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UNIVERSIDADE​ ​FEDERAL​ ​FLUMINENSE

TÓPICOS​ ​ESPECIAIS​ ​DE​ ​FILOSOFIA​ ​DA​ ​EDUCAÇÃO


HEITOR​ ​M​ ​CAMPOS

“Argumente​ ​em​ ​que​ ​medida​ ​é​ ​possível​ ​para​ ​um​ ​indivíduo​ ​ser​ ​consciente​ ​de​ ​si,​ ​de
maneira​ ​singular,​ ​de​ ​modo​ ​a​ ​contribuir​ ​para​ ​a​ ​sua​ ​própria​ ​formação​ ​e​ ​emancipação.”

Consciência de si – o quanto ainda se pode defender a respeito da possibilidade ou a


utilidade deste conceito? De princípio a abolição do paradigma do sujeito moderno e toda a
sua complexa subjetividade amparada em uma racionalidade incondicionada e
livre-arbítrio já nos deixa sem um fundamento para defender um uno que possa simbolizar
este “si”. De modo que, ao enfatizar, ao longo de suas obras, o múltiplo, Nietzsche nos
deixa com um conceito de “eu” plural. O “indivíduo” (se é que ainda se pode utilizar tal
alcunha, dado a abolição de um “indivisível”) passa a ser um subproduto de forças
inumeráveis e conflituosas. E aonde torna-se cabível alguma ação deliberada?
Emancipação?
“A vida é meramente um caso especial de vontade de poder”, assim descreveu
Nietzsche em um dos Fragmentos Póstumos1. Parece que o homem nada mais é que uma
consequência, um ​efeito necessário​, da vontade de poder constitutiva de toda a realidade, e
como tal é determinado, e não determinante de novos efeitos. O homem, como já
trabalhado em textos anteriores, com ênfase no aforismo 39 do capítulo 2 de ​Humano,
demasiado humano​, é desprovido de um local privilegiado de onde possa deliberar, de uma
instância incondicionada, ao ponto de poder tomar um curso de ação que inicie assim uma
nova cadeia causal. Não há esta vontade livre individual, apesar de haver a ilusão dela
proveniente do sentimento de remorso e da ignorância da necessidade dos fenômenos. A
neurociência nos traz atualmente, com o rigor das ciências naturais, mais uma vez essa
afirmação. “As ações podem começar no subconsciente e o que sentimos como decisão é
um registro do que já foi decidido”, diz Benjamin Libet, neurocientista, após diversos
experimentos na década de 80 que demonstravam que as ações são tomadas anteriormente
a​ ​decisão​ ​de​ ​tomá-las.

1
​ ​apud​ ​CF​ ​Fonseca,​ ​Richard.​ ​“Da​ ​determinação​ ​da​ ​vontade​ ​enquanto​ ​vontade​ ​de​ ​poder.”,​ ​p.​ ​324.
Ainda dentro do que se vê na atualidade da neurociência, desconstruindo a ideia de
que temos uma consciência central que rege nosso comportamento, e defendendo algo
mais próximo a vários módulos que, em conflitos de poder, impulsionam nossas ações,
temos Michael Gazzaniga, psicólogo e professor na Universidade da Califórnia. Ele
trabalhou com pacientes que tiveram os hemisférios do cérebro separados em um
tratamento contra a epilepsia e como conta em ​Who’s in Charge? apesar de não haver a
comunicação entre os dois lados do cérebro, e diante da ignorância das ações que o outro
lado tomava – como o gesto de levantar ou desenhar um carro, a razão continuava
buscando sustentar a ilusão de uma consciência una. A razão meramente busca construir
um​ ​discurso​ ​que​ ​justificasse​ ​e​ ​fortalecesse​ ​a​ ​ilusão​ ​de​ ​deliberação.
Esse problema da inversão do efeito pela causa é também apontado por Nietzsche no
aforisma 13 do primeiro capítulo de ​Humano​, ao falar a respeito da “Lógica do sonho”:
“Todos sabem, por experiência, como o indivíduo que sonha entremeia rapidamente no
sonho um ruído forte que lhe chega, como o repicar de sinos ou tiros de canhão, isto é,
explica-o ​depois a partir do sonho, de forma que ​pensa experimentar primeiro as
circunstâncias ocasionadoras e depois o ruído”. O mesmo nos ocorre mesmo em vigília,
quando nosso espírito nos elabora imediatamente convincentes estórias para dar propósito
ao que ocorre fora de nosso controle. Isto que constrói em nós tão elaborados emaranhados
de histórias para sustentar a ilusão de uma consciência una é o que Gazzaniga chama de
intérprete​ ​do​ ​cérebro​.
Mesmo diante de um indivíduo fragmentado como vemos, e condicionado por causas
exteriores que fogem de seu controle, ainda temos o conceito de ​consciência​. A respeito
deste​ ​Nietzsche​ ​vem​ ​desencantar-nos​ ​no​ ​aforismo​ ​354​ ​de​ ​A​ ​Gaia​ ​Ciência​:

Com efeito, poderíamos pensar, sentir, querer, lembrar-nos: poderíamos igualmente


agir em todas as acepções do termo, sem que seja necessário que tudo isso “​chegue
à nossa consciência​”. A vida inteira poderia passar sem se olhar de algum modo
nesse espelho: por outro lado, ainda agora, a maior parte da vida decorre em nós
sem que haja semelhante reflexão - e mesmo quando pensamentos, sentimos e
agimos, por mais ofensivo que isso possa parecer a um filósofo antigo. Para que
serve​ ​a​ ​consciência,​ ​se​ ​é​ ​supérflua​ ​para​ ​tudo​ ​o​ ​que​ ​é​ ​essencial?

Apesar de não haver a necessidade de fundamentar ainda mais uma afirmação tão
clara quanto a nietzschiana é um consenso científico na atualidade que a mente passa
grande parte do tempo ​economizando energia​, eximindo-se de reflexão, seguindo instintos
e hábitos de agir e pensar para a grande maior parte de suas ações. ​Inconscientes os
humanos​ ​seguem​ ​quase​ ​o​ ​tempo​ ​todo.
A consciência, continua Nietzsche no aforisma, veio a ser no homem junto a
linguagem, ambas como uma necessidade adaptativa: “Uma vez que era o mais ameaçado
dos animais, tinha necessidade de ajuda e proteção, tinha necessidade de seus semelhantes,
era obrigado a saber exprimir sua aflição, a saber tornar-se inteligível”. A consciência é
então um ​tornar comum (comunicar) de experiências pessoais. É uma generalização, como
funciona na linguagem, do que é, por natureza, particular. Através disso o que torna-se
comunicável, e para tal tornou-se antes consciente, é necessariamente uma vulgarização –
onde o que há de mais particular e profundo na natureza permanece, por definição, no
âmbito do incomunicável (e incognoscível). E conceitos como unidade e identidade
acabam​ ​por​ ​mostrar-se​ ​somente​ ​válidos​ ​gramaticalmente.
Como vimos, a respeito de: “em que medida é possível para um indivíduo ser
consciente de si [...] de modo a contribuir para a sua própria formação e emancipação” não
há “indivíduo”, pois o sujeito é somente um produto de causas exteriores, submisso a uma
herança dado sua filogênese, ontogênese, sociogênese e microgênese2. A “consciência”
não pode ser de um “de si” dado que é fragmentada, e está limitada a conhecer aspectos
superficiais, confusos e parciais das coisas e de seus próprios módulos. Além de ser uma
concepção ​supérflua e de utilidade restrita, e potência questionável, que, assim como a
linguagem, que com ela está atada, encontra-se submetida a uma causa anterior, mais
potente e que lhe pressiona – no caso da “consciência” é o “inconsciente” (não lido
freudianamente, como uma subdivisão da mente do sujeito, mas como tudo aquilo que
transpassa-o e sob o qual ele não mede reflexão), e na linguagem temos o ​atavismo3
(cultural). Não há deliberação livre para que se busque contribuir de algum modo para com
algum objetivo. E nem faz sentido defender uma “formação” dado a voracidade e
fugacidade a qual o ser humano encontra-se imerso devido o ​devir e a vontade de poder.
Contudo,​ ​ainda​ ​se​ ​faz​ ​possível​ ​falar​ ​de​ ​“emancipação”.

