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falando com estranhos

o estrangeiro e a literatura brasileira

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Stefania Chiarelli
Godofredo de Oliveira Neto (Org.)

falando com estranhos


o estrangeiro e a literatura brasileira

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©2016 Stefania Chiarelli e Godofredo de Oliveira Neto

Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa


de 1990, adotado no Brasil em 2009.

Coordenação editorial
Isadora Travassos

Produção editorial
Eduardo Süssekind
Rodrigo Fontoura
Victoria Rabello

Revisão
Rita Cyntrão

cip-brasil. catalogação na publicação


sindicato nacional dos editores de livros, rj

F157

Falando com estranhos: o estrangeiro e a literatura brasileira / organização Godofredo


de Oliveira Neto, Stefania Chiarelli. – 1. ed. – Rio de Janeiro: 7Letras, 2016.
il.

isbn 978-85-421-0427-1

1. Literatura brasileira – História e crítica. I. Oliveira Neto, Godofredo de . II. Chiarelli,


Stefania. III. Título.

16-29862 cdd: 809


cdu: 82.09

2016
Viveiros de Castro Editora Ltda.
Rua Visconde de Pirajá, 580/sl. 320 | Ipanema
Rio de Janeiro | rj | cep 22410-902
Tel. (21) 2540-0076
editora@7letras.com.br | www.7letras.com.br

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Sumário

Apresentação7

1. cartografias, globalização
Deslocamentos reais e paisagens imaginárias − o cosmopolita pobre 15
Silviano Santiago
E a origem sempre se perde 33
Paloma Vidal
Fora do Brasil – globalização e deslocamento na literatura
brasileira contemporânea: migração transnacional e luto cultural 48
Nelson H. Vieira
Do monstro interplanetário Gyodai à tradição
da poesia tanka, Tóquio vista pelo olhar estrangeiro
de João Paulo Cuenca: uma leitura da coleção Amores Expressos 64
Paulo Roberto Tonani do Patrocínio

2. tradição, herança e filiação


A narrativa de filiação de escritores judeus brasileiros 81
Eurídice Figueiredo
As paisagens sonoras de Samuel Rawet 95
Stefania Chiarelli
Imigração e escrita em Lavoura arcaica 107
Masé Lemos

3. história, memória e narração


Uma das mil histórias do Šahrāzādo Baiano –
A descoberta da América pelos turcos  129
Muna Omran
Imigração no feminino: Amrik, de Ana Miranda 140
Maria Zilda Ferreira Cury

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A ferro e fogo, de Josué Guimarães: a saga dos primeiros
colonos alemães no Rio Grande do Sul e seu alheamento
da ambiência sociocultural brasileira 159
Alcmeno Bastos
Os agudás de Um defeito de cor e de A casa da água:
africanos e afro-brasileiros, estrangeiros na África  176
Ana Maria Vieira Silva

4. estranhos, estrangeiros, viajantes


Lima Barreto e seus estrangeiros 193
Beatriz Resende
A um passo de Elvira Vigna: uma alegoria distópica
da mestiçagem brasileira 204
Ângela Maria Dias
Em meiga argila brasileira: o imigrante-cientista 222
Claudete Daflon
Alma-palavra: voz e pertencimento indígena
em Habitante irreal, de Paulo Scott 236
Giovanna Dealtry

5. ficção
Debaixo da janela 247
Daniela Versiani
Outro  252
Godofredo de Oliveira Neto

