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Aos meus pais, Sidney Silva e Lidiane André, que me ensinaram a ler, a viver,

Aos meus pais, Sidney Silva e Lidiane André, que me ensinaram a ler, a viver, a sonhar. A todos os meus professores que, de alguma forma, mostraram-me que é possível alcançar um objetivo, seja ele qual for. Em especial, agradeço a Elisabeth Bragança, que foi quem me mostrou durante uma aula o caminho que eu iria seguir para o resto da vida. Dizer obrigado torna-se pouco para descrever tamanha gratidão. A todos os citados, sejam bem-vindos ao resultado da persistência de vocês.

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  D IA 18 DE DEZEMBRO DE 1985, uma data histórica para a família Fonseca,
  D IA 18 DE DEZEMBRO DE 1985, uma data histórica para a família Fonseca,
 

DIA 18 DE DEZEMBRO DE 1985, uma data histórica para a família Fonseca, afinal, não é todo dia que se formam dois herdeiros. Pedro e Ricardo, os gêmeos e formandos

da noite, vestidos a caráter em seus quartos aguardam à hora da tão esperada cerimônia:

Finalmente vou me livrar dessa chatice! Dispara Pedro, que se mostra completamente desanimado com toda situação.

Odeia tanto assim estudar? Questiona Ricardo, o irmão mais sensato.

Não é questão de ódio, é que não temos necessidade

de passar por toda essa palhaçada, já nascemos ricos, que diferença isso faz?

Muita, como acha que vamos conseguir gerenciar a

“Indira” (Empresa de cosméticos da família) se não estivermos preparados?

 

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  Pedro ri, e junto com os risos solta um olhar de deboche, deixando nítido
  Pedro ri, e junto com os risos solta um olhar de deboche, deixando nítido
 

Pedro ri, e junto com os risos solta um olhar de deboche, deixando nítido o desinteresse pelo negócio da família. Laura, mãe dos jovens, vai até o quarto dos filhos buscá-

los e, é claro, encanta-se ao encontrá-los em trajes sociais.

Se o pai de vocês estivesse aqui, estaria morrendo de

orgulho! Diz, segurando as lágrimas, a matriarca da família.

De alguma forma, creio que ele está. Responde

Ricardo, com uma voz mansa e acariciando o rosto da mãe, devolvendo um pouco do carinho. Laura sorri e, com os olhos marejados, se esforça para não se emocionar, afinal, teria muitos motivos para isso horas mais tarde. Pedro, que nunca foi de demonstrar afeto, interrompe de forma grossa.

Já podemos ir. Deixem a melação para mais tarde!

Ele então sai do quarto, demonstrando desconforto com o carinho da mãe.

– Deixa ele para lá, mãe. É o jeito dele.

 

– Sabe, depois que seu pai nos deixou, parece que o

 

Pedro não consegue mais sentir afeto por nenhum de nós.

Bobagem, já já isso passa. Mas não vamos deixar que

isso estrague a nossa noite, hoje é um dia muito importante

para nossa família, o Pedro sabe disso. Vamos deixar de lado as ignorâncias dele e comemorar. Já fora da casa, Pedro recebe Alex, um amigo de turma que, de tão próximo, já era como alguém da família.

Definitivamente eu não nasci para usar esse tipo de

roupa, é sério, como o Ricardo consegue se sentir à vontade

 

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  vestido assim? Pergunta Alex, afinal, ele sabe que Ricardo é religioso e que costuma
  vestido assim? Pergunta Alex, afinal, ele sabe que Ricardo é religioso e que costuma
 

vestido assim? Pergunta Alex, afinal, ele sabe que Ricardo

é religioso e que costuma usar trajes sociais com frequência.

– Meu irmão é um fanático que nasceu no século errado.

– Também não é para tanto, Pedro. Vocês precisam

melhorar essa relação, são irmãos e não devem ter qualquer tipo de rivalidade.

Rivalidade? Antes fosse a verdade, é que o Ricardo

sempre foi o queridinho da minha mãe e, depois que meu pai morreu, o favoritismo dela só aumentou. Antes que Alex questionasse o amigo, Ricardo e Laura aparecem já prontos para seguir até o salão, onde aconteceria a cerimônia, se surpreendem ao encontrar Alex na porta da casa, junto a Pedro.

Que bom que você veio, meu filho. Já estávamos quase indo, por pouco não perde a carona!

Acha mesmo que iria perder a oportunidade de chegar num carrão desses? Responde Alex aos risos.

Tenho-lhe como um filho, Alex. Para mim, você

também faz parte desta família e estou muito feliz pela conquista dos três. Diz Laura, abraçando Alex. Ele, que apesar de ser um

rapaz amoroso, não sabe reagir bem a elogios e, trata logo de desviar o assunto.

– E você, Ricardo? O gato comeu sua língua?

– Estou tentando concentrar-me, tenho medo de

esquecer o texto e passar vexame, ser o orador da turma tem seu lado constrangedor.

 

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  Diz Ricardo, sem conseguir esconder a tensão e a ansiedade. – Fica frio, cara.
  Diz Ricardo, sem conseguir esconder a tensão e a ansiedade. – Fica frio, cara.
 

Diz Ricardo, sem conseguir esconder a tensão e a ansiedade.

Fica frio, cara. Você é o gênio entre nós!

 

Responde Alex, antes de entrarem no carro e partirem. No caminho, todos parecem estar felizes com o acontecimento, até mesmo Pedro, pois sempre que está

 

perto de Alex, parece ficar mais alegre. Piadas, conversas e risadas marcam o caminho até o salão. Pedro se demonstra mais entusiasmado, para a surpresa de todos.

Eu estou vendo um sorrisinho nesse rosto lindo,

Pedrinho?

Pedrinho? Por favor, mãe, não vá me fazer passar vexame na frente da turma.

 

Ih, parece que meu irmãozinho voltou a morder,

cuidado pessoal! Diz Ricardo, aos risos. Mesmo não parecendo se divertir muito, Pedro entra na brincadeira e não considera as provocações do irmão. Ao chegarem ao salão, Laura parece

não acreditar que os filhos já estão a um passo da faculdade.

Eu prometi que não iria chorar, pelos menos por

enquanto. Diz ela, que, com a mão abana o próprio rosto, num

gesto simples, tentando evitar que as lágrimas escorram.

Não acredito que já vai começar, controle-se mãe!

Pega leve Pedro, se você não está feliz eu e nossa mãe estamos!

 

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  Alex parece não se surpreender com a discussão, afinal, ele presencia situações como essas
  Alex parece não se surpreender com a discussão, afinal, ele presencia situações como essas
 

Alex parece não se surpreender com a discussão, afinal, ele presencia situações como essas entre os irmãos quase que diariamente. Na formatura, Ricardo sobe ao púlpito,

representando toda sua classe o jovem não deixa a desejar

 

e

emociona todos os presentes. Laura, que até ali

 

permanecia firme, finalmente solta a emoção que estava segurando e chora feito criança. Todos vão para a pista de dança, extravasar a energia e

comemorar a conquista. Horas mais tarde, não satisfeitos com a comemoração, Alex e Pedro decidem sair dali direto para uma boate próxima ao salão.

– Vamos, Ricardo. Vai ser legal!

 

– Não sei se seria uma boa ideia.

– A gente volta mais cedo, se quiser.

– Agradeço o convite, mas você sabe, não curto muito

 
 

o

ambiente.

 

– Como assim? Hoje é o nosso dia, cara. Vamos, só hoje!

 

– Deixa ele Alex, o vovô deve estar com soninho.

Provoca Pedro, sabendo que o irmão não iria de forma alguma, pois, em respeito à sua religião, evitava ambientes do tipo.

Laura intervém

Seu irmão não quer ir, Pedro. É um direito dele, respeite-o.

 

Estava demorando para a leoa defender o filhote predileto. Rebate Pedro, de forma irônica.

 

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  Querendo evitar uma briga, Alex também intervém na discussão familiar e os convence que
  Querendo evitar uma briga, Alex também intervém na discussão familiar e os convence que
 

Querendo evitar uma briga, Alex também intervém na discussão familiar e os convence que ali não é o melhor lugar para uma discussão. Todos então se acalmam, Laura e Ricardo voltam para casa. Já Pedro e Alex vão para boate

aproveitar o restante da noite. Chegando lá, Pedro já avisa:

– Não vá extrapolar de novo, Alex!

 

– Qual é, Pedro? Se fosse para ter alguém no meu pé eu

 

tinha saído com o gêmeo politicamente correto. Responde Alex, de forma debochada, seguindo em direção ao bar da boate para comprar bebidas. Pedro, apesar de também beber, sabia que o amigo não era tão controlado quanto ele, e que quando bebia, costumava causar tumulto. E, novamente, a história se repete. Mulherengo que só, entre

uma taça e outra, Alex decide agarrar uma menina a força, causando uma enorme confusão.

Expulsos da balada. Está vendo o que você fez cara?

Toda vez que bebe é assim, parece uma criança mimada! Mais uma vez você deu a sorte de não encontrarmos

nenhum conhecido, imagina se alguém te ver nesse estado?

Vai querer me dar sermão agora, Pedro? Até parece

que você é um santinho. Retruca Alex, com a fala pausadamente e as pernas bambeando, apoiando-se no amigo para não cair. Pedro decide então levá-lo para casa e, sem que os pais do rapaz percebam, mais uma vez ele chega embriagado, caminhando em passos largos em direção ao alcoolismo. E seria assim na outra semana, no outro mês.

 

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  Já no outro dia, Alex acorda sentindo-se mau. Seus pais, Cássia e Maurício, não
  Já no outro dia, Alex acorda sentindo-se mau. Seus pais, Cássia e Maurício, não
 

Já no outro dia, Alex acorda sentindo-se mau. Seus pais, Cássia e Maurício, não enxergavam o problema do filho. Para eles, Alex era apenas um jovem que gostava de se divertir. Cássia até que demonstrava um certo receio, mas

ainda encarava aquilo como algo natural, o que estava longe de ser.

Isso são horas de acordar, garoto? Pergunta Maurício

ao filho.

– Não enche, cheguei muito tarde ontem. Estou cansado.

 

– Eu sei bem o nome desse cansaço.

 

– Por um acaso isso é algum tipo de sermão?

 

– Claro que não, você ainda é muito jovem para entender

determinadas coisas. Não vou bancar a careta e cobrar

responsabilidade de um menino.

 

Cadê a mamãe?

Não desceu ainda, acordou um pouco indisposta. Por um lado, é bom.

