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ARIEL TAVARES PEREIRA

UM ESPECTRO RONDA A ILHA:


O comunismo na imprensa de São Luís (1935-1937)
À Dona Rosa, que com seu afeto e
coragem aprontou-me para a vida.

2
AGRADECIMENTOS

"Não sou nada. Nunca serei nada,


não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo".
Fernando Pessoa

Seria imperdoável não citar o nome das pessoas que participaram diretamente do
processo de elaboração da dissertação, defendida em 2010, e que agora vem a lume sob a
forma de livro. Fábio Ribeiro Lima, meu amigo e historiador, ajudou-me com a parte final
da pesquisa, junto ao setor de jornais da Biblioteca Benedito Leite. Aproveito para
agradecer também aos funcionários dessa instituição, que apesar das limitações estruturais
(apenas duas, e antigas, máquinas leitoras de microfilmes!), sempre nos receberam com
educação e presteza.
Muita gente me ajudou com a digitação, para o computador, das transcrições:
Elton, Fabrício, Rafaela, Elisene, Fagner e Fábio Lima (outra vez!). Cada palavra digitada
ou “ditada” foi importante, obrigado.
Agradeço a minha família. Em primeiro lugar minha mãe, Dona Rosa Tavares,
mulher admirável, que, junto com meu pai, Seu Raimundo Sardinha, soube educar seus
treze filhos com doçura e firmeza, sem fraquejar ou ceder jamais.
A todos os meus irmãos, direta ou indiretamente responsáveis por eu ter
conseguido chegar até aqui: Benedito (in memoriam), Mário, Samuel, Juvenal, Elson,
Celias (in memoriam) e Elton.
A todas as minhas irmãs que, junto com a Dona Rosa, são responsáveis pela
determinação e o pouco de sensibilidade que há em mim: Socorro, Dora, Eliane, Rosângela
e Aubélia.
Tenho um agradecimento especial para Elisene, que conheci durante o mestrado
e hoje é minha esposa, com a qual compartilho a experiência maravilhosa de criar e cuidar
dessas criaturas lindas, e levadas, que são os nossos filhos Miguel e Lucas.
Agradeço aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais,
especialmente à professora Maristela de Paula Andrade, que me incentivou a fazer a
seleção para o Mestrado em Ciências Sociais/UFMA. A estimulante disciplina que
ministrou durante o curso contribuiu sobremaneira com o projeto e, consequentemente,

3
para a continuidade da pesquisa.
Agradeço aos professores do IFCS/UFRJ, André Botelho, José Ricardo Ramalho
e Marco Aurélio Santana que me receberam muito bem na cidade maravilhosa durante o
período cursado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ).
Ao professor Igor Gastal Grill, quero agradecer pela orientação, pautada sempre
pelo rigor científico, mas também pela compreensão e tolerância com as minhas limitações
e/ou “teimosias” na elaboração do trabalho. Assumo-as publicamente, posto que apesar de
ter aceitado o convite para escrever o prefácio deste livro, o seu conteúdo corresponde, em
termos conceituais, exatamente ao que foi defendido junto ao PPGCSoc/UFMA em janeiro
de 2010.
Não poderia deixar de agradecer aos professores que na oportunidade aceitaram
participar da banca examinadora: Professor Dr. Marco Aurélio Santana (IFCS/UFRJ) e
professora Drª Arleth Santos Borges (PPGCSoc/UFMA).
Este livro contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa no
Maranhão (FAPEMA), à qual registro aqui meus agradecimentos.

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Aderbal Quadros não entendia aquelas conversas.
Sobre o que se passara na Rússia, tinha apenas
ideias nebulosas: ouvira falar numa “revolta
braba” em que os revolucionários tinham “feito o
serviço” na família imperial, instituindo um
regime em que tudo era de todos.
Érico Veríssimo
(extraído de O tempo e o vento)

No bonde, mais tarde, a caminho de casa, João


Maurício isolou-se numa ponta de banco com o
seu cigarro, a refletir sobre o ambiente tenso de
São Luís, nos últimos tempos. A cidade havia
perdido a cordialidade de seu feitio, sem os
passeios da Praça Gonçalves Dias, as rodas de
amigos no Largo do Carmo. A luta política
radicalizara as paixões. […]
E já havia mesmo quem vociferasse, em plena via
pública:
- Viva Lenine!
E a resposta não tardava:
- Viva Hitler! Viva Mussolini!
Josué Montello
(extraído de A coroa de areia)

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO

2. A SÃO LUÍS DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO


XX
2.1 A (quase eterna) crise maranhense

2.2 Os serviços “públicos”: a segregação do espaço urbano em


São Luís
2.3 As facções políticas e seus veículos de comunicação
3. REPRESENTAÇÃO DO COMUNISMO E DO
COMUNISTA NA IMPRENSA DE SÃO LUÍS
3.1 O Combate: a defesa do “regime democrático” e a
instrumentalização do comunismo
3.2 Pacotilha: a repressão ao comunismo em nome da “ordem”
3.3 O Imparcial: as visões heterogêneas acerca dos
“extremismos”
3.4 Tribuna: aliancistas e comunistas na imprensa ludovicense
3.5 Notas sobre o conservadorismo católico na imprensa de São
Luís
4. A CIVILIZAÇÃO AMEAÇADA PELO “PERIGO
VERMELHO”
4.1 “Devemos ir às escolas”: o papel dos intelectuais e da
educação no combate ao comunismo
4.2 Em defesa da moral cristã: Deus, pátria, família, casamento e
submissão da mulher
4.3 A cobertura do “caso espanhol”: um exemplo do “Terror
Vermelho”
5. CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

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1. INTRODUÇÃO

Investigamos neste trabalho um dos momentos históricos (1935-1937),


conhecido como primeira “onda anticomunista”, no qual se processou a construção e
propagação de representações acerca do comunismo e dos comunistas na cidade de São
Luís/Maranhão. Este cenário maranhense estava interligado ao quadro político-nacional
que apresentava neste momento (1935-1937) uma intensificação do fenômeno
anticomunista em razão da fracassada tentativa de Revolta Comunista ocorrida em
novembro de 1935 nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro. Todavia já existiam
manifestações anticomunistas em conseqüência do avanço dos movimentos políticos de
tendência socialista e comunista nos principais centros urbanos brasileiros desde os anos os
primeiros da década de 19301.
Desse modo, o tema de pesquisa em torno do qual buscamos construir o
objeto de investigação é o do imaginário anticomunista no Brasil, o qual veio sendo
significado e ressignificado pelos diversos grupos sociais e instituições que buscaram
impor uma visão "verdadeira" acerca do comunismo/comunista. Tendo como fonte de
material empírico jornais publicados nesse período, entre os principais estavam: O
Combate; Pacotilha; O Imparcial e Tribuna. Todos ligados às facções políticas2 que
monopolizavam o jogo político oligárquico da época.
A ideia de realizarmos essa pesquisa surgiu no decorrer da elaboração da
monografia de conclusão do curso de História, realizada em 2006. Na oportunidade
analisamos as visões da imprensa ludovicense3 acerca do conflito político entre a Aliança
Nacional Libertadora (ANL4) e a Ação Integralista Brasileira (AIB5). Percebemos, então, a
1
Ver: SILVA, s/d. e MOTTA, 2002; 2007.
2
O conceito de facção aqui utilizado segue a definição dada por Carl Landé (1977). São grupos não-
corporados que se caracterizam por “membros instáveis, duração incerta, liderança personalística, ausência
de organização formal e um interesse maior por poder e espólios do que por ideologia ou política” (LANDÉ,
1977, p.52). Não se trata, portanto, de tentar impor uma classificação pejorativa para as referidas correntes
políticas, mas de procurar caracterizá-las com maior precisão analítica.
3
Ludovicense ou sanluisense são as duas formas com que se pode designar quem ou o que é originário dessa
cidade.
4
A ANL foi fundada no Rio de Janeiro em março de 1935. No Maranhão sua existência legal se deu entre os
meses de abril e julho, quando Vargas decretou o fechamento nacional da organização. Para a trajetória
detalhada da ANL no Maranhão: CALDEIRA, José de Ribamar. A ANL no Maranhão. São Luís: Edufma,
1990.
5
A AIB, movimento nacionalista de forte caráter fascista, atuou legalmente no Maranhão entre os anos de
1933 e 1937. Para uma análise do caráter fascista da AIB: TRINDADE, Hélgio. Integralismo (o fascismo
brasileiro na década de 1930). São Paulo/ Porto Alegre: Difel/UFRGS, 1974. Sobre a AIB no Maranhão:
CALDEIRA, João Ricardo. Integralismo e política regional: a Ação Integralista no Maranhão. São Paulo:
Annablume, 1999.

7
recorrência de editoriais, artigos e matérias que alertavam para o perigo do comunismo
(PEREIRA, 2006). Isso chamou nossa atenção, especialmente por não encontrarmos
indícios de movimentação comunista organizada, na cidade de São Luís daquele período
(meados da década de 1930), que pudesse representar qualquer ameaça concreta para o
jogo político estabelecido, então controlado pelos grupos oligárquicos (CALDEIRA, 1981;
REIS, 2007).
Também durante a monografia surgiu a inspiração para o próprio título do
trabalho, uma paráfrase do famoso texto de Marx e Engels publicado em 1848:

Um espetro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Para combatê-lo, unem-


se numa Santa Aliança todas as potências da velha Europa: o Papa e o Czar,
Guizot e Metternich, os radicais da França e os policiais da Alemanha […].
Quais os oposicionistas que não são acusados de comunistas por seus adversários
no poder? Quais os oposicionistas que, por sua vez, não têm replicado, a seus
adversários da direita ou da esquerda, com a alcunha infamante de comunistas?
(MARX; ENGELS, 2006)

Procuramos, então, tomar conhecimento da bibliografia disponível sobre


anticomunismo na produção das ciências sociais brasileira. Deparando-nos com uma certa
lacuna de estudos sobre essa problemática específica, o que se explicaria, segundo Rodrigo
Santos de Oliveira (2004a), pelas duas décadas de uma ditadura militar que tinha como
uma de suas bandeiras legitimadoras justamente o combate ao comunismo.
Tal situação dificultava a realização de pesquisas na área. Isto funcionou
como mais um estímulo para tentarmos desenvolver o trabalho, desta feita procurando
articular a problemática histórica a uma perspectiva sociológica, fazendo uso, assim, de
referenciais teórico-metodológicos oriundos das ciências sociais.
Quando elaboramos o projeto de dissertação, no final de 2007, os principais
estudos que conseguimos encontrar, e com os quais pretendíamos dialogar, caracterizavam-
se por uma abordagem historiográfica centrada na ideia do imaginário anticomunista. Este
é o caso, por exemplo, da dissertação de mestrado de Carla Simone Rodeghero, publicada
em livro sob o título O diabo é vermelho: imaginário anticomunista e Igreja Católica no
Rio Grande do Sul, no qual a autora analisa a produção de um imaginário anticomunista
através de jornais católicos no Rio Grande do Sul, entre 1945 e 1964, ou seja, num período
em que já era forte a polarização entre os blocos soviético e estadunidense. Este trabalho
foi muito importante ainda na época de desenvolvimento do projeto de pesquisa, nos
servindo como referencial para as nossas primeiras formulações acerca do material

8
coletado nos jornais de São Luís, apesar de tratar de um período diferente do que
estávamos analisando aqui em São Luís.
Outro importante livro sobre o anticomunismo no Brasil é o de Rodrigo Patto
Sá Motta, Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil, obra de
referência nessa área não somente por conseguir dar conta de um longo período (de 1917
até 1964), mas principalmente porque esclarece com propriedade determinadas questões
acerca das origens e matrizes ideológicas do chamado anticomunismo brasileiro. Rodrigo
Motta é um dos primeiros a romper com certas concepções tradicionais sobre o imaginário
político anticomunista, como é o caso da interpretação produzida pelo Estado, e
notadamente pelo Exército, em torno da Intentona Comunista, transformada numa espécie
de “mito fundador” do anticomunismo no Brasil.
Tal interpretação localizava o início do combate ao comunismo como uma
conseqüência dos levantes em quartéis nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro.
Tendo-se inclusive decidido marcar a data de 27 de novembro como “dia nacional de
repúdio ao comunismo”, como aponta Rodrigo Santos de Oliveira em sua dissertação de
mestrado: “Perante o tribunal da história”: O anticomunismo da Ação Integralista
Brasileira. Neste trabalho, o autor realiza uma análise aprofundada do anticomunismo da
Ação Integralista, revelando que o meio impresso (jornais, revistas e livros) foi o principal
instrumento de divulgação das representações anticomunistas produzidas pela AIB.
Outro trabalho instigante que tivemos acesso foi o livro de Roberto Martins
Ferreira Organização e Poder - Análise do discurso anticomunista do exército brasileiro,
em que o autor realiza uma investigação através das chamadas ordens do dia, um
documento oficial que anualmente o exército divulgava como parte das ações que
buscavam marcar a luta contra o comunismo. Percorrendo um longo recorte cronológico, o
trabalho consegue descortinar alguns elementos recorrentes do discurso do exército que
tiveram um papel decisivo na construção da imagem do comunismo e do comunista. Do
ponto de vista metodológico, ele segue uma orientação mais forte da análise de conteúdo
que busca identificar os recursos argumentativos utilizados pelo enunciador, e ainda como
este produz estratégias para convencer o leitor a engajar-se na defesa das ideias
apresentadas pelo discurso.
Ao livro de Carla Luciana Silva, intitulado Onda vermelha: imaginários
anticomunistas brasileiros (1931-1934), tivemos acesso quando de nossa passagem pelo
Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2009. A autora apresenta a tese de que o fenômeno

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anticomunista seria anterior à ANL e aos levantes de novembro de 1935, apontado como
marco inicial das campanhas anticomunistas no Brasil. Carla Silva baseou sua pesquisa na
análise dos Anais da Assembléia Nacional Constituinte de 1934 e dos jornais fluminenses
(Correio da manhã e O Jornal) e gaúchos (A Federação e o Correio do povo). No bojo das
discussões e propostas que se faziam no período e que tinham como núcleo central a
“questão social” e suas possíveis soluções, a autora identifica a disseminação de um
imaginário anticomunista. Segundo sua análise, o anticomunismo funcionou, desde então,
como “uma forma de justificação para os vários setores das elites políticas nacionais se
definirem pelas propostas autoritárias” (SILVA, s/d, p.19).
Como primeiro passo na construção do nosso objeto de análise, decidimos
relativizar um aspecto presente entre os principais trabalhos que tratam da temática dos
discursos sobre o comunismo, qual seja: sua abordagem a partir da perspectiva específica
de um imaginário anticomunista construído pelo discurso dos diversos agentes sociais que
combatiam o comunismo, notadamente a Igreja Católica e o Integralismo. Nossa percepção
é de que esse viés interpretativo muitas vezes não possibilita enxergar que se trata de um
espaço de disputa entre representações que visam impor um sentido determinado para um
determinado referente. Para pensarmos com Ernesto Laclau, o comunismo deve ser
tomado, especialmente numa configuração de crise política, como sendo um significante
flutuante6, cujo sentido/significado que vai defini-lo ou tornar-se hegemônico em uma
determinada configuração social, encontra-se em disputa com outras definições,
formuladas por agentes sociais que ocupam posições antagônicas às ocupadas por aqueles
que formularam a definição que veio a se tornar hegemônica.
Não descartamos o uso da ideia de um anticomunismo, ou melhor, de
anticomunismos, forjados dentro dos diversos quadros históricos e sociais vividos pelo
país. Pretendemos apenas situar-nos, como ponto de partida para a análise, desde uma
posição que nos possibilite enxergar que existia uma pluralidade de enunciados sobre o
comunismo, e que nem todos visavam apresentá-lo como um fenômeno deletério dos
valores sociais vigentes e, portanto, negativo ao país.
Mesmo que nossa abordagem se limite ao discurso da imprensa, que visava,
todavia, em sua quase totalidade, impor um sentido negativo para o comunismo, não
devemos esquecer que se produziu também um discurso cujo objetivo era difundir uma
imagem positiva do mesmo. Em determinado momento, é possível encontrar mesmo na
6
LACLAU, Ernesto. Reflexões sobre a Revolução de nosso Tempo. s/Ed,1990.

10
imprensa de São Luís, às vezes dentro de um mesmo veículo, a tensão própria desse espaço
de concorrências entre diferentes perspectivas do comunismo ou do bolchevismo, como se
passou a designar mais precisamente a experiência particular da Rússia. A visão
hegemônica que se vai configurar acerca do chamado comunismo soviético é o resultado
de uma luta pela constituição da imagem legítima, a que seria o “verdadeiro retrato” da
realidade vivida pelo povo russo sob o regime comunista. Mas esta visão que conseguiu se
impor como verdadeira não foi a única que se produziu. Nos jornais estudados é possível
vislumbrar um pouco esse espaço de tensão e disputa de ideias na discussão, por exemplo,
sobre qual seria o melhor regime político, econômico e social para o Brasil. Ou ainda nas
posições críticas assumidas por certos jornalistas em relação ao integralismo, como se deu
especialmente no jornal Tribuna à época da existência legal da ANL.
A postura do cientista social não é assumir uma posição, mas procurar
compreender os posicionamentos e visões de mundo presentes nos diversos discursos
analisados, como já alertava Weber, tratando justamente do caso de uma possível agenda
de pesquisa que a sociologia poderia formular para o estudo da imprensa (WEBER, 2002,
p.187).
Compreendemos que o discurso sobre o comunismo e o comunista produzido
pelos jornais da época foi um importante elemento para que se plasmasse, com o auxílio de
outros sujeitos e instituições sociais, a identidade desses dois referentes (comunismo e
comunista). Uma identidade que se torna, pela força da imprensa enquanto instituição
capaz de fazer ver e existir aquilo de que trata, a única identidade possível.
Uma ferramenta teórica importante em nossa abordagem do discurso
jornalístico enquanto um elemento que contribuiu para a elaboração de representações
acerca do comunismo e do comunista é a noção de representações sociais, tal como foi
elaborada, ou melhor, re-elaborada por Roger Chartier (1990). Sua conceituação das
representações sociais foi bastante influenciada pela sociologia reflexiva de Pierre
Bourdieu, e principalmente por Marcel Mauss e Durkheim (CARVALHO, 2005), e busca
compreender as práticas e representações sociais, bem como as “estratégias que
determinam posições e relações e que atribuem a cada classe, grupo ou meio um ‘ser-
apreendido’ constitutivo da sua identidade” (CHARTIER, 1990, p.23). Essa imposição ou
determinação do “ser apreendido” (ou da identidade social) ocorre, e pode ser percebida,
através dos discursos que classificam e delimitam papéis sociais.
Como sabemos, o conceito de representações sociais foi formulado por Émile

11
Durkheim (2003), e buscava, dentro de um contexto específico de disputa com outras
ciências, delimitar um espaço legítimo de atuação para a sociologia. Ao diferenciar
representações coletivas de representações individuais, Durkheim fundou a sociologia
enquanto área do conhecimento, porque lhe atribuía um objeto especifico de estudo, as
representações coletivas. Juntamente com Marcel Mauss, ele pensou as representações
articuladas às relações sociais concretas, não como algo pairando abstratamente sobre as
cabeças dos indivíduos. Nas palavras de Mauss: “mesmo as representações coletivas mais
elevadas só têm uma existência, isto é, só o são verdadeiramente a partir do momento em
que comandam atos” (apud CHARTIER, 1990, p.18).
É nessa linha que esses clássicos da sociologia são recuperados por Roger
Chartier, quando estabelece que o conceito de representação ocupa um lugar central no seu
programa de pesquisa de uma história cultural ou sociologia histórica, como ele próprio
nomeia sua agenda de trabalho. Chartier entende que a pertinência operatória desse
conceito se dá na medida em que torna possível articular três modalidades da relação com
o mundo social: 1) os processos de classificação, divisão e delimitação que organizam a
apreensão do mundo social; 2) as práticas que objetivam tornar conhecida uma
determinada identidade social; e 3) as formas objetivadas ou institucionalizadas que
“representam” determinado grupo ou classe social.
Como se pode ver, essa formulação é tributária das concepções de Pierre
Bourdieu. Assim, seguindo seu desenho conceptual, as representações são pensadas dentro
de um espaço de disputas ou campo de concorrências, onde diversos agentes buscam impor
uma visão legítima acerca do mundo social, bem como determinar o seu lugar e o lugar do
outro nesse mundo.
As representações sobre o comunismo lhe atribuem um sentido definido,
constituindo, assim, seu “ser-apreendido”, sua “identidade”. Todavia, essa construção de
identidade ocorre dentro de um espaço de lutas onde diferentes agentes atuam visando
determinar essa identidade (BOURDIEU, 2004a).
Existe uma relação indissociável entre representações sociais e a constituição
de uma identidade social, pública, que se processa num campo de disputas entre agentes
(indivíduos, grupos sociais ou instituições) que pretendem impor os princípios de visão e
divisão legítima do mundo social. O entendimento adequado dessa relação passa pela
superação da oposição entre representações e realidade, uma vez que as representações
fazem parte da realidade, elas existem efetivamente, seja sob a forma de “atos de

12
percepção e apreciação, de conhecimento e reconhecimento em que os agentes investem os
seus interesses e os seus pressupostos”, seja através de objetos (emblemas, bandeiras,
insígnias, etc.) e das “estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em vista
determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus
portadores” (BOURDIEU, 2004, p.112).
Existe, portanto, uma luta pelo poder de instituir a verdade das coisas e dos
grupos sociais através de sistemas simbólicos de classificação que determinam, por
exemplo, quem é incluído e quem é excluído de determinado grupo social, aqueles que
devem ser considerados “patriotas”, “bons brasileiros” ou, pelo contrário, “impatrióticos”,
“maus brasileiros”, enfim, “inimigos” da “Nação”.
Desse modo, a identidade é sempre relacional, na medida em que é produzida
enquanto marcador da diferença em relação a um exterior. Tanto comunistas quanto
anticomunistas buscam construir uma visão legítima acerca do que seria o comunismo,
pois através das classificações, delimitações e exclusões que operam em seus discursos e
práticas a realidade é contraditoriamente construída e dada a ler. No nosso caso a ênfase
será dada ao discurso jornalístico apreendido enquanto constituindo uma unidade
discursiva acerca do comunismo7. Ao mesmo tempo, partimos da ideia que o discurso
produz o objeto de que trata. Como isso se dá no caso da ideia de comunismo é o que
buscamos compreender melhor.
Não se trata de reconstituir a história do comunismo em si, reclamando uma
voz de verdade sobre os seus princípios e objetivos, ou, utilizando alguns pressupostos
teóricos de Foucault, não se trata de fazer uma história do referente, mas de tentar
compreender como se processou a construção de um objeto dentro de uma dada unidade
discursiva (FOUCAULT, 2007, p.53). Como afirma na Arqueologia do saber, a agenda do
programa arqueológico busca tomar os discursos não como
conjuntos de signos (...), mas como práticas que formam sistematicamente os
objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que
fazem é mais que utilizar esses signos para designar certas coisas. É esse mais
que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever.
(FOUCAULT, 2007, p.55. Grifo nosso)

Em nossa apropriação do texto foucaultiano, visando analisar o discurso da


imprensa sobre o comunismo, entendemos que esse mais, dentre outras coisas, pode ser

7
“Os enunciados, diferentes em sua forma, dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a
um único e mesmo objeto” (FOUCAULT, 2007, p.36).

13
entendido enquanto processo que contribui para formar uma imagem do que seja o
comunismo e os comunistas. E não só isso, pois o discurso veiculado pelos jornais,
pautado na estratégia da estereotipização, cria também uma visibilidade e uma dizibilidade,
ou seja, ele permite ver e dizer o objeto de que fala (ALBUQUERQUE, 2006, p.36).
Através das imagens e enunciados clichês que os jornais põem em funcionamento dentro
dessa maquinaria imagético-discursiva, produz-se um significado específico para o
comunismo/comunista. Nesse sentido, eles são efeitos de verdade produzidos pelo
discurso. O que queremos saber é como isso se deu, ou melhor, quais as condições de
possibilidade8 desse discurso. Seria possível identificar as estratégias discursivas que
possibilitaram construir esse objeto específico, singular, que é o comunismo enquanto
regime da anarquia, da barbárie, que destrói os valores nacionais, que não respeita a
propriedade?
O discurso é entendido aqui enquanto prática cultural que se trama na teia de
relações sociais, mas que ao mesmo tempo tem o poder de instituir o real. Segundo Michel
Foucault, o discurso tem regras próprias de aparecimento, condições específicas de
apropriação e utilização, e que se apresenta desde o início (“e não simplesmente em suas
‘aplicações práticas’”) perpassado pela questão do poder. Sendo, portanto, objeto de uma
disputa política, o discurso é, ao mesmo tempo, constituinte da trama social. (FOUCAULT,
2007, p.136-137).
Ernesto Laclau, refletindo acerca da dimensão política da existência social,
destaca que o investimento de sentido que constitui o ser dos objetos se dá dentro de um
sistema de relações marcado por um antagonismo radical. Desse modo, o resultado dessa
luta pela constituição de identidades sociais e políticas não pode ser pré-determinado, pois
estamos num campo de identidades relacionais. O que significa dizer que a identidade “não
seria o que é fora da relação com a força que a antagoniza”, sendo esta força “parte das
condições de existência dessa identidade” (LACLAU, 1990, p.18). Daí a noção de um
“exterior constitutivo”, imprescindível nessa relação de constituição de identidades. Ou
seja, na medida em me diferencio do outro, do que é exterior a mim e ao meu grupo, eu
busco elaborar minha identidade numa relação em que, ao mesmo tempo, estabeleço uma

8
Entendido, segundo Foucault (1992, pp.10-11), como espaço de ordem a partir do qual são “possíveis
conhecimentos e teorias”, irrompem “idéias, constituem-se ciências, formam-se racionalidades”. O conceito
foi originalmente formulado para análise do processo de constituição da positividade histórica, ou solo
epistemólogico, das chamadas ciências humanas, projeto levado a cabo na obra As palavras e as coisas –
arqueologia das ciências humanas.

14
identidade para o outro.
Tanto os comunistas quanto os não-comunistas são compreendidos enquanto
produtores de um discurso sobre o comunismo; emitem enunciados, formulam conceitos,
lançam mão de estratégias enunciativas que visam definir o que seja o comunismo, e assim
impor uma visão “verdadeira”, reconhecida socialmente como legítima. Portanto, “fala-se”
em comunismo de diferentes maneiras: segundo a concepção dos “católicos”,
“integralistas”, “liberais”, etc. Poderíamos mesmo nos perguntar, se para cada um desses
grupos a visão que têm do comunismo é una, homogênea, sem nuanças. Será que dentro do
que convencionalmente identificamos como Igreja Católica existe uma única concepção,
responsável pela produção dos mesmos enunciados acerca do comunismo? A igreja dos
anos 1920/1930 é a mesma dos anos 1960/1970? Como é possível surgir de dentro de uma
mesma instituição diferentes formulações para um mesmo objeto? É preciso se perguntar
quais as condições sociais específicas em que se elabora um determinado discurso.
A análise arqueológica deve dar conta de como se instaura certo discurso,
quais suas condições de emergência. Tal análise deve fazer aparecer também os “domínios
não discursivos” a que remetem e nas quais tomam corpo os enunciados. São as
instituições, os acontecimentos políticos, os processos econômicos e culturais
(FOUCAULT, 2007, p.182-183). Essa questão das práticas é um aspecto imprescindível da
metodologia de pesquisa proposta por Foucault, que enfatiza a necessidade de se descrever
os enunciados em sua materialidade, sem tentar interpretar ou mesmo revelar significados
ocultos à superfície dos mesmos. O enunciado, ou o conjunto dos enunciados, é um
fenômeno inscrito na história, nas relações materiais, na vida social, devendo ser procurado
nesse nível concreto da sua existência. Sendo o enunciado, ao mesmo tempo, não oculto e
não visível, a análise enunciativa só pode se referir a

performances verbais realizadas, já que as analisa no nível de sua existência:


descrição das coisas ditas precisamente porque foram ditas. A análise enunciativa
é, pois, uma análise histórica, mas que se mantém fora de qualquer interpretação:
às coisas ditas, não pergunta o que escondem, o que nelas estava dito e o não-dito
que involuntariamente recobrem, a abundância de pensamentos, imagens ou
fantasmas que as habitam; mas, ao contrário, de que modo existem, o que
significa para elas o fato de se terem manifestado, de terem deixado rastros e,
talvez, de permanecerem para uma reutilização eventual (...). (FOUCAULT,
2007, p.124).

15
Os enunciados sobre o ser do comunismo/comunista são formulados em
contextos históricos específicos por agentes sociais determinados, mas também são
acionados “eventualmente” por outros agentes nesse mesmo contexto ou no decorrer do
processo histórico, passando por reatualizações e ressignificações. Por isso dizemos que os
enunciados sobre comunismo/comunista constituem um arquivo de textos e imagens que
“permanece para reutilização eventual” (FOUCAULT, 2007, p.124).
O êxito de um determinado enunciado, ao qual Bourdieu denomina, a partir
dos filósofos da linguagem, de “enunciado performativo”, se deve ao preenchimento das
condições sociais de adequação entre o locutor e o discurso que pronuncia. É preciso que o
primeiro disponha do poder necessário para emitir determinado discurso, em outras
palavras, o sujeito do discurso precisa deter autoridade reconhecida, pois de outro modo
seu discurso estará condenado ao fracasso (BOURDIEU, 1996, p.89).
Do mesmo modo Foucault afirma que o discurso está perpassado por certos
procedimentos de exclusão, dentre os quais a interdição:

Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de
tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de
qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou
exclusivo do sujeito que fala.
(FOUCAULT, 2008, p.9)

Delimitamos, para efeito de análise, dois grupos ou pólos de onde emanam


enunciados acerca do comunismo. De um lado, os detratores, aqueles interessados em
impor uma imagem negativa, caracterizando os comunistas como “materialistas”, “ateus”,
“violentos”, “desumanos”. De outro, os fomentadores de uma visão marcada pelo seu
engrandecimento, que se pautaria pelos princípios da solidariedade, igualdade e pela defesa
do bem-comum, buscando ainda libertar a humanidade da exploração, etc. A produção da
ameaça comunista, real ou não, era obra das instituições sociais (como a imprensa e a
Igreja Católica) e também do Estado autoritário que marcou quase toda a década de 1930.
Desse modo, uma característica da noção de representações sociais que
buscamos enfatizar é justamente a ideia de elas são sempre determinadas pelos interesses
de grupo que as formulam, implicando num “necessário relacionamento dos discursos
proferidos com a posição de quem os utiliza” (CHARTIER, 1990, p.17). Daí considerar

16
que as representações são matrizes de discursos e práticas diferenciadas. Por isso, devemos
compreendê-las de um modo particular e historicamente determinado, pois elas não
existem num continuum ahistórico. Chartier faz questão de destacar a descontinuidade
fundamental das formações sociais e culturais, e, por conseguinte, das próprias
representações sociais.
Assim, por exemplo, nas conjunturas políticas em que experimentou a
liberdade de atuação, o PCB buscou dissociar sua imagem do ateísmo, com o objetivo de
diminuir a resistência junto ao eleitorado católico. E mesmo nos períodos de ilegalidade o
PCB formulou e buscou implementar, através dos movimentos ou organizações políticas
que controlava, um conjunto de princípios políticos que pregavam a reunião de todas as
forças políticas, e também de todo cidadão brasileiro, contrários ao imperialismo, ao
latifúndio, ao fascismo e em defesa da Pátria. As chamadas frentes políticas ilustram bem
esse aspecto da tentativa de reverter o processo de depreciação ou mesmo exclusão através
do descrédito imposto aos comunistas.
No Maranhão foram fundadas organizações com esse caráter, a exemplo da
VAF (Vanguarda Anti- Fascista) e da FUP (Frente Única Proletária). Tanto comunistas
quanto anticomunistas demonstravam assim certo domínio do espaço das tomadas de
posição em uma situação determinada do campo político. “Concretamente, a produção de
tomadas de posição depende do sistema das tomadas de posição propostas em concorrência
pelo conjunto dos partidos antagonistas” (BOURDIEU, 2004, p.178). Portanto, toda ação
ou tomada de posição no jogo só tem sentido se pensada relacionalmente; existe uma força
que se exerce sobre os agentes e que provém do próprio espaço de concorrência em que
lutam pela preferência dos consumidores. A isto Bourdieu chama de um “sistema de
desvios”:
O campo, no seu conjunto, define-se como um sistema de desvios de níveis
diferentes e nada, nem nas instituições ou nos agentes, nem nos actos ou nos
discursos que eles produzem, tem sentido senão relacionalmente, por meio do
jogo das oposições e das distinções (BOURDIEU, 2004, p.179).

Afirmar a existência de uma propaganda comunista, que estaria fomentando o


crescimento e a penetração dos seus princípios políticos em diversas instituições da
sociedade brasileira é o que justifica e pauta a ação dos grupos sociais que assumem a
bandeira de uma “união sagrada”9 contra o “inimigo comum”(o comunismo).
Tal apelo em defesa da união de forças contra a ameaça comunista tornou-se

9
Expressão usada por Assis Chateaubriand, proprietário da rede nacional de jornais, Os Diários Associados.

17
recorrente na imprensa de São Luís, constituindo uma clara manifestação da solidariedade
profunda que marca a relação entre aqueles que possuem o monopólio ou o “privilégio de
investir no jogo político” 10.
Estas tomadas de posição de políticos ou de jornalistas políticos, como a
campanha anticomunista empreendida pelo Pe. Astolfo Serra através da imprensa e ainda
em organizações políticas como a O.R.D.E.M (Organização de Resistência Democrática ao
Extremismo no Maranhão), visavam, além de defender a manutenção do jogo político
numa conjuntura de crise e de questionamentos não só do governo central, preservando o
jogo (revolução constitucionalista) mas também do próprio regime em vigor no país
(insurreição comunista de novembro de 1935).
Segundo Chartier, a categoria representações coletivas aponta para a
incorporação, pelo indivíduo, do mundo social a partir de sua própria posição dentro deste
mundo. Este é basicamente o modo de operação do conceito de habitus de Bourdieu, onde
as categorias mentais ou esquemas de percepção são o resultado da incorporação das
divisões do mundo social que definem para cada indivíduo a maneira de classificar, falar
ou atuar.
O estudo das representações religiosas em Durkheim está ligado a um esquema
mais amplo de compreensão dessas lógicas culturais de classificação simbólica que
organizam a vida social, não apenas nas sociedades “simples”, mas também nas sociedades
industriais modernas.
Procurando elementos que pudessem dar sustentação à escolha da imprensa
como registro principal para a elaboração de uma pesquisa sociológica chegamos até um
texto de Max Weber (2002) intitulado “Sociologia da imprensa: um programa de
pesquisa”. Trata-se de uma palestra, pronunciada em 1910, em que se justifica a
importância desse empreendimento, buscando demarcar alguns procedimentos para sua
realização. Um postulado-chave para a construção de uma análise objetiva da imprensa
seria buscar apreender os posicionamentos e visões de mundo presentes nas páginas dos
jornais. “Apenas isso11, por certo, e não uma tomada de posição, seria nossa tarefa.”
(WEBER, 2002, p.187).
10
Nas palavras de Bourdieu, “esta solidariedade de todos os iniciados, ligados entre si pela mesma adesão
fundamental ao jogo e às coisas que estão em jogo, (…) pelo mesmo investimento fundamental no jogo de
que eles têm o monopólio e que precisam perpetuar para assegurarem a rentabilidade dos seus investimentos,
não se manifesta nunca de modo tão claro como quando o jogo chega a ser ameaçado enquanto tal”
(BOURDIEU, 2004, pp.172-173).
11
Grifos do autor.

18
Os jornais constituem uma importante fonte de consulta para uma pesquisa
histórica que pretenda compreender um determinado contexto, o qual se entende como
possível solo12 que permitiu a emergência de certos discursos. A pesquisa que tem por base
a imprensa descortina ainda a possibilidade de visualizar as diferentes relações sociais que
compõem uma determinada conjuntura no espaço-tempo e perceber as suas transformações
históricas. Ao tomar conhecimento dos “contatos dos jornais com os partidos”, das suas
ligações com “o mundo dos negócios, com todos os inumeráveis grupos e pessoas que
influem na vida pública e são influenciados por ela” abre-se diante do pesquisador um
“campo impressionante para a investigação sociológica” (WEBER, 2002, p.187). É
comungando dessa percepção acerca do potencial sociológico da análise da imprensa que
procuramos descortinar essa teia de relações na qual se enredam os jornais, mas que é
também construída por eles. O referido texto de Weber nos serviu como esteio teórico e
metodológico da pesquisa, permitindo explorar diversas possibilidades na análise desse
tipo de fonte.
Além dos jornais citados, os quais pertenciam às principais facções políticas
em atuação na cena política maranhense, compõem ainda o nosso corpus documental
alguns jornais que tiveram vida curta e/ou poucos exemplares editados dentro do nosso
recorte cronológico, mas que tiveram certa importância na época. São eles o Diário do
Norte, dirigido por Antonio Lopes13 e Notícias, dirigido pelo Padre e ex-interventor Astolfo
Serra. O Diário do Norte é fundado em abril de 1937, às vésperas, portanto, do golpe do
Estado Novo; Notícias foi lançado em março de 1932 por Astolfo Serra, logo após sua
saída do posto de Interventor do Estado do Maranhão. E conseguiu se manter por pouco
mais de dois anos, pois em junho de 1934 deixou de ser produzido.
Consultamos, ainda, alguns veículos de tiragens semanais ou mesmo mensais,
mas que também participaram do referido processo de produção e reprodução de ideias e
juízos sobre o comunismo, tais como: O Integralista, O Legionário e Maranhão. Estes dois
últimos são jornais católicos. O jornal O Integralista, como o nome já indica era produzido
pela Ação Integralista Brasileira – AIB – Seção do Maranhão. Desses, foi possível perceber
12
Ver nota 7.
13
Advogado, professor de Filosofia do Direito na Faculdade de Direito e escritor, Antonio Lopes adquiriu
reconhecimento no meio intelectual maranhense nas décadas de 1930-1940. Fundou, em 1937, o jornal
Diário do Norte, folha que exerceu grande influência na mocidade intelectual de São Luís, pois acolhia
generosamente aos jovens poetas e escritores. Entre suas obras, destacamos as que mais se relacionam à
questão da educação: O ensino da Geografia nas escolas primárias, Relatório sobre a Educação Intelectual,
Noções sobre ensino obrigatório, A Instrução Escolar, A Instrução Publica Municipal de São Luis em 1919 –
trabalho apresentado no Congresso Pedagógico reunido em São Luís, em 1920.

19
que pelo menos O Legionário teve circulação por outras cidades do Maranhão. Este jornal
era órgão criado pela “União de Moços Católicos” da cidade de São Bento, região da
Baixada Maranhense. Foi fundado em 1935, mas circulou por outras cidades do Maranhão
e nos serve para balizarmos o quanto estava disseminado o discurso anticomunista católico
em terras timbiras.
Assim, nos interessa compreender as estratégias discursivas elaboradas pelos
jornais e ainda o conjunto de referências simbólicas que é mobilizado visando facilitar a
transmissão de um sentimento anticomunista. Convém também caracterizar as
heterogeneidades do discurso anticomunista na imprensa ludovicense, levando em
consideração que os jornais em circulação naquele período eram a expressão das disputas
que se davam entre as facções políticas, visando consolidar ou alcançar a posição de
mando na cena política local. Sendo uma imprensa faccionalista, ela buscava defender os
interesses da facção política que representava. Dessa forma, os jornais vão manipular de
diferentes maneiras o discurso sobre o comunista/comunismo, muitas vezes acusando os
adversários de “extremistas”, palavra que era usada para designar todos aqueles que
visavam perturbar a ordem pública, notadamente os comunistas.
A estrutura do trabalho foi pensada da seguinte forma: primeiro, uma
introdução contendo breve apresentação da temática, onde aproveitamos para tratar muito
sumariamente, de alguns trabalhos acadêmicos que tratam da questão do anticomunismo.
Os procedimentos teórico-metodológicos empregados na construção do objeto também
estão nessa parte.
No primeiro capítulo tentamos compor um quadro sócio-histórico da cidade de
São Luís, buscando situar o tipo de configuração social em que se desenrola o processo
específico analisado. Empreendemos uma pequena digressão econômica e histórica com o
intuito de situar melhor o leitor no espaço de disputa entre as diferentes facções políticas e
como isso está diretamente ligado a alguns usos específicos do espectro comunista.
O segundo capítulo é onde tentamos analisar cada um dos jornais, identificando
as estratégias discursivas utilizadas no modo como apresentam a questão do comunismo,
onde ganha corpo o sentido hegemônico de que ele representaria uma ameaça à ordem
social.
No terceiro e último capítulo destacamos os principais elementos do discurso
jornalístico que nos permitirão compor um argumento acerca das possíveis regularidades
discursivas. O qual é formulado na conclusão do trabalho, onde defendemos que a ênfase

20
atribuída pelos jornais à dimensão da prova, da objetividade, recorrendo muitas vezes ao
argumento da ciência, nos leva a concluir que o princípio de unidade desse discurso se
encontra na mobilização de uma fala autorizada, onde a imprensa se atribui a capacidade
ou o poder de “revelar” ou “retratar” a realidade. Portanto, o discurso jornalístico se
colocará perante o público leitor, no que diz respeito ao tema comunismo/comunista, como
um intérprete do que seria a verdadeira realidade desse sistema ou regime político,
constituindo, através das representações que são forjadas e difundidas, mas também
simplesmente reproduzidas, pela própria imprensa, uma identidade para esses referentes.

2. A SÃO LUÍS DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX

21
No período que vai do final do século XIX até as primeiras décadas do XX é
possível identificar, no Estado do Maranhão, mas cujo foco foi sua capital, São Luís, uma
tentativa de implementar alguns elementos do modelo de modernização urbana, fenômeno
que outras capitais brasileiras vinham empreendendo mais ou menos no mesmo período.
Procuravam seguir o estilo das principais capitais da Europa, Paris notadamente. As
condições objetivas, no entanto, impediam grandes obras.
Não foi por outra razão que São Luis deixou de realizar um “bota abaixo” nos
moldes do que experimentou a então capital da República. Desse modo evitou-se a
destruição dos já velhos prédios do centro da cidade (PESAVENTO, 1999) 14. Digamos que
se tratou de uma tentativa de não perder de todo o compasso da história, modernizando o
que dava pra modernizar. O mais importante era não parecer que estava atrasada em
relação àquelas inovações e avanços da modernidade, visto que a vontade de distinguir-se
das outras capitais brasileiras sempre impulsionou a alta sociedade de São Luís a estar
sempre “atualizada” com o que de mais moderno existia no mundo, segundo ela própria
acreditava, em especial em matéria de moda e cultura (literatura e teatro, notoriamente).
Isto a levava a patrocinar a vinda de companhias de teatro e ópera estrangeiras
para se apresentar em São Luís; importar as modas parisienses; bem como as obras
literárias e científicas (francesas) mais recentes. As idas ao teatro e a leitura dessas obras
eram uma forma de assegurar a existência de uma suposta ligação entre a sociedade
ludovicense e a cultura francesa.
Com efeito, isso fazia parte da estratégia de construção de uma imagem de
cidade singular, diferenciada das outras capitais brasileiras. Os encontros sociais (saraus,
teatro, etc.) que a própria elite fazia questão de manter seriam formas de alimentar aquele
sentimento de superioridade cultural, que recrudesceu nos momentos de crise da economia
do estado, como foi o caso no final do século XIX e início do XX, época em que se gestou
o mito de cidade fundada pelos franceses15.
O que está diretamente ligado ao processo de elaboração de “uma certa
maneira de pensar”que se verificou nas primeiras décadas do século XIX e que se
caracterizou por transformar o problema da decadência da lavoura num tema obrigatório

14
Falar em “apropriação do modelo haussmaniano” em São Luís soaria bastante exagerado. Isto teria
acontecido em algumas cidades brasileiras, mas em decorrência de uma situação histórica que propiciou
transformações daquela envergadura, caso de São Paulo e Rio de Janeiro, centros econômicos dinâmicos. Cf:
PESAVENTO, 1999.
15
Ver: LACROIX, 2002.

