não só se empenhou em suscitar a intervenção
papal, que o próprio João XXII reconheceu, como também fez valer a sua relação familiar com
o irmão Jaime II, de Aragão, a fim de que este agisse como mediador no conflito português» De
Avinhão, o papa remeteu uma bula que foi publicada em Portuga em 31 de Outubro de 1320,
manifestando as suas preocupações com as divergências entre D. Dinis e o filho.

Também o infante Afonso e o próprio rei Dinis se terão dirigido ao rei de Aragão. Este
respondeu, não só manifestando a sua preocupação face ao conflito que se vivia em Portugal,
mas também enviando o seu irmão, e irmão da rainha Isabel, frei Sancho, para tentar
restabelecer a harmonia e a concórdia entre os membros desavindos da família real. Chegado a
Portugal, em Outubro de 1321, num ponto alto do conflito, foi recebido por um rei desconfiado
dos verdadeiros intuitos aragoneses.
182

Considerando a sua mulher cúmplice do filho herdeiro, pois não seria de estranhar que esta
apoiasse o infante seu filho e legítimo sucessor da Coroa na luta contra os bastardos do rei,
mandou-a retirar para Alenquer por tal que ho Jfante não ouvese recado por ela do que ele
comtra o Jfante quysese fazer. (Nota 59)

Em Dezembro de 1321, D. Afonso tomou Coimbra, continuando depois para Montemor-o-


Velho, Feira, Gaia e Porto. Seguiu ainda para Guimarães que não cedeu.

A rainha escreveu, entretanto, ao irmão agradecendo-lhe a ajuda, embora tivesse resultado


infrutífera a acção de frei Sancho junto de D. Dinis. Nessa carta a rainha lamenta, também, o
insucesso dos seus esforços junto dos conselheiros do rei para conseguir o acordo entre o pai e
o filho.

«E Irmão sabei, que vendo eu as cousas em como passavam, e receando de virem ao estado em
que estão, pedi por muitas a el Rey, e roguei a alguns do seu Conselho, que tivessem por bem,
que estes feitos não fossem cada dia para pior como foram, e que me dessem lugar, e que eu
trabalharia aí quanto pudesse, de guisa que o Infante, e os outros houvessem bem, e mercê dei
Rey, (...) E sabe Deus, que esta foi sempre a minha vontade, mais tantos foram sempre os
estorvadores da parte do bem, que não pude aí nada fazer. E sabe Deus, que tenho grande pesar
no coração; pelo do Rey primeiramente, a quem eu desejo vida, e saúde, e honra, como a mim
mesma; e pelo do Infante; e pelo meu, que vivo vida muito amargosa.» (Nota 60)

Mesmo privada das suas funções políticas, o apoio que obteve de Aragão foi importante para
defender as causas do filho. Numa carta escrita ao infante Afonso, Jaime II não só lhe confirma
o seu apoio contra a posição do rei em relação ao seu bastardo Afonso Sanches, como também
«acalma» o sobrinho sobre a ajuda solicitada por D. Dinis ao reino castelhano contra ele. O rei
aragonês escreveu, entretanto, ao rei de Castela, Afonso XI, e aos seus tutores, advertindo-os
para que não auxiliassem Dinis contra o filho. (Nota 61)

Apesar da tentativa de Jaime II, do papa e da rainha, os acordos diplomáticos esgotaram-se


quando Dinis cercou Coimbra, local onde o infante se havia instalado com a esposa, Beatriz, e o
pequeno Pedro.
183

Os exércitos digladiaram-se até que a rainha conseguiu negociar a paz. Desrespeitando as


ordens do rei, saiu de Alenquer com a determinação de pôr termo às divergências. D. Isabel
exigiu, então, que o filho fosse a Leiria

«ver seu padre e fez que o infante conhecesse a elrey o que filho e vassalo é teudo de conhecer
a seu padre e a seu senhor, e que elrey desse ao infante rendas com que se manter pudesse,
segundo a seu estado cumpria».

E o rei,

«vendo tanta mesura desta rainha e as obras em que andava, entregou a ela os lugares, vilas e
rendas que a ela tolhera, segundo dito é». (Nota 62)

Reiniciadas as hostilidades no final de 1323, desta vez nos campos entre Santarém e Lisboa,
novamente a intervenção da rainha Isabel pôs fim ao combate entre pai e filho, no conhecido
episódio em que, montada numa mula por ela conduzida, e indiferente ao perigo que corria, se
interpôs entre os dois exércitos, não embargando que se lançavom armas de huma parte a outra.
(Nota 63) Em Fevereiro de 1324, assinou-se a paz, desta vez definitiva. (Nota 64)

A descrição deste relato na Crónica de 1419 deixa antever uma intervenção e uma actuação
quase milagrosas, abrindo, de certa forma, o caminho à sua vertente milagreira.

Alcançada a paz, foi altura de os avós poderem ver o infante Pedro, nascido em 1320, pouco
depois de iniciada a guerra entre D. Dinis e o herdeiro Afonso. Resolveram, então, seus pais
mandar o pequeno infante à corte e

«passou o menino ao quarto da rainha, e com graça lhe pediu a mão, desejando ela ter tantas
para o abendiçoar, quantos braços desejava ter para o apertar consigo, e recolhê-lo dentro do
peito, mostrando assim, o quanto mais a natureza avantaja no amor os netos aos filhos, que se a
estes os geram as entranhas das mães, a aqueles deseja concebê-los o coração das Avós. Via a
Rainha Santa em aquele neto a conservação da vida, e quis assegurar com Deus a vida daquele
neto. Persuadiu a elRey que o levassem ao Templo da Sé, e o entregassem ao Levita São
Vicente, para que o assegurasse com Deus (...) crendo que não é guardado, o que guarda o
mundo, guardado é, o que Deus guarda». (Nota 65)
184

Praticamente desde a sua chegada a Portugal como rainha do rei Dinis, Isabel desempenhou
uma política voltada para a pacificação e para a defesa dos interesses do seu reino e dos reinos
que envolviam os seus familiares, intervindo na mediação de diversos acordos entre Portugal,
Aragão e Castela. Em relação a este, teve uma actuação mais empenhada ao intervir em
protecção da filha não só quando esta esteve casada com D. Fernando, mas continuando depois
a interceder para assegurar ao neto, Afonso XI, os direitos legítimos ao trono castelhano. Em
relação a Aragão, manteve igualmente uma relação de proximidade e afecto, pois terá sido com
a ajuda e o apoio de Jaime II, irmão e rei, que, muitas vezes, ela conseguiu harmonizar os
conflitos familiares e as divergências políticas entre os reis.

A acção da rainha nos conflitos peninsulares, teve, como vimos, por finalidade salvaguardar os
interesses dos filhos e netos diante das sucessivas crises dinásticas. Conhecem-se, ainda, outras
missivas, de diferente teor, enviadas para o exterior da península e para o papa. São conhecidas
cinco bulas datadas de Avinhão, entre 1323 e 1335, concedendo benefícios a pedido da Ilustre
Rainha de Portugal e do Algarve e nas quais são concedidas graças para certos intelectuais
poderem prosseguir os seus estudos e trabalhos.

Igualmente numa carta escrita a seu sobrinho Afonso IV de Aragão recomendava-lhe que
favorecesse os dois frades franciscanos dela portadores, que seguiam para estudos no
estrangeiro. (Nota 66)

Os documentos conhecidos revelam a influência da rainha na vida política, as suas relações


com a Igreja e a preocupação em defender os interesses dos oprimidos. São exemplos as várias
cartas dirigidas a seu irmão, D. Jaime, exigindo o pagamento de dívidas, ou ainda a libertação
de marinheiros portugueses presos em Aragão, enviando mesmo provas da sua inocência, a
protecção para terras e gados, pedidos de clemência para condenação à morte, ou o fim da
espoliação de terras e tantos outros assuntos em que D. Isabel interveio. (Nota 67)

Após as mortes do marido e do irmão, e com uma idade já avançada, vivenciou e até mesmo
participou em outras situações conturbadas.
185

Em 1330 e 1336, viúva, cansada e doente, ainda se dirigiu primeiro a Castela para falar com o
seu neto Afonso XI sobre a forma como se comportava em relação à mulher, a também neta D.
Maria, e depois a Estremoz, onde estava o seu filho Afonso IV, para tentar evitar a guerra que se
adivinhava entre ele e o genro/sobrinho Afonso XI. A este conflito nos referiremos na próxima
biografia.

A ampla rede de relações familiares de que gozava, multiplicidade e variedade de cartas


dirigidas ao irmão, seu cúmplice, confidente e amigo, apelando à sua ajuda, recomendando-lhe
assuntos ou pessoas, negociando, dando o seu parecer ou pedindo o dele sobre assuntos
diversos, manifestando-lhe os seus receios e preocupações comprova que a rainha mantinha
estreitas relações diplomáticas com as mais variadas personalidades políticas do seu tempo.
(Nota 68)

A Casa da rainha

Abordemos, agora, um pouco da Casa de D. Isabel e aqueles que constituíam a rede do seu
poder pessoal. Já anteriormente referimos que esta Casa tinha funcionários próprios, havendo,
no entanto, situações frequentes de partilha ou de intercâmbio familiar; dissemos, igualmente,
que esta Casa tinha rendimentos próprios provenientes, normalmente, das terras dadas em arras.
Os respectivos servidores compunham e sustentavam a estrutura dos vários domicílios da rainha
colaborando, directa ou indirectamente, nas suas acções políticas e religiosas. Não é, pois, de
estranhar a grande quantidade destes funcionários que a rainha Isabel teve ao longo da sua vida:
4 camareiras, 6 donas e donzelas de sua Casa, 3 mordomos, 1 ama-de-leite, 2 chanceleres, 3
médicos, 1 estribeiro, 1 cavaleiro, 1 tesoureiro, 8 escrivães, 2 porteiros, 1 almoxarife de Leiria,
1 almoxarife de Torres Novas, 1 escrivão de Torres Novas, 1 escrivão de Leiria, 7 notários, 3
ouvidores, 2 vassalos e 2 empregados desconhecidos, para além de 2 capelães, 6 confessores, 9
clérigos e 8 frades menores permanentes ou temporários. (Nota 69) As diferentes datas e os
variados locais onde foram escritas as suas cartas (num total de 16 localidades - Vila Viçosa,
Santarém, Salvaterra, Torres Vedras, Pinhel, Lisboa, Leiria, Guimarães, Frielas, Fonte do
Sabugo, Estremoz, Elvas, Coimbra, Ciudad Rodrigo, Beja e Badajoz) demonstram bem a
itinerância da corte pelas residências reais por motivos políticos, económicos, administrativos,
religiosos ou de lazer.
186

Considerando que a rainha tinha dezenas de servidores que com ela se moviam pelos diversos
locais do seu património e do reino, é possível entender que a deslocação dessa vasta comitiva
seria, também, uma forma de D. Isabel ostentar e marcar o seu poder perante os seus súbditos.

D. Isabel e D. Dinis - uma difícil relação conjugal?

Quando, em meados de 1282, D. Dinis recebeu, em Trancoso, D. Isabel por sua mulher, tinha
então vinte anos e D. Isabel completara os doze havia poucos meses. Sabendo que, na época, a
vida marital começava, nos homens, a partir dos 14 anos, não será de espantar que o rei, já
homem feito e ao que parece, segundo os cronistas, com clara apetência sexual, tivesse já
iniciado há algum tempo as suas aventuras amorosas. Parece mesmo que o seu bastardo mais
velho, o conde D. Pedro de Barcelos, já teria nascido por esta altura ou, pelo menos, antes de D.
Isabel completar os catorze anos. O que é mais estranho é que as infidelidades do rei coincidem
com o período de maior juventude de D. Isabel, visto que a maior parte dos seus bastardos
nasceram até ao fim da década de 90 ou seja, sendo a rainha em idade, e feyções, e desposiçam
pêra ElRey se delia muito contentar. (Nota 70) A soberana rondaria a década dos vinte anos,
sendo de admitir que exercesse, nessa idade, uma maior atracção junto do marido. O facto é que
até ao nascimento do primeiro filho, a infanta D. Constança em 1290, decorreram oito anos
após o casamento sem que tenha havido qualquer notícia sobre o nascimento de outros infantes.
Mesmo que falecidos prematuramente, deles ficava sempre registo do feliz e do trágico
acontecimento, pelo que se pode inferir que a rainha só terá mesmo concebido pela primeira vez
naquela data. Talvez até aqui não tivesse alcançado a capacidade de procriar, o que explicaria a
sua compreensão para com o nascimento dos primeiros dois filhos bastardos do marido - Pedro
Afonso, futuro conde de Barcelos, e Afonso Sanches, futuro senhor de Albuquerque.
187

Já não se pode, contudo, considerar tão cortês, por parte do rei em relação à esposa, o facto de o
nascimento da primeira filha em comum ter sucedido quase na mesma data do nascimento do
terceiro filho bastardo, João Afonso. Tendo por base o nascimento do segundo e último filho, o
infante Afonso, logo no ano seguinte, também não parece muito plausível a hipótese de a rainha
ter dificuldade em engravidar, até porque depois desta gravidez também não existem mais
notícias sobre a perda de outros filhos. Dois filhos em 44 anos de matrimónio, e gerados num
curto período, tendo o rei procriado oito fora do matrimónio, e sendo a sua mulher jovem e
fértil, permitem levantar algumas suspeitas sobre a vida íntima do casal. (Nota 71) Uma das
possíveis hipóteses terá a ver com o flagrante contraste existente entre eles, principalmente
moral mas também físico: D. Dinis era baixo e másculo; D. Isabel era alta e senhoril; (Nota 72)
D. Dinis era, ao que parece, um homem enérgico, bastante dado ao exercício físico e à caça, que
praticou até uma idade avançada; D. Isabel era recatada e virtuosa; D. Dinis, atraído pelos
prazeres carnais, procurava a convivência das damas com um ardor mais do que poético; D.
Isabel era espiritual e devota, desde muito pequena dada a jejuns e orações, e a quem,
provavelmente, não agradariam, ou mesmo repugnariam, as manifestações de promiscuidade do
rei e as expressões físicas do amor conjugal. É claro que também a fogosidade de D. Dinis
contrastava com o carácter devocional e místico da sua rainha que,

«posto que por obediência e mandado delRey seu padre, e por necessidade de bem, e paz destes
Reinos, fosse corporalmente casada com ElRey D. Diniz a que tinha grande amor, ela porém
com todas obras, e sinais de mui santa, não deixava espiritualmente de ser casada com Deus, a
quem com tanta abstinência, e continuas orações sempre servia». (Nota 73)

Perante um rei cujas mancebas e bastardos testemunhavam apetitos nom lícitos, não guardando
à esposa ha inteyra ley do matrimónio e dela se afastando por indusimentos falsos, e mãos, ha
que se inclinava mais por sua vontade, do que por sua dinidade Real, a rainha devia sentir hos
taes apartamentos e solturas delRey.
188

No entanto, era vez de mostrar payxam, escândalo ou dores pelos pecados do marido, deles
vivia como esquecida, trabalhando

«alegremente com suas mulheres em cousas honestas, e de serviço de Deus, e sobre isto fazia o
que parecia mais duro, e menos para fazer, que era dar de vestir às amas que criavam os tais
filhos dei Rey, e fazer, e procurar mercês aos aios que os ensinavam». (Nota 74)

Antes de avançarmos, façamos um breve parêntesis na tentativa de compreender os meandros


destes relacionamentos à luz dos preconceitos e padrões morais da época. O que era, como era
olhada ou considerada a infidelidade conjugal e, neste caso, a régia, ou a bastardia, pela
sociedade dos finais do século XIII e inícios do XIV.

Quem conhece os livros das chancelarias ou os textos dos nossos livros de linhagens sabe da
abundância de notícias e pedidos de legitimação que ali se encontram sobre bastardos e
bastardas, sejam eles de proveniência laica ou eclesiástica. A frequência da bastardia era uma
realidade e isso fazia com que fosse olhada na época como uma situação natural e quase
normal. Recordemos que dos nove reis da l.a dinastia só Afonso IV não teve filhos bastardos e
D. Sancho II nem legítimos nem bastardos. Ao referirmo-nos mais concretamente aos bastardos
de D. Dinis, se essa situação não deixaria a rainha indiferente, o que é facto é que ela
conheceria perfeitamente a realidade e os hábitos do seu tempo, e seguramente que tinha
convivido, ou pelo menos tinha conhecimento dos bastardos do seu pai. Também dos bastardos
do seu marido ela tinha conhecimento, visto que se preocupava com a sua criação e conforto,
tendo, pelo menos os três primeiros bastardos, sido entregues aos seus cuidados.

A mancebia não se revestia, portanto, do mesmo grau de imoralidade com que posteriormente
foi classificada pela sociedade. A prová-lo está, por exemplo, a doação da vila de Mirandela
feita por D. Dinis a uma das suas mancebas, Branca Lourenço, usando na abertura da carta a
habitual fórmula protocolar de a fazer com o consentimento da rainha e do infante herdeiro, do
arcebispo, bispo e ricos-homens.
189

O interessante desta doação é que ela é justificada pelo rei «pela compra do seu corpo» (da
manceba, entenda-se), doação que se transmitiria aos filhos da manceba, se dela tivesse algum.
É pois uma doação formal de uma vila do reino, feita pelo rei a uma das suas mancebas,
sancionada por toda a Cúria Régia.

Parece assim problemático aplicar a noção de ilegitimidade numa sociedade em que a


barregania, como adultério controlado, era uma prática habitual não só entre a nobreza como
também nos grupos não privilegiados e mesmo no próprio meio eclesiástico. Embora
considerada ilícita e pecaminosa pela moral eclesiástica, ela era tolerada na legislação de
Afonso X, apresentando-se como mal menor, se bem que se devesse sujeitar a determinadas
normas, como a da não promiscuidade com mulheres vilãs, não fidalgas. O tratamento por
concubina real chegou, inclusivamente, a estar legislado nas Partidas do rei Sábio., sendo
considerado mesmo um sinal de distinção, visto que conferia uma dignidade e uma forma de
reconhecimento da sua importância. O rei, como cabeça e modelo da classe senhorial, não devia
envilecer a nobreza da sua linhagem. Sendo assim, a possibilidade de concubinato régio ficava
tacitamente em aberto, desde que a barregã fosse de nobre procedência. Considerando que ela
poderia assegurar a descendência em caso de esterilidade da legítima esposa, a barregania
configurava-se como uma instituição subsidiária e necessária à perpetuação da linhagem. Tendo
em conta que pertenciam normalmente a estratos nobiliárquicos próximos dos de algumas das
legítimas rainhas, visto que os monarcas encontravam nos círculos cortesãos o meio
preferencial para a escolha das suas barregãs, constituíam não só uma afectiva alternativa aos
oficiais casamentos políticos, onde o amor raramente teria lugar, como protagonizavam
conjunturais estratégias de relacionamento entre a monarquia e a fidalguia. As barregãs, por
outro lado, serviam as estratégias das suas famílias para fortalecerem a sua influência junto do
monarca.

Na própria cronística medieval, sempre mais atenta aos valores morais, estas mulheres não só
são visíveis como se mencionam, em grande parte dos casos, com toda a naturalidade,
constituindo uma marca do viril poder fecundante do rei.

Quanto aos bastardos, se por um lado, e relativamente à família real legítima, se situam num
plano «inferior», por outro, e quando perspectivados em relação ao grupo da nobreza, surgem
no seu nível superior.
190

Assim, graças ao parentesco que os unia aos monarcas, os bastardos acabavam por corporizar
um patamar intermédio, por onde passavam alguns dos contactos mais importantes entre a
realeza e as linhagens da alta nobreza nomeadamente através de alianças matrimoniais.
Alianças pelas quais se garantiam, fidelidades cimentadas pelos laços de parentesco que
acabavam por unir essas linhagens à própria família real e que se estendiam por diversas
gerações. Relação duplamente frutuosa para a Coroa, já que vinha muitas vezes a controlar o
património de importantes Casas senhoriais.

Fechando este parêntesis, regressemos à nossa biografada. Para além das várias infidelidades, e
da crítica feita por D. Dinis aos consecutivos jejuns da rainha e à sua magnânima caridade, que
acabou por dar origem à popular transformação milagrosa do pão que levava no regaço em
rosas, referimos já algumas situações em que D. Isabel enfrentou o marido daí sofrendo o
comum relacionamento fortes crises. Acontecimentos como, por exemplo, a oposição frontal
que a rainha fez à legitimação dos sobrinhos, filhos do infante Afonso, expressando
publicamente o seu desacordo, secundada, em 1308, pelo infante herdeiro possivelmente
orientado pela mãe ou, mais tarde, o papel assumido pela rainha na contenda entre o marido e o
herdeiro, de tal forma favorável ao filho que o próprio D. Dinis a desterrou para Alenquer,
privando-a de todas as suas rendas, espelham bem o antagonismo existente, por diversas vezes,
entre o régio casal.

No entanto, o rei reconhecia na mulher qualidades e, principalmente, qualidades importantes


para uma boa governante. O estribilho desta cantiga é um louvor reafirmado da admiração que
o rei por ela nutria pela sua ajuda e colaboração. Cantava ele nas suas trovas:

«Pois que Deus voz fez, senhora,

Fazer do bem sempre o melhor

E dele ser tão sabedora,

Em verdade vos direi:

- Assim me valha o Senhor!

Frades boa para Rei!

E pois sabedes entender

Sempre o melhor e bem escolher,

Verdade vos quero dizer,


- Senhora que sirvo e servirei:

- Pois Deus assim o quis fazer,

Érades boa para Rei!» (Nota 75)


191

A viuvez e o recolhimento

Em 7 de Janeiro de 1325 faleceu D. Dinis. O sexto rei da dinastia de Borgonha morreu em


Lisboa, com 64 anos de idade e 46 de reinado. Foi um governo marcado por desavenças,
inicialmente com o seu irmão, mais no final com o filho. Dos 46 anos em que esteve à frente do
reino, 37 foram governados durante o período em que esteve casado com D. Isabel, que viveria
ainda mais 11 anos.

Presente nos últimos momentos do rei, mais uma vez como uma esposa modelar, a rainha
recolheu-se depois ao luto e viuvez. Iniciando uma nova vida diminuída de seculares e profanas
obrigações, logo após a morte do marido retirou-se à sua câmara onde envergou o hábito das
clarissas, com o véu branco e a corda de nós à cintura, partilhando do seu culto e devoção.
Invocando a sua idade e doença, que lhe dificultariam o cumprimento das obrigações inerentes
ao voto, D. Isabel não professou nem entrou em religião. A decisão pelo recolhimento, sem a
obrigatoriedade de clausura, não foi uma acção exclusiva da rainha Isabel, pois, como já vimos
em muitas outras situações durante a Idade Média, entrar para um convento na velhice, após a
separação conjugal ou no estado de viuvez era uma prática comum entre as mulheres da realeza
e da nobreza. Estas mulheres encontrariam naqueles espaços religiosos, que muitas vezes elas
mesmas haviam mandado construir, uma possibilidade de recato espiritual e uma forma de
prestar auxílio à comunidade.

Ao escolher Santa Clara de Coimbra para viver os seus últimos anos, a soberana da paz, das
mulheres desprotegidas, dos indigentes e dos doentes, não rompeu totalmente com o seu
estatuto de rainha. Continuou a gerir a sua Casa e o seu património, a dispor dos seus bens
móveis e imóveis e a zelar pelas suas donas e donzelas. Já que, enquanto em vida do marido,
tinha trazido para o paço régio o exemplo da piedade e da virtude das freiras, transferia agora
para o mosteiro a corte e os recursos que o abriram a uma maior caridade para com os pobres e
necessitados. Nesse sentido, Santa Clara passava a situar-se como uma corte alternativa e
complementar à da nova realeza, fornecendo-lhe o exemplo de como o poder e a riqueza
podiam e deviam estar ao serviço da justiça e da solidariedade sociais.
192

Passou a viver recolhida, a maior parte do tempo, nos seus paços junto a Coimbra,
acompanhando as obras do Mosteiro de Santa Clara e o hospital dos pobres. Cada dia, feitas as
rezas e dadas as ordens para os trabalhos, despachava os pedidos que lhe chegavam, mandando
do seu haver e pam dos seus celeiros dar àqueles a que via que era aguisado de o dar e a quem
compria. Se o vestir do hábito foi uma cerimónia de despojamento feita em privado, poucos
meses após a morte do marido, D. Isabel deu largas à sua devoção em público. Movida por
razões religiosas, ou porque temesse o eclodir de novas hostilidades no reino, visto que Afonso
não esquecera o ódio contra os seus meio-irmãos, a rainha-viúva partiu em peregrinação para
Santiago de Compostela, rodeada de um numeroso séquito e acompanhada por uma mula
carregada de jóias e belas peças de ourivesaria, que contrastavam fortemente com o seu ideal de
pobreza de inspiração franciscana. (Nota 76) A sua entrada triunfal no templo, no próprio dia da
festa maior do santo (25 de Julho), e as riquezas que levava causaram grande admiração. Entre
as oferendas, contava-se a copa de ouro de D. Dinis, diversos cálices, mantos bordados a ouro e
tapeçarias. Como sinal de tudo a que renunciava, colocou uma das suas coroas de ouro,
ornamentada com pedras preciosas, nas mãos do arcebispo da catedral, simbolicamente
depondo toda a sua opulência de mulher-rainha e determinando o seu abandono da vida
mundana. Regressou à cidade dos homens apoiada no bordão que recebera do prelado e
distribuindo pelo caminho aos pobres as moedas que encontrava na sua bolsa de peregrina.

Abdicando de muitas das suas riquezas, transmutou, ainda, alguns dos seus bens mais preciosos
em dádivas ao divino - os seus panos de ouro e de seda foram transformados em paramentos e
vestes litúrgicas e ó seu ouro em cruzes, cálices, incensários e lâmpadas. Os objectos que
serviram para expressar e representar o poder laico da rainha perante os seus súbditos ganharam
uma maior representação e significado ao transformarem-se num elemento sagrado. Preparou-
se, assim, para uma vida ainda mais austera da que até aí levara, agora que se despojara de
forma simbólica das suas riquezas.

O seu quotidiano passou a incluir mais duas missas diárias, uma delas por alma de D. Dinis.
Para além da oração, deitava-se, por vezes, numa cama de má qualidade como forma de
sacrifício.
193

Durante os cerca de onze anos de permanência em Santa Clara, D. Isabel sempre manteve
contactos com o meio aúlico afonsino. Na sua Vida, referem-se as visitas que a nora, a rainha D.
Beatriz lhe fazia habitualmente no mosteiro:

«E, desde que foi o refeitório aguisado para comerem em ele as donas, em aquele primeiro dia
que ai vieram comer foi esta rainha e a rainha dona Beatriz, mulher delrey seu filho, comer em
aquele refeitório novo (...) E isto faziam estas senhoras rainhas senhoras com grande humil-
dade, em tendo que faziam serviço a Deus em servindo aquelas donas.» (Nota 77)

Continuou a escrever cartas ao irmão Jaime II e a interceder nas divergência entre o filh Afonso
IV e os seus irmãos bastardos. Temendo o pior, enviava ao filho recados de paz e pedidos de
restituição ao bastardo dos bens espoliados. 78 Numa carta, escrita provavelmente no ano de
1326, inf irmava o irmão sobre decisões tomadas na corte portuguesa e revelava-lhe a sua
satisfação pelo nascimento de mais um neto, filho do rei português. (Nota 79)

Esteve presente, em 1328, nas festas comemorativas do casamento da neta Maria com o
igualmente neto Afonso XI de Castela e, dois anos mais tarde, interveio junto deste soberano na
tentativa de o aconselhar a tratar a mulher com a homra e estado real que merecia, devendo,
para isso, interromper a pública relação que mantinha com a manceba Leonor Nunes de
Gusmão.

Apesar do seu recolhimento num claustro de freiras clarissas e do seu envolvimento nas
questões religiosas e familiares, continuou a interessar-se por assuntos de variada ordem, como
provam as bulas que os papas João XXII (1316-1334) e Bento XII (1334-1342) exararam
concedendo, a pedido da rainha Isabel, benefícios especiais para juristas e bacharéis do reino.
(Nota 80) A administração de seus domínios é visível num documento enviado aos moradores
de Leiria, em Outubro de 1331, no qual lhes sugere que cheguem a um acordo sobre as práticas
comerciais da localidade. (Nota 81)
194

A preocupação com os pobres e enfermos perdurou até ao fim dos seus dias. Na calamidade da
fome de 1333, em que homens e molheres comiam as carnes das bestas mortas e outras cousas
que nom som pêra comer, a rainha do seu fazia grandes esmolas de pam e de carne e, pelas
albergarias e outros lugares onde muitos morriam, mandava os seus clérigos para lhes
assistirem, e sudários e candeias para os enterros. Tão magnânima foi neste ano de fome que
alguus, que em sa casa avia, a reprendiam, porque nom guardava daquelo que assi dava, porque
nom sabia que tempo a seguir-se avia. (Nota 82)

Já no final da vida, dez anos após a realização da sua primeira romaria, a rainha, despojada de
exteriores sinais de riqueza, voltou a esta cidade como pobre romeyra num anno jubileu de
Sanctiago, a pé, bordão na mão e farnel às costas, pedindo pello caminho esmolas aos fiéis
Christãos. (Nota 83) Esta romagem nada teve a ver com a anteriormente feita, realizada com
um grande cortejo de acompanhantes, em cavalgadura e cheia de ricos presentes para a Igreja
de Santiago. Estas duas peregrinações são exemplos bem claros da diferença entre a
«peregrinação política», realizada por reis ou grandes personalidades, e a «peregrinação de
devoção», na qual o aspecto ascético da viagem se acentuava através da pobreza. No caso de
Isabel, a dualidade da sua personalidade, como figura política e como mulher piedosa, obrigou-
a a duas peregrinações totalmente diferentes, cada uma de acordo com um aspecto da sua
actividade - a régia e a pessoal. (Nota 84)

A morte

Um ano após essa piedosa peregrinação, partiu para Estremoz na tentativa, mais uma vez, de
apaziguar o conflito existente entre o rei seu filho, Afonso IV, e o rei seu neto, Afonso XI de
Castela. A rainha era já sexagenária e os trabalhos e desgostos da vida tinham-na esgotado. As
constantes vigílias, jejuns, penitências e abstinências haviam debilitado a sua resistência e as
suas defesas. A distância a percorrer era de cerca de 32 léguas, por caminhos difíceis e sob um
sol calcinante. Deveria padecer de algum mal, pois ela mesmo o referiu quando, onze anos
antes, havia coberto a sua viuvez com o hábito de clarissa e se justificara por não entrar em
religião, afirmando que havia tais enfermidades, que nom poderia soster nem comprir aquelo.
(Nota 85)
195

Não acatando os conselhos da abadessa de Santa Clara e dos seus médicos assistentes, realizou
a viagem. Seria um desastre a guerra que se avizinhava entre os dois Afonsos e ela tinha de a
evitar a todo o custo, mesmo com sacrifício próprio. O seu estado de esgotamento à chegada a
Estremoz era tão grande que o filho ficou apreensivo. Reza a sua lenda que lhe apareceu um
edema ou tumor num braço que rapidamente ulcerou sem que os médicos lhe dessem grande
importância, pensando tratar-se de algo de pouca gravidade. Passados poucos dias entrou numa
situação de febres altas, vertigens e desmaios, acabando por entrar em coma. Na sua última
tentativa de pacificação encontrou a morte. Corria o ano de 1336. Desconhecem-se as causas do
óbito, tendo sido admitidas pelo menos oito hipóteses ao longo dos tempos - Apostema ou
levadiga (Lenda da Rainha Santa), Carbúnculo (Dr. A. de Vasconcelos), Abcesso (Benevides),
Tumor (Figanière), Cancro (Cornejo), Flegmão ou problemas de coração (Júlio Dantas),
Escrófula (José Crespo), atribuindo Pinheiro Chagas a causa da sua morte unicamente às
fadigas da viagem e aos ardores do estio «que actuaram fatalmente sobre a sua organização
débil e avelhentada».

O Doutor José Crespo analisou as hipóteses enunciadas, aceitando algumas sob reservas e
rejeitando imediatamente outras. O quadro clínico remete para a hipótese de uma doença
infecciosa conhecida por carbúnculo, que, segundo ele, apresenta alguma lógica dada a estação
em que ocorreu, o quente estio, no qual o «bacillus anthracis» se teria multiplicado
rapidamente, bem como para o facto de na região atravessada pela rainha no seu percurso, o
troço da antiga estrada romana entre Coimbra e Estremoz, grassar esta doença. No entanto,
porque o carbúnculo era originado pela picada de uma mosca, e atendendo ao longo fato que a
rainha usava e que lhe cobria praticamente todo o corpo, Crespo refuta esta hipótese,
defendendo a escrófula, o mesmo que «trama» ou «levadiga» ou ainda «bubão», querendo
significar uma reacção do tecido linfático. Na sua opinião, «o temperamento linfático,
escrofuloso da rainha condizia bem com os seus caracteres somáticos, com o seu tipo físico e
psíquico: loura, estrábica, alta, refeita de carnes, na aparência». (Nota 86)

Como as anteriores rainhas, também Isabel preparara o seu passamento. No seu segundo e
último testamento, a rainha afirmava querer ser sepultada amortalhada no Mosteiro de Santa
Clara (a Velha) em Coimbra e que o seu corpo ficasse à guarda da abadessa do mosteiro.
196

Ora o tempo que se fazia sentir era de intenso calor e a distância de Estremoz a Coimbra longa.
A transferência do cadáver para esta cidade era problemática e Afonso IV, o rei seu filho,
admitiu dar-lhe sepultura na Igreja de S. Francisco em Estremoz ou na Sé de Évora. Mas, a ser
assim, não se cumpriria o desejo da rainha e isso era importante para o reino. Iniciaram-se,
então, os trâmites para a viagem até Coimbra e a preparação do cadáver para a trasladação. O
receio de que o corpo entrasse em decomposição devido ao calor que se sentia, levou a que se
tomassem várias medidas. O cadáver foi ungido com perfumes, ervas e substâncias aromáticas,
tal como santas mulheres fizeram a Cristo (S. Lucas, XXIV-1), vestido com o hábito de Santa
Clara, envolvido numa mortalha constituída por um lençol de linho muito fino e, sobre este,
uma colcha fina. Todo este conjunto foi envolto num pano de linho cru, grosseiro, muito bem
cosido a agulha e o todo enrolado e atado com um cordão de forma a ficar perfeitamente
fechado. Por fim, embrulhou-se tudo numa colcha de algodão branca e grossa e o corpo foi
colocado num caixão rectangular de madeira hermeticamente fechado e envolvido em pele de
boi, com o pêlo voltado para fora, «certamente para evitar que os produtos líquidos da
decomposição cadavérica, repassando os múltiplos invólucros, escorressem pelas juntas das
tábuas durante a viagem». (Nota 87) Por fim, foi coberto com um pano púrpura.

Sob um calor abrasador iniciou-se a viagem, sendo o cortejo fúnebre acompanhado por muitos
cavaleiros, damas da corte e prelados. Nas crónicas e na sua hagiografia conta-se que a meio da
viagem o ataúde começou a abrir fendas, pelas quais escorria um líquido que todos supuseram
provir da decomposição cadavérica. Qual não foi, porém, a surpresa quando notaram que em
vez do mau cheiro esperado, daí saía um aroma suavíssimo. «A rainha morrera em odor de
santidade. Nascera a Rainha Santa.» (Nota 88)

Ao fim de sete longos dias de viagem, o cortejo fúnebre chegou a Coimbra. O corpo
permaneceu durante a noite na Igreja do Mosteiro de Santa Clara, velado pelas monjas clarissas.
No dia seguinte, pela manhã, iniciaram-se as exéquias com pompa e solenidade e muitos
sacerdotes rezaram missa nos altares da igreja do mosteiro.
197

Após as exéquias, o ataúde foi conduzido da igreja para a Capela Superior, o local onde a rainha
mandara colocar o túmulo. Ao chegarem junto do sepulcro, introduziu-se o caixão fechado, tal
como veio de Estremoz, encimado pelas insígnias de romeira de Santiago - bordão, conchas e
bolsa de esmolas. Por fim, encerrou-se o túmulo com a tampa.

O túmulo

Pensou, inicialmente, D. Isabel descansar eternamente ao lado do rei seu marido, primeiro em
Alcobaça, depois em Odivelas, conforme as alterações testamentárias de D. Dinis. O facto de se
ter recolhido, depois de viúva, ao Paço do Mosteiro de Santa Clara, fez com que no seu último
testamento se tivesse decidido pela Casa monástica de que era padroeira e devota.

O seu túmulo, por ela mandado construir e executado por mestre Pêro, um aragonês, (Nota 89)
conjuga beleza, harmonia, grandeza e a memória da sua vida. Ao longo das quatro faces da arca
tumular é visível a espiritualidade da encomendante. Na cabeceira e pés, testemunham-se a sua
fé e crença; assim, na primeira, encontram-se as imagens do Cristo Crucificado, ladeado por
Deus Pai em majestade, da Virgem com o Menino, de S. Mateus e de S. João. No topo dos pés,
são visíveis cinco nichos, encontrando-se no do centro Santa Catarina, ladeada pelas Santas
Clara e Isabel e nos ângulos S. Marcos e S. Lucas. Ao longo dos laterais contrapõem-se, num
dos lados treze nichos com Cristo e os doze apóstolos e do outro as figuras de S. Francisco, o
bispo S. Luís de Tolosa, descendente de sua tia-avó Isabel da Hungria, e Santa Clara, seguidos
de um cortejo de freiras clarissas, as eternas companheiras da rainha, oferecendo-lhe orações
para sufrágio da sua alma, como era comum à época, materializada numa criança. (Nota 90)

Sobre a arca tumular figura um imponente jacente representando a rainha envergando o trajo de
clarissa, tendo a cabeça, coroada, com véu soqueixado e manto negro, apoiada sobre uma dupla
almofada e enquadrada por dossel ou baldaquino. Ostenta ainda a bolsa adornada com a vieira,
símbolo da sua ida a Compostela.
198

O jacente apresenta, assim, simultaneamente, Isabel nas três fases da sua vida, como rainha,
com coroa na cabeça e brasões de Aragão e Portugal a ladear o corpo, como peregrina,
caminhando para a eternidade com os símbolos santiaguistas e como leiga em religião, vestida
com o hábito de clarissa que envergou durante os últimos anos da sua vida, lembrando a todos a
sua fé no franciscanismo. No rosto, grave e sério, os olhos denotam o ligeiro estrabismo
referido pelos cronistas. O corpo é ladeado de anjos, que a contemplam, espargindo incenso.
Aos lados e aos pés, acompanham-na três pequenos cães, símbolos da fidelidade. Rodeiam-na
oito escudos de Aragão e de Portugal, lembrando como foi rainha de Portugal e princesa de
Aragão. (Nota 91)

Inicialmente destinado a repousar eternamente no coro da igreja do mosteiro, espaço sagrado


por excelência, D. Isabel viu-se forçada a alterá-lo em 1331, quando as águas mondeguinas
invadiram o templo. Mandou, então, erguer uma plataforma superior sobre as três naves da
igreja, onde fez edificar um coro para as religiosas e uma capela funerária para onde mandou
trasladar o seu túmulo. (Nota 92) Para aqui foi igualmente trasladado o túmulo da sua
homónima neta, falecida em 1326, aos dois anos de idade, e para quem a avó encomendara uma
condigna sepultura ao mesmo escultor que fez, mais tarde, o seu monumento funerário. Aliás, o
túmulo da pequena infanta reproduz, a uma menor escala, o da avó. (Nota 93)

Não foi, no entanto, ainda neste local que a Rainha Santa descansou na sua morada eterna. As
águas do Mondego voltaram a invadir o mosteiro e a comunidade de clarissas teve de se mudar
para o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Outubro de 1677, mandado construir por D. João
IV em substituição do antigo Santa Clara-a-Velha.

O corpo da Rainha Santa foi, então, transferido provisoriamente para a capela do novo mosteiro
e, em 1691, para o coro alto da igreja.

Os testamentos e o tesouro

Conhecem-se dois testamentos desta rainha. Um primeiro, redigido em 19 de Abril de 1314, e


um segundo em 22 de Dezembro de 1327. (Nota 94) Neles cuidou do destino do seu corpo e do
sufrágio da sua alma, pedindo a Deus que recebesse na Sua misericórdia a sua alma no dia da
morte.
199

Para o perdão dos seus pecados, ordenou missas durante um ano, mas também missas de
sacrifício que, mais rapidamente, lhe resgatariam as faltas cometidas.

No primeiro testamento, mandou pagar as suas dívidas e deixou significativas quantias e


dádivas para a continuação das obras de assistência e misericórdia em que tanto se tinha
empenhado em vida. Muitas foram as instituições contempladas, com destaque para os
mosteiros de Alcobaça e de Odivelas, de início considerados como os locais do seu eterno
descanso, à semelhança do definido por D. Dinis. É-lhes legado paramentaria e dinheiro,
destinando-se uma parte para a manutenção das enfermarias de ambos os mosteiros. Tentando
torná-las mais acolhedoras e confortáveis, a rainha manda provê-las com camas, colocando
mesmo a hipótese de doar uma das suas. Deixa 6000 libras para a albergaria que mandara fazer
em Odivelas, 50 libras para cada convento de frades pregadores e menores de todo o reino, 200
libras para as Donas de Santa Clara de Lisboa e igual importância para as de São Domingos de
Santarém. Para Santa Clara desta vila foram legadas 300 libras. Às emparedadas de Lisboa,
Santarém, Óbidos, Leiria e Coimbra deixou 200 libras e 100 para os leprosos das mesmas vilas.
Os mosteiros de Cheias e Santos em Lisboa, de Celas, do Lorvão e de Arouca foram
beneficiados com 50 libras cada; ao de Santa Clara de Coimbra deixou 500 libras
expressamente para a enfermaria e outras 500 para o de Almoster. Legou ainda 600 libras para
todos os outros hospitais e albergarias do reino, sendo 100 concretamente para o Hospital dos
Meninos de Lisboa. Não esqueceu ainda outras instituições fora do reino - o hospital de
Roncesvales, a enfermaria do Mosteiro de Santa Creus, onde estava sepultado o seu pai, e São
Francisco de Barcelona, onde descansava a sua mãe, foram contemplados, cada um, com a
importância de 500 libras. Neste testamento doou também 1000 libras para remir cativos. Ao
filho e infante herdeiro deixou algumas jóias, e às suas donas, donzelas, aias, covilheiras,
criados e criadas importâncias em dinheiro. Neste testamento sobressaem os legados pios e
assistenciais, sendo os mosteiros franciscanos e de clarissas os mais beneficiados.

No segundo testamento, feito já como viúva, para além da alteração do local da sua sepultura, é
visível um aumento generalizado das dádivas feitas no anterior, surgindo o Hospital dos
Meninos de Santarém beneficiado com 1000 libras, idêntica importância sendo concedida à
enfermaria de Odivelas, pela sua alma e a do rei.
200

Mas foi o seu mosteiro, agora o local escolhido para a sua derradeira morada, o mais
contemplado, tendo-lhe deixado, para além de uma elevada soma em dinheiro (12 000 libras
para a construção e mais 36 000 das rendas dos seus senhorios a entregar após a sua morte),
alfaias e paramentos à sua capela, onde seria eternamente evocada a sua memória e sufragada a
sua alma. Das suas jóias, legou a sua coroa de esmeraldas à rainha D. Beatriz, a quem chama
minha filha, rogando-lhe que a deixasse, depois, à infanta D. Maria sua filha. A esta deixou a
sua coroa pequena, o broche redondo e a crux de ligno Domini; à outra neta, a infanta Leonor,
legou outra coroa de pedras grandes.

No ano seguinte, 1328, num codicilo (aditamento) feito ao último testamento, reforçou as
doações ao seu mosteiro legando-lhe o paço em que habitava, embora reservando-o
exclusivamente para aposentadoria da família real. A administração do hospital contíguo ao
paço foi entregue à abadessa de Santa Clara, ou a pessoa idónea em que ela delegasse, no caso
de nenhuma sua familiar mais próxima estar interessada em fazê-lo. Determinava que as
despesas se fizessem à custa dos bens com que o dotaria e dos que com essa finalidade deixava
ao mosteiro. A abadessa era também atribuída a tarefa de escolher as pessoas a acolher, tendo
como condições essenciais a pobreza, a honestidade, o bom comportamento a todos os níveis e
a idade de, pelo menos, cinquenta anos. A obrigação de escolher só pobres «honestos» estava
relacionada com a ideia de que proteger os aptos para trabalhar significaria proteger a
ociosidade e encorajar o povo a não laborar. Quanto ao bom comportamento, caso o mesmo não
se verificasse, a abadessa tinha poder para castigar ou mandar embora quem não se portasse
como devia. Neste codicilo, deixou a rainha minuciosamente indicado como devia ser assistido
cada um dos hospitalizados, no vestuário, no calçado, no leito de dormir, bem como a
quantidade de comida que deveria ser dada a cada pobre. Assim, a alimentação diária de cada
um compunha-se de 32 onças de pão cozido, uma tagara de vinho e dois arráteis de carneiro,
porco ou vaca, sendo a alimentação nos dias de abstinência como a abadessa considerasse
convenhavil.
201

Quanto ao vestuário, a abadessa deveria distribuir todos os anos a cada um dos pobres, ssayas,
pelotes, camissas e calcaduras e, de dois em dois anos, pelicos e cerames destanferee ou doutro
pano que sseia de preço de quinze soldos de dinheiros velhos portuguezes o covedo. Para as
camas seria fornecido um almadraque, uma colcha, um chumaço e as cuhertas consideradas
necessárias.95 Deveria passar a designar-se «Hospital de Santa Isabel», em homenagem à sua
tia-avó, Santa Isabel da Hungria.

