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ORGANIZADORES:

JAQUELINE CARVALHO QUADRADO


EWERTON DA SILVA FERREIRA

1º Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira


Identidade, Diversidade e Direitos Humanos
1ª edição
2018
Copyright © 2018 Organizado por Jaqueline Carvalho Quadrado e Ewerton da Silva Ferreira

CAPA
Leonardo Jung Zborowski e Vitória Ayla Sant’ana

REVISÃO DE TEXTO
Dos autores

APOIO TÉCNICO
Gustavo de Carvalho Luiz

DIAGRAMAÇÃO E CRIAÇÃO DO EBOOK


Editora Cia do eBook

ISBN
9788555851223

Editora do Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura – CLAEC

Editor-chefe
Bel. Bruno César Alves Marcelino, Centro Latino-Americano de Estudos em Cultura e Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Brasil (Editora Claec).

Conselho Editorial
Dra. Ahtziri Erendira Molina Roldán, Universidad Veracruzana, México
Dra. Denise Rosana da Silva Moraes, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Brasil
Dr. Djalma Thürler, Universidade Federal da Bahia, Brasil
Dr. Daniel Levine, University of Michigan, Estados Unidos
Dr. Fabricio Pereira da Silva, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Dr. Francisco Xavier Freire Rodrigues, Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil
Dra. Isabel Cristina Chaves Lopes, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Dr. José Serafim Bertoloto, Universidade de Cuiabá, Brasil
Dra. Marie Laure Geoffray, Université Sorbonne Nouvelle – Paris III, França
Dra. Ludmila de Lima Brandão, Universidade Federal do Mato Grosso, Brasil
Dr. Marco Antonio Chávez Aguayo, Universidad de Guadalajara, México
Dra. Sandra Catalina Valdettaro, Universidad Nacional de Rosário, Argentina
Dra. Susana Dominzaín, Universidad de la República, Uruguai
Dra. Suzana Ferreira Paulino, Faculdade Integrada de Pernambuco, Brasil
Dr. Wilson Enrique Araque Jaramillo, Universidad Andina Simón Bolivar, Equador

Ferreira, Ewerton da Silva; Quadrado, Jaqueline Carvalho


1º Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira: Identidade, Diversidade e Direitos Humanos / Ewerton da Silva Ferreira, Jaqueline Carvalho Quadrado, organizadores. Timburi, SP: Cia do eBook,
2018.
250 p.

ISBN: 9788555851223

1. Educação. 2. Serviço Social. 3. Direitos Humanos.


I. Título.

CDD 371.3
SUMÁRIO
Capa
Espelho
Página de créditos
Prefácio
Apresentação
I Seminário (Des)fazendo Saberes na Fronteiras: Identidade, Diversidade e Direitos Humanos
Saúde, Sistema Prisional e Serviço Social: por uma concepção ampliada de saúde e garantia dos direitos humanos
Desestruturação do Estado e a perda de direitos das mulheres: uma análise das políticas neoliberais pós-impeachment da presidente Dilma Rouseff
A mulher como objeto da mídia: a bela, recatada e do lar
Relações de gênero e violência contra a mulher: onde o Serviço Social se insere?
A crise e a figura de Dilma: a representação na Revista Exame
Homofobia na escola: narrativas de travestis e transexuais
O núcleo de gênero e diversidade sexual do Instituto Federal Farroupilha campus São Borja
Dança e masculinidades: a produção de heterotopias
Cultura do estupro, cultura patriarcal e banalização da violência: uma análise de discurso do estupro coletivo no Rio de Janeiro em 2016
O corpo como fronteira do saber e a construção de novos saberes
A potência simbólica do feminino: modos de existir na cidade e práticas de resistência na escola
A disciplinarização do conhecimento como barreira para a aprendizagem no viés da educação inclusiva
A complexidade e os limites da publicidade na representação de imagens de gênero
Representações do gênero feminino na música: uma sutil expressão de violência contra a mulher
Comunicação como direito humano: serviço social e suas aproximações
Gênero e política de saúde: a participação das mulheres nos ESF's
Notas de rodapé
Realização
PREFÁCIO
A área de extensão vai ter no futuro próximo um significado muito especial. No momento em que o capitalismo global pretende funcionalizar a Universidade e, de facto,
transformá-la numa vasta agência de extensão ao seu serviço, a reforma da Universidade deve conferir uma nova centralidade às atividades de extensão (com implicações
no curriculum e nas carreiras dos docentes) e concebê-las de modo alternativo ao capitalismo global, atribuindo às Universidades uma participação activa na construção da
coesão social, no aprofundamento da democracia, na luta contra a exclusão social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade cultural. (BOAVENTURA DE
SOUSA SANTOS)

A opção pela citação de Boaventura de Sousa Santos, a qual está no prefácio do documento intitulado Política Nacional de Extensão Universitária, na
versão 2012, é uma forma de demonstrar que o fazer Universitário da Professora Jaqueline está perfeitamente articulado com o espírito constitucional da
indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão, bem como explicita na metodologia o cuidado com a escolha do tema e a criação do espaço para a
discussão acadêmica, pontuando os avanços e retrocessos em relação à temática.
A realização do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira: Identidade, Diversidade e Direitos Humanos, vinculado ao programa de extensão
Mulheres sem Fronteira, nos mostra claramente que podemos estabelecer através da extensão universitária, as complexas relações estabelecidas no
processo de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, os textos apresentam a construção de uma consciência crítica, muito bem alicerçada no contexto
contemporâneo, chamando a atenção por meio de palestras, mesas redondas, oficinas e grupos de trabalho para a necessidade premente da construção de
novos saberes, mais plurais e inclusivos.
Esta obra nos traz o desafio de tematizar e desconstruir todas as formas de desigualdade, lutar contra o desmonte de direitos já conquistados, o
sucateamento da educação pública, além de aprofundar as reflexões e compromissos com as lutas feministas, de gênero e LGBTTIQ. O compromisso
implícito nesta obra é imensurável, pois nos instiga a dar vida longa a este Seminário. Traz fortemente para a Universidade o compromisso de produzir
conhecimento científico socialmente relevante que venha a contribuir efetivamente com a formação dos brasileiros.
Destaco, ainda, o valor imensurável que é a relação construída entre a docente e os acadêmicos, o que demostra que foi um trabalho coletivo, o qual
expressou a necessidade de um diálogo interdisciplinar para a realização das ações e intervenções que venham a contribuir com o aprofundamento das
discussões sobre esta temática tão relevante, e ainda velada e envolvida em meias verdades e preconceitos. É papel da Universidade trabalhar pelo fim dos
processos que maltratam e excluem.
É muito gratificante ver reafirmado, através deste livro, produto do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira: Identidade, Diversidade e Direitos
Humanos, um dos maiores objetivos da Extensão Universitária que é o de ser um processo acadêmico definido e efetivado em função das exigências da
realidade, além de indispensável na formação do estudante, na qualificação do professor e no intercâmbio com a sociedade.
Gostaria de expressar minha gratidão pelo convite feito pela docente Jaqueline Quadrado e pelo acadêmico Ewerton da Silva Ferreira para prefaciar
este livro. Aceitei, porque reconheço nos artigos, o resultado concreto das ações políticas estabelecidas pela PROEXT Unipampa e também para valorizar o
compromisso pessoal e profissional da professora Jaqueline em transformar realidades pela intervenção, através da discussão de identidade, diversidade e
direitos humanos. Agradeço ao Ewerton, pelo muito que aprendi em relação à vivência Universitária, através de sua forte atuação, militante e decisiva. A
você meu respeito e admiração.
Finalizo dizendo que foi um grande prazer prefaciar esta obra que materializa a mudança dos conceitos da Extensão Universitária, bem como reforça o
compromisso das Universidades Públicas Brasileiras com a transformação social. Desejo uma boa leitura com a certeza de que esta obra poderá expressar
através dos seus artigos, o que foi o I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira.
Nádia Fátima dos Santos Bucco
Pró-Reitora de Extensão e Cultura da UNIPAMPA
APRESENTAÇÃO
É com muita alegria e satisfação que apresento esse livro, fruto do programa de extensão Mulheres sem Fronteiras da Universidade Federal do Pampa –
UNIPAMPA campus São Borja, que congrega nessa obra alguns artigos apresentados e oriundos de parcerias que surgiram após o I Seminário
(Des)Fazendo Saberes na Fronteira: Identidade, Diversidade e Direitos Humanos que aconteceu nos dias 16 e 17 de novembro de 2016.
A UNIPAMPA tornou-se independente através da Lei 11.640 de 2008 e tem em seus objetivos o desenvolvimento da metade Sul do Rio Grande do Sul.
O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) criado pelo governo federal foi o suporte para criação e
consolidação da UNIPAMPA como uma das universidades de excelência na graduação no estado do Rio Grande do Sul. Cabe destacar que a UNIPAMPA
desenvolve atividades de Pesquisa, Ensino e Extensão e vem se consolidando na Pós-graduação.
Por outro lado, por esta inserida em uma região com baixos Índices de Desenvolvimento Humano e de Desenvolvimento da Educação Básica, a
universidade vem se consolidando enquanto um espaço público, laico, gratuito e de qualidade, e assumindo um importante compromisso com o
desenvolvimento da realidade local nos aspectos socais, políticos, econômicos e, sobretudo, cultural. Dessa forma, realizadas através do Programa de
Extensão Mulheres sem Fronteiras aproximam a comunidade da Universidade e, os eventos científicos que trazem acadêmicos/as, professores/as e
militantes de outras regiões para os locais onde a UNIPAMPA está inserida promovem o conhecimento, ampliam os horizontes e possibilitam a criação de
parcerias e convênios com outras instituições de ensino superior e movimentos sociais. Sobretudo, demonstram a importância da UNIPAMPA na mudança
do contexto regional.
Na oportunidade, em nome da Comissão Organizadora do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira: Identidade, Diversidade e Direitos
Humanos, presidida pela professora Dra. Jaqueline Carvalho Quadrado, gostaria de agradecer à Pró-reitoria de Extensão e Cultura da Universidade Federal
do Pampa por todo apoio e suporte prestado ao longo das atividades do evento. À Pró-reitora de Extensão Nádia Bucco por ter aceito escrever o prefácio
desta obra. À Direção do campus São Borja através do Diretor Professor Dr. Ronaldo Bernardino Colvero e do Coordenador Administrativo Luís André
Padilha por todo suporte de infraestrutura e materiais para o desenvolvimento das atividades do (Des)Fazendo Saberes na Fronteira. À equipe do programa
de extensão Mulheres sem Fronteira que em 2016 era composta pela Kellen Vieira, José Arlindo Piazer, Roberta Brezezinski Moreira, Claudiomiro Ramos
Moreira que se dedicaram com muito amor ao desenvolvimento das atividades do evento. Às professoras Sara Epitácio e Carolina Pinheiro por todo apoio
ao desenvolvimento antes e durante o seminário.
Em especial, deixo registrado o nosso agradecimento à Deputada Federal Maria do Rosário que contemplou o campus São Borja com uma emenda
parlamentar no valor de R$ 100.000,00 para as ações do 1º Fórum de Cultura Brasileira da UNIPAMPA, que tornou possível a publicação desta obra.
Nosso respeito a sua luta pela garantia dos direitos das mulheres, dos LGBTTQ, dos negros, dos indígenas, dos quilombolas, dos trabalhadores e
trabalhadoras do Brasil.
Agradecemos a todos e todas que de alguma forma contribuíram com a organização do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteiras: Identidade,
Diversidade e Direitos Humanos, aos que contribuíram com a publicação dessa obra, e aos que contribuem diariamente com a luta por uma sociedade sem
machismo, LBFTfobia e igualitária.
Desejamos a todos e todas uma ótima leitura e que possamos compartilhar muitas experiências. Vida longa ao Seminário (Des)Fazendo Saberes na
Fronteira e ao programa de extensão Mulheres sem Fronteiras.
Um forte abraço!
Ewerton da Silva Ferreira
Membro da Comissão Organizadora do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira
I SEMINÁRIO (DES)FAZENDO SABERES NA FRONTEIRAS: IDENTIDADE, DIVERSIDADE E DIREITOS HUMANOS
Ewerton da Silva Ferreira1
Jaqueline Carvalho Quadrado2
Roberta Brezezinski Moreira3

Resumo: O I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira, organizado pelo Programa de Extensão Mulheres Sem Fronteiras, é um evento que foi desenvolvido no ano de 2016, realizado pelos membros do
Programa em parceria com o curso de Serviço Social e com a Especialização em Políticas e Intervenção em Violência Intrafamiliar, no campus da UNIPAMPA em São Borja, no estado do Rio Grande do Sul.
Sua principal característica foi de ser um evento que possibilitasse uma visão crítica e autônoma a estudantes, professores, e demais participantes. O evento contou com palestra, mesa redonda, oficinas e
grupos de trabalhos. A metodologia adotada é a da pesquisa participativa, que possibilita tanto o posicionamento ativo e crítico, quanto a intervenção e a busca da transformação através da construção de
novos saberes e valores a partir da participação coletiva dialógico-dialética. Percebe-se que essa metodologia permite a articulação pesquisa-extensão e traz resultados ao processo de aprendizagem, o que
ratifica a importância da indissociabilidade ensino-pesquisa e extensão, pilar fundamental da instituição universitária. Os resultados esperados foram alcançados com êxito, principalmente no que se refere à
formação de uma rede de diálogo, ao expandir os horizontes de informações sobre gênero, feminismos e sexualidade.
Palavras-chave: extensão; saberes; prática.

Introdução
O presente artigo é resultante da experiência de extensão universitária, vinculada ao programa de extensão Mulheres Sem Fronteiras. A escolha desse
recorte de relato foi provocada pelas experiências como comissão organizadora no referido seminário e no programa de extensão, ambos articulados ao
curso de Serviço Social da Universidade Federal do Pampa, campus São Borja.
Nesse sentido, o texto apresenta parte dos resultados, a respeito do seminário, com ênfase na discussão de identidade, diversidade e direitos humanos,
na (des)construção da consciência crítica situada no contexto sócio-histórico contemporâneo, ao chamar a atenção da relevância desse tipo de iniciativa de
extensão para além das contribuições unívocas que as universidades podem desempenhar na organização de debates, mas também, e talvez sobretudo, para
a importância da construção dessas experiências junto aos pesquisadores, militantes, profissionais que incidem em processos de atenção para o
empoderamento feminino e/ou equidade de gênero, estudantes da rede básica de ensino fundamental e médio e estudantes universitários, para o
redimensionamento crítico da universidade e dos perfis profissionais por ela formados.
Ademais o acirramento de todas as formas de desigualdades, da criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, da fragmentação da consciência
de classe, do desmonte de direitos, do sucateamento e mercantilização dos serviços públicos, e tantas outras disparidades características do tempo presente,
o Serviço Social é instigado a aprofundar reflexões e compromissos com as lutas feministas e LGBTTIQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis,
Transexuais, Intersexuais e Queer).

Contextualização do território educacional e do seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira


Cabe destacar que a região de abrangência da UNIPAMPA, campus São Borja possui uma trajetória histórica e cultural de grande relevância nacional e
internacional, o que contribui para a constituição de uma diversidade cultural e identitária que está enraizada nas práticas materiais e imateriais do
patrimônio cultural e histórico regional. Esta pluralidade histórica e cultural está relacionada às seguintes questões: foi sede da Redução Jesuítico Guarani
de São Francisco de Borja (primeiro dos Sete Povos das Missões), que até hoje demarca uma identidade missioneira amparada na religiosidade e na
produção da arte; esteve envolvida nas disputas territoriais da Coroa Ibérica; suas áreas urbanas foram expandidas a partir da constituição de
territorialidades culturais ribeirinhas e suas relações com o contrabando; identidade transfronteiriça; foi cidade de nascimento de dois ex-Presidentes do
Brasil (Getúlio Vargas e João Goulart), que demarca uma identidade política; esta regionalizada na Mesorregião da Campanha do RS, que identifica-se
com práticas sociais e culturais vinculadas ao campo e ao gaúcho (UNIPAMPA, 2016).
A cidade de São Borja está localizada na região oeste do Rio Grande do Sul e possui aproximadamente 60 mil habitantes de acordo com o censo do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE de 2010 – e faz fronteira com o município de Santo Tomé na Argentina. São Borja por muito tempo
teve seu desenvolvimento baixo devido à ausência de investimentos por parte dos governos Federal e Estadual, e construiu sua economia voltada ao
agronegócio.
A cidade ao longo dos anos teve forte influência dos padres jesuítas por ser considerada a primeira cidade dos sete Povos das Missões e, por
consequência, estruturou-se a partir de um padrão machista, heteronormativo e cristão (praticantes ou não). Tais aspectos influenciaram diretamente no
sistema educacional padronizando o ensino voltado a uma versão de currículo tradicional, onde se prioriza um ensino destinado apenas um ensino
histórico-cronológico e com pouca ou nenhuma reflexão sobre a abordagem de temas que emergiram com a chegada de novos sujeitos à escola e à
universidade, bem como a “saída do armário” dos grupos que historicamente foram obrigados a manter-se presos dentro dos ideais conservadores.
O referido munícipio dispõe de poucas ações que visam promover a diversidade cultural, sexual, religiosa e étnico-racial, mas no ano de 2015 com as
discussões relacionadas à inclusão do tema identidade de gênero no Plano Municipal de Educação – PME –, o plenário da Câmara Municipal lotou e
dividiu opiniões. De um lado, membros de entidades religiosas majoritariamente evangélicos e católicos e do outro, militantes, e LGBTTIQ que defendiam
a permanência do tema no PME. Após uma votação marcada por protestos e diversos debates no plenário do legislativo municipal qualquer menção sobre
identidade de gênero foi retirada, no entanto, o movimento de ativismo saiu fortalecido e com o desejo de ampliação das discussões, visando uma
conscientização sobre o tema e redução dos casos de homolesbotransfobia na cidade e, sobretudo, no ambiente escolar e universitário.
É nesse cenário cercado de saberes e práticas de forte cunho conservador, religioso e ideológico, que surge o I Seminário (Des)Fazendo Saberes na
Fronteira, que se materializou a partir das demandas supracitadas e das encontradas nas atividades dos projetos de extensão, pesquisa, ensino e nas
discussões que acontecem entre estudantes e comunidade local da necessidade de um evento que pudesse realizar a discussão dos relacionados aos
movimentos Feministas e LGBTTIQ.
Ao desenvolverem suas práticas de estágios e atuação em projetos de extensão, em alguns espaços sócio-ocupacionais, os cursos que recebem
estudantes das mais diversas classes sociais, gênero, orientação sexual, raças e etnias, os estagiários e bolsistas dos projetos se deparam com um forte
predomínio do machismo, violência contra a mulher e aos LGBTTIQ. Após essas vivências alguns questionamentos emergiram, sendo o principal: como a
UNIPAMPA pode contribuir para o debate e reflexões sobre gênero, feminismos e sexualidade?
Nesse sentido, após reuniões, discussões, reflexões e debates surgiu a necessidade de realizar ações formativas com a comunidade local e regional. A
partir dos debates surgiu o I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteiras com dois objetivos: a) criação de um evento para consolidação da Universidade
Federal do Pampa – UNIPAMPA, campus São Borja nos debates relacionados à temática de gênero, feminismos e sexualidade e, b) cumprir o que propõe a
extensão universitária que é a aproximação da comunidade onde está inserida. Cabe destacar que tal inserção junto à comunidade está amparada pelo Plano
de Desenvolvimento Institucional que pontua:
Assim, os cursos oferecidos, a produção do conhecimento, as atividades de extensão e de assistência devem refletir esse comprometimento. A gestão, em todas as suas
instâncias, deve promover a cooperação interinstitucional nacional e internacional e a aproximação com os atores locais e regionais, visando à constituição de espaços
permanentes de diálogo voltados para o desenvolvimento, dando atenção a todos os ambientes que compõem este processo: econômico, político, social, cultural e natural,
implicando em mudanças estruturais integradas a um ciclo permanente de progresso do território, da comunidade e dos indivíduos. Nesse sentido, a compreensão que se
tem de desenvolvimento é a de um processo complexo de mudanças contínuas, que envolve transformações não somente de ordem econômica como de ordem política e,
fundamentalmente, de ordem humana e social. (PDI, 2014, p. 24)
A UNIPAMPA foi criada com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento da metade sul do Rio Grande do Sul e, portanto, compreende que a extensão
universitária é fator fundamental na consolidação do ensino público, gratuito e de qualidade nessa região. Para tanto, ela adota o conceito de extensão
universitária, definido pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (FORPROEX, 2010, p. 5):
A Extensão Universitária, sob o princípio constitucional da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, é um processo interdisciplinar educativo, cultural,
científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e outros setores da sociedade.

O desenvolvimento do evento contou com parcerias de professores/as da educação básica, assistentes sociais, psicólogos, docentes e discentes da
UNIPAMPA, e demonstrou a importância da função social das universidades públicas na sociedade, em especial, nas regiões interioranas e de pouco
acesso a debates mais amplos e democráticos. Além disso, expande as discussões com licenciados e licenciandos nas temáticas pautadas nos temas
transversais preconizados nos Parâmetros Curriculares Nacionais sobre Orientação Sexual (PCN - 1997) com intuito de formar uma rede com escolas e,
desta forma, contribuir com a ampliação do diálogo entre universidade e comunidade externa, buscando assim auxiliar na inclusão de novos temas no
currículo escolar voltados a realidades locais, bem como promover a diversidade, rompendo com violências de gênero dentro das escolas.

Procedimentos metodológicos
O I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira realizou sua primeira edição no ano de 2016 na UNIPAMPA campus São Borja, com o tema
“Identidade, Diversidade e Direitos Humanos”, e teve por finalidade proporcionar um espaço para discussão acadêmica auxiliando a demonstrar avanços e
retrocessos ao que tange a temática.
Nessa edição congregou, em dois dias, docentes, discentes da UNIPAMPA e de outras instituições de ensino superior, da educação básica e
profissionais de diversas áreas do conhecimento, pesquisadores ou militantes nos temas supracitados, representantes de diversas cidades da região oeste e
central do estado do Rio Grande do Sul.
O seminário desenvolveu-se nos dias 17 e 18 de novembro de 2016, contemplando um total de 200 participantes no decorrer de dois dias. Partindo do
princípio de uma visão crítica e emancipatória o Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira foi organizado com atividades sob a forma de mesas
redondas, palestras e oficinas, desenvolvendo:
A palestra de abertura no dia 17 de novembro de 2016, intitulada “Pedagogias do Gênero e da Sexualidade nas Fronteiras entre religião, família e
escola pública” proferida pelo professor Fernando Seffner. O local da palestra foi na Câmara Municipal de Vereadores.
Já no dia 18 de novembro, foram ministradas 4 oficinas, simultaneamente. As oficinas tinham como título e abordagem, 1-Corpo performático – o que
podemos ser? mediada pela professora Carlise Scalamato e o acadêmico Oneide Alessandro Silva dos Santos da Universidade Federal de Santa Maria-
UFSM/RS; 2 – A mulher na sociedade contemporânea – um olhar para a mulher negra; Coletivo de Mulheres Negras de Porto Alegre/RS; 3 – Oficina de
Fazine ministrada pela acadêmica Kellen Vieira integrante do NIARA Coletivo Negro da UNIPAMPA – campus São Borja; 4 – Oficina de Lambe-Lambe
ministrada pelos acadêmicos: Raine Guimarães, José Arlindo Neto Piazer e Rodrigo Ortiz do coletivo EmpoderArte da UNIPAMPA – campus São Borja.
O encerramento, no dia18 de novembro às 19h, contou com a mesa redonda intitulada “Identidades, Diversidades e Direitos Humanos” proferida pelas
professoras Denise Teresinha da Silva, do curso de Publicidade e Propaganda da UNIPAMPA, campus São Borja, e a professora Barbara Valle do Instituto
Federal Farroupilha, campus São Borja, tendo como mediadora a profa. Dra. Sara Epitácio, do Curso de Ciência Sociais – Ciência Política do campus São
Borja. O local do encerramento foi na Câmara Municipal de Vereadores.

Figura 1: mesa redonda intitulada “Identidades, Diversidades e Direitos Humanos”


Fonte: Comissão Organizadora do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira

Ademais, contou-se com a apresentação de 75 trabalhos que trouxeram relatos de experiências, pesquisas em andamento e já concluídas. Importante
ressaltar que a apresentação de trabalhos foi organizada no dia 18 de novembro, de acordo com as temáticas ilustradas no gráfico 01 foram apresentados
trabalhos nas categorias resumos e resumos expandidos e artigos completos. Sendo avaliados por um comitê científico interdisciplinar, composto por
docentes tanto da UNIPAMPA como de outras universidades. Os grupos de trabalhos e respectivas apresentações foram realizadas no campus universitário.

Figura 2: Decoração do Hall de entrada da Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA, campus São Borja durante a semana do evento.
Fonte: Comissão Organizadora do I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira

As atividades buscaram oportunizar um espaço de troca entre os participantes, militantes e profissionais renomados em sua área de atuação sobre a
diversidade existente em diversos ambientes e, sobretudo, como podemos fazer enfrentamentos em desconstruir preconceitos no dia a dia de nossa
sociedade. Contribuiu academicamente para as discussões contemporâneas às Ciências Sociais Aplicadas e Ciências Humanas. Desta forma, busca
consolidar o seu proponente o curso de Serviço Social da UNIPAMPA e se afirmar academicamente como um espaço de discussão, por meio de uma
seleção rigorosa de trabalhos e palestras com pesquisadores reconhecidos por suas contribuições nas áreas do evento.

Resultados e discussão
A metodologia adotada na elaboração desse trabalho trata-se de um relato de experiência, que apresenta por meio de gráficos a participação dos
diversos segmentos da comunidade regional no I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira, e avaliação dos mesmos em relação ao evento. A fonte
utilizada para elaboração dos gráficos e tabelas apresentadas são: a) o formulário de inscrição on-line onde o participante que submeteu trabalho teve que
preencher para fins de certificação e, b) informações do formulário de avaliação do evento.
Os resultados esperados foram atingidos com sucesso, principalmente no que se refere à formação de uma rede de diálogo entre os interessados no
assunto, pessoas de diferentes órgãos, grupos, e instituições, o que possibilitou a expansão dos horizontes de informações sobre gênero, feminismo e
sexualidade. As expectativas foram superadas, na medida em que o evento alcançou a participação de indivíduos em formação e que, possivelmente, terão
papel fundamental na sociedade tornando-se formadores de opiniões semeando saberes mais completos e consistentes.
Entendemos que o evento viabilizou a reafirmação de vários conceitos que vinham sendo estudados e refletidos nas discussões do Programa Mulheres
Sem Fronteiras, mobilizando os seus participantes a pensar sobre as suas próprias práticas cotidianas e a se repensarem como sujeitos de direitos, ou seja,
direcionados continuamente por um pensar ético e comprometido com uma visão de mundo crítica e reflexiva.
O evento recebeu 75 trabalhos sendo divididos nas modalidades de resumo expandido e artigo completo e foram apresentados em 7 Grupos de
Trabalhos – GT, a saber: GT 1 – Gênero, Sexualidade e Educação; GT 2 – Gênero, Cidadania e Políticas Públicas; GT 3 -Comunicação, Cultura e Relações
Étnicas e raciais; GT 4 – Direitos Humanos, Legislação e Inclusão; GT 5 – Feminismo e Movimentos Sociais; GT 6 – Mídia, Corpo e Sexualidade e GT 7
– Corpo, Poder e Violência. A análise estatística foi obtida mediante respostas dos participantes no formulário on-line aplicado antes (durante a inscrição) e
depois (avalição) das atividades propostas, desenvolvido pela comissão organizadora do evento. O gráfico a seguir demonstra a divisão de trabalhos por GT
e representa a expressiva participação em todos os GT’s.

Figura 3. Quantidade de trabalhos por GT.


Fonte: I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira

É possível observar ainda que os participantes do seminário são de diversas instituições de ensino superior, movimentos sociais e demais instituições
como demonstra o gráfico 2. Cabe destacar que foi a primeira vez que um evento no campus São Borja teve sua programação voltada somente às questões
de Gênero, Feminismo e Sexualidade perpassando as diversas áreas do conhecimento.

Figura 4. Quantidade de trabalhos submetidos por instituições.


Fonte: I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira

O seminário contou com a participação de estudantes de todos os cursos de graduação e pós-graduação da UNIPAMPA e de outras instituições da
região. Os participantes na modalidade ouvinte foram questionados se participariam de outros eventos na temática de gênero e sexualidade e a maioria
manifestou interesse como demonstra o gráfico 3.
Figura 5. Questionário sobre participação em outros eventos relacionados na temática de Gênero e Sexualidade.
Fonte: I Seminário (Des)Fazendo Saberes na Fronteira

Os gráficos demonstram que o evento possibilitou uma troca de experiência significativas em uma região de fronteira onde carece de discussão na área,
bem como uma aproximação com a comunidade regional e a importância da UNIPAMPA na região onde está inserida.
É importante salientar que os debates e a necessidade do evento para consolidação do evento foram tensionados por um grupo de estudantes
universitários que são militantes do movimento feminista e LGBTTIQ. Por esse ângulo, percebemos que a entrada e permanência desses grupos sociais que
historicamente estiveram fora das universidades favorece a inserção de discussões que outrora estavam fora dos currículos e do espaço acadêmico. Nesse
sentido, não podemos pensar em uma prática educativa neutra e sem problematizar as questões relativas à diversidade. É preciso compreender que esses
grupos sociais foram historicamente padronizados na norma branca, heterossexual, classe média e cristã. Seffner pontua que
A escola pública brasileira, tradicionalmente, atuou também como um dispositivo que contribuía para manter e até mesmo acentuar a desigualdade, promovendo a
expulsão (muitas vezes chamada de evasão) dos indivíduos de grupos sociais hierarquicamente inferiores, tais como os não brancos, os indígenas, as mulheres, os
homossexuais, os moradores das regiões rurais e da periferia, os pobres em geral, aqueles oriundos de famílias ditas “desestruturadas”, etc. Desta forma, os melhores
índices escolares (e por consequência as melhores oportunidades na vida) ficavam com os indivíduos brancos, urbanos, homens, de classe média, heterossexuais, de
pertencimento católico (praticante ou não), não portadores de deficiência, entre outras marcas positivas (SEFFNER, 2011, p. 105).

Além do supracitado, diversos sujeitos por muito tempo não tiveram acesso ao ingresso na escola pública brasileira e, por conseguinte, a universidade
pública. Visto que até a democratização efetiva aconteceu a partir da Constituição Federal de 1988, anterior a isso apenas determinados grupos gozavam do
acesso ao ensino.
De acordo com a comissão organizadora, a proposta do seminário, dinamizou saberes e práticas nas fronteiras de gênero, feminismo e sexualidade.
Com isso, percebe-se a relevância de fomentar ações, em instituições de ensino, uma vez que possibilita a formação de vínculos entre universidade e outros
segmentos da sociedade, além disso, permite vivências e contribuições dos sujeitos envolvidos fortalecendo processos autônomos dos sujeitos e grupos
sociais que poderão acarretar mudanças nas práticas e saberes da comunidade.

Considerações finais
Sintetizamos alguns elementos sobre as contribuições e desafios sobre essa experiência de extensão, os quais, junto ao programa de extensão Mulheres
Sem Fronteiras, nos possibilitaram captar as atividades construídas. Eles estão longe de esgotar a complexidade do tema em questão, mas podem alimentar
futuros desdobramentos de extensão e de pesquisa:
a) A realização do Seminário foi de suma importância tanto para a comunidade interna à Universidade quanto para os diferentes participantes
locais e regionais, por ter proporcionado amplo e democrático debate, pelos diferentes olhares e perspectivas sobre as temáticas identidade,
diversidade e direitos humanos em suas múltiplas facetas, o que possibilitou aos participantes instrumentos capazes de conduzir a uma
intervenção fundamentada e eficaz em suas comunidades.
b) Destacamos que os resultados do Seminário foram extremamente positivos, sobretudo, pela criação de uma rede comunicativa que,
certamente, permitirá para os próximos eventos uma construção ainda mais participativa com vistas a um conhecimento vasto e crítico das
questões de gênero, feminismo e sexualidade. Essa rede dialógica se embasa no que tão bem foi referenciado pelo grande mestre Paulo Freire: o
que se pretende com o diálogo, em qualquer hipótese, é a problematização do próprio conhecimento em sua indiscutível relação com a realidade
concreta na qual se gera e sobre a qual incide, para melhor compreendê-la, explicá-la, transformá-la (FREIRE, 1988).
c) No que tange à formação profissional, a organização e sistematização do evento propiciou uma reflexão sobre os próprios processos
formativos da equipe de estudantes envolvidos diretamente na sua organização, particularmente no que se refere à compreensão e construção da
inserção da transversalidade da temática de gênero, feminismos e sexualidade nos processos e práticas formativas dos futuros profissionais. A
experiência de planejamento, organização, execução e, posteriormente, de avaliação das atividades realizadas durante o Seminário, contribuiu
para fortalecer a ideia de entender a educação e os processos educativos formais e informais como atos de amor, pois, como nos ensina Paulo
Freire (1988): A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade não pode fugir à
discussão criadora, sob pena de ser uma farsa. Nesse sentido, partimos do referencial freiriano de que a extensão, bem como a Universidade, tem
papel fundamental na transformação da realidade, não substituindo os atores desse processo e, tampouco, o Estado (FREIRE, 1983).
d) O evento possibilitou uma articulação entre pesquisadoras/es da UNIPAMPA que realizavam suas ações de forma individual e agora passam
a unir-se através da criação do GEEP – Grupo de Pesquisa em Gênero, Ética, Educação e Política – que teve seu registro junto ao CNPQ no ano
de 2017. Outro fator importante é que os trabalhos apresentados no seminário já estão disponíveis na modalidade Anais, através do site do
evento https://desfazendosaberes.wordpress.com/edicao-atual/ e podem ser acessados de maneira gratuita.
e) É salutar refletir sobre o significado desse tipo de articulação: essa relação potencializa o debate crítico e desmistificador da realidade, a
interferência na cultura institucional universitária e a democratização de seu espaço que, historicamente, é pensado para ser direcionado às elites.
É uma possibilidade de crítica à falsa neutralidade das ciências e um contraponto ao determinismo tecnológico. Destacamos também a
possibilidade de redimensionamento crítico da formação acadêmica e de profissionais que procuraram articular sua intervenção com as lutas
pela garantia de direitos sociais e da cidadania em seu sentido pleno.
f) Para a forma de aproximação e diálogo com os movimentos sociais: principalmente nesse caso pensando a realidade dos movimentos
feministas e LGBTTIQ, a forma de aproximação da universidade necessita construir um alicerce de confiança e identidade, pois significa obter
condições favoráveis para o desenvolvimento das propostas, possibilitando a troca de saberes, a ampliação da participação no planejamento,
execução e avaliação das ações.
g) O seminário demonstrou que tem um potencial para ampliação das discussões nas temáticas e não deve ser descontinuado. Portanto, a
comissão organizadora optou em realizar o evento de forma bianual e somar na organização outras Universidades, ONG’s, Escolas de Educação
Básica, Centros de Referência em Assistência Social-CRAS, Centro de Referência Especializada em Assistência Social-CREAS dentre outras
instituições que atuam na temática do evento.
Cabe explicitar que logo depois do encerramento das atividade o Seminário foi contemplado por um recurso financeiro do 1º Fórum de Cultura
Brasileira da UNIPAMPA, proveniente de Emenda Parlamentar da Deputada Federal Maria do Rosário, o que possibilitou que alguns dos trabalhos
apresentados no evento, e outros oriundos de parcerias que nasceram nesse ínterim, fossem materializados nessa obra.
Por fim, é importante sinalizar que o Seminário foi organizado a partir das análises de episódios estruturados: em que o sentido do gênero enquanto
fronteira se dilui, em que a delimitação e acentuação dessas fronteiras se destacam em momentos específicos; as particularidades, as semelhanças e
diferenças nas formas como é construída a masculinidade e feminilidades nas relações sociais.

Referências
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BITTAR, Marisa; BITTAR, Mariluce. História da Educação no Brasil: a escola pública no processo de democratização da sociedade. Revista Acta
Scientiarum, v. 34, n. 2, p. 157-168, jul-dez., 2012.
BRASIL. PCN + Ensino Médio: Orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências Humanas e suas tecnologias.
Brasília: Ministério da Educação, 2002.
________. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 1996.
______. Constituições Brasileiras : 1988. vol. VII. Brasília: Senado Federal e Ministério da Ciência e Tecnologia, Centro de Estudos Estratégicos, 2003.
CENSO DEMOGRÁFICO 2010. Características da população e dos domicílios: resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Acompanha 1
CD-ROM. Disponível em: Acesso em: 23 de mar 2013.
Fórum de pró-reitores de extensão das instituições públicas de educação superior brasileiras (FORPROEX). Política nacional de extensão universitária.
Gráfica da UFRGS. Porto Alegre, RS, 2012 (coleção extensão universitária; v. 7).
FREIRE, Paulo. Educação como prática para a liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
______. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da Sexualidade. In. LOURO, Guacira (org.) O corpo educado – pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte:
Autêntica, 1999.
SEFFNER, Fernando. Escola para todos: mesmo para aqueles que manifestam diferenças em sexo e gênero. In. SILVA Fabiane Ferreira da; MELLO,
Elena Maria Billig. Corpos, gêneros, sexualidades e relações étnico-raciais na educação. Uruguaiana - RS: UNIPAMPA, 2011.
SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.
UNIPAMPA. Plano Desenvolvimento Institucional. 2015. Disponível em: < http://porteiras.s.unipampa.edu.br/pdi/files/2016/09/Responsabilidades-do-
PDI-Ajustado.pdf > . Acesso em: 19 mar. 2017.
SAÚDE, SISTEMA PRISIONAL E SERVIÇO SOCIAL: POR UMA CONCEPÇÃO AMPLIADA DE SAÚDE E GARANTIA DOS DIREITOS
HUMANOS
Paula Cristina Hollweg4
Jaqueline Carvalho Quadrado5

Resumo: Com o objetivo de analisar o processo de efetivação da política de saúde no sistema prisional, no presente trabalho, enunciam-se questões relativas à implantação da política de saúde nos presídios,
no intento de compreender e problematizar a assistência à saúde prestada a pessoa presa. A presente análise se estabelece com base no método científico dialético, configurando-se num estudo essencialmente
exploratório que se desenvolve a partir de pesquisa bibliográfica e documental. Portanto, a legislação vigente, as produções teóricas na área, os conceitos teórico/práticos relacionados ao trabalho de atenção à
saúde e, a experiência prática de profissional do Serviço Social, são eixos norteadores do estudo. Assim, este exercício analítico, possibilitou inferir que a política de saúde no sistema prisional sofre
interferências em seu processo de efetivação, que perpassam por questões como, a rotina de segurança do estabelecimento prisional, as limitações físicas e de recursos humanos, além da necessidade de
construir um trabalho em saúde comprometido com os objetivos do Sistema Único de Saúde brasileiro, de forma que a população prisional possa usufruir de um serviço em saúde qualificado e integral.
Palavras-chave: Saúde; Prisional; Direitos Humanos.

Introdução
O presente estudo configura-se numa análise acerca da efetivação da política de saúde no sistema prisional, sob a perspectiva da concepção ampliada de
saúde e efetivação dos direitos humanos, que orienta-se pela legislação e bibliografia pertinente à área, bem como na vivência prática desta autora e
profissional do Serviço Social.
A proposta do estudo justifica-se por entender que a política de saúde é um campo de intervenção abrangente e desafiador, que se aprimora desde sua
implantação. Logo, a inserção de unidades básicas de saúde em estabelecimentos prisionais é parte desse processo, configurando-se em mais um
instrumento que visa fortalecer o princípio da saúde como direito fundamental humano.
Assim, evidenciou-se a necessidade de aprofundar conhecimentos sobre a efetivação da política de saúde no sistema prisional, numa perspectiva de
aperfeiçoar os serviços prestados, bem como, construir uma prática interventiva comprometida com os direitos da população atendida.
No que se refere à metodologia, utilizou-se do método científico dialético, por identificar que este contribui para o alcance dos objetivos do estudo, uma
vez que a dialética possibilita uma interpretação dinâmica e totalizante da realidade e, estabelece que para entender os fatos sociais é preciso considerar
suas influências políticas, econômicas, culturais, etc. (GIL, 2008). O presente estudo é de caráter exploratório e, se desenvolve a partir de pesquisa
bibliográfica e documental, onde se utilizou de materiais (livros, artigos científicos, legislações) que versavam sobre a temática evidenciada. Desse modo,
soma-se aos conhecimentos adquiridos por meio da legislação e bibliografia, a experiência vivenciada enquanto profissional do Serviço Social.
O artigo estrutura-se em três momentos, sendo que a divisão proposta está de acordo com os objetivos específicos do mesmo. Na primeira etapa
apresenta-se a legislação que reconhece a saúde como direito fundamental humano de acesso universal e, que instituiu o Sistema Único de Saúde no Brasil.
Na sequência, realiza-se o resgate de questões pertinentes à implantação da política de saúde no sistema prisional; enunciando conceitos teórico/práticos
que permeiam os processos de trabalho na atenção básica à saúde, ponderando de forma breve, questões referentes à intervenção do profissional do Serviço
Social na política de saúde prisional.
No terceiro momento, dá-se enfoque à saúde no sistema prisional na perspectiva de garantia dos direitos humanos, com vistas a produzir considerações
acerca das possibilidades e desafios que perpassam o trabalho em saúde no sistema prisional.

Da Legalidade e Efetivação do Direito à Saúde no Brasil


É preciso considerar que, qualquer movimento de reconhecimento ao direito à saúde a partir de uma perspectiva histórica sugere enunciar a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (DUDH), documento de abrangência internacional promulgado em 1948 pela Organização das Nações Unidas, que versa
sobre direitos de diversas ordens que devem ser garantidos aos cidadãos.
Já no que se refere à saúde, afirma que “todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar,
inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis [...]” (ONU, 1948, art. XXV).
Partindo de tal afirmativa, verifica-se que já neste período, a saúde apresenta-se diretamente relacionada a outras necessidades humanas, o que
sugestiona que o estado de plena saúde e bem-estar transcende as condições físicas e biológicas e, sofre influência de outros fatores, como as condições
sociais, econômicas e, culturais, as quais interferem diretamente no modo de vida e, consequentemente, na condição saúde das pessoas.
Para tanto, na concepção de Marques (2012, p. 19) “o direito aos cuidados de saúde, inerente à garantia do direito à vida, é problema que se discute no
mundo inteiro, com diferentes abordagens e resultados” e, desde seu reconhecimento em âmbito internacional através da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, diversos países assumem o compromisso de elaborar suas normativas que versam sobre este direito humano fundamental.
No tocante ao contexto brasileiro, na década de 1930, já é possível identificar uma breve intervenção por parte do Estado, perante a estruturação de uma
política de saúde no país. Porém, “a política de saúde formulada nesse período era de caráter nacional, organizada em dois subsetores: o de saúde pública e
o de medicina previdenciária” (BRAVO, 2009, p. 91).
A saúde pública incidia sobre questões de combate a endemias e viabilização de condições sanitárias mais adequadas à população, já a medicina
previdenciária configurava-se num serviço de saúde direcionado à classe trabalhadora formal, a qual contribuía financeiramente para acessar os serviços de
saúde.
Diante desta realidade, pode-se afirmar que o país mostrava-se distante de promover adequadas condições de saúde, uma vez que as intervenções
realizadas eram incipientes e, não atendiam às reais necessidades da população. Além do mais, partindo de uma percepção histórica da política de saúde no
Brasil, de um modo geral, se atribuiu a esta um caráter assistencialista, fragmentado e privatista, incapaz de viabilizar saúde e bem-estar a toda população,
conforme os padrões enunciados na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Reconhece-se que a trajetória de efetivação do direito à saúde no país foi desafiadora, especialmente a partir do momento em que a sociedade tem
consciência desta garantia e, passa a reivindicar respostas mais eficazes por parte do Estado.
Bravo (2009, p. 94 - 95), ao referir-se à política de saúde no país, salienta que a mesma “enfrentou permanente tensão entre a ampliação dos serviços, a
disponibilidade de recursos financeiros, os interesses advindos das conexões burocráticas entre o setor estatal e empresarial médico e a emergência do
movimento sanitário”, sendo que este último assume considerável destaque no que se refere à denúncia da ineficiência e precariedade dos serviços
prestados na área da saúde.
O ato de questionar os serviços de saúde se apresenta com intensidade na década de 1980, período em que grupos organizados reivindicavam que o
Estado garantisse condições dignas de saúde à população. Foi neste período, que ganhou centralidade no cenário social brasileiro o movimento pela
Reforma Sanitária,
cujas principais bandeiras eram: 1) a melhoria das condições de saúde da população; 2) o reconhecimento da saúde como direito social universal; 3) a responsabilidade
estatal na provisão das condições de acesso a esse direito; 4) a reorientação do modelo de atenção, sob a égide dos princípios da integralidade da atenção e da equidade; 5)
a reorganização do sistema com a descentralização da responsabilidade pela provisão de ações e serviços (MERCADANTE, 2002, p. 246).

O movimento da Reforma Sanitária exerceu influência no reconhecimento da saúde como direito social universal no Brasil, além de fomentar o debate
e, a mobilização da sociedade com vistas à consolidação de uma política de saúde com novas perspectivas.
Assim, “a década de 1980 se inicia com um movimento cada vez mais forte de contestação ao sistema de saúde governamental” (BRASIL, 2007, p. 29),
especialmente por ser um período de redemocratização do país, quando se realiza a promulgação da nova Carta Constitucional Brasileira.
“A chamada “Constituição Cidadã” foi um marco fundamental na redefinição das prioridades da política do Estado na área da saúde pública” (idem,
2007, p. 34), uma vez que, o texto constitucional reconhece a “saúde como direito social” (BRASIL, 1988, art. 6º) e, enfatiza que,
a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso
universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988, art. 196).

O contexto6 demonstra avanços consideráveis em relação à afirmação do direito à saúde, entre as quais está a criação de um Sistema Único de Saúde
(SUS). Implantado a partir da criação da Lei Orgânica da Saúde – Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990.
O sistema se constitui no conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da
Administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público, sendo que a iniciativa privada pode participar em caráter complementar
(BRASIL, 1990, art. 4º).
O SUS organiza-se em conformidade com as diretrizes previstas na Constituição Federal de 1988, que são: a descentralização; o atendimento integral,
e; a participação da comunidade. Sendo financiado, com recursos da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além
de outras fontes (BRASIL, 1988, art. 198).
E, dentre os princípios7 que orientam o sistema de saúde brasileiro, atribui-se destaque para os quatro primeiros, que são: a universalidade de acesso aos
serviços de saúde; a integralidade de assistência; a preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral e; a igualdade da
assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie.
Os princípios do SUS possibilitam aferir sua abrangência, no entanto, sabe-se que parcela significativa da população brasileira ainda enfrenta inúmeras
dificuldades para acessar os serviços em saúde com integralidade, principalmente, quando dependem exclusivamente da rede pública. Mas, verifica-se um
empenho para garantir adequadas condições de saúde à população, que se expressa na elaboração de documentos em nível nacional, estadual e municipal,
que são os pactos, planos, políticas e, demais normativas complementares que objetivam concretizar os princípios e objetivos do SUS.
Nesta perspectiva, assume centralidade no estudo a efetivação do direito à saúde da população prisional, uma vez que, a extensão da assistência à saúde,
conforme princípios do SUS a este público, pode se considerar fato recente.

Direito à Saúde da População Prisional: das proposições legais e condições reais


Até o momento, identifica-se que a legislação vigente no país prevê de forma qualificada e abrangente a garantia do direito à saúde para a população,
sem estabelecer qualquer distinção e/ou discriminação para seu acesso, demostrando seu potencial perante a efetivação dos direitos humanos.
No entanto, ainda persistem entraves que impedem parcela significativa da população de ser assistida integralmente em sua condição de saúde.
Portanto, se os sujeitos que dispõem do direito de ir e vir ainda encontram dificuldades para efetivar seu direito à saúde, como ficam aqueles que estão
privados de liberdade? Quais as condições de saúde vivenciadas pelos mesmos? Uma vez que, indiscutivelmente também estão sujeitos a apresentar
situações de adoecimento de diversas complexidades. “Homens e mulheres presos contraem doenças que deveriam preocupar seriamente a saúde pública
dos estados, como é o caso da tuberculose e da AIDS, além da toxicomania e outras enfermidades” (TORRES, 2011, p. 86). Por isso, a questão da saúde no
sistema prisional é uma problemática a ser enfrentada com seriedade.
E, tratando-se de direitos e garantias no sistema prisional, enfatiza-se a Lei de Execução Penal8 (LEP) que, mesmo anterior à promulgação da
Constituição Federal de 1988, contempla conteúdo abrangente, pois seu texto “considera o condenado como sujeito de direitos e deveres” (SILVA, 2009).
E enuncia a saúde como uma das assistências9 que o Estado deve prestar ao preso e, ao egresso10, afirmando que:
Art. 14 - A assistência à saúde do preso e do internado de caráter preventivo e curativo, compreenderá atendimento médico, farmacêutico e odontológico. § 1º (Vetado). §
2º Quando o estabelecimento penal não estiver aparelhado para prover a assistência médica necessária, esta será prestada em outro local, mediante autorização da direção
do estabelecimento. § 3o Será assegurado acompanhamento médico à mulher, principalmente no pré-natal e no pós-parto, extensivo ao recém-nascido (Incluído pela Lei nº
11.942, de 2009) (BRASIL, 1984).

Neste caso, a pessoa que ingressar em estabelecimento prisional está sob tutela do Estado, por isso, deve ter assegurada adequadas condições de vida,
de modo que, não sofra prejuízos à sua saúde.
Mas, possibilitar a assistência à saúde nestes espaços conforme a previsão legal, não se mostra tarefa de fácil manejo. Pois, alguns presídios não
ofereciam/oferecem condições estruturais adequadas para o atendimento, nem profissionais da área da saúde para prestar a primeira assistência. E, nestes
casos, a pessoa presa que demanda cuidados em saúde precisa ser conduzida para atendimento na rede externa de serviços.
Torres (2011, p. 88) confirma tal percepção ao afirmar que,
as falhas no sistema penitenciário são sempre “justificadas” pelas ausências de maiores recursos materiais e humanos: faltam remédios, faltam profissionais técnicos e
funcionários mais bem capacitados. O objetivo principal do sistema acaba resumindo-se em segurança e vigilância.

Somam-se a esses fatores outros que impedem a adequada assistência à saúde, que são as condições insalubres dos presídios e, a superlotação, uma vez
que o número de pessoas presas tem se mostrado incompatível com a capacidade estrutural dos estabelecimentos.
Tais afirmativas se confirmam com base nos dados de pesquisa publicada11 pela Secretaria Nacional da Juventude, a qual informou que durante o
período de 2005 a 2012 houve um crescimento de 74% da população prisional no Brasil, estando o Rio Grande do Sul em quarto lugar na classificação de
estados com maior número de população presa, totalizando 29.243 pessoas naquele período. Atualmente, conforme dados12 da Superintendência dos
Serviços Penitenciários (SUSEPE), esse número eleva-se para 31.293 pessoas presas. Todavia, ao identificar o aumento do número de pessoas presas,
pode-se afirmar que aumentam diretamente as demandas em saúde no sistema prisional.
Diante da precariedade de recursos humanos, físicos e financeiros, ficam evidentes as limitações para se prestar uma assistência à saúde condizente com
o previsto em lei, impossibilitando de efetivar integralmente os direitos humanos no âmbito prisional.
Logo, com o objetivo de incidir de forma concreta sobre esta realidade os setores competentes mobilizaram-se para atender de forma qualificada às
necessidades em saúde da população prisional e, assim, implementou-se o Plano13 Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário (PNSSP) que buscou
promover a inclusão da população prisional nos serviços de saúde ofertados pelo SUS. Cabe lembrar, que os serviços já eram ofertados desde a instituição
da LEP, mas, assumiam um caráter restrito, incipiente e emergencial.
Com o Plano adota-se uma nova lógica de trabalho, agora, mais comprometida com o atendimento integral à saúde da pessoa presa. E, para atender
seus objetivos, foi elaborado a nível estadual um Plano Operativo Estadual14, que em linhas gerais versa sobre a gerência dos serviços, estratégias, ações e
metas, que são de competência das equipes atuantes nas Unidades Básicas de Saúde Prisional dispostas nos estabelecimentos prisionais.
Uma das proposições mais recentes no que se refere à saúde no sistema prisional é a instituição da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das
Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional15 (PNAISP) no âmbito do SUS. Perante a qual, os entes federativos têm prazo até 31 de dezembro de
2016 para adequar-se (BRASIL, 2014, Art. 21).
Cabe destacar que, o conteúdo da PNAISP está em consonância com os objetivos dos SUS e, apresenta como princípios:
I - respeito aos direitos humanos e à justiça social; II - integralidade da atenção à saúde da população privada de liberdade no conjunto de ações de promoção, proteção,
prevenção, assistência, recuperação e vigilância em saúde, executadas nos diferentes níveis de atenção; III - equidade, em virtude de reconhecer as diferenças e
singularidades dos sujeitos de direitos; IV - promoção de iniciativas de ambiência humanizada e saudável com vistas à garantia da proteção dos direitos dessas pessoas; V -
corresponsabilidade interfederativa quanto à organização dos serviços segundo a complexidade das ações desenvolvidas, assegurada por meio da Rede Atenção à Saúde no
território; e VI - valorização de mecanismos de participação popular e controle social nos processos de formulação e gestão de políticas para atenção à saúde das pessoas
privadas de liberdade (BRASIL, 2014, art. 3).

De modo geral, as normativas que tratam do direito à saúde no sistema prisional objetivam a melhora efetiva nos serviços ofertados à população
prisional. E foi em conformidade com este objetivo que se implantaram nos presídios Unidades Básicas de Saúde (UBS), as quais se configuram na
principal porta de entrada da população para o atendimento de suas demandas, em nível de atenção básica à saúde.

Da Atenção Básica à Saúde no Sistema Prisional: conceitos que orientam a prática


Se em liberdade a população tem como referência para o atendimento em saúde a UBS de seu território, na situação de privação de liberdade tem a
possibilidade de permanecer recebendo a mesma atenção e cuidado em saúde, agora, na UBS Prisional. Sendo válido destacar que, para muitos sujeitos esta
pode ser a primeira oportunidade de acesso aos serviços de saúde na lógica da atenção básica. Complementando, Moscon e Krüger (2010) afirmam que na
medida em que são disponibilizados os serviços, ganha visibilidade uma demanda historicamente reprimida, realidade evidente no sistema prisional.
É pertinente frisar que os espaços de atenção à saúde no sistema prisional orientam suas atividades em concordância com a Política Nacional da
Atenção Básica16 em saúde (PNAB). Assim, a UBS Prisional deve prestar seus serviços e desenvolver suas ações de acordo com as necessidades dos
sujeitos que abrangem seu território, neste caso o estabelecimento prisional.
Conforme a PNAB, a atenção básica à saúde configura-se num conjunto de ações que atendem o indivíduo e a coletividade, envolvendo a promoção,
proteção e prevenção da saúde e demais agravos, envolve também diagnosticar, tratar, reabilitar, reduzir danos e manter a boa saúde, desenvolvendo uma
atenção integral que impacte na situação de saúde e autonomia das pessoas e nos determinantes e condicionantes de saúde das coletividades (BRASIL,
2012).
Partindo deste enunciado identifica-se que o trabalho desenvolvido na UBS Prisional compreende uma abordagem complexa, com intervenções que
superam o mero tratamento da enfermidade e, incidem sobre demais fatores que contribuem para o adoecimento da pessoa presa. Portanto, se considerado o
que propõe a legislação vigente, a atuação na UBS Prisional deve superar o atendimento centrado na categoria médica, estendendo a prática do cuidado à
saúde para outras áreas, uma vez que,
há suficientes evidências empíricas para compreender que o enfoque biomédico não é capaz de explicar e intervir em toda a complexidade dos problemas de saúde-doença
das populações e, por conseguinte, das formas de organização da sociedade para enfrentá-los (MERCADANTE, 2002, p. 292).

Tal posicionamento relaciona-se com uma concepção ampliada de saúde, que, conforme Nogueira e Mioto (2009), concebe a doença ou a saúde como
situações dinâmicas, que não podem ser explicadas somente pela interação mecânica de partes do organismo humano, uma vez que, sofrem influência da
cultura, das relações sociais e econômicas, ainda destacam que, a saúde é produto do estilo e condições de vida, logo, saúde e doença são a representação
da inserção dos sujeitos na sociedade.
Esta concepção de saúde deve orientar as intervenções na UBS Prisional, uma vez que a população atendida advém de contextos sociais complexos,
onde prevalece o desemprego, a violência, a falta de moradia digna e saneamento básico adequado, alimentação de má qualidade, baixo nível de
escolaridade, entre outros fatores que deixam os sujeitos mais suscetíveis ao adoecimento. Por isso, o cuidado em saúde não se limita à intervenção no
processo saúde-doença, mas, precisa considerar o contexto de vida do sujeito, no intento de prestar um serviço em conformidade com os objetivos,
princípios e diretrizes do SUS.
Nesta perspectiva, assume importância um dos princípios da atenção básica à saúde: a “integralidade da atenção”, que deve nortear o trabalho
desenvolvido na UBS Prisional. Pois, nos moldes atuais “a atenção básica considera o sujeito em sua singularidade e inserção sociocultural, buscando
produzir a atenção integral” (BRASIL, 2012, p. 20).
Assim, tratando-se do atendimento à população prisional na perspectiva de integralidade da atenção, constata-se que a intervenção neste espaço deve
considerar os diversos fatores que interferem na condição de saúde destes sujeitos, que são: a situação de cárcere; a superlotação; a ociosidade; as
condições sanitárias do ambiente; os episódios de violência a que estão expostos; suas condições socioeconômicas; os hábitos e modos de vida; etc.,
construindo propostas interventivas condizentes com esta realidade, que possivelmente tendem a ser mais eficazes.
Novamente se prioriza uma intervenção que transcenda as ações meramente assistenciais, centradas no diagnóstico e tratamento de doenças e, prima-se
por ações de promoção, prevenção e proteção à saúde, que possuem maior possibilidade de impactar positivamente na vida dos sujeitos, até mesmo por
mostrarem-se mais comprometidas com a efetivação dos direitos humanos. Pois, de acordo com Vasconcelos (2009) se constituem num processo
educativo, que tendem a resultar num bem, não num produto a ser consumido. Ou seja, além de receber a medicação para tratar a doença, também é direito
do sujeito ser orientado com vistas a desenvolver sua capacidade de promover sua saúde e prevenir futuros agravos.
Partindo destas concepções torna-se evidente que, atender os objetivos deste modelo de atenção à saúde, pressupõe um trabalho interdisciplinar, com
profissionais de diversas áreas, o que já é realidade em algumas UBS Prisionais, pois, desde a implantação das mesmas, está prevista a existência de uma
equipe mínima17 multiprofissional.
A equipe de saúde se constitui para prestar um serviço qualificado, a considerar que, “as novas diretrizes das diversas profissões têm ressaltado a
importância de formar trabalhadores em saúde para o Sistema Único de Saúde com visão generalista e não fragmentada” (BRAVO; MATOS, 2009, p.
213). Logo, atuar em equipe amplifica as forças produtivas da cooperação, ao desenvolver um trabalho social combinado, aumenta-se a intensidade das
operações e a produtividade do trabalhador coletivo (DALLA VECCHIA, 2012).
O conceito de trabalho interdisciplinar não é novidade no setor da saúde, mas, sua implantação efetiva possivelmente não se concretizou em parte das
UBS, que muitas vezes, permanecem atuando na sistemática da assistência à saúde, com atividades centradas no agendamento de consultas e exames e, no
repasse de medicação.
Para complementar Dalla Vecchia (2012) salienta que, reproduzir o modelo assistencial hospitalocêntrico e privatista não se configura necessariamente
em falta de vontade por parte dos defensores do SUS, mas, relaciona-se com o contexto vivenciado, onde imperam interesses políticos da indústria de
medicamentos e equipamentos médicos; do empresariado da saúde e, dos agentes estatais que se submetem a estes segmentos.
Dificulta-se assim, a possibilidade de a equipe multidisciplinar atuar na perspectiva interdisciplinar, com vistas à promoção, proteção e prevenção da
saúde, práticas que se caracterizam como promotoras de autonomia e, por vezes representam um risco para aqueles que lucram com o fornecimento de bens
e serviços em saúde, uma vez que, se os sujeitos desenvolvem a capacidade do autocuidado em saúde, podem reduzir a demanda por atendimento médico e,
consequentemente a aquisição de medicação.
Em suma, a prática interdisciplinar nos serviços de saúde configura-se como positiva, porém, “exige que cada especialista ultrapasse os seus próprios
limites, abrindo-se às contribuições de outras disciplinas” (SAMPAIO et al, 2010, p. 82). O que pressupõe maior interação e diálogo entre as áreas,
proporcionado assim, uma troca de saberes, que tende a resultar na prestação de um atendimento mais qualificado, atento para as diversas demandas em
saúde dos sujeitos, sejam elas, evidentes ou ocultas.
Considerando a proposta do trabalho interdisciplinar em saúde, cabe ressaltar que o Serviço Social torna-se partícipe deste processo, pois, o assistente
social integra a equipe de saúde da UBS Prisional e, como demais profissionais empenha-se para a resolução dos problemas evidenciados pelos usuários
dos serviços em saúde.
Considerações sobre a intervenção do profissional do Serviço Social na política de saúde prisional
Após discorrer brevemente sobre a finalidade da implantação da Unidade Básica de Saúde Prisional, pôde-se identificar que os serviços em saúde
prestados à pessoa presa devem estar em conformidade com aqueles disponibilizados à população em geral. Dessa forma, são dispostos a estes sujeitos os
serviços prestados pelos profissionais do Serviço Social, os quais passaram a ser requisitados mais densamente para atuar na política de saúde, quando da
criação do Sistema Único de Saúde no país.
Dessa forma, o profissional do Serviço Social desempenha suas atribuições em conformidade com a tríade18 de instrumentos norteadores19 da profissão,
bem como da área da saúde e do sistema prisional, objetivando garantir a materialização deste direito à pessoa presa, ou seja, possibilitar o acesso aos
serviços disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde.
No entendimento de Bravo e Matos (2009, p. 213),
o trabalho do assistente social na saúde deve ter como eixo central a busca criativa e incessante da incorporação dos conhecimentos e das novas requisições a profissão,
articulados aos princípios dos projetos da reforma sanitária e ético-político do Serviço Social. É sempre na referência a estes dois projetos que se poderá ter a compreensão
se o profissional está de fato dando respostas qualificadas às necessidades apresentadas pelos usuários.

Fica expresso que, o profissional tem compromisso para com os interesses da população atendida e, para isso, precisa construir estratégias de
intervenção que garantam a integralidade da atenção perante as necessidades de saúde.
No que cabe considerar aspectos do cotidiano de trabalho do assistente social na UBS Prisional, é pertinente frisar que o profissional depara-se com
demandas semelhantes a da UBS inserida na comunidade, onde se apresentam “demandas individualizadas espontâneas ou encaminhadas pelos demais
profissionais da rede, às quais se mesclam entre necessidades de saúde e as necessidades sociais” (MOSCON; KRUGER, 2010, p. 91). Onde, as
solicitações mais frequentes referem-se a esclarecimentos acerca da “demora do agendamento de consulta com especialista na atenção secundária; a
dificuldade e a demora na marcação de exames necessários para elucidação de diagnóstico” (MOSCON; KRUGER, 2010, p. 92).
E, pelo fato de o assistente social interessar-se pelas necessidades da população prisional, acolhe suas reivindicações e, realiza a interlocução entre os
usuários e demais profissionais da equipe, visando dar resolutividade à demanda enunciada. Por isso, com frequência o profissional é solicitado a prestar
esclarecimentos e informações sobre assuntos que perpassam a rotina e os serviços da UBS Prisional. Moscon e Kruger (2010) complementam ao afirmar
que os assistentes sociais, no atendimento individual fornecem informações claras e socializam direitos sociais e, no âmbito coletivo faz uma discussão
mais abrangente, participando das atividades das instâncias de controle social.
Para isso, os profissionais do Serviço Social,
usam de recursos que se baseiam majoritariamente na escuta que acolhe, nas orientações que reorganizam o raciocínio, na tradução de informações técnicas e burocráticas
para uma ação que direciona para a produção do acesso às políticas sociais. Essa forma de receber o usuário produz vínculo, acolhimento e tradução (SODRÉ, 2013, p.
82).