22
para se pensar a história do Maranhão. Este pensamento de escola forneceu os esquemas
explicativos para todos os intérpretes que daí em diante se debruçaram sobre as questões
econômicas e sociais da província. “O padrão de explicação” articulado no começo do
século XIX “instituiu, assim, uma modalidade tida como legítima para se pensar o
Maranhão transcendendo o tempo em que foi elaborado e se mantendo
contemporaneamente nos meandros do pensamento erudito a nível regional.” (ALMEIDA,
2008, p.58)16.

2.1. A (quase-eterna) crise


As clássicas interpretações historiográficas sobre o quadro sócio-econômico
vivido pelo Maranhão nas décadas de 1920 e 1930 encontram as razões para a crise desse
período nos eventos que marcaram a derrocada do regime Imperial, ou seja, a Abolição da
Escravidão e a Proclamação da República. Segundo Jerônimo Viveiros, a primeira
“desorganizou o trabalho agrícola”, e a segunda trouxe “novas obrigações para o Estado”,
não se preocupando com a situação das classes produtoras (VIVEIROS, 1992, pp.1 e 2).
Essa visão, além de elitista, porque vê a história apenas do ponto de vista dos
proprietários rurais, que constituíam a elite econômica e política, padece também de uma
melhor fundamentação científica, que a liberte dessa camisa de força que a faz reproduzir,
ad infinitum, as interpretações formuladas pelos patronos da historiografia maranhense
(ALMEIDA, 2008).
De fato, o Maranhão encontrava-se diante de uma forte crise econômica,
todavia, as razões desta não estavam apenas naqueles dois acontecimentos que puseram
fim ao regime monárquico escravista. Como ensina Fernand Braudel, é preciso mergulhar
no mar da história, ultrapassando as espumas dos simples acontecimentos. Não se trata de
fazer ou pretender fazer, em outro sentido, a reconstituição de todo o processo histórico de
formação do Maranhão, recorrendo à “lógica mítica das origens e do primeiro começo”
(BOURDIEU, 2004, p.78). O que nos obrigaria a retornar, como de costume, ao
consagrado marco zero da história econômica do Estado, a implantação da Companhia
Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão no ano de 1755.

16
Para um melhor entendimento dos fundamentos ideológicos dessa produção intelectual ver: Almeida,
Alfredo W. Berno de. A ideologia da decadência: leitura antropológica a uma história da agricultura do
Maranhão. Rio de Janeiro: Casa 8/ Fundação Universidade do Amazonas, 2008.

23
Com efeito, desde as últimas décadas do século XIX que o Maranhão vinha
experimentando uma queda acentuada nos preços dos seus principais produtos agrícolas,
então o açúcar e o arroz. Este último o carro-chefe da economia. De acordo com Flávio
Reis (2007, p.35), o declínio dos preços destes dois produtos “durante toda a segunda
metade do século XIX” agravou a escassez de capital monetário no setor rural, que já
existia. “O setor mercantil comandava toda a estrutura de comercialização externa” e,
também, o “financiamento da produção” (idem, p.35).
Portanto, as causas da forte crise enfrentada pela economia maranhense na
passagem do século XIX para o século XX devem ser buscadas nas próprias características
da sua formação econômica, condicionante e condicionada pelo perfil social e cultural,
como notou Bandeira Tribuzi (1981). Segundo este economista, o modelo da economia
apresentava algumas características dominantes, que teriam marcado todo século XIX.
Tratava-se de um modelo que, nas suas palavras:

[...] acumulava fortemente a renda; não criava infra-estrutura; impedia a elevação


da tecnologia da produção e a formação de um mercado interno significativo;
condicionava o processo produtivo ao mercado externo (com a conseqüente
propensão à monocultura), cujas exigências qualificativas não sabia, contudo,
enfrentar; flutuava em ondas de prosperidade e depressão à mercê das
conjunturas externas. (TRIBUZI, 1981, p. 24)

O caso do algodão, por exemplo. Considerando-se o total das exportações


desse produto pelo país entre os anos 1850 e 1880, a participação do Maranhão passou de
30% para 17% (REIS, 2007, p.32), ou seja, caiu pela metade. Mesmo levando em conta o
boom dos anos 1860, quando, devido à guerra civil, os Estado Unidos deixaram de
fornecer algodão às indústrias da Europa.
Outro fenômeno importante no cenário econômico do Maranhão nesse
momento de transição, importante também para compreender, mais a frente, as
movimentações das organizações políticas como a ANL e AIB, foi o processo de
constituição de uma indústria têxtil no bojo da crise do sistema agro-exportador.
Dentro da evolução dos sistemas primário-exportadores, a diversificação do
capital mercantil em atividades do setor de serviços e na formação de indústria leve de
consumo não constitui novidade (REIS, 2007, p.38). Não devemos, portanto, indagar-nos
por que surgiu uma indústria têxtil, mas sim por que os investimentos neste setor se deram
de maneira tão precipitada, considerando-se que, num espaço de cinco anos (entre 1890 e

24
1895) 14 fábricas foram inauguradas em todo o Estado, mobilizando recursos da ordem de
dez mil contos e mais ou menos três mil operários (CALDEIRA, 1988: apud REIS, p.38).
Segundo análise de Flávio Reis, as razoes dessa “brusca aceleração dos investimentos”
encontram-se em três condicionantes, que assim sintetizamos: a) possibilidade de encontrar
taxa de lucratividade maior e mais segura do que o setor açucareiro, abalado por incertezas
quanto à sua capacidade de manutenção; b) as mudanças na política econômica
(Encilhamento) facilitaram a reunião de capital; c) a probabilidade de alcançar os mercados
do Norte/ Nordeste.
Sempre dependendo de alguma circunstância externa que permitisse um novo
surto econômico, o Maranhão do século XX passou a viver do passado. Escrevendo nesse
período, e deixando transparecer certo saudosismo dos míticos tempos áureos, Fran
Paxeco17 afirmava que no passado o Maranhão havia alcançado um inquestionável
predomínio em duas áreas, na agricultura e nas letras. Porém, o tempo passara e agora se
vivia um “declínio” tanto das “tradições agrícolas’’ quanto das “tradições literárias”:

Eram dois predomínios que nenhuma zona brasileira lhe requestava, por que se
criou um tom uníssono em torno dessas verdades axiomáticas. Mas os anos
correram. [...] surgiram competições – e, tanto nos arrozais como nas letras,
escancarou-se o declínio, passou a viver-se da fama (Apud: VIVEIROS, 1992,
p.4).

Um editorial de Tribuna também se refere às condições decadentes do


Maranhão, afinal não era mais segredo para ninguém o “apoucamento a que chegamos nas
letras, na política e na administração”, tendo se tornado “assunto de toda roda”
(TRIBUNA,11/08/1935, p.01: "Ódio, inveja e paixões").
Para ilustrar a dependência econômica das conjunturas externas apontada por
Tribuzi, citemos um exemplo de como a economia maranhense “flutuava em ondas de
prosperidade e depressão”. Foi o caso do que se sucedeu quando da Primeira Guerra
mundial. As conseqüências desse conflito, para economia maranhense, foram animadoras:
experimentou-se o surto de 1917-25, quando os altos preços internacionais de alguns
17
Manuel Fran Paxeco (1874-1952) - Nasceu em Setúbal, Portugal. Foi cônsul de Portugal no Maranhão,
onde chegou em 1900. É um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e da Faculdade de
Direito de São Luís (1918), primeira instituição de ensino superior do Estado. Escreveu trabalhos sobre
literatura portuguesa e brasileira, além de obras sobre a história e a geografia do Maranhão. Retornou a
Portugal em 1935, onde faleceu. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Fran_Paxeco#Biografia (acessado
em 10/02/2010)
)

25
produtos (algodão, babaçu e tecidos) ajudaram a “reequilibrar as finanças empresariais e
públicas, vivendo o estado alguns anos de otimismo“ (TRIBUZI, 1981, p.26). Tendo
cessado os bons ventos da conjuntura externa que, todavia, não gerou modificações nas
bases da estrutura produtiva local, a economia do estado retornou à situação quase habitual
de crise, apresentando no período de 1925 a 1935 “taxas medíocres de expansão”
(TRIBUZI, 1981, p. 27).

2.2. Os serviços “públicos”: a segregação do espaço urbano em São Luís


E não se restringia a estes aspectos a situação de crise pela qual passava a
cidade. As condições de moradia de uma grande parcela da população eram precárias, já
que apenas uns poucos privilegiados tiveram acesso à implantação e/ou reforma realizadas
nos serviços públicos no final da década de 1920 que, mesmo assim, apresentavam muitas
deficiências18.
A São Luís da década de 1930 não mudara muito no que diz respeito a essa
questão da qualidade de vida. A sua população estimada em 70 mil habitantes, continuava
enfrentando sérias dificuldades e reivindicava, inclusive através da imprensa, medidas para
solucionar a proliferação de lixo pelas ruas, a falta de energia elétrica, etc 19. As
reclamações desse tipo geralmente tinham o apoio dos jornais, como no caso que se pedia
solução para o problema do lixo que se acumulava nas ruas da cidade:

RECLAMAÇOES POPULARES
Pedem os moradores da Praça Gomes de Sousa e adjacências attenção das
autoridades competentes para o fato de pessoas inescrupulosas virem fazendo
daquela praça deposito de lixo.
Por ser uma questão de higiene urbana, temos que providencias serão tomadas
com urgência. (O IMPARCIAL, 31/08/1935, p.5)

Mesmo que algumas reivindicações fossem encampadas pelos jornais esse


apoio compreendia certos limites, pois no momento em que os protestos populares
assumiam formas mais concretas, em atos que exigiam melhorias urgentes nos serviços
públicos básicos, eram logo considerados “actos condemnaveis”. Este é o título de uma
nota de Tribuna que relata as depredações sofridas pelos bondes da Ullen management
company, empresa estadunidense que tinha a concessão dos serviços de iluminação,
transportes e abastecimento de água da capital. (TRIBUNA, 21/08/1935, p.3).

18
Para uma análise detalhada da questão ver: PALHANO, 1988.
19
TRIBUNA, 13/07/1935. p.4: “A Camboa quer luz”.

26
É possível enxergar esse quadro a partir das indicações de Pierre Bourdieu
acerca do espaço social e de como as classes ou grupos sociais se impõem enquanto
segmentos reconhecidamente legítimos. Assim, as “relações de força objetivas” tenderiam
a reproduzir-se nas “relações de força simbólicas”, como parte das estratégias sociais de
reprodução dos próprios segmentos sociais (BOURDIEU, 2004, p.145). O que constitui a
força dos agentes são as diferentes espécies de capitais que os agentes possuem, elas
“definem as probabilidades de ganho num campo determinado” (idem, p.134).
Podemos pensar isso integrado ao processo de segregação sócio-espacial que se
observa na cidade quando das reformas e/ou implantações dos chamados equipamentos de
consumo coletivo. Têm-se assim um espaço de disputa social onde aqueles grupos que
possuem melhores trunfos (ou capitais) sociais (posição social, influência política, etc.)
tendem a ter maiores vantagens na distribuição dos ditos serviços públicos.

O fornecimento de água encanada jamais contemplou todos os citadinos, de


modo que pelo menos até 1928 a vendagem livre de água era ainda intensa na
capital, especialmente às camadas mais pobres, para as quais o serviço de
encanamento permaneceu inacessível. (CÂMARA, 2008, p.43)

Aqui também temos o fenômeno social que destacamos para outros serviços
públicos como transporte, coleta de lixo, luz, etc. Trata-se de uma segregação espacial que
é decorrência da diferenciação social que pautava a organização e estruturação da
sociedade ludovicense. Por outro lado, não devemos fazer crer que esses serviços
funcionassem a contento mesmo para aqueles poucos privilegiados que habitavam as áreas
servidas. A própria implantação de alguns daqueles equipamentos de consumo coletivo se
deu muito tardiamente, como foi o caso da coleta de esgoto, que somente nos anos de 1920
tornou-se realidade na capital maranhense. E mesmo depois de estabelecido, esse serviço,
assim como os outros, apresentava problemas vários, sendo freqüentes as reclamações e
denúncias nos principais jornais da cidade por parte dos moradores daquelas áreas
“nobres”, privilegiadas pelos “modernos” serviços públicos. E assim era com a coleta de
lixo, realizada de modo precário e ineficiente; com a iluminação pública, de fornecimento
intermitente, cujos funcionários encarregados simplesmente deixavam de acender os
combustores, condenando assim os moradores a reviverem as noites de breu dos anos
anteriores.
Até as décadas de 1920 e 1930, grande parte desses serviços de consumo

27
coletivo ainda padecia dos mesmos problemas e tendo a sua área de atendimento restrita à
parte central da cidade, deixando o restante da população excluída desses benefícios.
Tentemos uma descrição do espaço urbano comercial da cidade, que se
concentrava na região da Praia Grande, endereço das principais casas comerciais de São
Luís. A partir da leitura dos jornais da época é possível vislumbrar a realidade então vivida
naquelas primeiras décadas do século XX. Assim vejamos a seguinte matéria, publicada
em Tribuna:

Se olhamos para o comércio, estudando-lhe a atuação e desvendando-lhe o


movimento e vida, entristecemos, porque tudo nele denota a inatividade.
Quem desce a Praia Grande fica desolado com o aspecto acanhado que envolve
tudo, ali. Caixeirosinhos amarelos passam assoviando, mãos nos bolsos,
preguiçosos, parando nas esquinas, a pedir cigarros, e acendê-los e a fumá-los.
Patrões carecas, barrigudos, barba por fazer, pensando na duplicata a pagar ou a
receber, lá se vão a tomar assento num dos bancos do botequim, a beber café, a
falar dos “maus negócios”, e da vida alheia. (TRIBUNA, 14/09/1935, p.6:
Registro Diário)

A atmosfera dominante é apresentada como carregada de um marasmo e um


desânimo que parece brotar não apenas da crise econômico-financeira, mas dos próprios
indivíduos, que deviam movimentar a vida comercial da cidade. As pessoas são descritas
como sem força, pálidas sombras de antigas vidas fulgurantes que teriam construído a
dinâmica economia ludovicense em tempos de outrora. Suas características individuais são
apontadas como prova do declínio experimentado em todos os âmbitos da vida social de
São Luís em meados dos anos 1930. Tanto os empregados quanto os patrões são
apresentados como personagens desse triste cenário (“Patrões carecas, barrigudos, barba
por fazer, pensando na duplicata a pagar ou a receber”).
Em outro trecho desta mesma crônica encontramos subsídios para tratar de
outros elementos que compunham o conteúdo dos jogos sociais que efetivamente
concretizavam as interações e elos sociais, o que nos permitirá identificar traços da
sociabilidade urbana na configuração social ludovicense (SIMMEL, 2006).
O conceito de sociabilidade que utilizamos toma por base a formulação
operada por Georg Simmel (2006, p.60). Com efeito, para Simmel a sociabilidade é
resultado das interações e conexões sociais, cujos conteúdos motivacionais são os mais
variados, constituindo assim a forma social das estruturas em funcionamento. As interações
sociais que observamos a partir da referida crônica exprimem formas de apropriar-se do
espaço que estão fundadas em diversos conteúdos ou motivos da ação social.

28
O bairro da Praia Grande20 é descrito, primeiramente, como o lugar de trabalho,
mas a maneira de vivenciá-lo comporta também momentos de distração (“Caixeirosinhos
amarelos passam assoviando”; “a pedir cigarros, e acendê-los e a fumá-los”) e lazer (“lá
se vão a tomar assento num dos bancos do botequim, a beber café, a falar dos ‘maus
negócios’, e da vida alheia”). Portanto, o local de trabalho não é vivido exclusivamente
como tal, mas envolve diversas outras dimensões que concretizam efetivamente o social.
Visto que “os modos de vida são os veículos diretivos das interações sociais”, isso significa
que a sociabilidade é justamente a “resultante das condições inerentes e gestadas pelas
múltiplas combinações interacionais acionadas a partir dos indivíduos, por grupos e por
classes sociais, sintetizadas e cristalizadas na própria sociedade” (ALCÂNTARA JÚNIOR,
2005, p.33).
Nesse contexto de crise econômica, se apresentava, imbricada à questão
urbana, uma questão social, que tende a se intensificar no final dos anos 1920 e começo
dos anos 30, em especial devido a um crescimento de organizações e sindicatos de
trabalhadores que começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e moradia.
Essa incipiente mobilização dos trabalhadores ganhou força principalmente na cidade de
São Luís onde as facções políticas dissidentes, em particular aquela liderada por Marcelino
Machado, buscavam captar as reivindicações populares em seu discurso “anti-oligárquico”
questionando, através dos jornais oposicionistas, a legitimidade das facções dominantes.
Novos sindicatos de trabalhadores continuam sendo fundados na capital, a
exemplo do Sindicato dos Catraieiros (TRIBUNA, 26/04/1935, p.5), do Sindicato dos
Bancários do Maranhão, fundado no começo de abril de 1935 e noticiado por Tribuna em
1º de maio desse ano (TRIBUNA, 01/05/1935, p.4). Bem como os que já existiam
prosseguem suas atividades sindicais:

UNIÃO DOS CHAUFFERS DE S.LUIZ (Assembléa Geral)


Convoco os srs. socios, para uma reunião, em nossa séde, à rua 7 de setembro,
nº 208, hoje, às 20 horas, afim [sic] de tratar de assumptos de grande interesse
para a sociedade.
Espero o comparecimento de todos e agradeço.
Maranhão, 28 de maio de 1935
20
Desde o começo do século XIX até mais ou menos os 1940-1950, o bairro da Praia Grande constituiu-se
no centro da cidade, esse bairro era o endereço das principais firmas importadoras e exportadoras do
Estado. Nas suas praças e botecos as pessoas se reuniam para conversar, discutir, entre outros assuntos,
sobre negócios, literatura e, é claro, política. A existência desse grande centro de negócios, onde se
importava e exportava todo tipo de mercadorias, fez crescer em torno de si um conjunto de imponentes
sobrados. Foram construídos pelos comerciantes que se instalaram no local, e que devido suas origens
portuguesas, seguiram os parâmetros da arquitetura daquele país.

29
Vicente Serejo Dias
Presidente

Entendendo que o processo de produção dos discursos está diretamente


articulado a conjuntura política (LE BART, 1998, p.40), impõe-se esclarecer alguns pontos
referentes ao período analisado e, principalmente, situar no espaço das disputas políticas do
Maranhão da década de 1930 o que estamos chamando de imprensa ludovicense. Para uma
melhor compreensão das questões aqui abordadas, cumpre reconstruir alguns aspectos da
conjuntura política imediatamente anterior ao período analisado (1935-37), ou seja, o
quadro político geral instaurado pela revolução de 1930.

2.3. As facções políticas e seus veículos de comunicação.


No Maranhão, as disputas faccionistas ocorriam com certa intensidade quando
a Aliança Liberal tomou o poder na chamada Revolução de 1930. Nos primeiros anos
dessa década, contexto bastante conturbado politicamente, tem-se um afastamento
momentâneo das facções políticas que até então brigavam pelo controle do poder estadual
e a nomeação pelo governo central de interventores estaduais. Com o início do governo de
Getúlio Vargas, seguiu-se na maioria dos estados à derrubada dos governadores e ascensão
dos correligionários da Aliança Liberal. No Maranhão, as facções marcelinista e
tarquinista21, então na oposição ao governo do estado, haviam apoiado a candidatura de
Vargas na eleição de 1929, mas não quiseram se comprometer nas conspirações que
planejavam a tomada do poder no estado em outubro de 1930.
Apesar de declararem apoio ao novo governo, os marcelinistas não tiveram
acesso aos postos da administração estadual. Os primeiros interventores foram indicados
por ou com a aprovação de Perdigão, então bastante prestigiado junto a Juarez Távora, o
comandante da Revolução no Norte.
Esses primeiros interventores tentaram estabelecer uma ligação direta com
novos atores políticos, a exemplo dos sindicatos que então existiam na cidade. Com isso,
objetivavam isolar ou mesmo excluir as facções políticas tradicionalmente dominantes do
jogo político no estado. Decorreu daí uma forte oposição às interventorias, que mudam
constantemente de titular, gerando um quadro de instabilidade. Isso demonstra que a força
daquelas facções não terminara de imediato à mudança dos ocupantes dos postos

21
A facção tarquinista tinha como era liderada por Tarquínio Lopes Filho, médico, dissidente do
situacionismo magalhãesista.

30
dirigentes, persistindo sob formas diversas as relações de interdependência que
asseguravam a sua participação no jogo, que agora contava com novos jogadores, mas que
não deixava de se pautar pelas regras estabelecidas em um momento anterior.
Desse modo, a liderança do chamado movimento revolucionário ficou a cargo
do bacharel em direito e simpatizante do tenentismo José Maria dos Reis Perdigão.
Depois de ter participado da rebelião tenentista de 1924 em São Paulo, Reis
Perdigão, mesmo sendo civil, tornou-se o principal nome do tenentismo no Maranhão. A
partir de então ele passou a atuar na capital federal como jornalista, sempre mantendo
contato com seus aliados no Maranhão. Quando se iniciou a mobilização para destituir o
governo de Washington Luís e as chamadas oligarquias estaduais, ele se deslocou para São
Luís a fim de participar da conspiração que apearia do poder os chamados governos
oligárquicos. Acreditava, enquanto partidário do tenentismo, que esses dirigentes políticos,
ligados ao predomínio do latifúndio e à exploração estrangeira, eram os responsáveis pelos
graves problemas sociais que impediam o desenvolvimento do país. Vitorioso o golpe, que
no Maranhão ocorreu a 8 de outubro de 1930, antecedendo, portanto, a deposição do
Presidente Washington Luís, levada a termo em 24 do mesmo mês, Reis Perdigão liderou a
junta governativa provisória, formada por ele e dois militares. As facções marcelinista e
tarquinista, que haviam apoiado a candidatura derrotada de Getúlio Vargas, logo se
apressaram em proclamar o seu apoio ao novo governo estadual.

Reis Perdigão inicialmente privilegiou os marcelinistas na distribuição das


novas nomeações, provocando retraimento de Tarquínio Lopes Filho. Firme na
decisão de não aceitar o posto de interventor, preferindo figurar como eminência
parda do governo no cargo de secretário geral, Perdigão logo rompeu com os
partidários de Marcelino Machado quando soube da manobra em curso no Rio
de Janeiro para conseguir a indicação do ex-líder oposicionista para a
interventoria do Maranhão (REIS, 2007, pp.108-109).

O nome escolhido por Reis Perdigão e confirmado pelo governo central foi o
do Pe. Astolfo Serra, escolhido justamente porque não estava ligado a nenhuma das
chamadas correntes políticas oligárquicas. Mas este procurou o apoio da facção
marcelinista, ao mesmo tempo em que tentava cooptar os sindicatos de trabalhadores da
capital. Tentava assim viabilizar uma rede de apoio que pudesse garantir a sustentação do
seu governo, afastando-se ao mesmo tempo da forte influência de Reis Perdigão. Rompida
sua relação com este último e sofrendo uma forte campanha das facções oposicionistas, sua
situação se tornou insustentável como uma série de escândalos produzidos e publicados

31
pela imprensa de São Luís, cuja repercussão nos jornais da Capital da República foram a
gota d’água para sua exoneração, em agosto de 1931.
Dentre as várias acusações constava uma que dizia, ou melhor, comprovava,
segundo os jornais da época, que o Padre-interventor era comunista. A prova do fato estaria
na descoberta de um suposto filho, o que já seria um escândalo considerável, e que o
mesmo teria sido batizado, por desígnio do padre, sob o nome de Lenine22.
Podemos observar com mais clareza o quanto a imprensa estava se tornando
uma arma fundamental na disputa, conquista e sustentação do poder político no estado do
Maranhão, e de resto em todo o país. Com efeito, é interessante observar que não apenas os
antigos participantes do jogo político local, as facções que monopolizaram até 1930 esse
jogo, buscavam imprimir suas ideias ou discursos legitimadores através dos seus próprios
veículos de comunicação. Tanto Reis Perdigão quanto Astolfo Serra, as duas principais
personagens que surgem no espaço da política local imediatamente após o golpe de 1930
também vão fundar um órgão de imprensa com o objetivo de garantir, pelo menos, a sua
permanência nesse espaço de disputa. Já atuavam como jornalistas antes de passarem à
frente da direção política do Estado, e mesmo não conseguindo se manter no governo
durante muito tempo, em grande medida devido à pressão das facções que se
reorganizavam para recuperar seus antigos postos de mando, pressão essa que se dava
principalmente através da imprensa, ainda tentaram se manter em evidência no jogo
político mantendo cada um seu próprio jornal.
Até certo ponto podemos dizer que houve significativa proliferação de jornais
nesse contexto de instabilidade política experimentado pelo Maranhão na primeira metade
da década de 30. A maioria teve duração efêmera, mas mesmo assim demonstra que
começava a tomar forma um fenômeno que não era novo, mas que ganha contornos mais
definidos daí em diante, tornando-se cada vez mais freqüente na vida política brasileira.
Trata-se do que podemos chamar de afirmação institucional da imprensa, a qual mostrar-
se-á capaz de determinar temas, questões e problemáticas a serem debatidas pelos
profissionais da política, influenciando o próprio equilíbrio de poder no espaço das
disputas políticas23. Podemos usar aqui, tendo um certo cuidado em demarcar as
22
“O processo de agenda é decerto um jogo complexo que nenhum ator ou grupo pode pretender controlar:
mas é evidente que os profissionais da política não estão aqui em posição dominante” (LE BART, 1998, p.42)
23
Seguimos em certa medida a sugestão de pesquisa que oferece Christian Le Bart que, ao tratar do discurso
político, ressalta a importância de se estudar, especialmente nos períodos de crise política, o papel dos
jornalistas como formuladores de “problemas” políticos os quais interpelam os profissionais da política que
se vêem na obrigação de, pelo menos, respondê-los. Para tanto formula o conceito de agenda (LE BART,

32
peculiaridades locais do caso maranhense, o conceito de agenda, visto que ele nos permite
compreender esse processo pelo qual os jornalistas se colocam na condição de dizer o que
deve ser tratado “politicamente”. Ce sont pour l’essentiel les journalistes que detiennent le
pouvoir de tout a la fois reveler socialment une situation, la designer comme
problematique et comme politique, et interpeller les “decideurs” 24. Mas sem esquecer que
existe uma grande diferença entre a imprensa francesa contemporânea, onde existe um
espaço jornalístico com uma relativa autonomia diante das injunções externas. Na década
de 1930 em São Luís a configuração da imprensa está pautada no atrelamento umbilical
com as correntes políticas que monopolizavam a disputa pelo poder.
Em junho de 1933 é nomeado como interventor o capitão Antonio Martins de
Almeida, que se aproxima dos “decaídos” magalhãesistas e os ajuda a fundar o Partido
Social Democrático do Maranhão (PSDM), que será a base de sustentação do seu governo.
As eleições de 1934 dão vitória às facções oposicionistas (PR- marcelinistas e URM-
genesistas), que garantiram maioria na Assembléia Constituinte Estadual e,
conseqüentemente, o direito de escolher o governador do Estado. Esta coligação escolheu,
como nome de consenso das duas facções, o médico-sanitarista Aquiles Lisboa, que
assumiu em junho de 193525.
Apesar de ser considerado “alheio ao partidarismo”, Lisboa logo demonstrou
suas pretensões em se constituir como liderança efetiva no Estado, descumprindo pontos
do acordo que o tornara governador. A facção genesista cobrava, em documento oficial
encaminhado ao governador, a indicação do prefeito da capital, além de outras nomeações
como forma de estabelecer a “perfeita proporcionalidade na distribuição dos cargos”
(REIS, 2007, p.114). Decidindo manter na prefeitura de São Luís um nome de sua
confiança, acabou perdendo a maioria na Assembléia para a oposição, reforçada com os
cinco deputados da URM de Genésio Rego. Estendendo-se a crise até o limite da

1998, pp.41-42).
24
Tradução livre: São os jornalistas que possuem o poder ao mesmo tempo de revelar socialmente uma
situação, designá-la como problemática e como política e, ainda, interpelar as ‘autoridades competentes’ (LE
BART, 1998, p.41).
25
Aquiles Lisboa nasceu em 1872 na cidade de Cururupu-MA, filho de grandes proprietários de terras, seus
pais não tiveram dificuldades em mantê-lo seja na capital do Estado, seja na capital do país (NUNES, 2000,
p.324). Assim, Lisboa cursou, em Salvador, a faculdade de farmácia e, no Rio de Janeiro, a faculdade de
Medicina. Foi eleito membro da Academia Maranhense de Letras e se tornou patrono da cadeira nº32 do
Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Em 1931 é nomeado diretor do Jardim Botânico no Rio de
Janeiro. Era já um cientista consagrado quando começou a galgar postos e cargos no campo político
(NUNES, 2000, p.323). Ainda nos anos 1920 foi prefeito de sua cidade natal, depois concorreu, e perdeu, ao
cargo de senador da República, e, em 1935, alcançou o posto de Governador do Maranhão, no qual
permaneceu pouco mais de um ano.

33
duplicação de poderes, resolve o governo central intervir em junho de 1936, nomeando
provisoriamente Carneiro de Mendonça, e em agosto, após acordo com as facções em
disputa, o maranhense Paulo Ramos, funcionário do Ministério da Fazenda que atendia ao
pré-requisito usual de não ter vínculos com a disputa política local. O que, entretanto,
acabava sempre determinando a “criação de novos pólos de interesse” (REIS, 2007, p.115).
Consideramos que as noções de quase-grupos ou facções “vagamente
ordenadas” (em oposição às unidades políticas organizadas) entendidas como “unidades de
conflito acionadas em ocasiões específicas”, fundadas mais em “transações”, disputas por
cargos e postos da administração do que em “questões de princípio” (MAYER, p.149) são
pertinentes para a análise do caso estudado.
Segundo Flávio Reis, tratava-se de uma crise intra-oligárquica, característica
recorrente da “estrutura política de mando” que veio se constituindo a partir da segunda
metade do século XIX, marcada pelo predomínio de um “setor político” que passa a
“controlar as instâncias de decisão” ao mesmo tempo em que está submetido às pressões
do governo central, onde efetivamente sustentava seu poder (REIS, 2007, p.207 e 216). As
crises intra-oligárquicas se caracterizam, segundo Reis, pela presença de novas lideranças
que reivindicam espaço de influência dentro da estrutura ou “padrão de dominação”
estabelecido, ou seja, da estrutura política oligárquica. Essas crises tendem a apresentar
variáveis específicas do momento em que ocorrem, no entanto, sua natureza é a mesma:
fruto da renovação e substituição de lideranças oligárquicas.
Como foi dito anteriormente, a análise se deteve especialmente sobre os
seguintes jornais: O Imparcial, O Combate, Pacotilha e Tribuna, escolhidos por sua
regularidade durante os anos de 1935-1937, mas principalmente porque estavam
diretamente ligados às três principais facções políticas em atuação naquele período. Com
efeito, eles representavam os interesses genesista, marcelinista e magalhãesista. A facção
genesista, que controlava o jornal O Imparcial, estava organizada em volta da liderança de
Genésio Rego e se reunia sob a sigla da União Republicana Maranhense (URM). A facção
marcelinista era liderada por Marcelino Machado, médico e proprietário de O Combate que
se tornou a grande liderança de oposição ao situacionismo magalhãesista, tendo forte
influência na cidade de São Luís. Os marcelinistas estavam reunidos no Partido
Republicano (PR). Os magalhãesistas tinham como grande liderança Magalhães de
Almeida, que havia sido a principal liderança política do Estado, comandando o processo
que elegeu os três governadores durante a década de 1920 (Luis Domingues, Godofredo

34
Viana e o pŕoprio Magalhães de Almeida). A partir das eleições de 1934 estão organizados
sob a sigla do Partido Social Democrático do Maranhão (PSDM). Pacotilha e Tribuna são
veículos que seguem sua orientação política.
Ademais, os referidos veículos impressos eram aqueles de maior tiragem e
circulação da capital, sendo o título de jornal de maior circulação reivindicado, ao mesmo
tempo, por O Imparcial e O Combate.
Podemos considerar os jornais ludovicenses como órgãos oficiais, ou
paraoficiais, de divulgação dos ideais das principais facções políticas em atuação naquele
momento. Assim, vejamos: O Combate traz como epíteto “órgão do Partido Republicano -
orientação política do Dr. Marcelino Machado”; Pacotilha também reconhece sua filiação
partidária (é “órgão do P.S.D.”); já O Imparcial se diz “alheio aos interesses políticos dos
partidos maranhenses”, mas defende os interesses da U.R.M. de Genésio Rego; Tribuna é
um jornal magalhãesista.
Dos quatro jornais, dois declaram sua orientação partidária abertamente, o que
faz com que os outros os identifiquem como “a imprensa partidária” e, ao mesmo tempo,
reclamem para si uma certa neutralidade política, como é o caso de O Imparcial.
Ao contrário da imagem que procurava construir para si, este veículo, como
também os outros, fazia parte da imprensa partidária. Com efeito, O Imparcial estava
diretamente ligado a URM de Genésio Rego. O que vemos em todo jornal é uma campanha
abertamente pró-genesista, ao lado de críticas às outras facções, em particular aos
magalhãesistas. Isto enquanto formava ao lado dos marcelinistas um bloco situacionista.
Em algumas matérias e principalmente nos artigos de primeira página o jornal simula
atacar o “partidarismo”, apontado como “causador de todos os nossos males” ( O Imparcial,
17/07/1935, p.1).

Ao lado da crítica ao “partidarismo tacanho” que tinha sacrificado o Maranhão,


este jornal não consegue esconder suas preferências político-partidárias, pois se
identifica(va) com a facção agora à frente do governo do Estado, resultado de uma
coalizão entre a URM de Genésio Rego e o PR marcelinista.
A afinidade de ideias está colocada na diferenciação que o jornal procura fazer
entre as “passadas administrações” e o governo que se inicia, representante de uma “era
nova” para o Maranhão. O que se pode esperar da nova administração, diz O Imparcial, é
que não se deixe “desviar da solução dos problemas maranhenses pelas conveniências da
política”, não permita que “se cometa injustiça”, devendo-se conservar os funcionários

35
“dos quais não se apurarem faltas” e punir “com severidade” todos os responsáveis por
“irregularidades nos diversos ramos do serviço do estado”. Assim O Imparcial queria que
fosse o novo governo do estado do Maranhão, do qual se sentia partícipe e buscava
distingui-lo das outras administrações, marcadas por “lutas políticas prejudicialíssimas” e
por “governos descuidados da administração [pública] e apenas preocupados com a
política”.
Os jornais estudados possuem relações claras com as facções políticas que
monopolizavam o jogo político local. Em cada um, a linha editorial é fortemente marcada
pela defesa e engrandecimento das ações e posicionamentos da principal figura da facção
ao qual está atrelado. Vejamos como Tribuna se referia ao ex-governador Magalhães de
Almeida em maio de 1935:

Deu-nos, hontem , a honra de sua visita o ilustre comte. Magalhães de


Almeida, preclaro chefe do PSD. Na palestra, com que o distincto político nos
prendeu, por longo tempo, a attenção, ouvimos as mais decisivas afirmações e os
mais sábios princípios da política de honestidade e trabalho, com que ele conduz
o partido, sobre o qual pesa a responsabilidade da direção do Estado.
As palavras, não relatam apenas os mais edificantes episódios de uma vida toda
devotada à grandeza do Maranhão; ellas definem um homem que só compreende
a vida pelo seu aspecto moral e pelos imperativos que o levam a assumir
attitudes só reveladas aos que têm a dolatria do dever e da justiça.
Bem viva a impressão deixada pela visita, que agradecemos.
(TRIBUNA, 01/ 05/ 1935, p.1)

Ao “ilustre” comandante Magalhães de Almeida são atribuídas qualidades que


o distinguem como homem público. Ele é portador dos “mais sábios princípios da política
de honestidade e trabalho”. Toda sua vida, marcada pela moralidade e pela “dolatria do
dever e da justiça”, foi “devotada à grandeza do Maranhão”. Um homem assim não poderia
deixar outra impressão: “bem viva foi a impressão deixada”. A intenção era que também
deixasse boa impressão nas pessoas que liam o jornal.
É devido a essa ligação dos meios de comunicação impressos com as facções
políticas em atuação no cenário político maranhense que podemos dizer que a imprensa
daquela época era muito mais uma imprensa político-partidária do que uma atividade
determinada pelos interesses comerciais. Os jornais expõem o pensamento e os interesses
de um grupo determinado de pessoas; dessa maneira são sempre marcados por preferências
pessoais (JUNQUEIRA, 1995, p.58). Ao mesmo tempo em que o jornal se constitui como
meio de divulgação e informação, ele realiza também outra função, embora raramente por
ele admitida, que é de caráter ideológico. Quer dizer, ao veicular a notícia ou comentar

36
determinado fato ele o faz de uma forma particular, forma esta condicionada pelo conjunto
de valores políticos, ideológicos, religiosos etc. defendidos por cada jornal e por cada
jornalista em particular.
A isso deve-se acrescentar o fato desses veículos pertenceram e serem
produzidos por um mesmo segmento social. Não apenas seus proprietários e diretores, mas
também seus redatores e jornalistas faziam parte de uma pequena elite política que
controlava o jogo político no Estado do Maranhão da década de 1930. Tanto é assim, que
rapidamente conseguem recuperar o controle ou a posse do aparato de poder, que Getúlio
Vargas havia deixado com os tenentes após o golpe de 1930.
No caso dos jornalistas ou articulistas que escrevem nos jornais, que muitas
vezes não eram funcionários efetivos dos mesmos, eles pode tanto pertencer à linha
ideológica dominante do jornal, aquela que pauta de maneira geral o posicionamento do
veículo, e que é determinada pela facção política a que está ligado ou, por outro lado, pode
apresentar uma postura, até certo ponto, “independente” da posição hegemônica. Todavia,
caso raro é a posição totalmente contrária, por parte de um jornalista, àquela que orienta o
jornal em sua relação com as facções locais. Interessante, nesse sentido, é o caso de Byron
de Freitas. Ele é advogado e exerce o ofício de jornalista no jornal Tribuna, aparecendo
como um dos principais integrantes da ANL no Maranhão. Tendo mesmo ocupado o cargo
de secretário do Núcleo dos funcionários públicos, como noticiado no próprio jornal.
A presença de um aliancista naquele jornal ajuda vislumbrar, inclusive, a
possibilidade de que pudessem existir outros simpatizantes dentro da imprensa
ludovicense. Essa questão toma corpo com os casos de pessoas que escrevem sejam
algumas poucas matérias assinadas ou mesmo artigos em coluna durante certo tempo,
como é o caso de José Osvaldo de Carvalho, acadêmico de direito que escreve no jornal
Tribuna. Registro Diário é o nome da coluna que este passa a assinar, a partir de junho de
1935 neste matutino magalhaesista. De origem social elevada ele desferiu críticas
explícitas aos que defendiam as ideias de Mussolini e Hitler no Brasil; elogiando, por outro
lado, os acontecimentos protagonizados pela ANL, que teriam desencadeado, segundo ele,
uma espécie de conscientização popular:

REGISTRO DIÁRIO
Os operários se movimentam levados pela ansia de obterem um pão menos duro,
de possuírem uma terra que seja sua e conquistarem, mesmo tingida de sangue,
uma liberdade. Liberdade que a todos atinja e dê proteção, sob o seu manto

37
augusto idolatrado. É a alma 26 nacional que se movimenta. [...] É uma
nacionalidade inteira que tirita pela hora sagrada das suas legitimas e verdadeiras
reivindicações. O povo está cansado de lançar os seus protestos platônicos a sua
benedita paciência se acha esgotada e ele, na retaguarda dos paladinos das suas
aspirações, quer lutar e vencer[...].
(TRIBUNA, 28/06/1935, p.5.)

Uma outra possibilidade de entendimento seria o fato desse espaço surgir em


jornal da facção oposicionista, que permitia que indivíduos estranhos ao jogo político
também contestassem aquela conjuntura política específica. Quando Weber diz que
“teremos que investigar, sobretudo, as relações de poder criadas pelo fato específico de que
a imprensa torne públicos determinados temas e questões” somos levados a questionar o
porquê desse jornal publicar, mais do que todos os outros veículos, tantas matérias sobre o
comunismo, muitas delas carregadas de ambigüidade, pois não são simplesmente
detratoras, como as que encontramos em O Combate e O Imparcial, por exemplo,
compondo mesmo um conjunto heterogêneo.
Parece-nos importante, ainda, destacar que nesse momento a imprensa ainda
não possuía o reconhecimento social que reivindicava para si, de modo que ela está
inserida, nesse momento histórico, em uma disputa dentro do espaço social, buscando
legitimar-se enquanto instituição que exerceria uma função social importante na medida
em que buscava informar a sociedade.

