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FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E APLICADAS DE PETROLINA

CURSO DE DIREITO

A DESMISTIFICAÇÃO DO PENSAMENTO MARXIANO

PETROLINA

2018
MÔNICA SOARES

A DESMISTIFICAÇÃO DO PENSAMENTO MARXIANO

PETROLINA

2018
RESUMO

O presente artigo busca mostrar a relevância da obra do filósofo alemão Karl Marx
através da desmistificação de várias de suas categorias de análises que acabaram
deturpadas. O método utilizado para realização deste trabalho está baseado no
materialismo histórico-dialético. As considerações do próprio Marx e de seu companheiro
Friedrich Engels são essenciais para consolidação dessa análise. A sociedade burguesa é
o objeto imediato da análise marxiana. No capitalismo, os sujeitos são determinados por
diversas forças objetivas, mas estas têm como cerne o mundo do trabalho humano. Ao
humanizar a natureza, o homem também se humaniza. Contudo, os objetivos do
capitalismo são sempre a lucratividade e a produção de propriedade privada. Com isso, o
mundo do trabalho se torna cada vez mais desumanizador. Como base teórica para esta
investigação, podemos destacar Karl Marx (2004; 2016), Sérgio Lessa e Ivo Tonet (2011)
e Leandro Konder (2008). Com isso, para desmistificar o pensamento desse importante
teórico e para compreender verdadeiramente conteúdo das diversas categorias de
análise, faz-se necessário o conhecimento da obra em sua totalidade.
Palavras-chave: Desmitificação. Marx. Capitalismo. Trabalho.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 4

2 O CONCEITO DE TRABALHO EM MARX ..................................................................... 5

3 HUMANO, LIMITADO HUMANO: A ALIENAÇÃO ......................................................... 7

4 APARÊNCIA E ESSÊNCIA NA MERCADORIA: O FETICHISMO ................................. 8

5 UM ANALGÉSICO SOB A LÍNGUA: A IDEOLOGIA ................................................... 10

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................... 12

REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 12
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1 INTRODUÇÃO

Karl Marx é um dos teóricos mais controversos da história. Sua obra abarca
tanto a filosofia e a sociologia quanto a economia e a política. Mas é inegável sua
relevância para a compreensão dos processos históricos que desembocaram no sistema
de produção capitalista. A teoria marxiana refletia a realidade de uma determinada época:
o século XIX. Contudo, muitos de seus pensamentos deram embasamento a diversos
aspectos da sociedade atual.
Marx foi um defensor das classes oprimidas, a qual designava de
“proletariado”. Fundou, junto a seu companheiro Friedrich Engels, a Associação
Internacional dos Trabalhadores. Por isso, sua teoria está inteiramente ligada à prática.
Dedicou sua vida para o estudo do modo de produção capitalista, e criticou-o
veementemente. Para ele, o capitalismo é um regime opressor que impossibilita a
equidade entre as classes, uma vez que as relações sociais se diluem entre dominantes e
dominados. Nisso, o teórico alemão via o limite do capitalismo: somente com o fim das
classes sociais, ou seja, da exploração do homem pelo homem será possível se chegar à
justiça social. Marx compreendia o peso dessa tarefa revolucionária. Sabia que jamais se
realizaria pela obra de um pequeno grupo de intelectuais iluminados, mas pelas mãos
calejadas dos próprios trabalhadores.
No entanto, existem algumas deturpações a respeito de determinadas
categorias abordadas por Marx. Pode-se dizer então que, no decorrer do tempo, a
abordagem marxiana tornou-se a principal crítica ao status quo, atraindo adeptos e
críticos para tal modelo de concepção teórico-metodológica. Em contrapartida, alguns
paradigmas foram sendo instituídos através de interpretações equivocadas e de
adulterações, tanto por parte dos próprios marxistas quanto de seus adversários. Com
isso, muito da complexidade do pensamento científico desse autor foi-se perdendo.
O objetivo desta pesquisa é desmistificar Marx, analisar algumas confusões
entranhadas no senso-comum acerca de várias categorias de análise da teoria marxiana
e esclarecê-las à luz das obras do próprio autor. Isso porque é possível notar que essas
deturpações têm desdobramentos no próprio seio do marxismo e nas demais teorias
sociológicas críticas ao pensador alemão, principalmente as de viés empirista e/ou
positivista (Émile Durkheim e Max Weber). É nisso que centra a relevância deste trabalho:
sejam admiradores ou adversários, todo teórico deve antes ser compreendido; e se tem
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um autor que gera alvoroço antes mesmo de se ler a totalidade de sua obra monumental,
este é Karl Marx. Logo quem dedicou 40 anos de sua vida a estudar tanto teóricos liberais
(Adam Smith e David Ricardo) quanto socialistas utópicos (Saint-Simon, Fourier e
Lassalle), além de Hegel e Feuerbach, criticando intensamente muitos pontos, mas
também assimilando dialeticamente o mais elevado de cada teoria anterior.
A presente pesquisa orienta-se por meio de um método de análise. Este
método a que está submetida é o materialismo histórico-dialético, que, conforme o próprio
Marx, se trata do “real reproduzido e interpretado no plano ideal.” (MARX, 1968, p. 16).
Isto significa que, para o teórico do socialismo científico, a teoria se alinha à prática, isto
é, deve ter como ponto de apoio as condições materiais que, consequentemente, sempre
se direciona a uma subjetivação do investigador. Deste modo, não se cria um objeto para
que apoie sua análise. O materialista-dialético deve pensar o já-existente, abstraí-lo e
condensá-lo para que se possa entender todos os processos que o envolvem. A partir
disso, discutiremos como as principais categorias de análise da sociedade burguesa são
entendidas pelo autor em questão.

