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L'lnitiation

Cadernos de Documentação Esotérica e Tradicional


Revista do Martinismo e das Diversas Correntes Iniciáticas

Nº 5 - Abril /Junho de 2002

O Mundo Arturiano - Via Iniciática Atual

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Revistafandada em Rzpus (Dr. Gérard Encau.sse)


18 8 8 j'or
Reativada em 1953 pelo Dr. Philippe Encausse
�d ' ' ' NESTE NúMERO:
L'Initiation
Cadernos de Documentação
Esot�rica e Tradicional
N° 5 - Abril /Junho de 2002
Revista do Maninismo e das
Diversas Correntes Iniciáticas

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Nº 5
�:i!l.A�, ��4?r�=��!wJ��-����ilt
Abril/ .Junho de 2002 Papus,

Diretor !11rer11acio11a/
Y\'éS-Fred Boisset (França)
��ii!!-l?�t�E!�?:iq:rl"é:§�í�pjJi!Jf1, 'ftllrL4
Papus
Editor
Mário Willmersdorf Jr.

Design e Diagramaçctn
J .C. Mdlo & Arthur Fróes I ldéoa Digital
Haniel
Jonwlisra responsável
Marco Antonio Coutinho (MT: 13518)
·roZ!?
lliií!Z!JJi!f'tó ·;��!!!!�'Mff
!. !!J.�ilifJ&
Révistn fundada em 1888 por Papus L.-C de Saint-Martin
<Dr. Gérard Encausse) e reativada
ém 1953 por Philippe Encausse.

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necessariamente. a opinião editorial de
L·Jnitintion. "'°''"cio de inteira
responsahilidade de seus autores.

1
EDITORI!\L

MOMENTO DE UNIÃO

s grandes metrópoles brasileiras vêm sendo sacudidas, nos últimos


A meses, por uma onda crescente de violência. Violência filha da miséria,
alimentada pela revolta oriunda da ausência de oportunidades, ampliando
numa magnitude jamais imaginada a desigualdade social.

Impotentes, as comunidades carentes vêem como única alternativa curvar­


se ao domínio do tráfico internacional, imposto pela força de armamentos
mais sofisticados que o das forças encarregadas de coibi-lo. A espiral da vio­
lência cresce e a sociedade acompanha, perplexa, o fortalecimento de um
governo paralelo que, ao abrir uma perspectiva de enriquecimento fácil e
ilícito, coloca no caminho do crime o cidadão que já se encontrava margi­
nalizado pela sociedade.

Sinal dos tempos? Sem dúvida. E que fazemos nós, os iniciados, diante desse
quadro' A atitude mais cômoda é o alheamento. Mas não podemos fugir da
nossa consciência. E podemos muito mais do que possamos eventualmente
imaginar. O momento é de tomada de posição, de conscientização.
Conscientização inerente à nossa formação esotérica. Àquele dia em que nos pro­
pusemos a portar o archote da luz, defendendo a sua chama de rodos os ventos.

Nenhum de nós ignora que somos partículas de um mesmo todo. E temos


rodos consciência de que enquanto uma dessas partículas se encontrar des­
garrada da luz não conseguiremos realizar a reintegração final e una do ser.

Portanto, "ora et labora": se é no santuário que buscamos a luz, é na ação


social. na mão estendida ao irmão - uma outra projeção de nós mesmos -
que estaremos levando a nossa contribuição à indispensável expansão da luz.

É de pouca valia o combatente desprovido de fé. Tanto quanto é lamentá­


vel ver-se um iniciado insensível à dor daqueles que compartilham com ele
este mundo de provações.

Portanto, braços dados! A hora é de unidade, de superação de barreiras, de


um basta às picuinhas e intransigências. De buscarmos o que nos aproxima
e não o que nos separa. Somente unidos conseguiremos levar a cabo nossa
missão de legar às gerações futuras um mundo melhor, iluminado pelo
archote da sabedoria. Agindo assim estaremos em real sintonia com os
"lvlesrres Passados".

Mário Wi!lmersdorfjr.

2
A DEFINIÇÃO DO MESTRE1
Papus
omos guiados passo a passo em nossa evolução, e os guias que nos são
S enviados pelo invisível vêm de diferentes planos - em linguagem mística
"apartarnenros", segundo o gênero de faculdade que eles devem evoluir.

Trata-se de mestres, mas é necessário darmos a este termo, de imediato, seu


significado verdadeiro e geral, porque em nossa época de rnediocracia uni­
versaF, termos tão elevados como "mestre" são atribuídos, pela cortesanice
dos arrivistas, a qualquer indivíduo que lhes possa ser de alguma utilidade
em sua ascensão às alegrias e aos horrores materiais.

O Mes tr e é um guia, e ele pode devorar-se à evolução de três tipos de fa­


culdades humanas: pode dirigir a evolução da coragem, do trabalho manu­
al ou das forças físicas como o oficial, o mestre construtor ou o professor de
boxe. É realmente um Mestre, mas este é o produto da sociedade e age sobre
a porção física das faculdades humanas.

Esse t ipo de maestria é coroado por um enviado do plano invisível que se


chama "o Conquistador" e que faz evoluir a humanidade corno a febre faz
evoluir as células humanas na batalha, no terror, no sacrifício e na matança
em rodos os planos.

O segundo tipo de maestria visa à evolução do mental humano. Ela começa


pelo Mestre de escola, a quem Grosjean quer sempre retornar para chegar ao
professor universitário, com todos os intermediários possíveis.

Tudo isto constitui a banda dos queridos Mestres, horda sagrada que defende
jusramenre suas prerrogativas e eleva diante do profano a barreira das ciên­
cias técnicas e dos exames.

Esse ripo de maestria é dominado por um enviado do mundo invisível vindo


do apartamento que os antigos chamavam Hermes, trimegista, e que

1 Este artigo foi publicado no número 1 de 1967. Trata-se da reprodução de uma conferência dada
por Papus em Paris, em junho de 1912.
2 E Papus ainda ni!o conhecia a televisi!o! (NDLA).

3
A DEFINIÇÃO DO MESTRE

chamamos pessoalmente o Mestre intelectual, caracterizado pelas luzes que


projeta em todos os planos de instrução.

Acima, enfim, encontramos aquele que é o único a ter verdadeiramente dire­


irn a esse cítulo de Mestre. É o enviado real, encarregado de evoluir as facul­
dades espirituais da humanidade, e ele apela a forças que bem poucos com­
preendem e de quem poucos ainda podem seguir as incitações. Este é aque­
le a quem chamamos um Mestre espiritual, assim denominado por Marc
Haven, em seu maravilhoso estudo sobre Cagliostro, o Mestre Desconhecido,
e por Sédir, em seus comentários sobre o Evangelho, o homem Livre.

Seja qual for o nome que lhe dermos, ele chega a certo período manifes­
tando-se abertamente, a outros períodos ocultando-se em meio aos
humanos e agindo desconhecido para o bem coletivo, e rodos os que podem
entrar em contato com ele guardam uma tal lembrança, que seu coração
permanece comovido por várias encarnações.

É dele que Sédir diz, em uma de sua'.; conferências: "Mas quando o Mestre
aparece. é como um sol que se ergue no coração do discípulo; rodas as
nuvens se desfazem; rodas as gangues se desagregam; uma nova claridade, ao
que parece, se expande no mundo; esquecem-se dissabores, desesperos e
ansiedades; o pobre coração tão infeliz se lança rumo às radiosas paisagens
entrevistas, sobre as quais o tranqüilo esplendor da Eternidade estende suas
glórias; nada mais terno lança sombras na Natureza; tudo, enfim, se conci­
lia na admiração, na adoração e no amor". É aquele que provoca discípulos
ardorosos ou adversários impiedosos e que recebe, como Cagliostro, cartas
desse tipo: "Eu ficaria feliz, então, se p::desse dar-lhe provas dessa afeição
terna e respeirosa da qual foi penetrado, dessa afeição da alma que não sei
dar e que sinto tão vivamente. Minha existência física e moral pertence a ele;
que ele disponha dela como do mais legítimo apanágio... Minha mulher,
meus irmãos, meus pais, a Senhora du Piquet e sua família, que também lhe
devem grandes obrigações, querem ... Que o Senhor Conde de Cagliostro
esteja persuadido de que fomos afetados além da expressão de rudo o que os
aconreci.mentos imprevistos lhe fazem sofrer, e que nossa ambição e nossa
glória estariam satisfeitas se pudéssemos encontrar ocasiões de servir-lhe de
3
maneira útil, é a homenagem simples e espontânea de nossos corações".

3 Carta de Charles rle L<inglois, capitão de dragões do regimento de Montmorenc y.


A DEFINIÇÃO DO MESTRE

Esras classificações, como todas as classificações humanas, são forçosamente


um pouco artificiais; em geral um Mestre aborda, mais ou menos, as três
categorias a que nos referimos, e como tudo no invisível é coletivo, esses
enviados se prendem não a personalidades, mas a "apartamentos". Assim,
um enviado do apartamento do Cristo está sempre ligado à lei Crist'aL solar,
o que fecha a porta invisível a todos GS impostores.

É perigoso deixar-se chamar "Mestre", porque, além da evocação dos seres de


orgulho que velam ao nosso redor, isto dá àquele que aceita esse título, a respon­
sabilidade de todas as faltas cometidas por seus auto-intitulados discípulos.

Assim vosso servidor, que não passa na realidade de um pobre soldado desse
exército, não tendo sequer podido nele obter os galões de cabo, fica desagra­
davelmente impressionado cada vez que lhe enfiam goela abaixo o título de
"Mestre".

Consolo-me imaginando que estou fazendo uma viagem à Itália. Nesse país
encantador, recebe-se um título nobiliário segundo o valor da gorjeta que se
distribui aos empregados dos trens; por cinqüenta centavos é-se cavalheiro;
por um franco, duque ou excelência; e por cinco francos, é-se pelo menos
príncipe. O número de Mestres que são mestres como o viajante à ltáli;. é
príncipe, é de tal forma grande na terra, principalmente nos centros in­
telectuais, que o verdadeiro Mestre tem razão de permanecer desconhecido.

Permitam-me abrir um parêntesis aqui. É a propósito de uma associação mis­


teriosa de homens evoluídos, conhecidos sob o título de "Rosa-Cruz''. Esse
tírnlo é um nome exotérico, cuja finalidade é ocultar o nome secreto e ver­
dadeiro da sociedade em questão. Ora, uma multidão de ambiciosos, que nada
sahem de real sobre esta sociedade, orna-se a torto e a direito com esse nome e
diz, misteriosamente aos seus amigos e conhecidos: "Admirem-me, vejam mi­
nhas belas plumas de pavão; não digam a ninguém: Eu sou Rosa-Cruz''.

Não falamos, bem entendido, do 18° grau do escocismo. Ora, os ver­


dadeiros Rosa-cruzes (eles são dez, ao todo) não se dizem tal. Apresso-me a
dizer que não sou um d ele s, mas o s conheço. Eles se divertem muito em ver
o nome profano de sua sociedade ser desavergonhadamente empregado de
todas as nianeiras; é um pouco co 1n o um societário da Comédie-Française
que vê na província um figurante se esforçando para desempenhar seu papel
e copiar seu nome. Ele sorri, mas não se aborrece.

5
A DEFINIÇÃO DO MESTRE

De on de vem esse nome de "Mcsrre"' Na França, do latim magister que,


deco mposto em suas raízes nos dá:
MaG, fixação em uma matriz (intelecrnal ou espiritual) do princí­
pio A pela ciência G;
JS. dominação da serpenre (S) pcb ciência divina (l), característi­
ct donome de "ÍSIS";
TR, p roteç ã o pelo sacrifício de qualquer expansão (R).

Se, deixando de lado as chaves hebraicas r:: o tarô, dos quais acabamos de nos
servir, nos voltarmos ao sânscrit0, obteremos duas palavras:
MaGa, que quer dizer "felicidade e sacrifício" com seu derivado
"Magoni", a aurora, e
!sTa, qu e quer dizer "o corpo do sacrifício", a oferenda.

O M estre , o Maga lsta, ou o Magisto, o Mago, é pois aquele que vem sa­
crificar-se, que dá seu ser em oferenda para a felicidade de seus discípulos.
Compreender-se-á agora o símbolo maçônico do Pelicano e a lei misteriosa
"O iniciado matará o Iniciador".

Anres de deixar o sânsçrit0, digamos que a palavra "Guru" originou a


palavra francesa "Grave"'; é o instrutor, aquele a quem chamamos "o Mestre
intelectual", o Grave professor, e 1sro não tem qualquer ligação, em geral,
com o plano das forças divinas.

Esta matéria foi publicada em Llnitiation no N° 2 de 2001.

4 A 111e11101 traclução para '"Grave'" em Português é "sério". (N. do T.)

(i
A REENCARNAÇÃO
Papus

A matéria publicada abaixo é a conclusão da apresentada no


número anterior de Llniriarion, onde P hilippe Encausse, o
filho de Papus, faz um apanhado das idéias pessoais de seu
pai a respeito da doutrina da reencarnação.

A Vida Social e a Reencarnação

Sem a noção da reencarnação, a vida social é uma iniqüidade.

Por que seres desprovidos de inteligência enriquecem e são cobertos de hon­


ras, enquanto que pessoas de valor se debatem na penúria e na lura cotidi­
ana por alimentos físicos, morais ou espirituais?

O homem é de tal forma orgulhoso, que não pode admitir que é ele próprio
que se pune, e lança a culpa de sua vida de provações sobre sua família, ou
seja, sobre seus ancestrais, sobre o l!leio social, sobre seu corpo físico e
mesmo sobre Deus.

Toda a antiguidade ensinava como um mistério o segredo da reencarnação


e de suas conseqüências sociais. Sem querer bancar o erudito, que ficaria
deslocado nesse contexto e talvez acima de nossos meios, lembramos que a
gênese de Moisés, escrita baseada em documentos egípcios e reconstituída
por Daniel para Esdras, tem três sentidos:

1° - um sentido reogônico, reconstituído por Saint-Yves d'Alveydre na sua


Missão dos Patriarcas;
2° - um sentido fisiogênico, reconstituído por Fabre d'Olivet;
3° - um sentido sociológico, reconstituído por Lacour em seu livro sobre
Eloims e por Heibling.

Ora, é neste último sentido que o ensinamento secreto dos mistérios é dado,
e que se mostra a reencarnação como origem das diferenças sociais.

Aquele que se conduziu mal em uma existencia artterior, será punido c:m

urna existência ulterior. Inútil dizer que essa existência pode se passar em
diferentes planetas, pois rodos os planetas são habitados e a terra é um dos

7
A REENCARNAÇÃO

drculos do inferno do invisível; é


por isro que aqui sornos quase wdos
demônios e que as provas que
enfrenramos são rão multiplicadas.

A idéia egípcia da reencarnação


passa à Grécia através de Pitágoras e
seus discípulos. Em seguida Empé­
docles e depois Platão popu­
larizaram e ssa concepção.

No Timeu de Piarão, lêe m se esras -

palavras de duplo sentido:


"Os covardes são rransfor­
A Terra - segundo Papus, um dos círculos
m ados c1n m ul he res , os
do Inferno do invisível
homens leves e vãos, cm
pássaros, os 1gnoranres cm
animais s e lv age ns, tão mais rastcjanres e curvados sobre a terra
quanto sua preguiça foi mais degradante, os homens sujos e glurões
vão animar peixes e r é pre is aquáticos."
Timeu, Diálogo de Fedra

Lê-se em Phédon:
"Os que se a bandonaram a 111r,'mperança, aos excessos do amor e
da mesa, e que não tiveram nenhuma moderação, entram, ao que
rudo indica, no corpo de animais semelhantes, e aqueles que só
praricaram a injustiça, a rirania e as rapinas, vão animar corpos de
lobos, gaviões e falcões. O destino das ourras almas é relativo à vida
que elas levaram."

Esses excerros dizem mais respeito à reencarnação física do que à espiritual;


rrara-se aqui de metempsicose e adiantamos em nosso primeiro capítulo a
di fere n ça que havia entre a metempsicose e a reencarnação.

Plotino nas suas Enéades nos diz:

É uma descoherr" reçon h eci d a por toda a antiguidade, que se a alma comete
e rr o s ela é condenada a expiá-los submetendo-se a punições nos infernos tene­
,

brosos. Depois ela é admitida a passar a novos corpos para recomeçar suas provas.
- A REENCARNAÇÃO

Em ourra pane, Plorino diz:


"Quando nos extraviamos na multiplicidade, somos punidos ini­
cialmente por nosso próprio extravio, depois, quando retomamos
corpos, desfrutamos de uma condição menos feliz."

Os Druidas ensinavam igualmente a reencarnação com a merempsicose


como corolário pai:a o corpo físico.

O que nos interessa aqui é a influência da reencarnação espiritual na vida


social, e só citamos tudo o que precede para mostrar que esta idéia não é
nova e que ela formou o fundo de todos os mistérios da Antiguidade.

O cspírirn saía do Zodíaco pela Porta da Morte, ou Capricórnio; entrava


'
nele pela Porta da Vida, ou Câncer .

Pode-se dizer, em geral, que a vida social atual é determinada pelo estado ante­
rior do espírito e que ela determina o estado social faturo. Um assaltante que
atacava e deixava sem nada muitos seres humanos em sua encarnação ante­
rior. é freqüentemente obrigado a retornar ulteriormente para ajudar e
cuidar daqueles que havia anteriormente molestado. Um Rei ou um líder
social que renha feiro mau uso dos seus poderes, volta para enfrentar o cas­
tigo das leis injustas por ele promulgadas. É a lei de airain, a ação do desti­
no sobre o espírito; mas o espírito humano tem uma particularidade: se ele
nada pode sobre a constituição do seu corpo e sobre as leis que a dirigem -
salvo através da higiene e de treinamentos psíquicos - ele tudo pode na
constituição das leis sociais e na criação das sociedades, que são quase
inteiramente saídas da vontade do homem.

Um primeiro problema a ser resolvido é o de saber se esse destino, se essa lei


fatal pode ser modificada pelo homem.

Os hindus, dos quais os teósofos, ou melhor, os membros da Sociedade


Teosófica adotaram algumas idéias, deram a esse destino o nome de Carma.

