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MOCAMBO

QUEIMADA
MAIRIZINHO
Comunidades tradicionais
do Parque Nacional dos
Lençóis Maranhenses
Maria dos Milagres e seu Inácio,
moradores de Mocambo

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O POVO DA
MORRARIA
A vida em três comunidades tradicionais
dos Lençóis Maranhenses

POR LUISA PINHEIRO


FOTOS DE HERMANO TORRES

A
areia alva, fina e grudada nos pés é o indício de quadriciclo. Só os habitantes dali têm permissão para
que a pessoa andou pelas dunas do Parque Na- o uso de veículos motorizados nas dunas.
cional dos Lençóis Maranhenses. É a lembrança Primeira Cruz é a segunda cidade mais antiga do Ma-
que os turistas levam do passeio de quatro horas pe- ranhão. Parte de seu litoral é área protegida. Ali há vilas
las lagoas mais conhecidas e parte da rotina de 6.500 de pescadores como o Mairizinho, onde havia fartura de
pessoas que vivem em 42 comunidades nos 155 mil peixe até a chegada dos barcos de pesca de arrastão.
hectares de área protegida. Na morraria, vive uma gente que reconhece o ras-
Alguns desses povoados ainda não têm energia elétri- tro dos outros na terra. Que toma café com tapioca,
ca. A água vem dos lençóis freáticos. Não há postos de com farinha ou com leite mesmo. Uma gente que pre-
saúde e nem de polícia. Para ir ao médico, os moradores cisa de licença ambiental para reformar a casa.
devem ir ao hospital no centro de Barreirinhas ou a São Um lugar onde há apenas verão e inverno. A chuva
Luís, nos casos mais graves. Hoje, muitos têm condições do primeiro semestre enche as lagoas e os rios se o
para comprar veículo próprio – Toyotas ou quadriciclos inverno for bom. A partir de agosto, começa a seca,
– e fazem o transporte entre essas localidades. o vento fica mais forte e as dunas se movimentam.
O povoado nada turístico de Mocambo fica na Onde há pesca, roça e criação de animais soltos.
área rural de Barreirinhas, a maior cidade no entor- Essas atividades prejudicam a conservação da
no do parque e a que mais recebe visitantes. Na vila, biodiversidade e a manutenção íntegra dos ecossis-
ainda não há eletricidade e a areia branca avança em temas. Em especial a criação de bois e cabras. A ve-
direção às casas dos moradores. getação de campos que se forma na área das lagoas
Só é possível chegar ao município de Santo Amaro durante a seca, por exemplo, tem se desenvolvido
em carros de tração 4x4. O acesso ao oásis da Quei- em menor quantidade por conta do pastoreio. A flo-
mada dos Brito é ainda mais difícil. São cerca de oito ra impede que o lençol freático seque em excesso e
horas caminhando pela morraria ou duas horas de também fixa as dunas.

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O MOCAMBO DOS
A morraria passou a se chamar Lençóis Maranhen-
ses em 1981. O parque nacional foi uma proposta do

CATÓLICOS
Projeto RADAM-BRASIL, que fazia o levantamento
dos recursos naturais brasileiros a partir de imagens aé-
reas. Os motivos para a criação da área protegida foram
a beleza exótica do campo de dunas com lagoas sazo-
nais e a necessidade de conservar os ecossistemas locais. As chuvas cessaram no fim de julho. O inverno foi
Todo o manguezal na margem do rio Preguiças fraco, meio espalhado. Nada que se compare à seca da
e parte do que fica a oeste da morraria está fora do década de 70, quando cabô toda a água e o buraco da
parque, assim como a área de dunas conhecida como cacimba ficou mais fundo. No Mocambo, a lagoa do
Pequenos Lençóis. Os limites na unidade de conser- banho que antes dava pé agora bate na altura do pei-
vação são retas que coincidem em vários pontos com to. Quase não se percebe o rio Negro. Há de se pescar
a linha telegráfica da época. Entre 80 e 84, o governo todo o peixe que resta nas lagoas mais rasas antes que
federal criou outros 31 parques para conservar amos- elas sequem. Os alagados diminuem aos poucos. Já dá
tras da diversidade natural do país. de cortar caminho pela vargem e fugir da areia mole.
O órgão responsável pelas unidades de conservação É verão até janeiro.
era o Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal O povoado fica numa península comprida de ter-
(IBDF). Em 1989, foi criado o Ibama (Instituto Brasi- ra fértil cercada por montes de areia alva logo ao sul
leiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Reno- da morraria. É lugar de gente religiosa, sem acesso à
váveis), novo responsável pela gestão das áreas de prote- energia elétrica, que precisa lidar com o avanço das
ção integral. Os conflitos na relação entre fiscais do meio dunas. Os únicos turistas que um dia foram parar ali
ambiente e as populações tradicionais já existiam na estavam perdidos. Um povoado de treze casas. Umas
década de 90 e continuaram após a criação do Instituto de adobe, madeira e telhado de palha, outras feitas de
Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) em 2007. bloco de cimento ou tijolo, cobertas de telha verme-
Esse quadro só começou a mudar em 2009, quan- lha ou brasilite. A distância entre a primeira e a ultima
do uma nova administração assumiu o parque. Agora, é de vinte minutos a pé.
em 2013, deu-se início à criação do Conselho Con- No inverno, o único caminho é pela areia que
sultivo, previsto por lei desde 2000. O conselho é afunda, mole por causa do trânsito quase diário de
um espaço de diálogo entre a sociedade civil, o poder Toyotas e quadriciclos. A partir das 10h, a areia es-
público e o ICMBio. Pode ser o meio de alcançar a quenta até ficar insuportável. Não há chinela no pé
conservação integral do parque conciliada ao modo que aguente. Antes das 15h, as únicas pessoas que se
de vida tradicional dessas populações. atrevem a passar por ali são as crianças que precisam ir
ou voltar da escola. No verão, as áreas alagadas secam
e é possível caminhar pela vargem.
A seca facilita a locomoção dentro da vila, mas as
lagoas vão desaparecendo e fica mais difícil encontrar
peixe. Para chegar até o mar, seria preciso caminhar
cerca de cinco horas. Só não acaba a água do lençol
freático. Onde quer que se instale uma bomba artesa-
nal, sai água pura, avermelhada, fresca em compara-
ção à temperatura ambiente.
De Mocambo até o centro de Barreirinhas, principal
cidade na região do parque, são duas horas de Toyota
num caminho desnivelado de areia entre cajueiros, bu-
ritizais, pés de mirim e alguma roça. A última meia hora
é na estrada asfaltada que liga São Luís a Barreirinhas,
construída em 2002, que impulsionou o turismo na re-
gião. Há carros de linha que fazem esse trajeto três vezes
por semana. Ida e volta custam 25 reais.
Os moradores fazem essa viagem pelo menos uma
vez ao mês para comprar mantimentos, ir ao médico,
visitar parentes ou sacar dinheiro. São as aposentado-
rias e o bolsa-família que garantem a renda da família,
aliados à pesca, a uma tímida agricultura familiar e
à criação de animais soltos, como galinhas, bodes e Seu Inácio foi o único morador do povoado a pedir autorização ao ICMBio
para construir a nova casa, de blocos de concreto e telhas brasilite.
porcos. Tudo para consumo próprio. O sustento vem
também da produção de artesanato do linho do buriti
e de trabalhos temporários em farinhadas pra ajudar
a pagar o café. no teto de palha, denunciando que ele não é trocado
Ali vivem cerca de 60 pessoas. Seu Inácio é quem faz tempo. Sala com várias cadeiras de plástico espe-
lidera, na falta de um padre, o culto dominical no bar- rando a próxima visita. Cozinha com jirau e fogão de
racão da igreja. Os dois moradores mais antigos são seu barro. Um quarto para a família inteira. Uma das ca-
Elóia e Zeca Luna. Ambos perderam a visão do olho mas é usada como estante. Dormir mesmo é na rede.
esquerdo cortando pau na roça. Dona Zima é a profes- O quintal tem vista para um alagado e, logo depois, a
sora da escolinha há 31 anos, e duas de suas filhas tam- morraria. O banheiro feito de palha fica fora de casa e
bém dão aula na região. Todos são parentes, descenden- ainda não tem fossa séptica.
tes de cearenses que fugiram de uma seca mais braba. Desde que seu Inácio foi morar ali, o povo dizia que
José Inácio Luna, de 66 anos, é um senhor alto, as dunas iriam avançar para o sítio que foi de seus avós.
grisalho e conversador. É casado com Maria das Ro- Isso já faz quase 40 anos. Cresceram os pés de coco, os
sas, a dona Dodó, de 62. Eles nasceram, se criaram e de buriti e os de juçara. A duna que vinha foi levada
vivem no Mocambo. São primos legítimos. O padre pelo vento para outro lado. Se o morro que tá atrás da
de Santo Amaro sabia de antemão da condição de pa- casa vier, esse num chega aqui antes de eu morrer, ele diz.
rentesco e mesmo assim casou os dois há 41 anos. Na entrada, há telhas, sacos de cimento e blocos
Não sem dar a devida penitência: durante seis dias, de concreto esperando a construção da nova casa. A
eles teriam que rezar seis vezes o terço ajoelhados no reforma estava marcada para o começo de outubro,
altar às 18h, quando a igreja estivesse cheia. Mas o mas foi adiada desde que seu Inácio descobriu que
pecado é todo tempo, porque fica junto, né? precisava fazer uma angioplastia. Ele fez o procedi-
Eles moram no sítio mais próximo da morraria com mento pelo SUS em setembro e ficou internado por
o neto José Joaquim, de 9 anos, a filha de criação Maria uma semana em São Luís. Desde que voltou, dona
dos Milagres, de 15, e Dona Zezé, uma das irmãs de Dodó fica de olho para que o marido repouse, mas
Dodó. Tiveram nove filhos, morreram dois. Todos já ele sempre dá um jeito de escapar para trabalhar na
têm família e moram ou em Barreirinhas ou em outros lavoura enquanto ela está cozinhando.
povoados da região. Seu Inácio reclama que hoje não Seu Inácio tinha 60 anos quando foi ao médico pela
tem nenhum perto pra gritar Meu filho! e ser atendido. primeira vez em Barreirinhas. Era muito difícil você ver
As paredes da casa são de adobe, o chão é cimento. doença em criança, ni mulher e ni gente grande. Fui me
Dá pra ver vários exoesqueletos de aranha pendurados consultar ali a primeira veiz por causa de uma verruga