2 O CONCEITO DE TRABALHO EM MARX

O trabalho é a atividade ou ação humana que necessita do uso de capacidades


físicas e mentais, destinada a satisfazer diversas necessidades. Existe desde a pré-
história, quando o homem inventou instrumentos como a pedra lascada e o machado para
sobreviver e, posteriormente, no desenvolvimento de atividades de caça, pesca, coleta e
agricultura. Em sua raiz, o termo “trabalho” é associado à dor e ao sofrimento. A origem
vem do latim tripallium, nome dado a um instrumento formado por três estacas de
madeira, usado na antiguidade pelos romanos para torturar escravos e homens livres que
não podiam pagar impostos. Contudo, para alguns sociólogos e filósofos da antiguidade e
também da atualidade, o conceito de trabalho tinha significados distintos.
Aristóteles, por exemplo, defendia que a capacidade de raciocinar era a
essência humana e também o princípio geral para valorização do trabalho. Portanto, as
funções que se ocupavam com o pensamento deveriam ser as mais valorizadas na polis.
O filósofo grego chegou a defender o regime de escravidão através de uma suposta
natureza dos homens:
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É para a mútua conservação que a natureza deu a um o comando e impôs a


submissão ao outro. Pertence também ao desígnio da natureza que comande
quem pode, por sua inteligência, tudo prover e, pelo contrário, que obedeça quem
não possa contribuir para a prosperidade comum a não ser pelo trabalho de seu
corpo. (ARISTÓTELES, 2006, p. 23)