A A.B.I. ESTRANHA A ATTITUDE DO PRESIDENTE BARROS BARRETO


PARA COM OS JORNALISTAS.
Em sessão de sua directoria, a Associação Brasileira de Imprensa votou, por
unanimidade de votos, a seguinte resolução: “a directoria da Associação
Brasileira de Imprensa lamenta que o des. Barros Barreto, presidente
do Tribunal de Segurança Nacional, esquecendo o patriótico apoio que a
imprensa tem prestado ao combate do extremismo, attitude essa que tem sido
reconhecida por todas as autoridades, e, especialmente, por s. ex. o Presidente da
República, esteja criando embaraços aos jornalistas, em serviço naquele Tribunal
e cujo objetivo não é outro senão o fiel registro dos acontecimentos que tanto
interessam ao país”.
(TRIBUNA, 30/01/1937, p.6. Grifos nossos)

O fato da imprensa “estranhar” a atitude do magistrado em relação ao que


seria simplesmente o exercício da sua função de “fiel registradora” dos acontecimentos
demonstra que ela ainda precisava reivindicar uma posição social legítima. Ao mesmo
tempo, sua manifestação através de órgão coletivo nacional (a Associação Brasileira de

26
Mais tarde vamos abordar a questão que se colocava nesse momento da necessidade de construção da
alma nacional.

38
Imprensa - ABI) significava que ela já ocupava uma posição, a partir da qual podia
mobilizar um certo capital (“todas as autoridades e, especialmente, [o] Presidente da
República” têm “reconhecido” seu “apoio patriótico” no combate ao extremismo), o qual
lhe permitia medir forças com esferas de poder do tipo do Tribunal de Segurança Nacional,
que diga-se de passagem, não gozava de uma legitimidade de consenso, sendo questionado
por outras agentes sociais27.
Dentro desse quadro político mais amplo ocorreu o surgimento de novas
organizações ou correntes políticas, a exemplo da ANL e da AIB. Para os objetivos do
nosso trabalho seria importante destacar alguns elementos da movimentação aliancista,
tendo em vista que ela atraiu a atenção de uma parte da imprensa de São Luís e serviu de
motivo para o surgimento e proliferação, principalmente, após seu rápido crescimento
nacional, de discursos que a tomavam como organização comunista.
Dos documentos produzidos pela ANL no Maranhão restaram, somente,
aqueles que foram por ela entregues para publicação nos jornais da cidade. É, portanto,
através desses manifestos, notas e convites veiculados na imprensa ludovicense e,
principalmente, por meio da cobertura do movimento aliancista, que podemos divisar a
repercussão da ANL em São Luís, tanto na fase da legalidade, quanto no período que se
sucedeu à cassação do seu registro. Todavia, não vamos realizar aqui tal empreendimento,
o qual foi realizado por José Ribamar Caldeira (1990). Destacamos apenas a ANL iniciou
sua organização no Maranhão em abril de 1935, atuando legalmente até julho do mesmo
ano, quando foi fechada, em todo país, por decreto de Getúlio Vargas, amparado na Lei de
Segurança Nacional que fizera aprovar no começo do ano.
Sua atuação no Maranhão se restringiu ao espaço urbano de São Luís, o que se
justificaria pelo fato de nessa cidade se concentrar o maior número de comunistas
maranhenses (CALDEIRA, João Ricardo, 1999, p.72). O recrutamento político
concentrou-se sobre os chamados segmentos médios, os quais estavam divididos entre os
dois novos movimentos políticos que surgiram naquela época: a AIB (que reunia os
fascistas brasileiros) e VAF, depois FUP, e por fim ANL 28, que congregava todos os
27
Para não falar apenas dos comunistas presos após os levantes de novembro de 1935, os quais foram
processados e julgados pelo TSN, deve-se mencionar que parte dos membros do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) considerava aquele tribunal inconstitucional. Ver: Dulles, 1985,
p.73.
28
Frente Única Proletária (FUP). Originou-se a partir da V.A.F.(Vanguarda Anti-Fascista). Ambas eram
orientadas pelo PCB. A FUP foi um dos movimentos de esquerda criados e orientados pelo PCB, assim
como a VAF, que a antecedeu e como a ANL, que a sucederá no pós-eleições de 1934. Ver: CALDEIRA,
1990, pp. 35-7.

39
antifascistas da época (desde liberais até comunistas). Esses segmentos médios eram,
sobretudo, formados por profissionais liberais, servidores públicos e professores. Eram eles
que constituíam a maior parcela dos integralistas e dos comunistas da região
(CALDEIRA,1990, p.35). A AIB e ANL eram organizações de caráter nacional pautadas
por ideologias claramente opostas, que pretendiam arregimentar simpatizantes em todo
país com o objetivo de se legitimar enquanto força política e, de alguma forma, reivindicar
o poder político.
A dificuldade de arregimentação era maior entre os trabalhadores urbanos
maranhenses. O pequeno proletariado urbano dividia-se entre aqueles que apoiavam a
facção governista, que era a parcela mais numerosa, segundo José Ribamar Caldeira
(1990); aqueles que estavam ligados à facção oposicionista (o que se explica pelo discurso
e prática marcelinista, que visavam especificamente os trabalhadores); e alguns pocuos que
aderiram às organizações orientadas pelo PCB; e ainda existiam operários que apoiaram e
militaram na AIB maranhense (CALDEIRA,1990, p.36).

3. REPRESENTAÇÕES DO COMUNISMO E DO COMUNISTA NA


IMPRENSA DE SÃO LUÍS

Neste capítulo, analisamos cada um dos jornais que compõem o corpus


documental do trabalho, procurando destacar os principais elementos ou recursos
discursivos que os mesmos mobilizam ao tratar, e, ao mesmo tempo, construir significados

40
acerca do comunismo e do comunista.
As notícias de que existiriam grupos comunistas arquitetando complôs ou
golpes para tomar o poder no Brasil eram muitas, servindo para amalgamar, no imaginário
social, toda uma profusão de imagens, boatos e lendas, como neste caso narrado no jornal
A Lucta:

PERIGO
Passando, hontem, à noite, pela rua da palma, ouvi [...] este diálogo:
Pois é como lhe digo, cumpadre. Larguei roça, cavalo, famia, e outros
bicho pra vim sabê a verdade do que corre lá pela minha terrinha.
Estava quase doido. A muié não trabaiava mais, e eu, cumo uma besta, - de
dentro pra fora, de fora pra dentro [...].
Lá, se diz que os comunistas estava aqui; que tudo ia se tomá pra elles
dividi e comê, até as muié [...] Além disso, que tinha um baruio por via da
política, que tinha metraiadoras por riba das igreja [...] uma ruma de coisa
desencontrada!
Cheguei, não vi nada. Os comunista tão na grade e o nosso querido
governadô dirigindo tudo dêreito, no Palácio.
(A LUCTA, 05/01/1936, p.4. Grifo nosso).

Analisando a nota podemos perceber que se faz uso de algumas construções


imagéticas acerca do comunismo e dos comunistas que posteriormente vieram se cristalizar
no imaginário social. A ideia de que no regime dos comunistas “tudo ia se tomá pra elles
dividi e comê”, trazia pra perto do pequeno lavrador o medo ou pavor da perda de suas
propriedades, “roça” e “cavalo”, bem como de sua família, posto que “até as muié” seriam
compartilhadas, o que representava uma verdadeira subversão dos alicerces fundantes
daquela sociedade. Esse desmoronamento dos pilares sociais se completaria com a
destruição simbólica da religião (católica), o que se dá através da profanação do seu lugar
de culto (“tinha metraiadoras por riba das igreja”).
O discurso mobilizava a superstição como forma de comunicação do medo à
população que era preciso manter sob controle. O discurso da imprensa nesse caso procura
acionar o que ela considera como valores básicos: a família, a propriedade e a religião.
Indicando o perigo que elas corriam caso o comunismo assumisse o governo. Desse modo
se buscava instilar o medo do comunismo. Podemos dizer que a forma de dominação
efetiva se concretiza a partir do “medo que une e assegura a ordem social” (HARDT &
NEGRI, 2001, p.344). O discurso sobre o comunismo/comunista produzido pelo imprensa
atua disseminando o medo, criando assim as condições para a legitimação de medidas de
repressão e controle a toda e qualquer possível ameaça à chamada ordem social.

41
O comunismo foi classificado e nomeado de movimento extremista, ou seja,
movimento que, no intuito de alcançar seu objetivo político (a implantação de outro regime
político), recorria ao uso da força e da violência, não hesitando muitas vezes em matar
pessoas inocentes, não respeitando as tradições, valores nem a religião de um povo.
Uma das formas de utilização do discurso sobre o comunismo/comunista, ou
mais propriamente dos efeitos pejorativos que acompanham o discurso detrator acerca do
comunismo, diz respeito à tentativa de identificar adversários políticos como “comunistas”.
Tratava-se de um expediente muito usado na luta política do período: a acusação de ser
comunista. Era sem dúvida uma forma de desqualificar e, assim, retirar o concorrente da
disputa.

PRESO COMO EXTREMISTA


O acusado é fazendeiro, chefe político e amigo do senador Leandro Maciel.
Aracaju,
As autoridades prenderam em Itabaianinha, fazendo em seguida embarcar para
esta cidade, o conhecido fazendeiro daquele município cel. Anthenor Vieira,
chefe político oposicionista e amigo intimo do senador Leandro Maciel.
Impetrada uma ordem de ‘Habeas corpus’, em favor do fazendeiro preso, a Corte
de Apellação pediu informações à chefatura de policia, tendo esta declarado que
a prisão fôra determinada por motivos politicos. [...] quer isto dizer que o sr.
Anthenor Vieira não sahirá da prisão, no entender da policia, s.s. é communista
[...]
(TRIBUNA, 03/02/1937, p.06)

Apesar de não se referir ao contexto social ludovicense, essa notícia faz parte
do conjunto de enunciados que compõem a superfície de inscrição onde se constituem os
imaginários sociais. “O imaginário é um horizonte: não é um entre outros objetos, mas é
um limite absoluto que estrutura um campo de inteligibilidade” (LACLAU, 1990, p.71).
Nomear de comunista, fazer com que essa categorização fosse aceita como
verdadeira, dependia da capacidade dos agentes interessados em impor sua visão; dos
meios de que dispunham para tornar bem-sucedida essa iniciativa. Dependia, por exemplo,
do controle ou pelo menos da possibilidade de exercer influência seja junto à polícia ou ao
judiciário, seja junto à imprensa. Como aponta Bourdieu (2004, p.142) a categorização é
um procedimento que busca tornar público determinada ideia acerca de alguém ou de
alguma coisa:

De fato, este trabalho de categorização, quer dizer, de explicitação e de


classificação, faz-se sem interrupção, a cada momento da existência corrente, a
propósito das lutas que opõem os agentes acerca do sentido do mundo social e da
sua posição nesse mundo, da sua identidade social, por meio de todas as formas

42
do bem dizer e do mal dizer, da bendição ou da maldição e da maledicência,
elogios, congratulações, louvores, cumprimentos ou insultos, censuras, críticas,
acusações, calúnias, etc. Não é por acaso que a katègorein de que vêm nossas
categorias e os nossos categoremas, significa acusar publicamente.

A explicação para a repulsa do comunismo, por grande parte da imprensa


ludovicense, não pode ser buscada apenas no conservadorismo e provincianismo dessa
sociedade. Existia uma influência externa das regiões que eram focos de elaboração e
difusão de imagens e ideias do que seria comunismo ou bolchevismo. Estamos falando da
imprensa dos centros urbanos que ocupavam posições dominantes na produção de notícias
jornalísticas no Brasil. Na sua grande maioria, as notícias e matérias publicadas pelos
jornais desses centros eram também publicadas, com alguns dias de atraso, pelos jornais
dos outros Estados. Este era o caso da imprensa de São Luís 29. As principais reportagens
sobre as chamadas ideias extremistas que ela publica, são originalmente produzidas nos
referidos centros de produção jornalística. Talvez seja um aspecto da “colonização” interna
mencionada por Darcy Ribeiro em sua reflexão sobre a formação do Brasil30.
A imprensa foi um instrumento que teve papel de destaque na elaboração e
difusão das ideias geradoras de visões acerca do comunismo e dos comunistas. Assim
podemos ver nesse fragmento de matéria publicada no jornal O Imparcial:

O JULGAMENTO DOS EXTREMISTAS.


OS EMISSARIOS DO “KOMITERN” HAVIAM RECEBIDO INSTRUCÇÕES
PARA FUZILAR MILHARES DE BRASILEIROS - A INTENTONA DE 35
FOI OBRA DE MOSCOU.
SERIAM FUZILADOS 70 MIL BRASILEIROS.
Rio, 7 (H) - A secretaria do Tribunal de Segurança distribuiu aos representantes
da imprensa as razões finais do Procurador Geral do Tribunal, sobre o processo
dos cabeças do movimento de novembro de 35, nos quais demonstra,
amplamente, que o movimento foi orientado pelo governo de Moscou.
Vitorioso o movimento de 35, seriam fuzilados, segundo instruções recebidas da
3ª Internacional, cerca de 70 mil brasileiros.
(O IMPARCIAL, 08/05/1937, p.5)

A partir da década de 1930 as referências à presença de supostos “emissários”


de Moscou ou do Komintern tornam-se freqüentes na imprensa brasileira, como podemos

29
O mesmo fenômeno se verificou em estudo sobre a imprensa goiana: ALMEIDA, Maria Isabel de Moura.
O anticomunismo na imprensa goiana: 1935-1964. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-
graduação em Sociologia/UFG, 2003.
30
O processo de formação teria sido unificador, mas a sua realização se deu através de três ordens de
diferenciação. Uma delas são as “diferenças de desenvolvimento regional que, ativando sucessivamente
diferentes áreas como núcleos polarizadores da vida econômica, provocam graves efeitos de colonização
interna” (RIBEIRO, 1991, p.141). A colonização aí se refere ao campo cultural, fundamentalmente. Portanto
compreende também a dependência dos meios de informação (imprensa).

43
ver no trabalho de Carla Silva (s/d). As notícias dando conta de complôs arquitetados pela
Rússia Soviética através dos seus “agentes” infiltrados no Brasil são comuns no corpus
documental analisado.

Quando consideramos o contexto da época e todo o clima de tensão e ameaça


de uma possível “revolução” que se alastrava através do discurso alarmista cotidianamente
enfatizado pela própria imprensa, devemos, então, reconhecer que aquelas notícias
tocavam diretamente um conteúdo de referências simbólicas que fazia parte do cotidiano
dos leitores. Veja-se o caso do Legionário, veículo fundado em 1935 na cidade de São
Bento, mas que circulou por outras cidades do Maranhão, como se pode concluir dessa
matéria que saudava em editorial o centenário da vizinha cidade de Codó:

SALVE CODÓ
Nestes momentos de perturbação em que aventureiros se querem apossar
do Brasil para torná-lo um mísero escravo da Rússia, pregando a
dissolução dos costumes, banindo a ideia de Deus, Pátria e Família, é bem
significativo e consolador ver-se uma cidade celebrar seu centenário. Esta
comemoração é um protesto contra as ideias demolidoras.
Codó celebra o primeiro século da fundação de sua paróquia e de sua
comarca. Ahí está bem claro o apego às nobres tradições que engrandecem
um povo [...].
Este é e será sempre o sentimento do povo brasileiro, que adora a Deus,
ama a Pátria e defende e acarinha a Família.
(LEGIONÁRIO, --/08/1935, p.1. Grifos nossos).

Interessante perceber como se aproveita uma data comemorativa local, o


aniversário de fundação da paróquia, para alertar contra os supostos perigos que
espreitavam a sociedade brasileira naqueles “momentos de perturbação”, representados por
“aventureiros” que pretendiam tornar o Brasil um “mísero escravo da Rússia”. Já
encontramos aqui, de maneira bem articulada, a crença de que as tais “ideias demolidoras”
ameaçam o tripé da ordem social (“banindo a ideia de Deus, Pátria e Família”) e que seria
necessário lutar contra essa ameaça de “dissolução dos costumes”. Por isso, o jornal
enfatiza que a comemoração pelo primeiro século de fundação da paróquia (representando
a presença de Deus) deve ser louvado como uma demonstração de que o “apego às nobres
tradições que engrandecem um povo” está bem consolidado no espírito do povo brasileiro.
É relevante destacar ainda que esta matéria foi produzida em meados do ano de 1935, mais
exatamente em agosto, alguns meses antes das fracassadas tentativas de levante nos
quartéis que ocorreram no Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio de Janeiro (VIANNA,
2007).

44
Através de matérias como estas se difundia a necessidade de estar alerta contra
o perigo que ameaçava as nossas tradições patrióticas. Apesar de focarmos a capital São
Luís, achamos relevante observar que a divulgação de um discurso anticomunista
alcançava outras cidades do Maranhão.

Tanto assim que não devemos estranhar o destaque e mesmo a veemência com
que frequentemente ela concitava os brasileiros a se engajar nessa luta:

COMBATER O COMMUNISMO É DEVER PRECIPUO DE TODOS OS


BRASILEIROS QUE PREZAM AS TRADIÇÕES DA PATRIA E DESEJAM O
SEU ENGRANDECIMENTO MORAL.
(DIÁRIO DO NORTE, 24/10/1937, p.1)

Esta mensagem foi publicada na primeira página do jornal Diário do Norte,


em letras garrafais acima do título do periódico. Reflete a intensificação da campanha
anticomunista que naquele momento estava sendo usada para justificar as constantes
renovações do Estado de sítio e que agora se tornara Estado de Guerra, preparando o
terreno para o golpe que assumiria de vez a ditadura.

3.1. O Combate: a defesa do “regime democrático” e a instrumentalização


do comunismo
Os jornais analisados possuem interesses políticos específicos determinados
pelas principais facções que disputavam o comando do aparelho estatal no Maranhão. Cada
uma delas possuía um jornal, orientando-os frente aos diversos temas ou questões
abordados. O Combate era oficialmente “órgão do partido republicano”. O jornal fora
fundado em 1925 por Marcelino Machado, chefe daquela que, durante todo o período que
vai da década de 1920 à de 1930, se constituiu na principal facção política oposicionista no
Estado do Maranhão. O jornal teve três fases: a primeira durou de 1925 até 1937; a
segunda transcorreu entre os anos de 1945 e 1959. Por último, o jornal voltou a funcionar
em 1965, encerrando nesse mesmo ano suas atividades.
No início do período abarcado pela pesquisa, entre os meses de janeiro e junho
de 1935, quando se dava a movimentação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), esse
jornal praticamente ignora seu surgimento e atuação, seja em nível nacional, onde ela teve
uma certa dimensão e repercutiu na imprensa, ou mesmo local, que apesar de não
representar um agente de peso no jogo político teve espaço em todos os outros grandes
jornais da cidade.

45
As preocupações de O Combate estavam concentradas, nesse momento, em
torno da disputa pela conquista do poder estadual travada entre os magalhãesistas e os
marcelinistas.
A partir de julho as notícias sobre os chamados “movimentos extremistas”
começam a aparecer com mais freqüência, passando o jornal a dar espaço para o debate
que se travava em relação aos modelos político-sociais, ao mesmo tempo em que busca
alertar para o que era considerado como o perigo dos “extremismos”, tanto da “esquerda”
(identificado com a ANL) quanto da “direita” (representado pelo integralismo e sua
disposição em formar milícias).
Depois do fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em todo país,
em julho de 1935, acusada de crime contra a ordem política, começaram a aparecer
matérias alertando para a importância do “combate ao extremismo”, quase sempre fazendo
referência ao chamado movimento comunista. Essa campanha ganhou força no plano
nacional após as tentativas de levante comunista em novembro de 1935. Este evento se
tornou, então, a principal temática tratada pela imprensa brasileira. No Maranhão, O
Combate aproveitava essa questão para defender as medidas do governador Aquiles
Lisboa, no cargo desde junho de 1935, resultado de uma aliança política envolvendo as
facções marcelinista (PR) e genesista (URM). Esta aliança, no entanto, durou apenas dois
meses, retirando-se a URM devido a uma disputa por cargos e nomeações, elemento vital
para a manutenção e crescimento do poder de uma facção política (REIS, 2007, p.114).
O governo ficou sem maioria na Assembléia Legislativa. O bloco
oposicionista era agora formado pelos “decaídos” magalhãesistas (PSD) e os genesistas
(URM), que passaram a usar de todas as armas possíveis para (re)tomar a direção do
governo estadual31.
Toda atividade que porventura viesse comprometer ou mesmo determinar o
enfraquecimento do Governo Aquiles Lisboa nesta hora de perigo nacional, encontraria a
reprovação formal da consciência publica, afirmava O Combate. A polêmica se travava
principalmente em torno das medidas tomadas pelos deputados das facções oposicionistas
que procuravam inviabilizar o governo de Aquiles Lisboa.

31
A partir dessa cisão entre as facções se estabelece uma crise que vai se estender até junho de 1936, quando
Vargas nomeia um interventor interinamente, enquanto costurava um acordo entre os dois blocos que
reivindicavam o poder. Eles aceitaram a indicação do nome de Paulo Ramos, a ser eleito pela Assembléia
como governador para completar o mandato constitucional de quatro anos.

46
Terá refletido bem o deputado Felix Valois?
Terá balanceado todos os fatos relacionados com a segurança das instituições e
os episódios registrados no Maranhão?
Pesem todas as responsabilidades que lhes cabem na luta entre a ordem e a
desordem.
Saibamos todos cumprir os nossos deveres perante a Patria.
Quem estiver de corpo e alma na defesa da ordem vigente será pela desordem
que visa a destruição social e política do Brasil.
(O COMBATE, 03\04\1936, p.1)

Atuando como porta-voz do governo, que nesse momento era sustentado


politicamente pelo PR marcelinista, o jornal buscou justificar a importância de alguns
decretos baixados pelo executivo estadual que visavam o “melhor aparelhamento da
Policia Civil”, dizendo se tratar de uma medida que tinha por fim “prevenir e combater os
movimentos subversivos”, perpetrados pelo “monstro comunista”.
O editorial é claramente uma tentativa de identificar as facções oposicionistas
ao governo Aquiles Lisboa como responsáveis pelo avanço do “extremismo insidioso” no
Maranhão, visto que “estranhamente” procuravam privar o governo estadual dos recursos
necessários para “reprimir o comunismo ameaçador”. Dizia não entender o porquê desta
determinação dos deputados da oposição em enfraquecer o governo “nesta hora de perigo
nacional”, quando devia falar mais alto o patriotismo, deixando-se momentaneamente de
lado as “dissensões” políticas típicas do faccionismo. A anulação dos decretos de “interesse
público” era vista pela jornal como um gesto que demonstrava de que lado estava a
oposição estadual na “luta entre a ordem e a desordem”. O jornal se referia ao deputado
Felix Valois, líder da oposição e um dos principais críticos da administração de Aquiles
Lisboa, responsabilizando por colocar em perigo “a segurança das instituições”. Este
deputado vai ser posteriormente acusado, pelo próprio jornal O Combate, de ser simpático
ao comunismo, e o fato dele ter estado no Teatro Artur Azevedo na solenidade de posse da
diretoria da ANL, seria suficiente para comprovar que ele professava o credo comunista.
Mais um caso da estratégia de desqualificação dos adversários usando o poder de construir
uma imagem pública ou uma identidade social do indivíduo. Assim se deu também com
Astolfo Serra acusado de comunista pelos integralistas.
O discurso que se apropria das referências acerca do comunismo é até certo
ponto repetitivo em seus argumentos, os conteúdos que enfatiza giram em torno da
imperiosa necessidade de defesa dos “interesses nacionais”, devendo-se preservar as
instituições definidoras da nacionalidade, a família, o regime político democrático, as
liberdades individuais, de expressão e imprensa. As diferenças estão na apropriação dessa

47
referências discursivas pelos diversos agentes sociais.

SOTURNA PERSPECTIVA
O mundo é um vulcão, as lavas do ódio escorrem por todos os setores da vida
humana. […]
A Rússia é um dragão infernal, de esgares satânicos, que quer a todo transe
realizar em torno do mundo o seu programa sinistro.
O Brasil, triste dizê-lo, é sua presa favorita. Não é para admirar que estrangeiros
conspirem contra o ritmo nacional. O que nos abate e sucumbe é saber que
consciências brasileiras, que valores brasileiros se venderam ao ouro soviético
pela destruição da terra magestosa, da inconfrontavel terra do Cruzeiro do Sul.
Dignos, a um tempo, de compaixão e despreso. Por ventura já não bastam as
convulsões internas, inspiradas na politicagem vil, verdadeiro crime de lesa-
Pátria ?
Não nos bastam, por ventura, as competições partidárias que separam a família
brasileira, notadamente a maranhense? […]
Congreguem-se os valores maranhenses em proveito da terra berço. […]
(O COMBATE, 06\04\1936, p.1)

No caso que acabamos de ver, a imprensa representante do situacionismo no


Estado buscava pressionar as facções rivais, então majoritárias na assembléia, a desistirem
da intenção de destituírem do cargo o governador Aquiles Lisboa. Para isso usava o
argumento de que agindo nesse intuito desagregador, a oposição, inspirada numa
“politicagem vil”, acabava ajudando a concretização dos planos satânicos do comunismo,
visto que aquele “dragão infernal” se alimentava do ódio que brotava de “todos os setores
da vida humana”. O apelo desta matéria tem endereço certo: a renhida oposição das
facções magalhãesista e genesista. Alertando para o perigo que, supostamente, rondava o
país, o jornal governista procurava criar um clima de congraçamento, de união contra o
“dragão infernal” cuja presa favorita seria a terra do Cruzeiro do Sul. A família brasileira
estava, segundo afirmava o jornal, separada pelas competições partidárias, e isso a
enfraqueceria perante o avanço das “lavas de ódio” que escorriam pelo mundo, facilitando
a infiltração dos “estrangeiros” que estariam conspirando “contra o ritmo nacional”. Ainda
segundo O Combate, a família maranhense encontrava-se abatida por “convulsões
internas”, por isso a necessidade, segundo ele, de se congregar os “valores maranhenses em
proveito da terra berço”.
Em 20 de julho novamente na primeira página O Combate publica mais um
editorial que se volta para a questão do combate ao comunismo, enfatizando a necessidade
de uma contra-ofensiva à propaganda comunista. O título da matéria traz consigo a
intenção pedagógica que marcava a abordagem dessa questão: “O que todos devem saber”.

48
No combate á propaganda comunista promovida e realisada por estipendiados
pelo governo soviético, dever-se-ia divulgar por todos os meios e modos, quanto
se escreve e é publicado em todos os países da Europa e na América do Norte
sobre o que é a Rússia na atualidade e como aí se vive, segundo o depoimento
imparcial de testemunhas que a visitaram e não tem outro interesse senão o de
relatar o que viram. […]
A propaganda comunista usa e abusa do recurso á mentira, á fantasia e ao
embuste, fazendo acreditar que a Rússia Soviética é um paraíso onde se
desconhecem as grandes necessidades, onde todos desfrutam dos mesmos
prazeres […]. Ante a ofensiva dessas fantasiosas e inverídicas informações, faz-
se preciso a contra-ofensiva da verdade e da realidade, para se demonstrar a má
fé e o embuste dos interesseiros adeptos dos ideais leninescos. […]
(O COMBATE, 20\07\1936, p.1).

Informar a verdade e mostrar a realidade da situação na Rússia era um papel


que o jornal se atribuía, que ganhava importância e desse modo o legitimava socialmente e
principalmente diante dos governos. E isto se combinava na cobertura da atuação das
forças policiais responsáveis no estado pelo combate à “tarântula vermelha” no Maranhão.
Em editorial, O Combate elogia a atuação “segura”, “enérgica” e “reflectida” do chefe de
polícia do Maranhão, o “dr.” Humberto Fontenele da Silveira, na repressão ao comunismo
que, segundo o periódico marcelinista, já se preparava para destruir a Democracia. O
comunismo, denominado pelo jornal de “aranha maldita”, estaria agindo através dos seus
seguidores, iludindo alguns “conterraneos menos avisados” e, assim, pondo em prática os
seus “planos sinistros e diabólicos”. O que colocaria em jogo, alertava o jornal, a
segurança do lar, do próprio regime democrático e de “nossas mais honrosas tradições”.
Considerando-se o “sovietismo” uma verdadeira tarântula venenosa, que,
segundo a visão do jornal, ameaçava estender suas teias assassinas sobre todo o mundo,
seria imprescindível que os países defensores do Direito Público Internacional se
congregassem para, “pelo menos”, circunscrever as “atividades maléficas” dos Sovietes à
Rússia32.
Um tema frequentemente tratado pelo jornal O Combate, e também por outros
veículos, refere-se aos chamados modelos político-sociais existentes no mundo (liberal-
democracia, comunismo, fascismo), dentre os quais o país precisava optar por um.
Segundo o jornal, existiam elementos que representavam essas forças e que estavam em
atuação no país buscando implantar o regime político que defendiam. O papel que os
jornais, de maneira geral, se atribuem nessa discussão é o de apontar aquele que seria mais
apropriado para as condições da sociedade brasileira. No caso do matutino O Combate a

32
O título do editorial é “A Tarantula Vermelha”. O Combate, 02/01/1936, p.1.

49
posição assumida é bastante clara quanto à negação do comunismo, visto como ameaça às
tradições e instituições brasileiras.

NEM UM SÓ ARGUMENTO A FAVOR DA IDEOLOGIA MARXISTA


Ninguém, positivamente ninguém, apresentou até hoje um só argumento
sério, em favor da aplicação do regimen [sic] comunista em nosso país. Ao
contrario, todas as pseudo-razões invocadas em abono das teorias marxistas,
são flagrantemente inajustaveis á realidade e ao ambiente brasileiro. O
comunismo teoricamente, pretende anular as desigualdades das classes sociais,
destruindo as castas privilegiadas, muito embora na prática, não haja conseguido
esses desiderata.
Ora, no Brasil não existem marcadas e profundas desigualdades de classes e,
menos ainda, aqui se formaram castas privilegiadas. Teremos, quando muito,
pessoas que se guindaram ao apogeu da fortuna e do poder. Mas essas pessoas
não são de modo algum células de um casta privilegiada. Serão, se assim o
quizerem, indivíduos de mérito e qualidades pessoais que souberam se impor no
meio em que vivem. A cada passo, no borborinho da vida quotidiana, todos nós
topamos com homens portadores de um nome ilustre ou de um nome que nos
traz á memória o fausto e a fortuna de seus antepassados […] e que, no entanto,
vivem como nós outros, mantendo-se do produto do seu trabalho honrado.
[…] assim é a vida no Brasil, assim se passam as coisas no Brasil.
Não temos castas privilegiadas, nem radicais desigualdades de classes sociais.
[…] Não, as teorias de Marx e o regime comunista serão talvez, excelentes […]
para países e povos de características muito diferentes da nossa. Para nós e para
o nosso país, no entretanto, elas são positivamente uma concepção teratológica,
porquanto seus postulados provada e comprovadamente, não se ajustam nem
aos dados das questões em foco, nem aos termos da equação em que são postos
os nossos problemas. […]
(O COMBATE ,21\10\1936, p.1. Grifos nossos)

As razões invocadas pelos defensores da implantação do regime comunista não


se ajustariam à realidade brasileira porque se baseavam em problemas desconhecidos por
nosso país, como seria o caso das desigualdades de classe. Parte-se de um “fato”: a
inexistência de “profundas” desigualdades de classe, e chega-se à “comprovação” de um
outro fato, igualmente inquestionável, segundo seu autor: as teorias marxistas seriam
flagrantemente “inajustáveis à realidade e ao ambiente brasileiro”. Esse argumento faz uso
da ideia de “prova”, buscando atribuir a si próprio uma certa irrefutabilidade. O que seria
corroborado pelo fato de até então, outubro de 1936, não se ter apresentado nenhum único
“argumento sério” em favor da implantação do comunismo no Brasil. O editorial de O
Combate se situa enquanto detentor de uma certa autoridade que lhe permitiria afirmar esse
discurso. Sendo a palavra oficial do jornal, esse editorial procurava demonstrar o
conhecimento profundo do jornal acerca das coisas de que tratava, empregando uma
linguagem erudita e, ao mesmo tempo, pretensamente científica. Para tanto mobiliza
categorias do que seria um duelo filosófico-científico (“argumento sério”, “postulados” e

50
“prova”, “realidade”, “pseudo-razões” etc) entre os que defendiam que o comunismo
poderia ser instaurado com sucesso no Brasil e aqueles que discordavam disso.
Demonstrando ainda conhecer a “teoria marxista” o jornal afirmava que esta concepção
seria completamente (“positivamente”) “teratológica” ao “meio” brasileiro.
Dentre os muitos crimes ou atentados aos valores da civilização que se
convencionou imputar ao comunismo encontra-se o fato dele afirmar que as diferenças
sociais não eram legítimas, e ainda defender a necessidade da luta entre patrões e
empregados para superá-las. Isso demonstraria sua incompatibilidade com uma suposta
natureza humana. Os indivíduos que alcançavam o “apogeu da fortuna e do poder” o
faziam pelo mérito, segundo afirmava ainda o mesmo editorial. Eles sabiam impor suas
qualidades pessoais ao meio, mesmo porque não existiriam no Brasil, segundo o jornal,
castas sociais que tivessem quaisquer privilégios. Neste país as coisas seriam assim: cada
um viveria do “produto do seu trabalho honrado”.
Em outra matéria que se insere nessa questão dos regimes ou modelos políticos
o autor do artigo intitulado afirmava que “O melhor dos regimes” era o existente no Brasil.
O que o levava a defender que “deveríamos todos os bons brasileiros” reagir à propaganda
mentirosa que por aí estariam fazendo os “camelôs comunistas”.

O MELHOR DOS REGIMES


Falaz ilusão nutrem muitos brasileiros, supondo que as imperfeições do nosso
regime político não podem ser corrigidas no quadro das instituições vigentes, e
necessários se faz a sua transformação por completo de modo radical. E, quando
ao contato do primeiro porta-voz interessado e estipendiado para propagar certos
credos exóticos e extremistas, se deixam embalar por ilusórias ou falsas
informações, se tornam, então, exaltados adeptos de outros regimes de governo
que, na verdade, só têm o mérito de não ser o nosso e, por isso, são
desconhecidos os seus defeitos e não são sentidos os seus males.
O confronto imparcial, sereno, esclarecido e culto, porém, entre as normas de
governo que nos regem e essas outras que por aí em fora se praticam como o
comunismo, o hitlerismo e outros “ismos”, evidenciará com diáfana clareza,
demonstrará em flagrante palpável, que a liberal-democracia é o regime de
governo ideal. Senão, compare-se o poderio, a grandeza, a organização e elevado
grau de civilização da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte com
o que vale outros países onde não se pratica a liberal-democracia.
Semelhante prova é decisiva: todos indubitavelmente, prefeririam ser um
necessitado inglês, ou um operário inglês, ou um burgês inglês, ou um nobre
inglês, a ter a vida equivalente nos domínios de Stalin.
[...]
Aí, nessas palavras, se encerram conceitos cristalinos que enaltecem com toda a
verdade as excelências e os méritos do regime democrático, tão
lamentavelmente menoscabado por brasileiros transviados que se deixaram
empolgar por uma propaganda tendenciosa e falsa, mantida e desenvolvida à
custa de dinheiros de um governo estrangeiro que evidentemente, só visa
[ilegível] em um país colonial ou submetido ao seu protetorado [sic]. Ninguém
se iluda a esse respeito. A Rússia é hoje em dia um país asfixiado, sem comercio

51
com o exterior. E o Brasil seria para os comunistas um mercado excelente onde
ela viria colocar os seus produtos, se acaso conseguisse implantar aqui um
governo soviético.
Este o motivo por que Moscou tanto se interessa pelo nosso país.
Devemos, pois, todos os bons brasileiros, reagir contra a propaganda mentirosa
que por ai se faz, inspirada por programas traçados em Moscou, e tendentes a
desmoralizar o nosso regime de governo, que, malgrado a parolagem oca e
vazia dos “camelôs” comunistas, nos proporcionou o grau de grandeza e
progresso que atingimos e sempre fez a felicidade do nosso povo.
(O COMBATE, 13 de outubro de 1936, p.03)

A posição é de defesa explícita do regime em vigor no país que, segundo


afirma o autor do artigo, havia proporcionado ao “povo” um elevado grau de grandeza e
progresso, expressão da felicidade com que viveria nesse regime o “nosso povo”. Percebe-
se mais uma vez o uso de categorias de um discurso da objetividade/cientificidade, tais
como a ideia de “prova”, “evidência” e “conceito”, todavia, isso é feito com o fim de
ressaltar as vantagens do que considerava “o melhor dos regimes”, o qual estaria em vigor
no Brasil, e era identificado como “regime democrático” ou “liberal-democracia”.
Algumas vezes essa discussão acerca de modelos sociais era apresentada de
uma perspectiva mais religiosa, ocupando o cristianismo a posição onde anteriormente
aparecia a liberal-democracia.

A FOICE, O SIGMA OU A CRUZ?


Comunismo, integralismo ou cristianismo?
Diante da intrincada situação em que se acha o país, é dever urgente de todo
cidadão decidir-se, sem reservas, pelo cristianismo puro; pois somente o
cristianismo, praticado com sinceridade, é capaz de trazer justiça, paz e real
liberdade.
Coligimos e apresentamos aqui alguns dados exatos e suficientes para que os
nossos patrícios façam uma escolha acertada entre as três orientações que
pretendem salvar o Brasil.
O COMUNISMO
1- É materialista e ateu, provocando a condenação de Deus.
2- Sufoca a liberdade, o direito e a democracia.
3- É violento e destruidor.
4- Perturba a vida social e comercial do país, produzindo greves e levantes
sangrentos.
5- Escraviza o povo a meia dúzia de tiranos, que o explora atrozmente.
6- Promete muito e nada cumpre, ilude os operários com promessas falazes e
depois os torna mais infelizes e miseráveis.
7- É extremista, o que quer dizer sem senso, sem prudência. Age legalmente
contra os que não são como ele, eliminando-os do mundo por qualquer processo.
8- Resume-se o comunismo nessas três palavras. Inveja, ódio e violência.
O INTEGRALISMO
1- É contraditório. Os mais eminentes integralistas do Brasil são Gustavo barroso
e Plínio salgado. Entre ambos há divergências profundas. […]
2- É confuso. Não tem orientação segura. Pronuncia-se dubiamente a respeito do
capitalismo, judaísmo, liberdade de consciência e religião.
3- É intolerante. Não admitirá no seu ilusório reinado, outros partidos. Plínio

52
salgado tacha os que não adotam o seu sistema confuso, de retardados mentais ou
de velhacos (“A Ofensiva” de 01\11\36).
4- Julga os homens pela cor da camisa. Se esta não for verde o sujeito é um
defunto moral.
5- Estabelece divisão entre brasileiros, criando um grupo privilegiado o da
camisa verde.
6- É irracional. Exige que se obedeça sem discussão a um homem falível como
os demais, privando-nos do dom divino da analise, do exame e do raciocínio.
7- Produz fanáticos em vez de homens equilibrados e sensatos.
8 – É partidário de concordatas, ligando o temporal ao espiritual, com evidentes
prejuízos para ambos.
9 – Não cumpre o que promete. Há muitos capitalistas integralistas e os seus
operários não só não recebem salário justo, como não são tratados com a
consideração que o sistema promete; teoricamente combate o Carnaval, mas
ainda este ano a Polícia em Belém do Pará, foi com um bloco integralista
“inteirinho” ás grades da prisão… Por isso alguém já disse que o Integralismo é a
pele de cordeiro de baixo da qual se oculta a alma do lobo do capitalismo…
O CRISTIANISMO
1 – Não há incerteza para o verdadeiro cristão. Ele sabe como deve agir e para
onde vai.
2 – O cristianismo é tolerante. Exige que se ame os próprios inimigos, apresenta
os homens como irmãos.
3 – Não julga os homens pelo exterior. Avalia-os pelo coração e pelo caráter, que
procura aperfeiçoar. Não faz distinção entre o rico e o pobre, o judeu e o etíope,
o patrão e o operário. […]
4 – Exige obediência voluntaria e consciente, não a um homem como nós, mas a
cristo.
5 – Garante a felicidade do lar, implantando nele o amor, pelo qual todos
cumprem com alegria o seu dever e se respeitam mutuamente.
6 – Faz a grandeza de qualquer pais, levando os homens a cumprir o seu dever
com honestidade e desprendimento.
Se escolherdes mal, tereis que suportar as conseqüências desastrosas da vossa
escolha!
Um anti-extremista
(Da “A Tarde”, de Carolina)
(O COMBATE, 18\05\1937, p.3)

As atividades patrocinadas pelo comunismo internacional, por um lado, já


seriam, segundo essa ótica, denunciadoras do iminente risco de “desordem e anarquia”, em
especial quando voltadas para combater os defensores do fascismo brasileiro, gerando uma
situação de “intranqüilidade generalizada”, ameaçando colocar a autoridade pública em
colapso. Por outro, as “doutrinas extremistas da direita”, buscando combater as “doutrinas
extremistas da esquerda”, usariam de métodos radicais, como a militarização; gerando uma
espécie de ciclo vicioso, enfatizado por um articulista de O Combate: “abyssus abyssum
invocat, diziam os latinos. O abismo atrai o abismo, o extremismo chama o extremismo.
Para a esquerda não há maior apoio que a certeza de que a direita se organiza. E vice-
versa” (O Combate, 02/07/1935, p.04). Dentro desse quadro, a posição defendida pelo
autor do artigo torna-se clara: os extremismos são perigosos para a ordem e a manutenção
dos valores tradicionais (família, propriedade, etc.) da sociedade brasileira, ameaçando

53
destruir o Estado liberal democrático, segundo o autor, em vigor no país. Deve-se, então,
combater ambos os extremismos, de esquerda ou de direita. É isso que reclama o Brasil,
continua o articulista, já que “por índole, por tradição, por educação, o brasileiro é hostil
aos extremismos. Prefere a orientação equilibrada” (idem).
Como estamos afirmando, a estratégia recorrente do discurso de construção de
uma imagem social para o comunismo, colocada em funcionamento pelos jornais
ludovicenses da década de 1930, centrava-se no argumento da verdade científica,
acompanhada dos pressupostos da objetividade, neutralidade e imparcialidade na análise
dos fatos. Com efeito, quase sempre as matérias recorrem a uma autoridade científica,
supostamente reconhecida enquanto tal pela comunidade de cientistas dos outros países.

CADA UM NO SEU POSTO NA DEFESA DO REGIME


[…] Um dos maiores sociólogos modernos, BERDAEFF, escreve […] as
seguintes linhas que merecem ser divulgadas:
“os que não vêem no Bolchevismo senão a violência exterior de uma quadrilha
de bandidos exercendo-se sobre o povo russo têm dele uma concepção
superficial e falsa. Não se concebe assim o destino histórico dos povos. […] os
bolchevistas não são uma quadrilha de bandidos que haja atacado o povo russo
no seu caminho histórico e lhe tenha amarrado as mãos e os pés: a sua vitoria não
se produziu por acaso. O Bolchevismo é fenômeno muito mais profundo, muito
mais terrível e apavorante. Menos terrível é uma quadrilha de bandidos. […]
Nada há de particularmente feliz a esperar da Rússia, após a Revolução. As
devastações são muito graves, a desmoralisação terribilíssima. Deve baixar o
nível da cultura. […] O mundo caminha para uma dualidade trágica e para uma
luta entre elementos espirituais opostos. Mas é [de] uma importância enorme que
as ilusões se dissipem e seja o homem posto em face das realidades positivas.”

E quais são essas realidades ? […] nós as experimentamos dolorosamente e


podemos resumi-las no quadro sinistro de 24 e 27 de novembro do ano passado
que deve permanecer gravado na consciência dos brasileiros, povo e governo,
como uma sangrenta advertência a todas as forças organisadas, ás energias
morais e ás energias políticas do Brasil, para que ninguém se detenha um
momento na meditação acomodatícia dos fatos consumados e que cada um tome
na luta defensiva o logar que lhe assinala o cumprimento do dever, custe o que
custar.
(O COMBATE, 21\08\1936, p.1)

O Combate, procura explicar, através da “análise sociológica” de Berdaeff 33, o

33
Nikolai Berdiaeff Filósofo soviético nascido em Kiev, foi um dos principais representantes do
existencialismo cristão, escola filosófica que buscava examinar a condição humana numa perspectiva
cristã. Envolvido em atividades marxistas foi condenado a três anos de exílio (1899). Depois de cumprida
a pena morou em São Petersburgo, onde tomou parte em movimentos culturais e religiosos. Mudou-se
para Moscou (1907) e, após da revolução (1917), lecionou filosofia na Universidade de Moscou, porém
entrou em conflito com o regime e foi expulso do país, principalmente por suas ligações com a igreja
ortodoxa russa. Radicou-se em Paris, onde com outros exilados fundou uma academia de estudos
filosóficos e religiosos (1924) e um jornal, Put' (1925), por meio do qual combateu o comunismo
(QUADROS, 2009, p.73).