 

Bom?

Sim, só assim ela evita de te ver nesse estado, você sabe o que ela pensa sobre bebida.

 

A mamãe é muito exagerada, tudo para ela é motivo

de desespero, eu mal posso tomar um drinque com a galera que ela já pega no meu pé.

Seu avô tinha grandes problemas com Álcool, ela teme que isso seja algo hereditário ou sei lá.

– Quanta loucura.

– De qualquer forma, tome um banho, lave esse rosto.

 
 

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  Não a deixe vê-lo assim.   – Tudo bem. Maurício parecia ignorar a preocupação
  Não a deixe vê-lo assim.   – Tudo bem. Maurício parecia ignorar a preocupação
 

Não a deixe vê-lo assim.

 

Tudo bem.

Maurício parecia ignorar a preocupação de Cássia em relação ao filho, tentava a todo tempo tapar o sol com a peneira. Com o tempo, a situação vai se agravando, sem que eles percebam, o filho entra num abismo criado por ele mesmo. Alguns anos se passam. Quando deu por si, Alex se viu viciado, necessitava da bebida para fazer qualquer coisa, até para ir ao trabalho que o pai lhe arranjou, o jovem precisava de uma boa dose de álcool para sentir-se bem. O rapaz alegre e brincalhão transformava-se num imaturo e inconsequente após a

 

primeira dose, fazendo com que todos ao seu redor se afastassem aos poucos. Ricardo, que não se conformava em ver o que o amigo

estava fazendo com a própria vida, tentava a qualquer preço o ajudar. Uma missão nada fácil, já que Alex encarava tudo com naturalidade.

– E aí, como está?

 

– Estou bem. E você?

– Também estou bem. Escuta você ainda tem bebido

 

muito?

 

Ah, por favor, não comece. Sempre que você vem

 

com essa história de alcoolismo a gente discute, melhor pararmos essa conversa por aqui mesmo.

Eu só estou preocupado, que lhe ajudar.

 
 

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  – Obrigado pela preocupação, mas eu não preciso da sua ajuda. Aliás, eu não
  – Obrigado pela preocupação, mas eu não preciso da sua ajuda. Aliás, eu não
 

Obrigado pela preocupação, mas eu não preciso da

sua ajuda. Aliás, eu não preciso da ajuda de ninguém.

– Tem certeza?

– Absoluta.

Vamos à igreja comigo um dia, tenho certeza que irá gostar.

 

Não me leve a mal, Ricardo. Mas o que te faz acreditar que esse camarada o qual você dedica a vida realmente existe?

– Eu sei que ele é real.

– É um direito seu, assim como eu tenho o direito de

 

acreditar que Deus é tão real quanto o curupira ou o boto cor de rosa.

Está legal Alex, novamente não consegui. Mas não vou desistir de você.

Diga para Deus que um dia apareço lá para a gente

bater um papo. Responde Alex, em meio a gargalhadas. Ricardo vai até a “Indira”, empresa da família onde agora é diretor financeiro e, mesmo com todo o esforço não consegue se concentrar no trabalho. A todo tempo ele lembra do amigo embriagado, travando uma batalha diária contra o vício. Pensando em convencer o amigo a aceitar ajuda, ele decide

reunir toda turma do colegial, acreditando que ao ver todos juntos, Alex se recorde do jovem alegre e carismático que era. Decide ligar para o irmão e pedir ajuda.

E aí Pedro, o que achou da minha ideia?

 
 

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  – Fala sério, Ricardo. Para de tratar todo mundo como doente, não é porque
  – Fala sério, Ricardo. Para de tratar todo mundo como doente, não é porque
 

Fala sério, Ricardo. Para de tratar todo mundo como

doente, não é porque você leva essa vida sem graça que

todo mundo tem que abdicar de diversão, o Alex já é bem grandinho para precisar de babá, dá um tempo.

Acorda Pedro! Ele está doente sim, e precisa da nossa ajuda.

– E por um acaso você é médico?

 

– Então você reconhece que ele está mesmo doente?

 

– Tudo bem, às vezes ele exagera um pouco, mas daí

achar que isso é uma doença é um pouco demais.

Está ok, Pedro. Então esqueça tudo que eu falei, encare

isso como uma oportunidade de festejar. Vai me ajudar ou não a reunir a galera do colegial?

– Você não vai desistir, não é?

 

– Você sabe que não.

Olha, eu vou falar com alguns deles, os que ainda mantenho contato.

 

Obrigado, vai ser muito importante para o Alex.

Agora, só uma pergunta, ele já está sabendo dessa história?

Óbvio que não, e não pode nem desconfiar da minha

intenção com tudo isso. Para todos os efeitos, é apenas uma reunião entre amigos. Mesmo sem fazer muito esforço para agradar o irmão, no fundo, Pedro sabe que o amigo realmente está doente, então decide acionar todos os contatos para a confraternização. Um falando para o outro, aos poucos,

 

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  todos ficam sabendo e confirmam presença. Local escolhido, data e hora marcada. Chega a
  todos ficam sabendo e confirmam presença. Local escolhido, data e hora marcada. Chega a
 

todos ficam sabendo e confirmam presença. Local

escolhido, data e hora marcada. Chega a parte mais difícil do plano.

Vai rolar um reencontro da galera, está sabendo?

Pergunta Pedro a Alex, de forma discreta, fazendo parecer um comentário sem importância.

– Que galera?

– A galera do colégio.

 

– Estou fora, aquele monte de mauricinhos engomadinhos que mais parecem ter um rei na barriga.

 

– Não é bem assim, Alex. Até que eles são legais, vai.

– Está parecendo o seu irmão falando, um dia desses ele

esteve aqui. Está cada vez mais mala, me tratando como se

eu fosse um doente, queria me arrastar para a igreja à força. O que eu vou fazer lá?

Não me compara com aquele esquisito! É você que

está se parecendo com ele, dispensando uma festa para ficar em casa assistindo TV.

– Está ok, eu vou.

 

– Sério?

Escute, porque faz tanta questão que eu vá nesse encontro idiota?

 

– Você sabe, sem você lá não será tão divertido.

– Tem razão! Diz Alex, sorrindo para o amigo.

Algumas semanas depois, chega o dia da festa. A sensação de entusiasmo volta a tomar conta da turma, aos poucos o pessoal vai chegando. Se reconhecendo com

 

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  apelidos já esquecidos, os “grupinhos” voltam a se formar. Passa uma hora e, nada
  apelidos já esquecidos, os “grupinhos” voltam a se formar. Passa uma hora e, nada
 

apelidos já esquecidos, os “grupinhos” voltam a se formar. Passa uma hora e, nada do Alex chegar. Ricardo começa a

ficar tenso, pois se Alex não aparecer tudo terá sido em vão. Ele resolve esperar mais um pouco, pois ainda tem esperanças que o amigo chegue. Já na porta da festa, Alex parece ter medo de que as pessoas o vejam bebendo, então decide se embriagar antes mesmo de entrar. No porta luvas do carro, ele pega uma espécie de frasco com uma substância que ele usa para ficar bêbado mais rápido, toma um pouco e entra na festa.

Alex, é você? Diz um e colega de turma, que o

reconhece, mesmo com o penteado bem diferente do de costume. Sem perceber que o penteado foi a mudança

menos importante na vida do rapaz.

 

É, sou eu. Responde Alex, um pouco tímido e, ao

 

mesmo tempo, tentando esconder que já não está tão lúcido

quanto deveria. Após conversarem durante alguns minutos, Alex diz que precisa ir ao banheiro, mas, na verdade, quer fugir daquela situação. No banheiro, ele encontra Pedro que, logo percebe o estado do amigo, por mais que ele se esforce para disfarçar.

– Eu sabia!

 

– Do que você está falando?

 

– Não se faça de idiota, eu te conheço mais do que

 

qualquer um aqui. Pode até tentar disfarçar, mas eu sempre vou perceber.

 

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  – Acho que você está ficando louco.   – Você já chegou bêbado! Vai
  – Acho que você está ficando louco.   – Você já chegou bêbado! Vai
 

– Acho que você está ficando louco.

 

– Você já chegou bêbado! Vai negar?

– Não enche Pedro, foi só uma dose. Ninguém vai

 

perceber!

– Eles não precisam perceber, todo mundo já sabe!

 

– Sabe do quê?

– Que você está doente, precisando de ajuda. Pelo menos

 

foi isso que o Ricardo disse para todo mundo, eles só estão aqui por sua causa, sentem pena de você!

– Eu não acredito que ele fez isso.

 

– Duvida? Vá até lá fora e veja como as pessoas te olham.

 

Você está blefando, o Ricardo não faria uma coisa dessas.

Você realmente acha que não? O Ricardo vive te

chamando de doente, dizendo que você precisa se tratar. Enquanto ele achava isso sozinho, tudo bem. Mas agora

ele resolveu convencer o mundo de que você é um pobre coitado.

Desgraçado! Ele não podia ter feito isso.

 

Poder não pode, mas você sabe, ele sempre se achou melhor do que nós. O dono da verdade, eu diria.

 

Traíra, isso que ele é.

Ele sempre foi. Agora você entende o motivo da gente nunca ter se dado bem.

 

Mas foi você que insistiu para que eu viesse para essa porcaria de festa.

Ele que me pediu. Aliás, pediu não, implorou! Disse

 

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  que era muito importante que você estivesse aqui hoje, não imaginei que se tratasse
  que era muito importante que você estivesse aqui hoje, não imaginei que se tratasse
 

que era muito importante que você estivesse aqui hoje, não imaginei que se tratasse de uma armação.

– Eu vou embora.

– Não, se você fizer isso dará razão a ele. Eu sei como

 

você pode dar o troco de uma forma muito mais divertida. Alex parece não acreditar no que ouviu. Totalmente descontrolado, e orientado por Pedro, ele segue até seu carro para buscar o frasco que lá está guardado, pensando em se vingar de Ricardo. O plano é fazer com que o amigo fique bêbado, para dizer a todos que quem precisa de ajuda é ele. Pedro percebe que seu plano de prejudicar o irmão deu certo, e comemora. Alex finge então está tudo bem e, surpreende Ricardo.

Surpresa! Pensou que eu não fosse vir?

Cara, você veio! Que bom, só faltava você para a turma ficar completa.

 

– Ah, é mesmo?

– Claro todo mundo já chegou.

– Posso imaginar o quanto você está feliz com tudo isso.

 

Mas é claro que estou, todos os nossos amigos estão aqui. Deixa que eu te ajudo a reconhecer quem é quem.

