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Escola Correcional Quinze de Novembro


Gláucia Tomaz de Aquino Pessoa
maio, 2018

A Escola Correcional Quinze de Novembro, também denominada Premonitória Quinze de


Novembro ou Quinze de Novembro, foi criada pelo decreto n. 4.780, de 2 de março de 1903, com
a finalidade de dar educação física, profissional e moral aos menores abandonados e recolhidos ao
estabelecimento por ordem das autoridades competentes conforme estipulado no art. 7º da lei n.
947, de 29 de dezembro de 1902. Conforme esse diploma legal, foram classificados na categoria
"menores abandonados" os indivíduos maiores de nove anos de idade e menores de quatorze
órfãos ou que, por negligência, vícios ou enfermidade dos pais ou tutores, parentes ou indivíduos,
ou por outras causas, tivessem a sua guarda entregue às autoridades policiais ou judiciárias, ou
fossem encontrados habitualmente sós na via pública ou privados de educação (BRASIL, 1902,
art. 7º, incisos I e II; BRASIL, 1907, art. 2º).
Conforme ressaltado pelo decreto que regulamentou a Escola Correcional Quinze de
Novembro, cabia-lhe ainda “velar sobre menores que pelo abandono ou miséria dos pais, vivem às
soltas e expostos à prática e transgressões próprias de sua idade” (BRASIL, 1907). Desse modo,
sua criação se justificava também pelo caráter preventivo em detrimento do repressivo, que se
daria por meio de um conjunto de práticas pedagógicas e do ensino profissional. Em 1910, a partir
do regulamento baixado pelo decreto n. 8.203, de 8 de setembro, a escola passou a se chamar
Premonitória Quinze de Novembro, o que lembrava sua missão de prevenir que os "menores
abandonados" viessem a se tornar, no futuro, possíveis infratores (VIANNA, 1999, p. 63).
Essa característica distinguiu a Escola Premonitória de outras instituições que também se
destinavam à internação de "menores", mas se destacavam por seu caráter predominantemente
repressivo como a Casa de Detenção do Distrito Federal e a Colônia Correcional de Dois Rios,
esta última ligada na época à 2ª Seção da Diretoria-Geral da Justiça do Ministério da Justiça e
Negócios Interiores. No regulamento da colônia, baixado pelo decreto n. 1.794, de 11 de setembro
de 1894, não havia referência quanto à separação dos que se encontravam detidos. No entanto,
naquele estabelecimento foram internados tanto os menores submetidos a processos jurídicos
quanto aqueles recolhidos em virtude de diversas resoluções (SANTOS, 2009, p. 112 e 144-5;
VIANNA, 1999, p. 57-8).
As transformações econômicas, sociais, políticas e culturais que já estavam em curso
desde o final do XIX alteraram drasticamente a vida na cidade do Rio de Janeiro logo nos
primeiros anos do século seguinte. Se, por um lado, a mudança de regime político com a
Proclamação da República inaugurou um período de intensa agitação na maior cidade do país, por
outro, a abolição da escravidão alteraria drasticamente seu perfil. Conforme aponta a
historiografia, as alterações foram de natureza quantitativa, sendo a primeira delas de ordem
demográfica, depois étnica e ocupacional. Após a abolição, parte da mão-de-obra escrava se
dirigiu ao mercado de trabalho livre, ocorrendo dessa forma uma emigração em massa da região
cafeeira para a capital. Esse movimento emigratório, somado à imigração estrangeira
predominantemente portuguesa, resultou num crescimento populacional significativo. Todo esse
contingente só veio a engrossar o número de indivíduos que então viviam na capital do país em
condições de vida precárias, sofrendo com o custo de vida, os surtos epidêmicos, a escassez de
habitações, sem ocupação fixa e subempregadas (CARVALHO, 1987, p. 15-19). Nesse contexto,
