Você está na página 1de 45

Rabino Shlomo Riskin

Luzes da Torá
,hatrc - vru, rut

Volume 1: Gênesis
Sobre vida, amor e família
adhu
VaiGÁsh
Gênesis 44:18-47:27
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

As lágrimas de
José e benjamim

“E se lançou sobre o pescoço de Benjamim, seu irmão,


e chorou; e Benjamim chorou sobre seu pescoço.”
Gênesis 45:14

O momento pungente em que se encontram os dois irmãos


após uma separação de 22 anos é um dos momentos mais tenros V
da Torá. A
I
Após uma longa crônica de relações fraternais difíceis – Caim G
Á
e Abel, Ismael e Isaac, Jacob e Esaú, José e seus outros irmãos S
–, finalmente encontramos dois irmãos que verdadeiramente se h
amam um ao outro. Os únicos filhos de Rachel, a amada esposa
de Jacob, José e Benjamim partilharam do mesmo útero, e quando
sua mãe faleceu durante o parto, podemos estar certos de que José
297
trouxe Benjamim para perto de si, protegeu-o e partilhou com
ele preciosas recordações de sua mãe, que Benjamim não chegou
a conhecer. Seu exclusivo relacionamento deve ter tornado sua
eventual separação ainda mais dolorosa e traumática. Afinal de
contas, Benjamim era o único irmão que, em absoluto, não estava
envolvido na tensão familiar e na rivalidade entre os irmãos.
Mas, onde está a alegria do reencontro, a celebração? Por que
a Torá registrou somente as lágrimas dos irmãos neste momento
dramático de sua reunião?
O Rashi cita e explica uma interpretação midráshica que
sugere que as lágrimas se referem às futuras destruições dos dois
Templos localizados no território de Benjamim e a destruição
do santuário de Shiló, localizado no território de José. O Rashi
destaca que as lágrimas de José são pela destruição de Benjamim
e as deste pela destruição de José.
RAbINO ShLOmO RISkIN

Mas por que o Rashi extrapolaria estes terríveis eventos que


ocorrerão no futuro a partir das lágrimas dos dois irmãos? Creio
que a resposta a esta pergunta se baseia em nossa observação
cuidadosa dos dois tipos de pecado relatados no livro do
Gênesis. O primeiro é o pecado de comer a fruta da Árvore do
Conhecimento, que simboliza a rebelião contra Deus; o segundo
é o pecado da venda de José por seus irmãos, que engloba os
pecados de inimizade entre pessoas e as lutas destrutivas.
Entre os dois, o Zôhar considera o último o mais severo.
Em nossa tradição de que “os eventos ocorridos com os pais
prenunciam o que ocorrerá com os filhos”, podemos ver que
todas as tragédias que se abateram sobre o povo judeu têm a
V
A fonte de seu DNA na venda de José como escravo. Este ato foi a
I fundação do ódio sem motivo entre os judeus.
G
Á O Talmud (Guitin 55b) coloca a causa da destruição do segundo
S Templo num acontecimento mundano. Um homem rico fez uma
h
festa e queria convidar seu amigo Cámtsa. Inadvertidamente,
seu reconhecido inimigo Bar-Cámtsa foi convidado em seu lugar.
Expulso e envergonhado, este resolveu se vingar. Ele se dirigiu
298 às autoridades romanas e mentiu a fim de implicar os judeus em
crimes contra o Estado. O resto é história. Flávio Josefo escreve
que mesmo enquanto os romanos estavam destruindo o Templo
havia judeus lutando entre si. Até o dia de hoje, encontramos o
povo judeu incorrigivelmente dividido em campos inimigos na
política e na religião, com cada grupo cinicamente, e às vezes
cheios de ódio, atacando um ao outro.
Portanto, é o pecado do ódio sem motivo, o crime dos irmãos
contra José, que podemos chamar de nosso “pecado original”.
Na verdade, durante a Amidá adicional de Iom Kipúr, o autor
do lamentoso hino de doxologia Êle Ezkera liga a destruição do
Templo e a tragédia do exílio judaico ao pecado da venda de José
pelos irmãos.
Agora a interpretação do Rashi assume profundo significado.
No meio do ódio entre os irmãos, o amor entre José e Benjamim se
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

destaca como um brilhante exemplo do potencial que existe para


um amor incondicional. O Rashi liga as lágrimas deles durante
seu reencontro à destruição de nossos Santuários como resultado
da inveja e inimizade entre um judeu e outro judeu. Na verdade,
cada um chorou pelas futuras tragédias que assolariam seus
descendentes. Mas, embora cada irmão venha a ser abençoado
com um santuário na porção de terra que lhe for alocada, eles
não choram por si mesmos, mas um pelo outro. Este ato de choro
abnegado e de amor incondicional se torna a única esperança
contra a tragédia implícita na venda de José para a escravidão.
A única coisa que pode redimir este pecado, e implicitamente
todos os pecados de ódio sem motivo entre facções ao longo da
história judaica, é nada menos que um amor em que o outro é V
A
colocado em primeiro lugar: o amor gratuito, quando cada um I
chora mais pela tragédia do outro do que por sua própria. G
Á
O Rabino Abraham Isaac Hacohen Kook ensinou que se o S
Templo foi destruído por causa do ódio gratuito, ele somente h
será reconstruído por meio do amor gratuito, exemplificado
pelas lágrimas de José e Benjamim. O Rashi está, desta forma,
provendo uma presciente lição para nossos tempos conturbados. 299
RAbINO ShLOmO RISkIN

Uma reunião de
fidelidade e lágrimas

“E José aprontou seu carro, e subiu ao encontro de seu pai Israel


em Góshen, e tendo-se-lhe apresentado, atirou-se sobre seu pescoço
e chorou muito sobre seu pescoço.”
Gênesis 46:29

V
A De todos os personagens do Gênesis, Jacob é aquele que
I tem sua vida mais bem descrita, suas experiências emocionais
G
Á abrangendo desde as alturas do êxtase às dolorosas descidas às
S profundezas da dor. De todos estes sofrimentos, o momento mais
h
doloroso é aquele em que os irmãos trazem a túnica listrada de
José manchada de sangue e lhe perguntam se, de fato, pertencia
a José. O que lhe aconteceu até aí – a fuga de Esaú, a descoberta
300 de que havia sido enganado por Labão, o enterro de sua amada
Rachel à beira da estrada após uma década de vida matrimonial
– nada pode ser comparado ao momento em que é levado a
acreditar que seu filho querido foi devorado por uma fera. O
texto é explícito em relação ao sofrimento de Jacob. Inconsolável,
ele permanece de luto por muitos anos e aceita o fato de que irá
ao túmulo num luto contínuo.
De certa forma, a vida de Jacob está acabada, porque todas
as suas esperanças para o futuro estavam depositadas em seu
amado José. Abrahão quase perdeu seu futuro com a Akedá, mas
Jacob efetivamente perdeu seu futuro nos 22 anos em que viveu
pensando que seu querido filho e herdeiro havia sido devorado
por um animal selvagem. E se sua confrontação com a túnica
ensanguentada marca o maior sofrimento de sua vida, então o
encontro entre ele, o pai idoso, e seu filho que está vivo, José,
deveria ser o momento mais significativo de sua vida.
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Quando finalmente pai e filho se encontram, as lágrimas


correm livremente. Na verdade, a Torá relata as palavras de
Jacob, que refletem os sentimentos de um homem que alcançou
a serenidade e uma paz total com o Eterno:

“Já posso morrer agora, depois de ver teu rosto, pois ainda vives!”
Gênesis 46:30

Se é verdade que o encontro de Jacob com José é a experiência


central de sua vida, redimindo não somente sua própria fé mas
as promessas que Deus fez aos descendentes de Jacob, então o
encontro deveria iluminar verdades básicas não somente entre
pai e filho, mas também entre a natureza do povo judeu e seu
V
destino. A
O que nos atinge, de imediato, é a ambiguidade com que se I
G
fala das lágrimas. Não sabemos quem caiu sobre o pescoço de Á
quem ou quem chorou. Foi Jacob ou José quem chorou? O Rashi S
h
comenta que foi José quem chorou. E o que estava Jacob fazendo
no momento do encontro? De acordo com o Midrash, Jacob
estava ocupado recitando o Shemá: ”Escuta, Israel! O Eterno é
nosso Deus! O Eterno é um!” 301
Nachmânides discorda do Rashi, argumentando que o
simples bom senso não permite que se imagine que o velho pai
tenha contido suas lágrimas enquanto o jovem José dava vazão
às suas emoções. Afinal de contas, todos compreendem que se
um velho pai encontra seu filho vivo depois de pensar por 22
anos que ele estava morto, e ainda mais um filho que ascendeu
à posição de segundo no comando após o Faraó, como podemos
duvidar que essas lágrimas vieram dos olhos do velho Jacob?
Seria certamente compreensível que os dois chorassem, mas
como o choro no versículo está escrito no singular, deve ter sido
somente Jacob quem chorou!
Mas a interpretação do Rashi precisa ser analisada. Por que
atribuir as lágrimas a José e o Shemá ao pai? Por que seria tão
importante recitar o Shemá naquele momento?
RAbINO ShLOmO RISkIN

Durante os 22 anos de luto, a vida de Jacob foi sem esperança.