2
​ ​VYGOSTKY​ ​apud​ ​Marta​ ​Kohl​ ​in​ ​Aula​ ​Magna​ ​do​ ​Programa​ ​de​ ​Pós-Graduação​ ​de​ ​Educação,​ ​Arte​ ​e
História​ ​da​ ​Cultura,​ ​2012.
3
​ ​BENJAMIN,​ ​Walter.​ ​Sobre​ ​a​ ​Linguagem​ ​Geral​ ​e​ ​sobre​ ​a​ ​Linguagem​ ​do​ ​Homem​.
A ​emancipação não é um conceito nietzschiano propriamente dito, contudo, no
significado corrente da palavra, apesar de flertar com o conceito de ​menoridade4
kantinano, denota certa liberdade que comunga de certo poder, conhecimento ou
consciência de si. Se abandonarmos o conceito de “‘livre-arbítrio’ entendido no sentido
superlativo e metafísico que domina ainda (por desgraça, nos cérebros semi-cultivados)”,
como ridiculariza Nietzsche em ​Além do Bem e do Mal​, aforismo 21, e nos atermos a
noções deflacionadas para “liberdade”, “consciência”, “conhecimento” e “indivíduo”, pode
ser​ ​produtivo​ ​falar​ ​de​ ​uma​ ​possível​ ​“emancipação”.
Como Spinoza Nietzsche também vê uma certa pulsão não-causada, não-teleológica e
não-subjetiva como constituinte do real, e não uma exclusividade humana. Para um o
conatus​, o esforço por persistir na existência, e para o outro a ​vontade de poder​. Ambos
são uma força irrefletida que se encontra presente como a essência fundamental de todo
existente, do qual o homem é só um conceito subjacente. De modo que o fluxo incessante
de afecções perpassam o homem sendo a natureza infinitamente maior do que ele5. Por
consequência das causas lhe serem exteriores e para as quais ele é impotente, conclui-se
que​ ​tudo​ ​que​ ​ocorre​ ​o​ ​faz​ ​da​ ​única​ ​maneira​ ​que​ ​poderia​ ​tê-lo​ ​feito.
A aproximação com Spinoza serve-nos como primeiro degrau para uma análise mais
aprofundada de um conceito de liberdade como “emancipação” em Nietzsche. Em ​Ética​,
quinta parte, d’​A ​potência do intelecto ou a liberdade humana​, encontramos o trabalho
spinozano a respeito da superação da condição de submissão humana aos afetos, uma
condição em que agimos de forma irrefletida, mas está-se quase religiosamente persuadido
de que se é livre em escolha (como vimos ser um hábito da mente humana, pelas palavras
de Gazzaniga). Tal estado, nomeado por Spinoza como “primeiro gênero do
conhecimento”, ou ​imaginação​, pode muito bem ser entendido quando Nietzsche, no
aforismo 2 da ​Gaia Ciência​, onde, entre diversos apontamentos, diz que “à maioria dos
homens falta consciência intelectual”. Em Spinoza, como resumido no corolário da
proposição 3 da parte supracitada da ​Ética​, “um afeto está tanto mais sob nosso poder, e a