1 Em seu Antre des Nymphes (Antro das Ninfas), Porfírio relata que os egípcios reconhecem duas
portas no céu: uma, situada no trópico de Câncer, era chamada de a Porta dos Homens, ou seja, rumo
aos Homens. Era por ela que as almas vi11ham p a ra a terra animar os corpos dos Homl'!ns. A segun­
da porta, denominada a Porta dos Deuses, ou rumo aos Deuses. encontrava-se no signo de
Capricórnio e seu papel era dar passagem às almas que, após a mo rte, retornavam ao céu. A primeira
porta era a Porta da Vida, a outra, a Porta da Morte ou do Inferno (De Briêre).

9
A REENCARNAÇÃO

A análise simbólica das letras sânscriras que compõem esse nome seria das
mais interessantes, mas fora de nosso rema. Os Orientais, ou melhor, os pro­
fanos cbs doutrinas orientais, dos quais os budistas são a represemação atual,
ensinam que esse destino só pode ser modificado pela conduta atual do
homem agindo sobre seu destino futuro.

Os iniciados do Oriente, ou seja, os adeptos da escola bramânica, osTaoístas


da China e os iniciados do Ocidente, continuadores da tradição egípcia se­
creta. cujos ensinamentos foram iluminados pelas palavras vivas de Nosso
Senhor Jesus Cristo, nos ensinam, ao contrário, que esse destino pode ser
modificado sob a influência da piedade celeste pelos seres divinos, aos quais
o encarnado tem sempre o direito de apelar.

Nosso m�srre espiritual, o grande mestre desconhecido contemporâneo,


Philippe-, de Lyon, hoje falecido, disse a esse propósito profundas ver­
dades em seu ensinamento. "Entre dois seres, um que reza, outro que
não reza, aquele que reza tem uma utilidade muito grande no invisível,
porque ele alimenta espiritualmente cerros seres que vivem apenas das
preces humanas. Voltamos - dizia ele - com as paixões que não com­
batemos. É no mundo onde contraímos dívidas que se vem pagá-las."
Ensinava também que na vida se progride incessantemente e, à medida
em que progredimos, troca-se de guia: donde a necessidade de fazer a
paz imediata com seus inimigos, porque, ao ofendê-los, ofende-se seu
guia, e a paz só pod e ser estabelecida entre amigos, senão seria necessário
esperar que, na série de reencarnações, o mesmo período se produzisse e
que o perdão fosse concedido; é necessário mesmo que o ofendido reze
pelo ofensor.

De resto, encontrar-se-á nas ohras conternpor:lneas de Sédir, sobre os


Evangelhos e a lei moral, muitas idéias crie nosso amigo pinçou nos ensina­
mentos do mestre espiritual. e qu e soube apresentar ao público com sua
\
erudição e talento habituais .

2 Ver Le MaTtre Philippe, de Lyon, thaumaturge et "Homme de Dieu", ses prodiges. ses
guérisons, ses enseignements (O Mestre Felipe de Lyon. taumaturgo e "Homem de Deus", seus
pwctrgios, suas curil s. seus ensinamemos/- 8' edição, 1973, 416 páginas, ilustrado. Editions
Trnrlitionrielles, 32. rue des Fossés Saint-Bernard, 75005, Paris.
3 SéOir: Les Evangiles (Os Evangell1os}. Obras diversas.

10
A REENCARNAÇÃO

O destino atual é modificável por três elementos:


1° - pela coragem física;
2° - pela submissão às provas morais;
3° - pela prece e pela assistência divina.

O destino domina sobre o passado, a vontade humana sobre o presente, a


providência divina sobre o porvir.

Pitágoras aprendera com os chineses .::iue o destino tinha por número 5, a


vonrade humana 4, e a providência divina 3. Era necessária, na terra, a união
astral, ou seja, um quadrado de 3 e de 4: 3 vezes 3 9, 4 vezes 4= = 16, 16 e
4
9 25 para equilibrar o quadrado da potência fatal, 5 X 5
= 25 . =

Tal é a chave secreta desse famoso quadrado da hipotenusa que desencora­


jou gerações de colegiais.

É necessári o, portanto, que, na terra, o Homem una suas forças à do plano


divino para equilibrar a força do destino.

Os Ocidentais estão portanto com a verdade, com os brâmanes, para procla­


mar gue a prece é uma alavanca de um poder maravilhoso que, apoiando-se
5
na vontade humana, pode erguer o peso terrível do destino ou do Carma •

ão podemos refazer a análise de todos os casos da vida social determinada


por uma existência anterior. Lembremos apenas que a atração mais intensa,
manifestada geralmente pelo amor partilhado, atrai os espíritos mais dis­
tantes de terra, ou seja, os mais puros, e que a atração mais fraca, exercida
pelos parentes alcoólicos ou sem amor, vai buscar espíritos próximos da
terra, como os suicidas ou os pesados espíritos materiais.

Uma sociedade atual é, portanto, o resultado matemático de uma sociedade ante­


rior. e compreende-se, ainda aqui, a sabedoria dos chineses, que consideram os seres

4 Ver La Science des Nombres (A Ciência dos Números), de Papus. (La Diffusion Scientifique,
Paris. 1976)
5 Para maiores detalhes. ver a notável obra La Mission de /'lnde (A Missão da Índia), O Mahatma,
de Saint-Yves d'Alveydre (Edições Dorbon).

11
A REENCARNAÇÃO

vivernes apenas como o resulrado passageiro da ação da sociedade dos ancesrrais.


A vida social é, pois, o resulrado maremárico das exisrências anreriores.

H:í. em cada família, a reencarnação normal dos espíriros que perrencem a


esra família no invisível e cujo pequeno nome, com suas cifras secreras, é a
chave de correspondências asrrais. Mas há rambém, em cada família,
numerosa ou não, um espírito esrranho a ela e vindo de um plano bem dis­
tinro: é o comera nos planetas familiares. Ele provoca geralmenre o deses­
pero dos pais e de todas as suas idéias mareriais: será o arrisra na família do
quirandeiro, o pródigo na família do avarenro e, algumas vezes, o indisci­
plinado na família do juiz.

É um resulrado do segredo dos equilíbri0s da narureza. Quando dois povos


têm um ódio arroz um pelo ourro, os guias espiriruais fazem freqüenremente
troca de reencarnação, e vê-se algumas vezes o espírito de ódio modificar-se.
Como dizia o mesrre espirirual: vimos aqui pagar as dívidas que conrraímos,
comenrário da admirável prece do Crisro: "Pai, concede-nos a remissão das
nossas dívidas, como concedemos aos nossos devedores", frase que foi
rraduz.ida pela igreja exorérica, de forma asrro-espirirual: "Perdoai-nos as
nossas ofensas. corno perdoamos àqueles que nos ofenderam."'·

A encarnação rerresrre deve fortificar os órgãos espiriruais fururos; essa


resisrência dos órgãos aos poderes do desrino só pode se dar pelo rreina­
menro espiritual, e o rreinamenro na rerra cham·a-se: AS PROVAÇÕES.

Ao dizer: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje" - ensinou-nos nosso
mestre espirirual - pedimos provações, e essas provações são esrnrarnenre
adaptadas à nossa resisrência.

Aquele que conhece a origem secreta da vida que circula em todos os planos
de encarnação, sabe perfeiramenre que, excetuando-se casos excepcionais, o
Pai jamais deixará seus filhos morrerem em nenhum plano, desde que esses
filhos renham deixado a "porra" entreaberra entre eles e seu guia espiritual.

P::ira erguer um peso de 20 quilos com facilidade, os músculos do braço

6 Ce que deviennent nos morts (O que se tornam nossos mortos). de Papus. Nova edição IEditions
DanglesJ. (Pl1 Encausse).

12 -·-----
A RHNCARNAÇÃO

necessiram de um treinamento que consiste em erguer progressivamente


cargas cada vez mais pesadas, começando por um peso leve. É no treina­
mento dos órgãos físicos que se encontra a chave de rodos os esportes e de
rodos os sucessos atléticos. Com o moral se dá exatamente o mesmo: cada
prova se apresenta três vezes sucessivas sob a forma de um "clichê" astral
agindo ao nível da nuca (os anatomistas diriam: 'sobre a base do 4° ven­
trículo), onde desembocam rodos os centros sensoriais conscientes do ser
humano. Fato curioso: encontraremos nos antigos egípcios, sob o nome de
Sa, um ensinamento idêntico e a influência da nuca, como ponto de con­
centração dos clichês invisíveis, é perfeitamente descrita em rodos os
baixos-relevos.

Então uma primeira prova, bem suave, nos é dada: podemos apenas resistir
a ela. Se o fizermos, o clichê se apaga e retorna mais forte uma segunda vez.
Nosso espírito, aguerrido pela primeira resistência pode ainda se opor à su­
gestão do clichê, mas é necessário que ele coloque nisto rodo o seu poder de
ação. Suponhamos que ele volte a Vt:ilcer. O clichê retorna, mais intenso,
uma terceira vez, e nesse momento o espírito só pode vencer com o apelo às
forças divinas, quando o apelo ao seu guia teria sido suficiente no segundo
caso. Se o clichê é definitivamente rompido sob a influência da prece e da
vontade, a piedade entra no coração do espírito encarnado, e é por aí que se
reconhece a idade real de um espírito: aquele que condena os outros por
qualquer coisa é um espírito recentemente encarnado, que rompeu poucos
"clichês" e que também pouco os enfrentou. "Aquele que tem piedade, ter­
se-á dele piedade", diz a Gnose. E encontramos na doutrina gnóstica, como
na igreja católica (assim como na igreja brâmane): Maria, a Virgem de luz,
a virgem Maria, Maha Mayah, que é a piedade celeste viva e que é a grande
reformadora dos julgamentos do destino; ela esmaga com seu pé a cabeça da
serpente Carma, Nahash, Schanah, ou o tempo, o passado e sua fatalidade.

Portanto, quando um crime é cometido, aquele que sabe e que se recorda,


reza pelo criminoso cujo destino foi vir desempenhar na terra um papel ter­
rível e fatal; aquele que não sabe, bate no peito dizendo: "Sou um homem
honesrn, os meus me deixaram um nome sem mácula, e acho que esse crimi­
noso corrom p e a humanidade inteira com sua ação infame; é necessário
varrê-lo da terra". Esse espírito sem piedade pode, ele próprio, tornar-se um
criminoso em uma existência ulterior, porque a ignorância não é perdoada
no outro plano. A bondade numa encarnação terrestre é, pois, não somente
um dever, 1nas urna prova especial de inteligência das outras ciências. Ser

13
A REENCARNAÇÃO

considerado .como um grande b obo que os , m a l do sos da terra enrolam em


sua horda dos desesperados da terra, <.'. freqüenlemente um sinal de que se
esr:í na verdadeira via - e as luzes se acendem do outro lado para aquele
que os fones da terra desprezam e ridicularizam.

Não é nosso papel ditar moral, porque nada é imoral na vida privada como
um moralista na vida pública, e conhecemos bastante nosso estado inferior
do ponto de vista espiritual, para querermos julgar os outros. Assim sendo,
colocamos rodas essas idéias como um ideal vivo que o Homem deve bus­
car atingir através das diversas encarnações.
Papus

·'Nascer, Morrer, Renascer e progredir incessantemente, tal é a lei."


Allan Kardec

"Não nos perguntarão no que acreditamos, mas o que fizemos."


Mestre Philippe de Lyon

14
REFLEXÕES SOBRE O NOVO HOMEM
DE SAINT-MARTIN

Haniel, S. I. ·. ·.

idéia cenual desta obra é a aliança que o homem deve fazer com Deus.
A Para tanto ele tem que trabalhar, a fim de suprimir todas as impurezas
que obstruem a porta pela qual a eterna palavra da Divindade deseja entrar.
Assim, o velho homem deve abandonàr a torrente de iniqüidade e se
empenhar na purificação. Esta tarefa é uma verdadeira gestação espiritual
pela qual o buscador - o Homem de Desejo - faz nascer nele um Novo
Homem.

O nascimento desse filho espiritual no homem é o desenvolvimento e a


manifestação do que era o homem primitivo. O cadinho dessa transfor­
mação encontra-se no coração do homem. Essa transformação se faz por
etapas e segue um processo CUJO esquema nos foi fornecido pela vida do
Reparador Universal - o Cristo.

O Novo Homem, conseqüência do processo utilizado pelo buscador, é o


reparador individual. Esse Cristo é quem abrirá a via que se encontra fecha­
da desde a queda de Adão e que moscará o caminho. Desta forma, o Novo
Homem é o imitador do Cristo. Esta imitação vai fazer dele o espelho da
Divindade.

Constam do processo as etapas da vida do reparador, que correspondem à


narração dos Evangelhos. Uma bela e interessante analogia é feita entre as
Escrituras Sagradas e as operações a serem realizadas pelo Novo Homem.
Nenhuma adesão a culto exterior será necessária, pois impediria a atuação
nas profundezas do ser. A adoração deverá ser dirigida para as profundezas
da alma.

Segundo Saint-Martin, o único santuário é o do coração do homem, tem­


plo em que este deve adorar a Deus. O processo, portanto, é a construção
desse templo que tem duas portas: uma superior, pela qual ele pode dar aces­
so ao anjo que é seu guia; e outra inferior, pela qual ele pode dar acesso ao

15
REFLEXOES SOBRE O NOVO HOMEM

inimigo. Dois pilares sustemam esse templo. É por entre eles que o novo
homem deve avançar com cuidado, pois ambos têm o poder de atraí-lo, mas
é a fr o n te i r a desses dois mundos que m mi festa a Sabedoria e a Força. Por
isso este camin h o deve ser percorrido sob o manco da prudência.

A primeira etapa descrita por Saint-Martin é a geração. Nela ele chama a


atenção para a voz do anjo anunciador, o a migo fiel. Definindo a alma
humana co m o um pensamento de Deus e o homem como reflexo do pen­
samenco, da palavra e do espírito de Deus, Saint-Marrin descreve a con­
cepção como uma dolo ro sa operação que prec ed e o atravessamento da
D ivin d ade em nós - a anun c i ação e a gestação.

Numa pr óx i m a etapa o homem é alertado para o nascimento, os cuidados


para com a criança e os alimentos que consolidarão o f o go da vi d a. São feitas
-"

advertências quanto às operações enganosas do inimigo, as conseqüências da


e feri v idad e divina sobre nós, a deliheração do Deus sofredor em nós, o des­

pertar de nossas faculdades, os falsos al tare s que poderemos erigir a sabedo­


,

ria que já expressa o filho nascido, mas que a i n da não alcançou a idade adul­
ta. e a arca sagrada que aguarda a construção do templo.

Em outra etapa o Novo Homem é a l ertado quanto aos perigos que rondam
a adolescência do ser que está se formando: as contrariedades espirituais
c o mo obstáculo para a construção do templo, a dificuldade em estabelecer
a paz p a r a a elaboração da obra, a e ntr ega ao culrn das coisas ilusórias, os
prazeres do ego oriundos dos apetites sensuais, as iniqüidades, os obstáculos
ao dese nvo lvi m e n to das faculdades espirttuais.

Chegando agora à fase da juventude, o Novo Homem deverá pautar suas


ações p el a prudência. Os três princípios divinos se estabelecerão nele como
um só, através do batismo. As conexões com a Divindade deverão ser ope­
ra das com moderação, pois os perigos rondam o sagrado, ainda ligado ao
mundo inferior. É o momento de retirar-se para passar os quarenta dias no
de ser to e lá provar sua firmeza enfrentando as tentações do inimigo. Vindo
de };Í çorY1 poderes: inca..lculóvei.s, t.. •le deve, porém, exercê-los em ocas.iões
oportunas, como fez o Reparador Universal nas Bodas de Canaã, no Sermão
da Montanha e n o Exorcismo dos Atormentados. Embora saiba que o rece-

16
REFLEXOES SOBRE O NOVO HOMEM

bido deve ser compartilhado,


ele o faz com parcimônia, evi­
rando os infiéis, pois sabe que
sua missão é levar a luz às
rrevas.

Na fase da mocidade, o Novo


Homem se apresenta amadu­
recido. Terá ainda, contudo,
que descer aos seus próprios
abismos e levar a fé àqueles
aspectos do seu ser que ainda
se acham infiéis. Enfrentará As Bodas de Canaã - Gérard David - séc. XVI

obsráculos resisrenres, pois


(Museu do Louvre, Paris)
red qu e arrancar as subsrâncias falsas que ainda habitam em seus pensa­
lllL'.Il ros, vontades e ações. Esta é a tripla ressurreição que deverá operar após
a morre do velho espírito, da velha obra e do velho corpo. Somente após essa
purificação é que abrirá seus doze canais e receberá o tesouro relativo aos
sete sacramentos para propagação e comunicação do segredo. Ele então
rerornará à Deidade. E receberá compensações, pois já não recusará nenhum
desejo ou necessidade do Senhor.

Na fase da maturidade o Novo Homem terá a oportunidade de consolidar


o aprendizado. Na transfiguração resplandecerá a luz interior. A regene­
raçã o vai se processando aos poucos, mas ele já pode desfrutar das conso­
lações, pois seus ouvidos estão abenos aos gemidos daqueles que suspiram
na senda. Diariamente uma vinude o desposa porque é esta a freqüência
com que a elas ergue um altar. É humilde e derrama consolação. Precavido,
não deixa que o fogo do espírito o inflame para a destruição, mas o usa para
seu aperfeiçoamento. Novas aliança.: serão feitas e ele responderá a seus
desafiantes. O renascimento já está próximo e seus sentidos estão a serviço
do equilíbrio e da restauração. Ele sabe, contudo, que está na fase perigosa,
em que enfrentará o maior perigo - a traição.

Na etapa final do processo opera-se a preparação para a beatitude através da


morre. O reparador individual viverá no Novo Homem eternamente, assim

17
REFLEXÓES SOBRE O NOVO HOMEM

como o Reparador Universal é ecerno para a família humana. O ser divino


- o Novo Homem - frucif!cou. Ele deixará o mundo inferior para
rewrnar ao Pai, porque agora esrá sancificado. É a hora da crucificação e, em
seguida, da morte espiritual. Ele permanecerá crês dias no túmulo para
cumprir o número, o peso e a medida que lhes são prescrirns e emão ocor­
rerá a ressurreição. No juízo final serão julgados aqueles aspectos do Novo
Homem que, apesar de todos os seus esforços, permaneceram no abismo.

O processo acima descrito leva o homem a servir de órgão e de veículo à


Divindade, pela suspensão do funcionamenw do ego para fins cenuados
nele mesmo. Fica claro, portamo, que a missão do ser humano é enuegar­
se a uma inceração com Deus, de modo a resulcar na gestação e desenvolvi­
menw espiricual, conforme descrirn. O homem, ao perceber o nascimento
em seu ser do filho espiritual, sentirá de imediam a diferença desse novo
escado em relação ao anterior.

