Você está na página 1de 10

Arte Barroca

Aula 3 - Características gerais


Barroco, Arte Total
O conceito de Arte Total não é um conceito novo na História da Arte. Embora
as discussões em torno desse conceito venham desde a Antiguidade, apenas
no século XIX foi desenvolvido por Richard Wagner.

Resumidamente, podemos dizer que ele propunha a convergência entre as


linguagens artísticas, produzindo um espetáculo completo. Para o compositor,
as artes não deveriam estar isoladas umas das outras, já que o homem é um
ser de linguagem.

Panini - Teatro Argentina, 1747

Essa categoria, Gesamtkunstwerk se refere à conjugação de canto, dança,


teatro, música e artes plásticas; pode se dizer que o sonho wagneriano de
Arte Total foi alcançado desde o século XIX, com a ópera. Para isso, ele criou
um teatro especial onde se desenrolariam suas óperas, integrando público e
palco.

Porém, para alguns autores contemporâneos, como Lúcia Santaella e Ricardo


Basbaum, a arte contemporânea é o exemplo mais apurado dessa
convergência de mídias que mistura mídia impressa, auditiva e visual.

O conceito de totalidade foi, porém, apropriado por diversas ciências sociais e


pode ser aplicado até mesmo na análise dos fatos mais recentes de nossa
história, inclusive no futebol, que deixa de ser apenas um esporte para se
tornar um fato social total,pois se torna uma questão de economia, de política,
de hábitos sociais etc.

No século XIX e no início do século XX, a noção de totalidade foi recuperada


pelos teóricos da arte que se interessaram em analisar a arte barroca. Wolfflin
e Eugenio d’Ors resgataram o Barroco em seus estudos mais famosos e se
colocaram contra a ideia – corrente desde o século XVIII – de que Barroco era
sinônimo de mau gosto.

Munidos de um arsenal teórico baseado no Formalismo e no Idealismo, esses


estudiosos e críticos do Barroco traçaram um panorama bastante favorável a
ele, seja como estilo, seja como tendência. Suas análises vieram contrariar
frontalmente a ideia corrente no século XVIII. Nesse último período, com o
advento da filosofia iluminista e do Neoclassicismo, a arte barroca passou a
viver seus dias mais inglórios. Na passagem do século XVIII para o XIX, os
teóricos partidários do antigo e renovadores de uma arte clássica
empregaram o adjetivo barroco para designar o que achavam de extravagante
e contrário à regra e ao gosto na obra dos mestres dos Seiscentos (século
XVII).

Formulada no século XVIII por aqueles que não viveram na sociedade do


século XVII, a denominação Barroco deixava aparente esse descrédito que até
o século XX dominaria a historiografia da Arte.

Mas como tinha sido visto o Barroco no seu século de ouro? Como os
intelectuais da época percebiam as mudanças visíveis na literatura e na arte?
Isso pode ser resumido por um debate que até hoje é um grande motivo de
estudos acerca da vida intelectual do século XVII: a “Querela entre os Antigos e
os Modernos”, título dado às inúmeras discussões que opunham os antigos (os
clássicos, os acadêmicos) e os modernos (os que eram diferentes destes
últimos e propunham novas maneiras de representar a realidade).

Longe de ser uma discussão local ou reduzida a uma único país, essa querela
era recorrente em quase todos os países do mundo ocidental, mostrando ser
um fenômeno abrangente geograficamente e que também não se reduzia ao
mundo da arte e da literatura.

A “Querela entre os antigos e modernos” foi apenas um aspecto de um


fenômeno geral que atingiu o mundo perfeito da época da Renascença: à
certeza absoluta na liberdade do Homem num mundo harmônico e significante
sucedeu uma atmosfera de incertezas durante todo o início do século XVII.
Incertezas políticas, com as lutas intensas dentro dos Estados Nacionais em
processo de formação, e guerras intermináveis entre eles (a Guerra dos Trinta
Anos); incertezas religiosas, com o surgimento do Protestantismo e suas
premissas básicas, como, por exemplo, a predestinação; incertezas filosóficas
diretamente ligadas às descobertas científicas de Copérnico, que retiravam a
Terra do centro do universo e colocavam nesse lugar o Sol, reduzindo a Terra a
simples planeta, mas aumentando sensivelmente a noção de infinitude do
universo.

As características do Barroco
Por volta do final do século XVII, a atitude mudou. Incorporando a dúvida
como único elemento de certeza na existência humana, Descartes inaugurou
um sistema de pensamento que implicava uma série de alternativas diferentes
para o ser humano, gerando assim um pensamento que implicava múltiplos
caminhos, um mundo plural, mas que exigia diretrizes claras para ajudar o
homem em sua escolha.

