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Cineclube | BlacKkKlansman – O Infiltrado, de

Spike Lee
por V N | 04/12/2018

O Cineclube de Joane exibe a última “Spike Lee joint” na próxima quinta-feira, 6 de dezembro, na Casa das
Artes de Vila Nova de Famalicão, BlacKkKlansman: O Infiltrado. O filme de Spike Lee estreou em maio
passado no Festival de Cannes e recebeu o Grand Prix (Prémio Especial do Júri). O filme tem recebido boas
críticas e o realizador sido aclamado pelo seu regresso.

O Festival de Cannes 2018 ficou marcado como o regresso de filmes com contornos políticos ao cinema. “A
conjuntura global assim o justifica (com os 50 anos de Maio de 68 a acrescentar um sugestivo peso simbólico).
Spike Lee, com o prodigioso BlacKkKlansman, deu uma lição exemplar do que significa filmar politicamente a

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política (expressão antiga de Jean-Luc Godard, ligada, justamente, às convulsões de 1968)”, referiu João Lopes ao
Diário de Notícias.

Spike Lee narra uma história verídica ocorrida há 40 anos, mas que desemboca na atualidade da América
contemporânea. “Provavelmente, essa revelação retirou algum efeito de “surpresa” aos minutos finais do filme…
Mas a questão não é essa: o que importa sublinhar é o empenho de Lee em mostrar, de forma inteligentemente
crítica, que a nossa relação com o passado envolve sempre alguma visão do presente”. Além disso, “fá-lo
invocando com um virtuosismo desesperado todo um século de cinema americano”.

A este propósito, João Lopes insiste que “a história do cinema faz-se disto. BlacKkKlansman – o Infiltrado é
Spike Lee a disfarçar-se de cineasta clássico para melhor cumprir o seu destino de agente infiltrado: é uma
história verídica da América dos anos 1970 que podia ser transferida tal e qual para a América dos anos 2010,
contada com a economia e a eficácia de um policial-série-B dos anos 1970 (tal como feito por gente tão
estimável como Don Siegel, por exemplo) em cruzamento com os grandes momentos da blaxploitation (citados
abertamente). BlacKkKlansman é Lee a explicar que abordar temas “quentes” como o racismo sob a lógica do
cinema de género pode também introduzir uma dimensão de urgência ativista, política, pedagógica, didática.
BlacKkKlansman é um filme que remete para aqueles anos de ouro da nova Hollywood, de um Scorsese que
filmava Nova Iorque como ninguém, mas também de um Rafelson ou de um Ashby ou de um Bogdanovich que
davam vida a tudo o que não era Nova Iorque.

“O que é mais notável é quão bem Lee equilibra as mudanças de tom, provocando risos e suspiros com um filme
construído sobre dualidades: factos e ficção – a história de Ron Stallworth é fortemente ficcionalizada, mas é
“verdadeira” [de tão verosímil] -, passado e presente, interior e exterior. BlacKkKlansman deleita-se em
imagens espelhadas”, indica Mark Kermode, no The Guardian, considerando este o melhor filme do realizador
desde o seu documentário, de 1997, 4 Little Girls.

Mas Maxime Bedini, em Le Bloc du Cinema, vê oo filme com outro solhos: “Visivelmente sem inspiração e
inventividade para servir à nobre causa que defende, Spike Lee cai na armadilha da facilidade. Nem
completamente comédia – tudo o que envolve os momentos engraçados não é interessante -, nem muito
estimulante no plano formal, BlacKkKlansman coloca a sua mensagem em vigor e impede o sujeito de
empregar todo o seu poder cinematográfico”.

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Recapitula João Lopes: “É uma história verídica: baseia-se nas memórias de Ron Stallworth, um polícia negro de
Colorado Springs que conseguiu, através de vários contactos telefónicos, inscrever-se na filial local da
organização supremacista branca Ku Klux Klan, acabando por chegar inclusive a contactar o “chefe de fila” David
Duke e descobrir uma conspiração para lançar ataques criminosos a ativistas negros. O truque consistia em ser
Stallworth, que passava por branco, a manter todos os contactos telefónicos e enviar um agente caucasiano, Flip
Zimmermann, aos encontros em pessoa – um “desdobramento” de personalidade que Lee pinta ao mesmo
tempo como comédia de enganos e tragédia existencial (porque Zimmermann é um judeu não praticante cuja
missão acaba por “acordar” para as complexidades da xenofobia)”.