Fonte bibliográfica:

Saim-Marrin, L-C: O Novo Homem. Curitiba, Ordem Rosacruz-AMORC,


2000

---
-
18 -
- -
� - _P_ E_N_S_AM
O _ EN_TO
__DE
_ S
_ A
_ I_NT
_ _-M_ A_R_T_ I N_
_ ,t;._

"Quando os homens sábios, após se haverem alimentado


das influências da verdade, se dispersam no mundo, perdem
nele, na maioria das vezes, o que haviam adquirido. Eles são
como os profissionais liberais e os operários que vão comer e beber aos
domingos, no cabaré, tudo o que ganharam durante a semana".

"O mundo não conhece o meio termo entre a falsa devoção e a impiedade".

"Pela maneira como vivem os homens e pelas nuvens de borboletas que os


cercam e sombreiam, seria necessário que o Espírito Santo fosse feiticeiro
para poder pegá-los e apoderar-se deles. Quantos se mantêm, assim, distantes
dele' E como o forçam, desta forma, a manter-se longe deles".

"A sociedade é um colégio onde há professores de rodos os gêneros. Ora,


como lá não passarei de um professor de chinês, nunca chega a hora de lá
fazer minha lição, e minha carne permanece vazia dela e minha língua no
silêncio".

"Algumas vezes eu disse a Deus: combate contra mim como Jacó contra o
anjo, até que eu te tenha abençoado".

"Pela maneira como as pessoas mundanas passam seu tempo, dir-se-ia terem
medo de não serem suficientemente estúpidas".

"Freqüentemente, o faro de não ser um monstro era o suficiente para acredi­


rar-mc um sábio. O que é o homem!"

"Era a Igreja que devia ser o padre, e foi o padre que quis ser a Igreja. Eis a
fome de todos os males".

19
O MUNDO ARTURIANO VIA INICIÁTICA ATUAL

Marielle-Frédérique Turpaud

G & L Rheads "Torneio em Camelot"

referência ao ideal cavaleiresco é um dos componenres do nosso ima­


A ginário iniciárico. E quem fala da cavalaria fala de Távola Redonda, rei
Arrue corneios e dragões, genris damas e rorres de casrelos.

!vlas remonrar às fonres dessas imagens arquerípicas nos permmra, sem


dúvida. definirmos melhor a nós mesmos em nossa vocaç:lo cavaleiresca.
Rernonrar às fonres, eis aí a arirude espiritual do salmão, animal sagrado
para os celras: ele é uma das formas que reveste o bardo Taliesin, depositário
da epopéia arruriana.

Porque anres de ser colorido nas iluminuras medievais, o mundo arruriano


era celra.

Nosso percurso aqui partirá inicialmente dos documentos esc1·itos ntual-


11te1tte cadastrados. A panir desses man uscri rns reconsriruiremos:

20 - ---
O MUNDO ARTURIANO

1) a vida de Artur e de sua corre. Daí remontaremos às


2) fontes célticas, depois, enfim às
3) aplicações concretas que podem ter para nós a freqüência
cardíaca do mundo arturiano.

CAPÍTULO I: ORIGEM LITERÁRIA DO MITO ARTURIANO

Pode-se dizer que tudo começou em 1135, com um livro de história escrito
em latim, Historia Regum Britanniae, redigido por um clérigo galês,
Geoffroy de Monmouth.O autor retomava, ampliando-a, a narrativa de um
chefe guerreiro do século VI, Artus, cujo nome em celta significa o urso. Ele
o representa acompanhado, no início de sua vida, por seu tutor e conse­
lheiro, o mago Merlin, adaptado de um personagem histórico: um rei da
Baixa Escócia, Lailoken ou Wylit, que enlouquecera e que, errando numa
floresta, fazia profecias.

A biografia de Artus
Se tentarmos permanecer no plano de verdade concreta, Artur ou Artus
nasceu por volta de 490 d.C., sem dúvida no País de Gales. As legiões
romanas haviam abandonado a ilha da Bretanha em 410, deixando se desen­
volverem rivalidades e conflitos. As invasões dos germanos pelo mar, dos
pictos e dos escoceses pelo norte, a partir do desmoronamento do "Muro de
Adriano", importunavam as tribos celtas chamadas também de britones. Os
saxões, contratados como mercenários a serviço do rei dos bretões,
Vortigern, voltaram-se contra ele. O chefe guerreiro romano-bretão
Aureliano Ambrósio começou, no entanto, a conquistar algumas vitórias.
Seu l u ga r-tenent e e posteriormente sucessor foi Artus, que bateu os saxões,
estabelecendo um longo período de paz. Arrus morreu por volta de 535,
quando da baralha de Camlan.

Ivlas narrada por Monmourh, a história tinha outro charme! Monstros e


feiticeiros, fadas e sortilégios, explorações fora do comum! ...

O sueesso desse livro de: "história" foi consided.vel. Cópias e traduções cir­
cularam em roda a Europa. Uma tradução em anglo-normando, ainda mais
enfrirada por Wace, acentuou o caráter encantado do personagem.

21
O MUNDO ARTURIANO

As biografias de Artur
Na seqüência desta narrativa, vieram enxercar-se poemas legendários, que
acabaram por criar um Rei mítico, exemplo e sustentáculo, que viria
polarizar as esp eran ças das jovens nações' Para consrruir esse super-herói, os
aurores civeram apenas que me rgulhar em um enorme fundo de explo­
rações, avenwras e símbolos, constituídos pela saga oral céltica, que hoje
chamamos a Matéria da Bretanha.

A Matéria da Bretanha é um nome genérico dado às numerosas legendas,


tríades e epopéias orais ou escritas do mundo celta, tanto na pequena como
na grande Bretanha, até a Irlanda. Ao mesmo tempo mitologia e narrativas
iniciáticas, esse vasro conjunro ainda era bem conhecido no século XII pelos
canrores ou textos, hoje quase rodos praticamente desaparecidos, exceção
feita aos manuscriros da Irlanda.

É a partir da história de Monmouth que os romanos vão engu uma


ou tr a, completar ou dar-lhe uma seqüência, levando sempre em consi­
dera ção a Matéria da Bretanha, e apenas por um século e meio.
Revelaremos, pois, partindo da concepção e da infância de Artur, os
s eg u i n tes rítulos:

Merlill, de Geoffroi de Monmourh. Esta Vita Merlini é um desenvolvimen­


to da sua obra precedenre2. A partir das legendas celtas do druida e mago
Myrrdy n , instala-se o protótipo do mágico, cuja moralidade e lógica para­
doxais sio essencialmente célticas. Tuto.· e conselheiro de Artur, ele o fará
fundar uma comunidade de cavaleiros agrupados em torno de uma mesa
redonda sem precedentes.

1 A dinastia dos Plantagenetas precisava apenas desta legitimidade mítica. Notemos que Chrétien
de Troves dirigiu-se inicialmente a Aliénor d'Aquitaine. esposa de Henrique li Plantegeneta. antes de
3er o florào da ctJrte de sua fil�1a, a princesa Marie de Champagne.
2 Ela será reforçada pelo Merlin cristianizado do Robert de Boron: Merlin /e prof/Jéte (Merlin. o pro­
feta). e c l i to ra Stock-Plus (França).

22
O MLINDO ARTURIANO

Lanzelet, de Ulrich von


Zarzikhoven, século XII,
ancesual do Lancelot em
prosa. Lancelot é um herói
por excelência. Esrá
apaixonado pela rainha
Guinevere, mulher de
Arrur e símbolo da sobera­
nia do rei sobre a terra de
Logres, isto é, a ilha da
Breranha. Ser-lhe-á fiel a "Lancelot e Guinevere" - ilustração de George
ponto de por ela violar Wooliscrott e Louis Rhead para Lancelot e
rodos os ouuos códigos Guinevere de Tennyson -1898

cavaleirescos.

Lancelot em prosa. É a narrativa da infância e das primeiras avenruras do


célebre cavaleiro, criado no fundo do Lago - que é, de fato, o Outro
Mundo - pela fada Viviane. Supõe-se ser esse lago o do castelo de Comper,
na floresca de Broceliândia. Sabe-se então que seu primeiro nome é Galaad.

O grande ciclo de Tristão e !sol.da'. O ciclo de Tristão é composto de vários


poemas franceses em verso, de romances em prosa e de uma saga escandina­
va. Nas narrativas francesas ele se apaixona sob o efeito de um filtro mágico
da bela Isolda, que deve casar-se com o rei Marc da Cornualha. Encontra-se
então em conflito com seus dois votos: fidelidade ao rei, fidelidade à rainha.
Suas aventuras ligam-se a Artur pelo apoio que este dá ao rei Marc.

O romance de Peredur, base para a construção do Perceval francês.

Mas a base principal do mundo arturiano é o grande ciclo dos cavaleiros da


Távola Redonda de Chrétien de Troyes4, que é paralelamente desenvolvido

3 J Sédier: O Romance de Tristgo e Isolda - Ed. Martins Fontes. (N.T.)


4 Chrétian de Troyes: Perceval ou o Romance do Graal - Ed. Martins Fontes; Romance da Távola
Redonda - Ed. Martins Fontes (NT.)

23
O MUNDO ARTURIANO

em galês sob o nome genérico de Mabinogi ou Mabinogion, os dois aurores


reponando-se a uma fonte oral comum:
• Erec et Enide (excenos; Ed. Folio - Paris)
• Cliges (excenos; Ed. Folio - Paris)
• Lancelot, le chavalier à la Charrette (Ed. Ldp, Foli, GF - Paris)
• Yvain., le chavalier au Lion. (Ed. Folio e G.-Flamarion - Paris)

Os livros de Chrétien de Troycs se distinguem de rodos os outros pela beleza


da escrita, que as e d i çõ es bilíngües nos t ra ns m item e pela vivacidade das
,

avcnruras e dos diálogos.

(Note mo s que Le Che valier 3. la Charrettc, que conta as ai;ent11ras de Lancelot


do L ago em b usca da minha raptada, de1Je ser lido na ediçílo bilíngiie Garnier­
Flmnmarion, q11e fornece, passo a passo, uma in terp re tação junguiana do mais
j11sto tom'.)

Aqui a ressurgência céltica começa cada vez mais a desaparecer. Seu último
traç o é o Perceval de Chrétien de Troyes, onde o jovem ingênuo e puro
cruza o ca min h o de uma raça de abundância servida em gran de cerimônia
a um rei ferido; como Perceval não faz pergunta a seu respeito, a taça desa­
parece para sempre. Perceval evolui e cresce à medida que se desenvolvem
suas a ve n turas mas o romance desei:volve também as explorações de
,

Gawain, e pára antes que a demanda de Perceval para encontrar o Graal nos
tenha sido contada ...

A p a rti r daí o mundo arruriano torna-se católico e alegórico, cortês,


medieval e fra n cê s, baseado no amor à Virgem e no respeito incondicional
à Igreja.

Citemos. por exemplo, os lais de Marie de Fran.ce (legados de Maria de


Franç a - LdP, !ettres gothiques).

É principalmente Robert de Boron que precipita a cristianização do mundo


arruriano.

5 Nota relativa à edição francesa. (N.T.)

- - - 24
O Ml:JNDO ARTURIANO

A amplificação cristã da cena do Graal do "Perceval" é notável nesse aspec­


to: abandonando completamente a fonte céltica (o caldeirão de abundância
de que se alimentam rodos os comensais), o graal se torna um objeto crísti­
co e o centro da demanda de rodos os cavaleiros, e permanecerá a partir de
então o protótipo da demanda iniciática, acima de qualquer outro objetivo.

Todos os símbolos vão ter sua


história alterada. A Távola Redonda
não será mais somente um signo
igualitário, mas uma réplica da
primeira Távola Redonda, a da
Última Ceia, executada para Artur
por Merlin, e da Segunda Távola
Redonda, que é Sronehenge, edifi­
Vista geral do templo de Stonehenge cado também por Merlin.

Um o utro deslizamento de sentido vai operar-se sob a influência dos mon­


ges de Cíteaux. Não podendo renegar os faros estabelecidos por seus ante­
cessores e baseados numa moral celta, indiferente à sexualidade mais minu­
ciosa sobre os votos e os signos divinatórios, os continuadores cistercienses
tentarão moralizar os acontecimentos: Lancelot será, a partir de então, cul­
pado por amar Guinevere, e por isto não poderá mais atingir o Graal que
contém o sangue do Cristo.

Assim se orienta A Demanda do Graa� anônima, de inspiração cisterciense,


atribuída a Gautier Map (La Quête du Graal, ed. Point Sagesse, Paris), onde
as cenas sobrenaturais são explicadas por monges na medida em que
surgem, e onde aparecem objetos bíblicos como a espada do rei Davi. Mas
a força do miro ainda permite a ocorrência de símbolos poderosos corno os
cabelos dourados que Oeindraine, a :rrnã de Perceval6, corta e trança para
com eles fazer a bandoleira daquela espada rniraculosa7•

6 A única mulher realmente implicada na Demanda, que explica aos cavaleiros o sentido dos fatos e
objetos sobrenaturais. Ela é, mesmo assim, afastada da Demanda pelo sacrifício de seu sangue para
uma leprosa, em um romance tardio.
7 Na sua esteira, Robert de Boron escreverá obras do ciclo do Graal onde José de Arimatéia
desempenha um papel preponderante.

25
O MUNDO ARTURIANO

Na Alemanha nasce o Parzifàl, de Wolfram von Eschenbach8• O Graal


assume a imporrância que hoje lhe atribuímos: se o livro descreve o Graal
corno uma esmeralda caída da resta de Lúcifer, os continuadores de von
Eschenbacb irão vê-lo como uma raça ralhada na esmeralda, servindo à
Última Ceia e para recolher o sangue do coração do Cristo quando da desci­
da da cruz. O autor chamá-lo-á "a Pedra", e irá rechear com reminiscências
germânicas e escandinavas o miro celta tornado cristão. Este será o ponto de
panida de Wagner para escrever o seu Parsijà/> única ópera onde os aplau­
sos são proibidos.

A Morte de Artur de Sir Thomas Malory desenvolve o fim do reino de


Logres e explica seu estado atual sem grandeza, fazendo cintilar um resta­
belecimento glorioso: Artur não morreu quando da baralha de Carrilan, mas
adormeceu no Outro Mundo, do qual o Lago é uma das portas.

"Uma o urra legenda sugere que a cabeça de Artur teria sido enterrada numa
ilha ao sul da Inglaterra", esclarece-me um amigo, o historiador Jacques P.
"Enquanto essa cabeça estiver lá, nenhuma invasão terá sucesso. Nas últimas
novelas, os franceses teriam cavado um túnel sob a Mancha para virar a
sorte. Parece que ainda não ficou bem n0 ponto". Comparar-se-á esta lenda
com a da cabeça de Bran o Bendito, sob?.. Torre de Londres.

Diversas obras de interesse desigual. mas todas baseadas no mundo arturi­


ano, foram reunidas em um livro da Coleção Bouquins".

A legenda arturiana
Pode-se dizer que roda essa b as e do mundo arruriano foi inreiramente
redigida no século XII: ele faz <l pome entre o mundo celta que desaparecia
e o mundo medieval emergente, e instala, após os conflitos, invasões e con­
quistas, as noçóes de reino e de nação, de religião e de ideal.

Vamos reconstituir, a partir desses romances, a vida de Artur, tal como está
fixada na sua forma medieval.

8 Wolfram von Eschenbach: Parsifal (Toth Editora. Brasília - 1986)


9 Editada na França (N.T.)

26
O MUNDO ARTURIANO

CAPÍTULO II: A VIDA DE ARTUR EM SUA FORMA ATUAL

Ela é basrarne fiel ao filme Excalibur Je B orman.

MERLIN

Merlin, filho de um deus e de uma mu­


lher, rransforma por um sorrilégio a
aparência do duque Uter Pendragon, a
fim de que a rainha lgraine da
Cornualha o rome por seu marido.
Como pagamento, pede a criança que
nascerá desra união. Com a morte do
marido de Igraine, Urer Pendragon é
designado rei da Breranha. O bebê é rap­
tado por Merlin, que o batiza de Artur.
fá-lo criar por Auctor, um bravo
homern, e ensina-lhe secretamente as
verdades da vida.

Com a morre de Uter, uma espada finca­


da em uma pequena escada (seja um
pedaço de madeira que serve habimal-
menre de base a uma bigorna, seja simplesmente uma pedra talhada) aparece
dianre da catedral de Cardueil , a capital Aquele que puder retirá-la será rei. Mas
ninguém pode arrancar a espada, e sem rei o reino
sucumbe à tristeza e à desolação; as culturas não fru­
tificam mais, o céu permanece sombrio.

Quando Artur tem 15 anos , "Povo maravilhado


simples escudeiro de Kai, que diante de
acredita ser seu irmão, parte para Excalibur"
- ilustração de
enconrrar-lhe uma espada de
Arthur Dixon para
torneio e, sem malícia, retira a
King Arthur and
da escada. O prodígio é repetido The Knights of The
diante dos barões do reino, que Round Table 1921
-

27
O MUNDO ARTURIANO

acabam por inclinar-se <liame do novo rei de Logres. A partir de então,


rt·ndo um rei, a terra ressuscita: as flores e as frutas renascem nos campos.

Viviane, a Dama do Lago, dá-lhe então


uma espada do outro mundo, Excalibur10•

Artur encontra sua meia-irmã Morgana,


filha de sua mãe Igraine e de seu primeiro
marido, Gorlois' 1• Ignorando seu vínculo de
sangue, ele cai apaixonado. Desses amores,
incestuosos para um cristão, mas possíveis
para um celta, nascerá Modret, destinado a
fazer a infelicidade de seu pai. Ele será o
. . uu1 herdeiro legítimo do reino, em sua dupla
µd1d À1tu1" - azulejo de John qualidade de filho e, principalmente, de
Mayr Smith 1875
sobrinho.
-

Depois Artur desposa Guinevere, apesar das profecias que os ameaçam.


Guincvere representa a Soberania que torna legítimo o reino de Artur sobre
a terra de Logres.

Merlin d�í-lhe então uma Távola (mesa) Redonda mágica, com 150 assen­
ros marcados com os nomes dos futuros cavaleiros - salvo para o 150°, o
Assenro Perigoso, reservado a um cavaleiro desconhecido.

