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Responsabilidade Penal da Pessoa

Jurídica
Mathias Oliveira Campos Santos
Introdução

A teoria da responsabilidade penal pessoa jurídica, como toda


teoria jurídica, direta ou indiretamente, o deve ser, é uma resposta
a um problema concreto.
O problema que a teoria se propõe a resolver é o fato de que bens
jurídicos penalmente tutelados estão sendo frequentemente
ofendidos ou afetados por condutas de integrantes de pessoas
jurídicas.
Além disso, existem fatores diversos que dificultam a
responsabilidade penal dos referidos integrantes, como a divisão
de tarefas (que divide a conduta lesiva para agentes de variadas
camadas dentro da organização), o que justifica eventual ausência
de elemento subjetivo ou de consciência da ilicitude do fato, etc.
Introdução

Entretanto, antes de adentrar efetivamente no


tema da responsabilidade penal da pessoa
jurídica, é importante realizar breves
apontamentos.
Introdução

A legitimidade de um Estado Democrático de


Direito está condicionada a efetividade dos
direitos fundamentais, sobretudo, a dignidade da
pessoa humana.
Introdução

Os direitos fundamentais são construções históricas, sendo usualmente


divididos pela doutrina em dimensões.
Os de primeira dimensão têm como base valorativa a liberdade.
Os da segunda dimensão são ligados à igualdade material, direitos sociais,
econômicos e culturais.
Os de terceira dimensão, apesar de certa divergência doutrinaria, são os
transindividuais destinados à proteção do gênero humano. Bonavides (1996)
inclui dentre os de terceira dimensão o direito ao desenvolvimento, ao meio
ambiente, à autodeterminação dos povos, de propriedade sobre o patrimônio
comum da humanidade e o direito de comunicação.
Os de quarta dimensão incluem o futuro da cidadania, direito à democracia, à
informação e ao pluralismo.
Introdução

Diante desta evolução, sobretudo, em relação


aos direitos fundamentais de caráter positivo,
exigiu-se um fortalecimento do Estado.
Tal situação não se refere exclusivamente a
questões estruturais, mas, também, no sentido
de regulamentação (legislativa e
administrativa) de determinadas atividades
econômicas, das relações de consumo, do
meio ambiente, etc.
Introdução

O direito penal, por sua vez, não fica alheio a tal


fenômeno.
Antes era utilizado apenas na tutela dos bens
jurídicos de importância indispensável ao homem,
como, a vida e a liberdade.
Agora, é utilizado também na regulamentação de
atividades econômicas, das relações de consumo,
do meio ambiente.
Introdução

Tal situação contrapõe o princípio da intervenção


mínima à prática penal, o que, para além de
revelar uma expansão indevida do direito penal,
coloca em xeque o conceito de bem jurídico e a
legitimidade de todo o sistema punitivo, que vai
subtraindo, para si, questões que são de
competência do direito administrativo
sancionador.
Introdução

O quadro fático ainda se agrava quando verifica-


se que a Constituição da República de 1988, ao
promover um microssistema de tutela do meio
ambiente, indica a possibilidade de
responsabilidade penal da pessoa jurídica.
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

A Constituição da República de 1988 em seu


artigo 225, § 3º, dispõe que as condutas e
atividades consideradas lesivas ao meio ambiente
sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou
jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os
danos causados.
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

O professor Guilherme José relata que logo nas


primeiras interpretações deste dispositivo
constitucional, foi suscitada a polêmica da
capacidade criminal da pessoa jurídica.
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

De um lado, defendendo a tese da incapacidade


penal da pessoa jurídica estava Reale Júnior,
Dotti e Sheila Sales.
Reale Júnior defendia que o citado dispositivo
legal deveria ser interpretado no sentido de que
as pessoas físicas ou jurídicas sujeitam-se
respectivamente as sanções penais e
administrativas, ou seja, ao direito penal as
pessoas físicas e ao direito administrativo
sancionador as PJ’s
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