Como depositários e executores das suas derradeiras vontades, encarregou o seu filho e a sua
nora, os netos Pedro e Maria, a sua fiel aia Vataça, alguns religiosos franciscanos e a abadessa
de Santa Clara. Como sempre, os familiares e a clientela mais próxima. As instituições mais
queridas e necessitadas, como o Hospital dos Meninos de Santarém, os mosteiros de Almoster e
de Santa Ana da Ponte e, principalmente, o seu mosteiro com o paço e o hospital envolventes,
foram, especificamente, encomendadas ao filho e seus descendentes.

A quantidade e variedade de imagens religiosas, objectos devocionais, livros de meditação e de


liturgia referidos nos seus testamentos indiciam as devoções pessoais e privadas da rainha.
Pertencem, na sua maioria, à capela ou oratório privado várias vezes referido nas suas últimas
vontades. No de 1314, legou a sua capela ao Mosteiro de Odivelas sem referir pormenores
doando, no entanto, outros objectos sacros, como uma cruz de ouro e «relíquias» que deverão
ter servido as práticas devocionais da rainha.

No testamento de 1327, as informações são mais abundantes. A capela é legada a Santa Clara de
Coimbra, referindo-se que contém cruzes de ouro e de prata, turíbulos, cálices, paramentos, e
todas as outras coisas que à capela pertencem, ficando-lhe ainda o que sobrasse em prata ou
móveis, após cumprido o testamento. A rainha deixava também ao Convento de Santa Clara
uma Santa que mandava poer às noivas que casavão de sua casa, incumbindo a abadessa que a
empreste aquellas que casarem e que lha tornem depois. (Nota 96) Esta «Santa» refere-se a uma
das raras esculturas de vulto em prata que chegaram até aos nossos dias - uma Virgem com o
Menino, de «tamanho fora do comum», centrada na maternidade de Maria que, tal como o
Filho, deixa transparecer um ar de serenidade e de humanização.
202

Trata-se de uma escultura em prata branca e dourada, cinzelada e repuxada, com pedras
preciosas e esmaltes, soerguida sobre o dorso de três leões aninhados, de forma a não quebrar o
equilíbrio e as proporções da peça. A Virgem está de pé, segurando o Menino no braço esquerdo
e o caule de uma flor na mão direita. Um véu caído sobre os ombros esconde-lhe os cabelos,
visíveis apenas junto à face. Um colar de grandes pedras orna-lhe o pescoço. Veste uma túnica
até aos pés e um manto preso à frente por um firmai. O cinto da túnica apresenta uma ponta
comprida que desce até quase aos pés; ostenta, em todo o seu comprimento e alternados, os
brasões esmaltados com as armas de Portugal e de Aragão, relembrando a todos os que a
vissem, e para sempre, a marca linhagística da dadora e não deixando dúvidas quanto à sua
original pertença. É interessante salientar que a Virgem se encontra vestida como a rainha,
ostentando as suas armas, como que se «fundindo» com ela. O Menino, com vestes compridas,
segura uma pomba na mão esquerda e aponta, com a direita, para uma abertura no peito da
Mãe. A imagem recebeu carnação na face da Virgem e do Menino e nas mãos de ambos. Este
tipo de esculturas multiplicou-se, em Portugal, ao longo do século XIV, fruto da consolidação
do culto mariano e de um diferente olhar sobre a mulher e a criança. A tendência para conferir
um relevo cada vez maior às imagens maternais, seja na gravidez - as chamadas Virgens da
Expectação ou do Ó - no aleitamento -, as Virgens do Leite, como esta - ou ainda as Virgens de
Ternura, em que a Mãe brinca com o Filho, contribuíram para associar Nossa Senhora à
maternidade nos seus diferentes aspectos, valorizando-a e prestigiando o contributo da mulher
na reprodução familiar. (Nota 97)

Outra peça do seu tesouro, uma cruz em ágata e prata dourada, com pedras preciosas
encastoadas, ostenta, igualmente, pequenos escudos gravados dos dois reinos de D. Isabel - o de
nascimento e o de casamento. É uma peça de dimensões apreciáveis, pertencente, talvez, ao
oratório particular da rainha. Os braços da cruz são em ágata vermelha-escura e são rematados
por encaixes de prata dourada com pedras. Ao centro, no cruzamento dos braços e num campo
quadrado também em prata dourada, representa-se Cristo Crucificado ladeado da Mãe e de S.
João, surgindo no reverso um Cristo-Juiz sentado em majestade no seu trono.
203

As duas imagens na mesma cruz parecem assim conciliar o poder e o despojamento, a


autoridade e a simplicidade, as duas facetas da rainha poderosa e austera.

Objectos devocionais mencionados no seu testamento atestam a importância e a presença das


relíquias, aqui incorporadas em luxuosas peças de ourivesaria. São os casos de uma coroa de
ouro com relíquias encastoadas em jaspe, uma cadeia de ouro com relíquias de S. Bartolomeu
encastoadas em cristal e uma crux de ligno Domini deixadas às infantas suas netas. Destas
peças, só a última chegou aos nossos dias. O relicário do Santo Lenho é uma peça
extremamente original no conjunto dos relicários medievais portugueses, combinando a
excelência de materiais como o coral vermelho, raro e muito apreciado na Idade Média, a prata
e as esmeraldas. Repousa sobre dois leões de vulto pleno, que, embora representados de pé,
recordam os leões aninhados que soerguem a imagem da Virgem com o Menino do mesmo
tesouro, guardiães possantes da fragilidade da sua relíquia, encimada pela cruz em aspa,
símbolo de humildade. A utilização dos leões liga-se às noções de força, esplendor e coragem, e
à crença de que este animal nascia morto, voltando à vida três dias depois, quando o pai
respirava sobre ele. O leão identifica-se, assim, com a figura de Cristo morto na cruz. Acreditar
que os leões dormem de olhos abertos, tornava-os garantes da vigília e guardiães do sagrado.
Na extremidade superior da aspa desenvolvem-se dois corpos hexagonais, de prata, onde estão
gravadas as armas de Portugal. Os três pedaços de coral, interligados entre si por anéis de prata,
terminam com uma nova peça de prata, composta por três braços divergentes. No braço central,
mais elevado, estaria a imagem de Cristo Crucificado e nos laterais as imagens da Virgem e de
S. João, esculturas hoje perdidas. Na base da imagem de Cristo, no interior do receptáculo
circular, encontra-se a relíquia do Santo Lenho, de forma cruciforme. Esta original e luxuosa
peça, que integraria o oratório privado de D. Isabel, não tem paralelo na ourivesaria da Europa
da sua época. Uma outra peça que não faz parte do seu testamento, embora o faça do seu
tesouro, é o bordão de peregrina que lhe teria sido dado pelo arcebispo de Santiago de
Compostela quando a rainha aí se deslocou.
204

Apesar de lhe ter sido dado «para parecer peregrina de Santiago» e sendo uma peça alusiva à
humildade do viandante, o referido bordão é decorado com ricos materiais como prata e ágata,
assemelhando-se, na sua magnificência, aos outros objectos já referidos. Um bordão tão rico era
apanágio de muito poucos, como os arcebispos de Compostela que os usavam como insígnia
própria, e de alguns peregrinos de grande importância, como foi o caso da rainha.

Para além de bens religiosos, o rico tesouro da rainha compreendia, ainda, diversas jóias, como
um broche grande com camafeu, um diadema de pedras citrinas e um colar. As duas primeiras,
doadas ao Mosteiro de Santa Clara no seu segundo testamento, desapareceram. O colar, jóia de
uso pessoal da rainha, é uma peça composta por oito broches de ouro com pedras preciosas,
interligados por uma dupla cadeia também de ouro. Os oito broches são constituídos, cada um
deles, por uma chapa plana de ouro que apresenta ao centro uma grande pedra, encastoada com
quatro garras, rodeada por oito pedras de menores dimensões, encastoadas em cápsulas cónicas.
Esta peça, que pela sua original organização não encontra semelhante entre a joalharia civil da
Europa da época, não é incluído no testamento da rainha, o que é estranho devido à riqueza de
que se reveste. Como sugere Mário Barroca, é possível que este colar tenha sido criado
posteriormente, articulando diversos firmais de mantos legados por D. Isabel ao mosteiro, como
forma de não os perder. Dado que os oito broches do colar, analisados individualmente, se
assemelham muito aos firmais utilizados para prender os mantos (como é visível na estátua da
Virgem com o Menino) que a rainha devia possuir em número significativo, estas peças não
assumiriam importância suficiente para serem mencionadas no seu legado testamentário. (Nota
98)

A Rainha Santa

Das rainhas consortes medievais e mesmo das cerca de trinta rainhas consortes portuguesas,
nenhuma teve o reconhecimento e a admiração que D. Isabel teve, já sem referir a veneração,
ainda hoje existente, daquela que foi considerada a Rainha Santa Isabel.
205

Talvez por esse facto ela foi quase sempre mais referida e olhada como santa, colocando em
todas as suas atitudes um halo de santidade, de piedade e de bondade, esquecendo ou
menosprezando o seu papel político como rainha. O correr dos séculos fez com que a santidade
de Isabel fosse diluindo a sua face humana de rainha, esposa e mãe. O altar foi superando a
História e o mito foi-se entrelaçando com a realidade. Por essa razão deixámos,
deliberadamente, esta sua faceta para o final da análise da sua personalidade, tentando
privilegiar o estudo da história da soberana no período anterior à sua transformação em mito e
em santa. A extrema devoção da rainha e a sua história de caridade, abnegação e renúncia foram
suficientemente importantes para que os Mendicantes não deixassem em claro esta
oportunidade. Logo após o falecimento de D. Isabel, aproveitando o halo de santidade surgido
já em torno da rainha, eles traçaram, através da escrita da sua hagiografia e da promoção do seu
culto, uma imagem de religiosidade que não só a apropriava pela Ordem como a inseria no
modelo criado para a santidade das grandes senhoras seculares. De facto, a sua biografia
hagiográfica lembra o percurso de várias damas nobres que, em determinados momentos das
suas vidas, optaram pela vivência franciscana e pela concretização do ideal de pobreza. Entre
estas, avulta a figura da rainha Isabel da Hungria, tia-avó de D. Isabel; as suas vitae apresentam
semelhanças, não só nos seus modelares papéis de rainhas, esposas e mães, mas também na
igual devoção, abnegação, caridade e virtuosismo. Os jejuns e as esmolas são comuns às duas
familiares, bem como a protecção aos pobres, feita às escondidas dos respectivos maridos. De
ambas se conta o lendário «milagre das rosas» e de ambas se conhece a fundação de hospitais.
Quanto à oração, se de Isabel de Portugal se conta que rezava em todolos dias, todalas oras
Canónicas," de Isabel da Hungria exalta-se o facto de, desde menina, ordenar

«a si mesma hum certo conto de orações, o qual jamais passava sem as dizer, e se alguma vez,
por necessidade ou ocupação, passava o dia sem as dizer, à noite no leito se dava à oração e não
dormia até que acabasse suas orações». (Nota 100)

Também o posicionamento de ambas face ao matrimónio é semelhante.


206

Se já referimos a forma como D. Isabel vivera virtuosamente a sua sexualidade num casamento
voltado para o cumprimento do dever conjugal e para a continuação da linhagem, também no
caso de Isabel da Hungria se recorda como ao ser

«constrangida de seus padres para receber marido, acabara por se submeter ao grande carrego
do marido, não tanto com desejo e inclinação da carne mas somente por não resistir à
obediência dos padres e por que Deus lhe desse fruto de que fosse servido». (Nota 101)

Ambas se limitariam, assim, «a um uso parcimonioso do seu sexo no interior e em função da


família». (Nota 102)

O poder taumatúrgico da rainha de Portugal é referido em variadíssimas situações, tanto em


vida como após a sua morte. No primeiro caso referem, por exemplo, as crónicas, situações de
cura de apostemações e inchaços no estômago, feridas na cabeça, um pé comesto de pragua, e
dous dedos afistolados, que estavam para cair, bem como o caso de uma mulher doente de tal
dor, que cahia amortecida, e com dificuldade ha faziam retornar à vida. Todas estas curas eram
feitas, com muito amor e carinho, mediante a aposição da sua mão sobre o mal, a bênção com o
sinal da Cruz ou o beijo na própria chagua. (Nota 103)

Após a morte, a fama da sua santidade e dos milagres operados ainda em vida espalhou-se não
só por Coimbra mas por todo o reino. As primeiras manifestações da devoção e do culto da
Rainha Santa Isabel iniciaram-se logo durante a longa jornada de Estremoz até Coimbra, que
durou sete dias e sete noites. O primeiro momento da formação do culto religioso e do mito
isabelino que dele derivou constituiu-se através da gente que, de todo o lado, acorreu para a ver
passar, aí começando a circular os rumores de prodígios e milagres.

Seguiram-se as exéquias no Convento de Santa Clara, em que o entusiasmo do povo foi tal que
se receou pela segurança do ataúde. Desses dias datam as primeiras narrativas de curas
milagrosas que irão fazer parte dos autos de canonização. Aí se iniciou, de forma espontânea, a
veneração popular e religiosa da «Rainha Santa». Logo que o seu corpo foi colocado no túmulo,
o pano grade vermelho cõ que fora cuberto, bem como as andas em que fora transportada forão
loguo rotas, e espadaçadas, e goardados os pedaços como relíquias.
207

Doentes, peregrinos, ou simples devotos acorreram ao local em que repousava o corpo da


Rainha Santa, almejando no contacto com as suas relíquias a sua cura. Nas crónicas referem-se,
entre outros, os casos de duas freiras, uma que sofria de tal infirmidade nos beyços que de praga
se lhe comião todos, para além de ser também manqua de huma perna e outra que havia um
lobinbo no olho de que nõ via e estava quase a perdê-lo e que se curaram, a primeira ao beijar o
ataúde da rainha e a segunda com uma vigília no seu túmulo. Também um homem com uma
sanguessuga na garganta que há muitos dias se sangrava á morte, não lhe valendo remédios nem
romarias, veio dormir uma noite sobre o moimento de D. Isabel e ao outro dia a sanguessuga
muyto grade, e viva lhe apontou na venta direyta por onde lhe foy tirada, e foi são. Igualmente
cegos e surdos se curaram com a devoção e a presença junto ao túmulo da rainha miraculosa.
(Nota 104)

A importância deste local como referência à memória da rainha Isabel levou D. Afonso IV a
promulgar um documento no qual mandava executar as disposições da rainha sua mãe, não
consentindo que, exceptuando reis e infantes de sua linhagem, ninguém habitasse nos paços da
mesma rainha, por ela mandados construir e situados junto do Convento de Santa Clara. (Nota
105)

Iniciado em Coimbra como culto privado neste convento, o culto da Rainha Santa rapidamente
alcançou as proporções de culto público. A acção pacificadora e moderadora, bem como as
múltiplas obras piedosas e miraculosas de D. Isabel estiveram na base do pedido de beatificação
feito pelo rei D. Manuel I, em 1516, reconhecido pelo papa Leão X no ano seguinte, embora
ficando restrito à diocese de Coimbra. Em 15 de Abril do ano seguinte, o papa Leão X
beatificou a rainha. Em 1556, o papa Paulo IV ampliou o culto da rainha a todo o território
português e, em 1560, foi criada em Coimbra a Confraria da Rainha Isabel. Iniciara-se o
processo com vista à sua canonização.

No dia 26 de Março de 1612, procedeu-se à primeira abertura do túmulo da Rainha Santa, visto
o exame das relíquias ser um dos requisitos processuais. A abertura, feita na presença, entre
outros, dos bispos de Coimbra e Leiria, do desembargador do paço, de vários professores de
medicina da Universidade de Coimbra e do notário que lavrou o auto, merece ser transcrita pelo
menos nas suas partes essenciais.
208

Após se ter aberto o sepulcro

«Apareceu hum Caixão, cuja madeira por ser de tão precioza pérola, nem estava comida do
caruncho, nem tinha outra lezão alguma. Realçou-se esta maravilha à vista da corrupção do
couro e da alcatifa; desta duravam alguns pedaços, daquele alguns cabelos. Acharam-se muito
sãs todas as insígnias de Romeira a são Tiago de Galiza; uma bolça, & Bordão, da primeira
romaria, uns alforges de linho da segunda. Achou-se o Santo Corpo cozido em hum encerado de
linho, & este era tão forte, que com muita dificuldade se rasgou. Depois dele se viu uma colcha
branca com a mesma cor, & a própria graça, como se aquela fosse a primeira hora em que
servira. Apareceu a venerável Rainha vestida de estamenha parda, escura, estava cingida com
hum cordão, e na cabeça, que se achou coberta com alguns panos de linho, por cima deles esta
um véu de seda, como se então fora cortado da peça.

Estava o corpo todo unido e composto, com a carne aderente aos ossos, seca e toda coberta de
pele, como se falecera de muito poucos dias, as unhas intactas, a boca cerrada, sem deixar ver
os dentes. O olho direito também estava fechado, mas o esquerdo aberto, & pregado no Ceo,
com que se conheceu, que ambos eram verdes. O rosto era comprido, a testa larga, & não
mostrava ter rugas, as pestanas, sobrancelhas bem povoadas de pelo. Os da cabeça eram louros,
curtos como os trazem as Freiras, & não mostravam uma branca. O nariz era afilado. As mãos
compridas, o corpo bem formado, & de boa estatura, & em tudo mostrava que se em vida fora
formoza, ainda o era.»

O facto de tudo estar tão bem conservado, tido então como miraculoso, é explicado pelo Dr.
José Crespo com base no não contacto com o ar. Refere este autor que as várias exposições e
manipulações a que sujeitaram o corpo da rainha após a primeira abertura do seu túmulo
concorreram para a sua decomposição, visto o contacto com o ar ser nocivo à conservação.
(Nota 106)

O processo de canonização foi decidido pelo papa Urbano VIII em 1625, no tempo de Filipe III
de Portugal, tendo a bula de canonização sido outorgada por Bento XIV, em 1742.
209

Isabel de Aragão passou a integrar o cortejo dos santos da liturgia católica e o seu culto alargou-
se a toda a Cristandade. Em 1755, a Câmara Municipal de Coimbra elegeu a Rainha Santa
Isabel como Padroeira da Cidade. É reverenciada a 4 de Julho, data do seu falecimento. (Nota
107)

Todo o processo que rodeou a sua canonização contribuiu para a recolha e preservação de
muitos relatos sobre a sua vida e obra. A par do culto religioso e popular existe uma
diversificada tradição lendária da Rainha Santa, composta por narrativas de acontecimentos
extraordinários e prodigiosos ou de milagres, como a lenda do «milagre das rosas», introduzida
tardiamente por influência da lenda similar da sua homónima tia-avó, a rainha Santa Isabel da
Hungria. A rainha abrindo o regaço onde o ouro (ou o pão) em rosas se transmutara ficou,
definitivamente, aliada à sua imagem, constituindo o elo de ligação entre o culto religioso e a
tradição popular.

É difícil determinar a época exacta do aparecimento desta lenda na tradição portuguesa. Não
consta do Livro Que Fala da Boa Vida Que Fez a Raynha de Portugal Dona Isabel e dos Seus
Bõos Feitos e Milagres em Sa Vida e depoys Sa Morte, cópia quinhentista, manuscrita e
iluminada da sua biografia anónima do século XIV, mas em meados do século XVI estava já
amplamente difundida. O primeiro registo escrito da lenda das rosas encontra-se na Crónica dos
Frades Menores, de 1562. Desta época, datam o quadro anónimo, conhecido por Rainha Santa
Isabel, do Museu Machado de Castro de Coimbra, e a belíssima iluminura da Genealogia dos
Reis de Portugal de Simão Bening sobre desenho de António de Holanda. Motivo privilegiado
pela literatura e pela iconografia, o «milagre das rosas» tornou-se o emblema identificador da
Rainha Santa e o motivo central de um discurso mítico que teve, desde a origem, uma larga
difusão popular, responsável pela sua permanência e vitalidade.

A memória cronística

Valorizam as crónicas as donas portadoras de qualidades como a humildade, generosidade e


discrição, delas não excluindo a voluntária e apreciada execução de meritórias tarefas, como
lembram as notícias relativas à rainha Isabel de Aragão, sempre evidenciando como ela se
entregava a alguma digna ocupação.
210

As suas inúmeras bondades aparecem quase sempre exemplificadas através do registo de um


constante labor virtuoso. Elogiada como discreta e humilde, recorda-se como rainha que
recusava o ócio cortesão, costumando por suas mãos lavrar e fazer cousas douro, seda e prata, e
se entregava a práticas caritativas e misericordiosas, repartindo a sua atenção pelos pobres,
doentes e crianças, incluindo os bastardos do rei seu esposo. Mulher sem ódios nem vinganças,
capaz de responder com perdão e favores a desgraças e vexames, Isabel também se apresenta
como interveniente, graças ao seu prestígio moral, na obtenção de pazes conducentes à
concórdia do reino.

Os relatos das intervenções da soberana nas várias batalhas travadas ao longo do seu reinado
têm a coloração de milagres, fazendo depender a ocorrência da paz de graças divinas
concedidas por intermédio de uma santa rainha. Na verdade, as crónicas de Quatrocentos e
Quinhentos já consideram Isabel como tal, enriquecendo a sua memória, para além do registo
de actos e intervenções políticas, com narrativas de tipo hagiográfico e miraculoso, (Nota 108)
sendo, por vezes, difícil distinguir os dois registos.

Em grande parte, as lembranças da rainha, redigidas em meio senhorial e eclesiástico, acabam


por reflectir uma certa animosidade face ao marido, o monarca de quem são conhecidos os
conflitos que o opuseram ao clero e à nobreza. (Nota 109) Nesse sentido, a imagem da rainha
não deixa de reflectir um contra-retrato do rei. Assim, se este se caracterizou por uma prática
política centralizadora e avessa à outorga de benesses e direitos, a rainha associa-se à
liberalidade e à redistribuição das concentradas riquezas do reino, pois ha moor parte de suas
rendas dava secretamente ha pessoas miseráveis, não nesitando em abrir as bolsas de seu
dinheiro aos grandes do Regno para hos trazer a paz e a comcordia, ao contrário de um rei para
quem os bens da Coroa eram arcas e cofres. Por outro lado, enquanto o rei se opunha, irada e
violentamente, a quem contestava o seu poder, não hesitando em envolver-se em lutas
fratricidas e filicidas, a rainha apresenta-se como a que

«foi sempre em todas suas adversidades, e descontentamentos, mui armada de paciência,


porque nela nunca foi conhecida ira, nem sanha, e as vinganças que tomava dos males, e
descontentamentos, que dalguém recebia, eram graciosos perdões sem querer tomar por si, nem
por outrem alguma outra emenda». (Nota 110)
211

A santidade de Isabel acabou por fazer do seu tempo uma época alegadamente favorecida pela
divindade, um governo em que o progresso e a prosperidade do reino foram acrescentados por
celestiais benesses, através de milagres obtidos por intervenção de uma das progenitoras da
régia estirpe portuguesa. Por isso, a hagiografia de Isabel teve cronística recepção,
transformando-se em matéria do passado de Portugal e dos seus monarcas, ao mesmo tempo
que se definia como espelho e ideal das mulheres dos soberanos lusos.

As suas últimas notícias referem-se à derradeira viagem realizada e Estremoz a Coimbra, já


morta, sob grandes quenturas do Sol. Apesar do calor, o seu corpo, não exalava o fedor da
corrupção. Diz-se, pelo contrário, ser o odor que pellas fendas do ataúde saia, igual ao
experimentado num grade e muy florido rozal. Depois, por entre a reminiscência de celestes
jardins e a recordação dos milagres ocorridos no túmulo de Santa Clara, o moimento sob o qual
vinham dormir os doentes agraciados pelo poder das relíquias, terminam, em hagiográfico
recitativo, as memórias da Rainha Santa. (Nota 111)

É tempo, também, de terminarmos. Fiquemos, com as sempre belas palavras de Maria Helena
Cruz Coelho:

«Com Isabel a realeza de Portugal recebeu um novo carisma. O rei, na herança dos seus
antepassados, encarnava os valores guerreiros colocados ao serviço da difusão da fé e da
construção de um reino cristão. A rainha encarnava a essência da santidade e o poder
taumatúrgico que só às mulheres neste reino, parecia pertencer.

Na aliança de casamento entre Dinis e Isabel o prestígio e a capacidade governativa e


burocrática de um rei unem-se à religiosidade e acção diplomática, assistencial e caritativa de
uma rainha. As trovas de um rei-poeta e as rosas-pão de uma rainha-santa tocam, em uníssono,
o coração dos homens. E Dinis e Isabel ultrapassam a história, para ascenderem ao mito, na
memória colectiva de um povo, de Portugal e dos Portugueses.» (Nota 112)
<Página em branco>
8

BEATRIZ DE CASTELA

(12.93 -1359)

A rainha propiciadora da boa paz e concórdia


<Quadro genealógico de Beatriz de Castela: omitido>
D. Beatriz esteve longe de der uma figura meramente decorativa na corte e no negócio do reino.

Bernardo Vasconcelos e Sousa (Nota 1)

Origens

Beatriz nasceu em 1293, na cidade de Toro, no reino de Leão e Castela. Era filha do rei Sancho
IV de Castela e da rainha Maria de Molina. Teve seis irmãos, entre os quais o rei Fernando IV
de Castela, e Isabel, esposa de Jaime II de Aragão e depois de João III, duque da Bretanha.

Aquando dos acordos celebrados em Alcañices, em 1297, não só se confirmou o casamento


entre a infanta Constança e o futuro Fernando IV de Castela, como também se tratou do
casamento do infante Afonso, com a infanta Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. Teve,
assim, lugar a 1ª dupla união entre Castela e Portugal, na qual um irmão e uma irmã infantes de
um reino, casavam com uma irmã e um irmão do outro. Era, pois, duplamente assegurado o
tratado, a paz e a aliança entre Portugal e Castela, sinal inequívoco de uma desejada
aproximação entre os dois reinos.

A vinda para Portugal

A pequena infanta Beatriz veio para Portugal, em 1297, com apenas quatro anos de idade, para
ser criada pelos pais do seu futuro marido, o sucessor do trono português que rondava os seis
anos de idade.
216

Como esta, muitas outras meninas nobres desde muito novas, viam-se obrigadas a abandonar a
corte paterna para cumprir um destino matrimonial que nada tinha a ver com afectos ou
interesses despontados pela sua beleza, personalidade ou saber, mas que, pelo contrário,
implicariam forçadas, cruéis e traumáticas rupturas com os quotidianos cortesãos em que
haviam crescido e haviam sido educadas. Os seus laços familiares eram, assim, bruscamente
interrompidos para logo dar lugar à preparação para o desempenho de uma função materna à
qual os interesses dinásticos ou linhagísticos exigiam a rápida produção de filhos.

Logo no regresso de Alcañices, D. Dinis deu as convenientes arras à sua futura nora,
entregando-lhe o senhorio de Évora, Vila Viçosa, Vila Real, Gaia e Vila Nova pela renda anual a
dar à infanta de 6000 libras de moeda velha de Portugal.

Beatriz andou muy honradamente em caza do rei Dinis e foi crescendo num ambiente de
cultura. O seu futuro sogro herdara do avô Afonso X de Castela o gosto pelas letras e pela
escrita, pela poesia em língua portuguesa e pela arte trovadoresca. Os dois meios-irmãos
daquele que seria seu marido, filhos ilegítimos de Dinis, seguiram-lhe as pisadas. Pedro Afonso,
que foi conde de Barcelos, para além da importante Crónica Geral de Espanha de 1344,
escreveu também o chamado Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, escrito entre 1340 e 1344,
onde fez um registo exaustivo das principais famílias da nobreza peninsular medieval, num total
de cerca de cinco mil personalidades. Foi uma figura central no panorama cultural da primeira
metade do século XIV. O outro irmão, Afonso Sanches, foi um importante trovador.

O casamento e a descendência

Para além do acordo político entre os dois reinos, havia que garantir a necessária autorização
papal devido à proximidade de parentesco entre os infantes portugueses e castelhanos. O infante
Afonso era bisneto de Afonso X, rei de Castela, por via da sua avó paterna (Beatriz Guillén de
Gusmão, bastarda deste rei e casada com Afonso III) e a infanta castelhana era neta do rei
Sábio.
217

Em 1301, quando o papa Bonifácio VIII emitiu as bulas de dispensa de parentesco, em


simultâneo com as de Constança e Fernando IV, os noivos eram ainda muito pequenos, pelo que
o casamento só se realizou em 1309, tendo Afonso 18 anos e Beatriz 16. Restava agora esperar
que a jovem princesa fosse fértil e que colorisse a corte com os necessários frutos dessa união.

A infanta castelhana não desapontou as expectativas, cumprindo, no mais alto desempenho, o


superior papel que cabia às mulheres de elevada condição como peça fundamental na elaborada
rede diplomática da política matrimonial. Deteve uma fertilidade activa ao longo de 15 anos,
concebendo com uma extraordinária regularidade e escassos intervalos intergenéticos de apenas
2 anos e meio. Conheceu todas as agruras e os bons momentos de uma mulher casada e
fecunda. Deu à luz 7 crianças e comungou das dores de uma qualquer mulher e mãe,
principalmente em tempos medievais em que os riscos da gravidez eram elevados e a taxa de
mortalidade infantil grande, sobretudo no primeiro ano de vida, mesmo no seio dos grupos
sociais privilegiados. Depois, os 4 anos seguintes continuavam a ser zona de risco.
Confirmando as estatísticas, quatro dos seus sete filhos faleceram perto do primeiro ano de
vida. (Nota 2)

Maria foi a primeira filha a nascer, corria o ano de 1313. Dois anos depois, nasceu o infante
Afonso, que morreu pouco depois, e, em 1317, nasceu Dinis, que faleceu no ano seguinte.
Pedro, nascido em 1320, primeiro varão sobrevivo, será o futuro rei. Sucederam-lhe os infantes
Isabel e João, nascidos, respectivamente, em 1324 e 1326, que a morte arrebatou ainda em
crianças. Leonor, nascida em 1328, ano do casamento da sua irmã Maria, foi a última
descendente a nascer. Beatriz rondava os trinta e cinco anos e era rainha há três.

O casamento de Afonso e Beatriz foi um enlace fértil e, ao que parece, também feliz. Não se
conhecem filhos bastardos do rei. Duas possíveis explicações serão, talvez, os laços de
profunda estima, amizade e respeito que se tenham criado com a convivência que desde muito
cedo tivera com a sua futura mulher, ou, outra hipótese, as recordações dos problemas havidos
com os seus irmãos bastardos que lhe fizeram evitar que o mesmo acontecesse com o seu
herdeiro.
218

Dos sete filhos nascidos, três sobreviveram - o futuro rei Pedro e as infantas Maria e Leonor
que, pelos seus casamentos, serão, respectivamente, rainhas de Castela e de Aragão.
Continuava, assim, a manter-se o prestígio da monarquia portuguesa no seio da família
monárquica ibérica, aproximando-se familiar, política e diplomaticamente as três principais
Casas reinantes peninsulares.

Maria, nascida no mesmo ano em que morria sua tia Constança, rainha de Castela e Leão, foi
como ela rainha do mesmo reino e como ela teve uma vida complicada e triste. O século XIV,
em cuja primeira metade decorreu a vida de Maria, foi um dos mais cruéis da História europeia.
As guerras, as epidemias, principalmente a peste negra, os maus anos agrícolas e as
consequentes fomes são alguns exemplos desta «trilogia de horrores» que, com poucas
excepções, assolou todo o continente europeu. Maria, embora nascida numa dinastia
consolidada desde há dois séculos e meio, e vivendo numa época de bem-estar económico
durante quase todo o período de reinado do avô Dinis, cresceu e viveu num clima de agitação
permanente, consequência primeiro dos confrontos do seu belicoso progenitor e depois do seu
primo e marido Afonso XI de Castela.

Uma vez que este matrimónio era muito importante para os dois reinos, no contrato de
casamento Afonso XI comprometeu-se solenemente a tomar Maria por sua mulher, a fazer dela
rainha e, mesmo que o papa os non despemsase por serem em sangue tam conjuntos, que ambos
mamtiuesem como marido e molher, como se fosem despemçados. (Nota 3)

Este casamento, embora realizado dentro do prazo estabelecido, com gramdes festas e muitas
alegryas, (Nota 4) foi uma união desgraçada desde o começo, contribuindo para enegrecer a
relação entre os dois reinos. A circunstância de, indo já em dois anos de casamento e a rainha
não engravidar, o temor da sua eventual esterilidade e o facto de Afonso XI se ter deixado tocar
pela beleza e frescura de Leonor Nunes de Gusmão, uma fidalga sevilhana viúva de poucos
dias, e ao que parece de génio muito altivo, começaram a conturbar o real matrimónio. Em
1330, nasceu Pedro, o primeiro fruto deste ilegítimo amor. Pouco depois deste nascimento,
decidiu a rainha-avó Isabel de Portugal deslocar-se a Castela para falar com o seu neto sobre as
consequências políticas que esta relação poderia trazer, de futuro, ao seu reino.
219

Para além da obrigação moral que as suas crenças religiosas lhe impunham, D. Isabel conhecia,
por experiência pessoal, os problemas que os bastardos régios provocavam. Não tinha o seu
filho Afonso IV sofrido os efeitos dos deslizes extra-matrimoniais do seu marido Dinis? Esta
conversa não surtiu, no entanto, qualquer efeito, pois pouco tempo depois Leonor voltou a ficar
grávida de Afonso XI, nascendo, em 1331, Sancho, o segundo bastardo.

Em 1332 nasceu, finalmente, o infante Fernando que, no entanto, veio a falecer antes de
completar um ano de idade. Nesse mesmo ano, Leonor dera à luz mais dois bastardos, os
gémeos Henrique e Fradique. Após seis anos de espera por um herdeiro legítimo, D. Maria
engravidou novamente em 1334. Fruto de um parto muito demorado e complicado pelo qual
perpassaram, no dizer dos cronistas, os feytiços e diabolyco emcantamento da manceba com
uma moura feiticeira, D. Maria deu finalmente à luz um varão ao qual foi dado o nome de
Pedro, o mesmo do 1.° filho de Leonor.

Mesmo após ter cumprido a sua obrigação de dar ao rei um herdeiro, a rainha não deixou de
continuar a ser humilhada pois Afonso XI mantinha uma vida dupla, alternando o seu tempo
entre as duas famílias, a oficial e a formada com Leonor, a quem dava o seu afecto e
substanciais doações.

Maria regressou, entretanto, a Portugal, fixando-se em Évora, onde então se achava a corte de
seu pai. Se toda a anterior situação de sua filha desagradava profundamente ao rei de Portugal,
o seu regresso acabou por gerar um grave conflito entre Portugal e Castela.

Após três anos de guerra, de invasões mútuas (1336-1339), vitórias, derrotas e destruição para
ambos os lados, Maria regressou à corte castelhana com a obrigação de Afonso XI dar à sua
mulher o tratamento e honra que lhe devia e o consequente exílio da corte de Leonor Nunes de
Gusmão.

No entanto, conforme escreve Fernão Lopes no seu jeito próprio de contar, Afonso XI não
podia sofrer a comverçaçam da mulher, nem a pryvaçam e apartamento da favorita. E em fim
tudo se tornaua ao que primeiro fora. (Nota 5)
220

Em finais de 1348, e principalmente em 1349, a peste negra começou a fazer sentir os seus
mortais efeitos na Andaluzia. Afonso XI, acabou por ser contagiado, vindo a falecer a 27 de
Março de 1350.

Após a morte do marido, subiu ao poder o seu filho, Pedro I de Castela, com a idade de 16
anos.

Também com o filho as relações de Maria não foram pacíficas. Ao escolher para sua esposa
Branca de Bourbon, uma infanta francesa cujo dote era considerável, iniciou mais um conflito
na sua já muito tormentosa vida. Assim, enquanto a noiva iniciava o seu caminho rumo a
Castela, uma jovem e bela mulher, Maria de Padilha, irrompia pela vida do rei, que dela se
enamorou. Quando Branca chegou ao local onde se iria realizar a boda, Pedro encontrava-se em
casa da amante que acabara de ter uma filha dele. A história repetia-se! Seguindo as pisadas do
pai, Pedro, embora casasse, haveria de abandonar a mulher para viver com a favorita.

Esta neta do rei Dinis, a formosíssima Maria a que se refere Luís de Camões no canto III de Os
Lusíadas, foi, assim, uma personagem sem dúvida infeliz, mas algo controversa à luz da
História.

Em 1356 retirou-se para Portugal, acolhendo-se em Évora.

Neste reino, ainda governado por seu pai, viveu pouco e infeliz. Pelos tempos sobrevive a ideia
que Afonso IV a recebeu contrariado e terá contribuído para a sua morte prematura em 1357.
No final da sua vida, nem o local em que determinara sepultura foi respeitado. E se, mais tarde,
o filho obteve a trasladação do seu corpo de Évora para Sevilha, não a sepultou como ela
desejar a no real Mosteiro de S. Clemente em Sevilha (para onde se tinha retirado algumas
vezes ainda em vida do marido), mas na Capela Catedralícia dos Reis, também em Sevilha e
onde já repousava o marido. Anos depois, durante o reinado de Henrique II, no momento em
que os filhos de Leonor Nunes de Gusmão ocupavam o trono de Castela, cumpriu-se, por fim, a
sua vontade, embora sintomaticamente de forma punitiva. Por não tolerar que a responsável
pela morte de sua mãe repousasse junto do pai, Henrique II dele separou Maria, banindo-a para
um último exílio no Mosteiro de S. Clemente.

Humilhada pelo marido e desprezada pelo filho, a dignidade por que tanto lutou em vida não
lhe seria concedida mesmo depois de morta, nem como mãe nem como rainha, pois o seu filho
acabaria por ser assassinado em 1369 pelo próprio irmão, o bastardo Henrique, que instaurou
uma nova dinastia em Castela. (Nota 6)
221

Pedro, o único filho que sobreviveu e foi rei, veio ao mundo a 8 de Abril de 1320, quando o
renovo das plantas & das flores mostravão vencidas as asperezas do Inverno. O nome, de
tradição aragonesa, primeiro a reinar em Portugal, ter-lhe-á sido dado, talvez por homenagem à
sua avó aragonesa, Isabel, a Rainha Santa, filha de Pedro III de Aragão, ou, como refere o
cronista: No bautismo lhe derão o nome de Pedro, sobre que fundarão, como em pedra, as
esperanças da paz. De facto, o seu nascimento ocorreu numa altura de fortes confrontos entre o
seu pai e o seu avô, daí, talvez, a analogia com o apóstolo de Cristo e o seu sucessor.

A este infante nos voltaremos a referir nas biografias de D. Constança Manuel e D. Inês de
Castro. (Nota 7)

Leonor, a última descendente, nasceu quando Afonso IV reinava havia três anos e se dispunha a
iniciar uma política de alianças casando a descendência. Na corte portuguesa, onde passou os
primeiros 19 anos, longe andou dos problemas conjugais da irmã Maria, ou dos conflitos de seu
pai com o rei de Castela, mas ainda privou com a cunhada Constança Manuel e conviveu com
Inês de Castro, de quem não chegou a conhecer a história. E terá certamente ouvido contar as
façanhas e a bravura de seu pai e de seu cunhado na batalha do Salado. (Nota 8)

Em 1347, o rei Pedro IV de Aragão, o Cerimonioso, fez chegar a Afonso IV a sua proposta para
casar com Leonor. O anterior casamento do rei aragonês com Maria de Navarra não lhe dera
filhos varões. Afonso IV, por seu lado, não só conseguia que uma das suas filhas herdasse o
trono da riquíssima monarquia de que fora originária a sua mãe, a Rainha Santa, mas também
lhe permitia enviar uma velada ameaça ao seu genro castelhano.

O casamento acabou por se realizar em Novembro de 1347.

Apesar do grande empenho posto por ambos os monarcas neste matrimónio que unia
familiarmente as duas Coroas, Leonor, a primeira e única soberana aragonesa proveniente de
Portugal, acabou por falecer um ano após o casamento, aos vinte anos, vítima de peste negra, a
epidemia que tão profundas cicatrizes deixou na História europeia.
222

Por ela não se continuou a Coroa aragonesa, pois a sua filha Beatriz, que veio para Portugal
após a morte da mãe e foi criada por sua avó, a rainha sua homónima, morreu ainda em menina.

A acção política

Ligada desde muito jovem à corte portuguesa (como já foi referido, veio para Portugal aos 4
anos e aqui viveu 12 anos até casar), e tendo a experiência dos conflitos político-familiares nela
gerados, Beatriz foi protagonista em importantes causas políticas quer internas quer externas. A
nível interno, o conflito entre seu marido e o pai iniciou-se pouco tempo depois do casamento.
De um lado o rei D. Dinis, do outro o herdeiro Afonso com pressa em ser rei, sentindo-se
preterido em relação aos bastardos paternos, em especial a Afonso Sanches, a quem Dinis
queria grande beem (Nota 9) e do qual se sentia mais próximo, talvez pelo comum gosto pela
poesia, e a quem nomeara mordomo-mor, cargo político da maior importância, e que este
desempenhou durante cerca de onze anos (1312-1323).

Beatriz apoiou o marido, não concordando, no entanto, com a sua postura violenta. Também a
sogra, Isabel de Aragão, o apoiava discretamente. Quando o conflito se declarou, em 1320,
Beatriz e os filhos aguardaram em Alcanices o desenrolar dos acontecimentos. Após 4 anos de
guerra civil, a paz foi assinada, garantindo o rei a sucessão do legítimo Afonso e o afastamento
da corte do bastardo Afonso Sanches.10

Em 1325, por morte do rei Dinis, D. Beatriz viu o seu marido, à época com cerca de 34 anos,
ser aclamado rei. A morte de Dinis não trouxe a paz ao reino português. Afonso IV, após o
falecimento do pai, exigiu ser reconhecido por meio da convocação de cortes e, apesar de
confirmado como rei, continuou os conflitos com os seus meios-irmãos, João Afonso e Afonso
Sanches. Não esquecera os ódios antigos e, com a morte do pai, chegava a hora da vingança. E
foi assim que, já nos seus tempos de rainha, os conflitos de Afonso IV com os seus irmãos
bastardos continuaram. Por ordem do rei foi João Afonso mandado executar. Afonso Sanches
foi desterrado.
223

Também no plano externo, durante a guerra luso-castelhana de 1336-1339, entre Afonso IV e o


sobrinho-genro Afonso XI de Castela, Beatriz teve uma intervenção digna de destaque ao tentar
evitar, em 1337, a entrada dos exércitos castelhanos na fronteira do Guadiana. Dirigiu-se, então,
a Badajoz, onde se encontrava Afonso XI, tentando pôr fim às hostilidades entre os dois reinos.

Ainda no contexto peninsular, mas agora com Aragão, no Verão de 1338, mandou embaixadores
seus a este reino, propondo a Pedro IV uma reaproximação e a reactivação da aliança que
existira entre os dois reinos e que ficara ensombrada pelo repúdio de D. Branca pelo infante
herdeiro. De facto, Afonso IV de Aragão, pai de Pedro IV e tio de D. Branca efectuou, durante
os anos de 1334/35, várias diligências junto da Coroa portuguesa para que o prometido
casamento entre esta infanta aragonesa e o infante português viesse efectivamente a ser
concretizado. Dada como comprovada a debilidade mental de D. Branca, bem como a sua
incapacidade para o casamento, o mesmo não se chegou a realizar. A iniciativa de D. Beatriz
visava, assim, atrair para Portugal ou, pelo menos, neutralizar um reino com alguma
importância no panorama político peninsular. Se com o rei castelhano os esforços de D. Beatriz
não alcançaram o previsto, com o rei aragonês veio a celebrar-se um tratado de aliança e
amizade em Novembro desse mesmo ano. A rainha portuguesa cumpria, assim, um dos papéis
que o casamento lhe reservava - a obtenção da paz, da concórdia e da aliança entre os reinos.