Perce val ou o conto do Graal


A cerra do rei Pelles, o rei-pescador, nos confins do reino, torna-se, por sua
vez, uma "cerra gasra'', em seguida ao ferimento do seu rei. Somente o ali­
menro fornecido p or um graal 1naravilhoso o mantém vivo. Seu sobrinho,
o jovem Perceval, ainda um ingênuo camponês, não fará qualquer pergun­
ca diante da procissão do graal, deixando, a partir do seu silêncio, escapar a
ocasião de curar o rei e o reino. Perceval, ao defender a honra ulrrajada de
Guinevere, ganhará assento na Távola Redonda.

1 O Atenho-me à forma primitiva. que diferencia as duas espadas.


11 Que tem cluas irmãs. Morgause e Ana.

28 ·--- ---
O MUNDO ARTURIANO

Lancelot em prosa
O jovem Galaad - rebatizado Lancelot por Viviane, a Dama do Lago que
o havia criado - vem tomar seu lugar entre os Cavaleiros da Távola
Redonda, apesar de ser um estrangeiro na Grã-Bretanha. Seu amor pela
rainha Guinevere é total e correspondido.

O rei Artur não se perturba, pois não suspeita de relações físicas. Manda
seus Cavaleiros percorrerem o mundo em busca de proezas a serem contadas
anualmente no Pentecostes, na corte de Camelor.

O cavaleiro do leão
É da í que nascerão as diversas aven­
turas de Gawain, sobrinho do rei e,
portanto, seu herdeiro'2, lvanhoé,
PercevaL Kai, ramado senescal do
rei, Lancelot e tantos outros.

Artur organiza uma expedição a


Roma, cujo império ele partilha com
seus fiéis barões.

A morte de Artur
Mas o velho conselheiro Merlin
deixa-se enfeitiçar por Viviane
(Nirnue), e ela o tranca, por sortilé­
gio, numa câmara de cristal, até o
tlm dos tempos - ou até a invasão
da ilha da Bretanha...

A demanda do Graal
No Pentecostes seguinte, o Graal
;:iparece acima da Távola Redonda.
Artur vê nele o objetivo último das

12 Dentro da tradição celta, a filiação da irmã é mais forte que a da mulher. Mas Mordret também
pode reivindicar esse direito.

29
O MUNDO ARTUR/ANO

demandas de seus cavaleiros, que


pan ir ão para conquisrá-lo. O Graal
só aparece, de fato, por ocasião de
un1 g e st o val oroso ou de uma
proeza fora do comum.

A chegada do 150° cavaleiro, o


jovem Galaad, com sua armadu ra
vermelha, confirma que a h o ra é
chegada: ele toma assento na
Cadeira Perigosa, e seu nome se
inscreve diante dele sobre a Mesa.
Até e ntão ninguém sabia ser ele o
filho de Lancelot e de Elaine, a filha Merlin e o Rei Artur e sua Tavola Redonda
do rei-pescador, que havia assumido servidos por jovens nobres -
o aspecto de Guinevere para enganar ilustração do século XV
o cavaleiro fiel.

Quando da Demanda do Graal, muHos grandes cavaleiros encontrarão a


morre. Somente três atingirão o Graal:
• Galaad: ele olha dentro da raça e morre em seguida;
• Perceval: ele é o rei do casrelo do Graal antes de nele morrer,
• e Bohors que volta a Camelot para narrar a Demanda. A "terra
gasta" volta a ser uma "rcrra feliz".

A 1norte de Artur
Mas o tempo dos sinais prodigiosos, dos encantamentos e dos prodígios está
acabado. As cadeiras vazias da T;í.vola Redonda não podem ser renovadas,
apesar de jovens recrutas... corno Mordret. É nesse momento que Artur sur­

preende a 1 igação entre Lancelot e Guinevere. Lancelot foge, mas volta a


te mp o para livrar Guinevere da fogueira, matando os irmãos de Gawain.

Gawain força Artur a partir em guerra contra Lancelot até a Arrnórica, em


suas terras de Alegre Guarda. Mas ele será 1nono por Lancelot em um com­
h"re singt1lnr. Na Grã-Bretanha. M.ordrer cumpre a profecia ligada à sua si­
nistra origem: desde a partida do rei ele aprisiona Guinevere na Torre de

30
O MUNDO ARTURIANO

Londres, proclama a morte de Artur e se declara rei de Logres.

Esca proclamação não é um golpe de estado no semido moderno do cermo:


"Artur parte para guerrear no continente, quando o Rei não tem o direito
de deixar seu reino. Ele está, portanto, 'legalmente' morto e Mordret toma
sua herança a justo título." (Jacques P.)

Camlan, a úlcima baralha de Artur, é também o fim dos tempos aventu­


rosos. Mordrer morre, assassinado por seu pai, após havê-lo mortalmente
ferido. Artur, agonizante, faz lançar Excalibur no Lago de onde viera.
Levado à margem, é conduzido pelas Damas do Lago, dirigidas por Viviane,
acé o .Outro Mundo, na ilha de Avalon (ilha das Macieiras). Ele não morre
lá: vive em um sono mágico, do qual será tirado por Merlin no fim dos tem­
pos - ou em caso de invasão da ilha da Bretanha...

Rescam apenas quatro sobreviventes da batalha de Camlan. Os poucos ca­


valeiros restantes se dispersam e vivem uma vida de ascese e de prece.
Lancelot torna-se eremita e Guinevere, religiosa. Eles voltam a se ver uma
última vez e morrem num intervalo ce poucos dias. São sepultados em duas
tumbas vizinhas. As roseiras que crescem sobre seus túmulos entrelaçam
seus galhos. Com eles encerra-se o tempo encantado em que o mundo ter­
restre e o outro mundo se entrelaçavam para a felicidade dos homens e dos
jardins.

CAPÍTULO III: ORIGEM CÉLTICA DO MITO ARTURIANO

As narrativas primitivas da história de Artur e as narrativas célticas de onde


vêm as aventuras medievais de Távola Redonda, permitem-nos aprofundar
o mi to e de dele extrair novos ensinamentos.

Artus, o rei urso


O rei Artur conservou, apesar da sua cristianização, profundas característi­
cas célcicas. Ele é, a princípio, um herói que tem a necessidade de provar seu
valor, dcpoi" um rei que níio o.ge, mas se c;:ontenta em ser; e que é o pólo de
seu reino, compartilhando o poder eqüitativamente com o druida Merlin.
Seus sín1 bolos são o urso, e o eixo do mundo a macieira, o visco, a estrela

31
O MUNDO ARTURIANO

p o br. ou seja, símbolos de imobilismo. Ele é criado por estranhos à s u a


família, como d e hábito entre os chefes celtas.

Cuchulain e Lug
Lancelot é baseado no herói cel ta Cuchulain. Ele servirá mais à rainha
Gui n ev ere que ao rei Anur, como bom celta, mas não pertence ao reino de
Logres. Apesar de n ão - b ret ão 11• ele pode se r acei rn p e l a Rainha-Soberana,
devido :l sua valentia. Ela lhe ofrrece "a amizade de sua coxa" (sic), o que faz
dele um camp eão incondicional e invencível. Suas cóleras são irresistíveis e
devastam tudo. ,.,

Ele tem também as características m ;í gicas d() deus Lug, padroeiro da cidade
d e Lyon e m od elo do Crisrn glorioso de Cl i a rr res : ele p od e ter por esposa
sua mãe a rainha, ele é "Lug da longa lança", é filho da união i m possível de
um deus bom (do povo Th uat ha ) e de urna deusa má (do povo Fomoreu).
Ele age quando de sua fesra, em 1" de agosto.

Myrdynn
Merlin é inicialmente extraído de Myrdynn, druida e profeta. Sua lógica é basea­
da 110 interesse da prosperidade do reino em harmonia com as estações e com a
terra - daí sua ausência de moral com Uter Pendragon, por exemplo. Hesitando
alternadamente entre o mal e o bem, entre seu pai diabo e sua mãe santa, ajudan­
do e cm seguida combatendo as mesmas pessoas. Merlin é ambíguo, mesmo para
um celta. É por isro que se perde pela paixão e pela revelação de seus segredos.

Diarmaid
Tristão está rnuHo p rox1mo das aventuras do herói celta irlandês
Diarmaid ou do Drystan galês, mas o miro é da Cornualha. Sobrinho do
rei Marc. está ligado a Isolda por um "gueis"1', que a serva de Isolda -

13 É filho cio rei San de Benoic e de Helena.


14 Vide Hulk' ..
15 O gueis é um voto - obrigação ou interdição. Ele não pode ser infringido sem a perda de todos
os poderes mógicos detidos, por outro lado, nem sem uma desonra absoluta, pior que a morte. Por
lógica complementar, ele deve ser enfrentado em certas ocasiões. É uma base do pensamento celta.
Aq11i tr<1t;i-se de um filtro bebido pelos dois nmantes que os liga. o <iue pode não ser considerado
como um gueis propriamente dito. Ver Brékilien.

32
O MUNDO ARTURIANO

Morgana disfarçada? - lançou sobre ele. Deus lunar, ele deve unir-se a
Isolda, a loura solar, uma vez por mês. Após numerosas aventuras abalado­
ras, um julgamento solene é decidido. Para decidir entre Tristão e Marc,
Arru r pede-lhes que escolham o período durante o qual cada um será o
esposo de Isolda. Marc escolhe o tempo das árvores sem folhas, porque as
noires são as mais longas. Isolda observa então que cerras árvores guardam
suas folhas todo o ano: portanto ela ficará com Tristão para sempre.

A evolução da saga para o romance cortês dará um fim mais trágico ao seu
amor. Há igualmente toda uma série de fábulas cômicas onde a astúcia dos
dois amantes confunde as precauções do rei ridicularizado.

Gwalc'h-mai
Grn/lrzin é o sobrinho de Artur, filho de sua irmã. No celtismo, a filiação pela
irnü é mais forre do que a pela esposa. O filho de Artur e de Guinevere,
Loholr, rerá apenas um papel obscuro. Gawain é pois o verdadeiro delfim
do rei (apesar de Mordret também poder reivindicar esse título). É o celta
Gwalc'h-mai, o apaixonado de todas as mulheres. Sua força cresce com o
amanhecer, culn1ina ao meio-dia e decresce à noite. Os romances franceses
farão dele um corredor de saiote.

Peredur
Perceval é Peredur, o que quer dizer "caldeirão de aço". Sua peculiaridade é
progredir apenas pela experiência pessoal nesse mundo ou no outro, a fim
de atingir toda a sua estatura e de poder em seguida proteger os homens de
todos os acontecimentos, seja qual fo,. a sua fonte.

CAPÍTULO IV: O MITO ARTURIANO TORNA-SE OPERATIVO

O que acabo de evocar aqui é, para muitas pessoas, uma realidade tão con­
creta quanto o papel da revista que você tem em mãos. Sem chegar aos nos­
tálgicos da Céltia independente que aprendem o bretão, há realmente, espe­
cialmente na Grã-Bretanha, confrarias baseadas no mundo arturiano como
nossos n1onges no da Igreja.

Naturalmente, os romances e contos baseados em Artur abundam ainda

33
O MUNDO ARTURIANO

hoje. Nos anos 40, T.H. W hite i maginou como Merlin ensinava seu pupilo
servindo-se da magia. É nesta obra, The Sword in the Stone (A Espada n a
Pedra), que iria inspirar-se o grande iniciado contemporâneo Walt Disney,
rosa-cruz e franco-maçom, para idealizar seu desenho animado.

Mas não falo aqui desse aspecto ainda excessivamente literário.

Falo de uma autêntica via cardíaca, onde os arquétipos celta-franceses são


reativados em verdadeiros rituais simbólicos, em templos consagrados, e
seguindo leis de harmonia célticas inglesas. Estas Comunidades se mantêm
numa direção resolutamente espiritual - uma curta parte da obra da Golden
Dawn - que havia aprofundado, no século XIX, o simbolismo do Graal e da
magia druídica operativa; mas elas não seguem absolutamente as mesmas vias
ri ruais que seus grandes antecessores, já que não fazem magia nem reurgia. Seu
trabalho é unicamente uma harmonização de sua psique com os arquétipos
arrurianos, para viver e vencer como cavaleiros em nosso mundo tumultuado.

É bem sabido que um arquétipo não tem necessidade de estar ligado a um


ser que tenha existido para tornar-se ativo e para manifestar-se já que, por
natureza, um arquétipo é uma idéia-forç;i e não um espírito desencarnado.
Não se trata, pois, de magia dirigida a entidades objetivas, mas de um conta­
to com. o inconsciente Universal onde os arquétipos arturianos são ativados
por dez séculos de sonhos, de esperanças e de meditação criadora.

CONCLUSÃO EM FORMA DE ABERTURA

A narrativa de algumas dessas reuniões está esboçada nos livros de R.J. Steward
(não traduzidos, como Hallowquest) e em Vivre aujourd'hui la quête arthurienne
(Viver hoje a demanda arturiana) e Vivre aujourd'hui la quête du Graal (Viver
hoje a demanda do Graal), ed. Dangles, que lhe permite fazer, você mesmo,
meditações visualizadas guiadas, análogas às que se passam em seus trabalhos.

Nosso subconsciente tem necessidade de relações universais e míticas para se


comunicar com nosso consciente. O mundo arturiano permite-lhe todos os
níveis de expressão, e lhe oferece rodas as possibilidades de diálogos. Por que
uãu experimentar in1ediatamente?

34
O MUNDO ARTURIANO

Não iremos cão longe quanro eles, mas renraremos fazer cessar nosso uaba­
lho inrelectual para escurar o que nosso Ser interior tem a nos dizer auavés
do rei Artur.

Uma simples visualização pode, portanto, trazer-nos um útil complemento


de conhecimento sobre esse paraíso perdido do reino de Logres, e eu os con­
vido, agora, a lerem o rexto abaixo que redigi em dezembro de 1991.

Gosraria de lembrar que se trata de uma simples meditação sobre arq uétipos
imaginários e não de um contato (channeling) com entidades autônomas.

Para o condutor: os *** indicam o tempo de silêncio e sua duração.

UMA VISITA AO CASTELO DO REI ARTUR

Camelot - ilustração
de Arthur Rackham
para The Romance
of King Arthur and
His Knights of The
Round Table - 1917

Preparação - os pés colocados em contato total com o solo; as mãos sobre


os joelhos e os olhos fechados.
Inspire pelo nariz - retenha o ar - expire pela boca.
Inspire pelo nariz - retenha J ar - expire pela boca.
Inspire pelo nariz - retenha o ar - expire pela boca.

Entrada: agora, os olhos sempre fechados, olhe ao seu redor: você está numa
floresra verdejante. Ao seu lado, os outros membros da sua Comunidade,
vestidos como você. Sua espada brilha com um fulgor particular. Um cami­
nho se estende à sua frente, rumo a uma clareira. Você o segue. Respira o ar
da floresta, escuta os passarinhos, segue com os olhos o sol na ramagem.

Condução: Na extremidade do caminho, no meio de uma grande pradaria

35
O MUNDO ARTURIANO

luminosa, ergue-se um castelo de pedras brancas, cuja poterna (porta secre­


ca) encontra-se ent rea b er ta. Um gu arda vela a entrada.

Vocc avança.

Encontra-se diant e do guarda. Ele pergunta qual a verdadeira motivação de


sua enrrada no castelo do rei Arrur. Responda-lhe silenciosamente, com
roda a sinceridade.**

Ele franqueia a sua entrada. Você entra num salão ornado com tapeçarias
suntuosas. e se aproxima para olhá-las. Vê então que urna tapeçaria da
parede re pr e sent a urna cena da sua vida. Olhe-a bem (5 minutos)*****

Um guarda o chama e pede-lhe que entre. Você o segue. Encontra-se agora


em urn imenso salão iluminado por uma espécie de vidraça no teto. No cen­
tro da peça, uma Távola Redonda ocupa rodo o lugar. Você vê que as pes­
soas já e st ão sentadas. Algumas lhe são familiares, você as conheceu ou
amou, ou amou suas obras. Outras são desconhecidas por enquanto. Elas se
vol um para você com amizade e benevolência. Você olha seus rostos.****

O guarda o conduz a um assento. Ao sentar-se vê que seu nome está grava­


do em letras douradas na Távo l a diante de você.
,

Em seguida o guarda anuncia: O Rei e a Rainha.' Entram então por uma


outra porra o Rei Artur e a Rainha Guinevere. Eles são luminosos de bon­
dade e de força, de solidez e de amor. Sentam-se à Távola Redonda.

O Rei lhe dá um sorriso de boas-vindas.

Em seguida a Rainha pede a um dos o.1tros personagens sentados à mesa


para contar uma aventura vivida por ele, e cuja lição possa ser proveitosa
para rodos. Ela será simples ou complicada, célebre ou interior, extra­
ordinária ou banal, pouco imporra1 Você escura esta avenrura em silêncio
(cinco t7 quinze rninutos). **************'!<***

3(i
O MUNDO ARTURIANO

O Rei Artur a comenta com uma frase. Escute-a bem**.

Depois ele e a Rainha se levantam e saem pela porta por onde haviam entra­
do.

O guarda lhe indica a saída. Você se levanta, saúda os outros cavaleiros, e sai
para o átrio. Caminha até a poterna e se encontra do lado de fora, na
clareira. Você retoma o caminho da floresta.

En qu ant o caminha, você sente uma grande paz e uma alegria profunda.
Sabe que pode retornar à Távola Redonda quando desejá-lo. Um dia será a
sua vez de contar uma aventura a Artur e aos seus cavaleiros, e eles o escu­
carão com atenção e respeito.

Saída:
Você está de volta à floresta. Irá deixar o reino de Logres para voltar à França
(011 ao seu país), a .. . .. (cidade), neste ano de 200... .., em ... .. (mês), no dia
...... Você traz sempre em si esta alegria e esta paz.

Mantendo os olhos fechados, você irá respirar profundamente uma vez:


inspire - retenha o ar - expire com força. Irá agora movimentar os dedos,
os pés. Em seguida abra os olhos suavemente.