Por qual motivo você acha que eu não iria reconhecê- los? Está me tratando feito um doente outra vez.

Que isso Alex. Passaram-se anos, as pessoas mudam.

Mas você que sabe. Só o que importa agora é que você veio, e a festa está completa.

Quase completa Ricardo.

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  – Por que quase?   – Falta uma coisa ainda. – O quê? –
  – Por que quase?   – Falta uma coisa ainda. – O quê? –
 

– Por que quase?

 

– Falta uma coisa ainda.

– O quê?

– O orador da turma tem que falar!

 

Nesse momento, Alex começa a gritar pedindo um discurso do amigo. Logo, o restante da festa o acompanha, forma-se um coro e Ricardo não pode negar-lhes a palavra. Pedro sai do salão sem que ninguém perceba, já Alex, se aproveita da distração de todos e despeja um pouco da substância no copo de refrigerante que Ricardo está tomando. Após algumas palavras emocionadas, o discurso acaba sob aplausos, hora de esperar o plano dar certo. Alex não consegue esconder o entusiasmo e retorna ao banheiro,

 

lá ele bebe todo o restante da substância e acaba dormindo de tão bêbado. Na festa, Ricardo começa a sentir-se mal, um pouco de

enjoo, depois uma dor de cabeça. Após um tempo, a sensação de mal-estar fica mais forte. Sem querer incomodar os amigos, ou até mesmo estragar a festa, ele decide procurar pelo irmão, mas não o encontra. Então resolve ligar.

– Pedro? Cadê você?

 

– O que foi? Tive que sair, me dê um minuto de paz!

 

– Não estou me sentindo muito bem, preciso ir embora.

Segura a onda um pouco, foi você que armou toda essa palhaçada, agora aguenta. Daqui a pouco estou voltando.

 

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  Meia hora depois, Pedro retorna à festa. Vai então de encontro ao irmão, fingindo
  Meia hora depois, Pedro retorna à festa. Vai então de encontro ao irmão, fingindo
 

Meia hora depois, Pedro retorna à festa. Vai então de encontro ao irmão, fingindo não saber qual o motivo de

ele querer ir embora tão cedo, já que foi ele quem organizou aquilo tudo.

 

– O que deu em você? Sair assim, do nada.

 

– Não estou legal, preciso ir embora.

– Isso é desculpa, nem você está suportando essa reunião.

 

– Não é isso, você sabe que… Pera aí, cadê o Alex?

– Eu que te pergunto, você ficou na festa!

 
 

Não o vejo desde o momento do discurso, pensei que estivesse com você. Será que ele bebeu alguma coisa?

 
 

Pois é, pensou errado. Que ir embora? Vá! Pois eu

 

vou tentar achar meu amigo. Parece que sou o único que se

importa com ele por aqui.

 
 

Você sabe que isso não é verdade, mas não vamos

 
 

discutir por bobagem. Eu preciso ir embora, talvez eu volte

ao final da festa.

 
 

Tudo bem, Adeus.

Ricardo segue em direção ao seu carro, cada vez mais

 
 

enjoado, ele começa a sentir também fortes tonteiras. Apoia-

no capô, respira ofegantemente, recupera o fôlego e decide seguir assim mesmo. Acredita ser um mau estar passageiro. Já no outro dia, por volta das dez horas, Alex acorda em casa. Percebendo que novamente se embriagou, e que alguém

se

o

levou para casa, aos poucos começa a lembrar da noite

anterior. Ao se recordar do que fez, arrependido, procura por Ricardo, quer saber o resultado da vingança.

 

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  Alex se surpreende quando ao ligar para o amigo, o telefone é atendido por
  Alex se surpreende quando ao ligar para o amigo, o telefone é atendido por
 

Alex se surpreende quando ao ligar para o amigo, o telefone é atendido por um outro homem, que se identifica como um bombeiro socorrista. Lamentando, ele informa que o carro de Ricardo capotou após uma curva em um

túnel, e que o jovem havia morrido. Desesperado, Alex entra em choque, não consegue acreditar, que ao seu ver, uma simples brincadeira, teria matado seu amigo. Já na casa de Ricardo, o telefone toca, quem atende é Laura,já angustiada com a demora do filho que não costuma dormir fora.

Alô, é da residência do Sr Ricardo Fonseca?

O coração de Laura dispara, pelo tom sério, ela percebe

que sua angústia não era em vão, algo havia acontecido. Mesmo querendo saber, sua voz parecia ter travado, talvez fosse o medo de ouvir o que aquele homem tinha para lhe dizer. Após alguns segundos de silêncio, ela então o responde, já chorando.

– É da casa dele sim, o que aconteceu?

 

– A senhora, quem é?

 

– Eu sou a mãe dele! Cadê o meu filho?

 

– A senhora está sozinha?

 

Sim, estou! Por favor, pelo amor de Deus! Quem está falando?

 

– Meu nome é Carlos, eu sou bombeiro socorrista.

– Socorrista? Como assim? O que aconteceu com o meu

filho?

Lamento em informá-la que seu filho sofreu um grave

 

acidente, o carro dele capotou dentro de um túnel.

 

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  Laura entra em desespero, parece não acreditar no que aconteceu. Chorando ela então pergunta
  Laura entra em desespero, parece não acreditar no que aconteceu. Chorando ela então pergunta
 

Laura entra em desespero, parece não acreditar no que aconteceu. Chorando ela então pergunta de forma

angustiada:

– Em que hospital ele está?

 

– Infelizmente o acidente foi muito grave, ele não foi ao

 

hospital, nós ainda não retiramos o corpo das ferragens.

Laura desmaia. Aos poucos todos ficam sabendo da tragédia, ainda sem acreditar que um jovem tão bom tenha morrido de uma

forma tão covarde. Pedro, que a essa altura já ficara sabendo da morte do irmão, corre para consolar a mãe, que encontra desmaiada ao chegar a casa

– Mãe, acorda!

– Meu menininho, não! Grita ela aos prantos, ainda zonza

 

e

confusa, tentando entender tudo que estava acontecendo.

– Calma mãe, vai ficar tudo bem.

 

– Calma? O seu irmão está morto Pedro! Morto! Eu

 

nunca mais vou vê-lo, nunca mais vou abraçar o meu bebezinho, dar um beijo de boa noite. Nunca mais! Berra ela novamente aos prantos, ajoelhando-se no chão, abraçada

um porta-retratos com a foto de Ricardo. Pedro abraça a mãe, não consegue conter as lágrimas e também chora a morte do irmão. Após horas de silêncio, alguém bate à porta. Era Alex, aos prantos e completamente transtornado.

a

 

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  – Tia Laura, sou eu, Alex.   – Meu filho, então você também já
  – Tia Laura, sou eu, Alex.   – Meu filho, então você também já
 

– Tia Laura, sou eu, Alex.

 

– Meu filho, então você também já sabe. Tiraram um

 

pedacinho mim Alex, tiraram o meu menininho. Alex abraça Laura, uma mistura de dor e culpa invade seu coração. Ao olhar para Pedro, em choque, eles se comunicam com o olhar: Fomos nós. Nós matamos o Ricardo! Eles confessam em olhar, um para o outro, mas a boca não tem coragem de assumir. Laura, que mal pode

imaginar a história por trás da tragédia, tenta consolá-los.

A dor que eu estou sentindo é enorme, mas eu sei que

também tem um buraco no peito de vocês meninos, o companheiro de vocês partiu. Vai ser difícil, mas nós vamos ter que aprender a viver sem os sermões dele, e sem as

brincadeiras também. Alex se encarrega de ir até o necrotério fazer o reconhecimento do corpo, quer poupar Laura de tamanha

tortura. Essa que por sua vez se demonstra forte, em seu quarto, separa todos os documentos necessários para a parte burocrática que estava a caminho. Já Pedro, se tranca em um dos cômodos, com um espelho de mão, ele condena a própria imagem. Por algum motivo ele se mostra perturbado.

Assassino! Você matou o teu irmão. Ele sempre foi

melhor que você, por isso você o matou! Covarde! Covarde! Você não é digno de viver. Ao ver Laura em desespero, Pedro parece não suportar tanta culpa, para ele, era como se tivesse empurrado o

 

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  irmão de um penhasco na frente da mãe. Sozinho em um quarto, ele então
  irmão de um penhasco na frente da mãe. Sozinho em um quarto, ele então
 

irmão de um penhasco na frente da mãe. Sozinho em um quarto, ele então volta a se desesperar.

Oh Deus, você realmente pode nos escutar? Porque

me deixou fazer o que eu fiz? Eu devia estar morto. Eu não mereço viver, minha mãe não merece um filho como eu. Um dia se passa, chega o momento do enterro. Ônibus cheios partem em direção ao cemitério, levando pessoas completamente anestesiadas, confusas, tentando aceitar que aquela seria a última vez que veriam o amigo. Laura sorrir

ao ver como o filho era querido, o local já estava lotado e mesmo assim não paravam de chegar pessoas. Pedro observa a mãe de longe debruçada no caixão, ainda anestesiado, ele parece não ter coragem de chegar perto do corpo. Alex, que ao olhar tudo se sente cada vez mais culpado, não consegue se perdoar pelo que fez, numa tentativa de se livrar de tanto tormento, ele confessa:

Fui eu, eu matei o Ricardo! Grita ele aos prantos,

provocando um silêncio perturbador. Laura o consola,

pensando se tratar de um surto psicótico do rapaz, que era muito próximo ao seu filho.

Alex meu filho, pare com isso. Você não matou

ninguém, foi um acidente. Meu menininho foi embora porque o destino quis que fosse dessa forma.

Não tia Laura, não foi o destino. Fui eu!

 

Laura percebe que existe algo que não sabe na história, só que antes mesmo que ela o questione o rapaz confessa:

 

Eu estava com raiva, vergonha. A senhora sabe o meu problema com o álcool.

 

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  – E o que isso tem a ver com a morte do meu filho?
  – E o que isso tem a ver com a morte do meu filho?
 

E o que isso tem a ver com a morte do meu filho? O

que você fez com ele Alex? Questiona Laura, que tem cada vez mais certeza de que não foi um simples acidente que tirou a vida de Ricardo.

A festa que o Ricardo organizou, eu descobri que era

por conta do meu problema. Ele reuniu todos ali para me ajudar, só que em entendi isso como um deboche. Foi aí

que eu tive a infeliz ideia de dopá-lo, queria fazê-lo parecer embriagado, para receber os olhares que eu recebo todos os dias. Não contava que ele fosse dirigir naquele estado.