Anos mais tarde, a guerra civil voltou a ameaçar o reino, quando Afonso IV condenou à morte
Inês de Castro e o seu revoltado herdeiro Pedro lançou o reino novamente numa guerra civil. A
discórdia durou cerca de um ano e ter-se-á desanuviado quando Beatriz, em colaboração com o
arcebispo bracarense D. Guilherme, conseguiu pôr termo às lutas travadas, no norte senhorial,
entre o marido e o seu herdeiro. O acordo de Marco de Canaveses, assinado em 1355, sanou as
discórdias familiares e devolveu ao reino a tranquilidade perdida. O documento refere o papel
decisivo que a rainha desempenhou na obtenção desta paz, nomeadamente no juramento de
fidelidade do infante Pedro ao pai, realizado em Canaveses a 5 de Agosto, tendo ela mesmo
segurado a cruz e os Evangelhos sobre os quais o juramento solene foi feito.
224

A pedido de D. Beatriz, o infante Pedro não só jurou perdoar para sempre os implicados na
morte de Inês, como prometeu também manter esse perdão e jamais o pôr em causa, não
prendendo nem matando os que lhe tinham tirado a vida. O infante comprometeu-se mesmo a
passar cartas de perdão a quem o quisesse «assinadas da sua mão e seladas do seu selo» como
prova das suas boas intenções. Idêntico juramento fez a rainha sobre os Evangelhos e o
crucifixo segurados pelo arcebispo bracarense, comprometendo-se a fazer o filho cumprir o que
ali prometera.

No dia 14 de Agosto foi a vez de Afonso IV, no claustro do Mosteiro de S. Francisco, em


Guimarães, afirmar o seu perdão para com os vassalos de seu filho que com ele lhe tinham
levantado armas, comprometendo-se a manter esse perdão e a dar as referidas cartas com o seu
selo régio a quem as requeresse. Também aqui a rainha esteve presente. A 20 de Agosto, no
Mosteiro de S. Domingos do Porto, novamente D. Beatriz jurou sobre os Evangelhos e a cruz
segurados pelo arcebispo de Braga, que tudo faria para que o marido cumprisse o juramento.
Também Rui de Pina refere o compromisso duplamente garantido pela soberana, já que salienta
como não só ela o jurou presencialmente, como deu menagem, & fez prometimentos de fazer
quanto nelle fosse, como, depois, aprovou e jurou as cartas de concerto que sobre isto se
escreverão. (Nota 11)

Nesta assinatura de paz entre pai e filho, orientada tão de perto pela rainha, ficou decidido que o
infante João, primeiro filho de Pedro e Inês, receberia o condado de Barcelos com dez mil
libras, facto que, embora não tenha sido mais tarde concretizado, significou uma promoção para
este primogénito da Castro. Sabendo do apoio que D. Beatriz sempre deu ao filho e do carinho
que dedicava aos netos, talvez esta atribuição tenha tido a influência da rainha. (Nota 12)

Como refere Bernardo Vasconcelos e Sousa, a actuação política da rainha Beatriz,


desempenhada a um nível tão elevado e em situações tão complexas como as de guerra aberta,
pressupõe uma autoridade e um conjunto de meios próprios, sem os quais não lhe teria, sequer,
sido possível fazer-se ouvir pelas partes em conflito. Para chegar à fala com os contendores e
tentar negociar, a rainha tinha de dispor de «espaço de manobra, de capacidade de persuasão e
de uma pelo menos relativa autonomia política».
225

Em todos os conflitos referidos, Beatriz agiu em prol do entendimento e da pacificação, estando


no centro dos acontecimentos e não se eximindo a correr riscos. (Nota 13)

Ao ser educada sob a supervisão da Rainha Santa, a quem, desde os 4 anos se terá habituado a
ver como mãe, tornou-se a primeira soberana de origem estrangeira com um perfeito domínio
da língua e dos costumes lusitanos, o que lhe facilitou o desempenho do seu papel de mediadora
de conflitos. Da convivência com a sogra parece ter herdado o seu estilo de intervenção política
em situações de conflito, bem como ter sido a continuadora de algumas das suas iniciativas. D.
Beatriz continuou ligada à expansão e protecção dos franciscanos e, em particular, a Santa
Clara de Coimbra que, com o seu belo paço e jardins adjacentes ao convento, se tornara uma
das residências preferidas das rainhas de Portugal.

À semelhança da sogra Isabel, também Beatriz recebeu de seu marido a jurisdição civil e
criminal das suas terras, ficando igualmente a pena de morte dependente da apelação para o rei.
A soberana não se eximiu de intervir directamente no exercício de direitos senhoriais em várias
ocasiões, mesmo que as suas decisões fossem contrárias às autoridades envolvidas e mesmo que
estas fossem, por vezes, do foro eclesiástico. Foi o que aconteceu, por exemplo, numa carta
enviada aos juízes de Almada, na qual ordenava que fosse levantada a excomunhão lançada
pelo prior e pelos raçoeiros (Nota 14) da Igreja de Santiago da dita vila sobre Afonso Martins e
sua mulher, devido a uma disputa sobre um pagamento extra solicitado pelo prior e relativo a
uma propriedade que estes haviam comprado. Como refere Benevides, nesta recíproca invasão
de poderes, em que, para obter a quantia que cobiçava, o prior usou as armas espirituais a que
não tinha direito (a excomunhão) e a rainha se imiscuiu em questões fora da sua jurisdição,
como as religiosas, «foi a rainha quem venceu». (Nota 15)

A própria existência de ouvidores da rainha (magistrados jurisdicionais que ouviam as partes e


preparavam a decisão a tomar) comprova a sua actuação senhorial, fosse esta de carácter
rotineiro (como era o caso do normal exercício dos poderes senhoriais) ou de natureza
extraordinária (como ocorria nas tentativas de mediação de conflitos armados). Beatriz esteve,
pois, longe de ser uma figura meramente decorativa na corte e nos negócios do reino.
226

A acção assistencial

Igualmente na piedade e nas preocupações assistenciais foi digna sucessora da sua sogra. Em
1329, criou na alcáçova de Lisboa um hospital para o qual legou uma renda de 800 libras
anuais. Juntamente com seu marido, criou, também, o Hospital da Sé (testamentos de 1342 e
1354), uma instituição com fins religiosos e caritativos onde eram recolhidos vinte e quatro
pobres de ambos os sexos, doze homens e doze mulheres, de «bons costumes, boa fama e
vergonha»; estes pobres deveriam encontrar-se nesta situação «não por maus feitios que
fizessem, nem por más manhas, nem por maus costumes que houvessem», e não deveriam ter
menos de 50 anos, salvo se fossem aleijados ou portadores de uma doença incurável. Cada um
recebia, diariamente, três soldos para alimentação e ainda roupas de cama e de vestir com a
obrigação de assistir a tocas as missas realizadas na capela real e rezar por alma dos seus
benfeitores. Caso faltassem sem uma justificação aceitável, ficavam privados dos três soldos;
também se se comprovasse que não davam bom uso ao que recebiam, o provedor do hospital
repreenderia e castigaria os que assim se comportassem, retirando-lhes o que deveriam receber.
Havendo reincidência no mau comportamento, o provedor expulsar a o que assim se
comportava, substituindo-o por outro pobre. Em caso de doença, o provedor devia chamar o
físico que providenciaria o necessário para a sua cura. Enquanto estivessem doentes não
recebiam a importância destinada ao seu mantimento diário, visto que este lhes seria fornecido
pelo hospital, bem como os remédios e o médico.

Salientamos, aqui, duas situações que se verificam em outras fundações tanto anteriores como
posteriores a esta rainha -¦ o número e a tipologia de pobres a beneficiar. No primeiro caso, a
devoção do número doze, por vezes com variante para o treze, enquadrar-se-ia numa piedade
cristocêntrica, com a reconstituição da Ultima Ceia e do grupo de doze apóstolos. Os apóstolos
foram os primeiros representantes que Cristo deixou e os pobres os seus perpétuos sinais,
aqueles que Ele sempre ajudou e com os quais se identificou, visto que Ele próprio nascera em
pobreza. Depois o tipo de pobre a ser beneficiado não é qualquer um, mas sim os pobres bons e
vergonhosos e de boa fama.
227

De facto, era-se pobre nesta época por causas externas à própria pessoa. A guerra, a peste, as
doenças, a fome, as desvalorizações monetárias eram factores que levavam à queda em pobreza.
E era a queda em pobreza que distinguia gradativamente os pobres uns dos outros. Dado que a
roda da fortuna não se coibia de tudo tirar a quem tudo tivera, por situações várias caíam na
miséria muitos honrados. Eram estes os «de bons costumes, boa fama e vergonha» que, pela sua
condição, não podiam pedir esmola ou servir a outrem. A honra e a vergonha pertenciam aos
que haviam possuído riqueza, fossem eles da nobreza ou do povo e, no limiar mínimo, apenas
um ofício. Opunham-se estes pobres honrados aos que sofriam de preguiça, um dos sete
pecados mortais, e que punham em causa a sociedade estabelecida. (Nota 16)

Voltando ao Hospital da Sé, a sua administração e da capela seriam feitas pelo rei e pela rainha,
passando, após a morte de ambos, para o provedor que deveria manter as normas definidas
pelos dois fundadores. Também na escolha do provedor havia sérias recomendações, devendo
ser homem de Lisboa, bem rico e de boa fama, já dispensado de ter cavalo e de participar em
qualquer espécie de serviço militar. Os reis que sucedessem a D. Afonso IV e D. Beatriz
deveriam zelar pelo cumprimento do estabelecido e, caso os bens deixados para mantimento
destas instituições não chegassem, os sucessores deveriam assegurar o sustento dos capelães e
do hospital. (Nota 17)

Beatriz - a rainha

Para além das terras recebidas por arras, aquando da sua vinda para Portugal, recebeu D.
Beatriz muitas outras em doação. Em 1321, sendo o marido ainda infante, concedeu-lhe Viana,
com toda a jurisdição civil e criminal. Em 1335, doou-lhe algumas herdades em Santarém e, em
1337, doou-lhe a lezíria da Atalaia. No ano de 1341 recebeu uma quinta no termo de Alenquer
e, em 1350, o prior e convento de S. Vicente de Fora doaram à rainha a quinta de Melide, em
Sintra. (Nota 18) Em 1357, recebeu de seu filho outras doações que referiremos mais à frente.
228

Se a riqueza em terras e rendas era grandiosa, o corpo da rainha ostentava, igualmente, a sua
magnificência, como o impunha a sua condição social. O traje e os adornos distinguiam,
exteriormente, a rainha das outras mulheres da sua Casa e corte. As pedrarias (especial
predilecção da Idade Média), bem como os adornos de ouro e prata cobriam com o seu brilho e
esplendor as ricas roupagens de damasco, veludo ou cetim, os cintos ou as grinaldas do cabelo.
Entre as pedras preciosas, a esmeralda ocupava o lugar principal, seguindo-se-lhe o rubi e a
safira. Para além das gargantilhas, colares e pregadores, os anéis usavam-se com profusão em
todos os dedos. (Nota 19)

A inventariação dos bens que D. Beatriz fez no seu testamento tornou visíveis os inúmeros
objectos de luxo que a rainha foi acumulando ao longo da sua vida. São aí referidos, entre
muitos outros objectos de ourivesaria, vários anéis de esmeraldas, rubis e safiras, dois
camafeus, um cinto de prata e muitas outras peças não especificadas, de ouro, prata e diamante.

Algumas destas peças haviam-lhe sido transmitidas ao longo de várias gerações, outras tinham-
lhe sido oferecidas pela mãe, pelo irmão, pelo marido ou pelas filhas, as infantas Leonor, casada
com o rei de Aragão e Maria, casada com o rei de Castela. A quantidade e a qualidade destes
objectos revelam não só um gosto esmerado, como a circulação de produtos de luxo que seriam
transportados pelas comitivas e embaixadas régias organizadas, por exemplo, aquando dos
casamentos entre membros das famílias reais peninsulares. A raridade, os elevados preços, a
passagem de geração em geração e a perenidade destas peças surgiam indissociavelmente
ligados ao que eram consideradas características inerentes à condição da realeza, também ela
única, rica, hereditária e intemporal. (Nota 20)

Beatriz - a mãe e avó

Após a morte de Constança Manuel, sua nora, foi D. Beatriz que tomou a seu cargo a criação e
a educação dos seus dois filhos, particularmente do neto Fernando, como se pode inferir da
referência a Maria Durães, mulher de sua Casa, como «covilheira do infante D. Fernando meu
neto». (Nota 21)
229

Pelo menos durante os primeiros anos da sua infância o jovem infante terá feito parte do séquito
da rainha. D. Beatriz andaria pelos cinquenta e seis anos quando a infanta Constança morreu e
durante a década que ainda viveu deixou bem claro a sua protecção e o seu empenhamento no
destino político dos seus netos, particularmente no deste infante. Fernando deverá ter sido
criado junto da avó até ao início da puerícia, ou seja, os sete anos, passando depois aos cuidados
de Aires Gomes da Silva, senhor da velha aristocracia minhota, tal como aconselhavam os
tratados de educação. Como escrevia o seu avô materno, D. João Manuel, «às filhas, faça-se
como a mulheres; e aos filhos, como a homens». (Nota 22) Assim, os rapazes que eram até essa
idade criados no «gineceu» cortesão passavam a partir daí a ingressar em ambientes
predominantemente masculinos, ao cuidado de um aio que se encarregava de os guardar e
educar em tudo aquilo que lhes fosse necessário à sua futura vida. Cavalgar, lidar com animais,
exercitar o corpo, manejar armas mas também a aprendizagem das regras de comportamento
necessárias ao convívio da corte, como o saber estar à mesa, a postura que deveria ter, o que
devia comer ou beber e como o devia fazer, a forma de se exprimir à refeição e a própria
higiene no decorrer da mesma, eram aspectos da educação dos jovens príncipes. A leitura, a
escrita ou a música requeriam, normalmente, um mestre próprio. Para além de tudo isto, o aio
deveria, também, amar a criança que lhe era entregue e protegê-la de todo o mal.

Particularmente nos dois últimos séculos, alguns historiadores têm questionado este
afastamento entre a criança e os progenitores, entendendo-o, por vezes, como uma forma de
distanciamento emocional estando mesmo relacionado com o vulgar estereótipo do fraco amor
às crianças no período medieval. Logicamente a moderna visão da família nuclear muito
influenciada pelos valores culturais burgueses, centrada no convívio e na proximidade de pais e
filhos, nada tem a ver com os valores da época que não eram melhores nem piores mas sim
diferentes, sendo essa uma característica particular da educação medieval. Nada nestas práticas
nos diz que a criança crescesse e fosse educada privada de cuidados e de amor; pelo contrário
tal como para as amas se prescrevia uma rigorosa selecção também para os aios se determinava
que, sem excepção, deveriam ser nobres de confiança e dependentes do progenitor
criteriosamente escolhidos.
230

A criação e educação do jovem estava, nesta sociedade, distribuída por outras personagens,
encarando-se como benéfica essa transferência de familiaridade, conhecimentos e afectos.
(Nota 23)

Fechemos, então, esta breve incursão sobre a educação medieval e regressemos à nossa rainha.

O apoio prestado por D. Beatriz aos netos e ao próprio filho aquando dos conflitos com o pai
terá levado D. Pedro a doar à mãe as localidades de Óbidos, Atouguia, Torres Novas, Ourém,
Porto de Mós e Chilheiros, com seus termos, reguengos, padroados, casa, moinhos, azenhas,
rendas e direitos, referindo, na própria carta de doação, que o faz consirando a mujta criaçom
que me a raynha dona briatiz mjnba madre fez E como me foy sempre muy verdadeira amjga
em todos meus fectos. (Nota 24) Numa cláusula que fazia parte desses acordos negociados em
1355, D. Beatriz reclamou para si uma parte dos rendimentos do reino de que D. Pedro
desfrutava, cláusula que poderá estar relacionada com a custódia dos seus netos. Em 1358, fez
nova doação de herdades, bens e privilégios destinados ao hospital e capela da rainha, em
Santarém. (Nota 25) Porém, enquanto os dois filhos de D. Constança, ao que parece,
continuaram com esta rainha após a morte da mãe, sendo o infante herdeiro depois entregue a
um vassalo próximo do rei seu avô, os filhos de Inês de Castro parece terem estado com o pai,
D. Pedro, e sob o controlo dos Castro que os acompanhavam. Desenhou-se assim, logo desde
pequenos, um quadro de relativo afastamento entre D. Fernando e os seus meio-irmãos.

Entre as múltiplas disposições que se encontram nas suas últimas vontades, é visível o carinho
evidenciado pela rainha para com o filho e os netos, não esquecendo nenhum deles, embora
privilegiando os descendentes da esposa legítima e, destes, o mais velho. Vejamos, então,
sumariamente, os bens deixados em dádiva de amor e recordação a estes familiares mais
próximos. Por serem interessantes peças de ourivesaria e joalharia, dão uma ideia do luxuoso
tesouro da rainha.

Pelo filho, já rei à altura da elaboração do testamento, há uma clara preferência.


231

A ele deixou um conjunto que lhe tinha sido oferecido pela sua filha Leonor, rainha de Aragão,
e que era constituído por uma taça com sobrecopa (tampa) rematada por um ornato com um
cavaleiro montado num cisne, acompanhado por um pichei (pequena vasilha para beber vinho)
esmaltado e uma outra taça com pé de prata e sobrecopa dourada e esmaltada; quatro anéis, um
com esmeralda grande da vertude, outro com rubi encastoado (provável oferta também da sua
filha Leonor de Aragão), um outro com uma safira oriental grande e um último também com
um rubi grande; uma cinta em prata esmaltada que havia pertencido ao infante D. Filipe, irmão
da rainha; um saleiro, o melhor que eu ouver bem como o tnayor diamante que ouver.

Ao neto Fernando, em coerência com o seu estatuto de herdeiro do trono, as jóias e os objectos
legados destacam-se pela sua importância e riqueza. Um conjunto de relíquias oferecidas pelo
papa e guardadas num cristal; duas taças de ouro com sobrecopa, uma com a figura do Agnus
Dei e outra rematada por uma safira e que havia pertencido ao rei seu marido; dois camafeus
(pedra composta de várias camadas de diferentes matizes e esculpida em relevo), um com um
leão que pertencia à família real desde D. Dinis e outro com um «homem bochechudo», oferta
do rei à rainha; uma cruz de ouro com um rubi e quatro safiras que havia pertencido à mãe do
infante, D. Constança, e que depois passara para D. Afonso IV; anéis, um com uma esmeralda
que a rainha pede para o neto nunca alienar, um outro com turquesa que tinha sido do rei e
ainda um conjunto de sete anéis - três com rubis, três com diamantes, um com esmeralda - que
tinham também pertencido a D. Afonso IV e que os quis deixar ao neto e, posteriormente, ao
bisneto primogénito; um saquinho com anéis dentro do saco onde se encontrava o anterior
conjunto de sete e que havia pertencido igualmente ao avô Afonso; três safiras, uma cinta de
ouro que o rei tinha oferecido à rainha e uma peça com uma esmeralda rodeada por aljôfares
(pérolas miúdas).

À neta Maria, neta legítima e irmã do infante Fernando, são igualmente doadas importantes
peças de ourivesaria. Um relicário com um rubi rodeado por várias esmeraldas pequenas, com
mais quatro esmeraldas grandes e quatro aljôfares grossos dispostos em círculo; um castelete
(jóia com o feitio de um castelo) com dois camafeus representando leões e com vários aljôfares,
que lhe tinha sido oferecido por sua filha D. Maria, rainha de Castela; um outro camafeu
grande, de colo, com figuras e esmeraldas pequenas à volta; uma dobra de ouro, grande e
esmaltada, também oferta da rainha de Castela à mãe; um anel com uma esmeralda longa; um
«carro de ouro» com a respectiva donzela, com diamantes, pedras e aljôfares; várias contas de
ouro que tinham pertencido à rainha D. Isabel e a D. Constança; várias contas de aljôfares, as
milhares que ouver.
232

Passemos aos filhos de Inês de Castro. Aos infantes João e Dinis, são escassos os bens
atribuídos, que nada receberam do tesouro da rainha, devendo contentar-se unicamente com
peças retiradas da baixela da avó. Ao primeiro, três copas, uma de prata esmaltada que havia
pertencido a D. Afonso IV e duas outras de prata, sendo uma delas de prata dourada; duas taças
de prata que a rainha usava, das per que bevo. Ao segundo infante, duas copas, sendo uma delas
com sobrecopa de prata dourada e encimada por um botão grande e ainda duas taças de prata.

Por último, a infanta Beatriz, igualmente filha de Inês de Castro, foi beneficiada com doações
de bastante valor e mais generosas que os seus irmãos, talvez por ser mulher e ter necessidade
de mais atractivos patrimoniais. Um relicário de camafeu com a figura de Sansão sobre um
leão, com esmeraldas e rubis pequenos à volta, que havia pertencido a Maria Afonso, filha
natural de D. Dinis; uma copa de prata dourada que havia pertencido a D. Vataça Lascaris; uma
cruz de ouro com camafeu, esmeraldas, rubis e safiras; várias contas de aljôfares, as milhores
que hi ouver; uma grinalda de ouro com rosetas esmaltadas, cada uma com o seu aljôfar, e
safiras entre as rosetas. Esta grinalda tinha sido doada à infanta D. Maria no codicilo de 1354.
(Nota 26) No entanto, se a infanta Beatriz foi melhor dotada do que os seus irmãos com um
pequeno tesouro entre o sagrado e o ornamental (o relicário, a cruz e a grinalda), continua a ser
muito inferior ao da neta Maria.

Os testamentos

Conhecem-se de D. Beatriz três testamentos e um codicilo. O primeiro, redigido talvez em


Lisboa, em 21 de Março de 1349, teria a rainha cerca de 56 anos, foi seguido de um codicilo,
feito em Coimbra, nos Paços do Rei, em 27 de Dezembro de 1354, que veio corrigir o primeiro
testamento.
233

Em Santarém, no Paço da Valada, à data de 23 de Março de 1357, foi redigido um segundo


testamento e, a 29 de Dezembro de 1358, cerca de um ano e meio depois da morte do marido e
quase um ano antes da sua, D. Beatriz mandou redigir o seu último testamento, feito em
Alenquer, nos Paços da Rainha. (Nota 27) Sobrevivem o codicilo e o segundo e terceiro
testamentos, conhecendo-se algumas disposições do primeiro pelas referências a ele feitas no
codicilo.

A confrontação destes três documentos, o codicilo e os dois últimos testamentos, para além de
algumas alterações mais ou menos subtis, revela, no de 1358, a inclusão dos três infantes filhos
de Inês de Castro que, embora nascidos entre 1352 e 1354, data do codicilo, se encontravam
ausentes da partilha do tesouro real.

As alterações que se foram verificando na família real devem ter estado na base das sucessivas
alterações testamentárias. Assim, o primeiro testamento e o respectivo codicilo sucederam-se às
mortes da filha Leonor, a rainha de Aragão, em 1348 e da nora Constança Manuel, em 1349.
Este documento, feito com a rainha ainda relativamente jovem, deve ter sido mandado lavrar
sob a pressão da grande peste. A execução de Inês de Castro e o falecimento da outra filha,
Maria, a infeliz rainha de Castela, antecederam o segundo testamento. O último, mandado
redigir em 1358, é fruto de todas estas vicissitudes, simultaneamente familiares e políticas. Ao
ter ficado ela própria como legatária das filhas e do marido já desaparecidos, novos objectos e
novos contextos de redistribuição surgiram.

Também a segunda família do seu filho, que entretanto subira ao trono, com «novos» netos,
potenciais candidatos à sucessão, obrigou à sua inclusão no património a herdar. Talvez porque
esta nova família não fosse muito do seu agrado, ou porque, atendendo à sua provecta idade,
estava bem consciente dos perigos que esta nova parentela poderia constituir para o legítimo
herdeiro de seu filho, o espaço criado nos testamentos para os «segundos» netos,
principalmente masculinos, foi bem exíguo como já referimos. E interessante realçar que
Fernando foi o único neto a quem a rainha referiu uma doação aquela que for mulher do infante
D. Fernando e que consistia na sua arca de azeviche, que a filha, rainha de Aragão lhe havia
dado, e que devia ser dada com todalas couzas que em elas forem achadas ao seu saimento.
234

Por esta época o filho de Constança Manuel rondaria os treze anos de idade e nada estava
decidido sobre o casamento do futuro herdeiro do trono. A preocupação da rainha em tentar
reforçar o primogénito como sucessor não deixava de ter significado, como veremos nas
biografias referentes às mulheres de D. Pedro.

Os vários testamentos coincidiram, assim, com diferentes contextos familiares e políticos.


Através do seu tesouro pessoal, demonstração material do seu poder, a rainha constituiu o ponto
de união e articulação entre Portugal, Castela e Aragão, reinos agora unidos pela circulação de
bens materiais, como outrora foram unidos pela circulação das suas filhas infantas e futuras
rainhas. O seu tesouro constituiu ainda um eixo de união entre quatro gerações da família real,
de D. Dinis a D. Fernando.

Sentindo o avançar da idade e porque en este mundo nom há cousa tam certa como a morte
embora a hora dela seja nom certa, a rainha-decidiu zelar pela remissão dos seus pecados e
deixar definidos o destino último do seu corpo e o futuro do seu vasto património.

Assim, para eternizar no mundo terrestre a memória da sua passagem, a rainha determinou que
a sepultassem

«em aquele lugar e capela onde El-Rei D. Afonso meu Senhor, a que Deus perdoe, jaz ou
houver de jazer, e que me enterrem no meu moimento que eu mandei fazer, o qual tenho na sé
de Lisboa, o qual moimento eu mando que se ponha em aquele lugar e capela onde o dito
Senhor Rei e eu houvermos de jazer».

Rui de Pina diz-nos que o rei foi sepultado no coro da Sé em quanto se acabava sua sepultura na
capela mayor onde ele, & a Rainha sua molher ordenarão suas sepulturas, (Nota 28) daí que à
data do testamento de D. Beatriz a rainha fizesse referência aos locais onde o marido jazia e iria
jazer quando as obras estivessem terminadas. De facto, a colocação dos túmulos no interior da
capela-mor só se terá verificado durante o reinado de D. João I, permanecendo até então no
coro da igreja.
235

A instituição de capelas, apanágio dos estratos nobres, para além de demonstrar a


individualidade de quem as instituía, assegurava a perenidade da sua lembrança no mundo dos
vivos.

D. Beatriz deixava ainda determinado que sobre o seu túmulo devia ser colocada a sua

«colcha assynada de sete escudos de castelos e de leões no cabo de contra a cabeceira, e outros
sete escudos desses mesmos sinais no outro cabo, de contra os pés e o pano que eu mandey
fazer (...) o qual me a raynha Dona Leonor d'Aragom mha filha a que Deus perdoe envyou».

Este pano, cobrindo imponentemente o seu túmulo como uma bandeira colorida, recordava a
todos a sua ascendência real castelhana e a proximidade de parentesco do seu filho e do seu
neto, seus sucessores, com quem ocupava o trono do reino vizinho. E D. Pedro, mas
principalmente D. Fernando, sentiram necessidade de reivindicar esta herança de sangue.

Ficava também estabelecido que deveriam ser colocadas lamparinas junto às cabeceiras dos
dois túmulos, que deveriam estar acesas assy de noyte como de dia. Iluminava-se, assim, o
recinto sagrado mas também o caminho que as almas deveriam percorrer na sua derradeira
viagem.

Na sua capela, ordenava que fosse colocado o seu barril longo do cristal com o pee de prata e be
cheo de religas [relíquias]. Ordenava também que os seus capelães deviam sempre cantar
missas na capela onde ela e o rei estivessem sepultados.

Ainda relativamente ao seu túmulo, referia a rainha que

«em aquele lugar onde o moimento do dito Rei e o meu forem postos, e, onde houvermos de
jazer, que deitem a ossada da Infanta Dona Beatriz minha neta que jaz em São Francisco de
Santarém no meu moimento em que eu houver». (Nota 29)

D. Beatriz definia não só o local mas também as pessoas que deveriam com ela ser sepultadas,
perpetuando na morte a união familiar que tivera na vida. Garantia, assim, a proximidade das
pessoas que marcaram o seu quotidiano - o marido e a neta homónima, filha da sua filha
Leonor, rainha de Aragão.
236

A manutenção da linhagem dos vivos na sociedade dos mortos, para além de demonstrar a
união e o poder dessa mesma linhagem, era uma forma de obter de força para enfrentar o
mundo desconhecido que os esperava.

A rainha estabelecia, a seguir, os diferentes tipos de missas e de cerimónias que deveriam ter
lugar após a sua morte. Estes cerimoniais tinham uma comemoração cíclica de forma a
perpetuar a lembrança do falecido. Durante o primeiro ano, após os ritos do sepultamento,
sucediam-se as intercessões ao longo dos meses, definindo D. Beatriz que o oitavário e o
trintário fossem celebrados logo após a sua partida com missas, saimentos e esmolas a pobres.
A crença de que a entrada definitiva do defunto no mundo dos mortos só se concretizava após o
primeiro ano do seu passamento originava a acumulação de cerimónias ao longo dos primeiros
doze meses. A partir daí as formalidades eram em menor número, limitando-se, praticamente,
ao assinalar dos aniversários como forma de não deixar cair no esquecimento a sua memória.
Estipulava a rainha que,

«os frades de todas ordens daqueles lugares onde for enterrada me venham fazer honra e digam
os frades de cada hum mosteiro dessa vila missas oficiadas e saiam muito oficiadamente sobre
meu moimento».

Deixava ainda uma importância em dinheiro aos frades de todos os mosteiros de S. Francisco e
de S. Domingos de Portugal para missas cantar. Os frades do Mosteiro de S. Francisco de
Lisboa, a quem deixava a sua cama mor e hua vestimenta perfeyta deviam dizer-lhe em cada dia
um responso e encomendá-la a Deus en todalas misas e horas que disserem.

Grande devota de S. Francisco, privilegiou os frades desta Ordem religiosa, deixando trinta
libras aos frades de S. Francisco de Bragança, Guimarães, Guarda, Lamego, Covilhã e Lisboa
para lhe cantarem missas. Aos frades de S. Domingos de Guimarães deixou, igualmente, trinta
libras para os mesmos ofícios. Todolos outros moesteyros de Sam Francisco e de Sam
Domingos de Portugal som já pagados do que Ihis para esto leixava no outro testamento
mandado redigir em Sintra, no ano de 1349.
237

A predilecção da rainha pelas Ordens religiosas mendicantes demonstra a influência de que os


Frades Menores e os Pregadores gozavam junto da população medieval e até mesmo nos mais
destacados membros da sociedade. A devoção a S. Francisco levou mesmo a rogar aos Frades
Menores que lhe dessem o seu hábito à hora da sua morte para ser com ele enterrada. A rainha
que acumulara riquezas e jóias ao longo da sua vida despojava-se então de todas elas, desejando
que o seu corpo morto não fosse vestido com o trajo real, símbolo do poder, mas sim com a
simples veste dos franciscanos, símbolo da pobreza e da humildade propostas pelo santo da
devoção. O despojamento dos bens à morte é um traço da mentalidade da época; como referiu o
historiador Huizinga, «da piedade luxuosa às manifestações teatrais de humildade ia apenas um
passo». (Nota 31)

Depois de cuidar do destino do seu corpo e das missas e orações que cuidariam da salvação da
sua alma, havia que deixar expresso o destino a dar aos seus bens móveis, reafirmando as redes
de solidariedade com familiares e com os que partilhavam o seu espaço residencial. Para além
do filho e dos netos, que mais beneficiaram, agraciou todos aqueles que se encontravam ao seu
serviço, ou na sua esfera de influência, possivelmente recompensando-os pelos serviços
prestados, pela fidelidade, pela amizade, pela companhia, pela partilha de emoções e
sentimentos. São os casos das damas nobres, das covilheiras, do seu clérigo confessor,
confidente e conselheiro, das criadas, dos membros do seu séquito, como o reposteiro-mor, o
mordomo-mor e o escrivão do tesouro, dos seus homens, tanto de criação, como de pé, como de
cavalo e das suas criadas. Com todos a rainha repartiu um pouco dos seus bens materiais
esperando que todos eles contribuíssem com as suas orações para a salvação da sua alma.

No seu testamento deixou, também, um legado para tirar cativos da catividade estabelecendo
que os cativos que assy tirarem sejam de Portugal ou de Castela, colocando aqui em igualdade
os cativos dos seus reinos de casamento e de origem, para a concessão de alforria a todas as
suas mouras e servas, para o casamento de todalas mhas donzelas e mancebas que andarem
comigo ao tempo do meu saymento. Deixou ainda um legado para a construção de pontes.

Para além da esmola, todos estes eram igualmente actos de natureza expiatória, tal como é
referido quando manda que os seus testamenteyros dem por mba alma todolos meus panos de lã
a molheres pobres e envergonçadas.
238

Igualmente a instituição dos hospitais anteriormente referidos (o primeiro sozinha e o outro em


conjunto com o marido) tinha como finalidade principal a purgação dos pecados e erros
cometidos em vida e algum corregimento, emenda e satisfaçam pêra se nosso Senhor Deus
amercear de nos e querer que com ele ajamos parte na sua gloria. (Nota 32)

A proximidade familiar visível no seu túmulo e na repartição dos bens é também verificada no
cumprimento das suas últimas vontades. Foi mais uma vez a família, o cônjuge, o filho e o neto
Fernando, que a rainha incumbiu de assegurar o cumprimento do seu testamento, juntamente
com outros testamenteiros clérigos e leigos. Partindo do princípio de que o testamento era um
meio de obtenção de um lugar I privilegiado no Além, a escolha daqueles que o iriam fazer
cumprir revestia-se da máxima importância. Uma escolha menos responsável poderia colocar
em causa o seu principal objectivo. (Nota 33)

A morte

Faleceu em Lisboa, a 25 de Outubro de. 1359, já viúva e com 66 anos, tendo sido sepultada na
Sé de Lisboa, tal como seu marido que falecera dois anos antes. Ambos os túmulos foram
destruídos pelo terramoto de 1755, vindo a ser substituídos por outros do século XVIII ainda
hoje existentes. Mário Barroca, recorrendo a uma passagem dos Livros do Cartório da Sé,
redigidos entre 1710 e 1716, refere que o túmulo de D. Beatriz teria, à semelhança do de D.
Afonso IV, uma estátua jacente e figuras pequenas na arca, onde se poderia ler «Beatrix
Portugaliae Regina / Affonsi Quarti Uxor» (Beatriz, Rainha de Portugal / Mulher de Afonso
Quarto).

A memória cronística

A figura de D. Beatriz de Castela não alcançou o destaque historiográfico de sua sogra, a rainha
Isabel de Aragão, mas é interessante notar como, enquanto rainha, apresenta uma memória
cronística decalcada na da Rainha Santa.
239

Assim, à excepção da espiritualidade e da santidade atribuídas à esposa de D. Dinis, Beatriz


recorda-se nas crónicas como constante presença nos momentos festivos da monarquia e como
pacificadora interveniente nos seus conflitos e lutas, tanto internos como externos, actuando
segundo os princípios de uma feminina acção de concórdia e de harmonia, as qualidades
propiciadoras da abundância e do bem-estar do reino.

Como senhora ligada à reprodução, à fertilidade e à riqueza da linhagem e da Casa dos reis de
Portugal, Beatriz associa-se a bodas e à recepção de hóspedes ilustres. Generosa e hospitaleira,
a rainha tornava a sua Casa num centro dispensador das glórias da monarquia. E, também, num
lugar de permanente acolhimento aos membros da família real, sendo com Beatriz que os
cronistas informam ter sido criada a neta homónima, após o falecimento da mãe, Leonor, rainha
de Aragão, a ter deixado sem qualquer feminino afecto. (Nota 34)

Voltada para o espaço interno e protector da realeza, para a privacidade dos tempos de paz e
abundância, Beatriz não deixa, no entanto, de ser lembrada como rainha capaz de enfrentar as
épocas de conflito e tribulação, como as que ocorreram durante a guerra luso-castelhana de
1336-1339 e por ocasião da revolta do infante Pedro contra o rei seu pai, em 1355, na sequência
da morte de Inês de Castro. Se não foi tão bem sucedida como a sua sogra a nível externo,
porque a sem razão do monarca castelhano inviabilizou os seus propósitos de boa paz &
concórdia e descontente se tornou a Portugal, a rainha não deixou de cumprir, mais uma vez na
tradição de Isabel de Aragão, ti suas funções de embaixadora da paz e da harmonia hispânicas.
Já no plano interno, ao contribuir para que o Ifamte dês hy em dyante fosse em tudo
hobedyemte a elRey, como deuya por bom fylho e lial vasalo, (Nota 35) a rainha sanava as
discórdias familiares e devolvia ao reino a tranquilidade perdida, da qual, aliás, sempre fora
atenta e previdente vigilante, indo nesse sentido os registados conselhos a Pedro pêra que
salvasse ou segurase Inês de Castro em tal luguar, que sua vida nom corese risco, (Nota 36)
podendo-se, assim, ter evitado a trágica morte da fidalga e a posterior guerra civil.
240

Restabelecida a paz interna no reino, Beatriz deixa de ser mencionada pelos cronistas. Esposa
de um rei apresentado como o que logo amou muyto seu povo, & sempre o regeo com inteyra
justiça, & o emparou, & defendeo com grande esforço, um soberano que por serviço de Deos,
& pêra boa, & justa governança de seus povos, & vassalos, fez muytas, & boas leys, &
ordenaçoens, que em seu tempo mandou sempre muy bem guardar (Nota 17) a rainha ligou-se a
uma memória breve e discreta, como convinha à privada domesticidade da ideal mulher de um
rei prestigiado.
9

Constança Manuel

(c. 1318 - 1349?)

A esposa desprezada
<Quadro genealógico de Constança Manuel: omitido>
Fermosa, sobre todo bem custumada e onesta, de muytas bõdades, e virtudes.

Rui de Pina (Nota 1)

Origens e primeiros «noivos»

Constança Manuel, filha de Constança de Aragão, era neta materna de Branca de Anjou,
princesa de Nápoles, e de Jaime II de Aragão e bisneta de Carlos II de Nápoles. O seu pai, o
infante D. João Manuel de Castela, príncipe de Vilhena e Escalona, duque de Penafiel, era filho
do infante Manuel de Castela e de Beatriz de Sabóia, sobrinho do rei Afonso X de Castela e
neto do rei Fernando III de Castela. D. João Manuel fora um dos tutores de Afonso XI de
Castela após a morte dos seus pais Fernando IV e Constança de Portugal. Quando o rei-menino
atingiu os catorze anos, tomou conta do governo e dispensou os conselhos do antigo tutor. Este,
habituado ao poder e não o querendo perder, aliou-se ao herdeiro da linhagem dos de Haro da
Biscaia, João Anes, o Torto, então já viúvo, e pretendeu

«casar com ele sua filha, que era ainda mui moça, para ambos que eram grandes senhores,
serem aliados contra elRey, de que se muito temiam, e assim contra quem os quisesse
danificar».

Um tal projecto de aliança depressa foi contrariado pelo monarca castelhano. Querendo evitar o
desasocego feudal que ela geraria, Afonso XI não só matou João Anes acusando-o de traição,
como se apressou a pedir em casamento a filha do senhor de Vilhena.
244

Com cerca de 7 anos, Constança foi, então, prometida em casamento, pela segunda vez, agora
ao antigo pupilo de seu pai, Afonso XI de Castela, que acabara de entrar na maioridade.

Casamento e repúdio

Ratificada a promessa de casamento pelas cortes em Valladolid, a 28 de Março de 1325, aí se


organizaram grandes festas e se celebraram os solemnes esponsorios. Por eles, João Manuel, o
neto do rei Fernando III de Castela, tornava-se sogro do rei de Castela, ainda que no futuro, já
que Constança, muyto moça, sem elRey a toquar, foy entregue a Dona Tareja, sua Aya, que a
criasse, (Nota 2) devendo ficar no Paço Real até à idade de poder casar. Para João Manuel esta
aliança era particularmente bem-vinda visto ele próprio, enquanto descendente da linhagem
real, ter assumidas pretensões ao trono do reino. A união acabou por não ser consumada, pois
Afonso XI não queria continuar sob a alçada do seu antigo tutor e agora seu prometido sogro; o
casamento com a pequena Constança não terá sido mais do que uma forma de acalmar D. João
Manuel e o grupo nobiliárquico que se lhe opunha, continuamente contestando a sua
autoridade.

Mais interessado numa aliança com a Coroa portuguesa, três anos depois de realizada a
promessa matrimonial, Afonso XI repudiou a filha do infante para se casar com a prima Maria
de Portugal, filha de D. Afonso IV. Constança era ainda muito pequena para se perceber do que
se passava, do seu segundo casamento anulado, da união do seu ex-noivo com outra mulher, das
constantes desavenças de seu pai e da sua agitada actividade política e militar.

Este repúdio foi, no entanto, um duro golpe para D. João Manuel, detentor dos mais elevados
cargos e dignidades da estrutura político-administrativa de Castela, que procurou, de imediato,
uma nova forma de colocar a filha num outro trono hispânico. (Nota 3)
245

Novo casamento

Em 1335, foi combinado novo casamento agora com o infante D. Pedro, irmão de Maria de
Portugal, a nova esposa do seu ex-noivo Afonso XI.

Pedro fora anteriormente prometido, aos oito anos de idade, à infanta Branca de Castela, filha
do já falecido infante D. Pedro Sanches, tio de Afonso XI e um dos seus tutores durante a sua
menoridade, ratificando um acordo luso-castelhano celebrado em 1328. A infanta veio para
Portugal no ano seguinte e foi entregue a Afonso IV para, conforme o costume da época, ser
criada em sua caza até que fosse em idade de cazar. Dada a perigosas doenças de perlizia, &
alguma quebra de natural entendimento, o infante Pedro logo começou a tomar dela alguns
descontentamentos, os quaes descubrio a elRey Dom Afonso seu padre. O rei de Castela,
desconfiado dos motivos invocados, inviou a Portugal seus Embaxadores, & Cavaleyros
hõrados, & com eles fizicos, que acharam & souberam ser verdadeyras as cauzas que avia, pêra
a dita Infãta nam aver de cazar.4 De facto, o que dissimulava a meninice, manifestou a idade
(...) & que assi pela lezão do juízo, como pela da saúde era incapaz para governar, & para
conceber. (Nota 5)

Se o repúdio de Branca constituiu um importante motivo de discórdia entre os dois Afonsos, o


casamento do infante herdeiro de Portugal com Constança Manuel, a sua ex-noiva, veio
complicar ainda mais a sua relação. De facto, este novo casamento tinha, como era costume,
interesses políticos e nobiliárquicos muito importantes. Os partidários do poderoso João
Manuel apoiaram de imediato esta proposta, vendo nela o estabelecimento de uma aliança que
poderia fazer frente ao monarca castelhano, até porque as relações entre os dois soberanos
ibéricos estavam complicadas devido às queixas de Maria ao pai, pelas humilhações infligidas
pelo marido. Para D. João Manuel, era o acontecimento certo para se desforrar da afronta
recebida pelo rei castelhano ao repudiar a sua filha, criar um laço familiar e político com o rei
de Portugal e reforçar a sua posição, poder e prestígio.

Também a Afonso IV interessava o estabelecimento de laços familiares e políticos com os


adversários de um genro que tão mal tratava a sua filha, conforme já referimos na biografia
anterior.
246

Vingava, assim, as queixas da infeliz rainha de Castela e fragilizava ainda mais a já difícil
situação de Afonso XI ao apoiar as pretensões de um poderoso e contestatário grupo de nobres.
Do ponto de vista político, esta iniciativa revelava, assim, uma manifesta interferência nos
assuntos internos castelhanos, pois fortalecia e apoiava o poder feudal da Casa dos de Manuel
num momento em que as suas relações com a Coroa eram bastante tensas. Não admira,
portanto, que Afonso XI procurasse contrariar por todos os meios ao seu alcance a efectiva
concretização do matrimónio.

As negociações e a preparação do casamento de D. Constança foram, por tudo isto, tratadas no


mais absoluto secretismo.

