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Os primeiros passos do ensino

do cavalo de obstáculos

Luís Negrão

Estágio de Mestres de Equitação - Tese final


Outubro 2007

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Agradecimentos:

Ao meu bom amigo e mestre Francisco Cancella d’ Abreu pelo que me ensinou
e deixou aprender.

À Escola Nacional de Equitação na pessoa do seu director, Sr. Coronel João


Sequeira, pela honra do convite que me foi dirigido para integrar este estágio.

Aos Mestres que orientaram este estágio e aos meus colegas participantes que
proporcionaram uma enriquecedora troca de saberes num cordial ambiente.

À minha família que me acompanha sempre.

A todos os meus amigos.

2
ÍNDICE

• Nota introdutória 4
• A formação de base do cavalo de obstáculos 5
• As várias fases do ensino 6

1. A importância de um trabalho progressivo desde o desbaste


às primeiras competições 6

2. O trabalho à guia 6

3. O trabalho de saltos em liberdade 11

4. O trabalho de saltos à guia 12

5. O trabalho montado 14

5.1 O desequilíbrio do cavalo montado 15


5.2 A atitude do cavalo e o respeito pela sua natureza 17
5.3 O cavalo à frente das pernas e encostado na mão 18
5.4 A qualidade dos andamentos e em especial do galope 18

6. O trabalho de obstáculos montado 18

6.1. Introdução ao salto 18


6.2. O trabalho sobre cavaletes 20
6.3. O trabalho de ginástica de obstáculos 25
6.4. O treino do percurso 31

• Conclusão 35
• Bibliografia 37

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• Nota introdutória

Este trabalho não pretende abordar exaustivamente os temas técnicos do


ensino do jovem cavalo de obstáculos, mas servir de orientação numa tentativa
de transcrever de forma simples e clara o que no início me parecia complexo e
que a experiência e os anos de pratica e dedicação a este trabalho me
ensinaram a clarificar.

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• A formação de base do cavalo de obstáculos
Em equitação desportiva, onde se inclui a modalidade de saltos de obstáculos,
o objectivo do ensino do cavalo é torná-lo completamente ao dispor do seu
cavaleiro para que este possa utilizar, de forma eficiente e racional, todas as
suas capacidades físicas no seu desempenho e desenvolvê-las até ao seu
limite.
Para tal existem elementos indissociáveis a desenvolver em simultâneo. São
eles a obediência e a capacidade atlética que se refere ao tónus muscular, ao
reforço do tecido tendinoso e ao desenvolvimento da capacidade respiratória.
Para o desenvolvimento destes elementos os meios que temos à nossa
disposição são:

• O trabalho de ensino no plano que visam sobretudo a obediência e a


flexibilização do cavalo;
• O trabalho no exterior em terreno variado com inclinações várias para o
desenvolvimento do tónus muscular e dos membros, do dorso e do
pescoço;
• O trabalho de ginástica de obstáculos;
• As séries de galopes na pista de galope, no exterior em caminhos onde
o espaço e a qualidade do solo sejam seguras para o efeito ou no
campo de obstáculos, desde que este tenha dimensões suficientes para
que o cavalo possa galopar exprimindo toda a sua amplitude.

Tudo isto aliado aos cuidados de saúde necessários ao bem estar do cavalo
que está sujeito a um esforço físico exigente: alimentação adequada;
vacinações; desparasitações; ferração de qualidade; acomodação em box
segura e confortável com dimensões em concordância com o tamanho do
cavalo; para além duma vigilância atenta do veterinário assistente.

5
• As várias fases do ensino

1. A importância dum trabalho progressivo desde o desbaste até às


primeiras competições.

O percurso normal de um cavalo de obstáculos inicia-se aos três anos de


idade, depois da primavera desse ano. No fim das últimas ervas, antes dos
primeiros dias de calor do Verão, o poldro dá entrada nas instalações onde
iniciará a sua vida desportiva.
Começará pelo trabalho à guia que fará parte do seu desbaste para que no fim
do Outono possa já estar familiarizado com o trabalho montado e posa efectuar
os seus primeiros saltos montado.
É preferível começar antecipadamente o trabalho do poldro dando assim lugar
a uma progressão e um trabalho racional, permitindo atacar as primeiras
“poules” de treino, no princípio do ano dos 4 anos com à vontade suficiente.
Deste modo evitar-se-ão os riscos traumáticos de utilizar prematuramente na
suas primeiras saídas à pista, um cavalo mal preparado o que poderá
comprometer toda a sua futura carreira desportiva.
É de toda a conveniência não forçar o início das primeiras competições dum
cavalo que, por imaturidade física ou mental, não conseguiu uma progressão
normal no seu trabalho inicial e por isso não se encontra preparado para o
fazer em segurança. Será preferível abdicar das competições oficiais
destinadas a cavalos de 4 anos e preparar um programa de provas mais fácil,
de modo a que no ano seguinte, o cavalo esteja seguro e preparado para
abordar as provas destinadas a cavalos de 5 anos e, então, seguir o percurso
normal de competições até aos 7 anos e por aí adiante.

Passamos assim á descrição do trabalho a desenvolver no poldro desde o


primeiro dia que der entrada na cavalariça.

2. O trabalho à guia

O trabalho á guia é o primeiro contacto que o poldro tem com o ambiente de


trabalho que o acompanhará durante toda a sua vida. Assim há toda a
vantagem em começar correctamente desde as primeiras sessões tendo o
cuidado de lhe fazer memorizar uma série de procedimentos que o vão
disciplinar.
Fazer trabalhar o poldro sempre numa postura correcta só trará benefícios. O
cavalo exercitar-se-á numa forma mais sã, pois mais facilmente se conterá a

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sua natural tendência para retomar a liberdade que o leva a sair em fortes e
desenfreadas galopadas, nocivas à sua integridade física. Acidentes graves
podem ser evitados. A pessoa que o tem à guia pode mesmo ser atingido com
um coice ou algum encontrão despropositado fruto da sua excitação e falta de
disciplina.
É também uma forma de manter o cavalo em trabalho sempre que exista um
motivo que impeça de o fazer montado: uma lesão do próprio cavalo (no dorso
por exemplo), uma lesão do cavaleiro, falta de tempo, etc.

TRABALHO Á GUIA DO POLDRO

Material a usar:
A escolha de um bom cabeção de guia á fundamental, assim como o seu
correcto ajustamento.
O cabeção deve ser cómodo mas ao mesmo tempo ter a capacidade de
controlar minimamente o cavalo.
Existem vários tipos de cabeção desde o suave ao mais violento:
• Com focinheira de couro;
• Com focinheira metálica articulada;
• Com focinheira metálica rígida.
Devem ser escolhidos consoante a sensibilidade de cada cavalo, começando
sempre por utilizar o mais suave e só passar para um de efeito mais forte caso
exista um apoio abusivo na guia por parte do cavalo.