crianças e adolescentes se viram obrigados a trabalhar em serviços pesados em troca de
remuneração irrisória ou a vagarem pelas ruas, pedindo esmolas e cometendo pequenas infrações.
Assim, a ação da polícia no Distrito Federal em nome da manutenção da ordem que vinha
sendo instituída desde a Proclamação da República, passou a visar o controle da população urbana
pobre através de uma vigilância estrita desses indivíduos considerados transgressores e, portanto,
potencialmente suspeitos de qualquer crime.
A partir da lei n. 628, de 28 de outubro de 1899, passou à competência dos chefes de
Polícia e delegados auxiliares no Distrito Federal mover ação judicial contra a vadiagem, a
mendicância, a capoeiragem, a embriaguez, os jogos de azar, loterias e rifas não autorizadas por
lei, que foram práticas incluídas na categoria contravenção conforme definido pelo Código Penal
de 1890. Mantinham ainda o controle de todas as etapas do julgamento, excetuando a sentença
final que era prerrogativa do Poder Judiciário (VIANNA, 1999, p. 45).
No que se refere ao recolhimento de menores no Distrito Federal, tal tarefa ficou a cargo
das delegacias distritais ou do Corpo de Segurança Pública, ambos com função de vigilância da
cidade, cabendo à secretaria, na figura do chefe de Polícia, designar a instituição onde os menores
recolhidos seriam internados. Os juízes de órfãos também podiam remeter os menores para a
Escola XV de Novembro. No entanto, essa autoridade judiciária praticamente não participava do
processo de designação dos menores, sendo a grande maioria enviada por determinação direta do
chefe de Polícia até a década de 1920 (VIANNA, 1999, p. 72).
De 1899 até 1908, a Escola Correcional funcionou em São Cristóvão, sendo transferida
posteriormente para uma região rural no Estado do Rio de Janeiro denominada Fazenda da Bica,
na estação de Quintino Bocaiuva. A escola ficou sob a imediata inspeção do chefe de Polícia,
sendo destinada aos indivíduos do sexo masculino. Conforme registrado no relatório do diretor
Franco Vaz, no período de 1903 a 1912 a instituição não se caracterizava por sua função punitiva,
mas sim pela prevenção então dirigida aos menores abandonados e órfãos, e ainda, aos já
classificados pela polícia por ‘vadios’, isto é, aqueles indivíduos considerados potencialmente
perigosos. Afirmava também que a Quinze de Novembro não se destinava àqueles que já tivessem
incidido em sanção penal. Ao completar a idade de 17 anos, o interno deveria ser dela desligado,
sendo autorizado pela instância que o havia admitido (VIANNA, 1999, p. 63-4, 66).
Destinada a oferecer aos internos educação física, moral e também profissional, a missão
pedagógica da escola foi adaptada ao perfil dos seus internos, descritos pelo regulamento de 1903
como “gente desclassificada” cuja instrução e o ensino profissional se resumiriam ao
indispensável à sua integração na sociedade (BRASIL, 1907).
Embora fosse considerada uma instituição modelar, após dois anos de funcionamento, a
Escola XV de Novembro sofreu duras críticas por parte do diretor Franco Vaz, entre as quais
destacam-se: condições insatisfatórias de higiene e vigilância sobre os internos, ensino
profissional pouco eficaz e menores delinquentes convivendo com menores não delinquentes.
Diante desse quadro, o próprio diretor deu início a um processo de reorganização da escola do
qual resultou um novo regulamento onde a observância do trabalho deveria ser mais rigorosa, com
vistas a transformá-la numa instituição considerável e modelar (RIZZINI, 2011, p. 234-5).
No segundo regulamento, baixado pelo decreto n. 8.203, de 8 de setembro de 1910, sua