Esta matéria foi publicada originalmente em Llnitiation


no número 2 de 1997

.. Sir Lancelnt .. ·ilustração de M. Bowley para Tales from Tennyson de Nora Chesson

37
A SINARQUIA
René Caillié

(inspirado em A Missão dos Judeus de Saint-Yves d'Alveydre)

A todos os povos judaico-cristãos

a be m os agora o que quer dizer esse belo e puro diamante do Verbo divi­
S no: SrNARQUIA. A Sinarquia é a ordem em roda parte na superfície da
Terra; é a Justiça, a Alegria e a Paz entre os homens; é o Reino de Deus. Éa
imagem, no seio das sociedades humanas, da ordem e da hierarquia que se
vê reinar no Céu em meio aos Astros, onde reina um sol central, aleitando
com sua Luz e seus Raios rndos os outros Sóis das Nebulosa que eles mes­
mos, Reis de Justiça e de Amor, inunda:n com todos os benefícios da vida
as milhares de Terras que gravitam ao seu redor com as Humanidades que
as cobrem. Imensa Assembléia de Sríis! Ó divino Empíreo de luz e de Fogo,
onde vão habitar as almas glorificadas, os grandes servidores do Deus social
do universo! - lançai pois, enfim, cm meio à nossa pobre Humanidade ter­
rena devorada pela guerra fratricida e pela anarquia política, um pouco da
vossa ciência e da vossa sabedoria; um pouco do vosso amor, a fim de que a
fraternidade não seja mais uma palavra vã. E vós, SENHOR V IVO do espaço
e da eternidade, que sois a alma e o espíriro do GRANDE TODO que vos dá
a rodos um pouco de sua vida, escutai a prece que vos fazem nossos corações
rodos unidos no espíriro divino de nosso Cristo:

VENHA A NÓS O VOSSO REINO, QUE SEJA FEITA A VOSSA VONTADE, ASSIM NA
TERRA COMO NO CÉU.

Faz-se m i ste r que no centenário de 89 o Povo francês, esse povo tão ge­
neroso, tão bom, sempre pronto a versar seu sangue por uma idéia, escreva
esta divina prece sobre um lado de sua bandeira, e sobre o outro:

ClÊNCIA, JUSTIÇA, ECONOMIA, PAZ E FRATERNIDADE ENTRE TODOS OS


Povos. SOLIDARIEDADE ENTRE TODAS AS HUMANIDADES DO UNIVERSO.

38
A SINARQUIA

E o Porvir não será mais para nós um pavoroso fantasma; o Progresso não
provocará mais medo como sendo o espírito do mal; e a evolução da vida
parecer-lhes-á como um dom divino que nos deve tornar sábios e retendo
no fundo de nossas almas a CIÊNCIA e a VERDADE, ou seja, o Amor, a Justiça
e a Bondade.

Esra Sinarquia, que deve regenerar e salvar o mundo, que deve restabele­
cer a Paz e a Fraternidade entre todos os povos, deve ser realizada, e desde
já, trabalhar por ela. Sursum corda! Raças cristãs: judeus, franco-maçons,
livres pensadores, católicos romanos e protestantes. Sursum corda! E que
rodos os povos formem uma única alma para amar e respeitar a Vida em
toda parte e realizar o reino de Deus na humanidade. Tornemo-nos todos
aliados do Criador, todos sinarquistas. Mas nada de destruição nem de
violência; porque nada é mais fácil do que realizar a Sinarquia por simples
transformação, por simples jogo de evolução, sem nada destruir, absoluta­
mente nada, do que atualmente existe. CIÊNCIA, JUSTIÇA, ECONOMIA; eis
as pedras de mármore e de pórfiro Ci'.le queremos deslizar sob o edifício e
nas fundações. Nada mais de cesarismo, nada mais de política, nada mais
de revolução presidindo as relações dos Estados entre si e minando a vida
orgânica da Humanidade terrena; mas três grandes conselhos impessoais
em toda parte: CIÊNCIA, JUSTIÇA, ECONOMIA SOCIAL em cada comuna,
em cada nação, em toda a Humanidade terrena restaurada e devolvida à
sua unidade divina.

TODOS EM UM, UM EM TODOS

Por um PAPA e seu TRÊS CONSELHOS ARBITRAIS imperando no


cume de nossa Pirâmide Humanitária.

Nunca, em nenhuma época, a Europa foi cão bela em inteligência, cão ri..:a
em ciência, cão moral no fundo do coração. Jamais se viu nela canta sabedo­
ria e razão e se a paz não reina entre as nações do globo, a culpa é toda do
cesarismo que se tornou lei dos governos, do arbítrio, regra única de seus
atos. da política cega e sem consciência que trabalha seus cérebros sem
sabedoria e sem freio.

39
A SINARQUJA

Ora, rrara-se simplesmenre de fazer passar às insriruições humanas esra


razão, esra i nreligência, esre senso moral que já existem em cada indivíduo.
Trara-se de esrabelecer um

GOVERNO GERAL

rendo por fundamento rudo o que já ser ve de base à m olé cu l a humana, ou


seja: a CIÊNCIA, a JUSTIÇA e a ECONOMIA.

E o que pedimos, nós os sinarquisras, não h:.í um sc'i indivíduo pertencente


à judaico-crisrandade que, tomado i sola da rn en r c e individualmente, não dê
seu consenrimenro com as dua.-; mãos, porque nada é mais evidente que a
necessidade da realização dcsra LEI SOCIAL UNIVERSAL, que d e v e uazer de
volt:i. à terra a Paz e a Alegria. O p rópr io papa não ousaria nem poderia
recus;í.-la, especialmenre porque seria ele que se tornaria a pedra angular do
novo edifício. "Do primeiro padre ao último ateu, do primeiro sábio ao últi­
mo ignorante, do primeiro dos reis ao úlrimo dos juízes de paz, do primeiro
dos reacionários ao último dos revolrados, desde o maior dos economistas e
dos p lu roc ra cas até o último dos pobres e dos socialisras, não se pode encon­
rrar um só h o m em que, tomado individualmente, possa ousar negar a neces­
s idad e e a bondade desta reforma, porque seria admirir que o que ele quer é
a i niqüid ade, a ignorância e a ruína. Seria um louco." (Saint-Yves).

De resto, nã o esrá longe o dia em que a Razão, a Moral e a Opinião públi­


ca irão ren e ga r e amaldiçoar esta política, mãe de todas as desordens, causa
d e rodos os males.

É pois a ela mesma que caberia depor armas. É realmente ao poder político
qu e cabe rnmar a iniciativa da reforma, se ele quer evitar sua ruína, se quer
manter suas posições na pessoa de seus representantes atuais. É necessário
que os chefes de rodos os governos da Europa compreendam a necessidade
de subordinar o Empiri s mo políti co à Ciência, à Justiça, à Economia e que
eles vejam que é chegada a época do inaugurar da nova era, organizando os
uês po de res sociais da sinarquia, as três CÂMARAS correspondendo a estas
três divisões da Biologia plane tá ria .

1'1fa.5 " si11ar�1uia é umn lei cicntifica1nente exata. Saint-Yves d'Alveydre segu-

40
A SINARQUIA

ramenre já o demonsrrou sobejamente na sua Missão dos soberanos desde há


mil e oitocentos anos; depois na sua Missão dos judeus, desde oito mil e seis­
cencos anos. É necessário pois aplicá-la com sabedoria e exatidão, tomando
por base essencialmente: a distinção sine qua non entre a AUTORIDADE, o
PODER e a VONTADE POPULARES, dando-lhes particularmente a autoridade
sobre a tocalidade dos corpos docentes, ou seja aos homens da ciência e do
saber, e o poder aos homens da justiça pelo respeito e a obediência aos
homens do saber e da ciência.

A rransição de qualquer governo políi;co à nova ordem social é fácil, porque


a sinarquia, lei puramente social, presta-se à retificação de qualquer gover­
no poHrico. Mas é principalmente na França que a coisa aconteceria mais
narnralmente, primeiro porque a forma republicana já é uma forma de go­
verno impessoal, depois porque o Espírito particularmente universalista do
povo francês torna esta evolução singularmente confortável. A primeira ini­
ciariva seria realizar um plebiscito sobre a sinarquia, através do sufrágio uni­
versal, que hoje virou moda. A maioria a favor será seguramente imensa,
porque o povo francês é um entusiasta da Verdade, do Justo e do Bem, que
são sempre compreendidos neste nobre país. Nas cédulas eleitorais estarão
inscritos os principais artigos da nova Constituição:

1° Composição imediata de três poderes sociais representando respectivamente:


O ENSINO, A JUSTIÇA, A ECONOMIA

2° Primeira lei orgânica da nova Constituição:


SUBMISSÃO DO PODER À AUTORIDADE DOCENTE

3° Caminhos abertos, sem distinção nem favor, a todas as capacidades e a todos


os méritos pela
LIBERDADE ILIMITADA

4° Condição sine qua non a ser preenchida pelo candidato a qualquer grau
solicitado:
O CONCURSO

Poderia ser esta a fórmula do PLEBISCITO.

41
A SINARQUIA

E a Nação daria plenos poderes políricos ao governo polírico exisrente, ou


seja, ao presidente da república, que receberia a colaboração das duas
Câmaras para modificar nosso regime parlamentar nesre sentido; pois é
indispensável que a Constiruição arual e suas duas Câmaras sejam momen­
raneamenre manridas. Desta forma o Esrado não ficaria indefeso dianre da
rná vonrade ou da oposição evenrual das ourras Nações. E a uansformação
se daria sabiamenre, levando o processo quanros anos fossem necessários.
Depois, declarado encerrado o Período constituinte, a NOVA CONSTITUIÇÃO
enuana em vigor.

Ourarue esse período de evolução os dois Parlamentos, a Câmara dos de­


purados e o Senado, se entregariam aos rrabalhos da reorganização do
Esrado. Eles se reuniriam em CONGRESSO para dividir-se em seguida em três
Comissões assim formadas:

Primeira Comissão. Seria composta pelos senadores e depurados, penen­


cernes seja aos diferentes Culros, j
se a à Universidade, seja às Academias, seja
às Escolas especiais; seja aos dignitários da Franco-maçonaria. E esta
Comissão seria o núcleo da PRIMEIRA CÂMARA correspondente ao ENSINO.

Segunda Comissão. Seria composta pelos senadores e deputados pertencentes


à magisrrarnra (sentada ou de pé) ou diplomados pela Escola de Oireiro.
Esra Comissão seria o núcleo da SFC.UNDA CÂMARA correspondente à
JUSTIÇA.

Terccim Co m iss ão . Seria composta pelos senadores e deputados pertencentes


às Finanças, :i Indústria, à Agriculrnra, ao Comércio e à Mão-de-obra. Esta
Comissão seria o núcleo da TERCEIRA CÂMARA correspondente à ECONO­
MIA SOCIAL.

Bem entendido, para que não haja qualquer direito adquirido lesado, os
sen;idores e depurados que não se enqundrnrem nessas três categorias, serão
a elas integrados por assimilação, tão aproximada quanto possível.

Assim seriam gerados os rrês embrioc.. :s da Trindade sinárquica.

42
A SINARQUIA

No decorrer desse período, os Conselhos gerais teriam que redigir três


ordens de cadernos departamentais contendo seus votos, que seriam em
seguida enviados às três Comissões especiais anteriormente indicadas.

Como se vê, nada mais fácil, nada mais prático do que essa reforma, essa
transmuração do governo anárquico em governo sinárquico.

A França, não podemos deixar de dizê-lo, é a Palestina da Europa atual. Foi


dela que Victor Hugo disse com tanta propriedade:
"Sangrar é sua Beleza, morrer é a sua Vitória."

Toda essa coalizão dos reis contra ela (não dos povos), não torna a verdade
grita nte aos olhos do pensador? Os governos a detestam, porque a França,
É mais que um Povo, é o mundo, que os reis buscam pregar, morno e san­
grento, na cruz.

Porque ela é a Nação que caminha adiante na regeneração social do globo, e


por ser justamente ela que deve desferir o golpe mortal em todos os governos
pessoais que eternizam todas as anarquias do Nemrodismo: o ARBITRÁRJO, ou
seja, a ln justiça, o Favor, a infame política e as bandeiras sangrentas da Guerra.

Mas a França é forte através do apoio de todos os Povos que sentem nela o
Salvador prometido; e ela só morrerá se quiser. Para viver e levar a bom
rermo seu nobre papel, basta-lhe realizar, nela mesma, o governo
si n :.í r qui c o ', mas não de maneira apaixonada e menos ainda com
ingenuidade, mas de maneira sábia. Ela deve precaver-se contra um desar­
mamento hipócrita do Cesarismo, que a deixaria sem defesa. Ela também
nJ.o se deve desarmar sem que as outras Nações a imitem ao mesmo tempo.
É preciso que ela clame bem alto o que quer. Ela quer para o mundo inteiro
urna verdadeira Paz, sob cercas condições, e não a falsa, incondicional. É
nec ess ário que todos os Povos saibam bem que ela quer a Paz social univer­

sal, e: que da recusa a paz hipócrita do Nemrodismo arbitrário e político.

1 A Sinarquia não é mais um culto. A Sinarquia é a Lei Científica do organismo das Sociedades. tal
como destacaram os Sábios da Antiguidade, numa época onde a Ciência e a Religião não passavam
de uma mesma e única Verdade. e tal como no-la mostra, tão bela e tão evidente. o Marquês de
Saint-Yves d'Alveydre em suas Missões.

43
A SINARQUIA

Realizar na França o admirável Escada Social da Grécia amiga, levando em


consideração novas necessidades da Sociedade moderna, tal é o meio de sair
da abominável anarquia que nos desagrega e nos maca. E esse Estado Social
da velha Hélade, da Hélade de Orfeu, era a Sinarquia:

Em baixo: Conselho local dos Antigos, formando os cursos de pnmeira


insdncia; a República.
No meio: Conselho geral dos Iniciados laicos, conhecidos sob o nome de
Amphiccyons, formando a cone de apelação; os Sábios.
No onne: o Conselho de Deus que formava, no Templo de Apolo Délfico,
a cone de cassação; o Papa e seus acólitos, representando o mais alto grau
da Ciência imegral sobre o globo.

44 ---- -
OTARÔ
Estu do sumá rio dos 22 arcanos ma10res

Su"91 Vandeven

IV 0 IMPERADOR (Daleth)
"Eu sou a Pedra Angular" - disse o
Crisro.

Hierogliflcamenreo 4 simboliza o
ângulo do quadrado; a p arte venical,
por sua própria posição, indica o
1nov1menro.

O Daleth C"1l é uma letra dupla, como


Beth; é um binário, mas duplo, um
duplo esquadro de lados iguais, que Sé

pode represenrar ao mesmo tempo


pela Cruz e pelo Quadrado.

Esras indicações são o suflcienre para


dar uma idéia do papel construrivo
d es e m p enh a do pelo âng ulo reto nas
comhinações do simbolismo geométri­
co. Qualquer construção procede, de
farn. da associação dos dois contrários:
o positivo, energia, ação, força, e o
negativo, exrensão, inércia, resisrência.

O Construrnr é chamado a colocar em mo-nmenro o que é, por sua


narureza, im ó ve l , e é através do Esquadro (a Reridão) que o trabalho irá se
eferuar rigorosamenre para realizar uma construção perfeita.

Con1 o 4, o Imperador, encontramo-nos, p ort<into, f<ice a face com o


Construror, esse "Grande Arquitern do Universo" dos FF .·.MM: . . É o
Fogo Criador de wdas as coisas, a Luz que clareia, diz o Zohar, é o movi-

45
O TARÔ

mcnto em ação, é a cruz estática+ que gira para formar uma roda X, a Rota.

4, Princípio de Inreligência e de atividade fecunda, ordena o caos original


cirando de Poder no Ato o quaternário dos elementos.

O 4 é o quadrado perfeito (dois esquadros unidos, portanto dois binários),


imagem do Indivíduo realizando a perfeição de sua espécie, pelo fato de a har­
monia reinar entre o Espírico e a matéria (0. Wirth: Symbolisme hermétique),
harmonia que se desenvolve à medida em que se liberta dos vínculos da carne.

Esse 4 é, de certa maneira, uma sublimação, uma libertação, um estado per­


manente de União Divina. É, de fato, a Alma Divina em nós, simbolizada
pelo seio, o Coração. Já estudamos este quaternário a partir da descrição
única e eloqüente de Jacob Boehrne: o halo que forma a chama da vela acesa,
4 é pois, ao mesmo tempo, a Luz (hal o) e o Fogo (chama). Fogo Poder. =

Luz poder transferido pelo Fogo. Sem Fogo não há mais Luz. Luz, Fogo,
=

constituindo pane integrante do Todo (vela acesa= Luz-Fogo-Água-Terra).


Este halo está afastado e invisível para aqueles que não sabem ver - assim
é a Alma Divina, escondida em nosso Eu.

O Número 4 é, pois, o próprio Deus, fonte da Natureza. O 4 possui em si todos


os números ( 4 1 O), como o Cubo contém todas as formas: Tudo está no 4.
=

O Cubo é a Pedra Filosofal quadrada em todos os sentidos, é o Azoth ou "Fogo


dos Sábios". Nosso Imperador representa, portanro, o Adepto perfeito que
recebeu a vida do Cristo Supremo que, com a Inreligência (2), a Sabedoria
(3) e o Poder (4) de dar à luz e de retransmitir; é o Pai-Mãe unidos no
Androginato 2 + 2, 2 positivos + 2 negativos; é a transmissão entre uma ge­
ração e uma outra; é o grão de trigo em relação à espiga, que dará, por sua
ve7., ongcrn a uma espiga.

O Imperador reinando sobre os elementos é a Palavra de Deus é, diz a

Cabala, "o Deus das Portas de Luz".

Cot-isidcrcn,os nosso Da/,.t:h ((l :, lu7. do que vem de ser dito: sentado sobre
a Pedra Filosofal, assinalada por uma Águia aprisionada pela retidão cúbica,

4Ci ---
OTARÔ

signo do Poder Imperial, pernas em X de duas cores diferentes, indicando as


duas polaridades cruzadas, perna direita apoiando-se sobre a Pedra de Luz,
a ouua repousando sobre os elementos. O Vermelho (+) se une ao Azul
( - ) pelo cruzamento das pernas. Quanto ao ponto central Amarelo, ele assi­
nala que a união está realizada. O trabalho se efetua exatamente na Caridade
(Verde) (calças).

Voltamos a encontrar este binário na couraça, simbolizado pelo Sol e pela


Lua. Este globo verde encimado por uma cruz é a Alma, o Fogo Interior no
qual arde nosso Iniciado, esse Amor ardente, operador de todos os milagres,
essa Caridade vinda do Coração, pois podemos perceber que é a mão
es9uerda que o porta.

Quanto à mão direita, ela porta o Cetro, imagem do Poder total, poder do
alto, unido ao poder de baixo, triângulo em flor-de-lis, ideal de Bondade
reunido pelo Centro (.) ao Bastão, à Copa e à Espada. É o Espírito unido à
alma, é o Equilíbrio Perfeito.

Domínio total sobre os quatro elementos simbolizados, no alto da cimeira,


pelos quatro ornamentos das mangas e pelos oito da saia, e pela flor
desabrochada em seu duplo quaternário.