O discípulo de Platão apresenta, assim, o trabalho como trabalho escravo, pois


ninguém poderia ser verdadeiramente livre e, ao mesmo tempo, obrigado a ganhar o
próprio. Todavia, para Immanuel Kant, é o homem o único animal voltado essencialmente
ao trabalho. Para isso, o homem entra em contato com a natureza, transformando-a. O
trabalho, portanto, é a humanização da natureza. Mesmo que todas as condições
existissem para que não houvesse necessidade de o homem trabalhar, este precisaria de
ocupações ainda que lhe sejam penosas (KANT, 2013).
Conforme a noção hegeliana, o trabalho é uma relação peculiar entre homem e
objeto, na qual se unem dialeticamente a prévia-ideação do sujeito e sua objetivação, o
subjetivo e objetivo, o particular e o geral, e que se concretiza através dos instrumentos
de trabalho, sendo esses mediadores entre o homem e a natureza. Assim, ainda para
essa concepção idealista-dialética, ao humanizar a natureza, o homem se humaniza a si
mesmo. Para explicar a realização do trabalho, Hegel utilizou o conceito de superação
dialética (aufheben), o qual possui três estágios: a) negação (destruição da forma natural);
b) conservação (algo da matéria original é aproveitada); c) superação (a matéria alcança
os objetivos humanos). Entretanto, essa concepção levava em conta somente a parte
criativa do trabalho, não as deformações da realidade social, a exemplo da exploração do
homem pelo homem. (KONDER, 2008)
Sobretudo, um dos principais teóricos do trabalho foi o filósofo Karl Marx, que
analisou os desdobramentos do sistema capitalista. Ele descreve o trabalho como uma
condição fundamental para que o homem se realize enquanto ser social, pois o trabalho é
antes de tudo

(...) um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser


humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio
material com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças
naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, afim de apropriar-se dos
recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim
sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria
natureza. Desenvolve as potencialidades, nela adormecidas e submete ao seu
domínio forças naturais. (MARX, 2016, p. 211)
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Logo, Marx ressaltava a importância do trabalho para o homem e sua relação


de interação com a natureza. E essa interação engrandece o homem como ser e o faz
desenvolver habilidades para conseguir o próprio sustento. Bem como acreditava Hegel.
No entanto, no capitalismo, a concepção de trabalho tem sua base modificada pela
relação do trabalho assalariado com o capital. Marx, em sua teoria da divisão social do
trabalho, realizou críticas específicas ao modo de produção capitalista e à forma como as
pessoas são alienadas através dessa ferramenta.

3 HUMANO, LIMITADO HUMANO: A ALIENAÇÃO

Segundo Sérgio Lessa e Ivo Tonet (2011), a alienação propriamente dita é um


processo antigo, já vislumbrado nas sociedades primitivas. Entretanto, não possui o
mesmo significado que na sociedade civil. Àquelas, a ordem do mundo material é
atribuída a uma força sobrenatural (deuses, espíritos, energias cósmicas etc.) que
sustenta, de forma rígida, a história dos homens. Nesse sentido, o sujeito alienado atribui
a outrem a responsabilidade pela construção de suas próprias mãos.
Com a divisão da sociedade em classes, o trabalho (a transformação da
natureza em produto do homem), ao gerar riqueza, gera concomitantemente a pobreza.
Mais especificamente, no momento histórico da civilização burguesa, os detentores dos
meios de produção se relacionam com os trabalhadores através de um processo de
expropriação da riqueza produzida pelos esforços desses últimos. Com isso, o trabalho
deixa de ser uma manifestação das necessidades humanas a serem suprimidas e de
desenvolvimento das potencialidades humanas e passa a servir como mera exigência
mercadológica para manutenção da propriedade privada. Assim, a própria força de
trabalho útil se transforma em uma relação de troca, ou seja, em trabalho assalariado:

O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais
a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma
mercadoria tão quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das
coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos
homens (Menschenwelt). O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz
a si mesmo e ao trabalhador como mercadoria, e isto na medida em que produz,
de fato, mercadorias em geral. (MARX, 2004, p. 80)
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Em contraste com as sociedades primitivas, a moderna divisão do trabalho


