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RESENHA DE “POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL NOS PAÍSES DO

‘CENTRO’ E NO BRASIL”, DE HERMES MAGALHÃES TAVARES.

REFERÊNCIA DO TEXTO: TAVARES, Hermes Magalhães. Políticas de


desenvolvimento regional nos países do “centro” e no Brasil. In: Cadernos
IPPUR/UFRJ. Ano 1, n. 1 (jan./abr. 1986). Rio de Janeiro: IPPUR/UFRJ, 1986 -. 2001.
pp. 229-248.

O principal objetivo do texto é abordar as políticas de desenvolvimento regional,


que se preocupam com uma distribuição espacial mais satisfatória das atividades
econômicas. O autor também compara a evolução das estratégias de políticas
regionais nos países do “centro”, onde elas surgem, e como se difundiram em regiões
menos desenvolvidas, como no Brasil. Para isso, ele distingue dois períodos: o
primeiro, de 1950 a 1980, e o segundo, de 1980 até o momento atual.
No final do século XIX, período do pós-guerra, os países encontravam-se em um
largo período expansivo. E observando a situação da Rússia, Lenin concluiu que o
capitalismo desenvolvia-se de forma desigual, reproduzindo-se intensamente em um
“centro” e de modo extensivo em sua “periferia”. Essa mesma lógica se aplica à
questão do espaço.
A evolução do capitalismo no início do século XX e as disparidades sociais em
regiões - como Londres e o Vale do Tennessee - confirmou a tese do desenvolvimento
desigual proposta por Lenin.
Através do enfoque dos “desequilíbrios espaciais” os autores da doutrina
keynesiana (Perroux, Myrdal, Prebish) questionaram o modelo de equilíbrio
neoclássico e elaboraram políticas de desenvolvimento territorial. Entre elas, a teoria
dos polos de desenvolvimento de Perroux foi a que encontrou maior aceitação nos
países.
A teoria dos polos de desenvolvimento busca compreender a crescente
concentração da indústria pesada no espaço, e partindo desse padrão, indicar as
bases para as políticas de desenvolvimento regional. Perroux afirma que o
desenvolvimento é desequilibrado, que se manifesta com intensidades variáveis,
contrariando o modelo de equilíbrio neoclássico. Visto que o mundo econômico é
formado por grandes empresas que dominam outras, “[...]representando ‘uma
combinação de formas oligopólicas’ (pág. 232)”. Essa grande empresa favorece o
surgimento de inovações, que darão origem a novas indústrias.
O polo de crescimento é a indústria motriz, que possui grande dinamismo
regional e altas taxas de crescimento, sendo capaz de induzir o crescimento de outras
indústrias, através de sua própria atividade. A indústria motriz será diferente a cada
época, dependendo da necessidade da produção ou da “febre” (pág.232) do momento.
No século XX, a indústria motriz foi a indústria pesada (de energia e de metais),
essencial para o processo de desenvolvimento.
De acordo com Perroux, uma aglomeração urbana, na dimensão espacial, pode
ser um polo de desenvolvimento, onde aumentam as necessidades por habitação,
transportes e serviços. No entanto, a sua implantação provoca uma série de
desequilíbrios econômicos e sociais, pois distribui salários e rendimentos adicionais
sem aumentar a produção de bens de consumo, concentra o investimento e a
inovação sem recompensar outros locais, nos quais o desenvolvimento pode ser
retardado. É papel do Estado administrar esses processos, através de um
planejamento consciente dos efeitos que um polo de desenvolvimento pode gerar em
um local.
Na década de 1950, Perroux criticou a política de descentralização industrial
francesa – implantação de indústrias fora da metrópole e dificultando a instalação de
novas unidades - defendendo que a indústria deveria se concentrar em centros de

