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REVISÃO – PSICOSSOMÁTICA (AV2).

1. História, principais autores e movimentos teóricos que influenciaram a teoria


psicossomática na construção de um campo de saber independente.

GRODDECK: símbolos e a doença como mensagem: Deus-natureza; a importância da


linguagem e da doença como expressão do homem; toda doença é criada pelo ID;
ênfase no simbolismo dos sintomas físicos;

FERENCZI: narcisismo traumático; patoneuroses (neuroses de doenças); linguagem


veiculada pelo corpo; bio-análise;

ALEXANDER: fundador da escola de Chicago; dá origem à concorrente da medicina


psicossomática; doença: primeiro uma alteração crônica, depois, uma mudança no
tecido e doença orgânica; TODA DOENÇA SERIA PSICOSSOMÁTICA – sintoma de
conversão X neuroses de órgão.

2. Os grupos Balint – para que servem? Quais seus objetivos principais? O foco se dá
em que tipo de relação?

‘’Atenção’’ voltada à ‘’relação médico-paciente’’ e ao que se produz nessa relação, ou


seja, o fenômeno transferencial. Buscar uma diferenciação na interlocução médico-
paciente, através do desenvolvimento da criatividade e da sensibilidade utilizadas
como instrumentos de trabalho.
Primeiras empreitadas em direção ao que veio a se configurar como as Psicoterapias
Dinâmicas e Psicoterapias Breves.

O grupo Ballint: servir como importante ferramenta para ação psicoterapêutica, além
da ferramenta medicamentosa ou farmacológica. Nos grupos de Ballint, a discursão
dos atendimentos é realizada buscando o entendimento da forma como a intervenção
se dá ou ocorreu. Frente a isso, a atitude do médico, segundo Ballint, poderá sofrer
uma modificação, transformação, porque também a atitude é discutida.

3. O que se entende na atualidade por psicossomática? Qual sua delimitação teórico-


conceitual?

A Psicossomática busca um entendimento da relação mente-corpo e dos


processos de adoecimento. Ela parte da observação de distúrbios físicos nos
quais os processos emocionais desempenham um certo papel, ou de
situações clínicas nas quais uma perturbação psicológica aumenta o risco de
desenvolver ou agravar determinada doença física.
Mello Filho (2002) também comentou que o termo ‘medicina psicossomática’ não
abrange a totalidade dos fenômenos que influenciam a saúde do homem, como os
sociais e culturais, e sugeriu, baseado nas idéias de Perestrelo (1974), que o termo
mais completo poderia ser medicina ‘psicossociossomática’
O mesmo autor comentou que, atualmente, a visão psicossomática já conquistou um
espaço importante entre as práticas médicas, tendo como prova disso a atual
definição de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS): “saúde é um estado de
completo bem-estar físico, mental, social e não apenas a ausência de doença”. Apesar
de ser alvo de críticas, esse conceito consegue ser mais próximo de uma visão de
homem integral, pois considera as influências biopsicossociais.

4. A medicina psicossomática no Brasil e suas vertentes de atuação. Quais as principais


implicações dessa posição?

No atual cenário brasileiro ainda existe uma forte dicotomia entre o que é somático e
o que é psíquico, acabando por dividir o indivíduo em partes a serem estudadas por
diferentes profissionais, porém, aos poucos essa realidade vem se alterando, partindo
da importância de um atendimento interdisciplinar e enxergando como importante
essa visão do indivíduo como todo que se influência. Passando a ser observada
também na relação entre o médico e o paciente, visto que uma boa relação favorece o
manejo e o entendimento do fenômeno psicossomático, tirando o foco da doença e
passando para o indivíduo adoecido e as relações que estabelece com o mundo.

5. A relação da doença e da família: a perspectiva psicossomática diante das relações


sociais e familiares.

A doença psicossomática emerge de uma serie de fatores biopsicossociais que em


(alguma medida), acabam entrando em conflito. Um forte fator psicossomático está
situado no contexto familiar e não como são construídas as relações dentro dessa
família como um sistema, se podem compreender casos onde quando um familiar fica
doente e isso causa manifestações somáticas em todo o restante da família. Também,
se faz importante ressaltar casos onde existem muitos conflitos emerge a doença
psicossomática em determinado membro dessa família. Logo, se percebe a influência
da família dentro do entendimento da psicossomática, além dos fatores sociais e
culturais que perpassam essa família.

6. A compreensão Biopsicossocial do sintoma e as implicações disso.O sentido do


sintoma na psicossomática. Qual a relação com a clínica? A relação com a linguagem,
com os afetos e com a suposição de uma alteridade.

O sintoma somático é endereçado a um outro: eu adoeço por alguém. A crise


somática acontece no âmbito de uma relação com o outro, quando esta relação me
coloca num impasse psíquico que, devido a mim, mas também é um pouco devido ao
outro. (Djours, 1998).
Pode-se chamar de sintoma a ocorrência somática, pois ela teria um
significado ligado precisamente a uma “trama intersubjetiva”, embora não recalcada.
Com esse modo de pensar, poderíamos inserir plenamente a “escuta” das
somatizações na análise, e prescindir de considerá-las como apanágio das más
mentalizações. Dejours relata casos de pacientes, que segundo os critérios de Marty
deveriam estar protegidos das somatizações graves, e que sem o menor indicador são
acometidos por uma delas.
Sendo o sintoma somático dirigido a um outro, ele teria uma
intencionalidade15. E mais precisamente, uma intencionalidade expressiva. Ele
ocorreria exatamente porque a captura libidinal não pode ser feita e transformada em
um “agir expressivo” dirigido francamente (mesmo com todas as ambigüidades) a um
outro.

7. Somatização e Doença Psicossomática – Relação entre esses conceitos.


Somatização - Quando alguém diz que a pessoa está somatizando está dizendo que
esta pessoa apresenta sintomas físicos mesmo não havendo uma doença física - a
causa destes sintomas seria emocional. Por exemplo, o caso da pessoa que sente
taquicardia, o coração dispara e ela vai ao médico achando que está com problema
no coração, chegando lá ela faz exames, e não acusando nada, o médico dispensa
o paciente dizendo que ele está bem fisicamente. Esta taquicardia pode ser
sintoma de pânico - síndrome do pânico. Isso é somatização. Os exames não
acusam nada porque a pessoa não tem nada fisicamente, o sofrimento físico é um
reflexo do sofrimento emocional, que está escondido. O ideal nessa situação seria
que o médico encaminhe a pessoa para um tratamento com psicólogo e obtenha
ajuda psicológica para sintomas psicossomáticos ou somatização.
Doença Psicossomática - Quando usamos o termo “doença psicossomática”
dizemos que a causa é psicológica, mas a pessoa apresenta alterações clínicas
detectáveis por exames de laboratório, ou seja, o corpo da pessoa está tendo
danos físicos - chamamos de doença psicossomática. É uma doença física,
verdadeira mas com causa psicológica, ou seja, a doença apareceu no corpo, como
uma alergia por exemplo. Neste caso o ideal seria tratar tanto com o psicólogo
como com o médico.

8. Alexitimia e pensamento operatório. Conceitualização, aproximações e diferenças.


Segundo Marty (1993), o princípio do pensamento operatório é simples,
pois evidencia a carência funcional das atividades fantasmáticas e oníricas,
as quais permitem integrar as tensões pulsionais que protegem a saúde
física individual. Tratam-se de pensamentos sem laços aparentes com a vida
fantasiosa, de tom racional e factual, pobres de digressões pessoais, de
referências afetivas e de imagens verbais.