Sobre os autores 257

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Apresentação

Para a experiência do viajante, cruzar a fronteira traz misto de alívio e


angústia. Ultrapassar os limites de um país e adentrar outro carrega vasto
conteúdo simbólico, e o gesto do carimbo no passaporte, historicamente,
pode equivaler à possibilidade de inaugurar uma nova vida. Excluídas as
viagens turísticas, de lazer ou negócios, a troca de país, de língua e de cul-
tura em geral se dá com alguma dor. A vivência do imigrante e do estran-
geiro sempre esteve atravessada pela presença de papéis: vistos, certidões,
assinaturas, autorizações, questionários. Nesses documentos, no mais das
vezes, encontramos fotografias de rostos tensos, apreensivos. Instantâneos
reveladores do sentimento ambivalente de ir e de voltar.
A partir de tal imagem, propomos a leitura da coletânea apresentada.
Os dezessete textos aqui reunidos, em suas diversas faturas e perspectivas,
trabalham com modos de representação da alteridade e colaboram no sen-
tido de escancarar uma fronteira, carimbar um passaporte, abrir espaço
para pensar o estrangeiro na cultura brasileira. A reflexão sobre o tema é
vital nas circunstâncias em que explodem em todos os cantos do planeta
demonstrações de xenofobia e intolerância, esses graves impasses do mundo
contemporâneo. O atentado de 11 de setembro de 2001, data da derrubada
das Torres Gêmeas em Nova Iorque, os constantes atritos entre israelen-
ses e palestinos, além da presença de refugiados, excluídos, cidadãos sin
papeles e entre línguas, são alguns dos momentos dramáticos de tempos
globalizados em que o estrangeiro ocupa papel central. Identidades acirra-
das, nacionalismos exacerbados e radicalismos fundamentalistas servem de
combustível para acender a fagulha de tantos confrontos nos quais religião
e ideologia se encontram misturadas, dando origem a perigoso coquetel.

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No Brasil, a intolerância interétnica não chega a tais níveis. A situa-
ção histórica de país colonizado, receptor de grande massa de imigrantes,
impede que se estabeleça comparação direta com países hegemônicos for-
çados a receber de volta estrangeiros oriundos de ex-colônias espoliadas
economicamente. Mas é inegável a tensão identitária, que vai em direção
contrária ao mito cordial da sociedade brasileira. Há conflito, preconceito
e disputa. A presença do elemento de fora entre os primeiros habitantes
desde o início da colonização e, posteriormente, a expressiva saída dos bra-
sileiros para o exterior, configurando-se como estrangeiros, revela que essa
relação com a alteridade é fundadora em nossa cultura e, portanto, deve ser
examinada na literatura de modo a repensar o próprio conceito de nação.
Como lembra Contardo Calligaris, a leitura da memória da imigra-
ção se mostra fundamental para a compreensão do imaginário americano.
Segundo o psicanalista italiano radicado no Brasil, não há acesso verda-
deiro à subjetividade sem abrir as malas de quem veio, sem reconstruir a
vida pregressa e a história dos sonhos, da tragédia ou da agonia da emi-
gração do sujeito e a de seus ascendentes que emigraram.1 Revelar o pre-
sente, buscando uma determinada leitura do passado, é necessário para a
percepção da cultura brasileira a partir de narrativas que inúmeras vezes se
ocupam de personagens à margem, excêntricos, fora da órbita do progresso
e do discurso homogeneizante da nação.
Partimos da motivação de discutir questões fundamentais, em nosso
entendimento, para a compreensão da estrangeiridade na literatura brasi-
leira tomando por base um olhar contemporâneo. A possibilidade de refletir
sobre identidades atravessadas por referências culturais múltiplas nos per-
mite avançar alguns passos na compreensão de uma literatura que se forma
também a partir da contribuição de diferentes locais de fala, de discursos
enunciados sob perspectivas as mais distintas. Judeus, alemães, árabes, indí-
genas, africanos e italianos são alguns dos elementos que se fazem presentes
nos ensaios que apresentamos. Do mesmo modo, brasileiros desterritoriali-
zados em busca de novas identificações em um mundo globalizado.
Os textos se organizam em torno de eixos que contemplam categorias
como transplante cultural, hibridismo, tradução, deslocamento, e questões
como memória e identidade, alteridade e pertencimento. Sem pretender

1 CALLIGARIS, Contardo. “O sol se põe em São Paulo”: o barulho de fundo da metrópole ameri-
cana é o burburinho de mil histórias engasgadas. Diponível em: <http://www1.folha.uol.com.
br/fsp/ilustrad/fq0305200722.htm>. Acesso em: 20 nov. 2015.