Sua cabeça está recoberta pela Sabedoria (amarelo), e pelo Amor (vermelho).
Toda a parte superior está protegida m:.>ta lâmina simbólica: a cabeça, o peito,
o pescoço, os ombros, o bulbo raquidiano, indicando por aí que o Iniciado
está "protegido" em toda parte e sempre, até que seu trabalho esteja concluí­
do, mas indicando também, por conseqüência, que há um trabalho a ser feito,
trabalho que consiste na Maestria total de nosso Eu. Observe-se as malhas da
cadeia, "vínculo que não se rompe e não poderia afrouxar", diz Oswald Wirrh.

Para concluir, evocaremos Louis-Claude de Saint-Martin, que definia as


estações do Homem em:

Homem da torrente,
• Homem de desejo,

o novo Homem,

o Homem Espírito

47
OTARÔ

arrai nossa arenção sobre esce crabalho alquímico i nte rior. que faz com que
a Fênix renasça perperuamenre de suas cinzas pelo poder de seu Pensamenro
e de sua Vonrade de Amor.

V. o PAPA
Deus disse: "Criemos o Homem :1
nossa Imagem e 3. nossa Sernclhanç1".

Consranr Chevillon escreveu o


segu1nre sobre o Qu ii1ário: "O
Ho 1n em é rambém, porranrn, um
Tern6.rio ab ra ça ndo o Quarern;írio ..
mas ele n ã o passa de um reflexo da
Essência Divina, ele não é senão o
subsriruco de Deus. Qualquer refl ex ã o
su põe um espelho. Qual é esse espe ­
lho' É a Matéria. (Atenção: não con­
fundir Ma t é r i a e Elementos, que são
quatro) e é por isto que o Número 5 é
o Número da Matéria".

"A Matéria não é o Ser (pensante);


ram bém não é a idéia do Ser, nem a
idéia do Não-Ser; ela é simplesmente a
expressão desta ultima. Ora, como a idéia
do Niio-Ser é uma negação, a Matéria é.
pois, urna n egação expressa. Em outras palavras. a Matéria (5) é uma pura
jàrma que não reveste nenhuma substância que não lhe seja própria."

No Homem, devemos reconstituir o Quinário. Temos cinco sentidos; pelos


cinco sentidos estamos em condição de provar as cinco propriedades da
matéria e de urilizá-las ao nosso bel prazer em rodos os domínios. O exem­
plo da mão: quatro dedos inábeis, que o 5°, o polegar, "comanda" e coor­
dena; ele quer, ele pode, ele ousa. Como e por que meios podemos utilizar
e.,scs dons divinos? Primeiro pela Vontade, segundo pelo Verbo, terceiro
pela Magia dos dois.

48
OTARÔ

Bem vemos que, considerado sob este ângulo, o 5 simboliza a Vida


Universal. Para que haja vida é necessário que haja Movimento, e isto em
rodos os domínios.

Enconrramos, portanto, neste qu1nano, nosso tema de hoje, a V ida, a


Atividade, o Movimento, eu diria da cabeça (que comanda os braços e as
pernas), portanto, por analogia, da Vontade. A Vontade é soberana; nada a
ela resiste, desde que seja inquebrantável. Sendo soberana, inquebrantável,
judiciosa e desinteressada, ela se integra perfeitamente neste Pentagrama
que é seu símbolo e magnífica expres:ão.

Jacob Boehme diz: "O Pentagrama é a Vontade retomada que deseja o livre
jogo de Deus".

A Estrela Flamejante brilha com a Luz combinada do Sol e da Lua, o que


quer dizer que a Inteligência e a Compreensão procedem tanto da Razão
quanto de Imaginação. É a quintessência (Fé + Ciência= Quintessência).

É por este 5 que o Homem se diferencia da Besta; é neste 5 que o Homem se


coloca na radiação divina e que recebe uma luz interior inextinguível, que
liberta definitivamente seu espírito.

Em hieróglifo o 5 é a respiração; é portanto pelo Desejo de amar que este


sopro dará nascimento ao amor universal, que iremos reencontrar na lâmi­
na 6 (5, aro de querer, G vontade formulada).

Papus diz: "O 5 é uma Letra Simples que corresponde astronomicamente ao


Carneiro". Eis aí, portanto, mais uma confirmação do que é esta Lâmina:
Vontade, Autoridade, Religião, Fé.

Enquanto não tivermos feiro individualmente, e no interior de nós mesmo,


a grande descoberta que consiste em encontrar aí a raiz profunda do Amor,
enquanto não virmos com os olhos bem abertos o caminho, enquanto nossa
Vontade indecisa não se fixar firmemente, enquanto nosso Desejo de vida
for individual e submetido às flutuações dos elementos, não seremos capazes
de Querer Amar, e menos ainda de Amar.

49
OTARÔ

Então, como um dos personagens da Lâmina, inclinamo-nos. as mãos jun­


tas, pois compreendemos a grande lição, e a aceitamos com humildade. Não
basta ter compreendido, como o personagem esquerdista, é necessário colo­
car em prática (direita).

As duas colunas representam a Imutável Tradição viva; é a V ida da Fé, da


Crença na Verdade. Estar sentado entre estas duas colunas é ser Crente,
Consentindo e Agindo. Crente no Amor, Consentindo no Amor, Agindo
pleno de Amor.

No início deste trabalho falamos de Formas. Para dar, é necessário ter, e é


então que nesta Lâmina 5, nossa Vontade deve estar inteiramente voltada
para este trabalho essencial. Preencher a Forma, a fim de que, revestidos da
Autoridade Papal, a Quimessência, possamos agir em nós e em todos (o
conteúdo da Forma, a Quintessência, domínio da quarta dimensão).

O Papa porta luvas brancas, suas mãos são livres de qualquer mácula, o que
é confirmado pelas cruzes azuis. Tudo é Amor e Fidelidade nos três Planos
simbolizados pela tiara de rrês coroas de ouro e pela cruz pomificai que lem­
bra a Árvore Sefirótica. Esta tripla cruz setenária harmônica, completa as
cores Azul e Púrpura, idealismo e espiritualidade, das quais o Papa está
revestido: é a Religião Esclarecida. A mão direita erguida, cujos dedos estão
dispostos esotericamente, tem o poder de benzer, porque o Papa, por sua
própria Vontade, recebeu a Autoridade de comandar, e a si mesmo e aos ele­
mentos. É por esta razão que ele é o mediador entre Deus e o Universo.

Saber Comandar é Saber Obedecer.

Obedeçamos, portanto, pois é através da humanidade que a Verdadeira


Religião prova ao mundo a própria divindade de Seu Princípio.

Erta matéria foi publicada originalmente em L:Initiation no N° 3 de 1969.

.50
FLAMMARION E O OCULTISMO
Jean-Christophe Faure

Este artigo foi publicado no jornal La Dépêche em 2 de julho de 1889'

propósito da recente evolução do Senhor


A Camille Flammarion - que após ter sido um
fervoroso adepto, hoje desaprova ruidosamente a i
doutrina espírita - o Dr. Papus, cujo nome 1
ocupa um lugar tão importante na teoria do
ocultismo, escreve a La Dépêche (O Despacho):

"Após vanos anos de estudo dos f.�nômenos


psíquicos, Camille Flammarion declarou que a
intervenção dos 'espíritos' era muito rara, senão
inreiramente estranha à reprodução desses fenô­
menos, e que omras explicações deles podiam
ser dadas, bem mais próximas
dos atuais dados da psicologia. Camille Flammarion - caricatura de jornal (1867)

"Flammarion apóia sua argumentação em vários elementos, dos quais citare­


mos apenas os principais. Ele observou, inicialmente, que as comunicações
obtidas não davam jamais qualquer ensinamento científico inédito que tenha
feito avançar a ciência positiva um passo sequer em mais de cinqüenta anos,
quando somos inundados de comunicações atribuídas aos desencarnados.
Assim, um espírito que se assinava Galileu havia-lhe afirmado que Júpiter
tinha apenas quatro satélites (o que se pensava à época da comunicação),
quando, como se soube depois, eles são cinco. Partindo de vários fatos desse
gênero, o ilustre astrônomo mostra que essas comunicações não passam, na
maioria dos casos. do reflexo da intelectualidade de alguns assistentes.

"Com esca declaração, Flammarion vem acrescentar o peso da sua autori­


dade científica às afirmações das escolas ditas 'Ocultistas', no tocante à
explicação dos fatos espíritas, salvo raras exceções.

1 Este artigo se encontra sob a forma de um recorte de jornal nos arquivos de Camille Flammarion,
Observatório de Juvisy.

51
FLAMMARION E O OCULTISMO

"De farn, ao lado das declarações sentimentais daqueles que vêem um


'Espírirn querido' em qualquer mesa cm movimento, alguns buscadores afir­
mavam que muiros desses fenômenos tinham uma origem mais relacionada
:t ciência corrente e que eles se deviam, seja à projeção fora do ser humano
de uma parre da força nervosa do sujeiw ou médium, seja à reflexão, através
do cérebro do dito médium, das idéias de cerras pessoas presentes. Os espíri­
tas ergueram-se decididamente contra essas teorias, imutáveis há longos
séculos. declarando-as excessivamente complicadas para serem exatas. Mas
os trabalhos e as experiências do Senhor tenente-coronel de Rochas sobre a
exteriori1.ação da sensibilidade vieram demonstrar o valor das teorias do
ocultismo, que a declaração de Flammarion vem reforçar.

"Os ocultistas, que são em sua maioria recrutados nas escolas de ciência ou
d<.: medicina, che gam assim, suavemente mas com segurança, ao coroamen­
to do s seus desejos, que eram os de ver os homens de valor se ocuparem, na
França. desses fenômenos psíquicos, para enfim recolocá-los nos da c iê n c ia
psicológica. Para chegar a este resultado, os defensores da antiga ciência ocul­
ta n:í.o pouparam tempo nem sofrimenw e organizaram sua propaganda, seu
ensinamento e seu recrutamenw sobre bases muirn severas , nas quais o
exame p rest ad o pelo esrudante, em wdos os graus da hierarquia, desempenha
o principal papel.

"Não é basranre curioso ver, no fim do século XIX, serem organizadas em


Paris esco as l de ocultismo, como acontecera outrora em Alexandria, quan­
do do nascimento do cristianismo?

"Camille Flammarion nos permite, por sua declaração, perceber um curioso


capíwlo desse livro que poderia ser intitulado O que se pode aprender em
Paris, e do qual desracaríamos algumas páginas para nossos leitores".
Papus

AZç;umas palavras sobre Camille Flammarion


Este artigo. certamente: po u co conhecido dos nossos leitores, coloca em
evidência dois Jos ho111e11s mais célebres dessa época que se dizia bela, cada
um em seus respectivos domínios; dois h o m e ns de f·(>rmação cienrífica que
uniam :i b usc a do co n h e cim e n rn , mesmo que ao preço de um cerco

52 ---
FLAMMARION E O OCULTISMO

descrédito junto ao grande público, e daqueles que modelaram a infor-


maçáo. Camille Flammarion -
este grande sábio tão freqüente­
mente inspirado, aproximou-se
da Sociedade dos Estudos
Espíritas da França, fundada em
1° de abril de 1858 por Allan
Kardec2 e foi um de seus
pr1rne1ros membros, como
de1nonsua sua carteira de mem­
bro, onde figura a data de 15 de
novembro de 1861'. Mas o autor
da Astronomie populaire (Astro­
nomia popular) não era homem
desprovido de discernimento e os escritos críticos que publicou nem sempre
agrad�uam todos os espíritas. Em 1899, quando eclodiu o "caso
Flamrnarion", este último forneceu um esclarecimento nos jornais:

"Senhor Diretor,

"Foi com bastante inspiração que a mitologia colocou a verdade no fundo


de um poço.

"Acabo de receber com o Éclair cerca de duzentos jornais franceses e estran­


geiros argüindo-me de maneiras bem diferentes. Uns declaram que numa
r11idosa ca r ta separou-me com estardalhaço dos espíritas, que os trato de pa­
lhaços e de alucinados. Os outros concordam comigo sobre esta determi­
nação e se espantam que um astrônomo que muito trabalhou tenha podido
ocupar-se, mesmo que por um instante, dessas bobagens. Muitos celebram
minha humildade, minha coragem, meu desinteresse. Uma carta publicada
ontem em vosso estimado jornal declara, ao contrário, que minha abjuração
tem por objetivo trazer-me cargos oficiais e honrarias, etc., etc.

2 Jacques Lantier, Le Spiristime ou /'aventure d'une croyance (O Espiritismo ou a aventura de uma


crença), Paris, C.A.L., 1971, pág. 95.

3 Como tivemos a oportunidade de constatar, graças à boa vontade do administrador do Observatório


ele Juvisy

53
FLAMMARION E O OCULTISMO

"Om, não escrevi nenhuma carta; não me separei de ninguém. Continuo a


estudar com independência e lealdade problemas que sempre me interes­
saram. e a obra que preparo sobre estas questões bem complexas, cientifica­
mente analisadas, e da qual alguns fragn-.entos foram publicados nos Anais,
não será concluída antes de vários meses. Não se poderia ter esperado a pu­
blicaç ão deste livro antes de me interpretar e de imaginar tantas invenções
mais ou menos ridículas?

"Dou, pois, un-1 desmentido formal a tudo o que escreveram acima.

"Queira aceirar, por favor, senhor diretor, a expressão de meus mais s1m­
páocos sen ttmentos".
Camille Flammarion
Observatório de Juvisy, 8 de julho de 18994

O que Pap�s fez, assumindo a defesa de seu companheiro marrinista, foi


fazer justiça à Verdade. Camille Flammarion, a respeito de quem uma
biografia em forma de mistério revelado foi escrita em 19965 (cuja tese cen­
tral não compartilhamos), foi um ocultista discreto , com múltiplos contatos
espíritas, marrinistas, alquímicos, etc., como demonstra o autor. Os arquivos
pessoais do astrônomo foram conservados e classificados em um prédio de
propriedade do Observatório de Juvisy e foi com grande interesse que bus­
camos alguns traços "ocultos" nas canas por ele recebidas e em seus livros.
Infelizmente parece-nos que toda essa matéria volatilizou-se, o que nos con­
firmou mais tarde o zelador do Observatório. "A senhora Flammarion
desembaraçou-se, após a morre do senhor Flammarion, de maneira definiti­
va, de uma grande quantidade de revista,; e de canas dirigidas ao seu mari­
do". Encontra-se assim guardado, por aquela que preparava bolos em forma
de estrela para os convidados, o segredo daquele que viveu sob o signo da
Estrela, em sua morada filosofal, cujo frontão, com a inscrição "AUM", aler­
ta o buscador: aqui, a Pedra é filosofal.

4 M Flammarion et les spirites (0 Sr. Flammario n e os espíritas}. recorte de jornal encontrado nos
arquivos de Camille Flammarion situados no Observatório de Juvisy.
5 Frédéric Courjeaud. Fu/canelll'. une fdentfte revélee (fulcanelli. uma Identidade revelada}. Paris.
1996. Claire Vigne.

54
FLAMMARION E O OCULTISMO

Cento e dois anos mais tarde, quis o céu que os buscadores tivessem tanto dis­
cernimento quando seu ilustre predecessor. Se o espiritismo encontra-se em
baixa muito sensível, pelo menos na França, a mentira e o engano voltaram um
quarto de século depois, revestidos de uma nova máscara, armada de uma luz
tenebrosa, espécie de saco sem fundo inominável, que é, ainda assim, chama­
do de "New Age". No entanto, o canal possui uma vantagem cerra sobre o
espiritismo: permite aos seus adeptos e,-:onomizar uma mesa! Da grande maio­
ria dos escritos pseudo-espirituais, apenas alguns títulos nos parecem dignos de
.interesse, como por exemplo os de Jane Roberrs, transmitindo ensinamentos
emanados de uma entidade denominada "Seth". Papus, Flammarion e seus
correligionários ficariam certamente aterrorizados de ver o público sendo
enganado por esse gênero de literatura (e de estágios pagos... e caros!).

Àqueles que buscam uma doutrina séria, escorada num estudo intelectual pro­
fundo, e desejosos de colocar em prática estes elementos, só podemos aconselhá­
los a consultar Ordre Martiniste, Programme de travai/ (Ordem Martinista, Pro­
grama de trabalho), publicado por Ignifer no número 4 de 1968 de L1nitiatiorf.

Àqueles que duvidarem ser o estudo intelectual fundamental para empreen­


der um trabalho espiritual, eis aqui as palavras que escreveu um célebre
alquimista do século XIX:

"Ao Senhor Camille Flammarion, o ilustre Astrônomo e Pensador, graças a


quem a Humanidade atual saiu das trevas e conhece a Pluralidade dos
Mundos - a Via Estelar.
"Ao meu primeiro Mestre intelectual.
"A reconhecida homenagem da mais respeitosa admiração.
"Jollivet-Castellot, Dezembro de 19007"

Esta matéria foi publicada originalmente em l:Initiation no número 3 de 2001.

6 O autor, naturalmente, refere-se à edição francesa da revista. (N. do T.)


7 Dedicatório de Jollivet-CastS1llot na página de rosto do exemplar pessoal de C. Flammarion Les
Sciences maudites (As Ciências malditas), 1900. Biblioteca de C. Flammarion, Observatório de Juvlsy.

55
AS COMUNIDADES DE LUZ
:Jean Tourniac
s corrences espiriruais origi11:.írias do rnarrinesisrno e do martinismo
A aprcsenram uma csrrurura ao mesmo cernpo clo11trinal - pela con­
junção do Ti<7tado da Rcintegraçfio e da obra dê Louis-Claude de Saint­
M:ircin - e ritual quanto aos cmpré.scirnos fciros aos "Elus Cohen", a Saint­
M:inin e aos elementos maçônico-cristáos pescados nessas duas fonres.

Deve-se. naturalmente, admitir que hoi..:ve, a partir de Papus, uma transFe­


rência do enquadramento maçônico ao enquadramento dito "martinista",
em benefício ao mesmo tempo de uma invisibilidade orgânica, de uma aber­
rura ao aporte feminino e de uma criscianização muirn característica da ini­
ciação marrinista. De faro esta simbiose d:í. ao martinismo um porte de eso­
terisrno cristão, onde se encontram, numa dosagem específica, a ascendên­
cia e s pi ri t ua l do "Filósofo Desconhecido" e a herança de Papus e de seus
sucessores.

Mas há um ponto particular que merece nossa atenção: saber o lugar que
ocupa nesra inciação a noção de "luz" e a de "comunidade luminosa".