McDougall (1996) entendia que os fenômenos psicossomáticos tinham,


sobretudo, uma função defensiva, levando-os a um estágio de
desenvolvimento no qual a distinção entre sujeito e objeto ainda não era
estável. Pareciam corretas as observações dos psicossomatistas sobre o
pensamento operatório e a alexitimia, ou seja, a dificuldade em identificar
emoções, sentimentos e sensações, mas em seus pacientes ela constatou
que esses fenômenos tinham, sobretudo, uma função defensiva, levando-os
a um estágio de desenvolvimento no qual a distinção entre sujeito e objeto
ainda não era estável, o que poderia despertar angústia. Essa regressão
explicaria o fato de as mensagens enviadas pelo corpo ao psiquismo, ou o
inverso, serem inscritas psiquicamente sem representações de palavras,
como no início da infância.
Alexitimia é um termo empregado no diagnóstico clínico de pessoas com acentuada
dificuldade ou incapacidade para expressar emoções e significa “sem palavras para as
emoções”.
Tratava-se do pensamento operatório, construto desenvolvido para designar um
estilo de raciocínio concreto, objetivo, voltado para a realidade externa, com uma vida
interior pobre e com ausência de reação afetiva frente a situações de perda ou
traumas
9. A relação entre histeria e fenômeno psicossomático. A definição de ambos e as
principais diferenças conceituais e de aplicabilidade técnica entre as duas. O lugar do
corpo na prática clínica.
Por meio das análises de Debray (1995), de Fenichel (1981) e de Volich
(2000), pode-se dizer que Freud estabeleceu um marco na relação entre
psique e soma por meio de seu interesse pela histeria e pela crença que as
manifestações dessa doença não apresentavam nenhuma correspondência
com a estrutura anatômica dos órgãos afetados. Assim, ao questionar as
vias que levavam o conflito psíquico às manifestações somáticas, ele fundou
a Psicanálise, buscando a compreensão das diferentes passagens e relações
entre as manifestações psíquicas e corporais. Foi, então, a partir da
investigação da origem do conflito, que se pôde entender as circunstâncias
que culminam na concretização do sofrimento em uma manifestação
psicológica ou somática. Vai ser exatamente por meio da conversão que se
revelou o caráter de compromisso dos sintomas, que exprimem as forças
reprimidas e repressoras, assim como o dinamismo das intensidades
pulsionais.

10. Psicossomática e a questão da interdisciplinaridade – conceito e construção


histórica. Principais dificuldades e avanços nesse trabalho. Trans, multi e
interdisciplinaridade.

Interdisciplinaridade no sentido que o sujeito, o doente, não é constituído somente do


seu corpo no sentido biológico, orgânico, fisiológico de uma maneira linear. Numa
relação de causa e efeito. Existe ali um corpo que se constitui através de uma herança
advinda de uma espécie, mesclado com desejos, atributos, com vivências afetivas.
Tornam-se filho, pai, mãe, marido, esposa, homem, mulher, portanto fazendo laço
com o outro, portador de uma moral e de uma ética.
O que a psicossomática propõe é que se amplie essa visão do ser humano, do
“doente”, no contexto com o profissional da saúde. Que a doença, o adoecer, a morte
façam parte da nossa existência. Porém esse profissional da saúde deverá ter noções
de filosofia, sociologia, além da formação psíquica, com noções de “psicologia
médica”.
Japiassu explora os termos multi, pluri, inter e transdisciplinaridade.
Multi e pluridisciplinaridade: várias disciplinas com o objetivo de estudar um mesmo
tema sob ângulos variados e distintos. Por exemplo, o aborto, convida-se um médico,
psicólogo, sociólogo, filósofo, teólogo e político. Cada um dá o seu recado em meio a
indiferença simpática dos demais. Mas não se tenta construir uma síntese orgânica
entre os pontos de vista diversos. No final, publicam-se comunicações.
Na multidisciplinaridade ocorre uma justaposição, sem necessariamente trabalho de
equipe e coordenação. “Coexistência igualitária”.
Na pluridisciplinaridade avança-se um pouco em relação entre as disciplinas, porém
persiste um agrupamento de alguns módulos disciplinares. Denominou-se esse tipo de
pesquisa de “integração multidisciplinar prática”. Mas de interdisciplinaridade só resta
o título “interdisciplinaridade por justaposição” ou por adição.
Na pesquisa sobre interdisciplinaridade já se identifica a possibilidade de intensas
trocas entre os especialistas. O verdadeiro empreendimento interdisciplinar é atingido
quando: a) se consegue incorporar o resultado de várias disciplinas, e b) se consegue
tomar de empréstimo de outras disciplinas certos instrumentos e técnicas
metodológicas e esquemas conceituais. A fim de fazê-los integrarem e convergirem
depois de ter sido comparados e julgados.
natransdisciplinaridade, segundo Piaget, que considera ser uma etapa superior, não há
somente relações de reciprocidade, mas as ligações se situariam um plano total, sem
fronteiras entre as disciplinas. Bastide usa o termo de “pesquisa integrada teórica” em
vez de transdisciplinaridade.
A Interdisciplinaridade que ainda não existe propriamente (Segundo Japiassu) procura
descobrir e estabelecer conexões e correspondências entre as diversas disciplinas
científicas, isto é, entre os diferentes níveis de descrição da realidade.
A interdisciplinaridade na área da saúde. Saúde não permite fragmentação física,
mental e social. Parte-se de uma visão holística que em tese supõe entende-la na
interface de uma grande diversidade de disciplinas.

11. A relação médico-paciente e sua importância para a psicossomática. Principais


diferenças entre a medicina tecnicista e a medicina psicossomática. Curar x Atender.

A Medicina Organicista ensina a “ler” a enfermidade, do ponto de vista do médico e


do laboratório.
A Medicina Psicossomática, no caso a Psiconcologia, pretende “ler”, escutar e
compreender a enfermidade, a partir do paciente. Um exame físico e centenas de
determinações bioquímicas e radiológicas podem demonstrar que um homem está
“normal”. Uma única entrevista psicossomática adequada pode nos mostrar que esse
mesmo homem está gravemente enfermo.

12. O sistema imune como mediador da vida. Relação entre estresse e sistema imune. As
fases do estresse. As principais doenças discutidas em psicossomática: urticária,
asma brônquica, doenças infecciosas e câncer.

Estresse (físico, psicológico ou social) é um termo que compreende um conjunto de


reações e estímulos que causam distúrbios no equilíbrio do organismo,
frequentemente com efeitos danosos.
Selye (1936) descreveu o que chamou de síndrome geral de adaptação, com três fases
sucessivas:alarme, resistência e esgotamento. Após a fase de esgotamento, surgem as
doenças (as chamadas doençasde adaptação), como a úlcera péptica, a hipertensão
arterial, artrites e lesões miocárdicas.
A asma brônquica - Ela é claramente multifatorial visto que, tanto na prática clínica
como emexperiências de laboratório demonstra-se a presençade desencadeantes de
diversas origens tais como alérgenos, fumos, pós, exercício e situações estressantes.
A asma é considerada uma doença na qual a inflamação desempenha importante
papel. A descoberta que a exposição a um alérgeno induzia uma reaçãotardia pela
ação especialmente de citocinas (IL-5), revolucionou o tratamento. Hoje, os anti-
inflamatórios(corticosteroides inaláveis) constituem a pedra detoque na condução
terapêutica dos asmáticos. (Na epp, 2007). A descoberta de que o estresse
desempenha importante papel na indução e manutençãoda inflamação explica a já tão
conhecida influênciadas emoções no desencadeamento e na persistência
dos sintomas asmáticos.

Urticária - Até aproximadamente a década de 1950, a urticária, doença caracterizada


pelo aparecimento deplacas (pápulas) avermelhadas, difusas ou localizadas e muito
pruriginosas, era considerada uma doença essencialmente alérgica. O enfoque
modernodesse problema aponta para causas alérgicas e nãoalérgicas no seu
desencadeamento.Quando a urticária permanece por seis semanasou mais é
denominada crônica e constitui-se em sérioproblema de diagnóstico etiológico, visto
que cercade 80% dos casos são apontados como sendo de causa desconhecida
(Champion, 1969).

Mais uma vez lembramos que o estresse desempenha sobre o sistema imune um
papel de inibiçãoou estimula parte importante de seus componentes, oque, em certos
casos, poderia levar a um aumento demorbidade e mortalidade, por dificuldade nos
mecanismos de coping.

