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Uma antropdloga olha o Ballet Classico como uma forma de danga étnica” Joann Kealiinohomoku ara um bom antropélogo, é natural considerar a danca cldssica em ‘GEMOSTASMAANGALMIEAD Entretanto, a maioria dos especialistas de danga ocidental acha essa ideia inaceitavel. Essa divergéncia nos re- vela muito claramente que existe uma falta de comunicagao entre os espe- cialistas de danga e os antropélogos. Este artigo tem por intengao restabele- cer esse didlogo. Numerosos so os erros e as faltas dos antropélogos em sua abordagem da danga, mas estes so devidos a sua hesitagdo em examinar qualquer coisa que pareca esotérica e exterior A sua competéncia. O que quer que seja, um. pequeno numero de antropélogos especializados em danga, tenta mudar essa atitude publicando artigos em revistas de Ciéncias Sociais e participando, com outros antropélogos, de encontros formais ¢ informais. . Este artigo se propde a demonstrar que os dangarinos e especialistas de danga utilizam esse termo, assim como os termos conexos “danga etnolégica”, “danca primitiva” e “danca folclorica”, de uma maneira diferente que, na verdade, revela a limitagao do seu conhe- cimento das formas no ocidentais de danga. Por ocasido da preparagao deste artigo, eu rel tenso, textos relacionados 4 minha pesquisa, escrit # Da Amold Haskel, Claire Holt, Troy € Margaret Kinney, Lincoln Kirstein, La Meri, John Martin, Curt Sachs, Walter Sorell e Walter Terry. Além desses, eu ae i {te sob o titulo “An anthropologist Nota da Tradutora: Texto publicado originalmemte “7 Tn “Roger; COHEN, looks at balfer as a form of ethnic ore gland: Oxford University Press, Marshall. (Editors) What is dance? i Une Tie ii ii . A presente tradu¢do AaSEOU-SE 1983. (Reprint of 1969-1970 article in Impulse). 6 i aaa Oe a wadugde francesa de Agnés Beno anced ino periddico Nouvelles de danse ethnique”, dico No C Danse, tore Nomads! regards d’anthropologues et artistes. Bruxelles: Contredanse, 1998, p. 47-67- Ji durante um perfodo in- tos por Agnés DeMille, 123 “Antropologia da Danga | reli atentivamente as definigées concernentes 4 danca no Webster's New In. ternational Dictionary, aquelas da segunda edicao, escritas Por Doris Hum. phrey, ¢ aquelas da terceira edi¢do, escritas por Gertrude Kurath. Ainda que essas e outras fontes aparecam na bibliografia, no final deste artigo, eu city aqui esses especialistas a fim de insistir sobre o tipo de referéncia da qual eu me servi. A experiéncia dessa releitura aprofundada — mais na qualidade de an. tropéloga do que na qualidade de bailarina - foi, a0 mesmo tempo, ins. trutiva e desconcertante. Os textos abundam em dedugées infundadas, em “provas”mal formuladas, numa profusio de meias-verdades, de numerosos erros inconcebiveis ¢ de uma forte tendéncia ao etnocentrismo (@QUaRGee (GBicosyoralpatemalistas) Mas o mais desencorajador foi me dar conta de que na €poca em que eles reeditaram seus livros, por vezes mais de dezessete anos depois de té-los escrito, esses autores julgaram conveniente substituir, unicamente, as ilustragées e nao o texto, em atualizar apenas a situagao da danga euroamericana. ue 2 dangayeradestinadayaosyusOSimAgicoSTe>rel io era destinada a tais usos; que a danga era reservada a Corte, 4 expressao pessoal daquele que dancava, Aprendemos, igualmente, qui $ animais dangavam antes do homem e que, no entanto, a danga € um Os antropélogos se interessam ha muito tempo pelas origens insondé- Vels, © eu nao acrescentarei uma teoria suplementar A origem da danga, pela simples e boa razio de que nenhuma pessoa do meu conhecimento a teria. Nao obstante, esses autores que escreveram sobre danga propdem estabele- 124 Antropologia da Danga | cer as origens a partir de descobertas aa eal iaeonaease e de modelos ilustrados pelos grupos primitivos contemporaneos. AfiteSIdeltudondevemosinosllem: tra de que o homem chegou a Tera bem antes de fazer pins pests LE (GRETA MAS eMadajsobreyasjorigensydaydanga. Depois, no que concernea ilizagéo de primitivos contemporaneos como modelos, é importante nfundir a palavra “primitivo” com a palavra “primordial” (no sentido indo das primeiras eras), ainda que um autor as utilize de maneira in De fato, no que concerne 4 danga dos homens das primeiras eras, nio sabemos nada. Em compensa¢ao, temos um conhecimento profundo sobre as dangas primitivas. A primeira coisa que sabemos é que uma danga primitiva ndo existe. Existem dangas executadas pelos primitivos e estas so demasiado diversas para corresponderem a um esterectipo! (QROMONLICASFEVELAUMEFONBFOSSEAFO, A “danca africana” jamais existiu; entretanto, existem dangas dahoménicas, dangas haussa, dangas massai, € assim por diante. O termo “indio da América” & uma ficgdo, assim como 0 protétipo da “danga indigena”. Em compensagao, e para citar apenas alguns, existem os Iroqui, os Kwakiutl, os Hopi, ¢ eles tem dangas. Apesar de todas as evidéncias antropoldgicas provarem 0 contrario, os especialistas de danga ocidental pensam ter certa autoridade no que con- cere as caracteristicas da danga primitiva. i i r assim dizer, caracteristicas do esteredtipo primitivo. Ele nos diz que| ingarinos primitivos nao possuem nem técnica nem arte, mas que eles t im dominio infalivel do corpo”! Declara que suas dan¢as nao sao org: iS € que so frenéticas, mas que os dangarinos séo capazes de exprit las as suas sensagdes e emogdes pelo movimento! Pretende que as dan espontdneas, mas que so, igualmente, executadas com um objetivo by ciso! As dancas primitivas, afirma, so sérias, mas sociais! Supde 1m executadas com uma “liberdade total”, mas que os homens e as mull Nao podem dangar juntos. Ele qualifica essa ultima observacao dize 0s homens e as mulheres dangam juntos depois que a danga degen orgia! Sorell sustenta, igualmente, que os primitivos séo incapazes ociar o concreto do simbélico, que todas as ocasides Ihes so boas pi gar e que eles pisoteiam muito! Além disso, Sorell sustenta que entre Sociedades primitivas, a danga é um privilégio reservado aos homens, 125 Antropologia da Danga |