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esgotar tal tema, o volume contempla diferentes autores que se debruçaram
sobre ele, assim como um delineamento de possíveis linhagens e verten-
tes das abordagens sobre o assunto. O primeiro bloco, “Cartografias, glo-
balização”, discute noções ligadas ao território e aos espaços diaspóricos,
corroborando a visão do sociólogo alemão Georg Simmel do estrangeiro
como alguém de natureza essencialmente móvel.2 Transita, portanto, entre
lugares em que o sentido de pertencimento ainda está por ser atribuído.
Compõem esta parte os textos “Deslocamentos reais e paisagens imaginá-
rias – o cosmopolita pobre”, de Silviano Santiago; “E a origem sempre se
perde”, de Paloma Vidal; “Imigração e globalização na literatura brasileira
contemporânea: equivalências imperfeitas, afetividade social e luto cultu-
ral”, de Nelson H. Vieira, e “Do monstro interplanetário Gyodai à tradição
da poesia tanka, Tóquio vista pelo olhar estrangeiro de João Paulo Cuenca:
uma leitura da coleção Amores Expressos”, de Paulo Tonani do Patrocínio.
A visão da alteridade sugere a necessidade de pensarmos em termos
relacionais, no intuito de estabelecer um diálogo entre o antes/depois, os
que vão/voltam, o discurso oficial/outros discursos, a visão de sucesso/a
visão trágica da imigração, a língua de cá/a língua de lá. Um modo de ope-
rar dialético, em função da situação de contraste permanente. É vital a ideia
de que o indivíduo que emigra se encontra constantemente a meio cami-
nho entre duas referências: a da terra de origem e a da terra de destino.
Portanto, alguns dos textos aqui elencados utilizam-se da imagem do con-
traponto para pensar a escrita da identidade, uma vez que a temporalidade
do estrangeiro sempre será disjuntiva, não coincidente com uma concepção
linear de tempo. Daí uma pergunta central a mover muitas destas reflexões:
como pensar a tradição? O que fazer dos resíduos e vestígios que ainda
pulsam em nossa cultura? O segundo grupo de textos, “Tradição, herança
e filiação”, contempla tais questões. A ele pertencem “A narrativa de filia-
ção de escritores judeus brasileiros”, de Eurídice Figueiredo; “As paisagens
sonoras de Samuel Rawet”, de Stefania Chiarelli, e “Imigração e escrita em
Lavoura arcaica”, de Masé Lemos.
No bloco “História, memória, narração”, o leitor se depara com abor-
dagens que privilegiam uma visão histórica de aspectos dos movimentos
migratórios, além da análise de momentos em que são reforçados deter-
minados estereótipos na representação do estrangeiro.“Imigração no