Ele viveu por muito tempo num nevoeiro de desespero, em forte
contraste com os anos anteriores à morte de José, quando toda
sua vida estava cheia de significado. Na ocasião, ele preparara
seu filho favorito para a eventual liderança de Israel, como indica
sua preparação para ele da túnica listrada, que era uma indicação
de que Jacob pretendia entregar a ele o direito de primogenitura.
Ele certamente reiterou a tradição do “Pacto entre as Partes
Cortadas”, a missão de Israel para com as nações, o objetivo
final do monoteísmo ético de aperfeiçoar o mundo sob o reinado
do Eterno. E então chega o triste dia em que “José foi devorado
por uma fera”, quando a túnica ensanguentada lhe foi trazida.
V Dificilmente poderíamos reclamar dele por se ter permitido uma
A
I
momentânea falta de fé. Até então estava absolutamente claro
G para ele que todas as promessas Divinas que deviam alcançar
Á seus descendentes se realizariam através de José, o primogênito
S
h de sua amada Rachel, estudante devotado da saga da família e
sonhador de sonhos elevados. E agora, sem José, o que seriam
das promessas Divinas?
Sob este ponto de vista, faz bastante sentido que a resposta
302 imediata de Jacob ao encontro com José tenha sido uma profunda
confirmação de sua fé na tradição de seu pai e no futuro de seu
povo. Por isto ele declara a fórmula de afirmação da fé judaica,
a aceitação do jugo do reinado Divino, Shemá Israel, nossa crença
na aceitação final pelo mundo do monoteísmo ético. Com efeito,
Jacob está dizendo a José que agora ele compreende que a aliança
de Deus com Abrahão será de fato cumprida, não importa quão
árida pareça a situação e quão obscuro seja o exílio:
“Escuta, Israel! O Eterno, que por ora é apenas nosso Deus, há
de ser coroado Rei de todo o Universo; nesse dia, o Eterno será
um e seu Nome um. Nunca renuncie à nossa fé, não importa o
que aconteça. Com a perspectiva que alcancei ao longo de minha
vida, percebo agora que a tragédia pela qual passei foi Deus nos
submetendo ao ‘Pacto entre as Partes Cortadas’ e preparando a
sobrevivência da nossa família, a escravidão, o Êxodo do Egito e
a redenção do mundo.”
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Temos duas possibilidades: controlar nossas emoções e viver,


ou ser controlado por elas e morrer. Um exemplo marcante disso
pode ser encontrado na comparação de duas personalidades
descritas no Livro de Samuel. O livro 1 abre com a história de
uma mulher sem filhos, chamada Ana, que estava visitando o
Santuário em Shiló para rezar ao Eterno. Ela faz um voto: se Deus
Se lembrar dela e lhe conceder um filho, ela o dedicará ao serviço
de Deus. Quando o Sumo-Sacerdote Eli a vê rezando de forma
incomum (somente seus lábios se moviam, mas palavras não
saíam de sua boca), ele suspeita que ela estivesse bêbada. “Ela
fala a seu coração” (Hi medabéret al libá) (1 Samuel 1:13), assim o
texto descreve sua concentração. Ana não poderia em absoluto
estar embriagada, pois a pessoa que bebe até a embriaguez não V
A
tem controle sobre suas emoções e se torna escrava de seus I
instintos e desejos. Ana falava al libá – acima de seu coração –, G
o que significa que ela estava sobre e acima das emoções de seu Á
S
coração. Afinal de contas, ela não estava dedicando o filho de h
suas preces ao serviço Divino? Ela estava pronta para abdicar dos
desejos normais de uma mãe e enviar o filho, que ela esperava
que Deus lhe concedesse, para outro lar – o Santuário – e colocá-
lo sob os cuidados de Eli. Ana falava não meramente a (el) mas 303

acima (al) de seu coração, e por isto estava no controle de suas


emoções. Não, ela não podia estar embriagada. Ela rezava com
sinceridade e sua prece teria de ser respondida.
Em contraste, temos a história de Nabal, que acontece uma
geração depois. Ela descreve um rico fazendeiro, protegido
por David, mas cujos desejos puramente egoístas fazem com
que rejeite David em sua hora de necessidade. O jovem David,
ungido por Samuel (que cresceu para se tornar juiz em Israel)
como o futuro rei, está sendo perseguido e caçado por Saul. David
envia alguns de seus jovens ao rico Nabal durante a estação da
tosquia com um pedido de provisões. O vilão egoísta (que é a
tradução literal de seu nome) se recusa a partilhar mesmo uma
ínfima porção de sua riqueza, nem mesmo para o próprio David.
O texto o descreve como “... um homem duro e maligno em seus
atos” (1 Samuel 25:3) e o versículo termina com a palavra calibi,
RAbINO ShLOmO RISkIN

que pode ser considerada como uma descrição de linhagem,


“da casa de Caleb”, ou como descrição de uma personalidade
subserviente às suas emoções. Irado, David planeja um ataque
mortífero a este homem ingrato. No meio tempo, a mulher de
Nabal toma conhecimento do que se passa e, a fim de salvar a
vida do marido, envia a David 200 pães, dois odres de vinho, 5
cordeiros já preparados, 5 medidas de trigo tostado, 100 cachos
de passas e 200 porções de pasta de figo. Nabal não é um homem
inteligente, pois celebra o festival da tosquia dos cordeiros com
uma festa real e, fiel à sua forma de ser e conforme seu caráter de
se identificar com – e não controlar – seu coração, se embriaga.
Na manhã seguinte: “De manhã, quando o vinho já havia saído
V de Nabal, a sua mulher lhe contou estas coisas, e seu coração
A
I
morreu dentro dele e ele ficou como uma pedra” (1 Samuel
G 25:37). Aparentemente, Nabal era tão obcecado pelos desejos de
Á seu coração, um escravo de seus desejos emocionais e de suas
S
h necessidades, que sua morte é descrita como a morte de seu
coração. Sua verdadeira essência não era sua mente ou seu Deus,
mas seu coração e suas emoções.

304
Ana e Nabal estão em extremos opostos do espectro. Ana fala
a seu coração e faz seu coração ouvir, enquanto o coração de
Nabal lhe ordena fazer o que ele quer e não o que Deus queria
que ele fizesse.
A recitação do Shemá por Jacob neste momento tão intenso é
uma suprema lição para ensinar a José a importância de Deus
sobre as emoções, e isso está contido na continuação do Shemá:
“E amarás ao Eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com
toda a tua alma e com todas as tuas posses” (Deuteronômio 6:5).
Até com messirut néfesh, a prontidão para entregar tua alma, tua
própria vida, pelo Eterno. Ter descoberto que José ainda estava
vivo foi, para ele, como se tivessem dado à sua vida um novo
sentido e significado. Em vez de perder o controle, ele recita o
Shemá, reconhecendo que o judeu deve estar pronto a dar sua
vida por Deus, não somente quando não tem nada a perder, mas
mesmo agora quando a vida se tornou extremamente preciosa.
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Lembre que o Shemá é recitado antes da morte e historicamente


tem sido proclamado por nossos santos mártires. “Agora eu
posso morrer”, diz Jacob a José, o que pode ser compreendido
como significando que mesmo agora ele está pronto a morrer por
Deus. Esta é a verdadeira messirut néfesh. Esta é a lição que Jacob
quer transmitir a José em sua recitação do Shemá. Devemos estar
dispostos a ceder por Deus mesmo aquilo que é mais amado e
mais precioso para nós.
* * *
Em uma de minhas visitas à América, um homem que eu
sempre pensei ser muito sério a respeito de seu judaísmo me
disse: Sabe por que não estou fazendo aliyá? É porque não quero V
que meu filho entre para o exército de Israel. A
I
Como pai, eu certamente compreendo seus sentimentos, mas, G
como judeu, eu dificilmente poderia justificá-lo. Esta atitude é Á
S
exatamente o oposto do que Jacob estava tentando transmitir a h
José. Precisamos ter a capacidade de nos sobrepormos mesmo às
mais profundas emoções em nosso compromisso com o Eterno.
Não devemos esquecer que quando Jacob declama o Shemá,
305
manifestando seu compromisso com o Eterno, ele é também
ouvido por seus filhos. E talvez esta seja exatamente a mensagem
que inspira José a restabelecer laços de família muito intensos
para poder requerer que seus ossos sejam levados de volta à
Terra de Israel quando seus descendentes saírem do Egito.
RAbINO ShLOmO RISkIN

A verdadeira arte
da negociação

“Ó Judá, a ti te louvarão teus irmãos; tua mão estará


sobre a nuca de teus inimigos, e os filhos de teu pai se prostrarão
ante ti (...) O poder não será tirado de Judá,
nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha
a Shiló, e a ele a reunião de povos seguirá.”
Gênesis 49:8,10
V
A
I
G
Á Quem é realmente o mais importante dos irmãos, José ou
S Judá? No começo da história de José, pelo menos ele e Jacob
h
acreditam que é José. Afinal de contas, é ele quem recebe a
túnica listrada de seu pai – um símbolo muito claro do direito de
primogenitura – e é aquele que sonha que todos os irmãos, e até
306 o cosmos, se inclinarão perante ele. Mas ao fim da sequência de
acontecimentos, pelo menos Jacob mudou de ideia. A Judá é dado
o direito de primogenitura, e não a José, e este, aparentemente,
aceita a situação. O que aconteceu e por quê?
A mudança dramática de Judá é claramente delineada na Bíblia.
Primeiro o encontramos num nível bem baixo, como um esperto
negociante, motivado mais pelo lucro do que por sentimentos
fraternais, quando ele espertamente sugere que José seja vendido
como escravo à caravana de mercadores midianitas que avistou
ao longe e que vem em sua direção, em vez de deixá-lo no poço,
esperando que uma serpente ou um escorpião o matassem com
seu veneno. É verdade que, desta forma, Judá salvou seu irmão
de uma morte certa (pelo menos pela fome, se o poço estivesse
de fato vazio), mas não podemos desconhecer o fato de que
ele foi o irmão que iniciou a venda de José para a escravidão.
Talvez Judá devesse ter tentado resgatar José completamente.
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Desde o momento em que é vendido, o destino de José parece