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O seu ajustamento deve ser cuidadosamente efectuado e não deixado à mercê
de um tratador menos qualificado.
A sua focinheira deve ser colocada bem justa sobre o alto do chanfro, sem
contudo tocar, para não ferir, as apófises zigomáticas.
Deve ser munido de uma cisgola que deve ser bem ajustada nas ganachas,
afim de evitar que a faceira exterior toque ofensivamente no olho do cavalo.
A guia deve ser colocada na argola do lado interior do círculo para o lado em
que se trabalha, evitando que a focinheira rode no chanfro provocando grande
desconforto no cavalo ou até mesmo algum ferimento.

Mais tarde, depois de o cavalo estar familiarizado com o bridão e


correctamente encostado na guia podemos passar a usar a guia no bridão,
sendo o uso do cabeção de guia dispensado.
A guia passa pela argola do bridão do lado interior do círculo de fora para
dentro, sobe pela face, passa pela nuca, desce pela face exterior e vai fixar-se
na argola de bridão do lado exterior do círculo.

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A guia deve ser de material leve e resistente. Caso seja munida de um
musquetão, este deve ser de abertura prática e segura. O seu comprimento
deve rondar os 8 a 10 metros, pois o círculo ideal de trabalho à guia é de 15 a
18 metros.
Devemos estar munidos de um chicote leve e com uma ponta suficientemente
comprida para alcançar o cavalo quando necessário.

Procedimentos importantes

É no picadeiro ou num local devidamente confinado para o efeito, num


ambiente calmo e que devemos iniciar este trabalho de guia, sem que
ninguém, a pé ou a cavalo, o venha perturbar.
Nas primeiras sessões até que o cavalo esteja bem para diante à acção do
chicote e da voz e encostado correctamente na guia, descrevendo os círculos
com um contacto suave e regular na guia, será útil e preciosa a ajuda de uma
segunda pessoa no chicote, funcionando como um prolongamento do braço da
pessoa que segura a guia.
Esta segunda pessoa actua dirigindo-se mais por trás da garupa do cavalo
quando é preciso “tocá-lo” para diante se cai sobre o lado exterior e pesa na
guia ou dirigindo-se mais à espádua do lado interior do círculo quando o cavalo
cai sobre o mesmo lado, fazendo perder o controlo na guia .
Este trabalho é o princípio do trabalho de encurvação. Adaptando o cavalo
desde a cabeça à cauda à curvatura do círculo, permite que ele descreva o
círculo fazendo os posteriores seguir exactamente a pista desenhada pelos
anteriores, havendo uma perfeita perpendicularidade do corpo ao solo, tal
como descreve Decarpentry em “Equitation Académique” no seu diagrama.

A encurvação

Como fazer para obter uma boa encurvação com o cavalo à guia? Na
encurvação, o cavalo deve adaptar a sua coluna vertebral, da cabeça à cauda,
à curvatura do círculo. Vejamos aqui o quadro do General Decartentry, que o
pode
Esclarecer:

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O cavalo que anda sobre o círculo deitado sobre um cone não está encurvado.
O cavalo que anda sobre o círculo como sobre um cilindro, ajustando a coluna
vertebral à curvatura do círculo da cabeça à cauda está encurvado.

A forma correcta e mais segura de pegar na guia é exercer a condução com a


mão do mesmo lado em que se trabalha isto é, se o cavalo trabalha para a mão
direita é a mão direita que deve conduzir e vice-versa., fazendo oitos com ela
na mão enquanto a outra mão segura o excedente da guia e suporta o chicote.
O chicote está virado para a frente quando está em acção durante o trabalho,
ou para trás quando o mesmo termina e é necessário trazer o cavalo ao centro
do círculo. Quando este se aproxima, devemos fazê-lo avançar mais alguns
passos para que se coloque ao nosso lado como se estivéssemos a prepará-lo
para o montar de um lado ou do outro mas sempre do mesmo lado em que
acaba de trabalhar, evitando que se pare diante de nós, frente a frente.

Não é na cabeça que devemos o acariciar, mas sim no pescoço, na espádua


ou melhor ainda no dorso ou nos rins, para que aprenda a ficar imóvel
deixando-se tocar por todo o corpo confiado na pessoa que o trabalha.
Uma vez acariciado em perfeita imobilidade, primeiro do lado em que acabou
de trabalhar e do lado em que o irá fazer seguidamente.
É altura de lhe dar a ordem de sida para diante. Colocando-nos do lado dele e
abrindo o braço d mesmo lado incitamo-lo levemente com a voz e com o
chicote de forma a que o faça disciplinadamente reforçando os bons modos e a
sua educação.

Pessoalmente prefiro iniciar o trabalho de guia para a mão direita


contrariamente ao que é costume, ou em caso de cavalos naturalmente
encurvados à direita, o que não é vulgar, começar para o lado contrário à sua
encurvação natural e aí à esquerda. É uma forma de sobretudo no poldro,
combater a sua inflexão natural e as suas primeiras brincadeiras, por vezes
mais emotivas e violentas, não serão tão difíceis de suportar por quem sustém
a guia, pois não existe a tendência natural de, para aquela mão, o cavalo se
deixar cair sobre o lado exterior, pesando abusivamente na guia.
À voz, com a ajuda do chicote para pôr o cavalo para diante ou retendo um
pouco a guia para reduzir o andamento ou mesmo passar ao andamento
descendente é o homem que dá as ordens e comanda a sessão de trabalho.
Quando tudo está organizado podemos iniciar o trabalho de galope. Trabalho
esse que só nestas circunstâncias se deve abordar visto ser frequente provocar
alguma excitação nos cavalos, motivo de desordem e indisciplina.

Uma falta corrente nestes momentos é o galope desunido a evitar a todo o


custo, passando rapidamente ao trote até restabelecer a calma e só então
retomar o galope.
Uma vez terminado o trabalho para as duas mãos é bom retomar um pouco o
trabalho para a mão em que se iniciou, para que o cavalo termine a lição
tranquilamente causando uma boa impressão, que nos vai favorecer o inicio de
uma sessão de trabalho mais tranquilo e disciplinada no dia seguinte.

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Seguindo estes princípios educativos, podemos dar início a um desbaste em
segurança para o cavaleiro ao mesmo tempo que teremos um cavalo sempre
disponível para efectuar correctamente um bom trabalho à guia quando
necessário e ao longo da sua vida, preservando a sua saúde física e moral
Uma vez ultrapassada esta fase do ensino do cavalo poderemos passar a
exercícios mais elaborados tais como os primeiros saltos em liberdade e à
guia.