2 SIMMEL, Georg. O estrangeiro. São Paulo: Ática, 1983. (Coleção Grandes Cientistas Sociais).

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feminino: Amrik, de Ana Miranda”, de Maria Zilda Cury; “A ferro e fogo, de
Josué Guimarães: a presença dos primeiros colonos alemães no Rio Grande
do Sul e seu alheamento da ambiência cultural brasileira”, de Alcmeno
Bastos; “Uma das mil histórias do Šahrāzādo baiano – A descoberta da
América pelos turcos”, de Muna Onram, e “Os agudás de Um defeito de cor
e de A casa da água: africanos e afro-brasileiros, estrangeiros na África”, de
Ana Maria Vieira Silva, são os ensaios que integram esta unidade.
O conjunto “Estranhos, estrangeiros, viajantes” propõe discussão
acerca da ligação entre estranheza, pertencimento e liberdade. O estran-
geiro, a despeito da dor e do trauma, configura também um sujeito marcado
pela experiência da liberdade. A posição de não pertencimento, segundo
Edward Said, permite visão independente, o que pode aproximar as figuras
do exilado e do intelectual, já que ambos carregam a marca do desloca-
mento, e portanto se encontram em situação propícia para olhar de fora.3
A própria literatura do exílio assumiu seu lugar como topos da experiência
humana, afirma o crítico palestino, o que possibilita uma pluralidade de
visão. Corpo, território e escrita comparecem nos textos “Lima Barreto e a
defesa dos estrangeiros” de Beatriz Resende; “A um passo, de Elvira Vigna:
uma alegoria distópica da mestiçagem brasileira”, de Ângela Maria Dias;
“Em meiga argila brasileira: o imigrante-cientista”, de Claudete Daflon, e
“Alma-palavra: voz e pertencimento indígena em Habitante irreal, de Paulo
Scott”, de Giovanna Dealtry.
Ainda dentro da proposta de um diálogo entre ficção e teoria, o último
bloco traz duas narrativas inéditas. Os textos partem de professores/pes-
quisadores que transitam livremente entre esses polos, e funcionam como
experimento ficcional a problematizar a temática da coletânea. Daniela
Versiani apresenta “Debaixo da janela”, em que referências como “A menor
mulher do mundo”, conto de Clarice Lispector, entra em tensão com os
acontecimentos envolvendo refugiados e exilados no continente europeu.
Fechando o volume, “Outro”, de Godofredo de Oliveira Neto, utiliza o
espaço da ficção para pensar o embate cultural entre indígenas e imigrantes
em espaço familiar à geografia afetiva do escritor, sua Santa Catarina natal.
Néstor García Canclini, em artigo publicado na revista Otra parte, assi-
nala o fato de que há muitas maneiras de ser estrangeiro, lembrando que
os passaportes nasceram como documento de identificação e indicavam a

3 SAID, Edward W. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003. p. 14.

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origem dos viajantes, habilitando-os a outros territórios: “Nestes tempos se
tornam representações ficcionais do que torna possível, ou simula, o per-
tencimento a uma sociedade: ser aceitos como investidores, turistas com
capacidade de consumo, mercadorias desenraizadas”.4 De forma definitiva, o
crítico argentino dispara que a grande pergunta para a arte giraria em torno
de como levantar nesta cena uma poética. Os textos aqui reunidos procu-
ram responder a essa provocação. Por estas páginas circulam forasteiros,
gringos, retornados, viajantes, pachucos e clandestinos. Na coletânea, o leitor
encontra não somente uma análise estética de textos literários que temati-
zam a alteridade, mas se defronta com a intenção de pensar o compromisso
político do crítico – aquele que deve assumir a responsabilidade pelos pas-
sados não ditos a assombrar o presente histórico, conforme assinala Homi
Bhabha.5 Neste espaço empreendemos, portanto, uma mirada movida pelo
desejo de solidariedade, do encontro possível referido pelo crítico indiano,
recortando do heterogêneo conjunto da literatura brasileira episódios em
que esses estrangeiros passam a protagonistas, ou a elementos centrais para a
compreensão das narrativas. Dito de outra forma: desobedecendo ao conhe-
cido ditado, aqui se pretende falar de e com estranhos. Olhar para esses escri-
tos é compreender a literatura em sua complexidade e variedade.

Os organizadores

4 CANCLINI, Néstor Garcia. O que representam hoje os passaportes? Revista Otra parte. Buenos
Aires: Siglo XXI, p. 1-4, maio 2014 (tradução nossa).
5 BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e
Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 34.

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1. Cartografias, globalização

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Deslocamentos reais e paisagens imaginárias
− o cosmopolita pobre1
Silviano Santiago
para o amigo Julio Ramos

E é exatamente por essa “sensação de não estar de


todo” que se procurou chamar a atenção com a esco-
lha desse “O Brasil não é longe daqui”, primeiro verso
de uma velha canção alemã – que sugere deslocamen-
tos reais e paisagens imaginárias [grifo meu] −, como
título geral para este ensaio.
flora süssekind
Portanto, é importante ver essa perspectiva diaspó-
rica da cultura como uma subversão dos modelos
culturais tradicionais orientados para a nação. Como
outros processos globalizantes, a globalização cultu-
ral é desterritorializante em seus efeitos.
stuart hall

