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FACULDADE SANTA TEREZINHA – CEST

CURSO DE DIREITO 2º PERÍODO 2016.1


DISCIPLINA: TEORIA GERAL DO PROCESSO
DOCENTE: VALÉRIA CRISTINA V. PEREIRA SANTOS
DISCENTE: MAILSON JOSÉ DOS SANTOS MATOS
DATA: 13 de Junho de 2016

LADY MACBETH

VARA CRIMINAL DA COMARCA DO CEST – MA

EXCELENTÍSSIMA JUÍZA DE DIREITO DA VARA CRIMINAL DA COMARCA


DO CEST/MA

PROCESSO N° 8058/92

CATIERINA LVOVNA IZMAILOVA, devidamente qualificada nos autos,


denunciada pelo Ministério Público pelos crimes imputados contra a sua pessoa, vem
respeitosamente perante a este juízo, apresentar sua Defesa.

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A priori, é oportuno ressaltar que contra a vida pregressa de Catierina Lvovna
não pesa nenhuma acusação, nenhuma mácula que a desabone socialmente, pois mesmo
sendo uma bela mulher, jovem e solteira, ela jamais havia se envolvido em qualquer
circunstância ou ato considerado de ofensa aos valores éticos, morais ou sociais na
cidade onde vivia.
Catieirina era uma mulher cheia de vida e de sonhos, pois estava no ápice de sua
juventude, vivia com simplicidade, mas vivia com dignidade e muito feliz ao lado de
seus familiares, entretanto, após aceitar o pedido de casamento feito pelo Senhor
ZINOVI BORÍSSITCH, um comerciante bem mais velho que Catierina, a sua vida
mudaria.
O casamento de Catierina não foi celebrado, consumado através do maior e mais
puro sentimento que une um homem e uma mulher, o amor. O casamento de Catierina
foi um casamento arranjado, foi um casamento planejado não por ela, mas pela vontade
de seus familiares, algo como uma obrigação, como um dever que ela como filha
responsável e obediente que sempre foi, deveria aceitar.
Deste modo, podemos entender que foi violado de forma sútil, Direitos,
Garantias fundamentais positivadas na CRFB/1988, como o Direito à Liberdade
constante no bojo do Caput do Artigo 5º, ferindo também o que está expresso no Artigo
5º em seu inciso II, que diz: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma
coisa senão em virtude de lei;”. Pois bem, mesmo não havendo uma imposição física ou
material, Catierina foi pressionada psicologicamente, foi induzida por seus familiares e
também podemos dizer que assim o foi pela sociedade, a aceitar as benesses que o
casamento com o comerciante ZINOVI BORÍSSITCH, traria.
Para agravar ainda mais a situação de Catierina, após o casamento, ela foi de
certa forma abandonada pelo marido, que devido ao fato dele ser um comerciante, este
dedicava mais tempo para o seu trabalho do que para o próprio casamento, onde vivia
viajando, passando longos dias longe de sua casa e de sua esposa, deixando Catierina
vivendo enclausurada na residência onde morava apenas com seus dois únicos
familiares, com o seu ausente marido e com o seu idoso sogro, o senhor Borís
Timofiêitch, sem direito a carinho ou a qualquer entretenimento para passar o longo
tempo de tédio e solidão que o casamento havia lhe condenado.