Em 1335, celebrou-se o contrato de casamento, fixando-se o valor do dote e reafirmando-se a


amizade e entreajuda que deveriam existir entre Afonso IV e João Manuel. Por este contrato,
Constança ficava detentora do senhorio das terras que lhe fossem dadas para o sustento da sua
Casa, com livre administração; o pai poderia visitar a filha sempre que quisesse podendo
permanecer em Portugal pelo tempo que lhe aprouvesse; o primeiro filho desta união seria o
futuro rei de Portugal, ficando reservado ao segundo a sucessão da Casa dos de Manuel. Caso
não nascesse um segundo filho, o sucessor seria D. Pedro ou o filho herdeiro, ficando definido
que, em situação alguma, as terras de D. João Manuel fossem unidas à Coroa de Castela. (Nota
6) Neste contrato ficou ainda estabelecido que ho Ifamte não tomasse mamçeba, em quamto D.
Constança fosse de ydade pêra emprenhar e paryr, saluo se ella fosse de sua natureza manynha
e nom pertemçemte pêra jerar. (Nota 7)

A noiva aprisionada

Ao rei castelhano não agradou, naturalmente, esta frente de oposição e, receoso das
consequências que este casamento poderia trazer, tudo fez para o impedir, desde tentar uma
reaproximação com João Manuel, até dificultar a vinda da noiva para Portugal, tornando-a
praticamente sua prisioneira no Castelo de Toro. A pequena Constança deixou de ser uma noiva
à espera da idade núbil, transformando-se numa refém para pressionar o pai a desistir do
casamento com o herdeiro do trono português.
247

Com este objectivo, terá mesmo escrito e enviado muy secretamente uma carta a Constança,
prometendo-lhe vir a ser qujte daquela com que era casado para a receber como mulher. Esta, a
cõselho do pai, respondeu-lhe. Na carta, aconselhava-o a naõ escreuer palavras conducentes à
quebra da verdade & mingoa de estado real e lamentava, com a humilhante superioridade de
quem se diz servidora nunca esquecida da obediência e da sugeição devidas ao seu rei, as
fingidas rezões de que devereis aver vergonha, no que muyto mais escarneceis de vossa honra,
& de vossa fama, & ainda de Deus, & da santa Igreja. A fidalga não hesitava em acusar o
monarca de palavras fingidas, desagradeçimento, juras quebradas, mal e desomra. Referia-se,
ainda, à forma como Afonso XI tratava D. Maria culpando-o do padecimento em que ella sem
culpa vive e esperando que Deus lhes desse justiça, & vingança. Terminando a carta, Constança
adverte-o de que em cazo que perdendosse toda a rezaõ, o direyto, & poder lhe force o corpo, a
sua alma e o seu espírito sempre ficarão liures, & sem sogeyçaõ. Em suma, uma impressionante
soma de magoados e sentidos agravos, tanto mais humilhantes para a Coroa castelhana quanto
supostamente verdadeiros e atribuídos a uma mulher que continuava presa pelo seu ex-marido
no Castelo de Toro.

Não obstante tudo isto, o casamento por procuração realizou-se, no Convento de São Francisco,
em Évora, a 28 de Fevereiro de 1336, estando presentes o infante D. Pedro e os seus pais e
tendo sido testemunhas os bispos de Lisboa, Évora, Lugo e Lamego, o mestre da Ordem de
Santiago, Garcia Peres, João de La Cerda e Lopo Fernandes Pacheco. (Nota 9) A noiva
continuava prisioneira em Castela. Idêntica cerimónia realizou-se pouco tempo depois em
Castela, na presença de enviados do rei português que, em nome de D. Pedro, receberam D.
Constança por sua mulher. O facto de os novos cônjuges serem primos, pois ambos eram
bisnetos de Pedro III de Aragão, foi um pormenor pouco importante e rapidamente resolvido
pelo papa.

Tendo sabido da ocorrência, Afonso XI terá conseguido dissimular a sua cólera e, para mostrar
o seu «contentamento», distribuiu alvysara pelos fidalgos lusos e organizou, em intenção das
vodas, festas de camtar e de joguos de canas e de corer touros e de lançar a tauola, ao mesmo
tempo que expedia para o sogro uma carta congratulatória.
248

A uma tão hipócrita provocação, as crónicas fizeram responder uma epistolar resposta do rei
português. Referindo ter esgotado a sua paçiemtera virtude, Afonso IV dava a conhecer todo o
desprezo que o genro lhe merecia; explicava-lhe como bem sabia que toda a sua acção tinha
sido mais por estornar e desfazer do que por acreçemtar e ajudar e, à laia de bom conselho,
avisava-o de que se vos nom prouue deste casamento, que daquy em diante vos praza. Advertia-
o, por fim, a não usar de covardiçe e a abster-se de qualquer projecto destinado a reter
Constança em Castela. (Nota 10)

Após o casamento por procuração, restava fazer vir D. Constança para Portugal para se juntar
ao marido. Teria, para isso, de atravessar vastas zonas de Castela e garantir que Afonso XI não
impediria essa deslocação, o que não foi conseguido. A decisão de reter Constança e o seu pai
em Castela, agravada pela forma desonrosa e humilhante com que Afonso XI tratava a filha de
Afonso IV, pondo mesmo em causa a sucessão do legítimo herdeiro da Coroa do reino vizinho
foram dois importantes argumentos utilizados pelo monarca português. Afonso XI respondeu às
críticas do sogro, recusando-as e acusando o monarca português de não lhe ter prestado as
ajudas prometidas, nomeadamente no combate contra os mouros.

Um rol de acusações de parte a parte (Nota 11) deu origem a um conflito entre os dois reinos
que se prolongou por três anos, pondo em causa a confirmação dos tratados anteriormente feita
e, consequentemente, o equilíbrio político peninsular, semeando a destruição, o medo, o saque e
a morte. O confronto sangrento entre os dois reinos cristãos ibéricos, (Nota 12) bem como o
recrudescimento do perigo da invasão islâmica a partir do Norte de África, suscitou a
preocupação e a intervenção não só de outros reinos cristãos, nomeadamente a França, mas
também do papa Bento XII. Foi, aliás, esse papa que teve um papel decisivo no fim da guerra
luso-castelhana. (Nota 13)

No Verão de 1339 foi acordada a paz, em Sevilha, pondo fim a três anos de hostilidades
travadas entre Afonso IV e Afonso XI. Eram mutuamente perdoados todos os danos e mortes
causados, eram restituídos os castelos e praças que foram tomados e libertados, sem qualquer
resgate, todos os prisioneiros. Porque a ameaça muçulmana voltava a estar bem presente, ambos
os reis se comprometeram a não estabelecer nenhuma aliança com o rei de Marrocos sem o
acordo do outro.
249

A paz firmada não trouxe, no entanto, qualquer proximidade com Castela, continuando o rei
português, bem como a família de Constança, a situar-se em campos opostos a Afonso XI.

A vinda para Portugal

D. Constança teve, então, autorização para viajar para Portugal e juntar-se ao marido, podendo
ser acompanhada pelo pai ou por qualquer outro castelhano que o pretendesse. Fruto deste
acordo, também D. Branca, a primeira prometida esposa do infante Pedro, regressou a Castela,
ficando, no entanto, Afonso IV obrigado a conceder-lhe as rendas que lhe eram devidas. A
infanta terá acabado a sua vida muy sanctamente no Mosteiro das Huelgas de Burgos. (Nota 14)

D. Constança foi recebida em Lisboa, com grande pompa. Após quatro anos da celebração do
seu casamento, por procuração, na cidade de Évora, foram, então, realizadas as bodas com o
infante D. Pedro, tendo os infantes recebido bênção na Sé de Lisboa, em Agosto de 1340.
Afonso IV concedeu por arras à sua nora as vilas de Montemor-o-Novo e Alenquer e a cidade
de Viseu, com todas as suas aldeias e termos, direitos, rendas e jurisdições. Constança, aliviada
da humilhação e do cativeiro em que se encontrara e mesmo tendo noção do carácter
estritamente político do seu casamento (afinal não o eram todos?) devia estar feliz, não
imaginando que trazia no seu séquito aquela por quem o seu marido se iria perder de amores.
Este, talvez não muito entusiasmado com o casamento e com a nova noiva arranjada pelo pai,
acatou-o, sabendo que a obrigação de um futuro rei é assegurar descendência e que os amores
se podiam encontrar fora do matrimónio. Se não conhecera essa situação no pai, por certo
deveria ter sabido que o avô Dinis fora um homem de muitas paixões.

A descendência

Em 1342 nasceu Maria, a primeira filha do casal, talvez por homenagem à infeliz tia que vivia
em Castela repudiada pelo marido e, dois anos depois, Luís, que faleceu precocemente.
250

Em 1345, nasceu o infante Fernando, que veio a ser o legítimo herdeiro. Constança terá, talvez,
tido uma segunda filha, nascida em 1349 e logo falecida. No espaço de cinco anos deu ao
mundo três ou quatro filhos, vindo a falecer pouco tempo depois. O recurso comum entre a
nobreza e a realeza da não amamentação dos seus filhos, permitia uma maior fertilidade devido
à redução do intervalo entre gestações. Embora estivessem à guarda da mãe durante os
primeiros anos, as crianças eram amamentadas e cuidadas por outras mulheres, cuja escolha era
considerada de grande importância e responsabilidade. No caso do infante Fernando e de sua
irmã Maria se, à data da morte da mãe, já não se colocaria o problema da amamentação,
colocava-se o da sua custódia que parece ter sido entregue à avó materna, a rainha D. Beatriz,
dado que muitos servidores de D. Fernando faziam parte da Casa desta rainha.

Esta avó, bem como a mãe, constituíram referências para o jovem infante que as nomeou em
várias ocasiões nos seus textos já em adulto, particularmente a propósito da sua legitimidade
face aos infantes filhos de Inês de Castro. De facto, se estes descendiam da avó comum, D.
Beatriz, não descendiam da prestigiada linhagem dos Manuel, cujos escudos o infante já rei
determinou que ornassem o seu túmulo.

Não existem dados concretos sobre a ama ou amas dos filhos de Constança que terão, muito
provavelmente, sido escolhidos pela avó Beatriz ou até por ela própria. Leonor Rodrigues
Pimentel, uma dama da nobreza, surge em alguns textos da época mencionada como aia do
infante Fernando, o que não garante que tenha sido ela a amamentar o pequeno infante, visto o
termo também se aplicar às amas propriamente ditas quando elas continuavam a servir os
infantes para além dos dois anos. Esta dama seria de idade aproximada da de D. Constança,
visto ser mencionada como maior de idade em meados da década de 1330. Entre os muitos
requisitos físicos, higiénicos, alimentares e psicológicos que pesavam na escolha das amas, a
semelhança com a mãe biológica era um deles. Todos os cuidados postos nesta escolha eram
pormenorizadamente referidos nos tratados medievais hispano-árabes de obstetrícia e pediatria
da época. (Nota 15) Para além destes tratados ou regimentos de saúde, o próprio avô materno de
D. Fernando, que não chegou a conhecer, comentou, em várias passagens dos seus textos
escritos, a forma como foi criado e educado na sua infância, dando também vários conselhos
sobre este assunto.
251

Citando alguns excertos da sua obra, escreve ele que

«fora do pai e da mãe não há nenhuma coisa de que os homens tanto tomem, nem a que tanto
saiam, nem a que tanto se assemelhem em suas vontades e em suas obras, como às amas cujo
leite mamaram. (...) dizia a condessa sua mãe que, porque o amava muito, que por muito tempo
não consentira que mamasse outro leite senão o seu próprio. E depois tomou uma ama que era
filha de um infanção muito honrado (...). E uma vez que adoecera aquela ama, que lhe deram
leite de outra mulher. E por isso, lhe dizia sua mãe muitas vezes que, se em ele houvesse algum
bem, sempre cuidaria que mui grande parte dele era pelo bom leite que tinha mamado. E
quando não fizesse o que devia, que sempre teria que era por quanto mamara de outro leite que
não era tão bom...»

Estes escritos reforçavam, mais uma vez, as virtudes da amamentação pela própria mãe, prática
recomendada pelos médicos medievais confirmando, assim, a teoria que fazia resultar o leite da
transformação do sangue que alimentara a criança durante a gestação. Por isso, também nas
palavras de D. João Manuel, o sangue da ama deveria ser «do sangue melhor e mais alto e mais
lindo que se pudesse haver». (Nota 16)

A vida e a morte

Durante a sua vida em Castela, D. Constança administrou com certa autonomia os bens que lhe
couberam por parte de sua mãe. A infanta continuou ligada à sua família de origem, como prova
o testamento de seu pai, mencionando a intervenção da infanta junto dos seus irmãos. Nas
disposições tomadas por D. João Manuel recomenda-se ao herdeiro da Casa dos Manuel que
consulte sempre D. Constança em circunstâncias ou decisões difíceis, o que demonstra o apreço
em que a tinha o velho magnata. Os cronistas aragoneses referem também a sua intervenção,
estando já casada com D. Pedro, em assuntos diplomáticos, tomando posições favoráveis aos
interesses de D. João Manuel.
252

Após a sua vinda para Portugal foram-lhe concedidas algumas terras «em arras»,
nomeadamente Viseu, Montemor-o-Novo e Alenquer. Pouco se sabe da acção de D. Constança
como mulher do herdeiro da Coroa. Da escassa documentação que dela existe, conhece-se um
documento, datado de 1341, no qual Afonso IV privilegia Albertim Moncassella, um mercador
de Piacenzia (Lombardia), a Rogo da Jfante Dona Costança que por el pediu merçee. (Nota 17)

Também sobre a data da sua morte existem dúvidas. A mais provável data do seu passamento
remonta a 27 de Janeiro de 1349, ao trazer ao mundo a hipotética última filha. De facto, os
autores dividem-se em relação à data do passamento da infanta D. Constança. Rui de Pina
refere que ela faleceo loguo depois do nacimento da Infanta D. Mariais e o mesmo se pode ler
na Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal. (Nota 19) Ora, como depois dessa filha D.
Constança ainda teve D. Fernando, nascido em 31 de Outubro de 1345, transpôs-se a sua morte
para depois deste nascimento, relacionando-a com ele e sendo, com frequência, referido o
falecimento de D. Constança como consequência do parto do infante Fernando. (Nota 20)
António Caetano de Sousa chama, no entanto, a atenção para um documento que a dá como
viva ainda em 134721 e Figaniére indica a data de 1349 com base no obituário da Igreja de S.
Bartolomeu de Coimbra. (Nota 22) Historiadores mais recentes corroboram esta data como, por
exemplo, Arnaut e Oliveira Marques. (Nota 23) Arnaut justifica a confusão das datas dando
como hipótese o nascimento de uma segunda filha, também de nome Maria e após o nascimento
do infante Fernando, da qual terá Constança morrido em consequência do parto.

Foi, inicialmente, sepultada no coro do Convento de S. Domingos de Santarém e, em 1376,


mandada trasladar, pelo seu filho, para o Mosteiro de São Francisco da mesma cidade. O facto
de D. Fernando ter promovido a trasladação dos restos mortais de sua mãe para esta igreja
franciscana, tendo-se também ele, posteriormente, aqui feito sepultar, reflecte o seu corte e a
sua indiferença por Alcobaça, local de repouso de seu pai, talvez por este mosteiro espelhar o
adultério do pai (aqui se encontram também os restos mortais da sua eterna amada Inês) e o
sofrimento de sua mãe.
253

O testamento

Sabe-se que existiu um testamento mandado redigir por D. Constança no qual se refere a
existência de uma quinta em Azeitão, cujos rendimentos seriam destinados a manter as capelas
da dita infanta. (Nota 24) D. Constança terá nesse testamento (que hoje se desconhece)
instituído uma capela, provavelmente em S. Domingos de Santarém, local do seu primeiro
sepulcro. A posterior transferência do seu corpo para a Igreja de S. Francisco da mesma cidade
terá determinado a alteração da sede da capela, que aparece referida como tal, pela primeira
vez, em 1404. A instituição de capelas surge, com alguma frequência, nos testamentos a partir
do século XIII, não constituindo, ainda, uma prática generalizada. Esta determinação
corresponde à fundação material e à dotação de uma capela na igreja mencionada e à realização
diária de uma missa por um capelão próprio. Podendo efectivar-se ainda em vida do instituidor,
o grande objectivo era a salvação da sua alma. Os bens destinados à manutenção das capelas
podiam ser deixados de uma só vez à instituição religiosa ou constituir uma renda a cobrar
sobre determinadas propriedades que ficavam na posse dos herdeiros ou familiares. Foi esta a
situação da capela instituída por D. Constança, ficando a ela adjudicadas a referida quinta de
Azeitão, na aldeia de Nogueira, uma outra quinta no lugar de Sanguinal, (Nota 25) termo de
Óbidos, e uma «casa» em Lisboa, na Rua do Cataquefarás. D. Pedro, testamenteiro da esposa,
cumpriu o seu papel, emprazando e aforando os referidos bens e doando-os à capela. (Nota 26)

Constituindo «um investimento no Além», a instituição de capelas, cujo principal objectivo era
a remissão dos pecados do instituidor através da oração e da celebração de missas, foi
substituindo as obras de misericórdia, como a esmola aos pobres e doentes, os donativos ou a
fundação de instituições assistenciais e caritativas. (Nota 27)

Filha e neta de infantes, bisneta de reis e rainhas, as magnificentes origens de D. Constança


pareciam indicar um futuro promissor. Tudo correu, afinal, ao contrário do que se poderia
prever, não tendo encontrado na sua vida mais do que infelicidade e solidão.
254

Cedo casada e logo repudiada, longos tempos prisioneira, libertada e novamente casada.
Quando, talvez, alimentasse alguma esperança de felicidade, viu-se atraiçoada pelo marido e
pela sua dama de companhia favorita. A sua história ficou, para sempre, ligada à história destes
amores. Deu à luz um rei mas, ironia do destino, depois de tantos obstáculos e conflitos que
rodearam a sua vinda para Portugal e o seu casamento, e de todo o empenho posto nesta união
pelo rei seu sogro, a sua morte prematura impediu que viesse a ser rainha de Portugal. Morreu
infanta, pois Pedro apenas subiu ao trono em 1357.

A descendência que lhe sobreviveu

Dos seus descendentes, Fernando será rei após seu pai e a ele nos referiremos na biografia de
Leonor Teles.

Maria, a primeira descendente que nasceu, foi casada por seu avô, em 1354, com Fernando de
Aragão, no âmbito de uma política de aliança entre Portugal e este reino. (Nota 28) Fernando
era um destacado opositor a seu primo, D. Pedro de Castela, alimentando, também, pretensões
ao trono de Aragão, governado por Pedro IV, seu meio-irmão. A pequena infanta contava doze
anos, e o marido era cerca de quinze anos mais velho do que ela. A cerimónia foi acompanhada
de sumptuosas festas em Évora, tendo a infanta levado como dote de casamento a oferta feita
por Afonso IV da Lousã e outras vilas e lugares do meu senhorio. (Nota 19) Entretanto, em
Portugal, mudou-se o rei e mudaram-se as alianças. Se com D. Afonso IV se pendeu para
Aragão, o novo monarca, Pedro I, reforçou o seu apoio ao sobrinho Pedro de Castela,
negociando o casamento do seu herdeiro Fernando com Beatriz, a filha mais velha do
castelhano. No final da década de 1350, os dois filhos de D. Constança Manuel estavam aliados
com dois campos rivais da sociedade castelhana.

Fernando de Aragão acabou por ser assassinado a mando do seu meio-irmão Pedro IV, deixando
Maria viúva, em 1363, após nove anos de casamento e com a idade de 21 anos. Maria
continuou, no entanto, a viver em Aragão, a manter a posse do seu património e a frequentar a
corte aragonesa.
255

A infanta-viúva foi politicamente activa, mencionando Fernão Lopes como em 1371 a infanta
serviu em Barcelona de intermediária nas negociações entre o rei português, seu irmão e o
monarca aragonês, Pedro IV, para o reforço da aliança político-militar contra Castela. Nessa
condição terá encontrado um genovês pelo qual se terá apaixonado e com ele terá ido para
Itália. (Nota 30) Maria, a primogénita de D. Constança, teve significativa intervenção nas
relações bilaterais luso-aragonesas, mantendo, portanto, estreitos contactos com os reis seu pai
e seu irmão.

Em 1375, o papa Gregório IX escreveu ao rei e à rainha de Portugal e a vários membros do


clero português recomendando que fossem restituídas à infanta rendas que havia em Portugal e
Castela do legado de sua mãe e de seu avô materno, D. João Manuel. Só então deve ter
regressado à sua terra natal, tendo sido sepultada em Santa Clara de Coimbra. (Nota 31)

A memória cronística

Princesa, por certo infeliz, a sua história ficou, para sempre, ligada à de Pedro e Inês. Pouca
informação há sobre ela e mesmo na cronística poucas referências se encontram. De facto, após
a longa narrativa das hostilidades praticadas de parte a parte entre portugueses e castelhanos e
de se informar como a paz alcançada conseguia que Constança Manuel, que ate entam fora por
elRey de Castela deteuda, pudesse lyvremente hyr a Portugual, pêra ser emtregue a ho Ifatnte
D. Pedro, seu marydo, (Nota 329 a filha do poderoso João Manuel torna-se tema pouco assíduo
nas crónicas. Durante os dezassete anos que viveu em Portugal, dela apenas se referem as vodas
feitas em Lisboa, os filhos gerados e a morte, ainda em vida do sogro, para logo se passar, na
sequência da sua morte, aos amores de Pedro por Inês. (Nota 33) Constança continuou a ser, na
cronística tal como na vida, ofuscada pela bela dama galega que ousou trazer no seu séquito.

As lutas luso-castelhanas vividas por Constança não trouxeram aos de Manuel uma rainha
hispânica, já que a fidalga se limitou a desempenhar o papel de princesa marginalizada da vida
pública e
256

Sentimental do marido, nela sendo gradualmente substituída pela sua aia Inês Peres de Castro, a
favorita de Pedro. Quando, na crónica que Fernão Lopes dedicou à realeza da infanta se volta a
referir Constança, ela é lembrada como irmã de Joana Manuel, (Nota 34) a única fidalga dos de
Manuel a ascender à categoria de rainha pelo seu casamento com Henrique I de Trastâmara,
bastardo de Afonso XI, depois de ter assassinado o seu meio-irmão e rei Pedro I, filho legítimo
de Afonso XI e Maria de Portugal.
10

INÊS DE CASTRO

(c. 1325 -1355)

A que foi rainha depois de morta


<Quadro genealógico de INÊS DE CASTRO: omitido>
Estavas, Linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano de alma, ledo e cego,

Que afortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuito,

Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.

CAMÕES, Os Lusíadas, canto III.

Origens

Inês Peres de Castro terá nascido por volta de 1325, em Monforte, província de Vigo. Era filha
natural de Pedro Fernandez de Castro, o da Guerra, mordomo-mor do rei Afonso XI de Castela,
e de uma sua barregã, a dama portuguesa, Aldonça Lourenço de Valadares. Pedro Fernandez de
Castro, era neto por via ilegítima de Sancho IV de Castela, e um dos fidalgos mais poderosos
deste reino. Mantinha, no entanto, uma dupla ligação a Castela e a Portugal pois, à morte de seu
pai, foi entregue, ainda criança, pela mãe a um tutor, Lorenzo Suárez de Valadares que, devido
às rivalidades que se travavam em Castela entre a nobreza e a Coroa, terá decidido enviá-lo
para a corte portuguesa, local onde estaria mais seguro. Neste reino, Pedro Fernandez de Castro
criou importantes laços que se mantiveram ao longo da sua vida, não só de fidelidade em
relação ao rei Aforso IV, mas também laços matrimoniais, tendo-se, por duas vezes, unido pelo
casamento a importantes famílias nobiliárquicas portuguesas. Casou primeiro com Beatriz, uma
filha do infante português Afonso, irmão do rei Dinis e de sua mulher Violante Manuel, e,
depois, com Isabel Ponce de Léon, filha do castelhano Pedro Ponce de Léon e de Sancha Gil de
Chacim, ligada às linhagens portuguesas dos Bragançãos e dos de Baião. Desta união
resultaram dois descendentes, Fernando e Joana, que fizeram história em Castela.
260

Fernando Peres de Castro foi um dos principais apoiantes de Pedro I, o rei castelhano que foi
destronado e morto pelo seu irmão bastardo Henrique de Trastâmara que assegurou a sucessão,
o que motivou o seu refúgio em Portugal entre 1369 e 1373. Quanto a Joana, casou mesmo com
Pedro I, em 1354, facto a que não deve ter sido alheia a presença, junto do soberano, do irmão,
o chefe da linhagem. No entanto, se Joana foi efectivamente rainha de Castela, essa posição foi
bem efémera pois, embora tenha casado com ela dela foy tão descontente, que loguo a leyxou.
(Nota 1)

Nos finais da Idade Média, os Castro eram uma das mais importantes famílias da nobreza de
corte em Portugal, constituindo um notável exemplo do florescimento de um ramo familiar
oriundo de uma grande Casa nobre, mas cuja principal área de influência residia fora do reino.
(Nota 2) Esta influência no reino vizinho foi, no entanto, diminuindo, já que Fernando Peres e a
sua descendência não sobreviveram à queda de Pedro I e ao advento da régia dinastia dos de
Trastâmara. Assim, a linhagem apenas se manteve através do ramo bastardo estabelecido em
Portugal, o que teve a sua origem em Álvaro Peres de Castro, o irmão de Inês de Castro,
proveniente da ligação do magnata galego com Aldonça de Valadares. Este irmão de Inês veio a
ser, mais tarde, valido de D. Fernando e 1.° conde de Viana, 1.° conde de Arraiolos, 1.°
condestável de Portugal e alcaide-mor de Lisboa. Foi, portanto, uma figura importante em
Portugal e a ele voltaremos.

Prossigamos, agora, ao encontro da bela dama galega.

A vinda para Portugal

Em 1340, quando Constança Manuel veio, para Portugal para casar com o infante Pedro,
herdeiro do trono português, Inês fazia parte do seu séquito.

Se as datas estão correctas, Inês teria quinze anos à época da sua chegada. A sua beleza não terá
passado despercebida ao infante que dela se terá enamorado ainda em vida de Constança.
261

Afirma Rui de Pina que esta, talvez apercebendo-se de que o marido queria bem a Inês, tê-la-á
convidado para madrinha do seu filho, o infante Luís, com o objectivo de que o parentesco
espiritual que então se estabeleceria através do baptismo fosse impeditivo de haver antre eles
outra afeyçam. (Nota 3) Com efeito, os padrinhos tornavam-se pais espirituais do nascer dessa
criança para a Cristandade. (Nota 4) Este novo parentesco não devia ser confundido ou
misturado com o que fora gerado pelo sangue, tal como o exigiam as prescrições canónicas que
interditavam as relações carnais desenvolvidas entre os pais terrenos e os pais espirituais, ou
seja, entre compadres e comadres. (Nota 5)

Gorado este objectivo com o falecimento do pequeno infante algumas semanas após o
baptismo, foi a vez de D. Afonso IV intervir. O rei não aprovava esta relação, não só por
motivos diplomáticos (o pai de Constança era o poderoso João Manuel de Castela), mas
também porque os fidalgos da corte portuguesa (principalmente um núcleo da velha nobreza
cortesã, com destaque para os Pacheco) sentindo-se ameaçados pela influência que os
familiares de Inês detinham sobre o infante Pedro, pressionavam o velho rei para os afastar do
herdeiro. A cumplicidade entre o próximo monarca português e a poderosa família galega fazia
prever um futuro pouco promissor para algumas destas linhagens. Talvez Afonso IV também
não esquecesse que o avô paterno de Inês, D. Fernando Rodriguez de Castro, comandara a
invasão de Portugal pelo Minho, em 1337, aquando dos confrontos com o genro castelhano
Afonso XI.

O monarca mandou, então, exilar Inês no Castelo de Albuquerque, situado na actual província
de Badajoz, perto da fronteira com Portugal, propício à manutenção dos contactos entre os
amantes separados. Aí Inês fora criada com a sua tia, Teresa de Albuquerque, viúva de Afonso
Sanches, o bastardo de D. Dinis. Aí voltou a permanecer algum tempo sob a protecção da
mesma tia. A distância não terá, no entanto, apagado o amor de Pedro que, como refere Fernão
Lopes,

«pêro dela perdesse vista e fala, sendo distante, que é a principal razão de se perder o amor,
nunca cessava de lhe enviar recados». (Nota 6)
262

A paixão torna-se pública

Após a morte de Constança, Pedro, contra a vontade de Afonso IV, mandou Inês regressar do
exílio e os dois foram viver juntos, fazendo-se maridança qual deviam, (Nota 7) para desgosto
de el-rei seu pai. Terão vivido entre a Quinta do Canidelo, na margem esquerda do rio Douro,
na Serra d'elRei e em Moledo. (Nota 8) Afonso IV tentou remediar a situação casando
novamente o seu filho com uma dama de sangue real. Mas Pedro rejeitou este projecto,
alegando que sentia ainda muito a perda de sua mulher e que não conseguia ainda pensar em
novo casamento. No entanto, fruto dos seus amores, Inês foi tendo filhos de D. Pedro -Afonso,
nascido por volta de 1350 (que morreu pouco tempo depois), João em 1352, Dinis em 1353 e,
por último, Beatriz em 1354. Em 1351, D. Pedro terá tentado obter do papa uma bula de
dispensa que lhe permitisse o casamento com uma parente tão chegada para as convenções
nupciais da época. De facto, sobre eles recaía o interdito de parentesco, pois Pedro era neto de
Sancho IV de Castela e Inês, embora por via bastarda, era bisneta do mesmo monarca o que, à
luz dos preceitos da Igreja, impedia a celebração deste consórcio. Este facto deve ter alarmado
tanto o rei como a alta nobreza cortesã que, como já referimos, não desejava a interferência dos
Castro no reino.

A situação em Castela

Entretanto em Castela grassava a agitação com a morte de Afonso XI, em 1350, e a


impopularidade do seu único filho legítimo Pedro I de Castela, o Cruel. Defensor de uma
concepção autoritária e centralizadora do poder régio, levou a cal o uma feroz acção contra
vários membros da alta nobreza, mandando mesmo executar muitos deles. A contestação a esta
política não se fez esperar, reunindo contra si várias facções: os seus oito irmãos, havidos da
manceba de seu pai Leonor Nunes de Gusmão, chefiados por Henrique de Trastâmara, o
primogénito dos bastardos, apoiados por importantes sectores nobiliárquicos; a maioria da alta
nobreza, esperando retomar muitos dos antigos privilégios e, ainda, os escorraçados infantes de
Aragão, os primos Fernando e João, filhos de Leonor de Castela, irmã de Afonso XI e segunda
mulher de Afonso IV de Aragão. (Nota 9)
263

Todas estas pressões e ambições eram extremamente prejudiciais para o equilíbrio peninsular,
visto que a existência de cisões em Castela se reflectiria em Portugal. A própria tentativa de
aliança matrimonial fomentada pela rainha Maria, viúva de Afonso XI, em 1353, entre o seu
filho Pedro I e Branca de Bourbon encaminhava-se já para um alinhamento entre Castela e a
França, o que podia originar alguns conflitos não só ao nível da Península Ibérica mas no
quadro da própria Guerra dos Cem Anos que, desde 1337, opunha a Inglaterra e a França,
ambas procurando apoios militares peninsulares. (Nota 10) A renúncia de D. Pedro de Castela à
dama francesa originou a sua condenação por parte da Santa Sé, então sedeada em Avinhão, e
provocou uma alteração das relações com a França, que acabou por aceitar a aliança com
Aragão, reino em que Henrique de Trastâmara, o principal inimigo de Pedro I de Castela,
encontrava apoio.

O repúdio da segunda esposa, Joana de Castro reforçou o desagrado desta linhagem contra
Pedro I de Castela. Terão, por isso, sugerido ao infante português que aceitasse a Coroa
castelhana e juntasse os reinos de Castela e Leão a Portugal, uma vez que o príncipe português
era, por sua mãe D. Beatriz, neto de D. Sancho IV de Castela; embora por via feminina, podia
constituir um legítimo candidato à Coroa castelhana. Em 1354 Álvaro Peres de Castro, irmão de
Inês, foi o porta-voz desta proposta.11 A perspectiva do infante juntar as duas Coroas
alcandorava não só a irmã, mãe dos filhos de Pedro, a rainha, como também os Castro ao mais
alto nível da nobreza dos dois reinos, reforçando o seu poder e prestígio. A intervenção enérgica
de Afonso IV de Portugal evitou que tal sucedesse. Na verdade, depois de celebrada a paz de
Sevilha que pôs fim à guerra luso-castelhana, o rei português assumiu uma posição de
neutralidade não se querendo envolver nos conflitos internos do reino vizinho. A paz que se
vivia com Castela ditava determinadas precauções para a manter.

Continuando a procurar a harmonia com os reinos peninsulares, as alianças, tratados e


casamentos sucederam-se.12 A política de boas relações com os Estados ibéricos pautou todo o
reinado de Afonso IV, com excepção do curto interregno de 1336-1339.
264

Ora, a influência dos Castro em Portugal, a oposição destes ao rei de Castela, a conjuntura
ibérica e os conflitos que por ela perpassavam e o desejo de paz e estabilidade com todos os
reinos ibéricos terão sido, por certo, algumas das razões que terão levado o rei a afastar D. Inês
de Castro do seu reino e a traçar o seu destino.

O Paço de Santa Clara

Por estes tempos, Pedro e Inês tinham regressado a Coimbra, instalando-se no Paço do
Mosteiro de Santa Clara, mandado construir pela avó de Pedro, a Rainha Santa Isabel, e onde
esta rainha vivera os seus últimos anos. Ironia da História, Isabel doara este paço ao mosteiro
clarista com a cláusula de que ele fosse unicamente habitado pelos reis e príncipes dela
descendentes com as suas mulheres legítimas. (Nota 13)

Pela corte murmurava-se que o príncipe casara secretamente com Inês. Na tentativa de saber a
verdade, o rei terá pressionado o filho para que se casasse com ela ou a não tivesse no Reyno,
chegando a sugerir-lhe, por interpostos conselheiros, que a segurasse em tal lugar que sua vida
não corresse risco. Seguindo Rui de Pina, Pedro recusou-se sempre a casar com Inês ou mesmo
a apresentá-la como sua mulher, por ela nom ser filha legityma de D. Pedro de Castro, mas de
huma sua mamceba. Este argumento não tem grande validade pois o infante, como já referimos,
por volta de 1351, chegou mesmo a pedir ao papa a concessão de uma bula a fim de poder
contrair matrimónio com Inês de Castro. (Nota 15) Esta autorização nunca chegou, mas isso
não impediu o jovem par enamorado de ir vivendo um amor raramente achado. (Nota 16) Este
quadro de felicidade tornou-se um intolerável escândalo para a sociedade da época.

Pela corte circulavam também outros rumores e temores. O facto de existirem frutos deste amor
podia pôr em causa a legítima sucessão do infante Fernando, primogénito e herdeiro de D.
Pedro. Dizia-se mesmo que os irmãos Castro conspiravam para assassinar o infante Fernando,
para que o trono português passasse para os filhos da dama galega.
265

A influência cada vez maior que Álvaro de Castro detinha junto do infante Pedro provocava
grande agitação em Portugal, principalmente nos meios nobiliárquicos afectos a Afonso IV que
receavam a sua secundarização após a subida ao trono do infante. Estes argumentos terão
estado na base das movimentações e da trama conducentes ao desfecho deste trágico amor. O
agravamento das tensões anteriormente descritas exigia medidas drásticas. Seguindo,
novamente, o cronista, os que rodeavam Afonso IV consideravam que, para terminar com todos
estes problemas,

«não havia outro melhor remédio, salvo que apertassem com o dito Infante que casasse (...) &
não tivesse no Reino Dona Inês de Castro, & quando isto por seu bem, & honra não quisesse
fazer que el rey para segurança da vida de seu neto, & por sossego, & conservação de seus
reinos, & das cousas de sua coroa que por respeito da dita Dona Inês se poderiam alhear a
mandasse matar»

até porque se aproximava a hora da morte do rei, pois era já muy velho e não podia falecer
deixando-a viva para que o infante Pedro naõ ficasse em seu poder delia.

A morte que se aproxima

D. Afonso IV estava velho e cansado. Os conflitos havidos com os irmãos bastardos, os muitos
problemas que a filha Maria lhe havia dado, a peste negra que andava pelas ruas e dizimava a
população, os campos abandonados, a subida dos preços, a fome, os confrontos entre nobres e
camponeses, o reino a estagnar, a população descontente e o filho herdeiro que, apesar dos
avisos, não desistia da maridança com a bela galega, desgastavam-no. Dividido entre as razões
apresentadas pelos seus validos e conselheiros - as razões de Estado - e o sentimento familiar -
as razões do coração - a 7 de Janeiro de 1355, o rei cedeu às pressões dos seus conselheiros e,
aproveitando a ausência de Pedro, algures nas suas habituais caçadas, protagonizou (por sua
ordem ou, pelo menos, com o seu conhecimento) o célebre e imortalizado episódio do
assassinato da mãe dos seus netos.
266

Pêro Coelho, (Nota 17) Álvaro Gonçalves (Nota 18) e Diogo Lopes Pacheco, (Nota 19) todos
personalidades de primeiro plano entre a nobreza régia, foram os autores da morte de Inês de
Castro em Santa Clara.

Continuemos a escutar as palavras de Rui de Pina:

«Estando elRey em Montemor o Velho concluindo já, & consentido na morte da dita Dona Inês
acompanhado de muita gente armada, & se veio a Coimbra onde ela estava nas casas do
Mosteiro de Santa Clara, a qual sendo avisada da ida de elRey, & da irosa, & mortal tenção que
contra ela levava achando-se salteada para se não poder já salvar por alguma maneira, o veio
receber à porta, onde com o rosto transfigurado, & por escudo de sua vida, &c por sua
inocência achar na ira de elRey alguma mais piedade, trouxe ante si os três inocentes Infantes
seus filhos netos de elRey, com cuja apresentação, & com tantas lágrimas, &c com palavras
assim piedosas pediu misericórdia, & perdão a elRey que ele vencido dela se diz que se volvia,
&c a deixava já para não morrer como levava determinado, & alguns Cavaleiros que com elRey
iam para a morte dela que logo entraram, & principalmente Diogo Lopes Pacheco filho de Lopo
Fernandes Pacheco senhor de Ferreira, & Álvaro Gonçalves meirinho mor, & Pêro Coelho
quando assim viram sair elRey como quem já revogava sua tença agravados dele pela publica
determinação com que os ali trouxera, & pelo grande ódio, Sc mortal perigo que dali em diante
com ela, & com o Infante D. Pedro os deixava, lhe fizeram dizer, & consentir que eles
tornassem a matar Dona Inês se quisessem, a qual por isso logo mataram, o que foi havido
contra elRey mais abominável crueza, que por severa nem louvada justiça, a qual Dona Inês foi
logo enterrada no dito mosteiro de S. Clara.» (Nota 20)

Findavam, assim, os amores da bela Inês com o quase rei de Portugal. O amor conduziu à
morte. Em Janeiro. No Inverno. Em Santa Clara de Coimbra, «paisagem triste nesta flora
mondeguinha, de folha caduca, e, neste Inverno, naturalmente, superiormente triste com aquela
morte».21 Segundo a lenda, as lágrimas vertidas por Inês teriam criado a Fonte dos Amores da
Quinta das Lágrimas e as rochas avermelhadas são o seu sangue derramado.
267

A revolta de D. Pedro

Se o velho Bravo consentiu na execução de Inês em nome da paz, o que é verdade é que ganhou
uma nova guerra. A revolta de D. Pedro contra D. Afonso IV e a inevitável guerra civil entre os
apoiantes de cada um dos lados, numa terra depauperada pelas fomes e pela peste, não se fez
esperar. Mais uma vez a história se repetia e um infante se rebelava contra o pai.

Goradas, com o desaparecimento de Inês, as expectativas de uma crescente influência em


Portugal, os irmãos Castro e os seus vassalos combateram ao lado do infante. Um exército
comandado por D. Pedro assolou o norte do reino e devastou as terras do rei, dirigindo-se
depois ao Porto. Aqui, perante a resistência e a diplomacia do arcebispo de Braga, D. Gonçalo
Pereira, a quem fora confiada a defesa, bem como pela aproximação do exército de Afonso IV,
as tropas do infante pararam. Após meses de conflito, a rainha D. Beatriz conseguiu intervir,
como já referimos, para selar uma paz em Agosto de 1355. Em Marco de Canaveses, o infante
prometeu perdoar os nobres culpados do assassínio de Inês, obtendo, em contrapartida, o co-
governo do reino, com poder de plena jurisdição cível e crime em todo o reino, afinal aquilo por
que tanto lutara o seu pai enquanto herdeiro da Coroa. Independentemente da solenidade e dos
propósitos do acordo, as juras aí feitas acabaram por não ser cumpridas, particularmente no que
se refere ao infante Pedro, e o conflito só não se reacendeu porque D. Afonso IV morreu dois
anos depois. Tal como acontecera com este que, mal chegado ao trono, iniciou um violento
processo de vingança contra os seus irmãos, bastardos de D. Dinis, esquecendo os acordos e
promessas feitos por intercessão d; rainha Isabel, sua mãe, também Pedro, pouco depois de se
tornar rei perseguiu e matou os assassinos da sua amada, ganhando para a História o cognome
de Justiceiro ou, por vezes, Cruel, como seu primo Pedro I de Castela.

A vingança

Após se ter tornado o oitavo rei de Portugal, em 1357, D. Pedro continuou o seu incansável
objectivo de vingança.
268

Fazendo jus ao seu título de Justiceiro, e - quem sabe - para lhe dar forças para continuar a viver
após a morte da mulher amada, perseguiu os assassinos de Inês que tinham fugido para Castela.
Negociando, em 1360, com Pedro I, seu sobrinho, um contrato de extradição de prisioneiros,
conseguiu a troca dos três executores (a quem à hora da morte D. Afonso IV aconselhara a que
se pusessem a salvo em Castela antes de o filho assumir o poder) (Nota 22) por outros
castelhanos refugiados em Portugal.

Diogo Lopes Pacheco conseguiu escapar, por Aragão, para França, só regressando a Portugal no
ano de 1384, em plena crise luso-castelhana. Dos três executores terá sido este a quem a acção
mais terá custado ao infante Pedro e o que foi alvo de uma mais feroz perseguição. De facto, o
pai de Diogo Pacheco, Lopo Fernandes Pacheco, havia sido amo de D. Pedro, pelo que este e
Diogo foram muito próximos na criação. Os laços de quase parentesco entre ambos foram
contra a acção traiçoeira do executor.

Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves foram apanhados, enviados para Portugal e executados.
Relembremos a cruel cena, pela voz de Fernão Lopes, quando el-rei

«deu um açoute no rosto a Pêro Coelho, e ele se soltou então contra el-rei em desonestas e feias
palavras, chamando-lhe traidor, fé perjuro, algoz e carniceiro dos homens. E el-rei dizendo que
lhe trouxessem cebola e vinagre para o coelho, enfadou-se deles e mandou-os matar. (...)
mandou tirar o coração pelos peitos a Pêro Coelho c a Álvaro Gonçalves pelas espáduas. (...)
Enfim mandou-os queimar. (...) de guisa que comendo olhava quanto mandava fazer». (Nota
23)

A macabra cena, verdadeira ou não, dá conta do ódio e rancor que o novo monarca nutria pelos
carrascos de Inês. Como compôs o poeta Alberto Pimentel

«Findo o banquete, o rei respira enfim, descansa

Na embriaguez do sangue excruciante e doce...

E sereno adormece a lamentar que fosse

Para tão grande amor tão pequena a vingança.» (Nota 24)


269

A legitimação

Vingada a morte da amada e consumada a justiça que o obcecava, D. Pedro continuou o seu
propósito de enaltecer e manter viva a memória de Inês. Em Junho de 1360, estando em
Cantanhede, declarou, perante várias testemunhas, entre as quais o seu chanceler, o seu
mordomo-mor e muitos outros seus privados e homens da sua confiança que se tinha casado
secretamente com ela.

Dêmos, novamente, voz ao cronista:

«(...) fez el-rei chamar um tabelião e, presentes todos, jurou aos Evangelhos por ele
corporalmente tangidos que, sendo infante, vivendo ainda el-rei seu pai e estando ele em
Bragança, podia haver uns sete anos pouco mais ou menos, não se acordando dia e mês, que ele
recebera por sua mulher lídima por palavras de presente como manda a Santa Igreja, Dona Inês
de Castro (...) E que essa Dona Inês recebera ele por seu marido por semelháveis palavras e
que, depois do dito recebimento, a tivera sempre por sua mulher até ao tempo da sua morte,
vivendo ambos de comum».

Afirmou ainda o rei não ter feito esta declaração em vida do pai, por temor e receio que dele
havia, querendo agora desencarregar sua consciência e dizer a verdade. Alguns dias depois, em
Coimbra, foram interrogadas duas testemunhas que confirmaram a veracidade da declaração. O
bispo da Guarda, D. Gil, afirmou que, pousando o infante e D. Inês em Bragança, D. Pedro

«o mandara chamar um dia à sua câmara, sendo Dona Inês presente, e que lhe dissera que a
queria receber por sua mulher. E que logo sem mais detença o dito senhor pusera a mão nas
mãos dele e isso mesmo a dita Dona Inês. E que os recebera ambos por palavras de presente
como manda a Santa Igreja. E que os vira viver de comum até à morte de Dona Inês. Que isto
podia haver sete anos pouco mais ou menos mas que não se acordava do dia e mês em que
fora».
270

A outra testemunha, Estêvão Lobato, criado do rei, afirmou igualmente que o infante o mandara
chamar à sua câmara porque queria que ele fosse testemunha do seu casamento com D. Inês, e
que o decano da Guarda, que já lá estava

«tomara o dito senhor por uma mão e ela por outra e que então os recebera ambos por aquelas
palavras que se costumam dizer em tais esponsórios e que os vira viver juntamente até ao tempo
da morte dela. Que isto fora num primeiro dia de Janeiro, podia haver sete anos mais ou
menos».