54
fenômeno do bolchevismo. Tal análise acerca da situação russa sob o regime implantado
naquele país desde 1917 é usada para explicar determinados acontecimentos políticos no
Brasil dos anos 1930, tidos como exemplos concretos e dolorosos da “realidade positiva” a
que seriam impelidos os povos frente à ameaça bolchevista.
O que o jornal pretende demonstrar é que os brasileiros já conheciam essa
“realidade positiva” do bolchevismo revelada pelo grande “sociólogo moderno”. Tal
realidade teria se manifestado, segundo afirmava, de maneira dolorosa para a consciência
nacional, através do “quadro sinistro” de novembro de 1935. O qual deveria ficar gravado,
ainda segundo palavras do próprio jornal, na consciência de todos, “povo e governo”,
como “advertência sangrenta” para que cada um tomasse o seu posto na luta em “defesa do
regime”.
Faz-se uso aqui de uma autoridade científica supostamente consagrada entre
seus pares, ou seja, no campo da sociologia, tomada como ciência legítima para explicar as
sociedades.

As condições a serem preenchidas para que um enunciado performativo tenha


êxito se reduzem à adequação do locutor (ou melhor, de sua função social) e do
discurso que ele pronuncia. Um enunciado performativo esta condenado ao
fracasso quando pronunciado por alguém que não disponha do “poder” de
pronunciá-lo ou, de maneira mais geral, todas as vezes que “pessoas ou
circunstâncias particulares” não sejam “as mais indicadas para que se possa
invocar o procedimento em questão”, em suma, sempre que o locutor não tem
autoridade para emitir as palavras que enuncia (BOURDIEU, 1996, p.89) 34.

No caso de Berdiaeff o jornal lhe reconhecia enquanto portador de uma


autoridade para falar sobre a situação da Rússia. As palavras do sociólogo seriam ainda
reforçadas em sua pretensão de verdade, por serem pronunciadas por um cientista que,
além de respeitado no mundo científico, era nascido na própria Rússia, conheceria,
portanto, a realidade daquele país antes e depois da instalação do “regime dos sovietes”.
O interessante no uso que o jornal faz dessa fala autorizada é que, em certa
medida, ela própria advém do peso que lhe empresta o veículo. Ou seja, quem garante sua
credibilidade é a imprensa, enquanto instituição que se coloca como mediadora entre o
saber científico e a sociedade. Esse poder de verdade é atribuído às palavras do sociólogo
quando o jornal afirma tratar-se de um dos maiores sociólogos modernos, e por isso suas
palavras “merece[ria]m ser divulgadas”. Tal poder de verdade decorria também do fato do
jornal considerar como a realidade o que é dito pelo sociólogo Berdaeff, devido à força
34
As aspas que aparecem no excerto correspondem a “citações” que Bourdieu faz do trabalho de J.-L.
Austin, How to do Things with Words.

55
atribuída às suas palavras. Ou seja, ele reconhece nesse discurso uma fala autorizada.
Desse modo, suas palavras adquiriam o poder mágico de criar aquilo de que tratava.
Temos que considerar as condições sociais dos usos da linguagem para não
cairmos numa análise puramente textual que tenta encontrar nas palavras o poder ou,
segundo os filósofos da linguagem, a força ilocucionária que muitas vezes elas exprimem
(BOURDIEU, 1996, p.85).
Como contraponto à posição notadamente contrária ao sistema político e social
em vigor na Rússia assumida por O Combate, podemos destacar uma matéria, publicada
em outro jornal, que se utiliza da mesma estratégia discursiva, mas com interesse diferente.
A matéria saiu em Tribuna e procurava mostrar a “eficiência do regime” soviético no
campo da pesquisa científica, para tanto, referendava suas afirmações nas palavras de uma
autoridade da área científica brasileira.

O ESTADO SCIENTIFICO DA RUSSIA VISTO POR MAURICIO DE


MEDEIROS
Rio, 27 (H) – Entrevistado sobre a descoberta do professor Kedfowski o
professor Mauricio de Medeiros disse que, no livro que publicou há dois anos
sobre sua viagem á Rússia, fala longamente do estado scientifico da Russia,
dizendo:
O meio revolucionario russo envolve um meio scientifico, mesmo com
desrespeito pelas tradições e pelo dogmas da ciência. E só assim pode esta
progredir. [...]
É o estado proletário que facilita todas as pesquisas. O homem de ciência
na Russia vive fóra de quaesquer preocupações politicas; tem todos os
recursos materiaes de que carece e, como não ha em torno delle as reducções
da vida e da opulencia da sociedade burgueza, satisfaz-se simplesmente com a
vida simples e confortavel mas fertilmente produtiva, que o Estado lhe assegura.
Se qualquer influencia lhe vem do meio externo, é essa especie de ansia pela
perfeição, que se nota na Russia sovietica e que faz de cada cidadão um
collaborador consciente do progresso do paiz num orgulho muito justo de
mostrar a eficiência do regime. O homem de sciencia trabalhando num meio
assim, deve certamente produzir muito. É innegavel que a sciencia russa, que
sempre foi digna de respeito, fez um salto prodigioso no sentido do
progresso, desde que o regimen sovietico della fez uma collaboradora, a
quem nada se nega, acho possível, sob este aspecto geral, qualquer descoberta
ou invenção, por mais audaciosa que pareça. É o que posso dizer com respeito á
notícia sobre a descoberta do meio biologico de immunização e tratamento da
lepra. (TRIBUNA, 28 de março de 1934, p.4)

Maurício de Medeiros era médico psiquiatra, professor, jornalista e político.


Formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, da qual viria a ser um dos
professores catedráticos. Ocupava uma posição de destaque no quadro científico nacional
da década de 1930, tendo já alcançado o reconhecimento internacional por suas

56
contribuições à psiquiatria35. Iniciara, concomitantemente à sua carreira científica,
atividade de jornalista e uma carreira política, tendo sido eleito deputado estadual (em
1916 e 1920) e depois federal (em 1921) pelo estado do Rio de Janeiro, posto que deixou
em 1923 para assumir a seção de patologia geral da Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro. Em 1927 foi novamente eleito deputado federal e reeleito em 1930 36, quando teve
seu mandato interrompido pela revolução que estabeleceu o Governo Provisório chefiado
por Getúlio Vargas. Assinando matérias no Diário Carioca e no diário paulistano A Gazeta
frequentemente criticava os rumos tomados por aquele governo. Após a fracassada
tentativa de revolução comunista em novembro de 1935 foi atingido pelas medidas
repressivas adotadas pelo governo, que o demitiu do cargo de professor catedrático na
faculdade de medicina, junto com vários colegas.
A matéria não se preocupa em explicar quem é Maurício de Medeiros,
limitando-se a dizer que ele é professor, mas não sabemos de que nível (secundário,
universitário). Acreditamos que isso ocorre por se tratar de uma personalidade bastante
conhecida no cenário científico, político e jornalístico do país.
O livro de que trata a reportagem, intitulava-se Rússia (Notas de viagem-
impressões-entrevistas-observações sobre o regimen soviético), lançado há dois anos (a
matéria do jornal é de março de 1934), ainda estava fazendo um enorme sucesso,
alcançando números de vendagens acima da média, considerando-se os padrões editoriais
do período (MOTTA, 2007, p.232). Segundo Motta o imediato pós-1930 propiciou um
debate político em que se buscavam alternativas para o país. Este anseio por ideias novas
estimulou a produção de livros, que atendiam os diferentes pontos de vista ideológicos do
público leitor. A Rússia atraiu a atenção, “tanto de detratores quanto de simpatizantes”
(idem, p.232), por representar uma das mais diferentes e inovadoras propostas sociais, e
desencadeou-se assim um “surto editorial” sobre a experiência dos Sovietes (idem, p.232).

Uma novidade foi o interesse despertado pelas edições simpáticas ao


experimento bolchevique, como os livros de Maurício Medeiros, Osório César,
Caio Prado Jr., Cláudio Edmundo, entre outros 37. Rússia, do médico e professor
universitário Maurício de Medeiros tornou-se um marco, afinal, foi o primeiro
35
Ver biografia de Mauricio de Medeiros no sítio do CPDOC/FGV (acessado em 11/02/2010, às 22h):
http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/mauricio_de_medeiros
36

37
Motta (2007, p.232) fornece as referências completas: Maurício Medeiros. Rússia (Notas de viagem-
impressões-entrevistas-observações sobre o regimen sovietico). Rio de Janeiro: Calvino, 1931; Osório
César. Onde o proletariado dirige. São Paulo: s/ed., 1932; Caio Prado Jr. URSS, um mundo novo. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1934; Cláudio Edmundo. Um engenheiro brasileiro na Rússia. Rio de
Janeiro: Calvino Filho, 1933.

57
relato de viagem de um brasileiro à União Soviética. Foi também o que
encontrou maior sucesso de público, verdadeiro estouro para os padrões
editoriais da época: a editora Calvino tirou seis edições sucessivas de Rússia,
numa tiragem total de 24 mil exemplares!
(MOTTA, 2007, p.232)

O “Estado proletário” propiciaria, segundo fala do cientista brasileiro


Maurício de Medeiros, que visitara a Rússia, “todos os recursos materiais de que carece” o
homem de ciência. Explicava-se assim porque os cientistas russos podiam efetuar novas e
importantes descobertas na área, comprovando desse modo “o progresso da ciência”
naquele país. Este “salto prodigioso” da ciência teria se iniciado, afirmava o professor
entrevistado pelo jornal, “desde que o regime soviético dela fez uma colaboradora, a quem
nada se nega”.
O efeito de sentido se caracteriza pela funcionalidade que um enunciado pode
assumir numa formação discursiva na qual é (re)produzido. Todos os possíveis efeitos de
sentido devem ser entendidos em seus contextos e a partir de suas condições de emergência
específicas. N’A Arqueologia do Saber, Foucault (2007, p.75) afirma que a função ou o
papel do discurso no campo das práticas não-discursivas, bem como o seu regime de
apropriação (o direito de falar; a competência para compreender; o acesso lícito e imediato
ao corpus dos enunciados já formulados etc.) devem ser entendidos como elementos
formadores do discurso, que nos permitem caracterizá-lo em sua unidade discursiva. Na
sua aula inaugural no Collège de France sintetizou o que seria, até então, um princípio
orientador das suas pesquisas:

[...] a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada,


organizada e redistribuída por certo número de procedimentos e perigos [...]
sabe-se que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em
qualquer circunstância, que qualquer um não pode falar de qualquer coisa.
(FOUCAULT, 2008, p.9).

As palavras do professor, escritor e homem público Maurício de Medeiros,


nas condições sociais específicas em que emergem no discurso jornalístico são apropriadas
de modo a produzir um efeito de sentido determinado, qual seja, elas expressariam a
verdade acerca da realidade vivida no “regime proletário russo”, em especial no que diz
respeito à avançada produção científica desse país. “Vivemos em uma sociedade que
produz e faz circular discursos que funcionam como verdade, que passam por tal e que
detêm, por este motivo, poderes específicos” (Foucault, 1979, p.231). Não é possível
contestar o discurso (re)produzido pelo jornal, afinal, o mesmo era pronunciado por um

58
cientista reconhecido (BOURDIEU, 1996), que estivera na Rússia comprovando o
“inegável salto de progresso” da ciência naquele país sob “regime proletário”.

3.2. Pacotilha: a repressão ao comunismo em nome da “ordem”

O jornal Pacotilha tem uma longa história. Fundado em 1880 com o objetivo
de combater a Escravidão e defender a República, foi publicado quase ininterruptamente,
nessa sua primeira fase que durou exatos 50 anos. Em 1930 parava de circular, mas em
1934 retornou ao cenário da imprensa maranhense, perdurando até 1938, quando encerrou
definitivamente. A direção do matutino foi entregue ao jornalista Nascimento Moraes que a
repassou, em julho de 1935, para Constancio Carvalho38.
Não sabemos se à época da revolução de 1930, que retirou do poder no
Estado do Maranhão a facção magalhãesista, este veículo já seguia as orientações dessa
facção. Nos parece que sim, visto que o jornal só voltaria a circular em 1934, justamente
quando Magalhães de Almeida procurava retomar sua condição de estrela de primeira
grandeza no cenário político local, aliando-se ao interventor Martins de Almeida e
fundando o Partido Social democrático (PSD) e reabrindo, como órgão oficial desse
partido, o jornal Pacotilha.
Nesse sentido talvez seja interessante destacar a contraposição existente entre
os jornais Pacotilha e O Combate. Claro, os diferentes enfoques são frutos do
posicionamento político de cada um dos jornais que através de suas matérias procuravam
demonstrar a honestidade, a dedicação e a grandeza dos seus políticos: O Combate
representava a facção marcelinista que havia indicado para o governo do estado, em
eleição vitoriosa na Assembléia Estadual, o sanitarista Aquiles Lisboa 39; Pacotilha, por sua
vez, pertencia à facção magalhãesista, que estivera à frente do poder estadual durante a
década de 1920, destituídos dessa posição em 1930, quando se iniciou o período das
interventorias.
Os dois jornais travavam uma disputa em torno da legitimação pública de
cada uma das facções, deslegitimando ao mesmo tempo o outro lado. Quando a facção
38
Presidente do diretório do PSD e suplente de deputado federal.
39
Convém lembrar que se tratou de uma aliança entre a facção marcelinista, reunida sob a sigla do Partido
Republicano (PR) e a facção genesista, organizada em torno da União Republicana Maranhense (URM),
que, desse modo, obtiveram maioria na Assembléia. Assim lhes coube o poder de indicar o governador e
os dois senadores do Estado.

59
marcelinista assumiu o comando do estado, o que se deu com a posse de Aquiles Lisboa,
ocorrida em junho de 1935, a facção magalhãsista já havia conseguido se aproximar da
interventoria do Capitão Martins de Almeida, e gozava, portanto, das vantagens auferidas
do controle da máquina de poder no Estado.
E como Aquiles Lisboa fora escolhido devido ao critério de não pertencer a
nenhuma das correntes políticas que compuseram a aliança PR-URM, Pacotilha ainda
tentava, nos primeiros dias do novo governo, defender os interesses da facção
magalhãesista. Sob a capa de um discurso em prol da economia de gastos e da defesa dos
serviços públicos, ela procurava justificar a manutenção dos funcionários das repartições
públicas. Procurando fazer uso do que ela mesma chamava de “opinião pública”, Pacotilha
pressionava Aquiles Lisboa para que não atendesse aos “interesses partidários” e não se
deixasse levar pela “vaga das competições pequeninas”:

UMA PERSPECTIVA...
Não acreditamos que o critério partidário, ou melhor a parcialidade no
julgamentos dos valores seja o preferido pelo atual Presidente do Estado nas
reorganizações que vai fazer nas Repartições Públicas. Alias não estamos de
ânimo deliberado a aceitar que S.exc. meta ombros a mais uma reorganização
nos quadros dos funcionários das Repartições Públicas. Inúmeras já têm sido
postas em prática, e nenhuma, pelo que nos parece, correspondeu às necessidades
dos serviços, pois que já se fala em nova reorganização...
Pelo visto, o que ocorre é que todas as reorganizações não têm visado até hoje
melhorar os serviços públicos, mas a satisfazer interesses partidários, aumentar
despesas e adquirir novos funcionários que em coisa alguma favorecem a
economia do trabalho. […]
[…] tantas reorganizações, reformas e mudanças que só servirão para colocar
bem protegidos aflitos [sic] e colocar mal o governo perante a opinião pública.
Mas estamos certos que S.exc. […] não se deixará levar pela vaga [ilegível] das
competições pequeninas, que sempre se precipitam pelas portas adentro dos
gabinetes dos Chefes de Estado. […]
S.exc. cairá no erro de muitos administradores, alguns até bem intencionados, e
que não deixaram no governo traços de sua superior orientação, por terem
esperdiçado longo tempo em reformas e organizações que os seus sucessores
pensando como eles, deitaram abaixo, ao tomarem as rédeas do governo!
Confiamos no espírito penetrante e na alta cultura do dr. Achilles Lisboa.
(PACOTILHA, 4 de julho de 1935, p.1)

Mas a questão das nomeações era central na manutenção das facções


políticas e Aquiles Lisboa logo após sua posse daria início às substituições dos
funcionários da administração pública estadual, indicando logicamente indivíduos os que
faziam parte das duas facções que detinham o poder nesse momento, os marcelinistas e
genesistas, também chamados de “unionistas” devido estarem reunidos na União
Republicana Maranhense (URM).

60
UM MÊS DE GOVERNO
Em trinta dias o sr. Aquiles Lisboa, o homem que veio governar sem partidos,
sem ódios e sem vinganças, demitiu ou transferiu cerca de seiscentos
funcionários públicos, adversários políticos dos marcelinistas e unionistas.
[…]
(PACOTILHA, 23 de julho de 1935, p.01)

A partir de então a disputa entre as duas facções, que repercutia nas páginas
dos seus respectivos diários, tornou-se mais aberta, mobilizando-se inclusive acusações de
que, entre os deputados da oposição magalhãesista existiam aliancistas. Por sua vez,
Pacotilha representava a facção magalhãesista e por isso estava sempre elogiando ou
defendendo os seus integrantes, como no caso de uma acusação que dizia ser aliancista o
deputado Felix Valois. Sua resposta veio sob a forma de desafio ao próprio governador, a
quem o deputado acusado não perdia a oportunidade de criticar.
Aqui vemos uma notícia que comentava a repercussão dos fatos na capital do
país:

O REPTO DO DEPUTADO VALOIS.


COMENTADO PELA IMPRENSA CARIOCA.
Rio, 27 – Causou ótima impressão, aqui, o gesto do deputado Felix Valois,
reptando o sr. Achiles Lisboa a provar ser ele adepto da Aliança Libertadora.
A imprensa comenta com simpatia a atitude desassombrada desse constituinte
maranhense, citando as dificuldades em que se encontra o sr. Achiles Lisboa para
obter provas do que afirmara ao ministro.
(PACOTILHA, 28 de agosto de 1935, p.1)

O deputado Felix Valois pertencia ao PSD (facção magalhãesista) e vinha se


destacando na Assembléia Estadual como um líder da oposição, segundo noticiava
Pacotilha. Após a cassação da ANL iniciou-se uma caça às bruxas (aliancistas) em todo o
país e diversas pessoas foram acusadas de simpatizar ou mesmo atuar naquela organização.
O deputado, devido ter estado presente em pelo menos uma das reuniões ocorridas no
Teatro Arthur Azevedo, começou a sofrer acusações de que era membro da ANL.
O silêncio da Pacotilha em relação à ANL no primeiro semestre de 1935, ou
seja, no período em que aquela organização estava na legalidade e atuava em São Luís
tentando recrutar adeptos e conquistar simpatizantes, nos fez deixar um pouco de lado esse
matutino magalhãesista, à época da elaboração do trabalho de conclusão da graduação.
Somente depois que tivemos oportunidade de consultar suas páginas referentes aos anos de
1936 e 1937, além do segundo semestre de 1935, foi possível perceber sua orientação
política em relação ao fenômeno do “extremismo”, como muitas vezes é chamado o

61
comunismo em suas matérias.
Com efeito, a partir de julho de 1935 as notícias dando conta do caráter
comunista da Aliança Nacional Libertadora se tornam mais freqüentes nesse jornal. Assim
vejamos o que se dizia por ocasião do fechamento da ANL:

REPRIMINDO O EXTREMISMO
Rio, 15 – A Polícia, de posse do plano de bolchevização do Brasil, traçado na
Rússia e que foi publicado, em parte, pelos jornais, conforme instruções do
governo, [que] está agindo severamente no sentido de assegurar a ordem pública
e as instituições nacionais. Rigorosas instruções foram transmitidas a todos os
governadores dos estados para a devida segurança do País. O plano se
configurava nesse ponto de vista: a Rússia, comprimida entre o Japão e a
Alemanha, estabeleceu o seu ponto de apoio no Brasil, visando a bolchevização
de toda a América do Sul.
(PACOTILHA, 16 de julho de 1935, p.2)

Antes mesmo da decretação de ilegalidade da ANL a posição do jornal


Pacotilha não era nem um pouco favorável às atividades da entidade, sobre a qual não se
divulgava nenhuma notícia. Quando ela aparecia nem mesmo era citada, ficava implícita
na matéria que se tratava da ANL, como no caso das mobilizações planejadas para marcar
a “gloriosa” data de cinco de julho40 e que foram objeto de diversas tentativas de boicote
por parte da AIB, que contou com o apoio da imprensa. Sem esquecermos que, tendo já à
sua disposição a Lei de segurança nacional, a Polícia de Vargas estava à espera de uma
oportunidade para dar o bote.
Mas foi a imprensa que se encarregou de divulgar que pairava sob a nação
uma ameaça:

PREVENÇÕES CONTRA POSSÍVEIS ALTERAÇÕES DA ORDEM


Rio, 04 - Acham-se de prontidão todas as forças da Marinha, Exército e Polícia.
Essa medida foi tomada em conseqüência de boatos que estão circulando em
torno das expressivas manifestações projetadas para cinco de julho, da qual
participarão elementos de todas as classes.
(PACOTILHA, 05 de julho de 1935, p.6)

Este jornal se colocava como um defensor da “ordem pública e das


instituições nacionais”. Sempre disposto a apoiar as medidas do governo central no sentido
garanti-las. A tendência conservadora do matutino podia ser notada nas frases que
estampava na primeira página, logo acima do nome do jornal. Logo em seguida ao
40
Repercutindo a influencia dos tenentes e, ao mesmo tempo, procurando se ligar ao que chamava os
movimentos revolucionários de 1922 e 1924, que estouraram em 5 de julho, a ANL organizou grande
comemorações em todos os estados visando demonstrar o quanto era popular e revolucionário o seu
movimento.

62
cerceamento da liberdade de atuação da ANL, ainda no bojo das discussões acerca da
constitucionalidade da medida, Pacotilha afirmava em uma daquelas frases de capa:

COM O TEMPO, A CALMA SE RESTABELECE E, SE A CENSURA FOI


PROPORCIONADA AO DESVIO, OS SEUS EFEITOS REMOTOS SERÃO
ÚTEIS E SALUTARES. (SERRAS E SILVA)
(PACOTILHA, 21 de julho de 1935, p.01)

Como já dissemos, a postura desse veículo era sempre no sentido de procurar


justificar ou mesmo legitimar as medidas repressivas tomadas pelo governo no tocante ao
que chamava de manutenção da ordem e tranqüilidade públicas. Segundo é possível das
noticias e matérias que publicava Pacotilha, “as autoridades” estavam de prontidão,
atuando sempre no sentido de impedir que “as agitações extremistas” obtivessem sucesso:

AS AGITAÇÕES EXTREMISTAS
Rio, 22 – As agitações extremistas estão preocupando as autoridades, tendo sido
frustradas várias greves que tentataram rebentar aqui e nos estados.
[...] a polícia esteve em grande atividade para empedir qualquer movimento.
(PACOTILHA, 24 de julho de 1935 p.01)

A construção da identidade social de um sujeito político como o comunista, e


do “regime” que ele defendia, foi se processando de maneira sempre negativa pela
imprensa, suas características definidoras encontram-se ligadas ao que poderíamos chamar
o campo do mal, marcado pela desordem, subversão, imoralidade, violência, crueldade,
materialismo (no sentido de que é contrário ao “espiritualismo”), antinacional, e daí a ideia
de traição, de covardia, reforçadas e repetidas ad infinitum, não só pela imprensa, mas pela
Igreja, militares, intelectuais, depois dos levantes comunistas de novembro de 193541.
O que dizemos pode ser verificado em muitas matérias que o jornal Pacotilha
no período de 1935 a 1938 dando conta de complôs, assaltos, furtos de gado, enfim, tudo o
que era social e moralmente condenável podia ser ligado à atividade dos comunistas e
mesmo do Partido Comunista, o qual procuraria, através de sua estratégia demolidora,
causar desordens e instabilidades sociais com o fim de revoltar a população contra as
autoridades e o regime legalmente estabelecido. Ou ainda noticiando as “descobertas” de
complôs comunistas, que funcionavam como um elemento propagador de tensão e medo,
devido à suposta ameaça de alteração violenta da adviria caso um desses planos fosse bem
sucedido. Isso demonstrava o quanto era necessário a atuação precavida e enérgica da
41
Tornou-se “fato” que militares, ou melhor, traidores da pátria, vendidos ao ouro de Moscou teriam
assassinado covardemente seus colegas de farda na noite em que tentaram sublevar unidades militares na
capital da República com o objetivo de entregar o país ao jugo estrangeiro. Ver: VIANNA, 2007; e
MOTTA, 2002.

63
polícia na repressão aos movimentos de caráter subversivo. Se considerarmos toda a
imprensa, foram muitas as noticias de complôs por todo o país, em alguns casos o
Maranhão aparecia como possível cenário de um deles, os quais nunca se desdobravam em
ação, eram sempre “descobertos”, “frustrados” pela policia...

COMPLOT “EXTREMISTA”?
Fortaleza, 25 – os jornais desta capital publicaram telegramas do Rio, noticiando
a existência de um “complot” extremista com raízes aqui, no Maranhão e no
Pará, visando depor os respectivos governadores.
(PACOTILHA, 27 de agosto de 1935, p.1)

A disseminação do medo constituía elemento fundamental para o controle


político e social. Chama atenção o emprego freqüente dos termos “complô” e “intentona”
para significar as movimentações de caráter “subversivo” que estariam sendo arquitetadas
com a ajuda do comunismo internacional, ou seja, pela Rússia. Dentre os casos que teriam
sido descobertos pela polícia antes de sua deflagração, um dos mais impressionantes e
ousados, segundo a matéria que Pacotilha publicou, foi o suposto plano de assalto ao trem
pagador arquitetado pelos comunistas de São Luís.
O jornal dá destaque à cobertura dos embates entre integralistas e aliancistas,
que depois de julho, ou seja, depois do fechamento da ANL, passam a ser chamados de
comunistas. Assim, em 7 de novembro de 1935, se noticiava a ocorrência de “graves
acontecimentos no espírito santo entre integralistas e comunistas”. Nesse mesmo mês se
noticiava que na Bahia, todos os sindicatos do estado haviam protestado contra o congresso
integralista42. mas de maneira geral, o que sobressai são matérias que reforçavam as ações
do governo de reprimir exclusivamente o movimento aliancista, acusado de planejar
subverter a ordem:

ALIANCISMO E INTEGRALISMO
Rio, 24 – Estando os jornais aliancistas insistindo para que sejam fechadas as
sedes integralistas, ouvimos no Ministério da Justiça que o governo não pode
cogitar do fechamento dessas sedes por serem muito diferentes as situações
legais da Ação Integralista Brasileira e da Aliança Nacional Libertadora, e
porque o movimento integralista não tem caráter subversivo.
Noticiam que elementos terroristas encobertos [sic], propalam que estão prestes a
estourar greves gerais em Porto Alegre, Paraná, São Paulo, Minas, Bahia e
Pernambuco. Acrescentam as notícias que, os governos da União e dos Estados
estão tomando providências para garantir a ordem, cercando por força armada os
bancos e as repartições de serviço público.
(PACOTILHA, 26 de julho de 1935, p.2)

Com a mobilização de uma parte da imprensa pedindo o fechamento da Ação


42
Protestaram contra o congresso integralista da Bahia. In: Pacotilha, 14/11/1935, p.5.

64
Integralista Brasileira (AIB), outros veículos, como Pacotilha, se apressaram logo em dizer
que, segundo o próprio governo, o movimento integralista não teria o “caráter subversivo”,
e, diferentemente, da ANL não representaria um perigo para a segurança do país.
Proliferavam também notícias de greves gerais organizadas por “elementos terroristas” que
teriam fim único de desestabilizar o regime, criando desordem social. Foi nesse clima que
se intensificou também o processo de constituição de um consenso em torno da ideia de
que o comunismo era o principal inimigo da Pátria. Ele passou a ser cada vez mais
entendido como sinônimo de “terrorismo”, “subversão da ordem” e, principalmente, de
“extremismo”. É interessante porque nesse momento e para grande parte da imprensa de
São Luis, que refletia de certa forma o quadro jornalístico brasileiro, somente o
comunismo era uma ameaça à ordem e às instituições nacionais. Nesse caso, o
qualificativo “extremista” era usado para se referir apenas aos comunistas. Sem dúvida isso
estava ligado ao fato do próprio governo Vargas ter preferido não incluir a AIB no rol das
organizações subversivas, considerando que a mesma não constituía perigo à ordem do
país. Mas acreditamos que, para além disso, existiam posicionamentos que expressavam a
própria visão de mundo do veículo. Em relação ao integralismo, por exemplo, existia um
espaço maior para notícias e em sua páginas não se encontram tantas críticas a esse
movimento como em Tribuna e O Combate. O jornal publicava matérias informando
acerca dos fatos importantes ligados à campanha dos integralistas no país inteiro.
Encontravam-se assim entrevistas ou reportagens sobre eventos integralistas. Abaixo
trechos de uma entrevista de Plínio Salgado que teria sido publicada por um jornal alemão:

UMA ENTREVISTA DO SR. PLÍNIO SALGADO


Berlim, 18 – O “Deutsche allgermeine Zeitung” publica uma entrevista do seu
correspondente no Rio de Janeiro com o sr. Plinio Salgado, chefe do movimento
integralista no Brasil. Nessa entrevista o sr. Plinio Salgado declara que, no
momento oportuno, os integralistas salvarão o Brasil.
Perguntado sobre se o programa integralista comportava o combate aos semitas o
chefe integralista respondeu que o problema a resolver no Brasil era moral e não
étnico. Os integralistas eram partidários do equilíbrios orçamentário pelo
monopólio financeiro do Estado […]. Eram contrários às ligas secretas
internacionais, aos trustes e aos partidos internacionais exploradores. O chefe
integralista terminou fazendo o elogio do nacional-socialismo alemão.
(PACOTILHA, 19 de setembro de 1935, p.1)

Antes dos levantes de novembro ele já noticiava acerca do perigo comunista


que rondava o país: “Luiz Carlos prestes estará no rio?”, caso isso fosse verdade tal fato
poderia constituir uma ameaça à ordem estabelecida (PACOTILHA, 7/11/35, p.2).

65
Depois que estourou a Intentona Comunista as coisas teriam mudado no
Maranhão. O que antes não passava de notas esparsas informando sobre eventos políticos
que terminavam em desordens ou em conflito entre extremados (e minguados), fanáticos
de credos políticos assumem ares mais realistas e concretos para a população do Estado.
Os comunistas estariam agindo sem que as pessoas se dessem conta do perigo que
representavam. Os seus planos, os quais já estariam sendo postos em prática, seguiam as
orientações de Moscou, segundo afirmava o jornal:

A QUADRILHA ERA COMUNISTA.


DESCOBERTO “COMPLOT” PARA O ASSALTO DO TREM PAGADOR – O
PONTO DE REUNIÃO ERA O CAMPO DE OURIQUE – UMA CÉLULA
MOSCOVITA NO JOÃO PAULO - A DIVISÃO DO DINHEIRO –
MOCAMBO, 248 – O “IDEALISMO” COMUNISTA – REPORTAGENS.
Conforme notícia [que] ontem inserimos, a Polícia descobriu nessa capital, uma
quadrilha que se preparava para assaltar o trem “pagador”.
De inicio, recaíram suspeitas sobre certos elementos, declaradamente
comunistas.
Essas suspeitas foram cabalmente confirmadas pela prisão dos elementos
componentes da trama sinistra que são quase todos fichados na Polícia como
partidários do credo comunista.
O LOCAL DO ASSALTO
Os membros do complô descoberto, designaram como local para o assalto ao
trem “pagador”, o kilômetro 14, Baixa do Sacavém, onde espreitariam a
passagem do comboio.
Entretanto, para a realização dessa empresa, se fazia necessária a posse de armas,
o que seria arranjado com o ataque a guardas-civis no último dia do carnaval.
Esse plano de adquirir armas fracassou, porque um dos “chefes” foi preso no dia
anterior à sua realização.
A EMPREITADA SINISTRA
Sabedores do dia e hora em que partia o trem, os comunistas se deslocariam para
o kilometro 14, onde seria, como já dissemos armada a emboscada.
Com a alavanca, a chave inglesa e o pé de cabra os trilhos seriam deslocados e o
trem precipitar-se-ia no fatal abismo. Enquanto isso, com um alicate seriam
cortados os fios telegráficos, evitando desse modo, qualquer comunicação com
uma estação próxima.
Feito o saque, os comunistas dariam inicio à partilha do dinheiro, estando como
“tesoureiro” o indivíduo Lauro Sampaio, talvez, o mais “capaz” entre todos os
“capazes”.
Agora, o que é revoltante, é a finalidade destinada à vultosa quantia se bem
roubada, que seria dividida em três partes distribuídas equitativamente da
seguinte maneira: uma parcela para o Partido Comunista; outra, para o
Congresso da Juventude Estudantil e Proletária do Brasil e a última para os
empreendedores do assalto.
ONDE FOI ARQUITETADA A TRAMA
A polícia conseguiu apurar que esses genuinamente “extremistas” se reuniam no
campo do Ourique, na Pedra da Memória.
A célula comunista freqüentada pelos assaltantes era localizada no “João Paulo”.
Em busca dada à casa número 248, da rua do Mocambo, residência de José
Soares, a Polícia apreendeu uma alavanca e uma chave inglesa com que seriam
arrebentados os parafusos e tala de ligação dos trilhos. Estão presos os seguintes
implicados no miserável complô, sendo em sua quase totalidade, conhecidos da
Polícia como “extremistas”: Lauro Sampaio (o “tesoureiro”); José Soares, que
guardava as ferramentas, José de Ribamar Soares, que prestou importante

66
depoimento, narrando o caso em todos os seus pormenores; Aluysio Serra, que
será ouvido ainda hoje.
BELO “IDEALISMO!”
Dessa maneira, os agentes de Moscou, supõem conquistar a consciência
nacional!
O arrombamento dos bancos de Natal bem demonstram ao Brasil que tanto
repudia o comunismo, seu elevado “idealismo” e desejo de “salvar” a nossa
Pátria. Agora esse processo posto em prática no Maranhão, o qual é apenas o
cumprimento fiel do programa traçado por Moscou, é uma prova de que os
Soviets são partidários desses atos de roubos, arrombamentos e assaltos.
ÚLTIMA HORA
Já [antes de] encerrarmos a presente edição, fomos informados de que a Polícia
tinha prendido mais um implicado no complô.
Imediatamente procuramos o Sr. Primeiro Delegado que nos confirmou o
“consta” que nos havia dado[,] informando que o preso é operário da Estrada de
Ferro São Luís-Teresina.
Segundo nos informaram, essa prisão abrirá caminho para novas investigações.
(PACOTILHA, sábado, 29 de fevereiro de 1936, p.2)

O que seria “revoltante”, segundo o jornalista responsável pela “reportagem”,


não era propriamente o roubo em si, mas o destino que seria dado ao dinheiro: uma das três
parcelas em que seria dividido o butim deveria ir para o Partido Comunista, outra para
ajudar a financiar um “Congresso da Juventude Estudantil e Proletária” e a última seria
repartida entre os comunistas que organizavam o assalto. Mesmo não tecendo mais
comentários ao fim que teria o dinheiro, depreende-se que ao informar que o mesmo
serviria para financiar as atividades políticas dos comunistas no país, como um congresso
da juventude estudantil ficava implícito que se tratava de um mau uso, porque patrocinaria
“complôs” sinistros como esse que aconteceria na capital maranhense, não fosse a ação da
policia que conseguiu frustrar esse “miserável complô” comunista.
O fato servia de alerta para a sociedade ludovicense porque o perigo estava
bem perto, existindo “células comunistas” em bairros da capital, a exemplo da que
funcionava no João Paulo, onde a polícia teria encontrado a prova do crime: uma alavanca
e uma chave inglesa.
A prova do crime mesmo encontrava-se no fato de se tratar, no caso dos
indivíduos presos, de pessoas declaradamente comunistas e que possuíam, por isso, ficha
na polícia confirmando que eram “adeptos do credo comunista”, conforme acentuava o
jornal.
No mesmo período saiu notícia informando da presença de comunistas no
vizinho estado do Piauí, que teriam envolvimento com a “mazorca comunista” ocorrida,
cuja “trama se estendia a quase todos os estados”:

67
OS COMUNISTAS DO PIAUÍ
Rio, 21 – O “Diário de Notícias” comentando a denúncia do procurador da
República contra 43 comunistas, no Piauí, publica o seguinte suelto (sic):
“Enviam de Teresina um telegrama capaz de causar pasmo a muita gente: o
procurador da República apresentou denúncia contra 43 pessoas inculpadas de
participantes, na mazorca comunista, cuja trama se estendia a quase todos os
Estados.
Mas o curioso é que nenhum dos chamados pequenos estados, salvo o Rio
Grande do Norte, apresenta um número tão elevado de comunistas às voltas com
a Justiça. Se excluirmos o Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Norte e
Pernambuco, nenhuma outra região do país prestou mais volumosa contribuição
ao movimento soviético ao qual devemos as delícias do estado de sítio.
Só o Piauí! Quem diria que por lá se ‘alinhasse’ tantos comunistas? E ocorre
notar que o maior número não é da capital; a denúncia do procurador da
República atinge trinta indivíduos só da pequena cidade do Parnaíba!”.
(PACOTILHA, 29 de fevereiro de 1936, sábado, p.8)

O jornal só publicava aquilo que achava relevante tornar público, e essa


matéria era importante porque demonstrava o quanto estaria disseminado pelo país o credo
comunista. Mais do que isso fazia ver que o perigo rondava o Maranhão, já que havia
tantos comunistas no estado vizinho. Se apenas na “pequena cidade de Parnaíba”, fronteira
do Piauí com o Maranhão, existiam trinta comunistas atuando, quantos não haveria na
capital do Maranhão, e por todo o interior do estado?

FURTO DE GADO NO INTERIOR.


ORDENS DO KOMINTERN.
O Departamento de Segurança Pública tem recebido de diversas zonas de criação
de gado, no Estado, reclamações lacinantes [sic] contra os furtos de bovinos,
cavalares e suínos nos Campos da Chapada, de Pinheiro e Santa Helena; em
Anajatuba, Rosário e outros municípios […].
Surge, porém, no meio dessas roubalheiras, uma circunstância grave, que é a da
presença de um agente comunista a insuflar e mesmo orientar esses furtos de
animais.
[…] efetivamente, todos os sinais [quais?] indicam que um agitador comunista
há dias preso pela Polícia, e que agia naquela zona, em poder do qual foi
apreendida documentação vermelha, era o orientador desses atos de rapinagem,
agindo naturalmente, abusando do estado de analfabetismo do nosso caboclo.
Sabemos, perfeitamente, que as ordens do Komintern são nesse sentido, não só
para agitar as massas, como para provocar a falta de carne nos mercados que,
logicamente, vai gerar descontentamento no meio das populações. […]
(PACOTILHA, 26 de fevereiro de 1937, p.8)

Mais uma vez uma notícia que poderia se resumir a mais um simples caso de
furto de gado em cidades do interior do estado se transformava numa “circunstancia
grave”. Como no caso do assalto ao trem pagador, a história mudava de feição quando se
descobria tratar-se de “agentes comunistas” que procuravam perturbar a tranqüilidade da
vida nessas terras. Esses furtos de gado teriam como objetivo, segundo o jornal, causar
escassez de carne para o consumo da população e, desse modo, plantar a semente do

68
descontentamento. Tudo isso fazia parte, segundo a visão difundida pelo jornal, das
orientações emanadas do komintern, cujas ordens, “sabemos perfeitamente” visavam
sempre “agitar as massas”.

3.3. O Imparcial: as visões heterogêneas acerca dos “extremismos”

Pacotilha não era o único jornal que pedia repressão aos “movimentos
extremistas por parte do governo” que, segundo o jornal, estaria “no dever de tomar
medidas severas, senão proibir as provocações extremistas quer da esquerda, quer da
direita”. Estas recomendações eram dirigidas ora aos comunistas e integralistas, ora apenas
aos “vermelhos”, como ocorria geralmente em O Imparcial. Esse pedido de atuação
repressiva do Estado era sempre justificado por uma defesa de democracia liberal, que
vigorava no país, segundo afirmavam todos os jornais estudados.
Este matutino se dizia independente e, diferente de O Combate e da Pacotilha,
não era oficialmente o jornal de nenhuma facção política. O jornal foi fundado em 1º de
maio de1926. Tornou-se mais tarde órgão dos Diários Associados, jornal de grande
circulação no estado. E é o único dentre os que consultamos que ainda existe até hoje.
O Imparcial contribuiu com as atividades integralistas em São Luís, garantindo
um espaço considerável seja para as notícias que divulgavam as reuniões, seja veiculando
textos ou matérias a pedido dos chamados camisas verdes 43 maranhenses. É somente neste
matutino que encontramos, por exemplo, os anúncios dos livros integralistas que eram
vendidos em São Luís (O Imparcial, 05/04/1935, p.6). Foi ele também o único que
veiculou a nota da AIB maranhense que objetivava boicotar a solenidade de instalação
oficial da ANL em São Luís, ocorrida em 5 de julho de 1935, no Teatro Arthur Azevedo (O
Imparcial, 05/07/1935, p.7). E como conclusão da campanha anti-aliancista e depois
anticomunista desse jornal citamos a série de matérias transcritas a pedido da seção da AIB
no Maranhão durante os dias 10 e 13 de julho, justamente visando “coincidir com a
presença da Caravana aliancista em São Luís” (CALDEIRA, 1990, p.66).
Nessa ocasião, o jornal publicou uma série de artigos combatendo a atuação do
PCB, acusado de se disfarçar sob a bandeira da ANL. As matérias começaram a aparecer
no dia 10 de julho de 1935 e prosseguiram nos três dias seguintes, sempre apresentando
43
Como ficaram conhecidos em todo o país os integrantes do movimento integralista. O que se deveu ao
fato de usarem uniformes de cor verde oliva. TRINDADE, 1979; CALDEIRA, 1999.

69
“provas cabais” da ação “insidiosa e maquiavélica do comunismo” no Brasil. Escolhemos
um trecho de uma dessas “reportagens”, como as chama o próprio matutino, para dar uma
ideia do seu conteúdo:

A ANL É UM DISFARCE GROSSEIRO DO PARTIDO COMUNISTA


BRASILEIRO.
Contra a cavilação das frases ordenadas no sentido do despistamento, a
eloqüência dos fatos e a lógica das provas.
Procurando mistificar a opinião publica, o diretório da A.N.L em Pernambuco
esquece a confissão do próprio chefe, quando diz, em mensagem aos seus
correligionários, que é comunista atribuindo os aplausos que recebe à doutrina de
que é adepto. […].
(O IMPARCIAL, 10/07/1935, p. 2)

Uma maneira de dar veracidade às matérias é enfatizar a questão das provas.


Estas teriam sido oriundas de uma investigação minuciosa empreendida pela polícia de
Pernambuco, que havia encontrado uma grande diversidade de documentos (cartas, planos
de ação, panfletos etc) em poder de comunistas, inclusive russos e poloneses, presos na
cidade do Recife. E se não fosse suficiente ”a eloqüência dos fatos e a lógica das provas”
para demonstrar o caráter bolchevista da ANL, visando aqui implantar o comunismo,
bastaria observar

[n]a própria exposição de motivos e fins da ANL a prova incontestável de que o


movimento que ela dinamiza tem fins nitidamente marxistas. Está no seu
manifesto: ‘trabalhadores manuais e intelectuais, proletários e semi-proletários
das cidades e do campo, comerciantes garroteados pelo Fisco, [...] jovens e
mulheres oprimidas, o povo pobre em geral – marchamos todos em fileiras
cerradas e compactas sob a bandeira da ANL, para a defesa e realização das suas
oportunas quão justas reivindicações: suspensão das dívidas externas;
nacionalização das empresas e bancos imperialistas; moratória para os pequenos
industriais, comerciantes e agricultores e anulação de todas as dívidas dos
trabalhadores do campo para com os grandes senhores territoriais’. Que significa
toda essa pregação, todo esse programa se não a simples e pura técnica
comunista universalmente preconizada pelos seus agentes como remédio para os
males econômico-sociais de todas as pátrias?
[…]
Os partidários da importação da planta exótica de Moscou […] precisam se
aperceber de que o povo já atingiu a sua maior idade, já sabe discernir, não sendo
mais possível a ilusão da sua boa-fé […].
A embromação não surtirá efeito. Pelo contrário: irritará as massas sofredoras
mais de perto visadas pelo embuste. […].
(O IMPARCIAL, 13/07/1935, p.2).