3.Trabalho de saltos em liberdade

Normalmente a primeira abordagem ao salto é feita em liberdade. Este trabalho


deve ter em conta alguns preceitos para evitar acidentes, uma vez que em
liberdade o cavalo tende a excitar-se e consequentemente entrar em clima de
desordem e correria desenfreada. Por isso o picadeiro a utilizar não deve ser
de grandes dimensões ou então utilizar mesmo um corredor de obstáculos
onde o cavalo é conduzido à mão e largado à entrada do mesmo barrando-lhe
a saída a cerca de 20 a 30 metros a seguir ao obstáculo saltado. Também
varas ou pequenos cavaletes de marcação devem ser colocados antes do
obstáculo a transpor. Uma vara no chão de entrada distanciada de uma
pequena cruz entre 6 a 6,5 m, por sua vez distanciada do obstáculo de 7 a 7,5
m. Estas medidas variam consoante a amplitude da passada de galope do
cavalo. É também de toda a utilidade o posicionamento de uma vara do lado da
teia com uma das pontas apoiada na vara de entrada do obstáculo e a outra no
chão do mesmo lado. Esta vara serve para afastar da teia e fazer com que o
cavalo salte mais ao centro e contrariar a sua natural tendência de saltar
encostado à teia. Têm a função de travar um pouco a velocidade do galope
obrigando-o a equilibrar-se e ao mesmo tempo a aproximar-se do obstáculo
numa distância favorável à sua correcta transposição.

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É aconselhável um prévio aquecimento do cavalo antes de iniciar a sessão.
Dar-lhe algum tempo para que manifeste o seu natural contentamento pelo
simples facto de ser posto em liberdade. Pelo menos três pessoas munidas de
chicote devem ser colocadas ao longo da linha do meio do picadeiro. Devem
ser experientes neste tipo de trabalho e estarem perfeitamente sincronizados.
Num dos lados do picadeiro devemos construir um corredor com cerca de 4
metros de largura um pouco mais largo no lado da entrada, como que em
forma de funil convidando assim o cavalo a entrar no mesmo e transpor o salto
sem hesitações. O obstáculo deve montado a meio do corredor e de forma a se
poder subir e alargar fácil e rapidamente.

Este trabalho deve ser sempre encarado como um divertimento para o cavalo
que o deve fazer com prazer e confiança. Por isso a dimensão do obstáculo
deve ser aumentada progressivamente quer em altura como em largura e
nunca atingir dimensões inadequadas à experiência do cavalo, nem tão pouco
se deve abusar do número de saltos por sessão que pela exaustão provocada
passará a ser uma tortura para o cavalo.
Devemos evitar o uso de cabeções de prisão largos que irão a todo o tempo
incomodar o cavalo ao bater – lhe na face e nos olhos. Será mais apropriado a
ausência de qualquer cabeçada ou mais sofisticadamente o uso de uma
ajustada cabeçada de bridão. É igualmente desaconselhável o uso de qualquer
arreio de dorso ou cilha. É de toda a conveniência o uso de caneleiras e
protectores apropriados.

O trabalho de saltos em liberdade tem como finalidade a aprendizagem da


mecânica do salto por parte do cavalo duma forma natural que lhe permite um
maior à vontade quando inicia esse mesmo trabalho à guia ou montado. Por
outro lado permite ao cavaleiro estudar a forma como o seu cavalo salta e
assim poder corrigir qualquer dificuldade mais tarde com trabalho ginástico
apropriado. É também uma forma de satisfazer a nossa curiosidade quanto à
qualidade e capacidade saltadora do nosso cavalo novo.
Finalmente é a forma mais eficaz de o demonstrar a terceiros e por isso
utilizada em leilões e outras apresentações comerciais e concursos de aptidão
de cavalos novos.

4. O trabalho de saltos à guia

Este trabalho exige uma grande sensibilidade e tempo da parte de quem o


executa. É indispensável um grande controlo sobre o cavalo, pois tem que ser
feito sobre grande calma e disciplina, caso contrário, poderá provocar fugas,
medos e defesas e até acidentes que só serão nocivos à normal evolução do
ensino do cavalo. A falta de resultados práticos em curto espaço de tempo é
factor determinante que explica a pouca utilização deste tipo de treino.
Uma vez o cavalo obediente e disciplinado à guia e já com alguma rotina de
saltos em liberdade podemos dar inicio ao trabalho de saltos à guia. É
aconselhável fazê-lo num ambiente calmo a dois, sem perturbações que
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possam provocar distracção e desordem. A grande dificuldade reside no facto
de termos de controlar o corpo do cavalo que está ligado a nós apenas pelo
chanfro comandado pela guia tendo como auxiliares o chicote e a voz. Daí a
dificuldade de enquadrar os cavalos novos nos primeiros saltos que
executamos. Essa tarefa será muito facilitada se colocarmos os primeiros
obstáculos ao meio da parede curta do picadeiro, começando sempre com uma
simples vara no chão e subindo-a nos postes progressivamente. É fundamental
o uso de uma vara com uma das extremidades apoiada no topo do suporte do
obstáculo, do lado interior do picadeiro e a outra extremidade no solo ficando
esta em posição quase perpendicular ao salto, um pouco aberta em forma de
funil. Esta vara para além de evitar uma furta do cavalo ao obstáculo pelo lado
de dentro do picadeiro permite que a guia deslize livremente e passe para outro
lado do salto sem se prender em qualquer elemento do obstáculo. O uso de
uma antepara apropriada terá o mesmo efeito.

O homem coloca-se sobre a linha do meio e coloca o seu cavalo sobre um


círculo. Assim que decidir fazê-lo saltar só tem de o activar para diante ao
longo da parede comprida avançando para ele utilizando a voz e o chicote.
Quando o cavalo se aproxima do obstáculo está perfeitamente enquadrado e
não terá dúvidas em fazer-se ao salto. Este procedimento é bastante mais
prático e seguro do que começar por colocar o salto no lado do comprimento
do picadeiro, situação essa que poderia originar mais fugas.
A utilização da colocação do obstáculo desta última forma só deve ter lugar
mais tarde e quando o cavalo fizer este exercício com mais rotina e disciplina.
O obstáculo colocado a meio da parede comprida permite utilizar melhor o
espaço de abordagem e de recepção pelo que poderemos nessa altura
aumentar as dimensões do salto.
Embora não seja muito utilizado este trabalho desenvolve grande sensibilidade
em quem o executa e obriga a uma linguagem gestual que implica

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aprendermos determinados posicionamentos que o cavalo entende e aos quais
reage de modos distintos.