Após estas declarações, sendo presentes muitos bispos e fidalgos, o conde de Barcelos
relembrou o que havia sido dito e, porque apesar de tudo o que tinha sido feito havia interditos
de parentesco, visto que Inês era sobrinha del-rei, filha do seu primo co-irmão, leu uma bula do
papa João XXII, dispensando a consanguinidade entre D. Pedro e

«qualquer nobre mulher devota à Santa Igreja de Roma, ainda que por linha transversa, de uma
parte no segundo grau e doutra no terceiro sejais dívidos e parentes, e isso mesmo ainda que por
razão de outras duas linhas colaterais seja embargo de parentesco ou cunhadia entre vós no
quarto grau». (Nota 25)

Esta bula, datada de 1325, terá sido solicitada e concedida aquando das negociações para o
casamento com D. Branca de Castela, a sua primeira prometida esposa, sendo agora utilizada
para legitimar o casamento com Inês de Castro. No entanto, embora perante a lei do reino os
infantes tenham sido legitimados, o papa Inocêncio IV, mesmo tendo conhecimento da bula
emitida por João XXII, não se pronunciou favoravelmente acerca desta união.

A realização deste casamento, bem como a sua validade, tem sido alvo de controvérsia e
polémica desde o século xv até à actualidade, até porque a ter existido podia ter alterado o rumo
da sucessão ao trono após as Cortes de Coimbra de 1385 e, consequentemente, o rumo da
História. A diferença de opiniões começa logo no próprio século xv, com os cronistas que
escreveram sobre este período.
271

Assim, se para Rui de Pina é ponto assente que Pedro e Inês casaram, embora tivesse havido
quem levantasse algumas dúvidas porque

«não fez esta declaração logo como reinou, mas dai a três anos, &C porém ele a este tempo, a
mandou dai em diante chamar, & intitular, Rainha de Portugal, & aos filhos Infantes» (Nota 26)

já Fernão Lopes desacredita as palavras do rei ao achar muito pouco provável

«que um casamento tão notável e que tantas razões tinha para ser lembrado, houvesse em tão
pequeno espaço de esquecer, assim àquele que o fez como aos outros que foram presentes, não
lhes lembrando o dia nem o mês». (Nota 27)

Também muitos têm sido os historiadores que se têm debruçado sobre a realização, ou não,
deste matrimónio, aceitando-o uns, colocando outros sérias reservas. Para Damião Peres, por
exemplo, a própria razão enunciada por D. Pedro para não dar a conhecer a realização do
casamento em vida do pai levanta suspeitas de se tratar de um embuste pois não era crível que
D. Pedro tivesse tido receio de incomodar seu pai, tornando público o seu casamento, quando
não hesitara em hastear o pendão da guerra. (Nota 28) Sem querer contrapor a opinião deste
autor cabe aqui só recordar que foi precisamente Afonso IV que publicou abundante legislação
sobre o casamento clandestino, endurecendo em muito as penalizações que já vinham da
legislação dionisina. (Nota 29)

Salvador Dias Arnaut, entre outras situações, alude ao discurso feito pelo arcebispo de Braga
nas exéquias de Inês no Mosteiro da Batalha, salientando as alusões feitas a Abraão e Sara
como possíveis indicadores da realização do casamento. De facto, estas personalidades do
Antigo Testamento, conhecidas à época, embora casados esconderam essa condição pelo medo
que o faraó egípcio se apaixonasse por Sara, mulher muito formosa, e mandasse matar Abraão.
(Nota 30) De acordo com esta perspectiva, Arnaut remete para vários diplomas da chancelaria
de D. Pedro nos quais o rei faz doações a mosteiros e igrejas com a condição de neles serem
ditas missas polla alma de dona jnes de crasto mjnha molher. (Nota 31)
272

Também Sérgio Silva Pinto é da mesma opinião refutando muitas das objecções e dúvidas
colocadas por Fernão Lopes, a começar pela «gravidade» do esquecimento da data de
realização do referido casamento. Para este historiador, estas «lacunas mnésicas» nada
representam de significativo, constituindo «desmemorias vulgaríssimas» até porque D. Pedro
sofria de «amnésias evocativas» como prova o facto de, no seu testamento, elaborado em 18 de
Janeiro de 1367, designar os herdeiros pelos seus nomes próprios esquecendo, no entanto, o da
filha mais nova, à qual se refere como a nossa filha que se criava no Mosteiro de Santa Clara.

A estranheza do cronista perante a ocultação do casamento até quatro anos após a subida do
infante ao trono é, para este autor, completamente falsa visto haver documentação
comprovativa de que o juramento régio de Cantanhede e os depoimentos de Coimbra, em 1360,
foram apenas um reforço de uma revelação anterior. Assim, numa carta datada de 1358, sobre
as jurisdições restituídas ao Mosteiro de Alcobaça, o monarca declarava ser sua intenção
sepultar-se aí e a D. Inês nossa mulher. Ainda no mesmo ano, a 29 de Dezembro, sua mãe, a
rainha D. Beatriz, trata os filhos da Castro por infantes. Ora, atendendo a que Pedro subiu ao
trono em 1357, logo no ano seguinte foi manifesto o seu casamento com a dama galega.

Não existem, pois, razões para negar o depoimento jurado sobre os Evangelhos por um bispo,
aliás em concordância com as também juras do rei cônjuge e de uma testemunha comum. Para
este historiador, à semelhança de Arnaut, o discurso proferido pelo arcebispo de Braga,
Cardaillac, o maior poder espiritual do reino e antigo mestre de Direito Canónico na
Universidade de Toulouse, é bem elucidativo, constituindo a «inobscurecível prova» de como
não apenas os de simples e chão entender, como referia Fernão Lopes, mas também os mais
subtis, letrados e discretos acreditavam neste casamento. Não resistimos a transcrever um
excerto do referido discurso.

«Segundo narra o Livro do Génesis, embora Abrãao (...) tivesse escondido que uma certa Sara
era verdadeira esposa, por (...) medo do faraó, rei do Egipto, não obstante isso, pelo afecto e
cuidado com a mesma Sara enquanto viva e, mormente, quando defunta, pelo pranto e grande
sepultura levantada, evidenciou que ela era a sua consorte (...).
273

Essoutro Abrãao, príncipe grande e excelso, conquanto por temer alguma ira e paixão de el-rei
D. Afonso, seu pai, houvesse escondido que a infanta D. Inês (...) era sua esposa, não obstante
isso, pela sinceridade do afecto e cuidado com ela, durante a vida, e agora muito melhor depois
de morta pelo esplendor da sua sepultura, fez saber a todos os súbditos do seu reino a excelsa
nobreza da mesma D. Inês e que ela era sua esposa.

O Deus, se consideras o estado e a condição de D. Inês, outrora Infante, certamente acharás


que, embora fosse mulher virtuosa, embora fosse mulher generosa, embora fosse mulher a todos
graciosa, embora fosse com tantos e tais filhos fecundada, sempre foi sepulta na humildade (...)
rejeitou a glória do mundo, ao ocultar que era esposa de tão grande príncipe, o que é contra o
feitio das mulheres (...).

Os corpos dos santos são sepultados em paz, e os seus nomes viverão (...). Assim queira Deus o
seja esta Senhora Infanta (...) pois ela bem e piedosa e justamente viveu neste mundo.» (Nota
32)

Reforçando a sua convicção sobre este casamento, Sérgio Pinto relembra, ainda, que, na falta
do seu registo, um matrimónio é considerado válido a nível do foro eclesiástico, por alguma das
seguintes quatro práticas: declaração jurada do clérigo que pede e recebe o consentimento dos
contraentes, por declaração jurada das testemunhas comuns, por declaração jurada dos próprios
cônjuges ou, ainda, por demonstração através dos três elementos clássicos - haverem sido
chamados cônjuges, haverem feito convivência e haverem-nos, em geral, por consortes. Ora, os
quatro requisitos referidos surgem neste casamento conjuntamente e na totalidade.

Quanto aos impedimentos de consanguinidade e compadrio salientados por Fernão Lopes,


também são refutados pelo mesmo historiador. A consanguinidade, porque a dispensa geral
dada pelo papa João XXII, para que Pedro pudesse contrair matrimónio com mulher sua parente
carnal incluía o grau de parentesco com Inês.
274

No segundo caso, a cognatio spiritualis não chegou a existir pois, como refere o próprio
cronista, Inês não proferiu «as palavras que os padrinhos costumam de responder em nome do
afilhado (...) e por tanto não era sua comadre, e podia casar com ele sem pecado». (Nota 33)

O último impedimento, a carta do papa Inocêncio VI com o indeferimento pontifício à petição


de Pedro para a ratificação do seu casamento com Inês, é considerado apócrifo por Sérgio
Pinto, até porque não se verificaram protestos da Santa Sé à confirmação solene do casamento
feita pela maior autoridade eclesiástica do país, D. João de Cardaillac. (Nota 34)

Fernão Lopes, para além da sua própria dúvida (que seria, por certo, intencional) não refere
textos contemporâneos refutando o acto nupcial, omitindo, pelo contrário, documentos que o
confirmam ou pressupõem, como são a carta de D. Pedro ao Mosteiro de Alcobaça (1358), o
testamento da rainha sua mãe, D. Beatriz (1358), o sermão das exéquias de Inês de Castro
(1362) e o próprio testamento do rei (1367), no qual é lavrado mandamos que entreguem aos
filhos da infante D. Inês, que outro si foi nossa mulher...

Sobre este tema, Oliveira Marques salienta que Fernão Lopes desencorajou toda e qualquer
vontade de acreditar neste casamento, pois, interessado em negar a legitimidade dos filhos de
Inês de Castro, faz o leitor duvidar da realização do mesmo. Este historiador lembra, ainda, que
as várias doações de património aos infantes filhos de Inês foram feitas em diplomas datados de
1361, a seguir à declaração de legitimidade, portanto num processo lógico de encadeamento dos
acontecimentos. O mesmo autor afirma que tanto a vingança contra os assassinos de Inês, como
o próprio anúncio do casamento não devem ser encarados como mera revanche pessoal, mas
ter, também, em conta os poderosos interesses que o rodeavam, nomeadamente, os dos infantes
filhos de Inês e os dos Castro, com património e influência em Castela e em Portugal, e
desejosos de alargar a sua importância e penetração neste segundo reino. (Nota 35)

Não cabe aqui inventariar a grande variedade de opiniões e de historiadores que sobre este tema
têm discorrido ao longo dos séculos, (Nota 36) bem como os pontos obscuros que existem nesta
declaração de casamento.
275

É difícil poder decidir, historicamente, pela veracidade ou falsidade desse matrimónio. Cabe, no
entanto, relembrar que, à luz da Idade Média, o casamento era considerado realizado desde que
os noivos pronunciassem, entre si e sob juramento, as chamadas palavras de presente «Recebo-
te por minha; recebo-te por meu.» Não era sequer necessária a presença de testemunhas e
bastava que os novos cônjuges, vivendo em comum, declarassem que haviam prometido, um ao
outro, fidelidade e amor. A estes casamentos clandestinos, mas válidos nos seus efeitos práticos,
chamavam-se, então, casamentos a furto e casamentos de pública fama, conforme se realizavam
em segredo ou se reconheciam por coabitação. Referia a lei que «Todos os casamentos se
podem fazer por aquelas palavras que a Santa Igreja manda, contando que sejam tais [os
contraentes] que possam casar sem pecado. E todo o casamento que puder ser provado, quer
seja a ocultas [a furte], quer em forma pública [conhoçuda] valerá, se os que assim casarem
forem de idade legítima como é de costume.» (Nota 37)

Dois últimos acontecimentos a ter, ainda, em consideração. O primeiro tem a ver com o facto de
D. Pedro ter efectivamente estado na região de Trás-os-Montes no ano de 1353, ou seja, os tais
sete anos invocados pelo monarca em 1360, conforme carta datada de 12 de Março desse ano e
escrita em Mirandela. O segundo, está relacionado com uma referência feita na chancelaria
régia ao bispo de Coimbra que, à data de 1362, se encontrava em Roma ao serviço de D. Pedro.
Continuaria o referido bispo a tentar junto da Santa Sé a confirmação do casamento e a
legitimação dos infantes? (Nota 38)

Se nunca iremos saber se este matrimónio terá, ou não, acontecido, a verdade é que, ao declarar
ter casado com Inês, o monarca honrou a memória daquela que fora sua mulher de facto,
legitimou os filhos nascidos desse amor e colocou-os, assim, em pé de igualdade perante a
sucessão ao trono com o infante Fernando, havido de D. Constança. (Nota 39) A única diferença
era que este era o primogénito, pelo que seria sempre o primeiro a herdar. (Nota 40)
276

A trasladação

Por volta de 1361, e no continuado desejo de preservar viva a memória da bela Castro, D. Pedro
fez trasladar os despojos da sua amada da Igreja de Santa-Clara-a-Velha, em Coimbra, onde as
freiras a haviam depositado em campa rasa, para o Mosteiro de Alcobaça. Aí, num desejo de
eternização, Inês foi aclamada rainha e colocada em um majestoso túmulo, por ele mandado
construir. Ao seu lado, nasceria, mais tarde, um outro túmulo que se destinaria a albergar o
corpo de Pedro quando o destino decidisse, finalmente, juntar os dois amantes. A grandiosa
cerimónia da trasladação é, mais uma vez, minuciosamente descrita por Fernão Lopes,
registando como o monarca

«mandou fazer um monumento de alva pedra, todo mui subtilmente obrado, pondo enlevada
sobre a campa de cima a imagem dela com coroa na cabeça, como se fora rainha. (...) E fez
trazer o seu corpo, o mais honradamente que se fazer pode, cá la vinha numas andas muito bem
corrigidas para tal tempo, as quais traziam grandes cavaleiros, acompanhadas de grandes
fidalgos e muita outra gente e donas e donzelas e outra clerezia. Pelo caminho estavam muitos
homens com círios nas mãos, de tal guisa ordenados que sempre o seu corpo foi todo o caminho
por entre círios acesos. E assim chegaram até ao dito mosteiro, que eram dali dezassete léguas,
onde com muitas missas e grande solenidade foi posta naquele monumento. E foi esta a mais
honrada transladação que até àquele tempo em Portugal fora vista». (Nota 41)

A tétrica cerimónia da coroação e do beija-m.... o à rainha norta, que D. Pedro teria imposto à
sua corte, relatada por alguns historiadores mas com autenticidade incomprovada, tornou-se
uma das imagens mais vívidas no imaginário popular.

Reforçando a solenidade do acto, o arcebispo de Braga proferiu, então, o já referido sermão.

Inês, o «colo de garça» galego, infanta na morte, tornou-se rainha na eternidade. Dignamente
repousado o seu mutilado corpo e preservada a sua memória num belo jacente coroado, a Castro
esperou a chegada do tão amado esposo que não tardou a chegar.
277

Em 1367 Pedro juntou-se-lhe e, no silêncio do mosteiro, ter-lhe-á sussurrado:

«É a nossa hora, Inês... Estamos sozinhos. Estás bem assim?! Tu ouves-me dormindo. Eu fico
aqui, à tua cabeceira. Não bulas, meu amor, dorme assim queda - como a estátua ali, sobre o teu
túmulo... Esta é a casa de Deus. Deus está connosco. Ouves os sinos repicar?!... Toca a noivado.
As nossas bodas agora - são eternas.» (Nota 42)

«Dorme, sombra de graça e de saudade,

Colo de Garça, amor, moça menina,

Bem-amada por toda a eternidade! (Nota 43)

O teu Pedro te embala, nesse Amor

Que há-de ter sempre o nome de Maior!

Que há-de ser novo - "Até ao fim do Mundo..."» (Nota 44)

E os restos destes eternos amantes jazem juntos até hoje, frente a frente, para que, como
escreveu Afonso Lopes Vieira

«E no fragor do mundo que desaba

Hão de acordar, sorrindo eternamente,

Os olhos um no outro, enfim, pousando! » (Nota 45)

Vítima ou cúmplice?

A história deste amor proibido e trágico, o seu princípio e fim, a lenda e o romance que o
rodeiam são sobejamente conhecidos; no entanto, a figura e a personalidade de Inês de Castro
são praticamente desconhecidas. Para além do nome, da família a que pertencia, das condições
em que veio para Portugal, dos amores que despertou no infante, dos filhos que dele teve e das
circunstâncias da sua morte por ordem real, pouco mais se sabe. Não fora a tragédia que
envolveu a sua morte, o desvario e as acções de Pedro após o assassinato e Inês não passaria de
uma das muitas mancebas que perpassaram pela vida dos reis e infantes medievais,
posteriormente esquecida como todas as outras o foram.
278

A beleza que detinha parece ser um facto incontestável, a avaliar pelas múltiplas referências que
lhe são feitas. A sua rara fermosura, (Nota 46) dotada de estremada graça, gentileza, &
disposição, per que lhe chamauam collo de Garça (Nota 41) são alguns exemplos. Para Camões,
os seus olhos eram fermosos e António Ferreira refere os seus cabelos louros. João d'Aboim, em
1854, continua exaltando a sua beleza:

«Era linda como a aurora!

Tinha os cabelos mais louros,

Que o melhor ouro d'ofir,

Mostrava ocultos tesouros

Entr'abrindo o seu sorrir;

Tinha os olhos mais formosos

Que os mil lumes preciosos,

Quando fulguram vaidosos

Das estrelas no fulgir!

Tinha o colo altivo e belo,

Mais alvo do que o marfim!

Era do mundo o anhelo,

A tez de leite e carmim.» (Nota 48)

E Alberto Pimentel continua:

«Era gentil e loira e branca e bela,

Uma flor de Castela

Que no céu português se volveu astro...


De Afonso a corte - rememora a fama -

Nunca pudera ver em outra dama

Colo de garça como tinha a Castro.» (Nota 49)


279

E Gil Vicente na Devisa sobre a cidade de Coimbra, de 1527, representada nessa cidade perante
o rei D. João III, aludindo à morte de Inês, refere a formosura das Castro:

«As molheres de Crasto sam de pouca fala

Fermosas e firmes, como sabereis

Polla triste morte de dona Inês

A qual de constante morreo nesta sala.» (Nota 50)

De facto, é alardeada, com frequência, a beleza de algumas das parentes mais próximas de Inês,
como a sua filha Beatriz, que encantará o seu meio-irmão Fernando, de uma sua neta, também
Beatriz, por quem se perderá de amores o conde de Buelna, D. Pêro Niño, e que, por isso, surge
cantada no Cancionero de Baena, ou a sua meia-irmã Joana de Castro, a efémera rainha de
Castela.

A beleza, alvura de pele e louros cabelos, qual elemento canónico, (Nota 51) são descrições
constantes ao longo dos tempos. Na sua estátua jacente, único retrato que se lhe reconhece, ela
surge com um sorriso ingénuo e meigo, dando uma imagem de docilidade e brandura. Seria
essa a verdadeira Inês? Tudo o que nos surge dela reflecte a sua passividade e o comando da sua
vida por outros. Chegou a Portugal no séquito de uma infanta, foi mandada exilar por um rei,
mandada regressar por um infante e, posteriormente, mandada matar pelo mesmo rei.

Terão os seus amores ilícitos motivado a sua morte? Poucos foram, no entanto, os monarcas que
não tiveram mancebas e isso nunca levou ao seu assassinato. Bem perto, em Castela, Afonso XI
apresentava publicamente Leonor Nunes de Gusmão, relegando para um muito secundário
plano a legítima rainha Maria de Portugal, provocando mesmo graves problemas entre as duas
Coroas. Também Pedro I, o filho que lhe sucedeu, preferiu a manceba Maria de Padilha aos
vários casamentos políticos, o que lhe granjeou conflitos internos e externos. No entanto,
nenhuma destas duas amantes foi assassinada. (Nota 52) Por que foi, então, assassinada Inês de
Castro?

Terá a bela castelhana sido a vítima dócil e frágil de uma grande paixão e de uma época que não
se compadecia com esses afectos ou, pelo contrário, terá sido uma mulher decidida que lutou
até ao fim por aquilo que ambicionava?
280

Explicadas que foram as diversas estratégias e condicionantes deste século, particularmente em


Portugal e Castela, elenquemos, agora, algumas circunstâncias mais concretas que possam
explicar a atitude de D. Afonso IV e que, como já foi salientado, se enquadram no todo
peninsular, particularmente na política luso-castelhana, cujas frequentes uniões matrimoniais
contribuíam para que as histórias dos dois reinos se tocassem e se confrontassem. Importa
relembrar que, com a morte de Afonso XI, o odiado genro do monarca português, subiu ao
trono Pedro de Castela que devolveu a sua mãe, a rainha Maria de Portugal, o lugar que lhe fora
usurpado pela rival Leonor de Gusmão. Se até aí tinha sido evidente a animosidade de D.
Afonso IV, o novo monarca castelhano alterou a atitude deste rei, que se colocou ao lado da
filha e do neto. O jovem rei assumiu o trono num momento particularmente difícil, ainda no
rescaldo da peste negra com as inevitáveis implicações nos vários sectores de actividade, e viu--
se confrontado não só com os muitos irmãos bastardos mas também com importantes facções
da nobreza senhorial que, a todo o custo, tentavam recuperar antigos privilégios.

Se o novo reinado se iniciou com a presença do português João Afonso de Albuquerque como
valido e governador, por influência da rainha-mãe, o não cumprimento da aliança de Pedro com
Branca de Bourbon, união arquitectada pela rainha-viúva e pelo seu valido, levou ao
afastamento deste que, em 1350, encabeçou uma revolta contra o rei castelhano, engrossando,
assim, a facção que se lhe opunha. Relembremos que também aqui tinham /assado a militar os
irmãos Castro depois da rejeição da irmã Joana por Pedro I.

Que tinha Inês a ver com tudo isto? Para além de fazer parte da poderosa linhagem dos Castro,
ela era, também, aparentada com a linhagem dos Albuquerque, tendo sido inclusivamente
criada pela sua tia Teresa de Albuquerque. Ora esta tia era a mulher de Afonso Sanches, o
bastardo de D. Dinis que levara Afonso IV a lutar contra o pai. João Afonso de Albuquerque,
filho de ambos, convivera com Inês durante a sua criação, sendo praticamente seu irmão
adoptivo.
281

No centro dos Castro e dos Albuquerque, que visavam a deposição do rei castelhano, estava a
amada de Pedro. Por seu intermédio, poderiam aproximar-se do herdeiro português e nele
encontrar a aliança necessária ao afastamento do outro Pedro. Por seu intermédio, Pedro
poderia ceder às pressões dos rebeldes de Castela e aceitar a Coroa castelhana que lhe fora
oferecida.

Tudo isto era visto em Portugal como uma traição e, na política de proximidade entre Afonso
IV e o neto, não podia haver lugar para inimigos nem para o apoio ou fortalecimento de facções
contrárias. Era pois urgente acabar com as perigosas influências junto do príncipe herdeiro. E,
consciente ou inconscientemente, justa ou injustamente, a Castro era uma peça central neste
jogo de poder luso-castelhano, encarada como a intérprete dos desígnios e ambições da sua
família e da crescente importância dos da sua linhagem em Portugal. Na verdade, e como já
referimos, não fora o emaranhado de interesses que perpassava neste xadrez de política e
influências, a bela Inês poderia ter sido, como tantas outras antes e depois dela, a manceba do
infante e futuro rei de Portugal. Afinal, como diz Henry Bresc, há mulheres para casar e outras
para amar... (Nota 53)

As divergências políticas que suscitou na própria família real e nas várias facções da nobreza
que apoiavam o velho ou o futuro rei acabaram por enredá-la numa teia da qual não conseguiu
escapar. A rivalidade senhorial entre os Pacheco, linhagem estreitamente ligada a Afonso IV
através de Lopo Fernandes Pacheco, pai de Diogo Lopes, um dos executores de Inês, e os
Castro, família originária da Galiza, com importante peso político em Castela e que, através de
um dos seus ramos, apoiava o infante, bem como uma disputa de influências junto da Coroa
portuguesa justificam as tensões que a frágil figura de Inês proporcionou, talvez mais do que ela
representava ou poderia vir a rt '-resentar. Como refere Bernardo Vasconcelos e Sousa, Inês era
o cerne do «plano português» dos Castro e aí se concentrava, simultaneamente, a sua força e a
sua fraqueza. O seu futuro estava traçado - ou o triunfo dos da sua linhagem em Portugal, ou a
eliminação desta mulher, que, pela ligação que mantinha com o infante herdeiro, era
considerada como a mais perigosa agente dos Castro e dos Albuquerque em Portugal. A partir
daqui os dados estavam lançados e já não havia margem para recuar. Inês tinha de ser
sacrificada no altar da razão política.
282

Foi a nobreza de Afonso IV que o aconselhou e pressionou, condenou e executou Inês. No


momento da sua execução, a tragédia de Inês foi o azar dos Castro. (Nota 54) Por tudo isto, a
bela dama galega terá sido mais objecto do que sujeito em todo este sinuoso e imbricado
processo. A imolação desta jovem mulher, politicamente instrumentalizada, representava o bem,
a estabilidade e a segurança do reino.

A descendência que lhe sobreviveu

A este amor sobreviveram três filhos, como já referimos: João, Dinis e Beatriz, ainda de peito
quando sua mãe foi assassinada.

Após a morte da mãe, a infância e a adolescência dos infantes estiveram a cargo do pai. O
infante D. João esteve desde a infância relacionado com o prior do Hospital e com Álvaro Peres
de Castro, irmão de sua mãe, tendo residido amiúde na corte de seu pai. Dinis, o segundo filho,
foi entregue durante a infância a Gil Vasques de Resende, seu aio, tendo mantido ao longo da
vida uma ligação estreita também com Diogo Lopes Pacheco, parente de Gil Vasques. Ora se
estas personagens, ao que parece, estiveram implicadas na morte de Inês de Castro, como se
explica esta paradoxal situação?

Veremos, em outras biografias, como as crianças nesta época eram, por vezes, entregues como
garantia de alianças entre poderosos ou de tréguas entre grupos rivais. Quando as pazes eram
negociadas, as crianças eram trocadas como reféns. Estas entregas, para além de serem
temporárias eram cuidadosamente regulamentadas. Normalmente esta situação não acontecia
aos primogénitos, que eram alvo de um tratamento especial como futuros sucessores, recaindo
nos filhos segundos ou bastardos. Foi o caso do infante Dinis, entregue em criança a um dos
homens que teria estado envolvido no assassinato de sua mãe. Embora não se conheça qualquer
acordo escrito, o que é facto é que o seu aio esteve exilado em Castela após a morte de Inês,
encontrando-se já reintegrado na corte de D. Pedro na década de 1360 e restaurada a posse das
suas terras. (Nota 55)
283

Num quadro de boas relações com Castela e com o seu homónimo sobrinho Pedro I, foram
negociados, em 1358, os casamentos dos dois infantes com, respectivamente, Constança e
Isabel, filhas do monarca castelhano, uniões que acabaram por não se concretizar. Tentou-se,
então, o matrimónio da infanta Beatriz com o próprio monarca castelhano, união que,
igualmente, fracassou.

Aos dois infantes nos voltaremos a referir na próxima biografia. Recordemos, agora, Beatriz, a
pequena criança que Inês teria junto a si aquando da sua morte.

A infanta rondava os treze anos quando seu pai morreu.

Beatriz foi uma figura algo enigmática mas que desempenhou significativo papel na corte de
seu meio-irmão, o rei D. Fernando, não só pelo bem que este lhe queria, como também porque
coube a ela a reconstituição da Casa da Rainha numa altura de «vazio» de rainha. Assim, após a
morte da rainha Beatriz, a esposa de Afonso IV, em 1359 e até ao casamento do rei Fernando,
verificou-se uma ausência de rainha. Mortas Constança Manuel e Inês de Castro, afastadas do
reino as duas irmãs do rei Pedro, Maria, casada com Afonso XI de Castela e Leonor, com Pedro
IV de Aragão, bem como a sua própria filha, a infanta Maria, unida, em 1354, ao infante
Fernando de Aragão, o reinado do soberano não conheceu a existência da régia corte feminina.
É então que Fernão Lopes, referindo-se a Beatriz, filha de Inês de Castro, indica como ela trazia

«gram casa de donas e donzelas, filhas d'algo e de gram linhagem, porque aí não havia rainha
nem outra infante a cuja mercê se houvessem d'acostar».

E uma das damas que a ela se acostou foi Maria Teles de Meneses, a irmã da futura rainha
Leonor Teles, atribuindo o cronista à iniciativa de Maria a estadia na corte da sua irmã, já
casada.

Beatriz era como rainha na corte do rei-solteiro seu meio-irmão, sendo o seu círculo de
sociabilidade descrito como lugar de certa licenciosidade amorosa, mais não seja porque o rei aí
mantinha incestuosos jogos e falas com a irmã, à mistura com beijos e abraços e outros
desenfadamentos de semelhante preço, que fazia a alguns ter desonesta suspeita de sua
virgindade ser por ele mingoada.
284

E a afeição mui continuada do jovem rei era tal que veo nacer em ele tal desejo de a aver por
molher que determinou em sua vontade de casar com ela, cousa que até aquel tempo nom fora
vista. (Nota 56) Na opinião de Jorge de Sena, a forma como este escabroso episódio é contado
podia ser uma tentativa do cronista não só para manchar a honra dos descendentes de Inês mas
igualmente para mostrar o carácter amoral e depravado de D. Fernando, que nem perante o
incesto recuava. (Nota 57) Até que chegou Leonor Teles a esta corte feminina e neste cadinho
de sentimentos desregrados e pecaminosos, Fernando por ela se apaixonou. Mas isso é outra
história a que a seu tempo falaremos.

Foi através de Beatriz que a linhagem dos Castro viu uma mulher governar como rainha de
Portugal. Assim, pelo tratado de Santarém, que oportunamente explicaremos, estabeleceu-se o
casamento de Beatriz com o castelhano D. Sancho de Albuquerque, filho bastardo de Afonso XI
de Castela e irmão do então rei Henrique de Trastâmara. O casamento teve lugar em Valada,
junto a Santarém com a realização de justas nas quais se enfrentaram portugueses e castelhanos,
tal como semanas antes o haviam feito em verdadeira guerra. A infanta partiu depois para
Castela com seu irmão Dinis, que terá, possivelmente, influenciado esta união visto ser apoiante
do rei Henrique. Grávida à morte do marido, deste casamento nasceu Leonor de Albuquerque e
desta outra Leonor que veio a casar, em 1428, com Duarte, filho do Mestre de Avis, e que se
tornou rainha de Portugal. E casou em Coimbra, e em Santa Clara onde a avó foi assassinada. A
ela regressaremos na sua biografia.

A memória cronística

Lembrada como dõzela mui fermosa & de grade linhage da parte de seu pay, embora tratando-
se de uma bastarda, Inês evoca-se como fidalga que foi objecto de um grande amor, se bem que
classificado como pecado, tanto por ter começado ainda em vida da legítima esposa do infante,
como por se ter desenrolado no quadro de uma relação incestuosa, já que Inês era comadre de
Pedro.
285

Do ponto de vista cronístico, a crescente influência da fidalga sobre o infante, consolidada à


medida que lhe ia assegurando descendência, é descrita como preocupante, porque conducente
a um cada vez mais amplo protagonismo fidalgo dos de Castro na vida política do reino,
explicando Fernão Lopes e Rui de Pina como

«Dom Fernando, & dom Álvaro Pires, por meio do favor da dita Dona Inês de Castro sua irmã,
& dos filhos que tinha de el-Rey Dom Pedro, alem das muitas terras que tinham em Castela, &
principalmente Dom Fernando, tiveram grande parte em Portugal.» (Nota 58)

Uma vez que tal posição coincide com o discurso atribuído ao muy velho Afonso IV que dizia
temer a muita parte tida pelos de Castro no reino, por receyo à vida, & sucessam do infante
Fernando, o primogénito de Pedro, a régia ordem para execução da manceba não implica
qualquer negativo juízo de valor, tanto mais quanto se menciona haver o monarca solicitado ao
filho que casasse com ela, ou que a protegesse.

Porém, se numa perspectiva de interesse público a morte de Inês aparece como algo de
inevitável, o modo como ela se processou é caracterizado como feito por mais abominável
crueza, que por severa nem louvada justiça, (Nota 59) se bem que tal comentário não se dirija
ao prestigiado rei, mas àqueles que lhe executaram a sentença. Na verdade, na dramática cena
da execução, que já citámos, Fernão Lopes não deixa de referir a fraqueza do rei que já não a
queria matac, se não tivesse sido impedido pela determinação dos vassalos e dos oficiais que o
acompanhavam.

De uma forma geral, uma tão cuidada e dramática narrativa revela preocupações que
transcendem a simples qualidade literária. Por um lado, o primeiro cronista-mor da dinastia de
Avis, fazia de Afonso IV um personagem tão digno de piedade como a própria Inês, mostrando-
o angustiado com a situação do neto Fernando e atormentado com a perigosa e indefinida
situação de mancebia do filho, a qual preferia ver devida e matrimonialmente legalizada para
uma melhor resolução das questões relativas à sucessão da Coroa.
286

Por outro lado, a comovente cena das súplicas da desprotegida Inês, fazia da sua morte um
acontecimento que suscitava indignação e apuramento de responsabilidades. Em tudo isto, a
figura de Pedro não estava totalmente ausente, uma vez que não soubera poupar a morte da
infeliz amante, defendendo-a ou desposando-a, o que, de acordo com o cronista, teria satisfeito
o pai. Implicitamente, a narrativa do assassinato de Inês tirava credibilidade a tudo o que depois
da morte dela se disse e, provavelmente, melhor se lembrava, sobretudo as memórias
construídas por volta de 1360, quando se efectuou a punição dos seus carrascos e se elaborou o
processo destinado a provar a existência de um seu antigo casamento com o monarca, dando
legitimidade aos seus filhos e aos respectivos direitos à sucessão do trono. Descritos
minuciosamente por Fernão Lopes, (Nota 60) todos estes acontecimentos, sobre cujo bom e
justo fundamento se lançavam algumas dúvidas, tiveram pública e solene manifestação na
grandiosa cerimónia da trasladação dos restos mortais de Inês para Alcobaça.

De resto, se Fernão Lopes se refere aos amores de Pedro e Inês como um verdadeiro amor
raramente achado nalguma pessoa e como exemplo de verdade que ultrapassa os que se contam
e leêm nas histórias, (Nota 61) não deixa de referir como o rei os prolongou por outras régias
mancebas. Casos de Teresa, a fidalga em que depois de ser Rey ouue Dom Ioaõ seu filho
bastardo, e Beatriz Dias, (Nota 62) a provável mãe de uma bastarda régia que, à data do
testamento do soberano, vivia em Santa Clara de Coimbra. (Nota 63)

Uma vida em verso

Para além dos cronistas, a vida e os episódios mais relevantes da história da bela Inês, a história
do seu amor, «às vezes alegria, quase sempre dor», (Nota 64) cedo transitaram para a literatura
e não mais deixaram de fazer parte da nossa identidade nacional. Ao longo dos tempos, a causa
da sua morte, tem sido colocada, normalmente, em dois motivos: o amor, o excessivo amor que
se sobrepunha à razão, e a «razão de Estado» devido ao perigo que ela e a sua família
representavam para a segurança e independência nacionais. (Nota 65)
287

Garcia de Resende foi quem primeiro recordou Inês com as Trovas à Morte de Inês de Castro,
incluídas no Cancioneiro Geral de 1516, recuperando um episódio que até aí só era factual e
friamente contado.

Nos Lusíadas, Luís Vaz de Camões, dedicou-lhe o episódio da linda Inês, posta em sossego, nas
estrofes 120 a 135 do Canto III, contando a história dentro do melhor espírito renascentista,
enaltecendo a figura de Inês, a sua grande beleza (e é importante não esquecer que o conceito
de beleza, nesses tempos, correspondia também à perfeição e elevação moral) e ligando-a a uma
iconografia pagã que a situa como uma «ninfa», sacrificada em nome de razões de Estado. A
inscrição da figura de Inês num espaço determinado - Coimbra, o Mondego, a Quinta das
Lágrimas - e o facto de D. Pedro a ter coroado rainha após a sua morte, conferem-lhe uma
dimensão dramática única. O poeta refere Inês como um ser excepcional e belo, desejado por D.
Pedro, num universo quase de histórias de «encantar».

António Ferreira, em 1578, escreveu a primeira tragédia clássica portuguesa, A Castro, baseada
na sua vida.

Deliciemo-nos, um pouco, com as palavras destes poetas.

Logo no início das suas trovas, Garcia de Resende refere, pela «boca» da própria Inês a sua
juventude e a naturalidade com que tudo começou:

«Eu era moça, menina

per nome Dona Inês

de Castro e de tal doutrina

e vertudes, qu'era Dina

de meu mal ser ó revés.

(...)

Conheceu-me, conheci-o,

Quis-me bem e eu a ele,

Perdeo-me, também perdi-o»


288

E, quando no Paço de Santa Clara irrompem el-rei e os executores, põe Inês de Castro a clamar:

«Estes homens d'onde irão?

E tanto que perguntei,

Soube logo que era el-Rei.

Quando vi tão apressado,

meu coração trespassado

foi, que nunca mais falei.

E quando vi que descia,

Saí à porta da sala;

Devinhando o que queria,

Com grã choro e cortesia

Lhe fiz ua triste fala.

Meus filhos pus derredor

De mim, com grã humildade;

Mui cortada de temor,

Lhe disse: "havei, Senhor,

Desta triste, piedade!"»

António Ferreira põe nesta fala de Inês o pedido de clemência para a sua vida e invoca o amor,
e só o amor, como causa da sua união com Pedro:

«Esta é a mãe dos teus netos. Este são

Filhos daquele filho, que tanto amas.


Esta é aquela coitada mulher fraca,

Contra quem vens armado de crueza.

(...)

S'os olhos de teu filho s'enganaram

Com o que viram em mim, que culpa tenho?

Paguei-lhe aquele amor com outro amor,

Fraqueza costumada em todo estado.

Se contra Deus pequei, contra ti não.

Não soube defender-me, dei-me toda.


<8 páginas de imagens (iluminuras, fotografias, etc.): omitidas>
289

Não a imigos teus, não a traidores.

A que alguns segredos descobrisse

Confiados em mim, mas a teu filho,

Príncipe deste Reino. Vê que forças

Podia eu ter contra tamanhas forças.

Não cuidava, Senhor, que t'ofendia.

Defenderas-mo tu, e obedecera,

Inda que o grand'amor nunca se força.

Igualmente foi sempre entre nós ambos;

Igualmente trocamos nossas almas.

Esta que ora te fala, é de teu filho.

Em mi matas a ele, ele pede

Vida par'estes filhos concebidos

Em tanto amor. Não vês como parecem

Aquele filho teu? Senhor meu, matas

Todos, a mim matando; todos morrem.»

Também em Garcia de Resende, Inês clama a sua vida em prol dos seus filhos e do amor que o
rei teria pelo infante Pedro.

«E têm tão pouca idade

Que, se não forem criados

De mim, só com saudade

E sua grã orfandade,


Morrerem desemparados.

Olhe bem quanta crueza

Fará nisto Vossa Alteza,

E também, Senhor, olhai,

Pois do príncipe sois pai,

Não lhe deis tanta tristeza.»

E Camões reforça o pedido de Inês

«O tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar uma donzela,

Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.


290

Em António Ferreira, a Castro, clama aos seus filhos que peçam ao avô misericórdia para a sua
vida.

«ai meus filhos,

Chorai, pedi justiça aos altos Céus,

Pedi misericórdia a vosso avô

Contra vós tal cruel, meus inocentes.

Ficareis cá sem mim, sem vosso pai,

Que não poderá ver-vos sem me ver.

Abraçai-me, meus filhos, abraçai-me,

Despedi-vos dos peitos que mamastes». (Nota 66)

Fragilizado e comovido, o rei hesita. E Camões escreve:

«Queria perdoar-lhe o Rei benino,

Movido das palavras que o magoam;

Mas o pertinaz povo e seu destino

(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.»

E Garcia de Resende põe os seus companheiros a lembrar Afonso IV que não podia fraquejar,
justificando a morte de Inês pelo perigo que ela e a sua castelhana família representavam.

«Se a logo não matais,

não sereis nunca temido

nem farão o que mandais,

pois tão cedo vos mudais


do conselho que era havido.

Olhai quão justa querela

tendes, pois por amor dela

vosso filho quer estar

sem casar e nos quer dar

muita guerra com Castela.

Com sua morte escusareis

muitas mortes, muitos danos;

vós, Senhor, descansareis,

e a vós e a nós dareis

paz para duzentos anos:

o príncipe casará,

filhos de bênção terá,

será fora de pecado.

Que agora seja anojado,

amanhã lhe esquecerá!»


291

Em Camões, o verdadeiro responsável pela morte de Inês é o Amor

«Tu, só tu, puro Amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deste causa à molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.»

E o rei cede. E Camões descreve e questiona

«Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra uma dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais e cavaleiros?»

Vence a razão do Estado, morre o amor e, com ele, a bela Inês.


292

«Assi como a bonina, que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela,

Sendo das mãos lacivas maltratada

Da minina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está, morta, a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas e perdida

A branca e viva cor, co a doce vida.»

E a própria Natureza chora a morte de Inês.

«As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram.

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês, que ali passaram.

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água e o nome Amores.»

E a força do desgosto gerado pela perda da sua paixão desencadeou a vingança.

«Não correu muito tempo que a vingança

Não visse Pedro das mortais feridas,

Que, em tomando do Reino a governança,


A tomou dos fugidos homicidas.

Do outro Pedro cruíssimo os alcança,

Que ambos, immigos das humanas vidas,

O concerto fizeram duro e injusto,

Que com Lépido e António fez Augusto.» (Nota 67)

Garcia de Resende termina o seu poema com a seguinte estrofe


293

«Em todos os seus testemunhos

a declarou por mulher,

e por isto melhor crer,

fez dois ricos moimentos,

em que ambos vereis jazer

rei, rainha, coroados,

mui juntos, não apartados,

no cruzeiro de Alcobaça.

Quem puder fazer bem, faça,

pois por bem se dão tais grados.» (Nota 68)

Bocage (1758-1805), na Cantata à Morte de D. Inês de Castro, em 1799, voltou a dar voz aos
trágicos amores, terminando assim:

«Toldam-se os ares

Murcham-se as flores

Morrei Amores

Que Inês morreu.

Mísero esposo,

Desata o pranto,

Que o teu encanto

Já não é teu.» (Nota 69)


E Almeida Garrett (1799-1854), em prosa e, talvez na sua obra mais conhecida, Frei Luís de
Sousa, começa o primeiro acto desta obra com Madalena a ler o episódio de Inês de Castro dos
Lusíadas

«Naquele ingano d'alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito...»

A história de Inês e as violentas e inesquecíveis manifestações de amor e dor de Pedro após a


morte da amada, a guerra civil, o suplício dos assassinos, a declaração do casamento e a
trasladação para o Mosteiro de Alcobaça, com a cena lendária da coroação daquela que despois
de morta foi rainha, foram temas retomados pelos escritores e poetas românticos do século XIX.
294

Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre outros, procuraram investigar, com algum rigor,
as pessoas e factos históricos. Mas as principais obras específicas sobre este tema surgiram nos
últimos anos do século XIX e no início do século XX, altura em que o amadurecimento das
raízes românticas chegava à sua plena maturidade, ora mantendo viva a sua chama, ora
procurando alguma contestação. (Nota 70) Adepto de ideais simbolistas e saudosistas, António
Patrício (1878-1930) foi o autor do poema Pedro, o Cru, (1913) que não despreza o episódio de
D. Inês de Castro, mas em que a acção decorre já depois da sua morte. D. Pedro é aqui chamado
de Rei Saudade, sentimento que não mais o deixou. Também Gomes Leal (1848-1921) na sua
galeria de Retratos Femininos, alude a Inês realçando a sua beleza:

«Neve e rosa, qual Vénus sobre a espuma, colo alto, senhoril colo de garça, ella reinou mais
bella que nenhuma, boca em flor, olhos lindos, trança esparsa.» (Nota 71)

Ainda no plano do Saudosismo, destacou se a figura de Teixeira de Pascoaes (1877-1952) a


ocupar-se do tema da morte de Inês. Fernando Pessoa (1888-1935), não esqueceu esta temática,
bem como o fizeram Jaime Cortesão (1884-1960) e Ângelo Lima (1872-1921), autor do poema
Inês de Castro. Miguel Torga (1907-1995), em Inês de Castro, inserida nos Poemas Ibéricos, na
versão final de 1965, remete-nos para uma mitologia dos grandes amores, ao falar no eterno
mito do poeta à linda Inês, eterna Julieta castelhana do Romeu português.

«Antes do fim do mundo, despertar,

Sem D. Pedro sentir,

E dizer às donzelas que o luar

E o aceno do amado que há-de vir.

E mostrar-lhes que o amor contrariado

Triunfa até da própria sepultura:

O amante, mais terno e apaixonado,

Ergue a noiva caída à sua altura.


295

E pedir-lhes, depois fidelidade humana

Ao mito do poeta, à linda Inês...

A eterna Julieta castelhana

Do Romeu português.» (Nota 72)

Tomás de Figueiredo (1902-1970), nos poemas «Estavas linda Inês» e «Até ao fim do Mundo»,
cria um diálogo entre os dois corpos nos seus túmulos:

«Ouves Inês, a minha voz,

aí nesse leito rendado que te dei?»