Primeiro gesto. É preciso questionar a herança crítica legada pelo sentido


tradicional do vocábulo diáspora. Como informa o Dicionário Houaiss, o
conceito nos tem servido para designar a dispersão de grupos de cidadãos
ou de famílias em consequência de preconceito ou de perseguição política,
religiosa ou étnica.
Segundo gesto. Se questionada a delimitação de sentido, descobrir-se-á
que seu manto semântico tornou-se inadequado nos dias de hoje. Não con-
segue recobrir algo nosso contemporâneo: a dispersão anárquica de indi-
víduos ou de grupos de familiares − que não são necessariamente vítimas
de preconceito ou das várias formas de perseguição − duma região pobre
do país, ou duma nação conturbada, para as metrópoles mais endinhei-
radas do mundo ocidental. Às vezes confundido com o bíblico êxodo, o
vocábulo diáspora passaria a ser também aplicado a indivíduos isolados ou

1 Palestra originalmente apresentada na Universidade Nova de Lisboa, durante o simpósio


“Fronteira, cosmopolitismo e nação nos mundos ibéricos e ibero-americanos”, 20 a 22 de
abril de 2015. Organização de Maria Fernanda de Abreu e Renato Cordeiro Gomes.

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a familiares em pequeno grupo, forçados à atitude extrema da fuga para
sobreviver como humanos. Para ser mais preciso: na tentativa duma vida
melhor para si e, indiretamente, para os familiares que os aguardam em
casa, abandonam temporária ou definitivamente o lar e migram em busca
de oportunidades. Na metrópole nacional ou na estrangeira, encontram ou
reencontram os semelhantes na vivência cotidiana e miserável e procuram
ser parte constitutiva dum grupo diaspórico orgânico, em geral norteado
pela língua que lhes é comum.
Terceiro gesto. Se o movimento for compreendido pelo sentido mais
amplo do vocábulo diáspora, logo se desnuda o motivo ou a causa que, nos
séculos XX e XXI, compele o indivíduo ou os familiares em grupo a abando-
nar o lar e a viajar em busca de melhores oportunidades. Em casa, os futu-
ros migrantes foram afligidos com a pobreza e, nos casos extremos, com a
miséria. Muitos são analfabetos e não têm profissão definida. Vivem como
animais. Talvez sejam eles (homens e mulheres, velhos e crianças) os últimos
espécimes humanos a crer na utopia da viagem e no Eldorado. Se fracassa-
dos, os desbravadores honestos e amorosos transformam-se nos mais deses-
perados mortais, sucumbindo a toda forma de comportamento desviante e
de negócio ilícito. As páginas dos jornais nos informam com brutalidade.
Quarto gesto. Por não constituírem uma massa política ou politi-
zada, esses migrantes têm sido menos compreendidos pela sociologia e as
ciências políticas, e são mais bem compreendidos pelas artes em geral. A
“Trilogia de Fontainhas”, do cineasta português Pedro Costa,2 pode exem-
plificar a miséria, o desespero, a prostituição, as drogas e a morte que cer-
cam os deserdados do asfalto. Em ritmo lento e cinematografia rigorosa,
seus filmes, inspirados pelos de Yasujirō Ozu e do casal Straub, Jean-Marie
e Danièle, negociam imagens do proletariado urbano lisboeta com ima-
gens dos migrantes africanos, cabo-verdianos, nos escombros do bairro
Fontainhas, em Lisboa. Ao não se deixar corroer pelo sentimentalismo3
da trama, a trilogia se transforma na mais corrosiva das exibições públi-
cas da condição humana que estamos descrevendo. As negociações em
imagens e poucas palavras provam que a análise do problema humano e

2 Ossos (1997), No quarto da Wanda (2000) e Juventude em marcha (2006). Desde já, chamo a
atenção para o artigo da crítica chilena Mónica González García, “Migraciones subalternas en
el cine”.
3 Muitas vezes, a alta dose de sentimentalismo se adentra pelo filme através das novelas exibidas
em algum aparelho de televisão. Numa das cenas mais fascinantes de No quarto da Wanda, a
conversa na telinha vira pano de fundo para a conversa dura entre os personagens do filme.