estar selado; a possibilidade de algum dos irmãos voltar a vê-lo
é virtualmente inexistente. Por causa de Judá, José, o sonhador,
está agora numa situação em que já pode ser considerado como
morto, pelo menos para seu idoso pai.
Mais de duas décadas depois, Judá faz um pedido abnegado
ao Grão-Vizir (José) para que, em vez de aprisionar Benjamim
como seu escravo no Egito (porque a taça de prata de José que
havia desaparecido fora encontrada na bolsa de Benjamim), ele,
Judá, ficasse preso em seu lugar. Isto revela uma total reviravolta
no caráter de Judá. Ele emerge como o clássico penitente, já que
a verdadeira penitência envolve a correção de seu pecado no seu
V
âmago. Se no passado ele fora responsável pela transformação de A
José num escravo, então a única correção possível deste mal é a I
de se tornar escavo no lugar de Benjamim. A nobreza de espírito G
Á
demonstrada pelo sacrifício voluntário de Judá, um descendente S
espiritual de Isaac, que enfrentou a Akedá, é o suficiente para que h
se possa nele confiar para uma posição de liderança e para fazer
Jacob declarar em relação a Judá “te livraste da presa (José), meu
filho...” (Gênesis 49:9). 307
Mas também José mudou e esta mudança envolve uma recém-
descoberta humildade que lhe permite reconhecer a superioridade
de Judá. Mas sua mudança é mais sutil e requer uma leitura do
que está nas entrelinhas do texto. José aparece primeiro como um
jovem arrogante, atestando em seus sonhos um exaltado ego. Ele
se vê como rei sobre seus irmãos, seus feixes de trigo se curvando
perante o seu, o sol, a lua e 11 estrelas se ajoelhando perante
ele. Ele sonhou sonhos de agricultura no Egito, poder universal
e dominação, coisas que estavam completamente removidos da
família de pastores na Terra de Israel. José compreendeu que
ele tinha construído uma gramática interna, alheia às tradições
de sua família, uma língua que seus irmãos e ancestrais não
falavam. José parecia um mutante, um alienígena revolucionário
independente das tradições da família. Ele era, aparentemente,
muito dotado, mas os irmãos não ousavam aceitá-lo. Eles não
RAbINO ShLOmO RISkIN

estavam preparados para aceitá-lo como ele era, um homem de


muitas cores, de múltiplas visões e sonhos cosmopolitas. Assim,
quando os irmãos o venderam para ser escravo, eles o trataram
mais como um estrangeiro do que como irmão, alguém de fora,
tendo mais em comum com Esaú do que com Jacob. E José aceitou
o julgamento de seus irmãos. Ele era, na verdade, diferente. Um
pesquisador em busca da nova e dinâmica ocupação egípcia da
agricultura; um cidadão do mundo, mais do que um amante
de Tsión. No Egito, aceitou facilmente a língua local, passou a
atender por um nome egípcio (Tsafnat Panêach) e a usar roupas
egípcias. Ele se apartou da família. Não somente eles não estavam
interessados nele, como ele também não estava interessado neles.
V
A É somente na porção da Torá Vaigásh que José tira sua
I máscara e se posta revelado perante seus irmãos, mandando
G buscar seu idoso pai. Mas para entender por que isto acontece
Á
S exatamente agora, precisamos primeiro compreender por que a
h porção Vaigásh começa no meio de um dos mais tensos encontros
narrados em toda a Torá. Estará ela meramente interessada
no efeito dramático, apresentando a luta de vida e morte de
308
Benjamim como o drama de uma novela em capítulos, mantendo-
nos em suspenso no fim da porção anterior, exatamente quando
parece que não resta mais esperança para o falsamente acusado
Benjamim, cuja bolsa mostrou ser o esconderijo da desaparecida
taça de prata do Grão-Vizir?
Em sua argumentação de defesa, Judá volta sempre ao
tema do velho pai esperando em casa pelo filho mais novo.
A palavra “pai” é repetida 13 vezes (Jacob é pai de 13 filhos),
uma ênfase extraordinária quando dirigida a um estranho sem
conhecimento da família. Não seria mais lógico, para Judá,
basear sua defesa na natureza circunstancial da evidência contra
Benjamim? Na verdade, como a totalidade de seu pagamento
pela compra de alimentos continua voltando para a bolsa de
cada um dos irmãos, há uma clara indicação de que uma mão
estranha tomou a liberdade de abrir suas bagagens. Uma mão
estranha está se movendo livremente sobre a propriedade dos
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

irmãos, e esta mesma mão poderia ter plantado a taça no saco


de Benjamim. Mas, em vez desta defesa, Judá se apega a uma
história, a história de sua família e do sofrimento do seu idoso
pai. Se Benjamim é um ladrão, por que a idade ou a condição
mental de seu pai interessaria ao Grão-Vizir do Egito? Um ladrão
deve ser punido. Benjamim deveria ter pensado na idade de seu
pai e não ter perpetrado tal crime contra o Grão-Vizir. Por que
alguém esperaria que o Grão-Vizir se preocupasse com o velho
pai do ladrão?
Inegavelmente, a situação é extremamente tensa. Após quase
terem matado seu pai com a notícia da morte de José, os irmãos
não ousam sequer pensar em voltar para casa e fazer Jacob se
V
enlutar pelo segundo filho de Rachel. Judá, que prometeu ao pai A
ser responsável por seu filho mais moço, avança e fala já no fim I
G
da porção Mikêts: Á
S
“... Que diremos a meu senhor? Que falaremos? E como h
justificaremos? Deus achou o delito de teus servos; eis que nós somos
servos de meu senhor – tanto nós como aquele em cujas mãos foi
encontrado o copo.”
309
Gênesis 44:16

Judá reconhece a iniquidade de seus irmãos, uma continuação


do tema primeiramente expresso quando o Grão-Vizir se
confrontou inicialmente com eles com a acusação de que eram
espiões.

“E cada um disse a seu irmão: De certo somos culpados por nosso


irmão, pois vimos a angústia de sua alma ao rogar a nós, e não o
escutamos; por isso veio-nos esta angústia.”
Gênesis 42:21

Estas palavras de Judá ao Grão-Vizir são a culminação deste


tema. Por que os irmãos estão sendo maltratados a tal ponto por
este Grão-Vizir? É um ato de Deus, pensam os irmãos, obviamente
como punição pela forma com que trataram José, medida por
medida. Os irmãos se comportaram de forma indigna para com
RAbINO ShLOmO RISkIN

José e agora devem pagar o preço. Judá propõe que todos os


irmãos se tornem escravos do Grão-Vizir, porque “Deus achou a
iniquidade de teus servos”, que é a clara expressão da convicção
de Judá de que devem agora ser punidos em conjunto. Todos,
menos Benjamim, que nada teve a ver com a venda de José. Ele
tem de aceitar a vontade do Eterno. Mas o Grão-Vizir vira a mesa
sobre Judá. Ele rejeita a oferta de todos os irmãos de se tornarem
seus servos. Ele quer somente Benjamim.
“E disse: Longe de mim fazer isto! O homem em cujas mãos foi
encontrado o copo, ele será meu servo; vós, subi em paz a vosso pai.”
Gênesis 44:17

V Ante esta resposta, Judá ficou confuso. De acordo com


A seus cálculos, Deus os estava punindo em função do mal que
I
G haviam perpetrado contra seu irmão. Era desta forma que ele
Á compreendia os infortúnios que haviam desabado sobre a família
S
h
desde que haviam encontrado o Grão-Vizir. Judá compreendia
o que se passava da seguinte forma: como os irmãos haviam
pecado como uma unidade coletiva, eles deveriam também
sofrer como uma unidade coletiva. Mas, a escolha feita por José
310 de destacar Benjamim como o único irmão que seria escravizado
desafiava sua percepção. Afinal de contas, Benjamim nem sequer
participara da conspiração contra José. Ele era ainda muito
pequeno. Se algum dos irmãos era inocente, este era Benjamim.
Por que seria ele o único a ser punido?
Agora podemos compreender por que a porção Mikêts termina
precisamente aonde o faz. Não tem nada a ver com a ideia de criar
suspense, e sim, com a nova percepção de Judá sobre a identidade
do Grão-Vizir. Pois se não fora Deus que havia planejado suas
experiências no Egito, então somente o Grão-Vizir poderia tê-lo
feito. E por que ele agiria assim para com eles, a não ser que...
A porção Vaigásh começa com as palavras:
“Então Judá chegou-se a ele e disse: Rogo, meu senhor, que teu servo
possa falar uma palavra aos ouvidos de meu senhor...”
Gênesis 44:18
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Até este ponto, Judá tinha acreditado que o pesadelo kafkiano


que estavam experimentando era resultado da punição do
Eterno. Mas ele percebe que não pode ser este o caso. Ele agora
começa a perceber o desenvolvimento de uma série de evidências
que jogam nova luz sobre a identidade do Grão-Vizir. Ele
lembra que Simão, o irmão que instigou os demais a jogar José
no poço, tinha sido deixado preso como refém após a primeira
ida deles ao Egito em busca de alimento. Ele agora lembra como
na segunda visita o Grão-Vizir dispôs suas cadeiras de acordo
com suas idades quando os convidou para uma refeição (Gênesis
43:33). Somente duas pessoas, além dos membros da família que
estavam presentes, poderiam ter conhecimento das idades dos
irmãos: Jacob e o irmão José. E Jacob estava em Israel. V
A
Sim, um egípcio, um Grão-Vizir, não se preocuparia com um I
velho pai, a não ser que fosse também o seu velho pai. Cada G
Á
palavra de Judá é agora calculada e, com sucesso, ele alcança o S
alvo desejado. José agora também reconhece a profunda sabedoria h
de Judá e sua habilidade em esgarçar o véu da representação
que José estava fazendo, revelando desta forma sua verdadeira
identidade. Judá agora emergiu como o ticún, isto é, a “reparação” 311
e é, portanto, o mais indicado para ser o herdeiro de Jacob. A
tragédia de Jacob era o pecado que cometera ao enganar seu pai,
agora perversamente continuada por José, ao posar como Grão-
Vizir do Egito. A perícia de Judá estava em seu dom de encontrar
um caminho para revelar a mentira e, ao fazê-lo, tornou-se digo
do direito de primogenitura de Abrahão.
O momento da compreensão de Judá é também o momento
da compreensão de José, bem como de seu arrependimento. Ele
agora percebe o plano Divino, a condução feita pelo Eterno em
tudo que ocorreu. Os irmãos tinham de vir ao Egito, não para
servir José, mas para cumprir a visão de Abrahão no “Pacto
entre as Partes Cortadas”. A família de Abrahão deve viver para
espalhar a mensagem do monoteísmo ético através do mundo,
mas, primeiro, retornarão à Terra de Israel, que será sempre o
lar familiar e nacional. José está pronto, agora, para reconhecer
RAbINO ShLOmO RISkIN