O novo mundo do século XVII, ao menos em sua teoria, oferecia ao homem a


possibilidade de escolha entre diferentes alternativas, sejam religiosas,
filosóficas, econômicas e políticas.

Todas as alternativas eram caracterizadas pelo objetivo do pensamento


cartesiano: chegar a um completo e seguro sistema baseado em axiomas a
priori ou dogmas. O homem queria segurança absoluta, e ele poderia achá–la
na tradição da Igreja Romana, em uma das escolas da Reforma Protestante, que
eram baseadas na absoluta verdade da Bíblia, no sistema de pensamento de
Descartes, Hobbes, Spinoza e Leibniz, ou na monarquia do “direito divino”.

Apesar de seu pluralismo, podemos considerar o século XVII uma época


unificada, a Época Barroca. Podemos dizer que o “esprit de système” de
D’Alembert estava já presente independentemente das diferenças de escolha.
Pelo viés da liberdade de escolha, o homem alargou as possibilidades de
estruturar sua própria vida.

1 - Antítese
O sistema cartesiano, apesar de tudo, era um sistema aberto. Não sendo
simples unidades, os elementos de todo um sistema dependiam de sua
propagação e um caráter dinâmico e centrífugo tornou-se geral em todas as
esferas. Propagação apenas se torna significante quando relacionada a
um centro que representa os axiomas básicos e as propriedades do sistema.
Os centros religiosos, políticos, econômicos e científicos eram focos de
atração e radiação e, vistos do centro, não tinham limites.
Os sistemas do século XVII tinham caráter dinâmico e aberto. Partindo de um
ponto fixo, eles podiam ser estendidos infinitamente, num jogo antitético
entre centralização e expansão sem limites. Nesse mundo
infinito, movimento e força são de primeira importância.

Compreende-se então por que os dois aspectos aparentemente contraditórios


do Barroco, sistematização e dinamismo, formavam uma totalidade
significante. A necessidade de pertencer a um sistema absoluto, integrado,
mas aberto, era a atitude básica da época barroca. Essa atitude era
alimentada pelos acontecimentos do período: viagens exploratórias abrindo
novos horizontes geográficos e alargando a complexidade cultural mundial
depois da colonização ultramarina, pesquisa científica substituindo a ideia de
harmonia e perfeição pela pesquisa empírica, forçando cada disciplina a
definir seu próprio campo de atuação. É importante acentuar que também os
artistas do século XVII conseguem sua autonomia em relação ao parâmetro
davinciano de uomo universale da Renascença. Ele não precisaria ser filósofo,
matemático, arquiteto, pintor ao mesmo tempo, guardando um lugar
específico para si dentro da hierarquia social.

2- Persuasão
Para que suas expectativas fossem alcançadas, o sistema jogava com
a Persuasão. Nesse contexto, a Igreja Católica passou a dar importância
cada vez maior às imagens; as igrejas protestantes praticavam a persuasão
por meio dos sermões em língua vernácula e com cantos e música sagradas;
as monarquias absolutas usavam as festas e os festivais como maneira de
fazer aparecer a glória do sistema.

A persuasão tinha a participação como objetivo. O mundo barroco pode ser


caracterizado como um grande teatro onde todos tinham um papel a
desempenhar. Essa participação pressupunha a imaginação, uma faculdade
educada pelos meios artísticos.

Portanto, a arte na época barroca era de importância fundamental e


ultrapassava de longe o prazer estético. Suas imagens constituíam um meio
de comunicação mais direto do que a demonstração lógica e eram mais
acessíveis aos iletrados, que admiravam e respeitavam as inúmeras
representações que preenchiam os espaços arquitetônicos.
A defesa e a revalorização das imagens, e consequentemente da arte que as
produz, foram o grande negócio do Barroco. Tudo começou quando a Igreja,
segura de ter contido a expansão reformista, passa para a contraofensiva.
Contra a Reforma que nega as imagens e que vai até ao extremo iconoclasta,
a Igreja Romana reafirma o valor ideal e a necessidade prática da
demonstração dos fatos de sua história com vistas a edificar e a título de
exemplificar. Ela reafirma também a validade da cultura clássica e da
Renascença, dizendo que, se o belo agrada, pode servir como meio de
persuasão. Ela encoraja os motivos mais espetaculares do rito e do culto. Ela
incorpora os novos conceitos científicos de universo aberto e expandido e
modifica radicalmente os elementos que marcaram a arte clássica da
Renascença. Ao invés de forma fechada e estática, a arte barroca incorpora o
movimento e o dinamismo.