5. O trabalho montado

Logo após o desbaste, ou seja, assim que estamos perante um cavalo


perfeitamente familiarizado com o homem e com toda a rotina do maneio diário
da cavalariça e claramente confiado ao ser escarranchado pelas primeiras
vezes, damos inicio às primeiras sessões de condução. Nesta altura iniciamos
o desenvolvimento duma primeira linguagem com o cavalo através das pernas
e da mão (“ajudas”).
São as pernas que ordenam o movimento para diante. É a primeira
manifestação da impulsão.
A mão orienta o cavalo na direcção pretendida pelo cavaleiro e contem, mais
ou menos, o andamento iniciado à ordem das pernas, dando assim com a
ajuda do peso do corpo do cavaleiro início a um “acordo de ajudas”.
Este “acordo de ajudas” praticado repetidamente através de sucessivas
transições é o primeiro confronto com a primeira grande dificuldade do ensino
do cavalo: o desequilíbrio do cavaleiro montado.

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5.1. O desequilíbrio do cavalo montado.

A falta de repartição da maneira igual e correcta do peso do cavalo, acrescido


agora do peso do cavaleiro, sobre os seus quatro membros. Estudos
efectuados demonstram que os anteriores do cavalo estão naturalmente
sobrecarregados acentuando-se para cerca de mais de dois terços do peso
total do seu corpo logo que tenha que suportar o peso do cavaleiro.
Convém aqui definir o conceito de impulsão.
Impulsão é o desejo permanente do cavalo de, em qualquer momento, se
deslocar para diante.
“É a primeira e última qualidade a procurar no cavalo de sela” - Mestre Martins
Abrantes, Tese do Curso de Mestres de Equitação, 1980/81.
É com o casamento íntimo entre a acção impulsiva das pernas e a acção de
contenção da mão, através do pedido de sucessivas transições e variações de
andamento que estabelecemos um acordo de ajudas com o cavalo. Esta
disponibilidade que o cavalo vai tendo para obedecer cada vez melhor às
solicitações do seu cavaleiro, vai dar início a um processo de transformação do
seu equilíbrio natural.

Podemos ainda evoluir na melhoria do equilíbrio do cavalo e das suas


prestações cuidando não só o exercício e a flexibilidade longitudinais como até
então, mas também visando a sua flexibilidade lateral, e consequentemente a
sua rectitude, ou seja, a simetria de forças que se manifesta por um contacto
igual, suave e confiante nas duas rédeas. A procura da flexibilidade lateral
efectua-se com exercícios de encurvação e contra-encurvação, procurando
assim o emprego de um e do outro posterior, através da cedência a uma rédea
e depois à outra rédea, e mais tarde às duas. No início todo este trabalho deve
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ser efectuado sobre o círculo e mais tarde sobre o trabalho de duas pistas
(cedência à perna, espádua adentro e numa fase mais avançada o ladear e a
pirueta).

Extraído de “Equitação” Müseler Berger-Levrault, 1966

A representação esquemática põe em evidência o fechar progressivo dos


ângulos articulares e o abaixamento progressivo das ancas.
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1.2. A atitude do cavalo e o respeito pela sua natureza

Existem vários conceitos que é necessário ter em conta e respeitar ao longo do


ensino do cavalo.
Esses conceitos baseiam-se no facto de ter que se respeitar uma determinada
harmonia muscular. Isto é: o cavalo desde que montado deve conservar a
liberdade de movimentos e atitudes que lhe são naturais.
O seu ensino deve ir ao encontro do melhoramento da sua locomoção ou seja
da qualidade dos seus andamentos, concretamente e consequentemente no
cavalo de obstáculos, da qualidade do salto.
O cavaleiro deve pôr em questão todo o seu trabalho se ao fim de algum tempo
o seu cavalo tem mais dificuldade em executar os alongamentos, as cedências
à perna, se faz força na mão, se não responde às pernas, se for tentado a
mudar de embocadura, de pôr esporas mais violentas ou um “enrênement”,
sentindo que o dorso do cavalo se contrai cada vez mais, que os posteriores
deixam de se empregar e a elasticidade geral do cavalo diminui.

Extraído de “Equitação”
Müseler Berger-Levrault, 1966

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5.3. O cavalo à frente das pernas e encostado na mão

Seguindo esta linha de trabalho, vamos obter com facilidade um cavalo à frente
das pernas e encostado correctamente na mão.
Em equitação desportiva e nomeadamente em saltos de obstáculos, o trabalho
geral do cavalo necessita que este último esteja à frente das pernas e
encostado na mão. Caso contrário o cavaleiro não poderá exercer sobre ele um
controlo suficientemente preciso para poder explorá-lo ao máximo.
A procura prematura e obcecada da colocação sobre a mão e fora deste
contexto de respeito pelo equilíbrio natural do cavalo, coloca enormes
problemas e impossibilita a progressão do cavalo. É aconselhável por isso, não
trabalhar essa questão isoladamente, mas sim incluída no trabalho geral do
cavalo e, em especial, conjuntamente com o que diz respeito ao emprego do
pós-mão, sendo assim uma consequência desse trabalho e não um objectivo a
atingir.

5.4. A qualidade dos andamentos e em especial do galope

Como já foi referido atrás é fundamental que o objectivo do trabalho seja


conduzido na melhoria da qualidade dos andamentos e, no cavalo de
obstáculos, sobretudo no galope.
É aperfeiçoando as transições e as variações do andamento que damos
qualidade ao galope, desenvolvendo o ritmo e dando ao cavalo a capacidade
de alongar e reunir a passada evoluindo na prontidão de resposta e por
consequência, na sua obediência.
Desta forma estamos a trabalhar também a qualidade do salto que no fundo
mecanicamente não é mais do que uma passada de galope de maior
dimensão.

6. O trabalho de obstáculos montado

6.1 Introdução ao salto

É muito importante a introdução ao obstáculo feita anteriormente no trabalho de


saltos em liberdade. Podemos com isso, desde os três anos e meio/ quatro
anos, dar ao cavalo a rotina suficiente que lhe permitirá adquirir por si próprio o
bom equilíbrio e por consequência o ponto ideal de batida. Assim desenvolverá
uma boa técnica de anteriores, uma boa passagem do dorso e dos posteriores.
É fundamental exercitá-lo para as duas mãos. Mesmo nos cavalos de cinco
anos, o salto em liberdade permite-nos por vezes, resolver certos problemas de
falta de confiança, resultantes de uma má experiência ou de uma abusiva
utilização por parte do seu cavaleiro.

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A importância do ensino no plano

O cavalo deve estar capaz de realizar as transições ascendentes e


descendentes conservando o seu bom equilíbrio. Ao longo do tempo a sua
capacidade de baixar a sancas deve desenvolver-se, para que possa com
facilidade obedecer às ordens do seu cavaleiro no sentido de alongar ou reunir
a passada, sendo capaz de realizar um determinado número de passadas
largas ou curtas entre dois pontos perfeitamente definidos.
As mudanças de direcção e as voltas são também extremamente importantes,
sobretudo devido às exigências dos percursos actuais. Nos dias de hoje, para
estar classificado não bastam os percursos sem faltas. É necessário ser rápido.
Isto significa que há que saber acelerar o andamento, mas tendo a capacidade
de reequilibrar o cavalo rapidamente antes de abordar o obstáculo seguinte ou
antes de realizar uma volta apertada para ganhar centésimos de segundo. Isto
exige um cavalo que obedeça com prontidão às ordens do cavaleiro o que
explica a importância de um trabalho sério no plano, onde os pontos vitais são
a facilidade e o rigor das transições e variações de andamento, as mudanças
de direcção, o caminhar logo que possível para os exercícios de galope
invertido e de passagem de mão.