competência foi mantida, mas, conforme já enunciado no regulamento anterior, sendo os internos
pertencentes às ‘classes pobres’, receberiam apenas a instrução primária e o ensino profissional na
medida necessária para permitir sua integração à vida social. No entanto, os internos que
apresentassem ao longo do estágio capacidade para prosseguir seus estudos, seriam admitidos nas
instituições secundárias ou artísticas, custeadas pela União, sendo preferíveis a quaisquer outros
que se candidatassem a esses estabelecimentos de ensino (BRASIL, 1915, art. 3º). Nesse mesmo
regulamento, foi prevista a instalação das oficinas de sapateiro, correeiro e seleiro, marceneiro,
entalhador, carpinteiro, empalhador, vassoureiro, funileiro, ferreiro, serralheiro, limador, oleiro,
torneiro de ferro e madeira, canteiro, alfaiate, tipógrafo, encadernação, gravador, eletricidade, e
anexa a elas funcionava uma aula de desenho.
Em 20 de dezembro de 1923, o decreto n. 16.272, aprovou o regulamento da assistência e
proteção aos menores abandonados e delinquentes, que havia sido criada com a Lei Orçamentária
Federal n. 4.242, de 5 de janeiro de 1921. Com o decreto n. 16.272, foi criado no Distrito Federal
o primeiro Juízo de Menores, inaugurando, assim, um modelo de atuação que seria mantido ao
longo de toda a história da assistência pública oficial do país. Foram criados também novos
estabelecimentos destinados aos menores provenientes das camadas pobres, a fim de cumprir as
determinações da política sistemática de internação de cunho assistencialista e paternalista
adotada pelo Juízo de Menores. Dessa forma, o art. 37 do decreto n. 16.272 autorizou a divisão da
Escola 15 de Novembro em duas sessões, uma de reforma e outra de preservação, e criou ainda o
Abrigo de Menores e uma escola de preservação. Esse mesmo decreto instituiu o Conselho de
Assistência e Proteção aos Menores no Distrito Federal (RIZZINI, 2011, p. 242, 244 e 251).
A seção de preservação da Escola 15 de Novembro destinava-se a receber os menores do
sexo masculino, maiores de 14 e menores de 18 anos, julgados e remetidos para internação pelo
juiz de menores, para ali serem regenerados pelo trabalho, pela educação e pela instrução. Já a
sessão ou escola de reforma se destinava aos menores criminosos e contraventores. A escola
possuiria uma só administração, mas as duas sessões funcionariam em edifícios separados
(BRASIL, 1923a, artigos 37 e 74). No entanto, as obras de construção do edifício onde seria
instalada a escola de reforma foram suspensas por ordem do então ministro da Justiça, Afonso
Pena Júnior, por considerar inapropriada a proximidade entre os menores abandonados e os
criminosos e contraventores.
Em 1926, pelo decreto n. 17.508, de 4 de novembro, foi aprovado para a antiga Seção de
Reforma da Escola 15 de Novembro, denominada Escola João Luiz Alves em 1925, um novo
regulamento. A Escola João Luiz Alves foi instalada em terreno pertencente à União, na Ilha do
Governador, onde anteriormente funcionara a Colônia de Alienados. No período em que José
Gabriel de Lemos Britto foi seu diretor (1926 a 1930), a escola foi considerada uma instituição
modelo (RIZZINI, 2011, p. 253 e 255).
O Código de Menores de 1927, também denominado Mello Mattos, consolidou as leis de
assistência e proteção a menores por meio do decreto n. 17.943-A, de 12 de outubro de 1927. Tal
codificação representou de fato um ponto de inflexão relativamente à ação do Estado, que passou
a implementar políticas públicas de cunho social, beneficiando crianças e adolescentes tanto
abandonados quanto delinquentes em detrimento da repressão policial até então praticada.