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desenvolvimento escolhidos. A política regional francesa adotou em 1963-64 a teoria
da polarização e vários megapolos industriais foram construídos por toda a Europa,
em áreas estratégicas, como no litoral e na fronteira entre países.
Ao longo das décadas de 50 e 60, quase todos os países europeus adotaram
essas políticas regionais, que foram concebidas como tarefas do Estado-nação, que
deveriam ser conduzidas de forma centralizada. Foram montadas instituições para
conduzir estratégias de desenvolvimento regional.
No caso do Brasil, é nítido o quadro de desenvolvimento desigual, devido à
grande concentração demográfica no litoral em contraste com o atraso econômico das
regiões periféricas (Nordeste e Amazônia) e a industrialização retardatária. Por muito
tempo vem sendo adotadas no Brasil estratégias de desenvolvimento regional
baseadas em indústrias extrativas dos recursos naturais.
Para reduzir os desequilíbrios regionais, o Governo Federal criou em 1959 a
Sudene (Superintendência do Desenvolvimento Econômico do Nordeste), que tinha na
“industrialização a sua espinha dorsal” (pág. 236), diferindo do que era habitual na
administração pública brasileira. Com o golpe de 1964, o governo militar manteve a
Sudene, mas deu prioridade à política de incentivos fiscais e financeiros e aos
investimentos pré-industriais – infraestrutura de energia e transportes.
Nos primeiros anos de criação da Sudene, os investimento industriais foram
destinados para vários pontos da região Nordeste, mas as maiores parcelas de
recursos se concentraram em Salvador, Recife e Fortaleza.
Em 1965-66, visando o desenvolvimento regional, a aplicação da teoria de polos
no Brasil começou a ser discutida. A partir do estudo da organização espacial
brasileira, foram elaborados vários planos de dinamização da economia nacional. O
Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento buscava expandir o mercado interno e
descentralizar a produção, através da criação de polos agrícola-industriais no Sul e no
Nordeste, e de natureza agrícola-minerais no Planalto Central e na Amazônia. A
criação de novos polos iria complementar o polo existente de São Paulo-Rio-Belo
Horizonte. O Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento buscava o avanço no
processo de industrialização para substituir as importações, com o investimento nas
redes de infraestrutura (transporte, energia e telecomunicações) e na exploração de
recursos naturais nas regiões periféricas. Deste modo, consagra-se a estratégia de
polos de desenvolvimento.
Com esses fatores, além das medidas de proteção do meio ambiente e
restritivas do crescimento industrial, ocorreu a desconcentração industrial de São
Paulo.
Nos países europeus, a crise econômica mundial refletiu diretamente na política
de polos industriais. E paralelamente, houve uma forte pressão para a
descentralização do poder, principalmente em países de regime unitário centralizado.
Até então, as políticas de desenvolvimento territorial eram conduzidas “de cima para
baixo”, pelas instâncias superiores, e a partir desse momento começaram a ser
questionadas.
No entanto, havia regiões industriais prósperas, com desenvolvimento
endógeno, onde a fonte principal do crescimento das forças locais, do próprio território,
além de possuírem como base de sustentação os movimentos pela descentralização
política.
Esse modelo alternativo de desenvolvimento regional foi elaborado por
Friedman-Weaver e Stöhr, com a proposta de um desenvolvimento de “baixo para
cima”, partindo das potencialidades socioeconômicas originais do local, em oposição
ao desenvolvimento “de cima para baixo”, onde o planejamento é conduzido pelo
Estado-nação.
No aspecto político, essa nova dinâmica foi rapidamente aceita, uma vez que
refletia os anseios dos movimentos de descentralização do poder que estavam
ocorrendo nos países europeus.

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No aspecto econômico-tecnológico, os espaços passaram a ter dinâmicas
próprias, devido às transformações na economia das comunicações e na informática,
que permitiram à indústria “[...] libertar-se, em grande medida, dos constrangimentos
de tempo e espaço” (pág. 242). E com a geração de conhecimentos dirigidos à
inovação, ficam independentes de decisões superiores.
Assim, liberadas da dependência do Estado e de outras grandes empresas,
estabelecem políticas próprias para atrair novos investimentos e se tornarem
competitivas. Ao invés de indústrias pesadas e poluentes, cresce o número de áreas
voltadas para a produção de tecnologia de ponta - cidades científicas, parques
tecnológicos e tecnopolos. Contudo, também era necessário um plano urbanístico e
uma arquitetura que valorizasse as atividades culturais e turísticas.
No Brasil, até a década de 80, a industrialização e planejamento regional
baseavam-se na intervenção do Estado. Mas com a crítica das correntes liberais e da
esquerda, ocorreu o desmonte do Estado keynesiano e o declínio da experiência
brasileira de planejamento regional.
Com a Constituição de 1988, os estados e municípios receberam poderes
administrativos, financeiros e políticos para o exercício de governo e administração
próprios sem nenhum planejamento prévio. No entanto, os estados e municípios não
possuíam recursos pra cumprir as novas funções ou estavam despreparados para
realizá-las.
Deste modo, inicia-se a “guerra fiscal”, a corrida estadual e municipal para atrair
novos investimentos, por meio de isenções fiscais, facilidades de financiamento e de
infraestrutura.
Em 1995, o governo de Fernando Henrique Cardoso ensaiou um tratamento da
questão regional, ao introduzir no Orçamento Plurianual uma série de projetos na área
de transportes, visando a integração das regiões brasileiras e a redução das
disparidades regionais, através de eixos de desenvolvimento, mas sem fazer uma
nova regionalização do país. No fundo, a política dos eixos destinou mais
investimentos para as áreas mais favorecidas. Foi mais uma política regional parcial
do que uma política nacional de desenvolvimento regional proposta pelos estudiosos.
As políticas de desenvolvimento regional do período pós-guerra até o final da
década de 70 possuem aspectos que aproximam os países europeus e o Brasil. Visto
que nos dois casos desenvolveu-se a indústria pesada, centralizada nas metrópoles
nacionais, com taxas elevadas de crescimento das economias e uma forte intervenção
do Estado na economia.