A aquisição da técnica do salto montado

O salto decompõe-se em várias fases. Logo após o momento da batida, o


cavalo deve poder elevar suficientemente os seus anteriores, Em seguida,
deve estar preparado para se propulsionar graças à força dos seus posteriores

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(fase ascendente). Assim subirá o garrote para passar habilmente o dorso
sobre o obstáculo. Por fim, durante a fase descendente, ele deve cuidar o seu
gesto de posteriores.
Realizar este encadeado de movimentos de um modo harmonioso exige do
cavalo coordenação, flexibilidade, rapidez de reflexos e alguma força.
A natureza do cavalo determina muito a sua aptidão natural para os saltos.
Existem cavalos dotados de um bom equilíbrio, em particular no galope. As
suas passadas devem ter cadência e amplitude no plano, mas igualmente na
abordagem e na recepção dos saltos.
Um cavalo que acelera naturalmente os últimos passos na aproximação do
obstáculo e que faz as suas batidas sempre de forma diferente, é um cavalo
difícil e com problemas de controlo de equilíbrio, cometendo faltas com
facilidade.
É igualmente importante o respeito natural pelas varas. Um cavalo que não é
cuidadoso e “limpo” é sempre difícil de corrigir. Normalmente este defeito deve-
se a um equilíbrio natural deficiente aliado a um mau gesto dos anteriores ou
falta de rapidez de movimentos.
Por fim, a força e os meios físicos são fundamentais para a transposição das
combinações mais exigentes pelas suas dimensões e distâncias.
Estas qualidades podem ser inatas no nosso cavalo sendo sempre desejável
desenvolvê-las e tê-las à nossa inteira disposição.
Noutros casos existe mesmo a necessidade de quase fabricar uma ou outra
dessas qualidades em cavalos que as tenham menos desenvolvidas. Isto é
possível através de exercícios próprios que nos permitem trabalhar o estilo do
cavalo sobre o obstáculo.
Esses exercícios devem fazer-se no início sobre cavaletes e mais tarde sobre
obstáculos de alturas razoavelmente pequenas, utilizando linha se
combinações. Sobretudo numa primeira fase o objectivo não é saltar alto mas
sim saltar melhor.

6.2. O trabalho sobre cavaletes


Federico Caprilli
(o italiano que ensinou Federico Caprilli,
O italiano que ensinou o
mundo a saltar
o mundo inteiro a saltar)
Federi

20
A origem dos cavaletes.

Atribui-se a descoberta da utilidade do trabalho de cavaletes montado a


Caprilli. Caprilli estava plenamente convencido de que um cavalo de obstáculos
deveria ser treinado de maneira lógica e sistemática. O seu terreno de
exercício era um prado e o seu programa de treino consistia em saltar
pequenos obstáculos a trote e a trotar sobre varas postas no chão. É curioso
observar que ele colocava essas varas sobre pequeninos suportes para as
estabilizar e aumentar-lhes um pouco a altura, fazendo lembrar pequenos
cavaletes de serrar madeira (em italiano cavaletti). Caprilli já tinha em mente
que era necessário pedir muitas transições aos cavalos para adquirirem a
disciplina necessária. Dava muita importância à calma e desta forma, passando
por cima dos cavaletes procurava que o cavalo “olhasse o chão” com o cuidado
de ver onde colocava as mãos e os pés. Estes exercícios eram fundamentados
em princípios simples e lógicos e não exigiam nada de artificial. Para Caprilli
era essencial estabelecer uma confiança inabalável com o cavalo. Pensava
que um bom cavalo não precisava de ser “ajudado” durante o salto, muito pelo
contrário era necessário não o perturbar. Recomendava aos seus alunos que
montassem com a mão descida e que não praticassem exercícios sem estribos
senão muito raramente e com moderação a fim de evitar todo e qualquer tipo
de contracção em sela. No que diz respeito ao salto em si, Caprilli interessava-
se muito no desenvolvimento e na capacidade de batida do cavalo e numa
aproximação correcta. Acreditava que essa capacidade era em parte natural
mas também adquirida por uma longa prática de saltos a trote.Com o sistema
Caprilli, deu-se inicio ao ensino do treino sistemático dos saltos de obstáculos.
Para apresentar o seu método Caprilli colocava varas no chão a cerca de um
metro umas das outras e fazia o seu cavalo passá-las a passo, num e noutro
sentido. Colocava depois essas varas a um metro e vinte ou um pouco mais e
fazia o cavalo trotar tranquilamente sobre elas. O número de varas aumentava
progressivamente e a distância entre elas era alongada até ao metro e
cinquenta. E assim se dá inicio ao recurso sistemático dos cavaletes. No início
os cavaletes foram utilizados por Caprilli e seus alunos de uma maneira muito
simplificada. A passagem a passo e a trote sobre a vara no chão, ajudava o
cavalo a descontrair-se e a cooperar com o seu cavaleiro, na medida em que
estes montavam agora com a nova posição em suspensão sobre os estribos.
Numa segunda fase, subiram-se ligeiramente os cavaletes, cerca de 50cm, e
foram posicionados sobre uma linha direita, espaçados entre eles 3,60m a
4,50m. O cavalo galopava sobre esses cavaletes sem fazer uma passada entre
cada um deles e aprendia a servir-se do seu pescoço e a coordenar e exercitar
os seus movimentos de batida e recepção. O cavaleiro, procurando não
interferir na boca do cavalo, tinha de concentrar-se na sua posição adiante,
equilibrando-se sobre os joelhos e suportando-se nas suas pernas fixas e
envolvendo o cavalo ao nível dos flancos, estabilizando assim o alto do seu
corpo.
Este método revelava-se muito eficaz. Os alunos aperfeiçoavam-se muito
rapidamente e apercebiam-se de como os seus cavalos saltavam melhor e com