O que não quer dizer que será o assistente social o profissional responsável por responder todas as demandas dos usuários, mas, possivelmente é ele
quem dá maior visibilidade as mesmas.
Sendo importante considerar que, atuando na política da atenção básica em saúde, recomenda-se que o assistente social oriente sua prática na
concepção ampliada de saúde, o que conforme Moscon e Kruger (2010) possibilita identificar que as necessidades em saúde relacionam-se à privação de
demais direitos, como: educação, assistência social, trabalho, moradia, lazer, alimentação, entre outros, o que revela a carência de proteção social
vivenciada pela população.
Com base nas exigências do trabalho na atenção básica à saúde, identifica-se que a intervenção do assistente social envolve uma orientação acerca dos
direitos, um esclarecimento sobre os serviços, a participação nas atividades de promoção, prevenção e proteção da saúde. O que tende a contribuir para a
construção de uma nova cultura em saúde, onde os sujeitos desenvolvam a criticidade perante às realidades vivenciadas e, tenham consciência de que a
“saúde é direito de todos e dever do Estado” conforme a norma constitucional brasileira.
Portanto, o breve contexto enunciado sugere que a intervenção do profissional do Serviço Social na Unidade Básica de Saúde ainda possa assumir
características de subordinação às demais áreas envolvidas, o que de acordo com Costa (2009) ocorre em função de que a saúde pública permanece
centrada em prestar uma assistência curativa e individual, desconsiderando as reais necessidades dos sujeitos, por isso, a autora logo conclui que, para
superar tal realidade é preciso mudar o modelo de atenção à saúde, que até o momento mantém-se centrado na hegemonia médica, pois, somente assim,
será possível construir um trabalho em saúde que tem como objetivo primeiro a defesa da vida, onde o assistente social será reconhecido pela
especificidade de seu trabalho.

Direito à Saúde no Sistema Prisional na Perspectiva dos Direitos Humanos: possibilidades e desafios
Com base nas considerações realizadas até o momento, verifica-se que as autoridades competentes mobilizam-se para viabilizar o pleno acesso à saúde
para a população prisional. Situação motivada pelo fato de a saúde ser um direito social fundamental de acesso universal e gratuito. E foi assim, que o
esforço de estender o acesso à política de saúde à pessoa presa gerou visibilidade a uma demanda oculta. Uma vez que, na condição de “isolada” do
convívio social, a população prisional é considerada pertencente a uma sociedade à parte, diante da qual recai o discurso de que o atendimento de suas
necessidades é desperdício de recurso público. Porém, aqueles que partilham desta concepção, possivelmente desconhecem que,
a implementação de atividades no ambiente das prisões voltadas para a assistência à saúde, jurídica, social e religiosa, à educação e ao trabalho objetivam, pois, à garantia
dos inalienáveis direitos do preso e ao respeito à sua dignidade de pessoa humana (SILVA, 2009, p. 83, grifo meu).

Portanto, é dever do Estado garantir assistência à pessoa presa, uma vez que a situação de privação de liberdade, não pode impedir o acesso aos demais
direitos fundamentais humanos. Neste sentido, Silva (2009, p. 67) complementa ao afirmar que “o Estado que mata, que tortura, que humilha o cidadão,
não só perde qualquer legitimidade como contradiz a sua própria razão de ser, que é servir à tutela dos direitos fundamentais do homem, colocando-se no
mesmo nível dos delinquentes”. Neste caso, a sociedade que relega à pessoa presa a desassistência, não pode esperar que o retorno da mesma ao convívio
social se faça positivo e saudável.
Diante deste contexto, pensar o direito à saúde na perspectiva dos direitos humanos no sistema prisional é tarefa desafiadora, mas, ainda maior é o
desafio de colocar em prática essa proposição. Afinal, existem barreiras significativas que interferem neste processo, as quais se expressam na própria
configuração do sistema prisional, na ineficiência e omissão do estado, bem como na oposição por parte da sociedade em relação à garantia dos direitos da
pessoa presa. Pois, “recorrentemente nos defrontamos com a ideia de que a proteção dos direitos humanos constitui um meio de estímulo ao crime, de
privilégio de bandidos e de “boa vida” aos presos” (FORTI et al, 2013, p. 50).
Por vezes, garantir o direito à saúde no sistema prisional exige superar o preconceito e a discriminação perante a população prisional, uma vez que, “o
reconhecimento e o respeito à diferença se apresentam como condição para a realização do direito universal a saúde” (RIBEIRO, 2007, p. 1520).
Mann (1996) em sua produção textual intitulada “Saúde Pública e Direitos Humanos” evidencia que qualquer violação aos direitos humanos tem
grande potencial de impactar na saúde das pessoas. Ao mesmo tempo, enuncia que existem diferentes elementos que afetam a condição de saúde das
pessoas, mas, alega que os fatores sociais são os mais influentes, daí a necessidade da abordagem em saúde transcender a tradicional perspectiva biomédica
e, orientar-se pela estrutura dos direitos humanos, que pode proporcionar uma abordagem em saúde comprometida como o bem-estar físico, mental e
social.
Partindo desta afirmativa infere-se que, a garantia dos direitos humanos possibilita uma vida em condições mais saudáveis. Eis, o grande desafio de
pensar a saúde no sistema prisional, uma vez que, a prisão se afirma historicamente como violadora dos direitos mais fundamentais.
A violação dos direitos humanos dos presos é, portanto, parte de uma ideologia de permanentes violações dos direitos dos segmentos excluídos na sociedade brasileira. O
sistema carcerário, em suas ineficiências, reproduz o descaso com a propositura de políticas sociais na atual conjuntura do Estado brasileiro bem como a falta de vontade
política dos governos de caráter neoliberal, para o enfrentamento da desigualdade social (TORRES, 2011, p. 91).

Diante desta afirmativa, questiona-se: como promover o direito à saúde na perspectiva dos direitos humanos no sistema prisional? Por isso, entende-se
que viabilizar condições de saúde inspirada na concepção de direitos humanos parece ser tarefa inconclusa, que precisa ser encarada com maior
responsabilidade e comprometimento, pois, “a ligação entre as ideias e a prática dos direitos humanos pode ajudar a revitalizar a saúde pública” (MANN,
1996, p. 144).
Por isso, é pertinente frisar a afirmação de Ventura (2010, p. 96) que salienta que, “fortalecer a promoção e reforçar as obrigações dos países
relacionadas aos direitos humanos no âmbito da saúde é, sem dúvida, uma estratégia central para a plena eficácia e universalização deste direito”, estratégia
que é tarefa dos trabalhadores em saúde, dos usuários dos serviços e, da sociedade em geral.
Sabe-se que o SUS está em processo de implantação e aperfeiçoamento em nosso país, contudo, apresentou consideráveis avanços nas últimas décadas,
entre os quais, está o empenho pela efetivação de uma política de saúde que atenda os interesses da população prisional. O que fica expresso nas
normativas divulgadas desde 200320 e, em período recente, na Política Nacional de Atenção Integral a Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema
Prisional (PNAISP) que tem como objetivo geral “garantir o acesso das pessoas privadas de liberdade no sistema prisional ao cuidado integral no SUS”
(BRASIL, 2014, Art. 5º). Esta normatização exige dos entes estatais comprometimento perante a condição de saúde das pessoas presas, as quais devem ter
a possibilidade de acessar os serviços de saúde com integralidade.
Todavia, a implantação da UBS Prisional ocorre justamente para proporcionar esse acesso, uma vez que, dispõe de equipe multiprofissional que presta
serviços de assistência, proteção, prevenção e promoção à saúde. Portanto, a existência da UBS no estabelecimento prisional configura-se numa
possibilidade concreta de atender as necessidades em saúde da pessoa presa.
No que tange aos desafios para a efetivação da política de saúde no sistema prisional, seguem alguns questionamentos norteadores: Quem apoia tal
proposta? As autoridades competentes comprometem-se com a qualidade dos serviços prestados na UBS Prisional?
Historicamente a condição de saúde da população prisional, assim como as demais assistências que lhes é de direito, não eram prioridades para os
governos e, pouco se debatia sobre a temática, ficando esta, como pauta de discussão dos defensores dos direitos humanos. Porém, resultantes de um
processo lento, ocorrem mudanças consideráveis perante o atendimento das necessidades das pessoas presas, entre as quais se destaca a implantação da
UBS Prisional.
No entanto, as configurações do sistema penitenciário permanecem as mesmas. Uma instituição que tem a função de isolar os sujeitos do convívio em
sociedade, pouco se preocupa em atender suas necessidades, a contar que, tal feito esbarra na segurança do estabelecimento prisional. Pois, diante de um
número ainda insuficiente de servidores para conduzir os(as) presos(as) para o atendimento em saúde, muitos precisam aguardar o momento oportuno para
ser atendido, de modo que, não comprometa a segurança.
A própria estrutura física, também é uma barreira a ser enfrentada, pois dificulta a assistência em saúde. Além de que, é preciso considerar que, a cela,
espaço que as pessoas presas permanecem a maior parte do tempo, estão superlotadas; são ambientes úmidos; de pouca luminosidade e ventilação, o que
caracteriza um ambiente de violação de direitos. A carência de espaços destinados a atividades de grupo, também deve ser considerada, pois, dificulta a
realização de ações de prevenção, proteção e promoção à saúde.
Diante deste contexto, como proporcionar o cuidado integral em saúde? Logo, a prática fica relegada às ações assistenciais, que envolvem atendimentos
individualizados e repasse de medicação, em consequência identifica-se “a fragmentação da atenção, a desresponsabilização e, a dificuldade de abordar as
pessoas de forma global” (BRASIL, 2012, p. 33). De modo, que os serviços em saúde acabam se resumindo ao atendimento clínico, centrado na doença.
Neste sentido, Mercadante (2002, p. 293) destaca que,
a inserção do enfoque da promoção da saúde no SUS permite questionar a hegemonia do enfoque biomédico e recuperar as promessas da reforma sanitária brasileira, que
apontam para uma abordagem da saúde em toda a sua complexidade.

Condição esta, que tende a possibilitar uma maior probabilidade de promover saúde na perspectiva dos direitos humanos, pois, a realização deste tipo
de abordagem exige considerar os diversos fatores que determinam as condições de saúde dos sujeitos. Buss e Filho (2007) na produção intitulada “A
saúde e seus determinantes sociais” utilizam o conceito elaborado pela Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS) que
considera os fatores sociais, econômicos, culturais, étnico/raciais, psicológicos e comportamentais como influentes para a ocorrência de problemas de
saúde.
Dessa forma, executar uma abordagem pautada nesta perspectiva está em consonância com a concepção ampliada de saúde, mas, tendo diante das
limitações inerentes ao sistema prisional, ainda é uma prática em construção. Em suma pode-se afirmar que, atuar em conformidade com os princípios do
SUS, é o desafio mais evidente a ser superado.

Conclusão
É visível a abrangência da política de saúde brasileira e, os avanços que ocorrem desde a implantação do Sistema Único de Saúde em 1988, dentre os
quais faz parte a formulação de uma Política Nacional de Atenção Integral a Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (PNAISP).
Política que demonstra uma mudança de postura perante a atenção dispensada ao atendimento das necessidades em saúde da pessoa presa, comprometendo-
se em promover melhores condições de acesso a este direito fundamental humano.
Sendo o objetivo do estudo, analisar a efetivação da política de saúde no sistema prisional, logo, identifica-se a existência de fatores que interferem
nesse processo, os quais estão relacionados à própria rotina de segurança do estabelecimento prisional, às limitações físicas e de recursos humanos, além da
necessidade de construir um processo interventivo comprometido com os conceitos que orientam a atenção básica em saúde e, que atendam os objetivos do
Sistema Único de Saúde brasileiro, de forma que, a população prisional possa usufruir de um serviço em saúde qualificado e integral.
É importante destacar que a realização do estudo demonstra que o debate sobre a temática da “saúde e o sistema prisional” ainda é elementar, carecendo
de maior número de produções teóricas, sendo assim, os subsídios para análise originam-se do comparativo entre o que preconiza a legislação e, o que se
executa na prática.
Todavia, verifica-se que os serviços em saúde ultrapassam a mera assistência (ambulatorial e medicamentosa) sobre as situações de enfermidades, de
modo que, os profissionais devem ter a competência de considerar os fatores determinantes da saúde. Exige-se então, uma revisão da abordagem realizada
na UBS Prisional, a qual precisa desprender-se da visão reducionista de saúde e comprometer-se com a concepção ampliada de saúde.
Ao mesmo tempo, é preciso superar a fragmentação das ações, que geram a baixa resolutividade dos atendimentos, ficando evidente a necessidade de
interação entre os profissionais para que atuem na perspectiva da interdisciplinaridade.
Mostra-se fundamental, que a equipe de profissionais da UBS Prisional amplie sua capacidade de cuidado e, atente para a garantia dos direitos
humanos, uma vez que, a violação destes impacta na saúde dos sujeitos. Afinal, por mais que a defesa dos direitos da população prisional não seja de
interesse de grande parcela da sociedade, principalmente daqueles que se deixam levar pelo senso comum, todos os profissionais da saúde possuem um
compromisso perante os interesses da população atendida.
E, particularmente o profissional do Serviço Social deve mostrar-se comprometido com a defesa intransigente dos direitos humanos, princípio
fundamental do Código de Ética Profissional, além de que, precisa reivindicar a efetivação dos direitos da pessoa presa, tendo ciência de que as garantias
que lhe forem viabilizadas tendem a impactar positivamente na vida dos mesmos.
Em síntese, para a política de saúde prisional mostrar-se efetiva, é preciso maior fiscalização e cobrança aos órgãos competentes. Uma vez que, tornar o
sistema prisional um “território saudável” é tarefa complexa, pois, em meio ao contexto de afirmação do neoliberalismo, sistema econômico que não está
comprometido com a garantia dos direitos humanos, os obstáculos são evidentes, porém, não devem ser entendidos como insuperáveis.

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DESESTRUTURAÇÃO DO ESTADO E A PERDA DE DIREITOS DAS MULHERES: UMA ANÁLISE DAS POLÍTICAS NEOLIBERAIS PÓS-
IMPEACHMENT DA PRESIDENTE DILMA ROUSEFF
Eduarda Racoski Cortelini21
Laura Regina S. C. M. da Fonseca22

Resumo: Este artigo apresenta uma análise do desmonte das políticas de proteção social no Brasil a partir do impeachment de Dilma Rousseff, desencadeadas com instalação do governo de Michel Temer,
estudando em destaque as questões que afetam os direitos sociais das mulheres. Inicia-se com uma reconstituição dos direitos conquistados por estas, com o objetivo de demonstrar a importância do papel das
políticas públicas e da criação de equipamentos sociais no cenário da desigualdade de gênero e da divisão sexual do trabalho. Identificam-se a seguir as principais medidas adotadas pelo atual governo federal,
dentre elas a PEC 55, a Reforma Trabalhista e a proposta de Reforma da Previdência, refletindo acerca do significado dessas mudanças e suas consequências no que diz respeito aos direitos sociais, à
representatividade e à autonomia das mulheres brasileiras.
Palavras-chave: Gênero; Políticas Neoliberais; Direitos; Governo Temer

Introdução
Na história da recente e frágil democracia brasileira, o país experimentou dois momentos de “impeachment” presidencial. O primeiro, em 1992, do
Presidente Fernando Collor de Mello, e o segundo iniciado em 2015 e consumado em abril de 2016, da Presidente Dilma Vana Rousseff. Este último,
permeado por contradições e disputas de interesses no conjunto das instituições do Estado, pôs em xeque a estratégia de conciliação e de formação de
consensos entre classes sociais, a qual veio tencionar e, depois, romper o projeto de governabilidade com aliados políticos das diferentes matrizes
ideológicas.
O momento que segue ao impeachment da Presidente Dilma Rousseff passa a ser marcado pela forma de governo do seu Vice-Presidente, que assume a
Presidência da República, Michael Temer. Um período conturbado da vida brasileira, onde se mistura desesperança na política, ameaças e perdas de
direitos sociais, frágil confiança na economia e na política, bem como o empobrecimento da população. Isto, esgaça o fino tecido da confiança da
população nos partidos políticos e na política como esteio da democracia, recrudesce, com a colaboração da mídia, o discurso ideológico contra os
governos encabeçados pelo Partido dos Trabalhadores, especialmente usando a corrupção para escamotear a intencionalidade da tradicional política das
elites de retomar a direção do país. Assim, o que se constata a partir de então, é o incremento das medidas típicas da política neoliberal, justificadas para
combater a crise econômica, amplia e chancela a lógica da defesa de um Estado mínimo no campo dos direitos sociais e máximo na concessão aos
interesses do mercado internacional e parte do mercado nacional, o que vem a sustentar o impopular governo federal na atualidade.
No bojo deste contexto é desfavorável a condição da maioria da população brasileira, historicamente situada numa sociedade desigual, na qual a
pobreza antes em declínio volta com potente força, atingindo a parcela mais vulnerável das mulheres. Mas como é da tradição das elites brasileiras, a
pobreza é percebida como fenômeno natural que pode ser enfrentada com políticas públicas focais, seletivas, restritas e assistencialistas. Igualmente, para
atender os setores dominantes do capital financeiro, a reestruturação do Estado é posta como agenda central do atual governo, objetiva torná-lo “enxuto”
com o controle rigoroso dos “gastos” públicos direcionados à seguridade social. Desta feita, o projeto de governabilidade atual inclui reformas profundas
que afetam a proteção social da população, a saber: trabalhista e previdência social.
A questão de como são afetadas as mulheres brasileiras neste contexto, as perdas e as ameaças aos seus direitos com as reformas propostas, ou em
curso, na conjuntura de retrocessos do governo do pós-impeachment, capitaneado e dirigido pelo Presidente Michel Temer, ganha a atenção desta análise,
porque ao estudar os dados sobre a desigualdade de gênero no campo do trabalho brasileiro é indiscutível a maior vulnerabilidade da mulher na sociedade.

Perdas e ameaças aos direitos das mulheres


Segundo o Human Development Report 201523, o Brasil tem um índice de igualdade de gênero com valor igual a 0.997, incluindo o país no grupo 1
(países com alta igualdade de gênero em termos de educação, longevidade e renda). Apesar de termos consciência de que há muito a ser feito, precisamos
reconhecer que nos últimos anos, principalmente na última década, o Brasil fez importantes conquistas na promoção da igualdade de gênero. Essas
conquistas se materializaram na definição e implementação de políticas públicas efetivas direcionadas para a melhoria da autonomia feminina.
Dentre elas, podemos citar a construção da Secretaria de Políticas para as Mulheres que, criada em 2003, incentivou a criação de mais de 600
mecanismos de proteção do direito das mulheres em todo o país. Segundo a ONU Mulheres Brasil, Conferências Nacionais para a formulação participativa
e revisão dos Planos Nacionais de Políticas para as Mulheres e Políticas de Promoção da Igualdade Racial (PNPM e PLANAPPIR, respectivamente) foram
organizadas a cada três ou quatro anos, com o envolvimento milhares de pessoas a fim de debater essas políticas.
Destaca-se também um importante avanço nas questões que envolvem a proteção e amparo às mulheres em situação de risco. A criação da Lei Maria da
Penha, em 2006, ganhou destaque mundial e é amplamente reconhecida pelo seu status de proteção contra qualquer tipo de violência doméstica.
No ano de 2010, foi eleita, no Brasil, a primeira presidente mulher, a Sr.ª Dilma Vana Rousseff, que designou para compor os ministérios várias
mulheres que possuíam um trabalho reconhecido na sociedade brasileira. Em 2013, a presidenta brasileira lançou o programa “Mulher, Viver Sem
Violência” para reforçar a oferta de serviços integrados e multissetoriais para as mulheres em todo o país. Ainda segundo a ONU Mulheres Brasil, em
2013, os 6,2 milhões de trabalhadores domésticos – em grande parte mulheres afrodescendentes – alcançaram a igualdade ao serem reconhecidos pela
primeira vez seus direitos trabalhistas – o que lhes foi negado e negligenciado por décadas. A transferência de renda condicionada do programa Bolsa
Família, que beneficia 16 milhões de brasileiros, dos quais 94% são mulheres, é também uma referência internacional como uma política de Proteção
Social.
Reconhece-se que para além dos feitos políticos, grande parte dessas vitórias devem-se aos movimentos feministas pela luta por direitos. Ainda assim,
o empoderamento das mulheres é um campo de muitos desafios. No cenário político que encontramos hoje, os direitos das trabalhadoras, mães, cidadãs,
estão postos em risco.

Conjuntura brasileira: retrocessos no Governo Temer


No dia 31 de agosto de 2016, o até então presidente interino Michel Temer assumiu o cargo de forma definitiva, tornando-se oficialmente o novo
Presidente da República após o julgamento do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Considerado por muitos brasileiros um golpe de Estado pelas
frágeis estruturas que julgavam o processo e pelas diversas falhas procedimentais, nota-se que o impeachment da presidenta Dilma não se tratava do
julgamento pelo crime de responsabilidade que a acusavam ter cometido, mas sim uma decisão política apoiada pela mídia e arquitetada minuciosamente
pela oposição para depor a presidenta legitimamente eleita. Aqui, cabem reflexões sobre a condução dos parlamentares que votaram pelo impeachment,
pois ofensas pessoais e desrespeitosas dirigidas à Presidenta foram transmitidas em rede nacional, no momento de votação. As manifestações desses
parlamentares, deixavam evidentes o sentimento misógino pelo fato de a Presidente ser mulher.
No primeiro dia como Presidente Interino, em 12 de maio de 2016, Temer adotou a medida provisória 726/2016 que extinguiu entre outros ministérios,
os Ministérios da Cultura, das Comunicações, das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos.24 Em 29 de setembro de 2016, a MPV tornou-se a Lei
nº 13.341. As questões relativas às mulheres, igualdade racial e direitos humanos passaram a ser de competência do Ministério da Justiça e Cidadania. Não
é preciso dizer que a extinção desses ministérios representou um retrocesso a todas as conquistas feitas pelas minorias nos últimos trinta anos. Segundo a
reportagem realizada pela rede TVT, o total de recursos federais destinados a políticas para mulheres, igualdade racial, LGBTs e direitos humanos caiu
35% em 2016, em relação ao ano anterior25. Além da perda de recursos, a extinção dos ministérios faz com que essas questões, vistas com relevância
anteriormente, percam prioridade e espaço, pois ao não possuírem mais o ‘status’ de ministério, são tratadas com menor importância. Com recursos
limitados pelo governo federal, os projetos e iniciativas de apoio e proteção aos direitos humanos ao nível estadual e municipal também são afetados,
prejudicando a vida das populações periféricas que dependem do repasse desses recursos.
Nesta mesma medida provisória, Michel Temer nomeou 24 novos ministros, o qual nenhum deles é mulher, negra (o) ou indígena. Como Clara Araújo
destaca na reportagem cedida à Carta Capital, “[...] a inexistência de mulheres - que são maioria da população e do eleitorado - ou outros segmentos da
sociedade representados no governo, anula qualquer chance de diversidade26”. Um ministério formado por homens brancos é afronta à luta pela igualdade
de gênero e étnico-racial. Sem nenhuma representatividade de 54% da população brasileira, as decisões cabíveis aos ministros, incluindo políticas públicas
de gênero, serão debatidas e votadas por uma ampla maioria de homens. Com efeito, as mulheres não têm nenhuma voz e influência no âmbito
institucional, sendo excluídas de toda e qualquer decisão política que parte dos ministérios, refletindo o pensamento de que mulheres não devem estar
presentes na política.
Ademais, a ausência de mulheres ministras não acontecia desde o governo militar de Ernesto Geisel (1974-1979). Os governos que se seguiram, mesmo
que em minoria, apresentavam mulheres como parte de seu corpo político. No governo de Lula a participação foi de 11 ministras, e no governo Dilma, 15
mulheres ocuparam cargos ministeriais. E mesmo que tenham sido nomeadas mulheres para pastas de equivalente status de ministério da esfera do
executivo federal, destacadamente voltadas para o campo dos direitos humanos, isso se deu após a desvinculação de homens nomeados anteriormente, ou
pela repercussão midiática dada ao vazio ministerial da representação feminina no governo de Temer.
A Proposta de Emenda à Constituição, que ficou conhecida como PEC do Teto dos Gastos Públicos ou PEC 55, foi aprovada em outubro de 2016 em
primeiro e segundo turno na Câmara dos Deputados e em dezembro no Senado Federal. No dia 15 de dezembro de 2016, a PEC foi promulgada no
Congresso, passando a integrar o ordenamento jurídico como a Emenda Constitucional nº 9527. Em resumo, a PEC 55 congelou por até 20 anos os gastos
públicos, que só serão ajustados de acordo com a inflação em relação ao ano anterior. Os gastos com saúde e educação, que nos últimos anos têm
aumentado num ritmo maior que o da inflação, também estão inclusos nessa estagnação. Julgada pelo Ministério Público Federal28, pela Consultoria
Jurídica do Senado29 e pelo Relator do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU)30 como inconstitucional, a PEC 55 foi
defendida e aprovada como necessária e legal pelo governo federal.
Fica evidente que as consequências do teto de gastos são alarmantes e prejudicarão principalmente a população pobre, periférica e vulnerável que
depende dos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde e do ensino público, gerando uma desigualdade social que há anos os governos vinham lutando
para combater. Segundo o relator especial da ONU para extrema pobreza e direitos humanos, Philip Alston, “[...] essa emenda bloqueará gastos em níveis
inadequados e rapidamente decrescentes na saúde, educação e segurança social, colocando, portanto, toda uma geração futura em risco de receber proteção
social muito abaixo dos níveis atuais”.
Em especial, a PEC 55 fere consequentemente o direito das mulheres quando afeta a qualidade do ensino e o provimento de creches, desmontando toda
a rede de proteção social que possibilitava a mulher inserir-se no mercado de trabalho e ter o cuidado dos filhos assegurado. Além da insegurança na
qualidade dos serviços prestados, como escolas e creches, as mulheres podem ter suas duplas jornadas sobrecarregadas quando estes serviços têm seus
turnos reduzidos, afetando a estrutura familiar como um todo e principalmente as famílias de baixa renda que, por sua vez, têm menos acesso aos recursos
privados, como escolas em tempo integral, de educação infantil e sem condições para terem empregadas domésticas e babás, e por isso dependem da oferta
de serviços públicos. Ao reduzir os investimentos em políticas públicas, principalmente nas áreas de saúde, educação e habitação, causa-se um impacto
direto na condição de vida das famílias, que perdem autonomia na vida profissional, sobrecarregando as mulheres com as demandas familiares ao invés de
dividir responsabilidades.
É fato que a precarização da proteção social atinge primeiramente as mulheres, pois, quando o Estado se ausenta de assegurar condições de bem-estar
social, essa responsabilidade recai inteiramente sobre as mesmas, como as questões familiares. Isso causa interrupções e descontinuidades tanto na vida
estudantil quanto na vida profissional. Uma pesquisa realizada pela agência online de anúncio de vagas Catho, em maio de 2017, constatou que entre
13.161 profissionais brasileiros, 28% das mulheres abandonaram a vida profissional depois do nascimento dos filhos, quando no caso dos homens, essa
porcentagem é de 5%. Esse número tende a aumentar ainda mais quando não se têm uma rede de proteção social que garanta o cuidado dos filhos.
Também é necessário reconhecer que as áreas de educação e saúde tem maior empregabilidade formal da força de trabalho feminina. Como demonstra
uma pesquisa realizada pelo IBGE, entre os assalariados no País em 2009, as mulheres eram maioria principalmente nas seções saúde humana e serviços
sociais (76,9%), educação (67,3%), alojamento e alimentação (54,1%). Por isso, as mulheres são duramente afetadas com o corte de orçamento público, o
que contribui ainda mais para a desigualdade de gênero no trabalho, seja na precarização, ou redução de empregos, seja na provável ampliação da
desigualdade salarial já existente.
A propósito das perdas de direitos e desestruturação da proteção social das mulheres no país, a presidenta Dilma Rousseff manifestou-se em seu site:
“Todas as iniciativas do governo ilegítimo evidenciam o retrocesso. A aprovação de um teto de gastos, por vinte anos, para educação, saúde, cultura,
segurança pública, por exemplo, implicará em enormes perdas para as mulheres e os que mais precisam. As reformas da Previdência e Trabalhista têm
impacto negativo em toda a população, mas afetam sobremaneira a vida de milhões de mulheres chefes de família.”31
A Reforma Trabalhista altera 117 dos 922 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de
1943, e as Leis nºs 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de adequar a legislação às novas
relações de trabalho. Tornou-se norma jurídica no dia 14 de julho de 2017, entrando em vigência em 11 de novembro de 2017. A Reforma altera
principalmente os direitos trabalhistas como férias, jornada de trabalho, remuneração e plano de carreira, inaugura a flexibilização das condições de
proteção e de direito ao trabalho, prevendo acordos e convenções coletivos diretos entre patrões e empregados sobre a legislação. Esta norma, assim em
vigor, além de caracterizar a retirada de direitos trabalhistas e a voz dos trabalhadores e trabalhadoras organizados em sindicatos, possibilita o impedimento
do acesso à Justiça na forma do acordo extrajudicial irrevogável e arbitragem das relações de trabalho. Nesse sentido, o procurador-geral do Trabalho,
Ronaldo Fleury, afirma: “Fica evidente que autorizar o rebaixamento de direitos por meio da negociação coletiva não fortalece as tratativas entre
trabalhadores e empregadores. Muito pelo contrário, enfraquece e coloca em descrédito diante da sociedade esse importante instrumento de pacificação dos
conflitos coletivos de trabalho”32. Essas alterações vão contra Constituição Federal e as convenções internacionais firmadas pelo Brasil, como as 98, 151 e
154 da Organização Internacional do Trabalho, nas quais a negociação coletiva somente é válida quando as condições de trabalho forem mais favoráveis
que as fixadas em lei.
No que tange às mulheres, a Reforma Trabalhista prevê a permissão de grávidas e lactantes para o trabalho em locais insalubres, desde que apresentem
um atestado médico para tal. Essa medida faz com a mulher que trabalha em locais insalubres de grau baixo e médio tenha que comprovar que o ambiente
traz riscos à sua saúde e a do filho, o que causa constrangimentos à trabalhadora, colocando a mulher numa posição ainda mais vulnerável na relação
empregado-empregador. Desse modo, as mulheres são mais expostas à precarização do trabalho com a piora da desigualdade de gênero quanto à saúde,
garantias trabalhistas, equidade de carreiras, inclusive no tocante aos cargos de maior poder no ambiente que trabalham, e igualdade de salários com os
trabalhadores homens.
A revisão da Lei de Valorização do Salário Mínimo, que ajusta o valor salarial apenas segundo a inflação acumulada do ano anterior, afeta
especialmente as mulheres porque grande parte dos empregos femininos no Brasil representam essa base salarial, o que é o caso das empregadas
domésticas e serviços terceirizados de limpeza. Isso diminui o poder de compra das mulheres, e consequentemente a autonomia financeira. Segundo uma
análise dos resultados do censo demográfico de 2010 realizada pelo IBGE33, a proporção de pessoas com rendimento até 1 salário mínimo era de 29,8%, no
qual 33,7% eram mulheres e 25,7% eram homens. Os menores rendimentos, baseando-se nos critérios de sexo, cor, raça e localidade demonstram que
50,8% das mulheres pretas ou pardas da Região Nordeste têm rendimento até 1 salário mínimo, assim como 59,3% das mulheres nas áreas rurais desta
região.
Os benefícios conquistados pelas trabalhadoras rurais também são duramente afetados com a PEC 55. As políticas de apoio à produção dirigidas às
mulheres do campo, como a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pnater) – Setorial Mulheres e o Programa Nacional de
Documentação das Trabalhadoras Rurais (PNDTR) promoveram a inclusão social e a capacitação dessas trabalhadoras. O Serviço Nacional de
Aprendizagem Rural, o SENAR, também é um desses programas, promovendo ações de formação profissional rural, que promovam a qualificação e o
aumento da renda das trabalhadoras, por meio de cursos de formação inicial e continuada nas áreas de agricultura, pecuária, silvicultura, aquicultura,
extrativismo, agroindústria, atividades de apoio agrossilvipastoril e atividades relativas à prestação de serviços, além de ações de promoção social voltadas
para a saúde, alimentação e nutrição, artesanato, organização comunitária, cultura, esporte e lazer, educação e apoio às comunidades rurais34. Todos esses
serviços, no entanto, sofreram cortes de gastos, por estarem no eixo da educação rural e promoção cultural, mais uma vez prejudicando a autonomia da
mulher do campo.
A fim de cortar gastos públicos, o governo de Temer julga necessário haver uma mudança nas regras previdenciárias vigentes. A proposta inicial de
Reforma da Previdência foi feita em dezembro de 2016 pelo presidente Michel Temer e foi alvo de muitas críticas de diversos setores da sociedade,
principalmente no que diz respeito ao tempo de contribuição do trabalhador e ao estabelecimento da idade mínima de aposentadoria para homens e
mulheres em qualquer atividade ou profissão, sejam contribuintes do Regime Geral da Previdência Social, sejam servidores públicos civis regidos pelo
Regime Especial. A proposta da definição da idade mínima para a aposentadoria afeta fortemente as mulheres, considerando a realidade descontínua dos
períodos de contribuição previdenciária marcados por interrupções provocadas pela acumulação do trabalho doméstico, cuidado da família, a informalidade
característica das atividades de trabalho realizadas, o desemprego e os baixos salários recebidos que afetam na totalidade a condição de mulher
trabalhadora. Por conseguinte, a diminuição gradual da idade mínima para a equivalência futura da idade mínima de aposentadoria para mulheres igualarem
a mesma condicionalidade exigida para os homens, desconsidera a realidade desigual do trabalho doméstico da mulher no país, como se em pouco tempo
esta realidade deixasse de existir. Inconteste, esta Reforma torna as mulheres as principais prejudicadas com as alterações propostas.
Isso significa ignorar totalmente que a jornada de trabalho das mulheres é maior, pois além dos seus compromissos com o trabalho, ainda responsáveis
pelos afazeres domésticos e da educação dos/as filhos/as. Segundo a CEPAL, no levantamento feito em 2012,35 o tempo médio dedicado ao trabalho
remunerado e não remunerado da população feminina de 15 anos ou mais, no Brasil, é de 19,9 horas semanais e 23,6 horas semanais, respectivamente.
Essa desigualdade no tempo dedicado ao trabalho não remunerado, a qual ainda é mais notável quando se compara o sexo masculino e feminino, está
relacionada diretamente com a reprodução de desigualdades de gênero nas sociedades, afetando as possibilidades de acesso ao trabalho formal e à
seguridade social.
Ainda, a Reforma da Previdência na versão do governo Temer prevê o fim das aposentadorias especiais de categorias como de professores e de
trabalhadores rurais. Na contramão desta tendência restritiva dos direitos previdenciários, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a profissão de
professor é uma das mais estressantes e por isso a garantia da aposentadoria especial e, como as mulheres são maioria nesta categoria, igualar o tempo de
serviço e cortar aposentadorias especiais é um retrocesso aos direitos de proteção social e para a saúde da mulher, pois parte do pressuposto que mulheres e
homens têm jornadas de trabalho e salários iguais, quando na verdade, a desigualdade de gênero ainda é gritante no Brasil.
Devido às intensas e constantes mobilizações contra a Reforma da Previdência, em especial, a mobilização das mulheres que ocorreu no dia 8 de março
de 2017, e a Mobilização Nacional no dia 19 de abril de 2017, foi apresentado um texto com algumas mudanças na proposta. A proposta anterior previa
que, para ter acesso ao benefício da aposentadoria, o trabalhador teria de alcançar 65 anos de idade e 25 de contribuição. Agora, a idade de acesso fica
diferente para as mulheres, que poderão obter a aposentadoria a partir dos 62 anos. Para os homens, continua a regra dos 65 anos.36 Os professores voltarão
a ter regimes especiais de aposentadoria, mas ainda assim um tempo de contribuição maior do que o atual. Para profissionais da rede pública federal (até
ensino médio; universitários seguem a regra geral), a idade mínima começará aos 50 anos (mulher) e aos 55 anos (homem). Para aqueles do setor privado, a
idade mínima começará aos 48 anos (mulher) e aos 50 anos (homem). O mesmo acontece com os trabalhadores rurais. A proposta inicial era igualar o
tempo de serviço dos trabalhadores urbanos e rurais. Com a proposta final, a idade mínima será de 57 anos (mulher) e 60 anos (homem).
No momento atual, há no Brasil uma severa crise social e política, pois o governo luta pela aprovação das reformas previdenciárias e afirma que o
sistema de previdência atual tem um déficit estimado para 2017 em R$ 181,2 bilhões. Entretanto, a pesquisa Pulso Brasil, feita pela IPSOS37 em outubro de
2017, aponta que 95% da população rejeita a atuação do presidente Temer. O levantamento mostra também que para 95% dos entrevistados, o país está no
rumo errado e 87% dos brasileiros avaliam o governo federal como ruim e péssimo, rejeitando as novas medidas e alegando que os trabalhadores mais
pobres pagarão o ônus de má gestão do dinheiro público.

Conclusão
Levando-se em conta o que foi exposto neste artigo, a exclusão de direitos sociais e as reformas trabalhistas e previdenciárias evidenciam um período
de diminuição da proteção social do Estado e endurecimento das políticas conservadoras. Diante dessa conjuntura, a situação agrava-se ainda mais no que
tange às mulheres, pois estas são as mais prejudicadas nas medidas adotadas pelo governo Temer, conforme demonstra o estudo das principais mudanças
previstas nas reformas. Com efeito, a agudização do empobrecimento e a desproteção social das mulheres brasileiras serão resultados deste momento de
retrocesso das conquistas tardias dos direitos sociais no país, o que contribui para o aumento das relações desiguais de gênero.
Não obstante, as propostas das reformas do governo de Temer, mesmo aquelas recém em vigor, conduzirão a sociedade para um futuro breve de
restrições e precarização das condições de trabalho, por um lado, e por outro, em um futuro mais distante, para a fragilidade da proteção social das gerações
jovens, seja para enfrentar com saúde o envelhecimento, seja para alcançar condições de aposentadoria. Este cenário previsível tem como referência um
modelo de Estado mínimo permanente. Isto é considerar a história como linha reta, a hegemonia de um tipo de Estado sem oposições, tensões e conflitos
que o afete. Ou seja, algo nunca tão longe da percepção material e histórica da formação social de um país.
As mulheres, por sua vez, neste início de século XXI, retomam e avançam as pautas e lutas feministas disparadas na segunda metade do século passado,
com maior popularização e acesso democrático aos movimentos organizados com as tecnologias digitais, redes sociais e organizações em coletivos
diversos. Desta nova onda feminista há de ter-se a força para enfrentar e transformar a realidade, por ora tão desfavorável às brasileiras.

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A MULHER COMO OBJETO DA MÍDIA: A BELA, RECATADA E DO LAR
Michelle Laisth38
Carmen Abreu 39

Resumo: Em pleno século XXI, ao analisar aspectos de nossa sociedade, observa-se que há muito a se conhecer sobre o feminino. Vemos anúncios mostrando o padrão perfeito de esposa que, acima de tudo,
nunca está à frente de seu marido, ela está sempre atrás de um “grande homem”. Neste artigo, será analisada a expressão “Bela, recatada e do lar”, e como os homens ainda buscam a partir deste padrão a
“mulher perfeita’’ para casar. Um modelo de esposa, que cuide de seu lar e sexualize na hora que ele quiser, teoricamente significa escolher a “embalagem” de sua preferência ou escolher uma mulher
padronizada por ser o modelo ideal. Parece evidente a tentativa da sociedade de fazer uma oposição do que a mulher representa, de fato. Uma mulher aguerrida, forte, fora do padrão imposto do que se
entende como a mulher deve se comportar é errado, foge ao “padrão’’ tradicional da mulher ser ou mostrar ser. É perceptível a misoginia da qual as mulheres mais independentes vêm sendo alvo. Um homem
em seu lugar não tem sua capacidade questionada para ocupar cargos na área política, por exemplo, e nem sofre ataques de nenhuma natureza e por isso acabam não respeitando e não havendo igualdade.
Neste sentido, a proposta deste texto é discutir este cenário. Identifica-se que apesar de alguns avanços, a mentalidade machista ainda perdura e o mais surpreendente é que o modelo ideal de mulher, que é
descrito pela nossa sociedade, em nada difere daquele exaltado pela imprensa conservadora em séculos passados.
Palavras-chave: Mulher, Mídia, Padrão, Conservadorismo.

Introdução
O tema a ser discutido neste artigo é a mulher que a mídia aceita na política, a partir disso questionar o padrão correto de ser mulher dentro do
conservadorismo Brasileiro. A violência de gênero diz respeito aos constrangimentos impostos pelas representações sociais de gênero – sobre o feminino.
O Brasil vem se fortalecendo neste sentido, desde a década de 1970, as mulheres conseguiram muitas conquistas em diversos campos, principalmente
na política. Conquistaram o direito ao voto e algumas vitórias eleitorais. As mulheres vêm ganhando espaço na sociedade, em sua incansável busca pela
igualdade de gênero. Ainda assim, com todas as conquistas já alcançadas, a falta de representatividade e a discriminação sobre sua imagem, simplesmente
por ser mulher, ainda estão muito enraizadas na sociedade atual.
Marcado pelo machismo, o discurso misógino da grande mídia insiste em definir o padrão da mulher perfeita, que a faz preocupada com a aparência,
discreta, submissa e de preferência sempre atrás de seu HOMEM. Recentemente, dois dos maiores veículos impressos, no Brasil, reproduziram um
discurso, mostrando um perfil da mulher relacionada à política. Em abril de 2016, a revista IstoÉ apresentou, em sua capa, a reportagem intitulada “As
explosões nervosas da presidente”, onde mostra, a então presidenta Dilma Rousseff, como uma pessoa desequilibrada e sem condições emocionais e
psicológicas para governar o Brasil. Podemos ver que no mesmo mês, a revista Veja traz a reportagem “Bela, recatada e do lar”, onde descreve o perfil de
Marcela Temer, esposa do então vice-presidente Michel Temer, na reportagem ele é considerado um homem de sorte por tê-la a seu lado.
A sociedade vive de padrões impostos pela mídia, que divulgam representações constrangedoras das mulheres, a exemplo as mulheres da política atual,
que reforçam a imagem da “Mulher ideal’’, dentro do sistema político Brasileiro. Segundo Bourdieu (1999), para se compreender a dominação masculina é
importante analisar as estruturas inscritas na objetividade e na subjetividade dos corpos. Os corpos viram uma estrutura dentro dos sujeitos dominados,
assim fica determinado gestos, posturas, disposições ou marcas de sua submissão. Quando a mídia expõe a figura da mulher, com um padrão já imposto,
ela fica repleta de significados e valores que precisam ser analisados com referência a quem eles estão de fato favorecendo com um modelo imposto de
mulher ou um modelo que a sociedade aceita, por exemplo, na política.
O posicionamento é a partida da classe social, sujeita à força do imaginário e do compartilhamento dos hábitos de sua classe social, profissional e
sexual. É utilizada do conhecimento feminista como forma de mostrar todo esse universo de imagens, ideias e significados. Aqui, o objetivo é realizar uma
análise crítica, e dentro desta refletir sobre um olhar feminista e de que forma está sendo imposto este padrão que tanto a mídia quer reforçar, como um
valor dominante e tradicional sobre as mulheres. A hipótese levantada aqui é de que a nossa sociedade atual ainda quer impor um modelo padrão de
mulher, onde elas usam de seus corpos para serem submissas de seus homens, não saem sem seus maridos para não ficar “mal falada”, dedicam suas vidas
a suas casas e filhos, constituindo uma forma de que as mulheres não podem ser independentes dentro da sociedade atual, que ainda é uma sociedade
machista.
O que torna mais difícil é inserir o debate sobre as formas de representação e sobre as mulheres na mídia, dando mais visibilidade às várias formas de
violência e propondo políticas públicas que discutam as desigualdades de gênero. O intuito é mostrar com mais visibilidade as relações desiguais dentro da
mídia, que nos interpelam através das várias formas que esse padrão bela, recatada e do lar apresentam. Uma tendência machista, preconceituosa e abusiva,
que encontra espaço e visibilidade midiática.
A sociedade é muito visual, a imagem é muito valorizada, existe uma cultura de comunicação muito forte. Portanto, dentro da mídia é relevante para
quem vive em um mundo da sociedade de consumo, aprender a conviver neste ambiente midiático, aprendendo como entender suas formas, interpretar e
criticar os seus significados e imagens, resistindo à sua manipulação.
A metodologia utilizada é a bibliográfica e dentro dessas pesquisas selecionamos o tema “Bela, recatada e do lar”. Na sequência, foi realizada uma
reflexão sobre o papel da mulher que a mídia aceita na política, evidenciando os critérios pertinentes para a análise. A partir da perspectiva feminista, foi
percebido construções nas suas práticas discursivas. A exibição do padrão de uma mulher perfeita e sua construção, a partir do imaginário masculino, pela
busca do prazer e sua satisfação e de seu prazer em olhar mulheres que são suas submissas. Dando seguimento, trazemos algumas categorias para que
possamos realizar a análise de gênero, raça, classe e geração para irmos mais a fundo nessa ideia de padrão. Identificando os estereótipos construídos
tradicionalmente e socialmente pela mídia. A forma que foi abordada possibilita uma visão melhor das discussões, pois ela mostra questões que podem
passar despercebidas ao olhar de quem leu a matéria “Bela, recatada e do lar”, e que são de total importância para uma investigação e uma produção de
conhecimento da mídia conservadora.
A análise crítica da matéria, e do tema que foi discutido, parte do estudo da transmissão de ideologias padronizadas da sociedade masculina, valores e
doutrinas que trazem uma maior captação dos discursos particulares como sendo universais e idealizados, surgindo daquilo que é “normal” no momento de
definir um grupo social tradicional de acordo com a sociedade. Essa cultura construída na análise é geralmente a da mulher branca, ocidental, de classe
média ou superior, e estão embutidas em raças, classes, grupos e corpos desejados.

Mulher e a mídia brasileira


As imagens são representações construídas sobre o que pode se tornar palpável, dentro dos pontos de vista que a mídia acha correto ser dentro da
política Brasileira, sendo assim, a mulher não se encaixa totalmente. As representações que a mídia traz sobre a mulher perfeita, representada na figura de
Marcela Temer, estão dentro das imagens sociais construídas para se tornar palpável para o sistema, que também mostram as outras mulheres não
contempladas. Essas mesmas mulheres, que infelizmente não tem esse maridão, que resolve tudo enquanto elas estão “no lar” cuidando das coisas que lhes
são designadas por ser mulher da casa. São essas mulheres que mostram seu poder de militância, que vão às ruas, que dão seu total apoio às manifestações,
que não se calam, que se expõem, que fazem “textão” e mostram a cara para falar a verdade sobre esse sistema machista. Vemos essas mulheres que não
ficam nos bastidores, mas que são deputadas, prefeitas, ativistas e presidenta da República e que por mais que a opressão seja grande elas se mantêm
erguidas.
São produzidas e partilhadas as representações dentro de um contexto histórico da mulher tradicional brasileira dentro da política. A experiência vivida
é construída a partir das informações oferecidas, dos saberes e dos modelos do pensamento social, transmitidos e construídos através do conservadorismo
político, da educação e da mídia conservadora, diante disso vamos entender essa cultura dos homens. Vemos que essas representações são criadas de
acordo com a realidade através dos seus discursos dominantes criados sobre o gênero. Ou seja, a matéria da revista Veja sobre a Marcela Temer, usou da
imagem da nova primeira dama para expor um padrão de mulher perfeita, e que seu esposo Michel Temer tem sorte de ter a “Bela, recatada e do lar” ao seu
lado.
Esses padrões estabelecidos pela mídia, são construções de estereótipos dos modelos femininos dentro da nossa atual sociedade e da atual mídia
conservadora. Estes estereótipos passam despercebidos pelas pessoas que os recebem, as quais não veem qual a diferença ou quais perguntas fazer do por
que essas representações são mostradas na mídia, uma vez que elas se apoiam no senso comum.
São aceitos e assimilados pelas pessoas suas próprias representações e assim se torna real para ela, mesmo que seja algo em que não seja palpável, ela
irá querer, porque é aquele padrão o correto. Vivemos de uma cultura naturalizada dentro da nossa sociedade que entende que “é normal ter padrão”,
alegando que não tem como mudar, pois, o que a mídia mostra é o certo.

Primeira dama perfeita e seus modelos padronizados


No Brasil, não se ouve falar de nenhum trabalho feito ou administrado por alguma primeira-dama, na época do Império (1822-1889) ou na República
Velha (1889-1930). A visibilidade social da primeira dama ressurgiu no Governo Vargas, com a atuação de sua esposa, Darcy Vargas, que foi uma das
mais atuantes até hoje. Na ditadura, as mulheres dos coronéis não existiam e não exerciam seus papéis como primeiras-damas, pois na época elas não
podiam ter cargo de destaque.
Na legislação brasileira não existe uma previsão legal para o papel de primeira-dama, sendo que ela não é considerada integrante da administração
federal e nem recebe salário por estar ali. No Brasil, os profissionais da área social sempre criticavam a atuação de primeiras-damas no setor, sempre em
lugares como a caridade do que gestão profissional de serviços que o Estado tem que oferecer como obrigatório. Entretanto, no caso de Marcela Temer, ela
não será vista como gestora, mas sim como promotora e que viabiliza o sistema social.
Podemos analisar que, com nosso contexto histórico no país, é vivido o conservadorismo que faz com que a mulher não seja vista em cargos de
destaque na política, quando é vista, é taxado um padrão correto a seguir ou a mostrar. É possível acrescentar o forte autoritarismo do militarismo em que
as mulheres tendiam a ser submissas e obedientes aos seus esposos. No Brasil também vive-se uma diferenciação de gênero que é acompanhada por toda
história da civilização, que passa por todas as áreas de nossa sociedade. A mulher vem lutando por direitos iguais há muitos anos, sempre foi vista como o
“segundo sexo”, aquela que vem sempre atrás de seu marido.
O machismo corrompe nossa sociedade, trazendo então todo o conservadorismo ali presente, fazendo com que a mídia imponha padrões de beleza, esse
mesmo mostrado pela revista Veja no dia 18 de abril, elogiando os atributos de Marcela Temer como “Bela, recatada e do lar”, claramente vendendo um
padrão conservador da imagem feminina e ignorando todas as lutas que as mulheres têm e tiveram para conseguir seu espaço no trabalho e adquirir respeito
pelo seu próprio corpo.
Para Foucault (1979),
O domínio, a consciência do seu próprio corpo só pudera ser adquirida pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento
muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo... tudo isso conduz ao desejo de seu próprio corpo através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso, que o poder
exerceu sobre o corpo das crianças, dos soldados, sobre o corpo sadio (p. 146).

Vemos os significados que o corpo assume na atualidade, de um corpo esteticamente controlado e manipulado pela mídia conservadora. A mulher vive
em seu controle absoluto, pois precisa estar em perfeita saúde e beleza para que possa ser exposta, ou seja, desta forma será assumida e mostrada pela
mídia, segundo Foucault, não existe uma forma de controle da repressão, mas sim um controle de estimulação masculina: “Fique nu, mas seja magro,
bonito e bronzeado” (1979, p. 147).
Vemos que a mídia traz historicamente um olhar masculino que é utilizado para inferiorizar a imagem da mulher na sociedade. Com a Marcela Temer
não está sendo diferente, a mídia está trazendo padrões antigos do conservadorismo brasileiro com sua imagem de “primeira-dama”, esses mesmos que são
idealizados pelo olhar masculino, que tem uma construção de objeto de submissão, onde a mulher estará sempre atrás e não à frente, ou ao lado de seu
marido. Essa dominação faz com que a mulher seja vista apenas como a recatada que a revista Veja trouxe em sua edição. Mulheres que são simpáticas,
femininas, sedutoras, sorridentes e ainda dependendo da sociedade na qual está inserida, ela será sempre apenas isso, pois a mídia nos mostra o que a
sociedade quer das mulheres, o que ela tem que fazer para ser aceita como principal sujeito de desenvolvimento político, sendo assim, a mulher tem que
reconhecer seu lugar dentro da política brasileira, um lugar onde ela fique sempre atrás e sem nenhuma exposição, essa mesma terá que ser uma mulher
recatada.

A imagem da mulher que a mídia aceita na política


O discurso midiático traz uma questão que trabalho com as concepções sobre a imagem da mulher dentro da política, que são atributos naturalizados
como padrões corretos, assim delineando sua personalidade e idealizando mulheres perfeitas que acompanham seus esposos da política. A matéria da Veja
traz em seu discurso a imagem feminina adequada do ano 1950, que era essa mesma que apresentava um modelo ideal de mulher: discreta, obediente ao
marido, boa mãe, e que se fosse trabalhar fora teria que ser uma profissão “honesta” e em caso de necessidade, e se o marido autorizasse.
A vida para elas seria muito melhor se tudo que fizessem girasse em torno do marido e dos filhos. Nesta mesma época, as publicações de revistas que
eram voltadas para o público feminino traziam receitas e dicas de como ser uma “esposa perfeita”, como não discutir por “bobagens”, não seja uma mulher
ciumenta, saiba cuidar bem de seus filhos, nunca questione seu marido, não dê margem para os vizinhos falarem de você, não tenha intimidade com
terceiros ou com outros homens que não fossem da família. Mesmo assim, ainda em 2016, vemos pessoas que não se cansam de glorificar o
comportamento recatado da primeira-dama, sua dedicação ao filho, e principalmente, o fato de ela saber o seu lugar, não se meter em “assuntos de
homem”, como a política, por exemplo.
A aparência bela e elegante de Marcela é explorada de forma que a mídia faz para que a sociedade admire ela como o padrão a ser seguido por todas as
mulheres. O Brasil parece estar feliz com sua primeira-dama, pois terá aquela singela moça que irá enfeitar os eventos oficiais do governo, e que sempre
será vista como a mulher de um homem poderoso. Voltando na década de 50, julgamos importante analisar um aspecto que era muito comum naquela
época, que sua esposa sempre tinha que cuidar de sua aparência, tinha que se embelezar para manter o “homem em casa”, era como uma obrigação de “boa
esposa”, Marcela não fica longe desses padrões em que a mulher vira submissa de seu homem.
De acordo com Sabat (1999) a mídia, junto com o seu universo de imagens, é também uma forma “regulação social” que reproduz padrões que virão
ser aceitos pela sociedade capitalista conservadora.
Na edição de nº 2474 da revista Veja, publicada em 18 de abril de 2016, a matéria “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar’”, nos trouxe um artigo
machista e nos fez pensar como a mulher está sendo representada pela mídia. São essas mesmas representações que são contornadas e nos mostram uma
certa normatividade por parte dos meios de comunicação em massa, que torna tal discurso legítimo de especialistas a serviço de seus interesses,
normalmente políticos.
Os meios de comunicação em grande parte têm influência sobre as pessoas, e podem até ser considerados espaços de doutrinação. A mídia tem a
capacidade de forjar e induzir a opinião pública, trazendo pressupostos em suas rotinas de produção, são esses mesmos meios que detêm um discurso que
agrada ao seu público alvo e futuramente trazendo um ambiente de lógica e uma suposta verdade.
Assim, vai se construindo como um espetáculo a formação do padrão de beleza ou da mulher que é aceita na política, sendo que a mídia tem o poder de
construção da realidade, criando pessoas alienadas e futuros analfabetos políticos, que são incapazes da busca da verdade.
Charaudeau (2013, p. 103) destaca que:
Assim sendo, o propósito, como componente do contrato de informação midiática, inscreve-se num processo de construção evenemencial, que deve apontar para o que é
‘notícia’. O propósito recorta o mundo em um certo número de universos de discurso tematizados, transformando-os em rubricas, tratando-os segundo critérios de
atualidade, de socialidade e de imprevisibilidade, assegurando-lhes assim uma visibilidade, uma publicização, e produzindo um possível efeito de captação. Com isso,
compreende-se que o espaço público se confunda com o próprio acontecimento midiático, tal como aparece em sua configuração discursiva.

Os meios de comunicação em massa não incorporam somente a mídia, seja impressa ou eletrônica, eles se fazem presentes em tudo e todos os lugares,
colaborando com os momentos da vida e de cada sociedade, para melhor ou pior em seu senso crítico. Os meios de comunicação atuam na sociedade como
se fosse um papel de atriz famosa. Esse caráter que a mídia exerce, torna passível de uso transformador de uma realidade, que nos traz evidências dentro de
narrativas que tornam público um padrão de moda, beleza e estilo, na vida da sociedade feminina, assim criando expectativa ou revolta.
Tratando da comunicação, mais em específico da mídia impressa, sua imparcialidade em suas reportagens é necessária, mas ao mesmo tempo é
impossível, vendo todos os procedimentos de análise que traz uma implicância de tomada de decisão. É desafiador produzir e relatar, de maneira que pode
ser um discurso autêntico e que possam trazer características dominantes para a sociedade.
A mídia obedece seus conceitos e fundamentos teóricos dentro da composição da notícia e pensa que traz com ela sua imparcialidade, assim a
construção é baseada em moldes adotados pelos políticos, homens brancos que estão no poder. O discurso não inocente mostra que seu posicionamento e
sua opinião em determinado assunto, traz repercussão dentro da opinião pública, trazendo os comportamentos padronizados por manifestações machistas e
absurdas como a matéria da Veja.
De acordo com Bourdieu (2010), o sistema que vivemos é o patriarcal que mostra na história o poder da sociedade masculina, sendo que o homem tem
sua virilidade, a força, a figura do que faz descobertas no mundo ou que sempre está na luta, a ele é delegado o poder político de atuação, já mulher fica
como a frágil, que precisa de proteção e repouso para que possa gerar e trazer novos frutos, cuidar de seus filhos e lar, sendo assim, excluída do poder
político.
Trazendo o processo histórico, a sociedade estabeleceu algumas atribuições ou responsabilidades que mostram a desigualdade de gênero dentro do
poder público. Suas atribuições são socialmente divididas a cada um, que irá depender como será o processo de sobrevivência dentro do sistema, como
sexo, classe e raça, esta mesma realidade traz um comportamento de visão particular da mídia conservadora.
Naturalmente a mulher é excluída do poder político e a mídia mostra isso como uma legitimação de que a política é negócio de homens. A mídia mostra
que as mulheres não deveriam se interessar por debates políticos, que elas têm que saber seu lugar na sociedade, sua vida privada e doméstica. A crítica
feminista atua como correspondente em confrontar essas práticas patriarcais que com o passar dos anos foram se atualizando, tendo como principal eixo o
silêncio da atuação feminina na esfera pública e volta com a reprodução de estereótipos.
Thompson (1995) dizia que, os meios de comunicação são considerados aparatos técnicos de mediação simbólica que transformaram a natureza das
interações sociais e as percepções que indivíduos e grupos têm de si mesmos e dos outros. Podemos afirmar que os valores organizados para a experiência
são afirmados e reproduzidos e assim transformados pela mídia. As mulheres acabam ganhando padrões e sendo julgadas, na maior ou na menor medida,
no fim virando um discurso padronizado de beleza.
Marcela Temer é o tipo ideal de mulher aceito pela mídia conservadora, apesar de que já superamos o fato de nunca ter havido na história do país uma
mulher como presidente, podemos ressaltar que o Brasil ainda está de ter representação feminina na política por já termos tido uma mulher como Presidente
por dois mandatos seguidos. Significa que sim, a democracia também favorece na inserção da imagem feminina na política em seus diversos cenários, sem
levar em consideração sua desigualdade de gênero e o tema aqui em questão, que é o padrão instituído pela mídia.
É possível destacar que a mulher hoje ocupa todos os espaços ao mesmo tempo e ainda vive em sua busca por direitos e representatividade na prática,
mas e na mídia, como sua imagem é retratada? Sua disseminação é rápida e levanta várias discussões sobre seus discursos de opinião, sobre sua
importância em relação à igualdade entre mulher e homem e qual espaço cada um deveria ocupar.
A mídia retrata a mulher de uma maneira em que faz com que a reflexão venha diretamente na sociedade feminina, podemos ver o próprio reflexo.
Podemos dizer que, essa imagem retratada são padrões estabelecidos para que seja criado a perfeição em uma sociedade feminina.
Destacado no início deste artigo que o campo da mídia é rodeado por rotinas de produção e uma grande disputa de forças e interesses que podem
futuramente interferir na construção de conteúdos midiáticos. Podemos trazer o exemplo da revista Veja que causou polêmica ao publicar no dia 18 de abril
deste ano (2016), a matéria com o título “Marcela Temer: bela, recatada e do lar”, que é o objeto de análise deste artigo.

Marcela Temer: “bela, recatada e do lar”


A revista Veja tem sua distribuição semanal e é publicada pela editora Abril, foi criada em 1968 por dois jornalistas, Roberto Civita e Mino Carta, trata
dos mais variados temas tanto nacionais como globais, o diferencial da revista é seu lado ou posicionamento político que é deixado bem claro a todos, que
muitas vezes acaba condenando suas matérias por seu posicionamento dos conservadores da direita.
A matéria vai além da notícia, pois apresenta sofisticação em seus elementos e dos mais variados recursos linguísticos.
Para Charaudeau (2013, p. 221),
A reportagem deve adotar um ponto de vista distanciado e global (princípio de objetivação) e deve propor ao mesmo tempo um questionamento sobre o fenômeno tratado
(princípio da inteligibilidade). É por isso que recorre a diversos tipos de roteirizações, utilizando os recursos designativos, figurativos e visualizantes da imagem, para, por
um lado, satisfazer às condições de credibilidade da finalidade de informação (com formatos de investigações, de testemunho, de reconstituição detalhada trazendo a prova
da existência dos fatos e da validade da explicação), por outro, satisfazer às condições de sedução da finalidade de captação (dramatizações destinadas a tocar a afetividade
do espectador).

Na matéria aqui abordada, Marcela é descrita como uma mulher de sorte, que se casou com um homem 43 anos mais velho que ela e, hoje é o atual
presidente do Brasil. Seu primeiro namorado, na época com 62 anos, Michel Temer era deputado federal quando se conheceram. O texto faz elogios a
Marcela, por ser discreta, falar pouco, reconhecer seu lugar na sociedade e usar saias na altura do joelho.
A todo tempo a matéria afirma que Marcela é uma mulher de sorte e que Michel também é um homem de sorte, podemos notar aí o modelo
estabelecido tanto para o homem como para a mulher, ou seja, ela tem sorte por ser a mulher escolhida por esse homem maravilhoso e muito bem-
sucedido. Ele por encontrar uma mulher recatada, que não se impõe, que é uma donzela de tão pura e bela.
Podemos analisar que a postura da revista diante de todas as manifestações ao feminismo, ao mostrar que Marcela Temer sim é a mulher que todas
deveriam ser. Apresenta como uma mulher poderosa e cheia de sorte por ser amada e receber das mais variadas formas as provas de amor de seu marido 43
anos mais velho.
Figura 1 e 2 – Reportagem – Revista Veja, nº 2474, publicada em 18 de abril de 2016, Site e Impresso
Provavelmente o maior erro neste periódico foi mostrar sua posição dessa maneira em uma época de lutas para as mulheres, pois lutamos por igualdade,
certo? Lutamos contra os padrões, certo?
Esposa do atual presidente, descrita como a primeira-dama perfeita, a revista trouxe um pensamento muito antigo sobre a imagem da mulher no poder
político. Colocada no patamar de “Bela, recatada e do lar’’, voltamos à ideia de sociedade patriarcal, que afinal, ela é uma bela mulher, recatada e do lar,
essa mesma idealizada no século XIX, destaca o pensamento machista e de submissão, o mesmo daquela época antiga. Destaca também que ela é formada
em direito, mas que trabalhou bem pouco e que seu maior sonho no momento é mais filhos, sonho de toda mulher padronizada.
Toda a matéria focou na submissão da mulher ao homem, a mulher dócil e, claro, sem ambições profissionais, um elogio para a mulher que segue
padrões perfeitos e que vive na busca incansável por um marido. A mídia nos trouxe com essa matéria seu olhar sobre o tipo de mulher que a sociedade
espera dentro do poder político, digo sociedade porque a mídia é quem contribui para a construção da opinião pública.
A publicação da revista trouxe sua manifestação de qual seria o padrão correto a ser seguido, um padrão mais formal, onde não há lutas e é mais
discreta. Vemos o estereótipo a ser seguido, um tipo certo de mulher que serve para ser representada na política, vemos esse lugar como o de Marcela,
primeira-dama e jamais governante, esse é o tipo de leitura que dá para entender e feita sobre sua posição referente à mulher dentro da sociedade.