a superioridade de Judá e submeter seus conhecimentos de


tecnologia, administração e política à Torá e à tradição de Judá.
E é isto que acontece na bênção de Jacob.
Mas Jacob não expressa com força suficiente a visão de
unidade, o sonho inicial de Rebeca, em que ela mesclou a pele
de Esaú com as mãos de Jacob. O velho patriarca apenas criou
uma divisão entre a porção dupla na terra que ele dá a José e a
liderança espiritual que entrega a Judá (Gênesis 49:8). Esta é uma
compreensível repetição da divisão que seu pai, Isaac, havia feito
uma geração atrás. Aparentemente, precisamos frequentemente
repetir os erros de nossos pais, especialmente se sentimos culpa
V
em relação a eles e procuramos alcançar seu perdão. Assim, na
A história do Primeiro Templo, Judá–Jerusalém se separará de
I Efráim–Israel do Norte – e as sementes de um difícil exílio foram
G
Á plantadas, com seus amargos frutos florescendo por quase 2.000
S anos. E se Efráim representou prosperidade material, tecnologia,
h sabedoria administrativa, conhecimento científico e filosófico,
então, quanto a Judá, isolado, exilado e violentado, dificilmente
se esperaria que tivesse de enfrentar um holocausto!
312
Entretanto, o profeta Ezequiel, na porção dos profetas (haftará)
lida neste Shabat, prevê uma aproximação final. Aliás, mais do
que isto, uma unidade entre todas as tribos:

“E tu, ó filho do homem, toma uma vara e escreve sobre ela: ‘Para
Judá e para os filhos de Israel, seus companheiros’, e logo toma outra
vara e escreve sobre ela: ‘Para José, o ramo de Efráim, e para toda a
Casa de Israel, seus companheiros’. E junta-as uma à outra como
uma só vara, para que se unam na tua mão.”
Ezequiel 37:16-17

O Rabino Abraham Isaac Hacohen Kook, o primeiro Rabino-


Chefe de Israel, sentiu os passos do Messias e a proximidade
da Redenção. Ele viu em Theodor Herzl o arquiteto das
características administrativas e políticas do Estado Judeu,
o Messias da Casa de José-Efráim (ele fez o elogio fúnebre de
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Herzl considerando-o desta forma). Ele ansiosamente esperava


pela vinda do Messias da Casa de David-Judá, que daria sentido
espiritual e significado de redenção universal às mãos de Esaú,
que com tanto sucesso lutaram guerras e forjaram uma nação-
estado avançada, renascida qual fênix das cinzas do Holocausto.
Esperamos que em breve se torne realidade a visão de Rebeca.

V
A
I
G
Á
S
h

313
RAbINO ShLOmO RISkIN

Por que choramos?


“E levantou sua voz em choro – e todo o Egito escutou,
inclusive a casa do Faraó.”
Gênesis 45:2

José, o herói da última porção do Livro do Gênesis, tem vários


nomes: José, o sonhador; José, o Grão-Vizir; e José, o íntegro.
Entretanto, quer me parecer que o nome José, o choroso, também
V
se adapta ao segundo homem mais poderoso do Egito, porque ele
A é o único entre os personagens da Bíblia que é apresentado por
I quatro vezes na Bíblia e uma no Midrash como aquele que chora.
G
Á José dificilmente poderia ser encarado como uma personalidade
S fraca, que se derrete em lágrimas ante qualquer crise. Muito pelo
h
contrário, ele demonstra ter uma vontade de ferro, é obstinado
e otimista a despeito das dificuldades que enfrentou, pois foi
quase assassinado, exilado e aprisionado. Além disto, ele não
314 chora em situações difíceis, mas em momentos de revelação e
reunião, quando as lágrimas não podem ser contidas e que são
momentos que podem ser descritos como de extrema alegria.
A fim de compreender o significado das lágrimas de José,
e talvez aprender algo sobre o fenômeno das lágrimas em
geral, vamos examinar as cenas bíblicas que descrevem José
chorando. A primeira vez que suas lágrimas são mencionadas
na Bíblia é quando seus irmãos, que não o reconhecem, vêm
ao palácio egípcio para comprar alimentos. Quando eles falam
em hebraico entre eles, obviamente supondo que o Grão-Vizir
não entende sua língua, eles se culpam por ter pecado contra
seu irmão, aceitando sua punição como a consequência natural
de sua crueldade demonstrada quando o jogaram no poço, duas
décadas atrás. É neste ponto que o texto narra: ”E (José) virou-se
e chorou” (Gênesis 42:24).
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Subsequentemente, no começo da porção Vaigásh, imediata-


mente após o início da fala de Judá pedindo clemência, lemos:

“E José não pôde conter-se diante de todos os que estavam de pé perto


dele, e exclamou: Fazei a todos sair de perto de mim! E não ficou
ninguém com ele, quando José se revelou a seus irmãos. E levantou
sua voz em choro...”
Gênesis 45:1,2

“E se lançou sobre o pescoço de Benjamim, seu irmão, e chorou; e


Benjamim chorou sobre seu pescoço. E beijou a todos seus irmãos, e
chorou com eles”
Gênesis 45:14,15
V
Ele chora, mas eles não. A
I
Finalmente, após a descrição da morte de Jacob e seu enterro, G
Á
os irmãos de José vendo “...que seu pai morrera” e temendo que S
José agora quisesse puni-los, informam ao Grão-Vizir que, antes h
de sua morte, seu pai lhes recomendara que dissessem a José
para perdoá-los. “E José chorou enquanto lhe falavam” (Gênesis
50:15-17). Por que José chora tanto, especialmente em momentos
315
de reaproximação com sua família?
O Rabino Joseph B. Soloveitchik afirma que as lágrimas
provém do mais profundo e mais sincero recesso das emoções
humanas, expressando sentimentos genuínos que o próprio
indivíduo às vezes não sabe que os possui. O salmista anuncia
Rosh Hashaná, a Festa do Ano Novo, e o Dia do Arrependimento,
com a seguinte frase:

“Soprai o Shofar no primeiro dia do mês, quando o dia da nossa festa


está oculto.”
Salmos 81:4

A referência a “escondido” (bakessê) se refere não somente à


ocultação da lua, já que o Rosh Hashaná ocorre no primeiro dia
do mês, quando só se pode ver uma pequena nesga da lua, mas
também ao recesso do coração humano, de onde os verdadeiros
RAbINO ShLOmO RISkIN

sentimentos de arrependimento devem emanar. Por isto, o


símbolo de Rosh Hashaná é o Shofar, que expressa sons de shevarim
e teruá, choro e soluços, chorando e lamentando, gritos que
expressam sentimentos escondidos, porém genuínos de remorso
e angústia.
O Rei David, o doce salmista de Israel, é um poeta
profundamente religioso, o unificador das doze tribos de Israel,
um valente guerreiro em favor de Deus e um ser humano sensível,
que recusa a oportunidade de matar o Rei Saul, embora o louco
e ciumento governante de Israel esteja dedicado a destruí-lo. Ele
também mantém uma relação adúltera com Bat-Shéva, enviando
seu marido Urias para a morte nas primeiras linhas da batalha.
V
A Será que o Rei David merece nossa veneração como precursor do
I Messias? Será ele um homem justo e bom que cometeu um único
G e trágico erro, ou é um ímpio hedonista que ocasionalmente
Á
S expressa sentimentos religiosos? Onde encontrar o verdadeiro
h Rei David?
O profeta Natan apresenta ao rei uma alegoria sobre um
rico fazendeiro que rouba a única e amada ovelha de um pobre
316 vizinho, concluindo com a afirmação: “Você é este ímpio.”
O Rei David chora e diz: “Pequei perante o Eterno.” E em
todas as versões massoréticas da Bíblia há um espaço em branco
após a confissão de David (2 Samuel 15). O célebre Gaon de Vilna
comenta:

“Foi neste ponto que o Rei David chorou; o espaço em branco


simboliza suas lágrimas, as emoções que são mais profundas do que
palavras.”