Câncer –Kissen (1966) Esse autor postulou que estes pacientes apresentam uma típica
tendência a suprimir seus problemas emocionais e conflitos. Por tudo isso, eles teriam
uma “saída diminuída para a descarga emocional”.

Schmale e Iker (Schmale, 1966), em importantíssimo trabalho prospectivo,


estudando mulheres predispostas as câncer de colo de útero, encontraram fatos
semelhantes aos até aqui relatados. Em uma pesquisa (1964), estes autores estudaram
através de entrevistas psicológicas e testes de personalidade 51 mulheres
assintomáticas, porém, predispostas ao câncer de colo uterino, pois apresentavam
esfregaços vaginais classe III de Papanicolau. Na base da avaliação psicológica feita, os
autores tentaram prever quais das pacientes desenvolveriam câncer. A expectativa é
de que a doença se instalaria naquelas mulheres que tivessem suas vidas marcadas por
fortes sentimentos de desesperança e que tivessem apresentado um acontecimento
vital .

13. O câncer como modelo de doença integral. Diferença entre ciência e dogma. O
câncer numa leitura de reconhecimento entre ego e não ego. A psicossomática e o
entendimento holístico de um paciente com câncer.

O câncer é uma doença vinculada à pessoa integral do paciente, ele deve ser o reflexo de
suas relações pessoais, de sua vida familiar e social. Leshan e Worthington (Leshan, 1956)
fizeram um importante trabalho de ordem estatística a esse respeito. Postularam que se
estes fatos são verdadeiros, a incidência do câncer nos diferentes grupos sociais deveria
variar em relação à frequência com que houvesse se produzido uma alteração em sua vida
de relação ou uma perda sentimental grave.

Parece que a aceitação da unidade do homem é um conceito que desperta resistências,


que faz nascercondutas e pensamentos racionalizados. Criamos até mesmo uma definição
ou modelo de ciência médicaque, aprioristicamente, aceita apenas o orgânico.

Como sabem, modelo é um modo de ver ou de explicar uma realidade.*Quando não se


adapta à realidade, resistindo a ser modificado, não é mais um modelo, mas um dogma.

Um dogma é uma proposição pretensamente divina, que nós mesmos tornamos


indiscutível. *Um dogma é um tema de doutrina. Os homens resolveram que todo dogma
é incontroverso e superior à razão humana. É o símbolo de uma verdade perfeita.

Chamaremos de ego ao conjunto de elementos orgânicos e psicológicos que um individuo


reconhece como integrantes de sua estrutura. Fenômeno físico e psíquico que se completa
em torno dos dois anos de idade. O conceito de ego é motivo de estudo por filósofos e
psicólogos, em toda a história do homem, desde Descartes, Leibnitz e Kant, até Freud e os
autores mais atuais, como RisieriFrondizi.

O não ego só pode ocorrer depois da estruturação do ego, pois o não ego só pode ser lido
em função do ego. Todo elemento alheio ao ego não pode ser considerado como não ego,
enquanto a estrutura mental, a evolução biológica (e a imunológica) não tiverem
reconhecido o ego. Por exemplo: usamos a palavra antígeno como uma marca
identificatória do não ego, que determina uma leitura especifica do ego necessária para o
reconhecimento do não ego.

14. Estresse e saúde do trabalhador: implicações na psicossomática. O processo de


estresse como fenômeno sócio-histórico. Estresse e doença de adaptação: fases,
desenvolvimento e definição. O coping e sua relação com o estresse. O burnout.

O referido autor demonstrou, em trabalhos aqui mencionados e publicados a partir de


1936, que o organismo, quando exposto a um esforço desencadeado por um estímulo
percebido como ameaçador à homeostase, seja ele físico, químico, biológico ou
mesmo psicossocial, apresenta a tendência de responder de forma uniforme e
inespecífica, anatômica e fisiologicamente, respostas estas que constituem uma
síndrome. A esse conjunto de reações inespecíficas na qual o organismo participa
como um todo, ele chamou de Síndrome Geral de Adaptação, que resumidamente
vamos expor. Ela consiste em três fases: Reação de Alarme, Fase de Resistência e Fase
de Exaustão. Não é necessário que a fase se desenvolva até o final para que haja o
estresse e é evidentemente só nas situações mais graves que se atinge a última fase, a
de exaustão.
Fase Reação de Alarme - subdivide-se em dois tempos: o shock e o contra-shock.
Fase de Resistência - que se caracteriza basicamente pela reação de hiperatividade
córtico-supra-renal, sob mediação diencéfalo-hipofisária, com aumento do córtex da
supra-renal, atrofia do baço e de estruturas linfáticas, leucocitose, diminuição de
eosinófilos e ulcerações.
Fase de Exaustão - Se os estímulos estressores continuarem a agir, ou se tornarem
crônicos e repetitivos, a resposta basicamente se mantém, mas com duas
características: diminuição da amplitude e antecipação das respostas. Poderá ainda
haver falha nos mecanismo de defesa, com desencadeamento da terceira fase,

15. Modos de subjetivação e produção de sintomas em psicossomática. A atuação do


psicólogo em saúde coletiva. O sintoma como linguagem. A intervenção nos três
níveis de atenção em saúde: atenção básica, média e alta complexidade.

Os modos de subjetivação na vida cotidiana nos indicam os modos de produção e


manutenção de sintomas. Ou seja, o modo como o sujeito adoece e morre é revelador
sobre o modo como vive. Contudo, essa premissa nada tem a ver com a concepção
cartesiana a respeito da dissociação somática repetida na literatura psicossomática.

Dessa compreensão decorrem possíveis estratégias de ação para o psicólogo, bem


como contribuições para outros profissionais que atuam no âmbito da saúde coletiva.
a compreensão do sujeito sócio-histórico, quando entendida neste contexto, implica
observar o sintoma como linguagem – superando assim tanto a visão dualista da
psicopatologia clássica quanto a visão cartesiana de sintoma meramente somático,
esta última fortemente impregnada nos currículos das áreas da saúde..

A partir desse olhar ampliado, observamos que os sintomas descritos pelas equipes de
saúde podem indicar um sinal de desordem no cuidado das inter-relações grupais ou
familiares. Ou seja, uma criança que recorrentemente aparece no Posto de Saúde para
consultar por questões de cuidados à epiderme, ou mesmo por dificuldades
respiratórias, pode estar suscitando, além dos cuidados médicos, atenção à
psicodinâmica de sua família ou a dificuldades de socialização na creche. O “sintoma”
recorrente pode estar revelando, sobretudo, a incapacidade dos grupos ou atores
sociais em gerenciar seus recursos, tanto materiais como pessoais, para dar suporte ao
desenvolvimento das pessoas na vida em sociedade.
O fazer psicológico na perspectiva da saúde coletiva necessita considerar os princípios
do SUS (Sistema Único de Saúde), que são: universalidade, equidade e integralidade.
Nesse sentido, é fundamental a noção de rede de saúde que inclui a perspectiva do
diálogo entre a atenção básica (postos de saúde), a média complexidade (por exemplo,
os CaP´s: Centros de atenção Psicossocial) e a alta complexidade (hospitais). É
necessário incorporar, nas ações do psicólogo, aspectos como interdisciplinaridade,
capacidade de relacionar conhecimentos da psicologia social com a psicologia clínica,
bem como focar a promoção em saúde mental como eixo das intervenções
relacionadas ao campo.

Cabe lembrar que no espaço da atenção básica a intervenção psicológica foge ao


modelo psicoterápico tradicional, tal como andrade e Simon (2009) indicam em sua
pesquisa sobre o papel do psicólogo nesse contexto. O fazer psicológico consiste em
intervenções curtas, muitas vezes de um único contato, em que se estabelece um
diálogo focado na autopercepção e fortalecimento da autonomia, e não em atenção
psicoterápica de nível secundário. Na atenção básica é necessário, sobretudo, um
trabalho de promoção à saúde e prevenção dos níveis mais complexos de
adoecimento. Casos como dificuldades de aprendizagem infantil, enxaquecas,
gastrites, dermatites e assim por diante são comumente encaminhados ao olhar do
psicólogo na atenção básica, cuja intervenção específica pode reorientar as estratégias
de enfrentamento aos problemas cotidianos.