resume toda essa categoria de atividade humana em trabalho alienado. Isso porque a
força de trabalho do proletário é direcionada pura e simplesmente para a produção de
riqueza da classe burguesa. O produtor da riqueza, o proletariado, não a detém, pois é
despojada pela classe dominante. Desta forma, o sujeito não se reconhece no produto do
seu trabalho, e transfere essa imagem para outro. A economia burguesa faz com que o
produto do trabalho não pertença ao seu produtor e, ainda mais, que seja o objeto algo
estranho e alheio ao seu sujeito. Como pode a mercadoria pertencer ao trabalhador, se
quanto mais ele a produz mais se empobrece? Essa é a fórmula capitalista para ocultar
as contradições entre os processos de acumulação e de produção (capital x trabalho).
Contudo, segundo Marx (2004), é evidente que a alienação não é só referente
à relação do homem com a mercadoria, mas também à relação do homem com o próprio
homem, enquanto ser pertencente do gênero humano. As estruturas de produção sob a
égide do capital são individualizantes, fazem com que o trabalhador não se sinta ligado
aos demais homens. Não que a individualidade seja algo ruim, mas sim a individualização
como forma de transformação da vida em um meio de vida, ou seja, a vida do trabalhador
só vale como valor-de-troca na forma de força de trabalho, como apenas mais uma coisa,
uma mercadoria comprada pelo capitalista para produzir outras. Por não se reconhecer no
aspecto mais fundamental da vida humana, que é o trabalho, ele não reconhece parte
essencial do ser humano enquanto espécie, sua vida não está ligada à dos demais.
Quando se desapercebe da sua essência, de sua ligação comunitária com os outros
indivíduos, o homem se fecha em si e se aliena. Não se reconhece como membro do
gênero humano, mas como um ente à parte. E a sociedade burguesa se torna esse todo
que se vê como parte, negando as relações sociais e até mesmo afetivas existentes. O
capitalismo é um constructo social de uma ordem antissocial, i. e., a humanidade se
encaminhando para sua própria desumanização total.

4 APARÊNCIA E ESSÊNCIA NA MERCADORIA: O FETICHISMO

Dentre as várias categorias de análise da obra marxiana, o fetichismo da


mercadoria vem a ser uma das mais enigmáticas. Até mesmo nos meios acadêmicos,
essa noção quase sempre está atrelada a uma crítica do consumismo. Como se
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fetichismo se resumisse a uma adoração irrestrita a determinada marca. Por isso, é


importante uma explanação mais aprofundada desse conceito. Contudo, para avançar um
passo, faz-se necessário voltar dois no tempo e verificar como se origina a definição de
fétiche nas sociedades primitivas, e como Marx assimila analógica e dialeticamente isso
na sua crítica da economia política. Conforme Amaro Fleck:

A palavra “fetichismo” deriva de “fetiche”. “Fetiche”, em português, deriva da


palavra francesa “fétiche”, a qual, por sua vez, tem sua origem na portuguesa
“feitiço”. Esta última, por fim, remete à latina “facticius”, significando
aproximadamente o mesmo que “artificial”. O dicionário Le Petit Robert enumera
três significados para “fétiche”: “1. Nome dado pelos brancos aos objetos de culto
das civilizações ditas primitivas”, “2. Objeto ao qual se atribui um poder mágico ou
benéfico” e “3. Aquilo que é reverenciado sem discernimento.” (FLECK, 2012, p.
143)

Assim, pode-se observar que, seja qual for a definição semântica, o fetiche
deriva de uma fundação místico-religiosa, na qual um objeto transita por dois mundos
simultaneamente, pois existe no plano sensível (físico), mas é apenas um receptáculo de
algo intocável (metafísico), i. e., o mundo humano é apagado pelas propriedades
mágicas, que, por sua vez, são incompreensíveis e inexplicáveis. Mas, acima de tudo,
esse objeto ganha uma dimensão autônoma em relação à sociedade humana que o criou,
exercendo um poder sobrenatural sobre os próprios homens que o produziram. A partir
disso, percebe-se também certa fantasmagoria nas atribuições da mercadoria:

À primeira vista, a mercadoria parece ser coisa trivial, imediatamente


compreensível. Analisando-a, vê-se que ela é algo muito estranho, cheio de
sutilezas metafísicas e argúcias teológicas. Como valor de uso, nada há de
misterioso nela, quer a observemos sob o aspecto de que se destina a satisfazer
necessidades humanas, com suas propriedades, quer sob o ângulo de que só
adquire essas propriedades em consequência do trabalho humano. [grifos meus]
(MARX, 2016, p. 92)