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mais vivacidade e ligeireza. Sentiam-se também muito mais seguros sobre o
salto.
O sistema Caprilli foi adoptado pela maioria das escolas de cavalaria pouco
depois de 1900 e numerosos países construíram as suas instalações copiadas
da escola de equitação italiana Pinerolo : fossos, barreiras e muros
condicionados por varas no chão colocadas de maneira permanente sobre
linhas, a boas distâncias, a uma ou duas passadas de cada obstáculo,
saltáveis num galope calmo mas activo.
As escolas segundo as suas especificidades, empregam o sistema Caprilli de
maneiras ligeiramente distintas. A Alemanha, por exemplo, combinou-o com o
seu próprio método de ensino, o que produziu resultados notáveis nas suas
equipas de saltos de obstáculos, antes da segunda guerra mundial.
Na era moderna houve quem adaptasse este sistema ao seu próprio sistema
de treino e produzisse obra de grande qualidade equestre e de grande
utilização no sistema de treino actual. Destaca-se a obra de Reiner Klimke
“Cavaletti” adaptada à modalidade de ensino, o Bertalan de Némethy “ O
Método de Némethy” onde se descreve uma técnica moderna de
aperfeiçoamento do cavalo de obstáculos e do seu cavaleiro. Ambas as obras
se baseiam no conceito descoberto e desenvolvido por Caprilli de que
trabalhando sobre cavaletes, através do interesse que eles despertam no
cavalo de olhar o solo e ao mesmo tempo o obrigam a desenvolver nos seus
andamentos um tempo de suspensão a par da amplitude, são só por si um
factor de ginástica que sem desgaste físico e moral lhe desenvolvem o seu
potencial locomotor e saltador, para além dos benefícios que trazem ao
cavaleiro na sua colocação em sela.

A aplicação moderna dos cavaletes ao trabalho de obstáculos

Material a utilizar:

Pessoalmente prefiro usar varas redondas e com algum peso com cerca de
15cm de diâmetro e 1,80m de frente. Em cada uma das extremidades é
colocado um taco de madeira a fim de estabilizar as varas para que não se
desloquem com facilidade quando são tocadas pelos cascos dos cavalos, ao
mesmo tempo que lhes dão um pouco mais de altura (entre 15 e 20cm),
obrigando assim o cavalo a levantar bem os seus membros ao ponto de terem
mesmo de empregar bem os músculos do dorso e do pescoço. Estas varas,
juntas duas a duas, formam um a frente de 3,60m, ideal para o nosso trabalho.

Existem cavaletes que nas extremidades têm uma cruzeta em X que suporta as
varas. Creio que esse sistema é mais perigoso para o cavalo que em caso de
furta poderá embater nelas e magoar-se. Essas cruzetas podem também ser
perigosas para o cavaleiro em caso de queda.

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Modo de utilização:

A distância entre cavaletes é de importância primordial. O princípio a seguir é


de não interferir no equilíbrio natural de cada cavalo nem na largura da sua
passada. Por isso é conveniente não trabalhar ao mesmo tempo cavalos com
passadas muito diferentes, para que não seja necessário estar sempre a
modificar essas distâncias que podem variar entre 1,30m e 1,50m, na
transposição a trote. Depois de algumas passagens efectuadas nos dois
sentidos é natural que seja também necessário aumentar um pouco as
distâncias.
Para darmos início a este trabalho é bom familiarizar o cavalo primeiro com os
cavaletes espalhados no chão e fazê-lo passar isoladamente a passo de
rédeas no pescoço e depois a trote, até que ele o faça sem os saltar mas sim
olhando-os com atenção no chão, levantando e “arregaçando”bem os seus
membros e solicitando numerosas transições nos intervalos. Poderemos então
dar início à transposição de várias séries de cavaletes em linha para passá-los
a trote nas duas direcções. Quatro será o número ideal de cavaletes pois se
forem menos o cavalo terá tendência a saltá-los de uma só vez. Pouco a pouco
o cavalo compreenderá o que se pretende dele e acabará por se descontrair.

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A finalidade deste exercício é cativar a atenção do cavalo e de a dirigir ao solo.
O cavalo alonga o pescoço para baixo, desde a espádua até à cabeça, olhando
com atenção e com cuidado por onde pisa para não tropeçar nos cavaletes.
Por outro lado, ele deverá levantar os membros mais alto do que se trotasse
normalmente sobre terreno plano, ginástica que fortifica os seus tendões e os
seus músculos, especialmente os dos posteriores. Por sua vez a atitude de
“olhar o solo”, obriga o cavalo a arredondar o dorso, fazendo trabalhar os seus
músculos, tornando-o forte e flexível.
O cavalo deve pisar o solo, quer com o anterior, quer com o posterior,
exactamente a meia distância entre as duas varas dos cavaletes. Se a
distância estiver demasiado curta, o cavalo aproximar-se-á cada vez mais de
cada vara sucessiva. Se estiver demasiado longa, ele não conseguirá alongar a
sua passada o suficiente e tentará dar uma curta passada extra ou mesmo
saltar. Uma ou outra situação não será favorável ao fim pretendido com este
trabalho.
Se o trabalho com cavaletes for bem conduzido haverá por parte do cavalo um
melhor controlo da coordenação do peso do seu corpo e por consequência
uma melhoria considerável do seu equilíbrio.
O cavalo aumentará a sua autoconfiança e o seu físico desenvolver-se-á
tornando os seus andamentos mais regulares, harmoniosos e flexíveis.
Aprenderá a deslocar o seu centro de gravidade com facilidade e toda a
segurança. Todos estes elementos se vão desenvolver e organizar
progressivamente constituindo bases sólidas para os saltos de obstáculos.

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6.3.O trabalho de ginástica de obstáculos
Logo que o cavalo assimile bem a técnica para transpor um salto isolado é de
toda a conveniência iniciar um trabalho sobre linhas e compostos. Para além
do exercício de ginástica que isso proporciona ao cavalo vai também, esse
trabalho, melhorar muito o seu estilo e a sua técnica, pelo facto de ter que se
exercitar o que se passa antes e depois do salto. O cavalo para realizar
correctamente um percurso deve, depois de cada salto, estar de novo
disponível às ordens do seu cavaleiro para abordar o salto seguinte. Para isso
ele terá de recuperar rapidamente o seu equilíbrio e a sua passada de galope
na recepção de cada salto, para abordar sem dificuldade o salto seguinte
evitando assim a falta.

A regulação da batida

Para intervir sobre a cadência e a amplitude da passada podemos utilizar uma


ou várias varas de regulação a cerca de 3 metros a 3,5 metros entre elas e à
distância do obstáculo, assim como na recepção a igual distância. Este
exercício obriga o cavalo a regular ele próprio a sua passada de galope antes e
depois do salto.

Trabalhar a rectitude

Para trabalhar desde inicio a rectitude do cavalo antes, durante e depois do


salto, para além dum salto em forma de cruz que o canaliza para o meio do
salto podemos usar uma vara cruzada de um dos lados que convida o cavalo
que tem por hábito saltar chegado a um dos lados, a procurar saltar ao centro.
A utilização de varas no chão perpendiculares ao salto formando um corredor
ajudam também a canalizar o cavalo que tem tendência a desviar-se para o
lado.