Contribuições da psicologia social para o psicólogo na saúde coletiva

Atenção Básica – estratégias de territorialização e inserção social; eenfoque na saúde;


promoção e prevenção; educação em saúde; início de instalação de sintomas a partir
do modo de viver humano; enfoque na gênese do sintoma a partir do bairro, da
família, das relações e etc.

Média Complexidade – estratégias de enfoque psicoterápico; o sintoma já se instalou


e percorre as relações da particularidade dificultando a fluidez entre singular e
universal (dificuldade de inserção social, de vínculos).

Alta Complexidade – estratégias de apoio ao enfrentamento do adoecimento e


reorganização da rede social ou familiar; o sintoma já avançou e está como foco da
situação problema do paciente (por exemplo: tumores, gastrites, derrames). n

16. O futuro da psicossomática em uma sociedade individualista, consumista e sem


coletividade. cabe o saber do psicólogo de viés psicossomático?

PROVAS

1. Vimos que os estudos em Psicossomática e sua construção como disciplina


independente tiveram influência de diferentes teóricos e movimentos científicos.
Com base em seus estudos, escolha dois teóricos e descreva seus conceitos e
principais avanços para o desenvolvimento da psicossomática.

Alexsander – foi o fundador da escola de Chicago, deu origem a medicina


psicossomática. Seu foco era no orgânico, na doença. Para ele toda doença era
psicossomática.
Grodeck – a linguagem era de suma importância, para ele toda doença era criada pelo
id. Deu ênfase ao simbolismo dos sintomas físicos.

2. Marque V ou F para as afirmativas que seguem:

a) (F) A psicossomática é um estudo que deriva da Psicanálise e sem mantém nos


moldes dela até hoje;
b) (V) O modelo da neurose atual serviu de base para os primeiros estudos em
psicossomática;
c) (F) Freud é o criador da Psicossomática e teve Ferenzi seu sucessor;
d) (V) A psicossomática é um modelo de observação dos distúrbios físicos em que
fenômenos psíquicos desempenham algum papel;

3. Eksterman (1192) considera que, no Brasil, a medicina psicossomática desenvolveu-


se, principalmente, a partir de três perspectivas; a doença em sua relação
psicológica, a relação médico paciente e a ação voltada para a pessoa do doente.
Cite e comente, ambientando a discussão no cenário atual brasileiro.

Atualmente a medicina psicossomática no Brasil tem inserção de outros profissionais,


como psicólogos, assistentes sócias, fisioterapeutas e não somente os médicos, para
assim, tratar as causas físicas e psicológicas. A relação médico- paciente tem um
importante papel, pois de acordo com a relação transferencial, o paciente pode ter
uma melhora ou piora da sua doença.

4. Michael Ballint (1896-1970), psicanalista húngaro radicado na Inglaterra, contribuiu


para o campo teórico da Psicanálise e desenvolveu o modelo de trabalho conhecido
como o grupo Ballint. Esse modelo é focado em médicos e na relação médico-
paciente, e tem objetivo de:

a) Criar um espaço para ensino e discussões clínicas e diagnósticas entre médicos


experientes e médicos residentes;
b) Supervisionar médicos em formação psicanalista através do estudo do fenômeno
da transferência em paciente psicossomático e poliqueixosos;
c) Ensinar técnicas para cuidados paliativos e para a abordagem psicológica de
pacientes em estado terminal e suas famílias;
d) Encaminhar pacientes para especialistas adequados, evitando o nomadismo
médico que impede a consecução dos tratamentos;
e) Buscar uma diferenciação na interlocução médico-paciente, através do
desenvolvimento da criatividade e da sensibilidade como instrumento de trabalho;
5. Comente a afirmação abaixo baseado na leitura e discussão do texto “Doença e
Família”

“(...) temos observado como a doença emerge frequentemente de configurações


familiares patológicas que propiciam a descompensação de um ou mais membros (...)
a doença é a função de configurações ainda mais amplas, como as estruturas sócio-
econômico-culturais, dentro das quais se desenvolve”

A família é o nosso primeiro meio de comunicação e socialização, muitos traumas são


adventos das relações familiares, a ausência dos pais, a superproteção, a falta de afeto
ou o excesso dele. Existem também as questões culturais e morais daquela família que
muitas vezes temos como verdade absoluta, mas ao vivenciar outras relações sócias
acabam por deparar-se com conflitos internos, como a angústia, acarretando assim, o
adoecimento.

6. A cerca do trabalho realizado com a família de um paciente somático, encontre a


afirmativa ERRADA:

a) A abordagem da família é parte integrante do tratamento deste tipo específico de


paciente;
b) A vinculação entre o adoecimento e a família do paciente já era feita em hospitais
psiquiátricos e seu modelo foi ampliado e é hoje difundido e aplicado em todas as
outras áreas da medicina, em especial, aos somáticos;
c) O médico da família é um importante aliado no entendimento do sintoma
somático como pertencente ao contexto familiar;
d) É imprescindível que o médico compreenda que, no sintoma, existem interações
inconscientes muito poderosas atuando no meio familiar;

7. A cerca dos mecanismos de formação dos sintomas em psicossomática, marque


verdadeiro ou falso;

a) (V) a doença psicossomáticaexpressa e revela a forma de um indivíduo viver e sua


interação com o mundo, obedecendo, pois, a uma pluricausalidade.
b) (V) na existência de um conflito intrapsíquico persistente e intenso, uma emoção
decorrente gera um estado de tensão, que buscará um escoamento por acesso
emocional e somático, com intuito de aliviar a tensão;
c) (F) o conteúdodo conflito sempre se mostra de maneira muito clara mesmo não
estando presente de forma manifesta, explícita na consciência;
d) (V) é possível afirmar que o conteúdo de um conflito psíquico sofre uma tradução,
expressa na formação do sintoma;

8. O processo de adoecimento vem sendo cada vez mais reconhecido como determinado
por variáveis psicológicas, sociais e biológicas. Acerca desse tema, julgue os itens a
seguir.
a) (F) A organização psicossomática individual provavelmente resulta de uma
interação inadequada entre mãe e filho, independentemente das características
inatas da criança;
b) (V) Manifestações somáticas podem ocorrer em resposta a dor ou a conflitos
psíquicos originados em uma fonte de estresse superior à capacidade de tolerância
do indivíduo;
c) (F) As capacidades sensitivas e motoras funcionam dentro de certos limites, mas
não variam de indivíduo para indivíduo e ao longo do tempo para um mesmo
indivíduo;
d) (F) O entendimento de que doenças decorrem também de variáveis
comportamentais e emocionais, não apenas da ação de vírus e bactérias, é uma
das consequências da alta aceitação do modelo biomédico de saúde nos dias
atuais.