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N
que saiu na minha coxa. Dona Dodó só foi neste ano, ão passa das oito horas da manhã e o sol ainda
por conta de uma alergia na perna que não sarou depois está frio, mas seu Inácio veste camisa de mangas
do tratamento caseiro com folha de janaúba. As pessoas compridas e um chapéu que cobre todo o rosto
do tempo antigo tem saúde porque foram criadas com para me levar até sua roça. Maria dos Milagres e Ra-
o pé na areia. Era tudim nu. Comia terra, fazia o diacho. bito, o cachorro da família, nos acompanham. Para
Dona Dodó sabe vários tratamentos naturais. Um chegar até o primeiro cercado, é preciso atravessar um
deles é o do sapo cortado, que funciona para todos alagado. Seu Inácio levanta a barra da bermuda. Uma
os males. O bicho deve ser cortado do bumbum até o aranha pega carona na sua perna durante algumas
meio da barriga e amarrado no lugar da doença. De- passadas, mas ele nem percebe. O primeiro roçado é
pois de um tempo, deve ser trocado por outro. Aqui basicamente de capim, que serve como alimento para
noisi cura com sapo e bendição. Se a doença for muito os animais. Lá, ele aproveita para encher uma saca
braba, com meia hora ele já tá pôdi, fedendo. Se o sapo com a ração antes de seguir para o outro lado.
cantar depois de ser retirado, a pessoa não resiste. Subimos algumas dunas e seu Inácio conta que
Fiz ali prum cumpadi meu, nós botemo foi três. Ô meu onde agora há areia era um matagal medonho de tu-
Deus, pessimidade doida. Eles cantavo tudinho, aí nos cum, cajueiros e mirinzais. Os morros passaram por
fiquemo logo assombrada. cima de tudo. Pouparam o cercado, moldando um
Ela aprendeu esse método com uma parteira de pequeno oásis, onde se planta mandioca, melancia,
antigamente, do tempo em que as mulheres tomavam arroz e milho. Restaram também algumas árvores so-
cachaça com unha de boi e osso de mucura na pre- breviventes e as lagoas que enchem a cada inverno.
paração para o parto. A mulher tinha o filho deitada Na volta, seu Inácio e Milagres param nos mirinzais
numa esteira de palha de coco que machucava as cos- carregados do pequeno fruto preto que lembra uma
tas. Durante uma semana, ela não podia nem sair do azeitona. É em setembro que se inicia a época dos
quarto, comendo frango capão e pirão. A mãe só saía frutos. Enchem as mãos e colocam todas na boca ao
para banhar depois de onze dias. Ficava limpinha a mesmo tempo. A cena se repete até que o calor os
barriga. Inteirava trinta dia, tava gorda que só. Leite incomoda, já são quase dez da manhã.
até no meio da canela. A gente tinha coragem, mermã. O vento também poupou até há pouco a casa de
Tive nove filho, nunca fui no hospital. Graças a Deus. seu Zeca Luna, de 87 anos. Ele é tio de seu Inácio e

É necessário cruzar dois alagados e subir algumas dunas para chegar às roças de seu Inácio. As folhas da mandioca ficam murchas devido ao calor intenso.
Ele também planta capim para a ração dos animais e melancia, que não cresce muito e tem um sabor quase salgado.

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de dona Dodó. Ficou viúvo há seis anos e mora com a
caçula, o genro e cinco netos. Perdeu o olho esquerdo
em decorrência de um acidente na lavoura. Seu Zeca
fala pouco e devagar. A filha Luzia, de 45 anos, ante-
cipa algumas de suas respostas. Tá com trinta anos que
aconteceu. Ele roçando dia de sábado, cortou o pau e,
quando viu, o pau tava no olho. E nesse tempo nem foi
pra São Luís. Foi pra Barreirinhas. Não foi, pai?
Há dunas por todos os lados. A mais próxima está
a cerca de dez metros da entrada lateral que dá para
a cozinha. Pra esse morro chegar aqui foi uns três anos
ou antes. Ele custa. Quando tem morador, custa mais.
Era lonjão quando eu era pequena. Seu Zeca concorda. Depois do almoço especial com galinha caipira e refrigerante quente, Dona
Zima e suas cumadres assaram bolos no forno de barro.
Agora que a duna tá bem aí, o jeito é se mudar. Pra
frente. Mas só vai começar a construir quando a areia
bater na porta. Falta pouco. Este ano o vento já está apresentar em voz alta. Tudo sem tirar os olhos dos
jogando mais terra do que no ano passado. Tá entrando marimbondos que construíram uma casa no barracão
dentro de casa já, avalia o marido de Luzia. da escola há algumas semanas. Até o quinto ano, a
Rosimar, de 30 anos, bem que tentou fugir desse turma é mista. Os mais velhos estudam no povoado
problema quando construiu sua casa. A sobrinha de vizinho de Buriti Grosso, da cidade de Santo Amaro,
seu Inácio é quem dá aula de catequese para as crian- que tem até o ensino médio.
ças do Mocambo. O lugar antes era só mato. O ma- Quando Dona Zima chega acompanhada de sua
rido dela, José Fábio, roçou, cortou as árvores, tocou neta mais velha, uma das filhas de Rosa, todos pedem
fogo e alimpou. Por dois anos o casal e as três filhas bênção. Ela é uma senhora morena de cabelos encara-
moraram numa casinha de palha. De palha mesmo, colados e bem pretos. As crianças mostram orgulho-
até a parede. Em 2009, construíram uma de tijolos e sas suas unhas limpas e cortadinhas. No dia anterior,
telha vermelha, uma casa como a de qualquer outro ela checou os dedos dos meninos e deu uma bronca.
interior maranhense. Como é que pode esses mininos andarem com as unha
O sítio fica no extremo sul do povoado. Seria o tudo suja? Ela explica, então, que não haveria conte-
mais longe da morraria se as dunas não tivessem avan- údo novo naquele dia. Rezam o pai nosso, cantam o
çado pelos dois lados das casas, transformando o Mo- hino nacional. Brincam de jaca-jacaré, uma variação
cambo numa reentrância. É, a gente se enganou. Por de vivo ou morto. Fazem um bingo de palavras. Cada
que já olhou ali? Rosa aponta para a janela a minha um lê um trecho de livro a sua escolha. A professora
esquerda. Não vê o morro pertinho? Não tem como fugir encerra a aula e não são nem dez horas.
não. Perto não está, mas a areia pode ser um incômo- No caminho de volta, ela me mostra por onde
do algum dia. Ou, se seguir a lógica de Zeca Luna, vai passava o rio Negro. Ele nasce num povoado próxi-
custar ainda mais porque há pessoas morando. mo, atravessa a morraria e desemboca no mar. Foi essa
Rosa vai a cada quinze dias a Barreirinhas para a referência para a divisão dos municípios de Santo
terminar o supletivo do ensino médio. Ela voltou a Amaro e Barreirinhas. Há casas dos dois lados, mas o
estudar recentemente para assumir a escola de Mo- povoado pertence mesmo a Barreirinhas. Tem uns três
cambo quando a mãe se aposentar. Luzimar, de 52 ou quatro anos que o rio secou, não correu mais por
anos, é a professora da Unidade Escolar Silvamar há causa das dunas. O morro tapou e agora o rio passa
31 e se orgulha da futura aposentadoria por tempo de pelo Buriti Grosso. Onde antes havia fartura de peixe
trabalho. Teve seis filhos, nunca casou. Ficou sozinha o ano inteiro, corre apenas um filete de água escura.
depois que a mãe dela e de seu Inácio faleceu. Hoje Dona Zima conta que tinha muito negro na época
mora apenas com o caçula, único filho homem. dos primeiros moradores. Eles vinha e se escondia, aí
botaro o nome de Mocambo. Depois não ficou nenhum,

É
porque eles vão embora quando o lugar começa a crescer.
a véspera do 7 de setembro e dona Zima, como O povo diz que aqui nunca vai nada pra frente porque é
Luzimar é chamada, esqueceu de avisar a seus mocambado. Mas tem que desemborcar, né? Emborcado
alunos que seria feriado. A aula começa às sete se diz do povoado que não vem nada, que o povo não se
e meia, mas as crianças fazem questão de chegar pelo interessa por nada. É o povo do lugar que faz emborcar.
menos vinte minutos antes. Uns copiam adivinhações A casa de Dona Zima é nova, foi reformada ano
de um livro. Outros treinam a leitura que terão que passado. Há duas cozinhas. Uma fica na parte de den-

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tro da residência, tem fogão a gás e pia com torneira.
A outra, anexa ao quintal, é a mais usada. Com jirau,
fogão de barro, mesa de vários lugares e uma rede feita
de fibra de buriti. O telhado é de madeira. A galinha
caipira do almoço ficou por conta de Rosa e Miriam,
a filha caçula, enquanto Dona Zima me falava sobre a
escola do Mocambo.
Óia, esse colégio ele já passou por muito lugar. Eu
ensinava num barracãozinho feito de faxina [um estilo
de trançado na madeira] lá na casa de seu Elóia, que
era meu cunhado, depois na casa do Inácio e de lá eu me
mudei pra igreja. E aí fizeram aquele barracãozinho da
escola. Ele tava pra cair. Caiu calçada, caiu reboco. A
reforma foi ano passado e agora tá aquele jeitinho mais
ajeitadinho. Mas não tem banheiro, é muito ruim.
Junto com a reforma, veio a instalação de uma pla-
ca solar, a única fonte de energia do povoado inteiro.
Tudo doação da Igreja Batista de Barreirinhas, que
desde então celebra um culto uma vez ao mês ali no
Mocambo, uma comunidade inteiramente católica.

E
ra a manhã de 8 de setembro. Domingo, dia de
reunião no barracão da igreja. Seu Inácio recla- Toda visita em Mocambo termina com a pergunta: Você vai no domingo lá
no barracão da igreja?
mava com dona Dodó. A camisa que ele queria
usar estava na casa do filho em Barreirinhas, mas acei-
tou vestir outra com botões dourados junto com a cal- tudinho. Ela tentou avisar seu Inácio na véspera, mas
ça comprida. Levou o sapato social na mão porque no não conseguiu ligar para ele. No Mocambo, o celular
caminho há de se passar por um alagado. Saiu cedo só funciona se estiver conectado a uma antena, mas o
de casa com o neto Joaquim para varrer o barracão e as sinal não é constante.
folhas da entrada. Maria dos Milagres foi depois para O povo não queria ir depois de passar o domingo
organizar as cadeiras. O povoado estava ansioso para anterior esperando em vão. Não avisaram com ante-
se reunir e rezar. Na semana anterior, haveria o culto cedência, agora eles não iriam cancelar a celebração
evangélico, mas o pessoal de Barreirinhas não apare- católica. O pessoal de Barreirinhas que fosse até lá.
ceu, nem mandou recado. O povo de Mocambo pas- O culto não é realizado na igreja porque há um pe-
sou a manhã inteira esperando no barracão da escola. queno altar com uma estátua da Virgem Maria e dois
Numa comunidade onde até os mais novos dizem retratos de santo na parede. Seu Inácio foi enfático.
que graças a Deus ali não é uma terra de vícios, os mora- Não senhora, não entre nessa. Vá buscar o seu povo. Esse
dores ficaram apreensivos quando os evangélicos apa- povo que tá aqui é que não quer ir pra lá, porque aqui é
receram da primeira vez. Eles aceitam até certo ponto a casa das nossas orações. Nos não podemos ir pra lá. Vá
a influência evangélica e garantem que a pastora Sueli buscar o seu povo.
não vai conseguir levar ninguém do Mocambo pra Houve uma celebração mista: cantos católicos pu-
igreja dela. A fé no catolicismo permanece inabalada. xados por dona Dodó, a liturgia da palavra, cantos
Seu Inácio foi quem defendeu a aproximação da Igre- evangélicos com coreografia e a coleta. Dona Sueli foi
ja Batista. Jesus Cristo disse assim: “Eu sou o bom pastor convidada a pregar após a leitura dos salmos. Ela leu o
e minhas ovelhas conhecem a minha voz”. Eles vêm com 128 puxando os erres com um sotaque do interior de
paz. Vamo acolher eles também com paz. Agora se eles São Paulo: Bem aventurado aquele que teme ao Senhor
chegarem diferente, dizendo que a gente tem que entrar e anda nos seus caminhos. Pois comerás do trabalho das
na seita deles, aí, companheiro, então não venham mais, tuas mãos; feliz serás, e te irás bem.
tchau e terminou-se a conversa. No meio de uma longa pregação sobre como Deus
Naquele domingo, dona Sueli apareceu de surpre- valoriza o homem que trabalha, ela contou uma piada
sa no barracão da igreja. Chegou meio cismada, con- de um baiano que preferiu morrer de fome deitado
vidando todo mundo para acompanhá-la até a escola, numa rede do que plantar arroz. Todos riem. Sueli
dizendo que o culto seria lá. Vamo, siô, o carro cabe tem marido maranhense e mora em Barreirinhas há