Conclusões
A prática dominante da mídia tem como principal objetivo contribuir para a dominação masculina, assim fortalecendo a discriminação das mulheres no
ambiente político e também em sua sociedade atual. Vemos que os agentes sociais sofrem com as ações com relação a elas, podendo ter uma construção de
mudança individualmente ou coletivamente, em suas vidas ou práticas sociais e culturais. A mulher é representada nos meios de comunicação, ainda,
muitas vezes, como aquela mulher dos anos de 1950, onde ela era submissa em uma sociedade dominantemente masculina, hoje não mudou muito esses
padrões, por mais lutas que os movimentos feministas fazem, é difícil modificar uma cultura já estabelecida.
Vemos a grande necessidade de políticas públicas eficazes para que o uso do corpo feminino ou a imagem feminina, não seja de forma padronizada
onde temos que ser do jeito que querem ou da forma que acham correto ser.
A imagem da mulher está sendo usada de forma errada pela mídia, não está analisando as consequências que futuramente pode deixar nas mulheres.
Buscamos utilizar a abordagem de Bourdieu e Foucault em que eles dizem que o corpo é um lugar prático direto de controle social, que podemos perceber
na análise que a exposição da imagem da mulher, do jeito em que está sendo utilizada pela mídia, só prejudica e fortalece a discutida dominação masculina.
Conforme foi abordado aqui, chegou-se à conclusão que neste contexto é necessário um olhar mais crítico sobre a mídia, suas formas de produção e
seus interesses, a fim de evidenciar alguns fatores intrínsecos à mídia, que traz um olhar sobre a verdade que ela quer mostrar para a sociedade.
Neste contexto, a mídia traz concepções consolidadas ou em uma fase final de consolidação, embora que essas tais concepções possam ser fruto de sua
cultura atual, onde se rodeia os interesses econômicos e políticos. Vemos que o sentido que a revista traz, representa um pensamento e a finalidade em
normatizar um modelo de mulher.
Destaca-se, ainda, que esta leitura é particular e que faz sobre um conteúdo específico sobre a mídia, mas com embasamentos em termos e perspectivas
teóricas que nos ajudam a compreender essa mídia que tanto falamos e qual sua atual construção de ideias sobre a imagem da mulher. Desta forma,
acreditamos que a mídia brasileira conservadora, ou tradicional, tem relevância em sua construção ou em sua desconstrução em fazer representações das
mulheres e seus variados gêneros.

Referências
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(org.). O Corpo ainda é pouco: seminário sobre a contemporaneidade. Feira de Santana, Bahia: NUC/UEFS, 2000.
BISOL, Ana Lídia Weber. Representações de gênero na publicidade turística. In: FUNCK, Susana Bornéo. WIDHOLZER, Nara. (org.). Gênero em
discursos da mídia. Florianópolis: Ed. Mulheres. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2005.
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___________. A dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
___________. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1997.
BORDO, Susan. Gênero, Corpo e Conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. Tradução de Angela M. S. Correa. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2013.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e Mudança Social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
FOUCAULT, Michel. Poder-corpo. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
JAGGAR, Alison M., BORDO, Susan. Gênero, Corpo e Conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.
MENDONÇA, Thais Alves. A emergência do debate sobre gênero e imagem da mulher na mídia [manuscrito] : análise da matéria “Marcela Temer:
Bela e recatada do lar/ Thais Alves Mendonca. - 2016.
O’NEIL, Hielen. Representações de Eros: explorando a atuação sexual feminina. In: JAGGAR, Alisson. BORDO, Susan. (org.). Gênero, Corpo e
Conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.
RELAÇÕES DE GÊNERO E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: ONDE O SERVIÇO SOCIAL SE INSERE?
Renata Gomes da Costa40
Monique Soares Vieira41

Resumo: O presente trabalho discute a adoção da categoria relações de gênero nos estudos e análises da profissão de Serviço Social, problematizando sua importância na compreensão do sistema capitalista,
uma vez que parte-se do pressuposto que essa ordem societal gesta-se e fundamenta-se em opressões, explorações e dominações já existentes, com gênero e raça/etnia. Salienta-se que, o Serviço Social é uma
profissão de natureza interventiva que tem por objetivo atuar nas várias expressões da questão social, categoria que se define como o conjunto das desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais,
mediatizadas pelas disparidades de gênero, geração e étnico-raciais, entre outros elementos, sendo também expressão da luta e resistência dos/as trabalhadores/as por melhores condições de vida e trabalho.
Nesse sentido, a reflexão atenta-se, também, para a necessidade da profissão em se apropriar das discussões, e mesmo aprofundar nas suas produções teóricas, sobre as relações de gênero.
Palavras-chave: Relações de Gênero; Serviço Social; Capitalismo.

1 Introdução
Relações de gênero e violência contra a mulher: onde o Serviço Social se insere? é uma pergunta pertinente para se pensar sobre o estatuto teórico,
metodológico, ético e interventivo da profissão na contemporaneidade, bem como em seu processo histórico de formação. Primeiramente, o Serviço Social
se interliga a todas as formas de opressões ao sinalizar em seu Projeto Ético-Político, expresso no Código de Ética (1993), três dos onze princípios que
norteiam a intervenção profissional, como a eliminação de todos os preconceitos; a opção por um projeto profissional vinculado a outra ordem social sem
dominação de classe, etnia e gênero; o exercício profissional sem ser discriminado/a nem discriminar por questões de classe social, gênero, etnia, religião,
nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física.
Em 1993 o Serviço Social já incluía em seus debates éticos os preconceitos, as discriminações, as opressões. Apesar de gênero não ser uma categoria
ainda, nesse período, tão abrangente nas pesquisas acadêmicas da área – mesmo porque, esta categoria só chega no âmbito acadêmico em meados dos anos
de 1990, período em que o Serviço Social fortalecia a perspectiva intenção de ruptura e definia a natureza, princípios e diretrizes para a formação
profissional – gênero já aparecia em alguns lócus da profissão, mesmo sendo, por vezes, ainda uma menção em seus documentos. Preocupada com o
delineamento do Serviço Social e a definição de seu objeto de intervenção, a profissão, nesse momento, não elenca algumas discussões como prioritárias,
se centrando em negar o ranço conservador e tradicional que influenciou sua formação e consolidação.
Em tempos de capitalismo neoliberal, financeirizado e imperialista os/as assistentes sociais são chamados/as a intervir, a materializar seus princípios e
diretrizes profissionais diante de uma conjuntura desafiadora. É nesse espaço recheado de contradições e limites, que os/as profissionais são acionados a
desenvolver suas dimensões teórico-metodológica, técnico-operativa e ético-política.
Diante de um contexto tão adverso imposto pela lógica do capital, requer pensar e repensar a realidade brasileira, na qual o/a profissional realiza sua
atuação, fazendo a mediação com as condições e relações de trabalho, para então pensar em seu exercício profissional cotidiano e as possibilidades de
atuação. É preciso desnaturalizar os processos sociais e traçar estratégias que busquem uma ação qualificada, tendo como norte não apenas a emancipação
política, mas também a emancipação humana, como bem salienta o Projeto Ético-Político do Serviço Social.
Os/as assistentes sociais foram profissionais que atuaram historicamente na execução das políticas sociais, tanto que Netto (1996), os/as qualifica como
executores/as terminais de políticas sociais, perfil que ao longo dos anos vem se modificando, tendo em vista que esses profissionais foram chamados a
ocupar atividades referentes à formulação, planejamento e monitoramento dessas políticas. Contudo, em relação às políticas que envolvem segmentos
específicos é particularmente recente o exercício profissional nessa seara.
No caso da violência contra a mulher, é sabido que nem sempre se atuou nesse âmbito, mesmo porque só recentemente é que esse fenômeno vem sendo
tratado como uma questão pública que requer intervenção do Estado. Essa questão se coloca dentro de um bojo maior, onde o contato com a maturação de
novas expressões da questão social e as metamorfoses das antigas se exacerbam, carecendo do desenvolvimento de outras competências, atribuições e
habilidades profissionais.
Nesse sentido, refletir sobre a igualdade de gênero na atual conjuntura brasileira nos remete a vários fatores que desencadeiam e reafirmam as
desigualdades entre homens e mulheres. As condições do mercado de trabalho, escolarização, representação política, sexualidade são questões que
atravessam essa bandeira de luta em prol da equidade de gênero e pelo fim das inúmeras discriminações fundamentadas nas diferenças entre os sujeitos
sociais.

2 Relações de gênero e violência contra a mulher: onde o Serviço Social se insere?


De certo modo, o Serviço Social negligenciou os estudos de gênero, não no sentido de desdém, mas de enfoque, naquele momento que gênero entra no
âmbito acadêmico o Serviço Social estava em um movimento interior com outra centralidade. Aqui pode se perguntar, mas por que essa centralidade não
articulou gênero em suas discussões? Se até para as ciências humanas e sociais, bem mais evoluída teoricamente neste período histórico, foi complicado
adotar a categoria, por advir dos estudos feministas, rechaçados em muitas áreas do conhecimento, imagine para uma profissão que estava em processo de
reformulação.
Se a sociedade era machista, a ciência androcêntrica, as mulheres excluídas dos espaços por serem mulheres, como cobrar que o Serviço Social, nesse
momento, com os estudos de gênero ainda se desenvolvendo, fosse a profissão a encampar essa discussão de maneira pioneira? De tal forma, que concordo
com as apreensões de Mirales (2010, p.06), ao afirmar que a incorporação das discussões de gênero no Serviço Social foi parecida com outras áreas, como
um processo marcado por estratégias feministas de luta por espaços dentro das instituições e movimentos, “construindo possibilidades dos debates cederem
às discussões sobre gênero, articulando-se a outras reflexões, também necessárias, como raça e etnia, orientação sexual e classe social”.
A luta foi árdua para fortalecer os estudos sobre gênero. Eram explícitos os preconceitos e discriminações em relação às feministas estudantes e
professoras que adotavam a referida categoria. Contudo, esses estudos revolucionaram a ciência humana e social e desbancaram um conhecimento feito por
homens e para homens, uma vez que os estudos de gênero propõem [...] lançar um novo olhar sobre a realidade a partir das mulheres e com as mulheres
revolucionando a ordem dos poderes. Centra-se no reconhecimento da diversidade de gênero que implica na reconstrução de uma humanidade diversa e
democrática (LISBOA, 2010, p. 70).
Nesse sentido, as discussões sobre gênero de maneira geral foram ganhando espaço e se fortalecendo, atualmente pode se acessar a um leque de
análises e estudos sobre as relações de gênero consolidados e desenvolvidos que possibilitam áreas do saber e profissões se apropriarem. Seria um equívoco
se na contemporaneidade o Serviço Social continuasse paralelo a essas discussões, uma vez que as desigualdades de gênero foram explicitadas,
desmascaradas e desnaturalizadas socialmente.
Fenômenos sociais advindos dessas desigualdades como a violência contra a mulher foram postos publicamente, requerendo do Estado políticas
públicas que os enfrentasse, fazendo com que o mesmo legitimasse programas, projetos e serviços voltados a essas questões. Profissionais, como
assistentes sociais, passaram a intervir nessas situações, sendo este mais um elemento que demonstra a coerência da profissão em se aproximar dos estudos
de gênero.
Mais do que esses elementos assinalados, o desenvolvimento teórico no interior da profissão possibilita autoras como Cisne (2012) perceber os
fundamentos das opressões, que, assim como Saffioti (2004), observa a articulação intrínseca entre capitalismo, gênero, raça/etnia. Há três fatores que
determinaram a adoção da categoria gênero pelo Serviço Social, ou seja: a articulação que o Projeto Ético-Político faz com a eliminação das opressões,
preconceitos e discriminações; a violência contra a mulher como fenômeno social que necessitou da intervenção do Estado mediante políticas públicas, as
quais passaram a requerer a atuação de assistentes sociais; e por fim as análises que relacionam capitalismo, gênero, raça e etnia, afirmando que o
enfretamento a este sistema, requer a luta contra as opressões, como as de gênero.
Outro elemento encontrado nas análises sobre a apropriação dos estudos de gênero pelo Serviço Social, como de Mirales (2010), Cisne (2012) e Faury
(2003), justificam tal necessidade por ser uma profissão, assim como outras, formada em sua maioria por mulheres, tendo um significado social para tal
escolha, uma vez que a divisão sexual do trabalho determina o que são profissões masculinas e femininas.
Faruy (2003) apresenta dois elementos justificadores do Serviço Social se apropriar de tais estudos. O primeiro diz respeito ser o trabalho profissional
exercido basicamente no meio de mulheres e para as mulheres, e o segundo, que reafirma o primeiro, se refere à constatação que a maioria dos usuários
atendidos são mulheres. Dessa maneira, gênero é uma categoria transversal, constitutiva da natureza profissional, por ser esta categoria majoritariamente
feminina, o que faz da história da profissão, a história das mulheres, assim, “busca-se gerar elementos para argumentar que o conteúdo relacionado ao
debate de gênero é parte constitutiva dos núcleos de fundamentação das Diretrizes Curriculares (FAURY, 2003, p. 01)”.
Essa constatação sobre a feminização da profissão é válida e um dos elementos justificadores para tais análises. Contudo, para além dessa indicação,
estou por realizar uma reflexão que explicite as desigualdades de gênero como uma problemática social que tem materialidade nas relações
socioeconômicas e que as opressões partem de um mesmo fundamento. Aqui retomo a premissa que articula capitalismo, gênero e raça/etnia, centrando nos
dois primeiros elementos, a fim de apresentar subsídios que contribuam com o debate do serviço social e as relações de gênero.
Considero que classe social, gênero, etnia/raça são eixos estruturantes que fundamentam um modo de ser e viver socialmente. A inter-relação dessas
opressões possibilita demonstrar “as formas variadas de dominação-exploração, que caracterizam as sociedades capitalistas em seus processos vertiginosos
de ampliação e imposição ideológica, incapaz de suprimir as disputas de projetos societários” (MIRALES, 2010, p.08-09).
Assim sendo, as lutas contra as opressões de raça/etnia, gênero, geração, orientação sexual, meio ambiente, nacionalidade são recortes das
desigualdades sociais e não são novas questões sociais, pois não agem acima nem independentes das contradições entre as classes, contradições estas
geradas pela relação capital X trabalho na sociedade capitalista (CISNE, 2012).
Por que os antagonismos de classe são centrais para compreender as opressões? Como explicar que a questão social não se limita apenas pela pobreza,
mas como afirma Iamamoto (2011) é mediatizada pelas disparidades de raça/etnia, gênero, geração, etc.? Será que estamos pondo em primazia o
econômico, tendo uma análise economicistas das outras relações sociais?
Compreender que a base material da sociedade capitalista é importante para se analisar os fenômenos sociais, nada tem a ver com a generalização das
opressões, como a de gênero, considerando que todas as mulheres sofrem as desigualdades da mesma maneira, logicamente que sofrem preconceitos e
discriminações, mas com particularidades e especificidades. Todavia, as condições materiais determinam a maneira que sofrem os preconceitos, pois como
afirma Lobo (1991), o gênero nos une, mas a classe nos divide.
Essa maneira de compreender os fenômenos sociais, principalmente, as desigualdades, se liga a uma forma de conceber o real que parte da ontologia do
ser social para o entendimento da realidade como um todo. Isso não significa que as outras maneiras de análises das disparidades de gênero, os outros
enfoques, estejam errados e tenham que ser descartados. A discussão não é moral, entre autores bons ou ruins, é científica, parte de uma disputa teórica e
ideológica que a ciência vem permitindo.
Netto (2011) em uma discussão que faz sobre a questão social nos atenta para os aspectos históricos de nossas desigualdades, que claramente ganham
novos contornos na época do capitalismo monopolista. Ao afirmar que o pauperismo de outros momentos se apresenta nesse novo contexto do capital como
um fenômeno sem precedentes na história anterior, nos faz lembrar que os acontecimentos obedecem a uma processualidade histórica, não surgem do nada
e nem se modificam sem mediações. A desigualdade entre as várias camadas sociais não é inédita, advém de tempos longínquos, a “polarização entre ricos
e pobres, se era antiquíssima a diferente apropriação e fruição dos bens sociais, era radicalmente nova a dinâmica da pobreza que então se generalizava”
(NETTO, 2011, p. 153).
Essa pobreza trazia não só aspectos matérias, mas englobava outros aspectos e desigualdades próprias da lógica do sistema capitalista. Netto (2011, p.
161) continua seu raciocínio afirmando que o entendimento da lei geral da acumulação capitalista deve considerar nas análises a complexa totalidade que
envolve nossa sociedade, tanto que posta um desafio teórico que envolve “[...] a pesquisa das diferencialidades histórico-culturais (que entrelaçam
elementos de relações de classe, geracionais, de gênero e etnia constituídos em formações sociais específicas) que se cruzam e tencionam a efetividade
social”.
Como afirma Santos (2013, p. 78), “a continuidade do sistema capitalista necessita da sua reprodução ideológica, o que faz pelos mecanismos eficientes
de moralização, tendo em vista manutenção desse poder vigente”. E ainda sobre as mudanças sociais condicionadas a uma transformação na base material,
Marx e Engels são categóricos ao afirmarem:
[...] será necessária uma inteligência excepcional para compreender que, ao mudarem as condições de vida dos homens, as suas relações sociais, a sua existência social,
mudam também as suas representações, as suas concepções, os seus conceitos – numa palavra, a sua consciência? [...] O que prova a história das ideias, senão que a
produção espiritual se transforma com a transformação da produção material? As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante (MARX;
ENGELS, 1998, p. 28).

Isso não significa dizer que haja uma mudança mecânica entre economia, cultura, política e social. Como salientei, a história é um processo. Dizer que
ao mudar as bases materiais se muda a sociedade como um todo, não se refere a uma leitura mecanicista e economicista, mas ao entendimento da
localização e importância que a base material tem para a vida social. Isso remete lembrar mais uma vez Huberman ao afirmar que quando se analisa os
processos históricos, fica nítido que as mudanças sociais decorrem de um longo tramitar com recuos e avanços, tanto que, ao refletir sobre as mudanças do
feudalismo para o capitalismo se observará que ocorreu por um vasto período “com várias nuances e mediações, não é algo mecânico e automático, uma
vez que [...] ideias e hábitos costumam permanecer muito tempo após o desaparecimento das condições que o originam (HUBERMAN, 1986, p. 62)”.
O historiador deixa claro que “[...] crenças, leis, formas de vida em conjunto, relações pessoais- tudo se modificou quando a sociedade ingressou em
nova fase de desenvolvimento” (HUBERMAN, 1986, p. 41). Essas constatações históricas justificam os argumentos sobre a importância da base material.
Aqui pode se perguntar: mas antes do capitalismo tínhamos violência contra a mulher, desigualdades de gênero e racismo, como afirmar que estas
desigualdades advêm com o capitalismo?
Aqui caberia uma discussão sobre questão social e alienação. Mas, por quê? Qual a relação dessa discussão neste debate? Mesmo que sucintamente, irei
abordar essas questões para que se entenda de onde estamos partindo para a compreensão das desigualdades de gênero. Primeiramente, vale ressaltar
algumas considerações sobre a categoria alienação42. Aqui esta categoria é compreendida como um fenômeno exclusivamente histórico-social, jamais
natural ou individual, mas que apresenta similaridade como o desenvolvimento existente, assumindo formas sempre diferentes por resultar e se expressar
em relações sociais concretas, por ser uma categoria do ser social “a alienação age sobre os indivíduos, é um fenômeno intimamente ligado ao indivíduo,
ainda que não proceda a ideia de que ele (Lukács) reduza a alienação ao plano individual e subjetivo” (SILVA, 2012, p. 82-83).
Compreendo que o sistema capitalista se fundamenta nas desigualdades de classe, estas advindas em outros modos de produção, mas ganha contornos
diferentes no modelo capitalista. A divisão feudal entre servos e nobres, depois a época colonial entre escravos e senhores, modifica-se com o capitalismo.
A exploração do trabalho escravo passa para o trabalho assalariado e isso tem repercussão de como a sociedade vai se organizar. A alienação não é uma
derivação direta e única da propriedade privada, pois é anterior a esta. É inegável como a alienação ganha um conteúdo diversificado com a propriedade
privada, “pode-se inferir, portanto, que em todo desenvolvimento histórico, a partir da propriedade privada, desde aquela divisão do trabalho da escravidão
clássica até nossos dias, a alienação é um produto social sempre presente” (SILVA, 2012, p. 87-88).
Por estas considerações, verifico que o fenômeno da alienação precedeu o sistema capitalista, ou seja, esteve presente em outras sociedades, assim
como as opressões. Contudo, sob a ótica do capital ganha novos elementos e caracterizações. Marx (2010) em suas análises deu conta de discutir a
alienação econômica, pois suas elucubrações o permitiram se aprofundar nesse tipo de alienação. Já o filósofo marxista Lukács aprofundou os outros tipos
de alienação, que Leando Konder também estudou, especificamente em sua obra Marxismo e Alienação: contribuição para um estudo do conceito marxista
de alienação. Mesmo que aqui nosso objetivo não seja dissertar e analisar sobre tal categoria, quero sinalizar que o estudo da mesma nos possibilita o
entendimento das opressões e desigualdades.
Konder (2009) evidencia que a alienação econômica é a base, a raiz, do fenômeno global da alienação, o que não significa reduzir os fenômenos a este
tipo de alienação. Essa afirmativa parte da consideração que antes dos indivíduos fazerem política, ciência, cultura e religião, necessitam vestir-se,
alimentar-se, beber, assim antes do trabalho intelectual, necessitou realizar o manual. Como se vê, a base material tem seu primado, as relações econômicas
nessa análise se destacam, são enfáticas para se compreender o real e os fenômenos sociais, a sociedade em sua totalidade. Mas por que isso ocorre? A
reflexão de Konder (2009, p. 48-49) é elucidativa, ao afirmar que o que tem feito a vida social girar em torno da economia, ser esta a espinha dorsal da
sociedade, é a pobreza que ainda encontramos, ou seja, “o relativo atraso, ainda não superado pela humanidade como um todo. A defasagem que ainda
subsiste entre as riquezas controladas pelos homens para um desfrute seguro, verdadeiramente humano e geral”.
Essa reflexão nos faz perceber que em um sistema que se fundamenta na desigualdade entre capitalistas e trabalhadores, jamais conseguirá gestar a
igualdade plena, como a de gênero, uma vez que seu fundamento mátrio perpassa por tais. Assim, a sociedade capitalista é a ordem societal, na qual a
alienação assume “as características da reificação descrita por Lukács em Histoire et conscience de classe, com o esmagamento das qualidades humanas e
individuais do trabalhador por um mecanismo inumano, que transforma tudo em mercadoria [...]” (KONDER, 2009, p. 130).
Vivemos em sua sociedade estranhada, em que os sujeitos não se reconhecem, no caso da alienação econômica, no processo de trabalho, perante o
produto que criou e perante outros indivíduos (MARX, 2010). Temos que: “[...] sob o capitalismo, a humanidade desenvolvera extraordinariamente o seu
domínio da realidade natural, mas sacrifica ainda mais profundamente do que em épocas precedentes o seu domínio da realidade social” (KONDER, 2009,
p. 129).

3 Considerações finais
Esse emaranhado de elementos possibilita encontrar outros fatores para compreender a questão de gênero na contemporaneidade, sua relação com a
sociedade do capital e os motivos que o Serviço Social encontra para se apropriar desses estudos. Ao trazer para o debate questões que desnudam as
relações de gênero a partir do entendimento da realidade por meio da ontologia do ser social, estou por interligar os complexos sociais que partem, sim, de
um dado material.
De tal modo, que além dos três elementos citados para a apropriação do Serviço Social das questões de gênero – ou seja, a articulação com o Projeto
Ético-Político, a intervenção do estado mediante as políticas públicas para as mulheres e a feminização da profissão – temos a articulação profícua entre
capitalismo e as opressões, elencadas aqui a partir do entendimento do fenômeno da alienação e da produção das desigualdades, nas quais o sistema
capitalista se ancorou buscando sua reprodução, valorização e fortalecimento.
Os desafios são muitos. A direção teórica, política e ética que o Serviço Social vem defendendo nos últimos anos, por vezes, o coloca “no olho do
furacão”, na contracorrente da hegemonia construída pelo neoliberalismo. Por isso, necessitamos continuar resistindo, fortalecendo nossos parâmetros,
refletindo e problematizando sobre nosso fazer e formação profissional, tendo como norte a construção de outra sociabilidade sem dominação, exploração,
opressão e apropriação de qualquer natureza.

Referências
CISNE, Mirla. Gênero, divisão sexual do trabalho e serviço social. São Paulo: Outras Expressões, 2012, 144p.
FAURY, Mirian Estudando as questões de gênero em serviço social. Pro-Posições- vol. 14,N.1 (40)- jan./abr.2003.
HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 21ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. Parte II, capítulo 18, p. 212 – 232.
IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2011.
KONDER, Leandro. Marxismo e alienação: contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
LISBOA, Tereza Kleba. Gênero, feminismo e Serviço Social – encontros e desencontros ao longo da história da profissão. Rev. Katál. Florianópolis v. 13
n. 1 p. 66-75 jan./jun. 2010.
LOBO, Elisabeth Souza. A classe trabalhadora tem dois sexos: trabalho, dominação e resistências. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura e
Brasiliense, 1991.
MARX, Karl. Manuscritos econômicos –filosóficos. Tradução, apresentação e notas Jesus Raniere. São Paulo: Boitempo, 2010.
______. ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Cortez Editora, 1998.
MIRALES, Rosana. Algumas reflexões sobre gênero e serviço social. Fazendo Gênero 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. Florianópolis, 2010.
Disponível em: < http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/ > Acesso em: 04 de jul. 2012.
NETTO, José Paulo. Ditadura e serviço social: uma análise do serviço social no Brasil pós-64. 16ª ed. São Paulo: Cortez, 2011.
________. Transformações Societárias e Serviço Social: Notas para uma análise prospectiva da profissão no Brasil. In: Serviço Social e Sociedade nº.
50, São Paulo, Cortez, 1996.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, Patriarcado, Violência. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.
SANTOS, Cláudia Mônica dos. Na prática a teoria é outra?: mitos e dilemas na relação entre teoria, prática e instrumentos e técnicas no serviço social.
3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2013.
SILVA, Uelber B. Racismo e alienação: uma aproximação à base ontológica da temática racial. São Paulo: Instituto Lukács, 2012.
A CRISE E A FIGURA DE DILMA: A REPRESENTAÇÃO NA REVISTA EXAME
Mara Regina Rodrigues Ribeiro
Valnir Peralta Fernande

Resumo: esta pesquisa analisou as capas da Revista Exame nos anos de 2011 a 2016, em que foram publicadas a imagem da ex-presidente Dilma Rousseff, evidenciando a intersecção entre o campo do
jornalismo e da política. Considerou-se o trabalho necessário devido a atual conjuntura política do país, caracterizada, especialmente, por denúncias de corrupção. A metodologia da análise foi construída a
partir de Thompson (2009) e se pondera que a Revista realizou um esforço para potencializar a crise, atribuí-la à ação de determinados sujeitos, bem como construiu um discurso cuja premissa estava calcada
na ideia de que a única solução para a crise seria uma política de governo orientado pela iniciativa privada e empresarial.
Palavras-chave: Política; Revista Exame; Governo Dilma.

1 Introdução
Este trabalho se desenvolve a partir da intersecção entre o campo do jornalismo e da política, tendo como objeto as capas da Revista Exame, em que se
investigou a representação de Dilma Rousseff nas mesmas, no período de 2011 a 2016. Neste estudo se trabalha com duas questões: jornalismo de revista e
a construção de um discurso especializado cujo caráter se legitima no tratamento aprofundado dos temas. Na interposição dessas duas questões, analisa-se
imagem e discurso veiculado pela revista referente a 36ª presidente do Brasil, primeira mulher, cujo mandato foi de 1º de janeiro de 2011 a 31 de agosto de
2016, sendo que estava afastada desde 12 de maio após a votação pelo impeachment na câmara dos deputados federais em Brasília.
A atual conjuntura política brasileira caracterizada por denúncias de corrupção envolvendo autoridades políticas do país foi fator que justificou a
necessidade de se pensar como esses fenômenos são produzidos e propagados na sociedade e quais sentidos são produzidos por eles. Em especial, pensar o
papel do jornalismo dentro deste contexto. No campo da política, ressalta-se desde o impeachment da presidente Dilma, em 2015, passando pelas denúncias
contra o presidente Michel Temer pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal, além dos demais denunciados pela
Operação Lava, da Polícia Federal, que compõem um cenário denominado crise política pelos meios de comunicação.
A metodologia utilizada foi a pesquisa qualitativa, do tipo bibliográfico. As discussões foram construídas a partir de Santaella (2010), que indica que há
uma dinamicidade entre os elementos da pesquisa, atravessada por uma subjetividade do indivíduo e a relação que estabelece com o objeto, ou seja, neste
tipo de estudo, o objeto não é inerte nem neutro e o sujeito faz parte do processo. Já sobre construção de sentido, o horizonte metodológico foi
fundamentado por Thompson (2009), que propicia o estudo através de formas simbólicas, que correspondem a fenômenos culturais e políticos que são
carregados de sentidos e significações.
Nas questões de Jornalismos, a pesquisa se orienta por Traquina (2005), Pena (2010) e Sousa (2006) que abordam os aspectos dos fundamentos do
jornalismo: função e âmbito centrado no interesse público. Thompson (2009), Bobbio (2002) e Gomes (2004) norteiam as abordagens sobre política,
permitindo que se explicite a compreensão entre esfera pública e privada, interesse público e construção da imagem, elementos que ligam os dois campos
de interesse do presente estudo.
O trabalho foi estruturado de maneira que se divisem elementos da intersecção da política e do jornalismo e das encruzilhadas que se constroem a partir
desse encontro. Assim se tem no item 2 a questão teórica das duas áreas, e, no 3 e 4 itens as encruzilhadas que se expõem através de aspectos sócio-
históricos que envolve a revista, e, a descrição e análise detalhada das capas da mesma.

2 Intersecção: jornalismo e política


Tratar sobre Comunicação nos dias atuais não é uma tarefa fácil, mesmo que ela esteja presente em todo lugar. De maneira bastante simples é o ato de
compartilhar informações com o outro. É através dela que se relaciona com outras pessoas, se expressa sentimentos, anseios, medos, princípios, vontades e
valores. Mas também é uma área de conhecimento acadêmico que estuda os processos comunicacionais humanos. É uma palavra que deriva do latim
“communicare” e que significa partilhar, tornar comum. Mas e Jornalismo? Será que há como defini-lo? Segundo Nelson Traquina (2005, p. 19), “é um
absurdo pensar que possamos responder a esta pergunta, numa frase ou até mesmo num livro”. Uma das definições do autor é que jornalismo, de forma
poética, é a vida tal como é contada nas notícias de nascimentos e de mortes, entre outros acontecimentos que fazem parte do dia a dia. Já para Pena (2010,
p. 23) a sua natureza está no medo. “O medo do desconhecido, que leva o homem a querer exatamente o contrário, ou seja, conhecer”.
Em sua essência é o ato de buscar e apurar informações e através de técnicas próprias, divulgá-las à sociedade. Cabe ao jornalista observar a parte da
realidade que é possível tornando-a pública. Isto justifica a expressão “publicar” um acontecimento que está restrito somente àquele momento e a quem
participou dele. O Jornalismo deve exercer uma função social. Por mais que muitos o façam como um produto comercial, cabe a ele informar de forma
objetiva e isonômica, considerando que todos são iguais e merecem receber as mesmas informações sem que se privilegie este ou aquele segmento. É papel
do jornalismo aproximar-se da realidade, resistindo a toda influência, seja ela econômica, política ou de qualquer outra natureza. O grande desafio de todo
jornalista é resistir à pressão que a lógica de mercado exerce sobre a empresa jornalística e esta, por sua vez, exerce sobre ele.
Tanto o Jornalismo quanto a Política exercem função social que se desenvolve no âmbito do espaço público. Para Thompson (2009), o público e o
privado são definidos da seguinte forma: o público tem relação com o surgimento do Estado constitucional moderno, cujo poder e monopólio do exercício
legítimo da violência estão circunscritos em um determinado território. O privado refere-se aos campos da atividade econômica privada e das relações
pessoais, que se colocam fora do controle do Estado. Também o público está aberto, é visível, observável e acessível a todos. Já o privado, é entendido
como escondido, é dito ou feito na privacidade. O âmbito do público tem relação com o poder político, ou seja, o exercício desse poder na administração
pública. Portanto, tem relação com as discussões sobre política. De acordo com Bobbio (2002, p. 954), “o significado clássico e moderno de política é
derivado de pólis (politikós), que significa tudo o que se refere à cidade e, consequentemente, o que é urbano, civil, público, e até mesmo sociável e
social...”. Segundo Barreto (2006), o fato de a política ser um acontecimento de interesse do público, ela se torna interessante para o jornal por ser este uma
empresa produtora de notícias. Dessa forma, ela se institucionalizou quando o jornal trouxe para suas páginas a praça social na qual aconteceu o fato. Seja
o fato que aconteceu dentro de um gabinete a portas fechadas ou os discursos inflamados dos comícios de ruas. Enquanto a política, no sentido de
administração pública e de agente (representação) público, preocupa-se em construir uma imagem positiva do sujeito, o jornalismo tem, entre outros
objetivos, que publicar o que se quer esconder. Mostrar a imagem positiva do sujeito é tarefa de assessoria. Não há como abordar jornalismo e política sem
se falar da vida pública e privada dos sujeitos políticos, visto que o desenvolvimento tecnológico e a midiatização da sociedade mudaram a natureza da
visibilidade, dando à mídia a hegemonia para administrá-la.
Quando se trata sobre público e privado dos sujeitos políticos inevitavelmente tem-se uma abordagem relacionada à construção da imagem pública
deste sujeito. Sobre esta questão, Gomes (2004, p. 358) explica que: “Grande parte das energias dos agentes da política contemporânea se destina a fazer
com que uma grandeza demograficamente relevante de pessoas pense e sinta determinadas coisas a respeito de determinados sujeitos”.
O autor também afirma que a disputa política acontece na arena em que ocorrem as lutas pela imposição da opinião e pela conquista dos imaginários
sociais. Nesta batalha, para garantir que uma opinião seja aceita pela maioria, um dos mecanismos usados é a neutralização da opinião contrária e a
imposição de opiniões negativas sobre opositores, estando isto relacionado à habilidade de fazer ver, fazer pensar e fazer sentir. O ambiente mais propício
para que esta disputa aconteça é a arena fornecida pelos meios de comunicação de massa. É através de seus meios e suas linguagens, que acontece a disputa
pela imposição da opinião pública.
A imagem dos agentes públicos é o ponto de convergência entre o campo da política e jornalismo. Visto porque estes dois campos são interdependentes
e se encontram na administração da visibilidade e na compreensão entre público e privado. Segundo Thompson (2009), os meios de comunicação
modificam a natureza da “publicidade”, tornando-a desespacializada e adequada ao consumo no espaço privado, pois não se trata mais de um diálogo
aberto, em um local partilhado por todos os participantes. Essa visibilidade envolve a construção de figuras públicas (entre elas, os políticos, que têm pouca
opção fora do espaço propiciado pelos meios de comunicação). A visibilidade é gerenciada pela mídia.
O estabelecimento de uma multiplicidade de canais de divulgação da informação, associado à possibilidade de manifestação de valores vinculados a
diferentes grupos, seria um instrumento importante para a manifestação de diferentes concepções de mundo associadas a determinadas escolhas nas
políticas estatais.
Além disso, a maior circulação de ideias que colocassem em xeque certas decisões tomadas pelos dirigentes do aparelho estatal dificultaria a
administração da visibilidade das elites no poder, reduzindo, pelo menos, a dominação simbólica. Na administração da visibilidade e na concepção de
público e privado que é explorado o escândalo político midiático. Thompson (2009) afirma que o escândalo está radicado em uma série de
desenvolvimento na Sociedade Moderna, sendo o notável desses o caráter de mudança dos meios de comunicação que transformaram a natureza da
visibilidade e alteraram as relações entre a vida pública e a privada. Isso diz algo sobre natureza do poder e sua fragilidade, sobre a maneira como o poder é
exercido na atualidade e sobre o tipo de recurso sob os quais ele está fundamentado, ou seja, consenso e maioria. Nessa lógica, escolhe-se um determinado
candidato pela imagem construída ao redor dele. O problema é que há um ocultamento das intenções no fazer jornalístico e confunde-se o interesse público
com interesse privado tornado público. Chaparro (2000) afirma que os princípios éticos devem determinar as ações jornalísticas, tendo como motivo o
interesse público, porque para ele o jornalismo é processo social da ação consciente – controladas ou controláveis –, portanto, fazeres combinados com
intenções que são inspiradas – ou ao menos deveriam ser – nas razões éticas que dão sentido social a esse processo.
O ideal seria que o referencial fosse sempre o das razões éticas. Mas, nas contradições que afetam o jornalismo real, o dever de atribuir valor aos fatos leva, por vezes,
redações e jornalistas a escolhas político-ideológicas, quando não partidários, com alinhamentos que influenciam as práticas jornalísticas. Às vezes, alinhamentos tão
organizados que acabam ganhando formas de sub-sistemas de poder, para o controle de pautas e abordagens. (CHAPARRO, 2005, P. 01)

Há assim uma tênue linha que divide a atuação do jornalismo no campo da comunicação e da política. O equilíbrio e a clareza do horizonte ético devem
nortear as decisões nesse trajeto cheio de encruzilhadas.

3 Encruzilhadas dos sentidos


Este trabalho delimitou-se às capas da Revista Exame por serem o cartão de visitas da publicação. Conforme Scalzo (2004, p. 20), “a capa deve ser uma
espécie de ‘marca registrada’ da publicação”. É através dela que uma revista é conhecida e identificada pelo seu leitor. Deve espelhar a linha editorial e os
valores que a revista acredita e defende. Desta forma, entende-se que as capas da Revista Exame espelham os seus valores, seus princípios e suas
ideologias. Assim, ao analisá-las é possível mapear os conceitos que norteiam a produção jornalística.
A capa de uma revista carrega a proposta de aprofundamento do jornalismo através de um produto, que para além do noticiar ofereceria ao leitor um
panorama mais completo e estaria interessado em explicitar os porquês do fato noticioso. Segundo Abiahy (2017, p. 05),
O desenvolvimento do jornalismo especializado está relacionado lógica econômica que busca a segmentação do mercado como uma estratégia de atingir os grupos que se
encontram tão dissociados entre si. Muito além de ser uma ferramenta mais eficaz de lucro para os conglomerados midiáticos, o jornalismo especializado é uma resposta a
essa demanda por informações direcionadas que caracteriza a formação das audiências específicas. (Abiahy, 2017, p. 05)

A análise que se faz da Revista Exame no item a seguir pontua questões da produção jornalística especializada da editoria de política, embora a revista
tenha como âmbito principal de temática a economia.

3.1 Revista em um esboço sócio-histórico


A Revista Exame é uma publicação pertencente ao Grupo Abril, conglomerado de mídia organizado em quatro pilares centrais, mídia, distribuição,
gráfica e educação, que atualmente é o maior e mais influente grupo de comunicação e distribuição da América do Sul. A marca Exame nasceu em 1967,
com a criação da Revista Exame, especializada no ramo de negócios e economia, sendo considerada na atualidade a maior e mais influente publicação de
negócios e economia do país. No contexto histórico o Brasil estava em pleno Regime Militar implantado pelo golpe de 1964, sendo dirigido por militares.
Ainda que seus líderes dissessem que o regime seria temporário, ele durou longos 21 anos. Um clima de autoritarismo foi instalado no país. Segundo
Vicentino & Cláudio (2010):
Em dez dias (após o golpe), chefes militares locais agiram com quase total liberdade, investigando, prendendo sumariamente e por vezes torturando, em dependências
oficiais, líderes políticos de esquerda, cujas maiores vítimas pertenciam ao PTB, (partido do presidente deposto, João Goulart) além de jornalistas, estudantes, intelectuais
e quaisquer pessoas consideradas subversivas. VIVENTINO, DORIGO, (2010, p. 209)

O regime foi marcado, principalmente, pela repressão, torturas, mortes, desaparecimentos, censura aos meios de comunicação e perseguição política aos
opositores ao regime. No período vários Atos Institucionais foram promulgados, mas o principal deles foi o AI-5, que ampliou os poderes presidenciais,
entre eles, de fechar o Congresso, suspender direitos políticos e garantias institucionais. Sobre os aspectos econômicos, houve uma modernização da
economia denominada como o Milagre Brasileiro. Especialmente na época do nascimento da Revista Exame, entre 1968 a 1974, quando o país crescia a
uma taxa de 10% ao ano. O Milagre representou o desenvolvimento econômico, principalmente, através de financiamentos externos e da entrada de capital
estrangeiro, que era absorvido pelas empresas privadas nacionais e estrangeiras (multinacionais). A política econômica do governo ampliou o mercado
consumidor externo e interno. De acordo com Vicentino & Dorigo (2010):
Pela primeira vez, a produção industrial brasileira passava a encontrar um mercado consumidor significativo no exterior, não apenas em países do Terceiro Mundo, mas
também na Europa e nos Estados Unidos, (VICENTINO, DORIGO, 2010, p. 216).

Ribeiro (2016) destaca tanto os aspectos econômicos, quanto o político, ou seja, tanto o Milagre Brasileiro, como dos Anos de Chumbo:
Este período de gobierno recibió denominaciones muy distintas, cuando no opuestas entre sí: fueron llamados, al mismo tiempo, los años del “Milagro Brasilero”, debido a
la prosperidad económica que llevó a que Brasil se convirtiera en la décima economía del mundo, y también los “Años de Plomo”, debido a la represión a los opositores al
régimen que se tornó más intensa y violenta, conduciendo al encarcelamiento y muerte de muchos ciudadanos. (RIBEIRO. 2016, p. 51).

Todos esses fatores contribuíram para a solidificação da Revista Exame considerando suas características editoriais. Destaca-se o fato dela ser
fortemente identificada com a iniciativa privada, ou seja, não era do perfil da revista o viés de denúncia contra o regime. Como a economia estava em
expansão, acredita-se que suas publicações ajustavam-se ao interesse do governo em promover a economia e os investimentos do país. Ela poderia ser
muito útil para propagar as consequências do Milagre Brasileiro.
Com periodicidade quinzenal, seu principal foco é o jornalismo econômico. Fazem parte da marca Exame, o site Exame.com, a Revista Exame
(impressa e digital) e o Anuário Melhores e Maiores, sendo este último responsável por divulgar o ranking financeiro das grandes empresas no país. A
marca Exame (versão impressa e digital) possui uma circulação de aproximadamente 150 mil exemplares e 115 mil assinantes. De acordo com a revista, a
cada 15 dias quase 700 mil pessoas leem suas páginas. Tem como missão levar à comunidade de negócios informação e análises aprofundadas sobre temas
como estratégia, marketing, gestão, consumo, finanças, recursos humanos e tecnologia. De acordo com o instituo Ipsos-Marplan, é lida por 91% dos
presidentes das 500 maiores empresas instaladas no Brasil. Além da revista impressa, existe a versão digital e a plataforma digital www.exame.com.br que
é a principal fonte online sobre o assunto no país. O portal abrange as áreas de economia, mercados financeiros, tecnologia, marketing, gestão, meio
ambiente, pequenas empresas, carreira e finanças pessoais. O site é alimentado todos os dias, das 6 da manhã à meia-noite, possuindo uma equipe de 30
jornalistas cobrindo full time (tempo total) os negócios no Brasil. De acordo com o site da Revista, a marca Exame é uma comunidade constituída por
pessoas com interesse no desenvolvimento econômico do Brasil e da sociedade. É composta por líderes e empresários de diversos setores que trabalham
pensando na construção do país através da oferta de empregos e projetos. Segundo a marca, eles acreditam no poder da informação para tomar decisões e
compartilhar a vontade de fazer deste país um ambiente de negócios melhor. O principal lema da Revista é “Agir no presente e pensar no futuro”.

4 A Revista: uma análise do como?


A Revista Exame como objeto foi submetida à análise de conteúdo, conforme Bauer & Gaskell (2008), pois permite aprender uma dimensão qualitativa
dos elementos captados no horizonte empírico como, por exemplo, atitudes, crenças e tendências em um enunciado. Para melhor compreensão do material
empreendeu-se a codificação, elemento que, segundo os autores, garante ao trabalho a coerência, transparência e fidedignidade. O processo de codificação
coerente não resulta das meticulosidades de classificar tudo, mas sim da lógica e da simplicidade que fluem de um único princípio organizador. A
transparência também é derivada desse referencial, pois ela serve de guia para o codificador. Codificação está relacionada ao trabalho de clipping, mesmo
que de forma abstrata, porque essa etapa está associada ao método de análise de conteúdo que consiste em recortar o material referente às palavras-chave
da pesquisa, que estavam focadas na figura da presidente Dilma. Já o código tem relação com material de acordo com a perspectiva jornalística seja ela
gráfica – fontes, cores ilustrações; quanto textual – títulos, legendas, chamadas. Neste processo consideraram-se oito capas, no entanto, em função de
espaço, para este artigo foram explicitadas as análises de apenas cinco capas, em que a figura da presidente esteve em foco, isto porque, segundo Sousa
(2006, p. 114), no jornalismo impresso, os textos são complementados por fotografias e outras imagens, que chamam a atenção e permitem a
contemplação. Também contribuem para fixar os enquadramentos e operar a construção de significados, proporcionando maior compreensão das notícias e
definindo sentido. A seguir se reproduz as mesmas:
Figura 01: Capas do período outubro de 2011 a março de 2016

Fonte: site da revista

A prioridade foi evidenciar a produção de sentido, por isto a análise foi feita, basicamente, através dos elementos verbais (textuais) e dos elementos
visuais (imagens). Primeiro foi trabalhado cada elemento separadamente para depois, a análise completa do conjunto da capa para se compreender o
sentido produzido pela completude desses elementos. Optou-se por descrever capa a capa e a partir dessa descrição pontuaram-se os entrecruzamentos que
evidenciam a representação da figura da presidente Dilma e da compressão da crise. Neste artigo não são apresentadas as considerações a respeito da capa
3, 7 e 8 por motivos de espaço, apesar de mantê-las na figura acima.

4.1 Capa de 11 de Outubro de 2011 – Capa 1


Nesta capa percebe-se um fundo preto que remete a uma leitura negativa. Negativa porque as cores têm dois aspectos segundo Banks (2007, p. 49), um
positivo e outro negativo. No negativo se destaca a opressão, frieza, ameaça e angústia. No positivo, a sofisticação, glamour, segurança, eficiência. O título
da edição diz, NÓS E A CRISE. Não tem pontuação, porém, pode-se entender que é uma afirmação por estar relacionada ao conhecimento aprofundado
que os analistas e produtores da revista têm sobre a conjuntura econômica do país. O título está em vermelho e como é de conhecimento público, o
vermelho representa o Partido dos Trabalhadores (PT), partido da ex-presidente Dilma. Por associação, a Crise na cor vermelha é uma forma de atribuir à
ex-presidente e a seu Partido a responsabilidade pela crise. Historicamente, sabe-se que a cor do PT é o vermelho. Mas poucos sabem o significado desta
associação. De acordo com Luis Santis, ex-presidente do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores de São Borja-RS, entrevistado para este artigo,
“a cor vermelha está relacionada, principalmente, às correntes socialistas e comunistas”. Ele diz também que, quando se refere aos trabalhadores de
esquerda, “a cor significa a luta e os vários derramamentos de sangue que historicamente a esquerda enfrentou nas diversas revoluções pelo mundo”. Santis
cita Pastoreau apud Santis (2016), dizendo que a cor vermelha como simbolismo de esquerda, tem origem na Revolução Francesa e que mais tarde, após a
Revolução Russa, a URSS a adotou em sua bandeira com a estrela de cinco pontas, mais a foice e o martelo. Posteriormente, esses símbolos das ideologias
socialistas disseminaram-se internacionalmente. Por outro lado, além do fator ideológico, a cor vermelha remete à revolução, à intensidade, à violência ou a
desajustes. Como diz, Banks (2007, p. 49), sobre os aspectos das cores, no positivo, ela representa coragem física, força, calor, energia, sobrevivência
básica, estimulação, masculinidade, agitação. No negativo, representa desafio, agressão, impacto visual, tensão.
Assim como todos os elementos gráficos, as cores são usadas com um propósito para compor o layout de uma capa. Elas não estão na página por acaso.
Há uma intenção quando se escolhe determinada cor para compor o conjunto da página, especialmente se tratando de capa de revista. “A consciência de
que a cor pode incorporar significados às informações que são coloridas aumenta a responsabilidade do jornalista e/ou do designer de notícia”
GUIMARÃES (2003, p. 32). Esse autor ainda explica que o designer de notícia é o profissional que une em sua formação a habilitação de jornalista e
design, sendo não somente um artista gráfico, mas, um comunicador social. Por causa disso, exerce a responsabilidade de mediador dotado de intenções,
sejam elas evidentes ou não. Para o autor, o comunicador social representa as intenções da direção do veículo. Ainda segundo Guimarães, faz parte da
natureza da informação atender a interesses. Romano apud Guimarães (2003, p. 51) diz que “toda informação é, por sua natureza, seletiva, e, por
conseguinte, serve a algum interesse”.
Abaixo do título está o seguinte texto vazado, na cor branca contrastando com o fundo preto: “Economistas alertam: na melhor das hipóteses, a
economia mundial andará de lado por mais alguns anos. O que esperar para o Brasil?” E, mais abaixo: “Com análises de oito dos mais respeitados analistas
internacionais:” e descreve o nome de cada um deles.
Cabe ressaltar que aqui a análise não é feita pela revista nem deve ser atribuída a ela. Ao recorrer a especialistas, está indicando uma realidade. Desta
forma, a revista faz uso de uma estratégia jornalística para reforçar a legitimidade de suas informações respaldando-as por especialistas. Uma tentativa de
produzir um sentido de isenção.

4.2 Capa de 12 de Junho de 2012 – Capa 2


Esta capa destaca Dilma no centro da página. Atrás da imagem, um fundo vermelho. Ela está olhando para frente. O título diz: “A MÃO FORTE DA
ECONOMIA”. Abaixo, na linha de apoio: “O Brasil precisa de mais investimento e liberdade para as empresas. O governo quer mais consumo e
intervencionismo. Por que é preciso mudar – agora – o rumo da política econômica”. Tudo na cor branca. O logo da revista, foi colocado atrás da imagem.
Aqui se percebe uma ambiguidade. Por um lado, o título “A mão forte da economia”, está relacionado à Dilma. Neste sentido, a responsabiliza pela
gerência no governo seja pelos aspectos econômicos ou políticos. Isto não seria nada de anormal, pelo fato de um presidente ser responsável pelas decisões
econômicas do país que administra, se não fosse o que vem escrito logo abaixo na linha de apoio quando ela assevera que “O Brasil precisa de mais
investimento e liberdade para as empresas em oposição à política do governo que ‘[...] quer mais consumo e intervencionismo’”, afirma que “é preciso
mudar – agora – o rumo da política econômica”, indica de forma subjacente que o mercado liderado por empresários admite e funciona por outra lógica,
sabe-se que na ideologia liberal e neoliberal a economia se autorregula, ou seja, ter mão forte na economia é uma habilidade relacionada ao próprio sistema
econômico, ou pelo sujeito da ação, no caso, o mercado. Assim, na construção desta frase, fica claro que o título está longe de ser um elogio à forma da
presidente conduzir a economia. Uma associação que pode ser feita é que quando o enunciado diz “A mão forte da economia”, responsabiliza a ex-
presidente pela crise da economia, por engessar o mercado. E, no segundo caso, o mesmo enunciado articulado com o texto que diz que “O Brasil precisa
de mais investimentos e liberdade para as empresas” e “Que é preciso mudar rumo da política econômica”, ligado pela expressão “Agora”, que denota
urgência, é possível entender que a intenção é de persuadir o leitor de que a livre iniciativa privada, representada pela classe empresarial do país é que será,
realmente, “A mão forte da economia”, e que para isso acontecer há uma urgência, tem de ser “Agora”.

4.3 Capa de 14 de Março de 2014 – Capa 4


Nessa edição, a revista publica a foto da ex-presidente Dilma ao lado de Graça Foster, presidente da Petrobras na época. Ela foi indicada por Dilma para
o cargo. Na imagem, Dilma aparece em primeiro plano e Graça em segundo. O fundo da capa é de cor cinza puxando para o chumbo. A legenda está à
esquerda da página: “Dilma Rousseff e Graça Foster”. O título em forma de interrogação diz, “Dá para salvar a Petrobras?”. A linha de apoio, “A maior
empresa brasileira enfrenta sua maior crise. Como ela se perdeu – e o que fazer para que volte a brilhar”. O enunciador questiona tanto a gestão da
presidente Dilma quanto a de Graça Foster. Assim como na capa de outubro de 2011, a revista volta a usar a palavra “Crise”. Dilma está com os braços
cruzados e a Graça, com as mãos cruzadas. Uma sorri, a outra não. Ao associar a figura da presidente do país a da presidente da Petrobras, há uma tentativa
de relacionar a crise em um âmbito micro e macro, ou seja, em escala menor dentro do universo da empresa, em escala maior no país. Também pode se
inferir que pelo questionamento que a revista faz no título e na linha de apoio, está responsabilizando mais uma vez a presidente e sua equipe pela crise.
Que seria entendida pela colocação em destaque da imagem de Graça Foster, nesse caso, representando toda a equipe ou parte dela. Ou seja, não seria só a
presidente que é responsável pela crise, mas, além dela, sua equipe, aqui personificada pela da presidente da Petrobras. Nesse caso se tem um discurso
metonímico, em que se personifica a empresa nas figuras das duas mulheres e por associação a crise do país. Então se toma a parte – Petrobras – pelo todo
– Brasil. A conjuntura vivenciada na empresa seria uma síntese da crise brasileira. Isso porque é possível notar uma associação pela repetição da palavra
“Maior” – Maior empresa/Maior crise. O enunciador faz um jogo de palavras com elas. Nesta construção dos elementos verbais aparece uma contradição
em forma de ambiguidade. Ou seja, o enunciador usa a palavra “Maior” para a Petrobras com uma forma de elevar sua importância, a maior empresa do
país, na época. Mas o que parece remeter para o sentido de aprovação, que seria subentendido num primeiro momento, uma aprovação ao governo Dilma,
dá uma volta de 180º no passando de aprovação para desaprovação ao retomar o sentido de crítica usando pela segunda vez a palavra “Maior”, “Enfrenta a
‘Maior’ Crise”.

4.4 Capa de 14 de Outubro de 2014 – Capa 5


Em clima eleitoral e de disputa pela presidência e a polarização entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, a revista colocou na capa a imagem dos dois
candidatos. Metade da face de cada um, de acordo com suas posições ideológicas, Dilma à esquerda e Aécio à direita. Na imagem os dois olham para
frente, para o leitor/eleitor. Entre eles o título foi diagramado de forma centralizada com a indagação, MUDAR OU CONTINUAR?. Abaixo a linha de
apoio informa que o setor empresarial já se posicionou, e que o resultado das eleições é de responsabilidade do eleitor. “Com Dilma Rousseff e Aécio
Neves duelando pela Presidência, temos pela frente dois caminhos opostos – dobrar a aposta na política atual ou retomar a agenda de reformas. Empresas e
investidores já deram sua resposta. Agora é com o eleitor”. Quando a revista frisa que “[...] as empresas e investidores já deram sua reposta”, fica
subentendido de que lado a revista está e o que ela espera das eleições. Ela informa que já definiu sua posição e num sentido provocativo, passa a
responsabilidade para seus leitores.
Na construção o enunciador usa a palavra “Duelo”, esta prática é muito antiga e já não existe mais neste formato. Quando acontecia, geralmente
terminava com a morte do perdedor. Nos dias atuais, não acontecem mais na forma de combate físico ou com armas brancas ou de fogo. Atualmente os
duelos são travados em outros campos como na política, nas ideologias, nas ideias, nos egos, etc. Assim, naquela época, o duelo terminava com o
aniquilamento de um dos oponentes. Hoje, a morte e o aniquilamento são de outra forma, são simbólicos, mas extremamente destrutivos. Sobre esta
questão uma associação possível de ser feita é que o enunciador sugere, não de forma tão clara, mas implícita, que um dos candidatos deverá ser
aniquilado. Quando a revista diz que “[...] as empresas e investidores já deram sua reposta”, não restam dúvidas de quem ela quer que ganhe o duelo. Nos
elementos visuais a capa ainda sugere mais um sentido sobre o duelo. A construção imagética remete ao que é chamado de cartão principal de Ultimate
Fighting Championship – UFC, que é aquela imagem em que aparecem dois lutadores e as características de cada um como peso, altura, envergadura,
vitórias, derrotas, empates, país, entre outras. No caso de Dilma e Aécio a disputa é pelo voto de cada eleitor, ou no caso da revista, de cada leitor.
A capa dessa edição personaliza o conflito amigo/inimigo indicando que há caminhos opostos a seguir conforme a figura que vencer o combate,
conforme Julien Freund apud Bobbio (2002, p. 959) esclarece: “enquanto houver política, ela dividirá a coletividade em amigos e inimigos. Quanto mais
uma oposição se desenvolver no sentido da distinção amigo-inimigo, tanto mais ela se tornará política”.

4.5 Capa de 15 de março de 2015 – Capa 6


Nesta edição o tom e o semblante da ex-presidente mudam completamente. Através do título O RISCO DO CAOS, o que antes parecia demonstrar
confiança e segurança, agora, dá lugar a um semblante tenso e um ar de preocupação. O fundo é um azul celeste. Porém, a roupa da ex-presidente não é
mais vermelha que remetia à cor do PT. Agora, a cor cinza e o preto parecem ter sido escolhidos para alinhar-se mais à expressão “Risco” e “Caos”. O logo
da revisa está sobre a imagem da ex-presidente, mas agora de uma forma mais abrangente, mais expressivo. Os braços que antes estavam cruzados em sinal
de “controle da situação”, agora dão lugar às mãos cruzadas com os indicadores apoiando o queixo como forma de preocupação e atitude reflexiva. Quando
e enunciador diz “Anos de escolhas erradas”, estão emitindo um julgamento sobre a figura da ex-presidente e suas escolhas. Isto se dá pela combinação dos
elementos textuais e visuais. Também é possível fazer mais inferências analisando a expressão “Sairia mais barato se fosse feito por um governo forte e
convicto”, referindo-se aos ajustes que ela menciona. Aqui fica clara a visão da revista de que, para ela, o governo é fraco e sem convicções nas suas
decisões. Isto demonstra a crítica e a tomada de posição do enunciador. E, para finalizar, ela constrói o texto afirmando que “Aumentam as chances de que
o ajuste aconteça na marra – e com consequências imprevisíveis para todos nós”. Não explica o que seria “Ajuste na marra”. Seria a adoção de um pacote
econômico impopular? Uma intervenção militar? Seria o impeachment da presidente? Não há como identificar o que seria esta afirmação apenas pelos
elementos que estão apresentados. Também quando diz “Consequências imprevisíveis para todos nós”, fica a pergunta: quais consequências seriam essas?
A quem o enunciador está se referindo quando fala “Todos nós”? Seria a população brasileira? Os leitores da revista? Mas, se nesta capa houve algumas
questões sem respostas, na próxima do dia 15 de setembro, este tipo de questões sem respostas não aparecem mais, mas, permanece o tom de tomada de
posição da revista.

Considerações finais
Trabalhar a intersecção entre o campo do jornalismo e da política foi uma experiência enriquecedora e desafiadora. Ao fazer a análise das capas da
Revista Exame durante o período da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff, descobriu-se a variedade de possibilidades de produção de sentidos que é
possível fazer através da combinação de elementos verbais e elementos visuais. Também foi possível perceber como uma linha editorial e ideológica pode
ser construída através dos recursos fornecidos pela articulação cuidadosa desses elementos. Ou seja, o quanto uma imagem bem trabalhada, expressões em
forma de interrogações, afirmações ou ironias, podem construir uma narrativa para produzir um determinado fim.
Por meio dos elementos verbais e visuais analisados percebeu-se a tentativa da revista em potencializar a crise e atribuí-la à figura da ex-presidente.
Para esclarecimento, entende-se que a ex-presidente é responsável pelas decisões da gestão administrativa que o cargo lhe confere e pelos erros advindos
dessas decisões. Mas ao analisar as capas a pesquisa aponta que houve uma tentativa de frisar os erros da administração e, ao mesmo tempo, de forma às
vezes sutil, outras vezes nem tanto, sugestionar seus leitores que a solução para crise apresentada é o viés capitalista e empresarial, ideologia que a revista
defende.
A potencialização dos fatos é negativa para o interesse público, porque a revista, agindo desta forma, afasta-se de seu papel. E ao optar por um
enquadramento ideológico, como foi verificado na análise, não cumpre o dever de apenas publicar os fatos, apresentando elementos para que o leitor tire as
suas próprias conclusões. A crise esteve personificada na imagem da ex-presidente Dilma Rousseff atribuindo a ela a responsabilidade pela mesma. A
revista colocou lente nos fatos, potencializando-os através de uso de jogos de palavras, ambiguidades na construção das frases, do uso das cores e da
própria figura da ex-presidente colocando-a ora em fotos muito nítidas e diretas, ora usando silhueta ou sobreposição.
Por fim, entende-se também, como indica Chaparro (2008, p. 08) que o jornalismo se nutre e existe onde há conflito, “o exercício do dever e da aptidão
de atribuir valor aos fatos pressupõe a capacidade de escolher com lucidez referenciais que funcionem, na linguagem do jornalismo, como fonte de critérios
para a arte de narrar com veracidade e clareza”. Para tanto, as razões éticas precisam estar explicitadas não para transfigurar interesse privado em público,
mas para preservar o próprio interesse público e fortalecer o processo democrático.