Gláucia Tomaz de Aquino Pessoa


maio, 2018

Bibliografia
BRASIL. Decreto n. 847, de 11 de outubro de 1890. Promulga o Código Penal. Disponível em:
<https://goo.gl/2RCX6z>. Acesso em: 21 nov. 2017.
____. Decreto Legislativo n. 145, de 11 de julho de 1893. Autoriza o governo a fundar uma
colônia correcional no próprio nacional Fazenda da Boa Vista, existente na Paraíba do Sul, ou
onde melhor lhe parecer. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de
Janeiro, parte 1, p. 15-16, 1894.

____. Decreto n. 1.794, de 11 de setembro de 1894. Dá regulamento para execução do decreto


legislativo n. 145, de 11 de julho de 1893. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do
Brasil, Rio de Janeiro, parte 2, p. 723-737, 1895.

____. Decreto n. 2.432, de 12 de janeiro de 1897. Declara extinta a Colônia Correcional dos Dois
Rios. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de Janeiro, parte 2, p. 57,
1898.

____. Lei n. 628, de 28 de outubro de 1899. Amplia a ação penal por denúncia do Ministério
Público, e dá outras providências. Disponível em: <https://goo.gl/57dHok>. Acesso em: 3 maio
2018.

____. Lei n. 947, de 29 de dezembro de 1902. Reforma o serviço policial no Distrito


Federal.Disponível em: <https://goo.gl/e8HX2w>. Acesso em: 6 mar. 2018.

____. Decreto n. 4.780, de 2 de março de 1903. Aprova o regulamento para a Escola Correcional
Quinze de Novembro. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de
Janeiro, v. 1, p. 263-276, 1907.

____. Decreto n. 6.994, de 19 de junho de 1908. Aprova o regulamento que reorganiza a Colônia
Correcional de Dous Rios. Disponível em: <https://goo.gl/cXnWza> Acesso em: 13 abr. 2018.

____. Decreto n. 8.203, de 8 de setembro de 1910. Dá novo regulamento à Escola Premonitória


Quinze de Novembro. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de
Janeiro, v. 2, p. 419-439, 1915.

____. Decreto n. 16.272, de 20 de dezembro de 1923. Aprova o regulamento da assistência e


proteção aos menores abandonados e delinquentes. Coleção das leis da República dos Estados
Unidos do Brasil, Rio de Janeiro, v. 3, parte 1, p. 363-383, 1923a.

____. Decreto n. 16.037, de 14 de maio de 1923. Aprova o regulamento da Escola 15 de


Novembro. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de Janeiro, v. 2, p.
418-434, 1923b.

____. Decreto n. 17.172, de 30 de dezembro de 1925. Resolve que a Seção de Reforma da Escola
15 de Novembro passe a denominar-se Escola João Luiz Alves. Coleção das leis da República
dos Estados Unidos do Brasil, Rio de Janeiro, v. 2, p. 685, 1926.

____. Decreto Legislativo n. 4.983-A, de 30 de dezembro de 1925. Estabelece medidas


complementares às leis de assistência e proteção aos menores abandonados e
delinquentes. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de Janeiro, v. 1, p.
128-129, 1926.

____. Decreto n. 17.508, de 4 de novembro de 1926. Aprova o Regulamento da Escola João Luiz
Alves. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, Rio de Janeiro, v. 3, p. 264-
286, 1927.
BRETAS, Marcos Luiz. A guerra das ruas: povo e polícia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São
Paulo: Companhia das Letras, 1987.

SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Os porões da República: a barbárie nas prisões da Ilha Grande,
1894-1945. Rio de Janeiro, Garamond, 2009.

VIANNA, Adriana de Resende Barreto. O mal que se adivinha: polícia e menoridade no Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 1999.

RIZZINI, Irma. Meninos desvalidos e menores transviados: a trajetória da assistência pública até
a Era Vargas, p. 225-86. In: RIZZINI, Irma; PILOTTI, Francisco (orgs.). A arte de governar
crianças: a história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. 3 ed.
São Paulo: Cortez, 2011.

Documentos sobre o órgão podem ser encontrados nos seguintes fundos do Arquivo
Nacional

BR RJANRIO 23 Decretos do Executivo - Período Republicano


BR RJANRIO OI Diversos GIFI - Caixas e Códices
BR RJANRIO 4T Ministério da Justiça e Negócios Interiores
BR RJANRIO J8 Relatórios Diversos
BR RJANRIO HH Secretaria da Polícia do Distrito Federal
BR RJANRIO AF Série Justiça - Administração (IJ2)
BR RJANRIO AM Série Justiça - Polícia - Escravos - Moeda Falsa - Africanos (IJ6)