Em julho de 1935 temos outro fato que demonstra o posicionamento do jornal


em relação à presença de movimentos comunistas no Brasil. O Imparcial faz uma
transcrição, solicitada pela AIB- secção do Maranhão, de uma matéria publicada pelo

70
Diário da Manhã, jornal da cidade de Recife44, que tratava de um livro “rigorosamente
imparcial” sobre a Rússia dos sovietes. Segundo o resenhista, existia um debate que
colocava em lados opostos dois grupos: para um “aquilo é o céu”, para o outro, tratava-se
do “inferno”. O autor do livro, um jornalista brasileiro, viajara àquele país com o objetivo
de “tirar a limpo” esta controvérsia. Algumas características devem ser destacadas nessa
matéria, elas constituem também aspectos recorrentes das construções discursivas e
imagéticas sobre o comunismo, o que estamos chamando de formação discursiva.
Produziram imagens como esta:

O BOLCHEVISMO NA RÚSSIA
O Regime do comunismo, através de uma crítica do jornalista Plínio Barreto,
redator-chefe do “Estado de S. Paulo”, ao livro de Gondin da Fonseca 45.
(Transcrição do “Diário da Manhã” de Recife solicitada pela AIB, no Maranhão).
[…]
Em toda a Rússia, ninguém possui gatos nem cachorros. Foram devorados todos
os cães e todos os gatos. Como poderia o povo suatentá-los se as rações que não
chegam a sua própria alimentação! [...] Em algumas aldeias do interior, a
aparição de ratos é considerada uma benção providencial, - disputam-se como
petiscos ratos! [...] Houve tempo, nas vesperas da N.E.P., em que se chegou, no
interior da Rússia, a comer gente. “Ainda hoje”, afirma o Sr. Gondin da Fonseca
[autor do livro], durante invernos rigorosos há, por vezes, nos sovietes, casos de
anthropophagia. “Nenhum comunista honesto que haja percorrido e estudado a
URSS poderá negar esta minha afirmativa. [...] De noite, nas aldeias, o cidadão
não sahia da porta da rua para fora com medo de ser devorado pelo faminto
semelhante. Um pavor!”
[…]
(O IMPARCIAL, 05/07/1935, pp.2 e 4)

Em todos esses casos de relatos ou reportagens de “observadores” que teriam


estado na Rússia os jornais procuravam afirmar que constituíam “estudos sinceros”,
análises “imparciais” de um determinado fato, sempre ligado à “realidade” da Rússia
soviética.
Recuperando as construções discursivas e imagéticas presentes na matéria
44
De fato uma parte considerável das matérias e notícias veiculadas pela imprensa ludovicense não são
produzidas localmente, mas retiradas de outros órgãos, nacionais ou internacionais. Todavia, importa destacar
que elas são publicadas porque atendem a interesses e necessidades locais, caso contrário não seriam
veiculadas.
45
O jornalista Gondin da Fonseca esteve em Moscou como enviado do jornal Correio da Manhã, do Rio de
Janeiro. Tornou-se conhecido por suas reportagens sobre a “realidade da Russia soviética”, seus relatos
eram considerados “valiosos e insuspeitos”, segundo muitos outros jornalistas e autores de textos sobre o
comunismo tanto na imprensa quanto sob a forma de livros. Analisando um folheto apócrifo publicado
nos anos 1930 e intitulado Onda vermelha: bolchevismo e comunismo (regime de sangue... de fome... de
escravidão...) a historiadora Carla Silva constatou que Gondin da Fonseca é citado como um jornalista
insuspeito, pois seria simpático ao marxismo, antes de viajar até à Rússia. Ver Silva. s/d, p.160-162.
Depois dessa visita à Russia Gondin da Fonseca escreveu um livro sobre o que teria testemunhado in
loco.

71
jornalística que transcrevemos d’ O Imparcial, devemos destacar os elementos que
consideramos enquanto aspectos recorrentes da formação discursiva
comunismo/comunista.
Consideremos o seguinte enunciado: “Em toda a Rússia, ninguém possui gatos
nem cachorros. Foram devorados todos [...]. Como poderia o povo sustentá-los se as rações
não chegam a sua própria alimentação!”. Os três períodos que o compõem são
relativamente curtos, o que demonstra o cuidado em transmitir de maneira objetiva e clara
a informação. Ao mesmo tempo, as orações são encadeadas de modo que a ordem de
aparição de cada uma delas explica de imediato a antecedente. O resultado é um quadro
panorâmico bastante expressivo do que seria a situação vivida naquele país, que serve
como introdução para se compreender as situações seguintes a que teria sido submetido o
“povo” da Rússia, conforme apresentado pelo discurso jornalístico presente na matéria que
estamos analisando. O período subseqüente ([...] Em algumas aldeias do interior, a aparição
de ratos é considerada uma benção providencial, - disputam-se como petiscos ratos!)
funciona como uma espécie de transição entre as imagens aterradoras que o texto compõe.
As orações deste período possuem a mesma estrutura do anterior, são curtas e estão
interligadas, e assim como no primeiro caso, termina com uma oração exclamativa,
demonstrando surpresa, mas, principalmente, repulsa diante de tão humilhante situação por
que passaram e ainda estariam passando os habitantes de “algumas aldeias do interior”
daquele país.
Todo esse quadro de miséria e degradação humana delineado em pinceladas
rápidas pelo articulista, torna-se ainda mais vivo e ao mesmo tempo apavorante, com a
descrição dos casos “em que se chegou [...] a comer gente”. O que teria ocorrido na década
de 1920, época dos planos econômicos conhecidos como NEP, sigla para Nova Política
Econômica46. Ficava assim constatado que o regime político em vigor na Rússia era um
fracasso, além de totalmente nocivo ao ser humano, infringindo-lhe calamidades terríveis
como a fome, que de tão desesperadora só deixou como última saída ao russo faminto
devorar o seu semelhante. “Ainda hoje [...] durante invernos rigorosos há [...] nos sovietes,
casos de antropofagia”, segundo o autor do livro em que se baseia a matéria jornalística,
Gondin da Fonseca, “nenhum comunista honesto que haja percorrido e estudado a URSS

46
Após a guerra civil pela conservação do regime instaurado em 1917, e devido ainda ao forte bloqueio
econômico das nações capitalistas, a Rússia estava com sua economia seriamente abalada. A NEP foi a
política econômica implantada por Lênin para reverter esse quadro, utilizando instrumentos da economia
de mercado coordenados pelo Estado (HOBSBAWM, 1995, p.369).

72
poderá negar esta minha afirmativa”. Devido ao fato de se tratar de um jornalista
conhecido em todo país e que havia viajado à Rússia a serviço de um grande jornal da
capital da República com o objetivo de fazer a cobertura “imparcial” dos fatos, suas
palavras compartilhavam da autoridade institucional da imprensa, ele era o seu porta-voz
autorizado47 (BOURDIEU, 1996, p.87 e 89).
Gondin da Fonseca afirmava que a fome, o desespero e o medo seriam as
únicas coisas que estavam bem distribuídas entre a população. A intranqüilidade era maior
à noite, quando o “cidadão” nem sequer saia de casa, devido o “medo de ser devorado pelo
faminto semelhante. Um pavor!”. O objetivo de matérias como essa era transmitir um
sentimento de medo em relação a uma possível “comunização” do Brasil.
Estes enunciados penetrariam fundo no imaginário social, compondo um
sólido arquivo de textos e imagens, tendo fornecido as referências simbólicas para o
discurso sobre o comunismo\comunista não só dos anos 1930, mas também foi sendo
reativado e ressignificado por outros sujeitos em diferentes conjunturas políticas.
Importante observar que a matéria de O Imparcial foi publicada no dia 5 de
julho, justamente uma data que o movimento aliancista buscava construir como símbolo
das lutas pela libertação do país e que marcava o lançamento oficial do Diretório Estadual
do movimento aliancista no Maranhão, em solenidade no teatro Arthur Azevedo, em uma
data que buscava simbolizar as lutas revolucionárias de 1922 e 1924, empreendidas pelos
tenentes. Com efeito, isso fazia parte, por um lado, de uma estratégia dos aliancistas (e
comunistas), que visava instituir datas nacionais como marcos simbólicos de uma luta
política que tem significado efetivo somente para um grupo específico, mas que se busca
impor uma percepção de grande data nacional.

O Directorio Estadual da Aliança Nacional Libertadora convida a família


maranhense, funccionarios publicos, federaes, estaduaes e municipaes,
commerciantes, militares, auxiliares do commercio, estudantes, as classes
liberaes, operarios, a imprensa, o povo em geral, para assistirem à sessão que
realizará no Theatro “Arthur Azevedo”, às 20 horas do dia 5 de julho, na qual,
homenageando a grande data nacional, será officialmente installado o mesmo
Directorio e empossado o Directorio Municipal de São Luís, recem-eleito.
São Luís, 3 de julho de 1935
O DIRECTORIO ESTADUAL:
Evandro Cunha – Presidente
Pedro Bona – Secretario Geral
47
“O porta-voz autorizado consegue agir com palavras em relação a outros agentes e, por meio de seu
trabalho, agir sobre as próprias coisas, na medida em que sua fala concentra o capital simbólico
acumulado pelo grupo que lhe conferiu o mandato e do qual ele é, por assim dizer, o procurador”
(BOURDIEU, 1996, p.89).

73
Raimundo N. Gonçalves – Thesoureiro
Francisco Figueiredo – Secretario de Organização
Joaquim Rêgo – Chefe de publicidade.
(TRIBUNA, 04/07/1935, p.6)

Por outro lado, os adversários, como os integralistas e liberais conservadores,


tentavam justamente marcar as mesmas datas com uma intensa campanha de
“esclarecimento” sobre as desordens e violências que acompanhavam movimentos
pretensamente revolucionários e que diziam lutar pela libertação do povo. Como o sentido
do discurso é dado a partir de um sistema de relações que são tanto lingüísticas como
extralingüísticas, ele pode ser constituído, ou segundo Joanildo Burity “hegemonizado” de
diferentes maneiras, servindo dessa forma, como lugar de atuação de diversos processos de
significação. (BURITY, 2001).
Em relação ao apelo que a nota fazia para que “a família maranhense”
comparecesse à solenidade, importa destacar que essa questão tinha uma importância para
os movimentos políticos da época, devido ao peso decisivo dessa instituição naquele
momento histórico, especialmente porque seria ela uma das instituições que o comunismo
visaria destruir, segundo afirmavam os anticomunistas. Por isso não apenas os integralistas
vão procurar mobilizar essa ideia de “família”. Por outro lado, a família era “convidada” a
participar da Aliança Nacional Libertadora numa demonstração de que os aliancistas não
seriam contrários a ela, considerando-a como uma instituição importante para alcançar seus
objetivos político-sociais de transformar o país.
Analisando a conjuntura pós-novembro de 35, verificamos que a postura de O
Imparcial é no sentido de se posicionar enquanto guardião do que ele chama as
“instituiçoes democráticas” do país, que estariam ameaçadas nesse “grave momento” da
nossa história. É assim que atua divulgando e estimulando a criação de organizações
político-sindicais, como foi o caso do Comitê de Propaganda e Organização Syndical e de
Combate ao Extremismo:

Reuniram-se nesta capital, nos últimos dias de setembro findo, 14 syndicatos


representando mais de 5.000 trabalhadores e sob a presidência do dr. Paulo de
Oliveira deliberaram fundar um Comitê de Propaganda de organização syndical e
de combate ao extremismo, visando assim não só organizar as classes proletárias,
fortalecendo os respectivos syndicatos, como colaborar com o Governo na
solução dos problemas que dizem respeito ao mesmo proletariado, formando
uma Frente Única de Combate ás ideias extremistas, deletérias e dissolventes que
ameaçam, neste momento, o mundo. Foram acclamados patronos desse comitê,
os drs. Getúlio Vargas, presidente da República, Agamenon Magalhães, Ministro
do trabalho, e Paulo Ramos, governador do Estado. A comissão organizadora [...]

74
[deu] conhecimento do ocorrido ao chefe do executivo e pediram a s.exc. que
transmitisse o acontecimento ao dr.Agripino Nazareth, procurador geral do
Ministério do Trabalho, solicitação que foi atendida. Em resposta, o sr. dr.
Governador acaba de receber o telegramma que abaixo reproduzimos: ¨Agradeço
a v. excia. a communicação de haver installado, nesta capital, o Comitê
Proletario de Propaganda Syndical e Combate ao Extremismo. A iniciativa de
trabalhadores maranhenses, orientados pelo dr. Paulo de Oliveira e prestigiados
por v.excia. merece aplausos de todos os bons brasileiros, nesta hora em que os
extremistas da esquerda e da direita combatem a social democracia, regimen
adoptado pela Constituição de Julho. Attenciosas saudações. – Agripino
Nazareth. Procurador Geral Interino.¨
Estão, pois de parabéns, as classes syndicalisadas, pelo apoio que lhes deu o
illustre governador e a magnífica repercussão que sua iniciativa teve nos altos
cúpulos do Ministério do Trabalho.
(O IMPARCIAL, 02/10/1936, p.1)

O objetivo desse comitê era auxiliar as “classes proletárias” a encontrar solução


para os problemas que enfrentavam, dentre os quais o “combate ao extremismo” e suas
¨ideias deleterias e dissolventes¨ devia ser tratado como uma de suas prioridades, devido à
grave ameaça que representava para a unidade da Pátria brasileira. Fundado em setembro
de 1936 reunia, segundo noticiava O Imparcial, mais de 5.000 trabalhadores de 14
sindicatos só da capital maranhense!
Interessante como o jornal buscava dessa maneira mostrar-se, principalmente
para as autoridades federais, combativo aos males que segundo ele próprio ameaçavam o
país. É através do apoio e mesmo criação de organizações desse tipo que a imprensa
procurava ligar-se ao Governo Federal, contribuindo com as políticas trabalhistas que
naquele momento já estavam ganhando espaço dentro do cenário de disputa com as
diversas correntes sindicais em atuação no movimento sindical brasileiro (GOMES, 2008).
Desde março de 1931 que vigorava no país uma nova lei de sindicalização, que
na prática havia transformado os sindicatos em órgãos consultivos e colaboradores do
Estado. Segundo Ângela de Castro Gomes, a lei de sindicalização tinha como objetivo o
“combate a toda organização que permanecesse independente, bem como a todas as
lideranças – socialistas, comunistas, anarquistas etc. definidas como capazes de articular
movimentos de protesto contra a nova ordem institucional” (GOMES, 2008, p.163).
Cabe destacar o modo ou a estratégia de inserir a problemática no cenário da
tensão ou crise vivida pelo país. E ela estaria na ordem do dia não apenas aqui no Brasil,
sendo tão grave que ameaçava destruir o mundo. Uma forma de valorizar a si próprio
enquanto promotor de possíveis soluções para um problema dessas proporções. A
participação desse órgão de imprensa na organização dos trabalhadores torna-se mais
compreensível quando sabemos que o advogado que “orienta” esse comitê é também o

75
redator-chefe de O Imparcial, Paulo de Oliveira. Vemos, assim, o quanto estão atrelados
imprensa e política, no cenário de indistinção, onde os jornais procuram atuar como
intermediadores entre as “classes syndicalisadas” e o governo, prefigurando o modo de
organização que será implantado no Estado Novo. Mas nesse período, anterior ao golpe de
1937, já se reforçam alguns princípios que depois serão institucionalizados pela legislação
trabalhista de Vargas, como o paternalismo e a orientação governamental dos sindicatos de
trabalhadores (idem, p.165).
Em um trecho da matéria se afirma que a iniciativa de criação do comitê
mereceria o aplauso dos “bons brasileiros”, porque num momento em que os “extremistas
da esquerda e da direita” combatiam a “social democracia” era louvável uma iniciativa
como aquela levada a cabo pelo “dr. Paulo de Oliveira”. Ao indicar que existiam brasileiros
que eram “bons” deixava-se implícito que outros brasileiros eram “maus”, os quais só
podiam estar associados “às ideias extremistas, deletérias e dissolventes” que ameaçam a
suposta democracia brasileira. A Frente Única de Combate que se planejava criar deveria
justamente combater esses maus brasileiros, rotineiramente associados aos “extremistas”,
que às vezes incluíam “os da direita”, mas sempre “os da esquerda”.
Em outro artigo, sempre publicado com destaque na primeira página, Paulo de
Oliveira reforça a sua posição e também a do jornal, visto que ele é o redator-chefe de O
Imparcial, no sentido de conferir legitimidade às posturas das autoridades que defendem a
necessidade de estar alerta para combater os “traidores do regime”.

DE PÉ – PELO BRASIL
(Ao presado e respeitável amigo Sr. Dr. Paulo Ramos. Energia moça, ao serviço
da Patria.)
A nota que o ministro da guerra enviou à imprensa carioca e foi transmittida,
pelo alto commando de nosso glorioso Exército, a todas as Regiões Militares,
para effeito de publicidade não é só um documento de tranquillização à
nacionalidade, porque ella consagra, também, na concisão indemolível de seus
termos, nesta hora de graves solicitações para a Patria, o principio da autoridade,
que resulta firme e decisivo, alertado em todos os sentidos para rechassar os
trahidores do regimen, onde quer que elles apareçam. [...]
(O IMPARCIAL, 03/10/36, p.01)

A posição de apoio incondicional se estende para o chefe do poder estadual,


junto ao qual demonstra ter uma certa relação de proximidade, dedicando-lhe o artigo: “ao
presado e respeitável amigo Sr. Dr. Paulo Ramos...”. O que demonstra claramente a
posição política do jornal O Imparcial. Estava posicionado do lado governista, o que não
era fato raro na configuração política dos anos 1930. Com efeito, a indicação do

76
funcionário público federal Paulo Ramos para a interventoria do Estado foi uma medida de
conciliação encontrada por Vargas para encerrar, por um momento, a renhida disputa entre
as facções políticas locais pelo poder estadual. Por um lado, o nome de Paulo Ramos não
foi questionado, já que não estava ligado a nenhuma das facções políticas, e, por outro, sua
chegada colocou todos na condição de possíveis aliados, o que fez com que tentassem uma
aproximação. Assim os jornais de cada uma das facções procuravam ganhar as graças do
“Sr. Dr. Governador”.
Outra entidade fundada e dirigida por um articulista de O Imparcial foi
oportunamente nomeada de O.R.D.E.M, Organização de Resistência Democrática ao
Extremismo no Maranhão. Ela é criada em julho de 1937 pelo padre Astolfo Serra. Desde
o final de 1936, ele possui uma coluna, chamada Placard, em O Imparcial, na qual
comenta acontecimentos cotidianos da vida política e literária do estado, além de fazer
também orientações religiosas e morais. Antes disso, fundou e dirigiu, em 1932, o jornal
Notícias, que tinha como redator-chefe Nascimento Moraes, jornalista que possuía um
certo reconhecimento no espaço da imprensa da capital maranhense. A atuação do Pe.
Astolfo Serra na imprensa de São Luís tornou-se mais freqüente depois da sua rápida
administração à frente da interventoria estadual. Ele foi um dos muitos interventores que se
revezaram no poder do estado logo depois da Revolução de 1930. Não ficou mais de
alguns meses, tendo sido na época contestado pelas principais facções, então afastadas do
poder, mas que possuíam muita capacidade de pressão, exercida principalmente através dos
jornais que controlavam. A pressão dos chamados “decaídos” juntamente com a perda do
apoio de Reis Perdigão, minaram suas chances de permanecer à frente da interventoria.
Tentou se eleger deputado para a assembléia estadual nas eleições de 1934, mas não obteve
sucesso.
Os objetivos da ORDEM parecem seguir a mesma linha do Comitê Proletário
dirigido por Paulo de Oliveira, com a diferença de buscar congregar todos os grupos
sociais e profissionais, além da ênfase moral e religiosa devida ao seu idealizador. Segundo
consta de matéria publicada em O Imparcial, o programa da entidade é “simples”:

I- DEFENDER o nosso regime, a Democracia, as Instituições pátrias contra o


COMUNISMO e contra o INTEGRALISMO.
II- NENHUMA interferência em assumptos privativos dos partidos locaes,
porque no combate ao EXTREMISMO todos os partidos podem e devem se aliar
á ORGANIZAÇÃO DE RESISTENCIA DEMOCRATICA AO EXTREMISMO
NO MARANHÃO, embora possam divergir no tocante á atittude assumida na

77
campanha presidencial.
III – Orgão de acção essencialmente política, a ORDEM sufragará nas eleições
de janeiro o nome do eminente brasileiro DR. JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA.
MARANHENSES!
Unamo-nos na defeza do Brasil, contra o COMMUNISMO e contra e o
INTEGRALISMO!
Tudo pelo Brasil e pela Democracia!
Viva o Brasil sem dictador proletário ou totalitário .
(O IMPARCIAL, 31/07/37, p.03)

Ao mesmo tempo em que combate os extremismos, a ORDEM pretende se


tornar uma força suprapartidária, com a intenção clara de influir na disputa presidencial e,
caso fosse bem sucedida na sua escolha, receber depois o apoio do governo central em sua
pretensões na política local. Vê-se o quanto o “combate aos extremismos” podia funcionar
como investimento para o acúmulo de notoriedade e honorabilidade social que poderiam
depois ser mobilizadas na disputa política local. O Pe. Astolfo Serra, assim como o
advogado e jornalista Paulo de Oliveira, estão acumulando trunfos políticos e sociais em
sua campanha que visa afastar as ameaças ao “regime democrático” e às “instituições
pátrias”. Isto fica patente ainda no interesse que têm em divulgar as respostas das altas
personalidades e autoridades da política nacional com as quais tentavam se articular:

O.R.D.E.M.
O nosso confrade Astolpho Serra, que orienta com um grupo de amigos a novel
organização democrática denominada ORDEM recebeu, ontem, do ministro
José Americo de Almeida, candidato á Presidencia da Republica o seguinte
telegrama:

RIO, 9.
Padre Astolpho Serra
S.Luiz.
Com os meus calorosos applausos ao vosso movimento democratico agradeço
desvanecido o apoio da ORDEM a minha candidatura, pedindo estender esse
agradecimento demais amigos.
JOSÉ AMERICO
(O IMPARCIAL, 10/08/1937, p.2)

Importante também era demonstrar que se estabeleciam relações dentro do


Maranhão, que confirmavam a aceitação e o crescimento da ORDEM, essa “organização
que não tem caracter de partido politico”:

O.R.D.E.M.
A Organização de Resistência Democrática ao Extremismo no Maranhão, criada
e orientada pelo nosso confrade Astolpho Serra, com um grupo de amigos,
organização que não tem caracter de partido politico, ha recebido, em nosso
meio, valiosas adhesões de elementos de todas as correntes partidarias e de

78
valiosos elementos independentes.
A ORDEM acaba de fazer uma frente unica de combate aos extremismos com 25
syndicatos proletarios filiados ao “Comité de Propaganda e Organização
Syndical”.
Essa frente unica vem constituir, em nossa terra, uma formidavel resistencia
democratica na defesa sadia das instituições patrias.
A proposito desse movimento democratico o Padre Astolpho Serra vem de
receber da longinqua cidade de Carolina o seguinte telegramma:
Padre Astopho Serra. S.Luiz.
Com a devida venia transcrevi no periodico local “A Tarde” vosso placard de 20
de julho.
Aproveito oportunidade dar-vos inteira solidariedade .
(O IMPARCIAL, 13/08/1937, p.6)

O reconhecimento de sua importância em “nosso meio”, quer dizer, no próprio


estado do Maranhão, era dado pelas adesões de “valiosos elementos”, sejam os
“independentes”, significando dizer que não estavam ligados às principais facções
políticas, sejam os que pertenciam a alguma dessas “correntes partidárias”. Mas também
corroborava o crescimento da organização o fato do telegrama vir de Carolina, “longinqua
cidade” maranhense, demonstrando, mais uma vez, o quanto estava difundida a ORDEM
de Astolfo Serra. Cabe destacar que a sua pregação tinha como objetivo declarado
combater os extremismos, incluindo além do comunismo, então atuando na
clandestinidade, o movimento integralista que contava, nesse momento (agosto de 1937),
com a condescendência do Governo Vargas, interessado que estava em utilizá-lo na sua
orquestração para deflagrar mais um golpe de estado. A posição da ORDEM, e
consequentemente de seu mentor, se expressa em tomadas de posição como esta:

PLACARD
Não me surprehendeu a carta que o dr. Achilles Lisbôa fez publicar em Acção de
ontem.
Aquilo tudo é um desabafo; força é confessar.
Quem sahiu do governo nas circumstancias em que sahiu o illustre leprologo,
após os movimentados episodios de sua administração, ha-de forçosamente
trazer a alma cheia de travores, e a boca amarga de maldições aos homens e ao
mundo.
A carta do brilhante intelectual cathecumeno do integralismo é um
impressionante SCHEMA de seu estado psychologico, que, depois do silencio de
um anno , aproveita a primeira oportunidade para deflagrar numa descarga.
O que me causou especie, no caso em apreço, foi a ingenuidade do consagrado
scientista, em quem a sinceridade e admiração dos homens justos, reconhecerá
um espirito esclarecido e douto; ingenuidade dolorosa, por certo, que vae ao
cumulo de suspirar pela vinda de um regime, como é o integralismo, que jamais
lhe daria essa liberdade de acção para insultar, pela ACÇÃO os altos poderes da
Republica e até áquelles seus mais dedicados amigos, que o elevaram ao poder e
o cercaram decididamente!
Respeito os motivos de fôro intimo, que exacerbam o dr. Achilles, bem como a
suggestiva influencia de ordem sentimental, nascida da sua amizade ao

79
venerando dr.Belizario Penna, que o polariza agora para o Sigma.
Mas, não se illuda o illustre jornalista. Nesta Democracia, apesar dos pezares, ha
mais sinceridade, mais lealdade, mais justiça que no Integralismo, cujo regime é
de despersonalização do individuo, e um dos mais arrojados systemas de
sociolatria.
A prova é muito simples.
E eu vou recolhel-a na propria ACÇÃO e na OFFENSIVA.
Pela carta do dr. Achilles verifica-se o abysmo, que se cavou entre elle e o grande
presidente Getulio Vargas e os amigos e admiradores do Presidente.
Ahi está um ponto capital...
Pois bem, essa mesma ACÇÃO deverá causar ao dr. Achilles aborrecimentos
tremendos, se o respeitavel medico folhear a collecção de maio e junho ultimo.
O Dr. Getulio é para os integralistas maior que Plinio Salgado, mau grado agora
acceitem esses violentos ataques do dr. Achilles ao Chefe da Nação!
Vou demonstrar:
-Leia-se a seguinte manchete de ACÇÃO de 7 de maio, nº 57:
“Quando o historiador do futuro fizer o cadastro dos patriotas, que actualmente
se oppõem ao triumpho dos inimigos da Patria, inscreverá entre os mais
decididos e destemerosos o nome do presidente Getulio Vargas”.
-Outra manchette de ACÇÃO de 12 de maio, nº61:
“A attitude energica e prompta do Presidente Vargas repelindo os impetos
criminosos de certos satrapas de provincia, a serviço do Anti-Brasil, traz á Nação
Brasileira a certeza de que a Patria não sucumbirá aos golpes traiçoeiros de seus
covardes inimigos.”
-Mais esta de ACÇÃO de 12 de junho […]
-Para terminar: Leia o dr.achilles esta legenda de ACÇÃO de 16 de junho, nº 92,
ao cliché do dr. Getulio: “Presidente Vargas, unica espereança de liberdade e
justiça”.
[…]
Isto posto, que pensará o Sr. Achilles desses homens que se propõem a salvar o
Brasil?
Qual, senhores, regime bom é o nosso e … viva o Dr. Getulio Vargas!
(O IMPARCIAL, 12/08/1937, p.5)

Em todo perpassado por um domínio das regras do jogo e demonstrando uma


certa noção das coisas que estavam em disputa no jogo, este texto de Astolfo Serra é uma
tentativa de demonstrar o quanto valia a pena jogar este jogo político. Sua intenção era
alertar o “ingênuo” Aquiles Lisboa, rifado da posição de destaque que ocupou em virtude
de uma determinada configuração do equilíbrio de poder entre as principais facções, para o
fato de que é somente dentro deste “regime”, ou através deste jogo de tipo oligárquico
(ELIAS, 1999, p.93), por Astolfo Serra denominado de “Democracia”, que existe a
possibilidade de reivindicar as coisas, principalmente os benefícios, que o jogo oferece e
que tendem a mobilizar os agentes em disputa pelas melhores posições.

Aquiles Lisboa havia esposado, em nota pública saída no jornal ACÇÃO, as


ideias de Plínio Salgado e, dessa forma, estava buscando se reposicionar no concorrido
espaço político maranhense. A fala do líder da ORDEM soa como um conselho em que se

80
diz que é melhor continuar a jogar este jogo, visto que mesmo estando deslocado ou fora
das principais posições de poder, existe sempre a possibilidade de alcançá-las novamente,
fora dele esta possibilidade não existe, este seria o caso sob o integralismo, onde, segundo
Astolfo Serra, a liberdade de atuar, discordar ou reivindicar o poder, não existe.
Existe uma certa heterogeneidade de vozes que se pronunciam acerca do
integralismo n'O Imparcial. Ainda em 1934, encontram-se matérias elogiosas desse
movimento, como uma que destaca a presença na capital maranhense do “illustre escriptor”
Gustavo Barroso que iria ministrar, na qualidade de “doutrinador integralista”, uma série
de conferências no Teatro Arthur Azevedo. Como veremos, a nota expressa o ponto de
vista oficial do jornal em relação ao movimento integralista e, por isso, a transcrevemos
integralmente:

GUSTAVO BARROSO E A CARAVANA INTEGRALISTA


Espera-se, hoje, em S.Luis, a Caravana Integralista, dirigida por Gustavo
Barroso.
Os embaixadores do Integralismo aportarão a esta capital no “Itahité” e serão
recepcionados condignamente, quer pelos integralistas sanluisenses, quer pela
intellectualidade e o povo do Maranhão.
A figura de Gustavo Barroso, o illustre escriptor [ilegível] a caravana e actua
neste momento infatigavel e ardentemente, na propaganda que vem operando no
paiz o Integralismo, é bastante estimada em nosso meio não só pela sua
projecção na vida literária do Brasil actual como pelo facto de ter deixado, na
terra maranhense, amizades formadas durante uma temporada que passou nesta
cidade, ha alguns annos.
Recebe, pois, o Maranhão, calorosamente a Gustavo Barroso e seus
companheiros de propaganda. Irá ouvir sua palavra culta em varias conferencias.
Traduzindo, no desataviado desta notícia, os sentimentos do Maranhão para com
Gustavo Barroso, o “Imparcial” apresenta boas-vindas ao illustre escriptor e seus
dignos companheiros.
Das 19 as 20.30 horas, terá logar, no Theatro Arthur Azevedo, a recepção solene
feita pelos integralistas locaes a Gustavo Barroso, que doutrinará sobre o
integralismo.
(O IMPARCIAL, 02/01/1934, p.1)

O veículo se coloca enquanto porta-voz da “intellectualidade” e do “povo” do


Maranhão, dando boas-vindas à Caravana Integralista e ao seu Chefe de Doutrina,
garantindo que seriam “condignamente recepcionados” na terra maranhense. Mas, ao
contrário da intenção demonstrada pelo jornal, as posições em relação ao integralismo
estavam longe de ser homogêneas. Assim, é no próprio O Imparcial que vai ser publicada
um artigo que desmonta qualquer pretensão de um consenso acerca do integralismo. O
título desse artigo, “Doutrina ou 'gaffe'!”, já assinala a direção das críticas endereçadas
àquele que, uma semana atrás, era tido como uma figura de projeção na vida litarária do

81
país. O artigo é assinado por Amorim Parga e constitui-se numa espécie de cobertura da
passagem por São Luís da Caravana Integralista, destacando as conferências ocorridas no
principal teatro da cidade.
As críticas revelam, por um lado, certo nacionalismo e, por outro,
paradoxalmente, um aferrado bairrismo, cioso das suas próprias “tradições literárias” que
não se poderia sequer comparar com o “embusteiro” Gustavo Barroso. As razões dessas
críticas nos ficam claro quando sabemos que Amorim Parga, que assina essa matéria em O
Imparcial, é um militante político de esquerda que ajudou a fundar, ao lado de conhecidos
comunistas ludovicenses como Pedro Bona e Abdelgard Brasil Corrêa, a Liga Anti-
fascista, conforme nota publicada no mesmo O Imparcial:

LIGA ANTI-FACISTA
Em reunião realizada ante-ontem na qual estavam representadas todas as classes
sociaes, fundou-se, nesta capital, a Liga Anti-Facista, que, como seu nome
indica, tem como objectivo unico combater a doutrina política facista[sic].
Para confecção do programma de acção dessa agremiação, foi escolhida uma
commissão entre os seus fundadores, composta de nove membros.
Dentro de poucos dias reunir-se-á novamente a Liga Anti-Facista, para tomar
conhecimento do trabalho da commissão referida.
Está assim constituido o Comité de Organização da Liga Anti-Facista: Pedro
Bona, Amorim Parga, Fabio Castro, Abdegard Brasil Corrêa, Callisto de Moraes
Accaccio, Benedito Costa, Herculano Pastor de Almeida, Amâncio Pires e
Raymundo Octavio de Jesus.
(O IMPARCIAL, 14/01/1934, p.6)

Dentre os fundadores da Liga Antifascista, os mais conhecidos integrantes do


que podemos chamar de movimento esquerdista de tendência comunista no Maranhão, são
Pedro Bona e Abdelgard Brasil Corrêa, que atuaram decisivamente na organização da
ANL, ocupando postos de liderança.
Em correspondência localizada nos arquivos do Poder Judiciário do Estado
do Maranhão encontramos alguns ofícios em que o Executor do Estado de Guerra no
Estado, o Coronel Otto Feio da Silveira, informava ao Juiz Federal acerca da prisão de
alguns indivíduos suspeitos de tomarem parte no “movimento subversivo de que ia ser
teatro o Maranhão” em novembro de 1935.

Ministério da Guerra
S.Luiz,
Em 7/5/36

Nº 47
Do coronel Executor do Estado de Guerra.
Ao Exmo. Sr. Dr. Juiz Federal neste Estado.
ASSUMPTO: (comunicação) faz uma

82
I – Comunico a V. Excia. que mandei recolher presos ao Quartel do 24º B.C., em
compartimento especialmente para esse fim preparado, os extremistas, JAYME
GUTMAN, JOSÉ LEAL GONÇALVES, ABDEGARD BRASIL CORRÊA,
JOAQUIM MORAES REGO, JESUS NORBERTO GOMES, RAYMUNDO
CLARINDO SANTIAGO E IGNACIO DE AMORIM PARGAS, em
consequencia do relatorio constante dos autos do inquerito policial mandado
instaurar pelo Dr. Chefe de Policia sobre os factos de origem communista
occorridos nesta Capital em Novembro do anno findo.
II – Nesse relatorio, apresentado pelo 1º delegado Dr. Ignacio Pinheiro, consta
[…] que esses individuos “tinham cooparticipação no movimento subversivo de
que ia ser theatro o Maranhão”.
[…]

Otto Feio da Silveira


Cel. Executor do Est. de Guerra.

Os acontecimentos ocorridos em novembro de 1935 referem-se às possíveis


tentativas de levante comunista na capital do Estado. Todavia, em toda a imprensa, não se
noticiou qualquer mobilização de caráter subversivo ou comunista da qual se pudesse dizer
que objetivava tomar o poder político durante o período em que insurreições desse tipo
ocorriam em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Mas acerca das prisões efetuadas não resta
dúvida que foram motivadas por serem aqueles indivíduos presos os mais destacados e
conhecidos integrantes ou simpatizantes do movimento aliancista em São Luís.
Consideramos que a compreensão mais adequada do surgimento e atuação no cenário
maranhense de um grupo de militantes de orientação comunista, que acreditamos teve sua
gênese no início da década de 1930, demandaria uma outra pesquisa. Todavia,
identificamos alguns fragmentos dessa história que, para os objetivos de nosso trabalho,
nos permitem visualizar essas movimentações comunistas na capital maranhense.
A partir do recorte cronológico estabelecido, 1935-1937, consultamos também
algumas edições de jornais dos anos de 1934 e 1938, apenas para efeito comparativo, visto
que partimos do pressuposto de que a incidência de matérias sobre o comunismo tornou-se
maior com o surgimento da ANL e principalmente após os levantes de novembro de 1935.
Assim, em 2 maio de 1934 encontramos a seguinte notícia:

O 1º DE MAIO
Ao amanhecer de ontem, a policia prendeu alguns auxiliares do commercio,
estudantes e funcionários públicos quando pregavam boletins de propaganda
communista na via publica.
(O IMPARCIAL, 02/05/1934, p.1)

Interessante observarmos que estas prisões ocorrem no mês de maio, dando a

83
entender que esses militantes estavam atuando no sentido de difundir seu movimento
político, tendo como um foco privilegiado os trabalhadores urbanos. A nota é quase um
telegrama na maneira direta como informa sobre o fato ocorrido. No entanto, não oferece
maiores detalhes acerca do mesmo, limitando-se a dizer da profissão dos propagandistas do
comunismo na ilha de São Luís. Não sabemos, por exemplo, onde essas prisões ocorreram,
se no centro da cidade ou em bairros mais afastados, a partir dessa informação poderíamos
inferir qual era o público visado pelos militantes comunistas. Através dessa nota curta de O
Imparcial não somos informados acerca de quantos foram presos, ou se esses que o foram
eram efetivamente todos os que estavam pregando boletins comunistas, não tendo tempo
de escapar absolutamente nenhum desses indivíduos.
Encontramos respostas para algumas dessas questões em duas matérias saídas
em outro jornal da cidade, o vespertino Notícias. Vejamos a primeira delas:

A PRISÃO DE COMMUNISTAS
A ATTITUDE ENERGICA DA POLICIA
A policia tomou, hontem, providencias no sentido de evitar que elementos
extremistas fizessem propaganda do credo de Moscou, atacando as autoridades
constituidas.
O policiamento foi reforçado e dirigido pessoalmente pelo Capitão Alberto
Zamith. Foram efetuadas diversas prisões de elementos communistas
encontrados fazendo distribuição de manifestos ao mesmo tempo que, alguns
jovens, escreviam nas fachadas dos predios, com carvão e piche, palavras
incendiarias.
O policiamento prolongou-se até pela manhã de hoje, quando as autoridades
dirigiram-se a Central de Policia, afim [sic] de ouvir os prisioneiros, que são em
numero de oito, todos eles rapazes muito jovens.
A policia encontrou em poder dos communistas grande quantidade de boletins
pregando abertamente o credo marxista.
(NOTÍCIAS, 01/05/1934, p.5)

Através dessa matéria, publicada no dia 1º de maio, ficamos sabendo que se


tratou de um plano de repressão organizado e levado a cabo pelo próprio chefe do
policiamento da capital, Capitão Alberto Zamith, cujo objetivo era exatamente coibir a
manifestação dos chamados extremistas nessa data em que se comemorava o dia do
trabalhador, obviamente um momento propício à divulgação dos movimentos que
buscavam alcançar o apoio dos trabalhadores urbanos para suas respectivas causas. Tanto
integralistas como comunistas procuravam recrutar os chamados operários para suas
organizações políticas, daí a preocupação por parte do governo de Getúlio Vargas em
combater os movimentos extremistas, com uma ênfase especialmente sobre os
propagadores do “credo marxista”.

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A matéria do jornal é bastante elogiosa em relação à “atitude energica” da
polícia; que teria tomado, com antecedência, as devidas “providencias” para evitar que os
“elementos extremistas” realizassem qualquer propaganda do “credo de Moscou” na
capital maranhense. Para tanto, o policiamento foi reforçado, contando com a presença do
próprio Chefe de Polícia e tendo se prolongado até a manhã do dia 1º de maio, quando
foram presos 8 “elementos communistas”, os quais foram levados à Central da Polícia para
serem interrogados. Importante destacar ainda que a matéria frisa o fato de que os
comunistas presos eram todos “rapazes muito jovens”, mas nada diz sobre a provável
profissão deles, muito menos cita nomes.
Dois dias depois, o mesmo jornal publicava mais uma matéria sobre “o caso
dos communistas” presos pela polícia:

O CASO DOS COMMUNISTAS.


FORAM SOLTOS HONTEM PELA MANHÃ
Hontem pela manhã, o capitão Alberto Zamith mandou libertar os rapazes que
foram encontrados nos suburbios da cidade distribuindo boletins communistas e
escrevendo com giz e piche nas fachadas dos predios.
Conforme podemos apurar foram presos na madrugada de ante-hontem, 11
rapazes, a maioria estudantes e tres operarios que foram recolhidos, como
medida preventiva à Penitenciaria do Estado.
Hontem, porem, o Cap. Chefe de Policia mandou soltal-os depois de
convenientemente aconselhados.
(NOTÍCIAS, 03/05/1934, p.5)

Dessa vez somos informados de que as prisões ocorreram nos subúrbios da


cidade de São Luís. Informa-se, ainda, que foram onze os comunistas presos nas
manifestações do 1º de maio, número diferente da matéria publicada dois dias antes,
quando se falava em oito presos. Nessa segunda matéria sobre “o caso” afirma-se que os
propagandistas do comunismo eram em sua maioria estudantes, mas que contavam também
com a participação de três “operários”. Por que foram soltos tão rapidamente? Quem eram
os estudantes, quem tinha acesso à educação formal? Seriam filhos de pessoas influentes,
que estavam querendo demonstrar um pouco de rebeldia juvenil? Dá a impressão de que,
para a Polícia, esses “jovens rapazes” não representavam efetivamente um perigo à ordem
social e política, limitando-se a “aconselhá-los” sobre seu comportamento. Como os nomes
não foram divulgados, não foi possível localizar informações sobre quem são esses
militantes presos e logo em seguida soltos pela Polícia. Seria importante saber, por
exemplo, se tinham origens sociais que lhes pudessem pesar a seu favor para que fossem

85
logo postos em liberdade, em defesa dos quais se poderia argumentar, ainda, o fato de que
eram apenas “jovens estudantes”, sendo compreensível seu idealismo.
Tratar-se-ia de um grupo de pessoas que estavam concretamente empenhadas
em torno de certas ideias políticas de esquerda? O foco principal, pelo que se depreende,
seria organizar um movimento capaz de mobilizar os grupos letrados das camadas médias
urbanas, em especial estudantes, empregados do comércio, funcionários públicos, além, é
claro, dos operários fabris que moravam nos chamados subúrbios da cidade, a exemplo dos
conhecidos distritos do João Paulo e do Anil. Somos informados pela segunda matéria que
as prisões aconteceram “no subúrbio da cidade”, o que nos leva a acreditar que muito
provavelmente ocorreram em um desses lugares, pois se tratava do dia 1º de Maio e nada
mais coerente do que, no dia do trabalhador, divulgar as ideias comunistas nos bairros onde
estes residiam, objetivando assim ganhar seu apoio para essa causa.
Numa outra perspectiva, O Imparcial é o único jornal que faz uma espécie de
cobertura policial sobre os comunistas que estariam ainda atuando em São Luís nos anos
de 1936 e 1937, período de caça às bruxas. Assim ele noticia uma prisão efetuada pelo
Polícia no bairro do João Paulo:

A POLICIA PRENDEU O COMMUNISTA F.FIGUEIREDO.