Pela força de seu amor, Pedro consegue a resposta dolorosa de Inês, contendo uma censura:

«Porque é que não chegaste, Pedro, a tempo?

Amado, o tempo nunca volta, nunca!

O tempo é como as nuvens, como as dores,

Que nunca são as mesmas, como as lágrimas.

Que frio! Tenho frio! Donde vem

Este vento parado que me corta?»

E Pedro explica-se:

«Galopei, galopei, a socorrer-te

O lajedo, ao galope, viu estrelas,


Abracei-te. Chamei-te.

E beijei-te, e beijei-te, mas só eu

Te beijei, porque tu não me beijaste

Pela primeira vez... Pela primeira...

E o vento devolveu-me ecos fugidos,

E eu soube, soube, Inês... Depois vinguei-te!

Depois vinguei-me! Inês, podes dormir!

Quem não pode vingar-se é que não dorme...» (Nota 73)


296

Em 1968, Fernando Luso Soares deu à tragédia de Inês de Castro uma génese eminentemente
política. Na obra A outra morte de Inês, o rei e os três conselheiros defendem-se, condenando a
poesia da lenda de Inês. E do rei esta sentença:

«A memória dela permanece segundo a lenda gravemente ofensiva do poder soberano; aos
justiceiros chamaram assassinos; mas porque persiste em deturpar as razões que me levaram à
condenação antiga, é da minha vontade que matem essa lenda.» (Nota 74)

História, lenda, mito

O amor de Inês, paradigma do amor em Portugal, é um elemento importante na construção do


eterno mito da permanência do amor para além da morte. E a história desta paixão foi
transformada em mito, tanto pela cultura das elites, como pela cultura popular. (Nota 75)

Lenda ou história, o que é verdade é que ao longo de sucessivas gerações a história feita de
lágrimas desta Inês tão linda, tem prendido a atenção de investigadores e autores literários que a
têm imortalizado, embelezando, uns, a história, historiando, outros, a lenda, de tal forma que
«impossível se torna já ao certo saber onde a história termina e onde a lenda começa, onde os
factos que a tradição nos legou foram poetizados pelas cismas do povo ou pelo génio dos
poetas». (Nota 76)

Em pleno século XX e século XXI, encontramo-la nas várias encenações da Castro de António
Ferreira e no bailado Fedro e Inês, com a nova coreografia de Olga Roriz e em poemas de
Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Ruy Belo, João Miguel
Fernandes Jorge e Nuno Júdice e na prosa de Agustina Beça Luís, António Cândido, Ary dos
Santos, Manuel Alegre, João Aguiar e Maria Pilar Queralt de Hierro, o que confirma a trans-
temporalidade e a transmodalização da temática de Inês de Castro. Inês conseguiu, pelo menos,
manter viva a sua tragédia até ao nosso século com uma regularidade e persistência de que não
se encontra igual. (Nota 77)
297

O relato dos trágicos amantes alastrou além fronteiras e muitos outros autores se perderam de
amores pela bela Inês. Na Europa sucederam-se traduções, edições ou reedições de todo o tipo
de obras literárias referentes a esta história. Em Espanha, foi decisiva a publicação de Historia
General de Espana (1601) de Juan de Mariana, rapidamente traduzida para inglês. Os franceses,
através de Houdar de la Motte - Inês de Castro, (1723), Victor Hugo - Inês de Castro (1853) e
Henri de Montherland - La Reine Morte (1942), continuaram a sua difusão. Outras publicações
se espalharam pela Inglaterra, Alemanha e outros países europeus difundindo o tema inesiano
por diferentes palcos. A Rússia acolheu, ainda no século XVIII, a versão para bailado Inessa de
Castro. Só em italiano foram identificados cento e vinte seis composições de música e ballet
com a mesma temática.

Seguramente, a estoria de amor de Inês e Pedro enfeitiçou e inspirou os maiores artistas que, ao
longo dos tempos, a contaram em prosa ou em verso, glosaram, cantaram, dançaram,
encenaram, representaram, mitificaram, desenharam, pintaram e esculpiram. Não é intenção
deste estudo abarcar toda a produção inesiana, o que não só seria impossível como indesejável
num estudo desta índole. Limitámo-nos a elencar algumas obras de diversos tempos e autores,
tentando demonstrar dois factos principais; por um lado, as diferentes perspectivas que o tempo
e os distintos obreiros foram marcando nesta história, ora imprimindo uma excessiva
fragilidade a Inês contra o poder do sogro e dos seus algozes, ora uma imagem maternal
preocupada com o futuro dos seus filhos, passando pela mulher apaixonada que tudo sacrifica
em prol do seu amor, até à figura apagada e secundarizada, qual peça relevante no jogo de
influências da época. Por outro lado, como este episódio medieval não tem, mesmo na
actualidade, uma repercussão menos significativa do que em épocas anteriores, nas quais
condicionantes de índole sócio-cultural pareciam mais propícias ao aparecimento de uma
história que cai, por vezes, em melodramatismos e explicações mais simplistas. (Nota 78)

Como referiu Maria Leonor Machado de Sousa, a história de Pedro e Inês é um tema de sempre
pois remete para dois valores pelos quais a Humanidade sempre lutou - a liberdade e o amor. A
liberdade, objectivo ansiado pelo ser humano, tem, neste caso, a razão de Estado como inimigo
principal.
298

Ela oi impiedosa e inultrapassável nesta história. A força da liberdade implica a superação da


morte e o que em vida foi negado impõe-se após a ressurreição e o reencontro. Quanto ao amor,
que nunca morreu depois de cortada a vida, conseguirá vencer todos os obstáculos e impor-sena
eternidade. (Nota 79)

«Porque se digo Pedro digo Inês; e se a esta nomeio nomearei o coração que por ela ainda
sangra no horizonte o mais magoado dos mitos, tão eternos se fizeram estes amantes um no
outro.» (Nota 80)

Fruto de considerável produção artística, Inês de Castro não morreu em vão. A sua memória
continua a perdurar muito para além da sua morte e a combinação de história e lenda do seu
trágico amor atravessa o tempo e o espaço, continuando a apaixonar o imaginário colectivo.
Talvez porque ela é única ao conjurar forças como as do amor erótico e do amor cortês, as da
política e dos interesses, as das razões do coração e as do Estado. Entre Pedro e Inês, amor e
morte estão sempre juntos, para a eternidade.

Morta fisicamente para Pedro e para os seus filhos, para Afonso IV e os seus executores, para o
povo que a amou mas também para o que a viu como mísera e mesquinha barregã estrangeira
que, a mando dos seus irmãos, ambicionava ser rainha e unir Portugal e Castela, ela renasceu
através da lenda, do mito e da estória que, preservando e alimentando a sua recordação, a
mantém viva no imaginário colectivo português.

«Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de
todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que
descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. (...)

Tu. A primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.» (Nota 81)

Agora que percorremos a vida e a morte da bela Inês, detenhamo-nos, um pouco, na sua última
morada e na de Pedro, pois na morte como na vida, ambos se completam num encadeamento
perfeito.
299

É a memória materializada em pedra, deste amor que vingou para além da morte e que, como
referiu Fernão Lopes

«semelhante amor, qual el-rei D. Pedro houve a D. Inês, raramente é achado em alguma pessoa,
porém disseram os antigos que nenhum é tão verdadeiramente achado, como aquele cuja morte
não tira da memória o grande espaço do tempo.»

Até ao fim do mundo...

E terá sido, precisamente, este amor raramente achado que terá feito D. Pedro abrir as portas de
Alcobaça a Inês. Assim, entre os motivos de perturbação e surpresa destaca-se o facto de nunca
antes o túmulo de um leigo ter sido introduzido num templo que funcionava como uma espécie
de panteão régio da primeira dinastia portuguesa cujos corpos repousavam fora da igreja, na
galilé. Este túmulo colocava em causa a memória do progenitor de D. Pedro, uma vez que a
defunta havia sido mandada executar pelo rei D. Afonso IV por razões que supostamente se
prendiam com a segurança e estabilidade políticas do reino. (Nota 82) De facto, o amado
esposo mandou colocar este monumento não à entrada, onde jazem os reis, mas dentro da igreja
à mão direita, cerca da capela-mor. (Nota 83)

O conjunto tumular dos dois amantes constitui, sem dúvida, um repositório de memórias de
uma vida apaixonada e conturbada. Os textos autobiográficos que D. Pedro mandou lavrar nos
dois túmulos, embora executados em dois momentos distintos, formam uma unidade discursiva.
Debrucemo-nos um pouco sobre cada um deles, começando pelo de D. Inês, o primeiro a ser
construído. A sua construção deverá ter começado por volta de 1358, o que a ser verdade
comprova que logo um ano após a sua subida ao trono D. Pedro se preocupou com a
reabilitação de Inês, não esperando até 1360 para lhe dar o valor que merecia. (Nota 84)

A primeira grande cena esculpida é a do Juízo Final, aos pés.


300

Uma linha semicircular divide a imagem, apresentando, na parte de cima o interior da cidade
santa de Jerusalém, onde é visível Cristo-Juiz, sentado num majestoso trono sobre nuvens e
ladeado, à sua direita, pela Virgem e onze Apóstolos e, à esquerda, por dois anjos conversando.

Na parte inferior da imagem, sob a linha semicircular que separa o Céu da Terra, representa-se a
ressurreição dos mortos no dia do Juízo Final.

Na cabeceira, em toda a superfície disponível é representada a cena do Calvário. Ao centro,


como elemento fulcral e dinamizador de todo o espaço, encontra-se Cristo crucificado ladeado
pelos dois ladrões. À volta agrupam-se várias personagens próprias desta cena, sendo visíveis
soldados, a Virgem desfalecendo, amparada por duas santas mulheres e S. João de mãos postas.

As faces laterais do túmulo representam, em seis quadros de cada lado, alguns dos principais
momentos da vida de Cristo - do lado direito, a infância da Anunciação à Apresentação no
Templo, do lado esquerdo o seu tempo de adulto, da Ultima Ceia ao Caminho para o Calvário.
Esta leitura evangélica é complementada com figuras do Antigo Testamento, como David e
Salomão, que integram a mais importante simbologia ligada à realeza.

A bordadura superior da arca é constituída pela alternância dos brasões de Portugal e dos
Castro, a linhagem a que pertencia Inês.

Finalmente, sob um baldaquino minuciosamente desenhado, encontra-se a estátua jacente de


Inês com coroa na cabeça como se fora Rainha. A cabeça assenta em duas almofadas e o corpo,
incensado por dois anjos, é amparado por outros quatro anjos. As mãos, ao contrário dos
jacentes de outras rainhas ou nobres que são representadas de mãos postas ou a ler o seu Livro
de Horas, são figuradas em gestos corteses - a direita brinca com o longo colar que tem ao
pescoço e a esquerda, enluvada, segura a luva da outra mão. Esta representação significa, para
alguns autores, «um acto voluntariamente construído da memória, numa desesperada e inútil
luta contra o tempo consumado». (Nota 85)

A arca tumular assenta em seis figuras híbridas, de rostos humanos e corpos de animais, que,
embora a lenda associe ao castigo dos assassinos de Inês, têm sido relacionados com os vícios,
localizados em baixo como alegorias ao valor negativo.
301

Terminado o túmulo de Inês, D. Pedro terá ordenado a execução do seu, o que terá ocorrido
entre 1361 e finais de 1366, visto o monarca, que faleceu em 1367, mandar no seu testamento
que o seu corpo fosse levado ao Mosteiro de Alcobaça e lançado em seu monumento que está
junto com o de Dona Inês. (Nota 86) O túmulo já estaria, portanto, pronto. Analisemos um
pouco da sua igualmente grandiosa arca tumular, cuja concepção é muito semelhante à de Inês,
variando apenas a iconografia.

O tema principal do monumento é o que ocupa a cabeceira com uma rosácea com duas rodadas
de figurações - Roda da Fortuna/Roda da Vida, (Nota 87) reunindo os aspectos mais
significativos da trágica e amorosa vida de D. Pedro e D. Inês. A leitura de cada rodada deve ser
feita de baixo para cima e da nossa esquerda para a direita, isto é, dos estados mais felizes para
os da adversidade. Na Roda da Fortuna, uma estrutura radial de seis grandes pétalas, é visível
uma cena diferente da vida do casal no espaço de cada uma dessas pétalas.

A orla exterior tem uma sequência de doze largos alvéolos - a Roda da Vida - igualmente com
cenas representando a vida do casal. Enquanto a Roda da Fortuna recorre, quase sempre, a uma
iconografia onde os adultos vão perdendo, ou ganhando, atributos de sucesso material, a Roda
da Vida exige a representação das várias idades de um indivíduo. Atenhamo-nos, então, às
várias cenas e vejamos como elas vão reproduzindo as diversas fases da vida. Assim,
começando de baixo para cima, num crescendo de tempo e de idade:

- D. Inês, sentada, acaricia, ao colo, um dos filhos, possivelmente o seu primeiro filho que
entretanto morreu. A criança representa a infantia, a primeira idade do ser humano de acordo
com a nomenclatura utilizada por Santo Isidoro de Sevilha, na sua obra Etimologias. Ao lado é
visível uma lareira onde arde o fogo e se cozinha, simbolizando, talvez, a privacidade e o
isolamento em que ela se encontrou até à morte de D. Constança.

- O casal convive com os seus três filhos, na segunda etapa da vida, a puerícia, dos sete aos
catorze anos.

- D. Inês e D. Pedro jogam xadrez. Aqui simboliza-se a primeira fase da adolescência, que vai
até aos vinte e oito anos.
302

É visível a intimidade, nomeadamente o facto de D. Pedro, sentado sobre duas almofadas,


encostar o pé à perna de Inês e esta se inclinar para a frente, parecendo estender o seu braço
sobre o ombro de Pedro.

- O casal em doce convívio, continuando na segunda fase desta mesma idade, reflecte uma
relação ainda mais íntima, com Inês a apoiar suavemente a sua mão sobre a perna direita de
Pedro. A atitude é de maior maturidade e as próprias vestes são menos juvenis.

- D. Inês, na primeira fase da juventus (que vai dos vinte e oito aos cinquenta anos) parece
dominar uma figura prostrada no chão. Será D. Inês tentando vencer a intriga?

- D. Pedro reina em majestade. É a idade da maturidade plena, da sua subida ao trono com 37
anos.

Entremos, agora, na fase descendente da Roda da Vida. Os episódios dolorosos da vida de


Pedro formam um discurso alheio ao esquema das Idades do Homem, passando pela execução
de Inês e a vingança de Pedro e terminando com este jazendo amortalhado no seu túmulo. Sob o
jacente lê-se: «A(qui) E(spero) a fin do mu(n)do.» É o fim da vida, último rito da passagem do
ser humano. (Nota 89)

Nos dois alvéolos que representam a execução de Inês, é visível, no primeiro, o arqueamento do
seu corpo que torna particularmente visível o pescoço, esticado devido à pressão exercida pela
figura que lhe agarra os cabelos e puxa a cabeça para trás. Tudo se prepara para a degolação. No
segundo, a sua bela cabeça rola no chão. Inês foi, de facto, decapitada. Para além da degolação
ser visível nesta imagem, o testemunho documental do Chronicon Conimbricense é claro ao
referir decolata fuit Dona Enes. (Nota 90) Com efeito, quando as tropas napoleónicas
arrombaram o túmulo de Inês, o seu corpo apresentava a cabeça decepada. (Nota 91)

Nas faces laterais, pode ver-se a vida de São Bartolomeu, protector do monarca. (Nota 92) A
arca repousa sobre seis leões, quais guardiães vigilantes e fiéis do seu senhor.

A disposição original dos dois túmulos, com os pés voltados para a Capela de São Bento, santo
que os abençoava, e com D. Inês colocada à direita de D. Pedro (de acordo com o código
cavaleiresco), permite uma leitura interpretativa das cenas narradas nas suas faces, fazendo a
correspondência entre elas. (Nota 93)
303

Vendo em conjunto os dois túmulos, o rei simultaneamente se redime dos desvarios cometidos
em vida e pela sua morte santa acede ao lugar reservado aos dignos do Paraíso registado no
túmulo ao lado de D. Inês. Todos os pecados de uma vida, por muitos condenada, serão
perdoados na morte. Aliás, segundo o que é aceite pelos estudiosos da arte, nesta representação
do Juízo Final são visíveis as figuras de D. Pedro e de D. Inês representadas numa janela aberta
na torre da direita das muralhas da Jerusalém Celeste. Reafirma-se e reforça-se, assim, que a
tragédia final que revestiu os seus amores terrenos foi recompensada pela definitiva união e
amor eterno no Paraíso. Esboça-se já nesta primeira apresentação dos dois túmulos a vertente
autobiográfica em que mergulha a sua iconografia. As cabeceiras dos dois túmulos apresentam,
igualmente, uma leitura complementar semelhante; (Nota 94) também as cenas representadas
nas duas faces de cada túmulo apresentam, idêntico paralelismo. (Nota 95)

O conjunto tumular de Pedro e Inês constitui o monumento culminante da escultura tumular da


Idade Média em Portugal, pela riqueza e complexidade do seu trabalho escultórico e pela
inovação iconográfica que não tem igual na arte coeva europeia. (Nota 96)

Hoje as arcas encontram-se frente a frente, numa intervenção realizada já no século XX e que,
apesar das várias críticas, tende a respeitar a lenda que, quando ressuscitarem, se verão frente a
frente e à qual alude Afonso Lopes Vieira no seu Soneto dos Túmulos já atrás referido.

Poetas de todos os tempos ressuscitam Inês, arrancando-a à paz do seu último sono no seu régio
túmulo no Mosteiro de Alcobaça. Também nós, ao longo deste breve estudo, revisitámos Pedro
e Inês e a sua paixão de ontem, de hoje e de sempre. Deixemos, por agora, voltar a descansar na
igreja abacial de Santa Maria de Alcobaça, os que em vida se amaram e para sempre se
juntaram. (Nota 97)

«Até ao fim do mundo», a epígrafe gravada nos túmulos dos dois amantes é o testemunho do
desejo desse encontro no dia do Juízo Final que continua hoje tão vivo como naquele tempo.

E vivas e belas continuam, também, as palavras de Natália Correia, que não nos cansamos de
ler e com as quais terminamos esta biografia.
304

«Era pedra e sobre essa pedra

Ergueu-se o templo do amor atroz.

Ele de fogo, ela a cordeira

Toda cordura chamando o algoz.

Sangram as tubas: Inês é morta!

Em meigo mito transmuta-a o pranto

Do ermo amante que erra sozinho

No seu deserto de diamante.

Nem ar sangrento buscam seus olhos

Do corpo amado desfeitas pérolas;

E como fera coro os ossos

Da formosura que ao alto o espera

E em desatino da paixão lusa,

Perdida a alma que em Inês linha,

O fim do mundo ficou esperando

Aos pés da morta, sua rainha.» (Nota 98)

«Em sono gótico deitaram-se os dois frente a frente; para que na lívida alvorada da ressurreição
dos mortos, apenas soerguidos do penumbroso sonho tumular, fosse ela a primeira e
imorredoura maravilha dada aos seus olhos, fosse ele o primeiro raio de sol que lhe rosava a
esfriada face. E assim, até ao fim dos tempos...» (Nota 99)
11

LEONOR TELES

(c. 1350-c. 1405)

A rainha de má memória
<Quadro genealógico de LEONOR TELES: omitido>
Era alegre, jocoza, dezembaraçada, e menos modesta em falar do que pedia a gravidade da sua
pessoa.

Frei Manuel dos Santos (Nota 1)

Origens

Leonor Teles de Meneses (ou Telles ou Menezes) descendia por seu pai, Martim Afonso Teles
de Meneses, do rei Fruela II das Astúrias e Leão e, por sua mãe, Aldonça Anes de Vasconcelos,
de Teresa Sanches, filha bastarda do rei D. Sancho I de Portugal.

O ano e o seu local de nascimento são desconhecidos. Algumas fontes indicam Trás-os-Montes
como possível região do seu nascimento, baseadas na carta régia de 3 de Janeiro de 1375, na
qual D. Fernando doou à então sua mulher Vila Real, por ser natural da província de
Tralosmontes. A ser assim, seria a primeira rainha de nacionalidade portuguesa por nascimento.
No entanto, para além de não se conhecer qualquer tradição local relacionada com Leonor ou
com a sua família, os seus progenitores radicaram-se em Castela, pelo menos desde 1340,
quando o pai se tornou mordomo-mor da rainha D. Maria de Portugal tendo aí sido assassinado
em 1356, em Toro, às mãos de D. Pedro de Castela, filho da rainha. Neste intervalo de tempo
teriam nascido os quatro filhos legítimos de Martim Afonso Teles e a filha Joana, de uma
ligação extraconjugal. Na opinião do historiador Montalvão Machado, o pretenso lugar de
nascimento tem apenas o intuito de atribuir a Leonor a nacionalidade portuguesa, tanto mais
que não existem dados biográficos relativos ao nascimento e infância dos seus irmãos. (Nota 2)
308

Após o assassinato do pai, Leonor, que mal o terá conhecido, veio com os seus irmãos, João
Afonso, Gonçalo e Maria, para a corte portuguesa, possivelmente integrando o séquito da
rainha-mãe que, atemorizada com a mortandade que o filho praticava em terras de Castela,
regressou ao seu reino de origem. Leonor e os irmãos ter-se-ão recolhido à protecção do seu tio
João Afonso Teles, conde de Barcelos. Era este casado com Guiomar Lopes Pacheco, meia-irmã
do conhecido Diogo Lopes Pacheco, que terá constituído uma segunda mãe para Leonor.
Aldonça de Vasconcelos morrera prematuramente em consequência da terrível peste negra que
dizimou cerca de um terço da população europeia.

Guiomar Lopes Pacheco havia sido criada na casa de D. Álvaro Gonçalves Pereira, (Nota 3)
talvez como resultado de acordos que envolveram a linhagem dos Pacheco após o assassinato
de Inês de Castro. Leonor Teles, porque criada por Guiomar, estava, assim, ligada ao velho
prior e aos seus filhos. A crónica de Nuno Alvares Pereira realça a protecção dada pela rainha
ao condestável na corte fernandina.

O primeiro casamento

Possivelmente por iniciativa do seu tio, foi a jovem Leonor casada com João Lourenço da
Cunha, senhor de Pombeiro, um fidalgo da média nobreza, vassalo do infante João, filho de
Inês de Castro, associando-se, assim, à linhagem dos de Castro.

Dele teve uma filha que morreu e um filho, Álvaro da Cunha, a quem, segundo o cronista,
Leonor passou a chamar, depois que a elRei tomou, Álvaro de Sousa, indicando-o como filho
de Lopo Dias de Sousa e de uma mulher da sua Casa chamada Elvira. Continuando a seguir os
argumentos que Fernão Lopes colocou na boca do Dr. João das Regras aquando das Cortes de
1385, este filho foi por ela deixado quando casou com D. Fernando, para se dar por virgem a
elRei, dizendo que seu marido nunca dormira com ela. Só muitos anos mais tarde, quando o pai,
João Lourenço da Cunha, se encontrava muito doente e pediu para que os seus bens fossem
entregues a este seu filho, que nunca ousara nomear por filho em vida delRei dom Fernando, é
que se soube da sua existência. (Nota 4)
309

Os prometidos casamentos do seu futuro marido

Como a maior parte das rainhas já referidas, Leonor Teles entrou na História de Portugal pelo
seu casamento com o rei D. Fernando. No entanto, ao contrário das anteriores uniões que
propiciavam alianças vantajosas ao reino e cujas futuras soberanas eram aclamadas com
entusiasmo pelas populações, que nelas viam a prosperidade e a garantia da sucessão régia, esta
união foi marcada, desde o início, pelo descontentamento popular face a uma futura rainha
propiciadora da discórdia e da humilhação do seu monarca.

Ao longo da sua vida D. Fernando fora alvo de vários projectos matrimoniais que, por certo,
teriam agradado mais ao povo do seu reino. Logo aos treze anos seu pai, no contexto dos
acordos de paz realizados em 1358, tratou do seu casamento com Beatriz, a filha mais velha do
rei Pedro de Castela, uma união que acabou por não se concretizar. Mais tarde, em 1364,
quando a guerra civil e a anarquia assolavam Castela, foi negociado novo matrimónio, agora
com Joana, filha do rei Pedro IV de Aragão, que também não se realizou. Guerras, pazes e
alianças matrimoniais eram, como já foi referido, situações que se desenrolavam em paralelo,
fazendo, desfazendo e voltando a fazer acordos ao sabor das mais propícias conjunturas
políticas. Assim voltou a acontecer já com D. Fernando no poder. É necessário que, por
momentos, nos debrucemos sobre os primeiros tempos do governo deste rei e a respectiva
conjuntura politica e militar. Será assim mais fácil compreender este casamento e os
alinhamentos que ele implicou, bem como o papel desempenhado pelas várias personagens que
participaram no conturbado palco ibérico e europeu da segunda metade do século XIV.

O contexto europeu

A Europa vivia uma situação de guerra liderada pela França e pela Inglaterra, às quais se iam
juntando os respectivos apoiantes. A posição dos monarcas portugueses anteriores a D.
Fernando foi cautelosa, tendo sempre em conta o contexto ibérico.
310

Entre 1369 e 1389 o estado de guerra foi praticamente ininterrupto entre os dois principais
adversários europeus. Em Março de 1369, D. Pedro de Castela, o herdeiro de Afonso XI e
Maria de Portugal, foi assassinado às mãos do irmão bastardo, Henrique de Trastâmara. O caos
tomou conta do reino vizinho que se dividiu entre petristas e trastamaristas, digladiando-se as
duas facções num sangrento conflito. A posição do novo monarca era periclitante e muitos
contestavam a sua legitimidade como governante de Castela. A sua capacidade militar era
limitada e, embora sendo apoiado pelos franceses, a evolução dos conflitos além-Pirenéus não
fazia prever uma ajuda significativa.

Muitos apoiantes do falecido monarca haviam sido feitos prisioneiros pelo novo soberano,
incluindo alguns com fortes ligações à corte portuguesa, como era o caso de Fernando de
Castro. Uma delegação de «petristas» refugiou-se em Portugal propondo a D. Fernando os seus
serviços e incitando-o a vingar a traiçoeira morte do seu primo Pedro. O Trastâmara era um
bastardo usurpador e a legitimidade devia ser restabelecida. Este argumento tinha toda a razão
para o rei português, pois avalizar um filho ilegítimo no trono poderia constituir um antecedente
perigoso para o seu próprio reino, onde os seus meios-irmãos, filhos de Inês de Castro,
espreitavam o poder.

Atendendo ao escasso grupo de parentes legítimos de Pedro de Castela, (Nota 5) D. Fernando


apresentava-se como legítimo sucessor ao trono castelhano, visto ter como ascendente comum a
ele e ao malogrado rei a figura da régia avó Beatriz de Castela, filha de Sancho IV. Se pelo lado
paterno havia legitimidade, também pela mãe, Constança Manuel, o soberano português
descendia de Fernando III de Leão e Castela, o que lhe assegurava uma dupla legitimidade.

A primeira guerra fernandina

Rodeando-se dos emigrados petristas, D. Fernando mobilizou igualmente importantes facções


da nobreza do reino que entusiasticamente aderiram à guerra. Entre eles contavam-se os seus
irmãos, em especial o infante D. João. Logo no Verão de 1369, o soberano iniciou contactos
com os antigos aliados do rei assassinado.
311

Negociou uma aliança militar com o rei de Granada e encetou negociações com Pedro IV de
Aragão, no final de 1369. Este aceitava D. Fernando como legítimo herdeiro, jogando-se mais
uma vez uma carta comum a Aragão, Navarra, Granada e Portugal contra a realeza
trastamarista. Desde há muito, como por várias vezes referenciámos, se tentava diminuir o
poder do maior reino ibérico, dividindo-o e partilhando-o entre vários monarcas. E foi aqui que,
como remate deste alinhamento entre Portugal e Aragão, foi negociado o casamento de D.
Fernando com a infanta aragonesa Leonor.

O rei português invadiu a Galiza mas a campanha conjunta contra o rei castelhano acabou por
falhar (Nota 6) e, pelo meio, muitas críticas são feitas por Fernão Lopes à actuação militar de D.
Fernando, acusando-o de covardice e dando dele uma visão mais passiva do que activa ou
atacante. (Nota 7) A ofensiva castelhana contra Portugal e a derrota do exército luso originou
um novo acordo de paz oposto ao anterior. Em 1371, D. Fernando e Henrique de Castela
(Henrique II) negociavam a paz de Alcoutim. A viragem para Castela implicou a mudança de
noiva, surgindo então uma segunda Leonor, agora castelhana. (Nota 8)

O régio casamento de Leonor

Em 1372, estando o rei português comprometido com Leonor de Castela pelo tratado de
Alcoutim, surgiu uma terceira Leonor na sua vida, à qual, ao contrário das anteriores, não corria
tanto sangue real. Era a sobrinha do poderoso valido do rei, o conde de Barcelos e Ourém, uma
dona da nobreza que não lhe era imposta por qualquer acordo, paz ou tratado com nenhum
outro reino.

O casamento realizou-se, primeiro secretamente no segundo semestre de 1371, e depois na


igreja da pequena localidade de Leça do Balio, na Primavera de 1372, mais concretamente em
meados do mês de Maio. As cerimónias decorreram longe do bulício e das manifestações dos
habitantes das principais localidades do reino e num ambiente protegido. Testemunhas mudas
desta união foram as imagens de Eva tentando o seu companheiro Adão, que ornamentam os
capitéis da igreja e onde não falta a consequente expulsão do mítico par do Paraíso.
312

Quiçá como um augúrio, também para a História Leonor Teles ficou como culpada de, pela sua
beleza, ter tentado e cativado o jovem e formoso rei, acabando por conduzi-lo, e ao seu reino, à
desgraça e ao sofrimento.

A data deste casamento e, principalmente, a data da carta de arras entregue pelo rei a esta
Leonor, em Janeiro de 1372, indicia que ambos já viveriam em concubinato enquanto se
negociavam os anteriores acordos diplomáticos. Aliás, o próprio Fernão Lopes narra que

«da bem-querença e amores que el-rei Dom Fernando tomou em Lisboa com dona Lionor Telez
foi logo fama por todo o reino, afirmando que era sua mulher, com quem já dormira, e que a
tinha recebido a furto». (Nota 9)

D. Fernando doou-lhe um conjunto de vilas tradicionalmente associadas ao senhorio das


rainhas, como Abrantes, Alenquer e Torres Vedras, mas também Vila Viçosa, Almada, Sintra,
Atouguia, Óbidos e Aveiro, bem como os reguengos de Sacavém, Frielas, Unhos e a terra de
Melres, em Ribadouro. Mais tarde, D. Leonor trocou Vila Viçosa por Vila Real de Trás-
os~Montes em 1374 e adquiriu Pinhel, em 1376. Permanecem um pouco na penumbra as razões
que terão levado o rei a este casamento, tanto mais que o facto de o ter realizado longe dos
olhares da população e numa igreja-fortaleza, rodeado só dos seus mais próximos e fiéis
cortesãos, revela que o monarca português já teria a percepção da perturbação que o mesmo iria
provocar. É precisamente no contexto global das guerras ibérica e europeia que se deve buscar a
explicação para este casamento que talvez não tenha sido um capricho de um rei irresponsável e
apaixonada. Possivelmente D. Fernando não teria mesmo a intenção de casar com a filha do rei
castelhano, pois isso seria colocar-se sob a sua dependência. Na sequência da política de
independência evidenciada pelos monarcas portugueses anteriores, a opção de D. Fernando terá
tido em vista a neutralidade, não pretendendo conotar-se, ou explicitamente aliar-se a nenhum
dos lados em contenda - ou a Aragão, de acordo com as pretensões inglesas, ou a Castela,
implicando o apoio francês. Não optar por nenhuma das infantas possibilitava-lhe uma
liberdade de movimentos e de decisões tanto no palco ibérico como europeu.
313

A Leonor sedutora

Fernão Lopes apresenta duas razões desvairadas que terão levado a este casamento. A primeira
prende-se com a beleza de Leonor que terá levado ao enfeitiçamento do rei. As suas fremosas
feiçoões e graça, o seu boom corpo, a sua fresca hidade, o seu loução e gracioso gesto e a sua
dulçidom de fala são, por diversas vezes, enaltecidos ao longo do seu registo cronístico.
Reflectindo à luz da época, não nos parece que esse fosse um motivo suficientemente forte para
quebrar o compromisso assumido com o rei de Castela e desafiar o descontentamento do seu
reino. Lembremos que quase todos os reis que precederam D. Fernando, apesar de desposarem
ilustres infantas de outros reinos, escolhiam para suas mancebas donas da nobreza, sem que a
sua autoridade ou prestígio fossem abalados. A bela Teles de Meneses poderia ter sido mais
uma régia manceba. Mas Fernão Lopes insiste no desvario da paixão do rei ao referir que

«Deixada toda bem-querença e contentamento que d'outra mulher poderia haver, d'esta se
começou de namorar maravilhosamente. (...) de dia em dia se acrescentava mais sua chaga, não
descobnndo porém a nenhuma pessoa esta bem-querença tão grande que em seu coração

novamente morava.» (Nota 10)

A pressão familiar

A segunda razão apresentada pelo cronista associa aos amores do rei a pressão e influência da
família de Leonor, atribuindo ao patriarca desta linhagem, João Afonso Teles de Meneses,
conde de Barcelos e de Ourém, a iniciativa deste casamento. Referida como sobrinha do mor
privado que entom el-rei avia, o processo que levou ao seu casamento com D. Fernando é
narrado de forma a evidenciar uma bem montada intriga nobiliárquica para o assalto fidalgo à
realeza. Nesse sentido, o cronista procura demonstrar como os começos desta relação não
teriam passado de uma banal mancebia régia, caso os Teles de Meneses não tivessem forçado o
monarca a um compromisso matrimonial.
314

Os seus primeiros encontros remetem para o cenário cortesão de D. Beatriz de Castro, a filha de
Inês e Pedro I, quando Leonor aí penetrou por ocasião de uma visita a sua irmã Maria, dama da
Casa de Beatriz. A bem-querença por ela despertada no jovem, solteiro e formoso rei não teria
tido consequências de maior se a louçã e aposta fidalga não tivesse tido de regressar ao
respectivo solar beirão. Como já referimos, Leonor Teles de Meneses era casada com João
Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro da Beira, de quem havia um filho.

Foi então que, segundo Fernão Lopes, intervieram os parentes, nomeadamente a irmã Maria
Teles, em permanente contacto e acordo com Leonor. Assim, ao saber como o rei ficara ferido
asi de amor pela irmã, chegando a confidenciar-lhe ser sua vontade de a aver ante por molher
que quamtas filhas de reis no mundo avia, e a dizer-lhe estar decidido a torná-la quite de seu
marido, fê-lo jurar que, se o conseguisse, ante que dormisse com ela depois do quitamento, que
ante a recebesse por molber, porque ela nunca aceitaria ser sua barregã.

Entretanto, familiares e monarca conseguiram que fosse declarada a separação de Leonor,


pressionando o marido a aceitá-la e obrigando-o a exilar-se em Castela per segurança de sua
vida. Não se conhecendo documento probatório da anulação do casamento e, por isso, o
fundamento em que se baseou, o motivo poderá ter sido o parentesco e a não existência de
dispensa papal que o superasse, (Nota 11) pois, como sabemos, este impedimento estendia-se a
graus remotos de consanguinidade. Não terá sido difícil descobri-lo entre Leonor e o marido per
azo de cunhadia, que he ligeiro d'achar entre os fidalgos. Já em biografias anteriores vimos a
frequência deste motivo para a dissolução dos matrimónios que se pretendian anular fazendo
jus ao provérbio já citado: Allá van leyes do quieren reyes «Lá vão leis onde querem reis.»

Finalmente, quando o casamento se efectuou, assegura a crónica ter-se cumprido o acordo


assumido pelo monarca, ante que el-rei dormisse com ela, primeiro a recebeo por molher,
presente sua irmã e outros, que esta cousa traziam calada. (Nota 12)
315

À luz de Fernão Lopes, também Fonseca Benevides qualifica os seus primeiros encontros com

D. Fernando, quando ainda estava casada com o primeiro marido, como estratégicas encenações
para «lhe despertar o desejo e a sensualidade, sem contudo lhe conceder a satisfação de a
possuir». (Nota 13)

Fernão Lopes explica, assim, o chamado casamento a «furto», clandestino mas válido nos seus
efeitos práticos, tal como vimos no caso de Inês de Castro e D. Pedro. O casamento de
«bênção» de Fernando e Leonor realizou-se depois no Mosteiro de Leça do Balio.

«Ai donas por quê em Tristura»

João Lourenço da Cunha, o marido repudiado, fazendo gala da desonra, passou a apresentar-se
por toda a parte, segundo os cronistas, com duas hastes doiradas na cabeça, sendo conhecido
como o cornos de ouro. Sobre os seus amores com Leonor e a tristeza da sua perda conhece-se
uma poesia de lamento Ai donas por quê em Tristura que alguns autores atribuem ao próprio
marido desgostoso e que foi glosada em vários poemas quatrocentistas. Na opinião de Carolina
Michaëlis de Vasconcellos, que estudou a referida cantiga, a autoria será de Hugo Bernat de
Rocaberti, um poeta da corte aragonesa, que coloca o apaixonado português numa espécie de
Inferno do Amor, onde, da sua própria boca sai a canção. O que é facto é que nada consta do
eventual talento poético do senhor de Pombeiro. (Nota 14) Vejamos um excerto da canção onde
é atribuído a Leonor o epíteto «Flor da Altura» e onde o autor expressa o amor e o desgosto
pela sua perda.

«Pensando en vossa figura

olvidrar já nom podria

Ai donas por que en tristura

perpasso noite e dia.

Mas, se vossa senhoria

non quer usar de mesura,

non vejo como seria

partida de mi rencura.
Sendo de todo chegado

aa vida sem folgura

acheguei-me a un poblado

du me apartou mia ventura;

e eu com gran queixa pura

ao ceo mirar queria,

vi estar la flor de altura

per quen gran coita sofria.


316

Com temor, qu'é justa lei

de quen pensa ser amado,

de grand'afan lhe falei

como home desacordado,

e depois que acordei

respondi por seu mandado:

Senhora, de cas del rei

trago caminho errado.

Com medos já muy mayores

baixo como quem murmura,

respondi: Grandes rencores

passo, forte pena e dura;

que quero mia sepultura,

se por vos non se desvia;

Pois perdi a fermosura

de la vossa sennoria.

D. Leonor e o seu primeiro marido figuram aqui como um par de mártires do despótico
soberano que impusera o afastamento de D. Leonor e do seu eterno apaixonado, João Lourenço
da Cunha.

O descontentamento

Realizado o casamento, o rei enviou nensageiros a Castela para levar a notícia a Henrique II,
pai da sua prometida noiva. Este não ficou satisfeito com a afronta feita e com o britamento das
pazes negociadas pelo tratado de Alcoutim, ficando, como é óbvio, com as terras prometidas em
dote à sua filha e que passariam para Portugal - Ciudad Rodrigo e Valência de Alcântara, a leste
da Beira, Allariz e Monterrey a norte de Trás-os-Montes.

A população do reino não reagiu, no entanto, com tanta passividade à nova rainha, e às perdas
territoriais que este casamento implicava. Embora pontuando todo o reinado, a impopularidade
do casamento régio com Leonor Teles aumentou o descontentamento do povo colocando em
questão a autoridade do jovem rei. Para além de não gostarem de Leonor, havia o consenso
geral que o rei merecia como mulher uma princesa de sangue real, ou, pelo menos, de condição
mais nobre do que esta. Pior do que tudo isto, tomar molber alhea era cousa que lhe nom aviam
de conssentir. Considerando que D. Fernando era um bom rei enfeitiçado por huma ma molber
apregoavam que se o rei não a deixasse eles lha tomariam per força, e fariam de guisa que
numca a elRei mais visse. Várias revoltas urbanas eclodiram e prolongaram-se pelo ano de
1373, nomeadamente em Santarém, Abrantes, Tomar e Leiria. Em Lisboa, a mestria do cronista
em mostrar a multidão em acção coloca o alfaiate Fernão Vasques, homem bem razoado e
geitoso pêra o dizer, a encabeçar as revoltas populares contra a rainha.
317

Esta, com medo que taes ajuntamentos e falas levassem o rei a deixá-la, dizem que mandava
saber per enculcas [espias] quaes eram os que mais falavom contra ela, pedindo depois ao rei
que os mandasse prender e fazer em eles justiça. Assim terá acabado Fernão Vasques.
Conotando estas revoltas com a contestação à rainha, a sua repressão foi extremamente dura,
tendo muitos dos que se manifestaram sido incriminados de «traição» e punidos com a morte e
a perda de bens e «fama».

Nos círculos cortesãos o desagrado fez-se igualmente sentir através do comportamento do


infante D. Dinis de Castro, meio-irmão do rei, que afrontou o régio casal ao recusar beijar a
mão à nova rainha quando Fernando ordenou dever ser notificado pelo reino como Leonor

«era sua mulher, e beijaram-lhe a mão por mandado d'el-rei quantos grandes no reino havia,
assim homens como mulheres, recebendo-a por senhora todas as vilas e cidades de seu
senhorio, afora o infante dom Dinis que nunca lha quis beijar: por a qual razão el-rei dom
Fernando lhe quisera dar com uma adaga».

Esta atitude terá provocado em D. Fernando uma tão violenta ira que terá tentado apunhalá-lo
se não fora os aios o terem impedido de fazer

«dizendo el-rei sanhudamente contra ele que não havia vergonha nenhuma beijarem a mão à
rainha sua mulher o infante dom João, que era mor que ele, e isso mesmo o mestre d'Avis seu
irmão e todos os outros fidalgos do reino, e ele somente dizer que lha não beijaria, mas que lha
beijasse ela a ele».

Por este facto ficou este filho de Inês de Castro omeziado da corte (Nota 15) e foram-lhe
confiscados os seus bens. Esta atitude tomada por D. Fernando prenunciou e iniciou a
tumultuosa relação estabelecida com os seus irmãos filhos de Inês de Castro e que se foi
avolumando ao longo do seu reinado, à medida que as dificuldades políticas e os reveses da
governação se intensificavam.
318

Fernão Lopes sintetiza nas vozes e atitudes de dois intervenientes principais - um alfaiate
lisboeta e o infante Dinis - o desagrado manifestado pelo reino e a contestação a este
matrimónio. O povo não aceitou Leonor, nem este casamento, e temeu que, com a violação do
tratado de Alcoutim., surgisse uma nova guerra com Castela. Esta apreensão terá sido explorada
pelo clã dos Castro que se sentiu prejudicado pelo novo clã emergente - os Teles de Meneses.

Exilado em Castela, o infante Dinis juntou-se a alguns dos seus partidários, nomeadamente a
Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de sua mãe, mas com quem convivera durante a sua
criação, como já referimos em anterior biografia. Embora D. Fernando tenha restituído todos os
bens a Diogo Pacheco ele acabou por abandonar Portugal por se ter mostrado contrário ao
casamento do rei com Leonor Teles. É precisamente através deste magnata que Fernão Lopes
refere a argumentação da facção da nobreza que se opunha a este casamento e o receio das
consequências que poderiam advir do facto de o monarca português andar em poder de Leonor
Teles que o trazia enfeitiçado, pois que nom fazia mais que quanto ela quiria. Conversando com
o infante, Diogo Pacheco continua:

«parece-me, senhor, mui mal, porque entendo que seus irmãos dela montaram no reino mais
que vós nem vosso irmão; e ainda queira Deus que não seja pior, porque, havendo dela filhos,
poderia ser que vos matariam com peçonha, [veneno] por tirar suspeita da herança do reino; e
posto que assim não seja, toda a privança e estado há de ser em poder de sua linhagem». (Nota
16)

A Leonor interesseira

Estes receios confirmaram-se. Pela mão de D. Fernando e de D. Leonor, que a ele se associou
assinando grande parte dos documentos, o clã dos Teles de Meneses foi visivelmente
engrandecido.
319

De facto, se antes do casamento apenas contavam com um único titular, João Afonso Teles,
conde de Ourém, passaram depois a ter vários. Por influência da rainha, surgiram vários títulos
condais distribuídos pelos seus mais próximos, bem como foram colocados em cargos
importantes os nobres que lhe eram fiéis. Assim, os seus irmãos João e Gonçalo Teles foram
feitos, respectivamente, almirante e conde de Neiva e de Faria. O primeiro recebeu, ainda, a
alcaidaria do Castelo de Lisboa. Também os primos, João e Afonso, filhos do conde João
Afonso, passaram a ostentar os títulos de conde de Viana e conde de Barcelos. Este condado
seria depois atribuído, já em 1381, ao irmão da rainha, João Afonso Teles. A Henrique Manuel
de Vilhena, seu cunhado, fez conde de Seia. A Álvaro Pires de Castro e a Fernando Afonso
Albuquerque, parentes das suas cunhadas, tornou, respectivamente, conde de Arraiolos e mestre
de Santiago. O mestrado da Ordem de Cristo foi entregue ao seu sobrinho Lopo Dias. (Nota 17)

Para além dos parentes, Leonor desenvolveu igual política de doações a uma parte da nobreza e
de casamentos, como veremos mais à frente, procurando assim criar uma rede de pessoas da sua
confiança que constituirão a sua base de apoio. Como refere o cronista

«houve grande e vivo entendimento por fortalecer seu estado, trazendo a seu amor e bem-
querença assim as grandes pessoas como as piequenas, mostrando a todas leda conversação,
com grada prestança e muitas bem-feitorias. E porquanto ela era certa que não prazia às gentes
miúdas de ela ser rainha, e porque dalguns grandes duvidava muito, trabalhou-se de haver da
sua parte todos os mores do reino para grandes ofícios e fortalezas de lugares e
acrescentamento, por lhe haverem todos bom desejo e não cair em sua mal-querença, de guisa
que não era nenhum que de sua bem-feitoria e acrescentamento não houvesse parte». (Nota 18)

Ou como igualmente explica Oliveira Martins, a rainha:

«queria congraçar toda a gente, insinuar-se, seduzir, conquistar, coleando, com a sua ductilidade
de cobra, para envolver os renitentes, como envolvera e manietara o rei D. Fernando, cativo de
amor a seus pés.» (Nota 19)
320

Se com o seu casamento D. Fernando tinha pretendido uma maior independência em relação
aos reinos ibéricos como atrás salientámos, o mesmo não aconteceu a nível interno, ficando o
monarca restringido a um espaço político fortemente protagonizado e controlado pelos
magnatas da nobreza e pela linhagem a que pertencia a rainha. De facto, esta união representou
um retrocesso na centralização do poder que os seus antecessores vinham fazendo, colocando o
monarca nas mãos de uma poderosa linhagem nobiliárquica.