Sustenta João Lopes que BlacKkKlansman é, por isso, “uma história para os nossos dias em que a xenofobia
ganha terreno mundialmente, e sobretudo para uma América onde a presidência Trump trouxe ao de cima um
racismo que só aparentemente tinha desaparecido. E dizemos aparentemente porque o rasgo de génio de Lee é
o de ir buscar precisamente a imagem que a América tanto gosta de dar de si – a do cinema, a do cinema
clássico – para mostrar como o racismo sempre esteve presente”.

Recorda ainda o crítico: “BlacKkKlansman abre com o célebre plano de grua dos soldados feridos de Atlanta de
E Tudo o Vento Levou que acaba na bandeira esfarrapada dos estados da Confederação sulista cuja secessão
desencadeou a Guerra Civil; invoca abertamente a estilização da blaxploitation dos anos 1970 como apropriação
dos códigos tradicionais do policial para um público específico, “exterior” às convenções. E, num dos seus

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momentos mais extraordinários, pega no Nascimento de uma Nação de D. W. Griffith, obra seminal dos tempos
do mudo que defendia abertamente a segregação racial, filme-pára-raios, recebido como “documentário” pelos
defensores da supremacia branca e como incitação ao ódio por parte dos afro-americanos espezinhados.

Nessa cena, cristaliza-se o programa formal de BlacKkKlansman, entre os gritos de “poder branco” com que o
KKK recebe o filme de Griffith e o “poder negro” com que os jovens universitários exigem serem cidadãos de
corpo inteiro: mostrar como a história da América é também a história do cinema americano. Perante isso,
francamente, é de somenos protestar que BlacKkKlansman podia ter 15 minutos a menos, que a partitura de
Terence Blanchard está fora do tom do filme, que o ritmo abranda aqui e ali – tudo ninharias que não afetam
minimamente a dimensão enorme, furiosa, de um cineasta que tem coisas para dizer e não se vai calar enquanto
não as disser, da maneira que ele quer e sabe, que filma como se tivesse tudo a provar. E que não haja dúvidas
que há cinema em BlacKkKlansman: cinema que é clássico na forma e na construção mas resolutamente
moderno na maneira como reconfigura esse classicismo, como Godard a invocar a Monogram em O Acossado
para dar o pontapé de saída para a Nouvelle Vague. BlacKkKlansman não é pontapé de saída de nada. Não
precisa. Existe. Isso chega.”

BlacKkKlansman – O Infiltrado, de Spike Lee – trailer

Sinopse (Público):

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Colorado, EUA, final da década de 1970. Ron Stallworth torna-se o primeiro detective negro a entrar na polícia de
Colorado Springs, o que não é fácil em termos da forma como é recebido e tratado pelos colegas. Um dia, acaba
por se infiltrar na secção local do Ku Klux Klan, falando ao telefone com os líderes, ganhando o respeito deles e
mandando ir às reuniões em seu lugar um colega que é branco e judeu. Ao mesmo tempo, vai-se apaixonado por
uma líder local dos direitos civis.

Baseado no livro de memórias do próprio Stallworth, uma figura da vida real, um filme entre o drama e a
comédia em que o passado é comparado directamente com o contexto político dos Estados Unidos de 2018. A
realização está a cargo de Spike Lee, enquanto a produção é de Jordan Peele, o realizador e argumentista do
oscarizado “Foge”. No elenco, John David Washington, filho de Denzel, Adam Driver, de “Girls”, Laura Harrier, de
“Homem-Aranha: Regresso a Casa”, e Topher Grace, de “Que Loucura de Família”, no papel de David Duke, líder
do KKK.

Fontes: Cineclube de Joane, The Guardian, Le Bloc du Cinema e Público

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