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socioeconômico imposto pela miséria aos moradores brancos dos grandes
centros urbanos do Ocidente não pode ter sua discussão desvinculada das
questões colonial, étnica e de gênero (gender). Em entrevista, Pedro Costa
observa: “Pero los portugueses ni siquiera tienen necesidad de ser racistas
con los africanos puesto que lo son entre ellos y lo son en tal grado de refi-
namiento que se llega a disfrutar de la desgracia ajena” (“El punk, el cuarto,
la adolescencia”, texto que acompanha os DVDs de Pedro).
Quinto gesto. Nos anos 1930, a literatura dramatizou a fuga desespe-
rada de indivíduos ou de familiares em grupo, salvaguardando o limite geo-
gráfico determinado pelas fronteiras legais do Estado-Nação. Por vontade
própria, os migrantes miseráveis viajam a outra cidade ou a outra região
do país. As fronteiras nacionais permanecem intactas. Os migrantes expe-
rimentam apenas e principalmente o isolamento do convívio comunitário,
já que língua nacional, moeda, costumes, leis etc. permanecem os mesmos.
Destaca-se, e é um dos bons exemplos na literatura, o romance The grapes of
wrath (As vinhas da ira, 1939), de John Steinbeck. Na miséria sem esperança
do dust bowl de Oklahoma, a família dos Joads decide partir – como outros
“okies” – para a Califórnia, onde todos esperam encontrar emprego, terra
fértil, dignidade e futuro. Trama semelhante se encontra em Vidas secas
(1938), romance de Graciliano Ramos, cujo pessimismo visceral o torna
antepassado de Pedro Costa. Na crença de poder encontrar melhor guarida,
a família de nordestinos pobres viaja, em Vidas secas, até a pujante capital
do estado de São Paulo. Num emprego admirável dos verbos no futuro do
pretérito, o narrador de Vidas secas marca o eterno retorno do mesmo, o
beco sem saída da migração nacional. Lê-se na página final do romance:
“[Os migrantes] chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam
presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá”.4 Naquela mesma
data, o pintor afro-americano Jacob Lawrence dá início à série de quadros
sobre a migração negra nos Estados Unidos, apresentada, neste ano de 2015,
no MoMA (Nova Iorque): “One-Way Ticket: Jacob Lawrence’s Migration
Series and Other Visions of the Great Movement North”.5 Citem-se, ainda,

4 Em seu recorte nacional, o tema literário não tem sofrido limite temporal. Leia-se, como
exemplo, o romance Essa terra (1976), de Antônio Torres, ou o recentíssimo Na escuridão,
amanhã (2014), de Rogério Pereira.
5 No catálogo da exposição, observa-se de modo pertinente que a migração do afro-americano
para o norte do país é “the first leaderless liberation movement in African-American history”
[grifo meu]. Veja-se o vídeo da exposição em: <https://www.youtube.com/watch?v=Yi1q0oP-
3Weg&feature=youtu.be>. Acesso em: 25 nov. 2015.