No entanto, a liberdade de movimentos alcançada quer com o não cumprimento do estipulado


no tratado de Alcoutim quer com o casamento com uma dama portuguesa, possibilitou-lhe
continuar a prossecução das suas posições legitimistas em relação a Castela. Apesar do acordo
feito com o reino vizinho, D. Fernando continuou a proteger os adeptos de Pedro I refugiados
em Portugal, concedendo-lhes recursos e sustento e indirectamente financiando as suas
actividades contra Henrique de Castela na Galiza.

A segunda guerra fernandina

Entremos, agora, um pouco nos meandros da 2.a guerra fernandina, mais uma vez porque é
necessário contextualizar o conturbado reinado de Fernando e Leonor Teles.

Em Janeiro de 1372, surgiram novos candidatos ao trono castelhano. João de Gand, duque de
Lencastre e filho do soberano inglês Eduardo III, reivindicou o seu direito a este trono visto ser
casado com Constança, a filha do assassinado rei D. Pedro. No mesmo ano, o príncipe
Edmundo, duque de Iorque e conde de Cambridge, irmão mais novo de João de Gand, reforçou
o interesse inglês pelo trono castelhano casando com Isabel, a filha mais nova de D. Pedro.

Em Julho de 1372, pouco depois do seu agitado casamento com Leonor, Fernando assinou um
tratado com os ingleses, o tratado de Tagilde, pelo qual aceitava as pretensões do príncipe inglês
e se aliava a ele. Deu então início a um conjunto de actividades anti-trastamaristas. Tendo talvez
um conhecimento pouco exacto da situação política e militar do reino vizinho e convencido da
chegada iminente dos exércitos ingleses, D. Fernando iniciou uma segunda guerra contra
Castela.
321

Nem a derrota naval ocorrida em La Rochelle, que tornou bem visível a superioridade naval
castelhana, nem o facto de, entretanto, o rei Henrique ter conseguido pacificar o reino através
de uma eficaz repressão dos seus opositores demoveram o rei português. A influência dos
petristas e a presença em Portugal do galego João Fernandes Andeiro, enviado pelos ingleses,
contribuíram para o continuar da luta contra o castelhano que, no Outono desse mesmo ano,
decidiu enfrentar D. Fernando e entrou em Portugal. Aos seus exércitos se juntaram
portugueses, nomeadamente o proscrito infante D. Dinis com os seus seguidores. (Nota 20)

Em Fevereiro de 1373, o rei de Castela chegou à região de Coimbra estanciando nos seus
arredores. Lá dentro, protegida pelas muralhas da cidade, nascia o primeiro fruto dos amores de
D. Fernando e de D. Leonor, a infanta Beatriz, nome da bisavó paterna, a infanta castelhana
casada com Afonso IV de Portugal e cuja ascendência o monarca português invocara para fazer
valer os seus direitos ao trono do reino vizinho.

O principal objectivo do rei castelhano era alcançar Lisboa, a maior cidade do reino, objectivo
que não lhe foi difícil de concretizar devido à ineficácia e desorganização do exército
português. Ao saber que os exércitos castelhanos se aproximavam da dita cidade

«os populares foram postos em muito cuidado porque a cidade era toda devassa e sem nenhum
muro onde havia mais gente; e não tinha outra guarda nem defesa salvo a cerca velha (...) e toda
a outra cidade era devassa. (...) E com este alvoroço e cuidado começarão clérigos e frades de
se ir ao armazém d'el-rei e armarem-se todos das armas que aí achavam; outros trabalhavam de
buscar madeira para palancar as ruas».

Quando o exército castelhano chegou

«os da cidade, vendo seu grande poderio, não se atreveram a pelejar com ele, e deixado o
cuidado que tinham de tomar armas, trabalharam todos de se por em salvo». (Nota 21)
322

Fruto da consumada arte de narrar, Fernão Lopes fornece-nos, em sublimes imagens ornadas
pela beleza da escrita e pelo colorido das suas cenas, a descrição deste cerco e dos trabalhos das
gentes de Lisboa. O cerco à cidade foi montado e lá dentro, para além do grande fogo ateado
pelos castelhanos, a população em conflito digladiava-se acusando e executando os suspeitos de
pactuarem com o inimigo. Em frente à cidade o almirante Lançarote Pessanha, enviado por D.
Fernando para combater a frota inimiga que vinha de Sevilha completar o cerco terrestre posto
a Lisboa, furtou-se a fazê-lo porque estavom sem gentes d'armas. Este foi motivo suficiente
para que o almirante fosse destituído e substituído por João Afonso Teles, irmão de D. Leonor,
como já atrás referimos.

Após um mês de cerco, e reconhecendo a sua inferioridade militar, D. Fernando acabou por
aceitar as pazes propostas pelo enviado do papa, D. Guido, cardeal de Bolonha, que a ele se
juntara em Santarém na tentativa de mediar a solução do conflito entre os dois reis ibéricos.
Para trás ficou um rasto de destruição e miséria. O novo tratado, o segundo assinado entre os
mesmos reis, representou para Portugal uma situação completamente oposta àquela que até aí o
monarca português seguira desde a morte do primo Pedro I de Castela. D. Fernando
comprometeu-se, então, a expulsar do reino todos os petristas, a casar a sua filha bastarda, D.
Isabel, com o conde Afonso, bastardo de Henrique de Castela, devendo ainda entregar ao seu
futuro genro as localidades de Viseu, Celorico e Linhares, conquistadas pelos castelhanos. Para
sua irmã Beatriz de Castro era acordado o casamento com Sancho de Albuquerque, irmão do
próprio Henrique II. Este casamento terá sido, talvez, uma forma de a afastar da corte, à
semelhança do que já havia ocorrido com o seu irmão Dinis, até porque, aproveitando esta
conjuntura, D. Fernando procedeu ao confisco de alguns os seus bens. (Nota 22) Fruto ainda
deste acordo, também a pequena Beatriz será, mais tarde, prometida a D. Fradique, filho
ilegítimo do rei Henrique II.

As pazes

O tratado e a paz foram assinados de uma forma muito original, em pleno rio Tejo, em frente a
Santarém e à vista de muita gente que enchia as margens para presenciar este inédito encontro.
323

Cada monarca estava no seu barco, acompanhado dos seus privados, encontrando-se no meio,
em outro barco, o cardeal negociador. Pela primeira e última vez estes dois monarcas
adversários se viram frente a frente, desdobrando-se em mesura e cortesia. (Nota 23)

Este tratado tornou evidente a frágil situação em que Portugal se encontrava face a Castela,
devida não só à menor capacidade militar e naval (razão pela qual o almirante Pessanha se
recusara a combater os castelhanos), mas principalmente ao clima de clara divisão que
imperava no reino e que continuou a imperar até por via do próprio tratado realizado. De facto,
de acordo com o mesmo, os naturais do reino de Portugal poderiam, a partir de então, servir o
rei castelhano nos seus exércitos sem qualquer oposição do rei português e os próprios petristas
que D. Fernando era obrigado a expulsar tomaram armas contra o rei português, prolongando
assim o estado de guerra.

Iniciativas régias

D. Fernando e D. Leonor iniciaram, entretanto, um período assinalado por vários projectos em


comum que se desenvolveram ao longo da década de 1370 e nos quais se salientam as
iniciativas de construção ou remodelação de residências, mosteiros e igrejas. Foi o caso, por
exemplo, da principal residência régia em Lisboa, o Paço da Alcáçova do Castelo de S. Jorge,
que foi reconstruído e ampliado; também na igreja e claustro do Convento de São Francisco em
Santarém foram feitas obras. Também alguns conventos mendicantes, como Santa Clara de
Portalegre e São Domingos de Évora, foram alvo de várias obras de construção promovidas
pelo régio casal.

Igualmente nas terras da rainha se verificou este surto construtivo. As estadias frequentes e, por
vezes, prolongadas da corte, e da própria Leonor nestas terras, como por exemplo em Óbidos,
deram origem à remodelação da antiga alcáçova que passou a incluir espaços residenciais para a
rainha e para o rei e à construção não só de novos espaços para alojar o séquito de
acompanhantes como também de fortes muralhas a rodearem a vila.
324

D. Leonor praticou uma governação autónoma das suas terras e rendas, intervindo activamente
e preocupando-se sempre em manter a sua posse. A semelhança da fórmula utilizada pelos
soberanos «Rei pela graça de Deus», D. Leonor terminava as suas cartas com a frase «Por graça
de Santa Maria Rainha de Portugal e do Algarve». Não só nas suas terras mas em muitas outras
construções mandadas edificar pelo monarca as armas de D. Leonor foram colocadas a par das
do rei como, por exemplo, em Coimbra.

Durante os primeiros anos de casamento, o régio casal deve ter dado uma imagem de harmonia
e amor, cuja memória impressionou de tal forma o nosso cronista que dedicou praticamente um
capítulo da sua crónica (LXIII) especulando sobre o amor e o enamoramento. Refere ele que
todolos sabedores concordavom que todo homem namorado tem huma especia de sandice e
portanto todo juízo de razom be sovertido e, tal como a D. Fernando, já a outros acontecera
semelhável erro, avendo grande amor a algumas molheres.

A Leonor cortesã

Um dos aspectos mais conhecidos da actuação da rainha está relacionado com os muitos
casamentos por ela «feitos», bem como a protecção concedida a muitas donas e donzelas da
nobreza. No primeiro caso, contam-se os de parentas e fidalgas da sua corte como, por
exemplo, Joana, sua irmã bastarda, que foi por ela casada com João Afonso Pimentel, a quem
fez senhor de Bragança de jur e d'erdade; Inês Dias Botelho, parenta e donzela da sua Casa, que
foi entregue a Pêro Rodrigues da Fonseca, a quem fez detentor do Castelo de Olivença; Mécia
Vasques Coutinho foi por ela unida a Martim Gonçalves de Ataíde, fidalgo a quem fez dar o
Castelo de Chaves; Teresa de Meira casou com Fernão Gonçalves de Sousa, recebendo este o
Castelo de Portel; Leonor Gonçalves de Azevedo com Gonçalo Vasques Coutinho, senhor do
couto de Leomil. Estas três últimas damas eram filhas de três homens particularmente
favorecidos por D. Fernando - Vasco Fernandes Coutinho, Gonçalo Pais de Meira e Gonçalo
Vasques de Azevedo - o que evidencia, de certa forma, a relação entre a Casa da rainha e a Casa
do rei.
325

D. Leonor manteve junto de si e sob a sua protecção várias damas nobres, parentes ou não.
Foram os casos da sua «criada» Senhorinha Fernandes do Amaral, das suas irmãs Maria Teles e
a bastarda Joana Teles, da filha natural do vedor do rei feito arcebispo de Braga, Branca
Lourenço, das filhas do magnata Álvaro Peres de Castro, Isabel e Beatriz, e da sua cunhada
Beatriz de Albuquerque, mulher de João Afonso Teles. Também sua tia Guiomar Lopes Pacheco
foi agraciada pela rainha com várias doações em mercês, mesmo após a morte de D. Fernando.

A rainha e as donas que a rodeavam terão dado um importante contributo para a intensa vida na
corte fernandina. Fernão Lopes, em diversas situações, aflora o ambiente cortês que aí se fazia
sentir, como, por exemplo, quando refere uma visita do infante D. João de Castro ao Paço de
Alcanhões, junto a Santarém, onde à época a corte estanciava. Conta ele que aí se encontrava a
sua prima Isabel, filha de seu tio Álvaro Peres de Castro. Esta convidou o primo e teve-o bem
viçoso ao jantar e pella sesta, em humas casas acerca dos paços hu ela pousava como fidalga da
corte de D. Leonor Teles. A essa sesta (conversação) veio também o irmão da rainha, João
Afonso Teles, conde de Barcelos, mui brioso, ledo e namorado, segundo fama, de Isabel de
Castro. E foram também muitos da corte e alguns estrangeiros não só para apreciar a fremosura
da infanta como para acompanhar o conde. E nessa festa dançarom e ouverom vinho e fruita.
Depois, entre outros presentes, o conde ofereceu ao infante um punhal e um cavalo que lhe
tinham trazido de Inglaterra. Daí partiram pêra o paço com o ifante muitos cavaleiros e
escudeiros, e com dona Isabel muitas donas e donzelas, e assi chegarom ao paço onde el-rei e a
rainha estavom, de que forom mui bem recebidos. A descrição lembra, pois, um ambiente
galante que gira em torno de figuras femininas da corte e dos seus convidados, gastando o
tempo em comida, bebida, conversa, música e dança.

Outra situação de banquete, presentes e sumptuosidade envolve a recepção feita pelos reis
portugueses ao conde de Cambridge e à sua mulher no Paço da Alcáçova de Lisboa,

«onde a todos foi feita sala mui honradamente; e em fim da mesa foi apresentado ao conde e
aos outros senhores muitos panos de sirgo com ouro de desvairadas maneiras, segundo por el-
rei era ordenado; e isso mesmo deu a rainha à condessa e mulheres de sua casa panos e jóias de
que foram contentes.» (Nota 24)
326

As jóias deviam ter sido o adorno predilecto da rainha, que teve ao seu serviço um joalheiro
judeu. O seu tesouro devia ser de tanto valor que, já depois da morte de D. Fernando, conta o
cronista que o rei castelhano mandou torturar uma servidora de Leonor Teles para que ela
indicasse onde tinha a rainha escondido as suas jóias. Era, igualmente, apreciadora de bons
tecidos e perfumes.

Gostava de ler, nomeadamente poesia, lendo com gosto os Libros del Saber de Afonso X, o
Sábio. (Nota 25)

Até ao final da década de 1370 sucederam-se anos activos para o monarca, não sem que
desaparecesse a conflituosidade entre as várias facções da sociedade. D. Leonor Teles tornou-se
cada vez mais influente junto do rei, manobrando a sua intervenção política e ao mesmo tempo
cada vez mais impopular. Aparentemente, D. Fernando mostrou-se incapaz de manter uma
governação forte e o ambiente político interno ressentiu-se disso, com intrigas constantes na
corte.

O início da decadência do rei

Durante os primeiros meses de 1378 terá ocorrido uma possível tentativa de envenenamento do
rei, indiciada por várias situações, mas que o cronista, no entanto, não refere. Para além das
cartas de confisco de bens, nas quais o próprio rei acusa e nomeia os responsáveis pelo acto,
existem duas notícias posteriores que o confirmam; uma é um discurso proferido pelo bispo
Martinho em 1380, referindo que havia visitado o rei D. Fernando em 1378, em Moledo,
estando o rei muito doente; a outra é uma informação dada pelo monarca castelhano aos seus
embaixadores, em 1382, relatando que «puede aver cinco anos cuando fue fama que el [D.
Fernando] era muerto». Também o facto, evidenciado pelo historiador Carvalho Homem, de
que o escrivão da puridade da rainha interveio na emissão dos documentos do desembargo real,
de modo excepcional e único em todo o reinado, de Março a Maio de 1378, fundamenta a
hipótese de que durante este período o rei esteve incapacitado e doente. (Nota 26)
327

A Leonor perversa

No ano seguinte teve lugar outra complexa situação envolvendo o infante D. João, o único filho
de Inês de Castro que ainda vivia em Portugal. Este acontecimento esteve relacionado com o
assassinato de Maria Teles, a irmã da rainha, às mãos deste infante, e permanece, ainda hoje, de
contornos um pouco obscuros.

À época, Maria Teles era já viúva de Álvaro Dias de Sousa e tinha um filho adolescente a quem
D. Fernando protegera, obtendo para ele o mestrado de Cristo. O infante D. João de Castro ter-
se-á enamorado dela, talvez sem ideia de com ela casar, situação que não terá sido do seu
agrado e que a terá levado a tentar convencê-lo do contrário. Fernão Lopes exemplifica, na
beleza do seu estilo literário, como a ardilosa palavra feminina conduziu, fatalmente, a trágicos
e desonrosos acontecimentos. Dizendo citar outro autor, o cronista dá uma primeira voz a
Maria, ao reproduzir na primeira pessoa o discurso pelo qual a fidalga, fremosa e aposta e muito
graciosa, teria transformado uma intenção de mancebia por parte do infante num casamento.

Sabendo-se desejada, teria preparado um encontro nocturno no seu solar e, por entre queixume
e chorar que às molheres he ligeiro de fazer, protestou fingida e culpada desonra ao infante,
dizendo sentir-se tratada como dona de mui maa fama, ela, a irmã da rainha, fidalga prestigiada

«tão bem da parte de padre como da madre, viúva de um mui honrado cavaleiro e da linhagem
dos reis, mãe de um mestre de Cristo. Pois, senhor, razão vos parecia a vós uma dona tal como
eu quererde-la vós desonrar desta guisa, como se fosse uma mulher refece?»

argumentava ao infante cercado de querer e vontade d'aquel desejo que todo siso e estado põe
adeparte.
328

Seduzido e constrangido pelos argumentos, o infante prometeu-lhe casamento e satisfazendo


hum ao desejo do outro, el se partio ledo, sem ela ficar triste.

Ora uma união matrimonial entre o infante e Maria Teles não era, segundo o cronista, assunto
que agradasse à rainha, porque

«via sua irmã bem-quiste de todos e o infante dom João amado dos povos e dos fidalgos tanto
como el-rei; e pensava de se poder azar por tal guisa que reinaria o infante dom João e sua irmã
seria rainha, e ficaria ela fora do senhorio e reinado, mormente não sendo el-rei bem são».

Para afastar tal concorrente, Leonor fez chegar aos ouvidos do infante a sua vontade em casá-lo
com a sua filha, a pequena Beatriz. O mensageiro desta notícia foi, mais uma vez, o irmão João
Afonso que hum dia falando ambos em cousas de segredo lhe contou que a rainha apreciaria
esta união, pois mais razom era herdarem o reino os filhos seus e de sua filha a ifante do que os
da linhagem d'el-rei dom Henrique, de que Portugual tanto mal e damno havia recebido. A
partir daqui, a ambição do filho de Inês de Castro e a mui falsa mentira de que Maria Teles
dormia com outrem, sendo sua molher recebida, foram suficientes para o levar ao assassinato da
irmã da rainha e à consequente humilhante fuga.

Assim, quando, no seu Paço de Coimbra, noite entrada, foi surpreendida pelo irado infante João
de Castro que a queria matar, julgando-se traído de adultério, Maria não teve auxílios nem
ajudas, terrestres ou celestes. As portas muito fortes e bem trancadas da sua morada cederam
aos paos e pedras da fúria masculina, permitindo o caminho até à sua cama. A fidalga apelou ao
auxílio de Deus: Jesu filho da Virgem, acurre-me! Nada valeram tais divinos pedidos de
socorro, nem os reiterados protestos de inocência. Surpreendida em corporal nudez, apenas teve
tempo de cobrir as vergonçosas partes com huma branca colcha em que se envolveu, antes de se
refugiar junto a huma parede do leito. Aí, o infante lhe deu huma gram tirada pela ponta da
colcha e derribou-a em terra. Aos pés da cama, com o mui alvo corpo novamente descuberto,
em vista d'os que eram presentes foi duas vezes apunhalada, acerca do coraçom e pelas verilhas,
deixando ensanguentado o leito onde a morte contrariou a função de dar vida e geração. (Nota
27)
329

D. João de Castro passou alguns meses do ano de 1379 afastado da corte. Contudo, um perdão
do rei Fernando autorizou-o a regressar, voltando a crescer no infante a expectativa em relação
a um casamento com a sobrinha Beatriz. Para a rainha, tratava-se, então, de arranjar motivos
para a saída do infante do reino, já que

«a ela era grande empacho viver o infante em Portugal, vendo el-rei cada dia mais adorado, e
temia-se que falecendo por morte, que fosse o infante logo levantado por rei, e ela desfeita de
sua honra e estado».

Entretanto, as sucessivas desculpas de Leonor ao infante para não lhe concretizar a matrimonial
promessa, incluindo o argumento de que a filha ainda não tinha sido descasada do duque de
Benavente, e as demoras na chegada da necessária dispensa papal para a realização do
casamento, fizeram-no entender que isto era cousa pêra nunca vir a fim ou tarde, pelo que partiu
da corte e depois do reino. (Nota 28) O infante terá saído por volta de Outubro de 1380
acolhendo-se num castelo junto da fronteira que pertencia a sua irmã, Beatriz de Castro. Os três
filhos de Inês passaram, desde então, a residir em Castela. Ao longo do ano de 1381, foi
confiscada ao infante D. João a maioria dos seus bens em Portugal, assim como aos homens da
sua Casa.

Nesta narrativa de contornos obscuros muitas coisas ficam por esclarecer. Não há provas de que
D. João tivesse efectivamente casado com Maria Teles; as referências cronísticas dão-nos a
ideia de ter havido um casamento «a furto», em que o infante recebeu Maria por mulher, na
presença de algumas pessoas de confiança que posteriormente se retiraram, tendo então o
infante passado a noite com ela. Terá, por certo, existido este casamento, pois numa situação de
mancebia não se justificava a acusação de adultério. Mas, por que razão temia D. Leonor que o
casamento de sua irmã com D. João pusesse em risco a sucessão ao trono se havia uma herdeira
legítima, Beatriz, e se ainda poderia haver mais?

Qual o papel de João Afonso Teles na intriga que levou à morte da irmã? Que intuitos tinha para
fazer parte deste conluio? É verdade que Fernão Lopes refere que este conde era muito
obediente à irmã Leonor por muitas mercês que d'ela recebia.
330

Mas seria isto suficiente para condenar a outra irmã à morte?

E se toda esta intriga foi conjurada em segredo, porque de um crime se tratava, como chegou ao
conhecimento do cronista meio século depois dos acontecimentos? No mesmo contexto, como
podia ele afiançar que Maria era inocente de tam torpe culpa ou que se havia levantado bua mui
falsa mentira, que seu coraçom d'ela nunca pensara? Como se justifica que não haja uma
palavra de repúdio pela atitude do Castro que, sem averiguar da veracidade do adultério de
Maria e movido pela ambição de um casamento mais vantajoso, apunhalou brutalmente uma
possível inocente? Não foi ele mais do que simplesmente uma vítima da intriga montada pela
astuta rainha?

Mais uma vez, todas as culpas recaíram sobre Leonor que, para atingir os seus objectivos, não
hesitou era manipular o «ingénuo» filho da Castro para matar a sua própria irmã.

Dias Arnaut cita um documento que pode demonstrar não haver um bom relacionamento entre
as irmãs. Nesse documento, Maria, talvez pela vida faustosa que levava, endividou-se perante a
irmã rainha que, não perdoando a dívida, fez com que Maria ficasse sem Mafra, Ericeira e
Enxara dos Cavaleiros. Embora não havendo indicações que o confirmem, este facto sucedeu
pouco antes do assassinato. (Nota 29) Seria a dívida motivo suficiente para tão mortal ódio?

O protagonismo de Leonor

A partir destes dois acontecimentos, entre os quais é impossível determinar, com segurança,
uma relação, o rei passou a estar frequentemente doente, constando nas fontes coevas a
iminência da sua morte, situação não muito normal visto que D. Fernando andava pelos trinta
anos. Foi então que a figura de Leonor Teles passou a ter um protagonismo ainda maior na
narrativa cronística, começando a ser directamente conotada com toda a desordem política e
com tudo o que de negativo acontecia no reino, face a um monarca cada vez mais dominado e
passivo. As suas «falas» e acções passam, a partir de então, a ser mais frequentes e mais
contundentes, introduzindo na corte régia portuguesa um mundo às avessas, definindo um meio
social onde os homens, mudos e quedos, se submetem aos cruéis e sarcásticos ditos da rainha.
331

Nesse sentido, os supostos registos das intervenções discursivas da aleivosa criam um preceito
narrativo onde as palavras femininas funcionam como processo de velada crítica à frouxa e
pouco varonil ordem palaciana. A seu tempo «ouviremos» algumas destas intervenções.

As relações com o reino vizinho

Em Maio de 1380 foi alterada a anterior proposta de casamento da infanta D. Beatriz com
Fradique Henriques, o duque de Benavente, bastardo do rei Henrique II, passando então o noivo
a ser Henrique, o filho do novo rei de Castela, D. João, que acabava de nascer. Esta aliança
apresentava-se perigosa para a autonomia de Portugal, pois, à morte dos pais dos cônjuges,
Beatriz e Henrique seriam soberanos dos dois reinos se, entretanto, Leonor não tivesse dado um
filho varão ao rei. Porque um dos homens que foi apresentar esta proposta a Castela era João
Afonso Teles, o irmão da rainha, logo esta foi conotada como incitadora desta nova estratégia
matrimonial.

A boa vizinhança com o novo ocupante do trono castelhano não foi, no entanto, longa. O
acolhimento que este rei continuava a dar aos meios-irmãos de D. Fernando, os infantes de
Castro, constituía motivo de desagrado para o monarca português. A rivalidade entre este rei e
os seus irmãos marcou a maior parte da sua vida, atingindo o auge a partir desta altura, quando
D. Fernando já se encontrava doente e no ocaso da sua existência. Os conturbados anos de 1378
e 1379, com a possível tentativa de envenenamento e, particularmente, o assassinato de Maria
Teles deixavam entrever o desejo de D. João de Castro em ocupar o trono português, até pela
sua pretensão em desposar a sobrinha e herdeira Beatriz. O próprio infante, ao não considerar
como legítima a única herdeira de D. Fernando atendendo a que o seu casamento com Leonor
Teles não era considerado válido, posicionava-se, por direito próprio, como candidato ao trono.
332

Contrariando esta pretensão, o rei português deixou bem claro no seu testamento a
impossibilidade de os irmãos Castro acederem ao trono português pela sua flagrante
ilegitimidade, mandando lavrar nas suas últimas vontades que os infantes D. João, D. Dinis e D.
Beatriz

«não são nossos irmãos legítimos nem podem nem devem de direito nem por costume destes
reinos vir à dita sucessão por quanto entre el rei dom Pedro e dona Inês madre dos sobreditos,
não foi matrimónio em vida do dito nosso padre, nem foi voz nem fama, antes foi bem fama
publica que era barregã do dito nosso padre, e por tal foi havida ata o dia que morreu a dita
dona Inês; e se alguns disseram depois da morte da dita dona Inês que o dito nosso padre casara
com a dita dona Inês em sua vida, isto foi por cumprir vontade do dito nosso padre, mas não
porque assim fosse». (Nota 30)

A terceira guerra fernandina

A animosidade para com estes meios-irmãos e a protecção que a eles era dispensada pelo rei
castelhano foram razões suficientes para o desencadear de uma terceira guerra contra o reino
vizinho. Estava em causa a sobrevivência do governo fernandino perpetuado através da rainha
ou da infanta Beatriz. A impopularidade cada vez maior de Leonor, contrariamente ao que se
passava com os filhos da Castro, podia comprometer a sucessão régia.

Foi por estas épocas que se deu a ascensão de João Fernandes Andeiro na corte portuguesa,
quando aqui se deslocou ao serviço dos ingleses e da sua pretensão ao trono castelhano apoiada,
como já referimos, pelo monarca português. As combinações entre os dois reinos foram
negociadas através do nobre galego. Por ele, D. Fernando e D. Leonor enviaram à corte
londrina uma carta de compromisso e aceitação dos direitos do duque de Lencastre e da rainha
D. Constança, sua mulher ao trono castelhano, comprometendo-se a iniciar a guerra, por mar e
por terra, contra os reinos de Castela, logo que os exércitos chegassem. Para além de outros
acordos, no final da carta D. Fernando prometia que «trazendo consigo o dito conde de
Cambridge [irmão do duque de Lencastre que comandava a expedição] seu filho, nós casemos
com ele a infanta Dona Beatriz nossa filha, e o faremos receber por rei, depois da nossa morte,
segundo que foi prometido por João Fernandes Andeiro em nosso nome». (Nota 31)
333

Antes mesmo de os ingleses desembarcarem no reino, na Primavera de 1381, pequenos


contingentes castelhanos invadiram o Alentejo deparando-se com uma pouco eficaz defesa dos
portugueses. Em Junho teve lugar um combate naval ao largo da costa algarvia que resultou
numa retumbante derrota da frota comandada pelo irmão da rainha, João Afonso Teles, que
sucedera como almirante após o afastamento de Pessanha. A falta de preparação técnica dos
mareantes e combatentes e a inexperiência do jovem almirante terão estado na origem da
derrota desta frota, cuja perda, em termos económicos e humanos, representou um enorme
golpe e prejuízo para D. Fernando.

É no contexto da narrativa desta derrota que Fernão Lopes faz «ouvir» a voz de Leonor Teles;
depois de referir como ouve el-rei por elo tam gram nojo, devido à gram desonra que em tal
feito recebia, atribui à rainha que o assi vio triste, a seguinte afirmação:

«Porque vos anojais assim, senhor, por a perda de vossa frota? E como outras novas esperáveis
vós dela, se não estas que vos vieram?' Digo-vos, senhor, que nunca eu outras novas esperei
dela em minha vontade salvo estas que agora ouço: porque como eu vi que vós mandáveis
trazer os baraços cheios de lavradores e mesteirais e os mandáveis meter em elas com outros
agravos que fazíeis ao povo, sempre eu cuidei em minha vontade que tal mandado vos havia de
vir como vos veio.»

Perante a provocante intervenção da rainha ousada e muito falador, diz a crónica que el-rei
calou-se nom dando a esto resposta.

A censura aqui feita por D. Leonor pode ter duas causas: ou o rei não a terá consultado quanto
ao recrutamento desta frota ou, no caso de o ter feito, não terá seguido a sua opinião. Ao criticar
o acontecido, a rainha descompromete-se totalmente da decisão do monarca.
334

O desembarque do conde de Cambridge em Lisboa, no mês de Julho de 1381, terá dado novo
ânimo à corte portuguesa. Com ele vinha a sua castelhana esposa. Tal como prometido, o conde
fazia-se acompanhar do seu filho, presumível noivo de Beatriz. (Nota 32)

Entretanto, instalados nos arredores de Lisboa, começaram os ingleses a ter muito maas
maneiras come se fossem chamados para destruir e buscar todo mal, matando e roubando e
forçando molheres. Segundo o cronista, o conde de Cambridge nada fez para evitar este
comportamento que se agravou de tal forma que a população, sempre que os conseguia apanhar
mais a jeito, matava-os e mutilava-os de modo que nom tornarom depois pêra sua terra as duas
partes d'eles. No Verão de 1382, estando os exércitos inimigos frente a frente, na planície do rio
Caia, tudo se preparava para a real batalha que envolvia dois reis, presentes no campo, e um
pretendente ao trono castelhano representado por seu irmão. Ao desfraldar da bandeira do
Lencastre o exército luso-inglês avançou contra o exército castelhano que imediatamente
abandonou o campo de batalha. Uma possível hipótese para esta atitude, alvitrada por alguns
historiadores modernos, aponta para a existência de negociações secretas luso-castelhanas
iniciadas pelo monarca castelhano. D. João de Castela teve de ceder às condições exigidas por
Portugal, nomeadamente o repatriamento dos ingleses a cargo de Castela e a libertação da frota
fernandina e dos seus tripulantes, entre os quais se incluía o irmão da rainha.

A paz e os novos casamentos da filha Beatriz

Fracassado o projecto de aliança com a Inglaterra, D. Beatriz voltou a ficar noiva de um


castelhano, neste caso o filho segundo do rei D. João, de acordo com o tratado firmado em
Elvas. A escolha do filho segundo salvaguardava a junção dos dois reinos, visto que seria o
infante Henrique, o primogénito, a herdar o reino de Castela, ficando D. Beatriz e o infante
Fernando como reis de Portugal. (Nota 33)

O falecimento da rainha de Castela, em Setembro de 1382, alterou, mais uma vez, o projectado
marido da infanta herdeira do trono português, surgindo a possibilidade de a casar com o
próprio rei castelhano.
335

Segundo Fernão Lopes, foi o próprio D. Fernando que determinou desfazer o casamento da
ifante dona Beatriz e casa-la com el-rei dom Joham, prazendo a el de tal casamento, por aver
antr'eles mor amorio e paz e assessego. Se, à partida, pode parecer uma incoerência esta atitude,
principalmente face aos cuidados postos na anterior escolha matrimonial da infanta para evitar
o risco da união dos dois reinos, o historiador Salvador Dias Arnaut avança uma provável
explicação para esta régia decisão. Sentindo-se cada vez mais doente, tendo a consciência do
seu próximo passamento, perdidas as esperanças de vir a ter um descendente varão e
conhecendo as ambições dos seus irmãos que, para se apoderarem do trono, não hesitariam em
aliar-se aos seus inimigos ou em explorar os conflitos sociais, D. Fernando terá chegado à
conclusão de que a melhor forma de assegurar a continuidade da linha legítima consistia em
proteger os interesses da sua única descendente dando-lhe como marido o mais poderoso dos
reis da Península. Este se encarregaria de manter afastados os ambiciosos pretendentes ao trono
e de ter um filho com D. Beatriz que viesse a ser rei de Portugal. O único problema que poderia
frustrar este plano seria D. Beatriz morrer sem descendência. (Nota 34) Foi, novamente, o
conde Andeiro o intermediário, agora entre Portugal e Castela, que chefiando uma magnífica e
luxuosa embaixada se deslocou à corte castelhana para fazer a proposta matrimonial a D. João
I. Foi, então, negociado, junto a Toledo, o tratado de Pinto, com as cláusulas relativas à
sucessão do reino, tendo o monarca castelhano apresentado alguma resistência quanto à
regência de Portugal por D. Leonor após a esperada morte do marido. As negociações
desenrolaram-se rapidamente, pois D. Fernando encontrava-se cada vez mais enfermo e urgia
ultimar os acordos. Ainda em 1383, assinou-se, em Salvaterra de Magos, o tratado de
casamento, garantindo uma situação política vantajosa a Leonor Teles e tomadas precauções
para evitar a união entre os dois reinos. Nele se determinava que, sendo vontade de D. Fernando
que os dois reinos não se misturassem e continuassem ambos a ser independentes, D. Beatriz
seria apenas rainha nominal, até haver um descendente, que deveria ser criado em Portugal a
partir dos três meses de idade, e que aos 14 anos assumiria o trono português. Até lá, o reino
seria governado por uma regência.
336

A Coroa castelhana pertencia aos filhos do primeiro casamento de D. João I. Se a infanta


morresse antes de seu marido sem deixar descendência e se extinguisse a família real
portuguesa de forma a que o trono ficasse vago, então caberia a sucessão ao rei de Castela; o
mesmo aconteceria em Castela se o rei ou a sua irmã morressem sem sucessão legítima; o trono
caberia, então, ao rei de Portugal. (Nota 35)

A Leonor ousada e fallador

Terminada a guerra e resolvido o problema da sucessão, detenhamo-nos agora em algumas


«falas» de Leonor referidas nas crónicas lopesianas. Comecemos com um obscuro
acontecimento, para o qual a única informação que temos provém de Fernão Lopes, e que,
como ele próprio referiu, nam pudemos saber as cousas como som. Esta narração serviu, no
entanto, para atribuir à rainha toda a iniciativa e os mais perversos intentos. Sem muito bem se
explicar como, foi dada ordem de prisão ao Mestre de Avis e a Gonçalo Vasques de Azevedo,
marechal do reino, acusados de entendimento com Castela. Nessa noite fez a rainha hum alvará
falso, que parecia sinado per mão d'el-rei mandando urgentemente matá-los. O executor da
ordem, estranhando o facto de se mandar matar um irmão do rei e um dos seus principais
privados e a uma hora em que se nom costuma de fazer justiça, viu a cousa mui dovidosa e
aguardou pela manhã seguinte para falar com o rei. Este, ao ser informado do que acontecera,
ficou espantado, pois de tal cousa nom sabia parte. O motivo declarado da prisão teria sido a
conivência com o infante D. João de Castro, que lutava ao lado do rei castelhano.

Ilibados pelo rei, convidou-os a rainha para jantar com ela, convite de que o Mestre foi mui
suspeitoso cuidando que o queriam matar com peçonha [veneno]. Não permitindo a rainha a
recusa, foram comer na sua câmara estando ela acompanhada do conde João Fernandes
Andeiro. E é durante esta refeição que, mais uma vez, o cronista nos narra outras «falas» da
rainha e outras vítimas do seu ousado falar. Assim, falando a rainha das suas jóias e do quanto
lhe haviam custado, tirou de um dos seus dedos um anel de rubi de gram preço e deu-o ao
conde que não o quis tomar justificando a rejeição com medo que digam d'ambos.
337

Perante os presentes, o conde ouviu publicamente dela: Toma tu o que te eu dou e diga cada
hum o que quiser» e, sem mais conversa, ele tomou-ho e pose-o no dedo.

Logo Fernão Lopes se apressa em referir que aos presentes esta atitude não pareceu bem e a
tiveram por mui mas razões. Terminada a refeição, o Mestre de Avis procurou a rainha para dela
conseguir saber pormenores das razões que D. Fernando tinha contra ele e por que o mandara
prender, só conseguindo de Leonor a seguinte irónica explicação: Irmão amigo, bem sabeis que
aos mal-dizentes nunca lhes mingua que digam, culpabilizando o comendador-mor da Ordem
do Mestre de o ter incriminado junto do rei. (Nota 36)

Este episódio é confusamente contado pelo cronista e com ligação defeituosa dos factos. No
entanto, se o Mestre de Avis constituía um forte candidato ao trono, e por esta altura já o estado
de saúde de D. Fernando era muito débil, com Gonçalo Vasques de Azevedo tinha ocorrido um
outro episódio com a rainha que em nada abonava a seu favor. Conta, mais uma vez, o cronista
que este terá insinuado, numa reunião cortesã, que a rainha favorecia os avanços amorosos do
conde Andeiro, ao que Leonor lhe terá dito:

«Gonçalo Vasquez, eu bem sei que vossa mulher vos disse aquilo que vós ora dissestes; mas
sede certo que vós e eia não o lançastes em poço vazio, e prometo-vos que ambos mo pagueis
mui bem.»

Por ela sujeito à feminina condição de intriguista de falar fácil, o fidalgo apenas soube escusar e
negar o que havia dito. Ora, atendendo a que Gonçalo Vasques ainda era familiar da rain.a, que
nele avia feito grande acrecentamento, esta insinuação em nada agradou a D. Leonor e por isso
azou como depois fosse preso. (Nota 37)

Situação semelhante, embora não tendo tido consequências, é também relatada com outro
cortesão, Vasco Gomes. Posto em diálogo com Leonor a propósito de ter difundido na corte por
palavras e avondança de razoar a ligação da rainha com o conde Andeiro, foi por ela acusado de
ter feito um erro tão grande per que vós merecíeis de vos eu mandar cortar a cabeça e ainda
matar de pior morte que esta.
338

Não encontrando melhor defesa, o fidalgo acabou por negar e acusar Gonçalo Vasques de
Azevedo de falar na corte da adúltera relação da rainha. (Nota 38)

A Leonor adúltera

Ao chegarmos aqui, já por várias vezes mencionámos o conde Andeiro e o que dele e da rainha
se murmurava. João Fernandes Andeiro surge pela primeira vez referido na crónica em 1369,
recebendo D. Fernando como rei, na Corunha. (Nota 39)

Anos mais tarde foi o emissário secreto entre D. Fernando e os ingleses, secreto porque estava
no conjunto de fidalgos que, pelo tratado de 1373, deveriam ser expulsos de Portugal por terem
apoiado a causa de D. Pedro de Castela. Em 1380, após conferenciar com os ingleses,
desembarcou sigilosamente no Porto, tendo seguido para Estremoz ao encontro de D. Fernando.
Aí terá vivido alguns dias, escondido, numa câmara de uma torre. E foi neste período, segundo
Fernão Lopes, que ficando por vezes a falar a sós com a rainha, nasceu entre ambos uma paixão
que alguns que delo parte sabiam, cuidavom deles nom boa sospeita, e cada hum se calava do
que prosumia. (Nota 40)

A este momento, uma interrogação comparável à da morte de Maria Teles nos surge. Se a
passagem e a estadia de alguns dias do conde em Portugal foi tão secreta e sigilosa, visto que
ninguém podia saber que ele cá estava, qual a fonte em que, mais de meio século depois, o
cronista se baseou? Como frequentemente acontece, ele não a refere, ficando-se pelos vagos
alguuns ou cada huum.

João Fernandes era casado com Mayor, a filha de hu cavaleiro muito honrado de Galiza que,
depois de viúva, casara com o futuro conde de Ourém, posto que nom fosse igual pêra casar
com ela. (Nota 41) Ora, apesar de dever à mulher uma significativa promoção nobiliárquica,
João Fernandes ter-se-ía revelado um marido bem oportunista, abandonando-a na sua Galiza
natal, enquanto ele progredia em carreira, estatuto e riqueza ao serviço dos reis portugueses.

De facto, o galego foi, durante os anos de 1381 a 1383, um dos «privados» mais próximos de
D. Fernando e de D. Leonor, tendo sido, como já referimos, o mensageiro de confiança entre
Portugal e a Inglaterra.
339

Recebeu, entre muitas outras mercês, o título de conde de Ourém que havia pertencido a João
Afonso Teles de Meneses, tio da rainha, que entretanto havia falecido. Durante este período o
conde esteve também ligado à Casa da infanta D. Beatriz, como seu mordomo. De acordo com
Fernão Lopes, a vinda de Mayor para Portugal apenas se efectuou por conveniência de Leonor
Teles, a qual,

«depois que sentiu sua não boa fama com João Fernandes em alguma guisa ser descoberta,
houve com ele que mandasse por a mulher, pensando cessar o que dela diziam, pois que ele
tinha sua mulher na terra».

Passando então a viver no Castelo de Ourém, sisuda em trato e em situação, Mayor, apesar de
receber por parte da rainha grande gasalhado, dando-lhe joyas d'ouro e de prata e grandes
dadivas de dinheiros, manifestava certa hostilidade à régia amante do marido, contando o
cronista como, louvando-a muito por deante, depois apregoava-a com louvores quaes hurna
combooça [manceba, concubina] tem costume de dizer da outra. (Nota 42)

Do seu casamento com o conde teve Mayor quatro filhas. Uma delas, Sancha, recorda-se como
tendo sido casada por Leonor com Álvaro Gonçalves de Azevedo, o filho do marechal do rei,
Gonçalo Vasques de Azevedo, creendo que por tal casamento ele cessaria de falar mais em sus
feitos e seria da parte d'ela. (Nota 43)

Outros episódios, para além dos já referidos, por exemplo aquando da entrega do anel ao conde,
são relatados por Fernão Lopes para salientar a conduta imoral da rainha. Narremos um outro.
Estanciava a corte em Évora quando, num acalorado dia do mês de Agosto, entraram no paço os
condes de Neiva e de Ourém que vinham afrontados com a temperatura. Vendo a rainha que o
suor lhes escorria pelo rosto, rasgou um véu e repartiu-o entre os dois para se limparem. João
Fernandes, após ter dado umas voltas pela sala, ajoelhou-se junto da rainha, com o pedaço de
véu na mão e sussurou-lhe: Senhora, mais chegado e mais husado queria eu de vós o pano,
quando m'o vós ouvessees de dar, que este que me vós daes. (Nota 44) A estas falas, Leonor
acedeu com risos e agrado.
340

Esta situação terá sido ouvida por Inês Afonso, mulher de Gonçalo Vasques, que a terá contado
ao marido. Foi então que este, dias depois, a comentou com a rainha, considerando que não era
próprio uma dona ouvir tais agrados. Este foi um dos motivos que terá levado a rainha a mandar
prendê-lo, como já referimos.