Referências
ABIAHY, Ana Carolina de Araújo. O jornalismo especializado na sociedade da informação. 2007. Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/abiahy-
ana-jornalismo-especializado.pdf.>. Acesso: 11/2017.
BANKS, Adam; FRASER, Tom. O guia completo da cor: Livro essencial para a consciência das cores. São Paulo, Senac/SP, 2007.
BARRETO, Emanoel. Jornalismo e política: a construção do poder. Estudos em Jornalismo e Mídia. Revista Acadêmica Semestral – Programa de Pós-
Graduação em Jornalismo e Mídia da Universidade Federal de Santa Catarina, v. 3, 1. ed., 2006.
BAUER, Martin; GASKELL, George. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: Um manual prático. Tradução: Pedrinho A. Guareschi. 7. ed. Rio
de Janeiro: Vozes, 2008.
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUIN, Gianfranco. Dicionário de política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.
CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do jornalismo: buscas práticas para uma teoria da ação jornalística. 3. ed. São Paulo: Summus, 2008.
GOMES, Wilson. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus, 2004.
GUIMARÃES, Luciano. As cores na mídia: organização da cor-informação no jornalismo. São Paulo: Annablume, 2003.
PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2010.
RIBEIRO, Mara. Ideología y relaciones de poder em el discurso del periódico Folha de São Borja em el la década de 70 em la frontera oeste de Rio
Grande del Sur. Tese (Doctorado em Ciencias Sociales) – Faculdad de Ciencias Sociales (Flacso). Buenos Aires: Argentina, 2016.
SANTAELLA, Lúcia. Comunicação e Pesquisa: Projetos para mestrado e doutorado. 2. ed. São Paulo: Bluecom Comunicação, 2010.
SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2004.
SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. Santa Catarina: Letras Contemporâneas, 2006.
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TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo: Porque as notícias são como são. v. 2 Santa Catarina: Insular, 2005.
VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História Geral e do Brasil. v. 3. São Paulo: Scipione, 2010.
HOMOFOBIA NA ESCOLA: NARRATIVAS DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS
Rosane Emília Roehrs Gelati43
Fabiane Ferreira da Silva44

Resumo: O presente texto faz parte de uma pesquisa que teve como objetivo conhecer e problematizar as experiências escolares de pessoas que se autoidentificavam como travestis e transexuais. Partimos do
pressuposto que travestis e transexuais são alvos preferenciais da homofobia no contexto da escola. Desse modo, procuramos saber, através de narrativas da vida escolar, quais as dificuldades enfrentadas
cotidianamente por travestis e transexuais, quais as consequências na vida deles(as) e como as situações de preconceito e discriminação são conduzidas na escola. Para tanto, ancoramos metodologicamente a
pesquisa na perspectiva da investigação narrativa, utilizando como estratégia de produção dos dados narrativos a realização de entrevistas individuais semiestruturadas realizadas com quatro sujeitos. Na
análise das narrativas, conhecemos as várias faces da homofobia (re)produzidas nas práticas escolares. O enfrentamento à homofobia é fundamental à consolidação de um modelo de sociedade democrática e
de educação de qualidade e inclusiva, que valoriza e respeita a diversidade de gênero e sexual. Ao compartilhar um pouco da realidade vivida por travestis e transexuais no contexto escolar, buscamos
contribuir com o importante debate que visa à construção de uma sociedade mais justa e igualitária para todos e todas.
Palavras-chave: Narrativas; Escola; Diversidade de Gênero; Homofobia.

Introdução
O presente artigo compartilha com o(a) leitor(a) alguns achados de uma pesquisa45 realizada com sujeitos que se autoidentificavam como travestis ou
transexuais46 sobre as suas experiências escolares, especialmente as que evidenciam discriminação e preconceito vivenciados cotidianamente por esses
sujeitos no ambiente escolar.
Neste texto utilizamos o termo “homofobia” para fazer referência a um fenômeno social que engloba preconceitos, discriminação e violência contra
quaisquer sujeitos que transgridam as normas de gênero e a matriz heterossexual. Desse modo, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e
transgêneros se constituem em alvos preferenciais. Cabe destacar que, atualmente, há diversos pesquisadores(as) desenvolvendo trabalhos nesta área e
discutindo os desdobramentos do termo (lesbofobia, bifobia, travestifobia, transfobia, lesbohomotransfobia). Contudo, entendemos que o termo homofobia,
apesar de seus limites, conquistou um espaço importante no campo social e político, o que justifica seu uso.
A homofobia é produzida e reproduzida, de maneira sorrateira ou ostensiva, em todos os espaços sociais por meio de piadas, ridicularizações,
“brincadeiras”, apelidos, insinuações, expressões desqualificantes e desumanizantes. De acordo com Junqueira (2011, p. 78),
[...] tratamentos preconceituosos, medidas discriminatórias, ofensas, constrangimentos, ameaças e agressões físicas ou verbais têm sido uma constante na rotina escolar de
um sem-número de pessoas, desde muito cedo expostas às múltiplas estratégias do poder e a regimes de controle e vigilância.

Segundo Torres (2010), a escola ocupa o terceiro lugar, numa escala de seis, em discriminação orientada pela matriz heterossexista, que promove a
exclusão da população LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros – dos direitos de cidadania. Desse modo, a homofobia
configura-se como um sério problema a ser enfrentado pela educação, mas que ainda não tem a devida atenção da comunidade escolar, sobretudo no que
diz respeito à proposição de ações pedagógicas de enfrentamento às situações cotidianas de preconceito e discriminação quanto às identidades de gênero e
sexual na escola.
Antes de avançarmos, é importante diferenciar as identidades sexuais das identidades de gênero, já que muitas vezes elas são confundidas. De acordo
com Louro (2004), as identidades sexuais referem-se às múltiplas formas com que os sujeitos vivem ou podem viver sua sexualidade, ou seja, às diferentes
formas com que os sujeitos experimentam prazeres, desejos, sentimentos, que podem ser com parceiros(as) do mesmo sexo (homossexualidade), do sexo
oposto (heterossexualidade), de ambos os sexos (bissexualidade) ou sem parceiros(as). Por outro lado, as identidades de gênero dizem respeito às distintas
formas com que os sujeitos podem se identificar, social e historicamente, como masculinos e femininos (LOURO, 2004).
Entretanto, cabe destacar que distinguir as identidades de gênero das identidades sexuais não significa dizer que elas existem de forma isolada, pelo
contrário, elas constituem-se de forma articulada, relacionando-se mutuamente, no entanto, elas não são a mesma coisa. Conforme enfatiza Louro (2004, p.
27), “sujeitos masculinos ou femininos podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais (e, ao mesmo tempo, eles também podem ser negros, brancos,
ou índios, ricos ou pobres etc.)”. Portanto, somos sujeitos de múltiplas e distintas identidades – étnico-racial, profissional, sexual, de gênero, classe social,
entre outras – que não são fixas, universais ou permanentes; que não são dadas a priori como se fizessem parte da essência do sujeito, ou seja, não são
biologicamente determinadas, mas são fabricadas, inventadas e modificadas nos contextos sociais e culturais em que transitamos, dentre os quais
destacamos a escola.
Organizamos a escrita deste texto em três momentos. Inicialmente, apresentamos a investigação narrativa, referencial metodológico que subsidiou a
pesquisa, bem como destacamos a entrevista semiestruturada, estratégia utilizada para conhecer as vivências escolares dos sujeitos entrevistados. Em
seguida, apresentamos uma breve biografia de cada um(uma) dos(as) participantes da pesquisa a partir do que aprendemos nas entrevistas. Na continuidade
do texto, analisamos suas vivências escolares buscando destacar a homofobia presente no contexto da escola. Por fim, considerando que a escola tem papel
fundamental na formação dos sujeitos, defendemos que é urgente a revisão das práticas escolares ancoradas na heteronormatividade47 com vistas a
combater a homofobia no espaço escolar.

Caminhos metodológicos
A presente pesquisa ancora-se metodologicamente no campo da investigação narrativa entendida na perspectiva de Larrosa (1996; 2004) como uma
prática social implicada na constituição dos sujeitos, pois é no processo de narrar e ouvir histórias que os sujeitos constroem os sentidos de si e dos outros,
nos contextos em que estão inseridos. Para Larrosa (2004, p. 12), “o ser humano é um ser que se interpreta e, para essa autointerpretação, utiliza
fundamentalmente formas narrativas” [Tradução nossa].
Quando alguém conta uma história está se utilizando do recurso narrativo e, de forma inconsciente, constituindo-se. É através das vivências que nos
autoproduzimos, que nos constituímos nos indivíduos que somos. Assim, os sujeitos vão constituindo suas identidades – de gênero, sexual, de classe,
profissional, ético-racial, etc. –, conforme suas vivências, experiências e impressões. Portanto, nessa perspectiva “a identidade não é inata, geneticamente
pré-determinada, mas é negociada, contestada, construída em meio às relações de poder que atravessam as diversas experiências vividas pelos sujeitos”
(SILVA, 2012, p. 40).
Para a produção dos dados narrativos, utilizamos como estratégia a realização de entrevistas individuais semiestruturadas, compreendidas na
perspectiva de Silveira (2007) como um diálogo entre a díade entrevistador/entrevistado, cada um/uma representando um papel, cabendo ao(à)
entrevistado(a) responder ao que o(a) entrevistador(a) pergunta. Nesse diálogo não estão presentes somente os personagens entrevistador/entrevistado, mas
elementos como “imagens, representações, expectativas que circulam de parte a parte – no momento e situação de realização das mesmas e,
posteriormente, de sua escuta e análise”, classificando, dessa forma, as entrevistas como um “evento discursivo complexo” (SILVEIRA, 2007, p. 118).
Oliveira (2000) enfatiza que o olhar, o ouvir e o escrever – três etapas de apreensão dos fenômenos sociais – são indispensáveis na elaboração do
conhecimento das ciências sociais. Segundo o autor um olhar sensível e precedido de conhecimentos anteriores e específicos, proporciona uma percepção
mais profunda e diferente do que seria se não tivesse esses requisitos. Desse modo, entendemos que o ouvir na realização das entrevistas constitui a
percepção da realidade pesquisada por quem está fazendo a pesquisa.
Nessa direção, Oliveira (2000) destaca que alguns dados somente são possíveis obter através da entrevista, portanto, de um ouvir todo especial e para
isso é preciso saber ouvir. Na entrevista acontece o confronto entre pesquisador(a) e informante; o(a) pesquisador(a) deseja entrar no mundo do pesquisado
e aqui se cria um campo ilusório de interação se o informante não passar a interlocutor.
Silveira (2007) argumenta que a entrevista é um gênero essencialmente oral e, conforme avaliação dos analistas da conversa existe entre entrevistador e
entrevistado uma assimetria de poder. “Como gênero discursivo, a entrevista apresenta suas características e as regras são sua referência. Pode-se subvertê-
las, questioná-las, ressignificá-las... mas tais regras são a sua referência e, de certa forma, sua garantia” (SILVEIRA, 2007, p. 123). A autora argumenta que
a entrevista é “uma arena de significados” (SILVEIRA, 2007, p. 137), é um jogo entre os interlocutores, de um lado o(a) entrevistador(a) querendo saber
algo e do outro o(a) entrevistado(a) se reinventando como personagem. Para completar essa arena de significados entra em cena o(a) pesquisador(a) que irá
reler e reconstruir a entrevista, trazendo novos significados, assim, as entrevistas reescritas se converterão em uma parte de um contínuo registro da
investigação narrativa.
Nessa perspectiva, a realização das entrevistas nos possibilitou conhecer experiências vividas por travestis e transexuais no contexto da escola, um
ambiente acolhedor para os sujeitos ditos “normais”, mas hostil para qualquer sujeito que não se enquadre no padrão heteronormativo.
A seguir, passamos a descrever o processo de “escolha/convite” dos sujeitos participantes do estudo, o atendimento às questões éticas e a realização das
entrevistas. Inicialmente, destacamos que o processo de “escolha/convite” dos sujeitos participantes do estudo deu-se a partir da estratégia entrevista zero,
pois entrevistamos uma aluna da escola e pedimos a ela que indicasse pessoas conhecidas que fossem travestis ou transexuais. Embora tenhamos
conhecimento das limitações que se tem em relação ao processo de indicação por uma única pessoa, essa foi a forma que encontramos para constituir o
grupo de sujeitos da pesquisa. Desse modo, entrevistamos quatro pessoas que frequentam ou frequentaram a escola e relataram as adversidades enfrentadas.
Os encontros foram marcados em um lugar calmo e privativo, sugerido por nós e com a concordância deles(as). Uma entrevista aconteceu na escola em que
a entrevistada estudava no momento da entrevista, duas aconteceram na casa das entrevistadas e uma na casa da pesquisadora.
A fim de obedecer às questões éticas elaboramos um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para informar aos(às) participantes os objetivos e
procedimentos adotados no decorrer da pesquisa. Destacamos que os nomes dos(das) participantes da pesquisa foram substituídos por nomes fictícios,
escolhidos aleatoriamente por nós a partir de filmes que apresentam travestis e transexuais, sem a intenção de estabelecer qualquer relação entre a
personagem do filme e os(as) entrevistados(as). Além disso, enfatizamos que qualquer aspecto que possibilitasse a identificação dos(as) entrevistados(as)
foi suprimido das narrativas apresentadas neste texto.
Durante a realização das entrevistas utilizamos um roteiro semiestruturado que contemplava os seguintes aspectos: tipo de escola em que estudou
(pública ou privada), dificuldades cotidianas vivenciadas no contexto da escola e em outros espaços sociais, relações familiares e de trabalho, entre outros.
As entrevistas tiveram duração de 45 min. a 75 min., foram gravadas, transcritas e devolvidas aos(às) participantes, para que pudessem ler suas narrativas,
acrescentar ou retirar algum detalhe, caso considerassem necessário.
A estratégia de análise consistiu em “olhar” as narrativas produzidas pelos(as) participantes do estudo, o que contavam sobre as experiências escolares,
buscando compreender e discutir a presença da homofobia no contexto escolar.

Sujeitos da pesquisa
As quatro pessoas entrevistadas estudaram em escola pública, uma não concluiu o Ensino Fundamental e somente uma concluiu o Ensino Médio, até o
momento da entrevista. Três são cabeleireiras e uma não trabalhava, mas gostava e pretendia trabalhar na área de estética. Das pessoas entrevistadas, três
desistiram de estudar para trabalhar e se sustentar ou ajudar no sustento da família, pertencendo todas à classe social média ou média baixa. Nenhuma delas
demonstrou interesse em cursar uma faculdade, mas se preocupavam em participar, continuamente, de cursos de aperfeiçoamento profissional.
A seguir, apresentamos um pouco da história de vida de cada um(a) dos(as) participantes da pesquisa.
Madona (Filme Elvis e Madona – 2010): É uma adolescente de 16 anos que estudava no momento da realização da entrevista, mas repetiu o ano,
desestimulou-se, porém, fez novamente a matrícula, mas não voltou a frequentar as aulas. Morava com os pais com quem se entendia bem. Identificava-se
como uma transexual. Era solteira e tinha namorado.
Bree (Filme Transamérica – 2005): A Bree também era uma jovem de 20 anos, mas viveu o suficiente para saber que a identidade de gênero dela
incomodava muitas pessoas no meio em que vivia, principalmente aquelas com quem conviveu na infância e adolescência, na escola. Era cabeleireira e não
conseguiu concluir o Ensino Médio. Na entrevista argumentou que tinha a rebeldia como uma característica acentuada. Nunca perdeu o contato com a
família e demonstrava ter fortes laços afetivos com a avó. Disse que, quando adolescente, cuidava mais da aparência, mas percebia que continuava muito
vaidosa. Identificava-se como uma transexual. Já participou de concursos de beleza e recebeu alguns títulos. Era casada, mas não tinha filhos.
Stanislava (Novela e seriado O Bofe – 1972): Stanislava tinha 39 anos na época em que foi entrevistado e seguro em seus pontos de vista e opiniões.
Interrompeu os estudos no último ano do Ensino Médio, pois precisava trabalhar e ajudar a família. Após, não teve interesse em retornar à sala de aula. Por
ser extremamente dedicado à profissão, conquistou seu espaço profissional como cabeleireiro e preocupava-se com a imagem que as pessoas tinham dele.
Afirmava que esta é uma das poucas profissões em que travestis, transexuais e homossexuais podem ascender sem sofrer preconceito e discriminação. Ele
se identificava como travesti, se travestia no feminino, usava adornos do universo feminino, mas pedia às pessoas que se referissem a ele no masculino.
Disse que se algum dia mudasse suas características, “for mais hétero”, adotará filhos. Atualmente, a mãe é sua melhor amiga. Era solteiro e ainda não
tinha certeza se desejava ser pai algum dia.
Suzana (Filme Quanto dura o amor? – 2009): A Suzana tinha 32 anos no momento da entrevista e se identificava como transexual. Concluiu o Ensino
Médio e foi morar sozinha para poder assumir, perante a sociedade, sua identidade de gênero, que até então precisava esconder, pois morava com o pai que
era conservador e não aceitava. Teve que se superar em muitos momentos, mas conquistou o respeito das pessoas que conhecia e o prestígio profissional
como cabeleireira. Colecionava vários títulos de beleza, entre eles, um internacional. Este último também reaproximou a entrevistada com seu pai após
muitos anos de afastamento. Tinha namorado e não tinha filhos.

A (re)produção da homofobia nas práticas escolares


A escola pública brasileira tem atuado como um dispositivo de produção e reprodução do preconceito e da desigualdade, que promove a evasão (talvez
possa ser chamada de expulsão) dos indivíduos de grupos sociais hierarquicamente inferiores, tais como pobres em geral, pessoas com algum tipo de
deficiência, não brancos, indígenas, mulheres, homossexuais, travestis e transexuais.
Nessa perspectiva, Junqueira (2008) diz que tratamentos preconceituosos, ameaças, discriminação, insultos e agressões de vários tipos são comuns na
vida escolar da população LGBT de todas as idades, mas os casos mais graves acontecem com travestis e transexuais. Assim sendo, um conjunto de
emoções e ações negativas vinculam-se ao termo “homofobia”, que segundo Junqueira (2008, p. 50) “costumam produzir ou vincular-se a preconceitos e
mecanismos de discriminação e violência contra pessoas homossexuais, bissexuais e transgêneros”. O autor prossegue afirmando que a homofobia vai além
da hostilidade e da agressão contra a população LGBT e “associa-se a pensamentos e estruturas hierarquizantes relativas a padrões relacionais e identitários
de gênero, a um só tempo sexistas e heteronormativos” (JUNQUEIRA, 2008, p. 50). A narrativa que se segue nos possibilita perceber quão hostil pode ser
o ambiente escolar para aqueles e aquelas que não se enquadram na heteronormatividade. Quando solicitado que relatassem a trajetória escolar, Bree, por
exemplo, fez vários relatos de agressão física e verbal, citou situações de descaso, discriminação e intolerância.
As meninas, não sabiam aceitar, por causa que eu sempre gostava de.... Eu nunca andei com menino, sempre com as meninas, né? E acabava que elas
acabavam me ofendendo e às vezes queriam me bater, me chamavam de bicha, puto. (Bree)
Nessa perspectiva, entendemos que ao chamarem Bree por nomes considerados socialmente desqualificados, como bicha e puto, além de moverem as
alavancas da homofobia no espaço da escola, demarcam as identidades “normais” e “anormais”, posicionando os sujeitos em lugares distintos. Para
Longaray e Ribeiro (2014, p. 110), “o fato de nomear o/a outro/a como diferente tem como um dos seus objetivos delimitar os lugares, as posições, os
comportamentos a serem assumidos pelos sujeitos”.
Questionada se as hostilidades e a discriminação partiam somente dos(as) alunos(as), Bree relatou que isso era comum, também, entre os(as)
professores(as) e a direção da escola:
E aí todo mundo mexia e aí acabava que algumas pessoas querendo me bater e tudo, mas até que um dia eu me decidi, com 14 anos eu decidi me revelar.
Eu fui numa boate da escola vestida de mulher. Aí as professoras não aceitaram, as professoras queriam me expulsar da escola dizendo que eu seria...
Não seria muito bom ter eu ali, né, por causa das outras crianças pequenas. [...] Me levaram pra conselheira tutelar, pra psicóloga, pra ver se eu não
estava com distúrbio mental. Tinha um professor de Inglês que toda hora que ele entrava na sala de aula e me via de mulher, ele me mandava sair da sala.
Saía chorando. Aí as professoras não sabiam... as outras professoras não acreditavam em mim, né? (Bree)
A narrativa da Bree nos possibilita pensar que travestis e transexuais são sujeitos “fora de lugar”, não são desejados no ambiente escolar. A homofobia
é anunciada tão fortemente por algumas pessoas que não conseguem conviver no mesmo espaço com travestis e transexuais. Por serem pessoas “fora de
lugar”, fora da “norma” é importante trazer esses sujeitos para a zona de normalidade e, para tanto, determinadas pessoas são convocadas para essa tarefa,
tais como a conselheira tutelar, a psicóloga, etc. Por outro lado, ousamos afirmar que travestis e transexuais são aceitos no espaço escolar mediante o
cumprimento de determinadas “regras de convivência”, como podemos perceber na narrativa de Stanislava quando disse que nunca sofreu preconceito no
espaço da escola porque sempre se “deu o respeito”, sempre soube se comportar. Para Stanislava o preconceito é fruto do “mau comportamento” de
homossexuais, travestis e transexuais, como podemos perceber na narrativa que segue:
[...] conheço várias pessoas que deixaram de estudar, tudo, mas o preconceito eles fazem. Vou falar da mona, a mona de hoje, o homossexual ele é mais
vulgar, entende? Começa a gritar, sapatear, espernear, chamar a atenção de todo mundo, dos professores, no fim ele vira uma comédia dentro da sala de
aula, vira uma comédia dentro da escola. [...] Bem, no fim ele sai do colégio, ou ele aguenta aquele tranco, ou não aguenta. (Stanislava)
Essa narrativa nos possibilita pensar que a escola atua fortemente como um mecanismo de disciplinamento, vigilância e controle dos corpos de acordo
com determinados códigos, regras e convenções estabelecidos socialmente. Nesse sentido, espera-se que o sujeito atue dentro da zona de normalidade, sob
pena de sofrer as consequências. De acordo com Longaray e Ribeiro (2014, 111),
[...] na escola, posturas e discursos contribuem para a afirmação do que se quer e se defende como norma. As relações possíveis e permitidas, o vocabulário adequado, os
espaços reservados, o vestuário permitido, toda a organização arquitetônica demarcam o permitido e o aceitável nesse contexto.

Portanto, é urgente e necessário que todos os envolvidos com a educação percebam os problemas relacionados a esse tema e eles sejam enfrentados.
Apesar de serem muito antigos, esses problemas ainda são negados, e ignorá-los é aceitá-los, validá-los e incentivá-los. É importante perceber que
ensinamos, através de atividades pedagógicas, de atitudes de omissão, o sexismo e a heteronormatividade como certos, inquestionáveis, e produzimos, com
isso, a supremacia heterossexual, “produzindo seu efeito sobre todos/as” (JUNQUEIRA, 2011, p. 76). Sobre a posição da escola nas situações de
homofobia, discriminação e intolerância, uma entrevistada relatou que:
É que na escola sempre teve essas meninas que mexiam comigo, uma era a filha da diretora, a outra era a filha da conselheira do CE (Conselho Escolar),
outra era a filha da presidente do CPM (Círculo de Pais e Mestres), então, nunca deu nada, sempre as mães queriam defender as filhas. Acabou que uma
vez eu cansei daquilo, né? E aí a mãe de uma colega veio pra me dar um tapa, né? Daí eu empurrei ela, daí a diretora disse que eu estava enganada, daí
eu saí fora, né, por causa que ela veio me bater. (Bree)
Se por um lado a homofobia é crescente no país, felizmente tem aumentado a visibilidade e o poder de mobilização de grupos sociais, como o LGBT,
as feministas e aqueles que condenam qualquer tipo de opressão e apoiam as políticas públicas que reivindicam e favorecem a autonomia e a pluralidade
nos processos de construção dos corpos, dos sujeitos e das identidades. O enfrentamento à homofobia é fundamental à consolidação de um modelo de
sociedade democrática e de educação de qualidade e inclusiva, que valoriza e respeita a diversidade de gênero e sexual. A homofobia faz parte da rotina em
nossas escolas, mas nem sempre é reconhecida por professores(as) e gestores(as), pessoas que deveriam combatê-la. É fundamental compreender que a
homofobia é “um fenômeno que envolve e prejudica todas as pessoas – inclusive as heterossexuais” (JUNQUEIRA, 2008a, p. 15), é maléfica, inclusive, às
pessoas homofóbicas, pois contribui para a formação do caráter sexista e afeta a boa convivência. Para evitá-la, precisamos percorrer outros caminhos e
focar, sobretudo, na diversidade.
Outra questão que cabe discutir refere-se ao fato de que travestis e transexuais precisam, constantemente, demonstrar que possuem “dons superiores”,
como, por exemplo, serem bons alunos(as), excelentes profissionais, demonstrar inteligência, simpatia e solicitude como forma de compensar sua
identidade “desviante” e, dessa maneira, se sentirem incluídos no grupo. Ao perguntar a uma entrevistada se enfrentou situações de preconceito no início de
sua trajetória escolar, relatou que a criatividade, bom humor e ser prestativa foram fatores que compensaram as atitudes consideradas inadequadas para
menino, como, por exemplo, brincar com meninas e com bonecas. Havia troca de “favores” entre ela e a direção da escola, facilitando a convivência
harmoniosa:
Eu sempre fui uma pessoa muito, muito alegre, criativa, muito popular na escola, então, quando eu era pequena, lá no Ensino Fundamental, eu sempre
tive apoio da diretoria da escola, porque quando eles precisavam uma coisa, por exemplo, organizar uma festa ou um evento, uma apresentação, então
elas corriam pra mim, porque sabiam que eu criava. Então eu não tive muitos problemas na escola. (Suzana)
Precisamos construir projetos pedagógicos que intercedam e mudem as situações de preconceito, discriminação e violência que experimentam travestis
e transexuais cotidianamente no contexto da escola. Essas discussões englobam, por exemplo, o registro do nome social no caderno de chamada e a
utilização do banheiro desejado, questões importantes para preservar a integridade física e a permanência desses sujeitos na escola.
Ao perguntar a uma transexual sobre como se sentia sendo chamada pelo nome masculino, seu nome de registro civil, respondeu:
Isso é, sei lá, estranho, até constrangedor, porque como no ano passado, no meu primeiro ano aqui, os professores não me conheciam, enfim, até alguns
ficavam meio sem jeito, ah, cadê o fulano, tá aqui, ah, desculpa, tem cabelo comprido, não sei o quê, enfim, fica chato, sei lá. Até porque, olha assim, é
uma mulher [...] ah, desculpa, até perguntava porque teu nome era masculino, de gênero masculino, e tu uma mulher, enfim, só que eu não tinha me dado
conta. (Madona)
Para Bree, não era diferente:
Vestida de mulher, né, tenho peito e tudo, e aí na hora de chamarem pelo nome, tipo meu nome é “NOME”, entendeu? Eu vestida de mulher e... e aí de
repente eu ter que responder que sou eu. Isso pra mim é bastante chato. (Bree)
Conforme nos lembra Junqueira (2011, p. 87) “o nome social não é um apelido e representa o resgate da dignidade humana, o reconhecimento político
da legitimidade de sua identidade social”. Com efeito, professores(as) que se recusam a chamar travestis ou transexuais pelo seu nome social, estão
ensinando e incentivando os(as) demais a adotarem essa postura hostil em relação a ela e à diferença em geral (JUNQUEIRA, 2011). Cabe destacar que em
2012 aconteceu no Rio Grande do Sul a efetivação do Decreto do nº 48.118, de 17 de maio de 2011, que instituiu a Carteira de Nome Social, documento
que tem o mesmo valor e função da Carteira de Identidade, mas com o tratamento nominal que eles escolheram ou adotaram no lugar daquele com que
foram registrados. O documento serve como identificação nos serviços públicos de nosso estado e demonstra um pouco de respeito pela identidade que o
sujeito está construindo para si. Contudo, ainda falta conhecimento por parte dos(as) professores(as) e direção das escolas sobre essa normativa, que
evitaria constrangimentos como os vivenciados por Bree e Madona.
No que diz respeito ao uso dos banheiros, de acordo com Teixeira e Raposo (2015), historicamente, tem reforçado binarismos e posições,
desencadeando situações de preconceito, discriminação e conflitos na escola em relação à população LGBT. É importante lembrar que a separação dos
banheiros em masculino e feminino acontece nas escolas e nos espaços públicos, no entanto, não acontece nas residências das famílias. Para ilustrar a
violência e constrangimento que experimentam travestis e transexuais apresentamos a narrativa de Madona que diz:
Ele (professor) disse que eu não poderia nem frequentar o banheiro feminino, sendo que foi a direção que me comunicou que eu poderia frequentar o
banheiro feminino, enfim, aí, na volta, eu fui ao banheiro com uma colega minha, ela pediu pra eu ir com ela e ele disse que eu não poderia entrar no
banheiro junto com ela [...]. (Madona)
Nos espaços escolares, os banheiros sempre causam polêmica, mas, quando se trata de travestis e transexuais, a preocupação é maior. A homofobia
presente nesses ambientes torna travestis e transexuais vulneráveis e eles/elas estão conscientes disso. Na conversa que tivemos com Suzana, ela deixou
claro que é preciso tomar certas precauções para evitar a agressão física. Relatou que havia conversado com a direção e expôs que não se sentia bem
frequentando o banheiro masculino, além de temer qualquer tipo de violência.
Não me sinto bem no banheiro masculino. [...] eu quero saber se posso usar o banheiro feminino. [...] eu somente não me sentia bem no banheiro
masculino. Não, nunca tentaram me agredir, mas depois (de se revelar transexual) eu fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. (Suzana)
Nesse sentido, Teixeira e Raposo (2015, p. 9) argumentam sobre a necessidade de desconstrução dos modelos tradicionais de educação não somente
ensinando a aceitar, mas “criando exercícios práticos de comportamento nas suas rotinas, desafiando e afetando as futuras gerações e os adultos que ali
transitam”. Assim, entendemos que a população LGBT, ao expressar as múltiplas formas de sexualidade e gênero, coloca em xeque a distinção binária de
sexo-gênero expressa nos banheiros públicos, apontando sua insuficiência e sua inadequação. Desse modo, entendemos que outra forma de organização
sanitária se faz necessária para acolher toda a comunidade escolar, respeitando as diferentes identidades sexuais e de gênero, evitando-se exposições,
constrangimentos e violência.

Para finalizar...
Com a realização desta pesquisa, percebemos a dimensão do trabalho que precisa ser desenvolvido em todos os espaços sociais, principalmente na
escola, nosso objeto de pesquisa. Ela, que deveria ser um lugar propício ao crescimento e amadurecimento individual e coletivo pela oportunidade do
convívio com pessoas diferentes, com frequência não o é, pois isso exige abertura para o novo, para o diferente, e nem sempre a comunidade escolar é
receptiva à diversidade como algo positivo. Cabe destacar que geralmente muitos(as) dos(as) professores(as) e profissionais da educação negam qualquer
tipo de prática discriminatória, entretanto, no cotidiano escolar, percebemos práticas homofóbicas e/ou preconceituosas, mesmo que feitas
“inconscientemente”, sobretudo, porque já estão naturalizadas. Independentemente dos motivos que fortalecem a homofobia na escola, ela existe e é
prejudicial à aprendizagem e à convivência sadia, gerando, portanto, conflitos, insatisfações e violência no meio escolar, bem como, evasão daqueles e
daquelas que não se encaixam no padrão heteronormativo. Portanto, o combate à homofobia na escola é urgente, para tanto, a revisão das práticas
pedagógicas e políticas é o primeiro passo para efetivar as mudanças.
Ao compartilhar um pouco da realidade vivida por travestis e transexuais no contexto escolar, buscamos contribuir não só para repensar as questões
relacionadas ao gênero, à sexualidade e à homofobia nos espaços escolares, mas também enriquecer as discussões que visam à construção de um ambiente
mais justo e igualitário para todos(as) os(as) brasileiros(as). Portanto, acontecendo o debate, queremos que junto venham as conquistas no combate à
homofobia por parte de toda a comunidade escolar, garantindo, dessa forma, o acesso, a permanência e o sucesso escolar para todos(as).

Referências
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todos. In: RIBEIRO, Paula Regina Costa; QUADRADO, Raquel Pereira (Orgs). Corpos, gêneros e sexualidades: questões possíveis para o currículo
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______. Homofobia: o que a escola tem a ver com isso? In: RIBEIRO, Paula Regiana Costa; SILVA, Fabiane Ferreira da; MAGALHÃES, Joanalira
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(Orgs.). Corpos, gêneros, sexualidades e relações étnico-raciais na educação [recurso eletrônico]. Uruguaiana, RS: UNIPAMPA, 2011. P. 74-92.
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LE BRETON, David. Corpo, Gênero e Identidade. In: FERRARI, Anderson; RIBEIRO, Cláudia Maria; CASTRO, Roney Polato de; BARBOSA,
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LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 2004.
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TORRES, Marco Antonio. A diversidade sexual na educação e os direitos LGBT na escola. Série Cadernos da Diversidade. Belo Horizonte: Autêntica
Editora; Ouro Preto, MG: UFOP, 2010.
O NÚCLEO DE GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL DO INSTITUTO FEDERAL FARROUPILHA CAMPUS SÃO BORJA
Bárbara Valle48
Bianca Bueno Ambrosini49
Carolina Scalco Pinheiro50

Resumo: O artigo trata da implementação do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual (NUGEDIS) do Instituto Federal Farroupilha campus São Borja (IFFar-SB). Discute a importância da realização de
ações que promovam a equidade de gênero e diversidade sexual no ambiente educacional a fim de combater o machismo e a homofobia tanto na instituição quanto na sociedade. Apresenta as principais
atividades relacionadas ao NUGEDIS-SB e a promoção do tema dentro da comunidade escolar. Diante do contexto em que estamos inseridos, um núcleo que aborde a sexualidade humana e outros temas
relacionados e que ainda são considerados tabus pela maioria da população é fundamental para a construção de uma sociedade menos desigual e mais justa, protegendo e garantindo direitos básicos àquelas
pessoas que são marginalizadas pelo mainstrean
Palavras-chave: NUGEDIS; Gênero; Diversidade Sexual; Educação.

Introdução
Os temas voltados ao gênero e à diversidade sexual são, sob muitos aspectos, tabus na sociedade brasileira. É preocupante a crescente violência
relacionada à identidade de gênero assumida em sua gama de possibilidades. Segundo a Organização não Governamental Grupo Gay da Bahia, “o Brasil é
o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Em 2016, foram 127 mortes, uma a cada 3 dias. A expectativa de vida deles é de 35 anos, menos da
metade da média nacional, que é de 75 anos”51.
Preocupa-se com a diversidade sexual, mas também com os direitos e segurança das mulheres. Uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha,
encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança e divulgada em março de 2017 traz índices absurdamente altos da violência contra a mulher. Segundo a
pesquisa “uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano. Só de agressões físicas, o número é alarmante: 503 mulheres
brasileiras vítimas a cada hora”52.
No que se refere às mulheres, parece haver um esforço no conjunto das políticas públicas nacionais brasileiras para reduzir esses índices como a Lei
Maria da Penha (Lei 11.340/2006) e a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015). Na educação houve a tentativa de inclusão no Plano Nacional de Educação
(PNE) das questões de gênero e orientação sexual. Isso foi interrompido em dezembro de 2013, quando o Senado retirou da redação a frase “promoção da
igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”, suprimindo em todo o texto, a flexão de gênero, e impondo a forma genérica masculina. (Reis
e Eggert, 2017, p. 15).
O tema “gênero” tem sido amplamente alvo de debate a partir do Plano Nacional de Educação 2014-2015 (PNE 2014-2024), aprovado em 25 de junho
de 2014 como Lei 13005/2014. No ano de 2014-2015 vimos vários debates referentes à inclusão das temáticas de gênero e a discussão em muitos casos,
com a mobilização da sociedade, girava em torno da inclusão ou não do que chamam de “ideologia de gênero”. Outrossim, o PNE 2014-2024 não tematiza
estas questões e não entraram na maioria dos Planos Estaduais e Municipais de Educação, tramitados no primeiro semestre de 2015. Percebe-se no PNE
total omissão e uma falta de explicitação a estas questões nas vinte estratégias e ações aí propostas para a década 2014-2024. Apenas genericamente, consta
no Artigo 2º referente às diretrizes do PNE, o Inciso III que afirma: “superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na
erradicação de todas as formas de discriminação” (BRASIL, 2014b).
Hoje, em relação ao debate desse tema na escola, ainda enfrentamos a resistência de grupos conservadores que vêm deturpando e fantasiando as teorias
sobre gênero e sexualidade sexual, pejorativamente chamando-as de “ideologia de gênero”, como se fosse possível que uma pessoa simplesmente tomasse
iniciativa de ser “algo” apenas por conhecê-la ou saber que ela existe. Esse grupo está fortemente articulado e tem apresentado seu Projeto “Escola Sem
Partido” para apreciação e votação em diversas Câmaras Municipais e Estaduais, utilizando a “ideologia de gênero” como sua principal bandeira. Como
ainda existe muito desconhecimento, tabus e preconceitos sobre o tema de gênero e sexualidade, as pessoas embarcam na ideia, acreditando que eles estão
de boa-fé querendo proteger as crianças e adolescentes de pessoas pervertidas e mal-intencionadas. E não é nada disso. Esse projeto de lei engessa o
docente em sala de aula, impede que ele trate de assuntos que os próprios alunos trazem para dentro da sala de aula, além de criar um policiamento
completamente perverso em torno do trabalho docente, uma profissão já bastante fiscalizada por toda a sociedade.
Além disso, a escola como espaço problematizador, questionador, crítico e promotor dos direitos humanos não pode eximir-se da responsabilidade de
buscar o debate e o respeito pelas mais diversas formas do ser humano ser e estar nesse mundo. Dentro do Instituto Federal Farroupilha (IFFar), o que vem
sendo articulado para problematizar as perspectivas sobre o gênero no âmbito educacional são principalmente pensadas a partir do NUGEDIS – Núcleo de
Gênero e Diversidade Sexual, um dos vários núcleos de ações especializadas que compõe a CAI – Coordenação de Ações Inclusivas.

Nosso contexto
O IFFar foi criado pela Lei n° 11.892, de 29 de dezembro de 2008, por meio da integração do Centro Federal de Educação Tecnológica de São Vicente
do Sul, de sua Unidade Descentralizada de Júlio de Castilhos, da Escola Agrotécnica Federal de Alegrete, e do acréscimo da Unidade Descentralizada de
Ensino de Santo Augusto que anteriormente pertencia ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Bento Gonçalves.
De acordo com a lei de sua criação, o IFFar é uma instituição de educação superior, básica e profissional, pluricurricular e multicampi, especializada na
oferta de educação profissional e tecnológica nas diferentes modalidades de ensino. Equiparados às universidades, os institutos são instituições
acreditadoras e certificadoras de competências profissionais, além de detentores de autonomia universitária.
Atualmente o IFFar é composto pela Reitoria, localizada em Santa Maria; por mais onze Campi espalhados na metade norte-nordeste do Estado; por 8
Centros de Referência e por 34 Polos de Educação a Distância.
O instituto oferece formação técnica, superior e de pós-graduação. Os cursos de nível técnico são oferecidos na forma integrada ou concomitante,
integrados ao Proeja, e subsequente. Em ensino superior oferecemos uma gama grande de cursos tanto de tecnologia, quanto bacharelados e licenciaturas.
A verticalização do ensino, uma das missões da instituição, se consolida no oferecimento da pós-graduação, tanto na forma stricto senso quanto na forma
lato senso.
A instituição possui como um todo aproximadamente 15 mil alunos em todos os níveis de ensino.
Os cursos do Campus São Borja distribuem-se em dois Eixos de Formação: Turismo, Hospitalidade e Lazer e Informação e Comunicação. Dentro do
eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer oferecemos os cursos Técnico em Eventos Integrado ao Ensino Médio, Técnico em Cozinha Proeja e Subsequente;
Curso Superior em Tecnologia em Gastronomia e Superior em Tecnologia em Gestão de Turismo. Dentro do eixo Informação e Comunicação oferecemos
Técnico em Informática Integrado e Bacharelado em Sistemas de Informação. Ainda oferecemos cursos de Licenciaturas, uma das propostas de
verticalização mais importantes dos Institutos Federais, proporcionando formação e qualificação a futuros professores. Nossas licenciaturas são de
Matemática e de Física, duas áreas defasadas de profissionais na região.
Atendemos um público de, aproximadamente 800 alunos, que se encontram em formação no ensino médio, PROEJA e subsequente, ensino superior e
na pós-graduação.
No IFFar existem núcleos especializados de apoio, criados através de resolução interna pelo Conselho Superior (CONSUP), Resolução 023/2016,
geridos pela CAI (Coordenação de Ações Inclusivas), instituídos com o objetivo de atender à legislação nacional relativa à diversidade, em todos os Campi.
Vai ao encontro da legislação vigente (Artigos 3º, 205 e 206 da Constituição Federal; Art. 3º da LDB; e Nota Técnica nº 32/2015, da hoje extinta Secretaria
de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão – SECADI). São eles: o Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Educacionais
Especiais (NAPNE), instituído em 2010; Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI), instituídos em 2010; Núcleo de Elaboração e
Adaptação de Materiais Didático/Pedagógicos (NEAMA), instituído em 2014; e Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual (NUGEDIS), instituído em 2016.

O Saiaço e o Gravataço como atividade precursora do NUGEDIS


O ano de 2015 foi marcado por uma série de retrocessos no que tange à legislação sobre a obrigatoriedade de abordar de forma transversal em sala de
aula as questões de gênero. O tema foi suprimido do Plano Nacional de Educação (PNE) e foi sendo sistematicamente retirado dos Planos Municipais de
Educação (PME) através de assembleias nas cidades, principalmente devido à pressão da “bancada evangélica” (um aglomerado de partidos políticos que
baseiam suas ações em torno de suas convicções religiosas, mesmo o Brasil denominando-se um estado laico em sua constituição). Um grupo de servidores
do IFFar-SB resolveram manifestar-se contra essa medida, organizando um projeto proposto pelas docentes de Arte e Filosofia que abrangeu os alunos do
ensino técnico integrado, tanto do curso de Eventos, na forma de uma Prática Profissional Integradora, quanto do de Informática, na forma de um Projeto
Integrador, chamado “Saiaço e Gravataço do IF Farroupilha – SB: contra o machismo e contra a homofobia” (fig.1).

Figura 1. Servidores e alunos participando do Saiaço e Gravataço do IFFar-SB, 9 de julho de 2015. Acervo das autoras.

A ideia surgiu em sala de aula, pois os alunos, na disciplina de Arte, estudando Arte Contemporânea, foram desafiados e pensar num happening. O
happening é um evento não planejado, em que o objetivo é criar uma certa desordem no ambiente onde ele é proposto, justamente para gerar, num primeiro
momento a surpresa, mas depois a reflexão e o debate. Nesse sentido, a única solicitação foi que meninos usassem saia e meninas usassem gravatas.
A partir da polêmica instaurada dentro da instituição e que se disseminou pela cidade em torno da ação proposta (fig. 2), mais docentes e técnicos
administrativos em educação sentiram necessidade de debater o assunto e esclarecer as frequentes dúvidas dos alunos, promover a equidade de gênero,
além da erradicação da homofobia, transfobia e machismo da instituição, visando a formação de um cidadão integral, que respeita a diversidade de modos
de ser/estar no mundo.

Figura 2. Artigo de opinião publicado no jornal local sobre a ação Saiaço e Gravataço do IFFar -SB

O NUGEDIS
O Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual foi criado a partir da Resolução 023/2016, e tem como objetivos principais a promoção de um ambiente
saudável, de aceitação e respeito às diferenças de gênero e de diversidade sexual. Entre as nossas principais competências e atribuições estão: consolidar as
políticas inclusivas, no que se refere a gênero e diversidade sexual; promover à comunidade acadêmica atividades de formação relacionadas ao tema;
participar e implementar atividades de pesquisa e extensão relacionados à temática e zelar pelas condições de acesso, permanência e êxito dos estudantes
que se inserem nesse público, trabalhando em conjunto com a CAI. Diante da política inclusiva do IFFar, as atribuições do NUGEDIS são de suma
importância, principalmente levando em consideração os números e as injustiças a que essas questões submetem os cidadãos, expostos no início do texto.
Se formos pensar em termos de currículo e acesso à educação, o conceito de justiça curricular é, de acordo com Santomé (2013):
o resultado da análise do currículo que é elaborado, colocado em ação, avaliado e investigado levando em consideração o grau em que tudo aquilo que é decidido e feito
em sala de aula respeita e atende às necessidades e urgências de todos os grupos sociais; lhes ajuda a ver, analisar, compreender e julgar a si próprios como pessoas éticas,
solidárias, colaborativas e corresponsáveis por um projeto de intervenção sociopolítica mais amplo destinado a construir um mundo mais humano, justo e democrático. (p.
9).

Essa é uma bonita definição que deveria ser não apenas do conceito de justiça curricular, mas também o objetivo final do processo educativo: a
emancipação do sujeito voltada para a crítica e a prática social, com a capacidade de compreender a grande responsabilidade individual sobre o coletivo,
bem como a do social para com o indivíduo.
Perceber as diferenças, admitir que elas existem e procurar maneiras de integrá-las nos ambientes escolares e processos educativos, é um desafio que se
impõe aos povos em nível global.
Outro conceito que é necessário abordar quando falamos das minorias sociais é o de discriminação positiva. Gluz (2010) vai pontuar que essa expressão
é utilizada para separar grupos sociais que estão em situação de desvantagem, a partir daí lhes dando oportunidades diferenciadas para que se tornem
menos desiguais.

O NUGEDIS e suas ações


Em 2016, o Núcleo foi constituído institucionalmente e, de certa forma, composto pelas pessoas que mais se envolveram na atividade do Saiaço e
Gravataço. Como núcleo reconhecido e institucionalizado foi possível que propuséssemos mais atividades, abrangendo mais níveis de ensino e, também, a
formação de nosso corpo docente sobre as temáticas de gênero e sexualidade. O NUGEDIS – SB – é um núcleo bastante ativo, organizado formalmente de
maneira hierárquica entre coordenação e demais membros, mas, na prática, todos têm o mesmo poder de opinião e tomada de decisão. Atualmente, temos
uma coordenadora e oito membros, entre docentes e técnicos administrativos em educação. Realizamos reuniões uma vez ao mês, onde avaliamos
atividades realizadas, organizamos cronogramas e planejamos as próximas ações e intervenções.
O ano em que iniciamos o núcleo foi intenso: promovemos algumas atividades e fomos convidados a participar de outras, dentro dos vários Projetos de
Ensino e Extensão que ocorrem no Campus. Dentre os desafios e atividades que propusemos aos estudantes estão duas intervenções que utilizam a
fotografia como veículo capaz de gerar reflexão. Na primeira atividade do ano, desafiamos a comunidade escolar que postassem no seu perfil, na rede
social Facebook, uma foto realizando alguma atividade considerada tipicamente feminina, para os meninos (fig. 3), e tipicamente masculina, para as
meninas (fig. 4).

Figura 3. Discente participando do desafio, acervo das autoras.

Figura 4. Docente participando do desafio, acervo das autoras.

O seguinte texto acompanhava a imagem:


Desafio da equidade de gênero: é o seguinte: chega de associar atividades humanas a um determinado gênero. Vai dizer que homem não lava a
louça ou cuida do filho? Que mulher não pode curtir um futebol, dirigir um trator? Desafio Fulano, Beltrano e Cicrano a participar do Desafio da
Equidade de Gênero. As mulheres vão postar uma foto fazendo alguma atividade considerada masculina (dirigir trator, pescar, jogar futebol...)
porque isso #TAMBÉMÉcoisadeMULHER. E os homens vão postar uma foto fazendo alguma atividade considerada feminina (tarefas
domésticas, trocar fraldas...) porque isso #TAMBÉMÉcoisadeHOMEM. Copie e cole esse texto na sua foto. Chega de mimimi. Machismo não
tá com nada!.
O objetivo dessa atividade foi mostrar para os alunos que os papéis de gênero são construções sociais que não nos definem de forma definitiva, pois a
forma como a sociedade valoriza as características ditas masculinas e femininas e o que se pensa sobre elas é muito mais definidor na constituição do
gênero, do as características sexuais (LOURO, 2003). Tivemos 74 postagens, entre meninas e meninos.
Outra atividade que realizamos com a fotografia foi para promover o debate em torno da Cultura do Estupro (fig. 5). Para suscitar a reflexão,
apresentamos aos alunos uma pesquisa realizada no Brasil, em 2016, que traz alguns dados importantes: um terço das vítimas de estupro ainda se considera
culpada por ter sido estuprada; 65% das mulheres brasileiras tem medo de ser estuprada; em 2014, foram registrados 47.646 casos de estupro, o que
significa 1 a cada 11 minutos (e sabe-se que muitos casos não são registrados); 42% dos homens e 32% das mulheres ainda concordam com frase
“mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, evidenciando que ainda existe uma espécie, sim, de culpabilização da vítima e cumplicidade com o
agressor. A cultura do estupro é uma doença na nossa sociedade, mas ela afeta os 51% da população que não fazem parte do mainstream53.
Figura 5. Varal fotográfico com produção de alunos sobre a cultura do estupro, acervo das autoras.

Figura 6. Cartaz divulgando a ação do Núcleo no projeto de ensino Ideias em Debate, acervo das autoras.

No ano de 2016 também atuamos junto aos Projetos de Ensino, Ideias em Debate, e de Extensão, Pense Cinema. No Ideias em Debate (fig. 6) a
discussão proposta foi Sexo e Gravidez na Adolescência, em que convidamos uma psicóloga da cidade. A atividade não alcançou o objetivo proposto, uma
vez que a convidada não conseguiu atingir o público com a sua fala. O tema foi abordado sob o ponto de vista da psicanálise, utilizando conceitos que não
são conhecidos dos nossos estudantes. Acabou sendo muito conceitual, utilizando uma abordagem freudiana, que hoje é bem questionável. No Projeto de
Extensão Pense Cinema, debatemos com o público participante três filmes – Girl Rising (2013), Minha Vida em Cor de Rosa (1997) e Que horas ela volta
(2015). No primeiro filme debatemos as questões relacionadas à educação de meninas e a importância de se incentivar pelo mundo a inclusão das mulheres
na sociedade através da educação. Após a discussão sobre o filme foi feito com a turma uma dinâmica sobre “vantagens e desvantagens de ser homem ou
mulher”. No segundo tratamos das questões de gênero, pois o personagem se descobre com uma identidade de gênero diferente do seu sexo biológico,
ainda na primeira infância, início da segunda. Indivíduos em que sua identidade de gênero difere de seu sexo biológico são chamados de transgênero.
Pessoas se perguntam como crianças com tão pouca idade já têm uma percepção tão clara de sua identidade de gênero. Pesquisas apontam que, em crianças
ocidentais, com as quais a pesquisa tem sido aplicada, começam a distinguir pessoas por sexo já no primeiro ano de vida, vendo indivíduos como
homens/masculino e mulheres/femininas; com 18 meses eles já começam a entender palavras de gênero como “menina” ou “homem” e associam essas
palavras a rostos relacionados ao sexo; aos 24 meses, as crianças conhecem estereótipos sexuais – tais como associar batom às mulheres; e antes dos três
anos quase todas elas se rotulam e aos outros com etiquetas de gênero54. Essas pessoas ainda são muito discriminadas na nossa sociedade, em função do
determinismo entre o sexo biológico e a identidade de gênero, que as pessoas insistem que deve existir entre todos os seres humanos. No terceiro filme, que
trata sobre o trabalho feminino, em especial, sobre as domésticas, tivemos a participação de uma aluna da Universidade Federal do Pampa, que trouxe um
relato de experiência parecido com o filme, o que possibilitou trocas e reflexões com os alunos.
Ainda em 2016, proporcionamos aos professores do IFFar-SB uma formação pedagógica sobre Gênero e Diversidade Sexual, com a professora
Rosângela Montagner, da URI- Campus Santiago que falou, entre outras coisas, sobre as legislações que amparam o trabalho sobre esses assuntos na
escola, além das questões sobre direitos humanos. Fechando o ano, participamos da Virada Cultural LGBTQ de São Borja, promovida pela ONG Girassol.
Começamos 2017 com uma polêmica, que sustentou debates acalorados por semanas entre docentes, servidores e alunos. No dia do orgulho LGBTQ,
quisemos expressar o fato de sermos uma instituição que abriga e respeita todas as pessoas na sua diversidade e complexidade, sem discriminação de
nenhum tipo, estendendo ao longo de dois espaços (fig. 7 e fig. 8) do nosso Campus duas bandeiras com as cores do movimento LGBTQ. Foi suficiente
para que a intolerância de alguns, marca dos tempos em que estamos vivendo, e apesar de todo trabalho que viemos fazendo, se expressasse de formas
grotescas e impronunciáveis. Qual o significado de um símbolo e por que ele é tão ofensivo a alguns?

Figura 7. Bandeira horizontal LGBTQ na fachada do IFFar-SB, acervo das autoras


Figura 8. Bandeira vertical LGBTQ no hall de entrada do IFFar-SB, acervo das autoras.

No ano de 2017 o PROEJA, Programa de Educação Profissional de Jovens e Adultos do Governo Federal, completou 10 anos de existência. Nas
atividades comemorativas, o NUGEDIS realizou com os alunos dessa modalidade uma Roda de Conversa: LGBTQ – A diversidade importa sim, incluindo
esses alunos num debate em que eles poucas vezes são inseridos. Foi muito gratificante perceber a fala dos alunos, num exercício de desconstrução, numa
tentativa de entender o que acontece com o outro e não apenas classificá-lo, ao mesmo tempo que percebemos ainda a resistência de outros em tratar sobre
o tema.
O grande desafio do NUGEDIS nesse ano de 2017 foi a Semana He for She (Eles por Elas) que promovemos no Campus, através da iniciativa da
Reitoria de aderir à Campanha da ONU Mulheres, junto à Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Foram apenas três dias de atividades,
mas que gerou debates e aprendizados muito significativos, envolvendo toda equipe do núcleo e diversos estudantes. Nessa semana, todos os Projetos de
Ensino e de Extensão que os alunos participam tiveram a temática da Mulher: o Ideias em Debate falou sobre A Divisão Sexual do Trabalho; o Som7 falou
sobre as mulheres na música; o Cine Campus debateu Estrelas Além do Tempo (2016) e As Sufragistas (2015); o Café com Livros leu trechos da biografia
de Pagu. Além disso, realizamos duas rodas de conversa: uma sobre Violência de Gênero, com uma defensora pública, e outra sobre a importância do
feminismo. Também realizamos duas formações sobre Feminismo, Gênero e Sexualidade na Educação, uma para os docentes do IFFar-SB e outra para os
licenciandos dos nossos Cursos de Física e Matemática (fig. 9).

Figura 9. Programação da Semana Eles por Elas no IFFar-SB, acervo das autoras.

A abertura da Semana He for She se deu com um minidocumentário (fig. 10), intitulado “Machismo nosso de cada dia” que pode ser acessado na
página do NUGEDIS no Facebook55. O objetivo do vídeo era fazer os estudantes refletirem sobre o que é feminismo, o que é machismo, o que significa a
campanha he for she e como os meninos podem repensar atitudes e comportamentos que são machistas. Nos momentos iniciais do vídeo há uma
provocação aos meninos, os levando a refletir sobre o fato de serem machistas ou feministas, em um diálogo mais ou menos assim:
1: “Você se considera feminista?”
2: “Não”
1: “Mas você não concorda que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e deveres?”
2: “Sim”
1: “Então tu é feminista?”
2: “Não”
1: “Então tu é machista?”
2: “Não também”

Figura 10. Frame do minidocumentário “Machismo nosso de cada dia” – reprodução do Facebook.

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Esse é o diálogo, mote do filme , que faz desencadear toda a sequência, culminando ao final com alguns meninos que têm “coragem” de se assumir
feministas diante da câmera, sendo que um deles ainda teve cuidado em refletir sobre o lugar de fala expressando preocupação no sentido de pensar “olha,
nunca vivi o que vocês vivem, nunca passei pelo que vocês passam, então não sei se posso me considerar feminista, mas se ser feminista é acreditar que
homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e deveres na sociedade, então sim, eu sou feminista”. O feminismo ainda é visto como um movimento
que quer assexuar as mulheres e dominar os homens, assim como era lá na década de sessenta do século passado (Friedan, 1971). Mulheres temem se dizer
feministas, com medo de afastar maridos/namorados/amantes/pretendentes e homens não podem dizer que são feministas, pois não espera-se que os
homens queiram facilmente ceder vantagem ao sexo que querem dominar.
Como uma ação, ainda nesse ano, formalizamos a página do NUGEDIS (fig. 11) na rede social Facebook, pois é a rede mais acessada pela comunidade
escolar. Como atividades principais, promovemos duas campanhas principais: a Dica de Segunda (fig. 12) e o Bafo de Quinta (fig. 13). A Dica de Segunda
são dicas de filmes, músicas, livros, atividades culturais ligadas ao universo de gênero e diversidade sexual que achamos importante divulgar e que possa
gerar esclarecimento e reflexão. O Bafo de Quinta é voltado a temas mais polêmicos que sempre estão rolando nas redes sociais, e pode ser um vídeo de
entrevistas com membros do grupo, vídeos de outras entidades ou de nossa organização.

Figura 11. Fanpage do NUGEDIS, reprodução do Facebook.

Figura 12. Dica de Segunda, reprodução do Facebook.


Figura 13. Frame do programa Bafo de Quinta sobre a polêmica da “Cura Gay”, reprodução do Facebook.

Conclusão
Sabe-se que ao longo da história as instituições como a família, a igreja, a escola e o Estado têm reproduzido uma sociedade predominantemente
patriarcal, reforçando valores, regras, costumes, crenças, e ensinamentos que fortalecem a dominação masculina. Sobre isso Louro (2007) afirma que a
discriminação causada nas sociedades, mais especificamente na brasileira, em função do gênero e sexualidade dos seres humanos, não é um problema
apenas de atitudes isoladas com caráter machista ou homofóbico. As formas de sexualidade, de vivenciar prazeres e saciar desejos precisam ser
compreendidas como problemas ou questões da sociedade, pois ultrapassam a esfera do privado e da percepção individual. São questões enraizadas na
sociedade, nas instituições, nas normas e, como todo discurso, interferem nas práticas que circulam e dão sentido a uma sociedade, reforçando estereótipos
de normalidade, identificando sujeitos normais e sujeitos patológicos (LOURO, 2007).
Como as atividades do Núcleo são recentes, ainda não conseguimos mensurar o alcance das ações propostas, mas percebemos, informalmente, através
da fala e do desabafo de pessoas próximas e que participaram desses momentos, o quanto se sentiram felizes por saberem que existe um conjunto de
medidas institucionais que busca compreender e facilitar a sua inclusão, não apenas dentro da instituição, mas em toda a sociedade, através de debates
saudáveis, críticos e necessários.
Considerando que a educação faz parte do âmbito cultural de uma sociedade, discutir essas questões dentro dos espaços e das práticas educativas,
inclusive as instituindo como temas de discussão obrigatória nos variados níveis da educação, dentro do currículo formal, é uma questão de justiça, pois é
condição para a promoção de uma sociedade mais justa e igualitária desses cidadãos e cidadãs que, para muitos, fogem à “norma”.

Referências
FRIEDAN, Betty. Mística Feminina. O livro que inspirou a revolta das mulheres americanas. Petrópolis: Vozes, 1971.
GLUZ, Nora. Discriminação positiva. In: OLIVEIRA, Dalila Andrade.; DUARTE, Adriana Cancella.; VIEIRA, Livia Fraga. Dicionário: trabalho,
profissão e condição docente. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2010.
LOURO, Guacira Louro. Gênero, sexualidade educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
________. Gênero, sexualidade educação: das afinidades políticas às tensões teórico-metodológicas. Educação em Revista. Belo Horizonte. n. 46. p. 201-
218. dez., 2007.
REIS, Toni. & EGGERT, Edla. Ideologia de Gênero: uma falácia construída sobre os planos de educação brasileiros. Educ. Soc., Campinas, v. 38, nº.
138, 9-26, jan.-mar., 2017.
SANTOMÉ, Jurjo. Currículo Escolar e Justiça Social: o cavalo de Tróia da educação. São Paulo, Brasil: Penso, 2013.

Bibliografia Legal
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: apresentação dos temas transversais: ética. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental.
3. ed. Brasília: Secretaria, 1997.
_________. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Barueri, SP: Manole, 2003.
_________. Projeto de lei no 8035/2010. Aprova o Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020 e dá outras providências, 2010. Brasília.
Disponível em http://www.camara.gov.br/sileg/integras/831421.pdf.
_________. Plano Nacional de Educação 2014-2024. Câmara dos Deputados, Edições Câmara, Série Legislação, n. 125, Brasília., 2014a.
_________. Lei n. 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação - PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, seção 1, Edição Extra, p. 1., - 26 jun., 2014b.
_________. LDB – Lei de diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da
educação nacional. Centro de Documentação e Informação. Brasília: Edições Câmara, 2015.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 9º Anuário de Segurança Pública. 2014. Disponível em:
https://www.mpma.mp.br/arquivos/CAOPCEAP/8o_anuario_brasileiro_de_seguranca_publica.pdf
IFFAR, Instituto Federal Farroupilha. Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2014-2018. s/e: Santa Maria, 2014. Disponível em:
http://w2.iffarroupilha.edu.br/site/midias/arquivos/2015324151055989pdi_14_18pdf.pdf
UNESCO. Plano nacional de educação (2001/2010) – Brasília: Senado Federal, 2001.
DANÇA E MASCULINIDADES: A PRODUÇÃO DE HETEROTOPIAS
Oneide Alessandro Silva dos Santos57
Gustavo de Oliveira Duarte58

Resumo: Este estudo reflete as relações possíveis entre dança e masculinidades a partir das subjetividades de um grupo de homens bailarinos pesquisados pelo Grupo de Estudos em Educação Cultura e
Dança (GEEDAC) do Curso de Dança Licenciatura da Universidade Federal de Santa Maria/RS. Tem como objetivo investigar espaços outros na articulação entre Arte em contextos específicos da cultura
como a Escola e a própria sociedade que propiciem maior aceitação da diferença e da autonomia das sexualidades e singularidades de sujeitos transviados. O grupo participou de processos criativos e
artísticos durante o ano de 2016, para a construção de coreografias que norteavam temas de suas próprias narrativas pessoais e no coletivo do grupo. Ao articularmos dança e masculinidades, dentro do
universo da Arte, buscamos produzir fissuras e desdobramentos de espaços e discursos hegemônicos e inventarmos espaços outros, possíveis na sua micropolítica cotidiana, nomeados de Heterotopias.
Buscamos atuar dentro do paradigma do Artivismo e da Estética da existência, onde nossa dança seja um ato político, revolucionário, transgressor, transformador. Entre armários e gavetas... eu danço!
Palavras-chave: Masculinidades; Processo Criativo; Heterotopia.

Masculinidades e a dança: negociações entre saídas e entradas


Compreendemos as masculinidades não como um conceito unilateral, cujo tratamento mostra-se hegemônico e não reconheça a importância das lutas
sociais nas quais outras masculinidades são subordinadas à (às) dominante(s). Todavia, no sentido de colocar em pauta que diferentes masculinidades estão
presentes na sociedade, assim como no universo da dança, nossa escrita configura-se acadêmico-política, ao mesmo tempo. Algumas delas que extrapolam
definições ou discursos de linha reta, hegemônicos, que tentam fugir das normas, das hierarquias de gêneros e dos modelos fechados de ser homem.
Atualmente, na cena contemporânea, mostram-se transviados, afeminados, drag queens, homens trans, gays assumidos ou, nem tanto, “do meio”, que
colocam a cara no sol, exercem suas diferentes tensões de ser (homens). Visto isso, não podemos negar as novas formas de desejos, consolidados nas
plataformas digitais de proibição, privatização e controle das masculinidades que são apontadas por Miskolci em “Desejos Digitais”59.
Propomos refletir as masculinidades no viés das “múltiplas” identidades que se transformam a todo espaço – tempo que ocupam, produzindo,
reproduzindo ou resistindo a outras masculinidades “hegemônicas” (CONNELL, MESSERSCHMIDT, 2013). Entretanto, não são reduzidas a dicotomias
essencialistas e fixas – macho/afeminado; sexo/gênero – as masculinidades apresentam-se como configurações, práticas realizáveis na ação social e
correspondem às relações estabelecidas em determinadas localidades, regionalidades e cenários sociais, desta forma “os corpos são afetados por processos
sociais” (Connell, Messerschmidt, 2013, p. 251). Neste sentido, compreendemos diferentes e muitas vezes, hierarquizadas, formas e maneiras de ser – estar
homem nas diferentes sociedades e contingências.
[...] variam de cultura a cultura, variam em diferentes períodos históricos, variam entre homens em meio a uma só cultura e variam no curso de uma vida [...]. “Cada um
desses eixos modifica os outros, por exemplo, o que significa ser um homem mais velho, negro e gay em Cleveland provavelmente é muito diferente do que significa ser
um homem jovem, fazendeiro, branco e heterossexual em Iowa” (KIMMEL, 1998, p. 106).