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os quatro painéis de Os retirantes (1944), pintados por Cândido Portinari. A
causa para a viagem se encontra em violentas diferenças regionais (cidade
versus campo, industrialização x agricultura, escolaridade x analfabetismo,
bem-estar versus pobreza ou miséria, conflitos étnicos etc.) que fundam e
fragmentam o Estado-Nação moderno. A bibliografia clássica classificou o
fenômeno migratório voluntarioso e anárquico como subproduto do sub-
desenvolvimento nacional.
Sexto gesto. Em meados do século XX, em decorrência das sucessivas
conquistas tecnológicas no campo dos meios de transporte coletivo, a regio-
nalização desequilibrada e injusta do Estado-Nação passa a ser percebida
pelo indivíduo ou pelos familiares estigmatizados pela miséria como possi-
bilidade de afrouxamento das fronteiras nacionais que circunscrevem a fata-
lidade do subdesenvolvimento natal. No México e nos países da América
Central, o ônibus Greyhound ou o avião de carreira se tornam o sucedâneo,
no Brasil, do antigo navio da marinha nacional (o Ita, como era chamado) e
do desconfortável caminhão pau de arara. Abre-se para o pobre interiorano
o mapa da viagem diaspórica internacional, de que foi primeiro exemplo, nas
Américas, a fuga dos cidadãos e cidadãs de fala hispânica para Nova Iorque,
Chicago, Miami ou Los Angeles.6 Hoje, em São Paulo, levas de bolivianos,7
paraguaios e haitianos tomam o espaço ocupado no passado pelos antigos
paus-de-arara. Os sul-africanos manifestam-se contra os irmãos africanos
pobres que trabalham no país, enquanto os alemães se reúnem em torno do
PEGIDA (Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes) e
Marine Le Pen quer retomar as rédeas da direita xenofóbica na França.
Sétimo gesto. Antes da Segunda Grande Guerra, movimento diaspórico
semelhante teve como causa a soma da miséria interiorana em Portugal e
na Espanha com as ditaduras de António de Oliveira Salazar e de Francisco
Franco, respectivamente. Exemplo notável e tocante é o filme Viagem
ao começo do mundo (1996), do cineasta português Manoel de Oliveira.
Afonso, filho de um pobre refugiado português na França, torna-se, nos
anos 1990 e em Paris, um famoso ator de teatro que resolve voltar à perdida
6 Dados de 2004 do Departamento de Censo norte-americano atestam que, na população total
dos Estados Unidos (293,7 milhões de habitantes), os hispânicos − mexicanos, porto-rique-
nhos, cubanos e demais latino-americanos, entre estes, sem dúvida, os brasileiros − consti-
tuem a maior minoria étnica do país, ao totalizar 41,3 milhões de pessoas (14,1%). Em 2004, os
negros, ou afro-americanos, somaram 37,5 milhões (12,8%).
7 O Cami (Centro de Apoio ao Migrante) informa que 40 mil bolivianos entram anualmente no
Brasil. Segundo estatísticas não-oficiais há 500 mil bolivianos morando na Grande São Paulo.

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região de onde emigraram os pais para conhecer os parentes próximos
ainda vivos. Por se exprimir em francês, o ator não é reconhecido pelos
seus. A velha tia, irmã do seu pai (admiravelmente interpretada por Isabel
de Castro), não reconhece um sobrinho nas palavras francesas de que o ator
se serve. Dirige os olhos a ele e a palavra ao intérprete que o socorre: “Para
quem estou a falar? Ele não entende o que eu digo”. E continua a indagar
entre ríspida, intolerante e raivosa: “Por que que ele não fala a nossa fala?”
O ator tira o paletó, aproxima-se da tia, arregaça a manga da camisa e lhe
pede, através do intérprete, para que lhe aperte o braço. Braços e mãos se
cruzam, estreitando os laços familiares afrouxados pela diáspora lusitana.
Diz-lhe o ator: “Não é a língua que importa, o que importa é o sangue”.
A etimologia dos elementos da fala do afeto está no dicionário do sangue
como, aliás, nos poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre a família.
A tia o reconhece finalmente como o filho do irmão. Abraçam-se. O sobri-
nho lhe pede para ir ao cemitério, visitar o túmulo dos avós. A fala do afeto
torna-se plena no momento em que a tia sela o encontro inesperado com a
doação ao sobrinho dum pão camponês. Porém, perdura na tela a constata-
ção amarga da tia: “Olha, Afonso, se o teu pai não te ensinou nossa fala, foi
um mau pai”. Em fins do século XX, o cinema português ainda estava longe
do universo funéreo de Pedro Costa.
Oitavo gesto. No tocante às novas diásporas, não se sabe de incentivos
à viagem, monitorados por campanhas publicitárias, de que seriam exem-
plo as várias emigrações europeias para o Novo Mundo desde princípios
do século XIX. Logo depois da Segunda Grande Guerra, a Europa tinha
conseguido contrabalançar a necessidade de certas nações com a genero-
sidade de outras, mas a ilha de Lampedusa indicia no século XXI que os
bons sentimentos cosmopolitas, aliados à mão de obra estrangeira e barata,
foram pros ares. Embora o traço de união que ata a diversidade e o sucesso
dos atuais movimentos diaspóricos nas metrópoles ocidentais seja a provi-
são de mão de obra estrangeira e barata, é inegável que, nos variados casos
em questão, não é totalmente justo que o analista recorra apenas à campa-
nha publicitária dos novíssimos meios de comunicação de massa ou à força
repressiva do capital multinacional como agentes originais da emigração
dos indivíduos pobres ou miseráveis. Interessa-nos, portanto, mais a forma
que veio a ganhar o movimento diaspórico anárquico que a sua formação,
embora esta tenha de ser necessariamente circunscrita, nos extremos, à