ESSE PERIGOSO ELEMENTO PRESTARÁ DECLARAÇÕES HOJE A
NOITE.
Há quase um anno que a policia andava no encalço do communista Francisco
Marques Figueiredo, ex-escriturário da Directoria de Fazenda.
Varias diligencias foram organizadas, todas sem resultado.
Seguramente informada de que Figueiredo estava em sua residencia, no João
Paulo, a policia deu uma ¨batida¨ ali, ás primeiras horas de hontem, conseguindo
prendê-lo.
A diligencia foi chefiada pelo sr. Francisco Galdino Saraiva, inspector da Guarda
Civil.
Figueiredo foi encontrado dentro de um buraco, especialmente feito em um
fugão [sic], junto a uma parede.
Sempre que a policia fazia algumas diligencias na casa do referido communista,
ele se recolhia ao esconderijo. [...]
O ex-funccionario do Estado, acusado como um dos principais elementos dessa
cidade está bastante enfraquecido e muito barbado, tendo declarado que sofreu
recentemente um ataque de congestão. [...]
Figueiredo foi recolhido á peninteciaria devendo prestar declaração hoje á noite.
(O IMPARCIAL, 19/10/1936, p.3.)

A manchete destaca que se trataria de uma prisão importante por tirar de


circulação alguém que é considerado um “perigoso elemento”, que, dessa forma, não mais
poderia ameaçar a tranqüilidade da capital. Percebe-se que a atribuição de que Francisco
Figueiredo representa um perigo à paz social, vem logo em seguida à sua identificação

86
como comunista. A manchete diz primeiro: “a policia prendeu o communista
F.Figueiredo”, depois complementa, “esse perigoso elemento prestará depoimentos...”.
Esta matéria é importante ainda porque permite percebermos que de fato
existiam, ou existiram em algum momento, determinados movimentos de caráter
comunista atuando na capital do estado. Francisco Figueiredo era funcionário público,
trabalhava como escriturário da Fazenda estadual e, segundo se depreende da matéria,
havia sido exonerado desse posto, devido sua atividade como comunista. Como era
procurado “há quase um ano” pela policia, depreende-se também que sua prisão foi
decretada após os eventos de novembro de 35.
Francisco Figueiredo esteve presente de maneira destacada em pelo menos
duas organizações apontadas como tendo caráter comunista. Primeiro, a Vanguarda anti-
fascista (VAF), que existiu durante alguns meses do ano de 1934 em São Luís e que tentava
combater o crescimento do movimento integralista; logo em seguida, ele participou
também, nos primeiros meses de 1935, da fundação da Aliança Nacional Libertadora
(ANL), tendo sido um dos seus principais dirigentes no Maranhão.
No final do ano de 1935, logo após as tentativas de levante nos quartéis do
exército em novembro, ganhou força na imprensa brasileira uma campanha contra a
chamada “onda vermelha” que ameaçava destruir a unidade nacional. Nesse período o
combate ao comunismo se tornou um dos temas principais, senão o principal, da imprense
de todo o país. Apresentada como uma questão que exigia medidas urgentes e firmes por
parte, não só do governo, mas de toda a sociedade brasileira, sob pena de colocar em risco
as nossas mais sólidas tradições.
É nesse contexto que devemos entender alguns editoriais d’O Imparcial
naquele mês de dezembro de 1935. Chamamos atenção especialmente para dois deles, um
do dia 6, o segundo do dia 11. O primeiro fala da campanha de mobilização contra o
comunismo que existe em todo o país, a qual não seria fruto da imprensa nem da
burguesia, mas refletiria uma repulsa unânime da própria “família brasileira, indignada
diante da intentona que ameaçou o destino do Brasil”. Seguindo o estilo peculiar das
referências eruditas dos jornalistas maranhenses de então, o editorial recupera o episódio
da guerra entre Roma e Cartago para ilustrar as medidas que se deviam tomar em relação
ao inimigo ameaçador da unidade do país:

Catão, reconhecendo o perigo que aguardava Roma, terminava os seus discursos

87
com a frase terrível: Delenda Cartago! E a sociedade brasileira, ameaçada de
dissociação pela onda vermelha, sente necessidade de se livrar do comunismo,
que vem cavando um abismo para o Brasil. E a frase do romano vem a propósito:
É preciso combater o comunismo!
(O IMPARCIAL, 06/12/1935, p.1)

Procurando meios concretos que realmente levassem à eliminação do suposto


perigo ameaçador, foi que surgiu, no bojo da discussão sobre as medidas necessárias ao
combate do comunismo, a ideia de regulamentar a pena de morte a todos os indivíduos
responsáveis por movimentos que pretendessem, daí em diante, subverter a ordem vigente.
Argumentava-se que a medida não seria retroativa, ou seja, não se aplicaria aos envolvidos
nos levantes de novembro de 1935. A proposta foi levada à Câmara Federal sob a forma de
emenda ao texto constitucional de 1934. Os jornais do país começaram a debater a questão,
alguns argumentando a favor, outros condenando a medida. O segundo editorial que
destacamos é exatamente uma tomada de posição em relação a essa questão do matutino
que se considerava nessa época o jornal de maior circulação do Estado do Maranhão, O
Imparcial. Eis as partes principais do editorial:

PENA DE MORTE
Cogita-se […] de emendar o artigo 161 da Constituição Republicana a fim de
que seja aplicada a pena de morte aos responsáveis por movimentos
subversivos.
O momento inspirou essa medida para os crimes de natureza política ou
sediciosa. […]
O assunto […] tem vindo até agora, através dos anos, […] alegando-se que a
sociedade moderna vive ainda infiltrada dos mais perigosos vícios. […]
Os poetas, e mesmo alguns criminalistas, só encaram o assunto pelo coração,
evocando um sentimentalismo que fecha os olhos à defesa social e atende
apenas o lado comovedor das almas generosas.
[…]
Lombroso não se arreceia de atribuir a superioridade dos corações em nosso
século, relativamente ao passado, à seleção da raça pela pena de morte.
[…] para o professor J.A. Roux, da Universidade de Strasburgo, […] o critério
dominante, na apreciação da velha contenda, deve ser o da “necessidade da pena
de morte”, subordinando-se essa “necessidade” às condições do “meio e do
momento”.
Pois bem, a emenda que ora se pretende fazer no Brasil é subordinada às
condições do momento e à natureza política e sediciosa dos fatos.
É uma medida excepcional, sem efeito retroativo, aplicável aos militares e civis,
de acordo com as normas do Código Militar Brasileiro.
(O IMPARCIAL, 11/12/1935, p.01)

O jornal deixa claro que não se trata de uma simples opinião, mas de uma
medida que se impunha como necessária, segundo era demonstrada pelo próprio
pensamento científico. Para fundamentar e comprovar a necessidade de adoção dessa

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medida extrema, o jornal recorria às ponderações de uma autoridade internacional, o
professor J. A. Roux, da Universidade de Strasburgo. Segundo esse cientista, afirmava o
jornal, deve-se considerar uma “necessidade” quando as condições do meio e o momento
assim o demonstrem. “Pois bem, a emenda que ora se pretende fazer no Brasil é
subordinada às condições do momento e à natureza política e sediciosa dos fatos”. O que
devia ser suficiente para demonstrar que sua adoção se pautava no mais absoluto rigor
cientifico, ficando provada a necessidade dessa medida para solucionar o grave problema
das tentativas de subversão política.

3.4. Tribuna: aliancistas e comunistas na imprensa ludovicense


Tribuna pode ser identificado como um jornal que era controlado por
Magalhães de Almeida, líder político regional que praticamente monopolizou o poder
político no Maranhão durante a década de 1920, e que era governador do Estado quando
ocorreu a Revolução de 1930.
Aspecto interessante desse jornal, orientado pela facção magalhãesista, é o fato
de nele encontrarmos os maiores espaços para as matérias, notas e mesmo comunicados
oficiais da ANL. Quando em outros veículos, desde o primeiro momento, essa organização
foi vista como fachada do comunismo. Isso poderia ser explicada justamente, pelo fato de
se tratar de um jornal da facção oposicionista.
Vejamos alguns exemplos da cobertura da ANL que demonstram certa simpatia
ou aprovação desse movimento. O jornal Tribuna publica uma matéria sobre as
movimentações daquela organização no Estado:

ALLIANÇA NACIONAL LIBERTADORA


Prosseguem, activamente, os trabalhos do Directorio Estadual.
Como está acontecendo em todos os Estados, esse sympathico movimento
popular vem empolgando todo o Maranhão.
A reunião de hontem foi mais uma prova da confiança que o povo deposita no
programma e na orientação deste movimento libertador.
Usaram da palavra os srs. Antonio Napoleão, Fernando Perdigão, e o acadêmico
Mourão Rangel e Pedro Bona que dissertaram sobre a Acçao imperialista no
Brasil, finalidade última da Alliança Nacional Libertadora e latifúndio antigo e
moderno no Brasil.
Fica também assentado que todas as sextas-feiras haverá reunião pública da
Alliança Nacional Libertadora, à rua Oswaldo Cruz n°558, sua séde provisória.
(TRIBUNA,14/05/1935, p.2.)

89
O título da matéria é o próprio nome da organização política, o que, aliás, se
tornou comum na cobertura da imprensa ludovicense daquela época. Todavia, é importante
ressaltar alguns aspectos. Primeiramente, percebemos se tratar de uma nota do jornal e não
da ANL, que solicitaria a publicação da mesma, como era de praxe nesses casos. Portanto,
o texto é produzido pelo próprio jornal, que expressa sua opinião acerca do movimento
aliancista, considerando-o um movimento “simpático e popular”, explicando-se assim
porque ele “vem empolgando todo o Maranhão”.
Um segundo aspecto particular desta matéria é que ela, praticamente, não se
diferenciava de uma nota da ANL, com todos os interesses de difusão e propaganda que
tem uma nota produzida pela própria organização política, que objetiva sempre expandir-
se; à matéria de Tribuna não escapa um único detalhe: fala dos objetivos do movimento
(combater a “ação imperialista e o latifúndio”), informa da decisão acerca das reuniões
semanais e ratifica a localização da sede provisória: “rua Oswaldo Cruz n° 558”. E, por
último, busca colocá-la em sintonia com os interesses populares afirmando que o “povo”
apóia e confia no programa da Aliança como teria demonstrado a reunião do dia anterior,
“mais uma prova da confiança que o povo deposita no programa e na orientação deste
movimento libertador”.
Como já falamos, o jornal Tribuna tinha entre seus redatores o
advogado/jornalista Byron de Freitas, um dos principais líderes aliancistas. A presença de
aliancistas entre os jornalistas desse periódico poderia explicar sua cobertura atípica da
ANL no que se refere aos demais veículos da imprensa de São Luís. Mas como se
explicaria essa presença de aliancistas, ou mesmo de comunistas, como seria o caso do
advogado/jornalista Byron de Freitas?
Os jornais costumavam sempre identificar a origem das notas ou convites em
que as organizações políticas solicitavam sua publicação. Além do mais, estas notas de
propaganda, oficiais, vinham sempre com os nomes dos signatários, como neste caso:

O Directorio Estadual da Aliança Nacional Libertadora convida a família


maranhense, funccionarios publicos, federaes, estaduaes e municipaes,
commerciantes, militares, auxiliares do commercio, estudantes, as classes
liberaes, operarios, a imprensa, o povo em geral, para assistirem à sessão que
realizará no Theatro “Arthur Azevedo”, às 20 horas do dia 5 de julho, na qual,
homenageando a grande data nacional, será officialmente installado o mesmo
Directorio e empossado o Directorio Municipal de São Luís, recem-eleito.
São Luís, 3 de julho de 1935
O DIRECTORIO ESTADUAL:
Evandro Cunha – Presidente

90
Pedro Bona – Secretario Geral
Raimundo N. Gonçalves – Thesoureiro
Francisco Figueiredo – Secretario de Organização
Joaquim Rêgo – Chefe de publicidade.
(TRIBUNA, 04/07/1935, p.6)

Algumas dessas produções internas eram publicadas sem os nomes dos


membros da organização, todavia, a forma como são escritas e posteriormente veiculadas,
nos permite identificá-las. Nesta outra, a tentativa de conquistar novos adeptos é mais
explícita:

O Directorio Estadual Provisorio da Alliança Nacional Libertadora pede-nos a


publicação da seguinte nota: - a Directoria Estadual da ANL leva ao
conhecimento dos maranhenses que, ao contrario do se tem propalado nesta
Capital48, a sua organização foi procedida mediante delegação do Directorio
Nacional Provisório, com o qual mantem o mais estreito contacto e trabalha para
a victoria, bem próxima, desse grande movimento popular nacional.
(TRIBUNA, 14/ 06/ 1935, p. 2)

Percebe-se que a nota foi redigida pela ANL que solicita à Tribuna sua
publicação (“pede-nos a publicação”). Quanto ao seu conteúdo importa dizer que a nota
tem o objetivo de defender a legitimidade do núcleo aliancista que se formava no
Maranhão; segundo se depreende da leitura, aquela legitimidade vinha sendo contestada.
Contribuindo para percebermos como a cobertura da ANL por parte de Tribuna
era realmente diferente dos demais jornais, apresentamos a seguir mais alguns exemplos. A
divulgação do programa aliancista ocorre de modo particular nesse matutino. Não é apenas
um ponto ou outro do programa que se divulga, a exemplo do que se fazia em outros
veículos, e quando estes publicavam alguma coisa sobre a ANL. A Tribuna traz, nessa
matéria, o que poderíamos chamar a essência do programa aliancista, numa apresentação
sintética e objetiva dos seus aspectos mais relevantes, dando-nos a impressão de que assim
o foram escolhidos porque seu objetivo era divulgar o movimento:

O PROGRAMMA DA ALLIANÇA NACIONAL LIBERTADORA


Rio,8 – A Alliança Nacional Libertadora publicou o seu programma basico,
consubstanciado em cinco itens : 1º) Supressão do pagamento das dívidas
imperialistas; 2º) Nacionalização das empresas imperialistas; 3º) Protecção aos
pequenos e médios proprietário; 4º) Protecção aos camponezes e trabalhadores
estrangeiros; 5º) Constituição de um governo popular. A Alliança declarou
textualmente absterse, por completo, de questões e credos religiosos.
(TRIBUNA, 09/07/1935, p.1)

48
Os grifos são meus.

91
A publicação deste programa corrobora com o que afirmamos. A ANL é tratada
de uma maneira particular por Tribuna. Por que os outros jornais não publicaram este
programa? Com efeito, podemos colocar Tribuna em oposição a O Imparcial, pelo menos
no que se refere ao primeiro momento analisado, ou seja, ao período anterior ao levante de
novembro de 1935, quando a grande questão era o embate entre integralistas e aliancistas
(AIB X ANL). Enquanto o jornal de Genésio Rego teve uma postura que poderíamos
chamar de anti-aliancista, Tribuna concedeu, dentre os jornais pesquisados (O Combate;
Pacotilha; O Imparcial e Tribuna), o maior espaço para a ANL, publicando inclusive
artigos favoráveis aos aliancistas.
Tribuna pode ser vista ainda como contraponto a O Imparcial no que se refere
à divulgação de obras literárias e científicas cuja tendência é, grosso modo, de esquerda.
Da mesma forma que O Imparcial, ela também publica anúncios de livros. Mas não
aqueles integralistas. Durante todo o mês de maio de 1935, por exemplo, encontramos à
venda, por 8$000 (oito mil réis), exemplares do livro “Aonde vai a Alemanha?” de Leon
Trotski (TRIBUNA, 10, 11, 14, 16, 17, 19 de maio de 1935). Trotsky não era apenas um
escritor, mas também um símbolo da Revolução Russa. Em razão das suas divergências
políticas com o caminho trilhado pela Rússia, vivia, já desde alguns anos, as perseguições
do stalinismo49, peregrinando por alguns países, como a própria Tribuna noticiou em junho:

TROTSKY NO SEU NOVO EXÍLIO


Oslo, 24 – o famoso líder comunista russo sr. Leon Trotski e esposa, chegaram
aqui.
Obtiveram permissão do governo para ficar seis mezes na Noruega, sob a
condição de se abster de qualquer actividade política.
Diz-se que o sr. Leon Trotsky está soffrendo de tuberculose pulmonar em grau
avançado.
(TRIBUNA, 25/ 06/1935, p.5)

Somente em Tribuna encontramos anúncios dos livros de Trotski. É possível


delinear um pouco mais claramente essa tendência que estamos apontando em Tribuna
através de outro anúncio, onde encontramos títulos mais conhecidos da literatura marxista.
Nesse caso os livros são acompanhados de uma pequena mensagem que tenta convencer o
leitor a adquirir os títulos anunciados:

Enriqueça a sua estante com estes livros. Uma biblioteca não é um luxo, é uma
necessidade.
Socialismo: Manifesto Communista, Princípios do Communismo, Socialismo
49
CARONE, 1978, p.366-7.

92
Utópico e socialismo scientifico, ABC do communismo.
Filosofia: O Marxismo
Economia: O Capital, O plano qüinqüenal.
Politica: A Revolução Espanhola, Tempestade sobre a Asia, Revolução e contra-
revolução na Allemanha.
(TRIBUNA, 23 de fevereiro de 1934, p.1)

Trata-se, mais uma vez, de um anúncio do próprio jornal. Com efeito era
comum naquela época os jornais venderem livros em sua própria sede, quando chegavam
novos títulos, eles eram logo anunciados pelo jornal. Algumas vezes traziam os autores,
mas no caso em questão os títulos não são acompanhados pelos nomes dos seus autores, no
entanto é possível identificar que compõem certa tendência ideológica comum. São, em
sua maioria, livros de divulgação das ideias comunistas. Manifesto comunista, Socialismo
utópico e Socialismo científico, O Capital são obras muito conhecidas e é surpreendente
que estivessem em circulação mesmo antes da aprovação da chamada Lei Monstro de abril
de 1935, que vai proibir a circulação de “gravuras, livros, panfletos, boletins ou quaisquer
publicações, nacionais ou estrangeiras” nas quais se verificasse “a prática de ato definido
como crime nesta lei, devendo-se apreender os exemplares” (CARONE, 1978, p.61-63).
Segundo o historiador Edgar Carone ocorreu, na década de 1930, uma “espantosa
multiplicação de livros marxistas e de editoras voltadas exclusivamente a esta linha de
pensamento”, cujos livros seriam de venda garantida (apud SILVA, p.59). Seria preciso
destacar também que os livros integralistas e anticomunistas tiveram uma difusão nesse
período, como demonstra sua propaganda nos jornais.
Assim como em Tribuna é possível identificar uma tendência pró-aliancista,
em determinadas matérias de O Imparcial podemos ver um posicionamento bem definido
em relação ao integralismo, como se vê, por exemplo, na publicação de notas que
informavam antecipadamente sobre discursos do líder integralista que seriam transmitidos
pelo rádio:

O INTEGRALISMO
Rio, 2 – o sr. Plínio Salgado, chefe nacional da Ação Integralista, falará, amanhã,
às 21 ½ horas, na estação radio Mayrink Veiga, ao Brasil inteiro.
(O IMPARCIAL, 02/08/1937, p.8)

Mas é preciso apresentar elementos mais contundentes para sustentarmos


nosso argumento em relação à simpatia que identificamos em algumas posturas de O
Imparcial na cobertura do movimento integralista. Vejamos a seguinte crônica, publicada
em abril de 1937, cujo título é uma indagação que vai ser respondida no fechamento da sua

93
narrativa:
Devemos ficar com os homens ou com as ideias?
A ironia popular é uma cousa terrível e as mais das vezes de uma perversidade
desconcertante.
Somente em 1º de abril é que será resolvido o “caso” da sucessão.
Foi a frase solta de um grupo apressado que passava pela porta do Abreu vindo
colher de chofre a todos os que se achavam abancados proseando e tomando “o
cafezinho da tarde” naquele tradicional bar de São Luiz.
Um segundo, todos, instintivamente , se entreolharam cheios de malicia, para,
em seguida, soltarem estridentemente, uma verdadeira gargalhada coletiva.
Foi uma pandega. Comentários dos mais sutis ziguezaguearam de banca em
banca, até que, chegando o cansaço de tantas pilherias, surgiram conhecidas
discussões dos “parlamentares populares”, aonde se elaboram as leis-boatos,
quase sempre pronunciadoras de profundas verdades e de proféticos
acontecimentos...
- Se eu mandasse, o pau roncava, mas o Getulio ficava!
- Qual nada! Ele já teve o seu tempo! Daqui a pouco ele estará com mais de dez
anos de governo e com a lei nas mãos [,] a seu favor...Não poderá mais ser
desempregado...Só com a aposentadoria![...]
- sabe de uma coisa? Vamos acabar com essas histórias. O homem vem de
Minas, que tem um milhão de votos! O homem é o Mello Franco. Se querem a
prova, leiam este jornal!
“Embarcou para os Estados Unidos o sr. Mello Franco” [...]
- Toda a trapalhada é porque ainda politicamente somos um povo desorganizado.
Somos um povo desorganizado porque não possuímos organização econômica.
Não temos por estas e outras coisas, os necessários partidos políticos nacionais
organizados.
Os que conquistam o poder representam efemeramento [sic] e sem nenhuma
expressão de soberania popular, os tais “partidos” PP, PPS, PSD, PRP, e muitos
outros por aí a fora, numa ressonância enjoada de “pês”, que nem é bom falar!
- O único partido nacional é o integralismo!Gritou um dos que até aquele
momento mantinha-se calado e bisbilhoteiro.
- Concordo. O integralismo é realmente a única organização política de aspecto
nacional.
Mas para ser integralista, é igualmente como se ter vocação para pregador
protestante ou padre católico romano!
- A mesma coisa. Sem vocação não vai!
- Em todo caso merece meditação, e bem séria, as palavras do chefe Plínio
Salgado, berrou o “camisa-verde”, que tirando de um dos bolsos do paletó, um
folheto todo amarrotado pelo uso e sem dar tempo, foi logo lendo em altas vozes:
“Não estamos com homens. Não nos interessam os homens, nem dentro de
nossas fileiras, muito menos fora delas. Estamos com ideias!”
Que venham, então, as tais ideias!
(O IMPARCIAL, 01/04/1937, p.2)

Em nossa interpretação o ponto de vista defendido aqui está, no mínimo,


muito próximo da perspectiva integralista. O Imparcial se destaca dentre os outros jornais
por apresentar alguns sinais que demonstram, ou pelo menos, indicam, uma relação com os
integralistas. A exemplo dos anúncios de obras integralistas ou da cobertura do movimento
do Sigma.

OS LIVROS RECEBIDOS

94
- Historia secreta do Brasil, 2ª parte – Gustavo Barroso.
- Judaísmo, maçonaria e comunismo – Gustavo Barroso.
- Brasil, colônia de banqueiros – Gustavo Barroso.
Estes livros acham-se à venda na
LIVRARIA UNIVERSAL
De Ramos de Almeida & C.Ltda
Praça João Lisboa, 114
(O IMPARCIAL, 01/08/1937, p.8)

CHEGARAM OS SEGUINTES LIVROS:


Judaismo, Maçonaria e Comunismo, por Gustavo Barroso.
Integralismo e catolicismo, por Gustavo Barroso.
Historia Secreta do Brasil, 1ª e 2ª partes, por Gustavo Barroso.
[…]
Os Quarenta e cinco, 3 vol., por Alexandre Dumas.
(O IMPARCIAL, 03/08/1937, p.4)

Enquanto Tribuna divulgava apenas os títulos da literatura marxista O


Imparcial faz o mesmo com as obras dos autores integralistas. Mesmo levando-se em
consideração que se trata, no caso do primeiro, de um anúncio comercial pelo qual o jornal
devia receber, é preciso destacar que não se tratava de uma simples determinação de
mercado a escolha dos referidos títulos integralistas. Acreditamos que as matérias citadas e
estes anúncios apontam para um posicionamento, pelo menos de uma parcela do jornal,
indicativo do apoio que davam ao movimento integralista. O que, todavia, não deixa de
expressar ambigüidade, uma vez que é no mesmo O Imparcial que Astolfo Serra publica
sua coluna Placard, na qual escreve contundentes críticas ao integralismo. É ainda este
mesmo veículo que divulga as “ações patrióticas” da ORDEM liderada pelo próprio
Astolfo Serra. A sua campanha à frente dessa organização estava orientada contra todos os
extremismos, ou seja, combatia tanto o comunismo quanto o integralismo. Porém, Astolfo
Serra tinha nutria uma mágoa particular pelos camisas verdes maranhenses, por conta do
episódio em que fora acusado de ser comunista, tendo sido forjado provas, pelos
integralistas, que supostamente comprovariam aquela acusação.
O que parece mais acertado é conceber os jornais, cada um deles, como
espaços heterogêneos, marcados por disputas internas entre diferentes posicionamentos
políticos, com o predomínio muitas vezes de uma determinada corrente, o que não quer
dizer que não seja factível encontrar no mesmo veículo pontos de vista conflitantes.
Travava-se de uma batalha contra as ideias comunistas e similares (como o
aliancismo). Isso pode ser verificado em todos os jornais pesquisados, inclusive em
Tribuna. Todavia, devemos ressaltar os espaços de difusão das ideias aliancistas no período

95
em que a ANL existiu legalmente. A cassação do registro da organização representou um
primeiro golpe para os jornalistas que eram aliancistas, ou mesmo comunistas, ou para
aqueles que eram apenas simpatizantes e encontravam espaço nesse órgão para demonstrar
suas preferências.
A saída dos jornalistas que tinham proximidade com a ANL, como Byron de
Freitas, além daqueles que esporadicamente escreviam em Tribuna ajuda a compreender a
inflexão na linha política do jornal. Com efeito, ele se torna mais declaradamente
anticomunista, os espaços que existiam antes do fechamento da ANL desaparecem de vez
em conseqüência da repressão que se segue à fracassada tentativa de tomada do poder em
novembro de 1935, atribuída aos comunistas e também aos aliancistas.
Um caso interessante que exprime a posição particular de Tribuna em relação
às “ideias de esquerda” é o do articulista José Osvaldo, que passa a assinar suas colunas
nesse jornal a partir do primeiro semestre de 1935. Na sua maioria elas tratam de temas
comuns àqueles da ANL, quando discutem a própria organização. Apesar das dificuldades
de compreensão de alguns elementos do texto, nossa leitura identifica pontos comuns com
o discurso aliancista. Assim, analisemos um exemplo:

REGISTRO DIÁRIO
Os aliancistas teem sobejos motivos para contentamento.
Pois não é que o Sr.Getulio Vargas fechou-lhe as sédes, prendeu-lhe adeptos e
chefes?
Quando um movimento se pronuncia com a força do aliancista é signal que tudo
está muito ruim para um lado e optimamente bom para o outro. Assim essa
reação significa,
apenas, que a Aliança Nacional Libertadora já não é corrente frágil e sim algo de
temível, de espantador, trazendo no seu bojo conquistas que são derrotas para os
poderosos de hoje.
A prisão de João cabanas e Caio Prado são expressões latentes de quanto são
respeitados, pelas policias de Armando Salles e Felinto Muller, os proceres da
aliança.
Os operários se movimentam levados pela ansia de obterem um pão menos duro,
de possuírem uma terra que seja sua e conquistarem, mesmo tingida de sangue,
uma liberdade. Liberdade que a todos atinja e dê proteção, sob o seu manto
augusto idolatrado.
É a alma nacional que se movimenta. [...] É uma nacionalidade inteira que tirita
pela hora sagrada das suas legitimas e verdadeiras reivindicações.
O povo está cansado de lançar os seus protestos platônicos a sua benedita
paciência se acha esgotada e ele, na retaguarda dos paladinos das suas
aspirações, quer lutar e vencer para que, de futuro, a fama de uma raça padrão se
alardeie em propaganda para efectivações de padrões de raças.
E é esse o papel da massa popular. E o começo do seu desempenho deve agradar
mesmo aos brasileiros que estão contra os seus irmãos. É a demonstração pratica
da vitalidade da nossa gente. É a repetição dos fatos que nos deram tradições.
São os espíritos de Beckman, Felipe dos Santos, Frei Caneca, Henrique Dias,

96
Camarão, Negreiros, Tiradentes, Benjamim Constant, Patrocínio, dos 18 do forte,
todos, indomitos representantes das três raças, dos três sangues puros, os quaes
representam a nossa mesclada nacionalidade, que bafejam sobre a mentalidade
presente exigindo acontecimentos importantes, para que a nossa época não passe
em brancas nuvens, silenciosa, sem emissão de um reflexo que vai pairar no
cérebro e no intimo da posteridade.
Uma era sem acontecimentos é uma pagina em branco da Historia. A nossa
Historia carece de fatos. E qual brasileiro que vai confiar na Historia do seu paiz,
feita em paginas em branco?
José Osvaldo
(TRIBUNA, 26/ 07/1935, p. 5)

A persistência de questões envolvendo a ANL é um primeiro aspecto. Seus


artigos estão sempre fazendo menção a ela. Neste caso apontam para o seu fortalecimento,
pois o fato de Getulio a ter fechado não quer dizer outra coisa senão que a ANL se
expandia e conquistava mais adeptos. O objetivo de mobilizar as massas tinha sido
alcançado, segundo o articulista, visto que agora demonstrava sua capacidade de luta
(“demonstração pratica da vitalidade da nossa gente”). Este um segundo ponto. Outra
característica comum é a crítica da concentração fundiária vivida pelo país, que aprisionava
o camponês, dependendo sempre do proprietário. Mas todos estavam já “cansados de
lançar os seus protestos platônicos” e movimentam-se, então, para “conquistarem, mesmo
tingida de sangue, uma liberdade”. O nacionalismo é mais um elemento, e também estava
presente no discurso aliancista.
José Oswaldo aparece como secretário de propaganda do Diretório Municipal
da ANL em notícia publicada pela própria Tribuna (07/07/1935, pp. 1e 5). Nesta
oportunidade seu nome vem acompanhado do sobrenome: José Oswaldo de Carvalho.
Descobrimos que o articulista de Tribuna é estudante da Faculdade de Direito e sobrinho
do desembargador Constancio Clóvis de Carvalho, suplente de deputado pelo PSD
magalhãsista e ainda diretor do jornal Pacotilha.
Seus artigos constituem uma evidência de que era, ou melhor, havia sido
secretário da Aliança. No Catálogo histórico da imprensa maranhense, interessante
compilação de Quincas Vilaneto, encontramos o registro de um jornal intitulado Esquerda,
publicado em 1934 pela Sociedade Acadêmica Maranhense. Este jornal tem como diretor
Osvaldo de Carvalho. Não sabemos, ainda, se, neste último caso, realmente se tratava da
mesma pessoa, mas os indícios parecem coincidir bastante com o esboço do perfil desse
jovem jornalista e estudante de direito com boas ligações na política regional.

3.5. Notas sobre o conservadorismo católico na imprensa de São Luís

97
O Imparcial publica trechos de uma entrevista de Tristão de Athayde, na qual
o “líder católico” fala sobre as relações entre o catolicismo e o integralismo, justificando a
aprovação católica ao movimento integralista ao afirmar que não existia nada que o
incompatibilizasse com as diretrizes da Igreja Católica, sintetizadas na “hierarquia superior
dos valores espirituais sobre os sociais e os nacionais”:

TRISTÃO DE ATHAYDE E O INTEGRALISMO


RIO, 26 – O sr. Tristão de Athayde, “leader” católico, concedeu ao “Diário da
Noite” uma entrevista sobre o Integralismo, assim terminando:
“O Estado reconhece a autonomia da Igreja e a sua procedência em matéria de
educação; a hierarquia superior dos valores espirituais sobre os sociais e
nacionais. O ideal cristão, base da sociedade, não é o estado totalitário absoluto
como muitas vezes é o estado liberal, sem falar no socialista. Enquanto, a Ação
Integralista reger-se por essas diretrizes, não encontra, na minha consciência de
católico, nada que se incompatibilize. Não faço política. Só a ação católica está
colocada fora de toda a política, militante e partidária. A não ser que as
autoridades religiosas determinem ou o Integralismo mude de orientação e
demonstre, na prática, que não seguirá ao que sustenta em teoria, não tenho
motivos para alterar estas conclusões. A tática comunista, hoje, é aliar-se aos
partidos burgueses, com a capa de defesa das liberdades democráticas na
campanha antifascista a fim de melhor introduzir-se na sociedade e apoderar-se
do poder. Se tal desgraça sucedesse no Brasil, poderíamos rezar a oração
fúnebre. Entre nós, a atitude dos católicos, diante do integralismo, deve ser de
inteira liberdade de ação.”
(O IMPARCIAL, 27 /11/1935, p.4)

Tristão de Athayde era o pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, professor,


crítico literário, tradutor e jornalista muito conhecido no cenário intelectual brasileiro.
Formou-se em Direito no ano de 1913, mas dedicou-se à atividade de jornalista e escritor.
Mesmo tendo nascido em uma família católica, afirmava não ter nenhuma crença religiosa.
A partir de 1919, quando ingressou em O Jornal, do Rio de Janeiro, adotou o pseudônimo
de Tristão de Athayde. Nesse mesmo ano conheceu Jackson de Figueiredo 50, com o qual
passou a manter uma correspondência quase diária, somente interrompida pela morte deste
último em 1928.
Desse período de quase dez anos de contato com o líder da intelectualidade
católica no país, resultou a conversão de Alceu Amoroso Lima ao catolicismo. E não
apenas isso, com a morte do seu amigo, jurou continuar sua tarefa. Com efeito, tornou-se o
seu sucessor, assumiu a direção do Centro Dom Vital e também a chefia de redação da
50
Jornalista, fundador da revista A Ordem e do Centro Dom Vital que tinham o objetivo de reunir
intelectuais católicos visando constituir um núcleo para o fortalecimento e divulgação dos ideais católicos
(GROPPO, 2007, p.10).

98
revista A Ordem.
Sob a direção de Alceu Amoroso Lima foram fundados novos núcleos do
centro em outros estados, alcançando o movimento leigo católico uma projeção nacional.
Nesse momento o Centro Dom Vital consolidava-se como o núcleo da inteligência católica.
Essa influência repercutia não apenas entre a intelectualidade católica. Em seu estudo sobre
o ideário anticomunista das elites católicas presente na revista A Ordem (GROPPO, 2007,
p.30), Célia Maria Groppo afirma que o Centro Dom Vital se transformou, na década de
1930, “num concorrido espaço de encontro da intelectualidade não só carioca, como
brasileira”. Suas reuniões, que eram informais e atraíam poucas pessoas, foram substituídas
por cursos e conferências, e reuniam “um público cada vez mais numeroso, composto por
intelectuais, profissionais liberais, professores, políticos, empresários, mesmo que não
formalmente ligados à instituição” (GROPPO, 2007, p.30).
No Maranhão não encontramos, considerando o período abrangido pela nossa
pesquisa (1935-1937), nenhuma informação acerca da existência de uma filial do Centro
Dom Vital. Todavia, existiam alguns veículos impressos de orientação católica, geralmente
ligados a entidades católicas leigas, como a “União de Moços Católicos”. Esses jornais
eram geralmente de periodicidade semanal, a exemplo de O Correspondente, fundado em
julho de 1935, e também de O Maranhão, fundado no ano seguinte pela mesma à União de
Moços Católicos, ambos eram editados e publicados em São Luís51.
Não temos conhecimento da existência de pesquisas que tenham abordado,
especificamente, a imprensa católica ou as organizações de leigos que se colocavam sob a
orientação da Igreja no estado do Maranhão desse período. Portanto, não sabemos qual a
dimensão dos movimentos católicos no campo da produção dos bens culturais nesse
estado. Em nosso trabalho de pesquisa foi possível identificar sinais de uma movimentação
de católicos leigos na imprensa desse período. É possível afirmar que se tratavam de
indivíduos que possuíam uma formação escolar, ou seja, eram pessoas letradas, e que
estavam engajados na difusão dos ideais e valores da Igreja Católica. Percebe-se, ainda,
que sua presença não se restringia à imprensa católica.
Os sinais de que falamos podem ser vislumbrados a partir das publicações dos

51
O Maranhão teve uma longevidade bem maior que os outros jornais católicos citados. Em nossa pesquisa
encontramos matérias desse veículo datadas de 1936 e 1937, todavia, segundo o Catálogo de Jornais
Maranhenses do Acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite (1821-2007), consta que O Maranhão, em
uma primeira fase, existiu até 1941, depois voltou a ser produzido entre os anos de 1947 e 1953 e, por
último, retornou em 1957, último ano que foi editado, ainda no mesmo formato semanal e seguindo uma
orientação católica.

99
veículos de imprensa que foram fundados nessa época, não apenas na capital do Estado. O
Legionário foi fundado em 1935 na cidade de São Bento, tinha como subtítulo “órgão do
Grêmio D. Luis de Britto 52 e da União de Moços Católicos” e circulava por outras cidades
do Maranhão. Por outro lado, alguns jornais, mesmo não estando diretamente ligados à
Igreja nem às organizações católicas de leigos, concediam espaço para a publicação de
artigos assinados por clérigos ou por leigos católicos que defendiam os valores e
orientações da Igreja. Existia, portanto, uma presença católica na imprensa de São Luis na
década de 1930, talvez refletindo a movimentação nacional por parte da principal
instituição religiosa do país. Com efeito, desde a década de 1920, a Igreja Católica vinha
procurando, mais incisivamente, recuperar um papel de destaque no quadro político-social
do país, propondo inclusive “leis católicas” como a que tornava obrigatório o ensino
religioso nas escolas públicas de todo o país53.
Um exemplo que ilustra a presença, em jornal não-católico de São Luís, do
que poderíamos chamar de pensamento católico, está na publicação da seguinte mensagem,
em letras garrafais, na primeira página da Pacotilha:

QUEREMOS UMA REFORMA SOCIAL NA BASE DA JUSTIÇA E DE UM


ESPÍRITO DE “FRATERNIDADE CRISTÔ E NÃO DE INDIFERENÇA
BURGUESA OU DE ÓDIO PROLETÁRIO. Tristão de Athayde
(PACOTILHA, 16/07/1935, p.1)

Essa nota expressava o pensamento do jornal Pacotilha em relação ao rumo


político que deveria tomar o país naquele momento conturbado de sua história, onde várias
eram as propostas de regime que se confrontavam tanto no plano teórico e quanto no nível
dos movimentos políticos organizados, como era o caso da ANL e da AIB. A crítica do
intelectual católico Tristão de Athayde, que defendia também a Ação Integralista, deixava
claro que tanto o liberalismo burguês quanto o comunismo proletário não correspondiam
aos requisitos cristãos de justiça e fraternidade, devendo ser descartados enquanto
alternativas para a reforma social de que necessitava o país.
As palavras de Tristão de Athayde tinham um peso de autoridade porque ele
falava de um lugar privilegiado, alguém que representava a intelectualidade cristã, cujo
52
D. Luis da Silva Britto nasceu em São Bento e alcançou alto posto na hierarquia eclesiástica, chegando a
Arcebispo de Olinda. Ele é reverenciado pelo jornal como o “mais glorioso dos sambentuenses, o grande
orador sacro e preclaro Arcebispo de Olinda”.
53
Proposta elaborada e defendida pelo Cardeal do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, que contou com o
apoio dos intelectuais católicos reunidos em torno da liderança de Jackson de Figueiredo, já então
atuando à frente do Centro Dom Vital e da revista A ordem (GROPPO, 2007, pp.44-45).

100
ponto de vista tinha o respaldo da Igreja Católica, ainda que não fosse seu porta-voz
oficial, ele era reconhecido como uma autoridade, em grande medida devido ao capital
simbólico que lhe fora delegado por aquela instituição. Considerando-se a legitimidade ou
o capital simbólico que possuía dentro do espaço intelectual, podemos dizer que ele emitia,
nessas circunstâncias, um discurso de autoridade, ou seja, um discurso autorizado
institucionalmente e enquanto tal reconhecido54. As palavras de Tristão de Athayde
tendiam, portanto, a funcionar, e provavelmente funcionavam, como palavras de ordem, no
sentido de que exprimiam uma adequação entre o locutor e o discurso pronunciado, ou
seja, ele podia mobilizar eficazmente o capital acumulado pelo grupo a que pertencia e
representava (BOURDIEU, 1996, p.89).
Devido à sua notoriedade, as tomadas de posição de Tristão de Athayde eram
sempre noticiadas e comentadas pelos veículos da imprensa, como no caso em que ele
discordava das declarações do Arcebispo de Porto Alegre, D. João Becker, que
condenavam o integralismo. Segundo “o sr. Tristão de Athayde”, dizia a matéria publicada
na Pacotilha, “a doutrina integralista não contém princípios anti-cristãos podendo ser
integralista elementos de todos os credos teístas” e que desse modo ele, Tristão de Athayde,
só podia “ser contrário ao ponto de vista de D.Becker”55.

54
Segundo Bourdieu a compreensão adequada da eficácia dos discursos de autoridade implica entender que
o seu poder não deriva da força ilucionária das palavras em si mesmas, mas das condições institucionais
de sua produção e de sua recepção, onde devem ser consideradas as relações entre as propriedades do
discurso, as propriedades do seu emissor e as da instituição que o autoriza a falar (BOURDIEU, 1996,
p.89 e 91).
55
O integralismo. In: Pacotilha, 24/11/1935, p.6.

101
4. A CIVILIZAÇÃO AMEAÇADA PELO “PERIGO VERMELHO”

Neste capítulo buscamos destacar quais são as principais temáticas


discursivas em que a questão do comunismo aparece. Quais são os argumentos
desenvolvidos pelo discurso jornalístico visando significar o fenômeno comunista ao tratar
de temas como a educação, a religião, a família ou mesmo a Guerra Civil na Espanha.
Esses e outros contextos temáticos são utilizados pelos jornais para explicar ou justificar
porque o comunismo não serviria ao Brasil, devendo ser combatido. A essa espécie de
missão cívica parte considerável da imprensa sanluisense se dedicou, principalmente no
pós Novembro de 1935.
Cada uma das temáticas encontra-se articulada a diversas outras questões. O
que poderíamos chamar de questão religiosa, por exemplo, é praticamente inseparável de
temáticas como a família, o casamento, a mulher e também a própria questão da educação.
Isso demonstra que na realidade esses temas estão todos imbricados. A tentativa de analisá-
los separadamente somente se justifica enquanto procedimento metodológico com fins de
compreensão e explicação sociológica.