Os cenários sociais incorporam ideias de masculinidades, mas que se exercem por jogos transversalizados de divisões e projetos, a escola, por exemplo,
produz tipos de masculinidades que às vezes são contestadas por meninos demostrando uma rede complexa de rejeição a práticas normativas e obrigatórias
atribuídas aos homens. E claro, modificam-se na história e na cultura. É a partir do final de 1980 que estudos sobre homens e masculinidades começam a se
consolidar como campo acadêmico. Baseado em estudos anteriores de gênero criam conceitos como: masculinidade hegemônica e múltiplas
masculinidades (CONNELL, MESSERSCHMIDT, 2013).
Na história da dança do Ocidente as masculinidades dançantes de cada época foram construídas por diferentes concepções que atribuíram na arte de
dançar a ênfase no desenvolvimento de sujeitos pensantes e criativos. A partir da Idade Média a dança começa a ser sistematizada em códigos e gêneros
principalmente por homens (menestréis, ligados à religião e à nobreza) que desde muito cedo vivenciavam através de um hábito cultural a prática da dança
(BOURCIER, 1987).
Não se tinha ainda atribuições de modelos de corpos treinados “ideais” para se dançar, ou quem podia fazê-la, porém, de forma mais ampla uma prática
cultural ligada à cultura popular. Eram celebrações, rituais, comportamentos cotidianos, espetáculos e socializações permeados em diferentes espaços –
tempos. Entretanto, conforme Assis e Saraiva antes da era de Luís XIV a dança não era para todos.
Dançavam apenas os homens, que ainda não tinham formação específica nem virtuosismo técnico, e que começaram a se travestir para os papéis femininos; durante as
principais apresentações, mulheres eram apenas plateia. A dança era, então, muito além de entretenimento: as apresentações na corte tinham como objetivo a socialização e
inclusão de homens num grupo, fazendo parte da educação dos jovens da elite que ambicionavam aumentar o seu prestígio, e uma das formas de conseguir isto consistia
em encorajar as artes e a cultura. (2013, p. 306 – 307).

A igreja durante a Idade Média profanou as danças e operou atitudes contraditórias, em certos momentos proibindo-as, em outros as aceitando. No
entanto, sempre vista como “suspeita”, criando-se uma “retórica do corpo60”. Do corpo que podia dançar e também não podia, sendo os menestréis os
primeiros dotados a ensinar a arte da dança para a nobreza que se apropriava das heranças populares de cunho religioso e pagão. O saber que produz poder
em redes sem limites de fronteiras são técnicas de sujeição dos corpos (Foucault, 1979). Assim, a dança foi objeto de inúmeros decretos e interditos que
não cessaram de atingi-la, decretada por homens do alto clero tentando proibi-la: em espetáculos, danças nas igrejas, nos cemitérios, nos desfiles
processionais e nos movimentos indecentes das mulheres que dançavam a Carola (BOURCIER, 1987).
As saídas e entradas da aceitação e aproximação da dança eram negociadas através de um regime de poderes masculinos e religiosos que decidiam
como a dança deveria se estabelecer na vida das pessoas. Não operavam de forma micro ou macro, no Estado ou nos aparelhos, todavia em redes que
atingiam a todos, nas práticas e nas relações de poder (Foucault, 1979). Com o reinado de Luiz XIV que nutria a dança na Europa inclusive criando
personagens para si como “heróis e deuses”, um deles o famoso “Rei Sol”, depois fundando a Academia Real de Dança e Música que mais tarde substitui o
balé de corte. A partir da Renascença do século XVI o balé começou a se delinear na Itália, tendo na França seu apogeu. Assim, ganhando grande impulsão
e investimento a cultura ocidental passa a associar o homem que dança profissionalmente nos grandes palcos dos teatros com a “homossexualidade e
afeminação”, não mais apenas homens dançam, mas as mulheres também. A dança sendo uma manifestação cultural introduz certas divisões,
representações de papéis sexuais, acarretando no comportamento, em modelos de atitudes, relações de poder entre o feminino e o masculino (ASSIS;
SARAIVA, 2013).
Isto parte da invenção da sexualidade, no mesmo momento que se configura uma dança, resultado cultural das sociedades e que pode extrapolar as
articulações entre as singularidades do sujeito que se expressa e faz arte, criando outros espaços possíveis de intervenção no mundo. Os discursos sobre o
corpo e a sexualidade começam a se propagar em determino do controle social e político do interesse das elites, religiões e do Estado. No decorrer a
sexualidade se constrói por uma invenção, ligada inseparavelmente dos discursos e poderes que a ela própria é atribuída na cultura ocidental (SALLES,
CECCARELI, 2010).
Nossa pesquisa se entrelaça aos Estudos Culturais e a ela são justificadas ao longo desta escrita, por uma necessidade histórica e cultural, dos mesmos
negligenciarem as relações entre dança, corpo, sexualidade e suas intersecções como formas expressivas, faltando atribui-las nas perspectivas histórico-
social-culturais que se concebem em toda a trajetória das sociedades e relações humanas. Geraldo (2010) defende a arte como expansão de sentido do
mundo contemporâneo que intimamente liga-se a questionar as hegemonias e as centralidades de nível cultural e político. Pensar a arte e o gênero requer
entender o processo histórico da sociedade industrial para a polimorfa, falar de arte em um circuito de opressões conectadas, mas disfarçadas (GERALDO,
2010).
Para Andreoli (2010) a dança se instala como um espaço ou um campo de práticas culturais chegando a uma “generificação” dos corpos, a própria
dança fabrica homens e mulheres, movimentos, tensões, gestos simbólicos e significativos de representação dos gêneros e das sexualidades.
Com tudo tramitando pelas relações de poder que são exercidas constantemente nas aulas de balé clássico como exemplo. O poder é exercido, é
efetuado por uma maquinaria social que está disseminada em toda estrutura social (Foucault, 1979). As pedagogias da feminilidade adquirem um papel
crucial nas aulas de balé, onde a menina desde cedo é ensinada a ser leve, elegante, a caminhar suavemente. Em contraponto os homens que dançam balé
são tidos como desviantes ou denominados por uma falta de masculinidade (ANDREOLLI, 2010; HANNA, 1999).
A dança chega à contemporaneidade por marcas e divisões muito bem delineadas, durante o século XVII o balé se tornou refinado. Já no século XVIII
a Opera de Paris tornou-se o centro mundial da dança por grandes espetáculos, mais ligada ao corpo feminino, os homens são deixados de lado. E nos
séculos XVIII e XIX durante a revolução industrial a dança perde seu valor no mercado, o corpo começa a ser instrumento de produção, fazendo com que
os bailarinos deixassem a profissão. Apesar disso as mulheres têm mais oportunidades de apresentação e trabalho, mas eram – muitas vezes – ligadas a uma
fonte de “excitação” pelos homens e por isso muitas vezes acabavam na prostituição (ASSIS, SARAIVA, 2013; HANNA, 1999).
É nesta época que se instala a dominação da consciência do corpo que se deu a partir de um potente investimento no corpo pelo poder através da
ginástica, de exercícios, do corpo tonificado, da nudez e da exaltação do corpo belo. Isso recaiu “ao desejo do próprio corpo através de um trabalho
insistente, obstinado e meticuloso” que o poder fez sobre os corpos (Foucault, 1975, p. 146). Todavia, o corpo opôs-se ao poder, os prazeres contra as
normas morais da sexualidade, as mulheres viam-se próprias de seus corpos, mas presas a eles por outros poderes penetrados em si (FOUCAULT, 1975).
Alguns bailarinos foram essenciais para a construção e produção de novos espaços na dança61, nas destinações de poderes que seus corpos eram
meticulosamente atrelados e também nas representações das masculinidades múltiplas que se criavam – entre algumas delas estão: Sergei Diaghilev (1872-
1929) fundador do Ballets Russes moldou grandes nomes da dança, música e pintura, consolidando a arte do balé na sua época e criando movimentos para
que os homens tivessem maior aparição em cena; Michael Fokine (1880-1942) coreógrafo de Diaghilev rompeu concepções coreográficas, criando passos
similares para homens e mulheres; George Balanchine (1904-1983) revolucionou a dança desenvolvendo uma técnica totalmente nova, a partir dos estilos
dos balés clássicos francês, italiano e russo chegando à Nova Iorque e fundando a Escola de Balé Americano, defendeu durante suas obras mulheres fortes
e independentes que não precisassem do apoio de homens (ASSIS, SARAIVA, 2013).
Vaslav Nijinsky (1890-1950) famoso bailarino do Ballets Russes, ficou conhecido como o “Deus da dança” ou o “bailarino louco”, criou as obras
L’Après-Midi d’un Faune (1912), Le Sacre du Printemps (1913) e Jeux (1913). A do fauno (L’Après-Midi d’un Faune) foi a mais conhecida delas, onde
Nijinsky colocou em cena suas próprias aflições e subjetividades como artista, tentando expor a sexualidade, a homossexualidade e a androginia presentes
na sua vida, e o caso com Diaghilev, experimentando as dualidades entre o feminino e masculino na dança e o constante caos que vivia (ASSIS,
SARAIVA, 2013; FREITAS, 2017).
Em cena, Nijinsky ousou e mostrou no palco como os poderes sobre o corpo eram obstinados, em “O fauno” (obra criada após sua expulsão da Cia de
Diaghilev, por conta que se casou inesperadamente com uma mulher) dançou nu e ao final da obra se masturba. Realizou neste trabalho movimentos que
transitavam entre as ideias de gênero, queria expressar a insatisfação e revolta que vivia em seu “casamento”, querendo chamar atenção de Diaghilev.
Nijinsky revolucionou e chocou o público, só foi reconhecido nos anos 70 por seu célebre trabalho. Mais que isso, ele expôs seu lugar como sujeito,
indo contra as normas morais que criaram um pânico e “proibiram a masturbação”, instaurando sobre crianças e jovens uma “objetivação dos corpos que
eram vigiados e perseguidos” (Foucault, 1975, p. 146).
Este incrível bailarino foi internado mais tarde em torno dos 30 anos de idade com um diagnóstico de esquizofrenia ficando 30 anos internado até sua
morte. Durante o período esteve em infinitas clínicas e tratamentos, onde escreveu sobre sua rotina e também textos, gravuras e desenhos que mais tarde
tornam-se públicos, retratando na visão dos teóricos tanto sua loucura – como sua arte (FREITAS, 2017).
Este breve panorama histórico-social-cultural e reflexivo faz-se necessário para situar tanto o leitor como o processo artístico-político desta pesquisa.
Tanto nas suas origens, como suas significativas relações entre as masculinidades, negociações e coadunações entre os poderes que são exercidos sobre os
corpos, mas também pelas suas resistências. Seja pela representatividade do próprio homem, da religião ou do Estado, ou como defende Foucault nas
infinitas redes de poder. Neste sentido, nosso estudo chega até um grupo de seis homens bailarinos dos cursos de Dança Licenciatura e Dança Bacharelado
da Universidade Federal de Santa Maria. Quais as possíveis relações entre a dança e suas masculinidades na articulação de pensar-fazer Arte e produzir
outros espaços na construção de processos criativos, de resistência e micropolítica?

O processo criativo de homens que dançam


A dança vem se transformando nos últimos tempos, o corpo técnico, virtuoso e marcado por padrões de movimento no renascentismo fora deslocado
para outro corpo. Um corpo que pensa, reflete e cria seu próprio movimento através das suas experiências, sensações, desejos, contextos e escolhas. Esse
anterior engessamento “estético” e “técnico” migra-se para uma estética de corpos dançantes, da democratização das formas de dançar em diferentes
espaços – tempos que a dança ocupa e desocupa por “corpos treinados” e “não treinados” (TRAVI, 2013, p. 3).
O grupo de colaboradores foi formado por seis bailarinos dos cursos de Dança Bacharelado e Licenciatura da Universidade Federal de Santa Maria.
Nesta pesquisa e processo criativo que se estabeleceu em dois encontros semanais de duas horas cada, num período de três meses durante o primeiro
semestre de 2016. Ao final da proposta ocorreu a apresentação da obra criada em colaboração com bailarinos e pesquisadores.
Corpos que precisavam enaltecer suas trajetórias na vida acadêmico-artística estabelecendo conexões com suas próprias biografias, desejos,
inquietações tendo em vista suas sexualidades, amorosidades, conflitos entre universidade, família, espaços ocupados. Desta maneira o grupo de
masculinidades, refletia em sua unidade, um conjunto de diferentes características, deste o mais introspectivo ao mais “fora do armário”. A maioria dos
jovens tinha idade entre 18-23 anos, um deles de 43 anos, todos se reconheciam como gays. Notávamos com isso algumas conturbações entre as idades e as
diferentes visões sobre a vida de ser “homem”. Será a bicha menos homem? Como a diferença entre as rotinas, os relacionamentos e as preferências de:
estilos, vestimentas, posições entre o grupo, do mais afeminado, ao mais discreto, da “vó” e “tia” do grupo. As afetividades foram se tecendo conforme os
próprios integrantes conheciam a si e aos outros.
Encontramos também alguns paradigmas sobre o corpo masculinizado e masculinizante. Práticas inculcadas, pautadas numa cultura de homens
normativos que compõe um conjunto de condutas heterossexistas. Interessava-nos também saber como aconteciam suas relações afetivas e sexuais entre os
espaços públicos – privados, dentro do armário – fora do armário como potentes ferramentas para criação em dança.
Para Connell e Messerschmidt (2013) o crescimento nos estudos empíricos e etnográficos confirmam a pluralidade das masculinidades, a complexidade
na construção do gênero e a ideia de uma hierarquia das próprias masculinidades a partir da experiência de homens homossexuais com a violência e o
preconceito dos heterossexuais. Tal fato que a masculinidade hegemônica foi entendida como um padrão de práticas e deveres, se distinguindo das outras
subordinadas, “a masculinidade não é uma entidade fixa encarnada no corpo ou nos traços da personalidade dos indivíduos. As masculinidades são
configurações [...]” (Connell, Messerschimdt, 2013, p. 250). Assim, o gênero é produzido nas escolas, nas universidades, nas vizinhanças por estruturas de
grupo de pares, controles, padrões, e discursos que estão pelo/no corpo.
A pesquisa deu-se em duas etapas, na primeira titulada “Frescura de Guri” o grupo permeou um inventário pessoal de experiências, memórias e
infância como aporte para criar a primeira cena coreográfica. A segunda etapa consistiu no método criado por Pina Bausch para suas composições através
dos questionamentos, perguntas aglutinadoras feitas para os bailarinos: “Qual a cor do amor?” e “Qual o nome da sua saudade?”. Esta segunda etapa foi
denominada “Amores e Dores”, que de certo modo dialogavam entre si através das vivências no processo.
Utilizamos um cunho poético durante a criação (Frescura de Guri e Amores e Dores) buscando uma estética da existência própria e singular. Cada
bailarino atribuiu concepções e significados individuais e depois coletivos. O movimento corporal, gestos, signos – dialogavam com suas subjetividades
fazendo com que o grupo muitas vezes encontrasse caminhos para se colocar em sua própria composição e criação sem esquecer-se de suas vivências
passadas. São para a pesquisadora em dança Thereza Rocha (2016) modos de composição, de comunicar-se ao outro, é sem dúvida um procedimento
político – ético, um modo de existência comum de um povo que precisa falar/fala/fabula em outras linguagens do corpo pelo/no corpo.
A metáfora política-poética-ética do armário62, título geral das nossas pesquisas “Entre armários e gavetas: eu danço”, investigou as problematizações
que os colaboradores encontraram durante o seu processo artístico e de existência atrelados aos estudos culturais, de gênero, de sexualidade e da área da
Dança.
Segundo Salles (2013) o processo criativo parte de trajetos, de caminhos possíveis ou não, com base em tendências que muitas vezes são indefinidas e
vagas para o artista. Durante os encontros do grupo, foram expostas as propostas, ideias para seguir os trajetos do processo criativo, a tendência geral
estabeleceu-se “Entre armários e gavetas: eu danço!”. Sendo ponto inicial para deliberar os próximos procedimentos. Para os pesquisados o título tornou-se
vago e muitas vezes sem uma lógica, após alguns encontros o grupo foi encontrando entendimentos, afinidades e também desagrados em relação ao
processo. O puramente vago direcionou o processo criativo na construção de uma “tendência geral” que deliberou outras a seguir, para o desenvolvimento
da obra e envolvimentos dos artistas (SALLES, 2013).
O processo criativo consistiu por outros elementos que encontravam nuances, correlações aos métodos abordados. O uso de procedimentos como
objetos foi usado tecendo ligações entre os bailarinos e as possibilidades de criação, invenção e (re) significação dos mesmos. Como elucida Rocha “a alma
é uma utopia do corpo. A dança menor, uma heterotopia” (2016, p. 290), pois ela atua nos espaços da micropolítica e da microfísica do poder. Como a saia
pode subverter os papéis de feminino e masculino? Quais as negociações entre minhas experiências e os objetos colocados como disparadores da criação?
São elementos essenciais no processo criativo na construção da obra e também do artista ou de uma vida artista63.
É nestes contraespaços que localizamos e construímos nosso processo criativo. São movimentos que remetem significados existenciais e simbólicos
atribuídos por narrativas pessoais e coletivas. Notamos um caminho a partir dos processos criativos vindos de artistas que ousaram em seus projetos
artísticos como o de Nijinsky. Para Salles “trata-se de uma visão que põe em questão o conceito de obra acabada, isto é, a obra como uma forma final e
definitiva, estamos sempre diante de uma realidade em mobilidade” (2013, p. 33). Uma estética do movimento criador que não se define por si, não é fixa e
acabada, mas transitam em metamorfoses, transições e deslocamentos (SALLES, 2013).
Não estamos aqui falando de lugares impossíveis, ou das utopias – um lugar do corpo sem corpo – da fuga de si, do invisível, do inabitável ou do
seguro, do não lugar ou do im/poder. Eis que falamos das heterotopias lugares existentes em outros lugares. Toda sociedade constrói, produz e apaga suas
próprias heterotopias, é o caso dos cemitérios, dos grandes teatros, das brincadeiras de infância. Não vivemos em um espaço neutro, branco, quadrado ou
fechado, há lugares absolutamente diferentes, que se opõem a todos os outros, “essa ciência estudaria não as utopias, mas as hetero-topias, forçosamente, a
ciência em questão se chamaria, se chamará, já se chama ‘heterotopologia’” (FOUCAULT, 2013, p. 21).
Os dançarinos são, sem dúvidas, os corpos mais dilatados entre os espaços que ocupam, seus corpos estão ao mesmo tempo no interior e exterior
(FOUCAULT, 2013).
Assim os disparadores desta pesquisa foram o corpo masculino, as formas de sair e entrar no armário (e gavetas), e destes lugares que criamos e
cruzamos durante estes processos de reflexão e escrita. Deslocamentos entre os espaços “do fora”, lugares públicos e lugares privados, espaços da família e
espaços sociais “do dentro”, um espaço que visualiza os corpos para fora de si, enaltecendo suas vidas, histórias, subjetividades.
Como descreveu Foucault (1984) “é também em si um espaço heterogêneo” que se cria a partir de suas heterotopias próprias. Um lugar de
micropolítica dos corpos. Entrecruzamos isso com o método de criação em dança advindos dos trabalhos de Pina Bausch, através de perguntas.
Estes espaços de dentro/fora lembra-nos dos escritos de Eve Sedgwick (2007) em “a epistemologia do armário” que também perpassam nossa pesquisa.
A obra pioneira nos estudos gays, que traz à tona as práticas subjetivas que geram oposições do público/privado, dentro/fora, sujeito/objeto que não são
apenas características da vida gay, mas da vida social. O armário funciona como uma ferramenta de opressão, segregação e ora demandam exposição, ora
sigilo. Sedgwick descreve e analisa as epistemologias referentes a conturbadas visões sobre o desejo pessoal e público, o assumir-se gay como um processo
que envolve não só geografias pessoais e políticas, mas estruturas de gênero, de poder, de homofobias e repressões que são negociadas em novos esquemas
de demandas de sigilo ou exposição (SEDGWICK,2013).
Outro disparador propositivo do processo criativo foram duas músicas; “Desgarrados” de Mario Barbará e “Onde estará o meu amor” de Maria
Bethânia. Estas músicas escolhidas anteriormente trabalham com tendências norteadoras, são melodias e letras proponentes, não no sentido de o bailarino
representar literalmente, mas de (re)criar, (re)significar com sua estética, significados e movimentos próprios – “tudo isso faz desabrochar, de forma
sensível e matizada, as utopias seladas no corpo” (Foucault, 2013, p. 13).
A obra foi construída com cenas individuais, com duos e posteriormente com o pequeno coletivo de bailarinos. Buscamos preservar as singularidades e
possibilidades de cada um, todavia, no decorrer as criações foram juntando-se umas nas outras, culminando na socialização, criação coletiva e colaborativa
da obra.

Artivismo e heterotopias possíveis


Nos últimos anos temos acompanhado o surgimento de vários artistas que questionam os binarismos e as naturalizações em relação às questões de
gênero e sexualidade. Chamados de artistas “marginais”, estes cada vez mais ganham espaço e reconhecimento na grande mídia e mostram-se a partir de
outro paradigma, tanto artístico quanto social. Tais dissidências, em contraponto à questão da diversidade, tão solta e de certa maneira já normalizada e
pouco potente, jogam de modo a desestabilizar as hierarquias tão presentes em estudos acadêmicos quanto dentro dos próprios movimentos sociais,
construindo uma ideia de Artivismo (COLLING, 2017). Isto é, linguagens artísticas fogem da lógica e da expectativa tradicional e tematizam, sem regras,
pudores ou falsos moralismos, as questões do corpo e do prazer e visibilizando outros jogos de corpo, de poderes e de saberes.
Estas novas produções artísticas, seja na música ou na dança, podem aprofundar o diálogo com uma nova política de gênero que vem sendo pensada, há
alguns anos, que se filiam aos estudos queer. Desde o famoso e quase desconhecido Grupo Dzi Croquettes, do inclassificável e transgressor Ney
Matogrosso, atualmente uma nova geração de artistas vêm contribuindo para a construção de uma nova configuração deste novo paradigma político-
artístico: Liniker, Johnny Hooker e Linn da Quebrada são apenas alguns exemplos. No universo da performance e da dança ainda podemos citar os
trabalhos de Ricardo Marinelli, entre eles “não alimente os animais”.
Inspirados na potência, na dor e na delícia da recorrente trajetória de homossexuais no cenário brasileiro, infelizmente ainda muito violenta e
homofóbica, construímos “Frescura de Guri” e “Amores e Dores”, nossas heterotopias possíveis por meio destes lugares de micropolítica dilatados em
outros espaços nossos e reais. Segundo Michel Foucault:
Há também, e isto provavelmente em toda cultura, em toda civilização, lugares reais, lugares efetivos, lugares que são desenhados na constituição mesma da sociedade, e
que são algo como counter-sites/ contra-sites, espécies de utopias efetivamente realizadas nas quais os lugares reais, todos os outros lugares reais que se pode encontrar no
interior da cultura, são simultaneamente representados, contestados e invertidos; espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, mesmo quando eles sejam
efetivamente localizáveis. Uma vez que estes lugares são completamente diferentes de todos os outros lugares que eles refletem e dos quais eles falam, eu os chamarei
HETEROTOPIAS. (FOUCAULT, 1984, p. 4)

Neste sentido, afirmamos a dança, como linguagem artística, como potencial político e libertador dos corpos, sobretudo os corpos marginais,
desviantes, transviados, de homens que se autodenominam gays, homossexuais assumidos. De acordo com Fernando Pocahy (2011) buscamos
problematizar os jogos de verdade associados às práticas homoeróticas e homoafetivas de homens jovens, alunos de um Curso de Graduação em Dança, no
interior do RS, que se aproximam da perspectiva de uma ascese para uma vida criativa, a partir de uma inspiração foucaultiana.
Estamos por falar de espaço-tempo numa perspectiva desses contraespaços que bailarinos, artistas, professores criamos a partir de situações não
hegemônicas. São lugares acessíveis, porém, não convencionais e atualmente vigiados. Encontramos e nos desencontramos ao mesmo tempo em que
estamos em um Espaço de Aula – Espaço Escola – Espaço Palco transgrido esses locais em outros, onde interior e exterior não estão separados, mas
funcionam como um continuum.
Os bailarinos criadores visitam lugares-tempos cênicos surpreendentes, subjetivos e sensíveis. Não são lugares palpáveis fisicamente, é como revisitar a
infância, estar em cena, falar sobre quem somos são contraespaços produzidos por nós e que andam esquecidos pelas sociedades.
O conceito de heterotopia vindo de Foucault ajuda-nos a repensar o lugar dos poderes, das relações de engessamento dos corpos, em um viés de corpos
utópicos, corpos vivos e transgressores. A exploração destes outros espaços que atravessam a micropolítica destes corpos em tempos dilatados, expandidos
de compreensão e percepção, vão ao encontro deste processo criativo em dança.
Notamos que em cada corpo há um universo de possibilidades, de momentos, sensações. Nesse encontro entre quem vê o artista em cena cria-se outros
espaços heterotópicos, às vezes localizáveis, literais – noutros imagéticos e expansivos. Os corpos não são mais “dóceis”, eles resistem, transgridem,
burlam a regra – fazem outros espaços também chamados de Artivismo.

Referências
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CULTURA DO ESTUPRO, CULTURA PATRIARCAL E BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE DE DISCURSO DO ESTUPRO
COLETIVO NO RIO DE JANEIRO EM 2016
Iris Nabolotnyj Martinez64
Susana Cesco65

Resumo: A cultura por ser um conceito polissêmico assume um sentido específico quando está conjugado. “Cultura do estupro” é um termo que ganhou repercussão nacional e internacional em 2016, com o
caso da menor de idade que sofreu estupro coletivo no Rio de Janeiro. Dentre as diversas interpretações do repertório coletivo, esse estudo pretende analisar o uso terminológico que “cultura do estupro”
assumiu diante do seu debate público. A teoria política feminista respalda essa discussão, e a metodologia qualitativa de análise crítica do discurso será o meio pelo qual buscar-se-á indicar caminhos sobre
como a cultura patriarcal tem sugerido a banalização da violência contra as mulheres na sociedade brasileira.
Palavras-chave: Cultura do estupro, Cultura Patriarcal, Banalização da violência contra as mulheres.

Introdução
Cultura é um conceito complexo que adorna-se de acordo com as mais distintas áreas do conhecimento. Em sua compreensão etimológica, denominar-
se algo de “cultura” preconiza hibridez hermenêutica. As transformações temporais de sua etimologia são construídas ao longo da história e “a forma geral
da linguagem se modifica ao se submeter a um conjunto de processos simultâneos, como os de democratização, temporalização e ideologização”
(JASMIM, 2006: 10). Dessa modificação, os processos que a linguagem sofre podem desgastar conceitos. E a palavra cultura sofreu esse desgaste
(EAGLETON, 2011).
Em contrapartida, a realidade social incorpora, dinamiza e conjuga a compreensão desta linguagem a partir do seu reconhecimento, atribuindo uma
nova compreensão em constante dialógica (KOSELLECK, 2006). A conjunção “cultura do estupro” integra um sentido político. Foi referendada a partir da
teoria política feminista e sua confluência denuncia a cultura patriarcal. Retrata, além disso, a desigualdade das relações sexuais de gênero admitindo a
interiorização dos homens sobre o acesso aos corpos das mulheres, problematizando aspectos da violência física e sexual, em que se naturaliza um abuso,
uma violação ao corpo de outrem, o crime do estupro.
O cerne dessa pesquisa é compreender o sentido discursivo da linguagem dessa terminologia, que adquire diante de seu debate público diferentes tons.
Para isso, a metodologia utilizada é a qualitativa, de cunho explicativo, em que por meio da revisão bibliográfica compreender-se-á aspectos políticos que
naturalizam a “cultura do estupro”. Além disso, a análise crítica do discurso será a abordagem do objeto empírico aqui proposto: tweets da rede social
Twitter, observando a repercussão nacional que o caso da menor de idade estuprada coletivamente por 30 homens, alcançou.
O trabalho está dividido em três momentos: (i) a contribuição da teoria política feminista em prol do entendimento da cultura patriarcal, (ii) pesquisa
empírica da repercussão do caso de estupro coletivo na rede social Twitter, e (iii) por fim, considerações finais serão apontadas.

Desenvolvimento
Este estudo foi parte da avaliação da disciplina de Cultura e Patrimônio, no mestrado profissional em Políticas Públicas da Universidade Federal do
Pampa. A metodologia utilizada nele foi a qualitativa que se valeu de duas abordagens: no embasamento teórico a abordagem foi explicativa, na coleta de
dados (tweets), a análise crítica do discurso (NOGUEIRA, 2008).
Além disso, foram criados critérios de seletividade na Rede Social pesquisada. Devido à complexidade dos comentários no Twitter, que obtinham
hashtags #culturadoestupro e #RJ, e, no entanto, não apresentavam conteúdo coerente com o tema (exemplo: link de notícias e opiniões de outras pessoas
que não a dos usuários), foram criados dois critérios de seleção de tweets: o primeiro, para acessar os comentários dos usuários, cidadãos comuns, foi pelo
mecanismo virtual de apuração de pesquisa do Twitter que organiza as publicações mais acessadas no topo lista; o segundo, para acessar comentários de
figuras públicas, o critério de seleção foi diferente, não foi encontrado figuras públicas utilizando hashtags, assim, a chave de busca foi “figuras públicas
sobre estupro coletivo 2016” realizada no Google. Visto que a abrangência das notícias é maior neste site, a seleção foi dada a partir do mesmo critério de
tweets populares, segundo o grau de coerência e objetividade com o tema.
Carole Pateman (1996), politóloga norte-americana, realiza uma releitura das teorias liberais clássicas que exploram a despolitização da sociedade civil
perdendo de vista o sentido específico do “político”. Aponta ela que no âmbito público todos deveriam ser tratados sem levar em conta fatores como o sexo
de cada qual, pois as pessoas como criaturas temporalmente limitadas, bem como biologicamente e culturalmente específicas. Enfatiza ainda que a
dualidade entre feminino e masculino serve para esconder separações: feminino (natureza, pessoal, emocional, amor, privado, intuição, moralidade,
adscrição, particular, submissão) e masculino (cultura, política, razão, justiça, público, filosofia, poder, êxito, universal, liberdade). Tal dualidade perversa
se revela por meio do discurso não de que as mulheres “naturalmente” trazem as crianças à vida, mas de que são elas que “naturalmente” devem criá-las.
Mas não se trata de substituir oposições por negações (rejeitando a natureza), tampouco se trata de harmonizar as oposições. O que Pateman (1996) sugere
é uma sociedade na qual suas dimensões sejam distintas, porém, não opostas: a individualidade sem desigualdade.
Pateman (1995) parte da história do contrato social e reconhece a construção da diferença sexual como diferença política. Ela teoriza sobre as condições
pelas quais as mulheres foram incorporadas ao espaço público, à cidadania e à democracia. O argumento é o de que a teoria política moderna opera com
categorias patriarcais e universais do indivíduo dentro da distinção público-privado. O dispositivo posto em marcha pelos teóricos do pensamento moderno
de que em estado de natureza os homens nascem livres, e por isso realizam o contrato social (a sujeição civil moderna) esconde que essas categorias são
inseparáveis de outro contrato: o sexual, que pertence ao mundo privado. O apelo de Pateman é para que a história seja recontada a partir do ponto de vista
das mulheres. É através da história do contrato social que os cidadãos podem ver-se como membros de uma comunidade. A teoria política contribui para
refletir nossa identidade: “mas quem nós somos? Somente os homens” (PATEMAN, 1995: 303). Ou seja, a história tem falado às mulheres por meio da
linguagem masculina, tal como a referência ao termo indivíduo, uma categoria masculina, ao se referir também às mulheres.
A autora combate algumas premissas que ela considerava equivocadas do próprio feminismo, tal como a defesa da prostituição como meramente um
trabalho assalariado. Do ponto de vista contratualista a prostituta vende sua força de trabalho por um período, logo, a prostituição é um contrato de
emprego. Sob esta angulação a prostituta se torna dona de uma propriedade e vende seus serviços sexuais. Porém, como alguém pode ser, ao mesmo tempo,
proprietário (indivíduo possessivo) e propriedade? Só há a prostituição porque ela é uma mulher: “A história do contrato sexual revela que há boas razões
para que ‘a prostituta’ seja uma figura feminina” (PATEMAN, 1995: 264) (tradução da autora). A naturalização da dominação masculina sobre os corpos
das mulheres é confirmada pela indústria do sexo: “A satisfação dos impulsos sexuais naturais dos homens deve ser satisfeita através do acesso sexual às
mulheres, mesmo quando seu corpo não seja utilizado sexualmente de forma direta” (PATEMAN, 1995: 275) (tradução da autora).
A vitória do contrato não significou o fim do patriarcado, e sim a consolidação de sua forma moderna. Relações completamente livres são impossíveis
dentro da oposição patriarcal de masculinidade e feminilidade. O que está em jogo para a autora é que por detrás do contrato de prostituição (serviços
sexuais) é o acesso sistemático dos homens aos corpos das mulheres. A promessa emancipatória do contrato não se cumprirá enquanto as mulheres forem
reconhecidas como “indivíduos”, sexualmente neutros. Cidadãos são os homens: os corpos diferentes destes em relação aos das mulheres as obriga a
lutarem pela cidadania enquanto mulheres. Elas devem ser incorporadas à comunidade política de forma corpórea, dotadas de capacidades distintas (por
exemplo, de criar vida), e não como abstrações descorporificadas (PATEMAN, 1995).
Teresa Caldeira (2000), antropóloga urbana, entre o final dos anos 80 e início dos 90, debruça-se sobre a temática da violência urbana no Brasil,
buscando identificar os discursos que reproduzem “o medo” e a cultura de desrespeito aos direitos humanos. Caldeira assim como Pateman (1995), afirma
que as mulheres são as mais desprotegidas perante as facetas da violência. Isto porque “as instituições da ordem” (CALDEIRA, 2000: 135) são instituições
que “estão contribuindo para o crescimento da violência” (op. cit.) ao invés de controlá-la. Por conseguinte, no Brasil a violência é institucionalizada por
meio de aparatos jurídicos que são introjetados inclusive no universo privado por ser “uma linguagem regular da autoridade, tanto pública quanto privada,
isto é, do Estado ou do chefe de família” (CALDEIRA, 2000: 139).
O Estado moderno, da sociedade contratualista, na Europa propôs medidas disciplinares que resultaram “na docilidade dos corpos e na circunscrição
dos indivíduos” (CALDEIRA, 2000: 373). Sobremaneira, naquela sociedade, as duas promessas antagônicas – de um lado, a teoria contratualista
prometendo igualdade, e de outro, as medidas disciplinares reproduzindo hierarquia e dominação racional – contribuíram para legitimar maneiras de
exercer o poder em relação aos indivíduos. Porém, há um recorte patriarcal no contrato originário de ascensão do Estado moderno. Trata-se de
um contrato entre homens que por princípio excluí e subordina as mulheres. [...] Assim, não há grande especificidade no fato de que na sociedade brasileira a reprodução
de padrões de dominação [...] tenha coexistido com a afirmação de princípios liberais igualitários. [...] Essa unidade deu espaço para que várias instituições herdadas da
escravidão – inclusive o castigo físico – persistissem basicamente incontestadas (CALDEIRA, 2000: 140).

Nesta leitura, a violência é entendida como um problema público e obscurece a percepção de sua presença nos relacionamentos domésticos onde os
mais vulneráveis, as crianças e as mulheres, habitam. Trata-se de um problema grave que se soma a uma cultura de desrespeito aos direitos humanos e que
recebe forte apoio de grande parcela da população brasileira. É neste sentido que:
temos que considerar a prática disseminada e o apoio a intervenções violentas no corpo (o que inclui o espancamento de mulheres e crianças dentro de casa que
supostamente deveria protegê-las). Em outras palavras, práticas de violência dentro de casa e práticas públicas de violência não podem ser colocadas em oposição, e, o
mais importante, não podem ser separadas de noções de direitos individuais e do estado de direito. A violência doméstica é constitutiva do padrão brasileiro de direitos
individuais e não oposta a ele (CALDEIRA, 2000: 142)

Essa condição social brasileira que viola os limites no corpo humano engendrou um modelo de democracia que legitima razoavelmente os direitos
sociais, mas que nos seus aspectos civis são continuamente violados. Tal desrespeito aos direitos individuais faz Caldeira (2000) formular a concepção de
corpo incircunscrito que corresponde na tolerância da violência e das intervenções no corpo. O conceito de corpo incircunscrito significa a falta de limites
sobre manipulação do corpo de outra pessoa, na proliferação da violência e na deslegitimação da justiça e dos direitos individuais. Nos depoimentos da
população paulistana, Caldeira (2010) reconhece em seus discursos o tom que a punição física possui, como meio de vingança privada naturalizada, aceita
pelos indivíduos.
um sistema que usa a dor e as intervenções no corpo como meio de criar ordem. [...] A naturalidade com que as pessoas falam sobre a vingança privada e sobre tirar uma
vida está associada à naturalidade com que lidam com a punição física em geral. Perguntei a todos que entrevistei o que achavam de bater em crianças. Apesar de o
movimento feminista ter conseguido estigmatizar o espancamento de mulheres e de a violência contra crianças de rua ser criticada pela maioria da população, bater nos
filhos por razões disciplinares ainda é algo corriqueiro (Caldeira, 2000: 360 - 365).

Esta violência velada, como um meio de criar ordem, instaura-se na família que uma vez institucionalizada opera o que os entrevistados encaram como
“boa pedagogia”: a disciplina por meio da ameaça, do medo e da dor, noção aplicada diretamente à esfera pública a fim de gerar obediência: “a marcação
do corpo pela dor é percebida como uma afirmação mais poderosa do que aquela que meras palavras poderiam fazer, e deveria ser usada especialmente
quando a linguagem e os argumentos racionais não são entendidos” (CALDEIRA, 2000: 366). E ainda, o uso da dor como meio de estabelecer a ordem está
“tão enraizada na vida cotidiana que se tornou uma norma” (CALDEIRA, 2000: 368). Ou seja, o significado da violência perpassa não somente a uma
medida corretiva, mas vai além, a violência toma a veste da legitimação da autoridade, uma ferramenta de poder admitida, interiorizada e reproduzida por
todos. Os indivíduos concebem o corpo como um local de punição e justiça no Brasil. É nele que se inscreve, através da punição, a autoridade.
Do ponto de vista do controle das mulheres sobre o seu corpo “as decisões reprodutivas das mulheres estão sendo tomadas de maneiras que normalizam
uma drástica interferência no corpo” (CALDEIRA, 2000: 371). Cirurgias plásticas de todos os tipos que vêm sendo realizadas pelas mulheres da classe
média. Dado como certo e visto como natural refere-se àquilo que faz do “Brasil, Brasil: a exibição de corpos nas praias, a sensualidade aberta e muitas
vezes descrita como uma sensualidade ‘flexível’, a valorização da proximidade dos corpos, o carnaval e sua mistura de corpos e o brincar com suas
transformações” (CALDEIRA, 2000: 371).
Devido aos moldes imperiais, patriarcais e liberais, em um contexto histórico latino-americano colonizado por portugueses, o Brasil negligenciou
medidas sobre os termos sociais e políticos atrelados à dimensão da individualidade autocontida. Neste sentido, os direitos individuais – especialmente os
das mulheres – devem ser construídos a partir da própria realidade brasileira, isso quer dizer, “história e cultura, o que inclui a concepção incircunscrita do
corpo tanto na dimensão legal quanto na experiencial” (CALDEIRA, 2000: 376).
Não é objetivo desse estudo problematizar o “eurocentrismo da noção de cultura-como-civilização-universal” (EAGLETON, 2011: 24) desqualificando
culturas “primitivas” em prol de um concepção pronta de civilidade, até porque o que aqui se trata é de uma conjunção entre cultura e estupro. Se há tensão
na ideia de cultura, há crise, (EAGLETON, 2011) e a concepção de civilidade possui também igual embate de sentidos. De um lado, como apresenta
Pateman (1996-1995), a civilidade do Estado moderno restringe os direitos privilegiando os homens, de outro, como apresenta Caldeira (2000), a civilidade
do Estado moderno instaura e normatiza os limites das liberdades individuais que organizam a sociedade de forma mais harmônica. O ponto chave aqui
reside na interpretação do conceito (nesse estudo “cultura do estupro” e não somente “cultura”) que possui sentidos linguísticos que são históricos
peculiares (KOSELLECK, 2006).
A naturalização patriarcal (PATEMAN, 1995-1996) e o corpo incircunscrito (CALDEIRA, 2000) podem ser visualizados no Brasil após o estupro
coletivo de uma adolescente de 16 anos por cerca de trinta homens no Rio de Janeiro, em maio de 201666. Diante da popularização do caso, a terminologia
“cultura do estupro” liderou as hashtags do país, como uma mobilização social em prol da não naturalização patriarcal. No entanto, não quer dizer que a
população tenha profundamente compreendido o que isso significa. Repetir não é o mesmo que compreender. Segundo a Organização das Nações Unidas
no Brasil (ONUBR),
cultura do estupro é um termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos
homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura do estupro.
“Mas ela estava de saia curta”, “mas ela estava indo para uma festa”, “mas ela não deveria andar sozinha à noite”, “mas ela estava pedindo”, “mas ela estava provocando”
– estes são alguns exemplos de argumentos comumente usados na cultura do estupro. A cultura do estupro é uma consequência da naturalização de atos e comportamentos
machistas, sexistas e misóginos, que estimulam agressões sexuais e outras formas de violência contra as mulheres. Esses comportamentos podem ser manifestados de
diversas formas, incluindo cantadas de rua, piadas sexistas, ameaças, assédio moral ou sexual, estupro e feminicídio. Na cultura do estupro, as mulheres vivem sob
constante ameaça. A cultura do estupro é violenta e tem consequências sérias. Ela fere os direitos humanos, em especial os direitos humanos das mulheres (2016 s/p).

A cultura do estupro é a ascensão da cultura patriarcal interiorizada e reproduzida. O caso do estupro coletivo no Brasil reverberou e a discussão sobre a
violência contra as mulheres na mídia e nas redes sociais ganhou repercussão nacional e internacional.
Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/05/cultura-do-estupro-no-brasil-e-destaque-na-imprensa-internacional.html. Acesso em: 10 de outubro de 2016.

Desse modo, o tema surge nas redes sociais a partir da postagem de um dos suspeitos do crime. O vídeo publicado no Twitter em tom sarcástico, dia 25
de março, e exibia a menor de idade desacordada e seminua em cima de uma cama. Em poucos minutos a postagem viralizou-se e as reações ao ocorrido
não cessaram, causando muitas comoções, inclusive com argumentos que naturalizam o fato e culpabilizam as vítimas deste tipo de crime.

Fonte: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/05/rapaz-que-divulgou-imagem-alega-que-nao-sabia-que-jovem-foi-estuprada.html

Este caso aponta elementos sobre comportamento social que convidam a uma análise mais aprofundada, pois a conjunção “cultura do estupro”
perpassou por processos de introjeção pelos indivíduos, em um insight gerado pela repercussão nacional. O psicoterapeuta Nolasco (2001), ao analisar a
banalização da violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais, identifica a existência da representação social masculina positivada, ou seja,
um projeto de sujeito voltado para o mercado, para a tecnologia e para a política. O processo de emancipação dessa representação iniciou com o
individualismo moderno e as democracias de mercado, onde atributos como a permissividade, o relativismo e o hedonismo orientaram o eixo dos seus
ideais. “Isto quer dizer que as representações de homem e mulher são relacionais e estão implicadas uma na outra”, porque “certas culturas são mais
individualistas do que outras, permitindo níveis e graus de particularidades específicos”. Além do individualismo presente nas culturas “cada cultura
valoriza determinados sentimentos e condena outros, como forma de modelar a representação social do sujeito” (p. 148).
Diante disso, para auxiliar a compreensão do objeto empírico aqui proposto, a abordagem metodológica utilizada será a análise crítica do discurso, que
explica
devido ao seu caráter construtivo da realidade social, o discurso tem um efeito decisivo no modo como se configura o mundo social (Llombart, 1995). As práticas
discursivas são afinal práticas sociais, produzidas através de relações de poder concretas, numa época determinada. Estas relações, por seu lado, apontam para certos
efeitos que regulam e controlam a ordem social. [...] A partir de um ponto de vista Foucaultiano, os discursos facilitam e limitam, permitem e constrangem o que pode ser
dito, por quem, quando e onde (Parker, 1992). Aqui o discurso pode ser definido como conjunto de afirmações que constrói objectos e uma gama de
posicionamento/posições do sujeito (Parker, 2002). Por seu turno, estas construções disponibilizam certas formas de ver o mundo e certas formas de ser no mundo. O
discurso oferece posições do sujeito que quando assumidas têm implicações para a subjectividade e experiência [...] Com foco nas questões de poder, a perspectiva macro
está especialmente interessada em analisar várias formas de desigualdades sociais, tais como o género (NOGUEIRA, 2008, p. 240-241).

Dessa forma, optou-se por orientar a pesquisa na rede social Twitter, visto que este cenário virtual polemizou o debate sobre a cultura do estupro do
caso aqui proposto. A busca pelos usuários se deu através da chave hashtags: #estuprocoletivo e #RJ. Dos tweets filtrados, os mais relevantes foram
submetidos à análise a partir do critério objetividade com tema67. Sua relevância era indicada a partir do grau de coerência e objetividade. Além disso, o
período de trending topics68 é de em média 15 dias. Ou seja, o critério de seleção dos tweets foi estipulado de 25 de março a 10 de junho de 2016. Além
disso, a preservação da imagem dos usuários também foi resguardada, exceto das figuras públicas, pois elas possuem maior capacidade de impulsionar
debates e influenciar posições69. Neste sentido, foram identificadas duas figuras públicas. Já o total de tweets coletados foram 10. Destes, organizou-se
previamente a análise conforme determinadas características que deram o tom dos discursos: (i) pró-cultura do estupro: relacionado à aprovação ao estupro
coletivo de forma implícita (brincadeiras e ironias) ou explícita; (ii) contracultura do estupro: relacionada à desaprovação ao estupro coletivo70.
Relembrando Nogueira (2008) ao referir à análise crítica do discurso: os dois critérios criados propõem orientar a dominância do discurso de poder que
permite e constrange o que pode ser dito sobre determinado grupo social. Que, neste caso, dá-se pela análise do discurso da cultura patriarcal.
(i) Pró-cultura do estupro: Primeiro, de forma geral é possível apontar que aqueles que se posicionam de maneira assertiva pró-cultura do estupro são
homens. Eles não reconhecem a vítima como proprietária de si mesma (PATEMAN, 1995-1996), existindo em seus discursos a naturalização patriarcal.
Demonstram ainda, nos tons da ironia e do sarcasmo, superioridade masculina e julgamento moral sobre as mulheres. Esses fatores indicam o caráter
reacionário dos discursos.
1
Os quatro primeiros tweets compactados em uma única imagem (imagem abaixo) indicam ironia, sarcasmo e comparação, tudo em tom de
“brincadeira”. Há banalização da violência por meio do trecho “amassaram a mina, ‘intendeu’ ou não ‘intendeu’? kkk”. Além disso, as falas “Deixaram que
nem a avenida Brasil...”, “onde o trem passou...” e “...o trem rasgou firme essa aí” demonstram o despotismo masculino, objetifica o corpo da vítima,
comparando-a com uma avenida na qual o trem passa.

No segundo tweet, (imagem abaixo) novamente em tom de ironia e sarcasmo, está implícito, por meio da culpabilização e do incentivo à cultura do
estupro. No trecho em que o usuário discorre que impediu uma mulher de ser estuprada por meio do “Autocontrole!!!” demonstra a violação por meio do
discurso liberdade das mulheres (a de privacidade e a de consentimento – PATEMAN, 1996-1995) e reitera a falta de contenção do homem (ideia de
civilidade – CALDEIRA, 2000) sobre o corpo da mulher.

No terceiro tweet, elege-se a figura pública do humorista Danilo Gentili, a fim de demonstrar o que Nogueira (2008) adianta quando retrata que as
análises críticas do discurso devem identificar nas práticas discursivas práticas sociais “produzidas através de relações de poder concretas, numa época
determinada. Estas relações, por seu lado, apontam para certos efeitos que regulam e controlam a ordem social” (p. 240). Os efeitos da opinião de uma
figura pública são mais consistentes e se perpetuam tornando-se muitas vezes “verdades” reproduzidas por muitas pessoas. Dessa forma, no trecho “O cara
esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela [...] o nome que se dá pra um cara desses: gênio” reflete o tom da sua linguagem banalizando a
violência por meio da representação social masculina positivada. Além disso, o humorista expressa atributos de permissividade, de relativismo e de
hedonismo (NOLASCO, 2001). Há ainda, semelhanças entre os humoristas brasileiros e aos arquétipos americanizados de Homer J. Simpson (personagem
chefe da série americana “Os Simpsons”). Os stand-ups comedy brasileiros são inspirações de modelos como este que em sua representação adquire as
seguintes personificações artísticas: brancos, ignorantes, frustrados, heterossexuais, bebem cerveja enquanto assistem à televisão, é grosso, mal-educado,
sem nenhum senso de civilidade (NOLASCO, 2001). Essas personificações além de artísticas carregam um sentido político: ou seja, os caricatos dos
humoristas brasileiros reforçam a cultura patriarcal assumindo uma representação social.
(ii) Contracultura do estupro: O campo de luta histórico pelo qual a contracultura do estupro embate representa-se por mulheres que “tuitam” em
postura oposta ao estupro coletivo. O ponto comum observado nos tweets foi identificação da subalternidade e da necessidade de igualdade entre os sexos.
Desse modo, o primeiro tweet demonstra o caráter patriarcal do aparato jurídico brasileiro, onde as Instituições da Ordem têm o poder de deslegitimar
os direitos humanos (CALDEIRA, 2000). No trecho “A voz da justiça patriarcal: “A gente está investigando se houve consentimento dela”. Apenas,
NOJO!” a usuária, referindo-se à repercussão publicizada do comentário de um dos responsáveis pelo caso, demonstra na forma de sua linguagem uma
indignação com a instituição que deveria proteger a vítima e não expô-la a maiores comentários.

O segundo tweet traz um posicionamento sobre a naturalização do comportamento masculino. No trecho “pq nunca vi mulheres doparem um homem,
estuprarem e postarem o vídeo do estupro na internet” demonstra uma linguagem, não, de que não exista estupro realizado por mulheres, mas de que a
proporção de homens que expõem mulheres sexualmente é em maior do que aquela de mulheres por homens. “As taxas de envolvimento dos homens em
situações de violência crescem em uma sociedade que prescindiu a forma física, substituindo-a pela tecnológica” (NOLASCO, 2001: 49).

O tom discursivo do terceiro tweet faz referência à seriedade que merece esta pauta, pois há larga diferença entre julgamento moral e julgamento
jurídico/político. No trecho “na minha opinião não foi estupro! [...] crime não é opinião” a forma da linguagem aponta para uma superação dos ditames
morais em prol de um olhar mais racional sobre as questões sociais que envolvem a violência sexual contra as mulheres.
O quarto tweet, da figura pública, cantora, Pitty, traz na terminologia “relativizar” (comumente utilizada na antropologia cultural) o discurso sobre a
cultura do estupro. No trecho “parem de relativizar estupradores como “doentes”, “monstros”, antes disso tudo eles são HOMENS. e fizeram pq
aprenderam que podiam fazer” indica que o tom de sua linguagem demonstra a compreensão da diferença sexual como diferença política (PATEMAN,
2000). A naturalização das práticas masculinas passa, antes de tudo, pela instituição política da família, logo, se foram educados pró-cultura do estupro não
se pode relativizar.

Dito isto, uma vez que os fundamentalismos e valores morais da subjetividade humana, em especial masculina, são inseridos na infância e no decorrer
do processo de inserção social, a construção de sua representação também o é. Segundo Nolasco (2001) essa representação perpassa três noções: (i) “a
ênfase do trabalho físico e em ser eficiente no cumprimento das tarefas designadas”; (ii) a ideia de grandeza, seja em termos “físicos, de posse” associados
a “riqueza, ao privilegio e ao poder”; (iii) as conquistas pessoais obtidas ao dirigir suas ações para contribuir a sociedade como um todo” (p. 89).
Visto que a representação masculina carrega uma gama de sentidos sobre a linguagem histórica que molda a sua cultura em um discurso dominante
patriarcal, relegando e constrangendo discussões sobre a cultura do estupro, o mesmo ocorre com a representação feminina. O caso de estupro coletivo no
Brasil vem sendo intensamente problematizado nas redes sociais e na vida cotidiana, sendo um paradigma insurgente em prol da mudança no sentido das
linguagens que circundam a cultura patriarcal.
Dessa maneira, a seção proposta visou à análise empírica sobre a cultura do estupro com o caso da menor de idade que sofreu estupro coletivo por cerca
de 30 homens, em maio, no Rio de Janeiro. O objeto desta análise foi a coleta de tweets nas redes sociais citando o assunto.

Conclusão
Finalmente, esse estudo buscou analisar o uso terminológico que a “cultura do estupro” assume diante do seu debate público. Não há, no entanto, como
compreender a cultura do estupro, sem, antes, compreender a cultura patriarcal. Na primeira seção, as contribuições teóricas foram explicativas no sentido
de esclarecer que homens e mulheres são criaturas biológicas diferentes, temporalmente limitadas e culturalmente específicas, por isso devem assumir a
diferença sexual sem separação social ou desigualdade política. A naturalização da cultura patriarcal se deu dentro desses paradigmas. A construção
histórica do contrato social é a construção histórica do contrato sexual, pois as mulheres foram excluídas do contrato original e o seu direito de consentir foi
simbolicamente e politicamente modificado. Desde então o acesso dos homens sobre os corpos das mulheres tem absorvido o sentido de propriedade. As
mulheres não são vistas como proprietárias de si mesmas (indivíduo possessivo, teoria contratualista), mas como propriedades. Essa representação
simbólica objetificada da figura feminina trouxe consequências em todas as áreas das relações sociais (PATEMAN, 1996-1995).
A segunda contribuição teórica verificou que as mulheres são as mais desprotegidas perante as facetas da violência, pois as instituições da ordem, que
deveriam em tese protegê-las, só normatizam a violência. No Brasil, a violência é considerada uma medida pedagógica. A sensualidade aberta e flexível
modifica o ideário nacional contribuindo para um repertório simbólico no qual a invasão aos corpos é naturalizada. A cultura patriarcal reproduz-se em
larga escala por diversos comportamentos sociais (CALDEIRA, 2000).
Na segunda seção, amparou-se em duas pesquisas empíricas sobre a cultura do estupro. O caso escolhido foi o estupro coletivo do Rio de Janeiro, em
2016. Foram coletados 10 tweets que foram divididos em duas categorias a partir das teorias: 6 deles pró-cultura do estupro, 4 deles contracultura do
estupro. De um lado, a cultura patriarcal tencionou o campo simbólico e constrangeu a legitimação da linguagem daqueles contracultura do estupro, por
meio dos 6 tweets pró-cultura do estupro que demonstraram de ironia, sarcasmo, diferença por meio da comparação e julgamento moral, que demonstra o
tom reacionário dos argumentos obtidos. Em reflexão final, a versão pró-cultura do estupro visa à manutenção do status quo masculino, logo,
dimensionando o seu caráter conservador. Por outro lado, aqueles 4 tweets contracultura do estupro trouxeram a teoria política feminista implícita em seus
argumentos, recontando uma nova versão sobre a vítima de violência no caso, resistindo por meio de seriedade com o tema e problematização da igualdade
entre os sexos, que demonstrou o tom proativo dos argumentos. O que pôde-se analisar sobre esta versão sua atuação é revolucionar o status quo
masculino, logo, dimensionando o seu caráter progressista.
O poder dos discursos na construção de paradigmas emergentes ressalta o pensamento social. Neste sentido, “ao mesmo tempo, é devido à natureza da
linguagem que são sempre possíveis construções alternativas e que os contra-discursos podem de facto emergir, daí a importância a possibilidade de
resistência” (NOGUEIRA, 2008: 240).
Em síntese, os estudos sobre o uso histórico da linguagem moldam culturas, que moldam estruturas políticas (EAGLETON, 2011), que moldam
conceitos (KOSELLECK, 2006), não necessariamente nessa ordem. Logo, o conceito de cultura sozinho é diferente do conceito de cultura conjugado. Ao
se conjugar “cultura do estupro” diante do seu debate público a terminologia assume vestes polissêmicas. Dessa maneira, foi possível reconhecer que o uso
da linguagem se modificou diante de sua repercussão.
Referências
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp, 2000.
EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. 2 ed. São Paulo: Unesp, 2011. (pp 9-77).
JASMIN, Marcello. Prefácio. In: KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos; tradução, Wilma Patrícia
Maas, Carlos Almeida Pereira; revisão César Benjamin. Rio de Janeiro: Contraponto-Ed. PUC-Rio, 2006.
NOGUEIRA, Conceição. Análise(s) do Discurso: Diferentes Concepções na Prática de Pesquisa em Psicologia Social. Brasília: Psicologia: Teoria e
Pesquisa. Vol. 24 n. 2, 2008. (pp. 235-242).
NOLASCO, Sócrates. De Tarzan a Homer Simpson: Banalização e violência masculina em sociedades contemporâneas ocidentais. Rio de Janeiro:
Rocco, 2001.
PATEMAN, Carole. Criticas feministas a la dicotomia publico/privado. In: CASTELLS, Carme (Comp.). Perspectivas feministas en teoría política.
Barcelona: Paidós, 1996, p. 2-23.
_________. El Contrato Sexual. Barcelona: Anthropos; México: Universidad Autónoma Metropolitana, 1995.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos; tradução, Wilma Patrícia Maas, Carlos Almeida Pereira;
revisão César Benjamin. Rio de Janeiro: Contraponto-Ed. PUC-Rio, 2006.
JIMÉNEZ, Carla. A Justiça no Brasil não é dividida, é feminina. El País. In:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/30/politica/1464598834_069834.html>. Acesso em 26 de julho de 2016.
Organização das Nações Unidas (ONU – Brasil). Por que falamos de cultura do estupro? In: ONUBR Nações Unidas no Brasil. Disponível em:
<https://nacoesunidas.org/por-que-falamos-de-cultura-do-estupro/>. Acesso em 31 de setembro de 2016.
SOARES, Pricilla Farina. Estupro coletivo: repercussão e análise comparativa no Twitter. Estupro coletivo: repercussão e análise comparativa no
Twitter. MIDIARS: GRUPO DE PESQUISA EM MÍDIA, DISCURSO E ANÁLISE DE REDES SOCIAIS. In: Disponível em:
<http://www.midiars.net/2016/estupro-coletivo-repercussao-e-analise-comparativa-no-twitter/>. Acesso em 31 de setembro de 2016.
TWITTER. https://twitter.com/search-home
O CORPO COMO FRONTEIRA DO SABER E A CONSTRUÇÃO DE NOVOS SABERES
Bárbara Valle71

Resumo: Este artigo trata sobre a recepção do corpo na filosofia através das teorias feministas. A variedade das teorias feministas que defendem por um lado o estatuto da diferença e por outro o da igualdade
se colocam como marcos reguladores das teorias atuais. Por outro lado, a biologia não se mostra suficiente para legitimar um binarismo em relação aos sexos. Através da análise do estudo de Thomas W.
Laqueur, pretendemos mostrar que a separação entre os sexos foi uma construção que teve o seu auge no século XVIII. Essa separação, de certa maneira definiu o lugar simbólico do homem e da mulher na
sociedade e também na filosofia. A questão da feminilidade na filosofia é excluída devido a sua codificação implícita como desrazão associada ao corpo. O corpo é um ponto cego conceitual no pensamento
filosófico e na teoria feminista. Portanto, deve-se defender a possibilidade da construção de uma análise inclusiva do corpo através das categorias do feminismo como a igualitária, o construtivismo social e a
da diferença sexual. Assim, o objetivo desse artigo é pensar o estatuto do corpo nas teorias feministas e na filosofia como um todo, através de um método qualitativo de pesquisa revisitando alguns autores e
propor uma saída para uma teoria não excludente e dicotômica para as teorias feministas.
Palavras-chave: Corpo; Feminismo; Gênero; Filosofia.

Introdução
Há muito nos perguntamos sobre a verdadeira teoria feminista e o que dela seria relevante defender em termos gerais. Celia Amorós (1991) aponta
alguns questionamentos em relação às orientações dos movimentos feministas: “Seria possível que a ideia de igualdade com o homem fosse um critério
regulador da sua teoria e da sua prática?” “Ou deve afirmar-se perante tudo a vontade de diferença do feminino, como proposta de alternativa de valores
formulada a partir da especificidade da experiência e a inserção no mundo das mulheres?”.
Responder a essas questões nos remete a pensar ao que nos igualamos e do que nos diferenciamos. O corpo biológico e o corpo cultural se fazem
presentes na construção da mulher e daquilo que nominamos como feminino. Por isso, o estatuto do corpo nessa resposta se faz presente mesmo que
implicitamente, pois é a ele que evocamos na diferença e ignoramos da igualdade.
Refletir sobre o tema do corpo e do feminino na filosofia se mostra muito mais complicado do que à primeira vista parece. Primeiro que apesar de
muitos filósofos discutirem sobre o tema, eles o desenvolveram nas suas obras “menores” da sua carreia, ou então, quando está em uma de suas obras mais
conceituadas o tema não ganha importância, ou no máximo é tratado em segundo plano. Muitas vezes são escritos que não aparecem no cânone central e
dito principal da filosofia acadêmica. Para exemplificar esta situação poderíamos citar os textos de Platão que retratavam Diotima, como Rousseau, na sua
obra “Emilio” e Kant que faz uma apologia ao “belo sexo” no séc. XVIII, e até nos contemporâneos como Walter Benjamin, na prostituta. Neles a mulher,
o feminino e suas figuras, os gestos, as coisas que as mulheres fazem ou como elas fazem, estão presentes, ora de maneira explícita, ora nas entrelinhas de
suas reflexões. Segundo, que este tema, para a corrente filosófica que se autodefine como “a busca de um conhecimento universal”, não encontra uma
considerável aceitação, visto que não é um problema “universal”, mas sim “particular”. Aliás, a questão do “universal” estará na base da filosofia de todos
pensadores. No entanto, quando se trata da questão de gênero ela não é tão universal assim quanto se pretende. Ora, excluir a metade feminina da
autonomia moral se mostra aos olhos de hoje no mínimo uma séria contradição aos seus preceitos filosóficos que buscam o universal.
Assim, a importância de se estudar este tema na filosofia não é somente a de pontuar um lugar excludente de gênero pelo sexo, isto é, pelo corpo e pelas
marcas que trazemos nele. Mas sim, de tentar mostrar por outro lado, a contribuição, que poderá ser positiva, da filosofia na investigação sobre construção
de uma subjetividade, de um conceito e até de uma imagem do feminino. Ou seja, o que a filosofia tem a acrescentar na construção e na elaboração através
da história, no feminino.
O objetivo desse artigo é pensar o estatuto do corpo nas teorias feministas e na filosofia como um todo, através de um método qualitativo de pesquisa
revisitando alguns autores e propor uma saída para uma teoria não excludente e dicotômica para as teorias feministas.