SLIDE

TEXTO 1 – A CONSTRUÇÃO DO CAMPO PSICOSSOMÁTICO

 Controvérsias em torno da influência do psíquico no somático;


 Como a psicossomática é usada hoje? Clinicamente existe uma sintomatologia
inegável que não se relaciona com nenhuma causa anatomopatológica;
 A psicossomática é um termo redundante e nos convida a uma aventura monista
 Psicossomática e psicanálise se aproximam mas não se confundem: seus métodos e
sentidos de estudo se convergem, mas na prática se diferem quanto ao tratamento, o
objetivo e as técnicas empregadas;

ANTECEDENTES:

 Hipócrates: Sec. V a.C. – já remete ao entendimento monista e vê a doença como uma


perturbação do homem, que é visto como uma unidade; trata o doente e não as
doenças;
 Galeno e a teoria dos Humores: a doença entendida como perturbação local dos
órgãos em decorrência de algum dos quatro elementos da natureza;
 Descartes: Sec. XVII – libera a medicina da teologia com o uso da razão; sai da ênfase
na alma para a mente – aprofundando a dicotomia mente – corpo; cria o método
cartesiano que exige a análise objetiva em detrimento da experiência subjetiva;
 Bichat: no próximo século, era o representante do vitalismo, modelo antropológico e
naturalista de compreensão da alma, tendo o corpo como instrumento;
 Heinroth: sofre influência de Bichat (sec. XIX) e usa pela primeira vez o termo
psicossomático; seus estudos se basearam em pesquisas com pacientes com insônia;
 Wundt: fim do sec. XIX, investiga a mente e seus sentidos através do método
positivista;
 Freud: sec. XIX, centra suas pesquisas na relação entre psíquico e somático; se porta
contra o anatomismo e a favor de uma investigação individual da sintomática
apresentada em busca da etiologia da doença; “paralelismo psicofísico”;
 Corpo biológico x corpo psicanalítico (lugar de expressão do desejo ICS)
NEURASTENIA: SINTOMAS DE IRRITAÇÃO COM ORIGEM NA MASTURBAÇÃO
NEUROSE DE ANGÚSTIA: SINTOMAS DE DOR, MEDO E PÂNICO, DERIVADOS DE COITO
INTERROMPIDO HIPOCONDRIA: FENÔMENO OBSERVADO NAS PSICOSES

NEUROSE DE DEFESA
 ATUAL MEDIAÇÃO SIMBÓLICA
 MECANISMO DE RECALCAMENTO
 EXPRESSÃO DE FANTASIAS INCONSCIENTES
 SENTIDO EM SUA ORIGEM
 TIPOS: HISTERIA , NEUROSE OBSESSIVA , NEUROSE FÓBICA

NEUROSE ATUAL
 AUSÊNCIA DE MEDIAÇÃO SIMBÓLICA
 AUSÊNCIA DE MECANISMO DE RECALCAMENTO
 EXPRESSÃO DE FANTASIAS INCONSCIENTES
 NENHUM SENTIDO EM SUA ORIGEM
 TIPOS: NEURASTENIA, NEUROSE DE ANGÚSTIA, HIPOCONDRIA

PSICOSSOMÁTICA: FALHAS NA CAPACIDADE DE REPRESENTAÇÃO E MANIFESTAÇÃO


SOMÁTICA COMO ALTERNATIVA PARA A ANGÚSTIA

 GRODDECK: símbolos e a doença como mensagem; Deus-natureza; a importância da


linguagem e da doença como expressão do homem; toda doença é criada pelo ID;
ênfase no simbolismo dos sintomas físicos;
 FERENCZI: narcisismo traumático; patoneuroses (neuroses de doenças); linguagem
veiculada pelo corpo; bio – análise;
 ALEXANDER: fundador da escola de Chicago; dá origem à corrente da medicina
psicossomática; doença: primeiro uma alteração emocional crônica, depois, mudança
no tecido e doença orgânica; TODA DOENÇA SERIA PSICOSSOMÁTICA – sintoma de
conversão x neuroses de órgão;

 Escola psicossomática de Paris: Marty, Fain, Uzan e David – não se encaixavam nem na
conversão nem na neurose atual; insuficiência de mecanismos de defesa neurótica nos
pacientes e substituição por mecanismos somáticos desprovidos de dimensão
simbólica; interesse pelas relações de objeto pré-genitais;
 Estrutura psicossomática inata: Monismo – continuidade entre psíquico e somático e
mecanismos psíquicos diferentes, que atestavam a insuficiência do funcionamento
psíquico na gênese das doenças somáticas;
 O conceito de pensamento operatório: paradigma da psicossomática, atesta a pobreza
de vida onírica e de processo de simbolização e carência expressiva dos afetos;
 Tem um princípio evolucionista no entendimento dos sintomas;

GRUPO BALLINT
 MICHAEL BALINT: “atenção” voltada à “relação médico-paciente” e ao que se produz
nessa relação, ou seja, o fenômeno transferencial.
 Primeiras empreitadas em direção ao que veio a se configurar como as Psicoterapias
Dinâmicas e Psicoterapias Breves.
 Grupos Balint: servir como importante ferramenta para a ação psicoterapêutica, além
da ferramenta medicamentosa ou farmacológica. Nos Grupos Balint, a discussão dos
atendimentos é realizada buscando o entendimento da forma como a intervenção se
dá ou ocorreu. Frente a isso, a atitude do médico, segundo Balint, poderá sofrer uma
modificação, transformação, porque também a atitude é discutida.

TEXTO 1 - A CONSTRUÇÃO DO CAMPO PSICOSSOMÁTICO


Embora historicamente o termo ‘psicossomático’ tenha surgido no início do
século XIX, quando o psiquiatra alemão J. A. Heinroth abordou a interferência das
paixões em alguns transtornos orgânicos, a compreensão da relação entre as funções
psíquicas e corporais, cuja perturbação pode se expressar em adoecimentos
somáticos, sofreu a influência de diversas correntes de pensamento, e se tornou
motivo de divergência entre autores até os dias atuais.
Assim é que ainda encontramos a expressão ‘psicossomática’ sendo utilizada,
particularmente no meio médico, para designar uma doença cuja sintomatologia,
mesmo que inegável do ponto de vista funcional e clínico, não se relaciona com
nenhuma causa objetivável do ponto de vista anatomo-fisio-patológico, quando,
então, é pensada a participação de fatores psíquicos na etiologia do problema.
No final do mesmo século XIX, com Freud e o surgimento da psicanálise,
algumas dessas manifestações físicas sem causa aparente foram entendidas como
resultado da “conversão de uma energia psíquica em inervação somática”
(Freud,1893), vindo a se constituir como um transtorno da neurose histérica, onde
conflitos psíquicos são simbolizados em sintomas corporais. Outra modalidade de
manifestação física, cuja sintomatologia está associada a uma angústia difusa sem um
sentido simbólico, foi designada como pertencente ao quadro da neurose atual, e por
ela Freud (1917) não demonstrou maior interesse na medida em que não poderia ser
atingida pelo método de tratamento que criou.

As contribuições de Groddeck, Ferenczi e Alexander. Contemporâneos de


Freud, os médicos Walter Georg Groddeck e SándorFerenczi se interessaram pela
psicanálise das doenças somáticas, e suas observações clínicas forneceram subsídios
importantes para esse campo de estudo. Em um período mais recente, Franz
Alexander, discípulo de Ferenczi, também trabalhou sobre o tema, tendo sido
considerado um dos pioneiros do estudo e pesquisa em psicossomática.
Groddeck e o valor dos símbolos: a doença como linguagem. (Médico alemão,
fez o curso de medicina na Kaiser Wilhelm Universitat onde conheceu o professor Dr.
Ernest Schweninger, de quem se tornou assistente e herdou o método de tratar os
pacientes com dieta, massagem e hidroterapia.)

 Enfatizou a importância dos símbolos na vida humana, e adotou a


concepção de que o homem é apenas um pedaço do mundo, e não o seu
senhor, e em seu interior vive um Deus-Natureza (Groddeck, 1969 [1909],
p.248) que o governa.
 A linguagem, enquanto criação e criadora, fundamental à vida, ganhou
destaque.
 Os pacientes deviam não apenas ser informados sobre suas doenças, mas
também, e especialmente, sobre os princípios teóricos utilizados em seu
tratamento, e, assim, suas ‘conferências psicanalíticas’ não tinham a
finalidade de ilustrá-los, mas que tivessem os meios para reagir a seus
males. Ao mesmo tempo, tendo concluído que “o homem não pode traduzir
seu ser em palavras” já que a linguagem tanto podem revelar como ocultar
a verdade, Groddeck entendeu que os sintomas das doenças orgânicas
tinham um valor simbólico, cuja descoberta era fundamental ao
tratamento.
 Para Groddeck, as forças da natureza, inerentes ao ser humano, podem
restabelecer a saúde se forem removidos os obstáculos que impedem sua
atuação, de forma que utilizava a palavra para influenciar o inconsciente,
com o auxílio dossímbolos, e só interpretava em caso da mais extrema
necessidade. A interpretação, dizia o autor, “é a doença que deve fazer”26
(ibid., p.100). Assim, o papel do médico consistiria exclusivamente em
compreender o sentido do sintoma, para estimular a doença, por sua vez, a
compreendê-lo, e a mudar, eventualmente, de sintoma, ou seja, de
linguagem.
Ferenczi: o estudo das neuroses de doença.(SándorFerenczi, psicanalista
húngaro pertencente ao círculo íntimo de Freud, também contribuiu para a
abordagem psicanalítica dos distúrbios psicossomáticos.)