– Monstro! Você drogou meu filho. Assassino!

– Me perdoe, eu não fiz por mal.

 

Implora Alex, sem obter sucesso. Laura sente-se traída, afinal, o rapaz a quem ela tinha com tanto carinho foi o

 

responsável pela morte do seu filho. Pedro, que observa tudo de longe, mostra-se cada vez mais angustiado, parece esconder algo de todos. Durante a confusão alguém chama a polícia, que chega ao enterro em poucos minutos. Ao ver os policiais, Laura não pensa duas vezes e grita.

Levem-no, ele matou o meu filho e veio rir de nós no

enterro! Ele é um monstro, um bêbado covarde. Prendam esse assassino agora! Agora! Alex é algemado e levado para delegacia, lá ele confessa

o crime para o delegado e é preso. Duas semanas depois, na casa da família Fonseca, o clima ainda é o mais pesado possível.

Mãe, está tudo bem? Posso entrar?

 

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  Pergunta Pedro para a mãe, preocupado, pois já se passara das dezesseis horas e
  Pergunta Pedro para a mãe, preocupado, pois já se passara das dezesseis horas e
 

Pergunta Pedro para a mãe, preocupado, pois já se

passara das dezesseis horas e ela ainda não havia saído do seu quarto.

– Entre meu filho.

 

– A senhora ainda não desceu, não tomou café, fiquei

 

preocupado.

Não sinto fome, nem vontade de descer.

 

Eu sei que está difícil mãe, mas a senhora precisa ser

 

forte

Porque Pedro? Porque o seu irmão teve que partir tão cedo?

 

Por favor, não remexa essa dor novamente. Para de se

torturar, o Ricardo morreu. Nada que façamos irá mudar isso.

O que mais me dói é saber que ele foi apunhalado

pelas costas, um menino alegre, bondoso. Foi morte pelo homem que ele estava tentando livrar da morte.

– O Alex não queria matá-lo mãe.

 

– Ah, não. Ele apenas dopou o Ricardo, drogou o meu

 

filho covardemente.

 

O que ele fez foi horrível, uma brincadeira que custou

 

a vida do meu irmão. Acha que consegue perdoar o assassino do Ricardo algum dia?

– Como acha que vou conseguir perdoá-lo?

– Eu não sei, é que a senhora sempre falou de perdão.

Pensei que…

Falar é muito fácil, nunca pensei que fosse ter que passar

 

por isso um dia

 

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  – Eu também não, mas aconteceu. Nós vamos ter que   seguir em frente.
  – Eu também não, mas aconteceu. Nós vamos ter que   seguir em frente.
 

Eu também não, mas aconteceu. Nós vamos ter que

 

seguir em frente. Lembra do que me disse no dia em que ele morreu?

Esqueça tudo aquilo que eu disse, pensei que meu filho tivesse sofrido um acidente. Mas ele foi morto, é bem

diferente. Nada que aconteça me fará perdoar o Alex, ele tem que apodrecer atrás das grades. Pedro abraça a mãe, sentindo culpa por tudo que aconteceu ele a pede perdão.

 

– Me perdoa mãe, me perdoa.

 

– Perdoá-lo por que, meu filho?

 

Sem coragem para assumir que foi ele que provocou Alex, e que começou toda a confusão que custaria a vida

 

de Ricardo, ele desvia o assunto.

 
 

Perdão por não ser tão legal quanto o Ricardo, por

 
 

não ter dito a ele o quanto eu o amava, eu devia ter morrido

no lugar dele.

 
 

Não diga isso jamais, a dor que eu estou sentindo seria

 
 

mesma, seria a dor de uma mãe que perdeu o seu filho. Pedro sai do quarto da mãe, vai até o seu. Lá, ele escreve uma carta e a guarda em sua gaveta sem que ninguém saiba.

a

Não suportando o sentimento de culpa pelo sofrimento da mãe, ele decide pôr fim na própria vida. Pega uma tesoura, deita-se na cama, olha para o teto em silêncio

durante alguns minutos. Respira fundo por diversas vezes,

e

após criar coragem, ele crava a tesoura no próprio peito

e

morre de olhos abertos.

 
 

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  Laura sente-se preocupada com o comportamento de Pedro. Decide sair de seu quarto e
  Laura sente-se preocupada com o comportamento de Pedro. Decide sair de seu quarto e
 

Laura sente-se preocupada com o comportamento de

Pedro. Decide sair de seu quarto e ir ao encontro do filho, quer entender o motivo do rapaz carregar consigo um sentimento de culpa. O procura pela casa, não o encontra. Vendo que o carro de Pedro continuava na garagem, deduz que o rapaz está no quarto.

Pedro, abra a porta. Preciso falar com você meu amor. Nada se ouve, Laura começa a sentir o mesmo aperto

que sentiu minutos antes de receber a notícia da morte de Ricardo, então começa a esmurrar a porta do quarto.

Pedro ! Pelo amor de Deus abra essa porta, abra!

Desesperada, ela consegue arrebentar a fechadura da porta com a ajuda de uma cadeira. A porta se abre

lentamente, é possível se ouvir o seu ranger. Laura se depara com o corpo do filho esticado sobre a cama e uma poça de sangue no chão, aumentando de gota em gota com o sangue que pinga do colchão. Meses se passam, chega o dia do julgamento de Alex. Laura, que além de viúva também perdera os dois filhos de forma trágica, só consegue sentir ódio do rapaz. Para ela, qualquer castigo será pouco, nem mesmo a morte ou a prisão seriam o suficiente para que ele sinta um terço da sua dor. No tribunal, os dois são postos frente a frente.

– Você tirou tudo que eu tinha. Tudo!

 

– Por favor, não tem um dia que eu não pense nisso.

 

– Eu só queria entender o motivo, você os invejava?

– Não, jamais. Amava seus filhos como irmãos se amam

 

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  nada que eu fiz foi para machucá-los. Era para ser só uma brincadeira de
  nada que eu fiz foi para machucá-los. Era para ser só uma brincadeira de
 

nada que eu fiz foi para machucá-los. Era para ser só uma brincadeira de mau gosto, e não uma tragédia.

– Eu não acredito em uma só palavra do que diz.

– Espero que um dia seja capaz de me perdoar.

– Esqueça, esse dia nunca irá chegar. Espero que você

sofra muito rapaz.

 

– A senhora não é uma mulher ruim.

 

– Não era até saber que eu abriguei um assassino dentro

 

da minha casa por diversas vezes, e ainda o chamei de filho.

Eu nunca mais sentirei paz.

 

E o que você quer? Que eu sinta pena do assassino dos meus filhos? Francamente!

 

Tia Laura.

Alex pensa em contar para Laura que Pedro não se matou por amor ao irmão, e sim por culpa, já que foi o principal responsável pela tragédia. Mas decide poupar a mulher que já sofria demais, afinal, contar a verdade não mudaria nada. As horas passam os pais de Alex não aparecem. Os amigos também não, o rapaz estava definitivamente sozinho, prestes a ser julgado e condenado. Começa o julgamento, Alex parece não fazer questão de se defender das acusações. Após quatro horas ouvindo testemunhas (apenas de acusação, já que ninguém quis defender o rapaz), o juiz bate o martelo, condenando Alex a quatorze anos e dois meses de reclusão por homicídio culposo.

 
 

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  Laura, mesmo querendo justiça, sofre ao ver o rapaz ser levado. No fundo, ela
  Laura, mesmo querendo justiça, sofre ao ver o rapaz ser levado. No fundo, ela
 

Laura, mesmo querendo justiça, sofre ao ver o rapaz ser levado. No fundo, ela sabe que tudo não passou de uma inconsequência do jovem. Alex é conduzido até o presídio.

Lá, um carcereiro recolhe todos os seus pertences e guarda, dando andamento ao procedimento padrão. Ele também dá uma camisa e uma calça para Alex.

Tome, este é o seu uniforme, você irá usá-lo durante um bom tempo. – Dispara friamente o carcereiro.

Pouco me importa a roupa, desde que eu pague pelo

que fiz. – Responde Alex, com a voz mais frágil possível.

O carcereiro se cala, olha para Alex em silêncio durante alguns segundos. Com ar de deboche, diz:

– Chega a ser patético o que vocês fazem.

 

– Como assim?

 

– Como assim? Vai me dizer que não me entendeu?

 

– Desculpe-me, mas não consigo entender sobre o que

se refere.

Lá fora destroem vidas, matam, sequestram. E quando

 

chegam aqui querem parecer conformados, como se estivessem felizes por terem sido presos. Não sei se faz parte do auto consolo ou se fazem por doença mental. Mas vocês

são patéticos. Alex pensa em se defender, dizer que não é nenhum bandido, que estava ali por conta de um acidente. Mas quem acreditaria? Acreditando, que diferença faria? Sem dar satisfações, o responde:

 

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  Felicidade não é bem a palavra, mas nunca passou pela sua cabeça que as
  Felicidade não é bem a palavra, mas nunca passou pela sua cabeça que as
 

Felicidade não é bem a palavra, mas nunca passou pela sua cabeça que as pessoas se arrependem?

E do que adianta se arrepender? O arrependimento de vocês traz a vida dos que morreram de volta?

– Infelizmente não.

– Então ele é em vão.

O senhor não me parece o funcionário mais feliz deste lugar.

 

Eu já fui. Mas por culpa de pessoas igual a você, eu

nunca mais poderei dar um beijo de boa noite na minha filha. Não tem porque ser feliz. Agora vá, não tome mais meu tempo. Tem um abismo te esperando a poucos metros daqui, e eu estou louco para vê-lo entrar lá. Alex pega seu uniforme, não tão bonito quanto os dos tempos do colégio, mas tão obrigatório quanto. Acompanhando de um outro carcereiro, segue em direção às celas. Desesperançoso, ele sequer se incomoda quando os presos se agitam, saudando o mais novo detento. A comemoração faz parte do terror psicológico, mas não funcionava com Alex. Já na cela, ele fica receoso ao ver que terá que dividir o espaço com outro detento. Temendo qualquer atitude

violenta do colega de cela, se surpreende ao ouvir o homem se apresentar.

Prazer meu jovem, me chamo Celso, e você?

Ainda surpreso Alex o responde, com certo receio do homem que acabava de conhecer na prisão.

 

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  – Meu nome é Alex. – Seja bem-vindo, Alex. – Ah, bem-vindo, claro. –
  – Meu nome é Alex. – Seja bem-vindo, Alex. – Ah, bem-vindo, claro. –
 

– Meu nome é Alex.