Teto da Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma

A Igreja também quer manifestar pela obra de arte e pela imagem não apenas
os principais dogmas. Ela não se limita a transmitir exortações morais ou
exemplos edificantes. A Igreja quer manifestar pela arte a origem e a
extensão universal de sua autoridade, mais do que difundir as verdades da fé
ou influenciar o comportamento humano.

O mesmo se pode dizer do poder civil, que tem sua expressão maior na
monarquia absoluta, seus edifícios grandiosos e seus festins requintados e
exuberantes.

Outros setores da nova sociedade fazem também sua aparição no mundo


barroco. A burguesia, ou melhor, o homem particular, aquele que procura uma
solução prática para sua vida ou, quem sabe, mesmo o homem simples que, ao
invés de raciocínios intelectuais, prefere mensagens diretas que o guiem em
suas vidas.

Toda a arte do século XVII está animada por um espírito de propaganda. E a


propaganda é um excelente meio de persuasão, persuasão à devoção ou ao
poder de maneira geral e também à educação moral.

Para isso, a arte e a imagem barrocas contam com o “maravilhoso” para


alcançar seus objetivos. A perda das faculdades intelectuais mostra em que
nível do espírito humano a propaganda pelas imagens pode agir: é sobre a
imaginação que ela se esforça a agir, considerada o motor dos sentimentos
que levarão à ação.

3 - Imaginação e Ilusão
O parecer é mais importante do que o ser na estética barroca. Para isso, é
preciso fazer apelo a uma qualidade inerente a todos, a imaginação.
Submetida à ilusão provocada por inúmeros recursos, a imaginação transporta
o indivíduo a paragens desconhecidas e puramente ficcionais.

Para atingir esse objetivo, o artista barroco lança mão de recursos óticos e
artísticos que implicam a extensão do espaço, no trompe l’oeil, no contraste
absoluto entre o claro e o escuro.

Esses recursos não são utilizados de maneira aleatória, mas de forma


arquitetada e muito bem planejada, em que estudos preliminares abundantes,
comprovados pelo material encontrado no acervo dos artistas e arquitetos,
garantem sucesso da composição e o cumprimento dos objetivos definidos a
priori com o cliente e financiador da obra.

A extensão do espaço, tão comum nas pinturas em tela, nos afrescos e na


arquitetura, não é algo que diga respeito apenas à diferença entre o primeiro
plano e os outros subsequentes. Trata-se de um salto qualitativo. Alguns
objetos estão próximos, oferecendo-se ao tocar, enquanto nos ares percebem-
se nuvens, anjos e santos. A evidência tangível dos objetos próximos garante
psicologicamente a visão miraculosa e convence o fiel e qualquer outro
observador. É nossa experiência direta do real que fundamenta nossa
esperança em coisas além do real.

Contração e expansão do espaço são responsáveis pelo dinamismo da


obra barroca e são recursos utilizados sem parcimônia pelos artistas e
arquitetos para dar movimento a ela.

No Milagre de Santo Inácio, fundador da ordem dos jesuítas, pintado por Rubens, vemos
perfeitamente bem o recurso da profundidade marcado claramente pela linha reta que
desemboca diretamente sobre o santo com vestimentas douradas. O movimento da
obra se prolonga ainda na linha em diagonal que segue na direção do fundo do quadro.

O indivíduo caído no chão e a mulher de branco são personagens portadores de


epilepsia para quem o santo pede a interferência divina. Prontamente, os querubins
acodem voando ao chamado do santo para operar o milagre da cura. Recorrer
ao trompe l’oeil (efeito de profundidade sobre superfície bi dimensional) e ao
3D (sensação de volume) foram recursos correntes da pintura barroca.

O jogo do claro-escuro é outro recurso comum e altamente eficiente na


estética barroca. Ao exagerar nos contrastes produzidos pelo uso de cores
quentes, como o marrom e o dourado, de forma violenta e antagônica, o
artista barroco cria zonas de insegurança e áreas de conforto para o olhar,
produzidas pela claridade excessiva no centro significativo da composição,
como sendo este o porto seguro.
Um dos subterfúgios mais usados é o uso de fundos bem escuros nas
pinturas, de prevalência marrom e com o contraste dourado ou branco do
personagem principal, criando o efeito fotográfico moderno.