Melhorar a técnica em cima do salto

Para desenvolver o gesto dos anteriores e incitar o cavalo a subir o garrote,


podemos utilizar duas varas em V sobre o primeiro plano de um salto ou fazer
o cavalo saltar um oxer marcado cujo plano de entrada seja uma cruz.
Podemos também ajudar o cavalo a afastar-se ligeiramente do obstáculo,
utilizando varas de regulação ou de chamada, para que ele possa tomar o
tempo necessário para completar o seu gesto de anteriores. Uma vez que esse
gesto esteja bem assimilado, podemos de novo aproximar o cavalo do
obstáculo, aproximando a vara de regulação ao salto.
Para trabalhar os reflexos e a flexibilidade geral do cavalo, nada substitui o
trabalho sobre linhas de três ou quatro obstáculos, separadas por distâncias
Com passadas diferentes e por vezes integrando nessas mesmas linhas saltos
a tempo (3m a 3,5m) desenvolvendo assim a força, a musculatura e o
equilíbrio. Este trabalho não deve ser dissociado do trabalho no plano, já
mencionado.
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Alguns exemplos de exercícios sobre os obstáculos

Exercícios para melhorar a batida e a báscula:

trote

trote

Exercícios para regular a batida usando varas de marcação:

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A importância do facto do cavalo se receber a galopar na mão correcta depois
do obstáculo

Este exercício é fundamental pois facilita a realização de um percurso fluente e


rápido e evitando o risco da ocorrência de faltas.
No caso de uma volta a realizar depois do obstáculo, é fácil de compreender
que um cavalo novo que não se receba a galopar na mão correcta para
executar a mesma volta vai ter grande dificuldade em efectua-la.
Recebendo-se a galopar para a mão contrária será muito mais difícil pois
estará num mau equilíbrio. A sua reacção será entrar na volta em galope
invertido ou desunido, podendo passar a trote ou mesmo atabalhoadamente
passar de mão. De qualquer forma precipitará o seu galope e perderá o seu
equilíbrio não podendo abordar o salto seguinte nas melhores condições.
A primeira condição a cumprir para evitar esta situação é controlar o olhar ou
ter uma postura a cavalo imaginando ter os olhos no peito. É uma imagem que
nos dá obrigatoriamente uma postura de tronco que transmitida ao cavalo em
cima do salto, naturalmente lhe dará a indicação da direcção a tomar após o
salto.
Mesmo utilizando esta técnica, há cavalos que têm sempre dificuldade em se
receber a galopar para a mão desejada. Existem exercícios próprios para
corrigir esta dificuldade. Um de que eu gosto particularmente é o seguinte: um
círculo que varia de diâmetro consoante o grau de ensino do cavalo em
questão, uma cruz no meio de círculo e uma outra no exterior do mesmo.
Começamos por instalar o cavalo a galope sobre o círculo, até que o cavalo
salte as duas cruzes de modo regular, sem modificar a sua passada e
recebendo-se sempre para a mesma mão. Podemos ajudar o cavalo a
entender melhor para que mão terá que se receber, abrindo (mas nunca
puxando) a rédea interior. Procedemos à execução deste exercício para as
duas mãos. Seguidamente podemos aumentar a dificuldade do exercício,
dobrando ao centro do círculo para mudar de círculo e por isso passando de
mão sobre a cruz do meio. Vamos seguidamente executar um oito a galope
pedindo uma mudança de direcção e por consequência a passagem de mão
sobre a cruz colocada ao meio. Este exercício trabalha não só a obediência e a
disponibilidade do cavalo, mas também o equilíbrio pela abordagem do salto na
volta e a flexibilidade do dorso pela ginástica que ele implica.

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6.4.O treino do percurso

O treino sobre pequenas sequências desenhando traçados simples e de fácil


execução é uma boa prática para que o cavalo aprenda a lidar com a sua
futura actividade: o concurso hípico.
É necessário que aos poucos o cavalo deixe controlar o seu equilíbrio e o seu
ritmo. Não podemos considerar o salto isolado como um objectivo por si só. É
necessário trabalhar em pequenas sequências de saltos. Melhorar o estilo e a
qualidade saltadora do cavalo passa por trabalhar o que se passa antes e
depois do salto, ou seja, a qualidade do galope. Só assim poderemos ter
sucesso nas abordagens aos saltos, procurando as melhores trajectórias e
repetindo algumas vezes os mesmos saltos, as mesmas abordagens, as
mesmas distâncias, criando assim automatismos que nos permitem abordar
saltos variados de cores e forma diferentes sem problemas de maior.

O concurso – a prova final

A finalidade de todo este trabalho é a obtenção de boas performances em


competição.
Para que todo este processo tenha sucesso, apesar da aplicação de um treino
correcto, há que cuidar aspectos importantes no dia do concurso: o
aquecimento, o reconhecimento do percurso, a entrada em pista e a forma de
montar em percurso.

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O aquecimento

A duração do aquecimento varia de cavalo para cavalo mas nunca se deve


prolongar ao ponto de ele não poder dar o melhor de si mesmo. É necessário
preservar a sua frescura e a sua vontade de saltar.
Numa primeira fase há que ter em atenção que ele está fora do seu ambiente
habitual e por isso vai ser difícil que se concentre de forma a escutar as ordens
do seu cavaleiro mantendo a descontracção necessária para obter um bom
desempenho. Há cavalos mais susceptíveis que ficam muito nervosos ao
verem os outros a passarem por eles a galope e a saltar nos mais variados
sentidos, ou se assustam com o ruído das varas que caem. O ideal seria
montar ou mesmo passar à guia estes cavalos com algum tempo de
antecedência, antes do início da prova. Desta forma descontrair-se-ão,
concentrar-se-ão mais no trabalho que terão que realizar antes da sua entrada
em pista. A entrada em pista far-se-á com um cavalo tranquilo, receptivo às
ordens do cavaleiro e sem o perigo de estar a sujeitar o cavalo a uma má
experiência, fruto da sua perturbação. Deste modo e logo que haja
tranquilidade suficiente para que ele trote e galope descontraído, alargando e
reunindo e voltando facilmente às ordens do seu cavaleiro é chegado o
momento de o fazer saltar dois ou três obstáculos de pequena dimensão,
intercalando entre cada salto algumas transições ou voltas mais curtas, para
saltar de seguida dois ou três verticais um pouco mais altos e dois ou três
oxers também de maior dimensão quer em altura como em largura. É
importante não exagerar na dimensão dos saltos de aquecimento.
Normalmente não ultrapassar as alturas e larguras da prova. É preferível entrar
em pista com um cavalo confiado do que com um cavalo demasiado atento que
ao mais pequeno erro se irá parar com medo de se magoar de novo nas varas,
como lhe aconteceu no campo de aquecimento, facto que retém ainda na sua
memória.