– Seja bem-vindo, Alex.

– Ah, bem-vindo, claro.

– Você não parece ser um criminoso.

– O que te faz crer nisso? Minha boa aparência?

 

Na idade em que estou, pouco importam as aparências das pessoas, afinal, elas nunca dizem a verdade.

– Então o que te faz pensar que sou inocente?

– Não disse que você é inocente, disse que não é um

criminoso. Pelo menos não parece.

– E qual é a diferença?

– Um dia você irá descobrir, tenha paciência garoto.

 

Agora me conte, por que você parou neste lugar?

Porque eu sou um idiota, fiz uma brincadeira de mau

gosto que custou a vida de um amigo meu. Eu sou um assassino, provoquei a morte de duas pessoas, destruí uma

família.

Duas pessoas? Você tinha dito apenas um.

 

É que eles eram irmãos, um se matou após a morte do outro, a culpa foi minha.

Meu caro, você queria matá-los?

– Não, de maneira nenhuma! Eu não medi as

 

consequências dos meus atos, era para ser tudo uma “vingançinha”.

Se você não tinha a intenção de matá-los, não é um

assassino. Talvez seja o culpado, mas assassino? Com toda certeza não.

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  – Como não? Eles morreram por minha culpa. Eu os matei. – Ah, a
  – Como não? Eles morreram por minha culpa. Eu os matei. – Ah, a
 

Como não? Eles morreram por minha culpa. Eu os

matei. – Ah, a juventude. Nem tudo se encaixa da forma como

gostaríamos rapaz. Há coisas que só o tempo revela, muito tempo às vezes. Alex, pela primeira vez após a tragédia consegue sentir algo próximo de paz, alívio talvez. Confuso, ele decide questionar Celso.

E você, como um homem tão sábio veio parar nesse inferno?

Inferno? Fala-se tanto em trevas, maldades, pouco se fala de luz.

Não mude de assunto, desculpe-me falar, mas a cadeia

não é o lugar mais iluminado do mundo. Como parou aqui? Celso gargalha, parece se divertir com os questionamentos do jovem que aparenta está cada vez mais confuso. Sorrindo, ele se aproxima do rapaz e diz:

A vida é feita de perguntas, as respostas não chegam

na hora a que queremos, mas chegam. Ninguém vai embora daqui sem elas.

– Balela, se fosse assim Ricardo não teria morrido!

– E quem foi que te disse que ele não tinha todas as

respostas quando morreu? Alex fica em silêncio, decide encerrar a conversa ali. Novamente volta a sentir tormento por tudo que aconteceu. Passam-se alguns meses. Todos os dias, ao acordar, ele se lembra do que fez. Decide ocupar seu tempo,

 

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  se lembra então de um livro que o amigo de cela havia lhe oferecido
  se lembra então de um livro que o amigo de cela havia lhe oferecido
 

se lembra então de um livro que o amigo de cela havia lhe oferecido e decide que irá ler para passar o tempo.

– Celso?

– Diga rapaz.

– Ainda tem o tal livro?

– Claro que sim, você quer ler?

 

Bem, querer não é bem a palavra. Mas no momento, não tenho muitas opções.

 

Você irá gostar, ele vai te ajudar muito.

 

Qualquer coisa que me custe algumas horas de atenção já irá me ajudar.

 

Tem razão. Mas este não é qualquer livro.

Celso retira um livro preto de dentro do travesseiro e empresta ao amigo, desejando boa leitura. Nesta hora, Alex se surpreende.

– Pera aí, isso é uma Bíblia?

 

– Sim.

– Está falando sério cara?

– E por que não estaria?

– Você me disse que tinha um livro!

 

– E não se trata de um livro?

– Óbvio que não!

– Engana-se rapaz, este também é um livro. Este é o

 

livro da vida.

Vida? A mesma que eu tirei dos meus amigos sem que

 

ninguém impedisse? Se Deus realmente fosse esse cara bondoso que todo mundo pensa, não teria me deixado

fazer o que eu fiz.

 

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– Já ouviu falar em livre arbítrio? Sugiro que leia. Eu não acredito em uma
– Já ouviu falar em livre arbítrio? Sugiro que leia. Eu não acredito em uma

Já ouviu falar em livre arbítrio? Sugiro que leia.

Eu não acredito em uma linha do que está escrito aqui, mesmo sem ter lido absolutamente nada.

Você não precisa acreditar, pelos menos por enquanto.

Encare como uma ficção, como a história do curupira ou do boto cor de rosa, por exemplo. Alex se surpreende com a resposta, decide aceitar o presente do amigo.

Toma, não precisa me devolver.

O livro é tão ruim assim a ponto de querer livrar-se dele tão depressa?

 
 

– Não é isso meu jovem, é que não dará tempo.

– Como assim tempo?

– Estou indo embora. Não quero apressar sua leitura,

 

fique com o livro.

 

Sua pena acabou?

Bem, digamos que o que eu tinha para fazer aqui já foi feito.

 

Nesta hora, um carcereiro chega até a sela para libertá- lo. Antes de partir, Celso dá um último recado ao amigo.

Alex, você não era livre antes de parar aqui. Não são

essas grades que o mantém preso, sua liberdade pode não está lá fora. Talvez ela esteja na sua mão. Se você não encontrar a luz, ela irá encontrar você. Diz ele ao jovem, que segurava o livro que ganhou de presente. Com um olhar, Alex despede-se de Celso. Fica então sozinho na cela, quer dizer, nem tão sozinho assim.

 

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  Após meses lendo o livro, aos poucos, Alex parece se mostrar menos cético. O
  Após meses lendo o livro, aos poucos, Alex parece se mostrar menos cético. O
 

Após meses lendo o livro, aos poucos, Alex parece se mostrar menos cético. O que antes lhe causava crises de riso, já lhe fazia refletir. As dúvidas ainda eram muitas, mas ele sabia onde encontrar as respostas. Mesmo com todas as mudanças ele não conseguiu a mais importante, se perdoar pelo que fez. E foi assim, durante anos. Até que, cinco anos depois, Alex

é solto. Ainda no presídio, ele recebe seus pertences da mão do mesmo carcereiro que o recebeu há cinco anos.

– Chegou o seu dia, garoto.

 

– Pois é, hora de encarar o mundo.

– Você é diferente dos outros.

– Por quê?

– Olhe para esse lugar. Todos eles queriam ter a oportunidade que você está tendo. Mas você não parece

 

está animado com nada disso, pelo contrário. Demonstra estar mais aflito do que quando chegou aqui.

É que o mundo é muito mais difícil lá fora, pelo menos para mim.

– Tem razão rapaz.

 

– O senhor me parece mais compreensivo.

 

– Digamos que o tempo tenha me mudado, pelo menos

 

um pouco.

– E isso é bom?

 

– Acho que sim, garoto.

– Sendo assim, boa sorte para nós

 

– Tome suas coisas, não sei se ainda lhe servem, mas são

 

suas, faça bom proveito.

 
 

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  Mesmo fora da cadeia, Alex percebe que ainda não está livre. Então ele se
  Mesmo fora da cadeia, Alex percebe que ainda não está livre. Então ele se
 

Mesmo fora da cadeia, Alex percebe que ainda não está livre. Então ele se lembra do amigo que fizera na prisão, e

do que ele lhe disse antes de partir. Tenta decifrar o enigma,

o

porquê era tão difícil para ele se perdoar. Ao chegar a casa, as lembranças do passado surgem

cada vez mais fortes. Ele, que parecia sensato, volta a chorar

se culpar desesperadamente. Decide procurar por Laura, para pedir perdão. Mas não tem coragem de encará-la.

e

Certo de que não merece o perdão das pessoas, ele decide

ir

embora da cidade o mais rápido possível. Sem perceber,

Alex procura uma punição maior que a cadeia, opta pela solidão eterna. Ele vende a casa que os pais deixaram de herança, antes de abandoná-lo na prisão e sumirem no mundo. Com o dinheiro, compra uma fazenda no interior da cidade vizinha e decide condenar a vida. Vinte anos se passam. Alex, agora com quarenta e nove anos, se tornara um homem frio, cético e solitário. Mesmo tendo lido um bom livro há décadas, ele parece não se importar com o que leu, tampouco acreditar em tudo aquilo. Ainda sem se perdoar pelo que fez no passado, ele se tortura todos os dias olhando uma foto da formatura com os dois amigos mortos. Durante todo esse tempo, não teve um dia sequer que ele não tenha chorado e implorado pelo perdão de Deus, mesmo sem acreditar muito em sua existência. Tentando entender o porquê de passar por tudo aquilo, Alex se vê afundar, a vida passa depressa e ele permanece isolado numa

 

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  prisão que ele mesmo criou. Desesperado, ele decide seguir o mesmo caminho de Pedro,
  prisão que ele mesmo criou. Desesperado, ele decide seguir o mesmo caminho de Pedro,
 

prisão que ele mesmo criou. Desesperado, ele decide seguir o mesmo caminho de Pedro, pondo fim na própria vida. É quando de tão cansado, adormece. Durante o sono, Alex tem um sonho diferente, se vê em um lugar vazio clamando

por ajuda, desesperadamente ele grita com todas as forças:

Eu preciso de ajuda, já não suporto mais tanto

sofrimento! Tirem-me dessa prisão, eu imploro. Meu Deus, se podes me ouvir, ajude-me. Cadê você? Cadê o meu anjo da guarda, que seja? Sonhando o mais intenso sonho, Alex repete os apelos durante uma noite inteira. Até que o dia amanhece, ele acorda assustado. Sabendo que aquilo não foi um simples sonho, ele ainda parece confuso. Já não tem mais certeza se

pôr fim na própria vida é mesmo a solução mais sensata. Ao se levantar e sair do quarto leva um enorme susto ao se deparar com uma menina em sua sala.

Quem é você, menina? Como chegou entrou aqui?

Alex não sabe se se surpreende mais com a presença da menina ou com o fato dela ter conseguido entrar em sua casa mesmo com tudo trancado. Sorrindo, ela o responde:

– Meu nome é Luz, você que me chamou, lembra?

– Como assim? Cadê os seus pais?

 

– Sua casa é bonita.

 

Responde a menina que corre pelos cômodos, dando um pouco de alegria ao local, que até então, só presenciava choros e lamentos. Alex acredita que tudo não passa de uma alucinação.

 
 

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  – Você não é real! – Quem disse que não? – Eu digo você
  – Você não é real! – Quem disse que não? – Eu digo você
 

– Você não é real!

– Quem disse que não?