Lado outro, representativa parte da doutrina nacional negou


qualquer dúvida sobre a interpretação do dispositivo legal,
entendendo que a Constituição de 1988 dotou as pessoas
jurídicas de capacidade criminal.
Fernando Galvão, defensor da responsabilidade penal da pessoa
jurídica, argumenta que, além do artigo 225, § 3º, da CF, há outro
dispositivo constitucional que indica a intenção de punir
criminalmente as PJ’s. Com efeito, a redação do art. 173, § 5º da
CF é que “a lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos
dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade
desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua
natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e
financeira e contra a economia popular.”
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

Entretanto, quando a Constituição se refere a punições


compatíveis com a natureza da PJ, ela já não excluí a capacidade
criminal?
Afinal, a pena privativa de liberdade é a punição por excelência do
DP.
Lado outro, parte da doutrina afirma que o termo “punição”, por si
só, indica a aplicação do Direito Penal.
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

Fernando Galvão afirma que a possibilidade de responsabilidade


penal da pessoa jurídica é uma escolha político-criminal do
constituinte.
Além disso, rebate o argumento de que, no artigo 225, § 3º, a
melhor interpretação é a de que o direito penal se aplicaria as
pessoas físicas e o administrativo sancionador as PJ’s, alegando
que tal entendimento excluiria a possibilidade de
responsabilização administrativa da pessoa física.
Adequação Constitucional da Capacidade Criminal da
Pessoa Jurídica

Certo é que o dispositivo 225, § 3º, da CF foi materializado na Lei


n. 9605/98 (Lei dos Crimes Ambientais), que adotou
expressamente a responsabilidade penal das pessoas jurídicas.

Vale destacar que, mesmo tendo sua constitucionalidade


questionada, a referida Lei está vigente.
Correntes

A responsabilidade penal da pessoa jurídica dividiu a comunidade


acadêmica entre aqueles que a admitiam e os que se opuseram.

Os argumentos da corrente que se opôs a responsabilidade penal


da pessoa jurídica são de natureza constitucional e dogmática.
Objeções de natureza constitucional

O professor Guilherme José, diante da previsão do artigo 225, §


3º, da CF, promoveu a discussão sobre a existência de normas
constitucionais inconstitucionais, baseando-se, principalmente, na
doutrina de Otto Bachof, professor da universidade de Tubinger,
na Alemanha.
Bachof defende que podem existir normas constitucionais
inconstitucionais quando um dispositivo isolado ofende aos
pressupostos de validade impostos pela própria Constituição.
Com efeito, Guilherme José, à luz da doutrina de Bachof, entende
que a responsabilidade penal da PJ viola os princípios
constitucionais penais da culpabilidade, responsabilidade pessoal,
individualização das penas e intervenção miníma, que são
pressupostos de validade, já que são direitos fundamentais.
Princípio da Culpabilidade

O princípio da culpabilidade veda a


responsabilidade penal objetiva – nullum crimen
sine culpa.
Isto significa que o resultado proibido pelo Direito
deve estar vinculado ao sujeito que lhe deu causa
por um mínimo substrato subjetivo, ou seja, o
agente deve atuar, ao menos, com culpa
inconsciente, nos delitos que admitam o atuar
culposo.
Princípio da Culpabilidade

A responsabilidade penal da PJ se
contrapõe ao princípio da culpabilidade
porque a pessoa jurídica é insuscetível de
vontade, ou seja, incapaz de agir com dolo
ou culpa.
Afinal, se trata de um ente fictício.
Princípio da Culpabilidade

Em sua dissertação de doutorado, o professor Henrique


Viana Pereira esclarece que:

[…] um dos pontos principais da impossibilidade de


responsabilização penal da pessoa jurídica pauta-se na
teoria da fiçção jurídica, defendida por Savigny,
Windscheld e Ilhering, os quais consideram as pessoas
jurídicas como puras abstrações, sendo entes fictícios,
desprovidos de consciência, vontade e finalidade.[…]
(fl.121)
Princípio da Culpabilidade