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O reconhecimento do percurso

É de particular importância que o cavaleiro saiba de cor o traçado do percurso


que terá de efectuar. Assim poderá corrigir o seu cavalo, caso seja necessário,
sempre em conformidade com o seguimento do mesmo. No caso de o
cavaleiro ser menos experiente é vantajoso fazer-se acompanhar de alguém
mais rotinado e que por isso se possa aperceber de dificuldade como: o
aspecto de determinados saltos, a sua localização, a distanciação entre eles.
Outros pormenores de relevo, placares de publicidade, elementos de outros
obstáculos de outros percursos deixados, às vezes por descuido dos chefes de
pista, em locais menos favoráveis à passagem dos nossos cavalos são de
considerar. Todos estes factores podem influenciar a execução do percurso
dum cavalo novo.

A entrada em pista e a forma de montar em percurso

É fundamental entrar em pista tendo o cavalo para diante, atento e


descontraído.
Para os cavalos mais confiantes, algumas transições rápidas antes de
cumprimentar o júri são o suficiente para confirmar a sua atenção às ordens do
cavaleiro.
Com os mais inquietos e inseguros é bom entrar em pista num galope enérgico
fazendo-os reagir com firmeza à acção das pernas para diante, vencendo deste
modo as suas hesitações.
Em qualquer dos casos é sempre bom que antes de iniciar a partida eles
possam olhar à sua volta para que possam familiarizar-se com o ambiente da
pista do concurso, fazendo-os mesmo circular pelos locais que possam
provocar hesitação à sua passagem durante a realização do percurso.

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Depois de uma boa preparação no campo de aquecimento e de um
reconhecimento prévio do percurso, o cavaleiro pode agora concentrar-se
totalmente na forma de montar o seu cavalo na pista.
É fundamental a conservação do equilíbrio e do ritmo, sempre em
concordância com a velocidade imposta e a altura dos obstáculos.
Na abordagem e na recepção do salto, as mudanças de posição do cavaleiro
ao seguir o movimento do cavalo no salto, devem ser feitas suavemente e
sempre acompanhadas da pressão exercida pela perna bem descida,
assegurando assim o movimento para diante, mas sem perturbar a boa
mecânica do salto ao cavalo. Uma aproximação do assento do cavaleiro nos
últimos passos reforça a impulsão das pernas sem perturbar o cavalo,
permitindo-lhe a transposição do salto correctamente.
A conservação do ritmo e da impulsão são essenciais à regulação da
aproximação do salto.
A minha experiência diz-me que é mais fácil alongar, ainda que muito
progressivamente, a passada na abordagem de um salto do que não ter
espaço e por isso ter que reter o cavalo com a mão. Mais experiente é o
cavaleiro, mais cedo e mais longe do salto ele tomará a sua decisão.

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• Conclusão:
Os problemas mais frequentes com os cavalos novos de obstáculos são
habitualmente problemas de equilíbrio, em particular nas recepções dos saltos.
O cavalo posto em dificuldade pelo obstáculo vai ter tendência a correr atrás do
seu peso depois do salto. Isto corrige-se com trabalho correcto no plano.
Porém, por vezes, deparamo-nos com problemas de concentração por parte do
jovem cavalo, quer por distracção com tudo aquilo que o rodeia, fruto do novo
ambiente dos terrenos do concurso a que não está habituado, ou muito
simplesmente porque se preocupa demasiado com o seu cavaleiro que lhe
impõe uma atitude muito “fabricada”, pouco natural, impedindo-o assim de se
focalizar nos altos, como seria desejável. É vulgar ver um cavalo de tenra idade
sujeito a atitudes verdadeiramente constrangedoras e que não são de todo
compatíveis com uma normal e sã utilização do cavalo, contrárias ao respeito
pela sua natureza.
O homem tende a valorizar mais aquilo que vê do que aquilo que deveria
sentir. Esta verdade aplica-se ao homem cavaleiro, que estando a cavalo o que
é que vê? A cabeça e o pescoço do cavalo. A obsessão de “colocar” a cabeça
do cavalo é um ponto comum a uma grande maioria de cavaleiros menos
experientes. O cavaleiro menos esclarecido tende a associar rapidamente uma
cabeça e um pescoço colocados contra o corpo à noção de cavalo “sobre a
mão”, gerando assim a esperança que o dorso se arredonde e da mesma
forma que os posteriores se empreguem. O cavaleiro que se oriente nesta
direcção tem uma concepção deturpada daquilo que deveria ser a verdadeira
equitação. Adquire falsas sensações que mais cedo ou mais tarde serão um
entrave à progressão do cavalo que pretende ensinar ao colocá-lo numa
atitude contra natura.
É absolutamente necessário preservar a moral dos cavalos. Um bom cavalo de
obstáculos deve estar bem na sua cabeça. Para isso é fundamental fazê-lo
evoluir, praticando uma equitação sã, simples e objectiva.
Quanto mais cedo começamos o trabalho do cavalo novo, mais podemos fazê-
lo progressivamente. Este facto é especialmente verdade com os cavalos de
obstáculos. O jovem cavalo deve aprender tranquilamente todos os seus
gestos e técnicas necessários. Deve começar aos três anos com um bom
desbaste e só depois passar ao trabalho realmente a sério aos quatro anos.
Nunca queimar etapas. É vulgar assistir à utilização de cavalos de cinco ou
mesmo seis anos que, tendo já bastantes percursos no seu activo, nunca
realizaram um trabalho no plano que lhes desse uma sujeição e uma utilização
mais fácil e civilizada sem resistências às ordens do cavaleiro e nunca
passaram por todo o trabalho de ginástica sobre os obstáculos, essencial ao
seu normal desenvolvimento físico e mental.
A prática e o ensino de uma equitação simples, objectiva, assente no respeito
pela natureza, é essencial para levar a bom porto a progressão correcta no
trabalho de ensino que permitirá formar futuros campeões.

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O cavalo é um ser vivo dotado de carácter e de sentimentos. Somente no
respeito desta sua condição e no seu desenvolvimento correcto e harmonioso o
cavaleiro obterá os melhores resultados e as maiores satisfações.

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• BIBLIOGRAFIA

• À Cheval - Chambry, Pierre (1967)


• Das Reitpferd - Brandl, Albert (1977)
• Dressage – Belvale, Challin (1966)
• Équitation – W. Müseler (1964)
• Équitation Académique, Decarpentry
• La Méthode Némethy - Némethy,Bertalan de (1988)
• Tese do Curso de Mestres de Equitação - Abrantes,Cap. João Martins
(1981)

• Z-Magazine, magazine equestre, Studbook Zangersheide (2006)


• Horse & Rider (2002)
• L’Eperon (2000,2003,2006)

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