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três anos. Perguntada se ela tem algum tipo de pre- filho de outras terras e se casou com uma irmã de seu
conceito contra nordestino, ela desconversa e sobe na Inácio e dona Zima. Dona Joana faleceu há três anos
Toyota alugada rumo a outra celebração no povoado por conta de um vento ruim e hoje seu Elóia mora
vizinho de Boca da Lagoa. com uma neta de 13 anos que cuida da casa. Mas não
Seu Inácio assume o papel de líder religioso da co- desistiu de arranjar uma mulher. Está disposto a pagar
munidade. Sempre conduz a celebração de domingo 100 reais e a deixar o sítio de herança para quem casar
e é famoso por suas bênçãos. Um tempo desse veio 25 com ele. Fã do cantor paraense Pinduca e de Frank
pessoa lá de São Luís pra mim benzer eles aqui. Eu co- Aguiar, tem olhos azuis, anda sempre sem camisa e
mecei era uma hora da tarde. Deu seis hora e eu não com um chapéu preto rasgado. Não enxerga direito
terminei de benzer eles não. Deixei pro outro dia. Um de um dos olhos, porque sofreu um acidente na roça
sábado depois de dar aula de catequese para as crian- parecido com o de seu Zeca Luna.
ças, Rosa apareceu na casa do tio pedindo pela bên- Elóia é o único dali que tem uma geladeira movida
ção. Deixou as filhas na cozinha e foram os dois para a gás. A gente gasta pra disgranha. O gás é 65 reais. O
a frente da casa, onde o ritual foi feito em privacidade. meu filho Zé Maria tem, um rapaz bota ele pra vender.
Na mesma semana, uma irmã de Rosa que mora em Mas na Barreirinha é 52. O bujão dura vinte dia. É que
Barreirinhas e que voltou a frequentar a igreja recen- aqui não é só eu. Os filho tudinho bota água pra gelar. E
temente, ligou para seu Inácio. Passaram quase vinte aí veve cheia de água, de carne, de peixe, aí gasta muito,
minutos orando à distância. gasta ligeiro.
Foi Zé Maria, o Curía, de 41 anos, quem vendeu

N
as lâmpadas e as baterias para os parentes. É o
a mesa alumiada pela única lâmpada da casa, camelozêro do interior, vende gasolina, gás, roupinha,
pendurada exatamente entre a sala e o quar- tudo para inteirar o bolsa-família. Esperando a
to, Milagres lê em voz alta uma passagem da eletricidade, comprou geladeira e televisão há cinco
Bíblia. É o capítulo quatro do evangelho segundo anos. A geladeira ele revendeu. Às vezes assiste TV
Mateus, quando Jesus é tentado no deserto por Sa- no barracão da escola, mas a energia é frágil e usada
tanás depois de jejuar por quarenta dias e quarenta principalmente para carregar os celulares das famílias.
noites. Seu Inácio e Dona Dodó iniciam uma longa Os moradores de Mocambo entraram com o pe-
conversa sobre o texto. Eles discutem sobre religião dido para instalação da rede elétrica junto à Compa-
todas as noites depois de jantar. Joaquim está dormin- nhia Energética do Maranhão (Cemar). O cadastro
do numa rede e Milagres não presta muito atenção, para ligações novas foi feito, mas não saiu do papel
está bocejando. Já são é oito e quarenta e cinco! do papel porque a área é de preservação ambiental.
Seu Inácio não dá fé pro comentário. Se tivesse luz, O chefe do Parque Nacional dos Lençóis Maranhen-
tu ficava acordada era até onze hora fazendo sacola. ses, Adriano Souza, um paulista que trabalha no Ins-
Vendo novela!, sussurra ela. tituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio)
Cada família tem uma lâmpada como a da casa de desde 2009, explica que não é proibido colocar ener-
seu Inácio. Essa luz é movida a bateria, carregada uma gia no parque. É ilegal instalar a rede elétrica sem
vez por mês em povoados vizinhos que têm energia fazer o licenciamento ambiental.
elétrica. Quando ela não funciona, a rotina da casa não A Cemar colocou uns fios na Venca, povoado de Santo
muda muito. Como só há a lâmpada fixa, eles dependem Amaro, e a gente deu uma multa pesada. Mas eles sabem
principalmente das lamparinas a óleo feitas em pequenas que não é proibido. Até porque na multa a infração foi
garrafas de refrigerante ou de creme para o cabelo. instalar empreendimento sem licenciamento ambiental.
Mocambo é um dos poucos povoados na região Agora eles estão fazendo o licenciamento para algumas
dos Lençóis Maranhenses que ainda não tem eletri- áreas já, no povoado do Cedro e no Atins, explica.
cidade. Os vizinhos de Boca da Lagoa, também do Cabe à prefeitura providenciar a iluminação públi-
município de Barreirinhas, e de Buriti Grosso, em ca. Adriano critica que em época de campanha elei-
Santo Amaro, possuem energia elétrica há mais de toral os políticos chegam até as comunidades com o
dois anos. Nunca foi feito o estudo para implantação discurso de que não podem fazer nada para resolver a
da rede, mas os moradores especulam que seria mais situação porque se trata de um parque nacional, mas
fácil a energia chegar da Boca da Lagoa por estar mais não entram com nenhum pedido junto ao ICMBio.
perto e que seria necessário no máximo um quilôme- A gente queria muito que o prefeito comparecesse na
tro de fiação até a primeira casa. nossa comunidade, porque aqui ele tirou 50 votos. Então
Num é possívi que agora num vem energia pra nós. é sabedor que aqui não tenha energia. A gente fez um ca-
Agora tá liberado, num tá? Só o que falta mesmo é só drastro com o pessoal da Cemar, mas esse povo se atraves-
nosso lugar aqui, reclama seu Elóia, de 86 anos. Ele é sava dizendo que aqui não podia. Aí entrou a política,

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os candidato dizia que iam brigar pra trazer a energia. dade de em algum momento serem atormentadas pelos
Aí eu ainda fiz um crime. É o que conta seu Luís, de funcionários do meio ambiente que, sem muita experi-
55 anos, filho mais velho de seu Elóia e herdeiro de ência prática, tentam levar os códigos ao pé da letra sem
seus olhos claros. refletir quais são as alternativas. Como o caso da obra
Falaram para ele que quem pudesse ir alimpando, das capelas que foram embargadas nos povoados
que alimpasse. Que quando dissessem os postes tão de Boca da Lagoa, Lagoa da Esperança e Queima-
aqui, já era para botar. Ele forçou um bocado de pé de da Grande. Todas construções sem o licenciamento
mirim, desgalhou tudinho, ajeitou, só faltava derribar ambiental obrigatório
os pé de buriti de seu Inácio. E até hoje nada. Mas aí O argumento da assistência técnica continua. O
você é uma pessoa que vai falar também a respeito dessas governo poderia implementar um programa, sugere,
questão que a gente tem, que aqui tá precisando e o povo para ensinar a população a criar abelhas e cabras leitei-
quer porque quer. Todo mundo quer energia aqui. ras, produzir leite, fazer queijo, doce de caju, cajuína.
No escritório de sua casa na sede de Barreiri- Seria uma maneira de fazer com que eles próprios se-
nhas, Léo Costa (PCdoB), prefeito desde o início jam uma salvaguarda do parque. Assim, os moradores
do ano, diz que falta pouco para a eletricidade che- teriam um papel conservacionista. Acho que a gestão
gar em comunidades como a de Mocambo. Mas do parque está muito voltada para o aspecto ambiental
não destaca isso como uma melhoria significativa em si. É importante, mas tem o aspecto econômico. As
na vida das pessoas. Muitas vezes a energia até chega, famílias têm que se sustentar.
mas o que fazer com ela? É claro que é um grande