No mesmo sentido, Fernando Galvão:

[…] A teoria da ficção fundamentou-se na


teoria da vontade, segundo a qual o direito
subjetivo era um poder de vontade que
somente pode ser atribuído ao homem, único
capaz de ser titular de direitos. Segundo tal
construção teórica, as pessoas jurídicas são
entidades fictícias criadas pelo direito e não
seres reais. Nas pessoas coletivas a única
realidade é a das pessoas físicas que a
compõem […] (Galvão, 2003, p. 33).
Princípio da Culpabilidade

Assim, em um modelo de direito penal


constitucionalmente orientado, o princípio da
culpabilidade é um obstáculo a afirmação da tese da
responsabilidade penal da pessoa jurídica.
Sobretudo, se se levar em consideração os argumentos
de Luís Greco no sentido de que a pena tem natureza
personalíssima, já que atinge direitos inatos dos seres
humanos, só podendo ser aplicada diante de um
comportamento errôneo também personalíssimo, ou
seja, culpável.
Princípio da Culpabilidade

A pessoa jurídica não é titular de


direitos inatos, mas apenas de direitos
adquiridos, ela nem mesmo pode ser
destinatária de penas em sentido
próprio e carece igualmente de
culpabilidade.
Princípio da responsabilidade pessoal

O princípio da responsabilidade pessoal


determina que nenhuma pena passará da pessoa
do condenado, podendo a obrigação de reparar o
dano e a decretação do perdimento de bens ser,
nos termos da lei, estendidas aos sucessores e
contra eles executadas, até o limite do valor do
patrimônio transferido. (art. 5º, inciso XLV, CR)
Princípio da responsabilidade pessoal

A responsabilidade penal da pessoa jurídica


colide com o princípio da responsabilidade
pessoal na medida em que a punição da PJ não
afeta somente o alto escalão/a cúpula, mas
poderá refletir nos funcionários, nos acionistas
minoritários e até nos clientes.
Princípio da responsabilidade pessoal

O professor Guilherme José ilustra a situação com o exemplo


de uma corporação, em assembleia do conselho de
acionistas, que decide pelo desmatamento de uma área de
proteção ambiental visando aumento do lucro.
Dez ambientalistas que fazem parte do conselho protestam
com veemência, porém ficam derrotados por constituírem
minoria.
A provável punição da empresa poderá ser até de suspensão
de atividades, o que significará a perda total do patrimônio de
todos os acionistas, inclusive, os ambientalistas, que se
opuseram a prática delitiva.
Princípio da responsabilidade pessoal

Conclui o professor Guilherme José que a


responsabilização penal da pessoa jurídica, além
de significar responsabilidade sem culpa, pode
significar também penas aplicadas a pessoas que
em nada se relacionaram com o ilícito penal.
Princípio da responsabilidade pessoal

Lado outro, o professor Fernando Galvão contrapõe o


argumento de que a responsabilidade penal da PJ viola
o princípio da responsabilidade pessoal, sob o
argumento que referido princípio tem o escopo de impor
limites ao poder punitivo estatal no que diz respeito à
aplicação da pena privativa de liberdade, ou seja, a
disposição constitucional permite as sanções de cunho
econômico.
No caso de PJ criminalmente condenada, assim, não se
estaria violando a responsabilidade pessoal porque a
pena imposta seria exclusivamente econômica.
Princípio da responsabilidade pessoal

Entretanto, data venia ao entendimento de Fernando


Galvão, a parte final do dispositivo constitucional não
constitui uma exceção a regra da responsabilidade
pessoal, mas, reforça o conteúdo semântico do princípio.
Afinal, o perdimento e os efeitos civis poderão ser
passados aos sucessores, até o limite do patrimônio da
pessoa condenada. Tal dispositivo, tem como pano de
fundo, a vedação ao enriquecimento ilícito, impedindo
que eventuais sucessores se beneficiem do patrimônio
adquirido com o crime.
Princípio da responsabilidade pessoal