Do corpo. A diferenciação dos corpos pela biologia: o modelo do sexo único e dos dois sexos
A grande tese defendida por Laqueur (2010) é de que a “a biologia não define os sexos”. Segundo o autor, em alguma época do séc. XVIII, o sexo que
nós conhecemos foi inventado. Seria muito simples dizer que nossas diferenças se resumem a ter ou não um pênis. Além de outras diferenças que
poderíamos acrescentar à vontade: as mulheres menstruam e amamentam, os homens não; as mulheres têm um ventre onde os filhos se desenvolvem, os
homens não, etc. Não estamos aqui para discordar desses fatos, eles existem, mas não são tão evidentes assim como se pensa.
Para Laqueur, em termos históricos não há qualquer conhecimento específico da diferença sexual a partir de fatos indiscutíveis sobre os corpos.
Independente dos avanços científicos, os modelos de dois sexos e de sexo único sempre existiram. Até o século XV se acreditava na primazia do prazer,
isto é, que a relação sexual era praticada pelo prazer e que ele era necessário para a fecundação. Com a descoberta de que a mulher poderia ser engravidada
sem prazer, há uma reorientação ao princípio de funcionamento sexual do homem e da mulher. Entretanto, essa tese foi direcionada à mulher e abriu a
possibilidade da passividade e da “falta de paixão” da mulher. A alegada independência da concepção com relação ao prazer criou o espaço no qual a
natureza sexual da mulher podia ser redefinida, debatida, negada ou qualificada. E assim seguiram-se as coisas, indefinidamente. Isso aconteceu no século
XVIII.
Durante milhares de anos acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, só que – como dizia Nemesius, bispo de Emesa, do
séc V “a delas fica dentro do corpo e não fora”. Mas por volta do final do século XVIII a natureza sexual humana mudou. Em 1803, por exemplo, Jacques-
Loues Moreau, um dos fundadores da “antropologia moral”, argumentou que não só os sexos são diferentes, como são diferentes em todo o aspecto
concebível do corpo e da alma, em todo o aspecto físico e moral.
A visão dominante a partir do século XVIII era que há dois sexos estáveis, incomensuráveis e opostos, seus papéis no gênero, são de certa forma
baseados nesses “fatos”. A biologia – o corpo estável, não histórico e sexuado, é compreendido como fundamento epistêmico das afirmações consagradas
sobre a ordem social.
Nos textos pré-Iluminismo, e mesmo em alguns posteriores, o sexo, ou o corpo, deve ser compreendido como epifenômeno, isto é, um fenômeno
secundário, enquanto o gênero, que nós consideraríamos uma categoria cultural, era primário ou “real”. O gênero – homem e mulher – era muito
importante e fazia parte da ordem das coisas, o sexo era convencional, embora a terminologia moderna torne isso sem sentido.
O sexo antes do séc. XVII era ainda uma categoria sociológica e não ontológica. A partir do século XVIII ocorre uma mudança de categorias em que a
ciência teve um papel importante. A mudança do modelo de sexo único / carne única, para o modelo de dois sexos / duas carnes.
A diferença e a igualdade mais ou menos recônditas estão por toda parte. Mas quais delas importam – e com qual finalidade – são determinadas fora
dos limites da investigação empírica? O fato de que, em certa época, o discurso dominante interpretava os corpos masculino e feminino como versões
hierárquicas e verticalmente ordenadas de um sexo e, em outra época, como opostos, horizontalmente ordenados e incomensuráveis, deve depender de
outra coisa que não das grandes constatações de descobertas reais ou supostas.
Os avanços do séc. XIX na anatomia do desenvolvimento (teoria do germe) referiam-se às origens comuns de ambos os sexos em um embrião
morfologicamente andrógino, e não à sua diferença intrínseca. Na verdade, os isomorfismos galênicos dos órgãos masculinos e femininos foram, na década
de 1850, rearticulados no plano embriológico como homólogos: o pênis e o clitóris, os lábios e o escroto, os ovários e os testículos tinham origens comuns
na vida fetal, descobriram os cientistas. Havia, portanto, evidência científica para apoiar a visão antiga, caso isso fosse culturalmente relevante. Por outro
lado, só houve interesse em buscar evidência de dois sexos distintos, diferenças anatômicas e fisiológicas concretas entre o homem e a mulher, quando
essas diferenças se tornaram politicamente importantes.
A questão que se coloca é a quem e ao que interessa que seja legitimado o discurso da nossa diferença passiva e intransponível entre os sexos?

O problema do corpo no pensamento filosófico


O corpo é um ponto cego conceitual no pensamento filosófico e na teoria feminista. A teoria feminista se apropria acriticamente de posições filosóficas
sobre o papel do corpo na vida social, política, cultural, psíquica e sexual que acabam por perpetuar a visão misógina da razão ocidental. A principal teoria
é a da dicotomia entre mente/corpo, razão/paixão, biologia/psicologia. A divisão mente/corpo não é simplesmente neutra, ela é hierarquizada e polarizada.
Dessa maneira, um dos termos é subjugado ao outro, tornando-se negativo. Segundo Grosz (2010),
“o corpo é o que não é a mente, aquilo que é distinto do termo privilegiado e é outro. É o que a mente deve expulsar para manter sua “integridade”. É implicitamente
definido como desregrado, disruptivo, necessitando de direção e julgamento, meramente incidental às características definidoras de mente, razão, ou identidade pessoal em
sua oposição à consciência, ao psiquismo e a outros termos privilegiados no pensamento filosófico.” (p. 49)

O mais relevante aqui é a correlação macho/fêmea que surge, onde se relacionam homem e mente, mulher e corpo. Essa correlação não é acidental, é
central no modo pelo qual a filosofia se desenvolveu, historicamente e ao modo como ela é pensada. Pois a filosofia sempre foi considerada uma
preocupação com as ideias, conceitos, ligados à mente, termos que marginalizam ou excluem a consideração com o corpo.
O conhecimento filosófico visto como puramente conceitual exclui a corporalidade tanto dos conhecedores quanto dos textos e a maneia pela qual essas
materialidades interagem devem ser obscurecidas. A feminilidade é excluída da filosofia enquanto disciplina devido a sua codificação implícita na
feminilidade como desrazão associada ao corpo. Podemos argumentar que a filosofia se estabeleceu como uma forma de conhecimento, uma forma de
racionalidade, apenas através da recusa (termo freudiano, onde há o conhecimento e simultaneamente recusa do reconhecimento) do corpo, especificamente
do corpo masculino, e correspondentemente à elevação da mente como um termo incorpóreo.
Por outro lado, a filosofia parece ter uma fascinação ambígua com o funcionamento e o estatuto do corpo. Mas a discussão do seu papel pelas figuras da
filosofia é dicotômica, estreita e problemática. Desde os gregos há uma espécie de somatofobia, o corpo sempre foi visto como interferência e um perigo
para as operações da razão, tanto que para Platão a razão deveria comandar o corpo72. Com a divisão entre matéria (corpo) e forma, Aristóteles protagoniza
a divisão binária entre os sexos, “no caso da reprodução, acreditava que a mãe oferecia a matéria sem forma, passiva, indefinida, a qual, através do pai,
recebia forma, definição e contorno, características e atributos específicos que lhe faltavam” (GROZ p. 52).
O que Descartes efetuou não foi, de fato, a separação entre a mente e o corpo (uma separação que já tinha sido antecipada há muito na filosofia grega
desde o tempo de Platão), mas a separação entre a alma e a natureza. O corpo é uma máquina automotora, um artifício mecânico, funcionando de acordo
com leis causais e leis da natureza. A mente, a substância pensante, a alma, ou a consciência, não tem lugar no mundo natural. Esta exclusão da alma da
natureza, esta retirada da consciência do mundo, é o pré-requisito para a fundação de um conhecimento, ou melhor, de uma ciência dos princípios que
governam a natureza, uma ciência que exclui o sujeito e é indiferente às considerações dele. Descartes instituiu um dualismo que três séculos de
pensamento filosófico tentam superar ou reconciliar.
Nesse sentido Grozs aponta três linhas de pesquisa sobre o corpo no pensamento contemporâneo que podem ser vistas como herdeiras do
cartesianismo. São linhas que a teoria feminista deve superar para desafiar o seu próprio envolvimento com a história da filosofia.
Na primeira linha o corpo é compreendido ou em termos de seu funcionamento orgânico e instrumental nas ciências naturais ou é postulado como uma
mera extensão, meramente física, um objeto como qualquer outro nas ciências humanas e sociais.
A segunda linha de pesquisa frequentemente vê o corpo em termos de metáforas que o constroem como um instrumento, uma ferramenta ou uma
máquina à disposição da consciência, um receptáculo ocupado por uma subjetividade animada, com vontade própria. Para Locke e a tradição política
liberal de modo geral, o corpo é visto como uma posse, propriedade de um sujeito, que, dissociado da carnalidade, toma decisões e faz escolhas sobre como
dispor do corpo e de seus poderes (por exemplo, no mercado de trabalho).
Na terceira linha de pesquisa, o corpo é usualmente considerado como um meio significante, um veículo de expressão, um modo de tornar público e
comunicar o que é essencialmente privado (ideias, pensamentos, crenças, sensações, afetos).
Essas parecem ser algumas das suposições implícitas, não ditas, em relação ao corpo na história da filosofia moderna e nas concepções do saber de
modo mais geral. Se a teoria feminista aceita acriticamente essas suposições comuns, ela participa da desvalorização social do corpo que anda de mãos
dadas com a opressão das mulheres.
A tradição cartesiana foi sempre muito influente para a instauração da agenda do pensamento filosófico. No entanto, há filósofos anômalos como
Espinoza e Nietzsche que questionaram o dualismo cartesiano. O trabalho de Espinosa pode oferecer uma maneira de superar os dualismos que dominam a
filosofia tradicional e ao mesmo tempo constituir uma base para a compreensão da diferença (isto é, uma noção de diferença não oposicional), maneira útil,
e talvez necessária, para reformular as relações entre homens e mulheres.
A tese central de Espinosa é a identificação substância absoluta e infinita, singular tanto em espécie quanto em número. Groz cita Gatens, que no livro
“Towards a Feminist Philosophy of the Body” coloca:
A descrição espinosiana do corpo é a de um corpo produtivo e criativo, que não pode ser definitivamente “conhecido”, já que não é idêntico a si mesmo ao longo do
tempo. O corpo não tem uma “verdade” ou uma “natureza verdadeira”, já que é um processo e seu significado e suas capacidades vão variar de acordo com seu contexto.
Não conhecemos os limites deste corpo ou os poderes que ele é capaz de ter. Esses limites e capacidades só podem ser revelados nas interações continuadas do corpo e de
seu ambiente. (p. 64)

Assim, em oposição ao modelo cartesiano, a subjetividade, ou o psiquismo, não é mais certa e incapaz de dúvida do que o corpo: não há nenhum
princípio fundador, tal como a imediatez da autoconsciência, para garantir o conhecimento ou para construir o conhecimento na forma de uma ciência.
Como o modelo do corpo de Espinosa é fundamentalmente não mecânico, não dualista e antiessencialista, não é de surpreender que seu trabalho tenha
ampla ressonância, não apenas no pensamento francês contemporâneo (o impacto espinosiano na teoria francesa, de Althusser, passando por Foucault, a
Deleuze, Derrida e Irigaray é frequentemente observado, mas raramente explorado).

As teorias feministas e a possibilidade da construção de uma análise inclusiva do corpo


As feministas apresentaram um amplo leque de atitudes e reações às concepções do corpo e à tentativa de colocá-lo no centro da ação política e da
produção teórica. Vale a pena elencarmos aqui algumas categorias das teorias feministas, embora não se limitem à apenas elas, para clarear o
desenvolvimento de visões diferentes do corpo.
A primeira delas trata-se do feminismo igualitário, onde o corpo é um obstáculo a ser vencido. Temos teóricas como Simone de Beauvoir, Mary
Wollstonecraft, Shulamith Firestone, entre outras feministas liberais, conservadoras e humanistas, até as ecofeministas.
A segunda categoria, do construtivismo social, provavelmente inclui a maioria das teóricas feministas contemporâneas: Julia Kristeva, Michèlle Barrett,
Nancy Chodorow, as feministas marxistas, as feministas psicanalistas, e todas aquelas envolvidas com a noção de construção social da subjetividade. O
corpo é um objeto biológico, visto como uma política de representação e funcionamento, marcando socialmente o masculino e o feminino. O que precisa
ser transformado são atitudes, crenças e valores e não o próprio corpo.
A diferença sexual é a terceira categoria, integrado por Luce Irigaray, Hélène Cixous, Gayatri Spivak, Jane Gallop, Moira Gatens, Vicki Kirby, Judith
Butler, Naomi Schor, Monique Wittig e muitas outras. Para elas, o corpo é crucial para a compreensão da existência psíquica e social da mulher, mas não é
mais visto como um objeto a-histórico, biologicamente dado, não cultural. Elas estão preocupadas com o corpo vivido, o corpo representado e utilizado de
formas específicas em culturas específicas. Para elas, o corpo não é nem bruto, nem passivo, mas está entrelaçado a sistemas de significado, significação e
representação e é constitutivo deles. Ele não é mais um objeto a-histórico.
Se essas categorias de uma forma positiva ou negativa excluem o corpo, como poderíamos fazer uma análise diferente do corpo? Grozs aponta alguns
caminhos na construção dessa nova teoria. O primeiro deles é evitar análises dicotômicas. Precisamos de uma análise que recuse o reducionismo, resista ao
dualismo e mantenha suspeição do holismo e da unidade implícita no monismo – isto é, de uma noção de corporalidade que não só evite o dualismo, como
a própria problemática do dualismo que lhe apresenta alternativas e permite criticá-lo.
Além de evitar as análises dicotômicas, também não devemos associar a corporalidade a um sexo; (ou raça), o qual passa a carregar o fardo da
corporalidade do outro por isso. As mulheres não podem mais ter a função de ser o corpo para os homens, enquanto os homens são deixados livres para
escalar as alturas da reflexão teórica e da produção cultural. Negros, escravos, imigrantes, povos nativos não podem mais funcionar como o corpo de
trabalho para os “cidadãos” brancos, deixando-os livres para criar valores, a moral, o conhecimento.
Entretanto, devemos recusar modelos singulares baseados em um tipo de corpo. Não há um modo que seja capaz de representar o “humano” em toda
sua riqueza e variabilidade. Assim como o dualismo deve ser evitado, deve ser também evitado análises biologizantes ou essencialistas. O corpo deve ser
visto como um lugar de inscrições, produções ou constituições sociais, políticas, culturais e geográficas.
Mostrar algum tipo de articulação ou até mesmo desarticulação entre o biológico e o psicológico, entre interior e exterior, ao mesmo tempo evitar um
reducionismo da mente ao cérebro. Tanto a dimensão psíquica quanto a social devem encontrar lugar numa reconceitualização do corpo, não uma em
oposição à outra, mas como necessariamente interativas.
Ao invés de participar de um par binário – isto é – aderir um ou outro lado – pode-se problematizar tais pares observando o corpo um conceito limiar ou
fronteiriço que oscila nesse eixo (ex. público/privado, cultural/natural; psíquico/social). Ao mesmo tempo que é ambos, o corpo não é nem privado, nem
público, nem eu ou outro, nem natural ou cultural, nem psíquico ou social, nem instintivo ou ensinado, nem geneticamente ou ambientalmente
determinado.

Considerações finais
Essa criação e superação de paradigmas historicamente enraizados em nossas teorias não é um processo fácil, nem cômodo. Talvez por isso as teorias
feministas incomodem tanto o status quo vigente, e frequentemente vimos um retrocesso em relação a essas práticas. Mas qual seria o veículo capaz de
provocar a mudança na sociedade e nas teorias? Baseando-se na ideia de que os movimentos sociais são “laboratórios culturais” (Melucci) nos quais se
realiza um trabalho de ressignificação da realidade social, a existência de movimentos sociais “é em si mesma uma forma de perceber a realidade, já que
controverte um aspecto dessa que antes era aceito como normativo”; nessa mesma medida “implica uma ruptura social dos limites do sistema de normas e
relações sociais em que sua ação é desenvolvida”, assim como “tem capacidade para produzir novas normas de legitimação na sociedade”. Assim, de uma
maneira geral, “os movimentos sociais são criadores de conhecimento”. Logo, é possível que a partir de movimentos que buscam novas ressignificações
para o estatuto do corpo se construa teorias que sejam mais alinhadas com a defesa dos direitos humanos.
Para concluir, a importância de movimentos feministas se mostra necessária em uma sociedade que cada vez mais busca o conservadorismo em suas
práticas. A teoria feminista é uma teoria crítica da sociedade, nesse sentido, enquanto teoria, a sua atribuição é lançar luz em uma série de fenômenos que
são invisíveis ou foram percebidos de forma mistificada a partir de outras direções de pensamento. As feministas buscam que se construa uma nova forma
de sensibilidade social, uma sensibilidade social que não aceite como óbvias visões excludentes e preconceituosas de indivíduos e que torne nossa
sociedade, pelo menos, um lugar mais justo e tolerante.

Referências
AMORÓS, Celia Hacia una crítica de la razón patriarcal. Editorial del hombre – Anthropos-. Buenos Aires, 1990.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2011.
_____. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
GROSZ, Elizabeth Corpos reconfigurados. In: Cadernos Pagu (14) 2000.
HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação & Realidade, v. 22, n.2, jul./dez., 1997.
HERMANN, Nadja. Hermenêutica e Educação. Rio de Janeiro. DP&A, 2002.
____. A questão do outro e o diálogo. Revista Brasileira de Educação. v.19, n.57, p. 477-493, abr.-jun., 2014.
LAQUEUR, Thomas W. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
A POTÊNCIA SIMBÓLICA DO FEMININO: MODOS DE EXISTIR NA CIDADE E PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA NA ESCOLA
Angelita Hentges73
Cristine Jaques Ribeiro74

Resumo: Este texto é resultado dos estudos que compõem o Observatório dos conflitos da cidade vinculado ao grupo de estudos Questão agrária, urbana e ambiental do Programa de Pós-graduação em
Política Social da Universidade Católica de Pelotas. A temática proposta pretendeu, a partir do estudo Durandiano e demais autores, analisar o simbólico, evidenciando a constituição dos lugares da mulher e o
movimento de desconstrução dos valores impostos pela Cidade e reproduzidos na Escola por intermédio da potência do feminino. A pesquisa bibliográfica e o estudo de campo orientaram a análise qualitativa
resultante das intervenções das autoras como docentes. Por fim, considera-se que muitas questões ficam ainda abertas para a problematização, porém, a heterogeneidade que pulsa no interior da Escola exige
que as equipes profissionais voltem sua atenção para a importância de construir relações de alteridade, a fim de desconstruir a cultura machista que persiste nas relações de gênero.
Palavras-chave: Feminino; Educação; Escola; Cidade.

Introdução
O presente texto pretende contribuir para a reflexão sobre o lugar do feminino na sociedade, com a perspectiva de reinventar os modos de existir a
partir das relações de gênero estabelecidas nos mais diferentes espaços sociais, problematizando o modo como se constitui a cidade e para quem ela se
impõe. Propõe, ainda, a análise de como a Educação e o espaço da Escola podem ser ambientes para a desconstrução do imaginário, construído
socialmente, que atribui à mulher e ao homem comportamentos morais padronizados.
Para compreender a construção dos padrões de comportamentos impostos, o texto identifica a cultura pedagógica que produz discursos marginais, mas
propicia, também, a reinvenção do lugar do feminino por intermédio da potência de suas ações criativas e inventivas.
Pensar o lugar do feminino é pensar como esse lugar é acolhido na cidade e se a mesma reverbera tal questão por intermédio de seus espaços de
formação. Para isso, recorremos às contribuições de Raquel Rolnik (2015). A autora afirma que para além da organização das lutas, frente às imposições do
sistema capitalista, nos lugares de habitar a cidade, existem práticas que resistem cotidianamente. Nesse caso, na luta contra a cultura machista, a mulher
cria possibilidades outras de ser e estar no mundo.
O exercício é de relacionar a formação e a educação no campo simbólico, reconhecendo-o como processo que constitui os lugares da mulher e do
homem. Lugares naturalizados no discurso do imaginário e legitimados nas relações eurocêntricas. Por fim, anunciam-se outros múltiplos caminhos,
desconstruindo a lógica imposta que reduz o pensamento instituído sobre o feminino. Evidencia-se, sim, a potência criadora que impulsiona uma outra
educação e uma outra relação nos espaços sociais da cidade.

Feminino: entre o imaginário e a potência criadora


O feminino como potência é o que nos interessa nesta escrita. Pontuar os desvãos, as margens, com seus não-lugares, nos espaços da cidade, nos
arremessam ao universo feminino. Buscamos a potência deste no sentido de aplacar a fúria devoradora que os velhos neopositivismos unidimensionais e
totalitários (Durand, 2002) têm imposto aos modos de ser e de existir no ocidente, e que ainda encontram morada na educação que se faz nas escolas.
Modos de ser e de existir embebidos do poder do “homem”, do “macho”, que bem carrega a marca do colonizador, do escravocrata, do dominador e,
também, daquele que deseja controlar a terra e tudo sobre ela. Os modos de ser do “macho dominador” se entrelaçam culturalmente, colonizam as
diferentes instituições e fazem reproduzir modos de relacionamento entre os seres e destes com a natureza.
Sabidamente a instituição escolar tem sido um espaço de atuação das mulheres. São elas que “cuidam” das crianças, desde os antigos “jardins de
infância”, a atual Educação Infantil, até os cuidados da casa e da mãe. Na história da educação, percebe-se os cuidados femininos desde o primeiro nível de
escolarização, o que vai ampliando-se pelas primeiras séries do Ensino Fundamental. Entretanto, se a escola inicial é predomínio dos cuidados das
mulheres, a ciência, de modo geral, as tem marginalizado. Assim, à medida que as novas gerações avançam na aprendizagem do conhecimento acumulado
pela humanidade, deparam-se com a ciência e seus cientistas, em muito, reproduzindo a cultura vigente do homem.
O que isso nos faz refletir? Que papel a escola tem atribuído aos homens e às mulheres em seu desenvolvimento como humanos? O papel da origem
dos termos mulher e homem que o dicionário nos apresenta; o papel do privilégio de nomes masculinos dados às escolas, pois é mais comum encontrarmos
estas homenageando os homens do que as mulheres, o que parece permear intenções de subjugar a mulher. Não que isso seja tarefa fácil, afinal estas têm
lutado para ocupar espaços de maior visibilidade em diferentes contextos, juntamente com outras minorias que têm se unido em prol de movimentos de
libertação.
O que nos motivou nesta escrita foi buscar, por entremeio à cultura pedagógica que marginaliza a mulher, elementos que pudessem fazer emergir a
potência que o feminino carrega, com a força de mudar a própria cultura que busca subjugá-la. Nesta empreitada, buscamos para além das reduções que se
tem feito aos sentidos de ser homem e mulher e caminhamos pela simbólica do universo feminino. Dessa forma, encontramos no campo do símbolo e da
imagem as potências que procurávamos para fazer emergir novas/outras possibilidades.
A educação, numa de suas formas visíveis, que é a escola, precisa refletir sobre modos de produzir tensionamentos necessários para possibilitar trazer
novas pedagogias que possam fazer emergir as potências equilibrantes dos regimes da imagem. Estes foram banidos por conta da racionalidade iconoclasta
imperante no modo de fazer ciência. Aponta Durand (2002) que a escola ainda é um dos últimos espaços que a ojeriza às imagens encontra guarida. O
campo das artes, da literatura e das formas não-hegemônicas de apreender sabidamente campos onde a imagem subsiste sofrem ataques seguidos e
encontram dificuldade em aceder aos currículos pedagógicos.
Para compreender um universo educativo muito mais amplo que o cotidiano da sala de aula, e neste buscar espaços/tempos de abertura a um novo
modo de ver/sentir os papéis atribuídos ao homem e à mulher, buscamos o entendimento durandiano (2002, 1988). O autor aborda o fato de que o
imaginário é o berço de sentido da ação humana e, ao mesmo tempo, reservatório e motor de todas as imagens já produzidas, e a serem produzidas, pelo
homo symbolicus (CASSIRER, 1994). Como reservatório e motor das imagens que constituem o antropos, o imaginário realiza-se num processo
educativo, através do qual se torna o modo como este impregna seus símbolos a partir de certa cultura.
Esse entendimento acerca da educação coloca os espaços educativos, sejam eles as escolas e a universidade, para muito além de ser unicamente lócus
de formação técnica de uma profissão. Transformam-nos em espaços/tempos que integram, pela via simbólica, os dois polos de força que constituem o
humano: o racional, tão bem privilegiado pela ciência moderna, e o sensível e emocional, que, mesmo buscando ser afastado, tem vital função na formação
antropológica.
Amparando-nos na perspectiva da formação e da educação, como processo simbólico de constituir-se “humano”, e de mãos dadas com os estudos sobre
o imaginário, enquanto fermento das ações humanas, buscamos pela potência das imagens na formação do antropos. E, ao nos definirmos como antropos,
buscamos distância dos modos hegemônicos de entendimento sobre ser “mulher” e ser “homem” na sociedade ocidental, os quais manifestam-se ainda
muito próximos do que apresenta o dicionário “Aurélio”, que citamos a seguir:
Homem. [Do lat. Homine.] S.m. 1. Qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta maior grau de complexidade na escala evolutiva; o ser humano. [...] 2.
A espécie humana; a humanidade [...] 3. O ser humano, com sua dualidade de corpo e espírito, e as virtudes e fraquezas decorrentes desse estado; [...] 4. Ser humano do
sexo masculino: varão. [...] 13. Cada um da espécie homo sapiens . [...] Homem de rua [...] homem de ação [...] homem de bem [...] homem de espírito [...] homem de
Deus ( FERREIRA, p. 730-731).

Mulher. [ Do lat. Muliere ] S.f. 1. Pessoa do sexo feminino, após a puberdade. [...] 2. Esposa. [...] Mulher à toa. [...] Mulher da rua [...] mulher da vida [...] mulher da zona
[...] mulher perdida [...] mulher vadia [...] Mulher de má nota [...] mulher de ponta de rua [...] mulher errada [...] mulher fatal [...] (FERREIRA, p. 952).

Os elementos que o dicionário nos apresenta sobre o modo de ser do homem e da mulher vêm carregados do sentido de que a mulher é derivação do
homem, o que já nos é conhecido pela mitologia cristã, descrita em Gênesis: “Então o senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele
dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez a mulher” (GÊNESIS, cap 2,
vers 21-22). Por aqui encontramos os fundamentos desta (não) relação, e o sentido das práticas atuais em torno do ser mulher.
A imagem da mulher como derivação do homem torna-se fermentadora dos modos de relacionar-se que reconhecemos em nossas culturas. No entanto,
ao abraçarmos a imagem do feminino como potência para fazer fermentar novas existências, procuramos avançar do “racionalismo clássico”
(WUNNENBERGER 1990), senhor da visão dos humanos sobre as coisas e nas relações entre si, buscando sacudir a razão moderna iconoclasta, rumo a
novos caminhares que se aproximam do que coloca Morin:
A ideia de unidade complexa toma densidade se pressentirmos que não podemos reduzir nem o todo às partes, nem as partes ao todo, nem o uno ao múltiplo, nem o
múltiplo ao uno, mas que é preciso tentarmos conceber conjuntamente, de maneira ao mesmo tempo complementar e antagônica, as noções de todo e partes, de uno e de
diverso (MORIN, 1981, p. 105).

Na esteira do autor, e de outros múltiplos caminhos, busca-se por uma outra lógica, que não exclua, nem reduza um pensamento ao outro, mas que
possibilite aceitar as contradições, os conflitos e as oposições. É neste sentido que pode emergir o feminino como potência criadora e, assim,
impulsionadora de novos contornos para a educação nas escolas. Não se deseja reduzir o masculino ao feminino, nem tão pouco suplantá-lo, mas sim,
percorrer caminhos de encontros, proporcionando a geração de novidades.
É em Durand (2002) que nos assentamos para falar de masculino e de feminino, no campo das imagens e dos símbolos, que bem entrelaçados tecem as
existências de cada um e de toda a humanidade. As grandes imagens produzidas pelo antropos constituem o imaginário da espécie, que consistem numa
matriz de desejos, de modelos, de sentidos e de valores que permitem aos humanos desenvolverem construções intelectuais. O Imaginário é para
Wunenburger e Araújo (2003) um plano intermediário, que induz estruturas psíquicas comuns, capaz de impulsionar cada sujeito a imaginar um mundo
próprio.
O imaginário como fonte racional e não-racional de impulsos para a ação, como uma represa de sentidos, de sentimentos, de imagens, de símbolos, de
valores, banha a existência, pois guarda as imagens da humanidade. Ele não existe apenas como repositório, mas como impulso e como esperança, para que
cada ser humano possa ali se reconhecer e se revigorar. As imagens de que trata Durand (1988) existem como forças equilibradoras, apresentando-se como
“forças de coesão”, polarizadas em dois Regimes: um diurno e outro noturno. O regime noturno é o império das Grandes-mães, território feminino,
enquanto que o regime diurno, pertence ao grande soberano masculino. São estes os dois polos do imaginário.
O Regime diurno, também nomeado como heroico, surge no simbolismo da luz em contraponto ao poder devorador da escuridão eterna. Materializa-se
na imagem da espada, que carrega a simbólica de “cortar”, de “dividir” e de “separar”. Torna-se a imagem predominante na consciência e emerge
racionalmente, buscando pela claridade das ideias e das formas. É pela luminosidade do olho que “vê”, “separa”, “organiza” e “classifica” que se assentam
os pensamentos hegemônicos da contemporaneidade. O aclaramento da razão emerge do horror da escuridão da noite, denotativa do caos e da desordem,
que é o regime noturno da imagem.
Polarizado ao regime diurno, encontra-se o regime noturno, composto por Durand (2002) nas estruturas místicas, ou nas sintéticas. Os símbolos que
orbitam neste regime contemplam uma inversão aos de Regime Diurno. São símbolos que penetram e escavam, com seus angustiantes abismos,
precipícios, labirintos e gargantas. Consistem em mundos onde só se vai precavido com arsenais ou com guias. É a terra das grandes deusas, ao mesmo
tempo terríveis e acolhedoras, em contraponto ao grande soberano masculino diurno. As grandes imagens giram em torno da mãe, da mulher, da noite, do
recipiente, entre outros. Daí os símbolos do ventre, do túmulo, do caldeirão, só para trazer exemplos que Durand apresenta.
Buscamos pela confluência dos contrários, apontada pelo autor na estrutura sintética e chamada de “dialética dos antagonistas” (DURAND, 1988, p.
83). Nesta representação, o imaginário torna-se equilibrador e denota o ritmo, a reunião dos contrários, o amadurecimento, a progressão e o retorno. É a
estrutura do movimento, do ritmo. É, portanto, o mundo das imagens míticas, das quais emergem potencialmente equilibrada a grande mãe e o grande
soberano. São simbólicas que fundam o psiquismo da espécie humana.
No campo do símbolo, a potência evocada é a da relação hermenêutica, da comunicação dos contrários, conforme coloca Ortiz-Osés:
La Tierra funda el mundo: el mundo hace surgir la tierra: entre la tierra y su mundo el hombre se instala e instala sus linguagens, hermenêuticas y axiologias. Dicha
obertura – el hombre – simboliza la libertad – uma libertad que és comuniciaon de los contrários... (ORTIZ-OSÉS, 1986, p. 15).

A potência emerge na comunicação dos contrários, não na exclusão de um deles. É neste espaço simbólico de movimento que se insere a potência do
feminino na comunicação com o masculino. A mitologia nagô apresenta a beleza da comunicação dos contrários numa de suas narrativas míticas de criação
do humano (egun), conforme a citação abaixo:
Três orixás, Odùa, Òbàrìsà(=Obàtálà=Òrìsàlá) e Ògún vem do òrun, instalar-se sobre a terra. Odùa é a única mulher e ela se queixa a Olórun por não ter nenhum poder.
Este a elege mãe por toda a eternidade. Entrega-lhe àse sob a forma de uma cabaça contendo um pássaro e recomenda-lhe que se mostre prudente no que se refere ao uso
do poder que lhe outorga. Todos os lugares de adoração encontram-se em seu Ika, no quintal onde Òbàrìsà não pode penetrar. Este, vendo seu poder diminuído, consulta
Ifá e é aconselhado a fazer uma oferenda constituída de ìgbín- caracóis – e um pasòn, uma haste de àtòrì. Ifà adverte-o para que tenha muita paciência e astúcia para
conquistar Yiá-mi e sair vitorioso. Com efeito, Yiá-mi esquece as recomendações de Olódùmarè (Olorun) e abusa de seu poder em relação a Òbàrìsà, sempre prudente.
Finalmente Yiá-mi insiste para que vivam juntos em sua morada já que juntos vieram de òrun e já que Ógún está ocupado com suas ferramentas e suas guerras. Òbàrìsà
concorda. Uma vez na vivenda, adora sua cabaça com os ìgbin e bebe sua água. Ele oferece a Odùa que, negligentemente aceita. A água parece-lhe deliciosa e ela também
come, com Obàtálà, a carne dos ìgbín. Òbàrìsà se queixa: ele lhe revela todos os seus segredos e ela continua a esconder-lhes os seus. Odùa o conduz ao Ika, descobre
para ele a vestimenta de – símbolo de Égún. Quando Odùa sai, ele apanha as vestimentas, as modifica, veste-as e tomando do pasòn na mão, sai a percorrer a cidade. Sabe
falar como os Ará-òrun. Todos reconhecem-no como verdadeiro Égún e o aclamam. Odùa reconhece seus ‘panos” e admite que Òbàrìsà torna presente Égún melhor que
ela. Ela ordena a seu pássaro de pousar no ombro de Égún; com o asé de Eléye, tudo o que Égún prognostica e diz ser realizará. Égún está completo. Eléye e Égún andarão
juntos. Quando Òbàrìsà regressa, Odùa entrega-lhe o poder de dominar ègún e se retira para sempre de seu culto. Só eléye indicará seu poder e marcará a relação entre
Égún e a Yyá-mi. Òrìsàlá aceita e rende homenagem ao poder de gestação da mulher (SANTOS, 2008, p. 109-110).

Nesta narrativa mítica aparecem os orixás: Odua (ou Oduduwa), que é a representação do poder feminino, e Obarisá (ou Obatalá, ou Orisanla, ou
Oxalá), que é a representação do poder masculino. Oxalá foi o orixá enviado pelo deus supremo Olorum, responsável pela criação do ser humano,
enquanto ela, Odua, foi a responsável pela criação da terra. E Ogun75, que é o ferreiro responsável pela criação de artefatos necessários à vida. Neste mito,
ela é a mulher que vem a Terra e faz queixa a Olorum (deus supremo) de que não tem poder algum. Ele, então, elege-a mãe e lhe entrega uma cabaça
contendo um pássaro, e lhe recomenda cuidado com todo o poder que isso tem. Essa recomendação de Olorun justifica-se porque a cabaça contém o poder
da criação, pois conforme Luz:
[...] igba-du, a cabaça da existência. A parte de cima da cabaça representa Obatalá, poder genitor masculino, a de baixo Oduduwa, poder genitor feminino; na parte que
liga uma a outra estão desenhados triângulos em sucessão, representando o casal e o procriado Exu, 3=1, 1=3, linhagens em expansão sucessiva. No interior da cabaça,
substâncias simbólicas portadoras de axé: Efun, de cor branca, poder genitor; iwaji, de cor preta, direção; e osun, de cor vermelha, sangue circulante; e ainda lama, matéria
primordial (LUZ, 1995, p. 41).

A cabaça é um símbolo poderoso, pois ela contém o axé veiculado pelos três sangues, e é isso que mantém a harmonia entre os mundos. Conforme
Santos (2008), a grande cabaça representa a terra que, ao ser fecundada pela água – sêmen (sangue branco) –, tornar-se-á um ventre fecundado, de onde
tudo nasce e se expande nos planos da existência. No mito acima, Odua – poder feminino – recebe a cabaça com uma advertência para que seja prudente
com o poder dela.
Oxalá – poder masculino – sente-se diminuído diante do poder feminino e pede ajuda ao oráculo de Ifá, que o orienta a presenteá-la com ígbins –
caracóis que representam o sangue branco (sêmen) que fertiliza a terra. Oxalá deseja conhecer os segredos que Odua guarda em seu terreiro e após cortejá-
la – dando-lhe de beber seus ìgbins – ele pede que ela lhe mostre seus segredos, afinal ele mostrou o dele. Ela, então, o conduz ao terreiro e lhe apresenta,
dentre outras coisas, as vestes de egun. Numa distração dela, ele as veste e sai, sendo aplaudido por todos. Odua, ao vê-lo, percebe que as vestes de egun
lhe caem muito bem, e ela então lhe entrega o poder de cultuá-lo e se retira para sempre de seu culto. Egun, um ancestral, é filho da terra (Odua), que o
entrega a Oxalá. Oxalá agradece e rende graças ao poder da gestação da mulher. Egun é o ancestral, criação do feminino, mas guardado pelo elemento
masculino, e representa a confluência dos contrários.
Na mitologia iourubá apresentada acima, percebemos a relação dos antagonistas, pois cada poder, feminino e masculino, desempenha um papel na
criação, o que nos leva a refletir sobre a necessidade de construir caminhos de igualdade. Tendo isso como fundamento, podemos pensar na inauguração de
novos contornos para a educação. Afinal, o desafio de buscar pela potência do feminino torna-se possível numa íntima relação com as imagens,
mergulhando na profundidade e na transcendência do antropos. Ao mesmo tempo, promove o encontro com o grande soberano solar, de onde provém as
luzes do conhecimento professadas pelas ciências.
A potência do feminino emerge simbolicamente de uma educação entrelaçada à vida, tornando-se a própria vida, denotando o sentido da existência e
arremessando o antropos ao encontro daquilo que ele é e que está se tornando. Coloca cada ser diante do “Conhece-te a ti mesmo...” socratiano, na
perspectiva da formação como o mistério do seu destino que o aprendiz se põe a enfrentar. Em consonância com isto, a educação carrega o sentido de que
“cada existência firma-se e afirma-se em contato com as existências que a rodeiam” (GUSDORF, 1967, p. 10), ou seja, é a comunicação dos contrários que
gera conexão com o outro e consigo mesmo.

Considerações finais
A intenção deste trabalho foi propiciar uma análise sobre o feminino no processo de construção simbólica realizada pelo imaginário, que em meio ao
instituído recorre à capacidade instituinte de modificar pensamentos, discursos e práticas na Escola.
Propomos pensar que a produção simbólica é uma produção social capaz de ser desconstruída. Os lugares e os comportamentos controlados pelos
códigos disciplinares são equipamentos de uma cultura reproduzida na história. A cidade em seus diferentes ambientes e, nesse caso, na Escola impõe
relações de dominação que devem ser identificadas e modificadas por um outro ensino.
Com o desafio de reconhecer a potência criadora do feminino, questões ficam ainda abertas para problematização: Em que medida a equipe profissional
que ocupa os espaços de formação na Escola contribui para a desconstrução dos valores de homens brancos e heterossexuais? Como a cidade em seus
diferentes espaços acolhe a potência feminina? A cidade é o lugar onde o feminino pode existir em seus múltiplos modos de existência? A Escola
representa as normas e os comportamentos que a cidade reproduz nas relações de gênero? Que sentidos são produzidos coletivamente a partir da resistência
do feminino frente às imposições da cultura machista?
Portanto, as questões acima demonstram o longo desafio de transformar a Escola em um espaço de acolhida da multiplicidade heterogênea. Desafio que
o feminino, em sua potência criadora, necessita cada vez mais, na contemporaneidade, resistir por intermédio de seus agenciamentos coletivos. É preciso
romper com o perfil que tentou determinar uma única concepção e manifestação na história. No entanto, as contribuições do pensamento Durandiano, neste
texto, tentaram possibilitar brechas teórico-práticas frente ao imaginário construído.
Por fim, propomos com este trabalho propiciar uma análise das questões que atravessam e transversalizam a temática gênero no terreno simbólico
frente à ambiguidade dos lugares instituídos da mulher e do homem. Visamos, ainda, promover a possibilidade de refletir sobre os caminhos de uma
educação pautada na alteridade e na convivência com a diferença, por intermédio da tolerância e do reconhecimento do outro como aliado no cotidiano
relacional.

Referências
CASSIRER, Ernest. A Filosofia das Formas Simbólicas. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
DURAND, Gilbert. A Imaginação Simbólica. São Paulo: Cultrix,1988.
_________. As Estruturas Antropológicas do Imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ed Nova Fronteira.
GUSDORF, Georges. Professores para quê? Lisboa: Morais Editora, 1967.
Luz, Marco Aurélio. AGADÁ – dinâmica da civilização Africano-Brasileira. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBa: Sociedade de Estudos da
cultura Negra no Brasil, 1995.
MORIN, Edgar. La Méthode, trad I: La Nature de la Nature. Paris: Seuil-Points, 1981.
ORTIZ-OSÉS, Andrés. La Nueva Filosofia Hermenéutica. Barcelona: Anthropos, 1986.
ROLNIK, Raquel. Guerra do Lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.
SANTOS, Juana Elbein. Os Nàgó e a Morte. São Paulo: Vozes, 2008.
WUNENBURGER, Jean-Jacques. ARAÚJO, Alberto Filipe. Introdução ao Imaginário. In ARAÚJO, Alberto Filipe. BAPTISTA, Fernando Paulo.
Variações sobre o Imaginário – domínios, teorizações, práticas hermenêuticas. Lisboa: Instituto Piaget, 2003.
A DISCIPLINARIZAÇÃO DO CONHECIMENTO COMO BARREIRA PARA A APRENDIZAGEM NO VIÉS DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Gilvane Correia76
Clarissa Haas77

Resumo: No presente artigo discutimos a disciplinarização do conhecimento a partir do pensamento sistêmico de ciência. Buscamos refletir a respeito das consequências da visão fragmentada dos saberes na
organização curricular das etapas e níveis de ensino da educação escolar. Entendemos que essa disciplinarização impõe-se como barreira significativa à aprendizagem de todos os estudantes, sobretudo aos
sujeitos escolares com deficiência nomeados como público-alvo da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. O estudo de natureza qualitativa baseia-se na pesquisa bibliográfica e na narrativa
de um caso empírico. Considerando o currículo como uma invenção histórico-cultural e a abordagem interdisciplinar como uma atitude docente de abertura ao diálogo e ao trabalho colaborativo, entendemos
que o viés da educação inclusiva tem a potência para fortalecer a reinvenção da escola e da universidade, uma vez que coloca em xeque a ordem disciplinar e instiga a busca de formas para prover a
acessibilidade curricular a todos os estudantes.
Palavras-chave: interdisciplinaridade; currículo; acessibilidade curricular; educação inclusiva; pensamento sistêmico.

1 Apresentação do tema
É interessante analisar que, do ponto de vista legal e normativo, a educação escolar brasileira tem uma legislação aberta às possibilidades distintas de
arranjos curriculares, sobretudo quando se refere à educação básica. Conforme a LDB 9394/96, artigo 23:
Art. 23. A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na
idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. (BRASIL,
1996, art. 23)

Todavia, se tomarmos os currículos das escolas, institutos e universidades, veremos que a disciplinarização é preponderante e descrita nos cotidianos
como única organização curricular legítima e/ou possível.
Vasconcellos (2015), ao discutir os paradigmas que constroem as teorias científicas a partir da abordagem sistêmica, auxilia a compreender a
importância de uma visão que supere a compartimentalização do conhecimento, propondo a passagem do pressuposto da simplicidade para o pressuposto
da complexidade:
O reconhecimento de que a simplificação obscurece as inter-relações de fato existentes entre todos os fenômenos do universo e de que é imprescindível ver e lidar com a
complexidade do mundo em todos os seus níveis. Daí decorrem, entre outras, uma atitude de contextualização dos fenômenos e o reconhecimento da causalidade
recursiva. (VASCONCELLOS, 2015, p. 101)

Portanto, quanto mais integrados estiverem os conhecimentos, tanto melhor para identificar conexões entre eles que favorecem a construção de
sentidos, portanto, a aprendizagem. Além disso, ao analisarmos um fenômeno de modo contextualizado atentando para as suas relações, torna-se possível
conceber que não há verdades absolutas nem conhecimentos mais verdadeiros que outros, favorecendo o campo para a compreensão e o acolhimento de
diferentes níveis de domínio dos conhecimentos trabalhados na escola, por parte dos sujeitos aprendentes, na perspectiva de considerar os percursos
individuais na proposição de metodologias de ensino e avaliação da aprendizagem.
Enquanto a escola esteve identificada com a seleção dos mais capazes (ALAVARSE, 2009, p. 38), o modelo curricular disciplinar e homogeneizador
das formas de aprendizagem cumpriu a sua função, mas perde o sentido diante da universalização da educação que, no Brasil, ocorre a partir da
Constituição Federal de 1988 e assegura o ingresso e a permanência na escola de segmentos da sociedade historicamente alijados do direito à educação
como negros, indígenas, pessoas com deficiência78. Assim, cumpre-se pensar formas de tornar o currículo “acessível” às diferenças culturais e às diferenças
produzidas pela desigualdade de oportunidades que caracterizam os variados grupos aos quais a escola tem o dever de garantir efetiva participação e
aprendizagem. Nesse sentido, a acessibilidade ao currículo para alunos com deficiência se reveste de uma perspectiva bastante ampla que não diz respeito
apenas ao atendimento individualizado79, mas envolve concepções epistemológicas, políticas, filosóficas que sustentam o currículo escolar e estão
relacionadas com conceitos como aprendizagem, conhecimento, interdisciplinaridade e deficiência.
Portanto, neste estudo, discutimos a disciplinarização do conhecimento a partir de uma abordagem sistêmica de ciência, com ênfase nas contribuições
de Gregory Bateson (1986), Frijot Capra (1995), Humberto Maturana (2001; 2011), Francisco Varela e Maria José Vasconcellos (2011). Buscamos refletir
a respeito das consequências da visão fragmentada dos saberes na organização curricular das etapas e níveis de ensino da educação escolar, bem como
quanto às possibilidades de abertura de “brechas” de reinvenção dessa ordem por meio do dispositivo da interdisciplinaridade. Entendemos que a
disciplinarização impõe-se como barreira significativa à aprendizagem de todos os estudantes, sobretudo aos sujeitos escolares com deficiência nomeados
como público-alvo da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva.
O estudo de natureza qualitativa é construído com base na pesquisa bibliográfica articulada à análise de uma narrativa de um caso empírico referente à
adoção de ações interdisciplinares no contexto do ensino superior como forma de minimizar os impactos das barreiras disciplinares na promoção da
aprendizagem de estudantes com deficiência incluídos na turma e dos demais.

2 A disciplinarização no currículo escolar como barreira para a aprendizagem


Observa-se que a organização dos conteúdos escolares de forma fragmentada em componentes curriculares, disciplinas, matérias, ou outra
denominação que se refira a essa compartimentalização do conhecimento, está presente no currículo escolar como algo naturalizado.
Ao se apoiar no pensamento sistêmico como referencial teórico, este texto apresenta alguns elementos indicativos de que a disciplinarização pode ser
considerada uma barreira para a aprendizagem. A perspectiva sistêmica representada por autores como Gregory Bateson, Humberto Maturana e Francisco
Varela, Fritjof Capra, Maria José Vasconcellos, Ilya Prigogine, Edgar Morin assume a complexidade, ou seja, a “natureza dinâmica da realidade” (CAPRA,
1995, p. 66). Essa abordagem teórica pode contribuir para pensar a disciplinarização – forma preponderante de organização dos currículos escolares –
como resultante de um dos pressupostos da ciência tradicional que se transformou em senso comum e está na base da racionalidade educacional até os dias
de hoje, qual seja: a “simplicidade” (VASCONCELLOS, 2015, p. 69).
A simplicidade está relacionada com a crença que, ao isolar um elemento da realidade, assegura-se maior precisão em sua análise e consequente
profundidade do conhecimento sobre ele. A simplicidade deu origem à fragmentação e à compartimentalização como estratégia de garantia do rigor
científico.
A fim de melhor caracterizar a rede de significados que essa racionalidade científica produz, faz-se necessário mencionar outros dois pressupostos que
estão a ela associados: a “estabilidade” e a “objetividade” (VASCONCELLOS, 2015, p. 69).
A estabilidade está vinculada à ideia de reversibilidade (VASCONCELLOS, 2015). Com base nesta concepção, acredita-se que certos fenômenos sejam
reversíveis, ou seja, uma vez cessada a influência que provocou determinada mudança, ocorreria retorno ao estado inicial. Tal pressuposto, que nasce no
campo das ciências naturais, recebe dessa mesma área do conhecimento uma das contribuições mais significativas para repensá-lo, quando Ilya Prigogine
(1917-2003), por meio de estudos da “física do não equilíbrio”, demonstra a “historicidade dos eventos” e propõe a irreversibilidade e a probabilidade
associada a tais fenômenos:
A grande diferença é que a mecânica clássica sempre considerou movimentos isolados, enquanto a irreversibilidade só encontra seu sentido quando consideramos os
sistemas imersos em um meio de interações persistentes, que é como, de fato, ocorrem os eventos na natureza (MASSONI, 2008, p. 61).

Nesse sentido, admite-se a historicidade não só para as dinâmicas sociais, mas também para a relação que envolve os elementos da natureza. Presente e
futuro se diferenciam e, no lugar da previsibilidade, concebe-se a probabilidade.
A objetividade, por sua vez, se refere à ideia de que é possível conhecer o mundo exatamente como ele é, como se este fosse estático, e a partir da
imparcialidade do pesquisador. Nessa perspectiva, acredita-se que haveria conhecimentos mais verdadeiros que outros, quanto mais fiel o processo de
apreensão da realidade que produziu a uns e a outros.
Como contraponto ao princípio da simplicidade da ciência tradicional, a perspectiva sistêmica defende que o conhecimento está nas inter-relações, algo
só pode ser significado e compreendido a partir do contexto em que está inserido. Não se investe em categorizações, em dicotomias do tipo “ou isto ou
aquilo”, admite-se os paradoxos e as oscilações. “Todos os fenômenos naturais são oscilações contínuas entre os dois polos, e todas as transições se
processam gradualmente e numa progressão ininterrupta” (CAPRA, 1995, p. 129).
Quanto à objetividade, Maturana (2001) a coloca “entre parênteses”, ao considerar que a percepção humana é precária, que os meios de observação da
realidade de que dispomos, muitas vezes produzem enganos, nossa capacidade perceptiva é falha. De acordo com esse autor, o que os cientistas produzem
são “proposições explicativas” sobre a realidade e essas explicações são o que chamamos de teorias científicas.
Também não se acredita ser possível total isenção do pesquisador no processo de pesquisa do qual se origina o conhecimento científico, pois “toda
experiência é subjetiva. [...] nossos cérebros fabricam as imagens que pensamos ‘perceber’” (BATESON, 1986, p. 37).
Uma vez configurada a concepção de conhecimento científico na perspectiva sistêmica, é fundamental que se estabeleça outro conceito fundante para a
discussão aqui proposta: o conceito de aprendizagem. Maturana (2001) e Maturana; Varela (2011) caracterizam a aprendizagem como processo de
interações recorrentes, por meio das quais os seres se constroem (autopoiese). Esses autores alertam que a aprendizagem não está relacionada com
“apreensão” de alguma coisa como o vocábulo sugere. Não se trata de captar por meio dos sentidos e gravar na memória, mas de modificar-se por meio das
vivências que ocorrem em interações constantes com o meio.
[...] não se pode tomar o fenômeno do conhecer como se houvesse “fatos” ou objetos lá fora, que alguém capta e introduz na cabeça. A experiência de qualquer coisa lá
fora é validada de uma maneira particular pela estrutura humana, que torna possível “a coisa” que surge na descrição. [...] todo ato de conhecer faz surgir um mundo.
[...] todo fazer é um conhecer e todo o conhecer é um fazer. (MATURANA; VARELA, 2011, p. 31-32, grifos dos autores)

Ao considerar a aprendizagem como uma construção realizada pelos seres a partir de suas interações com o meio, onde tanto organismo como meio se
modificam (MATURANA; VARELA, 2011); ao colocar a “objetividade entre parênteses” (MATURANA, 2001); e ao considerar que só existe
comunicação a partir de um contexto (BATESON, 1986), identifica-se a disciplinarização ainda constante nos currículos escolares como uma barreira à
aprendizagem, uma vez que vai à contramão de como o processo de aprender ocorre.

3 A interdisciplinaridade como “brecha” frente à ordem curricular disciplinar


Ao recorrermos às bases históricas, epistemológicas e pedagógicas da área da Didática como campo de produção de conhecimento responsável pelos
processos de ensinagem, verificamos que a crítica em torno da disciplinarização do conhecimento e a busca por formas para desconstruir esse paradigma
não é nova. Desde os gregos há uma preocupação com a integração dos conhecimentos (OCAMPO; SANTOS; FOLMER, 2016). Fazenda (1999) aborda
que os primeiros estudos a respeito da comunicação entre as disciplinas que sugerem uma abordagem interdisciplinar são datados da década de 60, na
Europa, especialmente na França e na Itália, mediante as mobilizações estudantis em busca da melhoria da qualidade do ensino.
A importância do diálogo entre as áreas de conhecimento influenciou a pesquisa acadêmica, assim como a gestão escolar. No Brasil, embora o termo
interdisciplinaridade não apareça de modo explícito na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9394/96 (BRASIL, 1996), há orientações
normativas do Conselho Nacional de Educação, tais como a Resolução do CNE/CEB nº 04/2010 (BRASIL, 2010) que evoca de forma clara a
interdisciplinaridade como uma organização curricular almejada na Educação Básica, apontando, inclusive, a polissemia de termos existentes ao se tratar
das abordagens didáticas curriculares80. A resolução citada, ainda, em capítulo específico sobre a Educação Especial articula essa modalidade de ensino à
“pedagogia interdisciplinar”. É possível ler no artigo 29, § 2º:
Os sistemas e as escolas devem criar condições para que o professor da classe comum possa explorar as potencialidades de todos os estudantes, adotando uma pedagogia
dialógica, interativa, interdisciplinar e inclusiva e, na interface, o professor do AEE deve identificar habilidades e necessidades dos estudantes, organizar e orientar sobre
os serviços e recursos pedagógicos e de acessibilidade para a participação e aprendizagem dos estudantes. (BRASIL, 2010)

A mesma resolução traz o termo transdisciplinaridade aliado à interdisciplinaridade. É possível identificar na literatura acadêmica (FAZENDA, 2008) a
adoção do termo transdisciplinaridade como um estágio mais elevado da interdisciplinaridade, na qual as fronteiras do conhecimento não são consideradas
válidas ao passo de não ser possível identificar onde começa e onde termina uma disciplina. A transdisciplinaridade insere-se na busca atual de um novo
paradigma para as ciências da educação, articulando-se com os referenciais teóricos da perspectiva sistêmica, com a ideia de rede, ou de comunicação entre
os diferentes campos disciplinares. Morin (1982), ao tratar sobre a transdisciplinaridade, esclarece que é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo
e vice-versa, ilustrando esse princípio a partir das práticas escolares:
As crianças aprendem a história, a geografia, a química e a física dentro da categoria isolada, sem saber, ao mesmo tempo, que a história sempre se situa dentro de espaços
geográficos e que cada paisagem geográfica é fruto de uma história terrestre, sem saber que a química e a microfísica tem o mesmo objeto, porém em escalas diferentes.
As crianças aprendem a conhecer os objetos isolando-os, quando seria preciso também recolocá- los em seu meio ambiente para melhor conhecê-los, sabendo que todo ser
vivo só pode ser conhecido na sua relação com o que o cerca, onde vai buscar energia e organização. (MORIN, 1982, p. 217-218)

Entendemos que as fronteiras conceituais entre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade são bastante tênues; também identificamos o caráter de
complementariedade entre os referidos dispositivos. No presente texto, nossa linha de argumentação adota o termo interdisciplinaridade por considerá-lo
um dispositivo tão ousado quanto a transdisciplinaridade, mediante as possibilidades conjunturais da escola do século XXI, cujos modelos curriculares
baseados na fragmentação do tempo e dos conteúdos ainda reproduzem o ideário pedagógico do século XIX.
Portanto, definimos interdisciplinaridade como um dispositivo pedagógico que prima pelo estabelecimento de relações de interdependência,
convergência e complementaridade entre os saberes, por meio do qual as disciplinas se reúnem em torno de uma situação problema, de modo que a
pesquisa a respeito do sentido da pergunta enunciada é tão importante quanto a resposta final. Conforme Fazenda (2008), o conceito de
interdisciplinaridade advém do conceito de disciplina, pois não se pode negar a evolução histórica dos conhecimentos em suas respectivas áreas de saber.
Para Trindade (2008), a interdisciplinaridade caracteriza-se como uma atitude docente:
Mais importante do que defini-la, porque o próprio ato de definir estabelece barreiras, é refletir sobre as atitudes que se constituem como interdisciplinares: atitude de
humildade diante dos limites do saber próprio e do próprio saber, sem deixar que ela se torne um limite; a atitude de espera diante do já estabelecido para que a dúvida
apareça e o novo germine; a atitude de deslumbramento ante a possibilidade de superar outros desafios; a atitude de respeito ao olhar o velho como novo, ao olhar o outro
e reconhecê-lo, reconhecendo-se; a atitude de cooperação que conduz às parcerias, às trocas, aos encontros, mais das pessoas que das disciplinas, que propiciam as
transformações, razão de ser da interdisciplinaridade. (TRINDADE, 2008, p. 73).

Nesse sentido, o diálogo entre as disciplinas e entre os próprios profissionais da educação é importante instrumento para eliminar as barreiras de
aprendizagem provocadas pelas rupturas entre os saberes que, por sua vez, são ainda mais evidentes na passagem de um ano escolar, de uma etapa e/ou
nível de ensino a outro. A interdisciplinaridade descrita como uma atitude (FAZENDA, 2002; 2008; TRINDADE, 2008) auxilia a pensar a partir dos
contextos sociais e institucionais vigentes sob a égide da ordem disciplinar, instigando a ousadia docente na busca em abrir “brechas” para sua atuação e
exigindo uma profunda imersão no trabalho cotidiano.

4 Educação inclusiva e acessibilidade ao currículo


A educação inclusiva enquanto perspectiva ética, filosófica, sociológica e pedagógica que inscreve a escola do século XXI e orienta as práticas
pedagógicas em torno do direito à aprendizagem de todos e de cada um propõe um olhar estrutural à instituição escolar e, especialmente, à organização
curricular. Conforme Mantoan (2015), a educação inclusiva é uma educação plural, democrática e transgressora capaz de provocar uma crise de identidade
institucional na lógica escolar inventada e decretada perante a ilusão da homogeneidade, da fragmentação do ensino em disciplinas, seriações,
classificações e hierarquizações de conhecimento.
Ao tratarmos sobre educação inclusiva ou inclusão escolar é fundamental definirmos o conceito de acessibilidade. O Decreto nº 5.296/2004 em seu
artigo 8º, inciso II, define acessibilidade como “qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento, a circulação com
segurança e a possibilidade de as pessoas se comunicarem ou terem acesso à informação” (BRASIL, 2004).
Acessibilidade é um termo que ganhou aderência à memória das pessoas por meio de sua dimensão arquitetônica, mas que não se limita a esta e
apresenta diversos tipos, a exemplo daqueles enumerados por Melo (2008), quais sejam: atitudinal, arquitetônica, metodológica, programática,
comunicacional. O documento orientador do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES, além das já citadas, aponta ainda a
acessibilidade instrumental, nos transportes e digital. De acordo com esse documento, a acessibilidade atitudinal “refere-se à percepção do outro sem
preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações” e todas os demais tipos de acessibilidade estariam relacionados a ela, uma vez que a remoção de
barreiras depende da atitude das pessoas (ANDRADE et al., 2016, p. 22).
A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006), incorporada à legislação brasileira como Emenda
Constitucional por meio do Decreto nº 6949/2009, determina, em seu artigo 9º, que os Estados Partes devem assegurar às pessoas com deficiência:
O acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da
informação e comunicação, bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de uso público, tanto na zona urbana como na rural. (BRASIL, 2009)

Entende-se que o acesso à educação não se limita ao alcance do espaço físico da escola, mas à efetiva participação nas atividades propostas pela
instituição com vistas ao desenvolvimento de todos os alunos em igualdade de condições.
No entanto, a definição das estratégias de acessibilidade pode ser influenciada por diferentes concepções acerca da deficiência. O modelo biomédico se
encontra historicamente enraizado na cultura e no imaginário das pessoas. Uma visão biomédica de deficiência leva a crer que devem ser feitas adaptações
que incidem sobre a pessoa com deficiência como “destoante” e possuidora de determinado “desvio”, sustentando que “há uma relação de causalidade e
dependência entre os impedimentos corporais e as desvantagens sociais vivenciadas pelas pessoas com deficiência” (DINIZ; BARBOSA; SANTOS, 2009,
p. 66). Por esse viés, as atenções se direcionam apenas para a pessoa que apresenta a condição de diferença com a intenção de prover algum tipo de
correção.
Enquanto que a visão social de deficiência incide sobre o contexto em que o sujeito interage, a fim de identificar os elementos que produzem a distância
entre o que ele pode fazer e as condições que lhe são dadas para isso: “é um conceito que denuncia a relação de desigualdade imposta por ambientes com
barreiras a um corpo com impedimentos” (DINIZ; BARBOSA; SANTOS, 2009, p. 65).
Entende-se que, no caso da educação, o olhar se volte para o currículo, que não seria considerado apenas do ponto de vista técnico-programático, mas
como tudo o que se vive na escola enquanto espaço de reprodução das relações de poder existentes na sociedade. Para Silva (2005), “o conhecimento
corporificado no currículo carrega as marcas indeléveis das relações sociais de poder. [...]. O currículo é, em suma, um território político” (SILVA, 2005, p.
148). De acordo com esse autor, o currículo é uma “invenção social como qualquer outra” e o fato de ser organizado em disciplinas, possuir uma
hierarquia, ser distribuído em intervalos de tempo é uma “contingência social e histórica” (SILVA, 2005, p. 148): “Em determinado momento, através de
processos de disputa e conflito social, certas formas curriculares – e não outras – tornaram-se consolidadas como o currículo” (SILVA, 2005, p. 148-149,
grifo do autor).
Se o currículo é invenção e é espaço de disputa de poder, cogita-se a sua reinvenção a partir da reflexão que insere novos conceitos na base da cultura
escolar a fim de desnaturalizar determinadas formas de organização que obstaculizam a construção de uma escola verdadeiramente democrática e
considerar que essas não são as únicas formas possíveis de organização da instituição escolar. Tampouco as dificuldades muitas vezes encontradas na
inclusão das pessoas com deficiência e de outros segmentos cuja cultura se diferencia daquela que é dominante na escola, não podem ser vistas como
responsabilidade apenas desses sujeitos, mas resultado de um contexto de inter-relações.