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miséria nacional e ao grande capital globalizado.8 O desejo da fuga para
o mundo da abundância é alimentado por relatos otimistas de familiares
e amigos e visa a “paisagens imaginárias”, para retomar a palavra de Flora
Süssekind em contexto onde, em fins do século XX, o destino da viagem
se transformou em origem da viagem para o retorno;9 o desejo de migrar
é randômico, de única responsabilidade do indivíduo ou dos familiares
envolvidos. Daí o caráter de clandestinidade ou de ilegalidade10 que, mui-
tas vezes, circunscreve a condição da estada do indivíduo ou do pequeno
grupo de familiares no país estrangeiro.
Nono gesto. Se os movimentos nacionalistas visam a cimentar o Estado-
Nação dentro das próprias fronteiras econômicas, encontrando no seu
extremo os movimentos ufanistas, não há dúvida de que os indivíduos e
os familiares em grupo que questionam o sentido dicionarizado de diás-
pora põem abaixo a proclamada eficiência do desenvolvimento nacional e,
ao mesmo tempo e silenciosamente, conclamam os concidadãos letrados à
crítica contundente e corrosiva, no país natal abandonado, do fracasso civi-
lizacional e/ou governamental. Por razões óbvias, o distanciamento crítico
do migrante pobre é silencioso, embora o impulsione a manter a intenção
de não destruir as relações sentimentais e familiares com os que resistiram
ao sonho da viagem diaspórica. Muitos dos migrantes se transformam em
provedores, e os dados bancários de transferência de dólares e de euros para
regiões subdesenvolvidas ou em desenvolvimento o provam. Encontram no
trabalho sujo e duro no estrangeiro a motivação para alimentar os estôma-
gos vazios no torrão natal.11 A velha rotina comunitária é substituída pelo

8 Como chama a atenção o filósofo K. Anthony Appiah no prefácio a Globalization and its
discontents, livro de Saskia Sassen (1999): “os funcionários altamente qualificados das seções
executivas, como as das finanças, veem seus salários crescerem escandalosamente ao mesmo
tempo em que as remunerações dos que limpam os escritórios ou tiram as fotocópias estag-
nam ou afundam de vez”.
9 Refiro-me ao contexto de que é exemplo Jean-Charles, jovem mineiro de Governador
Valadares (MG), trabalhando em Londres como eletricista e assassinado pela polícia no
metrô londrino.
10 Em janeiro de 2006, começou a tramitar pelo congresso norte-americano um pacote de
medidas para conter a entrada de imigrantes ilegais pela fronteira mexicana. Conhecido
como “[James] Sensenbrenner Bill”, leva o nome de “Border Protection, Antiterrorism, and
Illegal Immigration Control Act of 2005”. Hoje, a mais polêmica das leis vem do senado do
estado do Arizona: Support Our Law enforcement and Safe Neighborhoods Act of 2010.
11 Em O labirinto da solidão (1950), Octavio afirma a respeito da economia mexicana: “nosso
comércio exterior se equilibra graças ao turismo e aos dólares que nossos ‘braceros’ [trabalha-
dores braçais] ganham nos Estados Unidos”.

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