Destarte, na sociedade civil burguesa, o fetichismo acontece quando a


aparência da mercadoria se realiza através de determinado valor de troca sobrepujando
sua essência, i. e., o que esse valor realmente significa: uma média de força de trabalho
social humano. É assim que os objetos da prévia-ideação (mercadoria e dinheiro), no
capitalismo, ganham uma existência independente da consciência: através da ação do
deus Mercado, transformando os indivíduos, os sujeitos produtores que o criaram, nos
objetos em questão. Acontece a transfiguração de relações estabelecidas entre os
homens em relações entre coisas. O sistema capitalista é um compêndio de trabalhos
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particulares que têm como objetivo não a autossuficiência ou a supressão de suas


necessidades básicas, mas a produção direcionada para a troca no mercado. O feitiço do
capital é uma forma social de trabalho “em que o processo de produção domina o homem,
e não o homem o processo de produção.” (ibidem, p. 102).
Sobretudo, o fetiche é um mecanismo das forças produtivas para a
dissimulação das relações sociais envolvidas, naturalizando e eternizando os valores das
mercadorias produzidas socialmente e neutralizando o valor do trabalho humano. Assim
as coisas parecem ganhar movimentos independentes, ditar suas próprias regras quando,
na verdade, são as ações histórico-sociais do próprio homem, as quais ele perdeu o
controle. Como consequência disso, o capitalismo garante a reprodução social da vida em
um sistema de dominação, exploração e desigualdades que adquiriu autonomia e agora
está além da consciência moral de qualquer indivíduo pertencente a qualquer classe. A
dimensão espectral do Mercado paira sobre tudo e sobre todos, e sua mão invisível pesa.

5 UM ANALGÉSICO SOB A LÍNGUA: A IDEOLOGIA

É nesse momento sobrenatural e, ao mesmo tempo, de naturalização do “não-


natural” que precisamos situar o conceito de ideologia. Para o senso comum, entende-se,
geralmente, por ideologia um conjunto de ideias e crenças em que cada indivíduo tende a
interpretar o mundo. É uma daquelas palavras pertencentes ao grupo semântico de
grande elasticidade, ou seja, com uma vasta amplitude de sentidos. E, na maioria das
vezes, é tida como forma de depreciação. Afinal, como o mau-hálito, a ideologia é algo
que só o outro possui. Em contrapartida, o método do materialismo histórico-dialético,
formulado por Friedrich Engels e Karl Marx, afirma que a ideologia é uma relação social
vivenciada e determinada pelas estruturas de produção.

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, i. e., a


classe dominante é a força material dominante da sociedade e é, ao mesmo
tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios
de produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo
que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos
daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual. (Engels; Marx, 2007,
p. 47)
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Deste modo, encontra-se aqui uma série de determinações dialéticas, que se