As lágrimas do Rei David atestam quem ele realmente era e


quais os verdadeiros ideais aos quais dedicava sua vida.
José passou 22 anos no Egito e certamente, durante este
período, quando ele era o Grão-Vizir, o segundo em comando
após o Faraó, ele ansiava por esquecer seu lar repleto de inveja
e ciúme, o ódio de seus irmãos e o favoritismo inconsciente e
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

perigoso de seu pai. Ele vestia roupas egípcias, assumiu um


nome egípcio, falava a língua egípcia, casara-se com uma filha
do sacerdote de On, e dera a seu filho mais velho o nome de
Menashe “... pois Deus me fez esquecer todas as minhas penas e
toda a casa de meu pai!” (Gênesis 41:51).
Mesmo admitindo que José fez sua mulher se converter e
que manteve todas as tradições éticas e rituais que aprendeu
em sua infância, ele certamente abrigava em si uma boa dose
de ressentimento contra seus irmãos, e mesmo contra seu pai,
que não podia deixar de ser o responsável pela disfunção da
família em relação a José. Ele realmente enterrou bem fundo
todo sentimento familiar e queria somente punir os irmãos por
V
sua grande crueldade. A
I
Eventualmente, após duas décadas, ele se encontra face a face G
com seus irmãos. Quando eles confessam um ao outro sua culpa, Á
ele chora. Seu choro lhe ensina que, a despeito de seu legítimo S
h
ressentimento, ninguém consegue realmente escapar de sua
família, do lar ancestral e de suas primeiras influências. Primeiro
ele se sente cheio de saudades do inocente Benjamim e depois
de seu pai, cujos erros, afinal, não haviam sido causados porque 317
ele o amava pouco, mas porque o amava demais. Finalmente,
ele percebe que também contribuiu para o ódio de seus irmãos,
devido à sua arrogância e insensibilidade em relação a eles.
Mesmo depois da morte de seu pai, ele compreendeu que, na
análise final, negar-lhes seu perdão seria negar seus sentimentos
mais profundos, fechando a mais genuína fonte da parte mais
profunda de seu coração e de sua alma.
No fim, José compreende que negar sua família seria negar a
si mesmo. Ele aprende de suas lágrimas porque elas ensinam a
todos nós o que realmente sentimos e quem realmente somos.
RAbINO ShLOmO RISkIN

Sobre carros e animais,


trens e aviões, culpa e perdão,
pais e filhos

“E falaram-lhe todas as palavras que José lhes havia dito,


mas ao ver os carros que José mandou para levá-lo,
o espírito de Jacob, pai deles, reviveu.”
Gênesis 45:27

V
A
I Um dos momentos mais pungentes na Bíblia é o do encontro
G
Á entre o velho pai Jacob e seu amado filho José, de quem ele esteve
S afastado por 22 anos. Jacob-Israel deixa a terra de sua herança e
h parte para a estranha e desconhecida terra gentia do Egito, a fim
de se reunir com o filho, que supunha para sempre perdido há
muito tempo. A Bíblia nos conta que quando Jacob viu os carros
318 que José mandara para transportá-lo, seu espírito “reviveu”
(Gênesis 45:27). O que havia de especial nestes carros para fazer
reviver o espírito de Jacob? Seria o custo da viagem tão proibitivo
para o patriarca, que somente por seu filho estar querendo lhe
fornecer o transporte ele já estava pronto para fazer uma jornada
difícil?
O Rashi comenta que os “carros” (agalá) são, na verdade, uma
sutil alusão ao trecho da Torá que fala sobre a eglá arufá (o novilho
cujo pescoço é quebrado pelos anciãos como expiação por um
assassinato cujo perpetrador é desconhecido) e que era a porção
que pai e filho estavam estudando juntos imediatamente antes
do desaparecimento de José. Talvez a citação do Midrash feita
pelo Rashi não vise somente explicar o jogo de palavras feito com
eglá arufá, a recordação de sua última seção de estudos conjunta.
Lembremos que os anciões da cidade tinham de ir até um riacho,
trazer o novilho do sacrifício em expiação pelo crime de autor
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

desconhecido. Ali, os anciãos tinham de declarar: “Nossas


mãos não derramaram este sangue, e nossos olhos não viram”
(Deuteronômio 21:7). Acaso alguém acreditaria que os anciões
são responsáveis pelo crime? Mas o Talmud de Jerusalém afirma
que eles tiveram responsabilidade cartorial por um assassinato
ocorrido em sua cidade, aparentemente porque o perpetrador
estava necessitado de dinheiro, ou tinha problema com drogas,
ou era mentalmente perturbado e não houve um adequado
serviço de assistência social no local que impedisse tal crime de
acontecer. Os anciãos devem procurar fazer expiação por sua
falta de previsão e o novilho (eglá) é o símbolo do perdão.
De forma similar, Jacob, o ancião da família, não era diretamente
V
responsável pela venda de José, mas certamente lhe faltara a A
capacidade de previsão na “administração da relação entre os I
irmãos”. Se ele jamais suspeitasse do que realmente aconteceu, G
Á
uma suspeita que ele não ousava admitir, pois do contrário S
teria de banir todos os filhos, exceto Benjamim, ele deve ter sido h
consumido pela culpa de ter mandado José para verificar como
estavam seus irmãos. Talvez a agalá-eglá fosse a mensagem ao pai
de que ele aceitava como expiação os 22 anos de sentimento de 319
luto e o perdoava completamente.
Além disto, ouvi uma interpretação completamente diferente
deste versículo, um comentário que faz ressoar um acorde muito
especial na busca da verdade que sempre preocupa os pais.
A que se pode comparar isto nos tempos atuais? Um filho
precoce e cosmopolita deixa a casa tradicional de seu pai para
prosseguir seus estudos ou para exercer sua carreira em um
lugar distante. Após um longo hiato no relacionamento, o filho
avisa ao pai que está pronto para reencontrá-lo. O pai está,
entretanto, cheio de medos e incertezas. Será que o filho se
manteve fiel às tradições de seu povo? Até onde terá peregrinado
espiritual e emocionalmente, afastando-se de seu lar? Se o filho
vem, então, visitar o pai num Shabat ou num Chag, as perguntas
do pai continuam sem resposta. Afinal, o filho pode sempre
“representar” o papel de religioso por um curto espaço de
RAbINO ShLOmO RISkIN

tempo. Mas se o pai recebe do filho uma passagem, seja de trem


ou de avião, com o pedido de que o pai venha ficar na casa do
filho, o pai se sente aliviado e compreende que nada tem a temer.
Afinal de contas, se o estilo de vida do filho tivesse se tornado
muito diferente e ele tivesse se afastado dos valores cultuados
por seu pai, o filho não teria convidado o pai para vir à sua casa.
Ao convidar Jacob para o Egito, José estava afirmando que seu
pai não ficaria mortificado com o estilo de vida de seu amado
filho, mesmo no ambiente do Egito. Por isto, quando Jacob viu
os carros enviados por José para levá-lo ao Egito, seu espírito
reviveu.

V
A
I
G
Á
S
h

320
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

A distância torna o
coração mais afetuoso
ou mais distante?

“E falaram-lhe todas as palavras que José lhes havia dito,


mas ao ver os carros que José mandou para levá-lo,
o espírito de Jacob, pai deles, reviveu.”
Gênesis 45:27

V
A
José enviou carros para transportar seu pai para o Egito e “o I
G
espírito de Jacob... reviveu” (Gênesis 45:27). Mas quão perto dele Á
realmente Jacob desejava que seu pai e irmãos ficassem? Afinal, o S
h
convite de Jacob não é propriamente para a capital do Egito, sede
do poder onde José governa como segundo em comando após
o Faraó, mas para uma área mais remota, Góshen. “E habitarás
na terra de Góshen e estarás perto de mim – tu, teus filhos e teus 321
netos...” (Gênesis 45:10). “Perto de mim”, mas não na porta ao
lado da minha. Por que a esta distância? Por que assentar sua
família numa cidade diferente?
Podemos examinar a escolha de Góshen sob duas perspectivas
diferentes. Por um lado, ela reflete a mais sábia decisão que José
poderia ter tomado para proteger a moral e a identidade religiosa
de sua família. Ele compreende como é crucial é para a família
de Jacob viver numa área judaica, dedicada a manter seu próprio
sistema de valores. De fato, quando Jacob envia Judá a sua frente
“para preparar-lhes lugar em Góshen” (Gênesis 46:28), a palavra
usada para “preparar” é lehorot, que, geralmente, significa
“ensinar” ou “ministrar ensinamentos religiosos”. O Midrash
(Bereshit Rabá 95:3) afirma que Jacob enviou Judá na frente para
que ele estabelecesse uma casa de estudos, uma ieshivá, que é
uma instituição central necessária para uma comunidade judaica
RAbINO ShLOmO RISkIN

religiosa. Em outras palavras, a fim de que os filhos e netos


pudessem sobreviver como uma comunidade religiosa é preciso
prover o necessário ensino da Torá e manter uma atmosfera
religiosa que nutrirá consciência e continuidade judaicas.
Nossos sábios apresentam esta mensagem de uma forma
fascinante. Quando nos pomos de pé para a Amidá silenciosa, os
judeus de todo o mundo começam a rezar louvando o Criador
por providenciar as chuvas (mashiv haruách umorid haguéshem) a
partir da festa de Shemini Atséret, que marca o começo da estação
chuvosa em Israel, o lar universal judaico. Entretanto, todos
os judeus da diáspora, não importa onde vivam fora de Israel,
começam a pedir ao Todo-Poderoso para mandar as chuvas
V
A (ten tal umatar) no fim da primeira semana de dezembro, que é
I quando começa a estação chuvosa na Babilônia (TB Taanit 10a).
G Por que as comunidades do Brooklyn ou da Bélgica devem seguir
Á
S a estação chuvosa da Babilônia e não a estação chuvosa específica
h de seu próprio país? E, se seguem a época de outro país, por que
não deveria ser a de Israel, o lar universal dos judeus?
Eu gostaria de sugerir que o ritual de preces judaicas está nos
322 ensinando que, a fim de que uma comunidade na diáspora possa
sobreviver, ela deve seguir o modelo da diáspora da Babilônia,
que em sua Idade de Ouro efetivamente criou um estado
judaico dentro do Estado, com um exilarca judeu, um sistema
educacional judaico e uma estrutura legal judaica. Na verdade,
as comunidades de Boro Park, Monsey, Teanneck, Stamford Hill
e Hendon não surgiram do nada; elas mantêm viva a tradição da
diáspora da Babilônia, que retrocede aos dias de Góshen.
Mas há também outra forma de encarar a escolha de Góshen.
José pode ter ficado um pouco nervoso por causa do contato
próximo que poderia haver entre o real Faraó e seu pai, Jacob-
Israel, totalmente compromissado com seu judaísmo. Isto pode
ter sido parcialmente devido à autoconsciência de sua parte a
respeito de seu background judaico. Afinal de contas, o Faraó
deve ter encarado José como um “renascido” egípcio, e o Grão-
Vizir desempenhava este papel, pelo menos exteriormente.
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