 Concluiu que se uma doença orgânica tem a capacidade de concentrar uma


maior quantidade de libido, e adquirir um valor erógeno, “talvez esse
recrudescimento libidinal participe também da deflagração do processo de
cura”.
 Estabeleceu condições em relação as quais a doença ou ferimento podem
provocar uma regressão narcísica mais importante, e desencadear uma
neurose de doença: se o narcisismo é constitucionalmente muito forte, de
modo que a menor lesão de qualquer parte do corpo atinge o ego por
inteiro; se o traumatismo constitui uma ameaça para a vida ou se o sujeito
está persuadido disso, ou seja, se o ego e a existência em geral estão
ameaçados; se a lesão ocorre em uma parte do corpo fortemente investida
pela libido. Neste último caso, como a libido não está igualmente repartida
em todo o corpo, existiriam zonas erógenas nas quais a energia libidinal se
concentraria, de modo que a tensão é mais intensa que nas outras partes
do corpo e qualquer dano amplifica as conseqüências. Com este trabalho,
fica evidente a intenção de Ferenczi de dar continuidade ao estudo das
neuroses atuais descritas por Freud (1917), e consideradas fora de acesso
ao tratamento psicanalítico já que não ofereciam “qualquer ponto de
ataque” (Freud, 1917, p.453) por carecerem de sentido psíquico.
 Groddeck e Ferencz - amizade teve como sedimento a preocupação que os
dois autores nutriam pelo sofrimento humano, e que os levou a adotar um
papel mais ativo na clínica, expresso em Groddeck por meio de técnicas de
tratamento ao mesmo tempo corporal e psíquico, e em Ferenczi pela
terapia de relaxamento. Em comum, também, ambos entendiam que os
analistas deviam procurar adaptar seus procedimentos com o objetivo de
atender às necessidades do paciente, e se
dedicaram ao tratamento de casos considerados difíceis, características que
vamos
reencontrar em Winnicott. A parceria entre Ferenczi e Groddeck trouxe
conseqüências diretas e indiretas tanto para a técnica psicanalítica, como
para o estudo no campo da psicossomática.
 Na abordagem ferencziana somente o corpo guarda a lembrança do
trauma, é ele que se expressa nos silêncios do paciente durante a sessão
analítica, e são as palavras deste corpo que o analista deverá escutar na
medida em que “as palavras do trauma passaram a ser feitas de carne”
(Pinheiro, 1995, p.97). Assim, segundo Pinheiro, a proposta de Ferenczi
“aponta para um caminho relacionado com os grandes somatizadores, mas
requer uma formulação mais estruturada, que está longe de ter sido
estabelecida”
 Na análise de Gurfinkel (1997), ao apontar a influência de fatores psíquicos
no curso de toda a doença orgânica, Ferenczi vai mais além do estudo
freudiano sobre as neuroses atuais, abordando diferentes patologias de
natureza somática, como a asma e as doenças cardíacas, para as quais
propõe tratamento psicanalítico.
 Assim, ainda que não seja possível depreender da obra de Ferencziuma
teoria psicossomática consistente e organizada, não podemos
desconsiderar sua contribuição ao estudo do adoecimento psicossomático.

Alexander: a inauguração da medicina psicossomática.(médico neuropsiquiatra


húngaro, dedicou-se ao estudo da psicanálise, tendo ingressado no Instituto
Psicanalítico de Berlim onde foi discípulo e colaborador de Ferenczi.)

 Como um dos fundadores do Instituto de Psicanálise de Chicago, mais


conhecido como Escola de Chicago, Alexander desenvolveu inúmeras
pesquisas, nas quais buscou aplicar os conhecimentos da psicanálise à
fisiologia neuro-vegetativa e a certos processos mórbidos do soma, dando
origem à corrente da medicina psicossomática (Alexander, 1950, p.41)
como um novo acesso ao estudo da causa das doenças. Na formulação de
Alexander (1950) para os transtornos orgânicos
psicossomáticos, calcada na concepção de Freud (1917) da neurose atual,
esses
ocorrem em duas etapas: primeiro, o transtorno funcional de um órgão
visceral é
ocasionado por uma alteração emocional crônica e, segundo, o transtorno
funcional crônico conduz a mudanças no tecido e a uma doença orgânica
irreversível.
 Alexander enfatizou, então, que muitos transtornos crônicos não são
produzidos primordialmente por fatores externos, mecânicos ou químicos,
ou por microorganismos, mas pela tensão de origem funcional que surge,
de modo
contínuo, da “luta pela existência que determina a vida diária do indivíduo”
de tal forma que toda doença seria psicossomática, já que os fatores
emocionais estariam presentes e influenciando a fisiologia orgânica.
 Alexander estabeleceu, então, a diferença entre os sintomas de conversão
e as neuroses de órgão, a que também se referiu como neuroses
vegetativas. Enquanto um sintoma de conversão é uma expressão simbólica
de um conteúdo psicológico carregado emocionalmente, e tem por
finalidade a descarga da tensão emocional, a neurose vegetativa não visa
expressar uma emoção, mas é uma resposta fisiológica das vísceras a
constantes estados emocionais.
 Entre as patologias estudadas pela Escola de Chicago, e que ficaram
conhecidas como as “Sete de Chicago”36, encontramos a asma brônquica.
 Alexander apresentou, então, uma descrição da constelação emocional
central,
comum aos pacientes asmáticos, como fator desencadeante do ataque de
asma.
Assim:
(...) o fator psicodinâmico é um conflito centrado em uma não resolvida e excessiva
dependência materna. Embora a dependência reprimida da mãe seja um traço
constante, em torno do qual podem se desenvolver diferentes tipos de defesas
caracterológicas, nos asmáticos o conteúdo dessa dependência é o desejo de ser
protegido, querer sentir-se rodeado, abraçado, por sua mãe (Alexander, 1950, p.104)
O termo “Chicago Seven” foi utilizado, pelos pesquisadores, para se referirem às
patologias mais freqüentemente encontradas. São: asma brônquica, úlcera gástrica,
artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, neurodermatoses, tirotoxicose e hipertensão.

 O modelo de Alexander enfatiza que a deflagração de emoções, frente a


situações de ansiedade, provoca intensas reações fisiológicas, dando
origem ao desenvolvimento de sintomas e doenças psicossomáticas, mas
apenas naqueles indivíduos organicamente predispostos. Essa
predisposição, que não foi suficientemente esclarecida por Alexander, e
sobre a qual existe uma considerável discordância no meio científico
(Kamieniecki, 1992), será focalizada pelos psicossomaticistas franceses,
especialmente Pierre Marty através de sua concepção de uma estrutura
alérgica inata.
A constituição da Escola de Psicossomática de Paris
Por volta do fim dos anos 40 foi formado um grupo de estudo e pesquisa
reunindo alguns desses psicanalistas franceses, como Pierre Marty, Michel Fain, Michel
de M’Uzan e Christian David, os quais, partindo de suas observações clínicas,
concluíram que o funcionamento psíquico de pacientes com afecções somáticas não se
encaixava nem no quadro das conversões histéricas, nem no das neuroses atuais. Com
a intenção de ampliar o conhecimento das alterações na constituição do aparelho
psíquico implicadas no adoecimento, esses psicanalistas também se afastaram do
modelo desenvolvido pelos psicanalistas americanos, e deram origem ao estudo da
psicossomática psicanalítica, ao mesmo tempo em que criaram a Escola de
Psicossomática de Paris. Segundo Kamieniecki (1990), a partir dessa iniciativa a
psicossomática psicanalítica adquiriu autonomia, e alcançou o status de uma disciplina
científica.
Marty construiu uma teoria funcional e evolucionista do ser humano para
explicar a relação entre o funcionamento psíquico e o funcionamento somático, que
constituiu o primeiro corpo doutrinal definindo uma ordem psicossomática.