– Eu digo você é só mais uma loucura da minha cabeça.

 

– Como o senhor é cabeça dura, passou anos e anos

 

buscando ajuda, e quando ela chega a recebe desta forma?

 

– Como assim? Ajuda para quê?

 

– Eu tenho as respostas que o senhor procura há anos.

 

– Quem lhe mandou até aqui?

 
 

– O senhor e essa mania de querer saber de tudo! Ninguém nunca te disse que as respostas chegam na hora certa?

 
 

– Eu devo estar ficando louco!

 

– Loucura? Eu chamaria de oportunidade.

– O que você quer comigo?

– Eu vim ajudá-lo, já sofreu tempo demais nesse lugar

 
 

vazio, está na hora de se libertar! Vai querer a minha ajuda?

Acho que não tenho outra saída, não suporto mais

viver dessa forma.

 
 

– Então junte todas as suas coisas, nós vamos viajar!

 

– Viajar para onde?

– Para qualquer lugar onde haja vida!

 
 

Alex não se parecia nada com o homem cético que se tornou com o tempo, de alguma forma, a leitura que fizera na prisão ainda estava viva em seu coração, só precisava que alguém que a despertasse. Com as malas prontas, ele entra no carro junto com Luz, e seguem viagem, ainda sem destino.

 
 

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  – O senhor confia em mim?   – Não sei, acho que sim.  
  – O senhor confia em mim?   – Não sei, acho que sim.  
 

– O senhor confia em mim?

 

– Não sei, acho que sim.

 

– Por quê?

– Não sei ao certo, mas você não me parece muito

 

perigosa.

– Não sou, o perigo estava lá na sua fazenda.

 

– Por que diz isso? Lá não tinha nada.

 

– Exatamente por isso, o que faz o senhor pensar que

 

vai conseguir ser feliz isolando-se de tudo?

 

Eu não queria ser feliz, acho queria construir uma nova vida, a mais triste possível.

 

O senhor não precisa de uma nova vida, precisa de

uma nova direção.

 

– E qual é a diferença?

– Eu não sei, mas vamos descobrir, na hora certa.

 

– Você me parece misteriosa demais para uma criança.

– Isso é bom ou ruim?

 

– Depende.

– Há quanto tempo o senhor não conversa com alguém?

 

– Há exatos vinte anos, desde que saí da prisão. Entro

na mercearia em silêncio, saio da farmácia em silêncio. Essa

tem sido minha rotina.

 

– E por que passou a vida toda preso?

 

– Não foi à vida toda, foram cinco anos.

– Não me refiro à cadeia.

 

Alex se cala, percebe que aquela criança estava coberta de razão, assim como Celso, o amigo que fizera na prisão.

 
 

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  Alex nunca foi livre, as grades da cela limitavam apenas o espaço físico, pois
  Alex nunca foi livre, as grades da cela limitavam apenas o espaço físico, pois
 

Alex nunca foi livre, as grades da cela limitavam apenas o

espaço

físico, pois a liberdade ele jamais havia

experimentado. Ao passarem em frente a um prédio, Luz pede para que Alex pare o carro.

– Acho que chegamos.

 

– Onde? Aqui neste prédio?

 

– Sim.

– E o que vamos fazer aqui?

 

– Buscar a sua liberdade!

 

Alex entra no prédio acompanhado de Luz, ele diz para todos que a menina é sua filha, para poupar esclarecimentos. Aos poucos, ele percebe que se trata de um asilo, então questiona a criança.

 

– Por que nos trouxe aqui?

 

– O senhor quer ser livre, certo?

– Certo.

– Eles também querem liberdade.

 

– Quer que eu os leve para a fazenda?

– Mas como o senhor é cabeça dura! Não é o prédio

 

que os mantêm presos. Vá até a secretaria e ofereça ajuda.

– Que tipo de ajuda?

 

– Vá até lá, por favor!

– Você não vem comigo?

– Já está tarde, tenho que ir. Mas eu volto.

 

– Tudo bem.

 

Sem saber como será útil, Alex dirige-se até a secretaria do asilo, lá ele encontra Bárbara, diretora do lugar.

 
 

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  – Oi, boa tarde. Meu nome é Alex.   – Olá Alex, seja bem-vindo.
  – Oi, boa tarde. Meu nome é Alex.   – Olá Alex, seja bem-vindo.
 

– Oi, boa tarde. Meu nome é Alex.

 

– Olá Alex, seja bem-vindo. Como posso ajudá-lo?

 

Bem, na verdade sou eu quem quer ajudar, só não sei como fazer isso.

– Trabalho voluntário?

 

– Acho que sim, podemos chamar disso.

– A maioria dos idosos tem problemas de visão, não

 

conseguem mais ler para passar o tempo. Se quiser, pode ler para eles.

– Tudo bem, eu topo. Quando posso começar?

– Se possível, agora mesmo.

 

Bárbara guia Alex até uma sala onde todos os idosos estão reunidos. Meio sem jeito, ele pega um livro em uma

 

estante, e tenta começar:

 

Olá senhores, eu sou o Alex.

 

Ninguém lhe responde. Ele faz sua segunda tentativa,

 
 

um pouco inseguro:

 

Olá, que tal lermos um livro?

Os idosos pareciam ignorar sua presença. Até que Afonso, o idoso mais antigo e amargurado do asilo, decide respondê-lo:

 

– Vá embora rapaz!

 

– O que disse?

– Disse para ir embora.

– Minha presença causa incômodo?

– O que você acha?

 

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  Bem, eu só queria ler para vocês, ajudá-los de alguma forma. – – Nos
  Bem, eu só queria ler para vocês, ajudá-los de alguma forma. – – Nos
 

Bem, eu só queria ler para vocês, ajudá-los de alguma forma.

Nos ajudar? Francamente, não seja patético. Todos

que chegam aqui, seja com uma máquina para cortar cabelos ou uma cesta básica, vêm para pagar uma promessa ou cumprir uma penitência. Ninguém vem até nós por amor. Acham que estão sendo generosos, quando na verdade estão sendo tão egoístas quanto nossas famílias, que nos abandonaram por sermos velhos.

– Lamento que pense dessa forma.

 

– Pois lamente bem longe daqui, ninguém quer ouvir

 

essa história fantasiosa. Neste momento, Alex percebe como é difícil lidar com

alguém que, por algum motivo, tem o coração fechado para coisas boas. Disposto a ser o mais sincero possível, num ato de coragem ele esbraveja:

Está legal, tudo bem. Não querem ouvir a história

fantasiosa do livro? É um direito de vocês. Mas já que a fantasia os incomoda, contarei para vocês a minha história. Todos os idosos, que até então ignoravam a presença de Alex, resolvem prestar atenção no que ele tem a dizer.

Aproveitando-se da oportunidade, ele começa a contar o que guardou durante anos:

Eu era um jovem alegre e brincalhão, assim como todos

vocês já foram um dia. E sabem o que eu fazia para me divertir? Bebia. É eu bebia. Sem perceber, aos poucos eu virei um alcoólatra. Eu tinha dois amigos, na verdade eram

 

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irmãos que a vida havia me dado. Um deles tentou me ajudar, organizou uma festa

irmãos que a vida havia me dado. Um deles tentou me ajudar, organizou uma festa com todos os meus amigos, tentou abrir os meus olhos para o que eu estava fazendo com minha vida. Só que eu fui um idiota, encarei aquilo como um deboche, então resolvi me vingar dele. Me aproveitei de um momento de distração e dopei o meu amigo, sim eu o dopei. Ele não sabia que estava dopado

então dirigiu assim mesmo, seu carro capotou em um túnel

e ele morreu, eu matei o meu amigo. Estão surpresos? A

história não acaba aí, sabem o meu outro amigo? Eles eram irmãos, o outro se matou pouco tempo depois. Eu passei cinco anos na cadeia, depois passei mais vinte trancados em uma fazenda, me torturando dia após dia. E agora eu estou tentando refazer minha vida! Estou tentando retomar

a droga da minha vida! Afonso se mostra emocionado com a história do rapaz, assim como os demais idosos, ele também aplaude Alex, que sai da sala em silêncio. O rapaz parecia estar mais leve, era como se tivesse tirado o peso do mundo de suas costas, pela primeira vez ele pode desabafar com alguém sobre toda dor e culpa que carregou durante todo esse tempo. Caminhando a passos curtos, Alex vê uma senhora isolada dos demais, tricotando embaixo de uma laranjeira. Ele decide aproximar-se dela. Caminhando lentamente em direção a senhora, um pouco sem jeito e sem saber como abordá-la, o homem tenta ser o mais agradável possível:

– Olá, meu nome é Alex. E o seu?

tenta ser o mais agradável possível: – Olá, meu nome é Alex. E o seu? Nao

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tenta ser o mais agradável possível: – Olá, meu nome é Alex. E o seu? Nao
  – Olá meu filho, me chamo Esmeralda, prazer em conhecê-lo. – Desculpe-me perguntar, mas
  – Olá meu filho, me chamo Esmeralda, prazer em conhecê-lo. – Desculpe-me perguntar, mas
 

Olá meu filho, me chamo Esmeralda, prazer em

conhecê-lo.

– Desculpe-me perguntar, mas o que faz aqui sozinha?

 

– Estou tricotando.

Eu estava lá dentro, digamos que eu estava lendo para os outros. Por que não se juntou a eles?

 

Eu vi quando você chegou, também ouvi da conversa

com a menina Bárbara. Você mandou bem.

– Como sabe?

– Nenhum voluntário saiu daqui sobre aplausos, algo de

 

especial eles viram em você. Acredite, você conseguiu.

Mesmo sabendo o motivo da minha vinda, optou por

não ir até lá. Por quê?

Não seria justo, eles não leem por estarem próximos à

 

cegueira. Merecem desfrutar da sua leitura muito mais do que eu.

– Mas por que diz isso?

– Eu não leio por outro motivo, meu jovem.

 

– E que motivo seria?

– Como pode observar, minha visão é ótima. Não leio

 

porque não sei ler. Esmeralda parece se envergonhar de seu analfabetismo,

poucos ali sabiam de sua condição. É quando é questionada por Alex.

Ninguém nunca lhe ensinou?

Não, comecei a trabalhar muito cedo. Não tive quem me ensinasse a ler.

 

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  Que pena, mas eu vou ajudá-la. Quero ler para ajudar a passar o tempo.
  Que pena, mas eu vou ajudá-la. Quero ler para ajudar a passar o tempo.
 

Que pena, mas eu vou ajudá-la. Quero ler para ajudar a passar o tempo.