O
fator de desenvolvimento econômico e de acesso, mas se
você não sabe usá-lo pra melhorar o seu rendimento, Instituto Chico Mendes, vinculado ao Ministé-
você fica na mesma. rio do Meio Ambiente, administra as Unidades
O político é filho de Barreirinhas e estudou lá até de Conservação federais. No caso do Parque
o primário, quando a cidade ainda não tinha calça- Nacional dos Lençóis Maranhenses, é responsável
mento. Na época, havia apenas uma usina geradora pelo controle do uso público dos atrativos turísticos –
de energia a diesel que funcionava das 18h às 22h. É o fiscalizar se os carros e os motoristas estão credencia-
mesmo você morar numa casa pobre com energia ou mo- dos, por exemplo –, pelo combate à pesca predatória
rar numa casa pobre sem energia. A que tem energia pelo e pelo controle das práticas tradicionais. A reforma de
menos pode comprar uma geladeira com o dinheiro do uma casa, a abertura de uma nova roça, a construção
bolsa-família, mas o que que vai botar dentro da gela- de um açude, tudo precisa de autorização.
deira? Gela água e algum peixinho, alguma carnezinha. Seu Inácio foi o único do Mocambo que pediu
Não deixa de ser um conforto, mas não está à altura do autorização ao ICMBio para construir a casa nova.
que precisa. Dentro do escritório, o ar-condicionado O contato foi através do Sindicato dos Trabalhadores
está ligado a 20 graus para amenizar o calor costumei- Rurais de Barreirinhas. Umas pessoa dizia: “Siô, faz tua
ro das três da tarde. casa. Tem nada a ver com Ibama, rapaiz”. Maisi existe
Ele defende que as populações da região do parque uma lei de respeito, nós têm que respeitar. O Instituto
precisam é de um sistema de assistência técnica e Chico Mendes foi criado em 2007 após uma rees-
extensão rural aliado a uma melhoria na educação truturação do Ibama, mas os moradores continuam
para progredir. Um trabalho conjunto dos poderes se referindo ao órgão pelo antigo nome. No final de
federal, estadual e municipal com o próprio ICM- agosto, o chefe do parque Adriano Souza foi até lá
Bio. É a opinião que seu Léo tem para as populações com o analista ambiental Yuri Nogueira. Fizeram a
de dentro e de fora da área protegida. As famílias do vistoria, tiraram fotos e liberaram a reforma. Agora só
parque, diferentemente das outras, têm essa especifici- falta buscar o documento na Barreirinhas.
Dona Zima nem cogitou pedir a autorização. Nem
sua filha Rosa, sua cunhada Celina, seu sobrinho Isma-
el ou seus irmãos Valdo e Raimundo. Marrapá se eu vou
dar chance pro Ibama. Vou dar não... Se eles viesse pra cá,
eu digo: óia, eu num ia morar no sol, eu num tinha mari-
do pra fazer minha casa. Eu ia ficar debaixo do pé de pau?
A professora fez dois empréstimos, um de 9 e outro de
11 mil reais, para pagar a reforma. Mandou derrubar a
casa de adobe e palha. Optou pelos blocos de cimento e
telha para não ter que arranjar quem tirasse palha para
cobrir o telhado de tempos em tempos. Quem que eu ia
pagar pra tirar palha? Pra botar palha?
A restrição é em relação à construção, indepen- A época do mirim começa a partir de setembro. As crianças do povoado
passam horas debaixo do sol colhendo a fruta de sabor azedo.
dentemente do material escolhido. Sei que tem mesmo
um boato que corre na boca do povo que casa de barro
pode e tijolo não pode, mas é lenda isso daí. Ou pode ros. No Mocambo, quando se escuta um barulho de
construir ou não pode, esclarece Adriano Souza, do carro, alguém faz a piada ó, é o Ibama que vem aí por
Instituto Chico Mendes. Quando os moradores não causa desses passarinhos piando. Os fiscais do ICMBio
solicitam a vistoria antes da reforma, o ICMBio faz a exigem que os animais sejam soltos ou registram a in-
notificação. Se a pessoa desmonta a casa dela todinha fração. Mesmo sob risco de levar multa, os moradores
e começa a fazer outra, não dá pra saber se tinha uma continuam prendendo periquitos, sabiás, caburés e
casa lá. Quando a gente constata uma infração, a gente outras espécies da região. Os passarinhos são vendidos
dá a multa. Depois na defesa é que ela vai me dizer se já ou mantidos como bichos de estimação.
tinha a casa, com testemunhas e tal. Apesar de criticar a atuação do ICMBio quanto às
Em visita ao povoado de Buritizal dos Felipe, pelos construções, Dona Zima reconhece o papel deles na
lados de Santo Amaro, o chefe do parque constatou preservação do meio ambiente. Mamãe contava que
que muitos moradores estavam construindo sem a aqui tinha veado, cutia, paca, tatu. Até camelo diz que
permissão. Procurou, então, a liderança da comu- tinha, zebra, todos os tipos de animais. Aí quando foi
nidade para marcar uma reunião com todo mundo, aumentando a população, foi desmatando muito, os ani-
explicar quais são as regras e aproveitar para autorizar mais foram saindo. Tudo tinha, fia, e ainda tem. Porque
os que já começaram a construir. Não tem ninguém de agora tem essa proibição. Não pode mais desmatar assim.
maldade ali. O objetivo mesmo é evitar pessoa de fora Se não fosse o Ibama, não tinha mais nada não. É o que
que constrói dentro [da área do parque]. A gente não ela aponta como a única coisa que mudou desde a
pega no pé dessa galera não. Não sei porquê o pessoal criação do parque. Dona Zima não sabe exatamente
cisma com a gente. Dificilmente a gente multa um mo- quando foi, mas se lembra que o pessoal do Ibama foi
rador assim, é quase impossível. até lá em algumas reuniões com os moradores quando
Só há notificação por fazer novas roças quando os Lençóis Maranhenses passaram a existir.
a própria comunidade denuncia casos extremos de Padre Vale, o atual secretário de meio ambiente de
queimadas ou desmatamento. Mas não é assim com Barreirinhas, critica a forma antidemocrática da criação
os açudes, por exemplo. Sempre se aplica a multa. do parque em 1981. Ela é uma unidade de conservação
Nenhum foi liberado até agora para evitar que espé- criada de cima pra baixo e que não levou em consideração,
cies de peixes exógenas prejudiquem os ecossistemas sobretudo, o dado de população. Luis, filho de seu Elóia,
locais. Uma prática conflituosa é a captura de pássa- conta que o então governador João Castelo vendeu os
Seu Elóia, 84, se orgulha de ser a única pessoa dali que tem uma geladeira e sempre oferece água gelada para as visitas. Viúvo há três anos, está disposto a
pagar 100 reais de dote e deixar o sítio como herança para a mulher que se casar com ele.

A casa de Dona Zima foi reformada no ano passado, mas ainda precisa ser inaugurada. Falta fazer o reboco das paredes e pintar as portas.
Toda família tem uma antena como essa para que o telefone celular tenha sinal.

12
O jirau é uma espécie de mesa de madeira para lavar a louça. A água escorre pelo espaço entre as tábuas. Mesmo nas casas onde há pias e torneiras, as
pessoas preferem usar a cuia e o balde.

Há dois anos, o rio Negro parou de correr pelo Mocambo por conta do avanço de uma duna. Durante o inverno, ele fica mais cheio. Nada que se compare aos
tempos em que os moradores pescavam ali o ano inteiro. Esse é o limite entre as cidades de Santo Amaro e Barreirinhas.

13
terrenos da morraria. É a versão dele para a desapro- veria ser regulada por termo de compromisso. Uma
priação das terras pelo Estado. Vendeu pra esses outro espécie de contrato de um ano com prazo adiável, le-
povo que queria essas área aqui. Por causa da buniteza. galizando as práticas tradicionais.
E nós que morava desde esse tempo, nem sabia que exis- Eu só me queixo dos meus pai, dos meus avós. Quem
tia essas coisa. Segundo Dona Dodó, foi o senador José sem pensar me fizeram ingratidão. Pegaro a terra e ven-
Sarney quem escolheu o nome Lençóis Maranhenses. dero aos fazendeiro. Hoje os herdeiro são filho dos tuba-
Veio então o povo que tinha comprado, ou o Ibama, rões. Meu amigo, meu irmão, ocupe a terra... O ICMBio
para demarcar o território. Depois houve as reuniões deve fazer também o levantamento de benfeitorias de
entre os sindicatos, autoridades e representantes dos cada terreno para a futura indenização. É um primeiro
moradores. Falavam a respeito do que a pessoa podia se passo para o processo de retirada das famílias. O de-
aprevinir. Se eles chegasse aqui e dissesse pra ocê sair, os creto que regulamenta o reassentamento estipula um
morador se reunir e gritar. Porque de repente eles podia prazo de dois anos para a implantação do termo de
chegar e dizem assim: “Xô, que aqui não é de vocês”, compromisso em áreas protegidas com moradores. A
continua seu Luis. lei é de 2002. O processo foi enviado ano passado à
Seu Inácio foi a um desses encontros em Santo sede do órgão em Brasília, mas havia uma orientação
Amaro há treze ou quinze anos. Tinha umas 500 pes- do Ministério do Ambiente para impedir a implanta-
soas, ele conta. O Ibama, os moradores do parque, ção dos termos e só deve ser liberado em 2014.
políticos da região. Durou dois dias. No encerra- O problema, diz Adriano, é como as comunidades
mento, um deputado da época bateu na mesa e dis- reagem a essas ações. O Instituto Chico Mendes co-
se: Olha, pode custar dez anos, pode custar vinte, pode meçou um mapeamento das populações tradicionais
custar trinta ano, maisi esse parque tem que ser limpo para conhecer melhor a realidade do parque. Só foram
de gente. O povo começou a reclamar, a questionar coletados os dados de Ponta do Mangue e do Santo
para onde iriam todas aquelas pessoas. E ele comple- Inácio. Os próprios moradores pediram a interrupção
tou que as pessoas que têm suas prantação, têm suas casa do trabalho com medo de que fossem tirá-los de suas
boa, vão sair com uma condição. Mas vai ter uns que terras. Adriano nunca foi informado de nenhum pla-
nem dinheiro pra comprar uma corda pra morrer enfor- no do governo para remanejar as famílias do parque.
cado num vai ter. Seu Inácio ri ao lembrar da história. Mas a gente aqui é peão de Brasília. Quando disserem
A memória dele é bastante seletiva. No final da que têm o dinheiro para indenizar todo mundo, vamos
década de 80, participou de uma reunião no Palácio ter que fazer o processo.
dos Leões, a sede do governo estadual em São Luís, Para o prefeito Léo Costa, o governo não tem nem
com a Fetaema (Federação dos Trabalhadores e Tra- dinheiro e nem capacidade técnica operacional para
balhadoras na Agricultura do Estado do Maranhão), remanejar as populações. No fundo eu acho tolo esse
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barreirinhas e desencontro de funcionários do parque em querer que ele
políticos como Domingos Dutra (atualmente depu- seja um parque sem gente dentro. Afinal, antes dele ser
tado federal), Albérico Filho (ex-prefeito de Barrei- criado, essa gente já morava lá. É a população que tem
rinhas) e o governador da época, Epitácio Cafeteira uma precedência sobre aquele espaço. Eu não digo nem
(hoje senador). Ele lembra com detalhes da piada que que eu sou contra que as famílias saiam do parque, que
contou antes da reunião começar sobre a primeira vez elas não vão sair. Elas não querem ir, porque o umbigo
que ele usou um telefone, mas não sabe mais o que foi delas está lá. E não tem pra onde elas irem.
discutido com as autoridades. Na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Até nessa época, a gente tinha um canto que a gente Barreirinhas, há um mapa que mostra todos os acam-
cantava. Eu até me esqueci. Era um cântico penoso. Xô pamentos rurais da região. A área do município é
ver aqui... Ele faz como quem esqueceu da letra, mas quase o dobro da cidade de São Paulo, mas já existem
recita afinado: Meu amigo, meu irmão, ocupe a terra. 57 assentamentos estaduais e três federais. De acordo
Quem fez a terra foi Deus pai o criador. Deus fez o céu, com o presidente do sindicato Chico Faria, todos es-
fez o mar e fez a terra. E fez o hômi, entregou com muito tão lotados e há pouco espaço disponível no território
amor. Em unidades de conservação como o Parque de Barreirinhas.
Nacional, a permanência das comunidades tradicio- E a gente fica aqui pensativo, não é? Nós mesmo temo
nais não é permitida. O governo deve realocar e in- casa ni Barreirinhas, mas tem outros companheiro que
denizar essas populações pelas benfeitorias existentes. nem tem área em lugar nenhum. Se no caso querer ti-
Deus disse ao hômi: esta é a minha terra. Que eu lhe rar noisi daqui, com tanto tempo que a gente mora, pra
dou para você trabalhar. Para da terra tirar o alimento. onde a gente vai? Seu Inácio, essa é uma pergunta que
A terra é minha, não é pra negociar. Enquanto não se nem Léo Costa, nem Chico Faria, nem Adriano Sou-
inicia o reassentamento, a presença das famílias de- za sabem responder.