TEXTO 2 - REFLEXÕES SOBRE MICHAEL BALINT: COMUNICANDO UMA


EXPERIÊNCIA DE GRUPOS
Michael Balint, médico psicanalista húngaro, nascido em 1886, desde cedo
interessa-se por compreender os pacientes, além das queixas somáticas que levavam
ao consultório. Entendia que o indivíduo portador de uma doença apresentava-se a si
mesmo como alguém com uma história que lhe era própria, e a qual deveria estar o
médico atento para ouvir. Influência de Farenczi ,discupulo de Freud.
Balint acreditava que a formação psicológica do médico oportunizaria o
desenvolvimento de uma atitude mais sensível às demandas inconscientes que os
pacientes trazem às consultas, e que as respostas do médico a esses pacientes, desde
que entendidas as demandas, poderiam produzir um efeito terapêutico complementar
ao tratamento médico tradicional.
Pode-se observar a atenção de Balint toda voltada à ação do médico sobre o
paciente.Esta “atenção” está voltada à “relação médico-paciente” e ao que se produz
nessa relação, ou seja, o fenômeno transferencial. A temática da relação transferencial
é apresentada de formas diversas na literatura psicanalítica, sendo o elemento nodal
na clínica, nas relações inter-humanas nos trabalhos de Balint.
Todos sabemos que a análise não pode ser feitas com todos, porém, naquele
período da Inglaterra sofrida e desolada, contribuía com o nascimento, pela
necessidade e pela premência, de uma sistematização sobre a intervenção
psicoterapêutica. Assim, começaram as primeiras empreitadas em direção ao que veio
a se configurar como as Psicoterapias Dinâmicas e Psicoterapias Breves.
Ao passar os olhos pela história da clínica psicanalítica e psicológica, podemos
observar que a Psicanálise tem uma enorme contribuição tanto na teoria como na
técnica das psicoterapias, pois oferece uma estrutura que tornou possível a pesquisa
no campo das psicoterapias.
É importante notar o lugar de terapeutas que as psicoterapias oferecem na
relação médico-paciente (terapeuta-paciente), pois o lugar é diferente daquele que
ocupa o analista, onde a escuta está presente, mas a atenção tem outro princípio, não
sendo ativa. Nas psicoterapias, o lugar do psicoterapeuta é de suporte (apoio), e de
alguma interpretação. No entanto, interpretação tem por pressuposto a busca do
paciente de algo que além do que tradicionalmente o médico tem para oferecer: um
diagnóstico. O paciente busca na relação com o médico algo que na maioria das vezes
não é possível ser nomeado, deverá ser descoberto. Balint entende que o que falta a
alguém é o que se representa por uma necessidade, e frente a uma necessidade algo
precisa satisfazer. O que pode satisfazer é o que se representa por sua vez como um
objeto, em um afeto, sorriso ou ato.
A relação de objetos em Balint vai se traduzir por aquilo que conjuga uma
necessidade com um objeto, o qual por sua vez satisfaz essa necessidade. Na
concepção balintiana, objeto é antes detudo objeto de satisfação. A relação de objeto
satisfaz de fomia plena uma relação, mesmo com palavras. Mesmo com palavras, é
uma conclusão nossa, pois entendemos que a palavra será sempre o representante
que identificará o que pode satisfazer. A construção de Balint se deduz e sustenta na
observação das relações mãe-bebê, a saber, no resultado da relação, no primarylove.
Nos Grupos Balint, a discussão dos atendimentos é realizada buscando o
entendimento da forma como a intervençãose dá ou ocorreu. Frente a isso, a atitude
do médico, segundo Balint, poderá sofrer uma modificação, transformação, porque
também a atitude é discutida. Daí surgir a possibilidade para o médico de desenvolver
uma compreensão de si mesmo como objeto de relação, que pode suportar ou não as
demandas do paciente, demandas que segundo a perspectiva balintiana seriam de
completude. Balint considera que o trabalho do médico sempre comporta uma
psicoterapia em que os objetivos são naturalmente limitados.
TEXTO COMPLEMENTAR - Psicossomática e contemporaneidade
Com efeito, a construção do mecanismo psicossomático ganha materialidade
por meio da conversão, a transformação de representação incompatível em
sintomasdotados de simbolismo específicos ao sujeito, ou por meio da construção de
umsintoma, o resultado dos conflitos entre as representações, com deslocamento
doafeto referente a representação incompatível para a representação substituta.
Ouseja, o processo de excitação o qual não encontrou descarga adequada originaum
produto anormal – o sintoma – que, como corpo estranho, insinua-se no estado
normal. É na existência do sintoma que há também amnésia, uma lacuna da
memória,cujo preenchimento suprime as condições que conduzem a formação do
sintoma. A substituição da idéia reprimida pelo sintoma é protegida contra as forças
defensivas do ego, e, em lugar do conflito psíquico, há extenso sofrimento somático.
Como resultado da construção do sintoma, a materialização psicossomática,a
angústia e a ansiedade são diminuídas; daí, concebe-se a importância do simbolismo
na sintomatologia por caracterizar-se como o caminho de resolução do conflito
psíquico. Pois, o sintoma é dado como formação do inconsciente, comestrutura de
linguagem própria, efetivada de acordo com metáforas, passíveis dedeslocamento e
cura por meio da re-significação.
TEXTO 3 - MEDICINA PSICOSSOMÁTICA NO BRASIL
A Medicina Psicossomática é tema recente no âmbito mundial, embora seus
princípios estejam contidos na doutrina médica desde os tempos hipocráticos. Alguns
pioneiros e os principais divulgadores no Brasil ainda estão vivos para contar sua
história. Ergueram-na sobre três teses centrais:
1. A etiopatologia somática está comprometida, em casos determináveis ou de
forma universal, com a função psicológica.
2. A ação assistencial é um processo complexo de interação social que, além de
incluir os conhecidosatos semiológicos, diagnósticos e terapêuticos,contêm elementos
da vida afetiva e irracional dosparticipantes.
3. A natureza essencial do ato médico é humanista e, portanto, a terapêutica
deve estruturar-se em função da pessoa do doente e não apenas organizar-se,
preventiva ou curativamente, a partir do reconhecimento de uma patologia.
Cada uma dessas afirmações, embora estejam sendo revistas na atualidade,
continua representando os elementos principais das três vertentes teóricas comuns a
toda concepção psicossomática. Respectivamente:
1. a Psicogênica;
2. a Psicologia Médica;
3. a Antropologia Médica.
Para delimitarmos nosso campo de estudo, creio que a mais precisa e aquela
que estrutura os três aspectosnum só, ou seja, um conceito de Medicina
Psicossomática que integre as três perspectivas: a doença com sua dimensão
psicológica; a relação médico-paciente com seus múltiplos desdobramentos; a ação
terapêutica voltada para a pessoa do doente, este estendido como um todo
biopsicossocial.
A Psicossomática é, portanto, uma nova visão da Patologia e da Terapêutica,
tornando possível o axioma antropológico do objetivo médico. Em outras palavras,
trouxe para o pensamento médico-científico e para a prática assistencial o mote
clássico: tratar doentes e não doenças.
PSICOSSOMÁTICA NO BRASIL HOJE
lnspirada inicialmente no movimento psicanalítico brasileiro, a Medicina
Psicossomática dos anos 1990 começa a tomar outros rumos por conta de algumas
importantes trasformações na estrutura assistencial decorrentes da intervenção
maciça do Estado, com a mobilização maior de atividades paramédicas e a formação
de equipes multidisciplinares.
Funções como a de Enfermagem, Assistência Social, Nutrição e Psicologia,
comprometidas com o cuidado geral e a dimensão social da patologia, além da
condição existencial do doente, abrem perspectivas conectadas com a Psicossomática
e a ela recorrem para buscar apoio teórico.