A cinécica luminosa ou colorida já ocupava um papel importante nas "ope­


rações" de Martinez, mas o uso da Luz, a referência à sua função de "guia"
do s eleitos - que ela simboliza e arualiz.a manifestando a presença dos
"n1estres passados"- fazem dela o pivô ritual da perspectiva martinisra.
Nesta via ela constitui a garantia da influência espiritual tutelar, e preenche
a função de "tescesmunha" do iniciado em busca do caminho, até aquele
instanre eterno em que o eleito é reabsorvido na luz divina e celeste, a de seu
Gêmeo míscico, de seu anjo...

Assim. não é surpreendente ler-se em Ecce homo que: "Deus e o homem


podem conhecer-se na luz". A afirmação supõe uma unidade luminosa entre
Deus o homem, assim como um carárer luminoso próprio ao órgão interi­
or de visão divina no homem. O olho do coração é assim capaz de receber
e de ver es ra luz ünica e transfigurante, e poder-se-ia dizer - após outros -

que Deus vê-se a si próprio na visão do eleito.

5(i
AS COMUNIDADES DE LUZ

Tudo isto não deixa de lembrar, curiosamente, as identidades luminosas da


"Farbenlehre" de Goethe, que insistia sobre a natureza solar do olho, como
também tais comentários da Gnose e da Pistis Sophia concernentes ao
"homem de luz em nós".

Outras comparações deveriam ser tentadas com as descrições do sufismo xiita


- de vocação iniciática - assim como as do Najim Kobrâ, que assimilam o
"buscado" à luz divina e o "buscador" a uma parcela desta mesma luz em
busca da reintegração. Abandonar o invólucro tenebroso que o impressiona
consiste, para o discípulo das linhagens xiitas precipitadas, em liberar a
parccb de luz encerrada em seu ser. l'v'ais adiante voltaremos a este ponto.

Precisemos agora que, para Louis-Claude de Saint-Martin, a luz celeste


constitui, de fato, a substância do "círculo divino". Ele se explica assim: "Por
que teríamos nós sido desprendidos deste círculo da imensidade divina na
q ualidade de signos ou de testemunhas, senão para repetir nas regiões onde
a Sabedoria nos enviava, o que se passava no círculo divino".

A tarefa do iniciado é, desde então, receber a Luz "que as trevas não com­
preenderam", segundo a expressão evangélica e, dir-nos-á Saint-Martin, de
dissolver "esse princípio das trevas inumeráveis, multidões de combinações
diferentes que tendem todas a obscurecer a simplicidade da luz". É somente
assim que a luz pode "brilhar nas trevas" e "ordenar o caos", para retomar
agora uma expressão maçônica bem conhecida.

A finalidade espiritual da tradição judaico-cristã, à qual se referem de maneira


co mp l ementar Martinez e Saint-Martin, concretiza-se na obtenção do corpo
de ressurreição, corpo glorioso da reintegração. Trata-se aqui do corpo lumi­
noso da "caro spirtitualis christl' e não do corpo denso somático destinado à
dissolução. Saint-Martin citará, a esse propósito, o apóstolo dos Gentios: "A
carne e o sangue não saberiam herdar o reino de Deus". "O estado primitivo",
sempre na perspectiva de Saint-Martin, é o do homem "revestido de todo o
esplendor de sua luz". O corpo glorioso é um corpo de luz.

Será preciso, sem dúvida, precisar que o enfrentamento da sombra e da luz


só se situa verdadeiramente no plano "horizontal", ou seja, na alternância e

57
AS COMUNIDADES DE LUZ

na dialérica de oposições de mesma naturerza inrrínseca e de mesma carga


intencional. É aqui, de fato, o lugar do relativo, do convencional e do dis­
cursivo. O limire do branco define o do negro, como a Lei - cujo funda­
menro e a conringente reflexão da Ordem cosmológica ninguém poderia
conresrar - define a ilegalidade ou o pecado.

A luz com que sonhamos é, portanto, de uma outra natureza. Ela é um


Princípio único, um P ólo sem bipolaridade. Ela é vertical ou solsticial: é o
Orieme da Luz que dissolve toda a treva e dá existência à Luz horizontal. As
anrigas rradiçóes atribuíram-lhe a esração simbólica da Estrela Polar, do P ólo
fixo em torno do qual se move o mundo estelar e graviram as estrelas. Nesse
ponro úlrimo desaparecem, por necessidade metafísica, as dicotomias e tudo
o que faz ilusoriamente antítese ao Ser.

Ora, esta luz polar é, por comparação com a do Orieme geográfico, uma
Treva superior, uma Noire mais clara que o dia. Sempre do ponto de vista
rnerafísico, ela é a Toda Possibilidade primordial que contém o ser "antes"
mesmo de sua manifestação e ro do o "não sendo".

É dentro de sra nuvem que se desenrolam as noites sanras, e no entanto


luminosas, a da Encarnação, a da Ressurreição.. .

Mas esra expressão "Nuvem" evoca também - e para retomar o fio de nosso
artigo - uma ourra grande figura da época de Saim-Martin, tanto em razão
do paralelismo da inspiração quanro em razão do período histórico que lhe
serve de quadro. Queremos falar de Eckhartshausen, cujas "Amitiés
Spiriruelles" (Amizades Espirituais) acabam de reeditar a Nuée sur !e
Sanctuaire (Nuvem sobre o Santuário)

NJ. apresentação desra reedição Marcel Renébon revela que sem haverem
combinado e numa época em que vacilavam tronos e altares, três homens se
referem à mesma comunidade de espírito: Louis-Claude de Saint-Martin na
França. Eckhartshausen na Alemanha, Lopukhin na Rússia; e poderíamos
acr e scentar Boehme a esse trio.

Lembremos a idéia fundamental de Eckhanshausen: "O homem decaiu

ss.
AS COMUNIDADES DE LUZ

porque ele habita uma zona intermediária entre a luz e a sombra, zona dese­
jada pelo Céu". O tema é quase o mesmo que o exposto por Saint-Martin,
mas e curioso ver a que ponto esta consideração se aparenta a certas
descrições simbólicas próprias das comunidades tradicionais da Ásia Menor,
resultando das misturas étnicas e religiosas entre descendentes do antigo
masdeísmo, nestorianos cristãos e xiitas muçulmanos. É importante assi­
nalar-se o fato, mesmo que não seja ainda a hora de falar-se dele.

Ressaltemos porém, no momento, que várias passagens da Nuvem sobre o


Santuário, que acreditamos dever reproduzir adiante, fazem eco a esta teoria
iniciática da luz e são alusivas a esta comunidade eletiva, consciente do
caráter universal e central do esoterismo, e para a qual "esta possessão atual
de Deus, de Jesus Cristo em nós, é o centro para o qual convergem todos os
miscérios como os raios de um círculo".

O homem interior de Eckhartshausen, como o homem de luz do sufismo


irano-ismaelita, "vê nas trevas" porque "a luz clareia seu olho interior" e "a
verdade que está no cerne mais profur;do dos mistérios é semelhante ao sol;
é permitido somente ao olho de uma águia - à alma do homem capaz de
receber a luz - olhá-lo. A vista de qualquer outro mortal é ofuscada e a
escuridão o cerca na própria luz".

Compreende-se que esta luz deificante seja a prodigalizada pelo Verbo Divino,
e Eck.hartshausen assegura-nos que: "Deus fez-se homem para divinizar o
homem". Esca luz é, no entanto, mais intensamente recebida pela "Sociedade
dos eleitos", "comunidade daqueles que têm maior receptividade pela luz".

Dever-se-ia imaginar, a esse respeito, a existência de uma hierarquia como


existe em todas as organizações ou fraternidades iniciáticas? Todas as evidên­
cias levam a isto, pelo menos no que concerne um certo estado de ser e de
realização, porque o terceiro grau descrito por Eckhartshausen é caracteriza­
do pela "abertura do sensorium interior pelo qual o homem interior chega à
visão objetiva das verdades metafísicas", verdadeiro ponto focal de uma ótica
tradicional para a qual "a fé se resolve em visão clara".

Naturalmente Eckartshausen e Saint-Martin concebiam, ambos, a via assim

59
AS COMUNIDADES DE LUZ

rraçada em rerrnos especificarnenre cnstaos, o que é inreiramente lógico e


coeren r e . já que são, um e outro, autenticamente cristãos. Mas a certeza do
carárcr cenrral do esoterismo permanece presente em sua obra, e culminan­
do como resremunham as passagens seguintes:
•cm Echkarrshausen: "Esra verdadeira comunidade da luz só pode
ser una ... os inúmeros raios de um círculo reunindo-se num único centro".
• em Saint-Manin: " ... por fim, é aqui que se fazem as primeiras
aplicaç(Jes do verdadeiro senrido da palavra iniciar que, em sua etimologia,
quer dizer reaproximar, unir ao princípio; a palavra initium significando
r an co o prillcípio quanto o começo. E, a partir daí, nada mais conforme a
rodas as verdades anteriormente expostas, que o uso das iniciações em todos
os povos; nada mais análogo à sirnação e à esperança do homem que a fonre
de onde descendem essas iniciações e que o objetivo que elas tiveram que se
propor em roda pane, que é o de anular a distância que se encontra entre a
luz e o homem ou de reaproximá-lo de seu Princípio, restabelecendo-o no
m es m o e s p l endor onde se encontrava no Co1neço ... " .

Fica-se su rp reso com a nitidez destas descrições, neste século de grandes per­
rurbaçôcs no seio da religião cristã e da maçonaria especulariva, século que
é ao mesmo rempo o de Saint-Martin, Joseph de Maistre, Willermoz,
Marri nez e outros ... Será necessário espc rar o século XX para ver exprinür­
se. de uma maneira excepcional pela elevação e a amplidão, a doutrina tradi­
cional completa. metafísica e cosmológica, com rodos os seus aspectos rela­
ti vo s �t iniciação e ao esoterismo, na obra de René Guénon. Se às vezes se
pôde considerá-la corno o "testamento do Oriente declinante" - da mesma
forma que a obra de Dance podia ser definida como o testamento da Idade
i\1édia em seu declínio - deve-se acrescentar ainda precisamente que um
vínculo de ordem espiritual, observando uma genérica parricular, une ao
acaso e arravés de uma compreensão da iniciação e da gnose ortodoxa, o
Ori en te e: o Ocidente, como o pass ado ao presente.

Os au t o re s que acaban1os de cirar pertencen1 as.si1n, ao n1eno.� por "algo" de


si mesmos. a uma mesma veia conceituai. Se: sua obra e sua função são de
valor desigual em i m po rt â n cia , permanece que a doutri na que eles expõem
ap re se n t a muitos pontos comuns: incomunicabilidade da reali?.ação interi­
or. necessidade da iniciação, car:írer is()[dipico da Verdade, papel pri mordi al

GO -----
AS COMUNIDADES DE LUZ

da Luz única em seu centro, busca da via e da comunidade detentora da


influência espirirual necessária à reafoação do ser.

Três passagens do Evangelho vêm então à memória:


"Eu sou a V ida, o caminho e a Verdade"
"O reino de Deus está em nós"
e finalmente:
"A luz brilha nas trevas e as trevas não a compreenderam"

Talvez as linhas precedentes permitam traçar os contornos desta "igreja inte­


rior". para retomar a terminologia de Eckhartshausen, que é forçosamente a
mesma em todas as tradições porque ela constitui seu centro; centro
secundário de um centro original e primordial único.

Aind:1 voltaremos às definições de Eckhartshausen. Essa comunidade


luminosa do sol divino parece-lhe dispersa no mundo, mas governada pela
verdade e pelo Espírito. Ela é, prossegue, "A Sociedade dos eleitos que
c o n he cem a luz nas trevas e a separa no que ela tem de próprio", alquimia
que S;io João retratou no prólogo de seu Evangelho. Esta sociedade bene­
ficia-se de uma transmissão ininterrupta da qual um dos traços essenciais
parece residir nas teofanias luminosas das Escriruras peculiares às diversas
rradições do Oriente e do Ocidente. Somos advertidos disto nesses ter­
mos: "A comunidade interior e luminosa do Senhor, a sociedade dos
eleiros. propagou-se sem interrupção desde o primeiro dia da criação até
hoje; seus membros, é verdade, encontram-se dispersos no mundo, mas
sempre estiveram unidos por um espírito e uma verdade que sempre tive­
ram um único conhecimento, fonte de verdade, que um Senhor, que um
doutor e que um mestre em quem reside substancialmente a plenitude de
Deus e que os iniciou, somente ele, nos mistérios elevados da natureza e
do mundo espiritual".

O que é assim veiculado pela cadeia de transmissão, é o ensinamento dos


mistérios de ordem esotérica, pois se trata do "ensinamento que foi co­
nhecido nos primeiros tempos do cristianismo sob o nome de 'disciplina
arcana', ensinamento que se àirige ao sentido interior do homem: o sentido
do mundo metafísico".

61
AS COMUNIDADES DE LUZ

Ora. esse ensinamento visando ao esoterismo dirige-se apenas a uma comu­


nidade interna, cada vez mais restrita, em função do caminhar do ciclo e da
invasão das trevas "profanas" que tocam todas as mentalidades, fossem elas
informadas pela religião, trevas que não podem "compreender" a luz central
da d outr i n a. E assim se dá desde o início da " idade sombria", aos únicos que
sejam historicamente conhecidos como avaliação "temporal".

Escuremos Eckhartshausen: "todo o tempo exterior tinha por base um inte­


rior. do q u al o exterior era apenas a expressão... Em todo tempo houve uma
assembléia interior, a sociedade dos eleitos, daqueles que tinham maior
a p t idã o para buscar e receber a luz, e esta sociedade interior era chamada o
santuário interior ou a igreja interior".

Encontrar-se-iam facilmente nas obras de Saint-Martin perspectivas análo­


gas. Assi m , no Quadro Natural: "Entre as mais célebres instituições sábias e
religiosas. não existe nenhuma que não tenha coberto a Ciência com o véu
dos mistérios ... e vemos pelos amigos ritos cristãos, pela carta de Inocêncio
I ao bis po Decenrius e pelos escritos de Basílio da Cesaréia, que o cristian­
ismo possui coisas de grande fo rça e de grande peso que não são e nunca
foram escriras ... Tanto que estas coisas que não se poderia jamais escrever
foram conhecidas apenas por aqueles que deviam ser seus depositários, o
cristianismo gozou de paz". Mas quando no rastro de uma certa "exoteriza­
ção" do cristianismo no império romano, a religião foi estatizada, e quando
"as p e ssoas se vira1n assim no caso de admitir sem exame todos os que se
apresentavam, nasceram as incertezas, as doutrinas opostas, as heresias. O
obscurantismo tornou-se quase universal sobre todos os objetos da Doutrina
e do Culto, porque as mais sublimes verdades do Cristianismo só podiam
ser bem conhecidas por um pequeno nú :nero de fiéis, e que os que só fazi­
am enrretê-los estavam expostos a interpretações falsas e contraditórias.

"Foi o que acomeceu sob Constantino, alcunhado "o Grande". Tão logo adorou
o cristinnisn10 con1c<j'<-iram os Condlios gerais, e esse tempo pode ser considerado

como a primeira época da decadência das virtudes e das luzes entre os cristãos".

E Saint-Martin, analisando em seguida as conseqüências desta decadência:


al t er ação da verdadeira ciência (conhecimento, diríamos) que ele faz justa-

62
AS COMUNIDADES DE LUZ

mence coincidir com a perda do simbolismo, porque essa verdadeira ciência


rem "uma linguagem que lhe é particular, e que ela só pode se exprimir com
evidência por seus próprios carac teres e por emblemas inefáveis"; recusa dos
de re n rores da chave desta ciência, "centro de unidade", de servir-se dela em
benefício próprio e de apresentá-la "àqueles que queriam entrar no
Santuário de medo que não se apercebessem de sua ignorância ... e eles
defendiam buscar conhecer os mistérios do Reino de Deus ainda que,
segundo as próprias Tradições, o Reino de Deus es teja no co ração do homem... "

Sem alongar esta citação baseante comprida de Saint-Martin, consideramos


que ela já ilustra bem o notável acordo de pensamento sobre o ponto do eso­
terismo e da transmissão deste último entre os homens de quem colhemos
o testemunho. Referindo-se a esta "grande obra", Saint-Martin nos diria,
por exemplo, que ela exige a alimentação de "nosso centro intelectual" por
intermédio de "nossos canais intelectuais", e isto a partir do Princípio supe­
rior que "estava no começo".

Nenhuma dúvida quanto a ser a Luz - que a partir de então servirá de guia
e de órgão da visão do coração a comunidades de eleitos - a primeira ma­
nifestação do Princípio assim colocac1o. Saint-Martin também concluirá o
capítulo XX do Quadro Natural com esta observação: "E aí está esta bri­
lhante luz que o homem pode fazer brilhar em si mesmo, porque ela é a
palavra de rodos os enigmas, a chave de todas as religiões e a explicação de
rodos os mistérios ... .
"

Poderíamos acrescentar que o penúltimo capítulo dos Aperçus sur L'initiation


(Apanhadm sob1·e a iniciação) de René Guénon é intitulado "Verbum, Lux et Vira".

Estamos a partir de agora prontos para analisar mais completamente, ainda


que de uma maneira muito sumária, certas analogias apresentadas pela teo­
ria da Luz em Martinez, Saint-Martin e Eckhartshausen, por um lado, com
as doutrinas do sufismo iraniano, por outro.

Talvez alguns se surpreendam de procedermos a tais comparações entre conjuntos


- no sentido matemático do termo - tão dessemelhantes, do fato do distancia­
mento geográfico, da diferença religiosa e da diversidade das épocas consideradas.

63
AS COMUNIDADES DE LUZ

a realidade para qualquer um que admira a presença de clemenrns tradi­


c i ona is ligados ao esorerismo na perspecriva do pequeno grupo ocidental
que nos serve de r e fer ênci a, as comparaçües cm qucsrlo nada rêm de ilógi­
co. Ao conrd.rio. el as só fazem confirmar a universalidade e a unicidade
punriforme d es s e csorerismo. /\km do que cncnnrrar-se-ia focilmcnre uma
t:xplicação d esse ripo no próprio rcxrn dos riruais marr1nistas.