14
A FARTURA NO
OÁSIS TURÍSTICO
Bargado Brito, de 38 anos, voltou para casa no final
da manhã trazendo um cofo cheio de jacundás, bicu-
dos e piabas de uma das lagoas da morraria. Todos de
no máximo quinze centímetros. Entregou o pescado
numa caixa de plástico para seu filho mais novo, en-
carregado de fazer uma primeira limpeza. O menino O peixe de água doce cozido quase sem tempero é o cumê do dia-a-dia.
Em toda a região da morraria, o caju é acompanhamento do almoço.
estava sentado no quintal arenoso e, concentrado,
raspava as escamas com a faca. Depois que fez isso
com todos, recomeçou o trabalho. Dessa vez, tirando nhar dele. Até hoje se fala da fartura das festas que ele
também as tripas e as ovas. dava. Segundo seu Raimundo, o pai tinha cinco mil
Dona Maria, a esposa de Bargado, não esperou cabeças de carneiro. Enchia dois currais com o animal
e preparou uma galinha caipira para o almoço. e a quantidade pastando na duna ainda parecia a mes-
Os peixes foram para a salmoura, solução de água ma. As criações de Zeca Luna, também do Mocambo,
saturada de sal. Quando a comida ficou pronta, ficavam junto com as do patriarca da família Brito.
acordaram o turista gaúcho que dormiu logo após Ele tinha um bucado de coisa. Mas quando morreu se
chegar da caminhada de aproximadamente sete acabou tudinho. Ninguém sabe por quê não.
horas até o maior dos dois oásis que existem no Raimundo, de 58 anos, é o único dos doze filhos
meio do campo de dunas dos Lençóis Maranhen- de Manoel Brito que ainda mora na Queimada. As
ses, a Queimada dos Britos. mulheres normalmente se mudam para o povoado
A comunidade pertence ao município de Santo Ama- de seus maridos. Os homens vão para as cidades em
ro, a aproximadamente 243 km de São Luís. Há onze ca- busca de melhores condições de vida. Alguns voltam,
sas, divididas entre a Queimada dos Britos e a Queimada como seu Raimundo. Ele estudou por um tempo em
de Baixo. A trilha que liga as duas partes do povoado tem Santo Amaro, onde conheceu sua esposa. Quer passar
a largura de uma rua e leva meia hora para ser percorrida. o resto da vida no oásis porque é um lugar legal, não
Ali é terra da família dos Brito, dos Paulo e dos Lira. tem zoada e você pode dormir de porta aberta que nin-
O velho Manoel Brito era conhecido como o pri- guém vai entrar aqui e tirar alguma coisa.
meiro morador do oásis, mas Raimundo, o único fi- Bargado também estudou em Santo Amaro.
lho que ainda mora na Queimada, conta que o pai Foi ainda menino e voltou aos 17. Pouco depois
nasceu ali. Foram os avós dele que emigraram do Ceará. se casou com Maria, sua prima, que sempre mo-
Porque antigamente diz que lá dava um negóço que hoje rou no mesmo lugar. Luana, a única filha mulher
às vezes ainda dá. Tem muita seca e fome também, aí do casal, faz o nono ano na sede do município e
eles procuraram um lugar que fosse melhor. Aqui acho quer ser dona de pousada. O número de habitan-
que era desabitado e tinha fartura. tes só não diminui drasticamente porque há jovens
Mané Brito era cumpadre de seu Elóia, morador como Tico, de 16, que não querem se mudar. Ele
do Mocambo, em Barreirinhas. Ele era muito bom. Ti- abandonou os estudos depois do quinto ano, pre-
nha muita criação de gado, carneiro, bode, coisa demais. fere ficar em casa ajudando Maria enquanto o pai
Era homem rico mesmo. Por aqui não tinha um pra ga- trabalha como guia turístico.
O morador mais novo da Queimada é Gustavo, fi- Agora o cabra ele só quer andar de carro. Ele gasta
lho de três meses de Djalma, um dos netos de Manoel o último centavo que tem no bolso pra fretar um qua-
Brito. Luiza teve o filho no hospital de Barreirinhas. driciclo e ir pra Santo Amaro. Não quer ir mais nem de
Ela voltou para casa oito dias depois do parto. Eu ia animal, conta seu Raimundo.
ficar fazendo o que lá?, ela pergunta, A viagem foi de Quando era mais novo, trazia doze quilos de sabão
quadriciclo, com o recém-nascido carregado numa ti- nas costas. Sabão de andiroba, da barra grande. Uma
poia de pano. O casal tem mais três filhos: Luzilene cunhada dele trazia 5 litros de querosene sem ficar
(8), Lucidalva (7) e Delílson (6). trocando o bujão de uma mão para a outra. Quando
a carga era mais pesada, traziam em um dos animais

M
de seu pai. Antes o acesso era muito difícil. Hoje não.
arcelo, o turista de Porto Alegre, fez a cami- Tem até um cara que traz mantimento aqui pra vender.
nhada até o oásis a partir de Santo Amaro. Para Os moradores não se referem a Santo Amaro ou a
completar a travessia, teria que andar entre duas Barreirinhas como lugares distantes. Só os guias fazem
e três horas, dependendo do passo, até Baixa Grande. esse percurso a pé. Os donos de quadriciclo cobram
Um povoado de apenas cinco casas afastadas uma das mais barato para os nativos, cerca de 50 reais o trecho.
outras, onde mora Moacir, irmão de seu Raimundo.

B
De lá, mais oito horas para chegar a Barreirinhas. O
trajeto é um sobe e desce de dunas. No final de agos- argado hospeda turistas há 15 anos, mas o movi-
to, muitas lagoas estão quase secas e é possível cortar mento só aumentou nos últimos tempos. Os vi-
caminho por elas. Os únicos animais vistos na traves- sitantes dormem em redes na sala ou no quintal,
sia são ovelhas, porcos e alguns pássaros. Principal- debaixo do pé de jatobá centenário. A casa é pequena,
mente gaivotas, que mergulham em direção à cabeça de madeira e palha. O banheiro, um pouco afastado,
dos viajantes ao se sentirem ameaçadas. é de tijolo. Há fossa séptica e latrina. O banho é de
É possível ver de longe a vegetação do oásis, a cerca cuia. A água é retirada do lençol freático numa bomba
de três horas de caminhada. Ao se aproximar, há ce- manual no meio da cozinha. No verão, ela fica ama-
mitérios de árvores e alguns cajueiros enterrados pela rela e tem um cheiro forte. Eles bebem a água de uma
metade na areia. Desce-se uma duna e aparece o iní- fonte mais pura, que um cumpadre traz todos os dias.
cio de uma trilha no meio de um matagal. Os guias A diária custa 20 reais com café da manhã, e cada
sabem chegar exatamente na entrada da casa onde os refeição, 25. O nome do neto de Manoel Brito, na
visitantes vão se hospedar. verdade, é Aldo. O apelido ele tem desde menino,
Alegando cansaço e pressa em ir a Barreirinhas para pois sempre ficava com uma mancha branca de areia
sobrevoar as dunas de avião, Marcelo resolveu pagar os na barriga como os animais bargados. É um homem
200 reais que os moradores da Queimada cobram para pequeno, queimado de sol e que nunca usa camiseta.
transportar turistas de quadriciclo. O Plano de Mane- Seu Raimundo, tio dele, construiu um redário
jo do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, de com capacidade para 30 pessoas. Começou a receber
2003, proíbe o trânsito de veículos automotivos nas gente só em 2005 porque quase ninguém conhecia a
dunas. Para evitar que carros passem por cima de ni- Queimada. Os moradores também não tinham muita
nhos de aves, por exemplo. Apenas os nativos têm esse intimidade com turista. 5.053 pessoas já assinaram
direito e a multa pode chegar a 10 mil reais. seu caderno de visitas. Aqui não tinha dinheiro, circu-
Se um morador estiver levando um tio que veio de lação de nada. Com turismo, desenvolve mais. O dinhei-
São Luís para ver a dona Joana depois de dez anos, não ro aqui era ruço. Ocê passava um mês aqui sem ganhar
é multado. Mas se ele levar um tio loiro de olho azul um real, hoje não. Mas eu não quero só pra mim não,
que só fala alemão e não sabe nenhuma palavra em quero que chega um pouquinho pra todo mundo. Hoje
português, vou achar estranho que ele seja parente de a prestação de serviços turísticos contribui para o sus-
dona Joana, explica o chefe do Parque Adriano Sou- tento da casa, aliada ao bolsa família e à aposentadoria
za. Esse tipo de fiscalização depende de denúncias, de lavradores.
pois só trabalham ele e o analista ambiental Yuri O filho do véi Manoel Brito está sempre em casa. Se
Teixeira como fiscais do Instituto Chico Mendes alguém vai visitá-lo, ele puxa uma das cadeiras de plás-
de Biodiversidade (ICMBio) para todos os 155 mil tico da sala e conversa sobre relacionamentos, a política
hectares da área protegida. de Barreirinhas ou como ele odeia dormir em lugares
onde há muitas muriçocas. Graças a Deus não é o caso
do povoado. Em agosto, ele vendia a garrafa de cerve-
ja por seis reais, mas estava pensando em aumentar o
preço para sete. Além de hospedaria e restaurante, a
casa dele também é um pequeno mercado. Os manti-
mentos vêm de Santo Amaro, a cidade mais próxima.
Os moradores da Queimada vão até a sede do mu-
nicípio para resolver quase tudo, mas lá não tem ne-
nhum médico que resolve seu problema. Você tem que ir
pra Barreirinhas ou São Luís, diz seu Raimundo. A saúde
aqui nos interior é muito devagar. Os médico vêm, parece
que é mutirão que eles fazem. Uma vez por mês. Faz uma
consultazinha, mas é ligeira. Saúde aqui não é legal não.
O freezer fica ligado a noite inteira até a hora de
dormir e mantém a temperatura baixa das bebidas até
o dia seguinte. Aqui se toma cerveja, mas ela é fria,
não é geladinha. Os alimentos ainda são conservados
na salmoura. Depois das 18h, o barulho do motor a
diesel, comprado há cinco anos, se sobressai na casa.
A cada noite, seu Raimundo usa 4 litros de combus-
tível. É uma despesa de 360 reais por mês. A esposa
reclama que a gente gasta muito com o diesel, mas dá
cinco horas da tarde e ela quer ver a novela. Acostumou,
aí ninguém fala nisso de combustível. Foi através do
telejornal noturno de 28 de agosto que eles souberam
do apagão que atingiu parte do nordeste. Por isso que
Os dez alunos da escola têm entre 6 e 12 anos. O barracão foi construído
os celulares estavam sem sinal naquele dia. com dinheiro da professora Joina e fica no quintal de sua casa.
Hoje o gerador é a única fonte de energia da casa.
Na época que o diretor Andrucha Waddington fazia
a pesquisa para o filme Casa de Areia (2005), que se dos livros e colocar água no filtro. O caçula Adriel, de
passa nos Lençóis Maranhenses, só havia lamparina 12 anos, sai uma hora depois.
a óleo. A produção do longa doou para seu Raimun- A Escola Municipal Sarney Filho é uma pequena
do uma placa solar que funcionou durante três anos, sala de adobe e teto de palha no quintal de Joina, que
mas continua no quintal como um troféu. Na casa acumula as funções de professora e diretora. A cons-
de Bargado, também há um motor a diesel. Como trução foi feita com o dinheiro dela. A prefeitura só
ele vendeu o freezer, só liga o gerador quando ele ou forneceu as carteiras e alguns livros. A filha de seu
algum turista precisa recarregar alguma bateria. A Raimundo tem 34 anos e dá aula para dez crianças,
energia das lâmpadas vem de uma placa solar que ele sendo que três meninos são seus filhos. Todos vestem
encontrou na praia, a duas horas de caminhada da o uniforme da rede municipal de ensino de Santo
Queimada dos Britos. A família dele ainda prefere o Amaro e chinelos. Ela estudou até a oitava série em
uso de lamparinas. São Luís e assumiu a escola da Queimada dos Britos
pouco tempo depois de voltar.