4.1. “Devemos ir às escolas”: O papel dos intelectuais e da educação no

combate ao comunismo

102
Para tratarmos da questão em que se articulam as temáticas do comunismo e
da educação durante os anos de 1930, seria preciso esclarecer que a configuração sócio-
histórica apresentava-se marcada, no que diz respeito ao âmbito da educação, pela
discussão, coordenada pelo Ministério da Educação e Saúde, em torno do Plano Nacional
de Educação para o país. Com efeito, o estabelecimento desse plano visava cumprir uma
determinação da Constituição Brasileira de 1934, que definia como competência da União
“fixar o plano nacional de educação, compreensivo do ensino de todos os graus e ramos,
comuns e especializados; e coordenar e fiscalizar a sua execução, em todo o território do
país” (apud SAVIANI, 1999, p.125). Como é possível ver, esse plano traçaria o que se
convencionou chamar de diretrizes e bases nacionais da educação no Brasil (SAVIANI,
1999, p.126).
O que estava ocorrendo em 1936 eram discussões e debates, tendo em vista as
diferentes propostas pedagógicas que se enfrentavam nesse processo de definição das
diretrizes da educação no Brasil56. Daí porque, nesse contexto, se falar no “momentoso
tema” da educação.
O que pretendiam homens como Alceu Amoroso Lima, um dos integrantes do
Conselho Nacional de Educação, órgão recém-criado e que estava encarregado de elaborar
o referido plano de educação, era convencer aqueles que duvidavam da presença insidiosa
do comunismo nos mais diversos setores da sociedade brasileira e que, para combatê-lo
eficazmente, urgente se fazia implantar uma pedagogia orientada para esse fim. Segundo
esse entendimento, a pedagogia comunista já estava difundida nas escolas brasileiras,
aproveitando-se da confusão proporcionada pelo predomínio de um ingênuo e “puro
liberalismo pedagógico”.
Alceu Amoroso Lima assumiria no contexto intelectual dos anos 1930 a
condição de notável guardião da ordem moral, pautada nos valores cristãos e,
consequentemente, defendia no plano educacional a tutela da Igreja sobre o ensino público
56
O debate em torno da reforma educacional opunha, grosso modo, dois grupos de educadores: os liberais e
os católicos. Em 1932 o primeiro objetivou sua proposta através do que designou como “Manifesto dos
Pioneiros da Educação Nova”, onde aparece pela primeira vez a idéia de plano no âmbito da educação. Esses
educadores do movimento renovador concebiam o plano de educação como um instrumento que permitiria
introduzir uma racionalidade científica na política educacional. Essas idéias influenciaram sobremaneira o
debate nos anos 1930, sendo reapropriadas por Getúlio Vargas, Gustavo Capanema e por intelectuais
católicos, como Alceu Amoroso Lima, que converteram a idéia de plano de educação num “instrumento
destinado a revestir de racionalidade o controle político-ideológico exercido através da política educacional”
(SAVIANI, p.126). Ao mesmo tempo os educadores católicos passaram a atacar os defensores da educação
nova identificando no próprio manifesto elementos “comunizantes” (CURY, 1988, p. 23).

103
(PÉCAUT, 1990, p.28.). E assim como outros tantos intelectuais da corrente católica,
também ingressou no movimento integralista.
Os intelectuais se acreditavam elites dirigentes, e buscaram legitimar-se
enquanto detentores de uma vocação para a “organização social”. Desse modo
compartilhavam de uma visão elitista sobre qual seria o seu papel dentro do processo
histórico brasileiro. Eles seriam, segunda suas concepções, os responsáveis por indicar qual
o caminho que deveria seguir a nação diante dos desafios daqueles novos tempos. Isso
poderia ser observado quando falavam do comunismo e da necessidade de combatê-lo
(SILVA, p.55).
Por isso eles procuravam demonstrar que a diretriz educacional de uma nação
não deveria mais ser entregue ao “puro liberalismo pedagógico” como ainda tentavam
fazer alguns no bojo das discussões sobre o Plano Nacional de Educação. Era o que dizia,
por exemplo, Alceu Amoroso Lima na matéria publicada por O Combate:

EDUCAÇÃO E COMUNISMO
A importante conferência que o sr. dr. Alceu de Amoroso Lima pronunciou sobre
o momentoso tema “Educação e Comunismo”, teve a assisti-la uma atenta
multidão que encheu, literalmente, todo o salão nobre do Instituto Nacional de
Musica. [...]
O Sr. Vicente Ráo57 encarece então a significação daquela conferencia, quando os
poderes públicos tornavam efetiva e implacável a campanha de repressão ao
extremismo. Ao lado das atividades policiais e do pronunciamento dos tribunais,
punindo os responsáveis pelos dias incertos da Pátria, a educação das massas na
repulsa ao credo vermelho, seria um grande passo para a estabilidade das
instituições políticas e sociais do Brasil.
Tem então a palavra o sr. Alceu de Amoroso Lima (...):
- “Foi para o Brasil a última e fugaz revolução de novembro um desses
acontecimentos que permitiram convencer muitos céticos da iminência de um
perigo social, que havia adotado com êxito, a tática da confusão para despistar os
incautos. E com isso pode ser fixado, com segurança ao menos um dos inimigos
em ação: - o comunismo”.
O orador prossegue a sua brilhante oração, enumerando os princípios da
pedagogia comunista. A escola soviética, conforme o depoimento de numerosos
autores russos, também lhe merece um minudente exame. Depois de por a nu os
meios de que lançam mão os comunistas para atrair as massas às suas escolas
afirma textualmente: “[...] também nos momentos históricos de transição, como o
nosso, não é tão difícil talvez combater os inimigos como desvendá-los. (...)
Basta um golpe de vista pelo mundo de hoje principalmente pelas nações
politicamente resolvidas como a Rússia, a Alemanha, a Itália, (...) para se ver que
o problema escolar se apresenta inteiramente ligado às condições políticas e ao
ambiente ideológico dominante. Em nenhum desses países se vê mais o domínio
do puro liberalismo pedagógico, como entre nós ainda se proclamava ou
57
Vicente Ráo foi Ministro da Justiça do governo Getúlio Vargas no período de 1934 a 1937. Ele era
advogado e jurista, em 1931 publicou um livro em que analisava as leis soviéticas relacionadas à família.
Este fato teria contribuído para torná-lo uma autoridade em relação ao tema do comunismo. Foi o relator,
em 1935, da Lei de Segurança Nacional. Era filiado ao Partido Democrático de São Paulo (SILVA, s/d,
p.126).

104
proclama implícita ou explicitamente. Em toda parte o que se nota é o
reconhecimento de que o problema pedagógico está ligado às condições gerais
do Estado e da vida, de modo que não pode ser considerado apenas como um
problema puramente quantitativo, metodológico ou cognoscitivo. Quer dizer que
não basta apelar para a “educação” como uma panacéia; não basta apelar para a
“educação” moderna como resolvendo tudo; nem basta invocar a “curiosidade”
intelectual, o famoso culto da cultura, a febre do “saber”, seja o que for ou como
for. Tudo isso representa apenas uma outra face do problema. Mas não vai ao
ponto oculto ou patente, onde tudo, mais cedo ou mais tarde, termina – a
finalidade da educação. Por mais que queiram evitar esta sempre ao procenio
[sic], pois sendo a pedagogia um conhecimento normativo, exige por natureza
uma direção. A pedagogia ou é “dirigida” ou não é pedagogia”. [...]
- “Não basta para combater o comunismo pedagógico repelir a concepção
soviética da escola, seguindo os traços característicos que já hoje podemos
conhecer. É preciso restaurar primeiramente a concepção integral da educação,
fugindo das multidões parciais apontadas”. [...]
- “Se o Plano Nacional de Educação se inspirar em princípios pedagógicos
sadios, será um grande passo para esse ideal. Mas não basta pois a eficiência das
leis, depende do valor dos homens que as aplicam. E para impedir o domínio da
pedagogia comunista só um sistema educativo que possa, como ele, apoderar-se
do homem todo, mas orientando-o para o primado da verdade e da sabedoria não
lhe servindo apenas para adornar a inteligência, para conquistar um diploma ou
para dominar a natureza.” (...)
(O COMBATE, 31/03/1936, p.4)

A questão da educação se constituía num problema central porque estaria


intimamente ligada à sobrevivência do Estado, por isso que as “nações politicamente
resolvidas” davam especial atenção ao “problema escolar”, compreendendo que ele estava
“inteiramente ligado às condições políticas e ao ambiente ideológico dominante”. Daí
decorre, para o autor da matéria que corrobora a fala de Amoroso Lima, uma conclusão
lógica: se quiséssemos combater o avanço do comunismo, teríamos de elaborar um plano
de educação que, ao lado da repressão policial e do seu amparo jurídico-legal, pudesse
imprimir nas “massas” a “repulsa ao credo vermelho”. Essa mudança pedagógica deveria
se iniciar com a restauração da concepção integral de educação.
O sucesso de uma pedagogia como essa representaria, segundo a matéria,
“um grande passo para a estabilidade das instituições políticas e sociais do Brasil”. Vê-se
aqui uma clara instrumentalização da educação, concebida como uma poderosa arma de
combate ao avanço da “pedagogia comunista”, que, segundo Alceu Amoroso Lima, estaria
se aproveitando da confusão reinante no país, e, em particular, no campo da educação, para
apoderar-se do “homem todo”, ou seja, de todo o seu referencial sobre as coisas do mundo,
seus valores, suas concepções de vida, trabalho, sociedade, enfim, o que os integralistas
gostavam de chamar de “a mentalidade” do homem.
O avanço dos intelectuais se operou em larga escala sob o signo da ciência.
Constantes menções à sociologia, ao mesmo tempo como ciência do social e como ciência

105
do governo, da administração. Os argumentos “científicos”, conforme o jornal, são
manejados pela imprensa, pelo menos desde o começo da década de 1930, como forma de
“comprovar” que o comunismo era um regime inviável, pois “os sociólogos mais
eminentes, mais desinteressados, mais desejosos de servir à causa popular, demonstraram,
por a + b, os erros fundamentais do marxismo”.58
Assim é o caso do primeiro texto que vamos trabalhar nessa seção sobre a
relação que os jornais da época estabeleceram entre o comunismo e a educação. Trata-se de
um interessante artigo que saiu no jornal Diário do Norte, cujo título, “O credo vermelho”,
procura deixar claro quem é o inimigo da “democracia brasileira”. O tema da educação
surge articulado com a ideia de nacionalidade, de defesa da “Pátria” que, segundo o autor,
encontrava-se ameaçada pelo comunismo. Este, desde que invadira o nosso território, e já
sabendo da importância da educação na luta pela conquista das mentes, teria procurado
desde cedo se infiltrar nas “nossas escolas”. O artigo é assinado por Antonio Lopes, o
redator-chefe do jornal. Como era comum na época, esta não era sua única atividade
profissional. Tratava-se de um intelectual que ocupava, ainda, o posto de professor na
Faculdade de Direito de São Luís59. Na verdade ele foi um dos fundadores dessa instituição
em 1918, juntamente com Fran Paxeco, Henrique Couto, Domingos Perdigão e outros.
A guerra contra o comunismo deveria ter, portanto, como cenário de uma das
suas mais importantes batalhas a arena da educação, conforme informa o jornal. Daí
porque se conclamar, como faz o autor do artigo abaixo, os professores e alunos das
escolas superiores para que se mobilizassem, organizando campanhas de esclarecimento
nas escolas secundárias e também entre o “proletariado”. Nessas ocasiões se deveria
mostrar, aos estudantes e trabalhadores, qual a verdadeira “realidade do regime dos
Sovietes na Europa”: “descrevendo-lhes as cenas do Terror Vermelho”, “a guerra à
tradição, ao Cristianismo”, “o sangue jorrando por todos os cantos do país, a espionagem, a
felonia, o crime, a miséria e o luto”.

O CREDO DE MOSCOU
Por Antonio Lopes
Desde que, no Brasil, triumphou a revolução chefiada pelo Sr. Getulio Vargas, o
Comunismo invadiu nosso território. A propaganda vermelha, custeada pelo
dinheiro da Rússia, entrou a desenvolver-se no país quase de maneira sistemática

58
GRAVE, João (de Lisboa). Uma nova figura européia. Correio do Povo, p.3. apud: SILVA, s/d, p.71.
59
O intelectual brasileiro dos anos 1920-1940 apresentava comumente três perfis, segundo Daniel Pécaut
(1990, p.34): 1º) o de bacharel em direito; 2º) o de engenheiro, frequentemente caracterizado pelo
positivismo e inclinado para uma visão técnica do poder; e 3º) o de homem de cultura.

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e corrompeu consciências, immiscuiu-se em diversas camadas sociaes, alliciou
agentes e fez proselytos um pouco por toda parte.
Nenhum obstáculo lhe foi oposto pelos homens do nosso regime. Eles olhavam
displicentemente para o presente e não cogitavam sequer do futuro.
Passaram-se os dias. A campanha insidiosa dos asseclas do credo vermelho foi
ganhando intensidade. E um belo dia começaram, aqui e ali, os motins
comunistas, até desfecharem no sanguinolento drama de 1935.
Aí foi que o governo brasileiro despertou da sua indiferença e tratou de reagir
contra o communismo.
A tempestade foi breve mas terrível, e passou. Entra o governo, de novo, naquela
atitude displicente. Nenhuma contra-propaganda se organiza contra a praga
moscovita. E em surdina esta recomeça seu trabalho dissolvente.
Ora, a democracia brasileira devia opor-lhe, sistematicamente, uma campanha de
ideias. Submeter o Comunismo, por todo o país a uma análise severa, feita por
pessoas competentes, levar esse trabalho e suas conclusões à escola, às
universidades, às massas, pela imprensa, pela conferência, pelo rádio, por todos
os meios modernos de divulgação das ideias, renová-la à luz de argumentos
sempre fortes, - esse, sim, seria o meio mais verdadeiramente capaz de combater
a expansão comunista no Brasil, com a cooperação de leis repressivas severas
para punir as atividades dos possessos da detestável ideologia.
Nas minhas aulas da Faculdade de Direito há bons cinco anos, não perco
oportunidade de mostrar à mocidade que o Comunismo, velharia filosófica
apresentada como novidade por uma súcia de vesgos e sistema político baseado
numa de série de preconceitos, a começar pelo de classe, somente podia medrar
na mentalidade européia e é de todo em todo contrário à índole mesma dos povos
da livre America, onde o homem, bem cedo, se libertou do aferro das gentes do
Velho Mundo a umas tantas ideias.
E concito os meus alunos a combaterem a praga vermelha. Penso que devíamos
ir com a mocidade acadêmica às escolas secundárias, fazer a campanha
anticomunista, tratando de defender contra o contágio da perigosa ideologia o
Brasil do futuro. E devíamos fazer a mesma campanha no seio do proletariado,
mostrando quais têm sido, na realidade as atividades do regime dos Sovietes na
Europa, descrevendo-lhe as cenas do Terror Vermelho, a compressão exercida
sobre a consciência popular, a destruição sistemática de todas as liberdades
políticas, a guerra à tradição, ao Cristianismo, a deformação do homem até a sua
completa despersonalização em benefício de um estatismo feroz, o sangue
jorrando por todos os cantos do país, a espionagem, a felonia, o crime, a miséria
e o luto.
Eis aí ideia que apresento aos professores maranhenses e aos alunos de nossas
escolas superiores. Articulemo-nos para essa campanha e teremos, com a sua
realização, fortalecido a nossa nacionalidade, prestando-lhe um serviço
valiosíssimo. E, na jornada que empreendermos, não nos esqueçamos de
propagar esta ideia fundamental: os povos americanos não precisam de formulas
européias para sua organização político-social, a sua civilização tem, hoje, um
sentido próprio, inconfundível. A sua mentalidade não pode ser, não será nunca a
mesma da Europa.
(DIÁRIO DO NORTE, 15/09/1937, p.6)

Está vivamente presente no texto o que Daniel Pécaut (1990) chamou de o


imperativo nacional, noção que veio se afirmando em diversas instituições e setores do país
a partir dos anos 1920, notadamente entre os militares, mas que segundo Pécaut (1990,
p.59) foi incorporada por parcela significativa da intelectualidade brasileira do período
1920-1940, num contexto de afirmação e reconhecimento social desses intelectuais pelo

107
regime de 193060.
O artigo de Antonio Lopes objetivava chamar a atenção da sociedade maranhense,
em especial dos “professores maranhenses” e dos “alunos de nossas escolas superiores”,
para a necessidade de se iniciar uma “campanha anticomunista”, impedindo desse modo
que a “praga moscovita” se alastrasse pelo país. O “Brasil do futuro” não poderia ser
contaminado por essa “perigosa ideologia” que seria o comunismo.
Seu texto é produzido com uma intenção clara de mobilizar as pessoas
(“articulemo-nos”) em torno de uma bandeira de luta contra o inimigo. Mas não é qualquer
pessoa que ele convoca, pois tratar-se-ia de por em marcha uma “campanha de ideias”,
cujo objetivo seria submeter o comunismo a uma “análise severa”. Estes aspectos
implicavam no recrutamento de “pessoas competentes”, as quais são nomeadas e
convocadas no último parágrafo do texto: são os professores e alunos de “nossas escolas
superiores”. Ou seja, são os intelectuais que devem tomar a frente dessa campanha
anticomunista, realizando conferências, difundindo nas escolas secundárias e no meio
operário a verdade acerca do comunismo, “mostrando” a realidade desse regime na
Europa: a destruição das liberdades políticas, a guerra à tradição e ao Cristianismo, a
espionagem e o crime, a miséria e o luto.
Essa missão que o autor atribui aos intelectuais esta alicerçada na defesa do
valor supremo que é a nacionalidade, segundo ele o êxito dessa campanha teria como
principal beneficio o fortalecimento da “nossa nacionalidade”. Com efeito, a ênfase na
construção da nacionalidade brasileira estava no centro do debate político e social levado a
cabo pelos intelectuais do período e se refletia na imprensa de todo país.
Segundo Carla Silva, essa discussão “levava em conta diversos elementos
provenientes dos pensadores autoritários, os quais permitiram que se defendesse, por
exemplo, que a sociedade humana era desigual por natureza e que essa desigualdade
deveria ser observada também nas relações sociais” (SILVA, s/d, p.52). Dentro desse
universo ideológico marcado pela defesa do nacionalismo, do Estado forte e do
autoritarismo encontravam-se todos os movimentos e correntes políticas surgidas nos anos
193061. O Imparcial também afirmava, em editorial de fevereiro de 1935, que o governo
de Getulio Vargas, mesmo dotado de “poderes discricionários, assistiu à expansão de tais

60
Segundo Pécaut esse reconhecimento se deu em razão do papel atribuído aos intelectuais na
“‘redescoberta do Brasil’ e na construção científica da identidade brasileira” (PÉCAUT, 1990, p.59).
61
SAES, Decio. Nome do artigo. In:FAUSTO, Boris. O Brasil republicano: sociedade e política (1930-
1964)/História Geral da Civilização Brasileira. Ano, p.516 517.

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correntes políticas, sem tentar uma enérgica e sistemática ação contra as mesmas” (O
Imparcial 16/02/1935, p.1).
Chama nossa atenção o fato de se voltar exclusivamente para o comunismo. Ele não
fala em “extremismo” muito menos em integralismo, o que nos leva a considerar que tal
omissão não foi por acaso. Principalmente se considerarmos que naquele momento
histórico uma das principais disputas dizia respeito à que opunha, no quadro das forças
políticas, integralistas e comunistas.
O artigo de Antonio Lopes comunga de uma opinião presente em outras matérias
jornalísticas ao situar como data da provável “invasão” do comunismo, no território
brasileiro, o período que se seguiu à revolução de 1930. De certa maneira, essas matérias
davam a entender que o movimento comandado por Vargas, sem querer, abrira as portas do
país aos vermelhos, permitindo que a propaganda comunista se desenvolvesse “quase de
maneira sistemática”, corrompendo consciências e fazendo “prosélitos” nas mais diversas
camadas sociais. Os “homens do regime” nada teriam feito para deter a “campanha
insidiosa dos asseclas do credo vermelho” 62. O preço dessa indiferença por parte das
autoridades teria um alto custo para o regime político brasileiro: a intranqüilidade, a
desordem e a anarquia ilustrada pelos vários “motins comunistas”, que culminaram no
“sanguinolento drama de 1935”. Somente então teria o governo resolvido tomar uma
atitude “contra o comunismo”, despertando de sua apatia. Mas depois de passada a
“terrível tempestade”, ou seja, a frustrada tentativa comunista de tomar o poder em
novembro de 1935, o governo voltava a assumir, segundo o jornal, uma “atitude
displicente”.
Observamos, assim, que o jornal cobrava do governo de Getúlio Vargas uma
postura mais enérgica em relação aos comunistas. Essa atitude deveria se concretizar em
uma campanha de contra-propaganda à “praga moscovita”. Através dela o comunismo
seria submetido a uma análise severa, que consequentemente revelaria sua verdadeira face,
que, entre outras coisas, seria uma “velharia filosófica” marcada por uma série de
preconceitos, “a começar pelo de classe”. Esta campanha deveria ser conduzida por
“pessoas competentes” que utilizariam “os meios modernos de divulgação” para levá-la à
“escola”, às “universidades”, enfim, à “massa”.
A proposta de “campanha anticomunista” que é aqui defendida pelo professor da
62
O Imparcial também afirmava, em editorial de fevereiro de 1935, que o governo de Getulio Vargas,
mesmo dotado de “poderes discricionários, assistiu à expansão de tais correntes políticas, sem tentar uma
enérgica e sistemática ação contra as mesmas”. (O Imparcial 16/02/1935, p.1.)

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Faculdade de Direito e redator-chefe do Diário do Norte, já estava, de certa forma, sendo
colocada em prática por ele em suas aulas, há pelo menos “bons cinco anos”. Nessas aulas,
ele não perdia a oportunidade de mostrar que o comunismo, fenômeno tipicamente
europeu, jamais poderia “medrar” na livre América, onde os povos já teriam encontrado
um sentido próprio para sua civilização, não necessitando, portanto, de “fórmulas
européias”.
Percebemos a presença de um ideário nacionalista típico das correntes
conservadoras no Brasil, cujo maior representante na década de 1930 era o integralismo.
Conforme Gilberto Vasconcellos (1979:74), a pretensão de forjar uma nova civilização
baseada na singularidade da “alma” ou do “espírito” do brasileiro, independente dos
influxos da Europa, não era apenas um “delírio nacionalista, ou mais ainda, xenófobo;
tratava-se, isto sim, de um mito narcisista”. Ideias como “índole” (ou “alma”),
“nacionalidade” e “mentalidade”, empregadas por Antonio Lopes em seu artigo, eram
categorias que caracterizavam o discurso integralista.
Intelectuais de todos os matizes procuravam, nesse momento, forjar a ideia de alma
ou de caráter nacional. No caso dos conservadores como o catedrático de direito Antonio
Lopes, bem como os intelectuais católicos e os integralistas, utilizavam-se dessa definição
dos valores nacionais para contrapor a civilização singular que surgia na “livre América”
aos ideais internacionalistas do comunismo que pretendiam aniquilar todas as formas de
sentimento nacional. O comunismo só poderia florescer na velha Europa, visto que aqui na
América, e mais ainda no Brasil, não existiam os preconceitos de classe em que se baseava
esse regime.
Na linha desse primeiro texto se encontra um outro que desenvolve seu argumento
em cima da questão da juventude, segundo seu autor, o alvo principal dos “agentes
moscovitas” que estariam agindo em todo o país, inclusive aqui no Maranhão. É
importante destacar a presença da ideia ou do princípio da nacionalidade. O que demonstra
o quanto estava difundido esse ideal; não eram apenas as elites militares, os próprios
intelectuais, laicos e católicos, também passaram a comungar do mesmo ideal.

O que, em plena Capital Federal, faziam, no magistério, no parlamento, na


administração e no seio do proletariado, os Anisio Teixeira, os João Mangabeira,
os Pedro Ernesto e os Joaquim Pimenta, faziam no Maranhão, no Ceará, em
Pernambuco e nos demais Estados, agentes moscovitas fieis aos mesmos
infernais propósitos de descrédito e cabal destruição dos princípios evangélicos
em que se alicerçou a nacionalidade.

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Estamos informados de que os profissionais da corrupção judaico ateística
entregues á faina em São Luis, muito dano causaram mo meio incauto
(naturalmente accessível as sugestões do inédito e do novo) da adolescência e
da juventude. Tactica genuinamente diabólica, estratégia na elaboração de cujos
meios se esmerou o inferno, certo de que na posse de semelhante material
humano, tinha em favor do ideal maldito, um elemento a que de ordinário se
prende o êxito das grandes causas ou das causas difíceis; mas que delito
innominavel, abusar dos sentimentos promptos e generosos que distinguem a
mocidade.
(MARANHÃO, 08/08/1936, p.1)

A chamada mocidade (ou “juventude”, e ainda às vezes “adolescência”) é um


dos signos mais mobilizados pelos jornais quando se trata de alertar para o perigo da
infiltração comunista na sociedade brasileira. Por um lado, ela é considerada geralmente
como imprudente, não precavida, um “meio incauto”, por outro, os jornais a
caracterizavam como portadora de “sentimentos prontos” e “generosos”, qualidades que a
tornariam mais suscetível a tudo que se apresentava como “novo” ou “inédito”. Estes
aspectos teriam sido especialmente aproveitados pelos “profissionais da corrupção judaico-
ateística” para conquistá-la, garantindo assim a “posse” de um importante elemento para a
concretização do seu “ideal maldito”. Esta tática não poderia ser qualificada de outra
maneira: ela é “diabólica”, tendo mesmo o “inferno” se ocupado com esmero dessa
conquista porque sabia que à posse de “semelhante material humano” estaria ligado, de
ordinário, o êxito das causas difíceis.
Ainda nessa discussão relativa aos jovens ou “moços estudiosos” das novas
gerações tornou-se comum os jornais mostrarem comportamentos que consideravam
exemplares:
São Paulo, 28 – A mocidade estudiosa deste Estado após entendimento com o
general Parga Rodrigues e o governador Cardoso de Mello Netto, organizou o
plano de combate ao communismo, o qual constará de irradiações de discursos,
exibições de filmes, cartazes sugestivos, caravanas, etc.
(DIARIO DO NORTE, 29/10/1937, p.6)

A “mocidade estudiosa” de SP é mostrada como exemplo para os estudantes de


outros estados. Considerava-se que era justamente através da mocidade que o comunismo
se difundia, ameaçando gravemente o futuro da Pátria.
Essa preocupação com a juventude também se manifestou entre alguns
intelectuais, que buscaram mobilizar os jovens para o combate ao que consideravam o
verdadeiro inimigo da nação: o comunismo. Afonso Arinos de melo franco, que exercia na
época uma grande influência no meio intelectual, publicou, em 1934, um livro cujo título

111
era Preparação ao nacionalismo (Carta aos que têm vinte anos). Na conclusão ele
concitava a “nova geração” a lutar contra o “antinacionalismo”, o qual era representado
pela “revolução internacionalista” baseada na doutrina de Marx, um judeu que pregava o
combate ao nacionalismo, que chamava de anti-semitismo e que por isso era considerado o
grande inimigo do comunismo(!)63. Em 1938 Francisco Campos apresentou um projeto de
militarização da juventude. Ele previa a criação de uma “organização nacional da
juventude”, de caráter paramilitar, a ideia não se tornou realidade devido às “reticências”
do Ministro da Educação Gustavo Capanema (PÉCAUT, 1990, p.67).
Entre os temas que mais aparecem articulados à questão do comunismo, ou
mais especificamente ao combate dele, no conjunto do corpus analisado, a educação
ocupa, sem dúvida, um lugar destacado. Ela é apontada como desempenhando uma tarefa
de suma importância, porque seria responsável pela formação da própria mentalidade do
indivíduo e, por conseqüência, do “corpo social”. O ensino representou um dos campos
onde seria mais sistemático o esforço do regime para criar a mentalidade do “homem
novo”.
Constituem-se num elemento recorrente do material analisado as referências
ao sucesso particular que a propaganda comunista estaria obtendo no meio educacional
brasileiro. E para embasar tais afirmações algumas matérias jornalísticas citavam
passagens dos relatórios que teriam sido apresentados em reuniões da “Terceira
Internacional”, como neste caso da matéria intitulada “Como se pratica o comunismo”,
publicada por O Combate:

COMO SE PRATICA O COMUNISMO


[…]
Não há fantasia nem sequer exagero da nossa parte ao escrevermos as linhas
acima. Na última reunião da Terceira Internacional realizada em Moscou,
Dimitroff fez o seguinte relatório sobre a marcha da propaganda em nosso país
[...]:
“No Brasil, segundo estamos amplamente informados pelos nossos melhores
agentes e principalmente pelo nosso ilustre camarada Prestes, a luta tem sido
intensa, devendo vencer o espírito conservador e profundamente católico do
povo brasileiro, que em outras épocas já chegou a ser quase fetichista. As
propagandas anti-religiosas que ali vêm sendo feitas desde alguns anos já vão
dando resultados principalmente entre os marinheiros e soldados. […]
Podemos verificar com satisfação que os últimos relatórios apresentados no
presente congresso, indicam o grau do progresso que ali tem tido a nossa causa,
principalmente entre os intelectuais, professores, estudantes de academias, liceus
e ginásios oficiais, pois não tem sido possível introduzir a nossa propaganda nos
estabelecimentos religiosos ou de ensino particular.
63
SILVA, p.80.

112
[…]
(O COMBATE, 03/09/1936, p.1)

A questão da educação constitui-se num espaço de disputa muito importante


para aqueles que consideravam que o comunismo estava se infiltrando na sociedade
brasileira, a começar pelas instituições escolares, consideradas, então, determinantes para o
sucesso da campanha anticomunista. Podemos identificar, a partir do trecho do suposto
relatório destacado pelo jornalista, os principais sujeitos políticos que estariam implicados
nessa “marcha da propaganda” comunista no Brasil. Além, é claro, dos “agentes de
Moscou”, que representam o pólo inimigo, aparecem nesse texto três outros personagens: o
povo, os militares e os intelectuais.
Em outra matéria, intitulada “repulsa ao comunismo”, defende-se a
necessidade de se “educar o homem brasileiro numa diretriz nacionalista” reagindo-se
dessa maneira ao trabalho dos “técnicos da bolchevização”. Este trabalho, segundo o
articulista, estaria sendo desempenhado pelos “mestres” que têm se aprimorado em destruir
a ideia mais cara da nacionalidade, qual seja, a ideia de “Pátria”, substituída pela ideia
“vaga” e “imprecisa” de humanidade, cujo resultado seria uma mocidade de “mentalidade
deformada e corrompida”. Segundo o autor, estaria se constituindo, dessa forma, um
campo fértil para a disseminação do credo vermelho. Vejamos algumas partes desse artigo:

REPULSA AO COMUNISMO
[…] Já houve quem dissesse que os comunistas são dos que julgam a democracia
o regime que tem por obrigação, em homenagem ao liberalismo de seus
princípios, permitir até a organização de sua ruína pelos seus adversários. Eles
são partidários da força ao extremo, e invocam a liberdade quando ainda não se
apoderaram da máquina do Estado [...]. Isso demonstra que a pedagogia, por si
só, não é suficiente para anular os germes corrosivos da sociedade.
Que é necessário, todavia, educar o homem brasileiro numa diretriz nacionalista,
não há duvida e tão necessário, que as escolas vêm sendo de há muito
trabalhadas pelos técnicos da bolchevização. Eles sabem o valor dos frutos a
colher de uma mentalidade deformada e corrompida. O nosso país apresenta
nesse particular, um espetáculo edificante com numerosos mestres destruindo
nos discípulos a consciência cívica, e opondo à ideia de pátria a ideia de
humanidade, vaga, imprecisa, sutil como se fosse lícito um mundo, uma
humanidade, sem que estes se constituíssem de um conjunto de nacionalidade.
Da importância que os comunistas emprestam à escola temos um exemplo
expressivo do que ocorre nos Estados Unidos [...]. Lá o escândalo chegou ao

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ponto de duzentos mil dólares [...] serem desviados para fins de propaganda
bolchevique [...].
É por esse processo, e é com essas armas que os comunistas combatem a
democracia. Entre nós, porém, eles têm sido repelidos na altura da sua audácia.
[...]
(O COMBATE, 24/11/1936, p.03)

A educação aparece aqui intimamente ligada à questão da nacionalidade, ou


melhor, da necessidade de defendê-la, principalmente através da educação, contra o perigo
da bolchevização. Segundo a matéria acima, a educação e a propaganda são as armas com
que os comunistas combatem a democracia. Devemos combatê-los à altura, ou seja, se eles
dão ênfase ao trabalho pedagógico de disseminação das suas ideias dissolventes,
precisamos contrapô-los nessa arena, educando o homem brasileiro, restaurando nele a
consciência cívica e o amor pela Pátria. O que está expresso aqui, e em diversos outros
textos e matérias dos jornais, é a posição que, segundo seu autor, deveriam assumir os
intelectuais, as “pessoas competentes”, os “mestres”, “professores e estudantes de
academias”, frente ao que ele identificava como avanço da “propaganda bolchevista” no
Brasil. O papel desempenhado por eles consiste em esclarecer e revelar a realidade, a
verdade das coisas do Brasil. E mais do que isso, eles deveriam se engajar na luta. A
imprensa funciona como um dos veículos de difusão das suas ideias e propostas de
combate ao inimigo vermelho.
Desse modo, as propostas de contra-propaganda passam a ser discutidas e
cobradas pelos jornais, que afirmam, de maneira cada vez mais alarmista, a necessidade de
um plano de combate aos extremismos, sob pena de se colocar em dúvida o “futuro do
regime consagrado na Constituição”:

O REGIME E O EXTREMISMO
Sem a menor dúvida o combate aos extremismos é indispensável á conservação
do regime democrático ora vigente no pais. O Brasil precisa resolver: ou se
mantem fiel a esse regime ou dá cabo do extremismo, dentro do seu território,
onde elle penetrou – diga-se a verdade – em seguida á revolução de 1930, sob as
formas diversas que apresenta.
Vemos a cada momento reunirem-se ministros, generais e almirantes em
conciliábulos em que se trata de organizar um plano de defesa de nossa
democracia contra as machinações do extremismo. Mas na realidade esses
optimos propósitos não se objectivam numa campanha segura e efficiente.
As gerações novas estão se educando no culto ao communismo, ao facismo, ao
nazismo. A propaganda dessas ideologias, velada ou abertamente, visa, é claro, a
gente moça [...]. Enquanto isso, não se organiza, nas escolas, uma propaganda da
democracia liberal[;] e das vantagens dos regimes totalitários faz-se propagandas

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por toda parte.
Fato bem mais grave é que se verifica frequentemente de atuarem prosélitos de
doutrinas extremistas no próprio ambiente oficial. E não menor dificuldade
decorre, para o combate ao extremismo, da compreensão que os governos teem
do que seja doutrina extremista.
Na Bahia, por exemplo, governadores atacam vivamente o Integralismo,
considerando-o manifestação extremista do pensamento político. Essa mesma
compreensão teem do credo que tem por symbolo o Sigma os srs. José Américo e
Armando de Salles.
Não acontece, porem, o mesmo em vários Estados, onde os governos encaram
como extremistas apenas o communismo.
No meio dessa desintelligencia, como combater os extremistas? Como fazer
campanha contra as doutrinas que pregam o anniquilamento da democracia
liberal, se nesta parte do Brasil, ellas vêem sendo tidas por perigosas e,
naquellas, por inoffensivas?
A continuar tanta balburdia, ninguém pode ter segurança no futuro do regime
consagrado na Constituição Federal. E para termos – é forçoso confessar – tal
segurança, indispensável se faz uma campanha cohesa, baseada nestes dois
pontos: primeiro – que doutrinas vão ser combatidas; segundo – de que meios
lançar mão, por todo o país, para esse combate.
(DIARIO DO NORTE, 08/09/1937, p.1).

A mensagem do artigo é clara e direta: ou a democracia brasileira acaba com


os extremismos ou os extremismos acabam com o regime democrático vigente no país. O
jornal cobra das autoridades um “plano de defesa” coeso capaz de se objetivar numa
“campanha segura e eficiente” de combate aos extremismos. Apesar das várias reuniões
secretas entre os ministros, generais e almirantes, os seus “ótimos propósitos” não se
materializavam em planos de ação concretos. Enquanto isso, segundo o autor, “as gerações
novas” iam sendo educadas no culto do comunismo, do fascismo e do nazismo, sem que se
promovesse uma propaganda da democracia liberal para concorrer com a propaganda das
ideologias “totalitárias”, das quais, afirma ele, se fazia propaganda por toda parte.
Classifica de desinteligência o fato de alguns governos estaduais considerarem extremistas
apenas os comunistas, o que, segundo ele, impediria o combate eficiente das “doutrinas
que pregam o aniquilamento da democracia”. Entre estas deveria ser incluído o
integralismo. O ponto de vista defendido por este artigo publicado no Diário do norte se
diferencia, por exemplo, daquele de autoria do próprio redator-chefe desse jornal, Antonio
Lopes, onde a ênfase na luta contra o comunismo é muito mais acentuada, deixando em
segundo plano, quando não simplesmente omitindo, a questão do chamado extremismo da
direita, representado pelo movimento integralista. Nesse ponto o artigo é bem claro ao
dizer que é fundamental determinar quais são os movimentos políticos considerados
extremistas e quais os meios de que se deve fazer uso para tornar o seu combate eficaz. A
atitude do jornal é de defesa do regime democrático, que considera em vigor no país,

115
ameaçado pelo avanço dos extremismos no seu território, o que teria se iniciado logo após
os acontecimentos revolucionários de 1930.

4.2. Em defesa da moral cristã e das suas instituições sagradas: Deus,


Pátria, Família, casamento e submissão da mulher

A presença da dimensão religiosa no discurso jornalístico sobre o comunismo


constitui um aspecto marcante de toda a imprensa de São Luís no período pesquisado. A
Igreja Católica aparece como uma das instituições mais prestigiadas, suas orientações
ultrapassam a esfera do comportamento estritamente religioso e são reproduzidas nos
veículos da imprensa.
A fundamentação católica de uma parte considerável dos enunciados
jornalísticos pode ser percebida em matérias que expunham a posição da própria Igreja
Católica, considerada exemplar para todas as sociedades ameaçadas pelo perigo vermelho.
Algumas dessas matérias eram produzidas por clérigos, outras são simplesmente a
transmissão de orientações católicas, porém, também demonstram a posição do jornal.

NO IMPERIO VERMELHO
Por Cônego Melo Lula
O comunismo tem sede de sangue humano. Na Rússia vermelha já não há noção
da própria dignidade humana.
“Le Matin”, jornal francês, publicou uma estatística referente ao número das
vitimas da hidra comunista.
Até o fim do ano de 1935 foram mortos na Rússia por ordem do governo
soviético: 228 arcebispos e bispos; 6.778 sacerdotes; 6.535 professoras; 54.858
oficiais; 260.000 operários e camponeses ou 11.816.961 criaturas humanas.
Além disso, de fome, mais de 10 milhões de pessoas. Sabe-se que na Criméia o
furioso Bela Kun fez fuzilar 70.000 pessoas.
[...]
Os emissários de Moscou têm sede de sangue, de muito sangue.
O ódio contra Deus e contra a Igreja e toda ideia religiosa é o mais horrível e
diabólico. [...]
Aí está, brasileiros do Centro, do Norte e Sul, a linguagem blasfema dos novos
bárbaros contra Deus e as coisas de Deus.
A “Frente do Ateísmo” continua, e titânica. Daí a necessidade de uma Frente
Comum contra o perigo vermelho.
Não se iludam os brasileiros.
Todos vigilantes e unidos contra os agentes de Moscou. Eles querem a destruição
da ideia de Deus, da Pátria, da Família e da civilização cristã.
(O COMBATE, 20/08/1936, p.4)

Cabe destacar o quanto eram recorrentes nos jornais as mensagens que


afirmavam a “necessidade” de se unirem todos os brasileiros na defesa de “Deus e das

116
coisas de Deus”, ou seja, a “Família”, a “Pátria” contra a “Frente do Ateísmo” que quer
destruir a “civilização cristã”. É um discurso que se preocupa em demonstrar de modo
categórico porque o comunismo era o maior inimigo da religião cristã. As estatísticas
impressionantes sobre os números de mortos na Rússia revelariam, segundo a visão
difundida, a fúria assassina, a “sede de sangue, de muito sangue” que tinham os emissários
de Moscou. O Cônego que assina o artigo procurava mostrar assim aos brasileiros (“Aí
está, brasileiros”) o modo de agir desses “novos bárbaros”, cujo ódio contra “toda ideia
religiosa” seria o mais horrível e diabólico.
Numa linha mais doutrinária temos uma longa matéria que O Combate
publica em maio de 1936. Ela se baseia numa espécie de lista de recomendações que o
Arcebispo de Paris transmitia aos fiéis católicos, tendo em vista o “desenvolvimento da
propaganda comunista” na França.

CATOLICISMO E COMUNISMO
Sob a direção do Arcebispo de Paris, funciona um Conselho de Vigilância, a
quem incumbe, entre outros encargos, o de, simples, clara e concisamente,
fornecer ao público instruções práticas sobre a religião e moral.
Recentemente, ante o desenvolvimento da propaganda comunista, julgou ele
necessário recordar aos católicos os pontos que vamos epitomar:
1º. A igreja, guarda de tudo o quanto interessa à vida espiritual, deu
ensinamentos preciosos para se organizar a atividade econômica e a existência
social, de conformidade com a justiça e a dignidade do homem.
Especialmente nas grandes encíclicas Rerum Novarum, Quadragesimo anno 64
[...] estão expostas as verdades a manter e propagar sobre a justiça e a caridade
fraternal; sobre a família; sobre o fundamento, o bom uso e os limites do direito
de propriedade; sobre as instituições da Economia Política; sobre a iniciativa
particular; sobre o papel da autoridade na organização econômica.
A igreja definiu com precisão o que é o direito natural imutável, e, ao mesmo
tempo, indicou em que sentido a presente ordem social deve ser corrigida e
melhorada, para se tornar mais conforme as exigências do Direito e do bem
humano.
2º. Os católicos devem compenetrar-se dessa doutrina social da Igreja e
largamente difundi-la. Evitarão desse modo para si próprios o risco de admitir
teorias que podem ser generosas em algumas de suas tendências, mas que trazem
em si germes destrutivos da vida social.
Ao contrário, a doutrina católica, apresentada de modo verdadeiro e completo a
todos quantos procurem, no sacrifício, na dúvida, na agonia, mais justiça e mais
bem estar lhes ministra soluções que devem ser acolhidas, ao menos com
simpatias.
3º. Em face dos que se deixam arrastar pelo comunismo, lembre-se da distinção
capital que a Igreja sempre estabeleceu entre a caridade, ou amor das pessoas
particulares, e a manutenção da verdade, a qual é um bem universal necessário às
pessoas e à sociedade.
Entre aqueles que aderem ao comunismo, ou simpatizam com alguns dos seus
lemas, há, de certo, espíritos com intenções retas e generosas.
Mesmo os dominados pelo ódio não devem ser excluídos do nosso interesse
fraternal.