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Portanto, pode-se enquadrar que tal situação é vedada pelo ordenamento jurídico
pátrio, pois fere um Princípio Estruturante da Constituição Federal, o princípio da
Dignidade da Pessoa Humana, além de transgredir o que está exposto na CRFB/1988
em seu Art. 5º, inciso III, que diz o seguinte: “ninguém será submetido a tortura nem a
tratamento desumano ou degradante;”.
Como uma mulher se sentiria realizada, como uma mulher se sentiria feliz e
radiante com um casamento que só lhe trazia sofrimento, solidão e carência?
Pela obra do destino, pelas circunstâncias narradas em que vivia Catierina, ela
conheceria uma pessoa que mudaria a sua vida infeliz, o senhor Serguier, um jovem
serviçal que passou a trabalhar na propriedade onde morava Catierina, sendo, portanto,
um funcionário de seu marido, o senhor ZINOVI BORÍSSITCH. O senhor Serguier, já
possuía a reprovável fama de mulherengo, um Dom Ruan, pois havia sido expulso da
antiga propriedade onde trabalhava por ter se envolvido com a mulher do fazendeiro
que havia lhe contratado.
Fadada a uma vida de sofrimento, de solidão e carência afetiva imposta pelo
casamento com o comerciante ZINOVI BORÍSSITCH, Catierina seria então uma vítima
perfeita das artimanhas de qualquer conquistador que oferecesse o que ela não
desfrutava, de carinho e atenção de um homem.
Vivendo infeliz e traída pela solidão, Catierina foi seduzida por Serguier, um
belo jovem, mas que já possuía grande experiência na arte de seduzir e de desfrutar o
prazer que uma mulher pode lhe oferecer. Foi assim, que Serguier se aproveitou da
situação frágil, vulnerável de Catierina, para conquistar o que ela possuía de mais
valioso, o seu amor.
Foi unicamente por esta situação frágil, vulnerável, de solidão e carência afetiva,
que Catierina acabou sendo seduzida pelo tal de Serguier, e que a levaria a uma paixão
avassaladora, que a faria perder a plena capacidade de discernimento, e que no final se
revelaria em uma paixão doentia e degeneradora de virtudes.
Sendo assim, Serguier sabendo da total entrega de Catierina aos seus braços,
ocorreu que em uma noite na qual o senhor ZINOVI BORÍSSITCH não se encontrava
na propriedade, decidiu de forma sórdida visitar os aposentos de Catierina, entretanto,
tal ousadia foi flagrada pelo senhor Borís Timofiêitch sogro de Catierina, descendo do
quarto dela pela coluna da casa. Após ter sido pego, Serguier foi levado para a despensa
onde foi açoitado covardemente pelo senhor Borís, como forma de castigá-lo pelo ato

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repugnante contra a honra de sua família, o que causaria uma grande revolta em
Catierina, por está presenciando toda a crueldade cometida contra à pessoa a quem
verdadeiramente amava profundamente.
Tomada pelo amor cego e doentio que lhe consumia, Catierina ao ver a injustiça
e a crueldade cometida pelo senhor Borís contra o seu amado, além das ameaças deste,
Catierina foi possuída por um sentimento de vingança, e para proteger a vida de
Serguier e a sua própria vida, acabou sendo levada a cometer um delito ao pôr certa
quantidade de veneno na comida de seu sogro Borís, o que o levaria à morte.
Apesar da morte do Senhor Borís, não podemos esquecer dos crimes por ele
cometidos: As Lesões Corporais cometidas contra Serguier, conforme disciplina o
Artigo 129 do Código Penal.
Desta forma, a Defesa conclui que homicídio praticado contra o senhor Borís por
Catierina, pode ser abrangido pela condição de diminuição de pena, por está
configurado no Código Penal em seu Art.121,§ 1º “Se o agente comete o crime impelido
por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção,
logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto
a um terço”.
Assim sendo, com o amor desmedido que sentia por Serguier, e totalmente
controlada pelos impulsos e vontades dele, Catierina foi mais uma vez impulsionada a
cometer mais um homicídio, pois Serguier era interessado no patrimônio conquistado
pelo marido de Catierina, e sonhava ambiciosamente em substitui-lo como comerciante,
para assim ter prestígio na sociedade em que vivia.
O segundo homicídio imputado contra Catierina aconteceu da seguinte forma:
após a chegada do senhor ZINOVI BORÍSSITCH que se encontrava fora de casa há
muitos dias, nesta mesma noite, houve uma discussão entre ele e Catierina, pois ele
havia ouvido boatos sobre a infidelidade de sua esposa, o que desencadeou uma briga
entre ambos, onde Serguier interessado em tomar o seu lugar, interveio, onde após
agressões mútuas, e em desvantagem, ZINOVI BORÍSSITCH foi dominado com a
ajuda de Catierina após ela perceber que Serguier havia sido ferido, e num impulso para
defender a vida do seu amado, ajudou o amante a estrangular o seu marido até a morte.
Mas a Defesa chama atenção neste momento para a atitude de Catierina que
pode ser enquadrada em Legítima Defesa de Outrem, conforme o Artigo 25 do Código
Penal, uma excludente de ilicitude, pois ela agiu para desta forma, para defender a vida

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de seu amado que acara de ser ferido e não havia a possiblidade de apaziguar os ânimos
naquela situação trágica.