Já no caso da Pessoa Jurídica, penas como a


suspensão das atividades, terão repercussões
negativas a todos os indivíduos que dela
dependam para seu sustento, bem como aqueles
que foram contra a conduta criminosa, sócios sem
poder de decisão, não existindo em relação a
estes qualquer enriquecimento ilícito.
Princípio da Individualização da Pena

O professor Guilherme José afirma que o


princípio da individualização das penas também é
incompatível com a responsabilidade penal da PJ.
Guilherme José explica que a individualização
das penas que aqui se refere é na aplicação da
pena pelo magistrado, portanto, individualização
judicial. Em seguida afirma que os obstáculos se
apresentam em duas espécies: material e formal.
Princípio da Individualização da Pena

A incompatibilidade formal se trata da


impossibilidade de se analisar a pessoa jurídica
sob o crivo das balizas valorativas do artigo 59 do
Código Penal, ou seja, na aplicação da pena
base.
Afinal, critérios como personalidade, motivos,
culpabilidade, e até conduta social só se aplicam
a pessoas físicas, não sendo possível
individualizar a pena da PJ e a Lei n. 9605/98 não
criou nenhum sistema diferente.
Princípio da Individualização da Pena

A incompatibilidade material, ensina o Guilherme


José, se refere à essência do que significa
individualizar a pena, ou seja, dosar a reprimenda
segundo os critérios da prevenção geral e
especial, fundamentos da sanção, e sua
inaplicabilidade às corporações.
Princípio da Individualização da Pena

Vale destacar que não há incompatibilidade entre


a prevenção geral positiva e a responsabilidade
penal da PJ, porque é a punição das empresas
que pode gerar a crença na efetividade do
ordenamento jurídico, criando a estabilidade da
norma.
Princípio da Individualização da Pena

Entretanto, o mesmo não é possível dizer em


relação a prevenção geral (negativa) e especial,
vez que não se pode exercer intimidação sobre a
PJ se esta não tem consciência e vontade, bem
como não se pode realizar um processo de
reeducação sem a atuação da pena sobre o
elemento psíquico do agente.
Princípio da Individualização da Pena

Na sequência, o professor Guilherme José argumenta que:

[…] Caso haja alguma objeção no sentido de que


a prevenção geral negativa e a prevenção especial
possam ter como destinatário as pessoas que
compõem o órgão diretivo da corporação, há
outros dois argumentos que reforçam a premissa
da incompatibilidade: primeiro lugar, a
individualização das penas não seria, então, da
pessoa jurídica, mas da pessoa física; em
segundo, as pessoas físicas que determinaram
aquela atividade delituosa podem não estarem
mais no corpo diretivo da empresa no momento da
execução da pena, o que também impede a
atuação preventiva da sanção […].
Princípio da Intervenção Miníma

Trata-se de uma baliza valorativa que vincula o legislativo na


elaboração da norma penal, sobretudo na elaboração de
tipos penais e o aplicador da lei em sua interpretação.
Constituindo, também, critério de aferição de sua eficácia.

A responsabilidade penal da PJ não é compatível com o


princípio da intervenção mínima na medida em que a PPL, a
pena por excelência do DP, deve ser utilizada apenas quando
outras medidas menos restritivas sejam insuficientes.
Entretanto, nessa hipótese (RPPJ), não há sequer
possibilidade de aplicação da PPL, que se utiliza de punições
próprias do Direito Administrativo Sancionador.
Princípio da Intervenção Miníma

Guilherme José afirma que:

[…] Entretanto, outro fator a explicitar de maneira mais


evidente a lesão proporcionada pela responsabilidade
penal coletiva ao princípio da intervenção mínima está
justamente na sanção prevista que, conforme já
exposto, só podem ser restrições de direitos ou pena
pecuniária.
Ora, essas espécies de sanções podem estar previstas
no campo do direito administrativo, não se justificando,
assim, a criação de uma responsabilidade penal que
modifica toda a teoria do delito e que irá culminar com
a incidência de idêntica sanção ao sujeito ofensor da
norma incriminadora. […]
Objeções dogmáticas

As principais críticas dogmáticas que recaem


sobre a Responsabilidade Penal da Pessoa
Jurídica se referem a incapacidade de ação e de
culpabilidade.
Incapacidade de Ação

Inicialmente, em relação a ação, no modelo finalista, Welzel


ensina que:
“a ação humana é exercício de uma atividade final. A ação é, portanto, um acontecimento
final e não puramente causal. A finalidade, o caráter final da ação, baseia-se no fato de
que o homem, graças ao seu saber causal, pode prever, dentro de certos limites, as
possíveis consequências de sua conduta, designar-lhe fins diversos e dirigir sua
atividade, conforme um plano, à consecução desses fins. Graças ao seu saber causal
prévio, pode dirigir seus diversos atos de modo que oriente o suceder causal externo a
um fim e o domine finalisticamente. A atividade final é uma atividade dirigida
conscientemente em razão de um fim, mas é a resultante causal da constelação de
causas existente em cada momento. A finalidade é, por isso – dito de forma gráfica -
”vidente”, e a causalidade, “cega”.” (WELZEL, Hans. O novo sistema jurídico-penal. Uma
introdução à doutrina da ação finalista. fl. 27).
Incapacidade de Ação

Roxin apresenta sua teoria pessoal da ação:


[…] Um conceito de ação ajustado a sua função se produz se se entende a
ação como “manifestação de sua personalidade”, o que significa o seguinte: Em
primeiro lugar é ação tudo o que se pode atribuir a um ser humano como centro
anímico espiritual de ação, e isto falta em caso de efeitos que partem
unicamente da esfera corporal (automática) do homem, o “âmbito material, vital
e animal do ser”, sem estar submetido ao controle do “eu”, da instância
condutora anímico espiritual do ser humano. Se um sujeito é empurrado com
força irresistível contra a direção de uma janela, ou se durante o sonho, ou um
delírio, um ataque convulsivo, ele bate em volta dele, ou se reage de modo
puramente reflexo. Todas estas são manifestações que não são dominadas ou
domináveis pela vontade e a consciência, assim não podem ser qualificadas
como manifestações da personalidade, nem imputadas ao centro anímico
espiritual da pessoa. […] (ROXIN, Claus. Derecho Penal- Parte General. Tomo I.
Fundamentos. La estructura de la teoría del Delito. fl. 252- tradução livre).
Incapacidade de Ação

Lado outro, Jakobs esclarece seu peculiar conceito de ação:


[…] Partindo do conceito aqui empregado de conduta como causação evitável
do resultado e do conceito correspondente de omissão como sendo o não-
impedimento evitável de um resultado, é possível constituir um supraconceito de
comportamento que, guardada a diferença entre os resultados, evitável, englobe
a comunidade entre ação e omissão. Exemplo: se uma pessoa dá causa, de
maneira evitável, à morte de uma outra ou se não repele as condições para a
morte, suficientemente criadas de outro modo (dolosa ou culposamente), há,
não obstante a distinção entre ação e omissão, uma igualdade na diferença
evitável entre as respectivas alternativas; trata-se justamente da diferença entre
a vida e a morte. Expressando-o em uma fórmula: o comportamento é a
evitabilidade de uma diferença de resultado. […] (JAKOBS, Gunther. Tratado de
Direito Penal. Teoria do injusto penal e culpabilidade. fl. 212).
Incapacidade de Ação