64
A encíclica Quadragesimo anno pregava a necessidade de uma harmonia entre capital e trabalho.

117
Mas o comunismo é doutrina essencialmente destruidora das verdades e valores
morais mais necessários à humanidade.
4º. Em particular, jamais se esqueça que o comunismo explicitamente substitui a
civilização hodierna por uma vida social atéia e materialista.
Com efeito, o comunismo, de maneira constante, se impregna da doutrina de
Karl Marx.
À luz do pensamento marxista, o ateísmo, o materialismo, a violência, o repúdio
da caridade não são somente, no regime preconizado por ele, excessos
provocados por oposições encontradas, ou por exageros muito habituais nas lutas
das revoluções, mas constituem aspectos essenciais da vida que o comunismo
quer para a humanidade.
Segundo o marxismo, não existe nenhum Deus, ordenador e juiz, o mundo
inteiro não passa de uma luta constante, em que tudo se muda e desaparece.
A religião consiste em um enfraquecimento e entrave nessa luta e transformação
do mundo.
Lenine proclamou: Toda ideia religiosa é uma abominação.
Consoante ainda ao marxismo, não há vida futura e deve predominar sempre a
procura dos gozos terrestres.
As mais sagradas das liberdades das pessoas devem ser subordinadas aquilo que
se julga o bem coletivo.
Essa filosofia da transformação total e contínua destrói, evidentemente, toda
estabilidade e toda obrigação na família, torna caducos os compromissos e os
contratos.
Não é apenas a propriedade particular o que se nega e combate, mas também o
conjunto dos valores morais fixos sobre os quais se alicerça toda verdadeira
civilização.
5º. Na sua propaganda atual, ao menos em França, o comunismo pensa
ocasionalmente útil não insistir na luta contra a religião e apresenta-se como
paladino da justiça.
Mas como até agora, nada foi eliminado na doutrina acima exposta, como as
brochuras e folhas volantes que disseminam essa doutrina subversiva continuam
a ser profusamente distribuídas, atacando não só a organização econômica, como
também a religião, a moral da família, etc, forçoso é concluir que na aparente
moderação às vezes manifestada, não há senão uma tática.
Tal tática, aliás, foi prevista e recomendada por Lenine que, pregando a
necessidade de extirpar as raízes sociais da religião, achava que, em certos casos,
a propaganda francamente atéia pode ser supérflua e prejudicial à causa, ao
ponto de vista do progresso da luta de classes.
Nas condições atuais da sociedade capitalista, os operários cristãos hão de chegar
ao ateísmo, não em virtude de discursos e sermões, mas de crises e injustiças
habilmente exploradas.
Assim, a propaganda anti-religiosa não deverá ser um meio para a luta de
classes, fomentará praticamente o ateísmo. [sic]
6º. Empenhem-se os católicos em impedir que, nas consciências, o interesse
parcial que possa oferecer tal ou tal realização comunista, ou a caridade quanto
às pessoas, não as leve a uma espécie de complacência para com erros dos mais
perniciosos na sua forma exterior.
Eis, em substância, as advertências do Conselho de Vigilância do Arcebispado de
Paris, advertências aplicáveis a todo o globo, onde o comunismo, como as
grandes epidemias, está, mais ou menos grassando, incutindo apreensões de
contaminação geral.
Houve quem ousasse comparar o movimento comunista com o dos cristãos
primitivos, há 20 séculos.
Irrisória, revoltante comparação!
(O COMBATE, 19/05/1936, p.4).

O jornal referenda ou incorpora uma tomada de posição da Igreja Católica

118
frente a teorias e doutrinas que pretendiam orientar a vida social. O que se desejava,
através da apresentação resumida dos pontos destacados na advertência do Conselho de
Vigilância do Arcebispado de Paris, era mostrar a diferença que existiria entre a doutrina
social da Igreja Católica e a doutrina comunista, reverenciando a obra cristã em favor da
melhoria da “ordem social”, conforme as exigências do “Direito e do bem humano”.
Assim, enquanto o comunismo é representado como uma doutrina “essencialmente
destruidora das verdades e valores morais mais necessários à humanidade”, a Igreja
Católica é significada como construtora e guardiã da civilização hodierna, pautada nos
ensinamentos católicos que lhe permitiram organizar a “atividade econômica e a existência
social, de conformidade com a justiça e a dignidade do homem”.
Existe um apelo ao fiel católico para que não apenas defenda a doutrina social
da igreja, mas para que o faça de um modo a convencer os que aderiram ou simpatizam
com os lemas do comunismo a enxergar a verdade dessa teoria, ou seja: apesar de generosa
em algumas de suas tendências, ela traz em si o germe destrutivo da vida social. Apesar
disso, é preciso não desistir dessas almas, pelo contrário, mesmo aqueles que estão
dominados pelo ódio devem ser objeto do interesse fraternal de todo católico verdadeiro.
A guerra do comunismo contra Deus precisaria, de acordo com os jornais, da
união de todos contra o inimigo comum, ou seja, católicos e protestantes são chamados a
participar ativamente dessa campanha.

PROTESTANTISMO
A ATTITUDE DOS EVANGELICOS
Em face dos perigos que ameaçam a ordem politico-social do Brasil – apesar de
alheios aos movimentos politicos, não podem os evangelicos ficar indiferentes
deante da sorte da Patria ora ameaçada pela onda revolucionaria do materialismo
bolchevista, diametralmente opposta ao espiritualismo christão mormente nesta
hora, em que o nosso governo, vendo periclitar a paz e a ordem politico-social da
Republica decreta o estado de guerra e conclama todas as forças espirituais da
nação para uma acção conjuncta ao terreno das idéas contra o inimigo comum.
As igrejas evangelicas, ramos da grande arvore do Cristianismo tão combatido
pelo communismo, precisam de estar em guarda contra o inimigo commum e
assentar planos para a obra ideologica de rebate ao atheismo arrogante que
alicerça a filosofia e sociologia communistas.
Nesta hora, sejam quaes forem as nossas diferenças, devemos unir-nos na obra
patriotica de colaboração com o poder publico para conjuração do grande perigo
que ameaça as nossas instituições, a nossa paz, a nossa liberdade, a nossa
propriedade, a nossa familia, a nossa actividade e sobretudo a religião cristã, cujo
vulto central – Jesus Christo – é o alvo da mofa e do combate do atheismo
communista.
Jeronimo Gueiros.
(DIÁRIO DO NORTE, 28/10/1937, p.5)

119
O tom geral do texto é de apelo ao engajamento das igrejas evangélicas na
“obra patriótica” de conjuração do inimigo comum: o comunismo e seu ateísmo arrogante.
Os evangélicos não poderiam ficar indiferentes nesse momento porque não é somente a
“ordem politico-social” que está ameaçada, mas o próprio “espiritualismo cristão”. Com
efeito, este se constituiria, segundo o discurso jornalístico, num dos principais alvos da
“onda revolucionária do materialismo bolchevista”. Por isso é preciso superar as
diferenças, aconselha a autor do texto, que parece falar de uma posição de um cristão não-
evangélico.
Os grandes referentes desse discurso de união e mobilização para a guerra
contra o inimigo comum estão presentes: é preciso proteger as “nossas instiuições”: paz,
liberdade, família, propriedade e, principalmente, aquilo que é a amálgama deste texto
especificamente, a religião cristã. Outro elemento que não podemos deixar de observar diz
respeito à posição assumida perante o governo. “Devemos” colaborar com ele para a obra
de conjuração do grande inimigo.
Segundo a matéria o governo estaria “conclamando”, nesta hora premente,
“todas as forças espirituais da nação para uma acção conjuncta” contra o inimigo comum,
à qual não seria admissível, enquanto membros da grande árvore do cristianismo, ficar
indiferentes. Os evangélicos são interpelados a agir, junto com todas as outras igrejas
cristãs, nessa guerra em defesa da Pátria e de Deus.
Um artigo muito interessante para analisarmos a dimensão social que tomou o
chamado “combate ao comunismo” no Maranhão aborda especificamente o tema da
família frente ao comunismo. Nesse artigo, assinado por um certo “Cap. Teotimo Ribeiro”,
aparece também uma concepção acerca do que deveria ser o papel da mulher na sociedade.
Vejamos alguns trechos:

A FAMÍLIA E O COMUNISMO
O comunismo é a negação de tudo.
[…]
Todos que viajam a Rússia de hoje, os mais imparciais e neutros, atestam a
ineficácia de tal regime.
Um observador, recentemente, estudando a realidade do trabalho sob a ditadura
proletária, assim se expressa: “todos os ramos da vida econômica se acham
completamente socializados. […]
Toda a população de 165 milhões de habitantes não conta um único individuo
que trabalhe para um particular na produção de qualquer artigo; […] ”
Quanto custou semelhante desatino, que foi devastar um país outrora tão rico e
próspero?
[…]
Mas o nosso objetivo é autenticar como vive a família, no presente, sob o

120
domínio soviético, depois que as mulheres foram também socializadas.
“A ditadura russa legisla sobre todos os aspectos concebíveis da vida dos russos.
Ela tira e concede a vida. Destrói a Igreja e provê a educação. Muda o conceito
moral e altera o senso da justiça. Recompensa as crianças que denunciam os pais
e funda creches para os bebês”
Quanto ás ocupações das mulheres nas cidades, “é coisa comuníssima verem-se
nas multidões, mulheres vestidas de palitó, calças de lona e botas, a caminho dos
‘metros’, onde vão trabalhar cavando túneis.”
[…]
“Até as mulheres concorrem para aumentar a força do Exército. Já existem nove
regimentos de atiradoras”. O que não impede Vorochilov de achar pouco. Num
de seus últimos discursos […] o infatigável preparador da guerra, não receia
dizer: “as mulheres devem preparar-se como os homens para a luta. […] devem
elas aprender o uso do fuzil, pois a próxima guerra será uma guerra de morte das
classes […]”
Nós outros, latinos e principalmente brasileiros e […] que mantemos o amor á
família como um dogma, não nos envergonhamos, jamais, de proclamar o
conceito em que temos essa sagrada instituição.
Entendemos que o homem, para que consiga formar o seu caráter com as
virtudes peculiares a uma individualidade de escol, precisa que esses traços
essenciais de suas faculdades morais sejam fundados no cadinho da família. […]
Em conclusão, sendo a Pátria, a Família e a Religião, os fundamentos de todas as
sociedades que se regem pela moral cristã, o comunismo procura, a todo transe,
eliminar semelhante estorvo aos seus planos de terror e de aniquilamento.
(O COMBATE, 09\04\1936, p.4).

Já no começo do texto temos uma definição objetiva e clara do que seria o


comunismo: ele é a “destruição de tudo”. Essa totalidade a que se refere é composta dos
valores mais caros a todas as sociedades regidas pela “moral cristã”, que são “a Pátria, a
Família e a Religião” (cristã católica). O texto jornalístico é baseado no relato de “um
observador” que recentemente teria visitado aquele país com o fito de estudar sua nova
organização política, social e moral. Este aspecto é particularmente destacado nos
fragmentos que o articulista de O Combate transcreve e aos quais ajunta seus comentários.
A preocupação dele é mostrar “como vive a família, no presente, sob o domínio soviético,
depois que as mulheres foram também socializadas”.
A escolha do tema família, que está articulada à questão mais ampla de uma
“moral cristã” revela uma provável proximidade, por parte do militar que assina o artigo,
com o ideário católico e também com os parâmetros ideológicos dos integralistas, a
começar pelo próprio lema “Deus, Pátria e Família”, que no texto aparece levemente
modificado (“Pátria, a Família e a Religião”). A Ação Integralista Brasileira (AIB) teve entre
seus integrantes muitos militares, o Capitão Teotimo Ribeiro seria um deles? Ou
simplesmente um militar, de formação cristã católica, que procurava defender sua “pátria”
frente ao plano comunista de aniquilar os valores que são os alicerces das sociedades que
se regem pela moral cristã? Devemos considerar que a terminologia empregada estava

121
muito em voga na época. Certamente essas ideias não faziam parte apenas do programa da
AIB, mas compunham, sem dúvida, a base de outras organizações e instituições,
especialmente as de caráter nacionalista que procuravam se estribar em valores religiosos,
mais especificamente católicos. Desde princípios da década que já era possível encontrar,
articulados sob um lema, esses temas. Silva cita matérias publicadas em jornais do rio de
janeiro em março de 1931 em que se afirmava: “haja o que houver, nos encontrará na linha
de frente, combatendo por Deus, pela Pátria e pela família.”65
A defesa dos ideais religiosos pode ser apontada como uma característica
marcante das matérias presentes nos jornais analisados, o que demonstra a força ou o
prestigio de que gozava a Igreja mesmo junto ao que podemos considerar um segmento da
intelectualidade do país. Pois como é possível perceber, as pessoas que escrevem essas
matérias são em grande parte os chamados profissionais liberais (notadamente advogados),
professores e estudantes, funcionários públicos.
Outro aspecto chocante tanto para a visão de mundo do observador, “imparcial
e neutro”, quanto para a do articulista, diz respeito à atividade laboral desempenhada pela
mulher para além do espaço doméstico. A descrição das “multidões” de mulheres vestidas
de “palitó, calça de lona e botas” a caminho do trabalho em grandes obras de construção,
bem como a declaração do “infatigável preparador de guerra” russo de que as mulheres
deveriam ser recrutadas para compor as forças armadas, eram provas de que o comunismo
queria destruir a família, essa “sagrada instituição”. O lugar da mulher deve ser em casa,
onde, junto da família, contribui para formar o caráter humano em suas virtudes peculiares
e faculdades morais.
No livro de Carla Luciana Silva, Onda vermelha – imaginários anticomunistas
brasileiros (1931-1934), onde a autora analisa jornais do Rio Grande do Sul e do Rio de
Janeiro, encontram-se também alguns desses elementos que parecem ser freqüentes nos
discursos que pretendem retratar a situação da mulher no regime comunista. Nesses jornais
o comunismo é apontado “como um flagelo para a mulher russa” e uma ameaça à liberdade
das mulheres dos outros países. Segundo muitos articulistas da época a mulher deveria
permanecer no lar, supervisionando a educação dos filhos(SILVA, s\d, p.94 e 150)66.
65
Correio do povo, 26 de março de 1931, p.12. apud SILVA, p.126.
66
Silva cita um panfleto distribuído em 1918 às mulheres da Alemanha: “Mulheres alemãs! Sabem a ameaça
que o bolchevismo representa para vocês? O bolchevismo quer a socialização das mulheres: 1.O direito de
propriedade sobre as mulheres entre os 17 e os 32 anos é suprimido; 2. Todas as mulheres são propriedade do
povo; 3. Todo homem deve denunciar as mulheres que resistirem a eles […]” (SILVA, s\d, p.152.)

122
Para efeito de comparação podemos utilizar, mais uma vez, matéria publicada
no jornal Tribuna:

A MULHER NO REGIME PROLETARIO


O sr. Gastão Pereira da Silva já nos deu alguns livros definitivos.
“Para comprehender Freud, Lenine e a Psycanalyse”, seguiram-se outros de igual
sucesso. Agora nos põe em contacto com “A mulher no regime proletario”, livro
de divulgação e de analyse, com uma farta documentação sobre as reivindicações
femininas na Russia.
Há no seu livro detalhes curiosissimos. Pouca gente conhece a verdadeira
situação da dictadura proletaria. Diz-se por ahi cousas absurdas, disparates
tremendos que ferem, estrangulam os postulados sociologicos.
A leitura do pequeno livro de Pereira da Silva serve para evitar que se incida na
pratica dos absurdos e das affirmativas levianas.
(TRIBUNA, 03/03/1934, p.1)

Esta matéria constitui-se, apesar de ter sido produzida antes do período de


maior repressão e combate ao comunismo, num contraponto a outras que se referem à
situação da mulher sob o regime soviético. Podemos destacar o fato do autor não assumir
explicitamente uma posição pró-soviética, mas, por outro lado, não deixa de emitir críticas
à maneira pouca científica, estranguladora dos “postulados sociológicos”, que difundiria
“cousas absurdas” e “disparates tremendos” sobre o regime em curso na Rússia, acerca do
qual “pouca gente” conheceria “a verdadeira situação”. O mesmo ocorrendo em relação “às
reivindicações femininas” sob a “dictadura proletaria” russa. O livro que então se
publicava, tinha como um de seus principais méritos contribuir para que cessassem as
“affirmativas levianas” sobre essas questões.
A importância da dimensão religiosa estava presente no discurso da imprensa,
apesar de reivindicar-se uma instituição de caráter laico. Quando procura combater o
florescimento da chamada “planta exótica” os jornais também vão utilizar o profundo
sentimento católico do povo brasileiro para argumentar e provar, segundo eles, que o
comunismo não serviria ao Brasil.

O COMUNISMO DESTRÓI A FAMÍLIA.


O instinto de conservação nos indivíduos de todas as espécies, determina no
homem o desejo de prolongamento da vida, da conservação da espécie e do
sentimento moral e religioso; e nas horas angustiosas da vida, não esquece a
existência de Deus, para quem apela pedindo prolongamento da sociedade.
Do anseio do prolongamento da sociedade, que vem do instinto de conservação,
resulta a organização das instituições para promover e facilitar o bem geral.
A organização das instituições jurídicas tem como escopo a verdade e a justiça,
não pode nunca vir da anarquia, da mentira oficializada e do amor livre,
praticado pelo comunismo soviético.
O conceito filosófico que a ação humana, essencialmente subordinada ao
pensamento social, não pode alcançar aceitação pacifica, daí vem o erro do

123
determinismo materialista de Karl Marx, cujo objetivo é o emprego da técnica
para satisfação do Estado e do homem. O comunismo, investindo contra a
religião, a pureza de costumes e a verdade nega a moral individual e coletiva,
visto que o princípio primário dos nossos deveres é necessariamente Deus, ainda
que o objeto deles seja diverso, segundo se refira a Deus, ao próximo e a nós
mesmos.
O escola do materialismo sustenta, que na vida da sociedade a ação precede o
pensamento.
A moral é a mãe do direito, o alicerce das sociedades organizadas sob o ponto de
vista de uma filosofia religiosa, surgindo das suas instituições jurídicas o direito
que é a força. O comunismo nega a Deus porque lhe não convém religião
alguma, nega o direito porque quer que prevaleça a mentira oficial, nega a moral
porque quer o amor livre, e prole irregular, pais e filhos serão propriedade do
Estado, uma vez que o partido comunista deve substituir a família.
Devemos combater o comunismo com a moral e a justiça; moral administrativa
rígida dos governos para reflexo na sociedade, na família.
Não basta que os governos apliquem severas medidas de repressão, é necessário
que seus atos reflitam um pensamento em Deus, no desejo de bem servi-lo,
servindo a sociedade.
Não foi senão a bacanal da corte de São Petersburgo que gerou no espírito das
massas, o instinto de vingança, contra a sociedade constituída, e assim preparou
o terreno que os ideologistas de Lenine, aproveitaram para lançar a semente do
credo maldito.
É preciso combater o comunismo com a palavra divina, verdadeira, que é essa
que emana dos atos puros dos que governam com justiça.
É preciso resguardar o direito individual como garantia das nossas instituições
democráticas que são patrimônio da Nação. Combater o comunismo é dever de
todos nós, para resguardo da Família, que é uma obrigação imposta pelo criador
à criatura.
(O COMBATE, 10/11/1937, p.1)

A defesa dos valores cristãos que se acreditava estarem representados pela


Igreja Católica pode ser verificada numa nota que o jornal Maranhão publicou sobre uma
peça teatral em cartaz em São Luis. Acima do título do jornal, na primeira página, era
comum aparecer alguma frase que chamava atenção do leitor devido à sua posição
estratégica e principalmente pelo tamanho das letras. Em 10 de outubro de 1936 o
Maranhão alertava, no alto da primeira página e em letras garrafais:

A COMEDIA “AMOR” ESTÁ MARCADA PARA HOJE A NOITE. É


IRREVERENTE PORQUE ATTENTA CONTRA OS SENTIMENTOS
RELIGIOSOS DO POVO! É IMMORAL E COMMUNISTA PORQUE PREGA
O AMOR LIVRE! AS PESSOAS DE VERGONHA NÃO DEVEM ASSISTIR A
ESSA COMÉDIA!
(MARANHÃO, 10/11/1936, p.1)

Quando o jornal afirma que a peça “atenta contra os sentimentos religiosos do


povo”, ele está assumindo, ou procurando assumir, o papel de porta-voz do “povo” e,
portanto, de conhecedor e defensor do que seriam os seus verdadeiros “sentimentos
religiosos”. De acordo com o discurso jornalístico, a referida comédia pregaria o “amor

124
livre”, aspecto que demonstrava sua intenção de atacar os valores morais da sociedade,
dissolvendo seus alicerces. Tudo isso só poderia resultar em uma coisa: a comédia “Amor”
era comunista! E desse modo, todas as “pessoas de vergonha”, que respeitavam os valores
religiosos e morais afrontados pela peça teatral, jamais deveriam assisti-la.
A sociedade é dividida em duas partes: a primeira seria a “boa” sociedade,
formada pelos que defendiam os sentimentos religiosos cristãos e cumpriam suas
obrigações morais enquanto “pessoas de vergonha”, respeitando suas tradições, como o
sagrado sacramento cristão que era o casamento. A outra parte da sociedade seria composta
por todos os que fossem de encontro a esses princípios e valores, agindo como elementos
contaminadores procurando corromper a parte sã do organismo social. Daí a importância
de não se entrar em contato com essas pessoas, sob o risco de ser inoculado pelo veneno
deletério, cuja fonte principal residia no comunismo ateu que pregava dentre outras coisas
o “amor livre”.
Por “amor livre” o jornal entendia todo comportamento amoroso que não estivesse
assentado nos princípios cristãos, mais exatamente aqueles instituídos pela Igreja Católica.
A relação amorosa somente deveria ocorrer dentro das normas referendadas por ela, ou
seja, as pessoas tinham primeiro que se casar e assim, consoante as leis de Deus, elas
poderiam manter relações amorosas (leia-se sexuais), sempre com o fim de procriação.
Tudo passa a ser sinal das maquinações comunistas ou exemplo da corrupção
dos valores morais patrocinada pela propaganda bolchevista. A notícia de que algumas
noivas estavam comparecendo ao casamento em trajes diferentes do tradicional era logo
entendida como uma afronta que só poderia encontrar explicação na intenção comunista de
desmoralizar as instituições e os valores mais sagrados da cristandade.

SEM VÉU
Escreve um jornal carioca:
“Está-se tentando entre nós a introdução de um péssimo costume: algumas
noivas pretendem apresentar-se perante o altar sem o belo e simbólico traje
tradicional, branco, com véu e grinalda.
Trata-se de uma manhosa propaganda bolchevista para desprestigiar o
casamento.
Nenhuma virgem cristã se deve apresentar perante o altar em coustume de
viagem e outros, com que se pretende desmoralizar o sacramento do matrimonio.
Quem não quiser conformar-se com as tradições e praxes respeitáveis da Igreja
não procure os templos religiosos.”
(DIÁRIO DO NORTE, 04/08/1937, p.4)

4.3. A cobertura do “caso espanhol”: um exemplo do “Terror Vermelho”

125
A guerra civil na Espanha constitui-se em outro tema muito tratado pela
imprensa brasileira de um modo geral, e conseqüentemente reproduzido pelos jornais da
capital maranhense. O nosso objetivo, ao analisarmos a forma como foi abordado, pela
imprensa de São Luís, o processo político espanhol, é justamente perceber de que modo o
discurso que visava construir uma imagem negativa do comunismo se apropriou dos
“fatos” ocorridos na Espanha para reforçar determinadas ideias ou aspectos que
supostamente definiriam o chamado regime comunista. Sua obsessão em aniquilar a ideia
de religião no espírito do ser humano estaria fartamente exemplificada pelos vários casos
de profanação e destruição de igrejas pelos comunistas espanhóis; sua índole maligna
comprovada pelo banho de sangue de inocentes (crianças, mulheres, idosos etc) que teriam
ocorrido em diversas cidades da Espanha, patrocinados sempre pelos “vermelhos”, cuja
violência alcançaria requintes de crueldade. São estes alguns dos traços que supostamente
compunham a essência do comunismo, os quais estariam fortemente delineados pelo caso
espanhol, segundo o discurso produzido e reproduzido pelos jornais.
A destruição das igrejas é um dos elementos mais referenciados no discurso
dos jornais quando tratam da guerra civil espanhola. Essa destruição é empreendida pelos
comunistas porque constitui, segundo os veículos da imprensa buscam demonstrar, um
aspecto central e definidor da sua luta contra a civilização cristã; faz parte dos seus
objetivos, não se tratando, portanto, de uma mera conseqüência dos conflitos. Tanto seria
assim que eles, os comunistas espanhóis, procuravam sempre eliminar os representantes
religiosos: padres e freiras eram logo fuzilados.
Como procuravam fazer ver as matérias jornalísticas sobre a Guerra Civil
Espanhola, os comunistas seriam impiedosos, cruéis e desumanos, os exemplos que
comprovavam esta “realidade axiomática” eram muitos:

O TERRORISMO VERMELHO NA ESPANHA


Lisboa, agosto.
O enviado especial do diário “O século”, sr. Leopoldo Nunes, que percorreu as
localidades de Sevilha e Huelva, declarou que as depredações cometidas pelos
partidários do governo espanhol nos primeiros dias da revolução exigirão mais
de um ano para ser reparadas.
Informa, ainda, o senhor Nunes que visitou Palma do Condado, localidade com
uma população de 7.000 habitantes, onde os comunistas, em sua maioria
operários das minas do Rio Tinto, detiveram todas as pessoas não marxistas e
saquearam as casas mais abastadas do lugar.
A medida que se passavam os dias, aumentavam as cenas de perseguição e
crueldade, não tendo os presos a sua disposição nem comidas nem bebidas, até

126
que a 30 de junho chegou a notícia de se estar aproxi
mando da cidade uma coluna revolucionária, procedente de Sevilha. Houve um
momento de intenso furor, durante o qual ocorreram episódios que constituem a
página mais sombria de toda a guerra civil: o cárcere era antes um pátio fechado,
que tinha uma só porta e algumas janelas no alto.
Como estivesse fechada a porta, um comunista subiu na parede com uma escada
de mão e contou, no pátio, dezenove presos. Imediatamente, lançou a primeira
bomba de uma janela, matando alguns deles. Depois contou os restantes, em alta
voz, e lançou outra bomba, que fez novas vítimas. Os gritos de dor morriam
dentro do recinto. A mesma pessoa voltou ainda para atirar quatro bombas. A
esse tempo jaziam no solo dezessete mortos, embora o criminoso julgasse que
todos haviam perecido. Ainda assim, não contente com sua obra, atirou mais
algumas bombas, que destruíram as paredes, tendo dois dos prisioneiros se
salvado milagrosamente.
Em Utrera os comunistas entrincheiraram-se no castelo de dominava a cidade,
depois de haver incendiado as igrejas de Santa Maria e Santiago e fuzilado 18
pessoas. Só no interior do quartel foram fuziladas 10 pessoas das que ali se
encontravam detidas. Em Dayma, queimaram vivos dois homens e fuzilaram 24.
Também incendiaram o asilo, em que estavam 21 anciãos, dos quais somente 9
se salvaram. Em Arabal, a crueldade chegou ao auge. A 20 de julho foram
detidas e conduzidas ao calabouço da prisão, onde apenas se podiam mover, 30
pessoas, entre elas a srª.Tereza Arias de Reina, o padre Antonio Ramos e 2
meninos que não quiseram abandonar seus pais. A cada momento, os prisioneiros
eram ameaçados com fuzilamento. Além disso, quase nenhuma alimentação lhes
era fornecida.
A 22 de julho, aproximava-se de Arabal uma coluna revolucionária, que vinha
para libertar a população. Em vista disso, ao amanhecer, um comunista auxiliado
por uma mulher, assomou à janela do calabouço e derramou sobre os detentos
uma lata de gasolina.
Sem compreender plenamente o que estava para suceder, os presos começaram a
pedir misericórdia aos seus algozes. Fechou-se a janela e, momentos depois
estavam todos envolvidos em chamas. O único que conseguiu se salvar, embora
com graves queimaduras no rosto, foi o sacerdote. Os demais se achavam
totalmente carbonizados quando as tropas revolucionárias entraram, vitoriosas,
na povoação.
(TRIBUNA, 16/08/1936, p.3)

É interessante percebermos a estratégia de caracterização pejorativa e


impressionista dos comunistas, cujas atitudes seriam marcadas pela crueldade e violência,
as quais aparecem com uma espécie de marca particular dos mesmos.
Muitas matérias vão enfatizar o quão desumanos seriam os comunistas,
aproveitando-se sempre para lembrar qual seria o cenário caso o comunismo viesse a ser
implantado no Brasil. Apesar do país já ter enfrentado e vencido uma investida traiçoeira,
arquitetada pelos agentes de Moscou, a qual tivera como único efeito positivo, segundo
afirmavam os articulistas, o fato de ter demonstrado o quanto era real o perigo que rondava
a pátria. Esta não deveria baixar a guarda um segundo sequer, pois o inimigo se preparava,
afirmavam as matérias jornalísticas, para novas ofensivas contra a sua unidade. Este
aspecto está presente no artigo que se segue, publicado em jornal católico da capital
maranhense:

127
ESPANHA EM SANGUE
Pe. J.J. DOURADO
Soares d’Azevedo [...] de volta de sua viagem á Europa [...] elle [...] promette um
livro [...]: “Espanha em sangue”.
Por este livro, diz elle, os nossos catholicos ficarão sabendo o que temos a
esperar do communismo e dos communistas. [...]
“Pois é claro que o perigo não passou. A serpente, quando ferida na tocaia, é que
alteia o colo com mais força para sortidas de morte.
A hydra vermelha não morreu. Procura talvez um instante de confusão para uma
arremettida trágica. A opressão que sofreu, aguçou-lhe mais o veneno cruel. Os
açoites afundaram ainda mais os instinctos de vingança truculenta. E vem d’ahi
nossa aprehensão.
O momento mais delicado é precisamente o que atravessamos. O menor descuido
dos timoneiros que nos governam, será sufficiente para um golpe fatal. Plínio
Salgado, do seu alto posto de signaleiro da Patria, já deu o grito de alarme:
“Inimigos mysteriosos andam nas trevas. A archanjo reprobo, o tenebroso gênio
da mentira, insinua-se, em todas as actividades brasileiras, estabelecendo a
confusão, em cujas nevoas fulguram os punhaes trahidores que abatem pelas
costas a nacionalidade”.
(MARANHÃO, 31/10/1936, p.1)

Vemos como o “caso espanhol” servia de base para que se refletisse sobre a
situação vivida pelo Brasil. Conforme relato do Padre J.J. Dourado, que assina a matéria, o
país atravessava um momento decisivo e, segundo ele, era imprescindível estarmos alerta
para uma possível investida da “hydra vermelha” que ainda se manteria viva, na verdade
agora ela se tornara mais perigosa, afirmava o clérigo, porque depois de ferida ela nutrira
seus instintos vingativos. Tolos seriam aqueles que pensavam que ela não representaria um
perigo para a nacionalidade.

Lisboa, 21 – um caixeiro viajante de nome Juan Grande, que conseguiu fugir de


Madri narrou ao correspondente do “Diário da Manhã” em Avila as
monstruosidades cometidas em Madri dizendo: - a maioria do público
madrilenho ignora a verdadeira situação das forças governamentais, porque os
jornais anunciam diariamente vitorias sobre os rebeldes. Nos primeiros dias do
movimento revolucionário, Madri esteve absolutamente sob domínio dos
vermelhos, ouvindo-se constantemente tiros e vendo-se por toda parte os templos
e conventos incendiados. Os marxistas incendiaram e destruíram quase todas as
igrejas, tendo em vista a igreja de San Andrés e a Catedral de Madri reduzidas a
um montão de ruínas.
Nas igrejas que não foram incendiadas, os marxistas içaram a bandeira vermelha,
transformando-as em quartéis e vendo-se a promiscuidade mais vergonhosa de
homens e mulheres.
Os marxistas passeiam em automóveis novos tirados dos “stands” dos
representantes. Para dar uma sensação de normalidade, os marxistas obrigaram a
abrir os estabelecimentos, que ainda não foram saqueados por milicianos
fardados e comandados pelos respectivos chefes, os quais entregam vales que
serão pagos – dizem eles – quando o regime comunista se normalizar. Os
marxistas têm sofrido grandes baixas que em depósito judicial existiam tantos
cadáveres que exalavam tão mau cheiro que impossibilitava transitar perto. Os

128
marxistas instalaram no Teatro Calderon um dos vários hospitais de sangue da
cidade. Aos indivíduos anti-marxistas é aplicada, invariavelmente, a pena de
morte.
Concluindo, o sr. Juan Grande disse:
“Em Madri assassina-se e fuzila-se com uma facilidade pasmosa e com uma
inconsciência que faz medo”.
(TRIBUNA, 22/08/1936, p.2)

Se tomássemos o discurso jornalístico simplesmente como informadores dos


acontecimentos, dificilmente saberíamos a verdade acerca dos fatos, o mais provável seria
vivermos sob uma situação similar àquela apresentada por George Orwell em 1984, onde a
verdade é produzida pelo Miniver (o ministério da verdade), único órgão que divulga
informações sobre a situação do país, de cuja veracidade ninguém (pode) duvida (r)67.
A linguagem empregada não deixava dúvida, os fatos bárbaros ocorridos na
Espanha são verdadeiros e “autenticados” por vários observadores imparciais que os
testemunharam: “Um inglez, Mr. Hayward viu...”; “Um suisso viu... ”.

CRUELDADES BOLCHEVISTAS AUTHENTICADAS


(Tradução do jornal hollandez NIEUWE VENLO COURANT, de 13 de
setembro ultimo, especial para “Maranhão”.)
Em Santander os vermelhos mataram 280 alumnos do seminário.
O vigário de Cebreros foi costurado num sacco, pendurado a uma trave e depois
mergulhado diversas vezes em água quente até morrer.
O bispo de Serguenza foi detido nas ruas da cidade, rasgado a facadas e depois
queimado vivo.
O vigário de Roblegardo foi morto a facadas. O coadjutor a assistir o martyrio do
vigário, tendo enlouquecido de medo e pavor.
Em Somossierra os communistas prenderam um facista, ensoparam-lhe com
petróleo e tocaram-lhe fogo.
Em Alfaro os soldados prenderam duas moças cujo pai havia partido para a
frente nacionalista, deshonraram-nas, amputaram-lhe os seios e mandaram-nas
para casa.
Em Badajoz os communistas cortaram as orelhas a muitas pessoas da alta
sociedade. Em diversas aldeias da Andaluzia muitos filhos de facistas foram
mortos e os corpos pendurados em prédios públicos.
Em La Rabida as tropas communistas incendiaram o histórico mosteiro de onde
Colombo partiu para descobrir a America.
Centenas de mulheres, a maior parte da aristocracia, foram expulsas da casa,
consuzidas ás guarnições vermelhas, onde foram expostas á maior deshonra e
aos instinctos bestiaes dos soldados. Um jornalista francez viu cadáveres
pendurados ás arvores das avenidas e ás igrejas.
Um inglez Mr. Hayward viu uma mocinha cortar a cabeça a um padre doente.
Em Barcelona 80 igrejas foram saqueadas e destruídas, a Eucharistia lançada ás
ruas. Houve uma procissão sacrílega na qual os communistas se vestiam com
paramentos sacerdotaes. Construíram fogueiras para queimar as imagens,
estatuas e livros sagrados.
Um suisso viu soldados bolchevistas cortarem um padre em pedaços. No
convento das Visitandinas 7 freiras foram ligadas a fios elétricos e eletrocutadas.

67
Diga-se de passagem, foi a própria experiência nos campos de batalha da Espanha, da qual participou
ao lado dos republicanos que inspirou o autor de 1984, além é claro, das movimentações e alinhamentos
das grandes potências para e durante a Segunda Guerra Mundial.

129
[...]
Quando as tropas vermelhas achavam uma imagem ou qualquer objecto religioso
numa casa, era isso um motivo para matar toda a família.
Numa casa os bolchevistas acharam um padre, mataram não só o padre, mas
também todas as pessoas da casa.
Esta lista dá apenas uma pequena parte dos horrores commetidos pelos
communistas. Só mais tarde, quando os Nacionalistas estiverem no poder
saberemos o que a Espanha soffreu sob o terror bolchevista.
(MARANHÃO, 24/10/1936, p.3)

Claro que não é possível separar certos aspectos da vida sobre os quais se
manifestaram os defensores da “sociedade cristã e democrática”, como eles mesmos se
identificavam. Fazemos isso apenas para efeito de análise numa tentativa de enxergar
melhor algumas nuances dentro do vasto repertório de referências simbólicas que são
mobilizadas para significar de um determinado modo o fenômeno do comunismo.
O caso espanhol é muito referenciado porque, dentre outras coisas, guardaria
para os sujeitos que escreviam e comentavam as matérias uma semelhança muito grande
com a própria sociedade brasileira, o que os levava a fazer uso desses relatos para
demonstrar o que poderia ocorrer no Brasil caso os comunistas alcançassem o controle do
país.
O destaque é sem duvida o aspecto religioso. A herança católica, a história desses
dois países (Espanha e Brasil) estaria inextricavelmente ligada à historia da Igreja Católica.
Como muitas vezes afirmavam os jornais: era a “própria nacionalidade” que estaria em
perigo nesse momento que os comunistas avançavam sobre a Espanha, saqueando e
destruindo igrejas, assassinando barbaramente padres e freiras, violando moças e acabando
com famílias inteiras.

130
5. CONCLUSÃO

Como uma primeira característica do corpus analisado podemos destacar,


por um lado, a pouca variação no emprego dos recursos argumentativos em relação ao
fenômeno do comunismo e do comunista. No sentido de que os jornais procuravam sempre
negativizar ou pejorativar esses referentes. Caberia aqui uma ressalva em relação ao jornal
Tribuna que, até novembro de 1935, teve uma postura diferenciada, muitas vezes simpática
ao movimento aliancista, em geral apontado como de caráter comunista pelos outros
veículos. Mas isso se explica pelo fato de ter, entre seus jornalistas, membros da ANL.
Por outro lado, percebemos, por parte dos jornais, uma utilização variada da
temática do comunismo, dado a ler, no entanto, a partir de significados bastante precisos de
ameaça à ordem social, representando o “gérmen” da destruição dos valores e tradições
mais caros da sociedade brasileira. Desse modo, a manipulação do tema comunismo irá
desempenhar funções diversas no campo das práticas não discursivas: faz-se uso do
espectro comunista na disputa entre as facções políticas (das quais os jornais eram os
porta-vozes) para obter e/ou sustentar posições de mando, como no caso em que os
marcelinistas tentaram justificar a aprovação de medidas administrativas e orçamentárias
no governo de Aquiles Lisboa, e, depois, a própria permanência deste no cargo, alegando a
preservação da “família maranhense” face à “ameaça vermelha”; utilizam-se
representações anticomunistas também para difundir um certo medo na população através
das imagens aterradoras de que “tudo ia se tomá” para dividir entre os comunistas ou,
ainda, quando se demonstrava, segundo os jornais, a violência e crueldade inatas dos
mesmos (exemplificadas pela Guerra Civil na Espanha e, principalmente, pela Intentona
Comunista no Brasil); o comunismo, ou melhor, o significado específico que foi
hegemonizado pela imprensa como sendo o comunismo, desempenhou um importante
papel no processo de legitimação social da própria imprensa, que se colocou perante a

131
“Pátria” como defensora dos valores nacionais.
A imprensa se coloca de um modo geral como responsável por manter a
sociedade informada dos fatos, buscando alertar para os supostos perigos que ameaçariam
a ordem social e política estabelecida. Por um lado, ela busca afirmar sua autoimagem
enquanto órgão de informação pautado pela imparcialidade e objetividade dos fatos
narrados, o que se vê pelo uso frequente de um discurso de cientificidade, citando
autoridades da área ou mesmo procurando demonstrar que, no caso dos seus jornalistas, se
tratavam de observadores imparciais que observavam in loco a Rússia. Mas por outro lado,
fica claro a sua posição de instituição defensora do status quo, invariavelmente ligada a
uma facção política do Maranhão, ao mesmo tempo procuravam sempre ligar-se ao
governo central do país, reclamando para si a condição de aliado incondicional no combate
aos inimigos do regime brasileiro. Até mesmo Tribuna se mostraria disposta a apoiar as
ações do governo no sentido de reprimir os extremismos.
O tema dos extremismos é um dos pretextos mais acionados, a exemplo da
ORDEM de Astolfo Serra que, defenestrado da jogo político por conta das pressões das
diversas facções, tentava ainda manter-se nesse concorrido espaço da política maranhense.
Ele mesmo ilustra ainda um dos principais usos do comunismo levado a cabo na
conjuntura política dos anos 1930, qual seja, a acusação de que se era comunista.
Frequente na esfera da política profissional, encontramos exemplos também de um cidadão
comum que buscava se precaver dessa acusação tornando público, através de nota na
imprensa, de que não eram comunista.
A disseminação de alarmes sociais servia para reforçar o controle sobre as
mobilizações ou organizações políticas consideradas extremistas, a exemplo da ANL, ou
mesmo para justificar a proibição legal delas, caso do próprio PCB.
As “instituições pátrias” são outro conjunto de questões muito acionadas
pelos jornais. O exemplo da Família poderia ser destacado. Segundo uma quantidade
considerável de matérias fica explícito que esta instituição seria inapelavelmente esmagada
sob o regime comunista, transformando-se a mulher em simples objeto que deveria ser
socializada entre os homens, devendo ainda participar como operária das grandes obras de
construção empreendidas pelo Estado comunista e também, se necessário, combater como
soldado nas guerras levadas a termo pelo comunismo infernal.
Seguindo esses apontamentos delineados pela pesquisa, nos arriscamos a
propor algumas conclusões. Na primeira afirmamos que a imprensa de São Luís na década

132
de 1930 procurou se colocar enquanto elemento de mediação entre os leitores e o que seria
o comunismo, materializado em alguns exemplos que ela mesma fornecia: a Rússia, que
foi o principal referente mobilizado nas explicações acerca da “verdadeira realidade”
vivida sob o regime comunista; o caso espanhol, devido às supostas semelhanças com a
sociedade brasileira, ilustraria, segundo os jornais pesquisados, ainda mais forte e
vivamente as possíveis conseqüências que adviriam ao Brasil caso fossem bem-sucedidas
as inúmeras tentativas de subversão, complôs e insurreições que, segundo os jornais,
estariam sendo empreendidas pelos “impatrióticos” e “criminosos” comunistas brasileiros.
A comprovação definitiva dessa ameaça se daria com o que os veículos impressos, usando
entre outros qualificativos, denominavam de: “sangrenta”, “covarde”, “sinistra”, “maldita”
“intentona comunista” de novembro de 1935.
Em todos esses casos a imprensa, de maneira geral, vai se posicionar como
“fiel registradora” dos “acontecimentos”, dos “fatos”. Nesse processo ela produziu e
reproduziu diversas representações acerca do comunismo e do comunista. Em torno das
estratégias discursivas de que ela se utilizou para formular e disseminar essas
representações é que se encontra a segunda conclusão deste trabalho. Acreditamos que tais
estratégias estão pautadas pelo discurso de autoridade que a imprensa procurou mobilizar
em relação à questão do comunismo. Esse discurso foi sendo apresentado de formas
variadas. Algumas vezes se enfatizava o fato da imprensa expressar a “opinião pública”,
arvorando-se como defensora dos “mais nobres valores” da “nacionalidade”, reunidos
geralmente sob a forma de slogans e/ou palavras de ordem como “Deus, Pátria e família”,
a “defesa da ordem”, da “liberal-democracia”, da “educação das novas gerações”, etc.
Em outros casos são acionadas ideias como a de objetividade e cientificidade:
seja através da fala de certas autoridades da ciência ou da literatura (escritores e sociólogos
a quem a própria imprensa reconhecia entre “os mais respeitados” da época); seja por
intermédio de jornalistas correspondentes que teriam estado pessoalmente no palco dos
“acontecimentos” (Rússia e Espanha) e desse modo, tinham testemunhado os “fatos” e
seriam “imparciais” e “sinceros” em seus relatos; seja, ainda, nos próprios editoriais e
artigos que procuravam “provar” de maneira cabal que o comunismo não se adequaria à
realidade brasileira, em vista do que também se justificava a repressão policial.
Em todas essas situações se tornam recorrentes os apelos à ideia de que a
imprensa apenas mostrava a verdade dos fatos, ou seja, a realidade.

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