O
Naquela manhã, a principal atividade foi recortar
dia começa a clarear a partir das 5h40. Duas ca- figuras de animais em livros e revistas velhos para co-
britas, criadas como animais de estimação, cho- lar numa cartolina. Joina selecionou alguns dos recor-
ram pedindo comida. Dona Maria é a primeira tes para ensinar a grafia das palavras, quantas letras
a acordar. Ela engole rapidamente o café da manhã e tinha cada uma e também quais bichos viviam na re-
caminha quinze minutos até a escola, onde trabalha gião. Era a mesma tarefa para crianças de 4 a 12 anos.
como zeladora duas semanas por mês. Precisa varrer a Enquanto Maria acompanhava a aula entediada,
única sala de aula, organizar as carteiras, tirar a poeira pensando que teria que varrer todos aqueles pedaços
Bargado só liga o motor a diesel quando os turistas precisam de energia Nunca falta água nos povoados. Ela é retirada dos lençóis freáticos através
elétrica. A placa solar foi encontrada na praia, a três horas do oásis. de bombas artesanais.

Tem jirau e fogão de barro em cada cozinha da região da morraria.


Mesmo as famílias que possuem o aparelho a gás, preparam no carvão o peixe, o beijú e o feijão.

18
Teto de palha do redário de seu Raimundo. Usar a folha do buriti em construções é caro, porque há de se comprar o material em outros povoados. Além disso,
o telhado deve ser renovado periodicamente.

Depois do jantar, Maria e Tico ajudam Adriel, o caçula, com as tarefas de matemática. Tico parou de estudar no quinto ano, a última série oferecida na escola
da Queimada dos Britos. Adriel ainda não decidiu se continuar os estudos na cidade de Santo Amaro.

19
de papel no chão, Bargado não sabia o que fazer para o café
da manhã dos turistas. Na noite anterior, prometeram beiju
– como a tapioca é chamada no Maranhão – para os turistas,
mas nem ele e nem Tico, seu filho de 16 anos, sabiam fazer.
Sem a esposa ou a filha para cozinhar, ele desistiu. Colocou na
mesa três pacotes de biscoito recheado no lugar da habitual
bolacha de água e sal para acompanhar o café.
Bargado não passa muito tempo no povoado. Trabalha como
guia na travessia entre Santo Amaro e Barreirinhas e está sempre
checando o celular da casa para ver se há algum serviço para ele.
No meio da manhã, não sabe se varre o chão ou começa a prepa-
rar o almoço. Acende um cigarro maratá atrás do outro. Pensa em
Adriel, o caçula de
Bargado Brito e Maria sair para pescar, mas vê que há peixe suficiente para as próximas
refeições. Ele não tem roça. Os animais são poucos e criados sol-
tos. Aproveita que o primo Bibinha, também guia, está lá com
alguns turistas e passam muito tempo conversando e fumando.
Bibinha, apelido para José de Ribamar, tem 28 anos e mora
com a mãe em Barreirinhas. No inicio do ano, abriu a primeira
agência turística exclusiva para a travessia, a Britos Caminhada.
Ele sempre usa um óculos escuro wayfarer e fala algumas pala-
vras em espanhol, resultado da convivência com estrangeiros.
O trabalho de guia começou aos treze anos, de brincadeira
com colegas da escola. Depois das festas, eles combinavam de se
encontrar na praça principal de Barreirinhas e caminhavam até
a Queimada dos Britos. O pai de Bibinha trabalhava nas pesqui-
sas da Petrobras nos Lençóis Maranhenses durante a década de
70. Ele herdou uma carta com a morraria toda mapeada. Depois
a gente foi se localizando pela vegetação e por algumas dunas que
a gente conhece.
Naquela época, Manoel Brito ainda estava vivo e os meni-
nos procuravam os tesouros que ele teria enterrado no oásis.
Ao falar do avô, Bibinha sugere que o velho fez um pacto mui-
to forte. Sem ser Deus, outro cara. Ele se denomina o melhor
guia dos Lençóis e diz que as pessoas só servem para poluir as
lagoas do parque. Recentemente, abriu um bar com os irmãos
na Beira Rio, área mais privilegiada de Barreirinhas. Bibinha
tem se dedicado a divulgar a cultura caiçara dos nativos e fazer
com que os turistas conheçam mais do que as três lagoas mais
famosas quando visitam o parque nacional.
Como símbolo dessa cultura caiçara, ele destaca um senhor
de 60 anos que vive na Queimada de Baixo. Massu é do povoa-
do de Betânia e se mudou para o oásis aos 25, quando se casou
com Bina. Na época, a região onde ele nasceu enfrentava uma
seca, os invernos não tinham sido bons. Havia mais fartura
onde viviam os pais de sua esposa. Massu é também o nome
do personagem principal do filme Casa de Areia. Bibinha diz
que o cineasta Andrucha se inspirou naquele senhor para criar
o papel do quilombola que faz par romântico com a atriz Fer-
nanda Torres. O marido de Bina só desconversa, conta que
trabalhou apenas um dia na praia para a produção do longa.
Massu também recebe turistas em sua casa, um sítio grande na
beira de uma lagoa. Dez franceses que viajavam com guia e tradu-
tor se hospedaram ali nos dias anteriores. Naquele fim de tarde,
sem hóspedes, conversava na cozinha com um de seus filhos, um
rapaz da família Lira e Bibinha. É na boca da noite que
os moradores se encontram, depois de terminados os
afazeres domésticos e antes do jantar. Enquanto Massu
passava o café, ele e as visitas fumavam um baseado. O
hábito é comum entre os homens. Eles cultivam seus
próprios pés de maconha no oásis.
De volta ao norte do povoado, seu Raimundo joga-
va cartas com dois amigos. Apostavam grãos de milho.
Na casa de Bargado, dona Maria preparava o jantar.
Eles escutavam forró, brega e reggae numa pequena
caixa de som. Adriel, o caçula, dançava todas essas mú-
sicas. Bargado observava, orgulhoso. Onde que tu vê um
menino de doze anos dançando assim?
Depois que todos comem, com o motor desliga-
do, Bibinha faz uma fogueira na frente da casa com
os filhos do primo. Maria e Tico ajudam Adriel a
fazer atividades de matemática sentados na areia,
perto do fogo.
O céu não está tão nublado como nos dias anterio-
res, há muitas estrelas. Bargado conta adivinhações.
Uma princesinha encantada mora na serra pelada. Na
seca e no inverno, todo tempo ela é molhada. Ninguém
sabe a resposta. Galça vai voando com a tesoura no pé
cortando calça de homem e siritanga de mulher. Antes
das 21h, ele anuncia que o avião a Fortaleza vai passar
e vemos luzes vermelhas e brancas cruzando o céu.
Bargado usa a lagoa do Lourenço como reserva caso chegue um turista

A
perto da hora do almoço com vontade de comer peixe.
qui é um lugar que fica perto da praia. Meu pai
quando ele ia pescar lá com o irmão dele, levava
um cavalo com umas carga que eles chamo de jacá. Numa manhã de agosto, Bargado tratava o pesca-
Eles davam tuas tarrafiadas e enchiam o cavalo de peixe. do no quintal de casa quando uma brisa balançou os
Era duas pessoas pra puxar. Nesse tempo eles usava era a galhos do pé de jatobá. Eita, ventou desse outro lado.
tarrafa, não era caçoeira. Era muita fartura, né?, conta Vai voltar o inverno. Que volte a chover agora para
seu Raimundo. encher essas lagoas tudinho e que elas volte a atingir
A comparação entre o tempo antigo e o atual é a marca que não atinge há dois anos. Agora o inverno
constante na fala dos moradores. Uma referência a tá trocando com o verão. Em 2011, o oásis inundou.
quando os invernos eram bons. Quando a água do Faltou pouco para a chuva alagar a casa de seu Rai-
mar se juntava com a doce e havia peixes de 10 kg nas mundo. O jeito foi abrir uma duna para o escoa-
lagoas do oásis. Agora que a pesca ficou mais difícil, mento da água. Os moradores se fizeram de trator,
que os invernos diminuíram e que começou a secar, partiram um morro no meio, e a água da chuva va-
o filho do véi Mané Brito perguntou aos fiscais do zou para a praia.
Instituto Chico Mendes se poderia fazer um açude. Choveu rapidamente no dia seguinte à previsão.
Eles disseram que não é permitido. Uma coisa que é pra Os dias nublados desse verão têm cooperado com os
alimentação eles não permite. Num lugar que é isolado, moradores. Assim, não há tanto vento e a areia se mo-
aonde não exporta água. Só pra criar um peixe e botar vimenta menos em compensação aos invernos cada
cumê pra ele crescer. vez menores. Seu Raimundo acha que o oásis vai de-
Os homens ainda pescam na praia, mas é cada vez saparecer. Ele alcançou ver a vegetação quando ela era
mais raro. Bargado e Tico, seu filho mais velho, costu- maior do que é hoje. Não sei se é meus filho, se é o filho
mam ir a lagoas que ficam a uma hora do oásis. Perto dos meus filho, não sei quem é que vai alcançar, mas isso
da casa deles, há uma chamada Lourenço, que nunca aqui [o oásis] vai fechar um tempo. Porque a duna chega
seca e serve de reserva caso chegue um turista de última no pé da árvore e ela não passa por baixo. Ela passa por
hora com vontade de almoçar peixe. Preparado frito ou cima do olho. Depois de um ano ou dois, ela torna desco-
ao molho de caju, típico da região da morraria. brir, mas quando descobre, a árvore já tá morta.

21
Dona Maria, esposa de Bargado, trabalha como zeladora na escola e faz a Massu prepara café para as visitas. Toma-se muito café, com farinha ou
comida para os turistas que hospeda em sua casa. tapioca.

O normal é dormir em rede, armada nas vigas de madeira da casa.