O centro exagerado pela cor ou pelo tamanho coloca em evidência o


princípio ordenador do barroco, ou seja, o ponto de encontro das linhas
ordenadoras do espaço. Elas conduzem o olhar e ajudam o passante a
encontrar o caminho correto. Percurso físico mas também simbólico, já que o
final das linhas encontra quase sempre a presença de uma força organizada,
seja a religião, seja o poder leigo do Estado, representados pela Igreja ou pelo
Palácio.

Esse passante ou observador, contudo, não é mais um agente passivo desse


teatro barroco. Ou seja, nesse cenário, não apenas as variáveis óticas são
importantes como também as psicológicas.

4 - Imaginação e Sentimentos
A ilusão é sempre falsidade sob o ponto de vista do conhecimento. Mas a
apreensão do real não é resultado apenas da razão: os sentimentos têm papel
importante em nossa contemplação.

O choque emotivo intensifica a atividade dos sentidos, quase sempre com


consequências sobre nossas faculdades intelectuais. Envolvido pelos apelos
diversos, o observador se deixa levar pela emoção e não pela razão.

Nesse sentido, visando exacerbar os sentimentos do observador, a obra


barroca usa e abusa de linhas sinuosas ou diagonais que impulsionam o
observador na direção do centro seguro pela repetição de sinais que o
reconfortam.

Para que isso ocorra, o Barroco enche a obra de elementos recorrentes que
podem ser a repetição de fachadas bem parecidas que se alinham sem deixar
espaços entre si. Outro recurso bastante eficaz para evitar a dispersão do
olhar e da sensação é unir as linhas umas às outras num jogo pulsante. É
o horror ao vácuo que a obra barroca explora com eficiência, com o objetivo
de conduzir claramente os sentimentos do observador. Mas o excesso de
detalhes não torna confusa a mensagem da obra barroca. A certeza está
sempre no ponto em maior evidência, conseguida mediante uma série de
artimanhas que unem todas as criações barrocas.

A arquitetura transformou-se então num espaço capaz de acolher as artes


plásticas pictórica e escultórica, tentando um tipo de integração que, fugindo
do meramente decorativo, se converteu em algo orgânico, dentro de um
conjunto global. O espaço arquitetônico se transforma em um “ theatrum
sacrum” em que pintura e escultura são elementos da representação.

Rubens Caravaggio Vermeer

Essas obras, O rapto das sabinas, de Rubens; David e Golias, de Caravaggio; e A leiteira,
de Vermeer,não deixam dúvida sobre a prevalência das linhas curvas e diagonais na
obra barroca e que são visíveis no urbanismo, na arquitetura, na pintura, na escultura
e no que se convencionou chamar de artes menores. O contraste entre cores escuras
e claras, estas em geral posicionadas sobre o personagem principal, o exagero do
tamanho, são recursos recorrentes e eficazes na definição do centro da ação. Outra
característica que chama a atenção nessas três pinturas é a integração espacial de
todos os componentes da obra .Eles se integram num todo em que uma linha leva a
outra, num movimento constante e durante o qual temos a captura de um instante,
como numa fotografia.

O mais esplêndido dos teatros barrocos é, sem dúvida, o centro do mundo


católico romano, a Praça de São Pedro, em Roma, construída entre 1675 e
1677 (veja nas aulas 4 e 5).

A arte barroca se faz ainda presente em duas manifestações importantes: na


arquitetura efêmera e na festa, organizadas ambas no sentido de celebrar uma
data importante. Em geral, as arquiteturas teatrais de curta existência eram
montadas nas ocasiões solenes, como nas entradas de cortes principescas
nas cidades.

Vídeo
Seu impacto sobre o visual do entorno urbano foi bastante explorado nas
grandes exposições universais ou nacionais correntes nos séculos XIX e XX,
dentro de um contexto glorificante das maravilhas do progresso capitalista.
(Exposição do Centenário na França, em 1889, disponível em:
http://dicasdefrances.blogspot.com.br/2011/10/exposicao-universal-de-1889-em-
paris.html).

Monumentais, mas efêmeras, elas se aliam às grandes festas, que deixam de


ser apenas religiosas e passam a ser comemorativas de datas nacionais
cívicas importantes. Um verdadeiro teatro barroco totalizante em que a
intenção política dava suporte a todos os investimentos e esforços.

Portanto, o que se nota nesta introdução é que a arte barroca ultrapassa de


longe os limites do simplesmente artístico para se tornar um sistema
totalizante e abrangendo vários aspectos do cotidiano das diferentes camadas
sociais.

Veremos com mais detalhes esses elementos que formam a totalidade


barroca, começando pelo urbanismo, seguindo pela arquitetura, escultura e
pintura.