Diante de tudo isso, verifica-se que a responsabilidade penal da


pessoa jurídica é manifestadamente incompatível com, ao menos,
dois dos principais modelos de ação.
Com efeito, em relação ao modelo de Welzel, inicialmente pode se
afirmar que se trata de um conceito construído apoiando-se em
reflexões da psicologia do pensamento, que introduz junto à forma
de determinação da causalidade, a da “intencionalidade”
(JAKOBS. Obra citada acima, fl. 193). Assim, o conceito de ação
finalista é construído sob a estrutura do pensamento da pessoa
humana, que é a única que atua com vontade dirigida a uma
finalidade, o que afasta qualquer compatibilidade com a RPPJ.
Incapacidade de Ação

Em relação ao conceito de ação de Roxin, podem


ser feitas, em maior ou menor medida, as
mesmas observações feitas na modelo de ação
finalista. Afinal, muito embora seja um conceito
normativo, também, é desenvolvido levando em
consideração elementos próprios do ser humano,
como personalidade (esfera anímico espiritual),
tornando-se dogmaticamente incoerente cogitar a
RPPJ.
Incapacidade de Ação

Lado outro, em relação ao modelo de ação de Jakobs, Silvina Bacigalupo


entende ser possível com a RPPJ, veja-se:
[…] Este modelo permite fundamentadamente falar de diferentes sujeitos de
direitos penal. Aqui não se parte só de um indivíduo para determinar o que é um
sujeito, mas sim se determina o sujeito em função de seu próprio sistema. As
características do sistema que compõem um sujeito de direito penal, são as que
determinam como se configura a <evitabilidade> da produção do resultado e as
que determinam a existência de uma ação relevante. A <evitabilidade pessoal>
deverá se determinar no caso da pessoa jurídica de acordo com as capacidades
que se reconhecem aos órgãos e seus estatutos […] (BACIGALUPO, Silvina. La
responsabilidade penal de las personas jurídicas. Barcelona. 1998. p. 154
(tradução livre).
Incapacidade de Ação

Apesar da compatibilidade da ação de Jakobs


com a RPPJ, vale destacar que faz parte e
sentido em modelo funcionalista sistêmico, que é
muito criticado pela doutrina alemã por seu
normativismo - que pode-se ver no conceito de
ação.
Certo é que é metodologicamente questionável
importar tal conceito desgarrado de suas origens
científicas.
Culpabilidade

Luiz Regis Prado afirma que:

[…] a culpabilidade penal como juízo de censura pessoal pela realização do injusto típico só pode
ser endereçada a um indivíduo (culpabilidade da vontade). Como juízo ético-jurídico de reprovação,
ou mesmo de motivação normal pela norma, somente pode ter como objeto a conduta humana livre.
Esse elemento do delito – como fundamento e limite da pena – é sempre reprovabilidade pessoal e
se decompõe em: imputabilidade (capacidade de culpa); consciência potencial da ilicitude e
exigibilidade de conduta diversa.
Sobre o principal critério aventado para justificar a culpabilidade da própria pessoa jurídica (v.g.,
culpabilidade por defeito de organização), tendo em conta as categorias sociais (culpabilidade
social), objeta-se, corretamente, que “a culpabilidade da pessoa coletiva nesse sentido (como já
acontece com a sua ação) continua sendo também uma ficção, já que a organização defeituosa não
pode ser realizada pela própria pessoa coletiva, mas sim por seus dirigentes”. Isso significaria,
portanto, fundamentar a culpabilidade em fato alheio – culpabilidade presumida -, porque a
responsabilidade da pessoa jurídica estaria baseada na imputação do fato culpável de seu órgão ou
representante em uma violação flagrante do princípio da culpabilidade” […] (PRADO, Luiz Regis.
Responsabilidade penal da pessoa jurídica – Em defesa do princípio da imputação penal subjetiva.
fl. 106/107).
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Lado outro, a parcela da doutrina favorável a RPPJ reconhece que o