5 Ações interdisciplinares no ensino superior


Foi selecionada para este texto a narrativa de um caso vivenciado no ensino superior a fim de contextualizar a tomada reflexiva de ações
interdisciplinares em torno das barreiras de acesso à aprendizagem associadas à disciplinarização do conhecimento.
Em um curso de licenciatura onde há dois alunos com deficiência visual – baixa visão e uma acadêmica com deficiência auditiva, o núcleo de
acessibilidade realiza uma intervenção com a equipe docente na tentativa de construir coletivamente estratégias de acessibilidade pedagógica (com foco
metodológico) com vistas a garantir o acesso à aprendizagem por parte desses alunos. Em contato com as respectivas turmas, percebe-se que os demais
alunos (sem deficiência) também apresentam dificuldades relacionadas com a apreensão dos conteúdos acadêmicos (UNIPAMPA, 2017).
Primeiramente, faz-se necessário caracterizar o contexto da instituição e do curso. Trata-se de uma universidade pública criada recentemente por meio
do programa de expansão das universidades federais, localizada no sul do Brasil, cujo ingresso ocorre exclusivamente por meio do Exame Nacional do
Ensino Médio – ENEM – e com organização multicampi. A experiência ocorre em um curso noturno de Licenciatura da área das Ciências Humanas.
De acordo com informações obtidas por meio da Pesquisa Perfil do Ingressante (UNIPAMPA, 2017), realizada anualmente pela instituição quando do
ingresso dos estudantes, é possível concluir que a grande maioria dos/as alunos/as matriculados/as no primeiro semestre do curso em tela, trabalham
durante o dia, cursaram o Ensino Médio em escola pública, estão no curso que escolheram em 1ª opção e sempre dez ou mais desses/as alunos/as
declararam que apresentam dificuldades em interpretação e produção de textos, informática, habilidade de falar em público e normas de escrita científica.
Em diálogo com os estudantes, foi possível saber que estes identificam algumas questões com as quais associam suas dificuldades: incompatibilidade
entre a quantidade de atividades propostas e o tempo de que dispõem para realizá-las; dificuldade de compreensão dos conteúdos; atrasos em função do
trabalho; e ainda apontam falta de coerência entre o que está definido no perfil do curso e a forma como são conduzidas as questões relativas à atuação
docente, o que no âmbito da pedagogia, chama-se de “simetria invertida81”.
Os docentes, por sua vez, expressaram grande preocupação com certas habilidades consideradas fundamentais para o desenvolvimento acadêmico que
não se encontram desenvolvidas nos estudantes, quais sejam: disposição para leituras mais complexas, análise, síntese e escrita acadêmica propriamente
dita. Considerando as percepções dos estudantes, dos docentes e as informações obtidas por meio da pesquisa Perfil do Ingressante, foram encaminhadas
discussões no âmbito do curso, permeadas pelos seguintes princípios:
• Adoção de alguns referenciais básicos comuns a vários componentes curriculares de modo a diminuir a quantidade total de textos e oferecer uma base
conceitual comum e interdisciplinar. Com essa estratégia, poderia sobrar tempo para explorar os textos específicos de cada componente curricular
coletivamente em sala de aula;
• Disponibilização de uma agenda comum de todos os componentes curriculares, com “balanceamento” de tarefas e prazos, de modo a não ultrapassar
determinados limites combinados coletivamente no âmbito do curso;
• Alternância de textos enviados para serem lidos em casa com leituras dinâmicas em sala de aula;
• Oferecimento de atividades complementares que atendam às especificidades do curso e do perfil das turmas. Ex.: Destinar duas horas semanais de
aula durante dois meses para oficinas de leitura e exploração textual, informática, etc. Não sendo possível em horário de aula, pensar em horário extraclasse
que atenda à disponibilidade das pessoas que demandam esse atendimento. Nesse caso, seria necessário realizar um mapeamento das dificuldades dos/das
alunos/alunas e seus respectivos horários disponíveis e pactuar a sua participação;
• Incorporação ao planejamento do curso, das informações colhidas pela pesquisa Perfil do Ingressante;
• Estabelecimento e/ou restabelecimento do diálogo com os/as alunos/as para realizar as novas pactuações. O “pacto pedagógico” de um curso está
expresso no projeto pedagógico, mas precisa ser realimentado continuamente por meio da informação e da discussão a fim de mantê-lo vivo (UNIPAMPA,
2017).
Sem prejuízo da atenção individualizada aos alunos com deficiência, as estratégias acima elencadas demonstram preocupação com o “contexto” e com
as “histórias” que se atravessam nesse contexto, ou seja, com todos os alunos. Sujeitos envolvidos se modificam e modificam o meio, ao mesmo tempo em
que constroem a si mesmos na inter-relação.
À guisa de conclusão, cabe destacar que a educação inclusiva tem a potência para fortalecer a reinvenção da escola e da universidade, uma vez que
coloca em xeque a ordem disciplinar e instiga a busca de formas para prover a acessibilidade curricular a todos os estudantes. Entre essas formas
inscrevem-se as ações ou práticas interdisciplinares, uma vez que propõem uma ruptura com a concepção de currículo em um viés estritamente técnico e
programático. O professor interdisciplinar tem as características esperadas de um docente que compreende e pratica a natureza inclusiva dos processos
escolares por meio da docência. Conforme Trindade (2008, p. 82):
O professor interdisciplinar percorre as regiões fronteiriças flexíveis onde o “eu” convive com o “outro” sem abrir mão de suas características, possibilitando a
interdependência, o compartilhamento, o encontro, o diálogo e as transformações. Esse é o movimento da interdisciplinaridade caracterizada por atitudes ante o
conhecimento. (TRINDADE, 2008, p. 82)

Acreditamos que a atitude interdisciplinar provoca, por sua vez, a mudança no registro a respeito da visão de conhecimento e ciência, uma vez que
inscreve o olhar simultaneamente para o todo e para as partes, bem como para as relações. Dessa forma, a interdisciplinaridade coloca-se como dispositivo
capaz de reconfigurar a articulação entre currículo, conhecimento, aprendizagem e deficiência produzindo narrativas que subvertem e ousam transformar a
ordem curricular disciplinar hegemônica.

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A COMPLEXIDADE E OS LIMITES DA PUBLICIDADE NA REPRESENTAÇÃO DE IMAGENS DE GÊNERO
Alaor Lubschinski Ries82
Marta Elaine Vercelhesi Mendes83
Denise Teresinha da Silva84

Resumo: A publicidade apresenta uma imagem que tenta comover o público, criando um ambiente, evocando um sentimento, provocando uma emoção. Nestes últimos anos, a forma de representar as
imagens de Homem e Mulher sofreram transformações, mas ainda não chegaram a romper com padrões estéticos pré-definidos dos gêneros. Neste texto apresentaremos recortes de dois Trabalhos de
Conclusão de Curso (TCC) de Publicidade e Propaganda, um que trabalha a partir das construções sobre imagem de Homem e outro sobre imagem de Mulher, intitulado “Partículas de cabra macho: A
imagem do Homem Old Spice”85 e outro que teve por objetivo conhecer em duas perspectivas de análise como os anúncios de lingerie publicizam imagens de mulher chamado “Anúncios de lingeries sob o
olhar das mulheres de São Borja”.
Palavras-chave: Publicidade; Mulher; Homem; Imagem; Diferenças.

Introdução
A publicidade tomou para si uma responsabilidade que não é sua ao propor uma reflexão sobre as práticas sociais a partir de uma relação capitalista de
consumo. Lipovetsky (2009) afirma que o sujeito consumidor é encantado e não enganado, pois a publicidade só seduz quem está predisposto a ser
seduzido, ou seja, o indivíduo negocia com a sedução e a publicidade funciona como cosmético da comunicação que, junto com o consumo, acentua o
individualismo. O autor escreve sobre uma característica muito importante da publicidade: vetor estratégico de redefinição do modo de vida centrado no
consumo e no lazer. Ela contribui para despertar os desejos, acelerando-os e deslocando-os, numa cultura hedonista baseada no princípio da
individualidade, desculpabilizando o fenômeno do consumo. Já Bauman (2008) observa que a promessa incessante de felicidade e satisfação a cada nova
compra transmite ao indivíduo novas chances de renascimento social. Todavia, pensar o ato de consumir vai além disso, ele é um conjunto de processos
socioculturais, pois adquirir uma determinada marca significa apropriar-se de produtos que carregam consigo a ideia de distinção, afirma García Canclini
(1999).
Frente a este mercado, a publicidade soube se adaptar às mudanças culturais que atravessaram a história e ao comportamento dos indivíduos ao
consumirem. Para Lipovetsky (2009), hoje o sujeito procura realizar o seu próprio ego, junto ao código do Novo e dos valores hedonistas. Por isso, é
necessário investir na fantasia e originalidade, esquecer-se de descrever com objetividade a função dos produtos e fazer rir, sentir, provocando experiências
estéticas, existenciais, emocionais.
O que seduz é a originalidade, o espetáculo, a fantasia, diz Lipovetsky (2009), pois a sedução provém do festival de artifícios, da retirada da seriedade
da vida, da suspensão das leis do real e do racional. Atualmente, segundo o autor, a publicidade não precisa mais usar uma lógica utilitária, indicando a
composição dos produtos, seguindo uma da racionalidade argumentativa e cultuando a objetividade dos objetos de consumo.
Numa outra vertente de pesquisa, Santaella e Nöth (2010) asseguram que entre a polaridade da razão e da emoção, sob a ótica triádica peirceana, está
instalado o grande operador da sedução, o complexo enigmático do desejo dentro da lógica publicitária. Assim, resumem que a sugestão ativa a capacidade
de sentir, a sedução atrai a sensorialidade dos sentidos e a persuasão satisfaz o pensamento.
A publicidade necessita contar uma história através de recursos visuais oferecidos pelas situações sociais. As situações de cerimonial e de sinais rituais
presentes na sociedade e que facilitam a compreensão mútua entre as pessoas, segundo Goffman (1979), é semelhante ao fazer publicitário que deve
encenar o valor de seu produto através da hiper-ritualização das ações realizadas espontaneamente na sociedade, assim, a gramática do anúncio pode
refletir a gramática dos arranjos sociais e as regras, que regem como as mulheres são mostradas com relação aos homens e vice-versa, podem nos dizer
como nossa sociedade estrutura o conceito do gênero.
Neste contexto, apresentaremos recortes de dois Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) de Publicidade e Propaganda, um que trabalha a partir das
construções sobre imagem de Homem e outro sobre imagem de Mulher.
No TCC intitulado “Partículas de cabra macho: A imagem do Homem Old Spice” foi desenvolvida uma pesquisa com o objetivo de identificar quais
são os arquétipos e tipologias da figura masculina das produções audiovisuais do canal do YouTube Old Spice Brasil. Através da análise de quadros
específicos de cada anúncio, verificamos quais são as características apropriadas para o Homem Old Spice tomando como referência o levantamento de
dados feito através de uma grade de categorizações. Os resultados mostram que brutalidade, rusticidade e violência são modelos de conduta para ser
considerado um “homem cabra macho” na visão desta marca.
A imagem do Homem Old Spice foi analisada partindo do vídeo de lançamento do produto no Brasil. As análises foram restritas apenas aos vídeos do
canal Old Spice Brasil do YouTube86. Analisamos um quadro (frame) de cada um dos 24 filmes (todas as veiculações da marca entre 16/05/2014 a
16/03/2017) deste canal. Nosso principal objetivo foi saber como estas imagens de “homem cabra macho” são apresentadas pela marca Old Spice.
Em outra perspectiva, o TCC “Anúncios de lingeries sob o olhar das mulheres de São Borja”87 teve por objetivo saber em duas perspectivas de análise
como os anúncios de lingerie publicizam imagens de mulheres, primeiro a partir de uma metodologia específica de análise de fotografias (campo e fora-de-
campo), segundo sobre como as mulheres são-borjenses veem a representação da imagem feminina em anúncios de lingeries impressos em revistas em uma
pesquisa de opinião com 13 mulheres com idade entre 50 e 60 anos que residem em São Borja. Os anúncios analisados foram: (1) LOUNGERIE publicado
na revista CLAUDIA edição junho de 2012, (2) VALISERE publicado na revista NOVA COSMOPOLITAN edição outubro de 2013, (3) DELRIO
também publicado na revista NOVA COSMOPOLITAN edição junho de 2014, (4) DELRIO publicado na revista CLAUDIA edição dezembro de 2015 e
(5) YOGA publicado na revista CARAS edição março de 2016. O estudo de recepção foi realizado com base nas mediações múltiplas de Orozco Gómez.
Com esta investigação, algumas questões merecem ser destacadas a partir da fala das mulheres entrevistadas, como o fato da inexistência de anúncios de
lingerie para esta faixa etária (entre 50 e 60 anos), o exagero na exposição do corpo da mulher, a apresentação de um mesmo padrão de imagem feminina e
a vulgarização presente em alguns anúncios. Neste texto, cabe ressaltar que apresentaremos somente a análise das imagens através da metodologia campo e
fora-de-campo.

Imagens de Homens na campanha da Old Spice


Há várias discussões sobre os padrões de comportamento do homem contemporâneo. Vemos todos os dias propagandas polêmicas com relação às
questões de gênero. As propagandas da marca de desodorante Old Spice produzidas pela P&G não fazem exceção à regra, com uma forma de se expressar
diferenciada, o desodorante de origem estadunidense veio ao Brasil com o ator Malvino Salvador, considerado como modelo de homem heterossexual, pois
sempre faz papeis de homens sedutores, másculos, rústicos e com temperamento rude, ou seja, personagem idealizado para representar a imagem de
homem desta marca.
Old Spice é uma marca de desodorantes dos Estados Unidos que recentemente chegou ao Brasil. Para anunciar o lançamento, a agência de publicidade
Grey em parceria com a Wunderman criou uma plataforma que explora o resgate do conceito do “homem homem” 88.
A campanha aposta na linguagem irreverente e nada convencional que se tornou símbolo da marca no exterior e traz o ator Malvino Salvador como protagonista do resgate
da “homenidade”. No total, a iniciativa inclui filme para TV aberta e fechada em versões de 60 e 30 segundos, filme de dois minutos para o cinema, mídia exterior,
merchandising televisivo, endomarketing e forte estratégia digital. No lançamento da ação, que coincide com o Dia Internacional da Mulher, será veiculada uma série de
anúncios impressos e na web para celebrar a data. (Revista Exame).
Segundo Mariângela Silvani, diretora de criação da agência Grey, em entrevista para Revista Exame, “O filme é intencionalmente over. Não existe a
pretensão de ser sério. O humor é fundamental para transmitir a essência de Old Spice, que possui um DNA eficiente, sofisticado e bem-humorado”. O
outro criador Sergio Fonseca explica o conceito que dá nome à campanha: “Através da hashtag #ATENDAAOCHAMADO, os homens que se
identificarem com o conceito e com a marca podem passar a fazer parte do grupo daqueles que buscam resgatar uma personalidade cada vez mais rara nos
homens atuais”.
O que nos interessava saber é como a imagem do Homem Old Spice foi transmitida nos filmes publicitários durante os dois anos de veiculações da
marca P&G no canal do YouTube Old Spice Brasil. Sabemos que vivemos em uma sociedade heteronormativa, a qual nos impõe certos padrões de
comportamento, o homem (neste caso, no singular) tem que ser rústico, pagar a conta e abrir a porta do carro para a mulher como sinônimo de
masculinidade. O Homem Old Spice reforça a exigência de ter que demonstrar esta masculinidade o tempo inteiro. Para isso, a marca satiriza esta imagem
do homem como o cabra macho. Cabe lembrar que a sátira é uma técnica literária usada para ridicularizar um determinado tema. Exemplo disso são os
primeiros filmes analisados, para os quais a marca buscou vídeos que viralizaram nas redes sociais satirizando o homem que comete atos absurdos para
provar sua força, como martelar um foguete, equilibrar-se no capô de um carro frente a um canteiro com cactos, alimentar um jacaré ou saltar de um lugar
alto sem segurança.
Figura 1: Reprodução de um quadro do filme da Old Spice “Martelando uma bomba e se achando homem”
Figura 2: Reprodução de um quadro do filme da Old Spice “Se achando homem no quintal”

Figura 3: Reprodução de um quadro do filme da Old Spice “Se achando homem na aldeia”
Figura 4: Reprodução de um quadro do filme da Old Spice “Se achando homem no pântano”

Os quatro primeiros quadros (Figuras de 2 a 5) do canal Old Spice Brasil têm nomeados seus títulos como “Se achando” como forma de satirizar as
cenas de homens em situações arriscadas. Usando vídeos virais, que são vídeos com alto poder de circulação, transformaram esses vídeos em conteúdo da
marca, pois apenas a finalização dos vídeos é de produção da Old Spice. Após as cenas dos virais cedidos pelo canal Discovery do programa “Experiências
Superloucas”, o ator Malvino Salvador faz o fechamento da cena, passando o desodorante em seu corpo sem camiseta com uma expressão séria no rosto.
Para este momento, vamos apresentar a análise do vídeo de lançamento “Atenda o Chamado” dos quatro quadros específicos do filme de lançamento da
marca Old Spice.
Figura 5: Reprodução de um quadro (1) do filme da Old Spice Brasil “Atenda o Chamado”

Análise: Vídeo 1 Malvino Salvador


Figura representada: 5. Adulto, sexo masculino.
Raça/etnia: 1. Branca (caucasiana)
Contexto: 6. Exterior Campestre.
Posição relativa: 19 - Outra posição, Homem dando um chute em coqueiro.
Expressão do rosto: 1. Séria/concentrada
Constituição de situação de poder aparente: 1. Domínio,
Tipo de ação do personagem: 4. Brutalidade/ Rusticidade
Arquétipo: 1. Herói.
Figura 6: Reprodução de um quadro (1) do filme da Old Spice “Atenda o Chamado”

Análise: Vídeo 2 Malvino Salvador


Figura representada: 5. Adulto, sexo masculino.
Raça/etnia: 1. Branca (caucasiana)
Contexto: 5. Exterior Urbano.
Posição relativa: 5. Homem em pé.
Expressão do rosto: 1. Séria/concentrada
Constituição de situação de poder aparente: 1. Domínio.
Tipo de ação do personagem: 1. Sedução.
Arquétipo: 1. Herói
Figura 7: Reprodução de um quadro (1) do filme da Old Spice “Atenda o Chamado”

Análise: Vídeo 3 Malvino Salvador


Figura representada: 5. Adulto, sexo masculino, 6. Adulta, sexo feminino.
Raça/etnia: 1. Branca (caucasiana)
Contexto: 8. Interior/Casa.
Posição relativa: 13. Homem em pé e mulher sentada.
Expressão do rosto: 1. Séria/concentrada (homem), 2. Risonha (mulher)
Constituição de situação de poder aparente: 1. Domínio (homem)
Tipo de ação do personagem: 5. Romance.
Arquétipo: 1. Herói
Figura 8: Reprodução de um quadro (1) do filme da Old Spice “Atenda o Chamado”
Análise: Vídeo 4 Malvino Salvador
Figura representada: 5. Adulto, sexo masculino (protagonista).
Raça/etnia: 1. Branca (caucasiana) (protagonista)
Contexto: 5. Exterior Urbano.
Posição relativa: 5. Homem em pé.
Expressão do rosto: 3. Sonhadora/Pensativa
Constituição de situação de poder aparente: 1. Domínio (Protagonista).
Tipo de ação do personagem: 8. Ágil/ Focado/ Concentrado
Arquétipo: 1. Herói
O “Homem Old Spice” nos quatro quadros, constitui situação de domínio na cena, apontando homens sedutores, brutos e rústicos. Em todos quadros é
demonstrado a força, somente na figura 8 aparece uma mulher, como telespectadora, função de coadjuvante, pois mostra o domínio do homem que segura
um lança chamas. Nas figuras de 6 e 9 aparecem todos homens com os punhos fechados comemorando e chutando o coqueiro, ação que demonstra a força
física e agressividade.
Em todos estes quadros o arquétipo do herói é o que se sobressai. Podemos citar o exemplo de Queiroz (2009) quando menciona o arquétipo do herói,
que “é uma idealização do homem comum e ao mesmo tempo está distante do dia a dia, rotineiro e entediante. O homem está sempre esperando um herói
que faça tudo aquilo que ele não realiza. Os homens de corpos atléticos, apolíneos, são a representação dos heróis” (QUEIROZ, 2009, p. 18).
Os arquétipos, segundo Jung (2000), consistem em definições específicas sobre um determinado tema, que são repetidas de forma contínua por diversas
gerações, tornando parte inconsciente dos indivíduos. A partir de uma filosofia platônica, diríamos que é a forma de designar ideias de modelos de todas as
coisas existentes. Outra forma bem conhecida de expressão dos arquétipos é encontrada no mito e no conto de fada. Aqui também, no entanto, se trata de
formas cunhadas de um modo específico e transmitidas através de longos períodos de tempo (JUNG, 2000, p. 17). Sendo assim, podemos definir arquétipo
pela primeira associação vista de uma imagem, podendo ser algo positivo como negativo.

Imagens de Mulheres em anúncios de lingeries


As mulheres hoje são consumidoras de grande gama de produtos para toda a família. Houve, a partir de 2014, um significativo aumento de
consumidoras ativas na internet de acordo com dados do site do e-commercebrasil. O número de mulheres que consomem produtos de beleza, calçados,
acessórios e vestuário, aumentou em 53%, através da internet89. Já Sophia Mind90 aponta que as mulheres possuem o domínio do processo de compra, pois
controlam 66% dos recursos para consumo, o que equivale a R$ 1,3 trilhão. Esses dados nos permitem visualizar os geradores de motivação de compra das
mulheres no Brasil, já que esse é o 10º colocado no que compete ao consumo feminino. Sant´Anna, afirma que “as pessoas, na pós-modernidade, estão
mais focadas em si mesmas, com seu bem-estar pleno: ético e estético. Querem ser atraentes, preocupam-se com sua aparência pessoal. As mulheres
investem mais em cosméticos, drogarias e supermercados” (2006, p. 14).
Propaganda tem por definição a propagação de princípios e teorias. Ela utiliza a tática mercadológica como um instrumento de vendas. Já o anúncio, na
definição de Sant´Anna (2006, p. 77), é a peça principal e meio publicitário por excelência, com sentido de comunicar algo, com objetivo de venda de
produtos e serviços, visando estimular desejo de posse ou divulgar e tornar conhecido algo novo, causar interesse na massa ou seus setores. A figura da
mulher nas propagandas no início refletia uma mulher doce e cheia de passividade, alguém que se encanta com produtos domésticos. Com o passar do
tempo, as conquistas femininas foram aparecendo e na propaganda elas tiveram outro tipo de representação, isto de acordo com Wolf (1996).
E a metamorfose no mundo da propaganda foi muito além das mulheres com falos. Convenções acerca da representação das mulheres, que eram tão velhas quanto o
próprio setor, foram revogadas. Kotex mostrou uma “mulher de verdade” troncuda, chegando à terceira base numa partida de beisebol, com a legenda, “Nós sabemos o
que significa ser mulher”.

[...] No Nonsense é um sinônimo das mulheres que não levam desaforo para casa; mulheres que fazem aquilo a que se propõem. Cosmopolitan resolveu abandonar sua
marca registrada – fotos de corpo inteiro, sensuais e reveladoras, com generosos decotes – trocando-a por fotos de rostos, e acrescentou à sua expressão característica “A
garota da cosmo” (“o prazer de uma garota”) os termos “mulheres jovens” (“e o poder de uma mulher”) (WOLF, 1996, p 54-5).

Mesmo assim, muitas empresas continuam vendendo utensílios para casa, materiais de limpeza, eletrodomésticos, ou mesmo objetificada como nos
comerciais de cerveja e lingerie. Neste contexto, apresentaremos cinco peças cujas imagens serão analisadas a partir de Silva (2013), sobre campo e fora-
de-campo, baseada nos conceitos de Aumont e Dubois. Silva (2013) explicita que é um método para interpretarmos todos os elementos que compõem a
imagem, portanto:
O campo consiste em um processo de interpretação da arquitetura da imagem, com o objetivo de descobrir os elementos constitutivos da imagem e as informações técnicas
do espaço compreendido no enquadramento, no qual está organizada estruturada a sua composição, ou seja, a forma de organização e disposição na imagem fotográfica,
sua impressão visual e nitidez (foco, iluminação, cores), característica dos lugares e cenários (ambiência), período do dia (manhã, tarde ou noite), personagens,
enquadramento e disposição das pessoas e objetos nos planos (SILVA, 2013, p. 37-38).

No Campo também existem as especificações técnicas tais como angulação, enquadramento, profundidade de campo. O Fora-de-Campo contextualiza.
Para compreender o fora-de-campo, foram investigados temas que surgiram a partir do campo, mas que extrapolaram a moldura da fotografia e que são fundamentais para
compreendê-la, como a marca, estilos e contextos de profissionais da moda, linha adotada pelas peças publicitárias, entre outras informações encontradas (SILVA, 2013, p.
38).

Abaixo faremos a análise dos anúncios da Loungerie, Valisere, DelRio e Yoga.


Figura 9: Reprodução de anúncio da Loungerie
Figura 10: Reprodução de anúncio da Valisere

Loungerie (Figura 9)
FORA-DE-CAMPO: A primeira imagem a ser analisada, é da marca Loungerie91, esta não é somente uma marca, e sim um mercado virtual varejista,
atuante no ramo de lingeries desde 2009. Esta loja virtual trabalha com vários tamanhos de lingerie totalizando 120 combinações e modelos. Esta obtém
suporte das marcas famosas DKNY, Intimates, Hanky Panky, Wacoal e Spanx. Na atualidade a Loungerie conta com 34 de suas lojas e um sistema de e-
commerce. Este anúncio foi publicado na Revista Claudia edição de 2012. Esta revista é publicada pela Editora Abril mensalmente, o seu público é o
feminino. Todos os meses ela traz estampada em sua capa mulheres que são celebridades bem como atrizes, cantoras, modelos famosas. O conteúdo da
revista é para mulheres que gostam de estar por dentro do mundo da moda, saber dicas de culinária, estética, horóscopo e muito mais. Claudia também tem
publicações virtuais, como: a fanpage, Instagram, Twitter, entre outros92.
CAMPO: Há uma modelo de corpo magro, cabelos na altura do ombro e loiros, a luminosidade evidencia a sensualidade do corpo feminino, assim
como a expressão facial com os lábios entreabertos. Também se observa que a modelo veste um sutiã de renda transparente tornando vivível o seio, uma
cinta-liga presa a meias, tudo na cor preta, o cenário ao fundo é na cor preta e a luz é direcionada ao corpo da modelo deixando-a ainda mais sensual. A cor
preta da lingerie conota sensualidade, ficando ainda mais evidente pela postura da mulher fotografada. O plano da foto é o americano, pois a modelo foi
fotografada do joelho para cima e o ângulo da câmera está reto devido ao direcionamento do olhar da modelo que encara a câmera, logo a quem olha o
anúncio.

Valisere (Figura 10)


FORA-DE-CAMPO: A marca iniciou no ano de 1913, na pequena cidade de Val d´Isére no Vale de Isére na França. Foi quando os filhos de Madame
Auguste Perrin, proprietária de uma empresa no ramo de luvas, resolveram ampliar a segmentação dos produtos com roupas íntimas. Atualmente a marca
Valisere pertence ao Grupo Rossett no Brasil, um dos maiores atuantes na indústria têxtil da América Latina93. Este anúncio foi publicado na revista Nova
Cosmopolitan edição 2013. A Revista Nova, como nos mostra o site da Editora Abril94, também faz parte da rede Cosmopolitan. Observamos dicas de
amor, sexo, beleza, culinária, saúde, horóscopo, etc. Uma revista direcionada ao público feminino.
CAMPO: Uma mesma modelo, com a sua imagem multiplicada em oito vezes, aparece vestida com modelos de lingeries em diversas cores em poses
diferentes. As lingeries de renda transparente deixam à vista parte da genitália feminina. A modelo é magra, branca e de cabelos castanho-claro. A foto foi
tirada no plano americano, os ângulos da câmera foram reto e transversal. O rosto aparece de várias formas, sorridente, sensual e séria.
Figura 11: Reprodução de anúncio
Figura 12: Reprodução de anúncio
Figura 13: Reprodução de anúncio
da DelRio (11) da DelRio (12) da Yoga (13)

DelRio (Figuras 11 e 12)


FORA-DE-CAMPO: A DelRio95 é uma marca que surgiu em Fortaleza no Ceará, há 40 anos. Atualmente, a DelRio conta com onze unidades fabris no
Brasil e diversos países na América Latina. Esta recebe o nome DelRio, porque teve inspiração na cidade do Rio de Janeiro, conhecida como a cidade
maravilhosa.
O anúncio (Figura 11) foi publicado na Revista Nova Cosmopolitan edição junho de 2014 e o outro (Figura 12) foi publicado na Revista Claudia edição
de 2015.
CAMPO (Figura 11): Observando a imagem temos: uma modelo de cor branca com os cabelos negros e na altura do ombro, vestindo um conjunto de
lingerie na cor preta, sensual. Ela utiliza como acessórios brincos compridos, ao fundo da imagem há um buquê de rosas vermelhas colaborando com um
clima mais romântico. O fundo da imagem é de cor clara e foi editado com um aspecto da modelo estar sobre um tulê, o plano fotográfico é o americano e
o ângulo da câmera é o reto, devido ao direcionamento do olhar da modelo.
CAMPO (Figura 12): A mesma modelo do anúncio anterior veste lingerie de cor preta. Nesta o sutiã apresenta mais detalhes. Ela usa um colar de
pérolas, brincos, prendedor de cabelo em detalhes de pérola e luvas também na cor preta, traduzindo uma ideia de sofisticação. A luz direcionada em seu
corpo demonstra sensualidade. O plano fotográfico é o americano.

Yoga (Figura 13)


FORA-DE-CAMPO: Yoga96 é uma loja virtual, que atua no ramo de lingeries modeladoras e já está no mercado de vestuário íntimo há 35 anos. Tem
produtos para o público feminino e masculino. A franquia também atende o segmento fitness e conta com uma linha médica, entre elas: talas para tendinite,
espaldeiras, sutiãs com forro para prótese, entre outros referentes ao pós-operatório. O anúncio foi publicado na Revista Caras na edição de 2016. Esta
revista teve sua origem na Argentina, segundo o Portal Imprensa97, isto ocorreu devido a uma epidemia por ostentação entre a classe média alta no início do
governo Menem, onde a moeda peso argentino passou a ter valorização em igualdade com o dólar, a nova sociedade argentina. Uma revista feita para ricos
e famosos, como se denominava, a qual publicava fotos até do presidente argentino jogando golfe, passeando em sua Ferrari, junto com belas mulheres e
em exuberantes mansões. Conforme o Portal Imprensa, a revista foi editada pela Perfil, passando a ser um manual obrigatório para a elite, tendo
repercussão inclusive na Europa. No Brasil ela foi editada inicialmente na Abril, hoje é a Editora Caras.
CAMPO: temos: duas modelos brancas e magras, cabelos loiros, que foram enquadradas no plano de corpo inteiro. Uma delas veste um corpete de cor
preta com detalhes estampados representando uma trepadeira e uma tanga preta, em seu punho direito há um bracelete. A outra moça veste também roupas
pretas com detalhes representando flores e folhas. Ambas estão de sapato com o salto alto, a iluminação está direcionada em seus corpos. Vários elementos
criam a atmosfera de sensualidade, o salto alto, a cor das lingeries, a postura dos corpos, a iluminação, o olhar diretamente para a câmera. O cenário é
composto ao fundo por uma parede de tijolos na cor branca, há uma mesa pequena com um livro sobre ela e uma manta cinza que decai sobre ela, logo
abaixo da mesa temos duas almofadas na cor vermelha. Diferente dos outros anúncios este tem a construção de um cenário ao fundo.

Considerações finais
As mudanças no pensamento da humanidade começam a acontecer devido em grande parte ao aparecimento de movimentos organizados de luta contra
a exclusão e o preconceito. Com novos pensamentos, a mulher começa a se organizar. O feminismo é um movimento que milita pela melhoria e extensão
do papel e dos direitos da mulher na sociedade, e tem seu auge entre as décadas de 60 e 70. A crise dos anos 90 parece impor um novo muro para a busca
da equidade feminina.
Joan Scott (1989) define gênero como uma categoria histórica, portanto, que reflete as mudanças comportamentais da sociedade. Não é um termo que
naturaliza as relações entre homens e mulheres, mas que se propõe a entender no contexto histórico como ser homem ou ser mulher a partir de uma
construção social. Para Saffioti (2004), o gênero não está atrelado ao sexo da pessoa, e sim à identidade de cada indivíduo, de acordo com a autora, estes
constroem a sua própria orientação sexual. “Cada feminista enfatiza determinado aspecto do gênero, havendo um campo, ainda que limitado, de consenso:
o gênero é a construção social do masculino e do feminino” (SAFFIOTI, 2004, p. 45).
A publicidade apresenta os produtos envolvidos em mundos míticos e protagonizados por personagens mitificados. Barthes diz que mito é uma fala, um
sistema de comunicação, uma mensagem, logo, tudo pode constituir um mito. “O mito não se define pelo objeto da sua mensagem, mas pela maneira como
a profere: o mito tem limites formais, mas não substanciais” (BARTHES, 1993, p. 131). Segundo o autor, a função do mito é transformar um sentido em
forma. “O mito não esconde nada e nada ostenta também: deforma; o mito não é nem uma mentira nem uma confissão: é uma inflexão” (BARTHES, 1993,
p. 131). Partindo da ideia de Barthes, podemos considerar como verdadeira a afirmação feita pelo publicitário Sal Randazzo (1996) de que a publicidade é
uma forma de criar mitos. Os anunciantes vendem os seus produtos envolvendo-os nos nossos sonhos e fantasias, ou melhor, mitologizando-os. “Muitas
vezes, a publicidade espelha as nossas mitologias culturais, os mesmos valores e sensibilidades que moldam a nossa vida e cultura” (RANDAZZO, 1996, p.
11). O problema na verdade, para o autor, é quando as pessoas leem um sistema de mitos não a partir de um sistema semiológico, de valores, mas com um
sistema de fatos, factual, verdadeiro. O que todo publicitário deseja é que o consumidor se identifique com a imagem do personagem apresentado pelo
produto. No entanto, o autor diz que por causa do movimento feminista, a identidade de gênero tornou-se um assunto delicado. Muitas vezes, a publicidade
usa imagens arquetípicas para criar mitologias de marca, como vimos acima com a campanha da Old Spice. No viés feminino, ele se divide no arquétipo da
“Grande Mãe”, “uma imagem feminina universal que mostra a mulher como eterno ventre e eterna provedora” (RANDAZZO, 1996, p. 103). Segundo o
autor, a publicidade utiliza essa imagem que representa a maternidade em anúncios dirigidos essencialmente à dona de casa. A Grande Mãe representa a
fertilidade, é a protetora e alimentadora de toda a forma de vida e também comanda o crescimento vegetativo. Em síntese, simboliza o poder da mãe
natureza. O outro arquétipo feminino, segundo Randazzo, é o da donzela ou musa, o outro lado da Grande Mãe. Esta é a mulher fatal, fascinante e sedutora,
utilizado nos anúncios de lingerie acima. A Musa, conota beleza, sedução, feitiço e perdição. Estão ligadas às qualificações de sedutora, sereia, maga,
mulher fatal, entre outras.
Nos dias atuais, os papéis que antes eram diretamente relacionados a cada identidade vêm se desconstruindo. As mulheres estão no mercado de trabalho
e os homens estão participando mais ativamente dos afazeres domésticos. Para isso precisamos que seja entendido que para ser verdadeiramente “homem”
basta que o indivíduo se reconheça como tal. Se ser “homem” fosse relacionado apenas à anatomia de cada indivíduo, definiríamos simplesmente como o
dualismo homem e mulher. Conforme Poli, “padecemos, neuróticos que somos, da tentativa de construir uma imagem que possa corresponder ao que
supomos ser um homem ou ser mulher” (2007, p. 11).
Como vimos nos anúncios, o homem é tratado como herói e a rusticidade, brutalidade e violência são as qualidades em destaque. Já a mulher é tratada
como a Musa, enfatizando a sedução, a sensualidade e a beleza.
As investigações no campo da publicidade estão cada vez mais conseguindo problematizar as representações estáticas previstas para determinado
gênero. O que podemos notar atualmente é que muitas marcas estão utilizando o conceito de diversidade como mote criativo nas suas campanhas
publicitárias. As questões de gênero, raça e classe social constituem a triangulação da estrutura social. Não obstante, não podemos esquecer que a
publicidade trabalha com questões que são pautadas pela sociedade, pois precisam agregar valores aos seus produtos que sejam aceitos pelo seu público-
alvo. Neste caso, tratar do tema “diferenças” em uma comunicação mercadológica deve ser entendido a partir de uma perspectiva de marketing e não como
uma ação social, o que não impede que vire tema de debate na sociedade para pensar a cidadania sob a ótica da alteridade.

Referências
BARTHES, Roland. Mitologias. 9.ed. Rio de janeiro : Bertrand Brasil, 1993.
RANDAZZO, Sal. A criação de mitos na publicidade : como os publisitários usam o poder do mito e do simbolismo para criar marcas de sucesso. Rio de
janeiro : Rocco, 1996.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
GARCÍACANCLINI, Néstor. Consumidores e cidadãos : conflitos multiculturais da globalização. 4. ed. Rio de Janeiro : UFRJ, 1999.
GOFFMAN, Erving. Picture Frames. In: Gender Advertisements. New York : Harper and Row, 1979. p. 10-23.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Diferença ou indiferença : gênero, raça/etnia, classe social. In: ADORNO, Sérgio (org.). A sociologia entre a modernidade e a
contemporaneidade. Porto Alegre : UFRGS, 1995.
SILVA, Denise T. da. A Fotografia Publicitária de Moda e a Glamourização da Violência contra a Mulher. São Borja : Faith, 2013.
SCOTT, Joan Wallach. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação & Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº 2, jul./dez. 1995, pp. 71-99.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Perrópolis, RJ : Vozes, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo : Companhia das Letras, 2009.
POLI, Maria Cristina, Feminino/ masculino. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007
QUEIROZ, Mario. Moda: O herói desmascarado: A imagem do Homem na moda. São Paulo. Estação das Letras e Cores Editora, 2009.
WOLF, Naomi. Fogo com Fogo: o novo poder feminino e como o século XXI será afetado por ele. (trad) Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
SANT’ANNA, Armando. Propaganda: teoria, técnica e prática. São Paulo: Thomson Learning Edições, 2006.
REPRESENTAÇÕES DO GÊNERO FEMININO NA MÚSICA: UMA SUTIL EXPRESSÃO DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Jaina Raqueli Pedersen98
Jorge Alexandre da Silva99

Resumo: O artigo se propõe a fazer uma reflexão sobre as representações do gênero feminino na música, tendo em vista conteúdos e adjetivos que contribuem para a (re)produção da violência contra a
mulher. Foram analisados alguns trechos de músicas populares que refletem a desigualdade e a violência de gênero reproduzidas contra as mulheres. Percebe-se que diferentes formas de violência contra o
gênero feminino são incentivadas e reproduzidas pela música. Destacam-se nas letras o papel submisso da mulher em relação ao homem, a coisificação da mulher e a depreciação do feminino. Com base na
análise e reflexão desenvolvida a partir das bibliografias e músicas utilizadas neste trabalho, foi possível perceber o impacto da música nas relações sociais da vida cotidiana, pois enquanto mercadoria e
instrumento midiático contribui para reafirmar e manter as relações desiguais de gênero.
Palavras-chave: Gênero; Música; Violência.

Introdução
A violência contra a mulher se manifesta das mais diversas formas. Algumas são mais conhecidas e outras nem tanto, tendo em vista a falta de seu
reconhecimento como tal. A lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006) tipifica as seguintes formas de violência: física, psicológica,
sexual, patrimonial e moral. Estas e outras tipologias de violência são mediadas por relações de exploração/opressão e dominação, considerando os valores
machistas e patriarcais ainda presentes em nossa sociedade.
Embora a violência em suas mais diversas expressões acompanhe a história das mulheres, foi na década de 1970 que ganhou visibilidade pelos
movimentos feministas e apenas na década de 1990, a Organização Mundial da Saúde reconheceu a violência contra a mulher como um problema de saúde
pública.
Assim como a sociedade passa por processos de mudanças e transformações, apresentando novas demandas e necessidades, a violência também vai
encontrando novas mediações históricas para se reproduzir. Atualmente, por influência da internet e das redes sociais, por exemplo, ocorrem situações de
violência caracterizadas como pornografia por vingança, ou seja, imagens e/ou vídeos pornográficos envolvendo mulheres são divulgados pelos seus ex-
namorados e/ou companheiros, principalmente por não aceitarem o fim do relacionamento, visando difamar e humilhar sua ex-namorada ou companheira.
Estas e outras formas de violência contra a mulher estão presentes no conjunto das relações sociais, demandando o seu reconhecimento e
enfrentamento. Neste trabalho o intento é realizar uma reflexão sobre as representações do gênero feminino presentes na música, fazendo uma discussão
sobre o que é gênero, relações de gênero e violência de gênero. Foi construído a partir da leitura de bibliografias que trabalham as referidas categorias, bem
como autores que propõem uma reflexão crítica sobre a música, ou seja, de pensá-la não apenas como uma expressão artística, mas também como uma
mercadoria que possui fetiche pelos valores a ela agregados: valor de uso e valor de troca.
Assim, a primeira parte do artigo buscará elucidar o que se entende por gênero, relações desiguais de gênero e violência de gênero. Na sequência,
apresenta uma reflexão sobre músicas, que enquanto formas de mercadoria vendem e reafirmam o papel submisso da mulher em relação ao homem. Para
qualificar a abordagem do tema proposto, foram analisados alguns trechos de músicas populares que refletem a desigualdade e a violência de gênero
reproduzidas contra as mulheres.

Refletindo sobre as relações de gênero


Por gênero entende-se “a construção social do masculino e do feminino” (SAFFIOTI, 2004, p. 45), que ocorre no processo histórico100. Tem relação
direta e primeira com as diferenças de sexo e por isso, embora seja uma categoria ontológica, está inscrita na natureza. Como refere a autora,
há [...] um vínculo orgânico entre gênero e sexo, ou seja, o vínculo orgânico que torna as três esferas ontológicas uma só unidade, ainda que cada uma delas não possa ser
reduzida à outra. Obviamente, o gênero não se reduz ao sexo, da mesma forma como é impensável o sexo como fenômeno puramente biológico (SAFFIOTI, 2004, p. 135).

Nesse sentido, compreender o gênero enquanto uma construção social é de fundamental importância para perceber e analisar as diferenças existentes
entre ser mulher e ser homem na vida em sociedade, visto que a identidade e os papéis assumidos por ambos não são determinados no nascimento. Como
refere Chanter (2011, p. 53) “o gênero [...] é a maneira como organizamos o sexo”.
Tendo em vista a construção histórico-cultural do conceito gênero, destaca-se que este
[...] refere-se às regras colocadas pela sociedade para mediar, impor e reprimir determinados comportamentos considerados nas relações postas entre homens e mulheres,
mulheres e mulheres, homens e homens. Tais regras expressam as relações desiguais de poder estabelecidas entre homens e mulheres. E, visto que são relações construídas
socialmente, são tidas como verdades, as quais se legitimam, se naturalizam e quase não são questionadas (AMARAL; FERREIRA; PEREIRA, 2013, p. 3).

Historicamente, as relações estabelecidas entre homens e mulheres foram permeadas pela desigualdade. O contrário disso podia ser observado no
período anterior ao desenvolvimento da agricultura. Como refere Stearns (2007, p. 31) “o deslocamento da caça e coleta para a agricultura pôs fim
gradualmente a um sistema de considerável igualdade entre homens e mulheres. Na caça e na coleta, ambos os sexos trabalhando separados, contribuíam
com bens econômicos importantes”. Com o desenvolvimento da agricultura, os homens passaram a ser os principais responsáveis pela plantação, suprindo
a maior parte dos alimentos e as mulheres passaram a se dedicar mais à gravidez e aos cuidados com as crianças.
Além disso, há que se destacar que o desenvolvimento da agricultura possibilitou a produção do excedente e com isso a preocupação dos homens em
controlar a herança de gerações futuras. Consequentemente, mudanças ocorreram no casamento, surgindo assim a família patriarcal.
Denominamos família patriarcal, genericamente, a família na qual os papéis do homem e da mulher e as fronteiras entre o público e o privado são rigidamente definidos; o
amor e o sexo são vividos em instâncias separadas, podendo ser tolerado o adultério por parte do homem e a atribuição de chefe da família é tida como exclusivamente do
homem (GUEIROS, 2002, p. 107).

Como refere Engels (2002, p. 75) “a primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos”. Dessa forma,
com a preocupação em proteger as propriedades, garantindo-lhe a linha de herança, a mulher foi afastada da participação na produção social, restando-lhe o
trabalho doméstico e o cuidado para com os filhos. Consequentemente, o homem passou a ser o principal responsável pelo sustento da família sendo-lhe
atribuído um poder e uma posição de dominador. Como refere Saffioti (2004, p. 44) em relação ao patriarcado, este “é o regime da dominação-exploração
das mulheres pelos homens”.
Com base no exposto, percebe-se que as relações desiguais de gênero, ou seja, o poder e/ou o domínio do homem sobre a mulher teve como uma de
suas principais determinações históricas a constituição da propriedade privada. Dali para frente, o poder masculino atravessou todas as relações sociais.
Como bem ressalta Saffioti (2001) o gênero masculino tem hegemonia nas relações. Este, no exercício da função patriarcal, detém o poder de determinar a
conduta dos demais.
Para exemplificar o quanto o poder masculino atravessa as relações sociais, Saffioti (2004. p. 62) compara a sociedade a um galinheiro, argumentando
que quando uma galinha abre uma fresta na tela do galinheiro e escapa, “o galo continua dominando as galinhas que restaram em seu território geográfico”.
No entanto, como ressalta a autora, “a ordem das bicadas na sociedade humana é muito complexa”, ou seja, não resulta apenas das relações de gênero, nas
quais o homem é o dominador, mas também das relações de raça/etnia, em que o branco se afirma diante do negro e também das relações de classe, em que
o rico domina e explora o trabalhador (SAFFIOTI, 2001, p. 117).
Saffioti (2001, p. 126) reforça que a mulher não pode ser responsabilizada pela ordem patriarcal de gênero e por seus resultados, como por exemplo, a
violência. Sobre violência de gênero, a autora destaca que esta “engloba tanto a violência de homens contra mulheres quanto a de mulheres contra homens,
uma vez que o conceito de gênero é aberto” (SAFFIOTI, 2004, p. 44). Sabe-se, porém, que os maiores índices de violência de gênero são os praticados
pelos homens contra as mulheres, pois “os homens estão, permanentemente, autorizados a realizar seu projeto de dominação-exploração das mulheres,
mesmo que, para isto, precisem utilizar-se de sua força física” (SAFFIOTI, 2001, p. 121).
Nesse sentido, quando a violência de homens contra mulheres, sejam elas crianças, adolescentes ou adultas é compreendida sob a perspectiva de
gênero, está se considerando a violência não na sua imediaticidade, mas a partir das diversas mediações históricas que atribuíram ao homem o poder de
dominação e exploração e à mulher a subordinação e opressão. Vale lembrar novamente que a violência também está relacionada às desigualdades de
raça/etnia e classe social.
Este poder de dominação e exploração do homem sobre a mulher, não se expressa apenas quando a mulher sofre algum tipo de violência física,
psicológica, ou outra. Está presente nos mais diversos espaços em que ela se insere, ou até mesmo, onde não se insere, tendo em vista as divisões e
desigualdades existentes entre homens e mulheres. Pode-se dizer que à mulher, via de regra, é reservado o espaço do privado, do cuidado com a casa, da
atenção e educação aos filhos, de subserviência ao marido ou companheiro. Nesse sentido, ressalta-se que até “novelas, filmes, músicas, fotos, matérias,
outdoors, panfletos, vídeos podem estar colaborando para que a mulher seja taxada como inferior ao homem, promíscua, desprovida de intelectualidade,
feita para ser “dona do lar”, submissa, incapaz, etc.” (LIRA, VELOSO, 2008, p. 2).
Diante de um quadro histórico marcado por relações desiguais entre homens e mulheres, e principalmente por relações de violência, movimentos
feministas têm contribuído para denunciar as diversas situações de subalternidade e de violação de direitos das mulheres. No que diz respeito à realidade
brasileira, este movimento ganha maior força na década de 1970, período de Ditadura Militar, sobre o qual o movimento também resistiu.
A pretensão aqui não é esgotar a discussão sobre as relações de gênero, nem mesmo sobre a importância do movimento feminista no que diz respeito às
diferentes estratégias de resistência empreendidas para enfrentar a realidade histórica de desigualdades entre homens e mulheres e da violência dela
decorrente. No entanto, o enfrentamento desta dura realidade não pode se dar de forma isolada, localizada. É preciso enfrentar sim, a base da estrutura
social, ou seja, a sociabilidade capitalista, pois esta tem a desigualdade na sua essência, enquanto que as demais expressões de desigualdades, produzidas e
reproduzidas na vida em sociedade, dela decorrem. “A luta por direitos e as ações políticas efetivadas pelo movimento feminista foram e são fundamentais
para explicitar as formas de opressão vivenciadas secularmente pelas mulheres. Assim, trata-se de um caminho estratégico que pode favorecer a construção
de uma nova sociabilidade” (OLIVEIRA; SANTOS, 2010, p. 18).

A música como cultura e como mercadoria: representações do gênero feminino


Na sociabilidade capitalista, a música enquanto expressão artística não pode ser considerada em si mesma, mas como produto de uma indústria cultural,
ou seja, como mercadoria, que possui valor de uso e valor de troca. Com esta constituição valorativa, torna-se uma possibilidade lucrativa, adaptando-se
aos gostos e necessidades de consumo.
Se a mercadoria se compõe sempre do valor de troca e do valor de uso, o mero valor de uso — aparência ilusória, que os bens da cultura devem conservar, na sociedade
capitalista — é substituído pelo mero valor de troca, o qual, precisamente enquanto valor de troca, assume ficticiamente a função de valor de uso (ADORNO, 1996 p. 78).

Como qualquer mercadoria, a música também possui o seu fetiche. Adorno (1996, p. 66) refere que “em vez do valor da própria coisa, o critério de
julgamento é o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos. [...] O comportamento valorativo tornou-se uma ficção para quem se vê cercado de
mercadorias musicais padronizadas”. O autor ainda acrescenta:
O conceito de fetichismo musical não se pode deduzir por meios puramente psicológicos. O fato de que “valores” sejam consumidos e atraiam os afetos sobre si, sem que
suas qualidades específicas sejam sequer compreendidas ou apreendidas pelo consumidor, constitui uma evidência da sua característica de mercadoria. Com efeito, a
música atual, na sua totalidade, é dominada pela característica de mercadoria (1996, p. 77).

Ou seja, o fetiche da música não está no conteúdo e/ou na qualidade de sua letra (valor de uso), mas pelo fascínio daquilo que está na moda. O seu
consumo de massa é determinado por outros elementos, como por exemplo, todo mundo está ouvindo e cantando esta música, ou, é a música mais tocada
nas rádios. Souza e Santos (s/d, p. 44) referem que as músicas de sucesso adaptadas ao consumo caracterizam-se por ter uma letra simples e repetitiva em
harmonia com o seu refrão que também se torna simples e repetitivo. “Esta é uma fórmula estratégica da própria indústria cultural visando garantir a alta
circulação e consumo destas mercadorias” (SOUZA, SANTOS, s/d, p. 44). Além do sucesso acumulado e do culto à celebridade, há outras possibilidades
de venda, que não se restringem à música, ou seja, revistas, imagens dos ídolos, modos de vestir, cortes de cabelo, bonecos, DVDs, entre outros, são
potenciais de venda (SOUZA, SANTOS, s/d).
Há letras de músicas que não em meias palavras, incitam a violência, a banalização do erotismo, a depreciação do feminino, entre tantas outras
descrições e características que fortalecem o papel submisso e secundário da mulher na sociedade. Muitas destas músicas, como dito na introdução, são
facilmente assimiladas e reproduzidas por nós, sem sequer perceber que diferentes formas de violência acabam sendo reproduzidas e incentivadas pela
música. Adorno (1996, p. 67) refere que “os ouvintes aprenderam a não dar atenção ao que ouvem, mesmo durante o próprio ato da audição”. Além disso,
ressalta “quanto mais coisificada for a música, tanto mais romântica soará aos ouvidos alienados” (p. 81). O refrão da música “Ajoelha e chora” do Grupo
Tchê Garotos, evidencia alguns desses aspectos:
Ajoelha e chora ajoelha e chora/ Quanto mais eu passo laço muito mais ela me adora/ Ajoelha e chora oi, ajoelha e chora/ Quanto mais eu passo laço muito mais ela me
adora/ Mas o efeito do remédio que eu dei/ Foi melhor do que eu pensei ela faz o que eu quiser/ Me lava a roupa lava os pratos e cuida os filhos/ Anda nos trilhos garrô
preço essa muié/ Faz cafuné me abraça com carinho/ Me chama de docinho comecei me preocupar/ Eu tô achando que esta mulher danada/ Ficou mal acostumada e tá
gostando de apanhar.

Muitas músicas ao se referir à mulher, também reforçam um determinado padrão de beleza. No funk, por exemplo, é visível a necessidade de um corpo
curvado, de cintura fina, quadris largos, coxas grossas e sem flacidez, o que exige investimento nas academias de ginásticas (mais uma possibilidade
lucrativa). Mulher “fruta” e mulher “filé” são apenas alguns dos títulos e características atribuídos a estas mulheres, que dão origem a nomes e identidades
comerciais em substituição às suas verdadeiras identidades. A seguir, trecho de música Bumbum que hipnotiza da funkeira Andressa Soares – Mulher
Melancia:
Para e analisa
Para e analisa
Eu sou a Mulher Melancia
Do bumbum que hipnotiza
Você vai ficar maluco
Não vai conseguir piscar
Do jeito que eu rebolo
Eu vou te hipnotizar

Um aspecto importante a ser destacado é o fato de que estas músicas não são ouvidas e reproduzidas apenas pelos adultos, mas também por crianças,
que se constituem em potencial público consumidor. As experiências com aquilo que enxergam e com aquilo que ouvem vão contribuindo para a
constituição de uma identidade social e de uma identidade de gênero, tanto do feminino como do masculino.
Para uma sociedade machista, músicas que contenham em suas letras apelos sexuais, ideias que reduzem a mulher ao seu corpo e que enfatizam o
quanto são “descartáveis”, é sucesso em venda! Enquanto produto de uma indústria cultural acaba banalizando o feminino e legitimando a dominação da
cultura patriarcal sobre as mulheres.
Além de incitar a reprodução de relações de coisificação e de reforçar que a mulher é “propriedade do homem”, muitas músicas, assim como reforçam
valores ideológicos, também estimulam o consumo de mercadorias, como por exemplo, a bebida. De posse desses objetos, mulher e bebida, a festa está
garantida. De forma sutil, bebida e mulher se fundem na expectativa de um momento de desejo e prazer, sendo “consumidas” de uma só vez. Tal aspecto
pode ser evidenciado nas letras a seguir:
Eu vou zuar e beber/ Vou locar uma Van/ E levar a mulherada lá pro meu Apê/ Que é pra gente beber/ E depois paragadá/ Pa ra ra, pa ra Ra/ E depois paragadá/ Pa ra ra,
pa ra Ra (Zuar e Beber, Leonardo)
Onde tem mulher bonita/ Cerveja gelada e viola/ Pode crer que eu to no meio/ Não da pra ficar de fora (Mulher, Cerveja e Viola, Edson e Hudson).
É pra toma todas todas e um pouco mais/ a mulher e a bebida são parecida demais/ e pra toma todas todas e um pouco mais/ da bebida eu quero um pouco da mulher eu
quero mais (A mulher e a bebida, Gino e Geno).

Associações com bebidas, frutas e filés, são apenas algumas expressões de coisificação e objetificação das mulheres presentes nas músicas nos seus
mais diversos gêneros e/ou estilos. São músicas que sutilmente vendem machismo, desigualdades e violências. No entanto, são ouvidas e consumidas como
cultura, mesmo que já estejam fora de moda.
Por outro lado, em face das relações de objetificação da mulher, é importante frisar que na pauta das lutas sociais deve estar o debate sobre a liberdade
das mulheres em manifestar sua sexualidade e relacionar-se com o seu corpo, sem que tenham que seguir a cartilha do machismo, ou os interesses postos
pelas formas de mercantilização da vida social.

Considerações finais
Como foi possível perceber, diferentes formas de violência contra o gênero feminino são incentivadas e reproduzidas pela música. Numa infinidade de
letras e refrãos, diversos são os papéis e/ou representações sociais atribuídos à mulher. De mulher submissa, sem voz e sem vez; que sofre as agressões do
marido ou companheiro; que é reduzida ao corpo, tornando-se objeto de desejo e prazer; que é fruta, filé e bebida a ser consumida e que torna-se objeto
atraente para a venda de inúmeras mercadorias.
Ressalta-se que na sociabilidade capitalista, convive-se com inúmeras desigualdades, sendo as principais: entre ricos e pobres, entre brancos e negros e
entre homens e mulheres. Para o enfrentamento da desigualdade de gênero,
há que se construir novas masculinidades de feminilidades baseadas em relações equitativas, horizontais e respeitosas. Mudar as relações no interior da família, dar às
mulheres maior controle sobre os recursos materiais e simbólicos e sobre seu próprio corpo e oferecer-lhe recursos de apoio (MENEGHEL, 2009, p. 23).

Nesse sentido, percebe-se que uma possibilidade de mudanças está na realização de um trabalho preventivo com crianças e adolescentes, estes que
estão em fase de crescimento e desenvolvimento, elaborando suas ideias e concepções de homem, de mulher e de mundo. Para estes que são atraídos pela
melodia das mais diversas composições, a própria música pode se constituir numa ferramenta de diálogo e reflexão sobre as relações de gênero.
A música pode e deve ser um potencial para a construção de novas feminilidades e masculinidades, mas para isso, é preciso que a música, enquanto
expressão da arte e da cultura se emancipe, já que a Indústria Cultural é totalmente contrária à formação emancipatória.

Referências
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STEARNS, Peter N. História das relações de gênero. São Paulo: Contexto, 2007.
COMUNICAÇÃO COMO DIREITO HUMANO: SERVIÇO SOCIAL E SUAS APROXIMAÇÕES
Sidimar Ferreira Dutra101
Jéssica Degrandi Soares102
Eliana Mourgues Cogoy103

Resumo: O presente texto objetiva discorrer sobre os direitos humanos e sua relação acerca do debate referente à democratização da comunicação, a partir de um olhar do Serviço Social. Para tanto, o
material utilizado fundamenta-se de pesquisas bibliográficas baseadas em livros, artigos científicos e documentos. O entendimento sobre a constituição dos Direitos Humanos, a promoção e o respeito a
direitos e liberdades possuem medidas em todos seus âmbitos, por meio dos processos educativos. Em suas aproximações com o debate sobre a democratização da comunicação, o Serviço Social através do
conjunto CFESS/CRESS apresentou, depois de ampla discussão e com a contribuição de seus conselheiros, a primeira e a segunda edição da Política de Comunicação, “um instrumento político com objetivo
de potencializar a produção e a socialização de informação” (CFESS,2011, p. 2) fortalecendo o Projeto ético-político da profissão. No ano de 2015 no 43ª Encontro Nacional foram criados Grupos de
Trabalho para a elaboração de uma nova política, sendo aprovada no 44º Encontro Nacional a 3ª edição da Política de Comunicação que ocorreu em Brasília em 2016, tendo como foco principal a defesa do
direito à comunicação e o comprometimento do/a profissional em Serviço Social, uma vez que em seus processos de trabalho, a mediação se estabelece cotidianamente para que o usuário possa acessar os
seus direitos. Assim sendo, a Comunicação como Direito Humano perpassa a democratização, uma vez que, esta interfere diretamente na vida dos sujeitos refletindo diretamente na construção da cidadania e
da justiça social.
Palavras-chave: Direitos Humanos, Serviço Social, Comunicação.

Introdução
O presente estudo aborda o tema da comunicação como um direito humano, tratando da perspectiva sócio-histórica, das contradições e da condição
estratégica de se estudar esta temática, compreendendo a comunicação como parte da vida em sociedade, essencial para o desenvolvimento da humanidade.
A partir de autores que discutem os temas sobre direitos sociais (COUTO, 2010), cidadania (TONET, 2013), educação e mediação (CURY, 1985), serviço
social (IAMAMOTO, 2013; FIGUEIREDO, 2011) e comunicação (LIMA, 2015), buscou-se desenvolver e fortalecer o debate sobre o papel estratégico da
comunicação como um direito humano e também para a garantia dos direitos sociais.
Para além de fomentar o debate a partir dos autores, também se apresenta uma análise crítica sobre os documentos que consolidam o lugar da
comunicação enquanto direito. Assim, foram utilizados documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), a Constituição Federal
(1988) e a Política Nacional de Comunicação do Conjunto CFESS/CRESS (2016), que ao decorrer da história compreendem a importância desse direito
que deve ser consolidado enquanto um direito para todos e todas.
Neste sentido, o Serviço Social busca o conhecimento da profissão dentro da sociedade capitalista, travando embates na condição das expressões da
questão social compreendendo que novas estratégias devem ser criadas para unificar e fortalecer a classe trabalhadora no movimento de resistir à lógica do
capital. A comunicação é uma dessas estratégias que se expressam na contemporaneidade, e faz com que pesquisadores/as e as instâncias representativas
como o Conselho Federal de Serviço Social tratem sobre a temática no seio da profissão.
Assim, a partir desta base introdutória, serão tecidas as considerações seguintes sobre a comunicação como direito humano, a partir de uma perspectiva
do Serviço Social.

1 O processo histórico da comunicação como um direito humano


Para tratar sobre a comunicação como um direito humano, é necessário discorrer sobre o processo histórico dos direitos humanos na sociedade, e nessa
condição entendemos que os embates atrelados ao tema foram construídos a partir do enfrentamento de setores da sociedade para com a classe dominante
da época. Couto (2010) refere que esses direitos começaram a ser defendidos a partir do século XVII e XVIII, na luta contra o absolutismo e a classe que se
empenhava nesta disputa era a classe burguesa contra o poder absoluto dos reis e do Estado Absolutista. Outros movimentos ao decorrer da história
também foram fundamentais para os direitos humanos e sociais, como foi o caso da Revolução Francesa em 1789 e a Revolução Russa em 1917, que
possuíam caráter reivindicatório das classes não dominantes da época.
Autores como Couto (2010), Tonet (2013) e, Pereira (2016) abordam a questão dos direitos humanos, também tratam sobre a perspectiva de cidadania
fundamentada nas concepções de Marshall, que “[...] parte do princípio de que, para além do mero cumprimento de deveres, o estabelecimento de direitos
legais é a única forma de assegurar a participação total universal – e, consequentemente, materializar a cidadania” (PEREIRA, 2016, p. 198). A autora
assegura que Marshall compreende os direitos enquanto civis, políticos e sociais, assim entendendo que os direitos civis estão diretamente relacionados às
liberdades individuais, que são liberdades que negam a intervenção do Estado, e neste aspecto entram liberdades como a liberdade de expressão e de
imprensa; os direitos políticos que estão atrelados a eleições, direito ao voto e ao governo; e os direitos sociais, “tais direitos regem-se mais pelo princípio
da igualdade do que da liberdade” (PEREIRA, 2016, p. 200), e que estão normalmente no âmbito educacional, no direito ao trabalho, às políticas sociais,
dentre outros.
Nesta produção se dá ênfase à comunicação enquanto um direito humano, que perpassa a perspectiva do direito civil como a liberdade de expressão e
de imprensa, pautada na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 1948 e que ao decorrer do tempo foi sendo pautada dentro das nações
signatárias deste documento. O Brasil é um dos países que assina e participa da ONU, e o reflexo desse engajamento é visivelmente percebido na
Constituição Federal de 1988, como é o caso do artigo 5º que trata que: “IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independentemente de censura ou licença”; (BRASIL, 1988), e também no capítulo 5º que dispõe sobre a comunicação social enquanto um
direito social de todas e todos.
As conquistas legais que garantem na lei o direito à comunicação foram e permanecem como embates difíceis realizados pela classe trabalhadora no
Brasil, como é o caso do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), nascido nos anos 80 como movimento social pela
democratização da comunicação. O FNDC consiste num agente muito importante na garantia desses direitos dentro da constituição cidadã, e que participa
continuamente dentro da disputa pela regulamentação das concessões públicas de radiodifusão no país, pautando a democratização da comunicação. Outros
movimentos sociais que participam deste processo são os sindicatos das diversas categoriais, os conselhos profissionais, como é o caso do Conselho
Federal de Serviço Social, os movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores sem Terra, Movimento Nacional de Luta pela Moradia, a
Associação Brasileira de Rádios Comunitárias, o Movimento Nacional das Rádios Comunitárias, entre outros.
Ao exemplificarmos esses movimentos, compreende-se que o direito à comunicação é uma pauta da classe trabalhadora, e que se constrói na contramão
da lógica do capital, que muito se apoia na mídia hegemônica para fortalecer o debate do senso comum e da manutenção do sistema capitalista. Os meios
de comunicação tradicionais, como rádio comercial e televisão são majoritariamente da classe dominante, fazendo com que a Constituição Federal e a Lei
de regulamentação dos meios de comunicação sejam deixadas de lado, ocorrendo assim a forte censura com as pautas que debatem a democratização da
comunicação.
A manutenção do sistema capitalista faz com que a garantia dos direitos a partir das políticas sociais, como parte fundamental da garantia dos direitos
no Estado Social esteja sempre questionada e em disputa. Pereira (2011) ao tratar sobre as possibilidades e limites a partir do Estado refere, na perspectiva
gramsciana que:
conceber o Estado como uma esfera passível de possuir autonomia, mesmo que relativa, colocando-se acima e além da sociedade civil em situações de crise de hegemonia
e, portanto, de instabilidade. Mas, tal autonomia, ao mesmo tempo em que decorre da capacidade organizacional do Estado frente às forças sociais conflitantes, resulta
também do apoio que este recebe dos estratos sociais mais importantes sediados no pacto da dominação. Sendo assim, tal autonomia não pode ser vista dissociada da
sociedade (PEREIRA, 2011, p. 127).