irradiam mutuamente. Em primeiro plano, vemos que a ideologia não deriva
aprioristicamente de uma “consciência neutra”. Pelo contrário, é a consciência que deriva
da ideologia num dado processo de interação social. Em segundo lugar, as conexões
coletivas enlaçam os próprios indivíduos para se realizarem a si mesmos subjetivamente
a partir dos modos de produção material, que asseguram(-se) (pel)a reprodução da vida
espiritual de cada sociedade em determinado momento histórico. E ainda é preciso
salientar que a sociedade e os indivíduos são constituídos através da conexão entre os
seus demais. Portanto, o indivíduo só é determinado pelo coletivo porque, antes, é
preciso o contato entre os indivíduos para se criar o coletivo (sociedade), i. e., tornar-se
Sujeito-Objeto da História. O sujeito social não se faz a si mesmo isoladamente, mas em
relação com o outro.
Nessa organização humana, o mundo social, surgem práticas significantes que
vincularão os sujeitos às relações de produção de seu tempo. Isto é o que se pode
chamar de ideologia. A função da ideologia, na sociedade burguesa, assemelha-se à
função de um analgésico: não é curar a dor, mas reduzir a percepção da dor. O que, em
todo caso, não é o mesmo que mentir para o corpo. A ideologia não se resume a uma
falsificação da realidade. Por exemplo, alguém afirmar que vivemos numa sociedade
capitalista é uma declaração política, não necessariamente ideológica, mas se a mesma
pessoa acrescenta “e é a alternativa econômica viável”, aí temos um enunciado
marcadamente ideológico. A ideologia são as ideias que predominam em determinado
momento histórico e que naturalizam a realidade tal como é, imutável. Mesmo sabendo
que há dor, o corpo reage como se a dor nunca houvesse existido. Não significa que
subjetivamente a ideologia seja uma distorção ou falsificação do estado das coisas, mas
que objetivamente está condicionada aos limites da sociedade burguesa, é refém do
próprio estado vigente das coisas. No entanto, se a ideologia é determinada pelas bases
das interações sociais entre os homens, o movimento real exercido por estes provoca
uma modificação na tessitura material, que desencadeia uma alteração também na
ideologia e, por conseguinte, nos usos sociais da língua. Assim, o que distingue a filosofia
(marxista) da linguagem da concepção axiomática do positivismo durkhemiano é que,
para a primeira, as manifestações ideológicas podem ser dialeticamente superáveis, já
que a realidade material também pode vir a ser.
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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em toda a história da filosofia, os filósofos e suas teorias sempre foram alvos


de admiração e de estranhamento por parte da sociedade. Ou seja, enquanto
determinados indivíduos aderem a determinada teoria como um intenso sistema de ideia;
outros, no entanto, são contrários a tais pensamentos.
Analisando a partir dessa esfera, pôde-se observar que o mesmo aconteceu
com o filosofo alemão Karl Marx em sua obra. Este enfatizou temas polêmicos e
pertinentes em seu trabalho. Os quais atribuem uma nova perspectiva ao ser. Logo, para
a teoria marxiana, as relações econômicas do capitalismo acabam por objetificar o
homem.
O pensamento filosófico de Marx retrata, de forma abrangente, as categorias
de análise: trabalho, alienação, fetichismo, ideologia, dentre outras. Porém, para
compreender verdadeiramente seu conteúdo, faz-se necessário o conhecimento da obra
em sua totalidade. Sem o método de análise do materialismo histórico-dialético a
essencialidade das ideias marxianas sofrerá uma interpretação equivocada, dando
continuidade às adulterações que persistem ao tempo.
Vale ressaltar que grande parte dos pensamentos filosóficos e sociológicos
trazem para a sociedade imensa contribuição, seja para a formação do pensamento
ontológico do ser ou para a compreensão das relações de poder que determinam o
conjunto dos seres sociais.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. A política. Trad. Pedro Constantin Tolens. Rio de Janeiro: Martin Claret,
2008. p. 23.

ENGELS, F.; MARX, K. A ideologia alemã. Trad. Luciano Martonaro et al. São Paulo:
Boitempo, 2007. p. 47.

FLECK, A. O conceito de fetichismo na obra marxiana: uma tentativa de interpretação. In:


Revista Ethic@: Florianópolis, v. 11, n. 1, p. 143. jun. 2012. Disponível em:
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<https://periodicos.ufsc.br/index.php/ethic/article/view/1677-2954.2012v11n1p141/22909>.
Acesso em: 30 de nov. 2018.

KANT, I. A metafísica dos costumes. Trad. Clélia Aparecida Martins. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2013.

KONDER, L. O que é dialética. 28 ed. São Paulo: Brasiliense, 2008.

LESSA, S.; TONET, I. Introdução à filosofia de Marx. 2 ed. São Paulo: Expressão
Popular, 2011.

MARX, K. O Capital: Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do


capital. Trad. Reginaldo Sant’ Anna. 34 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, v. 1,
2016.

______. Manuscritos econômicos-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. São Paulo:


Boitempo, 2004. 175 p.