Inegavelmente, o Faraó temia que Jacob conduzisse José de volta


a um estilo abraâmico mais intenso.
E, de fato, de acordo com o Midrash, Jacob estava embebido
da tradicional compreensão de Abrahão, de que sua missão na
vida era de levar a todos a mensagem de um só Deus (Bereshit
Rabá 84:4). O versículo de abertura de Vaieshêv assim diz: “E
Jacob habitou na terra das peregrinações (megurai) de seu pai,
na terra de Canaã” (Gênesis 37:1). Lendo a palavra megurai
(peregrinações) como meguiurai (conversões), o Midrash sugere
que Jacob havia retornado a Israel para trazer “conversos” à fé
monoteísta, pois ele estava imbuído da tradição de Abrahão.
Eu gostaria de sugerir que, devido à irritável e orgulhosa V
A
natureza de Jacob, uma cuidadosa leitura do texto dá base aos I
temores de José. Assim lemos perto da conclusão desta porção G
da Torá: Á
S
h
“E José trouxe a Jacob, seu pai, e colocou-o diante do Faraó, e Jacob
abençoou ao Faraó. E o Faraó disse a Jacob: Quantos são os dias de
teus anos de vida? – e Jacob disse ao Faraó: Os dias dos anos das
minhas peregrinações são 130 anos; poucos e maus foram os dias dos 323
anos de minha vida, e não alcançaram os dias dos anos da vida de
meus pais, nos dias de suas peregrinações. E Jacob abençoou ao Faraó
e saiu de diante do Faraó.”
Gênesis 47:7-10

Literalmente, a troca de palavras entre o Faraó e o patriarca


dificilmente fazem sentido. Desde quando um estranho que chega
(ainda que seja o pai de um importante membro do gabinete)
ousa abençoar o Faraó, o verdadeiro máximo da civilização
humana que se considera um deus? Então, quando Jacob
responde à pergunta do Faraó, ele aparentemente confunde tudo,
acrescentando coisas irrelevantes, dando informações a respeito
das dificuldades de sua vida que o Faraó nunca lhe perguntou.
Este diálogo dificilmente pode parecer algo que valha a pena
registrar na Bíblia.
RAbINO ShLOmO RISkIN

Evidentemente, antes desse encontro, José teve de preparar


seu pai. Se antes de um encontro com a realeza da Inglaterra
os visitantes são adequadamente preparados, isto certamente
também acontecia num encontro como o “real e sagrado” Faraó
do Egito. Inegavelmente, o Faraó era quem pronunciava bênçãos
sobre os outros, era sempre o primeiro a falar e quem conduzia
a entrevista. José deve ter explicado tudo isto a seu pai. Mas
Jacob considerou que possuía uma realeza mais elevada que a do
Faraó. Afinal de contas, ele era descendente de Abrahão e Isaac,
era aquele que conduzia as pessoas a acreditar no Deus único e
seria absurdo para ele receber a bênção de um idólatra.
Assim, logo ao entrar, foi Jacob quem abençoou o governante
V
A do Egito. Ninguém até então ousara falar antes do Faraó e muito
I menos lhe dispensar uma bênção. Por isto o Faraó perguntou a
G idade de Jacob. Talvez este ancião estivesse senil, pensou o Faraó.
Á
S Uma situação que desculparia seu estranho comportamento.
h Jacob compreende o significado por trás das palavras do Faraó
e lhe assegura que não está senil. Ele, de fato, parece muito
mais velho do que é, como resultado de sua vida difícil. Seus
324
antepassados viveram até uma idade muito mais avançada
e também ele haveria de alcançar tal idade, e para não deixar
margem a dúvidas, Jacob abençoa novamente o Faraó e se afasta
de sua presença. Está claro que quem conduziu o encontro foi
Jacob, e não o Faraó.
José recebe sua família no Egito com satisfação, mas
compreende, por estas razões, que é melhor manter uma
respeitável distância da capital idólatra do Faraó. Esta resolução
seria o melhor tanto para José quanto para os filhos e netos de
Israel.
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

O mau-olhado não
te controlará

“Filho frutífero será José,


filho frutífero junto à fonte (alê áin)”.
Gênesis 49:22

“E qual a idade de seu neto?” – “Três, kinenahora.” Levei


anos antes de compreender que a palavra mais comum que eu V
escutava em casamentos e outras celebrações familiares não era A
I
o nome de algum parente irlandês perdido há muito tempo, um G
certo Conan O’Hara que eu nunca tinha encontrado, mas que Á
era a forma tradicional dos judeus de protegerem seus entes S
h
queridos contra o mau-olhado. Após séculos de uso, a expressão
hebraica kenégued áin hará (contra o mau-olhado) se transformou
no murmúrio multissilábico na língua iídiche, kinenahora. Uma
vez pronunciada esta frase familiar, você impediu toda a possível 325
inveja contida no mau-olhado que poderia ter sentido pelo fato
de a senhora Steinberg ter cinco filhos, kinenahora.
O folclore judaico é rico em costumes, contos e medidas
preventivas contra os poderes do mau-olhado. Aqueles que são
ilustres, encantadores, inteligentes, bonitos ou ricos temem muito
o olhar de um vizinho invejoso ou de um colega de trabalho
ou de um empregado que pode enviar dardos prejudiciais,
repletos de ódio, com a raiva silenciosa de seu olhar. Você nunca
notou a quantidade de portais pintados de azul em Safed, ou
fios vermelhos dados aos visitantes na Tumba de Rachel, para
proteger contra o mau-olhado? Mas qual é o poder do olho? Isso
existe realmente? Devemos encarar isso como coisa séria?
A primeira fonte sobre o assunto, que eu conheço, se encontra
no Midrash e está ligada à história de José (Bereshit Rabá 91:6). Entre
RAbINO ShLOmO RISkIN

todas as figuras bíblicas, ninguém é mais invejável do que José.


Parece ter nascido com uma colher de prata na boca (expressão
que se refere a uma pessoa de muita sorte), posta ali por um pai
apaixonado. Ele cresce e se torna bem-apessoado, perceptivo,
sábio e moral. Além de tudo, é alguém a quem ocorrem sonhos
que despertam uma enorme inveja nos irmãos. Eles reconhecem
que as mensagens dos sonhos de José não são exageradas, mas
sim, a confirmação de sua superioridade expressa em termos
simbólicos.
Pessoas que pensam que suas próprias vidas foram arruinadas
por mau-olhado poderiam facilmente explicar as tragédias da
vida de José. O momento em que ele é jogado no poço poderia
V
A ser tido como o resultado de ter sido vítima de mau-olhado, dos
I 20 maus olhos voltados contra ele (Benjamim não está entre eles).
G
Á Um dia, José está no topo do mundo e, no seguinte, está no
S fundo do poço, literalmente fitando os olhos de um escorpião. Se
h
ele não morrer de pavor, certamente a sede e a fome o matarão.
Vendido pelos midianitas aos egípcios, ele acaba vivendo uma
vida de escravo. Mas, em vez de ser recompensado por seu
326 amo Potifar, por sua integridade moral, resistindo às tentações
sexuais, ele é jogado na prisão como um estuprador pego em
flagrante. Quem sabe onde isso irá acabar? Inegavelmente, para
aqueles que acreditam que alguém lançou um mau-olhado sobre
ele, este é o momento certo de invocar alguma ajuda para José.
Entretanto, à medida que a trama se desenvolve, torna-se
claro que o vitorioso José não é uma vitima de mau-olhado. Pelo
contrário, os sábios do Talmud dizem que José superou o mau-
olhado. Eles interpretam a bênção de Jacob para José: “Filho
frutífero será José, filho frutífero junto à fonte” (alê áin significa,
literalmente, acima do olho ou acima da fonte). O significado é:
“Seja uma vinha frutífera, uma vinha frutífera que se eleva mais
alta que o mau-olhado”, que se sobrepõe e derrota o mau-olhado.
E o Rabi Iossi, filho do Rabi Chanina, cita um segundo versículo
que também trata da bênção de Jacob, mas, desta vez, da bênção
sobre seus netos Efráim e Menashe:
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

“O anjo que me salvou de todo mal, abençoe aos jovens; e seja


chamado neles meu nome, e o nome de meus pais Abrahão e
Isaac; e multipliquem como os peixes, muito, no meio da terra.”
Gênesis 48:16

O verbo veidgú (crescer como uma multidão) vem da palavra


dag (peixe) e o Rabi Iossi conclui: “Assim como os peixes no
oceano estão cobertos pela água e o mau-olhado não os pode
alcançar, assim também a semente de José não será afetada pelo
mau-olhado” (TB Berachot 20a).
O Rabino Joseph B. Soloveitchik explicou certa vez que o mau-
olhado se refere ao indivíduo que examina como os outros olham
V
para ele e procura agir de forma a agradar-lhes. Isto é negativo e A
destrutivo, ensina ele, porque representar para os olhos de outros I
G
significa não dançar segundo o ritmo do Eterno. José sempre foi Á
ele mesmo e, desta forma, ele foi capaz de vencer o mau-olhado. S
h
Como uma pessoa começa a sentir o mau-olhado?
Eu acrescentaria ainda mais uma dimensão. Um mau-olhado
é um olho de inveja e ciúme. Muitas pessoas belas e talentosas
327
são rápidas em acreditar que seus fracassos são o resultado da
inveja de outras pessoas e dos danosos olhos de espectadores
ciumentos. Afinal de contas, é mais fácil culpar outros e não a nós
mesmos pelos fracassos em nossa vida. Certamente, José teria
todas as razões para atribuir seus infortúnios aos olhos ciumentos
e invejosos de seus irmãos, pois eles foram verdadeiramente
responsáveis por sua venda ao Egito e, por extensão, por seu
aprisionamento. Se não tivesse sido vendido ao Egito, nunca
teria vindo a ter contato com a esposa do Potifar.
Mas José culpou a inveja de seus irmãos pelos eventos infelizes
de sua vida? Muito pelo contrário! Ele atribuiu tudo o que lhe
aconteceu, desde o encontro com o homem em Shechém, que o
direcionou para Dotan, o fato de ter sido vendido pelo midianitas
ao Egito e suas interpretações dos sonhos dos ajudantes do Faraó
na prisão como originários dos Céus. Isto não é uma interpretação
RAbINO ShLOmO RISkIN

midráshica, mas as próprias palavras de José a seus irmãos


quando ele lhes revelou sua identidade:

“E agora, não vos entristeçais nem vos irriteis contra vós por
haverdes me vendido para cá, porque para preservar vossa vida Deus
me mandou adiante de vós.”
Genêsis 45:5

E novamente, alguns versículos depois:

“E Deus mandou-me adiante de vós para dar-vos uma descendência


sobre a terra, e para fazer-vos viver por uma grande salvação. E
agora, vós não me enviastes aqui, senão Deus; e Ele me pôs por pai
V do Faraó...”
A Gênesis 45:7-8
I
G Em contraste com aqueles que vêm seus fracassos como o
Á
S
resultado direto da inveja de outros, de um mau-olhado, José
h aprende a entender os eventos como provocados por Deus de
uma forma poderosa. Até este ponto, o contato de Deus com os
patriarcas tinha sido direto. Sua vontade está próxima de seu
coração e nunca mais distante do que um anjo mensageiro. Mas
328
nunca lemos nada sobre um contato direto de José com Deus ou
que ele tenha sido visitado por anjos. O que José nos apresenta
é um passo revolucionário em nossa compreensão de Deus: de
que Sua presença no mundo não nos atinge na cabeça com uma
visão sinfônica, mas sim, que podemos discerni-la e sua Divina
mensagem nos eventos diários de nossa vida, e mesmo em
nossos fracassos. Deus nos provê com múltiplas oportunidades.
Precisamos aproveitá-las adequadamente para trazer o mundo
para mais perto da redenção.
Quando isso acontece, nós ajudamos a tornar realidade os
projetos de Deus e isto é, afinal, a maior expressão dos desígnios
Divinos. Um sábio chassídico explicou certa vez que mazal
(usualmente traduzido como sorte) é a contração de três palavras
hebraicas: macóm (lugar), zemán (tempo) e limud (conhecimento).
Ou seja, sorte é estar no lugar certo, na hora certa e saber como
LUZES DA TORÁ – GÊNESIS

aproveitar apropriadamente esta oportunidade para a glória


dos Céus. Devemos aprender a construir nosso próprio mazal
sobrepondo-nos ao “mau-olhado”, assim como fez José.
Quem acredita no mau-olhado está sendo cego frente a
responsabilidade e a habilidade humana. Essa pessoa ignora o
plano Divino que dirige o mundo, afirmando que seus fracassos
provêm, não do que faz ou deixa de fazer, mas do ciúme de
pessoas más e de inimigos. Ela nega o poder de Deus de extrair
resultados doces de experiências amargas, de transformar limões
em limonada. “Aquele que trabalha pela purificação do mundo
é ajudado pelo Alto” (Berachot 20a). José é o arquétipo bíblico da
pessoa que aprendeu a não valorizar o mau-olhado dos outros.
V
Seus descendentes certamente nunca se considerarão vítimas de A
um certo Conan O’Hara. I
G
Nem o Talmud de Jerusalém nem Maimônides fazem qualquer Á
referencia ao “mau-olhado”. O Rebe de Kotzk afirmava que S
h
Maimônides era um vulto tão extraordinário que teve sucesso
em fazer desaparecer o mau-olhado. Quando lembramos as
perseguições dos almóadas islâmicos e os abusos covardes e
rasteiros de elementos de dentro da comunidade que ele sofreu, 329
tendo alguns destes últimos chegado até a queimar seus livros,
e considerarmos suas grandiosas realizações na Torá e sua
estatura na medicina, a despeito de tudo isso, fica claro que ele,
assim como José, verdadeiramente se sobrepôs e destruiu o mau-
olhado.
GÊNESIS / BERESHIT / ,hatrc l 71

d
VAYIGÁSH
Gênesis 44:18 – 47:27

hf
JAcoB não chorou

Uma família emigrando ao Egito

Os olhos de Jacob iluminaram-se novamente. A espantosa notícia


o fez reviver e renascer. Após vinte e dois anos de sofrimento e luto,
seus ouvidos já falhos lograram escutar a notícia que José ainda vivia,
e ele recebeu um belo e inesperado presente em sua velhice, com o qual
jamais havia sonhado. Grande foi a dádiva Divina, maior e mais bela
do que ousara sonhar. Uma grande saudade despertou em seu coração:
“Irei e o verei (José) antes que morra.”
Gênesis 45:28

E assim a família de Jacob foi ao Egito. Um clima auspicioso reinava na


família devido ao esperado reencontro familiar. Todos comungavam da
alegria do ancião, o qual havia reencontrado seu amado filho temporão.
Apesar deste clima, uma nuvem de preocupação pairava sobre
a família. Uma preocupação oculta aos olhos de estranhos, mas que
consumia as profundezas do coração generoso de Jacob, o patriarca
do povo: a preocupação e a incerteza quanto ao futuro. Sabemos disto
apenas devido ao fato de Deus haver-se revelado perante Jacob, quando
este estava na fronteira da Terra de Israel, pedindo-lhe que não temesse:
“Não temas descer ao Egito.”
Gênesis 46:3

Mas Jacob realmente temia. Ele tinha a consciência que sua ida ao
Egito representava o início do êxodo que havia sido anunciado por
Deus a Abrahão no “Pacto entre as Partes Cortadas”. Ele sabia que a
72 l REFLEXÕES SOBRE A TORÁ

ida ao Egito, que haveria de proporcionar-lhe seus últimos momentos


de felicidade pessoal, era a concretização de uma jornada histórica,
expressa nas palavras que foram ditas a Abrahão:
“Sabe, com certeza, que peregrino será tua semente em terra que não lhe
pertence, e a farão servir e a afligirão quatrocentos anos.”
Gênesis 14:13

Sua felicidade pessoal estava, pois, mesclada à tragédia nacional.


O Egito amedrontava-o pois sabia que não era florido o futuro que
ali esperava por seus descendentes. No entanto, não eram apenas
o sofrimento e o martírio que afligiriam seus descendentes que o
preocupava. Estava preocupado principalmente com a possível
assimilação de seus descendentes e com a possibilidade de se tornarem
cidadãos da terra do Nilo, uma terra de cultos pagãos e um império
de luxúria. Temia que Canaã, sua terra de origem, fosse esquecida ou
se tornasse apenas uma vaga lembrança nas memórias de seus filhos.
Mas do ponto de vista da Providência Divina, as coisas eram distintas.
Pois foi-lhe dito:
“Não temas descer ao Egito, porque lá Eu farei de ti uma grande nação.”
Gênesis 46:3

“Sou Eu que te digo para que não temas descer ao Egito, pois de ti farei lá
uma grande nação. Se teus filhos permanecessem aqui, na terra de Canaã,
casariam-se com os canaanitas e a eles se assimilariam. Mas no Egito isto não
ocorrerá, pois os egípcios não poderão comer pão com os hebreus.”
Rabi Ovadia Seforno

Isto significa que as coisas não ocorrem conforme o que tu pensas,


Jacob. Ao contrário do que tu imaginas, a consolidação de um povo
a partir de seus descendentes, baseada na moral herdada por ti e por
Abrahão, não poderá ser feita em Canaã. O perigo da assimilação
espreita justamente na futura pátria, no início de seu caminho. Nessa
terra, teus netos e bisnetos cresceriam em um ambiente de liberdade
absoluta e se envolveriam, sem qualquer obstáculo espiritual, com a
sociedade canaanita local e sua cultura dominante, sendo tragados com
o passar do tempo. Assim, durante o período de formação do povo,
justamente o êxodo no Egito poderá preservá-lo adequadamente. Lá
farei de ti uma grande nação, com identidade e destino próprios. Lá,
naquela terra abundante, maravilhosa e maldita, vocês serão condenados
ao isolamento espiritual necessário. Os habitantes da terra se afastarão
GÊNESIS / BERESHIT / ,hatrc l 73

de vocês, lhes desprezarão e não desejarão sua companhia (ou seja, o


antissemitismo é reconhecido aqui como força criadora, formadora da
identidade judaica, e não apenas como uma atitude pérfida). Apenas
após anos de sofrimento e consolidação, com o acréscimo da Torá
que hão de receber no deserto, é que vocês retornarão à terra de seus
antepassados. Então terão uma identidade cristalizada e carregarão
consigo uma nova cultura que influenciará todo o mundo no futuro: a
cultura dos hebreus do deserto do Sinai. Assim, quando Jacob ouviu
a promessa que “Eu descerei contigo ao Egito, e Eu te farei subir também”
(Gênesis 46:4), ele teve a certeza de ter escutado um fragmento da
recôndita Providência Divina, que está envolvida nos acontecimentos
deste mundo e que direciona os caminhos do povo de Israel de acordo
com seus objetivos.