4
​ ​KANT,​ ​Immanuel​ ​in​ ​Texto​ ​Resposta​ ​a:​ ​O​ ​que​ ​é​ ​o​ ​Esclarecimento?
5
​ ​Diga-se​ ​de​ ​passagem​ ​ambos​ ​os​ ​conceitos,​ ​mas​ ​principalmente​ ​o​ ​nietzschiano,​ ​soam​ ​como​ ​o
conceito​ ​de​ ​harmonia​ ​heraclítico​ ​–​ ​produto​ ​do​ ​conflito​ ​constante,​ ​da​ ​oposição​ ​de​ ​contrários,​ ​a​ ​guerra
formadora​ ​do​ ​real.​ ​Tal​ ​aproximação​ ​mostra-se​ ​coerente​ ​principalmente​ ​por​ ​ter​ ​sido​ ​confessada​ ​pelo
próprio​ ​autor​ ​em​ ​Ecce​ ​Homo​.​ ​Logo,​ ​apesar​ ​do​ ​soar​ ​metafísico​ ​de​ ​suas​ ​proposições,​ ​a​ ​visão​ ​de
mundo​ ​como​ ​vontade​ ​de​ ​poder​ ​parece​ ​estar​ ​sendo​ ​afirmativa​ ​de​ ​uma​ ​condição​ ​muito​ ​íntima​ ​da
realidade,​ ​uma​ ​verdade​ ​visceral,​ ​e​ ​encontra​ ​pensamento​ ​germinal​ ​em​ ​pré-metafísicos.
mente padece tanto menos, por sua causa, quanto mais nós o conhecemos”. A questão para
Spinoza é o conhecimento. Mas não simplesmente o conhecer, mas o conhecer a causa dos
afetos, e se somos construídos pelos afetos que nos afeccionam, é uma busca por um
conhecer a ti mesmo​. Basicamente uma definição para “consciência”. E tornar isso “tanto
mais sob nosso poder” é o caminho para ​emancipação (com alguma similitude ao
empoderamento descrito em âmbito pedagógico por Paulo Freire ou a saída da ​menoridade
kantiana).
Numa visão Nietzschiana a emancipação encontrar-se-a no movimento de, por meio
de (re)conhecer seu atavismo e o quanto se está submisso a conceitos prévios e instintos,
buscar a ​transvaloração ​de todos os valores​. Dado a impossibilidade de se ser amoral, da
mesma forma que é uma impossibilidade tornar-se novamente não-simbólico (sem
linguagem), é necessário buscar ter ​sim uma tábula de valores, contudo, hierarquizada pelo
próprio sujeito e produzida por sua reflexão. De mesmo modo quando, ao falar da
linguagem como nascida da necessidade, mas não como artifício de um individual, porém
de uma herança sedimentada em gerações sucessivas de humanos sob as mesmas
condições, Nietzsche diz que este tesouro espera um herdeiro que o dispense com
prodigalidade​ ​(af.​ ​354,​ ​A​ ​Gaia​ ​Ciência​).
A liberdade, o movimento possível, por mais mínimo que seja, e entendido de forma
modesta e condicionada, está nesse gesto criativo, provindo do reconhecimento e da
consciência, e do questionamento das coisas como habitualmente são pensadas, que
permite ​tornar-se o que se é. E fala-se aqui de uma relação com o conhecimento diferente
da tradicional também. Não somente a “necessidade de conhecimento”, como acusada no
af 355 do mesmo livro. Não conhecimento para amenizar o medo do desconhecido, mas
para​ ​intensificá-lo​ ​e​ ​afirmá-lo:​ ​estar​ ​diante​ ​do​ ​mundo​ ​como​ ​uma​ ​criança.
Talvez este reconhecimento só seja possível pelo acúmulo de acasos fortuitos, e o
gesto criativo possa não passar de efeito necessário, todavia diz Nietzsche em ​Além do
Bem​ ​e​ ​do​ ​Mal​ ​(af.​ ​21),​ ​esta​ ​é​ ​sua​ ​crítica​ ​ao​ ​mecanicismo:
É conveniente entretanto, não se servir da “causa” e do “efeito” senão em termos de
puros ​conceitos​, ou seja, como ficções convencionais que servem para designar,
para pôr-se de acordo, porém de modo algum para explicar alguma coisa. No "em
si" não há nenhum vestígio de "nexo causal", de "necessidade", de "determinismo
psicológico", o "efeito" não é conseqüência de nenhuma "causa" , nenhuma "lei"
impera ali. Ninguém mais que nós foi o inventor de tais ficções como: a causa, a
sucessão, a reciprocidade, a relatividade, a necessidade, o número, a lei, a liberdade,
a razão, o fim, e quando introduzimos falsamente nas "coisas" este mundo de
símbolos inventados, quando o incorporamos às coisas como se lhes, pertencesse
"em​ ​si"​ ​mais​ ​uma​ ​vez,​ ​como​ ​sempre​ ​fizemos,​ ​criamos​ ​uma​ ​mitologia.
Bibliografia:
NIETZSCHE, Friedrich. ​Humano, demasiado humano. Tradução: Paulo César de
Souza.​ ​São​ ​Paulo:​ ​Companhia​ ​das​ ​Letras,​ ​[1878]​ ​2017.
__________________ . ​A ​Gaia Ciência​. Tradução: Antônio Carlos Braga. São Paulo:
Escala,​ ​[1882]​ ​2006.
__________________ . ​Além do Bem e do Mal​. Tradução: Márcio Pugliesi. Curitiba:
Hemus,​ ​[1886]​ ​1977.
__________________ . ​Ecce Homo​. Tradução: Artur Morão. Covilhã: LusoSofia, [1908]
2008.
SPINOZA, Benedictus de. ​Ética​. Tradução: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica
Editora,​ ​[1677]​ ​2015.
FONSECA, Richard. “Da determinação da vontade enquanto vontade de poder.”
Edição:​ ​Neto​ ​Pimenta​ ​e​ ​José​ ​Olympio.​ ​Assim​ ​falou​ ​Nietzsche​,​ ​1999:​ ​321-328.
COSTA, Alexandre. ​Heráclito: Fragmentos Contextualizados​. Imprensa Nacional,
Casa​ ​de​ ​Moeda,​ ​2005.
GAZZANIGA, Michael S . ​Who’s i​n Charge?​: ​Free Will and the Science of the
Brain​.​ ​Nova​ ​Iorque:​ ​HarperCollins,​ ​2011.
IAMARINO, Átila. ​Temos livre-arbítrio? Quem toma nossas decisões?​. ​YouTube​,
19 jan 2017. Disponível em: ​https://www.youtube.com/watch?v=z-ATdBKNErM​.
Acesso​ ​em:​ ​17​ ​dez​ ​2017.
DAMÁSIO, Antônio. ​E o cérebro criou o homem​. Tradução: Laura Teixeira Motta.
São​ ​Paulo:​ ​Companhia​ ​das​ ​Letras,​ ​[2010]​ ​2011.

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