conceito analítico de delito é construído utilizando como referência a
conduta humana, por isso, defendem a elaboração de um conceito
especial às pessoas jurídicas. Nesse sentido, Fernando Galvão:
[…] 1. A constituição federal acolheu opção política no sentido de
responsabilizar criminalmente a pessoa jurídica e, portanto, cabe aos
operadores do direito construir caminho dogmático capaz de
materializar, com segurança, a vontade política.
2. Não é possível utilizar a teoria do delito tradicional para
responsabilidade a pessoa jurídica. Não se pode identificar na pessoa
jurídica a autoria do crime. […] (GALVÃO, Fernando. A responsabilidade
penal da pessoa jurídica. fl. 123).
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Fernando Galvão afirma que a responsabilidade


da pessoa jurídica é submetida apenas aos
requisitos estabelecidos no artigo 3º da Lei dos
Crimes Ambientais:
 Deliberação do ente coletivo;
 Autor material seja vinculado ao ente coletivo
 A infração seja praticada em benefício da PJ
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Já em relação ao autor material (pessoa física) deve se


aplicar a teoria do delito.
Isto porque a pessoa jurídica não pode ser autora do crime e
sim penalmente responsável pela conduta da pessoa física,
explica Henrique Viana Pereira.
Portanto, a responsabilidade penal da pessoa jurídica é
indireta, por fato praticado pela pessoa física que age em seu
nome e interesse, aplicando-se os mesmos parâmetros
dogmáticos utilizados para a responsabilização civil da
pessoa jurídica, por atos praticados pelas pessoas físicas
que agem em seu nome.
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Tudo isso significa que a responsabilidade da


pessoa física é subjetiva, porque se submete a
teoria analítica do delito, enquanto a
responsabilidade da pessoa jurídica é objetiva
porque decorre da relação entre ela e o autor do
crime (GALVÃO).
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Há ainda uma corrente que defende a Teoria da dupla


imputação.
Henrique Viana ensina que a teoria da dupla imputação
admite a RPPJ, desde que seja imputada
responsabilidade às pessoas físicas dos administradores
responsáveis pelos atos ilícitos.
Segundo esta teoria a RPPJ só é possível se a infração
penal tenha sido cometida por decisão de representante
legal ou contratual e tenha sido cometido no interesse ou
benefício da pessoa jurídica.
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Assim, ensina Galvão, não é suficiente constatar


a ocorrência da decisão pela prática delitiva, é
necessário identificar a pessoa física que com sua
conduta, lesionou o bem jurídico por causa de sua
deliberação.
Além disso, torna-se necessário verificar a
causalidade entre a decisão e a violação concreta
da norma, o que pressupõe o conhecimento de
quem seja o autor material.
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica

Por fim, Henrique Viana esclarece que:


[…] Logo, a questão da conduta punível e a da
culpabilidade serão baseadas nas ações ou omissões
criminosas praticadas pelos dirigentes da pessoa
jurídica, servindo como requisito para que a pessoa
jurídica seja penalmente responsabilizada.
Dá-se, então, um concurso necessário de agentes, de
modo que a denúncia deve descrever a conduta da
pessoa jurídica e da pessoa física, ainda que esta,
excepcionalmente, não tenha sido identificada ou, por
algum motivo, não seja culpável. […] (fl. 128/129).
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica no Brasil

A responsabilidade penal da pessoa jurídica está


prevista na Lei n. 9605/98 (Lei dos Crimes
ambientais).
Naturalmente as pessoas jurídicas não são suscetíveis
de penas privativas de liberdade, sendo-lhe aplicadas
apenas as restritivas de direito, multa e prestação de
serviços à comunidade.
Ademais, boa parte da doutrina considera que são
aplicadas as pessoas jurídicas medidas de segurança
e não penas, porque esta pressupõe culpabilidade, o
que não há na PJ. (SHECAIRA, 1998, fl. 104-105).
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica no Brasil