– Que gesto nobre, não sei como agradecê-lo.

– A senhora tem algum livro?

 

– A única coisa que tenho são as roupas que estou

 

vestindo. Você não tem nenhum livro que possa ler para mim? Alex se lembra que todas as suas coisas estavão no carro,

inclusive o livro que ganhou na prisão. Um pouco contrariado, ele decide ir até o carro buscar assim mesmo, afinal, era seu único livro.

Bem, eu tenho esse livro que ganhei há alguns anos.

Deve ser um excelente livro, para guardá-lo durante tanto tempo.

– Eu não sei, quer que eu leia?

 

– Bom, enquanto saiu eu fiquei pensando: Que maldade

 

minha, obrigá-lo a ler um livro que já conhece.

Não me importo, estou aqui para ler para a senhora.

Obrigada querido, mas prefiro que faça de outra forma, se possível.

– E o que quer que eu faça?

 

– Quero que me diga o que gostou nele.

Alex fica em silêncio e chora. Esmeralda sorri e o questiona:

 

– Por que está chorando meu filho?

 

– É que esse livro é muito difícil para mim.

 

– Por que diz isso?

 

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  É que tudo que está nele me causa paz, mas ao mesmo momento receio.
  É que tudo que está nele me causa paz, mas ao mesmo momento receio.
 

É que tudo que está nele me causa paz, mas ao mesmo momento receio. Como posso considerar algo que foi escrito há tanto tempo?

Se não pode considerar algo por ser antigo, como pode se torturar por um erro que cometeu há anos?

– Do que a senhora está falando?

 

– Eu não sei, mas você sabe.

Queria que fosse tão fácil quanto parece ser. Há pessoas sofrendo pelos erros que eu cometi, não seria justo para ninguém ser feliz.

 

– E o que é justiça para você?

 

– É pagar pelos meus erros de forma digna.

 

– Não acha que já tenha feito isso?

 

– Claro que não.

Sugiro que leia o livro novamente, parece que pulou algumas páginas.

 

Alex despede-se de Esmeralda, prometendo voltar em breve. Ele segue em direção ao seu carro, dirige até um hotel próximo e dorme por lá. No outro dia, ao acordar, sente-se vivo. Por mais estranho que pareça, ele não se sentia assim há anos. Quem suportaria uma vida inteira de sofrimento? Foi preciso receber ajuda para livrar-se da dor e da amargura em que sua vida havia se transformado. Aliviado, ele decide pegar estrada novamente. Ao entrar no carro, a surpresa:

O senhor costuma acordar tão tarde assim todos os

dias?

 

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  – Luz, como entrou aqui? – Não fuja da minha pergunta, dorminhoco.   –
  – Luz, como entrou aqui? – Não fuja da minha pergunta, dorminhoco.   –
 

– Luz, como entrou aqui?

– Não fuja da minha pergunta, dorminhoco.

 

– Você ainda vai me deixar louco, menina.

– A lucidez atrapalha às vezes, sabia?

– É, digamos que eu tenha descoberto isso há alguns

 

anos, da pior forma possível.

 
 

– O senhor é engraçado.

– Você acha?

– Sim, está sempre questionando tudo e todos. Quando

 

surgem respostas, duvida delas. Isso não soa irônico?

Irônico é uma criança surgir na minha casa do nada. Mais irônico ainda é eu dar ouvidos a ela.

Estou com fome, podemos comer?

Claro, deve ter uma lanchonete aqui perto.

 

O que é uma lanchonete, senhor?

Jura que não sabe?

Não sei, o que é?

É um lugar aonde as pessoas vão para comer ou beber

 

algo.

Tipo um restaurante?

Sim, tipo um restaurante. Achei que tivesse a resposta para tudo.

 

Achei que o senhor não tivesse a resposta para nada.

Alex rir, para o carro em frente a uma lanchonete e lancha

com a menina.

 

Você come demais para uma criança.

– Estou em fase de crescimento, senhor. Preciso

 

alimentar-me bem.

 
 

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  – De fato, coma à vontade. – Obrigado, o senhor é um homem bom.
  – De fato, coma à vontade. – Obrigado, o senhor é um homem bom.
 

– De fato, coma à vontade.

– Obrigado, o senhor é um homem bom.

– Diz isso porque lhe paguei um lanche?

– Não, o que fez ontem no asilo foi muito generoso.

 

– Como sabe o que eu fiz se foi embora antes?

– Eu não sei o que fez, mas seja o que for, foi de coração.

– É, tem razão.

– Pretende voltar lá?

– Sim, prometi a ela que voltaria em breve.

 

– Ela quem?

– Esmeralda, uma senhora que conheci

– O que leu para ela?

Como sabe que li? Quer dizer, tudo bem. Li um livro que já tenho há algum tempo. Na verdade, não cheguei a ler, pois não foi preciso.

 

Não sabia que gostava de livros.

Não gosto, mas é que durante algum tempo da minha vida ele foi minha única companhia.

 

– Por que o senhor é tão solitário?

– Estou colhendo o que eu plantei.

– Ninguém planta solidão.

– Mas eu estou colhendo.

O senhor enxerga a vida de uma forma completamente errada.

 

E qual é a maneira correta de enxergá-la?

De uma forma honesta para todos. O senhor não é justo consigo mesmo.

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  – Acho que eu não mereço justiça.   – Todos merecem. – Até os
  – Acho que eu não mereço justiça.   – Todos merecem. – Até os
 

– Acho que eu não mereço justiça.

 

– Todos merecem.

– Até os assassinos?

– O que são assassinos?

São pessoas ruins que interrompem vidas, destroem destinos, cessam felicidades.

 

Como o senhor fez consigo mesmo?

Após uns segundos de silêncio, ele a responde:

 

– Um pouco pior, eu ao menos estou vivo.

– Senhor?

 

– Diga.

– Algum dia quis interromper a vida de alguém?

 

– Não, nunca foi meu objetivo.

 

– Então o senhor não é um assassino.

Alex se recorda da conversa que teve com Celso, o amigo que fez na prisão. Sorrindo, ele começa a aceitar a ideia de

 

que não é o monstro que acreditou ser durante todos esses anos.

Sabe menina, eu não sei o que é pior. Descobrir que eu

não mereço ser feliz nunca, ou aceitar que eu posso viver mesmo sabendo que alguém não vive por minha culpa.

– E se o senhor não for o culpado pelo que aconteceu?

– Não existe essa possibilidade.

 

– O senhor é muito cético, tudo é possível.

 

– Nem tudo.

 

– É mesmo uma figura.

– Por quê?

 

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  – Acha sua inocência impossível e, ao mesmo tempo, encara com naturalidade o fato
  – Acha sua inocência impossível e, ao mesmo tempo, encara com naturalidade o fato
 

Acha sua inocência impossível e, ao mesmo tempo,

encara com naturalidade o fato de conversar com uma criança que nunca viu antes.

– Quem te disse que eu acho isso normal?

 

– Estamos conversando há dias.

– Talvez eu não tenha alternativa, já pensou nisso?

 

– É claro que tem, se o senhor quiser que eu vá é só

pedir.

– Não, fique.

– Sabia que não iria me abandonar senhor.

 

– Escuta, você não tem família?

– Claro que tenho, todos temos.

– E onde eles estão?

– Em um lugar melhor que nós e, certamente com menos

 

dúvidas que o senhor, o que não é muito difícil de se ver. Alex se sente cada vez mais à vontade com a presença

de Luz e, mesmo sem entender de onde ela veio, ele sabia que ela era a chave para sua liberdade.

– Acho que Deus está me testando.

 

– Porque acha isso, senhor?

Mandar uma criança me mostrar o caminho correto é quase um deboche. Porque ele fez isso?

 

O que o senhor faria se encontrasse um adulto em sua casa?

– Chamaria a polícia!

– Entraria no mesmo carro que um adulto?

 

– Não.

 

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  – Ouviria os conselhos de um adulto? – Não. Acho que mais uma vez,
  – Ouviria os conselhos de um adulto? – Não. Acho que mais uma vez,
 

– Ouviria os conselhos de um adulto?

– Não.

Acho que mais uma vez, o senhor já tem a resposta. Já estamos atrasados para o nosso próximo destino.

 

– Para onde vamos agora?

– Eu não sei, mas vamos logo!

Alex e luz entram no carro, e seguem. No caminho, um estranho silêncio. A menina então pergunta:

 

– Senhor?

– Diga, Luz.

– Não tem mais nada para me perguntar?

– Acho que já perguntei tudo o que podia me responder.

 

– Então eu tenho que ir embora?

– Eu não sei.

– O senhor já se perdoou?

– Ainda não.

– Então devo ficar mais um pouco.

– Obrigado, menina.

– Não precisa agradecer, o senhor já sofreu demais.

 

– Muitas pessoas sofrem, sabia?

– Sim.

– Por que escolheu me ajudar?

Senhor, o sofrimento é inevitável, só é possível ajudar aqueles que escolheram sofrer.

 

Acha mesmo que escolhi sofrer?

Sim, foi o que me disseram. Chegamos, pare o carro senhor!

 

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  – É aqui?   – Sim. – Uma igreja, acho que nunca entrei em
  – É aqui?   – Sim. – Uma igreja, acho que nunca entrei em
 

– É aqui?

 

– Sim.

– Uma igreja, acho que nunca entrei em uma.

 

– Nunca?

 

– Ninguém nunca me levou, meus pais não tinham

 

religião, digamos que eu tenha herdado esse ceticismo deles.

– Fala deles no passado.

 

– É que eles me abandonaram há anos.

 

– Os pais nunca devem abandonar seus filhos.

 

– Mas eu errei muito.

 

– Mesmo assim Deus não lhe abandonou.

 

– Talvez ele goste muito de mim.

– E seus pais não?

 

– Não tanto como Deus, eu diria.

 

– Vamos descer do carro, já está quase na hora.

 
 

Eles descem e entram na igreja, Alex estranha o ambiente,

 

diferente de Luz, que parece está familiarizada com tudo aquilo.

Por que me trouxe à igreja no momento em que ela

está vazia?

 

Quem vinhemos ver ainda está nos esperando. Vamos,

 

tem que dobrar os joelhos.

 

– Para que?

– Para orar!

– Eu não sei fazer isso.

– Sabe conversar, senhor?

– Claro que sei, todos sabem conversar.

 
 

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  – Então converse com ele, ele está com saudades. – E como sei que
  – Então converse com ele, ele está com saudades. – E como sei que
 

– Então converse com ele, ele está com saudades.