22
Luzilene é bisneta do véi Manoel Brito. A menina, apelidada de Bandeira, acompanhou a visita à casa de Massu.

As crianças do povoado usam uma linguagem própria para conversar entre si. Bandeira se recusou a traduzir o texto. A única pista que ela deu foi que uma
dessas frases significa Meu nome é Luzilene.

23
PEIXE, MARISCO E
O povoado de Mairizinho está a oeste da morra-
ria e fica em Primeira Cruz, a aproximadamente 272

TIQUIRA NO MAIRI
km da capital maranhense. São 106 casas enfileiradas
praticamente numa única rua de 2,6 quilômetros de
extensão. Há cinco comércios, dois bares, uma igre-
ja católica e outra evangélica. Três famílias possuem
Toyotas e fazem a viagem de uma hora e meia até a
São seis da manhã e Elilda sai de casa para se encon- sede do município. O marco que divide a comunidade
trar com o pai e outros pescadores no cais. Ela pre- em Mairi e Jardineira é incerto, ali pela casa do Bina.
parou o frito de farinha e carne de porco na noite Primeira Cruz é uma cidade pequena. Os mora-
anterior. Abastecem o barco com diesel, levantam a dores precisam ir até Humberto de Campos, a 20 mi-
âncora, tiram a água acumulada do fundo e partem. nutos de lancha, para fazer a compra do mês, vender
A passagem pelo canal que margeia o povoado de o pescado e ir ao médico. Mas a conexão entre a vila
Mairizinho dura meia hora. O ritmo é lento. Curió de pescadores e o município de São José de Ribamar,
toma o último gole de tiquira, uma cachaça mara- na Grande São Luís, é mais forte. Muitos têm casas
nhense, e joga a garrafa de plástico na água. Ele conta ou parentes próximos lá. A maioria dos pais prefere
histórias sobre as pescarias em alto mar e sua voz se colocar os filhos para estudar em Ribamar do que nas
mistura ao barulho alto do motor de quatro tempos. cidades mais próximas.
O destino era a Barra da Baleia, praia no encontro A Escola Municipal Silvio Gomes dos Santos tem
entre o canal e o mar. Na faixa de areia, há 10 cabanas 135 alunos da creche ao nono ano. Trabalham lá 13 pro-
feitas de madeira do mangue e palha de buriti. To- fessores, três vigias e três merendeiras. Os mais velhos fa-
das comunitárias. Durante o inverno, a melhor época zem o ensino médio no povoado vizinho de Areinhas, a
para a pesca, elas ficam cheias. Os barcos, enfileirados uma hora de viagem. Os estudantes vão até lá de Toyota,
na costa, só partem de lá carregados. A pescaria pode e o transporte é disponibilizado pela prefeitura.
durar vários dias. Ali vivem cerca de 560 pessoas. Esse número va-
Já em terra, a tripulação passa alguns minutos de- ria porque sempre tem famílias chegando por causa
sembaraçando a pitiuzera, usada para pegar peixes pe- da pesca, da proximidade do litoral, da facilidade de
quenos como o pitiu, espécie da região um pouco maior encontrar alimento. Ou indo embora em busca de
que a sardinha. A rede é lançada de dentro do mar, com empregos nas cidades e melhores condições de saú-
a água batendo na altura do peito. E depois arrastada de e educação. Ao contrário de outros povoados da
cuidadosamente de volta à beira para retirar o pescado. região da morraria, há um crescimento populacional
A operação foi repetida quatro vezes e não encheram por conta desses novos moradores que ocupam áreas
nem metade da caixa de feira que haviam levado. Siô, antes inexploradas ou compram terrenos de quem foi
tem vez que só numa lançada, enchemo essa caixa todinha. embora. Eles vêm de localidades de fora e de dentro do
Às nove, foram a uma das cabanas de madeira para parque nacional. Um sítio pode custar até 5 mil reais.
se proteger do sol quente. Era hora da primeira refei- A ocupação considerada de boa fé pelo Instituto
ção do dia. Enquanto o fogo pegava, comeram o frito Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) aconte-
de porco. Curió tratava os peixes em cima de uma ceu até a década de 80, quando não havia adminis-
tábua. Cortava as tripas, tirava as escamas, limpava e tração local e muitos não tinham conhecimento da
tacava sal sem piedade. Assava os peixes diretamente criação do parque nacional. Essas pessoas têm os mes-
na brasa. Depois do almoço, dormiram por mais ou mos direitos que as populações tradicionais. Quem
menos uma hora. A pitiuzera ainda foi lançada mais ocupou de má fé, depois desse período, não tem direi-
três vezes antes de voltarem pelo canal. to a nada. Nem ao termo de compromisso, contrato
No intervalo da pescaria, Elilda, Curió e os demais aproveitam a sombra da cabana para descansar e preparar peixes na brasa para o almoço. O frito de farofa
e carne de porco não foi suficiente.

transitório que legaliza as atividades de subsistência Em 1953, ela se casou e foi morar no Mairi com a
dos moradores em área protegida. Adriano Souza, o família do marido, os Lira de Oliveira. Perto da praia
chefe do parque, não sabe se algum dia o Ministé- era mais fácil de arranjar o cumê. Era um lugar sem
rio do Meio Ambiente vai aprovar a assinatura dos dono, avulso, com um matagal medonho. Aqui no
termos, previstos por lei. Se isso acontecer, ele não Mairi tinha umas duas toquinha de índio. A gente ia
sabe como serão tratadas as famílias tradicionais que indo pelas varedinha e quando dava fé, via uma casa.
migraram para outros povoados da área protegida a Eles ficava até com medo quando vio gente. Só um ban-
partir dos anos 90. do de pretinho, gente muito morena. Era quase só uma
família, porque tudo era Ferreira.

A
A energia elétrica chegou só em 2006, dois anos
inda num disseram qual é a profissão daqui? depois que ela ficou viúva. Dona Maria lembra do
Quem pergunta é Maria do Cazuza, de 81 marido toda vez que bebe água gelada. Ele gostava do
anos, uma senhora bem magrinha que ao sen- cumê fresco e não alcançou ter energia. Morreu e nunca
tar cobre as pernas com um pano branco de cozi- usou geladeira. Ele não teve a sorte de passar por essa
nha. Uns pescam, mas tem uns aqui que a profissão felicidade que ele queria tanto.
é só meter a mão no buraco pra tirar caranguejo. E Ela criou uma teoria sobre a instalação de rede
outros bebe tiquira pra danar. elétrica em lugares isolados como o Mairi. Acho que
o mundo tá pra se acabar. Se não é o mundo, é nóisi. cortando pra fazer caêra [carvão]. Se eu tiver com saúde,
Óia, desde piquena, uma velhinha contava uma história eu vou na próxima reunião e vou discutir isso. Pergunto
de uma aranha que ia introduzir o mundo todinho de de onde vem o saco de carvão encostado no fogão de
filho. Ninguém entendia o que era essa história, mas eu barro. Ela comprou de alguém no Mairizinho o com-
já pensei que a aranha é a energia, porque tá enchendo o bustível feito dessas mesmas árvores.
mundo tudinho de filho e tudo dá fogo. E quando pega Gracireis notou como os pés de murici e mirim es-
fogo, nós num morre tudinho? Hoje ela mora com a tão desaparecendo desde 2008. Ela se mudou aos sete
filha única e uma neta que voltou de São Luís para anos para São José de Ribamar, na grande São Luís,
cuidar da vó e da mãe. e voltou ao Mairi para assumir o cargo de diretora
A fartura de peixe que fez com que os Lira de Oli- da escola. Essas frutas costumavam ser fonte de renda
veira e tantas outras famílias se mudassem para o Mai- para o povoado. Hoje tem que sair quatro hora da ma-
rizinho também atrai barcos de pesca de arrastão. Há nhã pra quando dá sete a gente encontrar algum pé. Por-
quinze anos, apareceram os primeiros com casco de fer- que os pé próximo eles tocaro fogo, cortaro. Eles não têm
ro e de grandes empresas do Ceará. Aí começaram a de- consciência do que eles tão fazendo. Ela sabe que precisa
nunciar eles, conta José Ribamar, o capataz da Colônia trabalhar a educação ambiental com as crianças para
de Pescadores de Primeira Cruz. Porque esses destruía isso não acontecer no futuro, que os adultos nunca ti-
mesmo, era só máquina grande. Eles se afastaram, passou veram essa conscientização. Quando a gente vê que eles
um tempo e apareceu esses outros que é de casco de ma- corto porque é uma precisão deles, a gente entende. Mas
deira, mas destrói também. Riba, de 44 anos, também acho que fazem por maldade. Ontem mesmo tocaram
é presidente da Associação de Moradores, professor de fogo numa grande área de mirim.
geografia e ocupa uma cadeira do Conselho Consultivo

D
do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
O conselho, previsto por lei desde 2000, está em ona Luzia é uma senhora morena de cabelos bem
formação. Participam representantes do poder públi- pretos, tem as unhas compridas e pintadas de ver-
co e da sociedade civil. O objetivo é aumentar a par- melho. Nasceu em Betânia, povoado localizado na
ticipação dos moradores, políticos e consultores téc- cidade de Santo Amaro, se mudou para o Mairi com os
nicos nas decisões relativas ao Parque, mas a palavra cinco filhos quando se casou pela segunda vez. Ela sente
final ainda é do gestor Adriano Souza, do Instituto falta do peixe de água doce, mas come com gosto a tai-
Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio). Os mo- nha, a corvina e a pescada. Sempre com muita farinha.
radores do Mairizinho eram maioria na reunião em Aqui é muito bom, aqui eu tô despreocupada. Quan-
que Riba foi escolhido membro. A principal reclama- do dá fé, um filho anda pescando. Em vez de eu comprar,
ção deles era sobre a pesca de arrastão. eles mando pra mim. Graças a Deus a gente vai na ca-
De primeiro, aqui era muito bom de peixe. A gente bana de um pescador, pede dois quilos de peixe e ele diz:
via o peixe nadando, corrente por cima, agora não vê “Táqui, né nada não, leve pra senhora almoçar”. Eu não
nenhum só deles espantar. Tanto eles pego quanto espan- me lembro que eu comprasse peixe aqui, só carne.
to, reclama Deusdeti, pai de Elilda e dono de um dos Hoje está separada e mora apenas com a neta mais
maiores comércios do povoado. Os moradores nunca velha numa casa de tijolo e telha, como a maioria das
denunciam os barcos de fora. A relação entre eles é residências de Mairizinho. Há uma caixa d’água que
cordial. Os meninos do Sergipe uma vez foram lá pra abastece o chuveiro e a pia da cozinha, mas a louça
casa, aí no assado eu dei farinha pra eles e disseram: ainda é lavada no jirau do lado de fora da casa. O
“Não, siô, a gente num come isso não”. Eles comero o arroz é feito no fogão a gás e o peixe, no carvão. Na
peixe assado foi com bolacha e manteiga. mesa de jantar, há sempre uma garrafa plástica com
A mãe dele é a suplente de Riba. Antes de aceitar água congelada. Em poucos minutos, o gelo começa
a cadeira no conselho, dona Luzia, de 65 anos, ques- a derreter e, assim, elas não precisam ir até a geladei-
tionou se a fiscalização iria improvocá os pescadores do ra toda vez que sentem sede. A televisão, a antena, o
Mairi. Se fosse pra eles improibir os pescador daqui, eles freezer, tudo foi comprado com o dinheiro da aposen-
que improibisse os arrastão. Porque tão acabando com tadoria pela Colônia de Pescadores. Ela tinha também
tudo. Com poucas horas, a gente fica sem nenhum peixe uma máquina de lavar, mas mandou para o conserto e
pra comê. Adriano disse que as práticas de pesca tra- nunca mais devolveram a lavadora.
dicional seriam respeitadas e explicou que os próprios Elilda, de 22 anos, foi criada desde pequena pela
moradores deviam ser fiscais do meio ambiente. vó e ajuda a cuidar da casa. Terminou o ensino médio
E eu não me alembrei dos mato que tão acabando, no povoado de Areinhas e fez cursos de computação
num disse pra eles. Os mato do Mairi tão se acabando. em São Luís. Vê novela de vez em quando e gosta de
Eles tão tocando fogo no mirinzal, no murici. Eles tão escutar reggae no celular. Enquanto uma de suas irmãs