Como destaca o professor Henrique Viana, a Primeira


Turma do Supremo Tribunal Federal, em julgamento
realizado em 06/08/2013, por maioria de votos,
reconheceu a possibilidade de se processar penalmente
uma pessoa jurídica, mesmo não havendo ação penal
em curso contra a pessoa física relacionada com o crime
(REXT 548181/PR). Na ocasião, a Ministra Rosa Weber
foi acompanhada pelos Ministros Luís Roberto Barroso e
Dias Toffoli. Ficaram vencidos os Ministros Marco Aurélio
e Luiz Fux.
Direito Comparado

Nos Estados Unidos, tendo em vista que os estados


possuem certa autonomia para legislar, há diferentes
situações.
Entretanto, de forma geral, é admitida a RPPJ.
A Jurisprudência exige o vínculo entre o autor do crime e
a empresa, ainda que ela não tenha obtido nenhum
proveito com o fato delituoso.
Direito Comparado

O Reino Unido também admite a responsabilidade


criminal da pessoa jurídica. O marco teórico que legitima
tal forma de responsabilidade é a teoria da identificação.
Regis Prado explica que:
[…] Tem-se, portanto, que a pessoa natural
não fala, não atua para a sociedade; ela
atua enquanto sociedade e a vontade que
dirige suas ações é a vontade da própria
sociedade. Ela é a personificação do ente
coletivo; sua vontade é a vontade dele. […]
(PRADO, 2013, fl. 544).
Direito Comparado

Na França, conforme ensina o professor Henrique Viana, há a


RPPJ. Neste país o princípio da culpabilidade não tem valor
constitucional, assim, existe terreno fértil para a responsabilidade
de entes sem consciência e vontade. Basta ver que o código penal
francês prevê expressamente a RPPJ. O sistema adotado na
França é a dupla imputação.
Entretanto, o professor Guilherme José alerta que nem sempre a
RPPJ dará causa a responsabilidade penal da pessoa física,
sobretudo, em delitos omissivos e culposos, quando ausentes os
pressupostos da imputação subjetiva.
Direito Comparado

Lado outro, em Portugal há um dispositivo no


Código Penal vedando a RPPJ, veja-se:
[…] Art. 11 do Código Penal Português. Carácter
pessoal da responsabilidade: Salvo disposição
em contrário, só as pessoas singulares são
susceptíveis de responsabilidade criminal. […].
Vale destacar que existe disposição em contrário,
o Decreto n. 28/34 prevê a RPPJ em crimes
contra a ordem econômica, respeitando às
recomendações do Conselho Europeu.
Direito Comparado

Na Holanda e na Dinamarca há a possibilidade


RPPJ.
É interessante que na Holanda se aceita quando
a atividade lesiva seja fruto de decisão de um
órgão da empresa, podendo caracterizar o injusto
penal se a ação for considerada própria da
pessoa jurídica dentro de um contexto social.
Já na Dinamarca, basta previsão expressa no
delito.
Direito Comparado

Na Itália também não é permitida a RPPJ.


A constituição italiana em seu artigo 27, parágrafo I
prevê que a responsabilidade penal é sempre pessoal.
Isto tendo em vista que na Itália, assim como no Brasil, o
princípio da culpabilidade tem valor constitucional.
Direito Comparado

Por fim, na Alemanha também não se admite a RPPJ.


Há um entendimento neste país de que não é necessário, do
ponto de vista político-criminal, a aplicação de penas
criminais aos entes coletivos.
Isto porque, na Alemanha, existe a subdivisão entre direito
penal incriminador e direito administrativo sancionador.
Registre-se, que no Brasil, vem se desenvolvendo um
microssistema de direito administrativo sancionador com a
Lei de Improbidade Administrativa e a Lei Anticorrupção
Empresarial (Lei n. 12.846/2013) que adota como mecanismo
preventivo o compliance.
Agradeço a atenção.