Compreende-se no processo de estudar o Estado Social, as contradições que permeiam a realidade concreta no embate da luta de classes, pois Gramsci
ao referir sobre a esfera do Estado, defende que este é parte fundamental do processo de disputa e que é necessário que a classe trabalhadora esteja no
enfrentamento para fomentar e defender seus direitos nesses espaços, para que assim se conquiste a emancipação política no sistema capitalista e que se
fortaleça o debate de superação da lógica do capital, com o norte da emancipação humana.
Neste sentido, a comunicação no processo de debate e garantia dos direitos sociais perpassa âmbitos como o do interesse público referido por Weber
(2017), como “a marca retórica dos discursos e das práticas das democracias” (2017, p. 26), que dentro do Estado Social é permeado por disputas. Weber
(2017) também refere que a construção da comunicação pública no Brasil é um caminho difícil que ocorre a partir de um processo de aprendizagem da
sociedade enquanto sujeito ímpar. Para tanto, torna-se necessário que a classe trabalhadora esteja organizada, pois “a comunicação é inerente à democracia
que a torna visível e, portanto, passível de julgamento” (WEBER, 2017, p. 29).
Por ser um conceito relativamente recente, faz-se necessário esclarecer que a comunicação pública se constitui como um elemento central para o Estado
Democrático, pois ocupa na comunicação da sociedade um lugar privilegiado, ligado aos papéis da regulação, de proteção e/ou de antecipação do serviço
público. Dentre as suas principais funções, estão: a) Informar (levar ao conhecimento, prestar conta e valorizar); b) ouvir as demandas, as expectativas, as
interrogações e o debate público; c) contribuir para assegurar a relação social (sentimento de pertencer ao coletivo, tomada de consciência do cidadão
enquanto sujeito); d) acompanhar as mudanças, tanto as comportamentais quanto de organização social.
Pensar a comunicação enquanto um processo que é também educativo, é pensá-la em seu caráter mediador, e nessa perspectiva cabe entender a
categoria mediação enquanto dialética e historicizada (CURY, 1985).
Através da categoria mediação, a educação se revela como um elo existente capaz de viabilizar uma estruturação ideológica para um determinado modo de produção, que,
por sua vez, tende a assegurar a dominação de classe pela hegemonia. Em outros termos, ela é um momento mediador em que se busca e onde se pretende a direção
ideológica da sociedade (CURY, 1985, p. 66).

Na condição de pensar as estratégias de garantia dos direitos, alguns caminhos são propostos para esse processo, como é o caso da educação e da
comunicação, onde se possibilita pensar um projeto societário onde a classe trabalhadora seja central e a maior beneficiada da sua produção. A
comunicação por si só não revoluciona as mentes, mas a tomada de consciência, o debate e os caminhos da emancipação podem ser fortalecidos a partir do
diálogo e de meios de comunicação que estejam dispostos a tratar sobre estes temas, como é o caso do debate dos direitos humanos e sociais e da cidadania.
O percurso para a garantia dos direitos é permeado por contradições e pela historicidade inseridas na totalidade da realidade concreta, neste contexto, se
apoiar nos meios de comunicação hegemônicos, nos sistemas educacionais tradicionais podem inviabilizar a mobilização e a luta, pois é necessário
compreender que estes meios estão diretamente vinculados ao sistema capitalista, ao mesmo tempo que é importante pensar que contraditoriamente os
meios de comunicação, as escolas e universidades são formados e movidos pela classe trabalhadora, e nessa perspectiva pensa-se que estes trabalhadores ao
possuírem consciência de classe podem abrir caminhos para debater os direitos humanos e sociais e a emancipação política e humana da sociedade.
Assim, buscar-se-á discorrer sobre a categoria das/os assistentes sociais neste processo e a importância de se ter um projeto ético-político que tenha
como norte a emancipação humana, o debate sobre os direitos humanos e sociais e direcionamento e posicionamento sobre a importância da comunicação
na sociedade contemporânea.

2 Algumas percepções a partir do Serviço Social sobre o direito à comunicação


O Brasil carrega em sua trajetória histórica o fardo do silêncio impetrado pela ditadura militar que ainda persiste nas instituições públicas brasileiras.
Silêncio e direito à comunicação são importantes conceitos na estruturação de políticas públicas no âmbito comunicacional, conforme conceitua Lima
(2015) esclarecendo que a construção de um marco regulatório para o sistema comunicacional brasileiro com garantias de participações democráticas é a
forma institucional apresentada hoje garantindo ampliação, a diversidade e as ideias plurais presentes na comunicação.
Tais conceitos se colocam como relevantes para que possamos fazer uma reflexão seguida de um debate sobre o papel social da comunicação e sua
importância para o Serviço Social. Iamamoto (2013) defende a necessidade dos profissionais manterem-se conectados com novos tempos, uma vez que
estamos tratando de um campo profissional onde a proposição e a criticidade devem ser ferramentas presentes no fazer do/a Assistente Social.
Na era das comunicações o/a Assistente Social é desafiado pois, as diferenças sociais são camufladas historicamente pelo patriotismo, dependência
econômica e o estatismo conforme trata Figueiredo (2011), o profissional em Serviço Social trabalha para além do campo material, sendo essencial na
concepção de classe.
Nessa construção são vivenciados momentos extremamente significativos que refletem no desmonte das políticas públicas dentro de um processo de
cunho político partidário apoiado por parte da mídia de massa, por empresas de telecomunicações que há décadas monopolizam as comunicações no Brasil
com aval da gestão pública contrariando direitos constitucionais.
Para o Serviço Social uma profissão comprometida com o “aprofundamento da democracia” e “defesa intransigente dos dirigentes humanos” identificar
a comunicação como uma ferramenta importante na construção da cidadania através do fomento e socialização da informação possibilita redimensionar os
horizontes profissionais estabelecendo novas formas de trabalho levando aos usuários das políticas públicas o empoderamento necessário para o
enfrentamento de suas necessidades mais urgentes, além de proporcionar um acesso mais rápido ao que lhes é de direito.
Historicamente os cidadãos em sua maioria não se veem como sujeitos de direitos, uma herança deixada pelo paternalismo, onde a cultura do favor
permanece em meio a sociedade e a culpabilização dos sujeitos é uma realidade que em algumas vezes está sublinhada, outras vezes explícita, onde não se
reconhece que o sistema brasileiro não oportuniza a todos os seus cidadãos o acesso a políticas essenciais como saúde e educação. E, para além a forma de
fazer comunicação traz consigo um modelo desconexo, conforme Figueiredo (2009) onde as informações são jogadas como pílulas. Notícias e informações
que não possuem compromisso com a sociedade no sentido de informar, dar a notícia sem intervenções, oportunamente demonstram a quem estão
servindo, ao poder econômico, um processo natural uma vez que se trata de uma empresa privada que visa lucro e não uma empresa pública de
comunicação.
Para o Serviço Social, a democratização da comunicação tornou-se bandeira de luta no âmbito da Política de Comunicação do Conjunto CFESS-
CRESS. Em 2006, ocorreu o I Seminário de Comunicação permeada pelo debate técnico‐político que possibilitou, a partir do entendimento ampliado do
poder da comunicação, aprofundar e consolidar uma política que priorizasse a comunicação como um bem político e direito de cidadania, que servisse de
parâmetro e potencializador da socialização das ações do Conjunto. Nesta perspectiva, foi publicada a primeira versão da Política Nacional de
Comunicação do conjunto CFESS/CRESS. Desde então, os Encontros Nacionais do Conjunto CFESS/CRESS têm reiterado a importância da comunicação,
reforçando a necessidade de uma atuação política da categoria na luta pela informação como um direito cidadão e pela democratização dos meios de
comunicação. Além disso, têm adotado ações estratégicas com vistas a dar visibilidade ao compromisso ético‐político da categoria ao denunciar as
expressões da questão social, bem como a defesa dos direitos humanos.
Para tanto, a Política de Comunicação do Conjunto CFESS-CRESS objetiva:
1. dar visibilidade à profissão de assistente social, em sintonia com a radicalidade e com os princípios que regem o projeto ético-político do Serviço Social brasileiro;
2. comunicar para mostrar à sociedade quem é esta categoria profissional, o que ela faz, o que ela tem a dizer; denunciar as expressões de injustiça e desigualdade que
marcam a realidade social no país;
3. comunicar e dialogar para fortalecer os movimentos sociais e a classe trabalhadora, na direção da liberdade e da formação crítica;
4. por fim, e não menos importante, levar os princípios do Serviço Social a usuários e usuárias das políticas públicas no Brasil (2016, p. 10)

A referida Política de Comunicação do conjunto CFESS/CRESS defende a necessária democratização da comunicação no Brasil, fortalecendo a
comunicação do Conjunto CFESS-CRESS como um campo de ação da política estratégica, fundamental para a transformação da sociedade. Além disso,
defende o acesso à informação como direito e condição para a democracia e para a política, de maneira que, o cidadão bem-informado, possivelmente
esteja mais preparado para exercer e reivindicar seus direitos.
O referido movimento realizado pelo Conjunto CFESS/CRESS convoca a categoria de profissionais e estudantes de Serviço Social frente a um novo
desafio: compreender e trabalhar com os meios de comunicação, e ao mesmo tempo desafiar a construção de novos instrumentos de trabalho, tendo em
vista a criação de novas estratégias de enfrentamento das manifestações da questão social. O importante trabalho dos conselhos federal e regionais, na
construção e no aprimoramento de uma política pensada para a categoria dos/as Assistentes Sociais propicia a formação das atividades na área da
comunicação para que esses profissionais obtenham maior apreensão de suas possibilidade e limites neste âmbito, fortalecendo a interlocução e uso do
mecanismo das linguagens que mais se aproximam dos usuários além de uma leitura sobre a dinâmica social e suas consequências diante da população
vulnerável.
Iamamoto (2015) refere sobre as expressões da questão social que se manifestam com o desenvolver do capitalismo, onde:
Ela evidencia hoje a imensa fratura entre o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e as relações sociais que o sustentam. Crescem as desigualdades e
afirmam-se as lutas no dia-a-dia contra as mesmas - lutas na sua maioria são silenciadas pelos meios de comunicação - no âmbito do trabalho, do acesso aos direitos e
serviços no atendimento às necessidades básicas dos cidadãos, das diferenças étnico-raciais, religiosas, de gênero, entre outras dimensões” (IAMAMOTO, 2015, p. 164-
165).

Dentro dessa ótica, os profissionais necessitam buscar a educação permanente como forma não só de aprimoramento, mas também como formadores de
opinião e fomentadores de processos que possibilitem efetivamente a emancipação humana. Os desafios são imensos na atualidade e a aproximação da
comunicação, relativamente nova, nos processos de trabalho se estabelece como ingresso às demais políticas públicas, uma vez que o Serviço Social deve
fazer uso da comunicação para o cumprimento de todos os direitos, ou seja, através da linguagem e da informação o usuário poderá obter as condições de
acesso a seus direitos como direito e não como caridade.

Conclusão
Faz-se necessário compreender a comunicação enquanto prática educadora e fortalecedora dos conhecimentos coletivos, tanto da população como de
uma categoria profissional específica. O desafio da comunicação perpassa todos os âmbitos da sociedade, evidenciando a tendência dos meios de
comunicação hegemônicos, que fazem uso da comunicação de massa na direção da produção e reprodução do capital.
O debate sobre os direitos humanos evidencia a trajetória de defesa da classe trabalhadora e ao ser tencionado por ela, mostra o protagonismo e a força
da luta coletiva, em disputa no sistema capitalista. Por isso, o papel dos movimentos sociais e de todos os segmentos que defendem os direitos humanos e
sociais são indispensáveis para se pensar a democratização em todos os âmbitos da vida humana e, principalmente, da comunicação enquanto um direito
humano.
Desta forma, a abordagem sobre a comunicação e Serviço Social torna-se indispensável para que se garanta não só a comunicação como um direito
humano, mas que esta luta seja extensiva a todos os direitos sociais. Reforça-se a necessidade da defesa da democracia, da liberdade, dos direitos humanos,
da cidadania, do pluralismo para o alcance de uma sociedade emancipada. Para tanto, isto pressupõe que comunicação se deseja alcançar e de que maneira
ela poderá estar relacionada aos princípios constituintes do código de ética profissional do Assistente Social, atentando para a construção de uma profissão
comprometida, no seu cotidiano de trabalho, com as requisições históricas da classe trabalhadora, com a luta pela democracia na sociedade e no Estado
brasileiro, colocando-se contrária a todas as formas de arbítrio e autoritarismo.

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Fernanda Cristina de Zorzi105
Loiva Mara de Oliveira Machado106
Raine Guimarães107

Resumo: Este estudo visa apresentar resultados parciais referentes à pesquisa documental realizada junto às unidades de Estratégia de Saúde da Família (ESF), no município de São Borja. Esta pesquisa está
vinculada ao Programa de Extensão: “Educação ambiental e controle social da Política Nacional de Resíduos Sólidos: o trabalho da COOPUV no município de São Borja/RS”. O desenvolvimento da pesquisa
teve como objetivo geral: verificar o perfil das mulheres catadoras de resíduos sólidos, não vinculadas à Cooperativa de catadores, que buscam atendimento às ESF’s no território onde estão inseridas. Quanto
aos objetivos específicos buscou-se: contextualizar a mulher trabalhadora no mercado informal; conhecer a organização da atenção à saúde e inclusão da mulher trabalhadora no município. O trabalho
desenvolvido junto à Cooperativa Unidos Venceremos (COOPUV), desde 2015, vem demonstrando que a participação das mulheres, na atividade prática da reciclagem é ativa. Porém, faz-se necessário
entender como acontece a participação de outras mulheres, não vinculadas à Cooperativa nesta atividade laboral, a partir do vínculo que estas estabelecem junto à rede de atenção à saúde principalmente nos
estabelecimentos da Estratégia de Saúde da Família (ESF). A metodologia utilizada é quanti-qualitativa, com a utilização das técnicas de pesquisa documental e coleta de dados através de entrevista
estruturada, junto aos agentes de saúde dos ESF’s. No processo de coleta e análise de dados observou-se critérios éticos, por meio da utilização de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e da não
identificação da identidade dos/as participantes. Verifica-se como conclusões a necessidade de políticas públicas voltadas à área da saúde, para mulheres catadoras, não vinculadas ao mercado de trabalho
formal, portanto, sem acesso às condições básicas de proteção social, hoje asseguradas por meio do sistema de seguridade social e políticas de trabalho e geração de renda.
Palavras-chave: Política de Saúde, Gênero, Mercado de Trabalho

1 Contextualização do estudo
Este estudo está voltado a verificar como as mulheres inseridas no trabalho informal, na atividade da coleta de resíduos sólidos e recicláveis no
município, acessam a rede de atenção básica em saúde, mais especificamente nos estabelecimentos da Estratégia Saúde da Família (ESF). Para tanto, a
abordagem parte da compreensão sobre a inserção das mulheres catadoras, nas políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na
Política Nacional de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora (PNST). Para Secchi, (2015) política pública pode ser diretrizes, programas, ações elaboradas
para resolver um problema importante para a sociedade ou coletividade.
A Constituição Federal (1988) em seu artigo terceiro afirma que os objetivos da República Federativa do Brasil visam a: “I - construir uma sociedade
livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (BRASIL, 1988). Mediante
a estes objetivos surge a ampliação dos direitos sociais de todos/as os/as cidadãos e cidadãs, quais sejam: direito à saúde, ao trabalho, ao emprego, à renda,
à moradia, à alimentação, à assistência aos desamparados entre outros.
É possível interpretar estes objetivos a partir do enfoque de gênero, especialmente quanto ao trabalho da mulher, à informalidade, à sua participação no
sustento da família, bem como, questões relacionadas à garantia de igualdade nas condições de trabalho e de acesso aos serviços de atenção à saúde,
principalmente na garantia da saúde no trabalho. Assim, verifica-se que a saúde constitui-se como direito de todo o cidadão e dever do Estado que é a
organização responsável em oferecer ao cidadão segurança, atendimento à saúde, estabilidade no emprego e renda, elementos que relacionam Estado-
cidadão gerado a possibilidade de um ideal de “bem-estar” prometido (BRASIL, 2013).
Para contextualização dos ESF’s, Costa e Carbone (2004) contribuem afirmando que a Saúde da família é a estratégia que o Ministério da Saúde
escolheu para reorientar o modelo assistencial do SUS a partir da atenção básica. Representa a porta de entrada ao sistema de saúde e trabalha de forma
organizada, através da referência e contra- referência entre os diversos níveis de assistência (baixa complexidade, média e alta).
A metodologia abordada neste estudo é quanti-qualitativa, utilizando como métodos: a pesquisa documental, por meio da Lei nº 8080/1990 e a portaria
1823 de 2012, e entrevista estruturada, com roteiro de questões fechadas, o qual foi utilizado nas entrevistas com os/as agentes de saúde, em cada ESF, da
região de São Borja. Na análise dos dados o método utilizado foi a interpretação dos dados gerados através da consolidação dos mesmos, evidenciados no
texto através de gráficos (GIL, 2007; MOREIRA, 2010; MARCONI, LAKATOS, 2010).
Destacamos que este estudo tem origem a partir de um mapeamento realizado em 12 ESF’s do município, com finalidade de identificar a presença de
catadores/as. O mapeamento contou com a participação dos/as agentes de saúde que são as pessoas responsáveis pelo cadastramento e visitação das
famílias, em cada bairro.
A organização deste trabalho dispõe, primeiramente, de algumas referências que contribuem para problematizar o contexto da mulher trabalhadora, no
mercado de trabalho informal, por meio da coleta de resíduos sólidos recicláveis. Posteriormente, aborda questões relacionadas à organização da atenção à
saúde e inserção das mulheres catadoras, junto às ESF’s e, por fim, apresenta-se resultados e considerações provisórias que contribuem para elucidar as
questões apontadas e suscitar outros debates e construções teórico-práticas sobre o tema.

2 O contexto da mulher trabalhadora no mercado informal


O termo “informalidade” é aberto a várias conotações e conceitos dentro do mercado econômico com relação à variante trabalho. Cordeiro (2011, p. 24)
afirma, “[...] muitos autores consideram o trabalhador informal como aquele que não tem o registro do contrato de trabalho na Carteira de Trabalho e
Previdência Social (CTPS) ficando à margem das garantias e proteção da legislação trabalhista”.
O mercado de trabalho informal surge como alternativa, pós-revolução industrial, principalmente para as mulheres sujeitadas à subordinação dos
homens, tidos como dominantes no mercado de trabalho, além de hierarquicamente, também economicamente, possuindo menor carga horária e maiores
salários, Cordeiro (2011). Diante disto, mesmo com a precariedade do trabalho e das condições socioeconômicas esta possibilidade se torna mais viável.
A autora, refere também às mulheres que, por vários fatores, especialmente pelo fato de ser mulher, foram impedidas de participar do mercado de
trabalho formal, mas, estas continuam com a responsabilidade de prover ou ajudar no sustento familiar. Sendo assim, é relevante aprofundar conhecimentos
quanto à realidade da mulher inserida no mercado de trabalho informal, com destaque neste estudo, para a mulher vinculada à atividade de coleta de
resíduos sólidos e recicláveis.
A inserção das mulheres no mundo do trabalho constitui-se em tema de grande interesse quando se trata de discutir a igualdade de gênero na sociedade brasileira. Ao
longo das últimas décadas, as inúmeras reflexões sobre as condições do trabalho feminino possibilitaram um desenho detalhado sobre as diferentes formas de participação
das mulheres neste espaço, seja do ponto de vista de informações quantitativas, seja de análises qualitativas que procuraram captar o sentido dessa inserção para os
diferentes grupos sociais. Ainda assim, muito há que se dizer sobre as desigualdades entre homens e mulheres neste espaço tão valorizado nas sociedades capitalistas
contemporâneas.

O mercado formal de trabalho em diversos aspectos é excludente, principalmente quando se trata de gênero, raça e escolaridade. Pesquisa realizada pelo
IBGE entre os anos de 2003 e 2008 destaca:
No que se refere às formas de inserção, em janeiro de 2008, das mulheres ocupadas, 37,8% tinham trabalho com Carteira Assinada no Setor Privado, enquanto que entre os
homens esse percentual foi de 48,6%. Já na forma de Trabalhador Doméstico a participação foi de 16,5% e de 0,7%, respectivamente, para mulheres e homens.

Considera-se que nos elementos apontados anteriormente, Singer (2000) acrescenta que pensar nos “mercados de trabalho informal” é visualizar
desaguadouros de trabalhadores que desistiram de procurar o trabalho formal ou por dificuldades e oportunidades encontraram outra forma de sustento.
Nesse contexto faz-se necessário refletir sobre as formas de divisão do trabalho, promovidas pela sociedade patriarcal, que conferem à mulher os afazeres
domésticos e também o trabalho na esfera pública, sem isentá-la das responsabilidades com o cuidado da família e execução do trabalho doméstico.
Ao relacionar o trabalho informal da mulher à necessidade de inclusão do trabalhador/a na atenção à saúde e na garantia de acesso à rede, para ações e
serviços de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação ao trabalhador, é criada a Portaria nº 1.823 de 2012, que institui a Política Nacional de Saúde
do Trabalhador e Trabalhadora (PNST) que tem como finalidade a definição de princípios e objetivos que devem ser observados e desenvolvidos pelas três
esferas de gestão (Federal, Estadual e Municipal), resultando na atenção integral da saúde do trabalhador, promovendo e protegendo a saúde deste e
reduzindo a morbimortalidade desencadeada pelos modelos de desenvolvimento e processos de produção ( BRASIL, 2012).
A Política de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora apresenta como público alvo trabalhadores/as, homens e mulheres, da cidade ou do campo, com
inserção formal ou informal no mercado de trabalho, público ou privado, assalariado, autônomo, avulso, temporário, cooperativados, aprendiz, estagiário,
doméstico, aposentado ou desempregado. Verifica-se que a mulher trabalhadora abordada neste estudo está intrinsecamente ligada a esta política pública,
partindo do acesso a melhores condições de saúde e efetivação do direito fundamental.

3 Organização da atenção à saúde e inserção da mulher trabalhadora catadora em São Borja


A rede de atenção à saúde municipal está organizada através de estabelecimentos e equipes de saúde e ou profissionais prestadores de serviços, os quais
estão distribuídos na rede de atenção básica (baixa complexidade) média e alta complexidade. O ESF insere-se como unidade pública vinculada à baixa
complexidade. No Plano Municipal de Saúde (2014, p. 40) do município de São Borja é possível localizar referências acerca dos ESF’s:
O Programa de Saúde da Família, passou a ser executado em 2002, quando de início dez equipes foram formadas. Em 2003 mais três equipes foram formadas e hoje 2009
mais uma equipe está em andamento, com o projeto de transformação de Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde para ESF totalizando quatorze equipes sendo uma,
em unidade móvel que trabalha de segunda a sexta-feira, cada dia em uma localidade do interior do município. Em 2008 o Programa de Saúde da Família passou a ser
denominado Estratégia de Saúde da Família, e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, passou a ser Estratégia de Agentes Comunitários de Saúde. Cada equipe é
composta por um(a) médico(a), um (a) enfermeiro(a), um (a) técnico(a) de enfermagem, um(a) dentista, um(a) agente operacional, um(a) auxiliar de consultório dentário e
6 ou 7 Agentes Comunitários de Saúde.

Importante situar a forma de organização do sistema de saúde no município para poder contextualizar a inserção da mulher neste sistema. Em São Borja
há cinco equipes de ESF divididas em bairros: 13 nos bairros da cidade, um na localidade de Nhú-Porã e um ESF itinerante no meio rural. A partir dos
dados coletados foi possível evidenciar um perfil da mulher trabalhadora no mercado informal, na atividade de coleta de resíduos sólidos e recicláveis, que
não estão vinculadas ao trabalho cooperativado. Estas são usuárias da rede de atenção básica do município. Os dados pesquisados integram um conjunto de
84 mulheres, cadastradas nos ESF’s e acompanhadas por agentes comunitários/as de saúde, conforme pode ser observado na figura 1.
Figura 1: Relação ESF e mulheres trabalhadoras informais atendidas

Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.108

A figura 1 possibilita identificar as regiões em que as mulheres catadoras estão vinculadas, considerando-se o atendimento feito pelos ESF’s no
município, os quais se constituem como porta de entrada dos usuários do SUS. Quanto ao perfil verifica-se que o maior número de mulheres catadoras
atendidas nos ESF’s, pertencem ao ESF 1 (19,05%) que se localiza na área do Bairro do Passo mais especificamente na Vila Erneldo Matter, território da
cooperativa de catadores Unidos Venceremos “COOPUV”. Após, em segundo lugar está o ESF 10 (14,29%), localizado no Bairro Cabeleira e ESF 4
(11,90%), no Bairro Itacherê com percentual maior de mulheres cadastradas.
Importante acrescentar que quanto à saúde da Mulher existe um programa que deve ser desenvolvido no ESF, o Programa de Saúde Integral à Mulher
(PAISM) criado em 1984 e atualizado em 2004, inclui ações de educação prevenção, tratamento e reabilitação, elencando a assistência da mulher
ginecológica, pré-natal, parto, puerpério, climatério, planejamento familiar, doenças sexualmente transmissíveis, câncer de colo, de útero e mama, além de
outras necessidades que levem em consideração o perfil epidemiológico da mulher e o meio em que está inserida (BRASIL 2004).
Além da localização de acesso das mulheres aos ESF’s é fundamental observar a faixa etária dessas mulheres que acessam os serviços de saúde,
conforme pode ser observado na figura que segue.
Figura 2: Faixa etária das mulheres catadoras
Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

Na figura 2 é possível identificar a faixa etária predominante entre as mulheres catadoras atendidas pelos ESF’s em São Borja. Constata-se que a maior
parte das mulheres atendidas, tem entre 40 a 59 anos, sendo 52,38% do total. Essa faixa etária corresponde a um segmento de trabalhadores/as que uma vez
desvinculados/as do mercado de trabalho formal, com direitos trabalhistas assegurados, encontram dificuldades de inserção neste campo de trabalho,
geradas pelo desemprego estruturante, quando postos de trabalhos uma vez fechados, não voltam a existir, seja por limites quanto à profissionalização ou
por novas requisições postas aos(às) trabalhadores/as, a exemplo do uso de novas tecnologias. Outro fator agravante neste processo refere-se à questão
racial, conforme pode ser observado na figura 3.
Figura 3: Descrição das mulheres catadoras atendidas nos ESF’s a partir do critério de raça

Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

Este perfil busca demonstrar a identidade da mulher, possivelmente autodeclarada, relacionada a sua adscrição na área de ESF. A figura 3 apresenta
dados pertinentes em que 66,67% dos/as participantes se inscrevem como sendo de raça branca, evidenciando uma proporção muito maior em relação aos
demais resultados: 19 % negra e 8,33% que não especificaram a raça. Este resultado tem origem a partir da ficha de inscrição, que as mulheres
preencheram ao ser cadastradas no ESF pelo/a agente de saúde. E contribuindo com este perfil está a renda das mulheres descrita na figura 4.
Figura 4: Renda das mulheres catadoras
Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

No que se refere à renda, a maioria dos formulários apontam que as mulheres catadoras não discriminam nas fichas de acompanhamento dos ESF’s, o
tipo e o volume de remuneração totalizando 70,24% sem descrição da remuneração. Na sequência o índice de 16,67% aponta que a remuneração é de até
um salário mínimo. De acordo com Antunes (2001, p. 105) a “[...] expansão do trabalho feminino tem, entretanto, significado inverso quando se trata da
temática salarial, terreno em que a desigualdade salarial das mulheres contradita a sua crescente participação no mercado de trabalho”.
A diferença entre esses dois percentuais é expressiva e aponta para a seguinte indagação: as mulheres que não discriminam a forma de remuneração,
recebem valores acima de um salário mínimo? A atividade da coleta de resíduos sólidos recicláveis leva efetivamente ao aumento na renda? Estas mulheres
atendidas nos ESF’s estão vinculadas a algum programa ou benefício socioassistencial? Qual o nível de escolaridade dessas mulheres? Será que o tempo de
acesso à formação escolar tem repercussões em relação à remuneração? Dados descritos na figura 5 poderão contribuir para evidenciar estas questões.
Figura 5: Escolaridade das mulheres catadoras

Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

De acordo com a figura 5 constata-se que o maior índice de escolaridade entre as catadoras está voltado ao ensino fundamental incompleto (70,24%),
ou seja, estas mulheres têm menos de nove anos de acesso ao ambiente escolar. Este índice põe em evidência a dificuldade de acesso ao trabalho formal,
especialmente ao considerar-se as novas requisições postas aos(às) trabalhadores/as, com o avanço das novas tecnologias e da ausência de novos espaços
de trabalho, que valorizem as capacidades e saberes dos/as trabalhadores/as, em âmbito local. Conforme refere Antunes, as mudanças estruturais ocorridas
no mundo do trabalho têm apontado para a constituição de um perfil de trabalhador polivalente e multifuncional “[...] capaz de operar com máquinas com
controle numérico e de, por vezes exercitar com mais intensidade sua dimensão mais intelectual” (ANTUNES, 2005, p. 184). Este perfil aponta para uma
classe trabalhadora heterogênea e complexificada, que classifica os/as trabalhadores/as entre os/as “qualificados/as e os/as desqualificados/as”. Esta
classificação tem reflexo no vínculo de trabalho das mulheres catadoras que acessam os ESF’s conforme pode ser evidenciado na figura 6.
Figura 6: Vínculo de trabalho
Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

A Figura 6 aponta o perfil que identifica a relação da mulher no mercado de trabalho. Observa-se que a taxa de desemprego é de 63,10% das mulheres
que estão vinculadas a estas ESF’s. Este dado configura-se como pressuposto para inserção da mulher no mercado de trabalho informal, através da coleta
de resíduos sólidos, que em dado contexto é vista com saída para a sobrevivência familiar. É importante ressaltar também que posterior a este número
encontram-se as mulheres aposentadas sendo 17,86% desse total. Estas fazem uso da coleta, para complementar a baixa renda familiar, especialmente
quando estas mulheres são as principais responsáveis pela economia familiar como pode ser verificado na figura 7.
Figura 7: Responsável pela economia familiar

Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

Este gráfico demonstra que a responsabilidade primeira pela sustentação da família está a cargo da mulher “chefe de família” com 33,33%, seguido da
participação do esposo com 30,95%. Esta responsabilidade gera sobrecarga da mulher que na maioria das vezes, além de dar conta do trabalho doméstico
também tem que dar conta das atividades profissionais desenvolvidas fora de casa. Este processo pode levar às mulheres ao adoecimento e, por vezes, à sua
culpabilização pela forma de educação dos filhos, pela inserção destes na sociedade, pelas situações classificadas pela sociedade como “desestruturação
familiar”. Pertinente a este resultado a busca pelo sistema de saúde e a necessidade de resolução dos determinantes do processo saúde-doença e neste caso,
a responsabilização pelo fator econômico da família e o meio em que se insere leva aos resultados dispostos na figura 8, a necessidade de referência para
demais políticas de saúde e assistência social.
Figura 8: Inclusão em políticas de saúde e assistência social
Fonte: Roteiro de entrevista junto aos ESF’s.

Os resultados descritos na figura 8 possibilitam identificar que a maioria das mulheres (44,05%) possui atendimentos referenciados pela porta de
entrada do SUS que é o ESF, ou seja, são atendidas no ESF e no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) que também se constitui porta de
entrada, na Política de Assistência Social. Há também indicativos de atendimentos isolados em 23,81%, somente nos ESF’s e 16,67% nos CRAS. Este
resultado é potencializado através do ingresso das famílias no Cadastro Único para Programas Sociais (CADÚnico) e acesso ao programa Bolsa Família,
fator que contribui para o aumento da renda familiar. Também contribui para melhorar os condicionantes e determinantes do processo saúde-doença através
da intersetorialidade em políticas de saúde e serviço social. o que podemos verificar no texto abaixo:
“Da mesma maneira que diferentes populações estão expostas a variados tipos e graus de risco, mulheres e homens, em função da organização social das relações de
gênero, também estão expostos a padrões distintos de sofrimento, adoecimento e morte. Partindo-se desse pressuposto, é imprescindível a incorporação da perspectiva de
gênero na análise do perfil epidemiológico e no planejamento de ações de saúde, que tenham como objetivo promover a melhoria das condições de vida, a igualdade e os
direitos de cidadania da mulher.” (BRASIL 2004)

Esta intersetorialidade, citada acima, se constitui desafio no âmbito da qualificação dos serviços socioassistenciais e da efetivação de um trabalho em
rede, entre as instituições públicas e privadas, com vistas à qualificação dos serviços prestados aos(às) usuários/as dessas políticas.

4 Considerações finais
Ao finalizar este estudo é possível confirmar sua relevância frente à busca da compreensão do trabalho da mulher relacionado à questão de gênero,
relações de trabalho e políticas públicas. Tal correlação aponta que esta mulher trabalhadora informal, catadora, necessita ser atendida de forma qualificada
como pessoa de direitos, para atingir um melhor patamar de condição de vida e de saúde. Verifica-se que os objetivos propostos para este trabalho foram
atingidos. Em relação ao contexto da mulher no mercado de trabalho informal, identifica-se que esta modalidade de trabalho, apresenta várias definições ao
que seria realmente o trabalho informal. Num segundo plano o contexto histórico que recorre desde a revolução industrial, retóricas do capitalismo, a busca
pela lucratividade, o patriarcalismo e a subalternidade da mulher, tem contribuído para seu ingresso no mundo do trabalho de forma precarizada e arraigado
com premissas culturais e preconceituosas quanto ao trabalho doméstico e a sua profissionalização, bem como, com a busca de inserção no mercado formal
de trabalho.
Quando se fala em gênero este não pode ser entendido como sinônimo de mulher, pois engloba homens e mulheres e deve ser usado em dimensões
históricas, sociais, econômicas para refletir as relações entre gêneros em dados momentos históricos e não somente em análise de discurso. Marcando o
significado e sentido de ser homem e ser mulher na sociedade, marcando trajetórias de construção de vida e sociocultural. Ao incorporar o enfoque de
gênero nas políticas de saúde esta possibilita o desenvolvimento de ações integrais de cuidado (SOUTO, 2008).
Enfatiza-se a necessidade de formulação de políticas públicas sociais e econômicas que possibilitem o efetivo ingresso das mulheres, no mundo do
trabalho, de modo a superar a dupla jornada de responsabilização pelo trabalho doméstico e sustentação da família. Quanto à organização da atenção à
saúde e à inclusão da mulher trabalhadora no município foi possível conhecer e identificar a porta de entrada ao sistema de saúde – a Estratégia de Saúde
da Família – que tem por objetivo reorganizar a rede de atenção, promover ações e serviços resolutivos aos usuários, através de equipes que atuem em uma
área adscrita com número de famílias que serão atendidas e também incluídas e referenciadas a outros serviços quando tal resolutividade não acontecer.
Por fim foi possível conhecer o perfil das mulheres catadoras de resíduos sólidos e recicláveis inseridas em territórios de ESF, tal perfil evidencia-se
idade com percentual maior entre 40 e 59 anos; quanto à raça o maior percentual de autodeclaração é branca; a renda fica em torno de um salário mínimo, a
escolaridade com maior percentual ensino fundamental incompleto; o vínculo de trabalho em sua maioria é de mulheres desempregadas; responsáveis pela
economia familiar e que recebem atendimento de outras políticas sociais, a exemplo da Política de Assistência Social, por meio do acesso aos CRAS. Este
perfil socioeconômico foi identificado por meio de entrevista realizada com profissionais das ESF’s, que por sua vez, utilizaram-se de consulta junto às
fichas cadastrais dos/as usuários/as para responder às questões solicitadas.
Diante da pesquisa realizada identifica-se a importância de continuidade deste estudo, com vistas a identificar como os elementos aqui evidenciados
impactam junto aos homens vinculados aos ESF’s, com perfil de inserção no mercado de trabalho informal, por meio da coleta de resíduos sólidos, bem
como, dos/as trabalhadores/as catadores/as inseridos(as) em espaços cooperativados a exemplo da Cooperativa Unidos Venceremos (COOPUV).

Referências
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NOTAS DE RODAPÉ

1 Acadêmico do curso de Ciências Humanas – Licenciatura da Universidade Federal do Pampa, São Borja/RS, membro da Comissão Organizadora do Seminário Des Fazendo Saberes na Fronteira,
integrante do Grupo de Pesquisa em Gênero, Ética, Educação e Política- GEEP. Membro da Comissão Organizadora do Seminário Des Fazendo Saberes na Fronteira. E-mail: ewertonferreira266@gmail.com
2 Professora do Curso de Serviço Social, Universidade Federal do Pampa-UNIPAMPA- Campus São Borja/RS; Coordenadora do Seminário Des Fazendo Saberes na Fronteira. Vice líder do Grupo de
Pesquisa em Gênero, Ética, Educação e Política- GEEP, E-mail: jaquelinequadrado@unipampa.edu.br
3 Bacharel em Serviço Social pela Universidade Federal do Pampa, São Borja/RS, membro da Comissão Organizadora do Seminário Des Fazendo Saberes na Fronteira integrante do Grupo de Pesquisa
em Gênero, Ética, Educação e Política- GEEP E-mail: robertinha_bre@hotmail.com
4 Assistente Social na Superintendência dos Serviços Penitenciários/RS; Graduada em Serviço Social Fundação Educacional Machado de Assis –FEMA; Especialista em Serviço Social e Direitos
Humanos – Universidade Federal do Pampa-UNIPAMPA. E-mail: paulacristina_h@yahoo.com.br
5 Professora do Curso de Especialização Lato Sensu em Serviço Social e Direitos Humanos; Universidade Federal do Pampa-UNIPAMPA- Campus São Borja/RS; Orientadora; Graduada em Serviço
Social – UCPEL/RS; Mestre em Serviço Social – PUC/RS e Doutora em Sociologia – UnB/DF; E-mail: jaquelinequadrado@unipampa.edu.br
6 O processo constituinte e a promulgação da Constituição de 1988 representou, no plano jurídico, a promessa de afirmação e extensão dos direitos sociais em nosso país frente à grave crise e às
demandas de enfrentamento dos enormes índices de desigualdade social. A Constituição Federal introduziu avanços que buscaram corrigir as históricas injustiças sociais acumuladas secularmente, incapaz de
universalizar direitos, tendo em vista a longa tradição de privatizar a coisa pública pelas classes dominantes (BRAVO, 2009, p. 96; 97).
7 Em complemento aos princípios enunciados no estudo, segue os demais que também constituem o Art. 7º da Lei nº 8.080/90, que são: V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde; VI
- divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e a sua utilização pelo usuário; VII - utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a alocação de recursos e a
orientação programática; VIII - participação da comunidade; IX - descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de governo: a) ênfase na descentralização dos serviços para os
municípios; b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde; X - integração em nível executivo das ações de saúde, meio ambiente e saneamento básico; XI - conjugação dos recursos
financeiros, tecnológicos, materiais e humanos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios na prestação de serviços de assistência à saúde da população; XII - capacidade de resolução dos
serviços em todos os níveis de assistência; e XIII - organização dos serviços públicos de modo a evitar duplicidade de meios para fins idênticos (BRASIL, 1990).
8 Lei nº 7.210 de 11 de julho de 1984, que institui a Lei de Execução Penal.
9 Art. 10. A assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade. Parágrafo único. A assistência estende-se ao egresso. Art.
11. A assistência será: I - material; II - à saúde; III - jurídica; IV - educacional; V - social; VI – religiosa (BRASIL, 1984).
10 Art. 26. Considera-se egresso para os efeitos desta Lei: I - o liberado definitivo, pelo prazo de 1 (um) ano a contar da saída do estabelecimento; II - o liberado condicional, durante o período de prova
(BRASIL, 1984).
11 Nesse contexto, a produção de um diagnóstico sobre o perfil da população carcerária torna-se necessária para que o governo possa desenvolver e aprimorar ações que reduzam a vulnerabilidade da
população jovem ao sistema prisional, como medida de enfrentamento a mais uma forma de violência contra a população juvenil brasileira. Assim, a Secretaria Geral da Presidência da República e a
Secretaria Nacional de Juventude lançam o Mapa do encarceramento: os jovens no Brasil (BRASIL, 2015, p. 9).
12 Os dados da população presa no Rio Grande do Sul estão disponíveis para consulta no endereço eletrônico da Superintendência dos Serviços Penitenciários – SUSEPE, sendo divulgados pelo
Departamento de Segurança e Execução Penal, correspondem à atualização realizada em 06 de novembro de 2015. Disponível em: <http://www.susepe.rs.gov.br/capa.php>. Acesso em: 08 nov. 2015.
13 Instituído pela Portaria Interministerial nº 1777, de 09 de setembro de 2003, o Plano resulta de um trabalho realizado pelo Ministério da Saúde e da Justiça e, contou com a participação do Conselho
Nacional de Secretários de Saúde, do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde e do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (BRASIL, 2005).
14 Aprovado pela Resolução n.º 177/05 - CIB/RS, de 21 de setembro de 2005, é resultado de uma produção conjunta, entre a Secretaria Estadual de Justiça e Segurança e, Secretaria Estadual de Saúde do
Rio Grande do Sul.
15 A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional é instituída pela Portaria Interministerial nº 1, de 02 de janeiro de 2014.
16 A Política Nacional de Atenção Básica foi aprovada pela Portaria nº 2.488/GM/MS, de 21 de outubro de 2011.
17 Conforme previsto na Portaria nº 482 de 1º de abril de 2014 a equipe de saúde da Unidade Básica de Saúde Prisional é composta por: cirurgião-dentista; enfermeiro; médico; técnico de enfermagem e,
auxiliar de saúde bucal, sendo que, podem ser acrescidos a equipe, profissionais da psiquiatria, psicologia, serviço social, farmácia, fisioterapia e/ou terapia ocupacional, em conformidade com número de
pessoas presas atendidas.
18 Saber técnico-operativo, ético-político e teórico-metodológico da profissão.
19 O profissional do Serviço Social constrói sua prática com base na legislação específica de sua área, a saber: o Código de Ética Profissional, a Lei de Regulamentação da Profissão, as normativas
elaboradas pelos Conselhos Federal e Estadual (CFESS e CRESS), a Resolução CFESS n.º 383/99 de 29/03/1999, que caracteriza o assistente social como profissional da saúde, e o documento intitulado
“Parâmetros para a atuação de assistentes sociais na política de saúde”, além de que considera o que preconiza a Constituição Federal Brasileira e a legislação específica da saúde. Sendo válido destacar que o
profissional atuante na UBS Prisional orienta-se também pela Lei de Execução Penal.
20 Ano de implantação do Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário, já enunciado neste estudo.
21 Discente do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Maria e bolsista do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Gênero, Políticas Sociais e Movimentos Sociais da
UFSM. E-mail: eduardaracoski@hotmail.com
22 Docente do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Maria e Coordenadora do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Gênero, Políticas Sociais e Movimentos Sociais da UFSM.
E-mail: laurafonseca.22@hotmail.com
23 Human Development Report 2015. Disponível em: http://hdr.undp.org/sites/default/files/2015_human_development_report.pdf
24 MEDIDA PROVISÓRIA Nº 726, DE 12 DE MAIO DE 2016. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/Mpv/mpv726.html
25 “Governo Temer reduz em 35% investimentos em políticas de direitos humanos”. Rede Brasil Atual- publicado 05/01/2017. http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/01/governo-temer-
reduz-em-35-investimentos-em-politicas-de-direitos-humanos-2206.html
26 “Ministério masculino é retrocesso na luta por direitos das mulheres” - por Dimalice Nunes — publicado 13/05/2016. Disponível em:https://www.cartacapital.com.br/politica/ministerio-masculino-e-
retrocesso-na-luta-por-direitos-das-mulheres
27 PROPOSTA DE EMENDA À CONSTITUIÇÃO nº 55, de 2016 - PEC DO TETO DOS GASTOS PÚBLICOS. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/127337
28 “PEC 241: PFDC assina nota pública pela inconstitucionalidade do congelamento dos pisos da saúde e da educação” – Ministério Público Federal. http://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/pec-241-
pfdc-assina-nota-publica-pela-inconstitucionalidade-do-congelamento-dos-pisos-da-saude-e-da-educacao
29 “Consultoria do Senado aponta inconstitucionalidade da PEC dos Gastos” - publicado 08/11/2016 https://www.cartacapital.com.br/politica/consultoria-do-senado-aponta-inconstitucionalidade-da-pec-
dos-gastos
30 Brasil: teto de 20 anos para o gasto público violará direitos humanos, alerta relator da ONU – publicado em 09/12/2016 e atualizado em 10/12/2016 https://nacoesunidas.org/brasil-teto-de-20-anos-
para-o-gasto-publico-violara-direitos-humanos-alerta-relator-da-onu/
31 “Dilma: É preciso que as mulheres reajam aos reflexos da política neoliberal” – Dilma Rousseff – publicado em 08/02/2017. http://dilma.com.br/dilma-e-preciso-que-todas-as-mulheres-se-juntem-
para-reagir-aos-reflexos-da-politica-neoliberal/
32 Revista RADIS, ed. 176, maio 2017. http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/176/reportagens/reforma-e-%E2%80%9Cdesgraca%E2%80%9D
33 Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico de 2010. http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv88941.pdf
34 Missão do SENAR – site oficial. http://www.senar.org.br/missao-do-senar
35 Indicadores. https://oig.cepal.org/es
36 “Entenda as principais mudanças na reforma da Previdência” – Portal Brasil - Publicado: 20/04/2017 http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2017/04/entenda-as-principais-mudancas-na-
reforma-da-previdencia
37 Pesquisa Pulso Brasil da IPSOS. Outubro de 2017. https://www.ipsos.com/pt-br/pulso-brasil-outubro-2017
38 Discente Michelle Laisth, Universidade Federal do Pampa, curso de Relações Públicas, Campus São Borja. E-mail: michellelaisth@hotmail.com
39 Professora Doutora Carmen Regina Abreu Gonçalves, Universidade Federal do Pampa, curso de Relações Públicas, Campus São Borja. E-mail: carmengoncalves@uniapampa.edu.br
40 Mestre em Serviço Social, Trabalho e Questão Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Doutoranda em em Serviço Social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
Professora do Curso de Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso e Pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Orçamento e Seguridade Social da UERJ. Contato:
renatagomesdc@gmail.com
41 Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professora do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Pampa (Campus de São Borja).
Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa Educação, Direitos Humanos e Fronteira e do Laboratório de Políticas Públicas e Território Fronteiriços. Contato: moniquevieira@unipampa.edu.br
42 Vale ressaltar que a categoria alienação aqui em evidência, jamais trará o significado de anulação do sujeito, como se este fosse incapaz de negar as condições alienantes e tentar superá-la, como se
fosse uma coisa, sem consciência, estando amarrado pelas condições da sociedade. Isso não faz parte do conceito de alienação para Marx e alguns marxista, por isso indicamos as obras de Leandro Konder -
Marxismo e Alienação: contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação-, bem como os Manuscritos econômicos-filosóficos de Marx, para o esclarecimento mais aprofundado sobre essa
importante categoria. A alienação está posta como uma das bases desse modo de produção, bem como as condições de superá-la e os sujeitos, organizados, e mesmo individualmente, em alguns casos, podem
problematizar essas questões e lutar contra o status dado pelo capital.
43 Licenciada em Letras, pela Universidade Regional Integrada, URI/Santo Ângelo. Especialista em Educação de Jovens e Adultos pelo Instituto Brasileiro de Pós-graduação e Extensão, IBPEX, Brasil.
Especialista em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Pampa, Campus Uruguaiana. Professora de Educação Básica da rede particular e pública de ensino. E-mail: rosane.r.gelati@gmail.com
44 Licenciada em Química, Mestra e Doutora em Educação em Ciências. Professora do Curso de Ciências da Natureza – Licenciatura, Universidade Federal do Pampa, Campus Uruguaiana. Pesquisa
sobre corpo, gênero, sexualidade, ensino de ciências e química, formação docente inicial e continuada. E-mail: fabianesilva@unipampa.edu.br
45 Destacamos que a pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da Universidade Federal do Pampa.
46 Mesmo correndo o risco de fixar as identidades, consideramos importante diferenciar esses dois termos. Conforme Penalvo e Bernardes (2009), travestis são pessoas que assumem características
físicas e psicossociais atribuídas ao oposto de seu sexo (masculino ou feminino). Isso não significa a negação do sexo genital, pois os(as) travestis não se interessam pela cirurgia de readequação genital, mas
podem modificar o corpo através do uso de hormônios e silicones. Por outro lado, Penalvo e Bernardes (2009) argumentam que transexuais são pessoas que não aceitam o sexo que ostentam anatomicamente.
Sendo o fator psicológico predominante na transexualidade, o indivíduo identifica-se com o sexo oposto, embora dotado de genitália externa e interna de um único sexo, isto é, é a pessoa que possui uma
identidade de gênero diferente do sexo biológico – designado no nascimento – e, por esse motivo podem manifestar o desejo de se submeterem à redesignação sexual, porém não é isso que determina a
transexualidade. A possibilidade de um homem no sentido fisiológico se relacionar com o mundo como mulher ou vice-versa, coloca em xeque a lógica binária e fixa que marca a nossa sociedade. Sobre essa
questão, Le Breton (2014, p. 24) argumenta que “a movência transgêneros traduz, inversamente, a recusa dos binarismos, em especial, homossexual/heterossexual, masculino/feminino”, bem como demonstra
a necessidade de problematizar as diferenças, de multiplicá-las e não categorizá-las, pois as considera não estáveis e já estabelecidas previamente.
47 Segundo Santos (2009, p. 45) a heteronormatividade “está assentada em um sistema binário, dicotômico de categorização e pressupõe dois modelos estritamente definidos com base na genitália:
macho ou fêmea. Disso decorrem comportamentos esperados para o masculino e para o feminino, pautados em uma heterossexualidade compulsória (supostamente biológica, portanto, natural, dada pelo
corpo) que conduz o desejo em direção ao sexo oposto.”
48 Docente do Instituto Federal Farroupilha – Campus São Borja, Mestre em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS Pesquisa sobre ética, política e gênero na filosofia.
barbara.valle@iffarroupilha.edu.br
49 Técnica em Assuntos Educacionais do IFFar – SB, Licenciada em Ciências Biológicas epla Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mestra em Educação pela mesma instituição, membra do
NUGEDIS-SB. Pesquisa sobre Formação e Identidade Docente. bianca.bueno@iffarroupilha.edu.br
50 Docente do Instituto Federal Farroupilha – Campus São Borja Especialista em Design de Estamparia pela Universidade Federal de Santa Maria, Mestranda em Formação e Educação de Adultos pelo
Instituto politécnico do Porto, Portugal e atual Presidenta do NUGEDIS-SB do IFFar-SB. Pesquisa sobre Gênero e Diversidade Sexual na Educação. Carolina.pinheiro@iffarroupilha.edu.br
51 Retirado de http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2017/04/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-transexuais-no-mundo-diz-pesquisa.html acesso em 19/07/2017
52 Retirado de http://exame.abril.com.br/brasil/os-numeros-da-violencia-contra-mulheres-no-brasil/ acesso em 19/07/2017
53 9° anuário de segurança pública disponível em: https://www.mpma.mp.br/arquivos/CAOPCEAP/8o_anuario_brasileiro_de_seguranca_publica.pdf
54 Scientific American Brasil. Ano 16. n177.
55 Para acessar a página: https://www.facebook.com/NugedisSB/
56 https://www.facebook.com/NugedisSB/videos/119488708734824/
57 Graduando em Dança Licenciatura pela Universidade Federal de Santa Maria/RS. Bailarino – pesquisador do Grupo Integração e Arte da Faculdade Metodista de Santa Maria – FAMES/RS.
Pesquisador e membro do Grupo de Estudos em Educação Dança e Cultura (GEEDAC). É bolsista PIBID\CAPES subprojeto Dança. fio.sb.14@hotmail.com
58 Doutor em Educação (UFRGS) e Mestre em Educação (UFSM/RS). Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Maria do Curso de Dança – Licenciatura. Coordenador do Grupo de Estudos
em Educação Dança e Cultura (GEEDAC). guto.esef@gmail.com
59 Em recente livro intitulado “Desejos Digitais: uma análise sociológica da busca por parceiros on-line” (2017), Richard Miskolci evidencia em seu estudo etnográfico que a partir da era digital em 1995
a comercialização e acesso a internet mudam as práticas normativas para se adequar ao meio, há uma forte idealização do reconhecimento de si, assim, as plataformas digitais ensinam os usuários a tentarem
performar uma versão aprimorada de si mesmos, das suas masculinidades homo/hétero. Criam-se regimes de estigmas, de posições superiores aos outros, a busca pelo sigiloso e pelo fora do meio
homossexual - são exercícios subjetivos corporais de clonagem de modelos – o desejo homossexual nunca esteve tão privado por conta do controle social e de uma hegemonia individualizante.
60 Conceito de Bourcier, 1987.
61 Neste breve panorama histórico citamos algumas masculinidades de destaque, ligadas ao balé clássico, pois é onde mais se conota regimes da sexualidade nos corpos. Entretanto, também
consideramos importantes outros artistas da dança que foram essenciais na construção e desconstrução de estigmas referentes ao homem que dança, mas não cabe aqui destacar todos, pois são inúmeros e isto
cabe a outro estudo. Consultar estudos de Andreoli (2010).
62 Referência ao texto “A epistemologia do armário” de Eve Kosofsky Sedgwick publicada nos cadernos pagu em 2007.
63 Vida artista – para Foucault como exercício artista e não artística é uma ação de vida generosa, ágil, que recusa as formas de vida assujeitadas de ordem burguesa. É inventar-se, possível a todo sujeito
ético e autônomo. Como assumir as descontinuidades, os atravessamentos que seguiram aos conceitos de estética de existência e cuidado de si. (Rocha, 2012)
64 Mestranda em Políticas Púnlicas, pela Universidade Federal do Pampa, campus São Borja. Pesquisa sobre Políticas Públicas e Teoria Política Feminista. irisnabolotnyj@gmail.com
65 Professora do Mestrado Profissional em Políticas Públicas, pela Universidade Federal do Pampa, campus São Borja. Pesquisa sobrea os seguintes temas: migrações, agricultura, paisagem, mata
atlântica, história do abastecimento. susanacesco@gmail.com
66 JIMÉNEZ, Carla. A Justiça no Brasil não é dividida, é feminina. El País. In: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/30/politica/1464598834_069834.html>. Acesso em 26 de julho de 2016.
67 Este critério foi criado devido à complexidade dos comentários, que obtinham #culturadoestupro e #RJ, no entanto, não apresentavam conteúdo coerente com o tema (exemplo: link de notícias e
opiniões de outras pessoas que não a dos usuários).
68 O mecanismo virtual de apuração de pesquisa do Twitter organiza as publicações mais acessadas no topo lista, esse também foi um critério considerado. O link de pesquisa pode ser verificado em:
https://twitter.com/search?q=%23culturadoestupro%20%23RJ&src=typd&lang=pt-br
69 Neste caso, o critério de seleção dos tweets foi diferente (não foi encontrado figuras públicas utilizando hashtags), assim, a chave de busca foi “figuras públicas sobre estupro coletivo 2016” realizada
no Google. Visto que a abrangência das notícias é maior, neste site, a seleção foi dada a partir do mesmo critério tweets populares, segundo o grau de coerência e objetividade com o tema.
70 Não houve a necessidade de criar-se uma variável mediana (exemplo: indecisos), pois os dados coletados e analisados previamente não apresentaram tal característica.
71 Professora do Instituto Federal Farroupilha – Campus São Borja - RS, Mestre em Filosofia pela Universidade do Vale do Vale do Rio dos Sinos. E-mail: barbara.valle@iffarroupilha.edu.br
72 Lembramos do conceito de grego de sophrosyne, que quer dizer prudência, bom senso e justa-medida, que buscava trabalhar as nossas vontades.
73 Doutora em Educação/ UFPel; Professora nos Curso de Licenciatura do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-grandense/Campus CAVG; Membro do Observatório dos
Conflitos da Cidade/UCPel. hentges.angelita@gmail.com
74 Doutora em Serviço Social/PUCRS; Professora Adjunta da Universidade Católica de Pelotas, onde coordena o grupo de estudos e pesquisa Questão Agrária, Urbana e Ambiental e Observatório dos
Conflitos da Cidade vinculado ao Curso de Serviço Social e Pós-graduação em Política Social /UCPel. cristinejrib@gmail.com
75 OGUN – considerado irmão de Exu. É o primogênito, o primeiro nascido, princípio do desbravamento. Está relacionado com o ferro, e é patrono dos ferreiros, que conhecem o segredo da metalurgia,
ou seja, da transformação do minério em metal. Ele caracteriza a passagem da civilização da pedra para a civilização dos metais. É também guerreiro e caçador, habitante das florestas e conhecedor dos
mistérios das ervas e poções medicinais. Está relacionado com o mistério das árvores. Seu culto é feito aos pés do dendezeiro (igi-ope), e as folhas (palmas recém-nascidas) deste são de grande significação
para o culto de Egun (LUZ, 1995).
76 Mestre em Educação (PPGEDU/UFRGS). Pedagoga da Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA Campus São Borja. Integrante do Grupo de Pesquisa Gênero, Ética, Educação e Política - GEEP
da UNIPAMPA e do Núcleo de Estudos em Políticas de Inclusão Escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NEPIE/UFRGS). E-mail: gilvanebc@gmail.com
77 Doutora em Educação (PPGEDU/UFRGS). Professora da área da Pedagogia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS – Campus Caxias do Sul. Integrante
do Núcleo de Estudos em Políticas de Inclusão Escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NEPIE/UFRGS). E-mail: cla.haas@hotmail.com.
78 Utilizaremos no presente texto, o termo “pessoas com deficiência” para referir-se ao público alvo da Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Cabe lembrar que
também compõem esse público as pessoas com transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades e/ou superdotação (BRASIL, 2008).
79 Conforme a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), o principal dispositivo pedagógico responsável pela individualização das práticas
pedagógicas considerando as singularidades dos sujeitos escolares com deficiência é o Atendimento Educacional Especializado (AEE), cuja oferta é complementar/suplementar à escolarização no ensino
comum, ou seja, não substitui a escolarização.
80 A Resolução do CNE/CEB 04/2010 aponta como diretrizes curriculares da educação básica as organizações curriculares disciplinares, multidisciplinares, pluridisciplinares, interdisciplinares ou
transdisciplinares. (BRASIL, 2010)
81 “[...] Coerência entre o que é experienciado pelo aluno durante a formação e o que se espera de sua atuação como docente” (OLIVEIRA; BUENO, 2013, p. 3).
82 Bacharel em Comunicação Social habilitação em Publicidade e Propaganda – UNIPAMPA. E-mail: meuemail@paracontato.com
83 Bacharela em Comunicação Social habilitação em Publicidade e Propaganda – UNIPAMPA. E-mail: meuemail@paracontato.com
84 Professora Associada da Universidade Federal do Pampa Campus São Borja, curso Publicidade e Propaganda, Doutora em Ciências da Comunicação. Coordenadora do GP Comunicação para a
Cidadania da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Líder do Grupo de Pesquisa Dos CNPq/Unipampa e coordenadora do Núcleo de Estudos e Produção em Fotografia da
Unipampa – NEPFOTU. E-mail: denise_dts@yahoo.com.br.
85 TCC de Alaor Lubschinski Ries.
86 Os vídeos estão disponíveis em <https://www.youtube.com/user/oldspicebr/videos>. Acessado dia 12 de novembro de 2016, 1h23min.
87 TCC de Marta Elaine Vercelhesi Mendes.
88 Revista EXAME, acessado dia 14 de novembro de 2016 as 17:11 horas. Disponível em <http://exame.abril.com.br/marketing/old-spice-estreia-no-brasil-acendendo-vela-com-lanca-chamas/>
Acessado em 07/03/2014, 17h21min.
89 Informação disponível em: <http://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/mulheres-dominam-compras-online-de-moda-e-beleza/>. Acesso em 13 de junho, 2016, às 15h57min.
90 Disponível em: <http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/consumo-feminino-o-que-as-mulheres-querem/60767> Acesso em 27 de mai, 2015 às 16h34min.
91 Disponível em <http://www.loungerie.com.br/conceito>, acessado em 26/04/16 as 10h21min.
92 Informações disponíveis sobre a Revista Claudia no site M de Mulher. Disponível em: <http://mdemulher.abril.com.br/claudia?
utm_source=barra_abril&utm_medium=portal&utm_campaign=barra_abril_portal> acessado em 27/05/16 às 17h49min.
93 Informações disponíveis no site do Mundo das Marcas em <http://mundodasmarcas.blogspot.com.br/2006/06valisere-para-mulheres-inesquecveis.html> acessado dia 26/04/16 as 10h40min.
94 Abril. Disponível em: <http://mdemulher.abril.com.br/cosmopolitan-brasil> acessado em 15/09/15 às 14h45min.
95 Disponível em <http://www.delrio.com.br/grandesmagazines/delrio/historia> acesso 18/06/15 às 14h.
96 Disponível em: http://www.yoga.ind.br/ acessado as 16:20 do dia 11/04/16.
97 Informações disponíveis sobre a Revista Caras no Portal Imprensa. Disponível em: <http://www.portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/3502/a+historia+da+revista+caras> acesso em
16/05/16 às 15h15min.
98 Doutora em Serviço Social, Professora do Curso de Serviço Social da UNIPAMPA; São Borja/RS; jaina.pedersen@gmail.com
99 Doutor em Serviço Social, Professor do Curso de Serviço Social da UNIPAMPA; São Borja/RS; jorgealexandre@unipampa.edu.br
100 Compreende-se, [...] que são construídos historicamente os papéis, as qualidades e as características, ou ainda, as atividades ditas femininas ou masculinas, e não determinadas fisiológica ou
naturalmente. Há assim uma construção sócio-histórica do gênero. São, portanto, os homens e as mulheres, na construção de suas relações sociais, que irão determinar a sua forma de ser, agir e pensar. Enfim,
determinar a ideologia e o modo de produção e reprodução da sociedade (CISNE, 2012, p. 50-51).
101 Assistente Social. Integrante do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Serviço Social, Mídia, Cultura e Questão Social (NEPMQS). Santa Maria, RS; sidimarsfdutra@gmail.com;
102 Assistente Social. Integrante do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Serviço Social, Mídia, Cultura e Questão Social (NEPMQS). Mestranda do Programa de Pós-graduação em Política
Social e Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; jessicadegrandi.soares@gmail.com
103 Assistente Social. Mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS (2004). Professora do Curso de Serviço Social da Universidade Federal de Santa
Maria – UFSM. Coordenadora do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Serviço Social, Mídia, Cultura e Questão Social (NEPMQS), Santa Maria, RS.
104 Trabalho executado com recursos do Edital 42/2016 - Programa de Fomento a Extensão, da Pró-Reitoria de Extensão e do Edital PROEXT 2016 MEC/SESu, do Ministério da Educação.
105 Trabalho executado com recursos do Edital 42/2016 - Programa de Fomento a Extensão, da Pró-Reitoria de Extensão e do Edital PROEXT 2016 MEC/SESu, do Ministério da Educação.
106 Trabalho executado com recursos do Edital 42/2016 - Programa de Fomento a Extensão, da Pró-Reitoria de Extensão e do Edital PROEXT 2016 MEC/SESu, do Ministério da Educação.
107 Estudante do 5º semestre do Curso de Ciências Sociais – Ciência Política e bolsista do Programa de Extensão “Educação Ambiental e Controle Social da Política Nacional de Resíduos Sólidos: o
trabalho da COOPUV no município de São Borja/RS”; Universidade Federal do Pampa; São Borja, Rio Grande do Sul; E-mail: raineguimaraes.raiodesol@gmail.com
108 Figuras (1 a 8) construídas pelas autoras.