26
mais novas já casou e teve quatro filhos, Elilda não
quer engravidar tão cedo. A ideia dela é arranjar um
emprego na capital, mas dona Luzia não aceita que a
neta vá embora.
Quando ela sai daqui de casa, eu passo é três dia do-
ente. Daí de três dias em diante que eu vou me equili-
brando, que eu vou me esquecendo. Que ir se empregar,
vá. Mas num me ligue não pra dizer que tá ligando pra
saber como é que eu tô. Os filhos de Luzia são vizinhos
da mãe e a visitam várias vezes ao dia, mas a possível
mudança de Elilda é motivo de briga na família.
Eu num posso varrê casa, eu num posso lavar roupa.
Tem dia que eu tô mió, tem dia que eu tô pió. É aquela
coisa, eu num posso varrê um terrero, eu varro assim os
pedacinho. Toco fogo logo, que eu tenho raiva destas fo-
lhas dentro de casa, mas não acaba. Acaba só se eu cortá
os pé de cajueiro e eu não quero cortar que é uma sombra
que a gente tem ali por debaixo.
Dona Luzia sai pouco de casa porque tem difi-
culdade de andar na areia do Mairi. Vai mais vezes
a Primeira Cruz ou a São José de Ribamar do que
na casa dos cumpadres, mas só viaja de Toyota se for
no banco do passageiro. Ela sempre recebe a visita de
seus filhos, de seu ex-marido e de alguns amigos mais
próximos. Na última semana de setembro, todo o po-
voado comentava sobre a festa das senhoras da igreja
evangélica que haveria no final de semana.
Se eles vêm me convidá, eles são doido. Eu num gosto
de igreja de crente não. E nem lá eu num vô porque eu
num boto a viagem, nessa areia. Eles num me esperem
nunca, que eu num vou. Elilda nem dava fé para a re-
clamação da vó, que é católica. O festejo aconteceu
no sábado com gente de Caeté. Dona Luzia foi con-
vencida a ir quando sua filha lhe disse que haveria
carona. Na boca da noite, estava pronta e foi. Teve
jogo de futebol entre os times dos povoados (empate
de 1x1), culto e muita conversa.
Dona Luzia, nascida no povoado de Betânia, incrementou o feijão comprado
na cidade com o colhido em seu quintal.

N
uma tarde de outubro com muito vento, dona
Luzia colocou fogo no cajual ao lado de sua casa verno paga pro povo fazê filho, não se vê mais plantação
para limpar o terreno e procurar castanhas caídas de abrobinha, melancia, de nada. E o outro problema é
no chão. O neto Deílson fazia montes de folhas mortas esse estirão que as criança queima os pé quando sai do
com a ajuda do gadanho. Ela encheu metade de um colégio onze hora pra ir pra casa. Uns diz que pode fazer
cofo com o fruto. No ano passado, ela vendeu 250 qui- o calçamento, outros diz que não pode...
los de castanha crua. Cada quilo custa um real. A aula matutina deveria terminar às 11h15, mas os
A fumaça acordou Carrinho. O ex-marido de Lu- alunos são liberados no máximo às 10h30 para evitar
zia é da família dos Ferreira e filho do velho Marcoli- que eles caminhem pela areia quente. Quase não tem
no, um dos primeiros moradores a chegar no Mairi. árvores na rua principal. Antes de ter carro pra rodar,
Carrinho foi até lá para ver o que estava acontecendo. aqui, era até bom pra andar. Mas a Toyota passa aí e a
Sentou em um tronco retorcido e começou a falar areia soltou demais. Eu pelo menos não tenho condições
sobre o lugar deles, um lugar bom, que antes tinha mais de andar pelo Mairi, conta Louro Santo, de 60
mais fartura. Existe dois problemas nessa terra. O bolsa- anos, vereador de Primeira Cruz desde o começo do
-família deixou esse povo acomodado. Agora que o go- ano. A família dele é de um povoado na região de Bar-

27
reirinhas, mas se mudaram para o Mairizinho quando
Louro tinha oito anos. O apelido ele tem por causa do
albinismo. Naquele dia, visitava dona Luzia vestido
de calça, camisa azul escura de manga comprida, cha-
péu de palha e óculos escuros.
São necessários mais de 20 minutos para percorrer
toda a rua principal. A areia é muito solta, o pé afun-
da. Há lixo e cacos de vidro espalhados pela via. Uma
das professoras usa um sapato de salto plataforma para
não encostar na terra quente. Ela anda com cuidado
e consegue não queimar o pé. Quase ninguém sai de
casa entre 11h e 15h. O sonho da comunidade é ver isso
aí calçado, aí surgiu a história de que não pode porque nós
tamo dentro do Parque dos Lençóis. Segundo as informa-
ções que a gente teve de Travosa, a obra já tinha começado
e foi embargada, explica Bina, irmão de Louro Santo.
A Travosa é um povoado a duas horas de distância
do Mairi, mais próximo da morraria. São quase mil
habitantes. A prefeitura de Primeira Cruz foi multada
por construir uma praça e pavimentar uma rua sem
pedir a autorização do Instituto Chico Mendes. De-
pois do embargo, os responsáveis não apresentaram
defesa ou solicitaram o prosseguimento da obra.
Lucimar Pereira, suplente na Câmara de Primeira
Cruz, acompanhava a visita de Louro ao Mairizinho.
Um calçamento desse eu acredito que ia ter um impacto A areia da rua principal de Mairizinho fica quente porque não há sombras
pelo caminho. Poucos saem de casa na hora em que o sol está mais forte.
ambiental se viesse máquinas ou se tivesse a questão do pi-
che. Mas esse bloquete de cimento que vai ser feito não tem
dano nenhum. Não vai jogar resíduo fora, no rio ou mesmo os olhos para algumas situações. Em Santo Amaro, as
no mato. A questão é semelhante a qualquer construção pessoas que moram lá, os centenários, são proibidos de
na área de preservação ambiental. A obra só não pode ser fazer um bucado de coisas, mas aí o doutor vem lá de
construída sem a permissão da administração do parque. São Luís, compra uma área lá na beira do rio, faz sua
Se eles estão precisando de um calçamento por ques- bonita casa, sua piscina, faz tudo. Cadê o Ibama nesse
tões básicas de direitos humanos ou até para melhorar o momento? Vem proibir um calçamento desse pra popu-
acesso a saúde e educação, têm que pedir autorização pra lação. A sede de Santo Amaro fica a dois quilômetros
gente ver como e onde ele vai ser feito. A princípio não da demarcação oficial do parque, mas desde a praça
pode. Agora se existe uma comunidade que mora lá há principal se vê o campo de dunas.
muitos anos, a gente vai analisar e provavelmente vai até Santo Amaro não tá no parque? Isso aí eu não enten-
autorizar, explica Adriano Souza, o chefe do parque. do. A ideia entre os moradores é que onde há dunas,
Os moradores não levaram a demanda pela pavimen- é área protegida. A distância daqui pros Lençóis Ma-
tação em nenhuma reunião do Conselho Consultivo ranhenses é muito grande. Areinhas tá dentro, né? Não
realizada até agora. A obra seria permitida com algu- está, mas há morros perto desse outro povoado.
mas condicionantes. Levando em conta o escoamento Os habitantes da região da morraria e seus repre-
da água, por exemplo, para fazer o calçamento de tal sentantes desconhecem aspectos técnicos e a legisla-
forma que não impactasse o meio ambiente. ção relativos ao parque. De outro lado, os dois fun-
O calçamento eu não garanto vir, eu garanto que cionários públicos que trabalham no Instituto Chico
consegui 100 mil reais com um deputado na Assembleia Mendes não têm muitas informações sobre as 42 co-
Legislativa pra fazer só essa via principal, discursa Lou- munidades que existem ali. Adriano Souza, o chefe,
ro Santo. Eu vou em São Luís na Sinfra [Secretaria de está esperando a homologação do Conselho Consul-
Infraestrutura], num é meu papel procurar, mas eu vou tivo e prevê que a reunião de posse deve acontecer
pra pedir uma informação. Ele ignora que a obra de- em janeiro. A ideia é, depois de definir o regimento
pende do Instituto Chico Mendes, em Barreirinhas. interno do órgão, atualizar o Plano de Manejo, de
A crítica de Lucimar Pereira ao Ibama, como os 2002. Dessa vez com a participação dos maiores inte-
moradores se referem ao ICMBio, é que o órgão fecha ressados, os moradores.

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Mesmo que os novos tetos sejam feitos de telha, o hábito de guardar objetos enfiados entre a madeira continua como se ele ainda fosse de palha. É o lugar
ideal para colocar tesouras, facas e a escova de dente.

Dona Luzia recolhe os cajus de seu terreno por causa das castanhas. Ela vendeu 250 quilos do fruto no ano passado, e cada quilo é vendido a um real. A
polpa é aproveitada como comida para os porcos.

29
A maioria das famílias têm sua própria caixa d’água. Essa era compartilhada Há um orelhão no povoado, mas os comércios não vendem cartão
por dez casas. telefônico. Todos os moradores têm celulares conectados a antenas.

Deílson, neto de dona Luzia, ajuda a avó a colocar fogo no terreno do cajual em busca de castanhas escondidas entre as folhas secas. Nessa tarde, encheram
apenas metade de um cesto com caju e castanha.

30
Cais de onde partem os barcos que pescam em alto mar ou na praia da Barra da Baleia. O canal é paralelo à rua principal do povoado.

Nesse sábado, Deusdeti e seus cumpadres fizeram a contagem do pescado na casa de dona Luzia, depois de dois dias no mar. O peixe é vendido no próprio
povoado, na cidade de Humberto de Campos ou em São José de Ribamar, na Grande São Luís.

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TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
JORNALISMO UFSC
Dezembro de 2013
Aluna: Luisa Pinheiro
Orientadora: Daisi Vogel