H::í.. alé1T1 do m a i s . ourros exemplos de um ral parentesco enrre o Oriente e o


Ocidente. no que range aos conceiros rradicionais, parenresco que se rraduz
às vezes por uma terminologia comum. Tomaremos, proposiralmente, dois
exemplos caracrerísricos, pois um concerne a lvfarrincz e o outro a Saint­
Manin. Assim, na Tradição do Exrremo Oriente, aquele que passa "da cir­
cunferência ao Centro" encontra-se no eixo da roda cósmica, ali onde se
exerce a a t iv i da de não ativa do céu e onde cessam necessariamente as vicissi­
tudes dest::i. roda cósmica (o que o rirual de mestre maçom, nos ingleses, des­
igna pelo "cemro onde o mestre não pode errar"). Ora, esta estação é, para a
r ra diç ã o em questão, a do "Homem Verdadeiro" ... mas o termo é retomado
rnuiro exaramente por Martinez de Pasqually, e se aplica então àquele que
:iringe o nhjetivo definido pela doutrina da reintegração, a restauração do
estado primordial. Esta similitude de expressão não havia escapado a René
Guénon, que escrevia no capítulo IX "O Filho do Céu e da Terra", de seu
livro A Grande Ti-íade, as seguintes linhas:" ... é pelo menos curioso ver no
Ocidente e no século XVIII, Marrinez de Pasqually reivindicar para si
próprio a qualidade de 'homem verdadeiro'; seja com ou sem razão, pode-se
sempre perguntar como ele teve conhecimento desse termo especificamente
[aoísta que, além do mais, parece ser o único que ele jamais empregou".

Mas se o " h o m em verdadeiro" é a medida de todas as coisas neste mundo, o


"hmncm Universal' no enlaçamento dos dois triângulos eqüiláteros do selo
de Salomão (incorporado no pent;ículo marrinista) une o Céu e a Terra, a
narun.:za divina e a natureza humana. Representado com a cruz no interior
do cír cul o, o selo de Salomão representa a integralidade da manifestação.
Este símbolo do homem universal é conhecido das Tradições judaica e
muçulmana, mas o próprio termo é urilizado no Isla e no Oriente. Ora, a

icléi:i é suhjacente em Saint-Martin. Citemos ainda René Guénon no capí­


rul o XX!Il, "A Roda Cósmica", de A Grande Tríade. "Sobre esta mesma figu-

64
AS COMUNIDADES DE LUZ

r:iexplicada pelas equivalências numéricas de seus elementos, ver também o


Tableau naturel des rapports que existent entre Dieu, l'Homme et L'Univers
(Quadro natural das relações existentes entre Deus, o Homem e o Universo)
(capículo XVII) de Louis-Claude de Saint-Martin. Designa-se habitual­
meme esta obra sob o título abreviado de Tableau Naturel (Quadro Natural),

mas damos aqui o título completo para destacar que a palavra Universo,
sendo ali tomada no sentido de "natureza" em geral, contém a menção
explícita do ternário "Deus, Homem, Natureza".

Feiras estas reflexões, retornemos ao tema de nosso estudo sobre o papel


arribuído à Luz no esoterismo ocidental do século XVIII e no sufismo xiita.

No seio desta via, a do Islã imamista, que parece haver recebido o legado de
tradições anteriores - platonismo pitagoriciano, masdeísmo dos Reis
M:igos, gnose judaico-cristã - ainda presente nas comunidades nestorianas
e m:indeanas do século VI ao século VIII, existe um verdadeiro apelo à Luz
e à iluminação do coração.

O brilho do "Sol da Meia-noite'', quando são superados os afrontamentos


"horizontais" (as alternâncias "exoterisantes", "sectarisantes" de sombra e de
luz), revela ao iniciado sua imagem de luz, sua forma divina. É o Gêmeo
celeste ou místico que irá permitir a ascensão do iniciado rumo à Terra lúci­
da, terra de Hurqulyâ que, numa coincidência dos cinetismos, desce ao seu
encontro. Sob um certo ponto de vista, estas bodas do Céu e da Terra, ao
nível do eleito, guardam relação com "l. quadratura do círculo e com a iden­
tificação da Jerusalém celeste circular e do Paraíso Terrestre quadrangular no
plano de cosmologia sagrada.

A descoberta do Anjo da luz, "entidade" celeste e natureza perfeita do eleito,


pertence ao "conhecimento oriental" para estas linhas ismaelianas cujas
doutrinas foram, como se sabe, objeto de trabalhos de excepcional quali­
dade por parte do Henri Corbin e Osman Yahia.

Record:ar-se-á que esse esoterismo estava próximo, pela localização étnica e


pelas apresentações do simbolismo - aquele em uso entre os nestorianos da
Asia Menor, eles próprios em relação cotn seus correligionários da Ásia

65
AS COMUNIDADES DE LUZ

Ce ntral e da Mongólia na época que precedeu as c ru zadas. Mas, precisa­


mente nesras paragens, as comunidades nestorianas eram cambérn.
chamadas, de maneira baseante significativa, a "igreja luminosa'" ...

Encontramos, pois, aqui, esca qualificação luminosa da sociedade dos eleitos


que rerrata a "Nuvem sobre o santuário" de Eck.hartshausen, luminosidade
que não parece estranha nem aos trabalhos e operações de Martinez, nem ao
pensamenw de Saint-Martin e aflora nos rituais elaborados pelos martinistas.

Por outro lado, o nestorianismo é um dos ramos mais antigos do cristianis­


mo. Se aconteceu de ter mantido mais de um contato com o Islã nascente e
com o lsl5 xiita no decorrer dos séculos, ele é subjacente ao cristianismo de
língua siríaca presente no Chipre no m ome nt o do magistério templário na
ilha. e por aí calvez ele tenha exercido sua influência até os Fiéis do Amor e
nas Cones de Amor medievais.. .

Não é sugestivo que se possa encomrar na família es p iritual d;L� Ishrâqiyün


platônicas - os do Shaykh Shahid Shibâhddin Yahyia Sohrawarcli, e os dos
Ru?.behân - obras com tí rnlos e exp ressões evocativos para os ouvidos ociden­
tais como: Fidele d'Amore, "Jasmim dos Fiéis do Amor", "Amigos de Deus", etc.?

Na verdade, na outra extremidade desta cadeia, no Ocidente, a "luz oriental"


na qual Aroux farejava a heresia, aparcced sob a forma do guia celeste em
Dante e seus Fiéis do Amor, herdeiros e descend e nt es dos Templários. A Luz
rerira aqui o "Sarx" de Beatriz e de Lúcia; I3eatitu de e Luz, duas palavras sufi­
c icnternente prec i sas para que não poss.1mos nos enganar guanrn à missão
d,1quebs que a revestem. A Luz realizadora se personalizará, para o florenti­
no ,_. em relação ao seu estado humano, nos traços femininos da "Senhora";
:b ; ··:·:1·.· ,-: no s i m b o lismo da rosa. Por um crescimento progressivo apagando
:1:; . ,. ··. :.: ,... ir:'. ;cermicir-!he atingir sua própria forma luminosa na Virgem,
espelho de _;us[iça rci1u:indo o Sol de Justiça, fonte da Luz eterna.

Sem d ú v i d a haveria ainda muito a ser dito sobre esses diferentes pontos de

1 Terc111u,; " ucasii'lo de voltar a esses pontos orn uma obra consagrada às relações entre o ma­

gistério Templário cipriota e as comunidades cristiis orientais.

(j(j
AS COMUN!DADES DE LUZ

acordo entre o Oriente e o Ocidente a propósito das comunidades da luz.

Poder-se-ia observar, por exemplo, que no esoterismo islâmico o sentido inte­


rior d a Escritura, o "Sangue" da revelação e da doutrina é chamado o "Bâtin":
o vcmre, enquanto que o Anjo da iniciação, que preside a ascensão rumo ao
pólo luminoso no xiismo, é o Anjo Gabriel. A Luz, sendo ela própria o
Cristo. "Luz nascida da Luz", vê-se que enriquecedora transposição poderia
ser extraída das explicações precedentes, por ocasião de uma meditação
"esotérica" da saudação Angélica, o anúncio do Anjo, o "fruto" do "Ventre"
ou da arca da Escritura, da receptividade do espelho virginal , etc ...

Não é o Espírito Santo também o Raio luminoso, dom septiforme da Luz?


Os mistérios e acontecimentos do Evangelho - caro ao Filósofo
Desconhecido e, conseqüentemente ao Martinismo - não são alusivos ao
que a liturgia romana antiga descrevia como o "clarão da verdadeira luz na
santíssima noite da natividade'', "a noite que resplandece para a ressurreição
pascal'', "a noite bem-aventurada em que o Céu se liga à terra e ilumina
como o dia? Enfim, o discípulo que Jesus amava não é também chamado,
por esta liturgia, a "Luz da doutrina"?

Tais são as luminosas Trevas superiores - ou polares - do Cristianismo.


Tal é o seu Oriente.

Talvez sejamos perdoados por havermos restringido nosso campo de inves­


tigação exterior ao Cristianismo, e apenas ao sufismo iraniano. É que não
pod í a mos estender muito o texto deste estudo, e por ser este ramo do Islã
detentor de toda uma tradição relativa aos forismos divinos.

Mas não poderíamos encerrar esta digressão sobre as comunidades de luz sem
acrescentar alguns comentários relativos ao simbolismo da Divina Comédia e
ao tema iniciático da Luz. Sabe-se, de fato, que Dante coloca em cena um
ptrsonagem enigmático, o DUX, considerado às vezes como o detentor do
"Santo Império", chefe supremo dos Fiéis do Amor, e denominado igual­
menre o "5 1 5", pelo valor de suas letras latinas invertidas sob a forma DXV2.

2 Cf. L'Esotérisme de Dante de René Guénon. Encontrado em tradução portuguesa sob o título O
Esoterismo de Dante (Editorial Vega - Coleção Janus) N. T.
-

67
AS COMUNIDADES DE LUZ

Esse número foi rido como indicativo de uma descendência templária dos
Fiéis do Amor, resultando a adição de suas cifras no número templário onze.
Além disto, esse número do "Veltro", que deve destruir a loba e restabelecer a
ordem do Santo Império, é igualmente suscetível de revestir uma significação
cabalística que vê no 515 o equivalente hebraico de "Asheer Daí" (aquele que
não se basta), forma desenvolvida de "Schaddai'', o Todo Poderoso.

Ora, a Luz LVX invocada em várias oportunidades na Comédia, e especial­


mente no Canto XXXIII, presta-se a uma exegese inteiramente análoga.

A mesma intervenção dessas letras dá, com efeito, o número LXV de valor
65. A adição destas duas últimas cifras repete o número templário onze.
Enfim o número 65 é o que designa o Senhor: Adonai e está contido, com
o número 26 do Tetragrama, no "Santo Palácio", de valor 91, do nome
"Amém" comum a rodas as confissües cristãs e a todos os monoteísmos
derivados de Abraão.

Portanto, se DUX recobre o nome divino de Schaddai, LUX recobre o de


Adonai, e Amém é um nome do Cristo em São Paulo e nas liturgias orientais.

A busca espiritual do Caminho nos conduz sempre, pois, rumo ao Oriente


da Luz = o Verbo que as Grandes Antífonas de Natal saúdam precisamente
nesses termos:
"Ó Oriente esplendor da luz eterna e sol de Justiça"
O Adonai e Dux domus Israel...
Oriens, Lux et Dux
Aqui se encerra a peregrinação da luz.

68
GERME EM EXPANSÃO

Uma iniciativa da revista L1nitiation, o GERME


(Grupo de Estudos e Pesquisas Martinistas e
Esotéricas) encontra-se em franca atividade no Rio
de Janeiro. Trata-se de um círculo cultural aberto a
rodos os buscadores e, paralelamente, de um portal
de acesso a um Círculo Martinista que congrega
membros de todas as Ordens Martinistas, num
trabalho comum de crescimento e aproximação.

O núcleo de São Paulo, em fase final de


estruturação, ainda está recebendo adesão dos S. ·. I. ·.

interessados na concretização desse ideal de união e


compartilhamento.

Os interessados nos trabalhos do GERME e do


Círculo Martinista podem obter maiores informações
através do e-mail cartas@gnosis-ed.com.br, ou de
carta dirigida à Gnosis Editorial - Caixa Postal
62615 - Rio de Janeiro-RJ - 22252-970.

69
As Preces de Lou/.s-Gfaude de Saint-1\Aartin

PRECE 1

onre ererna de rudo o que é, ru, que envias aos prevaricadores espíriros de
F erro e de rrevas que os separam de reu amor, envia àquele que re busca
urn espíriro de verdade que o aproxime de ri para sempre .

Que o fogo desse espíriro consuma em r.iim até os menores traços do velho
homem. e que após havê-lo consumido, ele faça nascer desse monte de cin­
zas um novo homem sobre quem tua m:io sagrada não desdenhe mais ofere­
cer a sanra unção.

Que csrcja aí o rerrno dos longos trabalhos da penitência e que tua vida uni­
versalmcnre una transforme rodo o meu ser na unidade de tua imagem, meu
coração na unidade de reu amor, minha ação numa unidade de obras e de
justiça, e meu pensamenro numa unidade de luzes.

Tu só impões ao homem grandes sacrifícios para forçá-lo a buscar em ti todas


as suas riquezas e rodas as suas alegrias, e tu só o forças a buscar cm ti todos
esses rcsouros, por saberes que são os únicos que poderão fazê-lo feliz, e por
seres o único a possuí-los, a engendrá-los e a criá-los. Sim, Deus de minha vida,
é apenas em ri que posso encontrar a existência e o sentimento de meu ser.

Disseste também que era somente no coração do homem que podias encontrar
teu repouso; não inrerrompas um instante sequer tua ação sobre mim, para
que eu possa viver, e ao n1esmo tempo para que teu nome possa ser conheci­

do pelas nações: teus profetas nos ensinaram que os mortos não podiam lou­
var-te; não permite pois, nunca, que a morte se aproxime de mim; porque
ardo por tornar imortal rua louvação, ardo do desejo que o sol ererno da ver­
dade não possa censurar o coração do homem de rer trazido a menor nuvem
e causado a menor interrupção na plenirude de teu esplendor.

Deus de 111.inha vida, tu que ao pronunciarmos tudo se opera, traz ao meu

s e r o que desre em sua origem, e revelarei teu nome às nações, e elas

70
reaprenderão que somente tu és seu Deus e a vida essencial, como o
móvel e o movimento de todos os seres.

Semeia teus desejos no coração do homem, nesse campo que é teu domínio
e que ninguém pode contestar-te, pois que foste tu que lhe deste seu ser e sua
existência. Semeia nele teus desejos, a fim de que as forças do teu amor o
arranquem inteiramente dos abismos que o retêm e que gostariam de tragá­
lo para sempre com eles.

Abole para mim a religião das imagens; dissipa essas barreiras fantásticas que
interpõem um imenso intervalo e uma espessa escuridão entre tua viva luz e
eu. e que projeram sobre mim a sombra de suas trevas.

Aproxima de mim o caráter sagrado e o selo divino do qual és o depositário,


e uansmite até o âmago de minh'alma o que te queima, a fim de que ela
queime com ele, e que sinta o que é tua inefável vida e as inextinguíveis delí­
cias de rua eterna existência.

Demasiadamente fraco para suportar o peso de teu nome, transfiro a ti a tare­


fa de erigir inteiramente o edifício, e de nele colocares tu mesmo os primeiros
fundamentos no centro desta alma que me deste para ser como o candelabro
que leva a luz às nações, a fim de que elas não permaneçam nas trevas.

Graças te sejam rendidas, Deus de paz e de amor! Graças te sejam rendidd.s


por te lembrares de mim e por não quereres deixar minh'alma morrer na
penúria' Teu s inimigos diriam seres um pai que esquece seus filhos, e que não
pode libená-los.

PRECE II

rei para ti, Deus de meu ser; irei para ti, rodo corrompido como sou; irei
I apresentar-me diante de ti com confiança. Irei apresentar-me em nome de
tua eterna existência, em nome de minha vida, em nome de tua santa aliança
com o homem; e esta tripla oferenda será para ti um holocausto de agradá­
vel o d or, sobre o qual teu espírito fará descer seu fogo divino para consumi-

71
lo e rerornar em seguida à rna sa nra morada, carregada e roda plena dos desejos
de um:.i. :.i.lma indigente que s ó s us p ir :.i. por [i. Senhor, Senhor, quando ouvirei
pronunciar, no fundo de minh':.i.lma cs[a pal a vra cons o lad ora e viva, com a
q ual [U ch a mas o homem por seu nome, para anunciar-lhe escu ele ins crirn
na mi l íc i a sanra e que queres ad mi[i- l o na fi leira de [eus servidores? Pela ale­
gria desra palavra sanra encontrar-me-ei logo cercado pe las lembranças erer­
nas de [ll::t força e de teu amor, com ::ts quais marcharei corajosamente con­
tra teus inimigos, e eles empalidecerão diante dos remíveis raios que sairão de
tua palavra. v i wr io sa . Ai de mim, Senhor, cabe ao homem de miséria e de
uevas formular semelhantes votos e conceber tão soberbas esperanças? Ao
invés de poder ferir o inimigo, não seria necessário que ele quisesse, ele
mesmo, evirar seus golpes? Ao invés de parecer, como outrora, coberto de
armas gl o rios ::ts não está ele reduzido, como um objeto de opróbrio, a versar
,

prantos de vergon h a e de ignomínia nas profundezas de seu retiro, não


ousando sequer mostrar-se à luz do dia' Ao invés destes cantos de uiunfo que
ourrora deviam seguí-lo e acompanhar suas conquistas, não está ele conde­
nado a fazer-se ouvir através de suspiros e soluços? Concede-me ao menos,
Senhor. uma graça: que rndas as vezes que sondares meu coração e meus rins,
não os cnconrres jamais vazios de teus louvores e de teu amor. Sinto, e não
go s ra r i a jan-1ais deixar de sentir que nunca há tempo demais para louvar-te; e
que, para que esra santa obra seja cumprida de urna maneira que seja digna
de ri, faz-se mister que todo o meu ser esteja tomado e comovido por tua
eternidade. Perm ire pois, ó Deus de roda vida e de todo amor, permite à
minha alma buscar fortalecer sua fraqueza no teu poder; permite-lhe formar
co ntig o uma linha sanra que me torne invencível aos olhos dos meus inimi­
gos e que me ligue de tal forma a ti pelos votos de meu coração e do teu, que
me encontres sempre tão ardoroso e tão dedicado para o teu serviço e para a
tua glória, quarno o és para a minha libertação e para a minha felicidade.

(As Preces III e IV serão publicadas em nosso próximo númao.)

Esta matéria fài publicada originalmente em Llnitiation no N° 1 de 2002.

72