– E como sei que ele me respondeu?

 

– Na hora certa senhor, lembra? Deixarei vocês à

 

vontade, estarei lá fora lhe esperando. Alex se ajoelha, curva a cabeça e conversa com Deus,

pela primeira vez na vida. Quarenta minutos depois ele sai da igreja e encontra Luz ao lado de fora:

– Como foi à conversa?

 

– Estranha.

– Com o tempo o senhor se acostuma, certo?

 

– Certo. Confio em você.

 

– Que bom, já está pronto para nosso próximo destino.

 

Alex já confia tanto na menina que, nem sequer a pergunta

para onde estão indo, apenas segue suas instruções. Mais uma vez, os dois no carro, ele sente que a liberdade está cada vez mais próxima, e que todo o sofrimento está perto de acabar. Mexendo nas coisas de Alex, Luz encontra uma foto dele ao lado de Pedro e Ricardo. Com receio, ela pergunta:

– São eles senhor?

 

– Sim, eram eles.

Responde Alex, com uma voz triste, expressando a profunda dor que ainda estava presente em seu coração.

 

– Não se refira a eles no passado, é um erro pensar assim.

– Mas eles morreram.

 

Isso não quer dizer que tenham deixado de existir, a morte é só mais uma etapa que todos nós vamos passar.

 
 

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  – Só que eu adiantei essa etapa para um deles, acho que para o
  – Só que eu adiantei essa etapa para um deles, acho que para o
 

Só que eu adiantei essa etapa para um deles, acho que

para o outro também, meio que indiretamente. – Já parou para pensar que se o senhor não tivesse ido à festa seu amigo podia ter morrido da mesma forma? A essa altura dos acontecimentos, ele nem questiona

como a menina sabe da festa, e do que aconteceu lá. Então a responde:

– Ele estaria vivo, eu o dopei e ele morreu.

– Como aconteceu?

 

– Ele capotou com o carro, por minha culpa.

 

Como pode ter certeza que ele não iria capotar com o carro se não fosse o senhor?

– Ele não estaria dopado se não fosse eu!

 

– E como sabe que ele capotou o carro por estar

 

dopado?

– É o mais provável.

 

– O senhor sofre por algo que nem sabe se realmente

 

fez, e que se fez, não foi por maldade. Cada minuto ao lado de Luz faz com que Alex se sinta menos cruel. É como se a menina tivesse o poder de acalmar todo aquele tumulto de emoções que o rapaz carregava consigo desde a morte dos amigos. Ele, que se mostra um homem não tão cético como antes, passa a conversar com Deus todas as vezes que se sente perdido. Com o tempo saberá enxergar as respostas de Deus para as suas questões. Enquanto isso, ainda a caminho de algum lugar, Alex se recorda de Laura. A

 

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  curiosidade toma conta do homem, que se pergunta se a mulher o perdoou. –
  curiosidade toma conta do homem, que se pergunta se a mulher o perdoou. –
 

curiosidade toma conta do homem, que se pergunta se a mulher o perdoou.

– Luz?

– Diga, senhor!

– Você perdoaria alguém que te fez muito mal?

 

Se este alguém me pedisse perdão, sendo o pedido de coração, o perdoaria.

Assim, tão fácil?

– O perdão não é algo fácil, mas é necessário. Aquele que não perdoa está destinado ao sofrimento.

 

Acho que foi isso que eu fiz comigo durante todos

esses anos, não tive coragem de pedir perdão à Laura por medo de que ela aceitasse. No fundo, eu queria me castigar

por estar vivo, por pode ir à praia, passear, ser feliz! Fazer tudo que o Ricardo não podia mais fazer, nem o Pedro.

O senhor está começando a entender o propósito de

tudo.

– O que isso significa?

 

– Que logo não precisará mais de mim.

– Não quero que você vá.

Tenho que ir alguma hora, mas eu volto, eu sempre voltarei caso o senhor precise.

 

– Você é um anjo.

– Não sei.

– Não foi uma pergunta, você é um anjo.

 

– Então onde estão as minhas asas?

 

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  – Disse-me que para estar preso não precisamos de grades. Então eu acho que
  – Disse-me que para estar preso não precisamos de grades. Então eu acho que
 

Disse-me que para estar preso não precisamos de

grades. Então eu acho que nem todos os anjos precisam de asas.

– Então eu posso ser um anjo?

 

– O que é um anjo, Luz?

 

São seres bondosos, que ajudam as pessoas e as guiam para longe do sofrimento.

 

– Assim como você faz comigo?

 

– Eu acho que sim.

 

Era nítida a mudança no comportamento de Alex, que se tornava um homem sábio e decidido. De alguma forma, sentia em seu coração que estava no caminho certo para findar todo sofrimento vivido. Estava próxima a hora de

 

enfrentar todos os medos e angústias, já não era mais preciso sofrer. Tudo parecia acontecer de forma mágica, ele que se considerava um monstro passou a se questionar o porquê de Deus querer ajudá-lo. Todas as questões que nos deparamos ao decorrer da vida nos causam receio. Nós, que às vezes parecemos programados para buscar respostas para tudo, nos decepcionamos por não as conseguir no momento em que se deseja. Com Alex não era diferente, Luz sabia disso. Por isso, a menina tinha a missão de fazê-lo viver em pouco tempo as emoções que o homem havia abdicado há anos. Ele parecia já ter entendido o que acontecia ali.

– Acho que já entendi o que você quer comigo, Luz.

– O que acha que eu quero?

 
 

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  Quer que eu viva em dias o que eu não pude viver durante esse
  Quer que eu viva em dias o que eu não pude viver durante esse
 

Quer que eu viva em dias o que eu não pude viver durante esse tempo.

– E por que acha isso?

 

– Os lugares aonde me leva, são sempre repletos de

 

emoções, sentimentos inéditos para mim. E a meu ver, é como se tivesse sempre uma pessoa que sabe de tudo, e que me conforta de uma forma quase que materna. – Talvez o senhor esteja vendo o que nunca quis enxergar.

O senhor é livre para ser feliz, assim como todos os outros.

– E como vou fazer isso?

 

– É para isso que eu estou aqui.

 

– Posso te perguntar uma coisa?

– Sim, só não sei se poderei respondê-lo.

– Por que não apareceu antes?

– Pelo simples motivo de não ter me chamado antes.

 

O homem se cala. Então a menina novamente o pede

para parar o carro, haviam chegado a mais um destino.

– E agora, qual é a surpresa da vez?

 

– Acreditaria se eu dissesse que não sei?

– Não.

– O senhor está ficando inteligente! Responde a menina

 

aos risos, causando um clima de diversão. Alex, que parecia já ter se acostumado com os passeios, sabe que precisa entrar sozinho. Diferente das primeiras viagens que fez com a menina, ele entra completamente certo de que está a fazer a melhor escolha. Ele entra no lugar, se surpreende ao ver que se trata de

 

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  um hotel, mas entende o recado. Hora de descansar. No outro dia, a mesma
  um hotel, mas entende o recado. Hora de descansar. No outro dia, a mesma
 

um hotel, mas entende o recado. Hora de descansar. No outro dia, a mesma “rotina”, só que com um destino

diferente. Durante o caminho, Luz pede para que Alex pare o carro, pois já chegaram ao próximo destino. Ao descer, Alex se depara com uma casa. Ele então pergunta à Luz:

– Devo chamar por quem?

 

– Não precisa chamar, apenas entre.

– Não podemos invadir uma casa.

– Não se trata de uma invasão, esta é a minha casa.

 

– Seus pais estão aí?

 

Não, eles viajaram e eu preciso que alguém que cuide de mim. Um pouco confuso, Alex decide entrar mesmo assim.

 

Afinal, ele não abandonaria a menina que tanto lhe ajudou, certo?

– Vou preparar algo para comermos.

 

– Está certo.

Luz senta-se no sofá, enquanto Alex vai até a cozinha

 

da casa. Mesmo achando tudo estranho, ele parece confiar cada vez mais na menina.

– Você gosta de frango?

 

– Acho que sim, meus pais sempre faziam para mim.

 

– Faziam? Não fazem mais?

 

– Desde que viajaram não os vejo.

– E para onde eles foram?

 

– Acho que você já tem a resposta.

 

Alex se cala, está cada vez mais desconfiado de que a

 
 

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  menina era um anjo enviado por Deus, o seu anjo da guarda. Mas até
  menina era um anjo enviado por Deus, o seu anjo da guarda. Mas até
 

menina era um anjo enviado por Deus, o seu anjo da guarda.

Mas até então, a única certeza que o homem tem é que aquela não era uma simples criança.

– Você não viajou com eles, Luz?

 

– Sim, viajei.

– E por que voltou?

Alguém aqui estava precisando da minha ajuda, então eu voltei.

 

Quem te mandou voltar?

Luz se levanta, vai até a cozinha da casa de encontro a Alex. Sorrindo, com uma voz mansa e serena, ela o pergunta:

 

Qual seria a graça da vida se tivéssemos respostas para

tudo?

– Engraçado ouvir isso de você.

 

– Por quê?

– Quando nos conhecemos, você se apresentou dizendo

 

ter todas as respostas.

 

– Não foi isso que eu disse.

– Claro que foi.

– Engana-se, senhor. Eu disse ter todas as respostas para

 

as suas perguntas. O homem volta a preparar o almoço, curioso, perguntando-se qual seria o próximo passo da menina que

se tornara sua guia. Já durante o almoço, ele a pergunta:

– O que você faria no meu lugar?

 

– Como assim senhor?

 

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  Me refiro ao que você faria se tivesse cometido o mesmo erro que eu.
  Me refiro ao que você faria se tivesse cometido o mesmo erro que eu.
 

Me refiro ao que você faria se tivesse cometido o mesmo erro que eu.

Antes de tudo, teria me perdoado. Somente assim eu conseguiria ter paz.

Mas eu não consigo.

Eu sei que não é fácil, mas só o senhor pode fazer isso. Ou melhor, assumir que já se perdoou.

 

Eu acho que essa é a parte mais complicada, ter que

dizer para o mundo que eu posso sim ser feliz, que eu cometi um erro e me arrependo por isso.

O senhor não precisa dizer nada para ninguém, precisa apenas ser feliz.

– Não é só a falta do meu perdão que me prende.

– Então, o que está esperando para ser livre?

– Coragem, preciso de tempo para criar coragem.

– Vinte e cinco anos não foram o suficiente?

– Eu não sei.

– Cuidado, a vida não dura para sempre. Não desperdice