Todo este quadro se agravou quando, perante um rei doente e mais aficado cada vez de sua dor,
a rainha paria e emprenhava, enquanto as gentes sospeitavom que nom era d'el-rei, e nom sem
razom, ca el tempo avia que nom dormia com ela, segundo fama. (Nota 45)

O rei aproxima-se do fim

Entretanto, a doença e a fragilidade física do rei acentuaram-se, tornando-se cada vez mais
evidentes. As notícias da morte próxima de D. Fernando circularam mais insistentemente a
partir de Setembro de 1382.

Face à gravidade da situação destes últimos anos, Leonor terá tentado recorrer a uma fonte de
poder importante nas rainhas medievais - a procriação. De facto, por estes meses nasceu o tão
desejado varão que, no entanto, poucos dias sobreviveu. Logo no ano seguinte, em 1383, deu à
luz outra criança que morreu logo à nascença. De acordo com as alusões de adultério feitas à
rainha., Fernão Lopes põe em causa não só a paternidade destas crianças como a sua própria
morte. Assim, ao referir os rumores de que as gentes sospeitavam que nom eram d'el-rei, regista
como um deles morreo logo e o outro, apesar de o rei ter mostrado à partida mui gram prazer,
ter igualmente falecido, lança a suspeição de que o monarca, ao sabê-lo ilegítimo, ho afogara no
colo de sua ama. (Nota 46)

O casamento da herdeira

Durante o mês de Maio de 1383 decorreram as cerimónias do casamento da infanta Beatriz com
o rei de Castela, conforme explicitaremos oportunamente. D. Fernando, já na fase final da vida,
não pôde comparecer.
141

Foi a infanta acompanhada por sua mãe, para além de grande comitiva da melhor gente que em
Portugal havia. E quando D. João I, ao chegar a Elvas, viu a comitiva portuguesa que se
aproximava, ficou extasiado perante a beleza de Leonor Teles que se deslocava à frente.

«O sol incendiava-lhe a cabeça ruiva, fuzilando no ouro do manto que vestia, nas jóias de que
vinha coberta, nos metais e nos xairéis da mula em que montava. Parecia uma estátua de chama
viva, capitosa e perturbante, em que os olhos de todos os homens se cravavam hipnotizados.»
(Nota 47)

Também aqui Fernão Lopes cede a esta «rainha indisputada de beleza fascinante», descrevendo
como ela ia vestida

«em uns panos d'ouro mui formosos e sua contenença e rosto e olhos era assim todo gracioso
que quantos senhores e cavaleiros ai vinham de Castela todos louvavam sua formosura e
graça.»

No decorrer destas bodas, são conhecidas algumas situações que evidenciam, mais uma vez, a
astúcia e a prudência de Leonor.

Refere o cronista um pio e maternal discurso proferido por Leonor quando se despede do genro:

«Filho senhor, encomendo a Deus e a vós minha filha, porque não temos outro filho nem filha,
nem esperamos já de o haver, que seja de vós honrada e lhe façais boa companhia qual deve de
fazer um marido a sua mulher; e eu rogarei a Deus por vós e por vossa vida e honra, que Deus
vos dê fruto de bênção que venha herdar o reino de seu padre e de seus avos.» (Nota 48)

E acrescenta Fernão Lopes que, ao dizer estas palavras, os seus graciosos olhos eram lavados de
água, mostrando grande saudade da filha. Ora este augúrio a um bom matrimónio escondia
calculistas reservas, pois por este ano a rainha encontrava-se grávida tendo ocultado o seu
estado a D. João de Castela.
342

Também durante estas cerimónias o monarca castelhano a pôs ao corrente de algum


descontentamento que grassava na sua corte, pois muitos de Portugal «assim pessoas grandes
como vilãs, aos quais não praz [o casamento] enviaram muitas cartas ao infante D. João. E
escrevem-lhe cada dia e o aguçam quanto podem, dando-lhe muitas fiúzas loucas em aquele
reino, e dizendo-lhe que se este casamento nosso se faz, que tudo é por seu mal dele, e que é
mester que tenha tais maneiras que se guarde de nós, pondo--lhe receio de nós. E enviando-lhe
dizer que se vá a outra parte, fora dos nossos reinos, assim que souber que este casamento se
faz. Pois onde quer que ele estiver com seu corpo, falecendo o rei de Portugal, mais queriam ser
com um olho seus, que não da infanta nem nossos...» (Nota 49)

Novamente, face à ameaça da pretensão do infante João ao trono, a rainha ocultou a sua
gravidez, acabando por assumir inteiramente a execução do tratado que lhe garantia a regência
do reino e a posse de todas as terras e bens doados por D. Fernando, cláusula que, como mulher
prudente e astuta, soubera bem negociar conjuntamente com o casamento de D. Beatriz.

A morte do rei formoso

No Outono de 1383, D, Leonor perdeu a filha que trazia no ventre, no final de Setembro e, em
Outubro, o marido. A causa da morte do rei, bem como a doença que o consumia, tem sido
normalmente aceite como tuberculose pulmonar. O cronista refere-a, acompanhando o estado
de progressiva debilidade do rei, mas não avança pormenores mais precisos sobre a doença ou a
sua causa. Rita Costa Gomes, autora da sua biografia, embora sem descartar a hipótese de
tuberculose, coloca também a sua morte como possível consequência do envenenamento de que
terá sido vítima em 1378. A cura do envenenamento (que se fazia, normalmente, pela
administração de outros venenos), a dose excessiva que lhe terá sido administrada nesse fatídico
ano e que terá deixado marcas para sempre, ou mesmo a continuação do envenenamento em
doses mais subtis, de que se obteria o mesmo efeito mas se confundiria com uma doença
natural, são hipóteses lançadas por esta historiadora. (Nota 50)
343

Sabe-se unicamente pela voz do cronista que a doença o transfigurou de tal modo que ele

estava mui desasemelhado de quando começou de reinar e agora era assi mudado que nom
parecia aquele.

A rainha não o acompanhou à sua última morada, dizendo que se sentia mal, e nom podia lá hir.
Possíveis consequências de um parto recente e mal sucedido, ou, como outros dizem receando o
murmúrio das gentes. Por um ou outro motivo a sua não ida fez mais falar do que per ventura
falariam, se àquela hora fora presente. (Nota 51)

As cerimónias das suas exéquias foram feitas de uma forma muito simples, afinal como o rei
expressara no seu testamento, acabando por serem realizadas as mais solenes na Catedral de
Toledo, conforme abordaremos mais à frente.

A regência

Após a morte de D. Fernando, quando já assumira o cargo de regedora do reino, Leonor Teles
mostrou-se receptiva aos agravos a ela apresentados pelos burgueses de Lisboa. Fernão Lopes
apresenta-a, então, feminina e sedutora, a tudo outorgar aos homens bons lisboetas, incluindo o
protagonismo político derivado do facto de a rainha exprimir o desejo de tomar assessego nesta
cidade e despender meu tempo com meus oficiaaes a reger e assegurar o regno em verdadeira e
dereita justiça, visto pensar que a ela, mulher frágil e cordata, sempre permeável aos interesses
dos burgueses, nom cumpre andar pela terra a montes e a caças, como tem em costume de fazer
os reis, os varões solidários com as artes e as vontades dos nobres. (Nota 52) No capitulo
seguinte, a crónica destrói as demagógicas promessas deste discurso, contando como a rainha
defendeu os interesses castelhanos e como, imunes à sua sedução, se levantavam vozes rebeldes
entre os fidalgos e o povo miúdo de Lisboa. Vozes que, finalmente, abafavam os femininos
falares cortesãos evidenciados pela narrativa cronística ao longo da história do reinado
fernandino.

Com a morte de D. Fernando o reino afundou-se numa guerra civil e numa guerra contra o rei
de Castela. Uma situação nunca até aí vivida na monarquia portuguesa, a morte de um rei
coincidir com a ausência do seu herdeiro no reino, neste caso D. Beatriz, precipitou o confronto
entre grupos sociais e agudizou o ódio popular contra a regente.
344

Conforme o tratado de casamento, mas também conforme o regime monárquico medieval,


havia que aclamar o novo rei, sublinhando assim a continuidade da monarquia face à morte
física dos seus reis. A aclamação real constituía em todo o reino um momento de alegria. Ela
representava a manutenção da ordem e da paz e à volta do novo monarca eleito todos os grupos
sociais se uniam e se reviam. Ora não foi isto que aconteceu com a proclamação de D. Beatriz.
Esta representou, pelo contrário, a subversão, a desordem e a desunião. E foi ao som de arrayal,
arrayal, por a Rainha Dona Beatriz de Portugal, nossa Senhora que o povo reagiu violentamente
em Lisboa, Santarém e Elvas. Os gritos de apoio a Beatriz misturavam-se com os gritos de
repúdio e apreensão pelo receio da perda da independência de Portugal. Os lisboetas, a quem o
rei apelidara de vilãos treedores aquando do seu casamento e que se ofereceram para pagar a
«criação» de Beatriz recém-nascida com o rendimento das sisas cobradas durante três anos pelo
concelho, talvez redimindo-se de antigas manifestações, repudiavam, agora, a aclamação da
infanta que ajudaram a «criar».

Na capital foi, entretanto, organizada uma conspiração com o fim de assassinar o mais
importante valido da regente porque dormindo com a molher de seu Senhor, de que tamtas
merçes e acreçemtamento avia recebido, muitos nobres queriam vimgar a desonra delRei dom
Fernando. (Nota 53) Desta conspiração faziam parte membros da nobreza, inimigos de Leonor
e mesmo partidários do infante D. João de Castro. Álvaro Pais, o antigo chanceler-mor do
falecido rei convenceu o Mestre de Avis a ser o executor do crime, visto ser o único membro da
família real presente no reino. Ao que parece, quando este foi contactado para o fazer terá
estranhado a causa da morte e respondido: A min parece que nom ouço já agora murmurar as
gemtes tamto dos feitos da Rainha, nem falae em esto como sohiam. Pela fonte cronística já por
três vezes se tentara assassinar o conde. A primeira tentativa terá sido planeada pelo próprio
irmão da rainha, João Afonso, ora partidário da irmã, ora do rei de Castela, ora do Mestre de
Avis. Gorada a primeira tentativa, também a segunda resultou infrutífera.
345

A terceira tentativa, possivelmente pela questão da honra, terá sido planeada pelo próprio D.
Fernando, indicando para autor do assassinato o seu irmão, Mestre de Avis. Após a morte do rei,
a intimidade da regente desembargando com ele todolos desembargos do reyno aumentou o
ódio ao conde.

Ultrapassadas as hesitações e apreensões, o Mestre acabou por assassiná-lo no Paço Real, perto
da câmara da rainha-regente.

Foi, então, feita toda a encenação de que a regente teria mandado o conde matar o Mestre,
correndo o seu pajem à rua e bradando Matam ho Mestre nos Paços da Rainha! enquanto
Álvaro Pais saía também à rua gritando: Acorramos ao Mestre, amigos acorramos ao Mestre, ca
filho he del Rei dom Pedro. Relembrando o sangue real que lhe circulava nas veias,
pressagiava-se já a não existência de outro candidato digno à sucessão. A multidão acorreu ao
paço e só se acalmou quando o viu à janela; no entanto, os motins sucederam-se pela cidade, só
abrandando às ordens do Mestre.

Em poucas horas a cidade ficou perdida para Leonor e ganha para os que se lhe opunham. No
entanto, porque a regente, embora desautorizada, continuava a representar o poder real, o
Mestre tentou obter o seu perdão, manifestando-lhe ela profundo desprezo pelo crime cometido.
E quando ele lhe pediu que evitasse a entrada do rei seu genro em Portugal, esta respondeu-lhe
com escárnio. Ao ver-se senhor da situação em Lisboa e controlando a sua população, ao
Mestre já não interessava a intervenção castelhana. No entanto, porque o domínio do povo não
lhe dava a legalidade, ele pretendeu associar o seu novo poder à respeitabilidade de uma união
com a regente. Conhecendo a sua ambição pelo poder, de certo ela não recusaria a proposta.
Enganou-se! Decididamente Leonor Leles não se quis associar aos acontecimentos que
decorriam nesse final do ano de 1383. (Nota 54)

No clima de terror que se sucedeu à morte do rei, com a perseguição de todos os que não
fossem identificados como apoiantes do Mestre de Avis e após o assassinato do seu fiel amigo
Andeiro, Leonor, sozinha, teve a coragem de se dirigir ao Mestre e, num tom de crítica, pedir
para que enterrasse com a dignidade devida aquele que inocentemente havia morto:
346

«E não haveis ora dó desse homem, que aí jaz assim morto tão desonradamente? E se quer por
ser homem fidalgo como vós, havei agora dele dó e fazei-o soterrar, e não jaza aí dessa guisa.»

Visto o Mestre não ter acedido ao seu pedido, foi ela própria que assumiu a iniciativa de, pela
calada da noite, fazer sepultar o corpo na Igreja de São Martinho.

Os acontecimentos, entretanto, precipitaram-se. Leonor, temendo a ira da população, pois bem


sabia o quanto não gostavam dela, e não querendo pactos com o cunhado, decidiu refugiar-se
nas suas terras de Alenquer.

O reino estava dividido, a ameaça vizinha era maior do que sempre fora, Portugal não tinha
aliados e os Trastâmara eram pretendentes legítimos ao trono português. As precauções tomadas
no tratado de Salvaterra pareciam de nada terem servido e o futuro balançou entre três cenários:
a regente representava a legalidade e tinha apoiantes, mas fora expulsa de Lisboa pelo golpe de
Estado organizado; o Mestre tornou-se chefe natural dos revoltosos e, para alargar a sua base de
apoio, deu-se como representante do seu meio-irmão D. João de Castro; o rei de Castela, casado
com a rainha legítima, vagueava entre o apoio à mulher ou à regente, entre invadir ou não
Portugal.

Novamente por conselho de Álvaro Pais o Mestre tentou o apoio de Leonor, propondo-lhe o
casamento entre ambos. Este, ficando associado à regência, legalizava a sua posição. Mas, mais
uma vez, a firme e decidida regente recusou a proposta, inegavelmente estavam em campos
opostos.

Alenquer não tinha condições para alojar o numeroso séquito que Leonor levava consigo;
estava também muito perto de Lisboa e, como ela não tinha levado consigo homens de armas,
estava sujeita a que os revoltosos a fossem prender. Decidiu, então, mudar-se para Santarém,
uma maior e mais afastada localidade. Lembrava-se, no entanto, como aí o povo se tinha
amotinado por alturas do seu casamento, bem como mais recentemente, aquando da aclamação
da filha Beatriz. Escreveu, por isso, ao alcaide desta localidade, o nosso já conhecido Gonçalo
Vasques de Azevedo, aconselhando-o a falar com os bons do lugar para sondar as suas
disposições quanto à sua possível ida para essa localidade.
347

Este assim o fez e, mediante um hábil discurso, convenceu-os a pedir à rainha que fosse
acolher-se a Santarém. Imediatamente Leonor partiu com grande acompanhamento. Antes de
partir, para que os habitantes de Alenquer não encarassem mal a sua ida para outra localidade e
para continuar a poder contar com o seu apoio, mandou chamar os homens-bons e disse-lhes:

«Amigos, bem sabeis como esta vila é minha, e vós outros todos sois meus; vedes bem o
alvoroço de Lisboa como se levantarão com o Mestre, que não sei se é mestre de troos, se de
bombardas. E maravilho-me qual foi a sanha ou sandice que os fez demover a tal cousa. Porem
vos não cureis da sandice deles, nem do levanto que fizeram, mas sede bons e leais como
sempre fostes, e fareis muito de vossa prol e honra, e a mim serviço por que vos sempre farei
muitas mercês que me por vos forem requeridas.»

Após estas palavras, comprometeram-se os da vila a continuar a ser seus apoiantes e a nunca
outro mandado tomar senão o seu.

A sua entrada em Santarém, no dia 2 de Janeiro de 1384, apesar de ocorrer em tempos


conturbados, manteve o cerimonial de recepção comum às entradas régias, tendo sido D.
Leonor recebida pelos melhores do logar e pelos judeus com as suas Torah, encabeçados pelo
alcaide, a quem a rainha quitou menagem, por escritura. A rainha hia em cima de huma mula
dalbarda, cuberta com hum gramde manto preto de maneira que lhe nom parecia o rostro. (Nota
55)

Em Santarém, Leonor jurou vingar-se do Mestre de Avis, mas principalmente dos homens e
molheres de Lixboa de que ela dezia, que numca avia de ser vimgada, ata que tevesse hum tonel
cheo das línguas delas. (Nota 56) Terá, então, escrito a todas as cabeças de comarca contando
que a tinham obrigado a sair de Lisboa e ao genro pedindo-lhe ajuda para a restabelecer no
cargo de regente e prometendo-lhe, em troca, recompensas e apoios, nomeadamente dos seus
parentes.

Entretanto, na vizinha Castela, D. João reuniu o seu Conselho para tomar decisões. Por aquilo
que já ouvira do que se passava em Portugal, esperava que a rainha-viúva tivesse dificuldades
em conseguir impor-se como governante e precisasse da sua ajuda.
348

À cautela, e para impedir que fizessem frente às suas ambições, mandou prender» o infante D.
João de Castro e o seu meio-irmão Afonso, casado com D. Isabel, filha ilegítima do falecido D.
Fernando.

Segundo o cronista Ayala, vários nobres portugueses escreveram-lhe solicitando a sua entrada
em Portugal. Refere ainda que o primeiro português que lhe escreveu após a morte de D.
Fernando para ir a tomar el Regno de Portogal, que pertenescia de derecho à la Reyna Dona
Beatriz, su muger, fué Don Juan Maestre Davis. (Nota 57) É claro que Fernão Lopes, ao dar voz
ao partido vencedor, omite esta passagem. Também Oliveira Marques refere que o Mestre de
Avis já sugerira ao rei de Castela uma intervenção em Portugal, eventualmente para substituir a
regente. (Nota 58)

Se o rei se inclinava mais para a intervenção militar, que considerava fácil de levar a cabo,
grande parte do seu Conselho entendia que o monarca per dereito em nenhuma guisa o podia
fazer pois a governamça do reino, segumdo os trautos, era da Rainha dona Lionor sua sogra. O
convite do bispo da Guarda para ocupar a cidade pôs fim à indecisão, dando uma aparência de
legalidade à sua entrada em Portugal. (Nota 59) Em 2 de Janeiro de 1384 entrava nesta cidade
acompanhado de sua mulher, D. Beatriz, de onde seguiu para Santarém ao encontro da sogra.

Nesta cidade, a regente, consciencializando-se do perigo da entrada do genro no reino, reuniu o


seu Conselho para ponderar qual a atitude a tomar. Uns consideravam que ela não deveria sair
do castelo nem deixá-los lá entrar para não correr o risco de os castelhanos se apoderarem dele;
as conversas deveriam ter lugar só com os seus ministros; outros, pelo contrário, referiam que
se ela lhe tinha pedido ajuda, agora deveria recebê-lo sem desconfiança, dentro ou fora da vila.

À chegada, D. Beatriz vinha acompanhada de donas e donzelas, entre as quais Beatriz de


Castro. Com o rei vinham cerca de cento e oitenta homens a cavalo, armados com lanças e
trombetas. Desmontaram em frente à porta do castelo e aguardaram a chegada da regente que,
embaraçada, não queria sair do castelo mas também não queria deixar à espera quem tinha
mandado chamar. Surgiu, então, cuberta de hum gramde mamto preto, que lhe nom perecia o
rostro. E elRey como a viu, foya logo receber abraçamdoa el e sua filha; e ela choramingado
queixou-se que o Mestre de Avis matara o conde Andeiro, seu fiel vassalo.
349

O genro prometeu vingá-la, pois para isso tinha vindo e, pegando-lhe cada um em seu braço,
foram passar a noite ao Convento de S. Domingos. (Nota 60)

A Leonor atraiçoada

Leonor acolheu o rei de Castela cordialmente, acreditando que ele vinha repor a legalidade, dar-
lhe de novo o poder e vingar a morte do Andeiro. A resposta não foi, no entanto, bem a que
esperava.

Também os reis de Castela a trataram afectuosamente e pretendendo não só dissipar as dúvidas


da regente quanto às suas «boas» intenções, mas também ir tomando o poder, D. João I pediu-
lhe que abdicasse da regência, pois só assim eles teriam autoridade para agir e exercer a
vingança que ela solicitara. Embora alguns conselheiros a tentassem demover do acordo que
tinha dado ao genro, mostrando-lhe que, para além de ser perigoso, era ilegal, não podendo ela
renunciar a uma regência que tinha sido atribuída e jurada em cortes e que só a realização de
outras cortes poderia alterar, Leonor manteve-se inflexível e mandou fazer a escritura da
desistência.

O rei de Castela começou, então, a intitular-se rei de Portugal dado que a detentora legal do
poder lho havia concedido. Todos juntos entraram na vila e D. João deu início ao seu governo.
Se a reforma do seu Conselho agradou, pois nele incluiu vários e importantes portugueses, logo
de seguida ordenou a fusão das armas de Castela com as do seu novo reino e passou a assinar
sem fazer referência à rainha D. Beatriz, sua mulher - «D. João, por graça de Deus, Rei de
Castela, Leão, Portugal, Toledo e Galiza.» As primeiras manifestações contra a presença
castelhana começaram a surgir. Os próprios escudeiros do alcaide de Santarém recusaram-se a
receber soldo do rei de Castela e juntaram-se ao Mestre de Avis. Os soldados castelhanos
abusavam dos seus hospedeiros expulsando-os das suas casas, violando as suas mulheres e
ameaçando-os de morte.
350

Também D. Leonor se incompatibilizou com o genro, não só porque ele nada fazia para evitar a
brutalidade dos seus homens mas também porque não atribuiu o cargo de rabino-mor dos
judeus de Castela a um privado dela. Desgostosa com a ingratidão do genro que lhe negou a
primeira coisa que lhe pediu depois de ela lhe ter dado o regimento do regno, decidiu que havia
dacabar com elle aconselhando os seus apoiantes a defenderem o Mestre de Avis e a lutarem
contra o rei de Castela e dizendo a todos os que a ouvissem:

«Vede que senhor este! E que mercês esperaremos vós e eu dele, que uma tão pequena cousa
que lhe pedi, me não quis outorgar? ora vede que mercê há de fazer a mim nem a vós? Juro-vos
em verdade, que vós faríeis bem de vos ir todos para o Mestre, pois é vosso natural e senhor
que vos fará melhor; porque eu que vos queira fazer, já não tenho azo como, e cada vez o terei
pior, segundo a maneira que eu em ele entendo. E faço-vos certos que se me eu daqui pudesse
partir como vos com minha honra, que nunca aqui mais estivesse, tão somente um dia.»

Com esta atitude, o rei

«começou de desprazer dos modos da Rainha porque a viu mui solta em falar, tendo jeitos em
suas falas, não quais cumpria a mulher viúva, mormente havendo tão pouco que elRei dom
Fernando morrera e ela toda coberta de do». (Nota 61)

Continuando a sua vingança, D. Leonor escreveu para as cidades que o rei queria ocupar
dizendo-lhes que, mesmo que ela aparecesse com D. João de Castela, não lhe obedecessem.
Uma das cidades para onde escreveu foi Coimbra, onde o seu irmão e o seu tio, Gonçalo Teles e
Gonçalo Mendes de Vasconcelos, tinham a guarda e a fortaleza da cidade. O rei de Castela
partiu imediatamente para esta localidade, levando consigo as duas rainhas. Mas Leonor já ia
guardada por uma escolta de 50 homens armados para que não pudesse fugir ou ser libertada. E
foi nessa cidade que, insensatamente, se envolveu numa conspiração para matar o genro.
Descoberta e desmascarada em frente à sua filha Beatriz, o cronista coloca na boca desta o
desgosto pela má mãe que tinha, a qual, para levar a cabo a sua vingança não se importara com
os sentimentos da sua única filha:
351

«Oo madre! Senhora! Em um ano me quiserades ora ver viúva e órfã e deserdada?»

Nesta «fala», Beatriz, patética criança apanhada num jogo político de adultos, identificava-se
totalmente com o seu recente papel de rainha de Castela, não concebendo a perda desse
estatuto. O conflito de emoções e contradições que a pequena rainha sentiria contribuía para
reforçar o julgamento negativo sobre a sua mãe.

O rei castelhano, porque matar nom vos quero, por honra de vossa filha, posto que mo vos bem
merecido tenhaes, mandou-a, então, desterrar para o Convento de Santa Clara em Tordesilhas,
homde já esteverom Rainhas vehuvas e filhas de Reis.

Demonstrando, mais uma vez, a sua coragem e ousadia, Leonor terá desafiado o genro e a sua
punição, respondendo-lhe, não como uma mulher amedrontada, vexada ou vencida:

«Isso fazei vós a alguma irmã se a tiverdes, que a meta por freira nesse Mosteiro; porque vós a
mim não haveis de fazer freira, nem nunca vosso olho tem de ver. Em verdade este é bom
galardão que me vós dais! Deixei o regimento que no Reino tinha, e fiz-vos haver a mor parte
de Portugal, e agora, a dito de um perro, que com medo dirá que Deus não é Deus, assacaes-me
que raivei, por me não terdes as cousas que me prometestes, e sobre que comungastes comigo o
Corpo de Deus em Santarém.» (Nota 62)

Leonor não mais voltou a Portugal. A sua vida política terminou em Santarém, nesse Janeiro de
1384. Com o seu desterro, a legalidade deixou de existir e tudo se complicou. D. João Mestre
de Avis tomara Lisboa pela força, expulsando a regente desta cidade. D. João de Castela violara
o tratado de Salvaterra e aprisionara a única detentora legal do poder. A partir deste momento,
com o reino dividido entre os apoiantes de D. Beatriz e os do Mestre de Avis, só a força das
armas resolveu o conflito.

Tentemos, agora, reconstituir a vida de Leonor em Castela, já sem ajuda do precioso Fernão
Lopes que passou a dedicar-se à nova dinastia nascente. Voltaremos a encontrá-lo nas próximas
biografias.
352

A outra vida de Leonor

Leonor terá vivido retirada de tudo, no Convento de Santa Clara de Tordesilhas, até ao final de
1390. No Outono desse ano, morreu o genro João I, subindo ao trono o seu filho, Henrique III,
com onze anos de idade. Sua filha Beatriz ficou viúva e deixou de ser rainha; Leonor deixou de
estar prisioneira no convento. Desconhece-se se ao longo do seu exílio terá mantido contacto
com a filha Beatriz. Segundo contara Fernão Lopes, D. Leonor fora acusada de pretender matar
o genro e disso também a acusara a filha que consentiu na sua prisão. No entanto, o facto de ter
ido viver, após 1391, para Valladolid, cidade que pertencia a sua filha, sugere que, pelo menos a
partir desta data, terá havido algum relacionamento entre ambas.

Valladolid era, à época, uma importante cidade onde, muitas vezes, os reis permaneciam e onde
se encontrava o Conselho de Regência. Nessa cidade viviam muitos nobres portugueses
refugiados em Castela após a batalha de Aljubarrota.

Por este ano, o rei de Aragão enviou uma embaixada ao novo rei de Castela e um dos conselhos
transmitidos era que acatassse y hõrasse a la reyna dona Beatriz su madrasta, y la reyna dona
Leonor de Portugal mujer del Rey don Fernãdo su madre. (Nota 63)

Há autores que referem uma terceira união de Leonor Teles após a sua saída do forçado exílio
no Convento de Tordesilhas, bem como novos filhos. É o caso de Juan Antolínez de Burgos que
refere ter-se Leonor deixado mirar de um caballero chamado Dom Zoilo Iñiguez e dessa ligação
terem nascido um filho, que morreu na infância, e uma filha de nome Maria, tal como a tia
assassinada. No seu testamento, a rainha-viúva deixou a filha ao cuidado de um distinto fidalgo,
Don Fernan López de la Serna, pedindo-lhe que fundasse um convento de freiras onde a filha
ficaria. Ao que parece Maria acabou por se apaixonar por um sobrinho do tutor que consentiu
no casamento de ambos. Fernan López, embora não podendo cumprir totalmente a vontade de
Leonor, fundou no local da casa onde ela teria vivido o Convento de Nuestra Senora de la
Merced Calzada. Terá sido sepultada na igreja desse convento, juntamente com o corpo do seu
filho, mas o mesmo foi demolido e a igreja já não existe. (Nota 64)
353

Sabe-se que não está sepultada junto do rei D. Fernando, em S. Francisco de Santarém, como
ele pretendia, mas desconhece-se a sua última morada, algures em Castela. Desconhece-se,
igualmente, a data da sua morte referindo vários autores o ano de 1405 como o mais provável.
(Nota 65)

A memória cronística

Para Fernão Lopes Leonor Teles atraiçoa o porte e a conduta característicos das rainhas,
assemelhando-se o seu comportamento a um porte vilão. Sob a capa de uma tentadora e
luxuriosa formosura, a rainha seduz e vinga-se com mortall odio, sem regras e escrúpulos, à
margem dos valores morais que a ética cortesã defende para a s mulheres fidalgas.

A cerimónia do casamento, longe dos festejos públicos jubilatórios e comemorativos da


fertilidade e da prosperidade trazidas ao reino por uma nova rainha, é cronisticamente seguida
pela notícia da eclosão de protestos e tumultos urbanos. Não dando relevo à trilogia da guerra,
peste e fome que vinha assolando o reino, nem às crises monetárias que conduziram a
sucessivas desvalorizações da moeda entre 1369 e 1373, assim como à subida dos preços e à
carestia da vida, para já não mencionar as mortes e destruição do tecido produtivo provocadas
pela guerra luso-castelhana de 1369-1371, Fernão Lopes faz dos motins e das revoltas
populares que então se sucediam um pouco por todo o reino, à semelhança do que acontecia em
Inglaterra, na França, na Flandres ou em Itália, uma orientada e explícita contestação à união
fidalga protagonizada pelo rei. Centrando a sua narrativa nas alterações públicas ocorridas em
Lisboa, o cronista empresta ao descontentamento popular um discurso dominado pelo
desagrado de se ter tido conhecimento de que o monarca

«tomava por sua mulher Leonor Teles, mulher de João Lourenço da Cunha seu vassalo; e
porquanto isto não era sua honra, mas antes fazia grande nojo a Deus e a seus fidalgos e a todo
o povo, pois que ele tomasse mulher filha de rei, qual convinha a seu estado; e que quando com
filha de rei casar não quisesse, que tomasse uma filha de um fidalgo de seu reino, qual sua
mercê fosse, de que houvesse filhos legítimos que reinassem depois ele, e não tomasse mulher
alheia, porque era cousa que lhe não haviam de consentir». (Nota 66)
354

Sendo assim, Leonor, enquanto esposa de rei, não só falhava a sua função de assegurar paz e
concórdia ao reino, como provocava o enfraquecimento da régia autoridade de D. Fernando, um
monarca publicamente acusado de menosprezar e ignorar a honra e as obrigações decorrentes
do exercício do poder monárquico. Nesse sentido, atribuía-se à fidalga e à sua linhagem o início
de um processo de degradação da realeza fernandina, bem patente, aliás, no facto de o cronista
registar como o rei teve de fugir de Lisboa o mais escusadamente que pôde, acentuando-se a
implícita cobardia de uma tal atitude com a atribuição ao soberano da justificação de que, se
permanecesse na cidade, os vilaãos treedores certamente o prenderiam. (Nota 67)

No plano político, o ocaso da realeza fernandina situa-se na Primavera de 1372, quando se narra
como o rei recebeu por esposa Leonor, pública e oficialmente. Como a crónica fizera dizer aos
vilãos de Lisboa, D. Fernando cumpria o que eles não queriam: perder hum tam bom rei como
ele por huma maa molber que o tinha enfeitiçado. (Nota 68)

Recomeçavam, assim, os tempos da rainha Mécia Lopes de Haro. Uma vez no poder, Leonor
actuou como fidalga-rainha, dela se dizendo que trabalhousse de aver da sua parte todolos
mores do reino per casamentos e grandes oficias e fortalezas de logares que lhes fez dar, não
fazendo o rei mais que quanto ella quiria. Destinada a pontuar a narrativa do reinado fernandino
com críticas e negativas referências a Leonor, citam-se observações atribuídas a Diogo Lopes
Pacheco que, como homem sages e muito aprecebido, escolhera viver em mercee do rei de
Castela e ser seu privado, repudiando o mortall ódio e a seitosa forma que Leonor imprimira à
corte régia portuguesa, dado que toda a privança e estado era em poder da sua linhagem. (Nota
69)

Para o cronista, não se tratava apenas de uma corte ao serviço dos interesses feudais e
senhoriais dos Teles de Meneses, onde a grada e liberal rainha distribuía mercês aos parentes e
aos fidalgos de quem temia protestos pelo seu nepotismo e críticas ao esbanjamento dos bens
públicos.
355

Os tempos em que o poder régio esteve sob feminina e nobiliárquica tutela tiveram como
protagonista uma rainha que a voz do povo dizia ser lavrador de Vénus e criada em sua corte e
que, publicamente, não só se entregava a adulterinos amores, como paria e emprenhava filhos
que nom eram d'el-rrei. (Nota 70)

De um ponto de vista simbólico, o reino, tal como D. Fernando, estava doente. De modo
idêntico ao do soberano, encontrava-se mui desassemelhado de quando el começou de reinar e
mais geitoso pêra durar pouco que viver perlongadamente. Ora, se o próprio monarca teria
reconhecido, à hora da morte, por entre culpadas lágrimas, que pelos seus pecados devia maao
conto a Deos pelos regnos que Ele lhe dera pêra os manter, em dereito e justiça, a recuperação
da ordem e prosperidade públicas passavam pelo afastamento de Leonor, a rainha sages em
muito mal e sabedor de grandes artes. Era necessário devolver a realeza aos reis devotados ao
serviço de Deos e à boa & justa governança de seus povos & vassalos, para além de restaurar a
piedosa, caritativa e pacífica influência das rainhas de outrora.

No texto de Fernão Lopes é a própria rainha quem se encarrega de arquitectar maquiavélicos


planos destinados a afastar de uma possível sucessão régia os meios-irmãos do rei, João, o filho
de Inês de Castro, e o homónimo Mestre de Avis. No caso do primeiro, não recuando a
sacrificar a sua irmã Maria. Quanto ao Mestre de Avis, todas as tentativas para o neutralizar ou
eliminar resultaram goradas. A incapacidade de Leonor para afastar o cunhado revelava como
ele se encontrava imune aos seus malefícios, predestinando-o a ser aquele que a venceria,
libertando o reino de uma feminina usurpação do poder e, a exemplo da revolta de Afonso
Henriques contra a condessa-rainha Teresa, refundando-o. Só então regressariam as santas e
virtuosas rainhas.

Se a imagem que Fernão Lopes transmitiu nas suas crónicas é a de uma rainha adúltera e
luxuriosa, dedicada ao amor e aos prazeres carnais, sabedora das artes da sedução, ou não fosse
ela lavrador de Vénus, a deusa da sensualidade, outros autores dela tiveram imagem diferente.
Nenhum autor coevo se refere à situação de adultério que na versão lopesiana as gentes
sospeitavom. Teresa Amado, que comparou os textos de Lopes e de Ayala, cronista que
acompanhou de perto todos os acontecimentos pois faleceu em 1407, refere que a única
diferença temática de relevo é o silêncio de Ayala sobre a intimidade entre D. Leonor e João
Fernandes Andeiro. (Nota 71)
356

Para este cronista, Andeiro é apenas indicado como homem de confiança de D. Fernando e
apoiante da regente após a morte do rei. Também a anónima Crónica do Condestabre, uma
biografia de Nuno Álvares Pereira, única fonte narrativa portuguesa utilizada por Fernão Lopes
e que chegou até nós, nada acrescenta ou insinua em relação a qualquer ligação amorosa da
rainha com o conde. Ele surge apenas como um perigoso apoiante de D. Leonor, que deveria ser
eliminado. É de salientar que sendo esta biografia referente ao mais dilecto amigo e apoiante do
Mestre de Avis, principal inimigo da regente, nada se vislumbra sobre a relação amorosa entre a
rainha e o conde, relação que Fernão Lopes não se cansa de referir que era do conhecimento
público.

Já Duarte Nunes de Leão, embora siga de muito perto as crónicas lopesianas e as mesmas
incertezas sobre a paternidade dos filhos de Leonor, salvaguarda a da infanta Beatriz, pois antes
do aparecimento do Andeiro como valido do rei, em 1380, ninguém pôs em causa o
comportamento da rainha. Diz o cronista que, da rainha ainda que se screua dela que nas falas
era mais desenuolta do que aa honestidade matronal & real conuinha, nunqua se dela disse,
antes do Conde Joam Fernandez, que tiuesse amores com algum outro. (Nota 72)

Igualmente os historiadores de Valladolid que se referem à ex-rainha de Portugal citam-na de


uma forma positiva. Antolinez refere como D. Fernando ficou enamorado de sus prendas por
ser rara su hermesura, y su gracia y discrecion peregrinas, Garcia-Valladolid escreveu que o rei
teve de casar com ela no pudiendo vencer su virtud, Matias Sangrador Vitores lembra que o rei
a desposou conociendo que el recato y rígida virtud de esta dama resistirís constantemente á sua
esfuerzos. (Nota 73)

Quem foi, afinal, Leonor?

Terá sido Leonor a mulher delineada por Fernão Lopes? Na pena deste cronista, Leonor foi uma
mulher com muito poucos atributos morais.
357

Em vão se folheia o seu texto na procura de uma qualidade ou de um rasgo de simpatia. E se,
por vezes, eles espreitam quase a medo, logo são desmascarados. Assim, por exemplo, se ela
era de muita esmola e muito caridosa, o manto da caridade era cobertura de seus desonestos
feitos, pois era extremamente vingativa. Aliás, a vingança é uma constante ao longo das suas
crónicas, bastando lembrar o grande temor que as gentes dela tinham pelo mal que podia fazer.
Ao corrermos os escritos de Fernão Lopes, ela vai-nos surgindo nas suas diversas facetas de
ambiciosa, perversa, intrigante, sinistra, adúltera, má irmã, má esposa, má mãe e má rainha.
Mas eis que chegamos, finalmente, a um dos últimos capítulos que o cronista lhe dedica e nos
começamos a surpreender e a deliciar com o seu texto

«Se os antigos que louvaram as nobres mulheres, viveram no tempo da Rainha dona Leonor,
muito erraram em seu escrever, se a não puseram no conto das mui famosas. Porque se o dom
da formosura de todos mui apreciado, fez a algumas ganhar perpétuo nome, desta houve ela tão
grande parte, acompanhado de prazível graça (...) e de nenhuma cousa que a prudente mulher
pertença, era ignorante.»

E continuamos a surpreender-nos:

«Foi mulher mui inteira e de coração cavaleiroso, buscador de maravilhosas artes, por firmeza
de seu estado. Desde que ela reinou, aprenderão as mulheres ter novos jeitos com seus
maridos.»

embora aqui não percebamos bem se os novos jeitos terão uma conotacão positiva ou negativa.
Neste aspecto não há dúvida de que ela terá servido de modelo, mas terá sido um bom ou mau
modelo? Serão jeitos de bons modos e forma de comportar ou jeitos de poder, sedução e
vingança? Permanece a dúvida! Continuemos a leitura:

«Ela havia certos fundamentos para quem tinha má vontade, nunca lho poder conhecer; e onde
entendia fazer grande dano, azava mortais empeçimentos com mostra de todo o contrário.
358

Suas falas e desembargos, todo era feito ledamente e com bom gesto, até que visse tempo
azado, de se poder vingar segundo seu desejo.» (Nota 74)

As suas boas falas, a graça que tinha e os modos que apresentava escondiam, afinal, a vingança
a que se propunha e que não conseguiu realizar. Como escrevia o cronista, a maliçia bebe gram
parte da sua peçonha. A teia ardilosa que teceu à sua volta, privilegiando e concedendo benesses
em troca de apoio, acabou por de nada lhe servir. Premonitoriamente, todas estas qualidades
eram o canto do cisne que pressagiava a sua morte na política portuguesa.

Leonor foi, para o cronista, a culpada de tudo o que de mal aconteceu no reino, o necessário
bode expiatório para justificar a queda da dinastia. Ao comparar os reinados de D. Pedro e D.
Fernando, contrapõe-se a paz e a prosperidade do primeiro às infelizes guerras, ao
descontentamento, à agitação social e à desvalorização monetária ocorrida durante o governo
do segundo. Não nos podemos esquecer que D. Pedro foi o pai do fundador da nova dinastia
que Fernão Lopes serviu, pelo que havia que mostrar as suas facetas positivas fazendo quase
esquecer, por exemplo, os confrontos havidos entre D. Pedro e seu pai.

Citando Oliveira Marques:

«Convinha justificar por escrito, às novas gerações e aos vindouros, a revolução de 1383-85 e o
acto de força que pusera o mestre de Avis no trono. Para isso, era preciso denegrir certas figuras
(caso de Leonor Teles) e exaltar outras, dar certo relevo aos populares, não por eles em si, mas
para salientar o carácter majoritário e nacional da rebelião (...). Surgiu nestes termos a primeira
obra francamente partidária da historiografia portuguesa, cujas deformações, propositada, ou
inconsciente;, não temos hoje maneira de avaliar com rigor, mas cuja abonação exclusiva de um
período histórico tem de ser posta decididamente de lado. (...) toda a sua obra [de Fernão
Lopes] foi encomendada pelos poderes públicos e por eles paga, sendo consequentemente
talhada à medida do cliente e para lhe dar completa satisfação.» (Nota 75)
359

A própria fonte das afirmações pejorativas sobre a rainha é anónima e indefinida, surgindo
frequentemente expressões como alguns escrevem, um outro autor, segundo alguns afirmam...
O objectivo é denegrir, independentemente de quem o disse, viu ou viu.

O governo de D. Fernando foi, de facto, pautado por conflitos políticos e religiosos, ambos de
cariz europeu mas que se reflectiram em Portugal. Estes conflitos dificultaram e conturbaram o
seu reinado, que oscilou de aliança em aliança, situação ainda mais agravada por algumas
medidas impopulares, nomeadamente o seu casamento com uma bela dona já casada, com um
filho e com um carácter decidido e, porventura, irreverente. Tudo isto dificultou e perturbou a
opinião do cronista em relação à rainha, dividido entre uma certa admiração e fascínio pela sua
beleza, coragem, ambição, tenacidade e argúcia e a aversão a estas características numa mulher
e, mais ainda, numa mulher que ele devia usar como causa de todos os males.

Os contemporâneos chamaram-lhe «Flor de altura», facto nunca referido por Fernão Lopes.
Seria ela assim chamada pela sua altivez e impunidade, como poeticamente escreveu Antero de
Figueiredo: Flor que mora no cimo, sobranceira a tudo, intangível como o céu, branca como a
neve dos píncaros inacessíveis (Nota 76) ou pela sua fisionomia e ambição, como a retratou
Oliveira Martins, quando justifica que lhe chamavam «Flor de altura» pelo seu porte esbelto e
onduloso, como haste de lírio coroado pela formosa cabeça ruiva, onde tantas ambições
realizadas tinham germinado. (Nota 77)

Leonor terá sido uma mulher fora do seu tempo. Seduzida pela vida cortesã que havia
conhecido através de sua irmã, deslumbrada pelo brilho, galanteria, roupagens e jóias dessa
faustosa corte, nessa linda e distante Lisboa, terá decidido deixar para trás a monótona e
melancólica vida provinciana nesse morgadio de Pombeiro, lá longe, em terras da Beira, com
um marido, ao que parece, fisicamente de fraca figura, rico de bens, mas pobre de sentimentos.
Ambiciosa e determinada a lutar por aquilo que pretendia, até mesmo por um verdadeiro amor,
ou, pelo menos, um amor que pôde escolher, oferecido por um homem de bem composto corpo
e de razoada altura, fermoso em parecer e muito vistoso, fazendo jus ao seu cognome de rei
Formoso. Mulher de acção, corajosa (uma característica, normalmente, reservada aos homens),
nem sempre olhando aos meios para atingir os fins, arguta e de palavra fácil e rápida e que, por
tudo isto (e nem seria preciso tanto!), granjeou muitas inimizades.
360

A sua palavra, por vezes irónica, por vezes arrogante, desarmava o adversário até o deixar sem
resposta. Foi assim com o Mestre quando, morto o Andeiro e complicada a sua regência, o
desarmou com o não à sua proposta de casamento (e aqui, através da mestria do cronista em
saber delinear os perfis psicológicos das suas personagens, quase podemos «ver» o seu sorriso
irónico); foi assim com o genro, quando, já desmascarada a sua conspiração e feita prisioneira,
lhe falou de uma forma altiva e arrogante como se ainda fosse rainha. Desejosa do poder,
sempre pretendeu desempenhar o seu papel de regente no respe