Uma prece no momento do encontro

Aproxima-se o momento do encontro. Em breve Jacob deve chegar à


fronteira da terra de Goshen. Ali está sendo esperado ansiosamente por
seu filho José, que vem à frente de uma comissão de dignatários egípcios.
É interessante verificar com atenção o que se passou no momento deste
encontro histórico. O texto bíblico nos diz o seguinte:
“E tendo-se-lhe apresentado, atirou-se sobre seu pescoço,
e chorou muito sobre seu pescoço.”
Gênesis 46:29

O texto deixa claro que apenas um deles se atirou sobre o pescoço


do outro e chorou. Qual dos dois não teria chorado nes te encontro
emocionante? Os sábios do Midrash nos ensinam:
“Mas Jacob não atirou-se sobre o pescoço de José e não o beijou. E nossos
Sábios disseram que neste momento estava rezando o Shemá (‘Ouve, Israel,
o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um!’)”.
Rashi

E o espanto perante a situação cresce por si só:


“E o sentido principal do que está escrito, que apenas José chorou e não Jacob,
é um espanto. E Rashi escreveu em nome do Midrash que neste momento
Jacob rezava o ‘Shemá’. Este fato também deve ser esclarecido: será que Jacob
não poderia ter escolhido outro momento para dizer a prece, que não este em
que reencontrava José?”
Heamec Davar
74 l REFLEXÕES SOBRE A TORÁ

A pergunta é realmente difícil: Por que será que Jacob demonstrou


indiferença em um momento que deveria proporcionar-lhe tanta
felicidade? Parece que no momento do encontro Jacob agiu não como
um pai que reencontrava seu filho, mas como o pai da nação, reagindo
instintivamente aos seus temores nacionais e espirituais. Apesar de
Deus ter-lhe prometido que o povo se formaria justamente através do
sofrimento no Egito, Jacob sentiu que deveria realizar algo de concreto
em prol do futuro espiritual de seus descendentes.
No exato momento em que pai e filho se encontraram, despontava
o sol no horizonte, iniciando-se um novo dia. Este é o momento no qual
os judeus devem proferir a reza do Shemá, demonstrando a aceitação
do jugo do reino dos céus. Jacob, então, demonstrou sua independência
absoluta, dominando todos os seus sentimentos apesar do mal-estar
decorrente de tal atitude..
Neste instante, um frenesi ocorria entre todos os que o cercavam. Seu
filho José corria em seu encontro e os outros filhos certamente estavam
emocionados diante da cena. Também a comitiva egípcia observava a
cena de forma atenta e curiosa. Eis que José se aproxima e, justamente
naquele momento, Jacob decidiu cumprir sua obrigação religiosa sem
considerar o que ocorria ao seu redor.
Este foi um momento dramático sob qualquer parâmetro de avaliação.
Através de sua atitude, Jacob demonstrou como iria se comportar na
terra do Egito e como esperava que seus descendentes se portassem
ali. Seu desejo era que, em quaisquer circunstâncias, o dever de manter
a identidade judaica fosse transmitido a todos os descendentes e que
eles nunca abandonassem quaisquer dos valores do judaísmo devido a
pressões externas. Os egípcios podem observá-lo quanto o desejarem,
mas isto não o impediria de cumprir sua obrigação como descendente
de Abrahão. Nenhum tipo de desconforto possível, devido a presença de
estranhos, o impediria de cumprir os mandamentos de sua religião. Ele
agiu assim para ensinar a seus filhos e descendentes que não deveriam
deixar que a cultura que os cercava os influenciasse.
Esta foi sua contribuição contra uma possível assimilação no futuro.
Em seu primeiro ato no Egito, diante de todos os dignitários egípcios
e pagando o preço de adiar o abraço em seu filho, Jacob ensinou seus
descendentes a não aceitarem nenhum tipo de rendição espiritual por
menor que seja, haja o que houver.
Pinchás H. Peli

Torá Hoje
Um encontro renovado com a Escritura Sagrada
Torá Hoje
Vaigásh
Gênesis 44:18-47:27

paraíso dos malandros


Cena após cena, o drama se desenrola, com grande suspense e crescente
tensão. Num relato considerado como um dos mais belos da literatura
mundial, José revela-se a seus irmãos.
A narrativa bíblica assim prossegue:

E José não pôde conter-se diante de todos os que estavam de pé perto dele e exclamou: 63

“Fazei a todos sair de perto de mim! E não ficou ninguém com ele, quando José se
revelou a seus irmãos. E levantou sua voz em choro.” (Gênesis 45:1-2)

Quando o momento da verdade chegou, quando José não podia mais


controlar suas emoções, quando chegou a hora de acertar as contas com
seus irmãos, a ordem foi: “Fazei a todos sair...” Era um momento, desses que
nenhum estranho deve presenciar, quando sentimentos profundos devem ser
restritos aos membros mais chegados da família. Só entre eles, pode alguém
expressar ressentimentos que exigem manifestações. Acusações legítimas
e lembranças de velhas contendas podem vir à tona – mas não devem ser
ouvidas por estranhos.
Estranhos não entenderiam o ocorrido, além de tirar disso uma satisfação
maldosa ou apreender apenas os pontos fracos revelados durante a
discussão. José sabia muito bem que ninguém deveria estar presente
quando enfrentasse seus irmãos.

Gênesis
Semelhante peculiaridade seria notada mais tarde, na vida de outra figura
bíblica destinada a ser líder de seu povo. É quando Moisés, bebê, é colocado
em uma cesta de junco de papiro, que é posta a flutuar no rio. A filha do
Faraó encontra a cesta dentro do carriçal, sobre a beira do Nilo, nos baixios
do Mar de Juncos (não Mar Vermelho, como se tornou erroneamente
conhecido), “E ela a abriu e viu o menino, e eis que parecia chorar, e teve
compaixão dele, e disse: Dos meninos dos hebreus é este!” (Êxodo 2:2-6).
Se o menino encontrado estava chorando, pergunta um dos rabinos, por que
nos contam que ela “viu” o bebê chorando e não, como seria o certo “ouviu”
o bebê chorando?
Além do mais, o que a levou a dizer de pronto que o menino encontrado era
uma criança dos hebreus?
A resposta é esta: Quando a filha do Faraó “viu” o menino chorar com
tamanho autocontrole, que não dava para ouvir, ela, imediatamente, deduziu
que “Dos meninos dos hebreus é este!” Somente uma dessas crianças saberia
64 chorar “internamente”, para que ninguém pudesse ouvi-la. Somente uma
criança dos hebreus saberia, como soube José, que só deve chorar no meio dos
seus, fingindo estar tudo bem para os estranhos.

Os rabinos, no Midrash, discutem ainda a sensatez de José ao ordenar a retirada


de todos, no momento em que se encontra com seus irmãos. Não deveria
ele ter ficado com medo que os irmãos, em sua fúria – ignorando que ele era
José, o irmão perdido – pudessem matá-lo, uma vez que seus guarda-costas
haviam saído?
Diz um rabino: José deve ser criticado pelo que fez. Foi imprudência de sua
parte arriscar-se desnecessariamente. Outro, contudo, acha que ele deve ser
louvado pela sua atitude e pela coragem demonstrada. Desejoso de evitar
embaraços aos seus irmãos, diante de estranhos, chegou ao ponto de arriscar
a própria vida. Um terceiro rabino comenta que José foi sábio o suficiente,
para avaliar a situação corretamente, e chegar à conclusão de que não havia
risco real em fazer o que fez.

Torá Hoje
Embora seus irmãos não conhecessem a sua verdadeira identidade, naquele
momento, José sabia quem eles eram e que, em nenhuma circunstância,
matariam um homem desarmado. Confiava na integridade básica dos irmãos,
a despeito da amarga experiência a que eles o submeteram.

Após o encontro cheio de emoção, José dá adeus aos seus irmãos, que
voltam a Canaã para levar a boa-nova a Jacob e trazê-lo com eles, quando
retornassem ao Egito. Ele adverte os irmãos: “Não tenhais desavenças no
caminho” (Gênesis 45:24).
Compreendemos essa advertência e a oportunidade de seu contexto,
significando que José receava que eles pudessem começar a censurar-se,
reciprocamente, pelo que acontecera e os aconselhava a não tomar essa
atitude. Mas alguns comentaristas da Torá consideram de modo diverso
essa advertência: os irmãos não deviam discutir com outras pessoas que
encontrassem pelo caminho.
65
Agora, regressando a Canaã como irmãos do poderoso governante do
Egito, José teme que eles possam se sentir superiores e que isso influa em
seu comportamento com os que encontrassem pelo caminho. Portanto, ele
achou conveniente recomendar que não se envolvessem em dificuldades por
causa de uma incontrolável sensação do poder recém-adquirido.

Os rabinos do Talmud dão uma interpretação inteiramente diferente a estas


palavras de despedida: “Não tenhais desavenças no caminho.” Enfatizam
a segunda metade da sentença, “no caminho”, significando “o Caminho”,
isto é, a Halachá, ou a filosofia de vida religiosa judaica, e opinam que José
aconselhou seus irmãos da maneira como o fez, a fim de evitar que se
envolvessem em discussões haláchicas.
Por que essa advertência nesse momento específico? Talvez José receasse
que seus irmãos, para se justificarem, utilizassem métodos haláchicos de
argumentação, para concluir que o que lhe haviam feito estava certo
“de acordo com a Halachá”. Ele queria que enfrentassem a iniquidade

Gênesis
praticada ao vendê-lo e extraíssem as conclusões morais justas. Sofrimento
e humilhação nem sempre podem ser justificados com o argumento de
“mas, isto é a Halachá!”
Os rabinos sempre souberam do perigo da lei formal, ou que a justificativa
em nome da Halachá poderia se tornar um “paraíso para os malandros”.
Insistem conosco que devemos ir além da letra da lei e lembrar que ela
não é um objetivo em si, mas um meio de alcançar o objetivo maior:
“Sereis santos” (Levítico 19:1).

66

Torá Hoje