Grupo Balint: aspectos que marcam a sua


especificidade

O grupo Balint surgiu na Clínica Tavistock em Londres no início dos anos


1950. Seu criador, Michael Balint, nasceu na Hungria, era filho de médico, estudou
medicina e se tornou psicanalista, tendo feito análise e supervisão com Ferenczi.
Tornou-se um dos expoentes da denominada Escola de Psicanálise Húngara. Com a
ajuda de Ernest Jones e John Rickman, emigrou em 1939 para a Inglaterra, para
escapar das perseguições aos descendentes de judeus. Instalou-se em Manchester
e depois de alguns anos mudou-se para Londres (MOREAU-RICAUD, 2000).

Balint deu continuidade às pesquisas de seu mestre sobre transferência e


contratransferência, sobre a relação mãe-bebê, ainda a respeito dos pacientes
denominados "difíceis" ou regredidos e também também sobre processos
psicoterápicos focais.

Além de desenvolver os construtos necessários ao seu setting grupal, M. Balint


ampliou o campo teórico da psicanálise a partir de sua clínica.

M. Balint considerava que sua proposta constituía um grupo de pesquisa da relação


médico-paciente e que o analista devia posicionar-se o mais próximo possível da
posição que seria a de mais um dentre todos os participantes dedicados à pesquisa,
eximindo-se de ocupar o lugar do saber. Procurou sempre abrir espaço para as
manifestações provindas dos participantes, evitando críticas e facilitando ao médico
manifestar a sua própria estupidez sem temor (BALINT, 2005, p. 224). O clima de
confiança é fundamental para que isso ocorra e o analista abre essa possibilidade
quando não ocupa o lugar de mestre da ciência. Ele considerava que não devia
estabelecer modelos e sim abrir espaço para a investigação (MISSENARD, 1994,
pp. 178-179).

CONCLUSÃO
Balint não pensou o grupo como um processo terapêutico e notamos em sua obra
que a possibilidade de um grupo com essa finalidade não recebeu a sua atenção,
porém reconheceu que os participantes obtêm uma limitada, embora considerável,
transformação da personalidade (BALINT, 2005, p 223). Verificamos esses mesmos
efeitos nos grupos que organizamos com profissionais de saúde. Além disso, ao
organizarmos grupos com outros profissionais, dos campos de gestão e educação,
encontramos resultados equivalentes.

O grupo inventado por Michael Balint apresenta especificidades que decorrem de


sua fundamentação psicanalítica, que abrem possibilidades para processos grupais
que objetivam mudanças nas formas de estabelecer os relacionamentos humanos,
portanto não somente de médicos, mas também de outros profissionais que são
procurados para atender demandas de atenção e/ou ajuda.

ESTUDO DE CASO AC. 18 ANOS

Algumas REFLEXÕES:

O profissional, notando o que ele busca ao oferecer uma escuta para a


paciente, não se prendendo aos aspectos orgânicos. Ressalta-se que os sintomas
não foram ignorados ou negligenciados, mas incluídos na história de vidada jovem,
revestindo-os de sentido. Dessa maneira, o adoecer não é visto como um
acontecimento casual na vida da pessoa, mas algo, muitas vezes, revelador de
sofrimento nas inter-relações estabelecidas consigo mesma e com outras pessoas.

A postura sociopsicossomática, como diria esse profissional, possibilitou


escutar o conteúdo latente do discurso da paciente, aquele que ainda não tinha

encontrado expressão verbal, criando condições para AML torná-lomanifesto,


formulado em palavras. Os conflitos com as respectivas emoções, por meio da
intensidade da relação transferencial, foram mais bem “digeridos”, elaborados pela
perspectiva de um referencial.

Se nos debruçarmos sobre esse caso clínico, ainda que em seus aspectos
mais evidentes, dificilmente deixaríamos de notar algumas “coincidências”, por
exemplo, a piora dos sintomas digestivos e o aparecimento da dor na região lombo-
sacra com a vinda da paciente para São Paulo poderiam expressar que esse
acontecimento resultou em sofrimento para AML; afinal, o afastamento de seu meio
familiar e social poderia ser sentido como algo penoso, o que seria perfeitamente
compreensível. Se foi suficientemente intenso a ponto de provocar uma expressão
física, como as percebidas na história clínica, é difícil afirmar, pois essa paciente
não parece apresentar tal fragilidade egóica, há relato de ser uma pessoa que leva
a sério seus compromissos e exigente o bastante para não tolerar atrasos e vem
sustentando, ainda que com sofrimento, uma posição antagônica a de seus pais.

Por outro lado, alguém poderia argumentar de que, na consulta


subseqüente, a paciente consegue, auxiliada pelo profissional de saúde, expressar
um conflito em relação aos pais, “desentendimentos” como ela coloca no início,
sobre seu relacionamento afetivo, para mais tarde expressar com mais liberdade
seu inconformismo e raiva frente à atitude de seus pais, expresso na seguinte fala:
“Sinto que muita coisa convencional sobre educação (pausa) quadrada devesse
sofrer modificações. Meu namorado é diferente; foi criado em ambiente mais
simples, de mais conversação com os pais (...) ele é mais forte, mais aberto,
completamente diferente”.

Podemos indagar: seria esse conflito, na inter-relação familiar, inteiramente


responsável pela sintomatologia que a paciente apresenta? Acreditamos que não.
Afinal AML poderia simplesmente ignorar a objeção de seus pais, ou, pelo menos, não
dar tanta importância à oposição deles. O que a impediria de agir dessa forma e sofrer
tanto?
A resposta para essa questão é bem conhecida dos psicanalistas. A paciente
interiorizou o conflito, ou seja, o conflito ocorre no mundo interno dessa jovem.
Podemos dizer que cada personagem desse drama está representado por um objeto
(no sentido psicanalítico do termo) interno ao psiquismo, impregnado de
representações e afetos em conflito, cada qual com desejos e tendências opostas que
colidem, e frente à impossibilidade da paciente em resolvê-las, resultam no
desencadeamento de emoções expressas, concomitantemente, ao nível do corpo e
dos processos mentais.
A doença de AML denunciava situação de conflito (Pontes, 1974)
historicamente construída desde seu nascimento, na organização sociocultural e
familiar a que pertence. A vinda para São Paulo, afastando-se de seu meio social e
familiar, a intensificação do conflito com as figuras parentais e a dificuldade em lidar
com esse embate dentro de si, com a impossibilidade de a paciente autorizar-se a
enfrentar, de forma mais tranqüila para si mesma, a oposiçãosofrida por sua escolha
amorosa, gerou intensas emoções reprimidas como insatisfação, mágoa,
ressentimento e possivelmente culpa.

Esses conflitos geram tensões emocionais expressas, simultaneamente, por


meio de tensão visceral, resultando nos sintomas dessa enfermidade.
A psicossomática caracteriza-se como uma atitude na promoção de saúde,
postulando uma visão integrada, na sua unidade irredutível corpo-mente, inserido no
seu ambiente físico e socioeconômico-cultural.
Já foi o tempo em que se utilizava a expressão psicossomática para determinar
doenças, como a úlcera péptica, a retocoliteulce-rativa, a asma brônquica, a
hipertensão arterial, a artrite reumatoide entre outras. Realmente, em algumas
doenças, a correlação entre os aspectos emocionais, situações de vida e o processo
patológico somático é mais evidente.